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D O SÉCU LO X V II

João Adolfo Hansen


Sátira do engenho ou o engenho da sátira? João
Adolfo Hansen compõe, em A Sátira e o Engenho, um
vasto painel da vida literária e cultural da Bahia no
século x v ii. Aborda os poemas satíricos de Gregório de
Matos, os tratados retóricos da época e os documentos
históricos, como as delações de pecados e heresias ao
Santo O fício e as atas da Câmara de Salvador. Entre tais
papéis, encontram-se as cartas endereçadas a um certo
dr. Gregório de Matos e Guerra, procurador da Bahia
em Lisboa em 1673.
É a poesia de Gregório revolucionária, transgressora,
libertária? João A dolfo Hansen mostra que não: “ a sátira
não está, de modo algum, contra a moral” . A sátira
barroca fala mal de tudo e de todos, do governador
despótico aos mulatos atrevidos, passando pelos padres
sodomitas, comerciantes safados, mulheres adúlteras e
cornos conformados. M as essa crítica retórica e poética
de costumes se faz, segundo Hansen, para corrigir
excessos e desvios e preservar as normas e hierarquias
sociais. O riso da sátira é assim incidental, colocando
as convenções do ridículo a serviço da prudência e da
moderação.
Para chegar a essa visão radical e inovadora da poesia
barroca brasileira, João Adolfo Hansen analisou a sátira
de Gregório de M atos a partir da tradição retórica do
século x v ii, em que a obscenidade e a maledicência estão
previstas por regras precisas. Convida o leitor a um
fascinante mergulho na poética clássica de Aristóteles e
Quintiliano, e na barroca de Gracián e Tesauro.
Rompendo com a crítica biográfica, Hansen se afasta
dos clichês românticos sobre a suposta vida do poeta,
o Aristófanes das mulatas, retratado habitualmente
como ébrio, boêmio, louco, mordaz, vadio, obsceno e
libertino. Em A Sátira e 0 Engenho, emerge a figura difusa
do dr. Gregório de Matos e Guerra, a quem se atribuiu a
autoria dos poemas satíricos compilados no século xvm :
E mais não digo; que a M usa topa/Em apa, em epa, em
ipa, em opa, em upa” .

Roberto Ventura
A Sátira e o Engenho
AE
Ateliê Editorial
Editor
P línio M artins F ilho

UNICAMP

U niversidade E stadual de C ampinas

Reitor
C arlos H enrique de B rito C ruz

Coordenador Geral da Universidade


J osé T adeu J orge

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Conselho Editorial
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P aulo F ranchetti

A lcir P écora - A ntônio C arlos B annwart - F abio M agalhães


G eraldo D i G iovanni - J osé A. R. G ontijo - Luiz D avidovich
L uiz M arques - R icardo A nido
J oão A d o l fo H ansen

A Sátira e o Engenho
Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII

1-6SM
^ N A S B f l« *> C *N

Ateliê Editorial
Copyright © 2004 by João Adolfo Hansen

Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998.


É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, das editoras.

Ia edição, Companhia das Letras, 1989.


2a edição revista, Ateliê Editorial e Editora da U nicamp, 2004.

Ficha catalográfica elaborada pelo Departamento Técnico do


Sistema Integrado de Bibliotecas da USP

Hansen, João Adolfo, 1942-


A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a
Bahia do século XVII / João Adolfo Hansen. - 2.
ed. rev. - São Paulo: Ateliê Editorial; Campinas:
Editora da U nicamp, 2004.
528 p.

Inclui bibliografia.
ISBN 85-7480-136-4 (Ateliê Editorial)
ISBN 85-268-0677-7 (Editora da U nicamp)

1. Matos, Gregório de, 1636-1696? 2. Sátira e


humor (literatura). I. Título. II. Título: Gregório
de Matos e a Bahia do século XVII.

CDD 869

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Printed in Brazil 2004


Foi feito depósito legal
Correção.
Cesare Ripa. Iconologia, 1593.
Para meu pai, vivo em mim.
Leer un soneto de Quevedo
pensando que lo escribió
con una pluma de ganso.
C abrera I nfante , Exorcismos de Esti(l)o.
Sumário

Prefacio - Leon Kossovitch ......................................................................... 15


Agradecimentos ......................................................................................... 21
Nota à 2a Edição ......................................................................................... 23

I. Um Nome por Fazer.......................................................................... 29


II. A Murmuração do Corpo M ístico.................................................... 105
III. A Proporção do Monstro ................................................................... 191
IV O Ornato Dialético e a Pintura do M isto......................................... 291
V. Os Lugares do L u g a r........................................................................... 389

Bibliografia . 505
Prefácio

São cinco as divisões do livro; da retórica as partes cinco são. Cuida o


livro da sátira, logo, do vitupério; não prescreve o espelho deste, elogio (ad­
mita-se mantido o gênero demonstrativo), sendo indecoroso ornar o seu orna-
to, indecente louvar escrito muito louvado. Nada impede, porém, o maravi­
lhoso, que se preceitua: admire-se a agudeza dos censores do Hospital das Letras, o,
juízo de Bocalino, Lípsio, Quevedo e do discreto Dom Francisco Manuel de
Melo, debruçados sobre o livro de Hansenius, figurando dúvidas sobre algu­
ma parte dele, ampliando-as nos cuidados prescritos como mezinhas que a
curem de alguma traça metafórica, para melhor concluir pela autoria, assim,
pelo encômio, invertida a hipérbole, como se podia prever.
Tenha-se mão, contudo: distancie-se o óculo que escreve aqui, fixando-se
o foco de longe na pincelada larga, pois o leitor de João Hansen, reiterado
nele enquanto pelo escrito movido, é um seu contemporâneo e talvez também
uma extensa ruína de algum presente. Escavando a Bahia seiscentista, onde
acha sedimentos gregos, romanos e posteriores, pois superiores, matricial­
mente “clássicos” enquanto “medievais” ou “barrocos”, escreve-a como lugar
de onde tudo se divisa, descreve-a de além-mar e da mesma Cidade, dos con­
ventos e das câmaras, enquanto a salpica com açúcar (como se estivesse na
idade do horror ao vazio, quando o estilo tem o mundo e se pode descer às
pedras católicas das Missões, prosseguir ouvindo o espetáculo de oradores
nas igrejas de Lima, México e Macau, folhear miniaturas mogóis e, logo, persas,
despóticos o claro-escuro e a perspectiva, subir ao ícone russo graças ao ucasse
que virá do Báltico, navegar depois pelo Danúbio por onde começa a correr o

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A SÁTI RA E O E N G E N H O

Douro, parar na Paris que expulsa Bernini para melhor o adotar, contemplar
em Roma Vieira empenhado em certame de filósofos que choram e que riem,
pois sempre se vai deslocando com as lentes de Fontenelle, algum Cyrano e
muito Leibniz, nas quais a variedade dos lugares se lê como ornato da identi­
dade, desmanchado o aqui no ubíquo, dilatado o ponto na continuidade de
caminhos entrecruzados em toda a parte e o tempo todo, não colecionando a
viagem Outro algum e, tudo no lugar, de longe, itinerários, mapas e mapas de
mapas e, em abismo, o Mesmo, protótipo de versão e diversão.
O mapa desta capa fica boa xilogravura em livro seiscentista dentro; a
capa apaga com couro a figura, pois esta se grava em frontispício e, faltante
no livro, pode ser saturada pela escrita, ecfrase. Ficando-se dentro fora, des­
creve-se no micro o macro, brevidade helenístico-romana de pintura com-
pendiária, cômica, não satírica, numa Barbearia de pincelada preste e claro-
escuro de Magnasco, analogia que faz o leitor seguir qualquer dobra
desdobrando-a em alegoria abissal que escancara o mesmo sentido figurado
numa figura escrita. E digno, também, personificar com figura, Gregário de
Matos e Guena, não, porém, em guisa de oval do licenciado Rabelo cujo cará­
ter ou tipo se pintam como circunscrição. Para o de Hansen, não de todo in­
conveniente seria a de espécie arcimboldiana, o Livreiro de sinédoques
metaforizantes, cuja visibilidade, distante e próxima (ut pictura poesis), orna,
fantástica, e instrui, icástica, no livro quase como a figura direta, pois longín­
qua, de panfleto no Leviatã hobbesiano.
Escrevendo com os buracos da papelada, que a brasilidade dos arquivos
traça, João não petrifica o passado como o historiador antiquário Muratori ou
o preciso Piranesi das gravuras de ruínas romanas, cujos Cárceres lhe desfa­
zem a face precisa enquanto hiperbolizam muito gigantismo do século XVII,
livre o espaço da perspectiva trivial; são eles homólogos à amplificação do
nariz que proporcionaliza, veemente no monte de papéis, câmaras de toda
sorte, ralos e grades, dirigindo os óculos para o amor freirático, alguma simonia
e sodomia, muitos interesses de donos de açúcares e negros; as lentes orde­
nam uma história icástica enquanto o fantástico nariz se estica, enfia-se na
murmuração das carências e abusos e nos vícios de putas mazombas, indianas
sujas, falsos fidalgos e cristãos-novos blasfemos. Cenografia amplificadora:
vituperando, a sátira, voz torpe das sendas de cenário, corrige o que mostra
como vício na hierarquia pela qual e para a qual obra (fechamento). O livro
tampouco recicla a ruína, preservada de doutrina ou palavra de ordem de
moderna boca estética e política; desamparando o Grégorio-brasilidade, o
Gregório-afro, o Gregório-liberdade, o Gregório-profeta, retrospectivos de uma
prefiguração patrística, Hansen distingue, muito político, um nome, soltan­

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PREFÁCIO

do falas presas a hierarquias e não a homens que, sem louvor ou vitupério,


não há. Nada complacente com o tempo, com o atual, lança “Gregório” ana-
morfoticamente motivado, pois de matos, que encenam sátiras, e de guerra,
que na sátira corrige, assim, misto de sátira e sátira, satírico.
Cotejando sátiras, precariamente unificadas por um nome, que as diz, e
documentos, teorias do direito, da política, da teologia (unam-se elas com
hífen), como, principalmente, atas de câmara e cartas de senado, estas da
Bahia. Cruzando tais discursos, o livro evita anacronismo de doutrina, que
recorre ao diferimento do texto, por exemplo, ao “contexto”, órgão de falas
padronizadas como fatos, que emudecem as diferenças de matos e guerra.
Não parte de análise semântica, pois monta e intercepta pragmáticas; discur­
sos políticos, satíricos, teológicos, comerciais distinguem-se como gêneros e
não se hierarquizam nesta distinção: não se avança um primeiro, em qual­
quer sentido, que a um segundo explique, desafeiçoado efeito doador de sig­
nificado de um discurso a outro, postulado vazio. Modalização e perspec-
tivação: não se propondo precedências, estabelecem-se entrecruzamentos de
práticas discursivas que se especificam; a “hierarquia”, definida nos textos,
define a pragmática.
Enfeixam-se com a sátira Atas da Câmara, Cartas do Senado, Livro das
Denunciações, do Santo Ofício, assim como porção da massa jurídica e teológi-
co-política dos séculos XVI e XVII. Enquanto esta, doutrina, teoriza e prescre­
ve o bem comum, aquelas distinguem-se como práticas discursivas hierar-
quizadoras. Os temas são articulados por regras do bem comum, matizando-se
os discursos: as Atas não intervém pronta e pontualmente como as Cartas ou
as sátiras, podendo-se figurar a circulação destas por bocas e papéis. As Car­
tas, gênero deliberativo, pautam-se pela univocidade, enquanto as sátiras, como
gênero, têm muitas vozes, vácua apersona, ridículas, invertidas, dissonantes e
mesmo uníssonas: contemporaneamente políticas, são constituídas hierarqui­
camente, com o direito e a doutrina conexa do bem comum operante nelas (à
exclusão do Livro das Detiunciações, inspirado por outro Bem) e delas inter-
pretante. Assim, a murmuração, de que cuidam sátira e carta, nas duas ques­
tiona a hierarquia enquanto a pleiteia justa; conflitos de interesse e honra,
todas as sortes de queixas e tumultos são enquadrados e esquadrinhados pela
hierarquia hierática do Estado absolutista. Investida institucionalmente, a
persona satírica multiplica-se mista com os lugares, dinheiro, sexo, cor etc.;
rompida com o decoram, que se vai moralizando desde o século XVI contra-
reformista, mostra o monstro. O mal e seus mistos são vituperados no gênero
demonstrativo, cuja ponderação os desclassifica no ato mesmo de sua multi­
plicação pela fantasia: os monstros são rebaixados, quando não excluídos, pois

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A SÁTI RA E O E N G E N H O

retificados, por ausentes os bens deles, pela prudência e juízo que na sátira
operam proporções. A homologia alcança as extorsões discursivas do Santo
Ofício, que trata os blasfemos, sacrílegos, hereges, dos quais a sátira também
cuida. Mais que analogia dos temas, homologia das operações: a sucessão pro­
tocolar das questões do inquisidor pune os casos previstos, assim, produzidos,
pelos padrões do Bem. Também aqui cruzada, a sátira inclui procedimentos
da Inquisição, lançando na cena o que esta faz no sigilo. Retoricamente regu­
lada, a sátira enuncia, como os demais modos discursivos, os interditos e a
Lei, ou Bem. Punitiva como a Inquisição, ela também é arte como a arte polí­
tica, que, no XVII, defende a república do exterior e no interior, atribuição da
lei positiva que impõe a lei natural, atenção ao bem comum; também a sátira
tematiza a igualdade na submissão: é-se súdito de um poder transferido, sú­
plica ao rei, metáfora.
Quando ridícula, a sátira dói, como a retórica prescreve; maledicente, o
misto fere com a virtude: vício e vicioso, mal e mau são ausências culpadas de
bem. Falta representada, são operadas retoricamente: um evento, a fome de
bacalhau, constitui-se na sátira como um caso, vituperado enquanto mime-
tizado; referencialmente mimética, a sátira produz o caso como lugar da in­
venção fantástica, referindo-o à situação de censura que os discursos do
referencial semantizam. Adequando-se aos lugares da invenção, a narração se
vai particularizando como exposição retórica da causa, que se hiperboliza,
fantástica, excluído, historicamente, o fato (que é convenção literária apenas
nos séculos XIX e XX). A referencialidade da sátira articula a recepção, pois o
destinatário compartilha dos códigos, assim, dos casos criticados, situações
ou indivíduos. Ela cruza outras práticas discursivas, sendo dirigida pela uti­
lidade (prodesse), catarse na censura, que codifica moral e politicamente as
ações reguladas pelo bem. Neste sentido, mimeticamente fantástica, os mons­
tros a incluem no gênero baixo, enquanto, corretiva, é operada pela pondera­
ção prudente do elevado: o “vulgo” não se identifica, evidentemente, com o
“oprimido” ou o “dominado” da convenção do misto atual, imprevistos como
destinatário embora muito previsíveis hoje quando se trata do Gregório. Ain­
da, o vulgo e o néscio produzidos na sátira podem ser destinatários discretos
de muitas espécies, fidalgos, letrados, que a apreciam como convenção poética.
Embora articule o gosto, que delimita o néscio e o vulgo, não o judícíoso
ou o prudente, a sátira, como fantasia do misto, é engenhosa e aguda. Por
estas, conquanto baixa, eleva-se e, inclusiva, opera simultaneamente com vá­
rios gêneros, alto e baixo, trágico e cômico etc.: mistos são os satirizados e a
própria sátira. Como elocução engenhosa, está teorizada com noções da poé­
tica do tempo, quando substitui, no que concerne ao ornato, a invenção de

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P R E F Á C IO

retóricas anteriores: a elocução desloca os lugares da invenção ornada em be­


nefício da dialética ornada. Esta analisa metaforicamente enquanto desdobra
o “conceito”, ou “definição ilustrada”, a um tempo discursiva e imagética,
ornando o misto no movimento das divisões sem limites assinalado, podendo
o inverossímil, engenhosíssimo, intensificar-se como exercício pedante.
O livro tem as cinco partes da retórica, que o atravessam, combinadas;
pode ser lido em qualquer sentido, embora a quinta, “Lugares do lugar”, con­
figure-se como lugar dos lugares, assim, memória, que o retor distingue como
quinta, canonicamente. Lembrando-se, aqui, a discussão de Quintiliano so­
bre a unidade do discurso e a sua partição retórica, sendo una a leitura, pode
ser começada pelo fim, memória dicionária, ou acompanhando dicionaria-
mente as outras partes. Figure-se que a quarta, ornando o misto, pinta-se
dialeticamente como figura pura da elocução; que a terceira, proporcionali-
zando gestos excessivos, vultos caricatos e vozes estridentes, evidencia-se como
ação; que a segunda, medindo a murmuração, hierarquiza vários corpos
discursivos, disposição; que a primeira, deceptiva em título promissor, “Um
nome por fazer”, não o faz, desenvolvendo a evolução do homem, do retrato
fóssil de Rabelo, em que o louvor inventa uma “vida”, à crítica do XIX e XX
que começa, comumente, com o homem e acaba em obra. A invenção de
Hansen vela o retrato e dissolve o homem. O nome próprio, unificador da
massa textual, é desapropriado, atribuições sem fundamento, textos incertos,
derivações padronizadas de protótipos. O Livreiro cobre-se de pó no livro de
João; não sendo feito icasticamente de livros, inverte-se a relação visual, per-
to-longe, com que Arcimboldo constrói sua facécia: fantástico, o Livreiro é
icástico na visão próxima e os livros o são na distante. Quiasma, pelo qual o
Livreiro vira livros, assim, Livro, Mapa.

Leon Kossovitch

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Agradecimentos

A
João Alexandre Barbosa, Alfredo Bosi, Roberto de Oliveira Brandão, Maria
Lúcia Garcia Paliares Burke, Peter Burke,Raimundo Baptista Carneiro, Maria
de Lourdes Chagas de Carvalho, Marta Maria Chagas de Carvalho, Maria da
Graça Cassundé, Roger Chartier, Marilena Chauí, Maria Aparecida Corrêa,
Waldir da Cunha, João Roberto Gomes de Faria, José Carlos Garbuglio, Jai­
me Marcelino Gomes, Laura Hansen, Júlia de Carvalho Hansen, Jean Hébrard,
Itaí, Leon Kossovitch, Susana Kampf Lages, Sílvia Hunold Lara, Mayra
Laudanna, Luiz Costa Lima, Margarida, Antônio Dimas de Moraes, Antônio
Alcir Bernárdez Pécora, Fernando da Rocha Peres, Dirce Cortes Riedel, Carlos
Rincón, Rosângela, Petra Schumm, Jorge Schwartz, Jorge Ruedas de La Serna,
Mitz Hansen Tedesco, Ivan Prado Teixeira, André de Carvalho Tinoco, Ale­
xandre de Carvalho Tinoco, Maria Tereza Vianna Van Acker, Roberto Ventu­
ra - amigos que, empenhando-se pelo amigo, sabem desempenhá-lo.

(Este texto foi apresentado como tese de doutoramento à Faculdade de


Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em de­
zembro de 1988, com o título A Sátira e o Engenho (Um Estudo da Poesia Bar­
roca Atribuída a Gregário de Matos e Guerra, Bahia 1682-1694).

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Nota à 2- Edição

Escrevi este texto em 1987, como tese de doutorado em Literatura Brasi­


leira apresentada ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Fa­
culdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Em 20 de dezem­
bro de 1988, foi examinada pelos Profs. Drs. João Alexandre Barbosa, Alfredo
Bosi, Roberto de Oliveira Brandão, Marilena de Souza Chauí e o orientador,
José Carlos Garbuglio. Após a defesa, Bosi publicou parte do seu terceiro
capítulo na Revista do Instituto de Estudos Avançados, com o título “Positivo/
natural: sátira barroca e anatomia política”1. João Alexandre Barbosa e Roberto
Ventura a indicaram ao editor Luís Schwarcz, da Companhia das Letras. Saiu
integralmente, em convênio com a Secretaria de Estado da Cultura, nos últi­
mos dias de dezembro de 1989, com o título A Sátira e o Engenho: Gregário de
Matos e a Bahia do Século X V II, “Prefácio” de Leon Kossovitch, capa que re­
produz uma mapa holandês da invasão de 1624, orelha e contra-capa de
Roberto Ventura. Mantive as informações programaticamente acumuladas
das notas, supondo pudessem ser úteis para outros que viessem a ocupar-se
do assunto.
O texto reconstitui a primeira legibilidade normativa da sátira atribuída
desde o século XVIII ao poeta seiscentista Gregório de Matos e Guerra. É
legibilidade modelada como retórica do conceito engenhoso e teologia-polí-
tica neo-escolástica, incluindo-se na racionalidade de Corte da “política ca­
tólica” portuguesa do século XVII. Para escrevê-lo, estudei os códigos

1. Revistas do Instituto de Estudos Avançados, São Paulo, IEA-USP, maio-agosto de 1989, vol. 3, n. 6.

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A SÁTI RA E O E N G E N H O

lingüísticos da fonna mentis dramatizada nos poemas: o grande bloco da retó­


rica aristotélica e suas versões latinas e neo-escolásticas, italianas e ibéricas; a
teologia-política católica providencialista, anti-maquiavélica, anti-luterana,
anti-calvinista, dopactum subjectionis de Suárez, como fundamento do poder
real, e da “ razão de Estado” de Botero, como fundamento do interesse mer­
cantilista; as duas vertentes aristotélicas do cômico, ridículo e maledicência-, o
sistema das virtudes e vícios da Ética a Nicômaco apropriados pela Contra-
Reforma; as emulações seiscentistas de Horácio e Juvenal; a doutrina da agu­
deza, conceito engenhoso ou ornato dialético, que especifica a prudência do
tipo discreto, em oposição à estupidez do vulgar, dramatizados na sátira como
temas e posicionamentos hierárquicos da enunciação.
Não tinha documentação suficientemente discursiva sobre a particularida­
de dos temas da Bahia nas três décadas finais do século XVII encenados na
sátira. Em Salvador, no início de 1986, consegui ler cem anos das Atas e das
Cartas do Senado da Câmara de Salvador, entre 1640 e 1740. Forneceram-me
um referencial, discursos, não um referente ou “real” empírico, que, sendo
sempre formulado da perspectiva dos oficiais da Câmara de Salvador, gente
diretamente ligada aos negócios do açúcar, informa sobre temas do local dra­
matizados na poesia em outro registro retórico. Sendo homens do poder real,
os oficiais da Câmara também eram homens de poder local. Assim, indireta­
mente, as Atas e as Cartas forneceram informações sobre tensões e conflitos
perspectivados por várias posições institucionais, Coroa, Câmara, Tribunal
da Relação, Santo Ofício, Alfândega, Companhia de Jesus, Terço da Infantaria,
Governo Geral, e informais, murmuração da população, legível nas entrelinhas
dos papéis. Nas Cartas, os oficiais alegam sempre defender a generalidade do
interesse do “bem comum” do “corpo místico” do Estado do Brasil postulado
pela Coroa como fim último da “razão de Estado”. A mesma generalidade se
evidencia, quase sempre, como a generalidade de seus interesses particulares
em tensão e contradição com as ordens reais e as representações de outros
poderes locais, transformadas comicamente na sátira.
Apropriando-se de normas sociais representadas nos discursos formais e
informais contemporâneos, a sátira as isola da função institucional de regulação
prática, estilizando-as ficcionalmente como metáforas de princípios éticos e
teológico-políticos da “política católica”. A verossimilhança das representa­
ções efetuadas dramatiza as opiniões sobre os assuntos do lugar tidas por ver­
dadeiras. Quando transforma temas de discursos formais - os do Senado da
Câmara, da administração de governadores, de ordens-régias, de pragmáticas
de tratamento e trajes, do Santo Ofício da Inquisição, do Tribunal da Relação,
etc. - e da murmuração informal sobre eventos, negócios, grupos e indivíduos

24
NOTA À 2* E D I Ç Ã O

locais - corrupção de governadores, escândalos conventuais, simonia e mancebia


de padres, contrabando de farinhas, falta de moeda, aumento de impostos,
confusões hierárquicas, rebelião de escravos, preços monopolistas dos gêne­
ros, crise da lavoura açucareira etc. - a sátira deforma a referência deles e cita
seu sentido legal e ortodoxo na vituperação das deformações. Figurando a com­
patibilidade entre as interpretações feitas pelos personagens satíricos em ato e
os atos de interpretação das recepções empíricas diferenciadas, que conferem
valor e sentido à representação2, a sátira não é realista, pois não imita supostos
“fatos” da empiria, mas encontra a realidade de seu tempo como prática
discursiva de verossimilhanças e decoros partilhados assimetricamente pelos
sujeitos de enunciação, destinatários e públicos empíricos.
No Rio de Janeiro, em 1986 e 1987, complementei as informações com a
leitura dos códices gregorianos, de cartas do governador Câmara Coutinho,
de ordens-régias e mais alguns documentos e livros da Seção de Manuscritos
e de Livros Raros da Biblioteca Nacional. Graças à gentileza dos funcionários
responsáveis pela Seção, Raimundo Baptista Carneiro e Waldir da Cunha,
que me emprestaram uma lupa, pude ler um exemplar bichado do “Trattato
de’ ridicoli”, de II Cannocchiale Aristotelico, de Emanuele Tesauro, numa edi­
ção veneziana de 1685 que pertenceu a Francisco Leitão Ferreira e ao acervo
da Biblioteca de D. João VI.
Ler com lupa o telescópio metafórico comido de bichos foi emblemático:
em condições pessoais e institucionais de conhecimento e trabalho precários,
tentando ajustar o foco da lente conforme a historicidade da prática observa­
da, trazer para perto e amplificar, repetidas vezes, o resíduo que, desde as
reformas pombalinas, no século XVIII, foi distanciado, diminuído, borrado e
eliminado em programas de invenção de tradições neoclássicas, românticas,
nacionalistas.
Por isso, também li a documentação infernal dos papéis do Santo Ofício
da Inquisição em sua visita à Bahia no início do século XVII e as denunciações
que se seguiram; a leitura de alguns manuais inquisitoriais, como o triste­
mente famoso de Eymerich e Pena, o Manual dos Inquisidores, além do Malleus
maleficarum e mais instrumentos do terror católico, me forneceu meios para a
reconstituição verossímil dos modelos e regras de uma tecnologia católica de
controle do corpo e produção da alma no século XVII ibérico. Evidenciou-se
que a sátira, gênero retórico-poético, é homóloga das práticas inquisitoriais
de denúncia e confissão, porque a interpretação que as regra é a mesma, fun­

2. Roger Chartier, “George Dandin, ou le social en représentation”, Annales. Lillérature et histoire,


Paris, Armand Colin, Mars-Avril 1994, p. 283, 49e, Année - n. 2.

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A SÁTI RA E O E N G E N H O

dando-se no Direito Canônico como doutrina da luz natural da Graça inata


em distinções especiosas de legal, legítimo, eterno, natural,positivo,puro e impu­
ro, metaforizadas ou aplicadas nos poemas pelas técnicas retóricas de uma
racionalidade não-psicológica em que a hierarquia é nuclear. Não pude, como
gostaria, tratar da recepção da sátira por públicos empíricos contemporâneos
dela, por não ter obtido documentação suficiente sobre seus usos e refrações.
Pude evidenciar, no entanto, que um mesmo princípio metafísico e político, a
oposição complementar de finito/infinito, ordena as práticas de representação
luso-brasileiras no século XVII como uma mathesis orientada hierarquicamente.
Ela recicla Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, principalmente, como dou­
trina da sindérese, a centelha acesa na consciência pela luz natural da Graça
inata, que evidencia a presença do infinito aconselhando o livre-arbítrio do
juízo finito na vituperação que repõe os bons usos do costume corrompidos
pelos abusos. Articulando-se com a doutrina do juízo silogístico d o De anima,
III, a doutrina faz com que também na poesia a ordem do conceito engenhoso,
composta agudamente segundo as três analogias escolásticas, atribuição, pro­
porção, proporcionalidade, dramatize o conceito teológico-político de ordem,
que regula virtude e vício.
Esta edição acontece quase 15 anos depois da primeira publicação. Ao
longo desse tempo, acumularam-se evidências que confirmam a tese e a vali­
dade de reeditá-la. Em arquivos brasileiros, portugueses, franceses e norte-
americanos, encontrei inúmeros documentos luso-brasileiros dos séculos XVI,
XVII e XVIII cujos princípios ordenadores são homólogos dos preceitos retórico-
poéticos e teológico-políticos dessa poesia, evidenciando as mesmas estrutu­
ras da forma mental especifica da “política católica” ibérica dramatizada nela.
Vários trabalhos sobre as letras e as artes coloniais feitos desde 1990 na perspec­
tiva aberta pela tese ratificaram-lhe os pressupostos, permitindo que os defi­
nisse melhor com novos documentos e particularizasse questões apenas
indicadas. A recepção positiva do livro em departamentos de Letras e de
História de universidades do país e do Exterior propiciou contatos, excelen­
tes amizades, trocas de informações e oportunidades para inventar novos
objetos e novos instrumentos de análise. Como esta é uma segunda edição
revista, inicialmente pensei em ampliar o texto, as notas e a biblio-grafia.
Não o fiz, pois teria que escrever outro livro. Desejei manter a torma inicial
de texto que não foi escrito como tratado, mas como estudo particular sobre
a tradição Gregório de Matos e Guerra. Mas tornei mais definidos alguns
conceitos da primeira versão, como o de persona satírica. Trouxe as notas
para o rodapé e as uniformizei. De acordo com Leon Kossovitch, mantive
seu generoso “Prefácio”. Também mantive o texto escrito por Roberto Ventura

26
NOTA À 2* E D I Ç Ã O

para a orelha da primeira edição. Suprimi redundâncias e também eliminei,


sempre que conveniente, a noção de “barroco” como classificação dos estilos
dessa poesia.
Quando escrevi o texto, em 1987, não pensava nisso, mas hoje sei que “o
Barroco” é Wõlfflin, ou seja, as categorias dedutivas do idealismo adaptado
teleologicamente em programas de invenção de tradições nacionais e nacio­
nalistas, sem maior pertinência ou interesse para dar conta da primeira
legibilidade normativa da poesia do século XVII. Nas interpretações brasilei­
ras dela, o interesse heurístico suplanta o histórico. Em 1987, reconstituí a
primeira legibilidade normativa da sátira pensando que inventava novos meios
de conhecimento do passado e que criticava a unilateralidade de leituras fei­
tas como universalização da particularidade das próprias categorias críticas.
Não sei se isso ainda é preciso, pois o movimento objetivo das coisas transfor­
mou as leituras heurísticas em ruínas. Hoje, quando se propõe que “o Barro­
co” é o Curvo, como as pernas de Garrincha e as montanhas de Minas Gerais,
a noção é descartável como um lanche do McDonald’s e aquele seu M curvo
ou barroco ou neobarroco ou pós-moderno ou pós-utópico.

27
I

Um Nome por Fazer

Tens mudado mais estados,


que formas teve Proteu,
não sei que estado é o teu,
depois de tantos mudados.
(OC, IV, p. 801.)

Em meados do século XVIII, um letrado colonial, o Licenciado Manuel


Pereira Rabelo, escreveu na Bahia uma Vida do Excelente Poeta Lírico, o Dou­
tor Gregário de Matos e Guerra1. Primeira “vida” do poeta, já no título classifi­
ca o sentido das obras que Rabelo compilou e atribuiu a Gregório de Matos e
Guerra no registro da moralidade virtuosa e da não menos idealização
petrarquista - “excelente poeta lírico” -, conferindo nome ilustre, com a uni­
dade das virtudes tipificadoras do personagem, ao nome falado dos causos e
anedotas escabrosos, que se havia desgarrado dos nomes de mor qualidade de
Salvador, em fins do século XVII.
Apologia, o texto estabelece a legibilidade doutrinária da sátira que atri­
bui ao poeta segundo critérios que o compõem e interpretam retórica e teo­
logicamente como personagem. Ficção, integra-se no gênero do retrato enco-

1. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida e Morte do Doutor Gregório de Mattos Guerra. Escrita pelo
Lecenciado Manuel Pereyra Rabello”, em Gregório de Mattos e Guerra, Obras Sacras e Divinas, tomo
I, I. E. II Part. Cofre 50, Códice 56, Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, p.
56. Cf. também “Vida e Morte do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos e Guerra”, em
James Amado (org.), Obras Completas de Gregório de Matos e Guerra (Crônica do ViverBaiano Seiscenlista),
Salvador, Janaína, 1968, 7 vols., vol. VII. Esta obra é citada neste trabalho como OC.

29
A SÁTI RA E O E N G E N H O

miástico2. Como evidencia a leitura dos atos acadêmicos e sessões comemora­


tivas da Academia dos Esquecidos, também o Licenciado unifica em códice
tantas obras de gêneros e formas diversos, conferindo a sua autoria à unidade
do nome próprio, “Gregório de Matos e Guerra”, porque, como um letrado do
século XVIII, constitui uma tradição local. Considerado o padrão de distinção
social da inserção dos letrados na cultura da Colônia iletrada, supõe-se a ex­
celência também de Rabelo:

Estas são, curioso leitor, as notícias, que o meu afeto pôde descobrir das tristes
memórias daquele ilustre herói e crede-me, que tanto estimei a dá-las como em grande
mágoa o pondero emblema de tantos infortúnios; que suposto o cortasse a espada de
dois gumes, contudo sempre viverá in eterno ao mesmo tempo. Brasão ilustre-lhe este,
que eternizado na fama o não destrói o tempo3.

Não se sabe quais foram os critérios seletivos e ordenadores do Licencia­


do, o que excluiu na unificação, se transcreveu poemas das afamadas folhas
volantes que se diz terem corrido na Bahia em fins do século XVII, se teria tido
acesso aos livros improváveis que Dom João de Lencastre mandaria abrir em
Palácio para acolher poemas atribuídos a Gregório de Matos e Guerra, se os
coletou de fonte oral ou escrita. As didascálias dos poemas, devido à imediatez
referencial efetuada por seus detalhes, indicam que obteve informações sobre
as pessoas e as situações satirizadas pelos tipos e casos da compilação. Uma das
versões de seu texto fecha com um medalhão de Gregório de Matos:

Foi Gregório de Matos e Guerra de boa estatura, falto de vista, delgado de corpo,
membros delicados, poucos cabelos, e crespos: testa espaçosa, sobrancelhas arqueadas,
e grossas, os olhos grandes, nariz aguilenho, boca pequena, e engraçada, a barba sem
demasia, alvo na cor, e no trato cortesão. Trajava à cortesã de capa, e volta de fina renda,
cabeleira de bandas, suposto, que poucas se usavam naquele tempo4.

Evidenciando que o medalhão teve por modelo outro retrato, o Licencia­


do refere as “memórias” de “pessoas antigas” que lhe teriam fornecido crité­
rios para sua composição:

2. Como retrato, o texto desenvolve-se por aplicação de tópicas do gênero demonstrativo ou epidítico
da oratória, no subgênero “encômio” ou “louvor”, apresentando elementos de individuação e ele­
mentos caracteriaise tipificadores. Cf. Lomazzo, “Compositionedi ritrarredal naturale”, em Trattato
deli 'arte delia piltura, scoltura, et architcllura, Milano, Apresso Pier Paolo Gottardo Pontio, A instantia
di Pietro Tini, 1585.
3. Códice citado na nota 1, p. 56.
4. Op.cil., p. 55.

30
UM N O M E P O R FAZER

Fiz tirar dele a presente cópia, por um antigo pintor, que foi seu familiar, e confe­
rindo-a com as memórias que dele têm algumas pessoas antigas, tenho-a por mim con­
forme seu original. Naquele tempo era pouco versado o uso das cabeleiras, e ele a traja­
va: mas pareceu-me copiá-lo sem ela, porque a homem de talento devem patcntear-nos
as oficinas capitais que o produzem para informação dos judiciososs.

Não se sabe quais eram tais “pessoas antigas”, nem a matéria das “memó­
rias”, o que não tem importância, aliás. Melhor é pensar o que a referência a
elas permite inferir sobre a natureza da unificação. A questão da autoria dos
poemas assume outro sentido, pensando-se que o termo “memórias”, inde­
pendentemente de seu conteúdo, designa uma ação produtiva e deformante
sobre obras que Rabelo afirma ter recolhido já “destruncadas” pelo tempo.
Embora útil para delimitar e nomear um corpus, a autoria não é, considerada
a mesma constituição do corpus por Rabelo, pressuposto necessário para o
estudo dos poemas reunidos sob a rubrica “Gregório de Matos e Guerra”. A
autoria, no caso, é produzida pela unificação que se torna produtiva aposieriori\
“Gregório de Matos” é uma etiqueta ou um dispositivo discursivo, unidade
imaginária e cambiante nos discursos que o compõem contraditoriamente
numa hierarquia estética determinada pela “cadeia de recepções”, na expres­
são de Jauss56. Não-substancial, é efeito ou produto da leitura dos poemas atri­
buídos, não sua causa ou origem.
A “originalidade” dos poemas - tanto no sentido de “origem”, “autoria”,
quanto no de “novidade estética” -, implícita em muitos discursos críticos
que prescrevem o estabelecimento da autoria como indispensável para afir­
mar qualquer coisa válida sobre eles7, é, evidentemente, trabalho e função da
recepção e seus critérios avaliativos particulares. Lembrem-se, entre outros,
a exclusão das obras classificadas como “licenciosas” pelo critério moral da
edição da Academia Brasileira de Letras, em 1923, ou o entusiasmo demons­
trado por elas, a partir principalmente da década de 1970, por interpretações
que fazem do “prazer” e da “desrepressão” métodos e fim. Ambas as interpre­
tações entificam Gregório de Matos como autoria subjetivada, observando-se
que o mesmo valor/moral/ é, num caso, critério de constituição negativa da
legibilidade e, noutro, positiva, segundo duas posições ideológicas adversárias.

5. “Vida do Doutor Gregório de Mattos Guerra, pelo licenciado Manuel Pereira Rabello”. Biblioteca
Nacional, cofre 50, Códice 57 (Col. Carvalho), p. 42.
6. Cf. Hans Robert Jauss,Pourunecsiliétique dela réceplion,Traduil de 1’allemand par Claude Alaillard,
Préface de Jean Starobinski, Paris, Gallimard, 1978, p. 45 (Collection Idées).
7. Cf. Antônio Houaiss, “Tradição e Problemática de Gregório de Mattos”, em James Amado (org,),op.
cil., vol. VII.

31
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Outro exemplo sugestivo dessa dispersão é o das interpretações de Sílvio Jú­


lio, ordenadas segundo o critério central de ‘‘plágio”: assumem previamente
a autoria individualizada dos poemas, para imediatamente desqualificá-los,
e ao seu autor suposto, como secundários e sem valor8.
Linguagem é consciência prática e, pelo critério pragmático deste traba­
lho, os poemas são propostos simultaneamente como o material e o produto
de uma intervenção presente, esta, que neles sedimenta um efeito particular
de sentido, deslocando outras sedimentações particulares. Fazendo-o, reorienta
o sentido das posições discursivas dramatizadas neles, encenando a sua inter­
venção nas práticas discursivas do século XVII, ao mesmo tempo em que en­
cena a contradição do lugar institucional da operação. Não é, por isso, análise
“correta”, “mais verdadeira” ou “verdadeira”, mas outra, cuja particularida­
de é a de propor os poemas conforme regras discursivas de seu tempo e, si­
multaneamente, a de criticar posições críticas “expressivas” e “representati­
vas”, que obliteram a historicidade da prática satírica, quando a efetuam como
exterior à sua própria história, ora como reflexo realista, ora como “ressenti­
mento” psicológico e “oposição” política expressivos. É este critério pragmá­
tico que, evitando substancializar as obras pelo efeito “autoria”, inclui em
sua análise a questão do estilo, historicamente determinada. Com isto, deslo-
ca-se a questão da autoria, considerada anacrônica nos termos romântico-
positivistas, unificadores e psicologistas em que geralmente é proposta.
Pressupondo a concepção romântica do poético como expressão e, por­
tanto, prescrevendo o conhecimento do vivido do Autor, o critério da “origi­
nalidade” - “autoria”, “novidade estética”, variantes como “plágio” - revela-
se anacrônico, no caso, quando se considera o estilo. A poesia engenhosa do
século XVII é um estilo, no sentido forte do termo, linguagem estereotipada de
lugares-comuns retórico-poéticos anônimos e coletivizados como elementos
do todo social objetivo repartidos em gêneros e subestilos. Evite-se o estereó­
tipo: “estereotipada” significa aqui, nem mais nem menos, fortemente regrada
por prescrições de produção e de recepção, não o pejorativo do desgaste dos
usos e redundância. Não é “inventiva” - no sentido rotineiro de “expressão
esteticamente desviante” -, mas engenhosa, aguda e maravilhosa, no sentido
das convenções sociais seiscentistas da discrição cortesã, do gosto vulgar, do
engenho agudo e da fantasia poética. Ao poeta seiscentista nada é mais estra­
nho que a originalidade expressiva, sendo a sua invenção antes uma arte
combinatória de elementos coletivizados repostos numa forma aguda e nova
que, propriamente, expressão de psicologia individual “original”, represen­

8. Cf. Sílvio Júlio, Reações na Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, If. Antunes, 1938.

32
UM N O ME POR FAZER

tação realista-naturalista do “contexto”, ruptura estética com a tradição etc.


