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Entre a caridade e a ciência: a medicina da conversão

(Província Jesuítica do Paraguay, séculos XVII e XVIII)

Profª. Drª. Eliane Cristina Deckmann Fleck

Resumo

As Cartas Ânuas da Província Jesuítica do Paraguai da segunda metade do século XVII e da


primeira metade do XVIII apontam não apenas para a adoção de teorias médicas europeias e de
procedimentos ritualísticos cristãos diante das enfermidades e epidemias que assolavam as
populações indígenas da América platina, como, também, para a coleta e experiências com plantas
medicinais nativas e para a observação e adoção de certas práticas curativas adotadas pelos grupos
junto aos quais os missionários jesuítas atuavam. Da sistematização destes conhecimentos
resultaram receituários, tratados de botânica médica e de cirurgia e obras de História Natural, como
os que analisamos neste artigo, e que circularam sob a forma de manuscritos pelas reduções e pelos
colégios jesuítas tanto na América hispânica, quanto na Europa, evidenciando a contribuição da
Companhia de Jesus para a implantação de uma cultura científica na América platina.

À guisa de introdução
Em 1601, o Superior Geral da Companhia de Jesus decidiu reunir as regiões do Rio da Prata,
Tucumã e Chile, numa Província independente, com o nome de “Paraguay”, para a qual foram
definidas diretrizes em 1609 e 1610. O 1º Concílio do Rio da Prata, realizado em Assunção, em
1603, tem, neste contexto, uma importância fundamental, refletindo-se nas duas Instruções do P.
Diego de Torres Bollo (1609 e 1610) aos missionários que atuavam junto aos indígenas Guarani no
Paraguai. O sétimo artigo da 1ª Instrução refere as condições que deveriam ser observadas pelos
jesuítas, no momento da instalação da redução, revelando a preocupação com o controle de doenças
e com o eficiente abastecimento de alimentos, ao recomendar que
No sítio mais apto façam a Redução e a povoação (…) Nisso advertirão primeiro que
tenha água, pescaria, boas terras e que estas não sejam todas alagadiças, nem muito quentes,
mas que tenham bom clima e se apresentem sem mosquitos e isentas de outros incômodos
(…) (Apud RABUSKE, 1978, p. 24).

Na correspondência periódica que os Padres Provinciais enviavam ao Padre Geral da


Companhia de Jesus – as Cartas Ânuas –, os missionários descrevem a miserabilidade da terra,
como enfatizado nesta passagem da Carta do P. Lorenzo, de 6 de junho de 1610, enviada ao P.
Diego de Torres,

(…) tierra miserabilísima falta de todas las cosas. Fuera de raíces de totora y pescado
no ay otro regalo, los mosquitos son sin cuenta, ni de día ni de noche dexan sosegar a un
hombre, mis manos y cara ni las pararon tales que no parecían sino de sarnoso e leproso,
ciertas veces me pasaba con un poco de maçamora de maíz por no haber otra cosa (…).
(C.A. 1610 In: D.H.A., 1927, t. XIX, p. 65)

A Ânua de 1613 retoma esta descrição, informando que “es grande el número de los
enfermos, de los cuales dicen perece la mayor parte por “falta de medicinas”; además no se usa aquí
la carne, ni el vacuno, por lo cual no hay nada de substancioso que pueda fortalecer los enfermos”
(C. A. 1613 In: D.H.A., 1927, t. XIX, p. 294). Na década seguinte, mantém-se a caracterização,
agregando-se as dificuldades em levar ajuda aos enfermos, como nesta passagem que refere
“algunas salidas por el Río arriba para ver si podíamos ayudar algunos enfermos, con mucho
trabajo, caminando de noche por montes arroyos i malos pasos (…)” e que consta da Ânua de 1626-
1627 (C. A. 1626-1627 In: D.H.A., 1927, t. XIX, p. 210)
A situação com que os missionários se confrontariam na Província do Paraguai e que
descreveriam nas Cartas Ânuas1 seria agravada pela falta de médicos e pela inexistência de
Protomedicatos nos Vice-Reinos da América espanhola, o que os levou a “oferecer aos necessitados
os remédios possíveis” tanto durante os séculos XVI e XVII, quanto na primeira metade do século
XVIII.2
As recorrentes menções à “falta de medicinas” nas Ânuas devem ser, contudo, relativizadas,
já que, de acordo com Furlong, antes do contato com os espanhóis e com os missionários, os
Guarani “eran sanísimos y solo conocían una enfermedad, la vejez” (FURLONG, 1962, p. 600), e
contavam com seus médicos e medicamentos extraídos de sementes, raízes e folhas de árvores,
praticavam escarificações, sucções, cauterizações, aplicavam de ungüentos e ventosas e
administravam tratamentos para verminose.3 O padre jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, em sua

1
A despeito do caráter edificante das Ânuas e da estratégia narrativa orientada para a exaltação da resignação diante da
doença e da morte, as descrições que nelas encontramos, tanto sobre os efeitos causados pelas epidemias, quanto sobre
as terapêuticas e as medidas (como a instalação de enfermarias, o isolamento dos doentes ou o adequado enterramento
dos mortos) empregadas pelos missionários, nos permitem identificar não apenas quais as doenças que provocaram a
maior mortalidade entre os indígenas convertidos [ou por converter], mas também os saberes e as práticas curativas das
populações nativas da América platina.
2
De acordo com as Constituições da Companhia de Jesus: “El estudio de Medicina y Leyes, como más remoto de
nuestro Instituto, no se tratará en las Universidades de la Compañía, o a lo menos no tomará Ella por si tal assumpto”.
(LOYOLA apud IPARRAGUIRRE, 1952, p. 471). A permissão para a prática da medicina seria outorgada aos jesuítas
nos seguintes termos: “(...) damos este presente indulto com autoridade apostólica (...) e a cada um da referida
Companhia de Jesus, entendidos em medicina, que há agora e que haverá adiante, para que, com a permissão de seus
Surperiores exerçam livremente o ofício de curar tantos dos enfermos da mesma religião como a estranhos e seculares”
(Apud LEONHARDT, 1937, p. 104).
3
Sabe-se que os indígenas utilizavam ungüentos contra mosquitos e como protetor solar, além de escarificações feitas
com “espinhas de pescados, agujones de palmera o dientes de cuatí, combatendo así la pesadez del cuerpo y el cansacio
obra Conquista Espiritual, de 1639, registrou o uso de ervas medicinais e, também, as práticas
curativas nativas:

Usam os índios muitos remédios e ervas (medicinais), que lá a natureza tem


produzido. A pedra de São Paulo é de ajuda comprovada; são-no também os alhos
esmagados ingeridos o remédio como bebida, a pedra bezoar e outras ervas (medicinais).
Mas mais caseiro é o fogo, queimando-se com uma faca em brasa a parte ferida pulverizada
com enxofre. É conhecido este remédio e, acudindo-se a tempo, gente picada por tais cobras
está fora de perigo. Os fígados da víbora, sendo ingeridos com alimento, usam-nos como
remédio (MONTOYA [1639], 1985, p. 25).

Apesar das menções aos saberes e às práticas curativas indígenas, a “falta de medicinas”,
referida constantemente na correspondência jesuítica relativa ao período de implantação das
reduções, parece ter, no entanto, justificado o emprego – pelos missionários – de uma terapêutica
mágica, baseada na administração dos sacramentos, do licor de São Nicolau, das imagens de santos,
de relíquias e da água benta. Empregada em doenças que abrangiam, desde picadas de cobras, dores
musculares, disenteria, inchaço nos olhos, gripe e garganta inchada, peito inchado, febres, até
reumatismo, surdez, hemorragias, coqueluche, lepra, varíola, sarampo e câncer, seu emprego está
associado, invariavelmente, à depreciação das práticas curativas indígenas, de sua farmacopéia e de
seus praticantes. Revela, ainda, a intenção dos jesuítas de controlarem o processo de cura,
potencializando a conversão dos indígenas com a promessa da vida eterna. Em carta do P. Marcial
de Lorenzana ao Provincial P. Diego de Torres, de 19 de julho de 1610, estes aspectos podem ser
observados:
Esta reducción, a ‘toto genere’ va cada día mejor, y los indios y indias se pasan de
muy buena gana al asiento nuevo. Después de mi vuelta se han animado mucho, y dicen q.
han conocido ya el grande amor que les tengo, va acudiendo mas gente, muestran deseo de
bautismo, no se nos muere nadie en las enfermedades, los que se han baptiçado in «articulo
mortis’ han sanado, tienen gran devoción con los evangelios y dicen que cuando el Pe. les
pone las manos en la cabeza les pone una cura con que ellos sienten q. Los sanan; los q.
tenían dos mujeres las van dejando y hacen otras cosas en que dan muestras de temer a Dios
(Apud PASTELLS, 1912, p. 163).

