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UnB – Universidade de Brasília

IdA – Instituto de Artes MUS – Departamento de Música


Disciplina: Análise 1
Professora: Flávio Santos Pereira
Aluno: Gabriel do Vale Shimura Matrícula: 15/0126280

Análise do Prelúdio em Dó Maior, BWV 846

Johann Sebastian Bach foi um compositor alemão do período Barroco. Foi essencial no
desenvolvimento técnico dos instrumentos de teclado, tendo composto diversas obras para
eles. Dentre elas estão as duas coleções de 24 prelúdios e fugas denominadas “O Cravo Bem
Temperado”, um de seus ciclos mais conhecidos. “Missa em Si Menor”, “Paixão Segundo
São Matheus” e “A Arte da Fuga” estão entre suas obras mais proeminentes.
“O Cravo Bem Temperado” se destaca não só por sua complexidade técnica e
composicional, como também por sua importância na demonstração das potenciais
modulações e capacidades musicais de diversas tonalidades diferentes, já que tal obra
claramente propõe um sistema de afinação diferente da afinação mesotônica, a mais comum
de sua época. Ainda há muita discussão no que se refere ao temperamento proposto por Bach,
sendo que muitos alegam ser o sistema igualmente temperado, baseando-se nas
enarmonizações que ocorrem no decorrer da obra. A presente análise se dedica ao primeiro
prelúdio do primeiro livro.
A peça começa na tonalidade de Dó Maior, o que pode ser comprovado por sua afirmação
nos quatro primeiros compassos, onde ocorre uma pequena progressão que caminha da
tônica, dó maior, passa por sua dominante e volta à tônica. O motivo de acorde arpejado que
será repetido por toda a extensão da obra, salvo nos compassos finais, também é apresentado.
Duas possibilidades de articulação são perceptíveis em um primeiro momento, na primeira
articula-se de dois em dois tempos, ou seja, separando os dois primeiros tempos dos dois
últimos; já na segunda, articula-se cada linha ascendente na mão direita, fazendo ligações de
três em três notas e gerando um pequeno deslocamento de tempo.
No quinto compasso há a utilização de um acorde pivô, que age tanto como o sexto grau na
primeira inversão de Dó Maior como o segundo grau na primeira inversão de Sol Maior, o
que marca o início de uma caminhada até o tom vizinho de Sol Maior. Tal mudança passa a
ser perceptível no compasso seguinte, onde há a primeira introdução de um acidente, o fá
sustenido. Nos compassos 10 e 11 a mudança é consolidada, quando ocorre uma cadência
perfeita da dominante ré maior com sétima para a nova tônica, sol maior.
Logo após isso, no compasso 12, existe a presença de outro acorde pivô, que em Sol Maior
age como uma dominante secundária na segunda inversão com tônica oculta, e em Dó Maior
como uma dominante do segundo grau na segunda inversão. Começa então um retorno à
tonalidade original, Dó Maior, que é reafirmado nos compassos 18 e 19, com uma cadência
perfeita do sol maior com sétima, a dominante, para dó maior, a tônica original. Aqui
percebe-se que sempre que Bach quer afirmar uma tonalidade, ele opta por utilizar a tônica
sem inversão e sem extensões, assim como ocorreu no compasso 11 com a afirmação do Sol
Maior.
No compasso 20 ocorre a entrada do dó maior com sétima menor, dominante do quarto grau,
que leva para o quarto grau com sétima. O quarto grau com sétima maior novamente inicia
um distanciamento da tonalidade original, onde uma sequência de dominantes secundárias
levam à um pedal na dominante, no compasso 24. O baixo permanece constante na nota sol,
marcando cada tempo forte. Os compassos 25 a 27, dominante com função de primeiro grau
na segunda inversão, dominante com sétima e quarta suspensa, dominante com sétima, se
repetem nos compassos 29 a 31. O compasso 28, que intercala tal repetição pode ser
analisado como uma dominante secundária na terceira inversão, tônica oculta e nona da
dominante.
O baixo desce para o dó no compasso 32, gerando uma dominante com sétima menor do
quarto grau e iniciando um pequeno movimento cadencial de dois compassos. Aqui pela
primeira vez a configuração do arpejo se altera, realizando uma aceleração sutil antes do
acorde final. O pedal continua, mas dessa vez sendo a tônica. Reafirma uma última vez a
tonalidade de Dó Maior, encadeando o quarto grau com sétima com a dominante na segunda
inversão antes de retornar à tônica.
Por mais que tal prelúdio não possua uma forma claramente perceptível, que é um ponto
comum em tal gênero, percebe-se que existem pelo menos três momentos distintos que
ocorrem, respectivamente, na área de Dó Maior; na área de Sol Maior; o retorno para o Dó
Maior, o pedal na dominante e sua cadência final.