Entre tais elementos, a obscenidade está prevista num sistema de tópicas,
articulando-se retórica e politicamente nos poemas segundo gcneros, temas e
destinatários específicos. Categorias como “pessimismo”, “ressentimento”,
“plágio”, “imoralidade”, “realismo”, “oposição nativista crítica”, “antropofa­
gia”, “libertinagem”, “revolução”, que vêm sendo aplicadas por várias críti­
cas desde o século XIX aos poemas ditos da autoria de Gregório de Matos,
podem ter algum valor metafórico de descrição de um efeito particular de
sentido produzido pela recepção. Não dão conta historicamente, contudo, do
seu funcionamento como prática discursiva de uma época que, desde a obra
de Heinrich Wólfflin, o século XX constitui neokantianamente como “barro­
ca”: como categorias analíticas, são apropriadas antes para o desejo e o inte­
resse do lugar institucional da apropriação que propriamente para o objeto
dela. Quando, por exemplo, Sílvio Júlio acusa o “plágio” de Quevedo ou
Góngora nos poemas que assume como sendo de Gregório de Matos, é o pres­
suposto da originalidade romântica que faz com que os tresleia. Quando a
recepção concretista os relê e deles isola procedimentos técnicos, autonomi-
zando-os apologeticamente em função de sua “poética sincrônica” ou “pre­
sente de produção”, a operação se valida heuristicamente, como invenção
poética. Os mesmos procedimentos, deglutidos oswaldianamente, via inter­
pretação da Antropofagia Cultural e do Tropicalismo, que entifica Gregório
de Matos como “precursor”, contudo, embora possam ter algum valor de ana­
logia na descrição do experimental da neovanguarda com a agudeza enge­
nhosa, que aproxima e funde conceitos distantes, ou de argumentação na con­
corrência mercadológica da vanguarda perene contra o não menos perene
stalinismo do realismo socialista, são evidentemente a-históricos, não poden­
do ter a mínima pretensão de interpretação histórica9.
Relacionando-se pragmática e estilo, pois, evidencia-se que “originalida­
de”, nos dois significados principais do termo, “autoria” e “criação”, é crité­
rio duplamentc exterior à poesia do século XVII: nela, a figura individualiza­
da do Autor, no sentido subjetivado do termo, não tem im portância,
rigorosamente falando, a não ser como elemento posterior ao poema, efetua­
do pela sua leitura. Nela, ainda, lembrando-se mais uma vez a combinatória
de tópicas retóricas coletivizadas que a compõem, a originalidade expressiva
não tem lugar. O mesmo critério encontra-se, aliás, na notícia do Licenciado
Rabelo, que informa sobre a ordem das obras compiladas, subordinando-a às
regras do gênero encotniástico e ao decoro da recepção:

9. Cf. Augusto de Campos, Poesia, Antipoesia, Antropofagia, São Paulo, Cortez & Moraes, 1978.

33
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

P or v e n e r a r e e s tim a r as ob r a s d e s t e in s ig n e P oeta as a ju n te i c o m g r a n d e tra b a lh o ,


e d e s v e lo p or as ter o t e m p o d estru n cad as: p o rém , p e lo m e lh o r m o d o as q u ero dar a
p ú b lic o n e s t e s v o lu m e s ; e será o p r im e ir o d e o b ra s sacras, q u e o se u c a tó lic o â n i m o
t a m b é m s a b i a l o u v a r a D E U S n a s u a L i r a e o s d e m a i s ir ã o s e g u i n d o c o n f o r m e a s p e s ­
soas, p r e fe r in d o s e m p r e as d e m a io r grad u ação: e a in d a q u e v ã o m is t u r a d a s as sátiras,
c o m o s e lo g io s , se faz a fim p reciso p or n ã o ro m p er o estilo pon d erad o"'.

A Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregário de Matos e Guerra pas­


sou a ser tomada, com a sua publicação pelo cônego Januário da Cunha Bar­
bosa, em 1841", como um discurso fora do ato que o produziu. Os tempos
eram românticos e a ficção não foi lida como ficção. As tópicas retóricas do
gênero encomiástico “vida” petrificaram-se como vida empírica e o peso des­
ta expeliu, como vivido psicológico, o verossímil como sentido. O texto de
Rabelo não foi lido, enfim, segundo a especificidade da interpretação
seiscentista: desta se conservaram e deslocaram, contudo, as oposições mo­
rais, que no retrato têm articulação simultaneamente retórica e teológica,
compondo-se com elas o moralismo da crítica posterior. Vejam-se exemplos
dessa leitura que, interpretando tópicas retóricas como fato, postula a obra
como expressão, deslocando a função das oposições morais, quando aplica as
oposições como critério de censura e apreciação estética:

N e m a sua e sp o sa e s c a p o u ao seu g ê n io ex tra v a g a n te, p o is q u e d e se sp e r a d a p e lo


s e u d e s m a z e l o e p e l a s s u a s d e s e n v o l t u r a s , b e m f á c e i s d e se n o t a r e m q u a s e t o d a s a s s u a s
c o m p o s i ç õ e s p o é t i c a s , s a i u p a r a a c a s a d e s e u t i o 12.
10

E r a a E s p o s a u m p o u c o i m p a c i e n t e t a l v e z p e l o p o u c o p ã o q u e v i a e m c a s a , e tal
p e lo d i s t r a i m e n t o d e s e u M a r id o , c u ja s d e s e n v o lt u r a s c la ro se p a t e n t e i a m d e s t a s obras;
p o s t o q u e n e m a to d a s se d eva in te ir o c r é d ito , c o m o v e r e m o s p e la ru b r ic a d e cada
u m a : e e n f a d a d a d e u m a e o u t r a d e s e s p e r a ç ã o s a i u d e c a s a , e e n t r o u p e l a d e s e u T i o 13.

10. “Vida e Morte do Doutor Gregório de Mattos Guerra. Escrita pelo Lecenciado Manuel Percyra
Rabcllo”, Obras Sacras e Divinas, tomo I, cofre 50, Códice 56, Seção de Manuscritos da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, pp. 56-57.
11. Cônego Januário da Cunha Barbosa, “Biographia dos Brasileiros Distinctos por Lettras, Armas,
Virtudes etc.”, Revista Trimestral de História e Geographia ou Jornal do Instituto Histórico Geograpliico
Brasileiro. Fundado no Rio de Janeiro sob os auspícios da Sociedade Auxiliadora da Indústria Na­
cional. Debaixo da immediata protecção de S. M. I. o senhor D. Pedro II. Rio de Janeiro, Typographia
de J. E. S. Cabral, abril de 1841, n. 9, tomo III, pp. 333-337.
12. Cônego Januário da Cunha Barbosa, op. cit., p. 334.
13. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida c Morte do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório
de Matos e Guerra”, em James Amado (org.), op. cit., vol. VII, p. 1706.

34
UM N O ME P O R FAZER

A s suas p o esia s correm m an u scritas em 6 grossos v o lu m e s d e ¥, a lg u n s dos q u ais


p o s s u í m o s ; m a s é tal a s u a d e s e n v o l t u r a , q u e n ã o c o n v é m d a r - s e à l u z p ú b l i c a 14.

N o ó c io e m q u e se v iu , por lh e d e se r ta r e m o s p le ite a n te s a ss o m b r a d o s d a sua p e n a


ferin a, e f a lta n d o -lh e a c o m p a n h ia d e m u ito s a m ig o s, q u e ev ita ra m p r u d e n te s o co m -
p r o m e te r e m -s e para c o m in fin ita s p e ss o a s de r esp eito , g r a n d e m e n te ferid a s p e la s su a s
sátiras, n e m s e m p r e d is p a r a d a s so b re v íc io s , m a s tão a r tific io s a s q u e se p r o c u r a v a m c
lia m p o r to d o s, G r e g ó r io r eso lv eu -se a p ereg rin a r p e lo R e c ô n c a v o , até m e s m o para p ô r
e m m a i s s e g u r a n ç a o s s e u s d i a s , q u e já p e r i g a v a m c m m e i o d e t a n t o s o f e n d i d o s . A s u a
m usa d e sin q u ieta c o n tin u o u a converter em in im ig o s àq u eles q u e achava p ro n to s em
a c o l h ê - l o n a d e s g r a ç a ; e e r a ta l o s e u g ê n i o s a t í r i c o , q u e n ã o d u v i d a v a p e r d e r o b o m
a g a sa lh o q u e se lh e fr a n q u e a v a , c o n t a n t o q u e lh e n ã o e s c a p a s s e a o c a s iã o d e fa zer p ú ­
b l i c a s as f a l t a s q u e o b s e r v a v a , o u q u e s o m e n t e se c o n t a v a m , a t a v i a n d o - a s e l e d e c o r e s
tã o e n g r a ç a d a s q u e o s i n o c e n t e s se t o r n a v a m r i d í c u l o s , a i n d a c o n h e c i d a a i n j u s t i ç a d o
m a l i g n o p o e t a 15.

A c o s s a d o d a p o b r e z a , e se m e s p e r a n ç a a lg u m a d e r e m é d io e m u m a terra o n d e
s o m e n t e o te m , para tr iu n fa r da fo rtu n a , q u e m p or estr a d a s de in iq ü id a d e c a m in h a , se
e n t r e g o u o P o e ta a to d o o furor d a su a M u s a , f e r in d o a u m a e o u tr a p arte c o m o raio,
sem p e r d o a r c o m o s e d if íc io s altos a m a tér ia m a is d e b ilita d a . E , n ã o a c h a n d o r e s is t ê n ­
c i a , q u e t a l v e z d e s e s p e r a d o p r e t e n d i a ( n e g a ç ã o f a ta l e m t e m p o s b e l i c o s o s ) , e l e g e n d o
p e r e g r i n a r p e l a s c a s a s d o s a m i g o s , s a i u ao R e c ô n c a v o p o v o a d o d e p e s s o a s g e n e r o s a s .
Por este p a ra íso d e d e le it e s estragava a C itara d e A p o io c o m su a s h a r m o n io s a s c o n s o n â n ­
cias em a ss u n to s m e n o s d ig n o s de tão relevan te estro n d o . L a sc iv a s M u la t a s e to rp es
N e g r a s s e u f a n i z a r a m n o s t r o p o s e f i g u r a s d e tã o d e l i c a d a p o e s i a . M a s q u e m u i t o , s e
q u a n d o n au fraga o b a ix e i, q u a isq u e r B árbaros g a le ia m a m a is p recio sa m erca d o ria .
N ã o q u ero p ersu a d ir q u e a d esesp era çã o lh e o ca sio n o u d ese n v o ltu ra s; m a s d irei q u e do
g ê n i o , q u e já t i n h a , t i r o u a m á s c a r a p a r a m a n u s e a r o b s c e n a s e p e t u l a n t e s o b r a s , e m
tanta q u a n t id a d e c o m o se verá. M a s a p r ó d ig a d ifu s ã o d e m a l a p lic a d o s c o n c e i t u o s o s
d isp ê n d io s n a scia das e n c h e n te s p ro d ig io sa s d a q u ela M u sa , que se m esp e ra n ça de que
seus d e s c u id o s co rreríam na futura e stim a ç ã o , barateava v ersos à c o n ju n ç ã o d o s acasos,
f a c i l i t a n d o l i n g u a g e n s a o g ê n i o d o s s u j e i t o s 16.

Ainda em 1841, escreve Joaquim Norberto de Souza Silva em seu Modu-


laçoens Poéticas Precedidas de um Bosquejo da Historia da Poesia Brasileira:

14. Cônego Januário da Cunha Barbosa, op. cit., p. 335.


15. Idem, ibidem.
16. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida e Morte do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório
de Matos e Guerra”, op. cit., p. 1707.

35
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Sua v id a é u m c o m p le x o d e e x c e sso s e ex travagân cias, e p o rv en tu ra dra m á tica . F oi


p r o d i g i o s o n a s á t i r a , m a s a o c a b o rara d e i x o u q u e d i g n a se ja d e le r - s e : o b s c e n i d a d e s ,
fra ses b o r d a le n g a s a n d a m d e e n v o lta c o m s e u s versos: c o n t u d o s e u e s tilo é s i m p l e s e
corre n te, c ise n to d e ss e s tro ca d ilh o s e an títeses, co m q u e os p o eta s se u s c o n te m p o r â ­
n e o s b o r r if a r a m s u a s o b r a s, p o i s q u e n ã o era para a f e ta ç õ e s , m a s t o d o n a tu r e z a , to d o
sa tírico , se b e m q u e i n f e liz m e n t e u m satírico to d o in d e c ê n c ia . A s sátiras Os Costumes da
Bahia e O Retrato de um Personagem; o s ep igram as O Músico Espancado e O Livreiro Golotão
s ã o a s c o m p o s i ç õ e s q u e l e r - s e p o d e m , q u e a i n d a a s s i m s e n õ e s t ê m q u e se l h e s n o t e 1'.

A partir, principalmente, da inclusão das interpretações de Cunha Bar­


bosa e Joaquim Norberto por Varnhagen, em seu Florilégio da Poesia Brasilei­
ra., de 1850, a moral fez fortuna:

Por fim , m a lq u is ta d o c o m a m u lh e r , d e sa m p a r a d o d os p le itc a n te s , q u e t e m ia m seu


g ê n io e d e sp r o p ó s ito , co n v e r te u -se retirad o a casas d e vá rio s se n h o r e s d o R e c ô n c a v o ,
n u m v a d i o D i ó g e n e s , q u e a b o r r e c i d o d o m u n d o d e t u d o s a t i r i z a v a c o m m o r d a c i d a d e 1*.

P lo n r a v a m -n o to d o s sc ria m cn te; m as, arrebatado d e seu fresco e o e s p a r c id o g ê n io ,


fu g ia d o s h o m e n s c ir c u n s p e c to s , e se in c lin a v a , c o m o na B a h ia , a m ú s i c o s e fo lg a zõ es;
e, s e n d o n a iu r a lm e n t e a ssea d o e g e n til, d e s c o m p u n h a a su a a u to r id a d e v iv e n d o en tre
e s t e s a o f i l ó s o f o 11'.

Em que “vadio Diógenes”, que constitui um Gregório de Matos cínico e


nada dado ao trabalho, segundo a ética burguesa de Varnhagen, traduz o “vi­
ver ao filósofo”, próprio do ócio e liberdade da elite senhorial do século XVII.
Retomando Cunha Barbosa e Norberto, ainda:

D e n e n h u m a u t o r b r a s i l e i r o p o s s u í m o s p o i s m a i s p o e s i a s q u e d e s t e : e e n t r e t a n t o se rá
t a l v e z d e l e q u e m a i o r p o r ç ã o t e r e m o s q u e reje it ar; n ã o t a n t a s p o r i n s u l s a s , c o m o q u a s e t o ­
d a s p o r m e n o s d e c o r o s a s. A in d a a s s im , para n ã o p r iv a r m o s o p ú b lic o d a l g u n s b e lo s tre­
c h o s , e para s e r m o s a n te s fav o r á v e is à m e m ó r ia d o p o eta (q u e só d e s e ja r ía m o s p o d e r e x a l ­
t a r ) , f a z e n d o - o a p a r e c e r e m l u g a r e s , o n d e se d e s c o b r e m a i s c l a r o o s e u e s t r o , l o m o s
o b r i g a d o s a c o r t a r às v e z e s a l g u m a s e x p r e s s õ e s , q u a n d o n ã o v e r s o s o u a té t r e c h o s i n t e i r o s ' 0.029187

17. Joaquim Norberto de Souza Silva, Modulaçoens Poelicas Precedidas de um Bosquejo da Historia da
Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, Typographia Francesa, 1841, pp. 22-23.
18. Francisco Adolfo de Varnhagen, Florilégio da Poesia Brasileira (ou Coleção das mais Notáveis Composi­
ções dos Poetas Brasileiros Falecidos contendo as Biografias de muitos deles, tudo Precedido de um Ensaio
Histórico sobre as Letras no Brasil), Lisboa, Imprensa Nacional, 1850. Reed. Academia Brasileira de
Letras, 1946, 3 tomos. (Cita-se aqui pela reedição, tomo I, p. 73.)
19. Licenciado Manuel Pereira Rabelo,»/), cit., p. 1716.
20. “Não deixaremos uma linha de reticências por cada verso omitido por não nos expormos a ver
alguma vez uma página só de pontinhos. Economizaremos mais espaço convencionando que: 1.

36
UM N O M E P O R FAZER

Não se trata, obviamente, de fazer o processo das leituras de Gregório de


Matos e Guerra: não é este o objetivo deste trabalho, que aqui cita algumas
para evidenciar o critério pragmático da recepção. Boa análise dessas leitu­
ras, com outro enfoque, que tem por eixo a questão do “plágio”, encontra-se
no livro de João Carlos Teixeira Gomes, Gregório de Matos, o Boca de Brasa
(Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual), principalmente o capítulo I, “Um
Poeta no Banco dos Réus”-1.
Vejam-se ainda mais exemplos da constituição de Gregório de Matos por
critérios morais, raciais, psiquiátricos, nacionalistas:

M a s s e g u in d o os d ita m e s de sua n atu ral im p e r tin ê n c ia h a b ita v a os e x t r e m o s da


v e r d a d e c o m e s c a n d a lo s a v ir tu d e , c o m o se n u n c a h o u v e r a m d e a c a b a r as s i n g e l e z a s da
p r i m e i r a i d a d e ; e b e m q u e se c o m u n i c a v a c o m o s d o u d o s d a q u e l a p r o d i g i o s a c h u v a ,
n u n c a se r e s o lv e u a m o lh a r a c a b e ç a , c o m o o d iz e x p r e s s a m e n t e e m seu lugar; e d esta
c o n t u m á c i a lh e n a s c i a m o s q u e b r a d o u r o s dela: n e m h a v ia lis o n j a q u e f o m e n t a s s e as
d u r e z a s d a q u e l e d e s e n g a n o 22.

N ã o era p o r é m G r e g ó r i o d e M a t o s h o m e m q u e r e n u n c i a s s e s e u s a n t i g o s h á b i t o s , e
não havia v a n ta g e m q u e lh e fizesse d esistir d o m a lig n o prazer de la n ça r u m e p ig ra m a .
[...] e , d o m i n a d o p e l a f u n e s t a p a i x ã o d e f a z e r rir, d e s p r e z a v a t o d o s o s r e s p e i t o s h u m a ­
n o s 23.

D is c o r d a n d o d o resp eitá v el p a recer d o cô n e g o J an u ário a c im a c ita d o , p e n s a m o s


q u e m u it o lu craria a n o ss a litera tu ra co m a p u b lic a ç ã o d as ob ras p o é t ic a s d e G r e g ó r io
d e M a to s in c u m b i n d o - s e u m d i l ig e n t e ed ito r d e e x p u r g á -la s d a s o b s c e n id a d e s q u e as
d e t u r p a m 24.

L o g o na u n iv e r sid a d e c o m e ç o u G reg ó rio d e M a to s a d ar as p ro v a s d o seu p o é tic o


e n g e n h o : n ã o sa b ia t o d a v ia d e s e n h a r c e n a s s u b l i m a d a s e m d e l i c a d o s q u a d r o s; n ã o era
a sua p o e sia d e c o r e s c e le s te s , d e fo r m a a n g é lic a , e filh a da im a g in a ç ã o e d o s e n t im e n to ;
a s e u s o u v i d o s n ã o m u r m u r a v a m o s rios, n ã o d e s c a r n a v a m o s p a s to r e s , n ã o s o n h a v a
m e n e a v a m as árvores; n ã o t in h a m as flores a ro m a , a n a tu r e z a , e n ã o se m a t i z a v a m o s

Quando sc omita um ou mais versos, que deviam completar a rima com outros que ficam, dar disso
sinal no verso anterior aos omitidos [...] 2. Quando num verso se suprima alguma palavra, deixar-
lhe tantos pontinhos quantas as letras omitidas [...] 3. Quando se omitam quadras, décimas, etc.
inteiras, supri-las só pelo sinal(.-.)", em Varnhagen, op. cil., p. 75.
21. João Carlos Teixeira Gomes, Gregório de Maios, o Boca de Brasa (Um Estudo de Plágio e Criação
Interlextual), Petrópolis, Vozes, 1985.
22. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos
e Guerra”, em James Amado (org.), op. cil., p. 1700.
23. Cônego Doutor Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, Curso Elementar de Liueraiura Nacional, 2.
ed. melhorada, Rio de Janeiro, Livraria de B. L. Garnier, 1883, p. 204.
24. Idem, p. 208.

37
A SÁTI RA E O E N G E N H O

c a m p o s de v erd u ra , e n ã o soía ser o v e n to m e n sa g e ir o de am ores; para ele n ão fa ceira v a m


as b r a n d a s a u r a s , e n e m a s c r i a ç õ e s d a t e r r a e l e v a v a m o s s e u s h i n o s d e l o u v o r , e n t u s i a s ­
m o e g r a tid ã o para a q u e le E te r n o S e r q u e as h avia p r o d u z id o ; n ã o tin h a a sa s o e n g e ­
n h o , v o z e s s o n o r a s a r e lig iã o , e c o e t e r n o e im o r ta l o e s p ír it o d iv in o : era p ara e le a p o e sia
c o m o a terrível N ê m e s i s , arm ad a d e in st r u m e n t o s d e ca stig o e q u e a ço ita v a a to d o s q u e
c o m d e sa g r a d o a v ista v a m os seus o lh o s, ou a q u em qu eria a p lica r o fogo d o seu ó d io , ou
d o s s e u s c a p r ic h o s : n ã o via es tr e la s n o c éu , b o n d a d e n o s h o m e n s , e n e m m a g n if ic ê n c ia
e a m o r na n a tu r e z a ; c o n v i n h a - l h e e m e r e c ia - lh e a a t e n ç ã o s o m e n t e o q u e era m a u e
rid ícu lo ; e se lh e fa lta v a a r e a lid a d e, a im a g in a ç ã o lh e se rv ia , para fa n ta siá -la e
d ese n v o lv ê -la . F o lg a v a G regório d e M a to s d e en co n tra r d e fe ito s n os h o m e n s ou nas
c o u s a s , d e c e n s u r á - l o s , e e x a g e r á - l o s ; a l e g r i a v i v a , b u r l e s c a e f a c c i o s a s a l p i c a v a t o d a s as
s u a s c o m p o s i ç õ e s ; d o m i n a o e s p í r i t o e m t o d a s as s u a s o b r a s , o e s p í r i t o p o r é m d o ma!...-’5

[...] r e l e s b o ê m i o , q u a s e l o u c o , s u j o , m a l v e s t i d o , a p e r c o r r e r o s e n g e n h o s d o R e c ô n ­
c a v o , d e v io la ao la d o , to c a n d o lu n d u s e d e s c a r n a n d o p o e s ia s o b s c e n a s para regalo,
n a t u r a lm e n t e , d o s d e v a s s o s e e s tú p id o s M e c e n a s da roça q u e lh e n u tr ia m a g u lo d ic e
se n il. O fa u n o d e C o im b r a , e m ú ltim a a n á lise , d e g e n e r a v a n o v e lh o sá tiro d o m u la -
t a m e 26.
52

O v ila n a z A r istó la n e s das m ulatas, u m d esses avani-coureurs d a s n a c i o n a l i d a d e s 27.

[...] u m a a l m a d e v i t r í o l o , u m c a r á t e r d e v e l h a s o g r a r a n c o r o s a e m e x e r i q u e i r a , u m
e s p ír ito e m q u e h a v ia m a is arestas q u e facetas. N ã o é e x c e s s iv o c o m p a r á -lo a u m a b e x i­
ga d e ícl. M a d r a ç o p o r ín d o le , p a ra sita v it a líc io , d e v o r o u c i n i c a m e n t e o p ã o a lh e io , q u e
n ã o l h e s a b i a a b s o l u t a m e n t e a l á g r i m a s c o m o s o u b e a o p l a n g i t i v o D a n t e 28.

[...] u m n e r v o s o , q u i ç á u m n e v r ó t i c o , u m i m p u l s i v o , u m e s p í r i t o d e c o n t r a d i ç ã o e n e g a ­
ç ã o , u m m a l c r i a d o r a b u g e n t o e m a l é d i c o 29.

As Obras Completas de Gregório de Matos, da Academia Brasileira de Le­


tras30, tomam também como poemas efetivos de um indivíduo Gregório de
Matos o que foi resultado de precária unificação operada no século XVIII,

25. J. M. Pereira da Silva, Os Varões Illuslres do Brazil durante os Tempos Coloniaes, Paris, Franck
Guillaumin, 1X59, tomo I, pp. 160-161.
26. T. A. Araripe Júnior, Gregório de Mattos, 2. ed., Rio de Janeiro, Paris, Garnier, 1910, p. 55.
27. Euclides da Cunha, “Carta a Araripe Júnior (Lorena, 12.3.1905)”, em Obra Completa, Rio de Janei­
ro, Aguilar, 1966, vol. II, pp. 625-627. Devo a lembrança da existência desta carta a João Roberto
Gomes de Faria, a quem aqui agradeço.
28. Agripino Grieco, Evolução da Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, Ariel, 1932, pp. 14-15.
29. José Veríssimo, “Gregório de Matos”, em História da Literatura Brasileira, Introdução de Heron de
Alencar, 4. ed., Brasília, Ed. da Universidade de Brasília, 1963, p. 72.
30. Gregório de Matos, Obras, ed. Afrânio Peixoto, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras,
1923-1933, 6 vols. (I - Sacra; II - Lírica; III - Graciosa; 1V-V- Satírica; VI - Última).

38
UM NO ME POR FAZER

entre outras. Produzem o produzido e censuram-no, fazendo pela exclusão da


obra dita “licenciosa” o que o licenciado Rabelo já fizera no registro da apolo­
gia: transformam o nome Gregório de Matos em "poeta lírico”, ei-lo “sacro”,
“lírico”, “gracioso”, “satírico” e “último”:

Da Licenciosa, imprópria para a tipografia, tiraram-se duas cópias datilografadas,


que se guardam nos reservados da Biblioteca Nacional e da Academia Brasileira, à dis­
posição dos que tenham o gosto (ou mau gosto) por semelhante gênero literário31.

A sina do epônimo é admitir outras nomeações que o sedimentam como


sinônimo, à imagem e semelhança do lugar institucional da sua apropriação;
lembrem-se ainda outras traduções, lugares. Interpretações mais recentes,
muito difundidas por faculdades de Letras a partir principalmente da edição
francesa e traduções brasileiras dos trabalhos de Mikhail Bakhtin sobre a sá­
tira menipéia, o skaz e a paródia, têm hipostasiado a última como gênero su­
premo da sátira, atribuindo com isso outras virtudes a Gregório. Confundin­
do-se “paródia” e “sátira menipéia”, desloca-se tanto Menipo de Gadara quanto
Yarrào*3. nos quais a sátira menipéia é simplesmente a mistura de prosa e
verso, buscando-se à poesia do século XVII o que possa validar o desejo e o
interesse atuais do intérprete. Pela generalização do valor “oposição crítica”
atribuído à paródia, costuma-se erigir Gregório de Matos como homem
libertário dos textos sempre supostos paródicos, porque satíricos. Encarnando-
se no século XVII como desejo do intérprete e reencarnando-se no século XX
como autor barroco e liberal “progressista”, crítico do oficialismo das insti­
tuições dominantes, o Espírito nacional-popular circula em metempsicoses
piedosas. Nessa circulação espiritual, materializa-se pela generalização da
paródia e, ainda, pela plasmação a-histórica da divisão retórica dos estilos -
alto, médio, baixo - nas classes sociais, de modo que o estilo alto da lírica e da
épica, entendido como sempre sério e oficial, seja mesmo dominante, e o bai­
xo do cômico e do tragicômico, contituído como risonho e desrepressor, ape­
nas dominado... Incorporação de Bakhtin que não se eleva ao que ele, conce­
dendo embora a oposição de “cultura oficial” c “cultura popular”, conceitua
como mediação, isto é, contradição na “circularidade da cultura”33:

31. Rodolfo Garcia, nota de pé de página em Francisco Adolfo de Varnhagen, op. cit., tomo I, p. 76.
32. Cf. Al. Varro, Vaironis Menippearum reliquiae, em Pelronii Salirae et Liber Priapeorum JAdicctae sunt
Varronis ei Senecae salirae similesque reliquiae), ed. Buecheler, 3. ed., Berlin, Wcidmann, 1895.
33. Mikhail Bakhtin,Idoeuvre de FrunçeèRabelais et Ia cullurepopulaire au Afo.vcH.dtjt’et sotts laRenansanée,
Paris, Gallimard, 1970. Cf., também do mesmo autor, com o nome de Voloshinov, Le marxisme et la
philosophie. du langage, Paris, Alinuit, 1977; e La poétique dc Dosloievski, Paris, Seuil, 1970.

39
A SÁTI RA E O E N G E N H O

D e s t a f o r m a , a fa la d o p o d e r , o c ó d i g o poéúco postiço e importado, a t r a v é s da in stigan te


m o r d a c i d a d e d a s á t ir a g r e g o r i a n a , a f lo r a s u a f a c e d e s c o n h e c i d a e d i s s i m u l a d a : o artificia-
lismo mecânico e antinatural, a e m p o la ç ã o sem viço, o p r e c io sism o ex a u sto , autoritário e
u n ila tera l c o m o o reverso da s u b lim id a d e con sagr ada, d o ideal d e p o e t ic id a d e e x e m p la r e
a b so lu tiza n te. E, enquanto paródia da linguagem do poder, n o d e s m a s c a r a m e n t o d o ríctus
m e c â n ic o , d o a u to m a t is m o su b jacen te à n o rm a tiv id a d e co n sagrad a, a p oesia d e G regório
v a i c o n s t r u i n d o , a tr a v é s d e s u a í n d o l e m e t o n í m i c a , a r e j e i ç ã o progressiva d e s t e m esm o po­
de r, c o m o o p ç ã o d e v i d a , c o m o s i s t e m a d e p r o c e d i m e n t o s , c o m o v i s ã o d e m u n d o " .

G r e g ó r io , se m p erceb er , retrata a situ a ç ã o e f e t iv a m e n t e c o n s t a n t e e d r a m á tic a d o


artista brasileiro dos p rim eiros sécu los, enceguecidopelos valores europeus, s i t u a ç ã o q u e se
p e r p e t u a d e c e r t o m o d o a t é h o je : a d e s u b m e t e r - s e a o m o d e l o e s t r a n g e i r o , t i d o c o m o
m e l h o r e m a i s p e r f e i t o 35.
43

Sedimenta-se assim um Gregório de Matos cujo “[...] furor intrépido im­


perava dominante na massa sanguinária”36, interpretado pelos humores da
arte de prudência de Rabelo; um Gregório de Matos “[...] iniciador da nossa
poesia lírica de intuição étnica”, inconformista simbiótico e desbocadíssimo
crítico, uma vez que “[...] o seu brasileiro não era o caboclo, nem o negro, nem
o português; era já o filho do país, capaz de ridicularizar as pretensões separa­
tistas das três raças”37; um Gregório de Matos vagamente anarquista, misto
de vanguarda do proletariado, intelectual orgânico e libertinagem intelectual
e sexual, na paródia do estilo alto da cultura oficial38; um Gregório de Matos
hedonista, em versão freyriana da antropologia doce-bárbara39; um Gregório
de Matos concretista-oswaldiano, devorador do osso duro de Quevedo, da
pedraria aguda de Góngora e Camões, salpicando o moquém com o tempero
dos localismos bantos e tupis e o molho arcaizante de Garcia de Resende40;

34. Angela Maria Dias, O Resgate da Dissonância - Sátira e Projeto Literário Brasileiro, Rio de Janeiro,
Antares/INL, 1981, p. 77 (grifos meus).
35. Melânia Silva de Aguiar, “ ‘Vitalismo’ e ‘Abertura’ no Barroco Brasileiro”, O Eixo e a Roda, Revista
de Literatura Brasileira, Belo Horizonte, UFMG, nov. 1986, vol. 5, p. 92 (grifos meus). Para um
Gregório deleuziano, passado pelo simulacro, cf. p. 122.
36. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos
e Guerra”, em James Amado (org.), op. cil., vol. VII, p. 1718.
37. Sylvio Romero, História da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/INL, 1980,
vol. 11, pp. 373-379.
38. Cf. Angela Maria Dias, op. cil.
39. A citação do soneto Triste Bahia, ó quão dessemelhante por Caetano Veloso em seu LP Trama, de
1972, já tropicalizava Gregório alegoricamente. Hoje, ele retorna de seu exílio, sendo proposto
como exemplar típico da “baianidade”.
40 Augusto de Campos, op. cil.

40
UM N O ME P O R FAZER

um Gregório de Matos afro, à imagem de facções do movimento negro41; um


Gregório de Matos famosíssimo, nunca lido, invisível e interdito, obsceno,
pornográfico, impróprio; um Gregório de Matos sintético, das seletas para
uso colegial, catolicíssimo e padresco, do mesmo “Pequei, Senhor, mas não
porque hei...”, oposto exemplarmente ao outro Gregório de Matos, exagera­
do, lúdico, amaneirado e preciosíssimo de “Ardor em firme coração...”,
paradigmas do Conceptismo e do Cultismo do Estilo Barroco que se caracte­
riza pelo Dualismo e Angústia do Homem Barroco etc. E há mais este Gregório
de Matos: não é “mais verdadeiro”, nem sequer “verdadeiro”. Apenas evita o
anacronismo de noções interessadas como “expressão”, “ressentimento”, “pes­
simismo”, “nacionalismo”, “realismo”, “excesso”, “machismo”, “raça”, “an­
tropofagia”, “revolucionário”, “reacionário”, “libertinagem”, “moral” e simi­
lares, aplicadas ao estudo da poesia do século XVII português produzida no
Brasil e que hoje se conhece por “barroca”42.

A oposição “virtude/vício” da Vida de Rabelo divide a natureza humana


e o artifício poético do personagem Gregório de Matos e Guerra em pares de
oposições como “prudente/imprudente”, “lírico/satírico”, “conveniente/in-
conveniente”. As antíteses são construídas em tópicas retóricas muito tradi­
cionais do retrato biográfico encomiástico, segundo preceitos do gênero de­

41. Em fevereiro de 1987, o autor deste trabalho teve o privilégio de assistir, em Salvador, à última ence­
nação de Gregório de Maios de Guerras, peça montada com fragmentos da poesia atribuída ao poeta. Em
releitura afro, numa intersecção com episódios contemporâneos do quilombo de Palmares, e narrada,
principalmente, pelo foco do herói negativo Gregório, no momento de sua partida para o degredo em
Angola, a peça se faz como Jlashback da Bahia colonial, na linha proposta por James Amado em sua
edição das obras atribuídas ao poeta: “crônica do viver baiano seiscentista”. Cf. Gregório de Maios de
Guerras, Roteiro de Márcio Meirelles. Textos de Gregório de Matos e Guerra, J. C. Capinam, Myriam
Fraga, Cleise Mendes, Aninha Franco, Salvador, Fundação Gregório de Mattos, dezembro de 1986.
42. Outros estudos devem ser lembrados aqui. Entre eles, a análise de Segismundo Spina. Cf.
Segismundo Spina, Gregório de Matos, São Paulo, Assunção, 1945. Do mesmo autor, “Monografia
do Marinículas”, Revista Brasileira, Rio de Janeiro, ABL, jun.-set. de 1946; “Gregório de Matos”,
em A Literatura no Brasil (Introduções, Barroco, Neoclassicismo, Arcadismo), dir. Afrânio Coutinho,
Rio de Janeiro, Sul Americana, 1968; e “Gregório de Matos. A Língua Literária no Período Colonial:
o Padrão Português”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, USP, 1980, n. 22, pp. 63-
75. Mais recentemente, o estudo de João Carlos Teixeira Gomes, Gregório de Matos, o Boca de Brasa,
analisa o intertexto medieval e renascentista da tradição gregoriana. Cf. ainda a excelente biogra­
fia do poeta escrita por Fernando da Rocha Peres, Gregório de Manos e Guerra - Uma Revisão Bio­
gráfica, Salvador, Edições Macunaíma, 1983. Do mesmo autor, Gregório de Mattos e a Inquisição,
Salvador, Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, n. 128, 1987; eA Família
Mattos na Bahia do Século XVII, Salvador, Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da
Bahia, n. 132, 1988. Sou grato ao autor pelo envio dessas obras.

41
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

monstrativo, pelos quais se deve falar da origem do retratado, de sua pátria e


cidade, de seus pais e familiares, de seu sexo, dc sua educação, de seus hábi­
tos, de seu nome, de suas inclinações e aspecto etc. Os lugares de louvor, que
Rabelo desenvolve um a um, recebem o tratamento descritivo - e assim nar­
rativo - das ações e dos exemplos que mimetizam o lugar de uma tempora-
lidade vivida e o de um espaço dela. Os mesmos pares opositivos de virtudes
e vícios atravessam ações e descrições, amplificando-as como contraste de
atos bons e maus. As ações principais do personagem retratado são intercala­
das, ainda, por ornamentos, peripécias, cuja função aristotelicamente deter­
minada é a de sensibilizar o sentido geral da ação, tornando-a evidente ou
pictórica para a recepção. Simultaneamente, intervém ponderações pruden­
tíssimas da enunciação sobre o temperamento do personagem, um “sangui­
nário”, segundo a antiga doutrina dos humores com que a medicina de então
distinguia os tipos humanos em melancólicos, fleumáticos, sangüíneos e co­
léricos. As ponderações recuperam hiperbolicamente ações, peripécias e
exemplos numa economia providencialista, alegoria de uma destinação su­
perior da vida do personagem. A metaforização continuada de tal destinação
unifica as antíteses de “virtude/vício” no estilo alto, explícito como virtude
humana e poética das palavras do título: “excelente poeta lírico”. A mesma
oposição moral e sua exageração antitética constituem um verossímil retórico,
assim, como um discurso que toma por matéria de sua mímesis a legenda oral
dos causos atribuídos à referência do retrato, o homem Gregório, submeten­
do tal matéria às tópicas da invenção epidítica. Proposta como introdução às
obras compiladas, a Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos
e Guerra opera em duplo registro: propõe um sentido escatológico para as
“impertinências” que sc vão ler, enquanto lhes fornece uma orientação refe­
rencial, como memória que as recorda do mesmo homem cujo nome as unifi­
ca com a fama de “infame”. Ainda neste sentido, é útil lembrar que compor­
tamentos e causos atribuídos por Rabelo na Vida e nas didascálias a seu
personagem são encontráveis em outros discursos do século XVII, porque topoi
retóricos tradicionais, como o da falta de pão em casa, o da esposa impaciente
e desesperada, o da condução da esposa amarrada de volta ao lar, o dos hábi­
tos perdulários do poeta, o da facécia do “boi de um corno só”, o da morte
arrependida do poeta etc.
Nas contorções das hipérboles e dos hipérbatos com que ornamenta o
personagem de virtudes morais e intelectuais que o fazem aristotelicamente
“excelente” como poeta, mas “infame” como homem, Rabelo opera com
dicotomias escolásticas, lugares-comuns também na cultura ibérica renas­
centista, da vontade e da razão, do ato interior da vontade e seu fim, do ato

42

1
UM NO ME POR FAZER

exterior e seu objeto, da forma e da matéria etc. As dicotomias montam um


personagem movido o tempo todo pela visão do Bem e da racionalidade da
ordem sem atavios, mas com ações e palavras de uma vontade excessiva. For­
malmente virtuoso, materialmente vicioso: como aquele que sabe o que é o
honesto, mas que não o faz, por carência, ou que só o faz, por excesso:

Era o D o u t o r G reg ó rio de M a to s acérr im o in im ig o de toda a h ip o c r isia , v irtu d e ,


q u e se p u d e r a , d e v ia m o d e ra r, a t e n d e n d o a o s c o s t u m e s d o s p r e s e n te s s é c u lo s , e m q u e o
m a is r e tir a d o A n a c o r e ta se e n fa stia da v e r d a d e crua. M a s s e g u in d o os d i t a m e s d e sua
n a t u r a l i m p e r t i n ê n c i a h a b i t a v a o s e x t r e m o s d a v e r d a d e c o m e s c a n d a l o s a v i r t u d e 43.