É plausível afirmar que os missionários soubessem que “o controle proporcionado por tais
ritos mágicos era necessariamente ilusório” e que os amuletos, os encantamentos e a água benta
“não possuíam qualquer virtude sobrenatural intrínseca”, mas que produziam “preciosos efeitos
colaterais”, diminuindo a ansiedade e predispondo o doente à cura pela imaginação e pela fé. Isto
pode ser comprovado em registros nos quais a ênfase dada é a cura por intercessão divina ou pelo
uso de relíquias sagradas, como nesta Carta de 1626: “Un niño estaba muy enfermo vino su Pe. a
rogarme que le aplicase una reliquia de Nro. P. S. Ignacio, que es mucho que en tan breve tiempo le

mismo”, recorrendo, ainda, à “curación ígnea” na cauterização de feridas, e às ventosas e aos anti-helmínticos, os quais
viriam a ser largamente empregados pela população colonial americana (ECHENIQUE; FERREIRA, 1985, p. 252).
conozcan, confiando de alcanzar salud para el hijo por medio de su intercessión; hiçose asi i cobrola
el nino” (C. A. 1626-1627 In: D. H. A., 1927, Tomo XIX, p. 290).
Nas primeiras décadas do século XVII, a enfática condenação do emprego de ervas, resinas
e de bálsamos da farmacopéia indígena, e a insistência no uso de remédios europeus e de práticas
terapêuticas tradicionais (mágicas ou não), impediu a possibilidade de testar procedimentos e
plantas nativas para proporcionar alívio aos doentes, o que pode ser observado no tratamento das
enfermidades dos próprios missionários, como fica claro na Informação sobre a Redução de Nra.
Sra. De la Natividad del Acarayg: “Yo avia mas de mes i medio que lo estaba de tiriçia (...) e el Pe
Claudio con su gran caridad hiço una chozuela con unos cueros (...) i alli cobré alguna mejoria, mas
con las oraziones, las oraziones del Pe., que con otro remedio que no le avia, ni regalo ninguno (...)
(C. A. 1626-1627 In: D. H. A., 1927, Tomo XIX, p. 294).
Para justificar tais procedimentos, os missionários referiam-se a si mesmos como “médicos
no solo de sus cuerpos, pero también de sus almas”, como fica demonstrado nestes registros:
(…) también con los pocos remedios que acá ay procuramos curarlos por que ellos
no tienen medicinas ni hacen remedios sino dexassen morir (In: D. H. A., 1927, Tomo XIX,
p. 88).
(…) el Sor que es Pe de Todos nos de con que poder remediarnos porque es tanta nra
pobreça, que pidiéndome una vieja enferma algo con q. cubrirse no teniendo otra cosa, corté
un pedaço de la frezada y se la envié; también procuramos curarlos porq ellos no tienen
medicina alguna sino dexa se morir (In: D. H. A., 1927, Tomo XIX, p. 134).
(…) pero poco a poco se van desengañando, y viendo con sus ojos los yndios como
los nros les son verdaderos padres dándoles con amor de tales cuanto piden como lo aya e
casa, y siéndoles médicos no solo de sus almas q es lo principal, sino De sus
cuerposayudándoles en todas sus enfermedades y trabajos de noche y de día (In: D. H. A.,
1927,Tomo XIX, p. 24).

A falta de medicinas parece ter sido também contornada através da iniciativa de alguns
missionários, que, por estarem autorizados a atender os enfermos quando constatada a falta de
médico, muitas vezes, dedicaram-se à instalação de enfermarias e a fazer experiências com a
farmacopéia à disposição: “El año pasado dio una enfermedad de catarro de que enfermó casi todo
el pueblo y el padre Juan de Salas les hiço un jarave con que sanaron casi todos aunque algunos
murieron (…) aunque algunos les vino tanta abundancia de flemas que no las pudo vencer tan debil
medicina y otras que a avido” (In: D. H. A., 1927, Tomo XIX, p. 88).
Segundo Hernández, “misioneros recorrían las casas de los enfermos, así para llevarles los
consuelos espirituales, como para ver si estaban bien asistidos, procurando que no les faltase el
alimento conveniente a su estado y las medicinas posibles y a veces también haciendo de médicos y
enfermeros y aun manejando la lanceta por su mano” (HERNÁNDEZ, 1913, p. 16). Esses aspectos
ficam também evidenciados em registros feitos na Carta Ânua referente ao período de 1635 a 1637
e que informam que o Padre Blas Gutierres “(…) avia aprendido, leido y experimentado
medicamentos, para acudir a los enfermos y necesitados (…) siendo. médico y enfermero (…)”
(C.A. 1635-1637 In: D. H. A., 1929, Tomo XX, p. 472-474). Apesar dos sucessos obtidos com o
uso da “magia eclesiástica” e das “experiências medicinais” feitas por alguns irmãos e padres
jesuítas no tratamento de algumas enfermidades, os missionários “sabiam muito bem suas
limitações e por isso procuravam trazer quanto antes da Europa homens especializados em ciência
médica”. Esta preocupação se materializou na solicitação de envio de médicos, enfermeiros e
boticários às missões, encaminhada ao Padre Geral da Companhia de Jesus, ainda em 1632.
Guillermo Furlong observa que “apesar de não cremos que os primeiros jesuítas entendiam
de medicina e de farmácia, parece que às vezes, tiveram bons efeitos os remédios que
prescreveram”. O autor destaca que Roque González de Santa Cruz e Antonio Ruiz de Montoya
“(…) no eran médicos, ni entendían de medicina, si bien actuaron como curanderos en los primeros
tiempos de la Reducciones” e que o Padre Altamira Santafesino “fue el primero en montar y
organizar en Candelaria, la mas importante de las Reducciones, una Botica que sirviera para todas
ellas” (FURLONG, 1962, p. 604).
Em relação às boticas que foram sendo instaladas nos Colégios e nas Reduções,4 é
ilustrativo o registro feito na Ânua de 1637-1639:
Así trabajan los nuestros incansablemente en provecho de las almas, siendo al
mismo tiempo muy frecuentada la portería por los pobres y hambrientos que hallan
allí alivio en sus sufrimientos materiales. Se les reparte, sean pocos o sean muchos,
alimentos en abundancia; no pocas veces también abrigos para cubrirse. Esto para los
sanos. Para los enfermos empero, hay una botica especial en casa, de donde se
reparte gratis toda clase de medicinas. Estas cosas suceden en casa. Fuera de ella no
se hace menos. Continuamente son llamados los nuestros al campo y a las estancias
(…) para asistir a los enfermos, tanto espiritual como corporalmente. Pues, fuera del
alimento de las almas les suministran medicinas y alimentos convenientes (C. A.,
1637-1639 In: MAEDER, 1984, p. 33).

A Carta Ânua de 1635-1637 refere não só o grau de envolvimento dos indígenas em


atividades orientadas e desenvolvidas pelos missionários nas reduções e nos colégios como também
os seus efeitos, informando que “(…) el personal que vive en el colegio, por atender a los apestados se
contagian a raíz de lo cual fallecen (…)” e que as índias enfermas “por su parte tenían que barrer las
salas (…) limpiar los instrumentos de cirujía (…)” (C. A. 1635 – 1637. In: D. H. A., 1929, Tomo
XX, p. 687). Segundo Furlong, “los jesuítas en sus Reducciones de Guaraníes no tenían hospitales”
(FURLONG, 1962, p. 611), que eram organizados apenas em casos de emergências como aqueles
desencadeados pelas epidemias. Isto fica evidenciado na Carta de 1638, escrita pelo P. Diego de
Boroa:
Acabada la furia de la peste de sarampión, quedaban aún muchos enfermos de
cámaras y como el Padre [Jerónimo Porcel] vio el trabajo pasado que había tenido con los
enfermos, procuró hacerles un hospital donde estuviesen los enfermos acomodados en una

4
Sabe-se que a primeira botica do território do Rio da Prata foi instalada pelos jesuítas, em Córdoba, na terceira década
do século XVII, prevendo o atendimento dos enfermos “con propósitos de caridad” (FURLONG, 1947, p. 63).
casa con sus repartimientos y cama acomodadas, repartiéndoles en algunas personas de
caridad que morasen y cuidasen los enfermos, donde el Padre podía acudirles con facilidad
con todo lo necesario (C. A. 1635-1637. In: D. H. A., 1929, Tomo XX, p. 612).

A Carta do P. Boroa continua fazendo referência aos cuidados que os membros de


Congregações dispensavam aos enfermos, o que parece ter sido uma prática bastante difundida nas
reduções: “Acudían a este hospital los indios de la Congregación de Nuestra Señora a ejercitar su
mucha caridad con los enfermos, a aderezarles las camas; y lo mismo hacían las indias, barriendo
toda la casa, y fregándoles los platos y pucheros en que comían, lavando las alhajas de los que
morían” (FURLONG, 1962, p. 612). Também os Congregantes da Virgem eram encarregados de
manter “el hospital tan limpio y aseado, que causaba devoción ver el consuelo y la alegría con que
les acudían, trayéndoles leña y agua, y de comer, con mucho cuidado, siendo los enfermos a veces
casi doscientos” (FURLONG, 1962, p. 612). Já ao corpo de enfermeiros, os “curuzuyás”, cabia
“enterarse cada mañana si había algún enfermo en su respectivo barrio o cuartel y como andaban los
que ya se sabia que estaban enfermos”. Havendo algum caso grave, “su primer deber era avisar de
ello al Padre para que se le administrara los sacramentos”. O enfermeiro era encarregado do
diagnóstico e de sugerir a medicação, cabendo ao padre autorizar o procedimento que era por ele
administrado “según su saber y poder” e a administração de todos “los sacramentos, el viático y
extrema unción (…)”(FURLONG, 1962, p. 613). Pablo Hernández observa que que “la falta de
médicos, que ni aún en las ciudades de españoles los había sino uno que otro” era suprida “por medio de
los Curuzuyás” que eram “cuatro, seis ú ocho en cada pueblo, y para que pudiesen ejercitar su cargo,
estaban exentos de las tareas comunes, y aun les cultivaban su chacra los otros indios”, para que
pudessem cuidar “de prepararles y llevarles las medicinas convenientes” (HERNÁNDEZ, 1913, p.
291-292).

Da mística das curas à medicina experimental


Em alguns registros os padres admitem que as doenças não decorriam, exclusivamente, da
ação da “divina justiça” diante dos abomináveis pecados cometidos pelos indígenas, e que elas
decorriam da transmigração e das mudanças do clima, sendo, por isso, oportunidade para
experimentalismos, como na passagem em que referem “aplicaron las medicinas del campo de
aquella región, pero sin ningún resultado” (C. A. 1637-1639. In: MAEDER, 1984, p. 88). As
passagens abaixo ilustram não somente o senso de observação prática dos missionários, como a
relação que estabeleceram entre as doenças e as condições de assentamento das populações
indígenas.
(…) tierra pantanosa y llena de lagunas y mosquitos, habiendo padecido por ello
muchas enfermedades (…) (Apud PASTELLS, 1912, p. 180).
De esta peste dicen que es causa el río porque ha crecido supra modum y fuera del
curso natural con dos crecientes, que después que iba baxando ya, a su tiempo, torno a crecer
otro tanto y mas, y ahora esta in summo sin haber abaxado, y así van las enfermedades con el
río. Han se visto en el pescados disformes de grandes, sobreaguados muertos, que dicen
traían la pestilencia con muchas víboras que cogía la corriente. (Apud PASTELLS, 1912, p.
181).
(…) establecieron los Jesuitas en los pueblos de Guaraníes cementerios adecuados
para el entierro de los difuntos en vez de inhumarlos en las iglesias como era costumbre
general, como en no pocas ciudades europeas. Por más amplias y ventiladas que fueran las
iglesias, reconocían lo antihigiénico que esto podría ser (FURLONG, 1962, p. 614).

Os períodos de fome e de epidemias foram especialmente propícios às experimentações e


improvisações. Estas, contudo, apesar de terem obtido algum sucesso, como deixa entrever o
registro feito por Montoya de “um remédio especial para a peste e fome”, “um verdadeiro remédio
para a disenteria”, são percebidas como providencial socorro divino (MONTOYA, [1639] 1985, p.
141). Assim, as Ânuas referentes às primeiras duas décadas do século XVII informam,
especialmente, sobre o uso de dois medicamentos, a “tierra de San Pablo” e o “licor de S. Nicolas”,
empregados, em “mordeduras de víboras” (MONTOYA, [1639] 1985, p.145).5
Há ainda uma referência, na Ânua de 1644, do emprego do óleo da lâmpada do Santíssimo
na cura da peste bubônica:
(...) la cual acabó con muchos niños, y mató hasta los animales del campo. Los
pobres y hambrientos quisieron aprovecharse de esta carne, pero al gustarla muriero Nadie
sabía de dónde venía esta peste, y cómo remediarla. Otra vez se acudió al aceite de la
lámpara del Santísimo, y los enfermos ungieron con ella las apostemas de los atacados de la
peste. Expelieron el veneno y sanaron (C. A. 1664. In: LEONHARDT, 1927, p. 107).

Cabe observar que os missionários, apesar das possíveis explicações científico-racionais


para a eficácia do óleo no tratamento da peste, mantiveram a atribuição mágico-curativa da água
benta, como se percebe neste registro da Ânua de 1645-46, do P. Juan Bautista Ferrufino, que
vincula a cura à fé em Deus: “son muy aficionados al Agua Bendita empleándola como medicina,
dándola a beber a los enfermos, con mucha confianza en Dios” (C. A. 1645-1646. In:
LEONHARDT, 1927, p. 28). Em uma passagem da Ânua de 1663-1666 – decorridos já mais de
cinqüenta anos desde a implantação das reduções – encontramos referência à prática da sucção,
investida de um sentido cristão e, portanto, destituída de qualquer vinculação com a empregada pelo
xamã:
Un indio sufría una enfermedad muy asquerosa, resistiendo sus apostemas a toda
curación. Nuestro Padre, empero, quiso vencer la repugnancia y sanar al enfermo, y por eso
pensaba que lo mejor sería besar las llagas, como si fuesen rosas fragrantes, y chuparle
materia infecta; lo cual demuestra que dominaba ya su naturaleza por una larga costumbre.
Parece que todo esto aprendió de San Javier, de quien era muy devoto, y a quien procuraba
imitar en todo (C. A. 1663-1666 In: LEONHARDT, 1927, p. 92)

Condenada, enquanto prática terapêutica realizada pelo xamã, as Ânuas registram outras
situações nas quais os próprios missionários recorreram à sucção, como “como si tuviera delante

5
O “licor de S. Nicolas” constitui-se de azeite que, associado às relíquias de San Nicolas de Bari, é utilizado como
remédio. Já a “tierra de San Pablo” e a “água de San Ignácio” são simplesmente água e azeite, benzidos com as preces
do ritual católico, acompanhadas da invocação de determinados santos.
sus ojos su tierra prometida; hasta poner su boca en ellas, repetidas veces; y, Dios premió esta
ardiente caridad, restituyendo la salud al brazo ya casi consumido” (C. A., 1668 In: LEONHARDT,
1927, p. 19). Na Ânua de 1663-1666, o P. Provincial Andrés de Rada refere a cura de índios [da
redução de Santa Maria] pela ingestão de água acompanhada de um papel com a inscrição “In
conceptione tua, Virgo immaculata fueste. Ora pro nobis Deum, cujus filium pereriste” conforme
recomendado por um livro, intitulado Opera Parthenical, do Padre Juan Eusébio, que havia sido
recém publicado. (C. A. 1663-1666 In: LEONHARDT, 1927, p. 102). O Provincial informa, ainda,
que após a cura dos apestados todos da redução se mostraram ainda mais cristãos. Buscando
exatamente esse efeito – o crescente “aproveitamento da fé”– os missionários mantiveram o uso de
relíquias, da água benta e do sinal da cruz nas reduções. Não fazem, no entanto, qualquer referência
aos insucessos nas tentativas de curas ou, ainda, menção a recidivas das doenças, o que atestaria que
a terapêutica empregada não havia sido eficaz, levando os indígenas a repeti-las, ou então, a
desacreditá-las. Isto porque quando as doenças cediam ou pareciam ceder, dando a «ilusão da cura»
se estabelecia uma relação entre fé e milagre, entre pecado e perdão, entre conversão e cura,
fundamental para o projeto de conversão e civilização dos missionários jesuítas.
Mas alguns missionários também procuraram contornar os efeitos das epidemias
empregando práticas terapêuticas em consonância com os postulados da medicina européia do
período, como evidenciado na Décima Quarta Carta Ânua relativa aos anos de 1635 a 1637, que nos
informa que havia cerca de quatro mil enfermos na redução e que “Aconsejaron me algunas
personas, sería bueno sangrar a los dolientes, y por no haber otro cirujano, yo en persona comencé a
ejercer este oficio desconocido, abriendo venas día y noche” (In: D. H. A., 1927, Tomo XX, p.
681).
Situação similar ocorreu em 1695, na redução de Nossa Senhora da Fé, atingida por uma
peste de varíola hemorrágica, tendo o Pe. Antônio Sepp ordenado uma sangria geral. A inexistência
de instrumentos sangradores levou-o a encarregar os músicos e os ferreiros de confeccioná-los. O
uso de facas e ossos pontiagudos revelou-se pouco eficiente, o que levou o missionário a afirmar
que “los médicos europeos eran tan impotentes para curar los enfermos de la peste bubônica como los
misioneros en América frente a la viruela”. Segundo ele, seus sintomas poderiam ser aliviados apenas
através de “una rigurosa dieta […] y que consistía en ofrecerles una media libra de carne picada al
medio día y una ración igual a la noche, acompañados de caldos y tortas de mandioca y como
bebida recibían jugo de limón mezclada con agua fresca endulzada con miel.” Sepp nos informa
ainda que para combater a epidemia foram empregados tanto “los remedios caseros como propios de
la farmacopea indígena” (SEPP Apud ECHENIQUE; FERREIRA, 1985, p. 253-254).
Para além do cuidado com a alimentação dos doentes, encontramos também menção ao uso
de determinados medicamentos [componentes químicos] no tratamento da água, com a finalidade
de torná-la potável, como se depreende desta passagem: “Outras vezes passam por lugares tão
áridos que lhes falta água, e a pouca que encontram às vezes, está suja e com mau gosto, tanto que
para torná-la potável aplicam-se remédios” (C. A. 1720-1730 In: LEONHARDT, 1927, p. 132)
Há também menção à transferência de doentes para regiões com clima mais favorável, com
vistas ao restabelecimento da saúde, como se constata no tratamento indicado para o irmão Andrés
de Acosta, acometido de tuberculose e que foi enviado a uma das estâncias da Ordem para
restabelecer sua saúde (C.A. 1730-1735 In: LEONHARDT, 1927, p. 24). E também no necrológio
do Pe. Juan Astudillo, que nos informa que não tendo se recuperado, voltou para o colégio para
buscar “conveniente remedio” (C.A. 1730-35 In: LEONHARDT, 1927, p. 88)
Em outros registros encontramos evidências da consciência dos missionários em relação à
possibilidade de contágio – devido à concentração de pessoas num mesmo ambiente – como no
relato sobre uma epidemia que atingiu o colégio de Córdoba e da qual resultaram 15 mortos, entre
padres e irmãos (C. A. 1714-1720 In: LEONHARDT, 1927, p. 4), que se encontravam tão ocupados
com o serviço com os enfermos, que já não havia lugar para outras ocupações (C. A. 1714-1720 In:
LEONHARDT, 1927, p. 12). As preocupações com o contágio levaram os padres, de acordo com a
Carta Relação de 1747, do P. José Cardiel, a construírem cabanas isoladas da aldeia, sendo que em
algumas foram instalados os índios que apresentavam sintomas e, nas outras, os que já se
encontravam afetados pela varíola, e a tomarem cuidados com os sepultamentos e com a assepsia
dos ambientes coletivos. Este mesmo missionário recomendava que os missionários que viessem à
América deveriam trazer consigo:
1. Una Biblia; 2. Concordancias; (…) 4. El Instituto con Ejercicios y Doctrina y
Reglas (…) 10. Algún libro que trate de cuantas cosas mecánicas son necesarias a un pueblo
y casa para lo general y particular; 11. Otro de Medicina casera. 12. Es muy necesario un
reloj con despertador para los desiertos y pueblos nuevos para el orden religioso, fiel, de dura
y pobre por nuestro estado (…) (CARDIEL Apud FURLONG, 1953, p. 212-213).