A interpretação propõe o personagem como cativo do excesso: motivados


pelo zelo, seus atos têm a falta viciosa das paixões. Estando o bem, neo-
escolasticamente, no acordo com a razão, a moderação é a virtude intelectual
que pauta as ações. Rabelo compõe a memória de Gregório no topos da tradi­
ção greco-latina reciclada nos séculos XVII e XVIII, o da mediocridade ou
meio-termo, como critério do bem moral e político. Como adequação das ações
às contingências, o correlato político do meio-termo é a prudência. Por pa­
drões do mesmo século XVII de que o texto do Licenciado é tributário, o bio­
grafado rompe com as exigências do decoro de seu grupo, simultaneamente
branco, proprietário, católico, fidalgo, letrado, por misturar-se com o vulgo.
Mais: dotado embora das virtudes da inteligência e da ciência, que Rabelo
ilustra hiperbolicamente com várias anedotas, passando de “[...] uma corte
de sábios que o respeitavam grande, a uma colônia de presumidos, que o abor­
reciam crítico”44, Gregório não tem a recta ratio agibilium45, a reta razão das
coisas agíveis, a prudência, nem a virtude moral da temperança, devido ao
excesso de seu juízo. E a sua uma ação sem razão, abandonada às inclinações
do gosto sem as ponderações do juízo. Melhor, seguindo apenas as pondera­
ções do juízo, mas exacerbado como “inimigo de toda a hipocrisia” que, na
obstinação de verdade e justiça a todo custo, torna-se excessivo e pior: “[...]
como aquele que olhou para o sol, que qualquer sombra lhe parece abismo,
assim a ele, com a vista próxima de Lisboa, se representavam infernos as
confusões da Bahia, por indignas, e cavilosamente bárbaras”46.

43. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, “Vida e Morte do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório
de Matos e Guerra”, em James Amado (org.), op. cit., vol. VII, p. 1700.
44. Idem, p. 1701.
45. Santo Tomás de Aquino, Sumrna theologica I.IIa., 57,5, ad. Resp. em The Summa Theologica of Saint
Thomas Aquinas, translated by Fathers of the English Dominican Province, London/Chicago,
Enciyclopaedia Britannica, 1952, 2 vols.
46. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, op. cit.y p. 1701.

43
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Sempre nas tópicas de Rabelo, Gregório diz muitas coisas sem inteira in­
formação, arrependendo-se depois como bom católico. Também a inteireza de
seu ânimo patrocina somente a razão em matérias cíveis, conforme a oposição
justiça bastarda x justiça que, na compilação, o poeta descarna numas décimas
contra a Cidade. Sua inimizade de “toda a hipocrisia” se evidencia mais uma
vez quando se recusa a tomar as ordens sacras de que depende a conservação dos
cargos vantajosos que obtém ainda em Portugal. Ao arcebispo responde que;

f...l n ã o p o d i a v o t a r a D e u s a q u i l o q u e e r a i m p o s s í v e l d e c u m p r i r p e l a f r a g i l i d a d e d e
sua n a tu re za ; e q u e a troco de n ã o m en tir, a q u e m d ev ia in te ir a v e r d a d e , p erd ería to d o s
o s t e s o u r o s e d i g n i d a d e s d o m u n d o . Q u e o s e r m a u s e c u l a r n ã o era t ã o c u l p á v e l e e s c a n ­
d a l o s o c o m o s e r m a u s a c e r d o t e 47.

O gosto era ainda, segundo critérios ético-retóricos da racionalidade de


Corte vigente no momento em que Rabelo escrevia sua notícia, índice de uma
inclinação passional do ânimo perdido no sensível, diferentemente do juízo,
elaboração intelectual das ocasiões e árbitro do decoro48. No texto, o gosto se
produz nas ações extravagantes do personagem, como aquela de mandar des­
pejar os três mil cruzados de uma venda de propriedade a um canto da casa,
donde se retira para o gasto; a de escolher a companhia turbulenta de um jo­
vem poeta português, Tomás Pinto Brandão49; a de abandonar escandalosamen­
te a esposa dona Maria dos Povos e a de exigir, quando quer voltar para ele
depois que o larga, que venha amarrada, publicamente conduzida por capitão-
do-mato como negra fugida; a de fazer uma viola de cabaça com que no “[...]

47. Idem, p. 1702.


48. Cf. Baltasar Gracián, El Discreto, em Obras Completas, Madrid, Aguilar, 1967. Cf. também Emanueie
Tesauro, II Giudicio, em II Cannocchiale Aristotelico, scelta a cura di Ezio Raimondi, Torino, Einaudi,
1978; Robert Klein, “Giudizio et Gusto dans la ihéorie de l’art du Cinquecento”, em La forme ei
Pintelligible (Ecrils sur la Renaissance el Vart moderne), Paris, Gallimard, 1970 (Coleção “Idées”); José
Antonio Alaravall, La Cultura dei Barroco (Analisis de una Estniclura Histórica), 3. ed., Barcelona,
Editorial Ariel, 1983, p. 222.
49. Cf. “Procurei ir-me chegando, / A um Bacharel Mazombo; / Que estava para a Bahia, / Despacha­
do, e desgostoso, / De lhe não darem aquilo, / Com que rogavam a outros”, em Francisco Adolfo de
Varnhagen, Florilégio da Poesia Brasileira, op. cil., tomo I, p. 73. Cf. também licenciado Manuel
Pereira Rabelo, op. cil., p. 1699. Sobre Tomás Pinto Brandão, cf. Alfredo Vale Cabral, “Sátiras
Inéditas de T. Pinto Brandão. Gusmão, o Voador, Ridiculizado”, Annaes da Bibliotheca Nacional do
Rio de Janeiro, dir. Ramiz Galvão, Rio de Janeiro, Typ. G. Leuzinger e Filhos, 1876, vol. I. Cf. ainda
Poesias Eróticas e Inéditas de Thomaz Pinto Brandão; e, entre outros Escripios Jocosos, e Admiravelmente
Chistosos Discursos e Cartas dofr. Pedro de Sá, o Frade mais Engraçado e Mordaz do Século XVIII, Seção
de Manuscritos, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Cf. também Discursos e Documentos Vários e
Fábulas de Ezopo Moralizadas e Outras Obras e Vários Autores, 1739, Seção de Manuscritos, Bibliote­
ca Nacional do Rio de Janeiro.

44
UM N O ME POR FAZER

paraíso de deleites estragava a Citara de Apoio com suas harmoniosas conso­


nâncias cm assuntos menos dignos de tão relevante estrondo”50etc.
Grcgório de Matos e Guerra é produzido por Rabelo como confuso e irra­
cional (e, somente enquanto tal, como livre): escravo de si, as paixões o incli­
nam segundo a vulgaridade. Não por acaso tanto mulato pernóstico cioso de
suas sedas e veludos implica com o colete de pelica âmbar do Doutor. O gosto
é alinhavado, no avesso, pela integridade moral do seu juízo excessivo, nele
irredutível como “acérrimo inimigo de toda a hipocrisia”: “O gênio satírico [...]
não há dúvida que de justiça providencial se devia ao desgoverno destas con­
quistas, onde cada um trata de fazer a sua conveniência, gema quem gemer”51.
O poeta é excessivo, uma vez que sua mesma vida não é o exemplo das
virtudes cuja ausência vitupera em tantos: intemperante, imprudente, injus­
to. Falta-lhe o juízo - por excesso dele, conforme Rabelo -, o mesmo juízo
excessivo com que desqualifica os netos de Paraguaçu, reduzindo-os à mate­
rialidade da moqueca e da mandioca puba, quando os põe para fora da ordem
da cultura52. A mesma indignação satírica, embora vitupere os vícios da Ci­
dade perdida no luxo e na luxúria, é também viciosa como paixão.
As hipérboles de Rabelo formam sistema, evidentemente: porque segue os
ditames de sua “natural impertinência”, Gregório está nos “extremos da ver­
dade” com “escandalosa virtude”. Lugares para o excesso, caracterizam um
infame, bem à moda clássica, interpretado por Rabelo com o providencialismo:
Deus escreve reto por linhas tortas e, no infinito insondável da sua vontade, os
extremos se tocam. A crítica posterior, levada pela superstição positivista con­
tra a interpretação religiosa, obscureceu a alegorização do texto, patenteando
nele o moral dos vícios do personagem interpretado como homem53.
Se as paixões estão na natureza, a moderação prescrita como virtude é a
do decoro. As paixões não são informais, contudo, pois sua codificação é retó­
rica. Enquanto Cícero usa o decoro tecnicamente no De oratore, de grande
circulação nos séculos XVI e XVII, escrevendo que depende da sabedoria e da
dignidade pessoal encontrar o momento conveniente para fazer rir com as

50. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, op. cil., p. 1707.


51. Idem, p. 1701.
52. Cf. “Animal sem razão, bruio sem fé, / Sem mais Leis, que as do gosto, quando erra” (OC, IV. p. 841).
53. A crítica contemporânea insiste na biografia, propondo o homem Gregório como critério da obra:
“Quando se pensa que ele próprio, segundo parece, não rejeitava a prática de, pelo menos, uma
larga parte dos vícios e pecados que condena nos outros; quando se percebe a liberdade de compor­
tamento e de expressão que a si próprio concedia, concluímos desde logo que não se trata de um
moralista (nem mesmo no sentido literário da palavra), mas, ames, de uma testemunha mais ou
menos divertida e de um hedonista mais ou menos vulgar". Cf. Wilson Martins, História da Inieli-
gência Brasileira, 2. ed., São Paulo, Cultrix, 1977, vol. 1 (1550-1794), p. 226.

45
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

paixões, sendo preciso o conhecimento das regras para tanto, porque “a natu­
reza é senhora”54, o Licenciado o apropria moralmente, relendo o decoro neo-
escolasticamente: o homem Gregório não consegue em vida, devido à “intei­
reza indiscreta danosa das conveniências”55, a sindérese56. E pela mesma
natureza, contudo, que sua falta de prudência é interpretada como Presença e
que o excesso é adequação. Nesta translação do efeito de sentido obsceno dos
poemas para sua Causa Primeira, Rabelo escreve que, embora quisesse mode­
rar o humor sanguinário contra os desacertos do tempo, castigado já dos flagelos
da peste e da fome, Gregório não o podia:

[...] e n ã o é d e a d m i r a r q u e , d i s p a r a d a s d o t r o n o d a d i v i n a J u s t i ç a a q u e l a s d u a s l a n ç a s d e
s u a ir a, s e g u i s s e a t e r c e i r a c o m t ã o e s q u i s i t o g ê n e r o d e g u e r r a e m u m h o m e m q u e d e s u a
M ã e u n ic a m e n t e t o m o u e s te a p e lid o en tre o u tr o s partos. E la o d e u a p e lid a n d o -s e da G u e r ­
ra; e l e o f o i s e m a q u e l a p r e p o s i ç ã o da, p o r s e r a m e s m a g u e r r a , e n ã o o i n s t r u m e n t o d e l a 57.

Substantiva, a guerra no Guerra é, pois, providencial, escolasticamente ins­


crita na ordem das coisas e figurada profeticamente em seu nome. No epônimo,

54. M. T. Cicero, De oratore, texte établi, traduit et annoté par François Richard, Paris, Gamier, s/d., pp. 290-291.
55. Cf. Diego Saavedra Fajardo, Empresas Políticas (Idea de un Príncipe Político-Cristiano), ed. preparada
por Quintin Aldea Vaquero, Madrid, Nacional, 1976, 2 vols., Empresa by XXVIII: “Es la prudência
regia y medida de las virtudes; sin ella pasan a ser vicios. Por esto tiene su asiento en la mente, y las
demás en la voluntad, porque desde alli preside a todas. [...] Esta virtud es la que da a los gobiernos
las tres formas, de monarquia, aristocracia y democracia, y les constituye sus partes proporciona­
das al natural de los súbditos, atenta siempre a sua conservación y al fin principal de la felicidad
política. Ancora es la prudência de los Estados, aguja de marear dei príncipe: si en él falta esta
virtud, falta el alma dei gobierno. [...] Virtud es propia de los príncipes, y la que más hace excelente
al hombre; y así, la reparte escasamente la Naturaleza. A muchos dió grandes ingenios, a pocos,
gran prudência. Sin ella, los más elevados son más peligrosos para el gobierno, porque pasan los
confines de la razón y se pierden; y en el que manda es menester un juicio claro que conozca las
cosas como son, y las pese y dé su justo valor y estimación. Este fiel es importante en el cual tiene
mucha parte la Naturaleza, pero mayor el exercício de los atos”. Cf. também Charron, “La sagesse”,
em Henry Méchoulan (org.), VÉlal baroque - 1610-1652, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin,
1985, p. 193: “Pour garder justice aux choses grandes il faut quelquefois s’en détourner aux choses
petites, & pour faire droict en gros il est permis de faire tort en détail”.
56. “Quand notre conscience nous raproche le mal que nous avons fait, cela s’appelle syndérèse ou
remords de conscience.” Bossuet, Connaissance de Dieu et de soi-mème, cap. 1, § 7. O termo, utilizado
por São Jerônimo, falando da consciência, tem larga circulação escolástica. Santo Tomás de Aquino
o aplica à consciência moral e ao princípio do julgamento moral: “Basilius dicit quod Conscientia sive
Synderesis est lex intellectus noslrí", Sumrna theol. 2a, I, 94, art. I, § 2. Ou: “Synderesis dicitur insligare ad
bonum et murmurare de maio, in quantum per prima principia procedimus ad inveniendum eljudicamus
inventa”, ibidem, 1* parte, 79, art. XII. A sindérese é uma “centelha da consciência”: por ela, mesmo
quando se abandona às paixões, o homem sabe que faz o mal. Cf. André Lalande, Vocabulaire technique
et critique de la philosophie, 5imced., Paris, PUF, 1947, pp. 1066-1067.
57. Licenciado Manuel Pereira Rabelo, op. cit., p. 1718.

46
UM N O M E P O R F A Z E R

o Anônimo inscreve a economia da sua Providência: como uma causa segunda,


as ações e as palavras viciosas do personagem são, segundo a interpretação mui­
to católica, essenciais, subordinando-se à vontade da Causa absolutamente Pri­
meira, conforme o providencialismo com que no século XVII ibérico a oposi­
ção a Maquiavel define o político e o jurídico58. Apelidado de “Boca do Inferno”
graças ao efeito de sentido tirânico e violento de sua poesia, a Causa sobrena­
tural dela faz entrever que o poeta também é “boca da verdade”59.
A interpretação, descartada do exagero apologético, prescreve tais efeitos
violentos e obscenos como arte de corrigir as vontades da Cidade. Rabelo
reativa o esquema patrístico e medieval da interpretação da história, figuran­
do tipologicamente a significação do nome do poeta como alegoria factual. A
tipologia implica, dada sua Causa primeira, a afirmação de justiça e adequa­
ção transcendentes para os eventos, mesmo os mais incongruentes e injus­
tos60, confirmando o Sentido no próprio acontecer do acontecimento. Propor
crises, ruínas, decadências, fomes, pestes, guerras e sátiras como flagelo de
Deus, insondável pelos meios escabrosos com que se manifesta no tempo,
implica a justiça nos males: “escandalosa virtude”, “extremo da verdade”. A
persona do romance em que a Bahia é prosopopéia, como “Senhora Dona Bahia,
/ nobre e opulenta cidade, / madrasta dos Naturais, / e dos Estrangeiros ma­
dre”, dá testemunho do providencialismo de sua ação:

S em p r e v ê e m , e se m p r e falam ,
até q u e D e u s lh es d ep a re,
q u e m lh e s faça d e ju stiça ,
e s t a s á t i r a à c i d a d e 61.

(O C , II, p. 4 3 4 . )

58. É, por exemplo, lugar-comum em Vieira, que faz da allegoria in factis um dos princípios de sua
interpretação tipológica da história. Cf. Padre Antônio Vieira, História do Futuro, Introdução, atua­
lização do texto e notas por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da
Moeda, 1982; ou Defesa Perante o Tribunal do Santo Oficio, Introdução e notas de Hernani Cidade,
Salvador, Livraria Progresso Editora, 1957, 2 vols.
59. A bucca delia verità italiana dos séculos XVI e XVII é uma escultura colocada em igrejas, principal­
mente em Roma, para receber denúncias, acusações, sátiras, pasquins etc. Ela revela publicamente
a verdade. Cf. Peter Burke, “A Arte de Insultar na Itália do Século XVII”, texto de aula de 21.8.1986
sobre Nova História, curso ministrado no 2" semestre de 1986, na Faculdade de Educação da USP.
60. Por exemplo, a interpretação do adultério de Davi e Betsabá por Gregório Magno, em seu Moradia,
faz de Davi, o adúltero, um inocente, e de Urias, o marido traído e morto, um culpado, segundo a
providência divina.
61. Cf. por exemplo OC, V, p. 1076, sobre a peste da “bicha” de 1686: “Ah Bahia! bem puderas / de hoje
em diante emendar-te, / pois em ti assiste a causa / de Deus assim castigar-te”. Em 10.5.1686, a

47
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Decorre, segundo a concepção, que a sátira é sanção divina dos costumes.


A mesmapersona do poema referido figura tal sanção da qualidade moral das
obras no arremate do mesmo:

Tão queimada, e destruída


te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
[...]
Que eu espero entre Paulistas
na divina Majestade,
Que a ti São Marçal te queime,
E São Pedro assim me guarde.

(OC, II, p. 434.)

Se o castigo - fome, guerra, peste, sátira - não é natural somente, mas


pressupõe Deus como Causa, seu remédio é a penitência. Na sátira, esta vem
sempre acoplada à reciclagem da catarse aristotélica como dirigismo “peda­
gógico” próprio das práticas poéticas do século XVII62. Por isso, como a peste
e como a fome, a sátira é guerra caritativa: fere para curar. Dramatização
amplificadora de vícios, monstruosidade e mistura, é também encenação de
falas de virtudes, racionalidade e harmonia. A sua “escandalosa virtude” - a

Câmara de Salvador dirigiu o seguinte petitório ao reitor do Colégio dos Jesuítas: “A violência com
que o presente mal continua, sem os remédios humanos o poderem atalhar, nos tem desenganado
ser a causa deste mal, mais a Ira de Deus irritada com nossos pecados, do que outra alguma causa
material: Pretende este Povo alcançar de Deus Misericórdia. E para Medianeiro desta Graça (com
grande confiança e particular devoção) tem feito eleição do Glorioso Apóstolo do Oriente São Fran­
cisco de Xavier: Temos feito assento de tomar por nosso Protetor para toda vida. E fazer-lhe todos
os Anos, uma festa aos Dez de Maio com Missa cantada e Sermão aí nesta Igreja do Colégio, e
procissão pela Cidade à custa deste Conselho Quando aprovado o pedido, ressalvou-se, man-
tendo-se as precedências hierárquicas, que “[...] nenhum prejuízo ou diminuição às preeminências
e prerrogativas do nosso principal titular, o Salvador do mundo” resultavam da eleição de São
Francisco Xavier. Cf. Affonso Ruy, História da Câmara Municipal da Cidade do Salvador, Salvador,
Câmara Municipal de Salvador, 1953, pp. 165-166.
62. Cf. Juan Eusébio Nierembcrg, S. J., Causay Remedio de los Males Públicos: “Pudiéranos castigar
Dios; con pestes y hambres, con que si quedáramos reconocidos, quizá no humildes. Mas el consejo
divino ha elegido a nuestra culpa tal gênero de pena que nos haga reconocer que Dios es el Senor
de los ejércitos, que las victorias que ha tenido Espana no tanto se deben a su valor cuanto al
favor divino. Reconozcamos esto, y humillémonos”. Cit. por Francisco Murillo Ferrol, Saavedra
Fajardoy la Política dei Barroco, Madrid, Instituto de Estúdios Políticos, 1957, p. 115. Ou Dom
Pedro de Portocarrero y Gusmán, patriarca das índias e arcebispo de Tiro, Theatro Monarchico de

48
UM N O M E P O R FAZER

fantasia desatada, a obscenidade crua, a inverossimilhança programática, a


mistura horrorosa - tem a finalidade política de afetar, produzindo, persua­
dindo e movendo os afetos. A admiração estuporada do excesso e do monstro,
fim sempre buscado pela elocução seiscentista aguda, subordina-se à utilida­
de ponderada da persuasão que vícios e virtudes teatralizados podem produ­
zir sobre um público determinado, a um tempo referente e receptor da sátira.
Baltasar Gracián o confirma: “[...] poco es conquistar el entendimiento si no se
gana la voluntad”63. Como linguagem de ação, portanto, a intervenção satírica
se dá como técnica da fantasia sensibilizadora das vontades: a sátira age como
castigo que, desvelando e amplificando o mal, impõe a penitência64.
Na sátira atribuída a Gregório, uma das grandes articulações é a que opõe
mito heróico e dinheiro, nobreza de sangue e arrivismo, prudência e oportu­
nismo. A sátira é também, por isso, não um olhar exterior sobre a Cidade,
tomada esta circunstancialmente como tema de um observador privilegiado,
mas olhar da Cidade: ela inclui, em sua formulação, a mesma teologia-política
que rege o bom uso da República na teoria e no controle da natureza humana.
Muito motivadamente, a persona satírica interpreta o que vive fazendo com

Espana: “Dios es principio de toda criatura animada, de cuya voluntad penden todas las cosas; es
absoluto Senor dc esta máquina hermosa dei mundo: en él, a su arbítrio, distribuye los Impérios,
a unos los da, a otros los quita: a aquéllos en prêmio de su virtud, a éstos en castigo de sus culpas
[...] no depende de la fortuna la transmigración de los Impérios, sino meramente dei Criador
universal, que, irritado de los pecados, los castiga desolando sus domínios, sin dejar más sena de
su poder que la confusa memória a la posteridad para el escarmiento común”. Cf. Ferrol,op. cit.,
pp. 116-117. Veja-se também o que relata A. J. R. Russel-Wood, Fidalgos c Filantropos - A Santa
Casa da Misericórdia da Bahia, 1550-1 TI5, trad. de Sérgio Duarte, Brasília, Ed. da UnB, 1981, p.
238: “No século XVIII, a Bahia podia rivalizar com Macau como cidade da luxúria e vício. O rei
temia vivamente que a Bahia tivesse o destino de Sodoma. Na noite de 19 de março de 1721
houve uma violenta tempestade elétrica sobre a Bahia. Um relâmpago fendeu uma pedra da
varanda da Ordem Terceira do Carmo. Outro caiu sobre a janela da casa de um juiz [...] Ao saber
desses acontecimentos, D. João V escreveu ao arcebispo da Bahia sugerindo que se aplacasse a
ira do Todo-Poderoso mediante a celebração de ofícios de devoção em todas as igrejas da Bahia.
Fizeram-se também procissões de penitência”. Cf., ainda, Antonio Freire, A Catarse em Aristóteles,
Braga, Publicações da Faculdade de Filosofia, 1982.
63. Baltasar Gracián, “Discurso XII”, El Héroe, em Obras Completas, Madrid, Aguilar, 1967.
64. Cf. Padre Márquez, Gobemador Crisliano (1612), cit. por Ferrol, op. cit., p. 117: “[...] as leis das
Repúblicas cristãs têm mais necessidade de assistência e execução de seus governantes porque são
mais azedas para a sensualidade, e faltando ao olho a esperança do prêmio e o temor do castigo,
relaxa-se a obediência da gente vulgar, tão envolvida em deleites corporais; perigo menos conside­
rável em outras Religiões, que dão mais licença aos antolhos dos cidadãos e permitem-lhes ir atrás
deles, sem mais leis que as do gosto" (grifo meu). Lembre-se o soneto Aos Caramurus já referido: “sem
mais Leis, que as do gosto quando erra” (OC, IV, p. 841) (grifo meu), verso que repete literalmente o
final do texto do padre Márquez.

49
A SÁTI RA E O E N G E N H O

que as leis positivas da Cidade sejam um efeito racionalmente proporcionado


da lei natural da Graça. Aqui se encontra uma chave do conceptismo engenho­
so nela operado com tanta arte: sua agudeza e seu artifício montam um teatro
extremamente móvel e inclusivo que postula, pela translação metafórica dos
conceitos, os pontos de falha e de falta de antigas virtudes. Ao criticar, a sátira
propõe a correção dessa falta de Bem pela verdade providencialista, articulan­
do-a na vituperatio iatina, principalmente como doutrinada por Quintiliano e
Cícero ou praticada por Juvenal, fundindo-a na cristianíssima Civitas Dei, do
que decorre seu caráter de linguagem de ação teológico-política. É pelo gêne­
ro demonstrativo que se explicita a falta do abacaxi nativista registrada por
tanta crítica na poesia atribuída a Gregório de Matos. A não ser aquela estereo­
tipada no culteranismo das metáforas vegetais e minerais dos “cravos”, “ro­
sas”, “cristais”, “rubis”, que alegorizam qualidades elevadas da alma dos me­
lhores na poesia lírica e encomiástica, somente a natureza humana é objeto da
sátira, que determina tipos regidos por um sistema rígido de normas, no qual
se desenha a oposição da usura e do ganho honesto, da prostituição e do sexo
honesto, da tirania e da justiça honesta, do disforme e do belo honesto.
No ramilhete de víboras da sátira atribuída a Gregório de Matos e Guer­
ra algo falta irremediavelmente, contudo, flor ausente de todos os buquês,
hoje em terra, em cinza, em pó, em sombra e em nada convertida: falta o
passado mesmo, singularidade de um tempo, perfume e cor de um lugar e
suas práticas. O passado é uma ficção do presente, ponto evanescente, mas
não arbitrário de sua enunciação. Com a tenuidade e a descontinuidade
implicadas na operação, trata-se de compor aqui o lugar do morto, tempo e
espaço imaginários, hoje mudos, fragmentados pelos ecos das múltiplas
vozes silenciadas para sempre que vão falando nos textos. Este lugar é o
desta escrita: lugar do morto65, monta-se aqui uma encenação em que não
se escreve nunca sobre algo supostamente visto ou dito, antes sobre modos
históricos de ver e de dizer, conforme repertórios de lugares-comuns, argu­
mentos e formas da tradição retórico-poética e suas transformações locais.
Trata-se de fazer emergir, do emaranhado dos poemas e outros discursos do
século XVII, o esboço de um funcionamento da sátira e das posições políti­
cas que distribui num espaço efetuado. Em outros termos, trata-se de evi­
denciar uma dupla temporalidade, a das regras de funcionamento dos poe­
mas conforme um lugar e um trabalho nele produzido, Bahia do século
XVII, c a das regras do funcionamento desta escrita que, sendo produzida

65. Cf. Michel de Certeau, A Escrita da História, trad. Maria de Lourdes Menezes, Rio de Janeiro,
Forense Universitária, 1982, p. 56.

50
UM N O M E P O R FAZ ER

num lugar institucional para um fim predeterminado, recusa-se a traba­


lhar com categorias românticas e positivistas. Sabendo sempre do anacro­
nismo em que pode incorrer, uma vez que o anacronismo romântico é vi­
gente, o morto fala, continua falando.
Ao contrário do que algumas interpretações contemporâneas vêm propon­
do, a sátira seiscentista produzida na Bahia não é oposição aos poderes consti­
tuídos, ainda que ataque violentamente membros particulares desses poderes,
muito menos transgressão liberadora de interditos morais e sexuais. O recep­
tor dos poemas geralmente os lê movido do interesse atual apenas, neles bus­
cando a expressão ou exteriorização de um vivido psicológico sedimentado no
fundo dos textos como inconformismo político ou libertinagem moral. Rediga-
se, brevemente, que não há liberalismo no século XVII ibérico e que a noção
burguesa de “indivíduo” como autonomia abstrata e livre-concorrência está
ausente da concepção neo-escolástica da República como “corpo místico”.
A retórica da maledicência satírica vem sendo entendida, desde que
Araripe Jr. assim a entendeu, como psicologia do ressentimento, gesticulação
pessimista do mazombo fidalgo arruinado contra o arrivismo mercantil66. Na
sátira, contudo, a maledicência é um efeito semântico ou um verossímil da
ira inventado em convenções retóricas pela fantasia poética. Convenções hoje
talvez não tão facilmente discernívcis como as de outros gêneros poéticos
mais puros, mas, não obstante, convenções. A sátira dramatiza paixões, que
estão na natureza, como se escreveu; não é informal, porém, nem psicologica­
mente expressiva, pois as paixões sofrem codificação retórica, que as regula,
distribui e amplifica como outra natureza discursiva. Efetuando paixões da
Cidade, a sátira avança como discurso duplamente regrado, em que o excesso
obsceno e agressivo é contraposto à racionalidade conceituosa, árbitro dos
afetos dapersona satírica67. O que se tem de determinar, por isso, é a natureza

66. Cf. X A. Araripe Júnior, op. cit. Cf. também Alfredo Bosi, “O Leitor de Gregório de Matos”, em
Araripe Júnior, Teoria, Critica e História Literária, seleção e apresentação de Alfredo Bosi, Rio de
Janeiro/Sào Paulo, Livros Técnicos e Científicos/Edusp, 1978.
67. “Os afetos pois veementes, crescidos, e obstinados, são os que engendram, e diminuem os objetos;
eles os desfiguram, e animam; eles os contrafazem, e corrompem; eles os dividem, e confundem,
mutilam, atam; unem; e finalmente eles, arrebatando a alma por vários movimentos, são como as
bravas ondas, que agitadas dos ventos, quebram sobre as praias, aonde apenas rolam nas areias, que
logo retrocedendo, se retiram, e tornando-se para os mares no mesmo súbito instante, sobem em
montes ao Céu, e descem em vales ao abismo. Nesta revolução tempestuosa, os mesmos afetos com­
põem a sua locução das idéias, que a fantasia lhes ministra, e como a vexação se comunica com o
engenho, engenhoso é também o seu estilo.” Francisco Leitão Ferreira, Nova Arte de Conceitos, vol. II,
p. 72, cit. por Aníbal Pinto de Castro, Retórica e Teorização Literária em Portugal (Do Humanismo ao
Neoclassicismo), Coimbra, Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Românicos, 1973, p. 213.

51
A SÁTI RA E O E N G E N H O

da operação maledicente em fins do século XVII. Autores contemporâneos,


como Tomás Pinto Brandão, Tomás de Noronha, Frei Lucas de Santa Catarina,
em Portugal; Lope de Vega e Quevedo, na Espanha; Lord Rochester e anôni­
mos, na Inglaterra; panfletistas anônimos, na França e em cidades da Itália,
entre outros, compõem obras satíricas orientadas com tópicas e sentido se­
melhantes e não são mazombos arruinados, pessimistas, ressentidos.
Trata-se, antes, de tópica ou tópicas da invenção poética, elencos de luga-
res-comuns mais ou menos petrificados como esquemas argumentativos ge­
néricos que se reativam e particularizam num estilo engenhoso pelo investi­
mento semântico local: misoginia, crítica à simonia, glutoneria, usura e luxúria
do clero, crítica dos judeus, do dinheiro, do mundo às avessas etc. A maledi­
cência, desenvolvimento dos lugares de vituperação, propõe a desonra do ata­
cado por meio de sua desqualificação moral referida politicamente: o satiri­
zado nunca está à altura do ideal hierárquico. Lugar-comum renascentista, a
desqualificação liga-se à defesa da ordem associada à defesa da posição hie­
rárquica, pois seu pressuposto é o de que a boa ordem política implica a ma­
nutenção da hierarquia ideal68. E de observar que a maledicência efetuada
pela sátira é extensiva a todas as partes do corpo político, não sendo exclusiva
da fixação agressiva de uma delas - por exemplo, os comerciantes portugue­
ses. Estendendo-se a todas, negros e índios e mulatos, oficiais mecânicos e
letrados, comerciantes e senhores de engenho, clero e putas e soldados e go­
vernadores, desde que suas ações ponham em risco a integridade da hierar­
quia, o sentido da maledicência satírica é traduzido pela ameaça, maior ou
menor, de desintegração do corpo místico do Estado, que a sátira constitui
em membros de grupos ou de ordens sociais. Tal ameaça por vezes se corpo-
rifica em portugueses - por exemplo, os negociantes da Junta do Comércio e
suas operações monopolistas que provocam a escassez dos gêneros e a fome -, o
que não significa que a sátira seja protonacionalista, liberal, libertária, anti-
Portugal, ou que seu autor tenha uma consciência trágica e togada e fora do
lugar, cujo dilaceramento social se expressa psicologicamente como ressenti­
mento e pessimismo.
No século XVII, o estilo de que a sátira é um gênero difunde-se por países
da área mediterrânea, principalmente os da Península Ibérica, como uma koiné.
Simultaneamente artifício literário engenhoso e padrão distintivo dos dis­
cretos cortesãos, potencializa-se nas produções poéticas da época como dis­
positivo sensibilizador da correção das maneiras, da moral e da boa ordem

68. Quentin Skinner, The Foundations of Modem Polüical Thought, Cambridge, Cambridge University
Press, 1978, 2 vols., vol. I, p. 240.

52
UM N O ME P O R FAZER

política. Geralmente aludida pelos autores, uma de suas motivações é a inter­


pretação da ocasião histórica em termos escolásticos69, como artifício sensibili-
zador da virtude política da prudência. Tal estilo é apto para juntar, nos dis­
cursos, os princípios universais da teologia, com que então se teoriza o Estado,
com a “ocasião”70. Ele é apto, basicamente, porque a racionalidade conceituosa
que nele circula é metafórica, permitindo aproximar os objetos e os conceitos
mais distantes e traduzir tudo por tudo devido ao princípio analógico, substan-
cialista, que subentende as suas similitudes retóricas71. A metaforização concei­
tuosa opera ao mesmo tempo na poesia seiscentista como exercício contínuo
de lugares-comuns e como hierarquização dos conceitos. Na grande disper­
são metafórica dos textos, que aproximam e fundem conceitos extremos, sem­
pre se propõem a unificação e a unidade, retóricas, políticas e religiosas, im­
plícitas nas semelhanças. Na hierarquizada proliferação das formas que as
fazem maravilhosas, as belas-letras (não “a literatura”) são arte da unificação
programática: elas a realizam, via de regra, por meio do que nelas é dispersão
e tensão metafóricas.
Segundo a preceptiva antiga, que se mantém reciclada, a arte ensina agra­
dando. Referido à poesia seiscentista, o verbo “agradar” não nomeia, contu­
do, aquele efeito secundário decorrente da ornamentação ponderada dos dis­
cursos que nos classicismos é virtude retórica subsidiária da ordem lógica das

69. Cf. o soneto de estrutura tipológica em que se monta uma analogia de proporção: Moisés : João de
Lencaslre:: Faraó : Câmara Coutinho (OC, 1, p. 224): “Quando Deus redimiu da tirania / da mào do
Faraó endurecido / o Povo hebreu amado, e esclarecido, / Páscoa ficou da redenção o dia. / Páscoa
de flores, dia de alegria / Aquele Povo foi tão afligido / O dia, em que por Deus foi redimido; / Ergo
sois vós, Senhor, Deus da Bahia. / Pois mandado pela alta Majestade / Nos remiu de tão triste
cativeiro, / Nos livrou de tão vi! calamidade. / Quem pode ser senão um verdadeiro / Deus, que
veio extirpar desta cidade / O Faraó do Povo Brasileiro”.
70. Escolasticamente, a ocasião é uma circunstância ou um conjunto de circunstâncias que favorecem
a ação de uma causa livre. Diferencia-se da condição, pois esta se refere a qualquer causa eficiente.
Supõe-se que a ocasião atua sobre a vontade do agente de modo imediato, uma vez que remove
obstáculos interpostos em sua ação e, ainda, porque induz a vontade a cooperar posiiivamente. A
ocasião é um incentivo para a ação. No século XVII, é um conceito político, com o sentido de
“concurso de causas que abre caminho à grandeza”. Ela é, assim, instrumento da ação. Cf. F. M.
Ferrol, op. cit., p. 123. Segundo o século XVII ibérico, neo-escolástico, três causas concorrem para
fundar o Estado, conservá-lo e aumentá-lo: Deus, prudência, ocasião.
71. Cf. Aníbal Pinto de Castro,op. cit., pp. 219-220: “Todo o Universo, como ensinava a filosofia tomista,
se ordena em função da harmonia, isto é, da correspondência estabelecida entre as coisas e os
seres, criados ou possíveis. E dessa harmonia derivam todos os conceitos metafóricos que tomam
nomes diferentes, conforme a agudeza sobre que se fundamentam. Esta consiste na semelhança e
proporção que o engenho e a fantasia estabelecem entre os diferentes elementos que o entendi­
mento lhes forneceu. O resultado do seu trabalho é a harmonia entre os objetos correlatos, que
seria tanto mais sutil e sonora, quanto mais afastados aqueles fossem”.

53
A SÁTI RA E O E N G E N H O

idéias. Ao contrário, a ornamentação propõe-se como central e, com ela, o


prazer: vai-se do prazer da maravilha para a didascália, do espanto para a
reflexão, mesmo quando se trata de um prazer paradoxalmente antiprazer,
como o que se articula no tema da morte e do desengano, extremamente roti­
neiro em muita epístola moral, na lírica, na tragicomédia, nas obras sacras,
na história. Porque a codificação do deleaare não está fixada primordialmente
como prazer intelectual advindo do entendimento dos temas razoavelmente
ornamentados - os temas são tópicas muito convencionais, já conhecidas, da
tradição -, mas como prazer sensível dos procedimentos ornamentais com
que os temas são desenvolvidos. Em outros termos, no engenho da invenção e
no artifício da ornamentação.
É só com anacronismo romântico próprio de idealistas alemães que se
pode falar de “formalismo”, pois tal prazer é operação que distingue e valida
o discreto, o cortesão, como “melhor”. Mas não só: funciona também como
hiperurbanismo, linguagem culta como pedante, com que burgueses em as­
censão selam seus foros de fidalguia. Efetuada pelos jogos da fantasia poéti­
ca, a ornamentação também visa o prazer do vulgo inculto, que se compraz no
exagero, nos efeitos sensíveis e na inverossimilhança. Quando Vieira se diri­
ge ao auditório no exórdio do sermão da Sexagésima e deseja que saia desen­
ganado da pregação assim como vem enganado com o pregador, refere-se ao
gosto, então dominante, pelo artifício como prazer, que reprova com Santo
Agostinho: no púlpito, a verdadeira voz é espiritual e o sermão prevê o seu
entendimento, não a diversão pela diversão.
Neste sentido, que se pode generalizar para toda a poesia do conceito
engenhoso, a sátira também ensina algo por uma teoria da catarse, nela arti­
culada como prazer do entendimento do artifício de sua convenção e, ainda,
de seu efeito, conforme a recepção discreta ou vulgar. Assim, por exemplo,
jogando quase que invariavelmente com a peripécia aristotélica, ação cuja
consecução é subvertida por evento inesperado e oposto produtor de incon­
gruência cômica, ou com a amplificação, operação da hipérbole que efetua o
fantástico, a sátira produz inversões e exagerações das quais a antítese e o
quiasma são dois processadores sempre muito explícitos e continuamente
aplicados. A inversão contínua, semântica pelas antíteses, sintática pelos
quiasmas, bem como a exageração dos traços tipificadores do satirizado de­
vem dar prazer ao público que nelas encontra, além do prazer de reconhecer
a deformação na caricatura, também o prazer de reconhecer um desempenho
adequado da técnica da fantasia poética. Neste prazer - ou prazeres - encon­
tra-se a utilidade, oprodesse. As agudezas conceituosas juntam o útil e o agra­
dável de tal forma que o prazer cie aprender o modo pelo qual dois conceitos

54
UM NO ME P OR FAZER

distantes ou opostos são aproximados e fundidos num único gênero metafóri­


co é também aprendizagem do prazer72.
Desta maneira, as descrições satíricas de tipos e caracteres, produzidas
por tropos e figuras de inversão e exageração, são retóricas, não realistas. O
que significa que, na sátira, os traços tipificadores constituem caricaturas,
segundo as regras de um estilo engenhoso que dá prazer e que evacua toda
psicologia73. É psicológico e realista propor que a sátira é uma “crônica do
viver baiano seiscentista”, como escreve James Amado no subtítulo de sua
edição, no sentido de uma notação verista da Bahia em fins do século XVII.
Ela é construtiva das “naturezas” (indicando-se pelo termo o referencial
discursivo transformado nela, não o referente): basta observar que, por exem­
plo, clérigos, profissionais mecânicos, magistrados, mulatos e governadores
são articulados nela em posições hierarquicamente diversas, mas intercam-
biáveis entre si devido à recorrência dos mesmos motivos de estilização gro­
tesca ou fantástica, aplicáveis às diversas posições. Pode-se falarem “crônica”,
evidentemente, descartando-se o realismo explícito do termo, significando-
se as convenções de ver e de dizer de um tempo. Preceito da sátira é o de que
o destinatário reconheça o apelo racional da caricatura, pois esta é uma con­
venção. Por isso mesmo, propor seu realismo implica afirmar que ela é ape­
nas documental e exterior, lendo-se a caricatura como se fosse a realidade,
ou, ainda, entendendo-se a deformação como reflexo de uma Bahia funda­
mentalmente caricata, o que é irracional. A operação descarta a historicidade
da sátira: basta ler as Cartas e as Atas do Senado da Câmara de Salvador para
se observar a perfeita racionalidade da ordem, segundo seus agentes74.
Dada sua direção conativo-referencial, a sátira abre-se para o público e
para o distante - esta abertura implica, em termos horacianos do ut piclura
poesis nela presente como ordenação metafórica da distância da visão, sua or­
denação como misto poético em que várias partes fundidas alegorizam a es­
pessura do visível e, assim, dos vícios. Embora haja muitos índices de que a
sátira era previamente escrita ao seu consumo público, segundo transforma­
ções miméticas da tradição escrita de topoi epidíticos, sua pragmática - a re­

72. Cf. Guido Atorpurgo Tagliabue, “La Reiorica Aiistotelica e il Barocco", em III Congresso
Internazionale di Studi Umanistici, a cura de Enrico Castelli, Venezia, 15-18 giugno 1954. Aui:
Reiorica e Barocco, Roma, Fratelli Bocca Edilori, 1955, p. 144.
73. Na sátira atribuída a Gregório, isto é muito evidente na caracterização dos governadores Antônio
de Sousa de Meneses, o “Braço de Prata”, e Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, e na
caracterização de religiosos, principalmente os frades.
74. Cf. argumentação semelhante em William S. Anderson, Essays on Roman Saiire, Princeton, Princeton
University Press, 1982, p. 313.