O certo é que os jesuítas – dada a sua atuação como médicos e boticários – importaram
livros editados na Europa, incorporando-os as suas bibliotecas, como se pode constatar tanto nas
Cartas Ânuas, quanto nos inventários dos bens da Companhia de Jesus na América após sua
expulsão. São inúmeras as referências nas Ânuas a obras clássicas de Medicina e a Tratados de
Cirurgia, as quais, com certeza, deviam integrar os acervos das bibliotecas de algumas Reduções e
de alguns Colégios jesuíticos, com destaque para a Farmacopea, de Palácios; Opera Médica de
Hotosmani; dois tomos médicos de Carlos Muretano; Opera Médica e Diccionario Medico, de
Ribera; Cirugía, de Robledo; Postemas, de López; Medicina, de Guadalupe; Cirugía, de Vigo;
Farmacopea Matricense; Farmacopea, de Ceci; Cirugía, de Vigo e Opera Médica, de Syderas.
Vale ressaltar que havia um Catálogo de livros que podiam ser vendidos e enviados às chamadas
Indias Ocidentales e no qual constavam obras como Disputaciones de Medicina, de Garcia; De
Corpore humana, de Valverde; Cirugía, de Redondo; De morbo galico, de Duarte Madeira;
Cirugía, de Borbon, bem como o Promptuario, de Remigio e o Promptuario, de Salazar.
Já os conhecimentos obtidos a partir de experimentos, especialmente, sobre o preparo de
medicamentos e a adoção de medidas profiláticas, foram compartilhados através da intensa
correspondência que os missionários mantiveram entre si ou das cópias dos catálogos e receituários
que fizeram circular entre as reduções e os colégios das Províncias Jesuíticas da América
meridional e aqueles instalados na Europa – em especial, com a farmácia do Colégio Romano – e
também no Oriente (ANAGNOSTOU, 2000). Algumas boticas – como a do Colégio San Pablo, de
Lima – transformaram-se, com o passar do tempo, em centro de referência, enviando remédios –
como o bezoar peruano, a ambrosia mexicana e a quina – para estabelecimentos da Companhia de
Jesus no Chile, Paraguai, Argentina, Equador, Panamá e no Velho Mundo, atestando a intensa
circulação de saberes, medicamentos e práticas curativas. O Inventário da botica do Colégio de
Córdoba – realizado em fevereiro de 1768, portanto, logo após a expulsão da Companhia de Jesus
dos territórios de domínio espanhol – parece confirmar esta afirmação, ao relacionar “‘vinos’,
ungüentos, lameadores, aceites, esencias, ‘espíritus’, bálsamos, tinturas y elixires, sal volátil,
emplastos, ‘confecciones’, preparaciones y polvos, píldoras, polvos cordiales, harinas, raíces,
gomas, suecos, flores y aguas”. Ao lado de preparados à base de nitro-ácido e amoníaco, como os
‘vinos’ e de águas, como a rosada, de melissa e de canela, encontravam-se os polvos extraídos da
ipecacuanha, planta medicinal americana. (PAGE; FLACHS, 2010, p. 123).
Por não contestarem a eficácia das plantas e ervas medicinais nativas, mas, sim, as práticas
curativas xamanísticas, as Ânuas, na passagem do século XVII para o XVIII, nos revelam uma
absorção cada vez maior da farmacopéia americana pelos missionários. O irmão Enrique Peschke,
que desempenhava as funções de boticário no Colégio de Córdoba, em carta enviada em 1702,
ressaltou sua admiração pelas “plantas da América”, reconhecendo que eram “diferentes que en
Europa, aún aquellas que en ambas as partes tienen las mismas propiedades (...) por lo que toca a las
internas, son maravillosas” (PESCHKE Apud MUHN, 1951, p. 49). À admiração dos jesuítas pela
flora americana, contudo, se somava certa inquietação, pois estavam conscientes de que o sistema
de classificação e a nomenclatura das plantas a partir de suas qualidades galênicas poderiam resultar
em problemas de aplicação [devido às diferenças], razão pela qual “examinaban las propiedades de
supuestos medicamentos, probándolos uma y outra vez, en diferentes pacientes y enfermedades,
para determinar su utilidad” (DI LISCIA, 2002, p. 34-41). A atuação de irmãos jesuítas como
boticários, enfermeiros e cirurgiões é confirmada pelo historiador Pablo Pastells, segundo o qual os
“enfermeiros estavam encarregados de levar as medicinas ordinárias a cada pueblo, tais como:
ventosas, lancetas, panos para vendar, sal, facas, alho, enxofre, piedra de San Pablo, mel de abelhas
e macas para os enfermos” (PASTELLS, 1912, Tomo I, p. 287).
Dos experimentalismos às Matérias Médicas e obras de História Natural
Ao longo do século XVIII se constatará uma observação cada vez mais racional da natureza
americana pelos missionários, que, sem descuidarem dos propósitos de caridade, irão incorporar e a
sistematizar esse conhecimento e sua aplicação prática nas reduções e nos povoados próximos aos
colégios jesuíticos. Este aspecto, aliás, fica bastante evidente em receituários e tratados médicos e
de botânica escritos por jesuítas, como a Matéria Médica Misionera, tratado de Medicina que foi
escrito na Província Jesuítica do Paraguai pelo irmão jesuíta Pedro Montenegro. A obra tem 458
páginas, além de 148 desenhos de plantas feitos à mão, e conta em seu frontispício com uma
imagem de Nossa Senhora das Dores, padroeira dos doentes. O livro é dedicado à “serenísima
Reyna de los angeles Maria santísima y señora Nra. de las Dolores”, e, em várias passagens do
Prólogo, Montenegro menciona que Deus era o verdadeiro Criador da Medicina, o “Grande
Arquiteto” reconhecido pelos “grandes estudiosos gregos e latinos”. Matéria Médica Misionera foi
influenciada por diversas obras européias do período, em especial, de releituras e comentários sobre
os escritos de Dioscórides, ficando evidente sua admiração por Galeno [“filósofo e príncipe da
Medicina”] e a identificação com as concepções médicas hipocrático-galênicas, ao defender que a
cura consistia “em certa qualidade, certa quantidade e certo modo de aplicação” (MONTENEGRO,
[1710], 1790, Prólogo).
As menções feitas pelo irmão jesuíta Pedro de Montenegro – a Juan de Vigo, Pedro Andrés
Mathiolo, a Andrés de Laguna e a Dioscórides, entre outros autores clássicos, e a aplicação de
alguns de seus pressupostos, especialmente, nos três primeiros capítulos de sua obra Matéria
Médica Misionera, parecem confirmar o acesso e a leitura destas obras médicas de referência pelos
jesuítas em missão na América.
Contamos com uma cópia manuscrita do ano de 1790, que se encontra disponível para
consulta no Acervo do Instituto Anchietano de Pesquisas da Unisinos, e também com a versão de
uma edição argentina, de 1945, disponível na Biblioteca Virtual del Paraguay. Na versão manuscrita
que consultamos no IAP há uma breve anotação feita à mão por Bartolomeu Melià e datada de
1986: “El presente manuscrito parece ser de la época y está escrito por quien no domina la lengua
castellana, y asi podría ser un índio misionero.” Esta observação parece confirmar a hipótese
levantada por Heloísa Gesteira de que estes textos eram copiados [pelos próprios missionários ou,
então, por copistas indígenas], distribuídos e compartilhados pelos inacianos instalados em várias
regiões atendidas pela Companhia de Jesus [daí, trazer os nomes das espécies de plantas em
espanhol, tupi e guarani], conformando uma “rede de troca de experiências e de informações” e um
“processo de cosmopolitização das práticas médicas, que, por sua vez, era acompanhada por um
processo de experimentação, cultivo e disseminação de plantas.” (GESTEIRA, 2006, p. 5).
Pedro de Montenegro nasceu na Galícia, em maio de 1663 e, ainda jovem – provavelmente,
em 1679 –, iniciou seus estudos de medicina no “Hospital General de Madrid”, tendo ingressado na
Companhia de Jesus em abril de 1691. No Catálogo da Província do ano de 1703, consta que o
irmão Montenegro “había hecho los últimos votos el 25 de abril de 1703, que se allaba en las
Misiones del Rio Paraná, que sus fuerzas físicas eran ‘débiles’ y su ofício era el de cirujano
(Chirurgus)” (FURLONG, 1947, p. 67). Considerando a formação que Montenegro teve como
aprendiz no Hospital General de Madrid e os procedimentos terapêuticos empregados pelos
médicos e cirurgiões à época – que previam sangrias, ingestão de ervas medicinais, fricções,
aplicação de ventosas e emplastros com os mais variados ingredientes e cataplasmas, bem como
amputações e correções de desvios ósseos – e o ofício a ele atribuído no Catálogo – o de cirurgião –
, pode-se inferir quais as atividades que viria a desempenhar nas missões da Companhia de Jesus na
América platina.
Acreditamos que Montenegro pôde, efetivamente, exercer tanto as funções de boticário, de
enfermeiro e de cirurgião, pois adquiriu junto ao Hospital Geral de Madri “ampla prática tanto
médica como cirúrgica e em farmacopeia hispânica”. Além disso, de acordo com Martin e Valverde
(1985, p. 355) “foi nomeado cirurgião dos pueblos de San Borja, San Miguel de la Candelaria y del
Ytapuã en 1705” (PASTELLS, 1933, Tomo V, p. 61-64).
Montenegro, no entanto, atribui à intervenção divina a existência e as qualidades de plantas
encontradas nas regiões que circundavam as reduções, como se constata na menção que faz ao
“araçay”, empregado – com êxito – nas “camaras de sangre”, e que, segundo ele, “existia nestas
terras tão pobres de médicos e de boticas por intervenção divina” (MONTENEGRO, [1710], 1790,
p. 44). Assim, tanto a natureza, quanto os conhecimentos indígenas sobre ela são percebidos como
intervenção do Criador – que agia de diferentes maneiras para garantir sua utilização “como
sustento y medicina”, ou, então, como no caso da erva mate, “através dos ensinamentos de Santo
Thomé á los Indios” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 4).
Em outros momentos, a justificativa dada pelo jesuíta para a aceitação dos saberes
indígenas estava ligada à condição e à conduta do informante. Ao falar sobre a planta altocigo,
Montenegro ressalta várias de suas qualidades – provenientes de seu amargor – e sua aplicação em
doenças nos olhos decorrentes de fraquezas no cérebro, acrescentando que havia tomado contato
com esta planta através de um índio cristão muito qualificado, chamado Clemente, “enfermeiro ou
medico, o mais perito que encontrei nestas missões” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 252). Na
referência que faz às qualidades da raiz do “Caápari guazú”, empregada com sucesso nas
epidemias de “camaras de sangre”, Montenegro afirma que, apesar de nunca ter feito experiências
com a planta, dava algum crédito à informação por ter sido dada por “um capaz e bom cristão
chamado Clemente” (MONTENEGRO, [1710] 1945, p. 314).
A confiança depositada nas informações dadas pelo “capaz¸ bom cristão e o mais perito” –
o informante indígena Clemente – parece apontar para a associação que Montenegro faz entre
conversão e conhecimento, como se pode constatar em outra passagem na qual, ao descrever os
usos possíveis da planta “yacaré”, ele não apenas informa que os indígenas costumeiramente a
empregavam para neutralizar venenos de diversos animais, como também que havia tomado
conhecimento de suas virtudes por intermédio de “certo índio velho, o mais experiente no
conhecimento das ervas e de sua aplicação que encontrei nas missões” (MONTENEGRO, [1710],
1945, p. 118).
As inúmeras referências feitas aos conhecimentos dos nativos, sobretudo em relação à
aplicação de plantas medicinais no tratamento de determinados sintomas ou doenças, acabam por
revelar o reconhecimento, tanto da farmacopeia americana, quanto da atuação dos “médicos índios”
pelo irmão jesuíta. Isto fica evidenciado na passagem, em que, ao descrever as propriedades do
“bejuco”, Montenegro ressalta ter recebido informações de “vários médicos Índios, os mais
capazes” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 209), o que aponta para o relevante papel que os
informantes indígenas tiveram na composição da Matéria Médica Misionera. Na descrição que faz
de algumas das plantas, Montenegro chega, inclusive, a informar que muitas delas podiam ser
encontradas em hortas e chácaras dos índios, o que sugere a continuidade de seu emprego como
recurso terapêutico entre os indígenas nas reduções jesuíticas.6
A identificação das plantas em guarani – e também em tupi – parece atestar a importância
que Montenegro dava ao conhecimento que os indígenas tinham sobre a localização e sobre as
propriedades curativas das plantas nativas, bem como a sua preocupação em garantir que os leitores
da Matéria Médica Misionera – padres que se encontravam em outras reduções, colégios ou
residências jesuíticas – pudessem contar com a ajuda de indígenas – informantes ou enfermeiros –
para sua utilização como remédio em determinadas situações.
Além disso, é preciso considerar que, apesar do relativo isolamento e das longas distâncias,
padres, indígenas e informações circulavam entre as diferentes regiões da América onde a
Companhia de Jesus atuava, como se depreende desta passagem em que Montenegro refere os usos
da “copayba” pelos índios Tupis ou, então, na referência feita ao uso da “Macaguá isipo” no
tratamento de mordidas de víboras que, segundo Montenegro, lhe havia sido ensinado por um índio
Tupi instalado no povoado de San Borja e que havia fugido de San Gabriel. (MONTENEGRO,
[1710], 1945, p. 101).

6
Apesar de as propriedades e usos medicinais de algumas das plantas referidas por Montenegro não terem sido ainda
comprovados cientificamente, constatamos que as “virtudes” e os modos de preparo descritos pelo irmão jesuíta no
início do século XVIII se mantêm, podendo ser observados na atualidade, tanto por seu emprego entre as populações
tradicionais, quanto pelas referências feitas a elas na literatura científica e na farmacologia.
Também a engenhosidade indígena foi registrada por Montenegro, como se pode constatar
na descrição que faz da aplicação da planta “vivora de Tarija”. De acordo com o irmão jesuíta,
inicialmente, suas propriedades eram conhecidas apenas por um espanhol. O segredo, no entanto,
acabou sendo revelado por um indígena – um caridoso cristão, segundo Montenegro – que, muito
perspicaz, observou-o – à distância – colher determinada erva após ser picado por uma cobra.
Montenegro registra, também, as incursões que fazia – acompanhado de alguns indígenas – em
busca de determinadas plantas que, por serem provenientes do Oriente, eram tidas como raras, tanto
nos herbários, quanto nas boticas europeias, como o “verdadero esquinanto”.
Como podemos constatar, mesmo tratando-se de um tratado médico, a Matéria Médica
Misionera parece comprovar não apenas a circulação de medicamentos e conhecimentos entre os
jesuítas – através das cópias de tratados e receituários e da intensa correspondência que entre si
mantiveram – como também a interação de indígenas e missionários, como evidenciado no relato
feito pelo irmão jesuíta Montenegro – que, depois de muito procurar, encontrará o “verdadero
esquinanto” com a ajuda de um indígena – e que aponta para as trocas culturais entre saberes e
práticas de cura.
A menos documentada das três atividades que Montenegro desempenhou é, sem dúvida, a
de “cirujano (chirurgus)”. Considerando a formação que Montenegro teve como aprendiz no
Hospital General de Madrid e os procedimentos terapêuticos empregados pelos médicos e
cirurgiões à época – que previam sangrias, ingestão de ervas medicinais, fricções, aplicação de
ventosas e emplastros com os mais variados ingredientes e cataplasmas, bem como amputações e
correções de desvios ósseos – e o ofício a ele atribuído no Catálogo – o de cirurgião –, pode-se
inferir quais as atividades que viria a desempenhar nas missões da Companhia de Jesus na América.
Sabe-se que Montenegro participou dos conflitos decorrentes da disputa pela Colônia de
Sacramento entre portugueses e espanhóis, e que “en 1705 volvemos a tener noticias de él; esta vez
en un certificado extendido por el capitán de coraceros Andrés Gómez de la Quintana, en ocasión
del sitio de la Colonia del Sacramento, para cuya empresa los jesuitas armaron y condujeron un
ejército de 4.000 indios guaraníes, donde venía, ‘como cirujano para curar heridos’, junto con otros
religiosos, el hermano Montenegro” (BAUZÁ, 1895, Tomo I, p. 551).7