55
A SÁTI RA E O E N G E N H O

cepção em sua maioria analfabeta - a abria para a audição, não para a leitura.
Nesta linha, certo inacabamento dela, esboçada rapidamente como um bor­
rão entendido muitas vezes como marca de sua inferioridade estilística, é
bem a sua adequação à recepção, no mesmo sentido aristotélico da adequação
dos discursos do gênero demonstrativo às grandes assembléias movimenta­
das e ruidosas75.
Os poemas teatralizam não só um tema na circunstância de sua represen­
tação, mas também seu código de recepção. Lê-los não só por um nexo temá­
tico, mas também por sua articulação pragmática, à qual os temas se subordi­
nam, permite constituir tipos e caracteres dramatizados neles. Com a
terminologia de Austin76, pode-se dizer que a sátira é dupla também como
tipologia discursiva, uma vez que apresenta discursos assertivos ou constativos
e, simultaneamente, discursos performativos. Ela representa caracteres e ti­
pos referencialmente e, ao mesmo tempo, dobra-se sobre si mesma, tomando
a própria enunciação como tema, focalizando suas regras de intervenção e,
assim, seus interlocutores. Nela, a metáfora é simultaneamente referencial e
valorativa, mimética e judicativa: a mesma performatividade julga a carica­
tura efetuada, explicitando para destinatários discursivos e receptores empí­
ricos a natureza da sua convenção.
A sátira efetua performativamente várias situações jurídicas do século
XVII português: o estudo do modo pelo qual apersona satírica representa sua
situação de enunciação, articulando-a em valores de determinada posição na
ordem social que a autorizam a falar, deve relacioná-la com a situação da
segunda pessoa e, ainda, da terceira, satirizadas no enunciado em posições
inferiores. Seu procedimento principal é a distribuição dos corpos de lingua­
gem pela hierarquia e, simultaneamente, a constituição de regras da excelên­
cia ou código de honra, cuja referência central é o Direito Canônico. Violado
por paixões, que são a contrapartida viciosa de suas virtudes alegadas, o códi­
go de honra reitera a hierarquia e faz propaganda dela, quando efetua os vícios
como ridículos, imorais e irracionais, opondo a eles o ideal de integridade do
corpo místico da República:

75. Cf. Wesley Trimpi, “Horace’s ui Piciura Pocsis: The Argument for Stylistic Decorum”, Tradilio (Siudies
in Andem and Medieval Hislory, Thoughl and Religion), New York, Fordham University Press, vol.
XXXIV, p. 33, 1978. Cf. também, do mesmo autor, no mesmo volume, “The Early Metaphorical
Uses of SKIAGRAPHIA and SKENOGRAPHIA”
76. Cf. J. L. Austin, How lo Do Things wilh Words, Oxford, Clarendon Press, 1962. Cf., ainda, Osvvald
Ducrot, “Actos Linguísticos", em Enciclopédia Einaudi, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moe­
da, 1984, vol. 2 (Linguagem-Enunciação),

56
UM N O ME POR FAZER

E ia, e s ta m o s na B ah ia,
o n d e agrada a a d u lação,
o n d e a v erd a d e é b a ld ã o
e a v ir tu d e h ip ocrisia:
s ig a m o s esta h a r m o n ia
d e tão fátu a c o n so n â n c ia ,
e in d a q u e seja ig n o r â n c ia
seguir erros c o n h ecid o s,
S eja m -m e a m im p erm itid os,
s e e m s e r b e s t a e s t á a g a n â n c i a 77.

( O C , II, p. 4 4 8 . )

Como escreve Morpurgo Tagliabue, que retoma um lugar78 hoje não muito
comum no Brasil, os instrumentos retóricos constituíram esquemas da humanitas,
do século XV ao XVII. As categorias retórico-poéticas, nas quais se fixaram cer­
tas disposições de culturas hoje unificadas como “Barroco”, especificam práti­
cas, algumas hoje tombadas em dessuetude, fundamentais para a distinção da
atividade satírica no século XVII. A Retórica se impõe programaticamente, como
lá, aqui neste trabalho, buscando adequação histórica ao objeto estudado: evitan­
do o anacronismo da reconstituição expressiva ou realista de supostas
positividades supostamente depositadas na sátira. Emoções há, obviamente, al­
gumas intensas; mas é pela articulação retórica dos poemas que se podem cons­
truir, a partir dos verossímeis e inverossímeis que efetuam, as regras de produ­
ção dos afetos e imensidades dramatizados neles; entre eles, a obscenidade,
também codificada. Aliás, a má reputação da sátira , que a faz objeto do desejo
como discurso a ser censurado pudibundamente como indecência ou avançado
entusiasticamente como contestação, não leva em conta o básico de sua
preceptiva: a sátira não está, de modo algum, contra a moral. Ocorre nela, é certo,
alguma desproporção entre a racionalidade que prescreve e o desenvolvimento
obsceno e escabroso dos temas. Algo semelhante se encontra nos Exercícios Espi­
rituais, de Loyola, como método de educação da vontade, propondo a represen­
tação sensível e muitas vezes horrível dos objetos da meditação. É interessante
lembrar, com Michel de Certeau, que Inácio de Loyola,Teresa de Ávila e muitos
outros quiseram entrar para uma ordem “corrompida” não porque simpatizas­

77. Cf., ainda, OC, I, p. 205: “Porém Sua Majestade,/ Qual Príncipe Soberano, / que não se indigna de
humano/ sem dano da dignidade: / conhecida esta verdade,/ que é verdade conhecida, /fará justiça
cumprida, / para que se lhe agradeça, / que o mau nu própria cabeça / traga a justiça aprendida”.
78. Cf. Guido Morpurgo Tagliabue, op. cit., p. 128.

57
A SÁTI RA E O E N G E N H O

sem com a corrupção, mas porque esses lugares quase desfeitos, de abjeção e
prova, como em certo sentido poderíam ter sido os “desertos” para onde partiam
os monges a fim de combater os maus espíritos, como lugares que não garantem
a salvação nem a identidade, representavam a situação efetiva do Cristianismo
contemporâneo deles79. Contraponto: ocupar-se do vil, do ínfimo e do sórdido
como tática e estratégia de outra instauração é também o movimento moral
encontrável na sátira. Nela, a obscenidade produz monstros que ilustram a
normatividade da Lei. Movimento contraditório, aparentemente: se a virtude é
por definição racional, o que significa a intervenção irada da persona satírica,
quando efetua na sua indignação a ausência de racionalidade na Cidade? Signi­
fica, aparentemente, uma palavra virtuosa, que corrige - mas, se é irada, como é
virtuosa?80Isto, tanto quanto a obscenidade, está previsto pela amplificação re­
tórica da elocução, em função do delectare, como se vê ainda neste capítulo e no
capítulo IV.
A sátira seiscentista, prudente comédia das punições, obedece a regras preci­
sas, que a fazem funcionar, como na Vida escrita pelo licenciado Rabelo, como fei­
xe poético de relações anônimas de forças da Cidade. Está prevista institucional­
mente, uma vez que, conforme a tradição retórica reciclada, cabe aos mimos
etólogos ultrapassar a medida, cair na obscenidade e propor a virtude81:

[...] é já v e l h o e m P o e t a s e l e g a n t e s
o ca ir e m to rp eza s se m e lh a n te s.

( O C , I, p. 1 5 5 .)

Iludir a expectativa, zombar do caráter de outrem, ironizar o próprio,


usar de caricaturas, dissimulação e duplo sentido, fingir ingenuidade dizen­
do asneiras são os gêneros que fazem rir82. Reduzidos como gêneros, os sar­
casmos, as imprecações, as facécias, as burlas, as ridicularias, as jocosidades
de coisas e de palavras, as obscenidades e as agressões verbais são ilimitados
como relações de espécies na recepção. Ler a sátira segundo a tradição retóri­

79. Michel de Certeau, op. cil., p. 43.


80. Uma vez que a indignação é indigna, pois apaixonada. Em outros termos, a persona satírica fala
excessivamente contra os excessos: contraditoriamente, portanto. Cf. William S Anderson, “Seneca’s
Discussion of Anger”, op. cil. Cf. também Sêneca,De ira em Traitésphilosophiques, trad. par François
et Pierre Richard, Paris, Garnier, 1955, vol. I.
81. M. T. Cicero, op. cit., pp. 287-288. Na Antigüidade, os mimos eram pequenas peças muito cruas,
contendo cenas obscenas e grosseiras e máximas morais de tom elevado. O nome de etólogos (no
sentido de “tratadistas de costumes”) também era reservado aos bufões (scurrae) que, pelo riso,
vituperavam vícios.
82. M. T. Cicero, op. cit., pp. 316-317.

58
UM N O ME POR FAZER

ca rearticulada no século XVII consiste em estabelecer situações de aplicação


e difusão de tais gêneros, analisando-se a codificação moral de seus efeitos.
A referência da sátira não é postulada fora do funcionamento de um tipo
(ou tipos) e de uma convenção retórica no discurso poético8384. O que hoje in­
forma sobre modos codificados de representar e interpretar e não sobre obje­
tos positivamente dados nas representações. Exemplar, nesta linha, é o gêne­
ro de poema satírico genericamente moralizante que se faz comoparemiologia
ou desenvolvimento narrativo-descritivo de provérbios, numa transferência,
para a poesia, do conceito predicável fartamente desenvolvido pela oratória
sacra, sobretudo a demonstrativa e a deliberativa, dos séculos XVI e XVII.
Codificando tópicas e procedimentos conceptistas, Baltasar Gracián dá como
exemplo de crisis juiciosa as qualificações proverbiais que participam igual­
mente da prudência e da sutileza. Segundo ele, o artifício consiste em um
juízo profundo, em uma censura recôndita, nada vulgar, já dos erros, já dos
acertos. Tais conceitos têm muito de satírico e algo de sentencioso, mas a rara
observação e a qualificação judiciosa prevalecem neles84. Como exemplo,
Gracián transcreve composição do padre Dom Miguel de Dicastillo, do seu
Aula de Diós, Cartuja Real de Zaragoza85. O poema discorre sobre as falsas
opiniões do mundo, ponderando sobre elas:

E l parlero se da por elocuente,


el temerário pasa por valiente,
el rígido por justo,
el lascivo por hombre de bon gusto,
y el que es insolente
pasa en nuevo lenguaje por coniente.
La mentira es ingenio, y agudeza,
la sátira, y el chiste sacudido,
y su autor es jovial y entretenido,
la humildad es bajeza,
pundonor la venganza,
la afectada lisonja es alabanza
la cautela es prudência,
y el artificio dei astuto es ciência.
Llámase sanlidad la hipocresia,

83. Cf. Paul Zumthor, F.ssai de poélique médiévale, Paris, Seuil, 1972, pp. 134-137.
84. Cf. Baltasar Gracián, “Discurso XXVIII - De las Crisis Juiciosas”, Agudezay Arte de Ingenio em
Obras Completas, Aladrid, Aguilar, 1967, pp. 370-376.
85. Idem, p. 371.

59
A SÁTI RA E O E N G E N H O

el silencio ignorância,
d valor arrogancia,
la prodigalidad, domure,
el ser vicioso es gala,
y el no seguir esta opinión desaire e le .

Muito prosaico, o poema de Dicastillo é um rol de sentenças morais do


gênero contemptus mundi, denunciando a inversão dos valores, tema muito
caro ao desengano seiscentista. Sabe-se que Bernardo Vieira Ravasco dirigiu o
seguinte poema por consoantes forçados ao irmão, o padre Antônio Vieira:

Se q ueres v er d o M u n d o u m n o v o M a p a
O ite n ta a n o s, a ten ta d esta cep a
p o r o n d e e m r a m o s a c o b iç a trepa
e e m a r a n h a d a faz d o tr o n c o lapa.
M o r d e c o m d en te s, q u e n ão te m ca papa
c o m a lín g u a fere, c o m a m ã o d ecep a
so ld a n d o o p o sto , liv re de carcpa
q u e d e ta r d e , e m a n h ã r a iv o s o rapa.
O s o lh o s d e á g u a , as fa ces d e tu lip a
e cada u m d o s p e s d e p au g arlop a
a boca g ra n d e, o corp o de c h a lu p a
A b o fé m u i t o , e m u i t o p o u c a tripa
c a m i n h a M u s a , p o r q u e a t u d o topa
é A p a, Hpa, Ipa, O p a, U p a ' \

Por consoantes forçados - “apa, epa, ipa, opa, upa” - que na época são
codificados como jocosos ou cômico-burlescos, o soneto de Bernardo mantém
a estrutura definicional ou sentenciosa do poema citado por Gracián. A res­
posta de Vieira é outro soneto com os mesmos consoantes, mas decididamen­
te moral:

S ob e B e rn a rd o da E te r n id a d e ao M a p a
d eixa do v elh o A d ã o a m ortal cepa
p e lo L e n h o da C r u z ao L m p í r e o trepa
c o m e ç a n d o e m B e l é m n a p o b r e L a p a . 68

86. “Soneto dc Bernardo Vieyra Ravasco secret. do Estado do Brasil a seu Irman o padre Antonio
Vieyra consoantes forçados”, Poesias de Gregorio de Manos. Nota de Vale Cabral - “Cópia feita cm
Évora pelo dr. Lino de Assumpção em maio de 1989”. Cofre 50, Códice 56, Seção de Manuscritos da
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

60

i
UM N O M E POR FAZER

M a i s q u e R e i p o d e ser, e m a i s q u e P a p a
q u em d e seu coração vício s d ecep a
q u e a g ren h a d e S an são, tu d o é carepa
e a g a d a n h a d a m o r t e t u d o rapa!
A flor da v id a , é co r d e tu lip a
t a m b é m d o s se co s a n o s é garlop a
q u e co rta , c o m o ao m ar, corta a c h a lu p a
N ã o h á m i s t e r q u e o f e r r o c o r t e a t r ip a
S e n a p a r l e v i t a l já t u d o t o p a
E m A p a , e p a , i p a , o p a , u p a * 7.

A solução do soneto atribuído a Gregório de Matos é melhor, pois condensa


o intento moralizante da crisis juiciosa na agressividade maledicente dos ver­
sos, articulados como variação disfórica dos topoi da virtude. Referidas todas
as definições a tipos vis e à vileza de suas ações, as rimas jocosas coletadas no
último verso traduzem ironicamente o conteúdo da tripa vazada pelo sujeito
discursivo no poema, mimetizando com obscenidade a sonoridade do ato in­
decente, “Em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa”:

N e s t e m u n d o é m a i s r ic o o q u e m a i s r ap a;
Q u e m m a i s l i m p o se fa z t e m m a is carep a;
C o m s u a l í n g u a , a o n o b r e o v il d e c e p a ;
O v e lh a c o m a io r se m p r e te m capa.
M o stra o p a tife da n o b reza o m apa;
Q u e m t e m m ã o d e a g a r r a r , l i g e i r o tr e p a;
Q u e m m e n o s falar p o d e , m a is increpa;
Q u e m d i n h e i r o t iv e r , p o d e s e r P a p a .
A flor b a i x a se in c u l c a p o r Tu lip a;
B e n g a la h o je na m ã o , o n te m garlopa;
M a i s is e n t o se m o str a o q u e m a is ch u p a ;
P ara a t r o p a d o t r a p o v a z o a t r ip a ;
E m a is n ão digo; q u e a M u sa topa
E m a p a , e m e p a , c m i p a , e m o p a , e m u p a ss.87

87. “Soneto do padre Antonío Vieyra. Em resposta ao antecedente de seu irman pelos mesmos con­
soantes”, op. cit. na nota 86.
88. Cf. Antônio Dimas, “Gregório dc Mattos Guerra ao Português”, em Roberto Schwarz (org.), Os
Pobres na Literalura Brasileira, São Paulo, Brasiüense, 1983. Dimas demonstra bem como a estrutura
sintática do soneto diagrama posições sociais extremas - por exemplo, em “Bengala hoje na mão,
ontem garlopa”. A interpretação do soneto como ataque a portugueses comerciantes torna-se im­
provável, contudo, quando o ataque à corrupção deles é generalizado como oposição política
antimetropolitana.

61
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Independentemente de sua qualidade, contudo, os poemas são indicativos


da intensa circulação, que se estende no Brasil até às Academias do século
XVIII89, das tópicas elencadas por Gracián, como exercício poético do enge­
nho ou certame poético de letrados promovidos, por exemplo, pela Compa­
nhia de Jesus em seus colégios. Sua referência, como se escreveu, é produzida
por convenção retórica, como a das sentenças judiciosas e a das rimas jocosas,
e não é extradiscursiva. Basta observar, para tanto, a indefinição dos prono­
mes - “Quem mais limpo...” etc. - ou a generalidade dos tipos - “o velhaco”,
“o patife”, “a flor baixa” etc. - articulados, por sua vez, num presente atemporal
- “é”. Se isto é válido para poemas como os referidos, que na produção satíri­
ca atribuída a Gregório de Matos e Guerra são relativamente poucos, quase
sempre é a situação referencial efetuada pelo poema e o contexto discursivo
de sua comunicação que conferem a ele um sentido virulento e crítico.
A mistura satírica não decorre da violência metonímica, apenas, que jus­
tapõe nos poemas referências recortadas de diversos discursos contemporâ­
neos, mas também da tensa coexistência da oralidade e da escrita neles. Ela é,
aliás, uma questão difícil. Várias diacronias se imbricam nela e algumas con­
siderações podem ser avançadas.
Hoje, têm-se textos compilados no século XVIII sem indicação dos crité­
rios que presidiram à sua coleta. Como se escreveu, não se sabe se foram co­
lhidos da circulação oral anônima ou se transcritos das legendárias “folhas
avulsas” que se diz terem corrido na Bahia em fins do século XVII. Supondo-
se por instantes a unicidade da sua autoria, quais poemas foram escritos ou
oralizados no momento de sua produção? Se escritos, mimetizariam padrões
orais, como o dos diálogos dramáticos de muitos deles, e o fariam regrados
somente por critérios do decoro interno? Se oralizados, também mimetizariam
padrões da escrita, regrados por modelos mnemônicos, por exemplo?

89. Indicando a longa duração das tópicas paremiológicas, encontra-se, numa das sessões da Acade­
mia dos Esquecidos, realizada em continuação à Conferência do coronel José Pires Carvalho, em
21 de janeiro de 1725 , um “soneto burlesco” péssimo, de autor anônimo, que desenvolve o “Primei­
ro Assunto”: “Diógenes buscando com uma luz nas horas do dia um homem na Praça de Atenas”,
tema típico da diluição setccentista das agudezas do século XVII: “Diógenes faminto, pouca tripa /
Infrutífero tronco, inútil ccpa / Parto da fome, emprego da carcpa / Ilabitador do casco de uma
pipa. / A luz que um garabato [ste] participa / Em Atenas achar um homem increpa / Corre Praças,
vê becos, muros trepa / Iguais ao Panteon de Marco Agripa. / O Painel da pobreza, ocota capa [ste]
/ Que a escudela quebrou, fez das mãos copa / Quem cá o introduziu e fez de chapa. / Se na corte
da Grécia, homem não topa, / E capaz de não ver Mundo no Mapa / Nem no Bairro da Alfama uma
cachopa". Cf. José Aderaldo Castello, O Movimento Acadcmicisla no Brasil: l 641-1820-1S22, São
Paulo, Conselho Estadual de Cultura, Comissão de Literatura, 1969, vol. I, tomo 4, p. 191.

62
UM N O ME POR FAZER

Poemas de outros gêneros, líricos, épicos, encomiásticos, principalmente


os últimos, têm destinatários que referem letrados do governo, como o Conde
do Prado, o governador Matias da Cunha, o desembargador Dionísio Ávila
Vareiro, o secretário Bernardo Vieira Ravasco, o desembargador Pedro Unhão
de Castelobranco, ou do clero, como o arcebispo João da Madre de Deus,
entre outros. Não se sabe se originalmente escritos ou oralizados, codificam-
se segundo padrões da cultura letrada, muito convencionais, como referências
mitológicas clássicas, metaforização conceituosa e aguda, citações de Camões,
Góngora, Quevedo, Sá de Miranda, Jerônimo Baía, Francisco Rodrigues Lobo,
Garcilaso de La Vega e outros, além de lugares-comuns do encômio. Tanto
pelo gênero quanto pela destinação prescrita no gênero, evidencia-se neles o
padrão da escrita, escritos por um ator letrado para a leitura de personagens
letradas. Contrastivamente, aplicando a caricatura de tipos para referir pes­
soas do local, a sátira dirige-se sempre a um público que ela fantasia iletrado,
tematizando os discursos locais em sua forma mista e aberta. A anedota sobre
a viola de cabaça e as andanças do doutor Gregório de Matos pelo Recôncavo,
aplicadas por Rabelo ao retrato, além da caracterização que faz do seu perso­
nagem como “consumado solfista”90, indicam a improvisação oral, do gênero
mote e glosa, principalmente nos poemas de teor obsceno produzidos “ao gê­
nio dos sujeitos”.
A memória tem outro treinamento no século XVII baiano, bastando lem­
brar as técnicas mnemônicas eficientíssimas da Companhia de Jesus. A com­
posição oral de poemas longos, como é o caso de inúmeros romances atribuí­
dos a Gregório de Matos, era então prática corrente. Da tradição medieval, os
romances montam-se por justaposição de lugares-comuns de tipos e situa­
ções narrativas, evidenciando que era relativamente simples sua combinatória
numa trama típica como glosa de um mote determinado na ocasião. Drama­
tizando o referencial dos discursos locais segundo tais lugares e situações, a
sátira se faz como estereotipia de estereótipos: nela se recicla uma cultura
paradigmática, no dizer de Lotman91, em que tudo está de alguma forma já
dito e em que a inovação só é pensável como rearticulação de fórmulas da
tradição. Nela, assim, o tradicionalismo não é somente o das virtudes herói­
cas postuladas pelapersona, mas, antes de tudo, do próprio léxico medieval e
estereotipado, isomorfo do plano do conteúdo. A própria formulação do ro­
mance, sua divisão de versos iniciais em que a persona, o personagem satírico,

90. Cf. Rabelo, “Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos e Guerra”, em James
Amado, op. cil., vol. VII, pp. 1706-1709.
91. Cf. Iuri Lotman, Sémaniique du nombre et lypes de culiure, Paris, Seuil, 1968.

63
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

fala como um arauto que anuncia publicamente o que tem a dizer, incorpo­
rando ao ato de fala um público produzido nele, evidencia a previsibilidade
do anúncio: apersona vai falar do falado, que é a medida do falável. Esta circu­
laridade de código é que faculta os procedimentos da metonímia, pelos quais
a inclusão e a justaposição de mais um retalho de fala estão previstas. A sátira
é estruturalmente aberta e, no caso em questão, a abertura faz dela uma for­
ma da oralidade e da audição, segundo a temporalidade curta da praça e das
ruas. A própria generalidade da caracterização dos tipos, suficientemente
esquemática para adaptar-se criticamente a pessoas de várias posições, indica
não uma falta de acuidade de observação “realista”, mas a reciclagem fácil92.
Tem-se hoje, quando ainda se é moderno, o hábito de ler esses poemas
com os olhos da modernidade, que são os nossos: ao fazê-lo, buscamos neles a
experiência de uma originalidade radical da letra, movidos que somos pela
estetização da experiência estética como esfera autônoma, negatividade e
promessa de felicidade utópica. Falamos, por exemplo, da “inventividade”
ou da “ruptura” e mesmo da “revolução” de tal metáfora ou poema. Talvez
nada fosse mais estranho à poesia satírica que correu em Salvador em fins do
século XVII que essa estetização, pois essa poesia é, antes de tudo, uma inter­
venção que produz um rosto anônimo em que alguém se reconhece: a “popu­
lação”, rusticamente aguda, com um gosto acentuadíssimo por pompas, apara­
tos, divertimentos e duplo sentido das palavras, que a sátira cuida de atender,
em sua linguagem excessiva, agudamente rústica, criticando-lhe os excessos.
Como escreve Zumthor para a Idade Média, também os poemas satíricos
seiscentistas funcionam em condições teatrais: como comunicação entre um
cantador e seu auditório93, tornando-se obras no ato da sua atualização oral. A
oralidade, que hoje lemos nos textos, implica o tempo curto da praça e da rua,
como foi dito, que é observável, por exemplo, nas variantes dos códices. Isto
também quer dizer que a sátira aplica dispositivos para simular o espaço pú­
blico do “bem comum” na formulação oral: ela é regulada em termos do m
picturapoesis horaciano, que implica o cálculo das distâncias a serem tomadas
para a sua recepção adequada por meio da maior ou menor abertura dos pro­
cedimentos descritivo-narrativos. Comum, por exemplo, é a formulação dra­
matizada da enunciação, cuja mobilidade diagrama as distâncias da emissão
de vozes. Além dessas distâncias espaciais, a polifonia esboça a distância hie­
rárquica das falas94.

92. Cf. Paul Zumthor, Essai de poéliquc médiévale, op. cit., p. 39,
93. Idem, p. 37.
94. Será mais improvável pensar que alguns poemas tenham sido compostos oralmente seguindo pa­
drões da escrita? A prática muito difundida do mole e glosa indica a permanência da oralidade

64
UM NO ME P O R FAZER

A oralidade está prevista, por exemplo, na técnica da diatribe, que nesse


corpus tem várias realizações, como a dos sonetos dialogados cujas didascálias
informam “As duas mulatas presas finge o poeta, que visita nestes dous sone­
tos interlocutores. Fala com a mãe” e “Fala o poeta com a filha”95. Dramática,
a sátira também articula o oral em quadros de tragicomédia em que ocorrem
diálogos, como os do poema em que falam Fonseca, Lima, Estrela, Chica,
discutindo a fuga de Ilária, mulata:

L im . - C h ic a , q u e é d e Ila r in h a ?
d iz e , n eg ra d o d iab o.
Vai v ê -la , s e n ã o te u rab o
p agará, p o r vid a m in h a ;
C h ie . - E u n ã o sei da m u la tin h a ,
n e m m e e n t e n d o c o m p ap éis:
q u e m d e u c in q ü e n ta m il-réis
e d e v e de ter em casa
p o r q u e a q u i n u n c a fez vaza.
L im . - O p u to n a , isso d izeis?

( O C , IV, p. 1 0 8 0 . )

nessa poesia; contudo, torna-se difícil determinar a circunstância da glosa, se foi produzida por
escrito imitando padrões ou da escrita ou da oralidade, se foi produzida oralmente imitando os
mesmos padrões. A anedota contada por Rabelo sobre Gonçalo, filho de Gregório e de dona Maria
dos Povos, proibido pela de mãe de pegar da pena sob ameaça de maldição, é sugestiva. O rapaz diz
a quem lhe dá o mote “Com que, porque, para que”: “Pegai vós da pena, porque a maldição de
minha Mãe parece que não me proíbe fazer versos, e sim pegar na pena para os escrever”, fazendo
a glosa: “Disse Clóri, que me amava / para o intento, que tem, / o qual não disse a ninguém, / nem
o porque declarava: / eu então lhe perguntava / com que gênero de fé, / suspensa a Dama se vê, /
que como nada respondeu, / não pude saber o seu / com quê, porquê, para quê”. Cf. Licenciado
Manuel Pereira Rabelo, “Vida do Excelente Poeta Lírico, o Doutor Gregório de Matos e Guerra",
em James Amado (org ), op. c i l . , vol. VII, p. 1720.
95. “As duas mulatas presas finge o poeta, que visita nestes dous sonetos interlocutores. Fala com a
mãe" (OC, V, p. 1171): “Perg. Dona Secula in seculis Ranhosa, / Por que estais aqui presa, Dona
Paio?/Resp. Dizem, que por furtar um Papagaio: / Porém mente a querela maliciosa. / Perg. Estais
logo por ladra, e por gulosa: / Não vos lembra o jantar de Fr. Pelaio? / Resp. Então traguei de carne
um bom balaio, / e de vinha uma selha portentosa. / Perg. Para tanto pecado é curta sala, / Ide para
a moxinga florescente, / Onde tanta vidrada flor exala. / Resp. Irei, que todo o preso é paciente; /
Porém se hoje furtei cousa, que fala,/' Amanhã furtarei secretamente”; / e “Fala o poeta com a filha”
(OC.V.p. 1172): “Perg. Bertolinha gentil, pulcra, e bizarra,/ Também vos trouxe aqui o Papagaio?
/ Resp. Não, Senhor: que ele fala como um raio, / E diz, que minha Mãe lhe pôs a garra. / Perg. Isso
está vossa Mãe pondo à guitarra, / E diz, que há de pagá-lo para Maio. / Resp. Ela é muito animosa,
e eu desmaio, / Se cuido no Alcaide, que me agarra. / Perg. Temo, que haveis de ser disciplinante /
Por todas estas ruas da Bahia, / E que vos há de ver o vosso amante. / Resp. Quer me veja, quer não:
estimaria, / Que os açoutes se dêem ao meu galante, / Porque eu também sei ver, e vê-lo-ia”.

65
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

A oralidade está representada também em vários poemas compostos por


epílogos, como o que começa:

Q u e m d e u à P e m b a f e i t i ç o s ? .................. M e s t i ç o s
E q u a is s ã o o s s e u s o b j e t o s ? ....................P r e to s
Q u a is d e l e s l h e s ã o m a is g r a t o s ? ..........M u la t o s .
É lo g o d e c ã e s e g a t o s
a P em b a p o r seu d e sd o u r o ,
p o is lh e v ã o s o m e n te ao c o u r o
M e s t i ç o s , P r e t o s , M u la t o s .

(OC, VI, p. 1430.)

Na enunciação interrogativo-perlocucionária, a pergunta constitui o desti­


natário como personagem capacitada para responder segundo o sentido ironica­
mente selecionado; na fala assertivo-constativa, enuncia-se como resposta algo
já contido na interrogação e que a ratifica, redupltcando-a em eco: “feitiços?
Mestiços; objetos? Pretos; gratos? Mulatos” etc. E coro, terceira voz ou vozes como
análise judiciosa que relaciona enunciados interrogativos e afirmativos em sua
enunciação prescritiva, propondo o epílogo como sentença irônica.
A maior parte dos sonetos da edição James Amado - líricos, satíricos,
encomiásticos, burlescos etc. - evidencia o padrão da escrita, ao contrário dos
romances, produção mais numerosa, cuja linguagem sincopada, com quadros
descritivo-narrativos justapostos como cenários em que se encaixam diálogos,
apresenta-se como mímesis de ritmos orais. O corpus da edição James Amado
tem 217 sonetos de metro italiano96. Deles, 206 são bastante convencionais
quanto ao esquema de rimas, seguindo os de Garcilaso, Camões, Quevedo e

96. Ou 218, se se considera a inserção, por falha de paginação no volume V, do soneto que começa
"Inda que de eu mijar tanto gosteis”, que se encontra no volume VI, p, 1334. Apresentam um
sistema de rimas bastante convencional: a) Do tipo ABBA/ABBS/CDC/DCD, clássico nas
preceptivas dos séculos XVI e XVII, 162 sonetos.
b) Do tipo ABBA/ABBA/CDE/CDBjomum na lírica de Camões, 45 sonetos-entre eles. a belíssima
imitação de Garcilaso de La Vega e Góngora, “Discreta, e formosíssima Maria”. “Discreta, c
formosíssima Maria,/Enquanto estamos vendo a qualquer hora / Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e ü dia: / Enquanto com gentil descortesia / O ar, que fresco Adônis
te namorajl Te espalha a rica trança voadora, / Quando vem passear-te pela fria: / Goza, goza da
flor da mocidade, / Que o tempo trota a toda ligeireza, / E imprime em toda a flor sua pisada. / Oh
não aguardes, que a madura idade / Te converta em flor, essa beleza / Em terra, em cinza, em pó,
em sombra, em nada” (OC, IV, p. 659).
Cf. também Garcilaso de ia Vega, Obrai, 5. ed., Prólogo de Antonio Marichalar, Buenos Aires,
Espasa-Calpe Argentina, 1951, p. 150: “En tanto que de rosa y azuccna / se muestra la color en
vuestro gesto, / y que vuestro mirar ardiente, honesto, / enciende al corazón y lo refrena: / y en

66
U M N O M E POR F A Z E R

Góngora. Os onze restantes se fazem como variáveis do padrão. Tipicamente


conceptistas, como reiteração de padrão retórico-poético renascentista, que pre­
vê a estilização e a paródia de suas formas altas, os sonetos apresentam formula­
ção sintática mais elaborada, recorrendo principalmente ao hipérbato e ao
quiasma. Lírico-amorosos, lírico-religiosos, encomiásticos, burlescos, satíricos
(como sátira genérica de vícios; como sátira de tipos referidos a pessoas locais;
como paródia da lírica), diferem bastante da linguagem dos romances, que é mais
“simples”, aproximando-se dela, contudo, nas composições dialogadas.
Os romances contêm a redundância própria da oralidade, geralmente não
encontrável nos sonetos, dada a estrutura de demonstração destes: montam um
intertexto pelas glosas e expressões estereotipadas que se repetem no poema
particular ou de poema a poema. Têm também formulação sintática menos
complexa, como se escreveu, orientando-se pela prescrição retórica da clareza:
“Quero das culteranias / hoje o hábito enforcar”, diz a persona em um deles.
São, por isso, muito imediatos, como poesia quase que “de gramática”, com
pouca ornamentação e índices freqüentes do destinatário. Neles, os quatro
primeiros versos de cada estrofe, seguidos de pausa representada na escrita por

tanto que el cabello, que en la vena / dei oro se escogió, con vuelo presto, / por el hermoso cuello
blanco, enhiesto, / el viento mueve, esparce y desordena: / coged de vuestra alegre primavera / el
dulce fruto, antes que el tiempo airado/ cubra de nicve la hermosa cumbre. / Marchitará la rosa el
viento helado, / todo lo mudará la edad ligera, / por no hacer mudanza en su costumbre”.
E, ainda, D. Luís de Góngora, Recopilación, Obras Completas, Prólogo y notas de Juan Mille y
Gimenez y Isabel Mille y Gimenez, Madrid, Aguilar, 1972, p. 447: “Mieniras por compelir con lu
cabello, / oro brunido el Sol relumbra en vano, / mieniras con menosprecio en medio el llano / mira tu blanca
frente al hlio bello: / mientras a cada labio, por cogello, / siguen más ojos que al clavel temprano, / y
mientras triunfa con desdén lozano / de el lucienie cristal lu gentil cuello; / goza cuello, cabello, labio y
frente, / antes que lo que fué en tu edad dorada / hlio, clavel, cristal lucienie / no solo en plala o viola
troncada / se vuelva, mas tú y ello juntamente / en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada”. Cf.
também Góngora, op. cit., p. 450, o soneto que começa “Ilustre y hermosíssima Maria”.
c) Com tercetos ABA/ABA, repetindo-se rima e termos dos quartetos, dois sonetos, tratando-se de
variações do lugar-comum escolástico do “todo contido na parte”. A repetição de rima e termos,
em ambos, é devida ao binarismo da demonstração analógica que opõe c identifica “todo” e “par­
te . Encontram-se no vol. I da edição de James Amado, páginas 43 e 44: “Entre as partes do todo a
melhor parte” e “O todo sem a parte não é todo”.
d) Com tercetos CDD/CDD, dois sonetos (OC, III, p. 679; OC, VI, p. 1536).
e) Com tercetos CCC/CCC, um soneto (OC, IV, p. 841). É o que critica os Caramurus: “Um calção
de pindoba a meia zorra”.
f) Com tercetos CDE/DCE, um soneto (OC, IV, p. 853).
g) Com t e r c e t o s CDC/CCC, d o i s s o n e t o s (OC, IV, p . 8 9 1 ; OC, V I , 5 5 9 ) . p . 1 5 1 9 ) .
h) Com tercetos CDE/DED, um soneto (OC, V, p. 1206). É o que ironiza os sebastianistas, propos­
tos como “Bestianistas”.
0 Com quartetos AAAA/AAAA e tercetos convencionais CDC/DCD, um soneto (OC, VII, p. 1638).

67
A SÁTI RA K O ENGF. NHO

dois-pontos ou ponto-e-vírgula, têm a funcionalidade oral do exórdio ou pró­


logo. Como na oratória ou no teatro do século XVII, nos quatro primeiros ver­
sos a persona apresenta-se como um ator em cena e, fazendo pequeno resumo
ou consideração do tema, orienta o sentido para a recepção. Após o exórdio,
corre a narração, geralmente muito “solta”, sem conectores lógico-temporais,
composta como justaposição de quadros e cenas. Estes, como se escreveu, fun­
cionam como cenário de diálogos muito vivos, que são uma expansão
metalingüística do tema ou temas apresentados no exórdio. O verso de medi­
da velha faz a narração e os diálogos fáceis de memorizar. Padrões fixos e mui­
to redundantes indicam que um dos procedimentos principais de sua compo­
sição consistia em alinhar fragmentos de discursos sobre uma trama típica,
constituída por um conjunto de tópicas, montando-se muitas vezes uma rela­
ção mais ou menos exterior entre os fragmentos, na seqüência temporal do
discurso, mas não, necessariamente, na sua conseqüência.
Outro gênero de composição bastante numeroso na produção atribuída a
Gregório de Matos é a décima: dez versos redondilhos, divididos em 4, 3, 3,
geralmente, funcionando os quatro primeiros como consideração ou apresen­
tação do tema, os três seguintes como seu desenvolvimento e os três últimos,
por vezes os dois últimos, como espécie de arremate do exposto. Por exemplo:

N ã o v o s p u d e m erecer,
p o rq u e n ã o p u d e agradar,
m a s e u h e i d e m e v in g a r ,
C a t o n a , c m m a is v o s q u e r e r :
v ó s sem p re a m e aborrecer
c o m ó d i o m o r t a l, e a tr o z ,
e e u a s e g u i r - v o s v e lo z :
se s o is v e r e m o s e n f im
m a is f ir m e e m f u g ir - m e a m im ,
q u e e u e m s e g u ir - v o s a v ó s .

( O C , V I, p. 1 4 0 4 .)

Tanto décimas quanto romances compõem-se, como foi dito, com frag­
mentos de discursos repetidos em vários poemas. Por exemplo, padrões como:

H á cousa como: “ H á c o u s a , c o m o v e r o só M a n d u ” , “ H á c o u s a c o m o v e r u m P a ia iá ” ;
Senhor, Senhora: “ S e n h o r s o ld a d o d o n z e l o ”, “ S e n h o r c o n f r a d e d a b o t a ” , “ S e n h o r a C o ta
V ie ir a ” , “ S e n h o r a d o n a f o r m o s a ” ; “ S e n h o r a D o n a B a h i a ” ; Valha o diabo: “ V a lh a o d ia b o
o c o n c e r t o ” , “ V a lh a o s d ia b o s o s c a j u s ” ; Dou ao demo: “ D o u a o d e m o o s i n s e n s a t o s ” ,
“ D o u a o d e m o a g e n t e a s n a l ” ; Adeus: “A d e u s , A m i g o P e d r a l v e s ” , “A d e u s , m e u

68
UM NO ME POR FAZ ER

P e r n a m e r im ” , “A d e u s , p r a ia , a d e u s , C i d a d e ” ; Ai, quem : “A i, q u em so u b era q u erer-te”,


“A i, q u e m ta l b e m m e r e c e r a ” , “A i, S e n h o r , q u e m a lc a n ç a r a ” ; D iz e m que, J á que : “Já que
r e q u in t a a f i n e z a ” , “ já q u e a p u ta Z a b e l o n a ” , “ já q u e e n t r e a s c a l a m i d a d e s ” ; Meu: “ M e u
C a p i t ã o d o s I n f a n t e s ” , “ M e u a m a d o R e d e n t o r ” , “ M e u J o a n i c o ” , “M e u S e n h o r S e t e
C a r r e ir a s ” ; Neste, Nesta: “ N e s t e p r e c i p í c i o C o n d e ” , “ N e s t a t u r b u le n t a t e r r a ” , “ N e s t e
m u n d o é m a is r i c o ” ; Quem: “Q u e m h á d e ”, “ Q u e m a g u a r d a ” , “Q u e m cá q u i s e r ” , “Q u e m
v o s c h a m a ”; Ontem quando; Maldito seja e tc .

Ou aplicação de provérbios, frases feitas:

“g a t o p o r l e b r e ” ; “ c m c a s a c o m e B a le ia / n a ru a e n t o j a m a n j a r e s ”; “ u m f a la r p o r e n t r e
d e n t e s ” ; “ d o r m ir a o l h o s a le r t a ” ; “ m a n d a r b r in c o d e s a n g r ia s ” ; “ L iv r e D e u s ” ; “ B a n g u ê
q u e s e r á d e t i ” ; “ d a r à s d e V ila D i o g o ” e tc .

Ou, ainda, refrão, geralmente de Góngora e Quevedo:

“ n ã o te e n v e r g o n h a s , m a g a n o ? ” ; “ m ila g r e s d o B r a s il s ã o ” ; “ M a s n ã o o s a ib a n i n g u é m ”;
“ p o n t o e m b o c a ” ; “ B o a h i s t ó r i a ” , “ B o a a s n e ir a ” ; “A n j o b e n t o ”; “ q u e a m a n h ã v e m l o n ­
g e ” e tc .

Assim como um Anônimo pôde lançar mão do nome do vigário de Passé,


Lourenço Ribeiro, enunciando um poema em primeira pessoa com ele, deve-
se propor a continuidade seiscentista de uma ficção narrativa muito genera­
lizada na Idade Média, do gênero “eu vejo que...” e “eu digo que...”, adaptável
como uma fôrma a múltiplas situações e quase sempre anônima. Certos mo­
tivos satíricos tradicionais, do gênero conlemptus mundi91, como a decadência
e a corrupção dos costumes, a sodomia, a simonia e a luxúrta dos prelados, a
avareza e a dissimulação dos grandes, a desonestidade das mulheres, o reina­
do do dinheiro etc., formam séries cumulativas, assim formuladas pela repe­
tição do “eu” na enunciação, dispostas nos poemas como oposições lexicais e
semânticas paradigmáticas. Por exemplo, tanto a sátira do Anônimo contra
Gregório de Matos quanto a atribuída a este contra o vigário Lourenço Ribei­
ro operam com oposições do tipo vil/nobre, negro/branco, puta/honesta, irracio-
nal/racional. Outro exemplo é o de poemas compostos por sentenças, do gêne­
ro medieval in lacrimas risus vertitn, como o soneto paremiológico já referido.
Ou, ainda, sátiras contra negras, mulatas, frades, cristãos-novos e os dois go­
vernadores, Sousa de Meneses e Câmara Coutinho, utilizando o mesmo moti­
vo fantástico do “nariz de embono” e dos tipos “corno”, “asno”, “néscio” etc.978

97. Cf. Paul Zumthor, Essai de poélique médiévale, op. cil, pp. 134-137.
98. Idcm, p. 88.

69
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Ocorre também a glosa que estiliza ou parodia orações e preceitos do rito


católico, palavra por palavra ou frase por frase, por um comentário irônico -
por exemplo, glosa do Credo ou dos Dez Mandamentos, expressões como “Em
verdade vos digo” etc.
Estudar textos satíricos escritos - melhor dizendo, compilações de poe­
mas presumivelmente escritos quando produzidos - implica levantar proce­
dimentos e formas que são índices da enunciação neles representada como
escrita ou oralidade. Já que é impossível determinar se foram escritos ou
oralizados, propõe-se um deslocamento pelo qual se observam as marcas re­
presentadas da oralidade e da escrita. É possível distinguir:

a) uma referência genérica, forma-suporte das fontes escritas da sátira (a


tradição romana de Horácio e Juvenal, por exemplo; a medieval, sobretudo a
ibérica do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende; a de poetas contemporâ­
neos, como Camões, Quevedo, Góngora e Lope de Vega, principalmente, imi­
tados pelo autor satírico);
b) uma referência local, discursos das instituições e “m urmuraçâo” infor­
mal, dramatizados na sátira como grotesco, ridículo e obscenidade, segundo
tópicas epidíticas, com traços descritivos caracterizadores do nome, como
retrato caricatural, e traços narrativos, como exposição de eventos do refe­
rencial;
c) uma articulação pragmática da enunciação ou dramatização de posi­
ções hierárquicas e de intervenções críticas e prescritivas, segundo a norma-
tividade do mesmo referencial.

Afirma-se com isto que a sátira produzida na Bahia no século XVII tem
tripla articulação: uma é metalingüística, entendendo-se pelo termo a tradu­
ção e a conexão do poema particular por determinada forma ou gênero retórico-
poéticos, seus modelizadores: tópicas do louvor e da vituperação do gênero
epidítico; formas poéticas; soneto, romance, décima, epílogo, mote e glosa,
medida nova, medida velha, tipos e esquemas de rimas etc.; motivos tradicio­
nais, como o da Fortuna, o do marido corno, o do órgão feminino como “vaso”,
o do amor da freira, o do tamanho do pênis, os da escatologia etc. A outra
articulação é a dos discursos locais, que tematizam personalidades e ações
propostas como eventos desviantes da normalidade institucional, dos quais
se mantêm poucos traços estilizados, amplificados e deformados fantastica­
mente nas tópicas. Por exemplo, relação sodomíta de Câmara Coutinho e seu
secretário, Luís Ferreira; revolta da Infantaria à falta das “farinhas tardas”;
crítica à “justiça bastarda” do Tribunal da Relação; ataque aos negociantes
monopolistas da Junta do Comércio; certa prostituta da Cajaíba; andanças

70
UM N O M E POR FAZER

por engenhos do Recôncavo; festas da Igreja e tipos populares; o pseudofidalgo


Pedralves da Neiva; as inúmeras putas; o deão Caveira; Frei Tomás dos
Franciscanos; os índios descendentes do Caramuru; etc. O registro misto, tanto
escrito quanto oral, é índice desses dois padrões de codificação discursiva que
confluem na sátira. Ambos são integrados em uma regra pragmática de inter­
venção da persona satírica - e daqueles que, ouvindo a recitação ou lendo nas
folhas avulsas, seguem repetindo os poemas de cor e transcrevendo-os em
códices, neles introduzindo glosas e alterações, constituindo a movência anô­
nima das suas variantes.
É pressuposto reiterado neste trabalho que a forma mista da sátira impli­
ca apropriação, interpolação, alteração, falsa atribuição etc. Nela, a emulação
hoje entendida anacronicamente como “plágio” é estrutural. Um poema cuja
didascália é “Contra outros satirizados de várias penas que o atribuíram ao
Poeta, negando-lhe a capacidade de louvar” dramatiza a atividade satírica na
Salvador de fins do século XVII":

S a iu a s á t ir a m á ,
e e m p u r r a r a m -m a os p rev erso s,
q u e n i s t o d e f a z e r v e r s o s e u só t e n h o j e i t o cá:
n o u t r a s o b r a s d e t a le n t o
e u s o u s ó o a s n e ir ã o ,
e m s e n d o s á t ir a , e n t ã o
e u só t e n h o e n t e n d i m e n t o .

( O C , III, p . 7 0 6 .)

A mesma produção e circulação anônimas da sátira incluem a falsa atri­


buição, dada a fama do seu autor suposto, e as conseqüentes diatribes que
envolvem ataque, revide, contra-ataque, interferência de terceiros, segundo o
ódio programático:

L a t is , c c u i d a i s q u e e u m o r r o
d e o u v ir o v o s s o la tir , 9

99. Cf., por exemplo, “Ao capitão José Pereyra por alcunha o Sete Carreiras com caprichos de poeta
sendo ele ignorantíssimo” (OC, II, p. 359). Cf, ainda, com a exageração típica da maledicência
satírica: “Que versistas a milhares / queiram só por seu regalo / andar no alado cavalo, / devendo
ser alveitares: / que intentem por singulares / todo o aplauso, que mais campa, / e depois saiam na
estampa / com uma destampatória! / Boa história / [...] / que hajam mil de escorricaques,/que com
satíricos modos / zingando estejam de todos: / e que não se temam mil coques: / que falando com
remoques, / eles não queiram ser lidos / por toleirões, e atrevidos, / tendo uma língua irrisória! /
Boa história” (OC, II, pp. 499-500). Ou ainda: “[...] anda aqui a poesia a trote” (OC, III, p. 711).

71
A SÁTI RA E O E N G E N H O

e e u z o m b o d e v ê - l o o u v ir ,
p o r q u e q u e m la t e , é c a c h o r r o :
v ó s la t is , e e u m e d e sfo r r o
d a n d o - v o s e s t a s p e d r a d a s [...]

(O C , III, p . 7 3 8 .)

O conjunto de poemas atribuídos a Lourenço Ribeiro, vigário de Passé, e


a Gregório de Matos e Guerra, cujo desenvolvimento temático permite dispô-
los cronologicamente como narrativa de eventos conexos, indica que, num
primeiro momento, um anônimo satiriza Gregório publicando a maledicên­
cia em nome do vigário. Pela didascália do poema, tem-se a informação de
que o autor anônimo, pessoa de autoridade, já havia sido satirizado por
Gregório100, ocultando-se sob a batina do vigário certamente por temer o revide.
Ou, ainda, atacando o vigário de modo oblíquo, prevendo o contra-ataque de
Gregório, que certamente viria violento, como vem, na compilação de Rabelo.
A sátira articula várias insolências e insultos convencionais'01. O principal
deles, segundo o código de honra também ibérico, é chamar Gregório de Ma­
tos de “corno”102. Para tanto, procedimento muito usual no século XVII, quan­
do homem insulta homem difamando mulheres de sua família, o nome de
dona Maria dos Povos é rebaixado publicamente, numa junção do topos do
insulto com o trocadilho maledicente propiciado por ele:

Q u is p o r s e r e m t u d o n o v o ,
q u e é s o m e n te o q u e e le q u er,
te r c o n s i g o u m a m u lh e r ,
que é também de todo o povo:
e u só n e s t a p a r t e o lo u v o
d e d is c r e to , e d e e n te n d id o ,
p o i s q u e q u i s s e r s e u m a r id o

100. A didascália diz “Esta satyra dizem que fez certa pessoa de auctoridade ao Poeta, pelo ter satyrizado,
como fica dito, e a publicou em nome do Vigário Lourenço Ribeyro” (OC, IV, p. 782).
101. O destinatário “Gregório” é chamado de “asninho parlafrém”, “corno” (OC, IV, p. 783); mau poeta:
“Nunca soube fazer verso, / senão como tiririca” (p. 785), “Letrado de três por dous vinténs” (p.
785)',juiz inepto: “asneirão” (p. 7&5); autor de furtos literários: “gato do Parnaso de Quevedo” (p. 786);
herético: “[...] nele a heresia sobra, / e lhe falta o ser cristão” (p. 788). Razões para os insultos: Já que
a todos descompõe, / quis agora por meu gosto, / que ele fosse o descomposto, / para ver se se
compõe: / mil males sobre si põe, / quem de todos fala mal / e assim que já cada qual / me pode
dizer amém: / mas não o saiba ninguém” (OC, IV, p. 788).
102. O outro insulto atroz consiste em chamar alguém de “ladrão”, devendo-se lembrar que a teologia-
política do século XVII conceitua o Tesouro como res quasi sacra.

72
UM N O M E POR FAZER

ju n ta m e n te co m m a is cem ;
m a s n ã o o s a ib a n i n g u é m .

( O C , IV, p . 7 8 3 .)

Segue o revide contra o vigário103. A sátira, como a antecedente, tem a


mesma estrutura: persona satírica indignada e prudente; satirizado infame;
estrofes de nove versos; redondilha maior; quatro primeiros versos com fun­
ção de exórdio, resumo ou comentário de cada estrofe; quatro seguintes como
exemplificação narrativo-descritiva de ações e tipificação do satirizado, se­
gundo tópicas binárias de virtude,/vício', último verso com refrão “milagres do
Brasil são” (na sátira antecedente, “mas não o saiba ninguém”).
Por exemplo:

Q u e há de pregar o cachorro,
s e n d o u m a v il c r ia t u r a ,
s e n ã o s a b e d a e s c r it u r a
m a is q u e a q u e la , q u e o p ô s fo r r o ?
Q u e m lh e d á a ju d a , e so c o rro ,
s ã o q u a tr o s e r m õ e s a n t ig o s ,
q u e l h e v ã o d a n d o o s a m ig o s ,
e se a m ig o s tem u m c ã o ,
m i la g r e s d o B r a s il s ã o .

(O C , IV , p . 7 9 1 .)

Tal identidade de estrutura indica que, embora inimigos ferozes, os vá­


rios autores e personae discursivas concordam quanto à prescrição retórico-
poética adequada para se destruírem discursivamente, lançando mão do mes­
mo gênero - o que afasta interpretações como a de Sílvio Júlio, que
desclassificam o suposto autor como plagiário. Seguem os insultos: como o
vigário Lourenço Ribeiro é pardo, no insulto, baseiam-se no critério ibérico
da “limpeza de sangue” e, intensificando a tópica “origem”, acusam-no de ser
“um canaz todo atrevido”. Outros insultos são amplificação de “Mulato” e
“Canaz”, segundo paradigmas/irracional/ e/racial/redundantes, pelos quais
os termos insultuosos são intercambiáveis. Os topoi compõem a ascendência

103. “Escandalizado o Poeta da sáiira antecedente, e ser publicada em nome do Vigário de Passe Lourenço
Ribeiro homem pardo, quando ele estava inocente de fatura dela, e calava porque assim lhe convi­
nha: lhe assenta agora o Poeta o cacheiro com esta petulante sátira” (OC, IV, pp. 790-793).

73
A SÁTI RA E O E N G E N H O

do vigário segundo convenção do gênero demonstrativo da oratória, como


lugar de louvor e vituperação: o genus]0\
As didascálias dos poemas não explicitam o porquê do silêncio do vigário
quando da falsa atribuição do poema a ele, mas seu eleito produz várias hipóte­
ses, que vão do pudor ao temor do autor real ou cumplicidade com ele. A resposta
contra Gregório de Matos vem violenta num terceiro poema, atribuído ao vigá­
rio10". É interessantíssima, pois acusa Gregório, inicialmente, de furto poético:

D o u t o r G r e g ó r io G u a r a n h a 1045106
p ir a t a d o v e r s o a l h e i o ,
c a c o , q u e o m u n d o tem c h e io ,
do q u e de Q u eved o apanha:
já s e c o n h e c e a m a r a n h a
d a s p o e s ia s , q u e v e n d e s
p o r tu a s , q u a n d o as e m p r e e n d e s
t r a d u z ir d o C a s t e lh a n o ;
n ã o te e n v e r g o n h a s, m a g a n o '

(O C , IV, p p . 7 9 4 - 8 0 3 .)

Supondo-se que, nesta comédia de erros, a didascália esteja correta na


atribuição da última sátira ao vigário Lourenço Ribeiro, uma vez que outro
anônimo poderia tê-la escrito por ele e, ainda,para ele e como ele, o interesse

104. Cf. Quintiliano, Inslilulio oraloria, trad. Henri Bornecquc, Paris, Garnier, s/d,, 4 vols 3, 7, 10-25.
Por exemplo: “um Cão revestido em Padre", “podengo asneiro” (OC, IV, p. 790); “lios e lias do
Congo”, “suando o mondongo”, “o cachorro”, “um cão" (p. 791); “o Perro” (p. 792); “o Mulato”, “o
insensato / do canzarrào”, “sangue de carrapato”, “estoraque de congo” (p. 793) etc.
105. “Resposta do Vigário Lourenço Ribeiro escandalizado de que o Poeta o satirizasse do modo que
fica dito” (OC, IV, pp. 794-803).
106. A edição James Amado dá “Guaranha”, sendo melhor a lição da Academia Brasileira de Letras,
“Gadanha”. O poema tem 28 estrofes de nove versos. As estrofes 1, 2, 3 e 4 desenvolvem o tema do
“furto literário”. Nas restantes, predomina a vituperação segundo a tópica da “origem”. Vejam-se,
resumidamente: 5 - gênio maledicente de Gregório; 6 - genealogia: Pai de Gregório; 7 - genealogia:
Avô; 8 - covardia de Gregório: “[...] porém se em nada és guerreiro / para que te chamas guerra, /
e a fazes a toda a terra / eo’a língua, que é maior dano?”; 9 - genealogia: Avó (avô cornô); 10 -
mulher de Gregório; 11 - difamação da mulher; 12 - genealogia: Pai, Mãe; 13 - genealogia: Irmãs
Putas; 14 - genealogia: sujeira do Pai; 15 - genealogia: Irmão “um labeu da Companhia” “outro
sequaz de Epicuro”; 16 - genealogia: Irmão sodomita e mau letrado; 17 - genealogia: Irmão metido
em confusão com negra; 18 - genealogia: Irmão pícaro; 19 - genealogia: Irmão pícaro; 20 - acusa­
ção de heresia; 21 - luxúria: recusa da murça capitular para “casar como insano”; 22 - mau jurista;
23-m au jurista: “tua ciência é falhada”; 24-falta de vergonha; 25 - maus antecedentes em Portu­
gal, fuga para a Bahia; 26 - covardia: “galinha entre gente”; 27 - vícios: “teus males, e não bens”; 28
- ameaça de agressão física: “[...] hás de apanhar / mais de quatro bordoadas, / e com maiores
pancadas, / que as do teu papel insano” (OC, IV, pp. 794-803).

74

i
UM N O ME POR FAZER

deste poema consiste aqui, basicamente, no epíteto “Doutor Gregório


Gadanha” e em passagens que tematizam o furto poético, como esta:

O so n e to , q u e m a n d a ste
ao A r c e b is p o e le g a n te
é d o G õ n g o r a a o In fa n te
C a r d e a l, e o f u r ta s te :
lo g o m a l te a p e l i d a s t e
o M e s t r e d a p o e s ia
f u r t a n d o m a is e m u m d ia ,
q u e m il la d r õ e s e m u m ano:
n ã o te e n v e r g o n h a s , m a g a n o ?

(OC, IV, p. 795.)

João Carlos Teixeira Gomes relaciona “Gadanha”, da sátira em questão,


com o termo “gadanha”:

A lé m d o s e u s i g n i f i c a d o m a is u s u a l d e foice, r e c o r d e m o s q u e D o m i n g o s V ie ir a t a m ­
b é m d o c u m e n t a n a p a la v r a o s e n t id o d e “ la r a p ia r c o m a s t ú c ia , fu r ta r d e s t r a m e n t e ” ,
s i g n i f i c a d o s q u e s e a j u s t a m a o s o b j e t i v o s d o a c u s a d o r d e G r e g ó r io , n o s e u a fã d e
d e s m o r a liz á - lo . N ã o p o d e s e r d e s c a r ta d a , p o r é m , a h i p ó t e s e d a p r e d o m i n â n c i a d a s s i g n i ­
f ic a ç õ e s m a is c o r r e n t e s , p o i s “ g a d a n h a ”, n o s t e x t o s a n t ig o s , é p a la v r a q u e a p a r e c e s e m ­
p r e a s s o c ia d a à id é ia d e a lg o q u e fe r e , c o r ta o u a m e a ç a . T a l, o b v i a m e n t e , c o m o a p r ó p r ia
p o e s ia s a t ír ic a d e G r e g ó r io . S ó a s c o n t r ib u iç õ e s d a F il o l o g i a o u d a c r ít ic a t e x t u a l p o d e ­
rão e s c la r e c e r a d e q u a d a m e n t e o p r o b le m a : a d ic io n a r iz a ç ã o d e D o m i n g o s V ie ir a é r a r a 107108.

Esta interpretação de Teixeira Gomes - como seu livro sobre o intertexto


poético de Gregório de Matos - é bem-fundada e verossímil, embora não res­
salte a novela picaresca escrita em espanhol, El Siglo Pitagóricoy Vida de D.
Gregono Guadana'os, na qual o termo ocorre com o mesmo significado dicio-

107. Cf. João Carlos Teixeira Gomes, op. cil., p. 54.


108. Dedicada por seu autor, o português Antônio Henrique Gomes, a Monsenor François Bassompierre,
Marquês de Harouel, Caballero de Ias Hordencs de Su Magestad Cristianisima, Mariscai de Francia
y Coronel General de los Suisses, a novela saiu em Ruão, em 1644, na imprensa de Laurens Alarry.
Desenvolvendo o tema da metempsicose pitagórica, narra as aventuras de uma alma que se vai
encarnando em vários corpos, mantendo a forma genérica da picaresca, na qual a personagem
passa por várias situações dramáticas. O capítulo I, “Conta dom Gregório sua pátria e genealogia'’,
refere os feitos dos avós, pais, irmãos, irmãs e primos da personagem central, Gregorio Guadana,
pícaros todos eles. C f Antônio Henrique Gomes, “Conta dom Gregório sua Pátria e Genealogia”,
em João Palma Ferreira, Novelistas e Contistas Portugueses dos Séculos X V II e XVIII, Lisboa, Imprensa
Nacional Casa da Moeda, 1981.

75
A SÁTIRA E 0 E N G E N H O

narizado por Domingos Vieira. O que é interessante, além da coincidência


do nome da personagem pícara e do autor satírico, que teria propiciado ao
vigário a qualificação de Gregório como “Gadanha”, é que o poema utiliza os
mesmos topoi e a mesma disposição retórica deles, tais como podem ser lidos
na novela, aproveitando-se da homonímia para conferir o mesmo tratamen­
to pejorativo ao tema da genealogia atribuída a Gregório de Matos e Guerra.
Isto evidencia mais uma vez o anacronismo do conceito de “plágio” aplicado
ao século X V I I . A sátira do vigário é convencionalíssima na emulação da
novela picaresca, pois atribui “Irmãs” a Gregório de Matos, tipificando-as
como “putas”, profissão das irmãs do personagem homônimo Gregorio
Guadana...109
No século X V I I , preceptistas conceituam o engenho e suas variedades, prin­
cipalmente o exercício, como imitação de modelos consagrados proposta como
louvável no sentido da emulação. Segundo Tesauro, imita-se para produzir
variedades da espécie, mas não o mesmo indivíduo. Neste sentido, a imitação
de Quevedo não é furto, ao passo que a apropriação do poema de Góngora, a
crer no que a sátira do vigário afirma, é evidentemente pirataria:

C h a m o p o i s im it a ç ã o u m a s a g a c id a d e c o m a q u a l, p r o p o s t a p a r a ti u m a m e tá f o r a
o u o u tr a f lo r d o h u m a n o e n g e n h o , a t e n t a m e n t e c o n s i d e r a s a s s u a s r a íz e s c , t r a n s p la n -

109. O que a estilização da sátira evidencia é a circulação de textos espanhóis e portugueses em Salva­
dor, em fins do século XVII, além daqueles presumivelmente também circulantes em outras lín­
guas. Lembre-se, por exemplo, que capuchinhos franceses e italianos vinham frequentemente do
Congo, no século XVII, fazendo escala na Bahia antes de embarcarem para a Europa. Um dos
códices gregorianos da Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, cofre 50, o Códice 6.?, com
letra do século XVII, 535 fls., com o título Poesias, contém produções variadas, como “Fábula Joco­
sa”; “Os Amantes de Espanha”; “Amores de Píramo e Tisbe" (pp. 165-229); “O Roubo de Prosérpina
- O Ladrão Velhacão e a Gulosa dos Bagos”. Cena jocosa. Personagens. Plutão; Prosérpina; Júpiter;
Ceres; Radamanto; Ninfas; Paquete, criado de Plutão; Marabuto, diabrete; Malquetrefe, diabrete;
Maroto, diabrete; Sorrateiro, diabrete (pp. 229-340); “Fábula de Caco e Hércules”. Composta por
Manoel Pacheco Valadares, 94 oitavas (pp. 340-356); “Jornada” - que o senhor Francisco de Brito e
Meneses, reitor da Universidade de Coimbra, foi com a sua gente em socorro à vila de Buarcos,
estando quase assaltada dos holandeses. Descrevem-se os amores da Ninfa Coimbra, que deu nome
à cidade, e a origem de suas armas”, 97 oitavas (pp. 356-372); “Concilio dos bêbados”, poema
macarrônico, paródia d’Os Lusíadas. Pelo dr. Manoel do Valle, deputado do Santo Oíício de Évora.
“Dos Lusíadas” de Camões, contrafeito à bebedice. Veja-se a primeira oitava: “As armas e os Borra­
chos assinalados, / que de Alcochete, junto a vila Franca, / por vinhos nunca dantes navegados /
passaram muito além da Peramanca: / Em pagodes, e ceias esforçados / mais do que se permite à
gente branca, / em Évora cidade se alojaram / Onde Pipas, e Quartos, despejaram”. Essa scnsabo-
ria se arrasta por mais 105 estrofes; “El cortezano espanol, político, y moral; documento de un
padre, a su hijo que se iba a vivir en la Corte" (pp. 478-487) etc.

76
UM N O ME P O R FAZER

lando-a em diferentes categorias como em um solo cultivado e fecundo, propagas ou­


tras flores da mesma espécie, mas não os mesmos indivíduos110.

Nas preceptivas dos séculos XVI e XVII, que invariavelmente retomam a


Poética e a Retórica, o De oratore, a Institutio oratona e a Arte Poética, ressalta
sempre o empenho de prescrever o decoro, entendendo-se com ele a adequa­
ção da linguagem ao lugar-comum da invenção e ao grau das pessoas circuns-
tantes, como decoro interno e decoro externo:

Si deve inoltre servar decoro tra la figura e proprietà significante colla persona e suo
conceito, si che né da vil figura la nobile azione si spieghi, né da deforme la bella, né da ridicolosa
la grave; népensiero difortezza con cosa timida, né di oneslà la succida, né difierezza la mite;
e la ragion é primieramente perché come la probabilità nasce da convenienza, cosi quando si
vede sproporzione e disconvenienza, o nello stile o ne‘ concetti, o nel decoro, si pregiudica alia
probabilità e al verisimile"1.

Ou, ainda:

El poeta se ha de acomodar al lugar y ha de atemperar su argumento a la aprehensión


común112.

Baldassare Castiglione cita como exemplo de dito agudo e malvado, feito


para ferir e, portanto, levando justamente em conta a condição do destinatá­

110. Cf. Emanuele Tesauro, “Arguzie umane”,op. cit., p. 35.


111. “Deve-se além disso observar o decoro entre a figura e propriedades significantes com a pessoa e
seu conceito, para que não se explique da vil figura a nobre ação, nem da disforme a bela, nem da
ridícula a grave; nem pensamento de fortaleza com coisa timida, nem de honestidade com a suja,
nem de ferocidade com a suave; e a razão é primeiramente porque, como a probabilidade nasce da
conveniência, quando se vêem desproporções e inconveniência ou no estilo ou nos conceitos ou no
decore, prejudica-se a probabilidade e a verossimilhança”. Cf. Emanuele Tesauro, “Che nelfimpresa
devesi guardar il decoro”, Idea delle Perfene Imprese, testo inédito a cura di Maria Luisa Doglio,
Firenze, Leo S. Olschki, 1975, pp. 109-110; Baldassare Castiglione, II Libro dei Cortegiano em Opere
di Baldassare Castiglione, Giovanni delia Casa, Benvenuio Cellini, Milano-Napoli, Riccardo Ricciardi
Editore, 1960, pp. 146-186; Lodovico Castelvetro, Poética DAristolele Vulgarizzata e Sposta, a cura di
Werther Romani, Roma-Bari, Gius. Laterza & Figli, 1978, 2 vols.; Félix de Azevedo Carneiro e
Cunha, Diálogo entre o Deus Momo e o Censor (1726), edição crítica de Heitor Martins, em VIIAnuá­
rio do Museu da Inconfidência e do Grupo de Museus e Casas Históricas de Minas Gerais, Belo Horizonte,
SPHAN/MEC, 1984. O coronel José Pires de Carvalho também discorre sobre “as Leis que se hão
de observar nas graciosidades”, na Conferência de 21 de janeiro de 1725 da Academia dos Esqueci­
dos. Cf. José Aderaldo Castello, op. cit., pp. 161-165.
112. Cf. Padre José de Alcázar, Ortografia Casiellana (Madrid, 1690) em F. S. Escribano y A. P. Mayo,
Precepliva Dramática Espanola (Del Renacimientoy el Barroco), Madrid, Gredos, 1965, p. 241.

77
A SÁTI RA E O E N G E N H O

rio, um enunciado que em outro contexto discursivo seria anódino: “E onde


pões os óculos?”111 O destinatário não tem nariz. Outro exemplo de Casti-
glione, codificador renascentista de paradigmas da agudeza posta em voga no
século XVII pela ordenação de Gracián e de Tesauro, principalmente, é o de
Alonso Carrillo, nobre posto a ferros no reinado de Isabel, a Católica, por
uma inconveniência qualquer. Libertado, uma dama de suma prosápia, Beatriz
de Boadilla, marquesa de Moya, finge surpresa por vê-lo na Corte: “Senhor
Alonso, a mim muito me pesou essa vossa desventura porque todos os que vos
conhecem pensávamos que seríeis enforcado”.
A resposta de Alonso, que em outra ocasião poderia ser interpretada pe­
los códigos do amor cortês, é um insulto: “Senhora, realmente tive grande
medo disso; mas tinha esperança de que me pedirieis por marido”m . Era
costume, na Espanha, quando se levava alguém para enforcar, perdoar-se-lhe
o crime, se uma prostituta o pedia publicamente em casamento.
Em Artificioy Arte de Ingenio, Baltasar Gracián retoma Castiglione, defi­
nindo o procedimento da agudeza como adequação à “conjunção dos acasos”:
ela é uma glosa que interpreta, adivinha, torce (e talvez invente) a intenção, a
causa, o motivo da ação tomada como tema pelo discurso, seja para a malícia
e a maledicência, que é o mais comum, seja para o louvor111. Como maledi­
cência, pois, o discurso fere o decoro dos gêneros elevados em função de outra
adequação. O procedimento é apto também, pela ironia, para transformar
um artifício afetado em seu contrário - caso daquela dama citada por Casti­
glione como merecedora de ridicularização. Quando lhe perguntaram gentil­
mente por que não se divertia na festa, disse que se preocupava em pensar
que no Dia do Juízo todos estaremos nus1134516.
A teoria da agudeza, tal como vem desenvolvida em Castiglione, Gracián
e Tesauro, fornece regras para a produção de inconveniências convenientes,
enfim, sendo a situação em que são proferidas que lhes confere um sentido
determinado. Um mote pode ser engenhosíssimo, mas torna-se imediatamente
obsceno pela presença de mulheres de posição social determinada - o que
implica, mais uma vez, a partilha comum de uma convenção para a inconve­
niência, proposta diferencialmente, conforme a ocasião. Muitos palhaços sem
tato perderam excelentes amigos por não serem capazes de conter a maledi­
cência e os ditos agudos - lugar-comum também nos preceptistas citados.

113. Baldassare Castiglione, op. cit., p. 169.


114. IJcrn, p. 178.
115. Baltasar Gracián, “Discurso XXVI: De la Agudeza Crítica y Maliciosa”, ém Artificioy Arie de Ingenio
in Obras Completas, Madrid, Aguilar, 1967, p. 356.
116. B. Castiglione, p. 179.

78
UM N O M E POR FAZER

Mesclam-se com muita graça e artifício, segundo Gracián, a crítica judi-


ciosa e a irrisória, aquela ponderando gravemente e esta acusando ridicula­
mente. Neste sentido, a sátira é uma espécie de sentença aplicada à ocasião,
sacada de suas mesmas circunstâncias, que fornecem seu duplo desenvolvi­
mento sério-cômico117. Tem muito da condensação metafórica do mot d ’esprit
estudado por Freud, valendo dizer que o duplo sentido dos seus equívocos
irônicos só se lineariza na recepção, que confere à metáfora sua significação
pejorativa ou grave.
Um desses jogos, considerado mais fácil que sutil porque se vale justa­
mente da situação, é o da agudeza irônica por paronomásia ou trocadilho. Por
exemplo, no poema dirigido à freira que enviou um cará por pão:

D e s c o b r is t e s a in te n ç ã o ,
e o d e s e j o r e v e la s t e s ,
q u a n d o o cará e n c a ix a s te s ,
a q u e m v o s p e d ia pão:
c o m o q u e m d iz : m e u I r m ã o ,
s e q u e m t o m a , se o b r ig o u
a p agar, o q u e to m o u ,
v ó s o b r ig a d o a p a g a r - m e ,
fic a is e n s in a d o a d a r -m e
o cará, q u e v o s eu d ou .

(O C , IV , p . 8 7 5 .)

A troca de letras ou o acréscimo de sílaba à palavra produzem outra sig­


nificação, seja para encômio, seja para vituperação"8: “do cará a caralhada’'
(OC, IV, p. 876).
Na sátira, tais jogos que avaliam os objetos e o contexto discursivo da
comunicação são abundantes, invertendo-se situações e tipos pela figura da
ironia efetuada nos trocadilhos. Por exemplo, inventando-se que certo padre
calvo é “sacerdote calvino”, acusação violenta de heresia dirigida a clérigo
pós-tridentino contemporâneo da Inquisição; ainda, afirmando que o mesmo
cura, culpado dos males da Cidade, ocupa-se de moças que “seu cura são”119.

117. B. Gracián, op. cil., p. 381.


118. I d e m , p. 393. Castiglione dá como exemplo o do comparecimento, na Corte espanhola, de um
fidalgo feiíssimo, acompanhado da mulher, belíssima, trajados ambos de d a m a s c o branco. Pergun­
ta a rainha Isabel a Alonso Carrillo: - Que vos parecem? - Senhora, esta é a d a m a ; esse, o a s c o Cf.
B. Castiglione, op. cit., p. 180.
119. Cf., entre outros: “[...] nunca Loureiro vi / enxeriado em Limoeiro" (Limoeiro c o nome de prisão de
Lisboa (OC, II, p. 297); o Loureiro de escabeche, / o Chicória de salada" (OC, II, p. 299); “[...] O

79
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Não é “original”, contudo, pois o mesmo trocadilho “calvo/calvino” encon-


tra-se em Quevedo120, disseminando-se pela poesia do tempo. Fundados sobre
a figura da ironia, tais trocadilhos evidenciam que a função de uma fala en-
contra-se preenchida, na recepção, por uma outra fala121, de modo que um
significado e um significante, em princípio indissociáveis, são antiteticamente
destacados um do outro, produzindo o efeito terminal incongruente e irônico.
Há uma pragmática, assim, a reger a atividade satírica: de modo geral, o
discurso encena em sua forma a mesma situação à qual é aplicado. Com tal
auto-referencialidade, é performativo, apresentando não somente signos do
destinatário ou do objeto referencial de terceira pessoa satirizados, mas tam­
bém signos para o destinatário, tanto o satirizado quanto o ouvinte/leitor.
Indicam-lhes o modo pelo qual devem interpretar o discurso em que são arti­
culados. O trocadilho “calvo/calvino” aplicado a padre só funciona, neste sen­
tido, em sociedade católica em luta contra a heresia reformada, pressupondo
a partilha de um mesmo dogma pela recepção para que a ironia ou a agressão
se façam entender. Ainda, a sátira propõe várias traduções equívocas, malicio­
sas ou chulas de um termo utilizado inicialmente para referir uma situação,
um evento, um costume, uma ação, um tipo. O poema é construído como

incenso, o ouro, a mirra [...] / É, que vos hão de mirrar” (OC, II , p. 301), “[...] mostrais pregando de
falso, / que sendo um Frade descalço, / andais pregando de meias’’ (OC, I I , p. 314 - acusa-se o frade
de pregar sermão furtado); “[...] sendo um Frei Jumento, / és jumento sem freio" (OC, I I, p. 319); “[...]
nunca louvarei / Capitão, que diz, cuidei / nem Dama, que diz, cuidava" (OC, I I , p. 382); “[...] Do
monte Olimpo se conta, [...] / o Frade seria, / pelo que dele corria, / monte, mais o limpo não" (OC, I I ,
p. 346); “[...] a primeira entrou sem pejo, / mas a segunda pejada" (OC, I I , p. 365); “[...] eu não vi na
fidalguia / Mendonça sem ter Furtado" (OC, p. 367); “[...] estou sem voz desabrochado” (OC, p. 417 -
soneto ao desembargador Belquior da Cunha Brochado)', “[...] veio o Jardim esbofado / mais rosado,
que um jardim" (OC, I I I , p. 584); “(...] Fez-se a segunda jornada / de comédia ou comedia" (OC, I I I , p.
590); era Pissarro em piçarra” (OC, I I I , p. 596); “[...] parira, como com vinho, porém não como
convinha” (OC, I I I , p. 628); “[...] Que se ainda mais rosas lançais fora / Receio, que fiqueis posta na
espinha" (OC, I I I , p. 692 - “rosas” é metáfora de “sangrias”); “[...] não cegou da privação, ficou cego
da privada” (OC, I I I , p. 721); “[...] um Bártolo pareceis, / não sendo senão Bartolo” (OC, I I I , p. 735);
“[...] e à força de tanta pá / viveremos sempre em paz” (OC, IV , p. 859); “[...] com dois mil aqui d’El-
Reis" (OC, I I , p. 392); “[...] hoje sois mau soldado / porque ontem fostes rompido” (OC, II , p. 397);
“[...] a um raso soldado / lhe bastam cadeiras rasas” (OC, I I , p. 398); “[...) amizades de um Visconde, /
favores de um Conde vis” (OC, I V , p. 896); “[...] Peito em que o cego amor não tem sossego / Só cego por
não ver-lhe amor perfeito” (OC, IV , p. 921) etc. (Grifos meus.)
120. Cf. Francisco de Quevedo, La Hora de Todosy la Fortuna con Seso, Introduction, traduction et notes
par Jean Bourg, Pierre Dupont et Pierre Geneste, Paris, Aubier-Montaigne, 1980, cap. X X I I I , p.
236: “El Rey de Francia se fué llegando a Roma con piei de cardenal para no ser conocido; pero el
Rey de Espana, que entendió la maula de disfrazar el Monsiur en Monsenor háciendole al pasar la
cortesia, le obligó a que, quitándose el capelo, descubriese lo calvino de su cabeza” (grifo meu).
121. Cf. Paul Zumthor, Essai de poétique médiévale, op. cit., pp. 105-106.

80
UM N O M E P O R FAZER

dramatização de uma metáfora que se vai deslocando, enquanto incorpora o


destinatário como termo das traduções. Por exemplo, maliciosamente:

D a i- m e lic e n ç a , A n to n ic a ,
p a r a e u ir à v o s s a c a s a ,
p a r a b e ij a r - v o s a s m ã o s ,
e p ara, não digo nada.
(OC, III, p . 7 7 6 .)

com duplo sentido obsceno: “és carvoeiro infernal, / pois andas com saco em
pernas” (OC, II, p. 319); com humor escravista, jogando com a homofonia dos
termos:

E p a r d o ra ja d o e m p r e to ,
o u p r e to e m b u tid o em p a rd o ,
malhado o u já malhadiço
d o t e m p o e m q u e fo r a e s c r a v o .