7
Esta mesma informação pode ser encontrada na Notícia preliminar de Raúl Quintana à Matéria Médica Misionera.
Buenos Aires. Imprenta de la Biblioteca Nacional, 1945. Ver versão digital disponível na Biblioteca Virtual del
Paraguay. Também o historiador jesuíta Charlevoix refere a participação: “O certificado expedido em 15 de junho de
1705, por Baltasar García Ros, destaca os serviços prestados pelos indígenas Diego Gaivipoy, Bonifacio Capi, Juan
Mañani e Pedro Mbacapi, e que “al lado de ellos [estavam] los hermanos Pedro de Montenegro, Joaquín de Zubeldía y
Josef Brasaneli ‘sus cirujanos’” (CHARLEVOIX, 1913, p. 377).
Além deste documento oficial,8 que refere a sua participação como cirurgião junto a uma
milícia de soldados indígenas, algumas informações, apesar de mínimas, podem ser encontradas na
Matéria Médica Misionera, de 1710, como se pode constatar nesta passagem em que Montenegro
refere o sucesso de um preparado à base da “raiz de orozús”: “Fiz com mais de quatro a
experiência, que atravessados o peito de lanças e balas,9 nas guerras em que me encontrei, que
ninguém pensava que estes pudessem viver mais do que 24 horas” (MONTENEGRO, [1710], 1945,
p. 176) Ou, então, nesta passagem na qual refere que combateu as “camaras de contagio” –
diarreias sanguinolentas causadas pelas “muitas chuvas e pouco abrigo, e por não ter mais do que
carne fraca para se alimentar” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 110) – que haviam atingido os
soldados com “arrayán” e “arazá”, plantas que nasciam em “abundância sobre a Colônia de San
Gabriel” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 37).10
Também nas reduções, Montenegro parece ter convivido com situações que requeriam mais
do que os conhecimentos próprios de um enfermeiro ou boticário, como esta em que um indígena
teve “uma grave contusão, ao cair de uma goiabeira sobre pedras, ficando quase morto”,11 no
entanto, ele afirma ter recorrido a um “bálsamo de Yuquírípeí”, que “diminuiu as dores e eliminou a
inflamação em 24 horas” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 244).12 Em outra passagem,
Montenegro ressalta os benefícios da utilização do “ungüento de Guní-elemí” – já referido por

8
ARCHIVO GENERAL ADMINISTRATIVO (1705-1750). CERTIFICADO de Andrés Gómez de la Quintana: sobre
los servicios prestados por los indios de las reducciones en el desalojo de los protugueses de la colonia. 1705,
noviembre 29. Certificados. Caja 1, carpeta 1 bis (fls:2). Archivo General de la Nación del Uruguai.
9
Ferimentos como os registrados por Montenegro eram, de fato, inevitáveis, já que as tropas “venían muy bien
armadas”, sendo que os indígenas seguiram para o conflito “con diferentes bocas de fuego con sus frascos, y bolsas bien
providos de pólvora y balas; y otros con lanzas, dardos, arcos con mucha cantidad de flechas, macanas y piedras, armas
naturales suyas.” Ver ARCHIVO GENERAL ADMINISTRATIVO (1705-1750). CERTIFICADO de Andrés Gómez de
la Quintana: sobre los servicios prestados por los indios de las reducciones en el desalojo de los portugueses de la
colonia. 1705, noviembre 29. Certificados. Caja 1, carpeta 1 bis (fl. 2). Archivo General de la Nación del Uruguai.
10
Montenegro se refere à pitanga e ao guabiju como arrayán blanco e arrayán negro, respectivamente. Ambas as plantas
eram indicadas para o tratamento de distúrbios estomacais e intestinais, por suas propriedades antidisentérica e
antidiarréica. Também a espécie Psidium L., denominada como guayabas ou arazá pelo irmão jesuíta, é indicada para os
males do estômago e intestinos.
11
Vale ressaltar que na Europa, e mesmo na América, cabia aos cirurgiões-barbeiros, que não possuíam formação nas
Academias, a realização de práticas cirúrgicas – que previam o tratamento de fraturas e amputações – e sangrias. De
qualquer modo, o tratamento de fraturas ósseas na América portuguesa previa a indispensável manipulação e emprego
de fármacos, aos quais se somavam emplastros, ataduras de panos, talas e muita aguardente para lavar as lesões e
imobilizar o ferido. (ABREU, 2007; FAUSTO et alli, 2013; FURTADO, 2002, 2005). Considerando que os jesuítas
enfermeiros contavam com “las medicinas ordinárias” das boticas instaladas nas reduções, tais como “ventosas,
lancetas, panos para hilar y vendar, sal, cuchillos para foguear, azufre, ajos, piedra de San Pablo, miel de abejas” é,
muito provável, que acabassem desempenhando as funções próprias dos cirurgiões-barbeiros. No caso de Montenegro,
consideramos plausível que tanto o conhecimento prévio na Espanha, quanto a experiência adquirida no cuidado de
ferimentos como os resultantes de quedas ou de conflitos bélicos – e que caberiam a estes profissionais das artes de
curar – tenham sido fundamentais para a concepção e a elaboração do Libro de Cirugía, cujo sumário pode ser
consultado na obra de Garzón Maceda (1916).
12
Também algumas reduções contaram com boticas que contavam com “el azufre, el alumbre, el sal, el tabaco, la
pimienta, la enjuidicia de gallina, la graxa de tigre, buey y de carnero y pólvora. Fuera de estos simples tenían siempre
prontos tres calabazas llenas de unguentos compuestas una de ellas con un verde hecho con sebo y veinte hierbas
distintas y las cortezas de arboles famosas por sus virtudes medicinales” ARCHIVO del Dr. R. SCHIAFFINO.
Originales de su obra Historia de la Medicina en el Uruguay. Tomo II, cap. II (La Colonia de Sacramento). Caja 245,
carpeta 21. Archivo General de la Nación del Uruguay.
Andres Alcazar, médico, professor em Salamanca, que em um de seus livros de cirurgia, de 1582,
aborda o tratamento de feridas na cabeça –, afirmando que este ungüento é recomendado “em
feridas penetrantes do peito e do ventre, porque extrai matérias e sangue das feridas e o calor da
chaga”, podendo ser também empregado nas “graves contorções ósseas (…)” (MONTENEGRO,
[1710], 1945, p. 237).13
Estes registros, que constam na Matéria Médica Misionera, reforçam a opinião de alguns
historiadores de que o irmão jesuíta tenha sido também o autor do Libro de Cirugía, de 1725. O
Libro de Cirugía foi “dado a conocer en 1916, por el Dr. Felix Garzón Maceda, en su obra La
medicina en Córdoba. Segundo ele, se “trata de un volumen con más de 600 páginas, escrito con
letra pequeña y apretada, intercalando muchos dibujos del instrumental quirúrgico usado para
diversas intervenciones. Incluye un apéndice, escrito con letra diferente y quizá por eso de otro
autor o colaborador de la obra figurando en ella el año de edición, 1725” (ACERBI CREMADES,
1999, p. 19). Este aspecto também foi destacado por Guillermo Furlong, que informa que “en su
misma portada” encontra-se a inscrição: “escrito en estas Doctrinas de la Compañía de Jesús, Año
de 1725” (FURLONG, 1944, p. 54).
Posicionando-se em relação à polêmica quanto à possibilidade de o Libro de Cirugía ter sido
escrito por um frei franciscano – de nome Pacheco –, o historiador jesuíta Guillermo Furlong (1947,
p. 74) afirmou que “Montenegro es el indiscutido autor de la tan zarandeada Matéria Médica
Misionera pero, a nuestro parecer, es el igualmente el autor del Libro de Cirugía que, en 1916, dio a
conocer el doctor Félix Garzón Maceda en magna y eruditísima historia de la Medicina en
Córdoba”.14 O texto do Prólogo da obra evidencia que seu autor recorreu a “autores clásicos y que
son doctos para la Medicina” e que seu maior propósito era o “de reunir en un Cuerpo, lo que no he
podido hallar en libro alguno, cuanto es preciso teniendo que caminar continuamente y por diversas
partes; no podiendo llevar muchos libros que me hallaba falto” (MONTENEGRO Apud ACERBI
CREMADES, 1999, p. 19). O Libro de Cirugía, segundo Garzón Maceda, possui nove capítulos:
“1 Capítulo: Dispensário Médico, conteniendo diferentes fórmulas magistrales de
Medicamentos, para ser administrados por via oral o em aplicaciones externas; 2 Capítulo:
Anatomía del cuerpo humano; 3 Capítulo: El tratado de sangrar; 4 Capítulo: enfermedades
de la cabeza; 5 Capítulo: Enfermedades del pecho; 6 Capítulo: Enfermedades de la cavidad
abdominal; 7 Capítulo: Enfermedades de las Mujeres; 8 Capítulo: Tratado de las Fiebres; 9
Capítulo: Tratado sobre el pulso: orina y crisis. Algunos tratamientos quirúrgicos; medidas

13
Dentre as espécies nativas produtoras de óleos essenciais terapêuticos, que compunham os bálsamos empregados no
tratamento de lesões externos indicados por Montenegro, estava a cupay (Copaifera sp.) ou copaíba. Na América
portuguesa setecentista, os emplastros utilizados na regeneração de ossos fraturados eram feitos também
primordialmente à base de copaíba, embaúba e terebintina. Já para doenças ósseas, causadas por fraturas, o físico Jean
Vigier, autor de “Thesoro Apollineo, Galenico, Chimico, Chirugico, Pharmaceutico”, de 1714, recomendava que
fossem administrados remédios de duas classes em caso de fóssea: os ácidos (espírito de sal, espírito de mel, óleo
cáustico de antimônio, óleo de vitríolo) e os alcalinos poderosos (eufórbio, óleo de papel, alcanfor sem ácidos e o
cáustico atual). Ver mais em FAUSTO et al., 2013.
14
Trata-se de GARZÓN MACEDA, F. La Medicina en Córdoba. Apuntes para su Historia. Tomos I- II- III. Buenos
Aires: Talleres Gráficos Rodrígues Giles, 1916. (Edição Parcial do Libro de Cirugia).
para curar el ‘morbo gálico’ y el Escorbuto. Se Cierra el Tratado de los Pronósticos con
tablas que muestan la complexión y aspecto de los siete planetas y los doce signos celestes,
entre los cuales está la luna y los dias más convenientes para evacuar los humores, por medio
de las sangrias o purgantes. (…) Es lo más completo que ha circulado y lo de mayor mérito
que puede hallarse entre los códices médicos coloniales que han llegado hasta nosotros (…)”
(GARZÓN MACEDA In: ACERBI CREMADES, 1999, p. 19).