(O C , II, p . 4 5 8 .)

Ainda, interpelando o destinatário constituído em posição inferior por ter­


mos ironicamente elevados, caso das mulheres públicas, “Damas”, quando
“putas”; ou com insultos diretos, que excluem o receptor da boa sociedade e
mesmo de toda sociedade, “putas” em oposição a “Damas”; “vacas” e “por­
cas” em oposição a /humano/. Caso também do extenso rol de frades e cléri­
gos, cuja atividade sexual é hiperbolizada na bestialidade:

R e v e r e n d o F rei C a rq u eja ,
q u e n t á r id a c o m c o r d ã o ,
m a g a n o d a r e lig iã o ,
e m a r io la d a Ig r e ja :
F r e i S a r n a , o u F r e i B e r to e ja ,
F r e i P ir t i g o [...]
F rei B urro d e L a n ça m en to
[...] s e n d o u m F r e i j u m e n t o ,
é s u m j u m e n t o s e m f r e io .

(O C , II, p . 3 1 9 .)

Ou, ainda, operando com signos de captado benevolentiae de receptores virtuais,


articulados pela enunciação como cúmplices na partilha dos valores que a
ridicularização propõe:

81
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

E u , q u e m e n ã o s e i c a la r ,
m a s a n te s te n h o p o r m ín g u a ,
n ã o p u r g a r - s e q u a l q u e r lín g u a
a r is c o d e a r r e b e n ta r :
v o s q u e r o , a m ig o , co n ta r,
p o i s s o i s o m e u s e c r e t á r io ,
u m s u c e s s o e x t r a o r d in á r io ,
u m c a s o t r e m e n d o e a tr o z ;
p o r é m f iq u e a q u i e n t r e n ó s .

( O C , II, p . 2 6 1 .)

A pragmática se evidencia, ainda, nas marcas intersubjetivas da enunciação,


como alternância irônica de louvor e insulto das formas de tratamento confor­
me o tipo significado por elas - por exemplo, como oposição hierárquica de
“tu”, vulgar, íntimo e inferior, e “vós”, nobilitante, distanciado, igual ou supe­
rior. Funcionando como um diagrama de posições sociais encenadas nos poemas,
os pronomes põem ênfase na própria situação de comunicação, independente­
mente do tema que é desenvolvido nela. Desta maneira, muitos poemas jogam
com a virtualidade da aplicação pronominal, cuja significação só é dada quan­
do são atualizados como designação de pessoas discursivas em ato. O jogo irô­
nico decorre do choque da codificação institucional da designação e significa­
ção pronominais com a circunstância em que os pronomes são empregados de
maneira programaticamente inadequada, isto é, irônica - o que, mais uma vez,
pressupõe uma recepção ciente do código institucional para compreender a
falsa atribuição, a diatribe e o sarcasmo. A articulação pronominal irônica re­
dobra o valor da efetuação semântica, assim, funcionando como técnica de
amplificação, hiperbolização ou redundância funcional. Em longo poema no
qual vitupera a Bahia personificando-a num quiasma como “madrasta dos Na­
turais/ e dos Estrangeiros madre” (OC, II, p. 429), apersona satírica começa por
chamá-la de “Senhora Dona” (expressão muito corrente nos poemas satíricos
iniciados por interpelação irônica), a que se segue o atributo implícito na for­
ma de tratamento, “nobre e opulenta cidade”. Uma ordenação filipina de 1597
reservara o tratamento de “Senhor Dom” aos postos mais elevados da burocra­
cia estatal e do clero: arcebispos, bispos, duques e seus filhos, marqueses e con­
des, o prior do Crato, bem como vice-reis e governadores e, ainda, o regedor da
justiça da Casa da Suplicação, o governador da Relação do Porto, os vedores da
Fazenda, os presidentes do Desembargo do Paço e Mesa de Consciência'” . Tra-12

122. Em 1596, na Espanha, e em 1597, em Portugal, Filipe II baixou leis que determinavam os limites
das formas de tratamento, fixando as penas em que incorreríam os que utilizassem fórmulas não

82
UM NO ME POR FAZER

tada por “Senhora Dona”, a Bahia continua sendo personificada e nobilitada


pelo “vós” até que, no final do poema, após a narração e a descrição de um
elenco de seus vícios, recebe a forma “tu”, que a hierarquiza no estilo baixo,
sendo então amaldiçoada. Assim, no início do poema:

Dizei-me p o r v id a vossa
e m q u e fundais o d i t a m e
d e e x a lt a r , o s q u e a í v ê m ,
e a b a te r , o s q u e a li n a s c e m ?
S e o fazeis p e l o i n t e r e s s e ,
d e q u e o s e str a n h o s vos g a b e m e tc .

(O C , II, p . 4 2 9 .)

E, no final:

T ã o q u e i m a d a e d e s t r u íd a
Te vejas, t o r p e c id a d e ,
com o S o d o m a e G om orra
d u a s c id a d e s in fa m e s .
Q ue eu zom b o de teus v i z i n h o s e tc .

(O C , II, p. 4 3 4 .)

Paralela à tipificação semântica do ataque, a articulação pronominal funcio­


na como um diagrama da distribuição política dos corpos pela hierarquia. A
inversão irônica é dupla: dando-se como substituição de “vós” por “tu”, evi­
dencia-se no final do poema como inversão de inversão, explicitando a
inadequação inicial do tratamento “Senhora Dona” e “vós”. Como um meca­
nismo auto-regulador, o tratamento inicial “vós” efetua o estado da Bahia
como ironia, segundo a persona satírica, pois a ele corresponde efetivamente o
vulgar “tu”. Se a “vós” corresponde a aparência e a presunção de honestidade

adequadas à sua posição. Tais pragmáticas ficaram conhecidas como “leis das cortesias". Quase sé­
culo e meio depois, no reinado de dom João V, em 1739, nova pragmática referente às formas de tra­
tamento foi baixada, para evitar o excesso e a vulgaridade no uso de “Senhoria”, por exemplo, que
confundiam a ordem e pervertiam a distinção que fazia os tratamentos estimáveis. Cf. Luís F. Lindley
Cintra, Sobre “Formas de Tratamento" na Língua Portuguesa, Lisboa, Livros Horizonte, 1972. Numa c
noutra pragmática, a ordenação dos tratamentos visa a constituir e manter a hierarquia, sendo eles
exemplos vivíssimos do controle social no período que se conhece por “Barroco”. Tais formas, evi­
dentemente, não deixariam de ser incorporadas às letras, com referências às pragmáticas, sendo
índice muito seguro para determinar a posição das personagens representadas na sátira.

83
A SAI IRA E 0 E N G E N H O

e nobreza, “tu” produz a realidade baixa123 encoberta pela dissimulação. A


dramatização pronominal recupera e amplifica, desta maneira, a estrutura
do quiasma que, desde o início do poema, diagrama a Bahia como estado de
inversão viciosa a ser invertido pela vituperação. Para públicos contemporâ­
neos, a operação se evidenciava ironicamente desde a invocação “Senhora
Dona” do primeiro verso, dada a situação maravilhosa efetuada por ele: “in­
terpelação de cidade”. E que a recepção tinhaapriori uma opção binária para
julgar o poema: a cidade seria louvada/a cidade seria vituperada, segundo
regras do gênero demonstrativo em que “cidade” é uma tópica do louvor ou
do vitupério. Desta forma, ainda, o investimento semântico disfórico, as pon­
derações críticas da persona satírica, a estrutura do quiasma e a articulação
pronominal iam ao encontro de códigos da recepção, que nos procedimentos
reconhecia as marcas de um desempenho poético adequado.
Na sua Vida, o licenciado Rabelo critica aquilo que, na Bahia do século
XVII, funciona como adequação - já prevista no início do século por Lope de
Vega e Tirso de Molina, entre outros - da sátira a regras do gênero e da recepção:

[...] a p r ó d ig a d i f u s ã o d e m a l a p l i c a d o s c o n c e i t u o s o s d i s p ê n d i o s n a s c ia d a s e n c h e n t e s
p r o d i g i o s a s d a q u e la M u s a , q u e s e m e s p e r a n ç a d e q u e s e u s d e s c u i d o s c o r r e r ía m n a f u ­
tu r a e s t i m a ç ã o , barateava versos à conjunção dos acasos, facilitando linguagens ao gênio dos
sujeitos124.

Retoricamente, o decoro é especificadorde gêneros que prescreve a adequa­


ção do estilo aos temas do discurso, bem como à recepção. Interessado em con­
formar a personagem de sua biografia como “lírico”, Rabelo censura o estilo
baixo ou sórdido da sátira, evidenciando em sua crítica a escolha de um decoro,

1 2 3 . N a sua; " V i d a d o E x c e l e n t e P o e t a L í r i c o , o D o u t o r G r e g ó r i o d e M a t o s e G u e r r a ” o l i c e n c i a d o R a b e l o

in fo rm a : “ U m h o m e m d e b a ix a esfe ra , q u e p o r a q u e la in iq u id a d e , a q u e n o B rasil c h a m a m fo rtu n a ,

su b iu a d e sco n h e c e r seu A m o , c o m p ra n d o a vara d e Ju iz O r d in á rio na v ila de Igaraçu em

P e r n a m b u c o , fez u m a u to c r i m i n a l c o n tr a este p o r lhe h a v e r c h a m a d o p o r V ós, c o m o a n te s d e o v e r

J u iz c o s tu m a v a . D e f e n d ia o n o sso ju rista [G regório] o réu , c c o n fe s s a n d o a c u lp a , m o s tro u q u e o

n ã o e ra , c o m e ç a n d o as raz õ e s c o m este a rg u m e n to : "S c tr a ta m a D e u s p o r tu , / c c h a m a m a E i R ei

p o r v ó s , / c o m o c h a m a r e m o s n ó s / ao J u iz d e I g a r a ç u ? / T u , e vós, e vós, e tu". C f. R a b e lo , op. a í . , e m

J a m e s A m a d o , o p . c i t ., v o l . V I I , p . 1 7 0 5 . L e m b r e - s e t a m b é m o b i l i n g ü i s m o p o r t u g u ê s - c a s t e l h a n o d o

p e r í o d o . S e g u n d o P i a C á r c e l e s , “ [...] v o s e a r a u n a p e r s o n a i m p i i c a b a c u a n d o n o e n i n s u l t o , u n a

in tim a f a m ilia rid a d , o s u p e rio r c a te g o ria so cial p o r p a rte d e i q u e h a b la b a ” , d e s d e os p r in c íp io s d o

s é c u l o X V I . C f . P i a C á r c e l e s , R e v i s t a d e F ilo lo g ia E s p a n o l a , v o l . X , 1 9 2 3 , p . 2 4 5 , c i t . p o r J o s é F e r r e i r a

C a r r a t o , A C r is e d o s C o s tu m e s n a s M in a s G e r a is d o S é c u lo X V I I I , S e p a r a t a d a R e v i s t a d e L e t r a s , A s s i s ,

F a c u l d a d e d e F i l o s o f i a , C i ê n c i a s e L e t r a s , v o l . II I , p . 2 2 2 , 1 9 6 2 .

124. L ic e n c ia d o M a n u e l P e reira R a b e lo , “ V ida e M o rte d o E x c e le n te P o e ta L íric o , o D o u t o r G re g ó rio

d e M a t o s e G u e r r a ” , e m J a m e s A m a d o ( o r g . ) , op. c it., v o l . V II, p . 1 7 0 7 ( g r i f o s m e u s ) .

84
UM NO ME POR FAZER

entre outros, generalizado como representativo da excelência política e letrada.


Assim, aquilo que está retoricamente previsto para o prazer da deformação cô-
mico-maledicente - estilo baixo, translação sórdida, tópicas para a vileza, cari­
catura, deformação, adequação ao vulgo, mistura estilística etc. - é lastimado:
“mal aplicados conceituosos dispêndios”, “descuidos”, “barateava versos”, “fa­
cilitando linguagens”, “conjunção dos acasos”. A censura fez carreira e é
indicativa da reorientação do decoro como /moral/, iniciada no século XVI, e que
se naturaliza no XVIII. Em Tesauro já se explicita a moralização:

Non voglio però negare che o per bizzarria o per trastullo non si possa talvolta
voloniariamente sprezzar le leggi dei decoro, come fanno ipoeti ne’fescennini, perfar ridereL’5.

O decoro rebaixa a sátira a gênero misto, tornando-se impossível delimitá-


la numa forma fixa ou num procedimento exclusivo: as misturas e as situa­
ções são ilimitadas e ela é estruturalmente aberta. Escreve-se isto lembrando-
se novamente que no Brasil se tornou modismo hipostasiar a paródia, forma
sério-cômica entre outras, como sua definição125126.Veja-se, para melhor discu­
tir a questão, o seguinte soneto atribuído a Gregório de Matos e Guerra:

R u b i, c o n c h a d e p e r l a s p e r e g r in a ,
A n i m a d o C r i s t a l , v iv a e s c a r la t a ,
D u a s S a f ir a s s o b r e l i s a p r a t a ,
O u r o e n c r e s p a d o s o b r e p r a ta fin a .
E s t e o r o s t i n h o é d e C a t e r in a ;
E p o r q u e d o c e m e n t e o b r ig a , e m a ta ,
N ã o liv r a o s e r d i v i n a e m s e r in g r a t a ,
li r a io a r a io o s c o r a ç õ e s f u lm in a .
V iu F á b i o u m a t a r d e t r a n s p o r t a d o

1 2 5 . E m a n u e l e T e s a u r o , I d e a d c l l e P e r fe í te . I m p r e s e , o p . c i t . , p . 1 1 1 . T e s a u r o e s c r e v e q u e m u i t o s p o e t a s

p e c a m .co n tra a a rte , s a b e n d o q u e d e ix a m o decoro p o rq u e q u e re m d eix á-lo . A ssim , n ã o p e c am ,

c o m o n ã o p e c a c o n tra a arte o p in to r q u e faz m u ilo b e m um fo cin h o to rto . C o m o d iz A ristó teles,

to d a a rte (ex ceto a p ru d ê n c ia ) tem esse p riv ilég io de n ã o p e c a r c o n tra a a rte q u a n d o peca.

1 26. C f . , p o r e x e m p l o , A n g e l a M a r i a D i a s , O R e s g a te d a Dissonância - Sátira e Projeto Literário Brasileiro,


R io d e J a n eiro , A n ta re s /IN L , 1981; L ú cia H e le n a, Uma Literatura Anlropofágica, R i o d e J a n e i r o -
B ra sília , C á t e d r a / I N L , 1982. H c o m u m , n o s e s tu d o s so b re a p o esia a tr ib u íd a a G r e g ó r io d e M a to s ,

n ã o a n alisá-la s e g u n d o su a h isto ric id ad e , m a s p refix ar a p a ró d ia c o m o m o d e lo ou c â n o n e d e Io d a a

sá tira e le v a n ta r m o d a lid a d e s irô n ic as nos p o e m a s, id e n tific an d o -a s c o m p a ró d ia , c o m o re s u lta d o

q u e p ro v a o p ro v ad o . Isso ta m b é m te m lu g a r n o B rasil c o m a g e n e ra liz a ç ã o d o c o n c e ito d e “ sá tira

m e n ip é ia " e d e “c a rn a v a liz a ç ã o d a lin g u a g e m ”. I d e n tific a d a a sá tira m e n ip é ia c o m p a ró d ia , ap lica-

se o c o n c e ito d e p a ró d ia à p r o d u ç ã o sa tíric a d e m o d o q u e a p a ró d ia p a s sa a d e m o n s t r a r a sá tira .

C o m o a p a ró d ia é h ip o sta s ia d a c o m o o p o sição p o lítica, tem -se q u e to d a a sá tira faz o p o siç ã o p o lí­

tica: e is “ G r e g ó r i o ” a n á r q u i c o , l ib e r tin o , p r é - n a c io n a l is t a e o u t ro s m it o s d o c a rn a v a l.

85
A SÁTI RA E O E N G E N H O

B e b e n d o a d m ir a ç õ e s , e g a lh a r d ia s ,
A q u e m já t a n t o a m o r le v a n t o u a ra s:
D is s e ig u a lm e n te a m a n te , e m a g o a d o :
A h m u c h a c h a g e n t i l , q u e t a l s e r ia s
S e s e n d o tã o f o r m o s a n ã o c a g a r a s ! 127

( O C , V , p . 1 1 7 4 .)

Alegoria da beleza, a pedraria gongórica do primeiro quarteto é extrema­


mente convencional, a lembrar mil e outras composições líricas desse tempo,
que lançam mão de metáforas petrificadas dispostas simetricamente. Pro­
posta esta composição mineral muito sensível, posto que fria e razoavelmente
abstrata, ainda enigmática, o segundo quarteto apresenta seu sentido próprio
como tradução irônico-afetiva:

E s t e o r o s t i n h o é d e C a t e r in a

seguida da intervenção judiciosa da enunciação, que pondera, antiteticamente,


os males do amor como efeito de tanta beleza:

E p o r q u e d o c e m e n t e o b r ig a , e m a t a ,
N ã o liv r a o s e r d i v i n o e m s e r in g r a t a ,
E r a io a r a io o s c o r a ç õ e s f u l m i n a .

Tem-se aqui um status qualitatis determinado, basicamente, pela perífra-


se alegórica do primeiro quarteto, sensibilização do ser belo, e pela indivi-
duação do nome próprio, no segundo, e narrativa de ação que qualifica o tipo
feminino. Constitui-se este como beleza, petrificada no estilo alto dos mine­
rais como “ser divino”, vagamente mitológico - “raio a raio os corações
fulmina” - ação, enfim, das “Duas Safiras” etc.
O primeiro terceto introduz Fábio, personagem de muita epístola moral
do período, narrativamente:

127. O soneto em questão pode ser proposto como paródia, por exemplo, de outro, lírico, também
atribuído a Gregório de Matos e Guerra: “Vês esse Sol de luzes coroado? / Em pérolas a Aurora
convertida? / Vês a Lua de estrelas guarnecida? / Vês o Céu de planetas adornado? / O Céu
deixemos; vês aquele prado / A Rosa com razão desvanecida? / A Açucena por alva presumida? /
O Cravo por galã lisonjeado? / Deixa o prado; vem cá, minha adorada, / Vês desse mar a esfera
cristalina / Em sucessivo aljôfar desatada? / Parece aos olhos ser de prata fina? / Vês tudo isto
bem? pois tudo é nada / À vista do teu rosto, Caterina”. (“Pintura admirável de uma beleza”, OC,
V, p. 1171.)

86
UM N O M E P O R FAZER

V iu F á b i o u m a t a r d e t r a n s p o r t a d o
B e b e n d o a d m i r a ç õ e s [d o C r i s t a l ] , e g a lh a r d ia s [d a e s c a r la ta ]
A q u e m já t a n t o a m o r le v a n t o u a ra s.

(“aras”, pois amor cortês puramente inteligível, de ressonâncias camonianas)

D is s e , ig u a lm e n te a m a n te , e m a g o a d o :
A h m u c h a c h a g e n t i l , q u e t a l s e r ia s ,
S e s e n d o tã o fo r m o sa n ã o cagaras!

Introdução, no personagem Fábio, do princípio de distanciamento irôni­


co que desmobiliza o mito pelo estilo sórdido do ato. Contradição encenada,
pois, entre o alto de “amor levantou aras” e o sórdido de “cagaras” (o verbo,
aliás, espelha perversamente, numa rima perfeita, o termo “aras”, incluindo-
o em seu valor semântico/desvalor/, quando o traduz violentamente para bai­
xo). Observa-se no soneto, que se pretende agudo, um percurso trifásico de
degradação temático-lexical, que pode ser sintetizado por três versos:
Ia “Rubi, concha de perlas peregrina” (ou qualquer outro da primeira
estrofe, uma vez que são todos equivalentes, tanto por sua ordenação sintag-
mática quanto pelo paradigma lexical e sintático);
5a “Este o rostinho é de Caterina” (tradução ou sentido próprio da pri­
meira estrofe);
14a “Se sendo tão formosa não cagaras!” (degradação Final no estilo sórdido).
A relação disfórica é efetuada pelo próprio posicionamento dos termos,
rubi, cabeça do soneto e metáfora de “boca”, redundado pelas outras metáforas
minerais do mesmo valor semântico, na mesma posição sintagmática, desig­
nando “rosto” e significando /beleza/, por analogia com a parte superior, “no­
bre”, do corpo, e cagaras, termo que cai no final do soneto como recolha dinâ­
mica e espelhamento analítico, simetria perversa e irônica da “boca” que abre
o poema. Este se constrói como figura da surpresa, antítese, na qual a ironia é
o contrário da metaforização, como figura de oposição e divisão de “Caterina”
em duas, alta e baixa. A mesma antítese é o diagrama das operações disfóricas
de tradução como inversão do estilo alto dos minerais, comum na lírica da
época, passando pelo médio de “rostinho” e terminando pelo sórdido de “caga­
ras”. Rebaixamento do tipo, paródia de estilo a estilo e de gênero a gênero. O
soneto, que seria muito convencional fosse outro o verbo final (desde que
mantivesse a isotopia do primeiro quarteto), assume certa funcionalidade de
surpresa que busca a delectatio do destinatário. Neste sentido, é também total­
mente convencional, como ruptura prevista da codificação lírica por regra
produtora de inconveniência física na personagem. A ironia é aqui, como quer

87
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Beda, o Venerável, antífrase: contra-sentido mediante o sentido do contexto


verbal imediato128.
A partir deste soneto, é adequado caracterizar a paródia como inversão
irônica de um discurso de estilo alto. Identificar o estilo alto como discurso da
classe dominante, contudo, propondo-se a paródia como crítica política pré-
nacionalista da mesma ordem dominante supostamente representada de ma­
neira unívoca pelo estilo alto parodiado, embora seja muito piedoso, é muito
inexato e anacrônico para a sátira na Colônia. Os poetas seiscentistas não são
exatamente vanguarda do nacional-popular e a postulação atual da “crítica”
às instituições, supostamente representadas de forma unívoca na lírica ou na
épica, não leva em conta a simultaneidade do sistema retórico-poético do sé­
culo XVII, cuja codificação retórica sempre prevê o decoro, interno e externo,
diferencialmente. É o caso deste e de outros poemas atribuídos a Gregório de
Matos e Guerra, geralmente sonetos, que são variações baixas da lírica
camoniana e que invertem o petrarquismo, substituindo a melancolia da
delectatio morosa da ausência do corpo da dama angelical pelas misturas do
corpo obsceno e seus fluidos malcheirosos. O procedimento irônico não signi­
fica ruptura da codificação lírica ou épica no sentido de sua crítica como lin­
guagem representativa da classe dominante, como é rotineiro e romântico pro­
por, mas um gênero também previsto por regras que prescrevem a inadequação
programática da linguagem a seus objetos. Tal inadequação, deve-se dizer, não
preexiste praticamente ao ato das recepções muito assimétricas do poema.
Segundo preceptistas do século XVII, a sátira é um subgênero do cômico
- o que não a faz necessariamente engraçada, porém, uma vez que o ridículo,
que no cômico é a inconveniência que faz rir sem dor, nela é maledicência129.
Por ser mista, opera com metonímias recortadas de vários discursos, vozes,
léxico e procedimentos, não tendo a pureza prescrita em outros gêneros. As­
semelha-se, por exemplo, à sátira menipéia de Varrão, mistura de prosa e

128. Cf. Beda, o Venerável, De Schematibus et Tropis Sacrae Scripturae, em J. P. Migne, Patrologiae Cursus
Completus, Series latina, Paris, 1844-1864, vol. 90, pp. 175-186.
129. Cf. Emanuele Tesauro, “Capitolo XII: Trattato de’ ridicoli”, em II Cannocchiale Aristotelico o sia,
Idea deliarguta, et ingegniosa elocutione, che serve à tutta Varte oratoria, lapidaria, et simbólica. Esaminato
co’principii dei divino Aristotele. Dal conte D. Emanuele Tesauro, cavalier Gran Croce de Santi Mauritio
&Lazaro. Acresciuta dalPautore di due novi trattati, cioè De’ Concetti Predicabili, et Degli Emblemi.
Con un nuovo indice alfabético, oltre à quello delle material. Consacrato ai clarisimo signore
Pietro Vanteylingen. In Venetia, apresso Martin Vincenzi, 1685, p. 356. (O exemplar consultado, da
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pertenceu a Francisco Leitão Ferreira e traz a inscrição:
“1687 - Livro que me mandou de mimo o F. Francisco [...] de Gênova com a Nau [...] F. Leitão
Ferreira”.)

88
UM NO ME POR FAZER

verso não necessariamente paródica por ser mista. Em outros termos, a sáti­
ra não apresenta unidade prefixada ao ato em que é enunciada: os motivos
associativos com que opera permitem inumeráveis jogos irônicos: um poe­
ma lírico, por exemplo, pode ser proposto como sátira numa situação deter­
minada que o faz ser assim entendido quando se infringe a pragmática de
sua recepção. É preciso lembrar, por exemplo, as figuras da ironia, com que
se satirizam indivíduos e eventos, quando a sátira assume a forma jâmbica
do asteísmos ou do sarcasmo130, sem recorrer a citações ou a inversões críticas
de textos. E que a formulação mista é hiperinclusiva: a fantasia poética tanto
cita e inverte textos líricos, épicos, trágicos, como paródia, quanto efetua
tipos monstruosos, montando-os pedaço por pedaço por translação metafó­
rica, como agressão, sarcasmo e maledicência. A sátira aparece sempre como
discurso de função poética mista, em que a adequação ao caso por satirizar
determina o procedimento das misturas da fantasia poética. Isto significa
que sua conceítuação deve considerar as regras de classificação e, assim, de
hierarquização d a persona satírica e seus objetos, antes mesmo que seus te­
mas e tipos, topoi estereotipados da tradição latina e medieval. A sátira é
constituída das tópicas retóricas da sua invenção, evidenciando sua transfor­
mação pelo investimento léxico-semântico particular, operado segundo a ade­
quação ou conveniência ao caso tratado e ao público receptor. Letrados
baianos empapados de retórica e pessoas analfabetas do vulgo propõem ade­
quações diversas para um mesmo poema, impondo a ele a refração específica
de sua posição. Como no soneto da donzela que vem da índia para casar-se
na Bahia:

S e t e a n o s a N o b r e z a d a B a h ia
S e r v iu a u m a P a s to r a i n d i a n a , e b e la ,
P o r é m s e r v i u a í n d i a , e n ã o a e la ,
Q u e à í n d i a s ó p o r p r ê m i o p e r t e n d ia .
M i l d ia s n a e s p e r a n ç a d e u m só d ia
P a s s a v a c o n t e n t a n d o - s e c o m v ê -la :
M a s F r e i T o m á s u s a n d o d e c a u t e la ,
D e u - l h e o v i l ã o , q u i t o u - l h e a f id a lg u ia .
V e n d o o B r a s i l , q u e p o r tã o s u j o s m o d o s
S e l h e u s u r p a r a a s u a D o n a E lv ir a ,
Q u a s e a g o l p e s d e u m m a ç o , e d e u m a g o iv a :
L o g o se a r r e p e n d e r a m d e a m a r to d o s,

1 3 0 . C f . M . F. Q u i n t i l i a n o , o p . c i t . , I I I - V I II , 4 4 , p . 2 3 8 .

89
A SÁTI RA E O E N G E N H O

E q u a l q u e r m a is a m a r a , s e n ã o fo ra
P a ra t ã o l i m p o a m o r tã o s u ja N o iv a .

(O C , IV , p . 8 9 1 .)

No caso da sátira ibérica seiscentista, mulheres não-brancas são, por de­


finição, uma sub-humanidade relegada ao topos da gentilidade e mesmo da
bestialidade pelos códigos teológico-políticos da Conquista e o estilo para
tratá-las como tema de poesia deve ser cômico ou baixo, para ser verossímil.
O poema é paródia de Camões, que poderia ser conhecido do vulgo, embora
isso não fosse determinante para o funcionamento satírico. Afinal, o conhe­
cimento de Camões é determinante para entender a paródia da forma lírica,
não a agressão satírica. Referindo-se à indiana como “suja Noiva”, a sátira se
faz pela inadequação da forma lírica mimetizada que se aplica ao objeto bai­
xo. Por isso, a inadequação se evidencia imediatamente como pragmática
paródica e também satírica. Para conhecedores de Camões, enfim, a recepção
se faz em dois níveis: como relação de gênero a gênero, o poema da indiana
evidencia-se como paródia do soneto “Sete anos de pastor Jacó servia...”; como
tematização narrativa de discursos contemporâneos cujo tema é a “limpeza
de sangue” ou boatos sobre Frei Tomás e sobre o noivo, o pseudofidalgo
Pedralves da Neiva, o poema aplica-se à indiana e a outros possíveis eventos
da Cidade, que envolvem Frei Tomás e outros homens, sendo motivo de mur-
muração. A tipificação da “pastora indiana” é intensificada, isto é, mais di­
vertida, quando se observa a inadequação do gênero e do objeto nele
tipificado pejorativamente. Para não-conhecedores de Camões, a paródia não
funciona, evidentemente, mas a sátira sim, sendo recebida como tal devido à
degradação do tipo - “suja Noiva” - e à referência a eventos supostamente
conhecidos na Cidade. O soneto fornece as informações sobre a indiana atra­
vés de narração. Por isso, embora seja mímese irônica do soneto camoniano,
faculta também a interpretação apenas referencial, o que a preceptiva poéti­
ca do século XVII prevê para o vulgo, por definição ignorante das convenções
letradas.
Um fabliau medieval referido por Wolfram Kròmer, De la Demoisellc qui
ne pouvait pas ouir de foutre, é elucidativo de parte da questão. A narrativa
conta que a personagem, filha de nobre, não podia mesmo ouvir falar de
“foutre". Um homem esperto e decidido a fazê-la não só ouvir finge-se de
casto e envergonhado, enredando-a de tal modo que ela termina por deitar-se
com ele. Durante a noite, ambos explicam as anatomias respectivas com ex­
pressões bretãs de lais e novelas de cavalaria, falando da “fonte guardada” e
do “potro com seu acompanhante”. A donzela o convida, finalmente, a dar de

90
UM N O M E POR FAZER

beber ao potro, o que se faz com satisfação de ambas as sedes131. Embora neste
fabliau a personagem feminina seja nobre, como filha de cavaleiro andante, o
texto não é dirigido univocamente contra a nobreza. Segundo Krõmer: “Ao
contrário, esta estória tem de dirigir-se precisamente a um público que sabia
apreciar o humor do singular emprego da mitologia bretã e que, por isso mes­
mo, estava familiarizado com a cultura cortesã”132.
O plano de referência da sátira é o funcionamento de um tipo literário e
de uma convenção dramática no discurso poético - em outros termos, o texto
também informa sobre os modos da sua recepção. No soneto da indiana, a
ironia é efetuada sobre um tipo cujos elementos figurativos de estilo alto são
substituídos um a um por outros, baixos: “Raquel”, dama petrarquista espiri­
tualizada e elevada, por “indiana”, suja de sangue e baixa. A troca segue um
paradigma que vai do nobre ao ignóbil, de “cima para baixo”, extremamente
rotineiro na poesia medieval133. Um elemento formal que, no soneto de Camões,
compõe o elogio das virtudes do amor que caracterizam o perfeito amante -
por exemplo, a perseverança de Jacó - torna-se elogio irônico de sua tolice
como amante de tipo disforicamente caracterizado134. O efeito de contraste
gera o riso, mas o contraste só é conseguido se há conhecimento do código da
lírica por parte da recepção e dos paradigmas institucionais que interpretam
o investimento semântico do poema na situação de ataque. Por isso, embora o
exemplo de Wolfram Krõmer seja adequado para descaracterizar a atribuição
do texto a uma classe social supostamente representada por ele de forma
unívoca, só o é em parte, pois não dá conta de outras recepções, como a de
hipotéticos ouvintes do fabliau que não conhecessem familiarmente a “cultu­
ra cortesã” e que poderíam, inclusive, entender a narrativa como ataque à
nobreza, dada a astúcia do personagem masculino que, não sendo caracteri­
zado, poderia ser interpretado como “vilão” em oposição a “nobre”. Bastaria,
para tanto, não considerar o humor das metáforas anatômicas, retendo-se
apenas a situação narrativa em que o homem esperto seduz a moça nobre.
Neste sentido é que a sátira, porque aberta, pode ser apropriada de ma­
neiras múltiplas, inclusive opostas: por exemplo, nos ataques aos governa­
dores Sousa de Meneses e Câmara Coutinho, a sátira propõe a correção dos

' 131. Cf. Wolfram Krõmer, Formas de la Narración Breve en las Literaturas Románicas hasta 1 700, Aladrid,
v Gredos, 1979, p. 70. Cf. também Philippe Alénard, Les fabliaux (Contes à rire du Moyen Age), Paris,
PUF, 1983. Sobre a relação do fabliau e da poesia, cf. Pierre Bec, Burlesque el obscénité chez les
troubadours (Le comre-texie au Moyen Age), Paris, Stock, 1984.
132. Cf. W. Krõmer, op. cil., p. 72.
133. Cf. Paul Zumthor, Essai de poétique médiévale, op. cil., pp. 105-106.
134. Idem, ibidem.

91
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

abusos - “tirania” - para que se reinstaure o bom uso administrativo da mo­


narquia representada com justiça. Ler os ataques contra os governadores e
generalizá-los como ataque à própria ordem monárquica é só isso: generali­
zação. Mas propor que o ataque é defesa unívoca da mesma ordem infringida
pela tirania local também é redutor, se não se considera a recepção.
No momento de sua intervenção, a sátira encena interesses diferentes -
por exemplo, aqueles que têm desafetos por Sousa de Meneses, caso de
Bernardo Vieira Ravasco e do clã do padre Vieira, ou outros: “Xinga-te o ne­
gro, o branco te pragueja” (OC, I, p. 158), refere um poema contra o governador.
O mesmo se pode dizer dos ataques muito reiterados e muito convencionais
ao clero local: a sátira opera, no caso, com os topoi medievais da avareza, gluto-
neria, luxuria e simonia dos frades e padres. Não importa saber se os religio­
sos baianos em fins do século XVII eram “realmente” simoníacos, lascivos,
glutões, avarentos e usurários. Muitos o seriam, outros não. E mais adequado
propor que, ao atacá-los, a sátira funciona como prática moralizante articulada
a outras práticas discursivas contemporâneas, que mediatizam e redirecionam
seu sentido.
Lembrando-se aqui os continuamente relatados conflitos entre senho­
res de engenho e padres, como os jesuítas, beneditinos e franciscanos pro­
prietários de grandes plantações de açúcar e tabaco, escravaria, gado e en­
genhos, a sátira contra eclesiásticos locais faz discursivamente o jogo dos
interesses senhoriais no conflito, ainda que não os tematize, quando refere
os tipos viciosos aos religiosos. Nesta linha, a intervenção satírica não só
desenvolve temas convencionais, adaptando-os ao referencial discursivo do
lugar quando os trata poeticamente, mas também alegoriza várias posições,
enquanto dramatiza partes interessadas em conflitos não necessariamente
tratados pelos poemas.
O jogo de linguagem assume dupla orientação: remetendo ao sistema
retórico-poético do qual é uma peça convencional, remete também ao con­
texto discursivo da comunicação, no qual intervém os repertórios variadíssimos
da recepção. Embora o tratamento dos temas possa valorizar a fidalguia ou o
vulgo - a sátira feita na Colônia postula as virtudes da primeira ela não é,
tanto quanto o fabliau medieval, nem cortesã nem plebéia, considerando-se as
deformações da sua recepção. Como qualquer outra poesia, épública, abrindo-se
para um consumo muito assimétrico dos valores que postula135.

135. Cf. Atikhail Bakhtin (Voloshinov), Le marxisme ei laphilosophie du langage, op. cil. A conceituação do
valor do signo como unidade contraditória é decisiva para impedir que o poema seja proposto
como representante unívoco de uma classe social. Cf. também Cristina Macário Lopes, “Literatu-

92
UM N O ME POR FAZER

Basicamente, há dois tipos de destinatários codificados pela preceptiva


retórica e dramatizados na formulação dos poemas satíricos, o discreto e o
néscio. Apresentando as virtudes do cortesão e do perfeito cavaleiro cristão, o
discreto distingue-se pelo engenho e pela prudência, que fazem dele um tipo
agudo e racional, capacitado sempre para distinguir o melhor em todas as
ocasiões. Quanto ao néscio, caracteriza-se pela falta de juízo, rústico e confu­
so. Néscio é o vulgo, termo também empregado em oposição a discreto e que
significa “população” do terceiro estado, genericamente, e os oficiais mecâni­
cos136e a “gente baixa”, especificamente. Embora por vezes a faça, a oposição
discreto/vulgo não é equivalente à oposição político-econômica senhor/homem
pobre livre ou fidalgo,/plebe, pois a oposição é antes de tudo intelectual, tendo
por núcleo o conceito de juízo, aristotelicamente definido. Poeticamente, o
termo “vulgo” também pode significar aqueles que, embora pertencentes aos
“melhores” pela propriedade e posição, são caracterizados como rústicos, fa­
lhos de discernimento e, portanto, como “néscios”137. A aplicação de tais clas­
sificações está condicionada, na sátira, à postulação da hierarquia subvertida
pela ação viciosa do vulgo.
E comum nas preceptivas poéticas do século XVII a discussão do abando­
no ou da permanência das regras aristotélicas - por exemplo, na tragicomé-
dia -, envolvendo as convenções do “gosto” e do “néscio”, a que se opõem a do
“juízo” e a do “discreto”. Segundo elas, a plebe se caracteriza pela falta de
discrição em matéria de juízo, sendo naturalmente rude e estúpida. Pensan­
do na mesma plebe, contudo, que vai à igreja, às procissões e festas litúrgicas,
aos sermões e ao teatro, que assiste aos açoites, aos enforcamentos, aos autos-
da-fé, que circula na praça, que murmura nas ruas, e que paga, letrados escre­
vem obras para ela enquanto a produzem nelas, nomeando-a. A prescrição
aristotélica do decoro se mantém; sendo a plebe naturalmente vulgar, como

ra Culta e Literatura Tradicional de Transmissão Oral. A Bipartição da Esfera Literária”, Cadernos


de Literatura, Coimbra, Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra/Instiluto
Nacional de Investigação Científica, n. 15, 1983.
136. Cf., por exemplo: “Tu és filho de um sastre de bainhas, / E botas muito mal as tuas linhas, / Pois
quando fidalgão te significas, / A ti mesmo te picas,/E dando pontos em grosseiro pano, / Mostras
pela entertela, que és magano” (OC, II, p. 341).
137. Os tipos do discreto e do vulgar podem ser referidos independentemente da situação social, pois são
categorias intelectuais. Imaginem-se, por exemplo, um senhor de engenho, riquíssimo e ignorante,
o que é comum, e um letrado, culto e paupérrimo, o que é ainda mais comum. Tanto o entendimento
de poesia do senhor quanto o do letrado não se deixam conformar pelo esquema sociológico domi­
nante/dominado. Quanto ao entendimento da poesia, o letrado é provavelmente o discreto, ao passo
que o outro, embora não a entenda, tem o dinheiro e o poder que lhe permitem comprar o letrado
que a produz para ele, haja vista a proliferação do gênero encomiástico ta m b é m no século XVII.

93
A SÁTI RA E O E N G E N H O

então se prescreve, propõem-se para ela, como diversão, vulgaridades natu­


ralmente vulgares (isto é, sem regras aparentes do juízo). O “gosto confuso” é
efeito, assim, do engenho dos letrados - Lope de Vega é paradigmático - que
afirmam que não seguir regras não nasce de ignorá-las e que o atendimento
ao gosto do vulgo é política perfeição. Neste sentido é que se pode esboçar o
funcionamento da oposição discrelo/vulgo na sátira corrente em Salvador no
final do século XVII. Posições análogas às de Lope de Vega e Tirso de Molina,
como ainda se verá, são efetuadas por ela.
Quando critica fidalgos locais, a sátira desqualifica-os como vulgo em nome
dos valores discretos que postula como distintivos dos fidalgos dirigentes, que
se enunciam como verdadeiros. Rebaixa-os violentamente, oferecendo a cari­
catura em espetáculo ao vulgo como objeto de chacota, diversão e, provavel­
mente, vingança. Expondo-os também ao desprezo dos verdadeiros fidalgos
encenados na voz prudente e aguda dapersona, em ambas as situações drama­
tiza o discurso contra o vulgar, de modo que ordens diferenciadas ou opostas
coincidem, na apreciação comum, pela ridicularização de uma mesma pes­
soa à qual a caricatura se aplica. Signos da discrição efetuam os mecanismos
institucionais de legitimação da nobreza: os mesmos encontráveis na poesia
lírica e encomiástica, na sátira são operados disforicamente. Dramatizam
padrões distintivos dos “melhores”: ortodoxia religiosa do desprezo católico
da carne, condição mesma da sensualidade crispadamente hedonista que per­
passa os corpos na lírica; genealogia de tipos superiores às artes mecânicas;
imaginário do cortesão e da dama vivendo o ócio; brancura da pele, sem ne­
nhum laço com as “raças infectas de mouros, judeus, negros e mulatos”, si­
multaneamente signo da ascendência pura e da religiosidade católica dos ti­
pos; deleite da agudeza conceituosa etc. O termo que unifica tais mecanismos
e signos, na poesia e nas práticas fidalgas do período, já se viu, é discreto, por
vezes entendido. Discreto é o “melhor”, caracterizado pelo juízo e pela prudên­
cia que o constituem como nobre, afirma a sátira seiscentista, quando recu­
pera a diatribe cínico-estóica e a sátira horaciana contra o dinheiro. O termo
designa um padrão cortesão e já tivera codificação na Itália renascentista.
Enquanto Castiglione propõe o discreto cortesão como modelo a ser seguido
por cortesãos discretos no século XVI das cortes italianas, Gracián dilata a
proposição, afirmando que é a aplicação das convenções, fornecidas por ele
como receita ao alcance de todos, que permite a qualquer um, nos limites
hierárquicos óbvios, tornar-se discreto138. A persona satírica acompanha iro­

138. Cf. Baltasar Gracián, El Discreto, op. cit.

94
UM N O ME POR FAZER

nicamente o movimento ascensional em sua narrativa, na qual o néscio se


apropria da prudência e sua circunspecção, fingindo-as. Estilizado negativa­
mente, o pseudodiscreto é identificado na sátira com o pseudofidalgo: embo­
ra o critério principal da discrição seja o padrão culto das letras, outros dispo­
sitivos operam a desqualificação, como os da genealogia, do nome de família,
das virtudes heróicas. Vulgar, o pseudofidalgo figura o tema da decadência
política e corrupção dos costumes, que a persona compõe como atos e aparên­
cia dos signos nobilitantes:

[...] sai um pobrete de Cristo [...]


cheio de drogas alheias
para daí tirar gages:
O tal foi sota-tendeiro
de um cristão-novo em tal parte
que por aqueles serviços
o despachou a embarcar-se [...]
e ei-lo comissário feito
de linhas, lonas, beirames.
Entra pela barra dentro,
dá fundo, c logo a entonar-se
começa a bordo da Nau
cum vestidinho flamante.
Salta em terra, toma casas,
arma a botica dos trastes,
em casa come Baleia,
na rua entoja manjares.
Vendendo gato por lebre,
antes que quatro anos passem,
já tem tantos mil cruzados,
segundo afirmam Pasguates.
Começam a olhar para ele
os Pais, que já querem dar-lhe
Filha, e dote, porque querem
homem, que coma, e não gaste.
[...]
Casa-se o meu matachim,
põe duas Negras, e um Pajcm,
uma rede com dous Minas,
chapéu-de-sol, casas-grandes.
Entra logo nos pilouros,
e sai do primeiro lance

95
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Vereador da Bahia,
que é notável dignidade.
Já temos o Canastreiro,
que inda fede a seus beirames,
metamorfosis da terra
transformado em homem grande:
e eis aqui a personagem.
(OC, II, pp. 430-431.)

A agudeza conceituosa distingue o discreto do vulgo, uma vez que o enge­


nho e o juízo são aptos para compreender a dificuldade programática da poe­
sia, como então se prescreve - o que se evidencia, por exemplo, na diluição de
Góngora e Marino, cujo hermetismo sublime e melancolia sutilmente lasciva
distinguem “cultos”. A sátira efetua, como objeto de sua ironia, a hiperdeter-
minação da agudeza, a afetação, dos que não conhecem seu lugar e passam por
outro nos trajes, nos gestos, nas formas pronominais de tratamento, na dic­
ção, nas eleições, nas ocupações:

Bote sua casaca de veludo,


E seja Capitão sequer dous dias,
Converse à porta de Domingos Dias,
Que pega fídalguia mais que tudo.
Seja um magano, um pícaro abclhudo,
Vá a palácio, e após das cortesias
Perca quanto ganhar nas mercancias.
E em que perca o alheio, esteja mudo.
Sempre se ande na caça, e montaria.
Dê nova locução, novo epiteto,
E diga-o sem propósito à porfia;
Que cm dizendo: “facção, pretexto, efecto”
Será no entendimento da Bahia
Mui fidalgo, mui rico, e mui discreto139.
(OC, IV, p. 838.)

139. Cf. também: “Faça mesuras de A com pé direito, / Os beija-mãos de gafador de péla, / Saiba a todo
o cavalo a parentela, / O criador, o dono, e o defeito, / Se o não souber, e vir rocim de jeito, / Chame
o lacaio, e posto na janela, / Mande, que lhe passeie a mor cautela, / Que inda que o não entenda,
há respeito. / Saia na armada, e sofra piparotes, / Damas ouça tanger, não as fornique, / Lembre-
lhe sempre a quinta, o potro, o galgo: / Que com isto, e o favor de quatro asnotes / De bom ouvir, e
crer se porá a pique / De um dia amanhecer um grão fidalgo” (OC, IV, p. 839).

96
UM N O M E POR FAZER

A ascensão do personagem pseudodiscreto esbarra nos estereótipos de­


preciativos da enunciação, que postula o verdadeiro fidalgo: tratando-se de
comerciante, o desprezo discreto pode evocar o caráter fecal de sua riqueza
como manipulador do fisco e do crédito real. Termos que designam ou
metaforizam odores são freqüentes, assim, e o epíteto excremencial torna-se
adequado para a constituição da bastardia, segundo a tópica “origem”. De­
signando o absoluto não-valor, a circulação obsedante do termo “merda” e
sinônimos funciona, na sátira, como tradução negativa dos signos da agude­
za, aplicando-se à caracterização do arrivista. O mesmo tipo de depreciação
encontra-se, aliás, na Espanha, na França, na Áustria ou na Inglaterra do pe­
ríodo140.
Contra o vulgo tpara o vulgo, assim se pode caracterizar o modo pelo qual
a poesia seiscentista efetua o público não-discreto como tema e receptor. Con­
ta-se que Lope de Vega costumava ir disfarçado às representações de obras
de outros autores para observar quais situações dramáticas mais faziam o pú­
blico rir a fim de aproveitá-las em suas peças. Este lugar metaforiza a posi­
ção de seu discreto, que efetua o vulgo em sua receita de escrever tragicomé-
dias:

[...] escribo por el arte que inventaron


los que el vulgar aplauso pretendieron,
porque, como las paga el vulgo, es justo
hablarle en necio para darle gusto
(vv. 45-48)
[...]
Si pedis parecer de las que agora
están en posesióny que es forzoso
que el vulgo con sus leyes establezca
la vil quimera de este monstruo cômico,
diré el que tengo,y perdonad, pues debo
obedecer a quien mandarme puede,
que, dorando el error dei vulgo, quiero
deciros de qué modo las querría,

140. “II faut du fumier sur les meilleures terres”, diz Madame de Grignan a propósito das núpcias de
seu filho com a filha ricamente dotada de um grande proprietário burguês. A Duquesa de Chaulnes
declara ao filho, Duque de Picquigny, que contrata matrimônio com a filha do riquíssimo financis­
ta Bonnier: “Bon maríage, mon fils... 11 faut bien que vous preniez du fumier pour engrasser vos
terres”. Cf. “La famille de Grignan”, em Saint-Simoíi, Mémoires, Paris, Hachette, 1951, vol. I.

97
A S Á T I R A E 0 E NGE NHO

y a q u e se g u ir e l a r te n o h a y r e m e d io ,
e n e sto s d o s e x tr e m o s d a n d o u n m e d io .

(vv. 147-156.)U!

Tirso de Molina retoma Lope e evidentemente o ratifica:

Y h a b ie n d o e l [ L o p e ] p u e s to la c o m e d ia en la p e r f e c c i ó n y s u tile z a q u e a h o r a (ie n e , b a sta


h a c e r e s c u e la d e p o r si y p a r a q u e los q u e n o s p r e c ia m o s d e su s d is c íp u lo s n o s te n g a m o s p o r
d ic h o s o s d e t a l m a e s tr o y d e fe n d a m o s c o n s ta n te m e n te su d o c tr in a c o n tr a q u ie n c o n p a s ió n lo
im p u g n a r e .
Q u e si él, en m u c h a s p a r te s d e sus esc rito s, d ice q u e e l n o g u a r d a r e l a r te a n tig u o p a r a
c o n fo m ia r s e c o n lo g u s to d e la p le b e - q u e n u n c a c o n s in tió e l f r e n o d e la s le y e s y p r e c e p to s
d ic e lo p o r s u n a t u r a l m o d é s tia y p o r q u e n o a tr ib u y a la m a lic ia a a r r o g a n c ia lo q u e es p o lític a
p e r fe c c ió n ' .

Apersona satírica da poesia atribuída a Gregório de Matos dramatiza a


mesma “política perfeição” numas décimas que parodiam a convenção do
discreto fazendo ler, na inversão, a inversão do local da ação narrada, segun­
do o lugar do “mundo às avessas”: entre néscios, o prudente continua pru­
dente ou é néscio, segundo o julgamento dos néscios? E não será mais néscio
ainda agir por meios discretos, se são erro as ações em local onde, por vias
vulgares, os néscios têm acertos mui perfeitos?

O tempo me tem mostrado,


que por me não conformar
com o tempo, e co lugar
estou de todo arruinado:
na política de estado
nunca houve princípios certos,
e posto que homens espertos
alguns documentos deram,
tudo, o que nisto escreveram,
são contingentes acertos. [...]
De diques de água cercaram142

141. Cf. Lope de Vega, Arte Nueva de Hacer Comédias en Esie Tiempo (1609), vv. 43-48 e 147-156 em
Federico Sánchez Escribano y Alberto Porqueras Mayo, op. cit.
142. Cf. Tirso de Molina, Cigarrales de Toledo (1621), ed. Victor Said Armesto, Madríd, Biblioteca
Renacimiento, 191?, p. 12S.

98
UM N O ME POR FAZER

e s ta n o s s a c i d a d e l a ,
t o d o s s e m o lh a r a m n e la ,
e t o d o s t o n t o s f ic a r a m :
e u , a q u e m o s c é u s L ivraram
d e s t a á g u a f o n t e d e a s n ia ,
f iq u e i s ã o d a f a n t e s ia
p o r m e u m a l, p o i s n e s t e s tr a to s
e n tr e ta n to s in s e n s a to s
p o r s i s u d o e u só p e r d ia , [...]
C o n s i d e r e i lo g o e n t ã o
o s b a l d õ e s , q u e p a d e c ia ,
v a g a r o s a m e n t e u m d ia
c o m to d a a c ir c u n sp e c ç ã o :
a s s e n te i p o r c o n c lu s ã o
s e r d u r o d e o s c o r r ig ir ,
e liv r a r d o s e u p o d e r ,
d iz e n d o c o m g r a n d e m ágoa:
se m e n ã o m o lh o n e sta águ a,
m a l p o s s o e n t r e e l e s v iv e r , [...]
D e i p o r b e s t a e m m a i s v a le r ,
u m m e s e r v e , o u tr o m e p r e s ta ;
n ã o so u e u d e to d o b e sta ,
p o i s t r a te i d e o p a r e c e r :
a s s im v i m a m e r e c e r
fa v o r e s, e a p la u s o s ta n to s
p e lo s m e u s n é s c io s e n c a n to s ,
q u e e n f i m , e p o r d e r r a d e ir o
f u i g a lo d e s e u p o le ir o
e l h e s d a v a o s d i a s s a n t o s . [...]

(ÜC, II. P p. 446-449.)145

Enuncíando-se como discreto, a persona satírica evidencia seu engenho


(“são da fantesia”); sua prudência (“sisudo”); seu juízo (“com toda a circuns­
pecção”). Se o vulgo nunca consentiu “o freio das leis e preceitos”, a “política143

143. A última estrofe contradiz as anteriores: produzida como ironia contra as inversões da cidade até a
penúltima estrofe, a inversão paródica da convenção discreta evidencia-se como tal, quando apersona
reafirma sua prudência heróica, constituindo-se a si mesma como providencialismo: “Seja pois a
conclusão, / que eu me pus aqui a escrever,/o que devia fazer, / mas que tal faça. isso não: / decrete
a divina mão, / influam malignos fados, / seja eu entre os desgraçados / exemplo de desventura,
não culpem minha cordura, / que eu sei, que são meus pecados” (OC, II, p. 450).

99
A SÁTI RA H O E N G E N H O

perfeição” consiste justamente em satisfazer-lhe o gosto com o fingimento


discreto da necedade. O gosto vulgar é, já se viu, uma disposição estimativa
confusa e irracional - “tontos”, “asnia”, “insensatos” - que se deixa levar pela
multiplicidade da aparência. Satisfazê-lo consiste em “hablarle en necio”, como
escreve Lope, ou, com os versos sinônimos da sátira, “não sou eu de todo
besta, / pois tratei de o parecer”. Segundo apersona, assim, o discreto é aquele
que prudentemente avalia a ocasião e passa por néscio, tópica muito católica
da “dissimulação honesta” oposta à “simulação” maquiavélica no “grande
teatro do mundo”. No palco deste, por exemplo, por vezes o ator finge a clareza:

C a n sa d o de vos pregar
c u l t í s s i m a s p r o f e c ia s
q u e r o d a s c u lte r a n ia s
h o j e o h á b it o e n fo r c a r :
d e q u e s e r v e a r r e b e n ta r ,
p o r q u e m d e m im n á o t e m m á g o a ?
V e r d a d e s d ir e i c o m o á g u a
p o r q u e to d o s e n te n d a is
o s l a d i n o s , e o s b o ç a is
a M u sa p r a g u e ja d o r a .
E n t e n d e is - m e agora?
O f a la r d e i n t e r c a d ê n c ia
e n t r e s i l ê n c i o , e p a la v r a ,
crer, q u e a te sta se v o s ab ra,
e e n c a i x a r - v o s , q u e é p r u d ê n c ia :
a le r ta h o m e n s d e C i ê n c i a ,
q u e q u e r o X i s g a r a v is ,
q u e a q u ilo , q u e v o s n ã o d iz
p or lh o im p e d ir a r u d e z a ,
a v a lie is m a d u r e z a ,
s e n d o ig n o r â n c ia tr a id o r a .
E n t e n d e is - m e agora?

( O C , II, p . 4 7 2 .)

Enuncia-se nesses versos a adequação das formas da agudeza, conforme a


situação e o público. Ela é inadequada porque, sendo “cultíssima”, é herméti­
ca: aproxima conceitos muito distantes fundindo-os numa única metáfora cuja
interpretação demanda o juízo e o engenho ausentes no vulgo, segundo a con­
venção. Assim, o que a mesma sátira evidencia positivamente, em muitos pas­
sos, como discurso apto para discretos e também negativamente, como discur­
so apropriável por pseudodiscretos, aqui é proposto como inadequado.

100
UM NOME P OR F A Z E R

Postula-se a virtude retórica da clareza-“porque todos entendais” -, uma vez


que o vulgo também confunde o silêncio (no caso, de “Xisgaravis”) com um
índice de ponderação judiciosa e gravidade, não vendo que é “rudeza”, porque
também é rude. “Ladinos” e “boçais”, dois termos correntes no período colo­
nial para designar negros escravizados, “ladinos” os que falam Português, “bo­
çais” os que o não falam144, aplicam-se metaforicamente, estendendo-se sua
qualificação pejorativa para “todos” os destinatários, brancos e negros e mula­
tos, como traduções locais de “discreto” e “néscio”. Veja-se ainda que apersona
propõe a variante maledícente do cômico - “Musa praguejadora” - em que a
obscenidade, vulgar e claríssima, é totalmente adequada à recepção de “bo­
çais”, quando posta a operar sordidamente na desqualificação de tipos.
Articuladas na sátira seiscentista, as afirmações de Lope de Vega e Tirso
de Molina explicitam que, ao compor tipos e caracteres, a poesia satírica o faz
como se o poema independesse totalmente de qualquer regra para a sua for­
mulação, uma vez que a recepção do vulgo - “néscio” ou “boçal” - não domina
nenhum código discreto. Fingimento poético da fantasia, portanto, que efe­
tua o artifício de uma natureza estúpida, obscena e monstruosa, para divertir
os néscios com falas artificiosamente inventadas como néscias: “esjusto hablarle
en necio”, escreve Lope; “meus néscios encantos”, diz a persona satírica. Inép­
cia programática, obviamente, que compõe também uma adequação política.
Observe-se que, no poema transcrito, a persona se confirma racional: “fiquei
são da fantesia”. Esta é operação regrada, portanto, na produção de efeitos
sensíveis e maravilhosos, agradando sem postular o juízo:

O n é s c i o , o ig n o r a n t e , o in e x p e r t o ,
Q u e n ã o e le g e o b o m , n em m a u rep ro v a ,
P o r t u d o p a s s a d e s lu m b r a d o , e in c e r t o .
[...]
N é s c io : s e d i s s o e n t e n d e s n a d a , o u p o u c o ,
C o m o m o f a s c o m r is o , e a lg a z a r r a s ,
M u s a s , q u e e s t i m o te r , q u a n d o a s in v o c o ?

(OC, II, p. 470.)

144. O poema em questão encena a maledicência satírica como sarcasmo - “Musa praguejadora" - apto
para o entendimento vulgar. Num sentido semelhante, Vieira utiliza o “boçal" para caracterizar a
obscuridade, oposta à clareza retórica, e o fechamento hermético dos sermões gongóricos que cri­
tica no sermão da Sexagésima: “O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado”,
metaforizando, com a referencia ao travamento das línguas africanas, o travamento dos sermões de
seus adversários do Rossio, principalmente Frei Domingos de Santo Tomás. Cf. Padre Antônio
Vieira, Sermões, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1959, 15 vols., vol. I, V, p. 20.

101
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Se o efeito da fantasia poética é maravilhoso e livre, assim, ela mesma


não é livre, porque é discreta e racionalmente controlada, seguindo regras na
composição, A fantasia é, segundo Gracián, Tesauro e Francisco Leitão
Ferreira, uma faculdade da alma, que apreende todos os objetos sensíveis e
suas imagens verdadeiras. A semelhança deles, concebe e produz, segundo a
adequação, outros de possível ou de impossível existência145. Isto significa
que, efetuando o vulgo ignorante dos preceitos retórico-poéticos - “os boçais”
(OC, II, p. 472) -, a sátira aplica convenções para cada caso. Adequando-se ao
verossímil, são convenções artificiosíssimas, como a que prescreve a virtude
retórica da clareza. Ou a que compõe mistos monstruosos, como os dos retra­
tos dos governadores Sousa de Meneses e Câmara Coutinho, aristotelicamente
inverossímeis porque sem unidade. Na sátira, tais convenções remontam à
Antigüidade clássica e à Idade Média: caracteres de Teofrasto’46, caracteriologia
das paixões da Ética a Nicômaco147, citações de Homero, Ovídio, Juvenal,
Sêneca, Lucano, Tácito, bem como definições e contradefinições escolásticas
da bondade e das paixões da alma14g, Ainda, técnicas retóricas, como as da
mesma fantasia, alegoria, amplificação, evidentia, translado sórdida, mistura
de animado e inanimado, substituição do gênero pela espécie e da espécie
pelo indivíduo, tópicas do gênero epidítico etc.
A sátira não é realista, como se vê, porque tem direção referencial,
mimetizando casos retóricos, não o referente. Opera, na constituição dos ca­
sos, o verossímil como caricatura, monstruosidade. Como artifício que calcu­
la a adequação ao público, é suficientemente inclusiva para ser entendida
também como paródia por discretos, que conhecem as mesmas referências

145. A fantasia relaciona-se com o entendimento de três maneiras: a) ou o entendimento atua só, servin­
do a fantasia para lhe fornecer as “espécies fantásticas”; b) ou ambas as faculdades operam em
conjunto, cabendo ao entendimento a censura prévia das imagens; c) ou a fantasia atua livremente,
prescindindo do entendimento. Cf. “Um Código do Barroco Português: A ‘Nova Arte de Conceitos’
de Francisco Leitão Ferreira”, em Aníbal Pinto de Castro, op. cit., p. 210.
146. Cf. Théophraste, Caractères, lexte établi et traduit par Octave Navarre, 2'1™ed., Paris, Belles Lettres, 1931.
147. Cf. Aristóteles, Éthique à Nicomaque, Introduction, Notes et Index par J. Tricot, 2™' ed., Paris, Vrin,
1967.
148. Cf., por exemplo: “A causa é melhor, que o efeito na boa filosofia” (OC, II, p. 309); “Amar o belo é
ação / que toca ao conhecimento / ame-se ao entendimento, / sem outra humana paixão” (OC, II I ,
p. 702); E: “Na boa filosofia, / e na retórica sei, / e li, que entre pouco, e muito / jamais distinção se
fez. / Pouco mal, e muito mal / o mesmo mal vêm a ser, / com que o mesmo bem será / pouco bem,
e muito bem. / Distingue-se em quantidade, / não na espécie, nem no ser, / na substância é sempre
o mesmo, / se em quantidade não é” (OC, IV, p. 819); “Pela razão natural / ninguém dá, o que não
te m ,/ e pela mesma razão ninguém / pede, o que não quer” (OC, IV, p. 823); “O mal sempre é
substituto / do bem, que a fortuna veda, / e que ao bem o mal suceda, / é já lei, é já estatuto: / um
do outro é flor, e fruto” (OC, IV, p. 945) etc.

102
UM N O M E P OR FAZER

letradas da persona, e como agressão e sarcasmo pelo vulgo que é produzido


inculto e se diverte com imagens grotescas e obscenas, ignorante das regras
de sua mesma produção149. Produto da intersecção de duas semióticas, a sáti­
ra as funde segundo a ocasião: uma delas é regrada como doutrina de precei­
tos para falar e escrever e para ouvir e ler, ao passo que a outra é uma teia
contingente de pleitos e murmurações do local, que se dramatiza como inves­
timento semântico de suas tópicas retóricas. A intersecção se evidencia na
mistura muito divertida de alusões mitológicas elevadas e de referências lo­
cais descritivas, baixas e vulgares: “Dafne” é, várias vezes, apelido irônico de
negras e putas.

149. E c o m o “ f i n g i m e n t o d o n a t u r a l ” q u e se e n t e n d e a h i p e r v a lo r i z a ç ã o c o n c e p t i s t a d o a r tif íc io e d a

m e tá fo r a . O a rtifíc io é u m l u g a r - c o m u m d e ficção, p r o p o n d o a c o n tr a f a ç ã o d o n a t u r a l c o m o e fe ito

“ h i p e r r e a l i s t a ” o b t id o p o r p r o c e d i m e n t o s q u e o c u lt a m a ficção . O a rtifíc io é u m i n s t r u m e n t o p a r a

a in v e n ç ã o d e m u n d o s c m q u e se v iv e a v id a d a a rte , c o m o d i z M a r a v a ll . É n e s ta l i n h a q u e p i n t u r a

e p o e s ia se i n t e r c e p t a m : a p i n t u r a é t a m b é m v a l o r i z a d a n o s é c u l o XVII p o r q u e , n ã o c o n t a n d o c o m

a p r o f u n d i d a d e , ela a fin g e p e r f e it a m e n t e b e m : é p o r e s ta r m a i s lo n g e d a n a tu r e z a q u e ela a im ita

m u ito b e m e a c o n t r a f a z c o m o m u i t o o u e x t r e m a m e n t e p r ó x i m a , e n f i m . P o r isso, c o m o se v ê n o

c a p í t u l o IV , a m e t á f o r a c o n c e p t i s t a é f u n d a m e n t a l m e n t c i m a g e m , s e g u n d o o u t p i c i u r a p o e s i s h o r a c i a n o

e o c o n c e ito a r i s t o t e l i c a m e n t e d e f i n i d o c o m o “ d e f i n i ç ã o i l u s t r a d a ” . H i s t o r i c a m e n t e , o s t e r m o s a r t i f í ­

c io e a r t i f i c i o s o n ã o t ê m , n o s é c u l o X V I I , o s e n t i d o p e j o r a t i v o c o n f e r i d o a e l e s p e l o e x p r e s s i v i s m o

r o m â n t ic o . S ig n if ic a m , b a s i c a m e n t e , “ té c n i c a ” , n o s e n ti d o g r e g o d o p o ie n , “ f a z e r ” .

103
II
A Murmuração do Corpo Místico

V ó s m e e n s in a s te s a s e r
d a s in c o n s tâ n c ia s a rq u iv o .

(O C , I, p. 4.)

Contemporâneas da sátira atribuída a Gregório de Matos e Guerra, as


Atas da Câmara e as Cartas do Senado registram intervenções da Câmara da
Cidade do Salvador, Bahia de Todos os Santos do Estado do Brasil, em ques­
tões do lugar1. Fazem-no como arquivamento de decisões e providências efe­
tivadas, caso das Atas, e como petição, exposição de motivos, advertência,
proposta, resposta e contraproposta ao Rei, seu destinatário principal, e, por
vezes, a procuradores da Bahia em isboa, caso das Cartas. Umas e outras são
estratégicas na constituição do referencial satírico, ou seja, os discursos for­
mais e informais do local transformados comicamente nos poemas.

1. Examinam-se aqui atas e cartas da segunda metade do século X V I I . Cf. Atas da Câmara, Prefeitura
do Município de Salvador, Documentos Históricos do Arquivo Municipal.
Atas da Câmara - 1641-1649, 1949, vol. 2; 1649-1659, 1949, vol. 3; 1659-1669, 1949, vol. 4; 1669-
1684,1950, vol. 5; 1684-1700,1951, vol. 6.
Cartas do Senado, Prefeitura do Município de Salvador, Documentos Históricos do Arquivo Muni­
cipal. - 1638-1673, 1951, vol. 1; 1673-1684, 1952, vol. 2; 1684-1692, 1953, vol. 3; 1692-1698, 1959,
vol. 4.
Constituída a Câmara de Salvador já no tempo de Tome de Sousa, muitos de seus documentos
anteriores a 1624 foram destruídos na invasão holandesa desse ano. Compõe-se de dois Juizes Ordi­
nários, ou da vara vermelha, de três Vereadores, de um Procurador da Cidade ou Procurador do
Conselho. Chamam-se todos “Oficiais da Câmara” e a pragmática de cortesia atribui-lhes o trata-

105
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Seu referente capital, a Cidade, hoje se encontra depositado nelas como


discursos da sociedade baiana de fins do século XVII que adquirem sentido
particular na elocução dos agentes. O notado por eles subordina-se a um
notandum, modo histórico de ver e dizer, que opera com regras hierárquicas e
hierarquizadoras do que é notável. Como hierarquizar é classificar, as regras
estendem a visibilidade política da Cidade pelo anotado, texto, dividindo-o
ou unificando-o segundo o que, para o sujeito discursivo, é visível, notável:
comércio do açúcar, privilégios, leis de precedência, trabalho escravo e das
classes profissionais, conflitos com o clero, impostos, murmuração etc. Por
isso, o sujeito discursivo, unificado como Câmara, expõe os temas segundo
sua posição de representante da comunidade dos interesses locais e do Impé-

mento de “Vossa Mercê”. Os Juizes Ordinários lêm funções judiciárias, até certo limite; os Verea­
dores deliberam sobre os negócios públicos, propriamente administrativos, do interesse local; o
Procurador da Cidade tem funções executivas. Pessoas “a quem tocava requerer o bem comum e
atender à prevenção dele por serem oficiais que representam a república”, como diz uma petição
de senhores de engenho do Recôncavo, em 1632, são escolhidas entre os “homens-bons” da Cida­
de, aqueles que “por sua pessoa, partes e qualidades” são tidos como aptos para o cargo. A eleição
é anual. Os trabalhos da Câmara começam em 1" de janeiro, quando, reunidos os que findam o
mandato do ano anterior, com a presença do Ouvidor Geral, se tirava o “pelouro” para os oficiais.
Cf., por exemplo, a sátira; “Entra logo nos pilouros, / e sai do primeiro lance / Vereador da Bahia,
/ que é notável dignidade” (OC, II, p. 431). Veja-se, por exemplo, a ata de 19.1.1685: “Termo de
eleição que se fez de juiz durante o impedimento do Capitão Francisco de Araújo de Azevedo e de
um Vereador em lugar de Manuel Botelho Carneiro que é falecido e do Procurador em lugar de
João de Matos de Aguiar que se julgou escuso os quais saíram no pelouro que se abriu o primeiro
de janeiro deste presente Ano, Aos dezenove dias do mês de janeiro de mil seiscentos e oitenta e
cinco anos nesta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos nas Casas da Câmara dela estando
aí presentes o juiz ordinário o Coronel digo o Sargento Major Luís de Mello de Vasconcellos e os
vereadores o Capitão Nicolau Carvalho e o Capitão José de Araújo de Goes para haverem de fazer
eleição de um juiz em lugar do Capitão Francisco de Araújo de Azevedo durante o seu impedimen­
to e um vereador por haver falecido o Capitão Manoel Botelho Carneiro e um Procurador cm lugar
de João de Matos de Aguiar que ao presente é provedor da Casa da Santa Misericórdia e Cavaleiro
da Ordem de Cristo por onde é escuso conforme o acórdão da Relação deste Estado pessoas todas
que saíram no pelouro que se abriu o primeiro de janeiro deste presente ano e para a dita eleição
ditos oficiais da Câmara mandaram tocar o sino e chamar os homens bons que costumam andar
nos pelouros e sendo junto lhes encarregaram que bem e verdadeiramente votassem em pessoas de
maior suficiência que bem servissem os ditos cargos e guardassem em tudo o serviço de Deus e de
Sua Majestade e do bem comum e eles assim prometeram fazer e para este efeito eu, João de
Couros Carneiro, escrivão da Câmara fui tomando os votos entre folhas de papel em as quais se
assentaram todos os nomes dos que foram propostos e em cada um riscando os votos que neles
estavam e depois de limpa a pauta pelos ditos oficiais da Câmara saiu para juiz o Capitão Domin­
gos Monteiro durante o impedimento do Capitão Francisco de Araújo de Azevedo e por vereador
o Capitão Manoel Teles de Meneses e por procurador o Capitão Baltasar Gomes dos Reis e saiu o
dito juiz com dezessete votos e o vereador com quinze votos e o procurador com vinte e um os quais
preferiram a todos os meses em que votaram como consta da pauta que fica no Cartório desta

106
A M U R M U R A Ç À O DO C O R P O M Í S T I C O

rio, unificando-os numa generalidade teológico-política alegada na opera­


ção, o “bem comum da República”, que é o tema nuclear da sátira.
As/lias e as Cartas tornam-se documentos decisivos, aqui, na análise da
sátira produzida na Colônia justamente porque não fornecem ao seu leitor de
hoje uma Bahia dada. Como atos discursivos contemporâneos da sátira, são
também intervenções particulares numa prática administrativa e, assim, pro­
tocolar, que hoje informam sobre modos históricos de ver e de dizer. Efetuan­
do em sua fórmula a circunstância em que são escritos, refratam-na hierar­
quicamente conforme a posição de seus agentes, fazendo com que visibilidades
e posições particulares se tornem visíveis, negando, com isso, a generalidade
postulada do “bem comum”.
Tanto Atas quanto Cartas permitem estabelecer uma cartografia móvel
de eventos e posições que, na circunstância de sua representação discursiva,
relacionam-se ora de modo conflitivo, ora de modo adesivo, entre si e com
seus objetos de intervenção, segundo a hierarquia. Descrevendo eventos e
narrando ações, as Cartas, principalmente, são muito minuciosas e redun­
dantes nas referências do local, efetuando a onipresença do Rei no mesmo
discurso que o produz como solene ausência. O suplemento discursivo funcio­
na, por vezes, como tática de negaceio e distanciamento, principalmente quan­
do o tema da Carta é o não-pagamento de impostos. Hoje, tanta minúcia e
protocolo avultam no estabelecimento da legibilidade particular dos interes­
ses ativados pelas interpretações dos temas nas Cartas. Também na sátira,
quando os discursos são cruzados.

Câmara de tudo mandaram fazer este termo em que assinaram e eu João de Couros Carneiro
escrivão da Câmara escrevi”. Cf. Atas da Câmara 1684-1700, vol. 6, pp. 11-12.
Além desses oficiais, há os almotacés, espécie de fiscais cuja função é fixar preços de mercadorias
e controlar pesos e medidas; o escrivão, funcionário vitalício; o porteiro, que bota pregão das deci­
sões; o Ministro da Cadeia, nome pomposo do carcereiro. Em 21.5.1641, determina-se dar a cada
grupo profissional um chefe com o encargo de controlar a atividade de seus pares, fixando preço ao
serviço prestado e avaliando obras executadas. Cf. Affonso Ruy, História da Câmara Municipal da
Cidade do Salvador, Bahia, Câmara Municipal de Salvador, 1953, p. 173. Determina-se que o núme­
ro de mesteres seja doze e que os doze elejam um Juiz do Povo e um escrivão para, juntos, represen­
tarem as classes mecânicas. Os Juizes do Povo passam a representar os interesses das classes profis­
sionais e mecânicas, entrando muita vez em confronto direto com os “homens-bons”, oficiais da
Câmara, e com comerciantes, a ponto dc se negar ao Juiz do Povo a assinatura das atas, em 1645.
Vários conflitos são rastreáveis nas atas: questão da aguardente (1646); denúncias contra o Ouvidor
Geral da Armada por sonegação de impostos (1648), contra comerciantes (1668), contra os ourives
(nas duas décadas finais do século); rebelião contra a nova taxação do sal (1711); etc. A carta régia
de 25.2.1713 extingue os cargos de Juizes do Povo e mestres no Brasil. Pouco antes, em 1696, são
extintos os cargos de Juiz Ordinário. Cf. também Theodoro Sampaio, História da Fundação da Cida­
de do Salvador (Obra póstuma), Bahia, Tipografia Beneditina Ltda., 1949; Affonso Ruy, op. cit.

107
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Quando se propõem as Alas e as Cartas como documentos, o fim visado é


o de constituir o referencial discursivo da sátira, perspectivando-as. As/ltas e
as Cartas são discursos em geral mal escritos, banais e padronizados que, in­
dependentemente da sua qualidade, permitem estabelecer prescrições e te­
mas locais que aparecem como matéria transformada na sátira. Pressuposto
efetuado por ela são situações e pessoas criticáveis, às quais se refere hiperbo-
licamente com critérios retóricos, políticos, morais, religiosos etc. Embora
seja descritivo-narrativa, a sátira é bastante lacônica quando comparada a
esses papéis, pois efetua tipos fictícios cuja referência são pessoas empíricas,
citadas nas^ías e Cartas. Mista, dramatiza duas posições discursivas básicas:
uma é a dos objetos de intervenção, silenciados à força do ridículo ou falantes
por estilização e paródia; a outra, a dapersona satírica, afirmada como ordem,
é a do mesmo princípio de hierarquia que rege os documentos da Câmara.
Em sua pragmática, estes atuam como notícias de intervenções sobre a Cida­
de, coibindo, corrigindo, punindo e, simultaneamente, evidenciando o crité­
rio aplicado na intervenção. Uma mesma normatividade dispõe, em registros
retóricos diferentes, os agentes da sátira e de documentos da Câmara.
Quando se faz a relação de sátira e documentos da Câmara, não se propõe
nenhuma precedência, lógica ou temporal, deles em relação a ela. A sátira
não os ilustra ou vice-versa. A correlação formula um registro de intervenções
de várias formas - ordens, censuras, consenso, exclusão, inclusão - e de temas
- açúcar, comércio, fidalguia, escravaria, clero, farinha, soldados, revoltas,
murmuração, fomes, corrupção, moeda etc. - numa pragmática generalizada
na qual os temas e a posição dos agentes se perspectivam. Em outros termos,
Atas e Cartas são registros diferentes de um mesmo princípio hierárquico
também ordenador da sátira: não são expressão de vivido, não são contexto,
pretexto ou subtexto dos poemas, não são reflexo de práticas.
O discurso da sátira atravessa os da Câmara enquanto é atravessado por
eles. Dizendo-o doutro modo, o discurso da sátira cruza-se com os das^tas e
Cartas não porque os tome como temas, numa relação de exterioridade, mas
porque, no mesmo tempo e no mesmo lugar, efetua os mesmos temas com
outra ordenação discursiva cujas regras hierárquicas funcionam analogamente.
Como os oficiais da Câmara, a persona satírica unifica sua intervenção em
nome do “bem comum”2; como no discurso dos oficiais, o mesmo “bem co­

2. Aos oficiais da Câmara aplica-sc perfeitamente o que escreve Stuart B. Schwartz sobre os magistra­
dos coloniais: “Magistrados desinteressados, eram os guardiães da estrutura formal do Império,
segundo a visão da Coroa. Ao mesmo tempo, esses homens muitas vezes lutavam por objetivos
coletivos ou pessoais que conflitavam frontalmente com os padrões dos cargos que ocupavam. Era
este o paradoxo do governo colonial, paradoxo que, no entanto, dava vida ao regime ao conciliar os

108
A Al URMURAÇÃO DO C O R P O M Í S T I C O

mum” alegado é, quase sempre, a generalidade dos interesses particulares de


um grupo ou ordem; também como os oficiais, a persona exige providências
justas, segundo sua posição, para corrigir males e preencher carências; tam­
bém como eles, investe-se no discurso como “melhor” ou “discreto”, quando
se opõe aos vícios. Diferentemente da enunciação das Cartas, porém, porque
a vituperação satírica visa à correção que, caridade do castigo, aperfeiçoa, a
persona é móvel, como uma função geral por onde passam representadas inú­
meras outras. Fala a partir de vários lugares encenados da ordem, cuja inter­
venção diagrama como distribuição hierárquica de corpos de linguagem. Ela
opera, desta maneira, sobre um lapso discursivo postulado por ela mesma -
ausência de virtude -, preenchido na operação pela sua metáfora de persona
investida da autoridade de familiar do Santo Ofício, de magistrado da Rela­
ção, de oficial da Câmara, de ministro da Cadeia, de carrasco, de feitor, de
letrado e de cabeça do corpo místico da República, Rei.
A analogia não é identidade, decerto; assim, ao posicionamento basica­
mente unívoco da Câmara nos discursos opõem-se a abertura e a plurivocidade
das posições encenadas na enunciação da sátira. A Câmara fixa os eventos
enquanto os move no discurso; a sátira os teatraliza segundo várias perspecti­
vas. Em ambos os gêneros, contudo, epistolar e satírico, sujeitos discursivos
se auto-investem como autoridades na hierarquia, que figuram como natural
e, portanto, convencional. Na posição do privilégio donde agem para levar a
ação proposta a um termo efetivo ou para realizá-la no verossímil, doam um
sentido corretivo à Cidade, lugar da intervenção. Desta maneira, a pragmáti­
ca tem nítido recorte político, embora não a exclusividade deste, pois outras
regras - econômicas, religiosas, raciais, jurídicas, administrativas, protocola­
res - intervém. Na sátira, a matéria e o procedimento de composição dos mis­
tos são tais temas e prescrições, o referencial de discursos locais esboçado
nela como “arquivo das inconstâncias”.
As posições da persona por vezes coincidem com as posições da enunciação
de Atas e Cartas e é elucidativo lê-las para determinar o sentido da sátira no
referencial local. Como foi dito, ela é econômica quando encena discursos do
lugar para a tipificação de viciosos. Por exemplo, quando tipifica o negro e o
mulato, opera com dois procedimentos, empregados também para construir
outros tipos, como o fidalgo, o cristão-novo, o frade, a puta, o governador, o
sodomita etc. Ela propõe um traço individualizante - geralmente, o nome do
satirizado - justapondo a ele traços caracteriais anônimos ou coletivos, isto é,

inleresses da metrópole com os da colônia”. Cf. Stuar! B. Schwartz, Burocracia e Sociedade no Brasil
Colonial, São Paulo, Perspectiva, 1979, p. 292.