Cabe ressaltar que o manuscrito Tratado de Cirugía se mantém inédito até o presente
momento, não tendo sido ainda publicado e divulgado a um público maior de pesquisadores.15
Também o Paraguay Natural Ilustrado,16 obra escrita pelo padre jesuíta José Sánchez Labrador, em
1771-1776, e que encontra-se sob a guarda do Arquivo Romano da Sociedade de Jesus (ARSI), em
Roma, se encontra ainda, em grande medida, inédito.
José Sánchez Labrador nasceu em La Guardia, na província de Toledo, no dia 19 de
setembro de 1717 [ou 1714] e morreu em Ravena, em 10 de outubro de 1798. Ingressou na
Companhia de Jesus em 5 de outubro de 1731, de acordo com Ruiz Moreno (1948), ou em 19 de
setembro de 1732, segundo Sainz Ollero (1989), tendo cursado Gramática e Humanidades. Iniciou
seus estudos de Filosofia no Noviciado de San Luis de Sevilha, interrompendo-os para viajar ao Rio
da Prata em 1734, acompanhando o Padre Antonio Machoni. De 1734 a 1739, estudou Filosofia e
Teologia na Universidade de Córdoba, concluindo sua formação no verão de 1739. De acordo com
seus biógrafos, entre os anos de 1741 e 1746, atuou como professor na mesma cidade, dedicando- se,
concomitantemente, aos estudos de História Natural.
Assim, como muitos outros padres e irmãos jesuítas que o precederam nas terras de missão
americanas, Sánchez Labrador não se dedicou, exclusivamente, à conversão dos indígenas, mas
também ao estudo da fauna e da flora americana que observou nas diversas regiões da Província
Jesuítica do Paraguai em que atuou como missionário. De acordo com alguns de seus biógrafos,
entre 1747 e 1757, o padre jesuíta atuou junto às reduções de San Francisco Xavier, Santa Maria la
Mayor, La Cruz, Santo Thomé e San José.
A partir de 1757, passou a atuar em Apóstoles (Santos Apóstolos ou Apóstolos São Pedro e
São Pablo), tendo como companheiros os padres Lorenzo Ovando e Segismundo Asperger, este

15
A obra Paraguay Natural Ilustrado já mereceu alguns estudos, todos eles realizados a partir da consulta à fonte
manuscrita no ARSI, tais como os de FURLONG, Guillermo. Naturalistas Argentinos durante la dominacion
Hispanica. Buenos Aires: Editorial Huarpes, 1948. (Cultura Colonial Argentina, v. 8); de MORENO, Aníbal Ruiz. La
Medicina en “el Paraguay Natural” (1771-1776) del P. José Sanchez Labrador S. J.: Exposición comentada del texto
original. Tucuman: Universidad Nacional de Tucuman, 1948, e o de SAINZ OLLERO, Héctor; CARDONA, Francisco
Suárez; ONTAÑÓN, Miguel Vázquez de Castro. José Sánchez Labrador y los naturalistas jesuitas del Río de la Plata.
Madrid: Mopu, 1989. Segundo Arthur Barcellos, Sánchez Labrador “realizou um dos mais amplos trabalhos sobre a
natureza, a geografia e as sociedades da região platina colonial. (...) Ainda permanecem dúvidas sobre a forma como
Sánchez Labrador redigiu tão vasta obra. Ollero acredita que [ele] teria conseguido levar muitos apontamentos feitos na
América. Mesmo que o tivesse feito, o mais provável é que tenha sido obrigado a escrever a maior parte da obra de
memória” (BARCELOS, Arthur. O Mergulho no Seculum. Porto Alegre: Editora Animal, 2013, p. 92-93).
16
Trata-se de SÁNCHEZ LABRADOR, José. Paraguay Natural. Ilustrado. Noticias del pais, con la explicación de
phenomenos physicos generales y particulares: usos útiles, que de sus producciones pueden hacer varias artes.
Ravenna, 1771-1776. (manuscrito)
último, reconhecido por sua atuação como médico e boticário. Sabe-se que, dois anos depois,
lecionou Teologia no Colégio de Assunção, e que no ano seguinte (1760), missionou entre índios
Mbayás, Guanás e Guaranis, que, mais tarde, formariam a redução de Nuestra Señora de Belén.17
Em 14 de agosto de 1767, logo após seu regresso de uma viagem às missões de índios
Chiquitos, Sánchez Labrador foi informado do decreto da expulsão dos jesuítas da Espanha e de
suas colônias. Em 1768, chegou à Itália, se estabelecendo em Ravena, onde foi Superior de uma das
casas que a Companhia de Jesus possuía na cidade. Manteve-se neste desterro por 30 anos, período
durante o qual se dedicou a escrever, sendo que entre suas principais obras estão Paraguay Católico,
publicado em 1910, Paraguay Cultivado e Paraguay Natural Ilustrado.
Paraguay Natural Ilustrado se subdivide em quatro tomos, nos quais, além das percepções
sobre a natureza americana, encontramos tanto informações relativas às teorias que norteavam a
medicina acadêmica europeia, quanto aos saberes e as práticas curativas adotadas pelas populações
indígenas das regiões da vasta Província Jesuítica do Paraguai. Na abertura do Tomo de Botânica,
ele afirma:
“no se trata qui de dar una Notícia ayuna, y enxuta de las Plantas del Paraguay, sino,
en quanto se há podido, formar una Botanica de las que produce este País, considerado hasta
ahora con casi, ningun cuidado, e empeno (...) Muchos auctores restringen la Botanica à solo
el conocimiento de las Classes, Generos, y Especies de las Plantas; à su exterior forma, y la
descripción de todas sus partes. Estoy de acuerdo, que su objeto comprehenda todo el Reyno
de los vegetables, em todo sus estados, en todos sus usos, y em todos sus respectos”
(LABRADOR, 1772, Tomo II, Introdução, f. num. I).

Cada planta descrita por Labrador está precedida por descrições morfológicas e ecológicas,
seguidas por informações sobre sua utilidade, além do seu método de obtenção e cultivo. Ao longo
deste Tomo, o jesuíta apresenta uma série de advertências, objetivando o êxito na busca e no
emprego de determinado vegetal. Dentre as plantas apresentadas, se encontra o “cupay”, nome
vernáculo atribuído a diversas espécies nativas, produtoras de óleos essenciais terapêuticos, que
foram empregadas nas reduções jesuíticas na preparação de diversos bálsamos, úteis no tratamento
tanto de lesões externas, quanto da varíola.
Para que se tenha uma idéia das potencialidades deste manuscrito, destaco, primeiramente, o
Primeiro Livro da Terceira Parte da obra – dedicada aos Mamíferos –, no qual encontramos o Livro
Animais Quadrúpedes. O sétimo capítulo trata, especificamente, das Pedras Bezoares e de suas
virtudes terapêuticas, na medida em que aparecem associados aos animais ruminantes. Já no

17
De acordo com seus biógrafos, entre 1747 e 1757, o padre jesuíta atuou junto às reduções de Yapeyu, Trinidad, Jesús,
Loreto, San Ignacio Mini, San Ignacio Guazu, San Cosme y San Damián e San Lorenzo, convivendo, assim, com
indígenas Guaranis, Zamucos, Chiquitos, Mbayás e Guaicurús. A partir de 1757, passou a atuar em Apóstoles (Santos
Apóstolos ou Apóstolos São Pedro e São Pablo), tendo como companheiros os padres Lorenzo Ovando e Segismundo
Asperger, este último, reconhecido por sua atuação como médico e boticário.
Terceiro Livro da Quarta Parte da obra, o autor trata d “Os Insetos”, sendo que no último capítulo,
aborda a utilidade dos insetos na Medicina, dentre os quais se encontram os escorpiões, as aranhas,
os percevejos, os besouros, os grilos, as formigas, as moscas, os piolhos e as sanguessugas.
Interessante observar que na documentação jesuítica são recorrentes as menções a acidentes com
animais venenosos, como serpentes, escorpiões e aranhas, que podem ser atribuídas tanto ao
ambiente natural em que as reduções se estabeleceram, quanto a desordens climáticas, tais como
secas ou enchentes, que podem ter favorecido a sua proliferação ou deslocamento para outras
regiões. Dentre as plantas que o irmão Pedro Montenegro refere para uso específico em acidentes
com animais peçonhentos, está a “taropé”, popularmente conhecida como figueirilha, pertencente à
espécie Dorstenia brasiliensis Lam., e que, em trabalhos atuais, é referida por suas propriedades
antiofídicas, diaforéticas e antifebris.
Na obra fica evidente que Sánchez Labrador se valeu tanto de suas próprias observações, a
partir de expedições que realizava pela região platina, como de informações que obteve com os
indígenas, quanto através de obras autores clássicos e contemporâneos, muitas delas, redigidas por
outros jesuítas (como o padre jesuíta Alonso de Ovalle (1601-1651)18 ou por cientistas leigos, com
os quais estabelecerá um interessante diálogo, tais como os médicos Caspard Bauhin (1560-1624),
Johann Schröder (1600-1664), Nicolás Lemery (1645-1715), Esteban Francisco Geoffroy (1672-
1731), Robert James (1703-1773).
Os registros que Sánchez Labrador fez dos saberes e das práticas curativas indígenas – que se
caracterizavam pelo emprego de plantas e de insetos – levaram, sem dúvida, em conta, tanto as obras
que consultou na biblioteca do noviciado de San Luis de Sevilha e, posteriormente, na do Colégio
de Córdoba, quanto o diálogo que estabeleceu com outros homens de ciência – durante seu exílio
em Ravena, na Itália – período durante o qual dedicou-se à sistematização das informações
levantadas na América e à escrita do Paraguay Católico e do Paraguay Natural.

Por outro lado, Sánchez Labrador estabeleceu contínuas relações e comparações entre as
práticas curativas indígenas e as europeias, fundamentando suas observações, como procuramos
demonstrar, no conhecimento divulgado por autoridades em Medicina e Farmácia. Em algumas
situações, contudo, ele contestou certas concepções europeias, contrapondo-as às observações e as
experiências que realizou durante o período de sua atuação como missionário junto aos indígenas
da região platina. Sua narrativa parece, portanto, sobrepor e mesclar as experiências que vivenciou na
América àquelas próprias de seu período de formação na Europa e, ainda, às que, posteriormente,
viveu durante o exílio na Itália.

18
Padre Alonso de Ovalle foi um destacado cronista e missionário jesuíta, natural de Santiago do Chile. Atuou como
Procurador da Vice-Província Jesuítica do Chile e autor da obra “Historica Relacion del Reyno de Chile” foi publicada
em Roma, em 1646.
Considerações finais
No século XVII, empenhados em garantir a saúde dos indígenas e em atender aos propósitos
da caridade, os missionários jesuítas procuraram conhecer a natureza americana – sobretudo, as
propriedades curativas das plantas medicinais – e observar as condições climáticas favoráveis à
instalação das reduções. No Setecentos, as Instruções definidas em 1610 continuaram sendo
observadas pelos padres, que procuraram concentrar as populações indígenas longe da umidade
danosa dos pântanos e a adotar também algumas medidas de caráter profilático, como o isolamento
de doentes, o adequado enterramento e a assepsia dos ambientes. Conscientes da importância do
cuidado dos corpos dos indígenas para o processo de conversão, os missionários se dedicaram,
sobretudo no século XVIII, a não apenas buscar “la salud de las almas con tanto fervor como si se
tratara de salvar su propia alma” (C. A. 1637-1639 In: MAEDER, 1984, p. 30), mas também à
instalação de boticas e de hospitais e à incorporação da farmacopeia e das terapêuticas curativas
indígenas, como se pode constatar nos herbários e nos receituários escritos pelo irmão Pedro
Montenegro e pelo padre Segismundo Asperger.19
No caso do primeiro, mais do que comprovar “sus aficciones desde niño y su estudio
favorito – la virtud de las plantas para curarse con ellas y a sus projimos” – e o “ingenio” e a
erudição e do jovem galego formado no Hospital de Madri, sua obra Materia Medica Misionera,
nos revela um Montenegro pensador – que põe à prova os conhecimentos dos autores clássicos “por
la esperiencia” e que investe “el tiempo aberiguando poco a poco las virtudes [das plantas]”, não
limitando-se à compilação de virtudes, receitas e procedimentos terapêuticos divulgados nos
tratados que ele tão bem conhecia. Condição que, aliás, o levou a afirmar que as plantas que havia
descrito não se encontravam “en ninguno de los herbarios escritores, ni tampoco en ninguna otra
parte” (MONTENEGRO, [1710], 1945, p. 264)
Em outro momento, consciente das implicações das posições autorais que assumiu, o irmão
jesuíta chegou a antever as críticas que seriam feitas a “este pobre ignorante [que] quiera ir contra
las reglas de un Dios Corides [sic], Mathiolo, y Laguna, y otros muchos q.e en esta facultad han
escrito” (MONTENEGRO, [1710], 1945, Modo de Recojer), recomendando que as receitas por ele
indicadas fossem sempre administradas “en la forma que digo, y con las circunstancias que pide la
medicina” (MONTENEGRO, [1710], 1945, Prefacio). Sua atuação nas terras de missão da América
platina e o processo do qual resultou a escrita da Materia Medica Misionera (1710) parecem,
portanto, também comprovar a existência de uma “epistemologia práctica”, aquela que se impôs nas

19
O padre S.Asperger – ou Aperger – era tirolês e ingressou na Companhia de Jesus em 09 de outubro de 1705. Foi o
único jesuíta que permaneceu, devido à sua condição de saúde e à idade avançada, na América platina, após o decreto
de expulsão. Além do famoso “balsamo o elixir de Misiones”, preparado à base de aroeira vermelha, que era enviado
em grande quantidade para a Europa, atribui-se a ele também o famoso compêndio Tratado Breve de Medicina que,
além das descrições sobre as doenças mais frequentes nas missões jesuíticas, traz um grande número de procedimentos
terapêuticos e de receitas de medicamentos.
zonas periféricas dos impérios ibéricos, e que se traduziu em “complejos procesos de redefinición
del sujeto”, resultantes das tensões próprias da experiência missioneira de “representantes del orden
letrado en las fronteras” (DEL VALLE, 2009, p. 13)
Sessenta e um anos depois da Materia Medica Misionera, o padre jesuíta José Sanchez
Labrador, durante seu exílio em Ravena, deu início à escrita do Paraguay Natural Ilustrado, que
contempla as virtudes de plantas medicinais nativas e os saberes e práticas curativas que ele havia
observado ao longo dos anos em que atuou como missionário na Província Jesuítica do Paraguai.
Também nesta obra, assim como na Materia Medica Misionera, encontramos evidências tanto da
circulação de saberes relativos às artes de curar entre os vários espaços de atuação da Companhia de
Jesus, quanto da apropriação de saberes e práticas curativas nativas e, consequentemente, da
inegável contribuição de vários grupos indígenas da América platina.
Obrigado a deixar a América junto com os demais companheiros de ordem, após o decreto
de expulsão da Companhia de Jesus (1767), e impedido de trazer consigo suas anotações, o padre
jesuíta precisou recorrer a sua memória e a de outros jesuítas exilados, bem como a obras e
documentos disponíveis nas bibliotecas européias para poder escrevê-la. O diálogo que mantém
com autoridades reconhecidas por seus estudos de Medicina, de Farmácia ou de História Natural –
tanto referências clássicas, quanto do século XVII ou contemporâneas a ele – confirma esta
consulta. Dentre os mais referidos ao longo dos quatro tomos da obra, estão Esteban Geoffroy,
Jacobo Boncio, Gaspar Bauhin, Robert James, Johann Schröder, Alonso de Ovalle S.J. e Nicolás
Lemery.
Ao referir estes autores e destacar as posições assumidas em algumas de suas obras, o jesuíta
o faz tanto para legitimar as informações sobre a natureza americana presentes em sua obra, quanto
para contestar algumas das afirmações feitas pelos estudiosos que refere. Ao contestar certas
autoridades, o jesuíta também está reivindicando o conhecimento e legitimando seu trabalho,
tentando ocupar seu lugar como autor produtor de ciência. Cabe lembrar que na Europa da segunda
metade do Setecentos, o discurso científico produzido sobre a América estava fundamentado no
determinismo climático e na teoria da degeneração e inferioridade da natureza e da população
americana. Huffine afirma que os padres jesuítas da Província Jesuítica do Paraguai, como de outras
províncias, repudiavam tais teorias e buscavam, através de seus trabalhos, comprovar que estavam
erradas (HUFFINE In: FIGUEROA; LEDEZMA, 2005, p. 279-302). Sanchez Labrador foi um
destes autores que argumentaram contra os cientistas europeus “sugerindo que a vida vegetal e
animal da América era saudável, resistente e auto-suficiente (...)” (HUFFINE In: FIGUEROA;
LEDEZMA, 2005, p. 286-287). Suas opiniões a favor das virtudes medicinais das plantas
americanas, dos insetos e das pedras bezoares ocidentais e contra as teses de inferioridade
defendidas por autores europeus evidenciam sua posição em defesa da natureza americana e sua
contribuição para o seu conhecimento.
Não deve-se, portanto, desconhecer que a Materia Medica Misionera e o Paraguay Natural
Ilustrado, além de serem obras de referência para a reconstituição do ambiente intelectual em
que irmãos e padres jesuítas se encontravam inseridos tanto na América, quanto posteriormente, na
Europa em que viveram no exílio, e, sobretudo, para a compreensão dos efeitos da experiência
americana nas concepções de Botânica, Medicina e Farmácia então vigentes, são também
fundamentais para a identificação e a avaliação da contribuição dos saberes dos grupos indígenas
americanos na escrita de Historias Naturales e Matérias Médicas que seriam divulgadas ao final do
século XVIII e no XIX, tema que já exploramos em outros artigos.

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