109
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

estereótipos. Por exemplo, quando ataca o governador Sousa de Meneses,


mistura em sua figuração o apelido “Braço de Prata” e motivos fantásticos e
deformantes, como o dos “olhos cagões” dotados de terrível vida própria ou o
do “nariz” fálico, motivo encontrável também em Quevedo ou Rabelais ou
Marcial. Hoje, os traços individualizantes, óbvios para contemporâneos, sub­
sistem na leitura como ecos esgarçados de vozes mudas que vão falando nos
poemas de modo muitas vezes enigmático. É certo que os poemas podem ser
lidos prescindindo-se dessas informações: na autonomia de sua ficção, como
se diz. Tal autonomia é condicionada, contudo, pelos paradigmas históricos
que definem o que neles é evento: o que ocorre e poderia não ocorrer. Por que,
afinal, a sátira contra o governador Sousa de Meneses, mas não contra Roque
Barreto ou Matias da Cunha ou Teles de Meneses ou João de Lencastre? As
atas e as cartas permitem estabelecer alguns critérios que explicitam o senti­
do da sátira, gênero também político, principalmente quando ela não infor­
ma sobre eles. Por exemplo, na sátira, os governadores Sousa de Meneses e
Câmara Coutinho são sempre “tirânicos”. Algumas cartas figuram a mesma
“tirania”, mas de maneira diferencial; por exemplo, tratando do conflito de
Sousa de Meneses com o clã do padre Antônio Vieira, também referem as
arbitrariedades do governador. Mas sempre louvam Câmara Coutinho. Essa
perspectivação, que explicita os paradigmas contemporâneos pelos quais os
agentes se auto-representam nos discursos, é útil para reconstituir a particu­
laridade das versões contemporâneas de um mesmo tema e, com isso, útil
também para evitar o anacronismo que se apropria dos poemas generalizan­
do transistoricamente os valores da cultura do leitor, caso em que se treslêem.
E irônico, por exemplo, que a Fundação Gregório de Matos tenha o nome que
tem, inda mais quando o nome é emblema de essências ou ideologias como a
“baianidade” e a “negritude” de Gregório. Da mesma maneira, a interpreta­
ção nacionalista dessa poesia, que faz dapersona satírica um avatar da eman­
cipação política, nunca leu nos documentos portugueses do século X V I I a di­
visão dos poderes em ordinário e absoluto, pela qual a crítica às instituições
está prevista como aprimoramento da ordem. Mais ainda, as leituras realista-
positivistas, caudatárias do idealismo alemão, que, alegando que a sátira re­
flete a empiria, ignoram o estilo baixo - da sátira -, postulando que os objetos
supostamente refletidos nela eram, em essência, caricatos, numa interpreta­
ção que é historicamente caricata.
Isso posto, supõe-se que é razoável descrever alguns dos procedimentos
retóricos deAtas e Cartas. Basicamente, diferem pelo fim que se propõem: as
primeiras formam uma memória de atos e eventos bastante estereotipada pelas
fórmulas do resumo. Nelas, o acontecimento é efetuado segundo o modelo da

no
A M U R M U R A Ç À O DO C O R P O M Í S T I C O

crônica. Como memória, constituem uma tradição exemplar de atos modela­


res reaplicáveis com as ocasiões. Nesta linha, devido justamente ao gênero
deliberativo da sua escrita e aos deveres explícitos e implícitos que prescre­
vem, as Canas têm a temporalidade do presente da sua intervenção, diferen­
temente do tempo gasto do arquivo dasAías. Deliberativas, têm duplo registro,
funcionando como notícia histórica descritivo-narrativa de atos administrati­
vos da Câmara e como discurso performativo que se auto-referencia na comu­
nicação Câmara-Rei. É sua contemporaneidade que interessa, aqui, pois faculta
observar seus agentes em ato, posicionando-se nos negócios do tempo e em
seus interesses. Referindo-se à Cidade, dirigindo-se ao Rei, enunciando a
enunciação, alternam o registro optativo e o descritivo. Pelo primeiro, os agentes
visam a captar o assentimento para o que expõem; pelo segundo, demonstram
o que pedem, recusam ou propõem. Em outros termos, as referências descriti­
vas preenchem a argumentação como provas que a saturam. Por exemplo,
quando a Câmara escreve justificando a recusa de cumprir o que o Príncipe
ordena, em junho de 1671, que acuda anualmente com 2 mil cruzados para os
missionários que vão às Conquistas:

[...] n a d a f i z ê r a m o s , S e n h o r s e e s t e P o v o , s e n ã o a c h a r a tã o s o b r e c a r r e g a d o c o m o s u s -
le n t o d a I n f a n t a r ia , d o t e d a S e r e n ís s im a R a in h a d e G rã B r e t a n h a , e P a z d e H o l a n d a ,
d e sp e s a d a jo r n a d a q u e ora se v a i fa z e r a o g e n tio q u e te m d e s tr u íd o e s te R e c ô n c a v o
e s m o la s d o s R e l i g i o s o s F r a n c is c a n o s e d o s d e S a n ta T e r e s a , a f u n d a ç ã o p a r a a s R e l i g i o ­
sa s q u e V o s s a A lt e z a n o s c o n c e d e u , e in d a p a r a o s d e s s e R e i n o t u d o d e s p e s a g r a n d e a
m is é r ia d e s t e s V a s s a lo s a lé m d e m u i t o s c a t iv o s q u e d e o r d in á r io a n d a m n e s t a P r a ç a
p e d in d o p a r a s e u s r e s g a t e s 5.

Procedimento comum em outras Cartas, o discurso sofre uma amplifica­


ção horizontal, na qual cada imposto e cada gasto referidos funcionam como
extensão descritiva das razões da impossibilidade alegada de pagar. A Câma­
ra prossegue: “[...] Vossa Alteza nos deve haver por zelosos que as vontades
são grandes de servirmos a Vossa Alteza, e não faltar ao que nos ordena, mas
nossos cabedais não podem suprir este amor e vontade”34.
Os agentes escrevem pressupondo que o destinatário também prevê sua
disposição de não pagar antes mesmo de enunciá-la e se antecipam, integran­
do a antecipação no discurso - acumulando os índices protocolares iniciais
de fidelidade irrestrita e, depois, exemplificando casos de despesa, que am­
plificam a impossibilidade, tornando-a convincente, concluindo mais uma

3. Carta de 16.8.1671, vol. 1, p. 94.


4, Idem,ibidem.

111
A SÁTI RA E O ENGENHO:

vez o que já está concluído no inicio da carta: a impossibilidade de pagar,


uma vez que “[...] nossos cabedais não podem suprir este amor e vontade”. Na
dissimetria aberta entre “fidelidade” e “pagamento”, honra e negócio, a pró­
pria impossibilidade alegada de pagar - que, num nível, contraria frontal­
mente a vontade real - é absorvida nas imagens do “amor” e “vontade” como
projeções que reiteram a mesma fidelidade. Observe-se, ainda, a técnica retó­
rica de impor a veracidade do que vai sendo dito, quando os agentes se situam
na posição teoricamente compreensiva do destinatário, ordenando a este que
“[...] nos deve haver por zelosos” - em outros termos, fornecendo-lhe código
prescritivo, que lhe interpreta sua autopersuasão. Porque sofre denegação, a
ordem se mantém, uma vez que seu não-cumprimento é absorvido pelos sig­
nos de fidelidade e amor - arrolamento de todos os impostos e despesas e
dificuldades e honra - e, ainda, porque a recusa declarada num nível é
complementada pela adesão feita em outro.
Nesta linha, na relação Salvador-Lisboa, as Cartas sempre efetuam um
dever anterior ao ato de sua escrita. Esta se adapta a ele e o integra em sua
formulação, o que não significa que sempre lhe obedeça, pois propõe-lhe al­
ternativa, contrapõe-se a ele, faz de conta, até certo limite óbvio da violência
implícita na extrema cortesia, que o ignora, propondo-lhe outras realizações.
A soberania real é sempre reconhecida, contudo, e os impostos são recolhidos
e mantidos os princípios gerais da administração5.
A enunciação é que esclarece, portanto, o sentido da alternativa que se
propõe para o dever. Os discursos das Cartas são - e apresentam-se como - ori­
gem de um dever de seus agentes para outros, obrigados por um dever ao Rei,
no ato da elocução: homens de poder local, são homens do poder real6. Quan­
do os discursos são origem de um dever, cumpre-se a ordem real; quando se
apresentam, geralmente não se cumpre, e a disparidade tem de ser preenchida
de alguma forma. Uma dessas formas, já se viu, é a amplificação das dificul­
dades, como técnica de conseguir assentimento para decisões. Outra, muito
freqüente e conexa, consiste em deslocar o descumprimento da ordem e, as­
sim, a própria ordem, rearticulando-a num grau formalista do dever, como a
afirmação da irrestrita fidelidade e da manutenção da ordem.
Prevendo também que uma proposta local não será aceita pelo destinatá­
rio real, algumas Cartas são politemáticas, fazendo vários pedidos simultâneos.

5. Cf., a propósito, Stuart B. Schwartz.op. cil., p. 294.


6. Cf. Emmanuel Le Roy Ladurie, “Reflexions sur 1’essence et le fonctionnement de Ia monarchie
classique ( X V T - X V I I I ' siècles)”, em Henry Méchoulan (org.), CÉiai baroque 1610-1652, Paris,
Librairie Philosophique J. Vrin, 1985, pp. IX-XXXV.

112
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O MÍ S T I C O

Um deles, pelo menos, deverá ser atendido. Por exemplo, escrevendo ao pro­
curador Manoel de Carvalho, a Câmara avisa-o de que, depois de pedir inu­
tilmente ao Rei que alivie a finta que aflige “[...] a miséria com que geralmen­
te está todo este Povo”, depois de pedir que as religiosas do Convento de
Santa Clara do Desterro sejam convencidas a desistir da “[...] sucessão futura
[...] da maior parte dos bens de raiz desta Cidade”, depois de pedir a mercê de
“Lei irrevogável” que “[...] mande que nenhuma Pessoa venda fazendas fia­
das com pena de as não poderem cobrar por meios de justiça excetuando as
que se venderem para o fornecimento dos Engenhos, fazendas de Canas, e
Lenhas sem as quais não se poderão fabricar”78,vem a reiteração do pedido
que se faz ao Rei, em carta de 2 de julho de 1685:

[...] N a s P r o c i s s õ e s d e C o r p o d e D e u s e o u t r a s q u e p e l o d e c u r s o d o a n o s e f a z e m n e s t a
C id a d e a q u e s ã o o b r ig a d o s a s s i s t i r e ir e m o s O f ic ia i s d a C â m a r a c o m o O u v i d o r G e r a l
se d á a c a d a u m d o i s m il r é is d e p r o p in a p o r s e r a s s im c o s t u m e m u i a n t i g o a q u a l
d e s p e s a o P r o v e d o r M o r d a C o m a r c a c o s t u m a t o m a r t o d o s o s a n o s o s b e n s d o C o n s e lh o
d u v id a le v a r e m C o n t a s e m P r o v is ã o d e V o s sa M a j e s t a d e c o m o t e m m u i t a s C i d a d e s e
V ila s n e s s e R e in o ; e p o r q u e e s ta n ã o m e r e c e m e n o s e o s O f ic ia i s d a C â m a r a n ã o t ê m
o u tr o e m o l u m e n t o m a is , q u e e s ta p r o p in a , q u e é C o u s a li m i t a d a e m c o m p a r a ç ã o d o
m u it o q u e g a s t a c a d a u m e m v ir d e fo r a d e s u a s f a z e n d a s p a r a a s s i s t i r e m n e s t a C id a d e
e n q u a n t o d u r a o a n o d e s e u R e g i m e n t o p e d i m o s a V o s sa M a j e s t a d e q u e n o s fa ç a m e r c ê
c o n c e d e r P r o v is ã o p a r a o P r o v e d o r le v a r e m C o n t a a d e s p e s a d a s P r o c i s s õ e s referid a s® .

Legislando para o bem comum, os oficiais também legislam em causa


própria, quando pedem. Por exemplo, outra carta do mesmo dia, 2 de julho
de 1685, pede provisão para o pagamento do procurador assistente na Corte.
Como o provedor-mor dos Defuntos e Ausentes não leva em conta a despesa
com o salário arbitrado em 200 mil-réis por ano, a Câmara reclama: “[...]
porque não será justo que sendo despesa que se não pode escusar, e em bem
do Povo as paguemos nós das nossa [Rc] Fazenda”9.
Outra carta do mesmo dia rende graças ao destinatário real pela mercê:
“[...] que nos fez da sua Real Provisão em que ordena que as filhas dos Oficiais
da Câmara que servem, e tiverem servido neste Senado prefiram às outras na
entrada do Convento de Santa Clara desta Cidade”10.

7. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 10.


8. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 6. Em Carta de 2,12.1688, vol. 3, pp. 77-79, continuam pedindo.
9. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 7.
10. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 9.

113
A S A T I R A E O E NGE NHO

O trabalho contínuo na Câmara e a ausência de pagamento dos vereado­


res tornam-se, assim, signos nobilitantes deles como “homens de representa­
ção” ou “melhores”, fundamentando argumentos para legislar em causa pró­
pria e pedir privilégios":

[...] P o r é m d e p o i s fo i V. M a j e s t a d e s e r v id o e s c r e v e r a o A r c e b i s p o d e s t e E s t a d o , q u e a
p r e f e r ê n c ia s e e n t e n d i a n ã o h a v e n d o p r e j u íz o d e t e r c e ir o , e d a p ú b ü c a c o n s e r v a ç ã o d o
C o n v e n t o a s q u a is p a la v r a s a m b í g u a s d ã o m o t iv o a q u e a m e r c ê R e a l d e V o s s a M a j e s t a ­
d e n ã o v e n h a s u r t ir e f e i t o a lg u m c o n f o r m e a in t e r p r e t a ç ã o , q u e l h e q u is e r e m d a r e
c o m o V o s s a M a j e s t a d e n o s f e z d is t o fa v o r e m r e m u n e r a ç ã o d o t r a b a lh o c o n t í n u o , q u e
t e m o s d e S e r v ir n e s t e S e n a d o s e m S a lá r io a lg u m e s e r o d i t o C o n v e n t o c r ia d o p e lo s
o f i c i a is d a C â m a r a q u e s ã o o s l e g í t i m o s f u n d a d o r e s d e le n o s p a r e c e u j u s t o q u e V o s sa
M a j e s t a d e m a n d e o b s e r v a r a S u a R e a l P r o v is ã o s e m j u s t o d i g o s e m L i m i t a ç ã o a lg u m a
p a r a q u e n ã o h a ja n a s p r e f e r ê n c ia s d ú v id a s o u c o n t e n d a s 112.

Desta maneira, as Cartas operam alternando cumprimentos e descum-


primentos de ordens, que atendem o bem comum, e de pedidos e exigências,
que atendem o bem também comum dos senhores oficiais.

11. Stuart B. Schwartz demonstra que a Câmara de Salvador é dominada pelos interesses dos senhores
da terra, especialmente os do açúcar. Embora em seus quadros esteja presente a representação mer­
cantil, esta só cresce a partir do século XVIII. Numa tabela de seu texto, Schwartz demonstra que,
entre 1680 e 1729, a distribuição dos oficiais da Câmara é a seguinte: 50,8% de senhores de engenho,
12,7% de lavradores de canas, 16,6% de outras atividades relacionadas, ao açúcar, o que fornece
80,1% de interesse direto do setoraçucareiro. Cf. Stuart B. Schwartz, op. cit., pp. 277-278. Um pri­
meiro grupo deles adquire terras logo após a fundação de Salvador, por volta dos anos 1550 e 1560;
uma segunda leva aporta na Bahia em 15S0, quando o açúcar está em baixa. De 1620 a 1660, incor­
pora-se um terceiro grupo, principalmente após a invasão holandesa dos anos 20, quando a destrui­
ção de engenhos, as falências, as mortes e o desânimo propiciam a aquisição de terras por jovens
militares que vêm para a campanha contra o holandês, e por famílias fugidas de Pernambuco, como
os Argolo, Ferrão, Brandão Coelho, Pires de Carvalho etc. Quase sempre brancos ou assim tidos, os
senhores de engenho de fins do século XVII, como gente que acaba de chegar, desejam a nobreza e
o poder local. Até o fim do século XVII, quando as pestes tornam a Cidade perigosa, passam a maior
parte do tempo em Salvador, devido à proximidade dos engenhos que bordejam o Recôncavo: pela
baía, de barco, vai-se de Santo Amaro a Salvador em cerca de duas horas. Na Cidade, vivem em
casas assobradadas; sua participação nos negócios da Câmara, da Igreja e da Santa Casa de Miseri­
córdia indica a relação íntima entre Salvador e o Recôncavo. Demandam sempre a legitimação dos
foros de fidalguia que quase nunca vêm de Portugal. Funções públicas c a ostentação confirmam
sua posição na sociedade local como nobreza dos “melhores”. Cf. Stuart B. Schwartz, op. cit., pp.
265-267 e 281-282. Na sátira, são constantes as expressões “pobrete de Cristo", “cu breado", “mãos
dissimula em guantes”, “homem grande”, “grande dignidade”, que referem o tipo que ascende social­
mente através de negociatas e casamentos com filhas dos melhores do local.
12. Cf. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 9.

114
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O MÍ S T I C O

A referencialidade das Cartas é efetuada por procedimentos retóricos


menos distanciados que os da sátira. Quando uma carta afirma, por exemplo,
que o preço do bacalhau subiu e que a população se vê obrigada mesmo assim
a comprá-lo, dado o monopólio de sua venda, c que há fome e descontenta­
mento e murmuração contra a Junta do Comércio13, o enunciado produzido é
efeito de um ato da enunciação que narra ao destinatário a elevação do preço
e suas conseqüências, interpretando-as em termos genéricos de "bem comum”.
O valor semântico do enunciado está previsto pelo valor que a frase assume
em enunciados econômicos referentes aos preços e, ainda, à situação discursiva.
O valor semântico da informação refrata-se, no entanto, uma vez que a Carta
que a enuncia subordina o enunciado à posição que o agente encena - no caso
do bacalhau, apreensão solícita e indignação - e, ainda, constitui a recepção.
Assim, a informação visa à adesão do destinatário, porque o agente afirma
“sentir” naquilo que informa. No caso, porque articula essa adesão a uma
medida superior, que venha corrigir o que ele diz tentar corrigir, dada sua
função administrativa, mas não pode, como afirma. O bacalhau, tomado aqui
como exemplificação a uma carta de 8 de maio de 1650 dirigida a Dom João
IV, alega penúria e fome, reiteradas em carta de 15 de julho de 1679, no gover­
no de Dom Pedro como Príncipe regente, e em várias outras do final do sécu­
lo. A fome, aliás, é lugar-comum intensificado principalmente na penúltima
década do século XVII, quando nas cartas a Bahia é assolada pela “bicha” - a
febre amarela - e por secas. A fome é tanto evento narrado quanto captação
de benevolência, na paixão de não pagar impostos.
As intervenções dos agentes discursivos das Cartas e, em outro registro,
da sátira, exemplificam-se não só como murmuração contra o fisco e a fome,
mas também como sedição de soldados, desrespeito das pragmáticas de ves­
tuário, cortesia e precedências, destruição de engenhos pelo gentio bravo,
operações monopolistas de comerciantes, assuadas de negros e mulatos bêba­
dos, conflitos com o clero, arbitrariedades do alcaide-mor e governador, feiti­
çaria e calundus, casos de insulto atroz, proliferação de vadios e prostitutas,
pendências entre senhores, atritos com o Tribunal da Relação, escândalos
conventuais, falta de moeda etc. Tais eventos, atos e discursos encontram-se
estilizados no verossímil satírico como várias “naturezas” discursivas mime-
ticamente deformadas pelo engenho da fantasia poética, que os desenvolve
aplicando tópicas ou casos retóricos. A sátira desenvolve, como tema de agres­
são e de caricatura, um tipo vicioso, que é referido a uma pessoa e à regulação

13. Carta de 8.5.1650, vol. 1, p. 23; Carta de 4.6.1650, vol. 1, p. 25. Fala-se de “grandíssimos Clamores”
do “Povo”, sobre o qual recaem os tributos.

115
A SÁTI RA E 0 E N G E N I I O

jurídica de sua ordem, num registro retórico-poético de paixões e vícios


estilizados moralmente. Na crítica muito rotineira aos clérigos, por exemplo,
que teatraliza o vício da ambição dos “ganhões de altares” ou “lacaios missa-
cantantes” no topos medieval da simonia, a sátira também metaforiza a mesma
posição dos padres na hierarquia, juntando o ataque ao seu privilégio de isenção
de impostos à crítica do aumento usurário das riquezas. Tal representação dos
religiosos vem, nas Atas e Cartas, azedada com muito descontentamento dos
senhores de engenho representados pelos oficiais da Câmara em suas reclama­
ções contra o que dizem ser excessivo privilégio dos padres. Representam os
interesses da população sobretaxada, dizem, exigindo do Rei que passe a cobrar
os impostos das ordens religiosas a fim de aliviá-la. A competição dos senhores
com o padroado alega a defesa do povo, na crítica à usura em que a fidelidade ao
monarca se ratifica: taxados os padres, a murmuração cessa, como escrevem ao
Rei14. Confrontando-se os discursos da Câmara com os da sátira, a desqualificação
moral dos padres - glutoneria, simonia, usura, luxúria - explicita o interesse
econômico dos senhores, mas também se pluraliza na recepção segundo vários
registros, nos quais o mesmo conflito pode tornar-se secundário ou desaparecer.
“Hierarquia” é termo-chave para o estabelecimento de tais posições. A hie­
rarquia não é ambígua, no século XVII, sendo entendida como reflexo da lei na­
tural ou como ditado de Deus revelado em uma Igreja visível e corporificado nas
leis positivas de um Estado absolutista, segundo seus teóricos:

[...] P o r q u e s i V. A í. es Ia c a b e z a , su s S e c r e tá r io s so n la g a r g a n ta d e i c u e r p o m ís tic o d e s ta
M o n a r q u ia , y p o r d c u e llo c o m u n ic a a lo s d e m á s m ie m b r o s d e su s re in o s e l a l im e n to d e su
g o b ie r n o : so n e l in té r p r e te d e su v o l u n t a d , p o r q u e lle v a n a l P r ín c ip e la s sú p lic a s d e i r e in o y
v u e l v e n c o n su r e s p o s ta l5.

O que circula nas Cartas:

[...] S e n h o r - R e q u e r i d o s n ó s d o P r in c ip a l d o P o v o d e s t a C id a d e d a B a h ia e d a n o s s a
o b r ig a ç ã o p o r C a b e ç a d e la : i m o s a o s R e a is P é s d e V o s sa M a j e s t a d e r e p r e s e n t a r o c o ­

14. A mesma posição de defesa dos interesses do Império é legível, ainda, na defesa, feita pela Câmara,
da Companhia de Jesus contra os capuchinhos franceses, que pretendem instalar sua ordem em
Salvador. Os oficiais noticiam ao Rei que os capuchinhos são responsáveis pelo levante dos índios
do sertão ensinando-lhes que os verdadeiros descobridores do Brasil são os franceses e que o domí­
nio dos portugueses é injusto. Além disso, segundo a Câmara, fornecem armas de fogo aos índios,
que atacam e queimam canaviais e engenhos. Mais uma vez, a defesa dos interesses do Império
coincide com a dos interesses dos senhores e lavradores de canas. Cf. Cartas tio Senado 1673-1684,
vol. 2, pp. 78-79.
15. Texto de Bermúdez de Pedrasa, citado por Francisco Murillo Ferrol, Saavedra Fajardoy la Política
dei Barroco, Madrid, Instituto de Estúdios Políticos, 1957, p. 307.

116
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

m u m S e n t i m e n t o d e t o d o s p e la d e s e s t i m a ç ã o e m q u e e s t ã o o s n o s s o s F r u t o s d o B r a s il,
A ç ú c a r e T a b a c o 16.

E nos poemas:

L o g o e m b o a c o n s e q ü ê n c ia
n a P e s s o a r e a lç a d a
d e P ed ro e stá a te n u a d a
d e s t a P r o le a d e s c e n d ê n c ia :
lo g o c o m t o d a a e v i d ê n c i a
e a l u z d a d iv in a l u z
se v ê , q u e a P ed ro c o n d u z
o o lh a r , e v e r d e D e u s ,
q u e ao p r im e ir o R e i, e a os se u s
p r o m e te u na a r d e n te cru z.

( O C , V , p . 1 2 0 8 .)

Segundo as letras dos séculos X V I e X V I I sobre o tema, que se analisa


mais extensivamente no capítulo I I I , a doutrina do “corpo místico” referida
ao Estado significa o estado de natureza como “simples corpo místico” em
que todos os membros reconhecem as mesmas obrigações, pautam-se pelas
mesmas regras e “[...] são capazes de ser considerados, do ponto de vista mo­
ral, como único todo unificado”, como escreve Suárez17. A metáfora teológi-
co-política do “corpo do Estado” corresponde ao terceiro modo da unidade
dos corpos exposta por Santo Tomás de Aquino em seu comentário do Livro V
da Metafísica, de Aristóteles: unidade de integração, que não exclui a
multiplicidade atual e potencial. Partes de um todo, os membros do corpo são
instrumentos de um princípio superior, a alma. Por analogia de proporção, o
corpo humano é termo de comparação com o corpus Ecclesiae mysticum: a trans­
ferência metafórica é efetuada pelo termo caput, “cabeça”. Sede da razão, a
cabeça está para o corpo assim como Deus está para o mundo. Politicamente,
o Rei está no reino assim como a cabeça no corpo: razão dos membros, o Rei
os dirige em função de sua integração harmônica. Segundo Suárez, nenhum
corpo se conserva sem um princípio que promova o bem comum dos mem­
bros, uma vez que cada um procura o seu próprio bem, que nem sempre coin­
cide com o bem do todo, podendo inclusive contrariá-lo. Assim, como a socie­

16. Carta de 12.8.1687, vol. 3, p. 49.


17. Cit. por Quentin Skinner, The Foundations of Modem Polilical Thought, Cambridge, Cambridge
Uni versity Press, 1978, 2 vols., vol. II (The Age of Reformai ion), p. 165.

117
A SÁTI RA H 0 E N G E N H O

dade civil é natural, também o é a autoridade, como princípio racional que


evita a confusão: “[...] necessária, ita estpoteslasgubernandi illam, sine qua essent
summa confusio in tali communitate”18. O poder da cabeça sobre os membros, ou
do Rei sobre os súditos, justifica-se comopactum subjectionis.
Escolasticamente, o direito natural da liberdade não é absoluto: distin-
gue-se no direito natural o que é positivo do que é negativo, pois certas ações
são ordenadas ou proibidas pela lei natural, ao passo que outras são simples­
mente permitidas. E a mesma conceituação da liberdade que legitima o po­
der do soberano, pela comparação da liberdade da pessoa com a liberdade da
comunidade. Se, por direito natural, a pessoa é livre, isto significa que não
pode perdê-la senão por vontade própria ou por justa causa. Não significa,
contudo, que a conserve sempre, pois pode aliená-la. Da mesma maneira,
segundo Suárez, a comunidade pode transferir para um governante o poder
que tem sobre si mesma19.
O dogma luterano afirma que, devido à sua natureza decaída, o homem é
incapaz de entender a vontade de Deus e, assim, de viver de acordo com a lei
genuína. Legitima-se, desta maneira, o poder absoluto, imediatamente confia­
do por Deus ao soberano ao qual se deve obediência cega. Contra esta tese,
que também faz a Lei invisível pela postulação do livre exame das Escrituras
e pela negação da instituição visível da Igreja, o dogma católico afirma, na
Contra-Reforma, que o poder é uma instituição natural, fruto de um pacto,
visível numa Igreja. Derivado de Deus, certamente, que é sua Causa Primei­
ra, o poder do soberano não é absoluto como direito divino diretamente doa­
do por Deus, pois resulta de uma transferência pela qual a comunidade se
aliena dele na pessoa do governante, segundo um contrato: “Tal transferência
do poder da república para o príncipe não é delegação, mas quase alienação,
ou uma perfeita concessão do poder que estava na comunidade”20. Pela trans­
ferência do poder, o Rei é superior ao povo, mas pode ser privado do poder
quando degenera em tirano21.

18. Cit. por Cario Giacon, S. J., La Seconda Scolaslica, Milano, Fratelli Bocca Editori, 1950, 3 vols., vol.
III, p. 159.
19. Cf. Manuel Paulo Meréa, “Suárez, Jurista”, Revistada Universidade de Coimbra, Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1917, vol. VI, p. 116.
20. Cf. Francisco Suárez, De legibus, lib. 5, cap. 4, n. 11: “Tahs translado potestatis a republica in principem
non est delegalio sed quasi alienatio, seu perfecta largilio polesiatis quae erat in communitate”, cit. por
Jean-François Courtine, “Chéritage scolastiquedans la problématique ihéologico-politique de l’Âge
Classique”, em Henry Méchoulan (org.), op. cit., p. 99.
21. Cf. Manuel Paulo Merêa.op. cit., p. 124: “Mais uma vez, Suárez começa por fazer a distinção consa­
grada em tirano quoad lilulum e tirano quoad administrationem. O primeiro, também chamado na
escola lyrannus usurpalionis, é o tirano propriamente dito, aquele que se apoderou do trono injusta-

118

i
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

Acrescenta-se a tal interpretação a crítica dos adeptos de Maquiavel, cor­


rente em Portugal no século XVII e central na sátira como prescrição ética do
dever. Contra a interpretação política das leis conforme a ocasião, advogada
pelos partidários da “razão de Estado”, que propõem que o direito deixe de
ser limite e circunscrição natural do Estado para ser instrumento dele, a Con-
tra-Reforma afirma que o ius é sempre lei natural expressa em leis positivas -
portanto, Razão. No aconselhamento do fazer do Príncipe, contra os políticos
que propõem a conveniência segundo a ocasião, os juristas contra-reformis-
tas afirmam o dever22, limitando o poder do soberano pela ética e teologia do
direito natural.
Vários motivos concorrem, portanto, na hierarquia23: natural, visível nas
leis positivas da Cidade e nos ritos e sacramentos da Igreja, regula a unidade
sagrada do corpo do Estado, a pluralidade dos membros e a diversidade de
atribuições segundo um fim, o da “única vontade unificada” no bem comum.
Necessária, mantém a comunidade coesa como ordinata multitudo. Ostensiva,

mente e que só de fato ocupa o lugar de rei. O segundo - lyrarmus adminisiralionis ou tyrannus
regiminis - é o rei que, gozando de justo título, todavia governa tiranicamente, realizando de prefe­
rência os seus interesses pessoais, ou afligindo injustamente o seu povo - na qual categoria devem
incluir-se, entre os monarcas cristãos, aqueles que afastam seu povo da ortodoxia”.
22. Cf. Martim de Albuquerque, “Política, Moral e Direito na Construção do Conceito do Estado em
Portugal”, Esludos de Cultura Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1983, pp. 96-
9 7 : “Para os 'filósofos políticos’ lusitanos d o s séculos X V I e X V I I a razao de Estado constitui doutri­

na pestífera. A condenação da razão de Estado, no sentido em que se ligou este conceito a Maquiavel,
é correlativa e conseqüência lógica da condenação do Florentino. Como oposta quer à ordem divina
quer à ordem ética e jurídica nos aparece estigmatizada na generalidade dos autores. [...] A ratio
slatus, como supremo interesse, era pois geralmente repudiada, e quando se adotava a fórmula razão
de Estado fixavam-se-lhe fronteiras divinas e humanas; postulava-se a sujeição do poder estatal ao
comando divino, pelo que nâo se pressupunha a cisão da moral e da política e se afirmava a plena
vigência na esfera do governo do direito anterior c superior ao Estado - o ius divinum, naturale et
gentium - bem como, via de regra, também do próprio direito positivo, com a negação do princcps
legibus solutus". E neste sentido que o autor interpreta a criação da Mesa da Consciência e Ordens, no
século X V I , como controle judiciário do poder pela teologia e pela ética.
23. Le Roy Ladurie escreve que a Corte se erige em lugar geométrico das hierarquias, que subenten­
dem o sistema monárquico ou são subentendidas por ele. Os princípios hierárquicos propostos por
Ladurie para a França, a Espanha e Império valem também para Portugal, no século X V I I : subdivi­
sões extremamente minuciosas de ordens, ao longo de um eixo vertical, que desce da família real
aos simples gentis-homens; referências e distinções entre o sagrado e o profano, e também entre o
puro e o impuro, o bastardo e o legítimo; contrafenômenos de renúncia cristã da Corte e do mun­
do, de um lado, hipergamia feminina, de outro: graças ao casamento, as mulheres obtêm, através
de grandes dotes, maridos mais distintos que elas e uma posição acima da condição do seu nasci­
mento. “Elas sobem como trutas ao longo da cascata dos desprezos." Cf. Emmanuel Le Roy Ladurie,
“Reflexions sur 1’essence et le fonctionnement de la monarchie classique ( X V r - X V I I F siècles)”, em
Henry Méchoulan (org.), op. cit., p. X IV .

119
A SÁTI RA E O E N G E N H O

evidencia o absoluto do poder que a comunidade aliena no soberano e nas


instituições. Fundada no direito natural, é racional, ordem, regulando-se teo­
lógica e eticamente. Sua manutenção opõe-se ao pecado e à heresia, pois asse­
gura a concórdia das partes consigo mesmas, pelo controle dos apetites parti­
culares, e a paz do todo, pela unificação das vontades.
A pompa, a ostentação, o aparato e a propaganda rigidamente regulamenta­
dos, assim como a festa, operam como encenação teológico-política que repõe a
hierarquia espetacularmente: visível, natural, racional, necessária. Efetuada na
sátira, a dissolução da hierarquia é a morte, discórdia das partes desgarradas do
todo do corpo como pedaços de ódio e inimizade do bem comum:

Q u e im p o r ta , q u e n ã o se e n fo r q u e m
o s la d r õ e s , e o s a s s a s s in o s
o s f a ls á r io s , m a l d i z e n t e s ,
e o u t r o s a e s t e t o n ilh o ?
S e d e b a ix o d e sta p a z,
d e s t e a m o r f a ls o , e f i n g i d o
h á fe z e s tã o v e n e n o s a s ,
q u e o o u r o é c h u m b o m o f in o ?
É o a m o r u m m o r ta l ó d i o ,
s e n d o t o d o o in c e n t iv o
a c o b iç a d o d in h e ir o ,
o u a in v e j a d o s o f í c i o s .
T o d o s p e c a m n o d e se jo
d e q u e r e r v e r s e u s p a tr íc io s
o u d a p o b r e z a a r r a s ta d o s
o u d o c r é d it o a b a t id o s .
E s e m o u tr a c o u s a m a is
se d ã o a d e s t r o , e s in is t r o
p e la h o n r a , e p e la f a m a
g o lp e s c r u é is , e in fin ito s .

( O C , I, p . 2 2 .)

Veja-se, pois, o que aconselha Suárez, segundo o direito, quando respon­


de à questão de “[...] si es liçito a alguna persona recibir o pedir dadiva, ó cosa de
preçioy valor, por alcançar dei que tiene mano en el Gobierno, algun offiçio, plaça,
o digtiidad”. Questões do mesmo teor são comuns nas Cartas da Câmara, prin­
cipalmente em conflitos de atribuições com o Tribunal da Relação, em quei­
xas contra pessoas com foros falsos de fidalguia, em reclamações contra os
privilégios do clero, em acusações contra mercadores monopolistas, na re­
pressão aos contrabandistas de ouro e prata etc. Os mesmos eventos são

120
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O MÍ S T I C O

efetuados na sátira, aliás, que articula o mesmo critério teológico-político em


sua avaliação:

N o tr a ta m o s d e los M i n i s t r o s , y o ffiç ia le s R e a le s en e s ta d u d a , p o r q u e d e sto s es cosa lia n a ,


y ç ie r ta , q u e e n r e ç ib ir d a d iv a s , o p e d ir co sa d e v a lo r , d ir e c te o in d ir e c te p o r este f i n , y c o n c o lo r
d e o ffiç io , p e c a n m o r ta lm e n te c o n tr a la R e p u b lic a g r a v is s im a m e n te ’J.

Segundo Suárez, aqui citado como um paradigma hierárquico que se apóia


na autoridade de outros juristas, o ministro peca contra as leis da República
em coisa lícita e grave, da qual pende o “bom ser” do corpo do Estado. Logo,
peca mortalmente em grave detrimento dele, porque todo aquele que faz algo
contra a lei justa e boa em coisa grave peca desta maneira. E não só, porque
também peca contra o juramento que fez de guardar as leis do Reino, sendo
um perjuro manifesto, que as mesmas leis determinam seja tratado como tal
e castigado como traidor do juramento. Peca “gravissimamente”, ainda, por­
que pelo crime todas as coisas se vendem, a justiça se perverte, as letras e as
virtudes se acabam, os pobres são oprimidos, os ricos se fazem insolentes e,
finalmente, “[...]padeçe miserable naufragio la comunidad:y assi como a enemigos
dei bien comum los castigan gravissimamente las levs dichas, significando de alguna
manera con la gravedad de las penas el aborreçimiento que tienen a estos peccados”2-.
Ou, ainda: “[...] como el Salyrico dixo: ‘quid faciunt leges, ubi sola pecunia
regnal ?’ ”24256
Pela harmonia dos membros do “corpo místico” da República, infere-se
que não só tal ministro, mas também e principalmente o superior e adminis­
trador do governo, “[...] que lopermite sabiendolo, o deviendolo saber, o oyendolo,
o sospechandolo,y no lo averiguando, pecca mortalmente”2728.Em outros termos, a
todos os que são causa voluntária de um pecado ou dano imputam-se os mes­
mos, como se os tivessem feito. O mesmo se aplica também ao juiz que, encar­
regado de averiguar a verdade das acusações, tem indícios suficientes para
fazer inquisição e nada faz: “mutus, non manifestam”2*. Também os que pedem
e dão coisas eclesiásticas pecam mortalmente, uma vez que, por direito natu­

24. Cf, Francisco Suárez {Doaor Eximius), Conselhos e Pareceres, Coimbra, Imprensa da Universidade
de Coimbra, 1948, 3 tomos, tomo I, p. 225. “Ministro” e “oficial'’ são nomes para presidentes,
ouvidores e alcaides de Audiência; aleaides de Corte, juizes, relatores, escrivães de Câmara, procu­
radores, fiscais; contadores; secretários; alcaides; carcereiros; almotacés etc.
25. Idem, p. 226.
26. Idem, p. 227.
27. Idem,ibidem.
28. Idem, p. 228.

121
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

ral, a simonia é proibida, pois não é lícito dar coisa espiritual por preço tem­
poral nem tampouco recebê-la.
O fundamento da conclusão é claro, segundo Suárez:

[...] la r a ç o n d e a v e r t a n e s t r e c h a y g r a v e m e n te p r o h ib id o esto a lo s jfu e ç e s , M i n is t r o s , y o ffiç ia le s


es, p o r q u e tie n e n m a n o en e l g o v ie r n o : lu e g o si e s ta m a n o lie n e n o tro s , q u e t i e n e n e n tr a d a con
lo s q u e g o v ie r n a n , en ello s c m r e la m is m a ra ç o n , p u e s en los p r im e r o s se p r o h ib id o esto , p o r q u e
e r a m a i o . y n o c iv o (d e s u e r te q u e a n te s q u e lo p ro h ib ie s se n e r a p e r n i ç i o s o ,y p o r esso se h a lla r o n
o b lig a d o s los P r ín c ip e s a a ta ja r lo c o n leyes ta n n g u ro s a s). L u e g o en e sto tro s, a q u ie n e sta r e d u ç id a
la m a n o e n el g o v ie r n o , e sto m is m o s e ra p e r n iç io s o to ta lm e n te a u n q u e n o h a b le la le y p o s itiv a
h u m a n a co n e l lo s ,y a s s ip ite s en r e a lid a d d e V e rd a d tie n e n e l u s o , y e l o ffiç io , a u n q u e , no te n g a n
el t i t u l o y n o m b r e , d e v e u s e r c a s tig a d o s ,y r e m o v id o s , si a b u s a n d e i: p o r q u e , p o r e l m is m o caso,
q u e los a d n i i t e n , y tie n e n m a n o en d g o v ie r n o , a u n q u e se a p o r v i a d e in te rç e ss io n , e s ta n o b lig a d o s;
a u s a r d e lia c o n f i d e l i d a d , y lim p ie ç a , p o r q u e , d e o tr a s u e r te f u e r a esto m a s p e r n iç io s o , q u e lo de
los M in is tr o s , p u e s a q u e llo s co n el te m o r d e ia p e n a se r e fr e n a n a lg u n ta n t o , y e sto s (c o m o les
p a r e ç e n o la tie n e n ) j u e g a n a l se g u ro p a r a si c o n ç i e r t o y m a n ifie s to d a iio d e la R e p u b lic a , d o n d e
n o se p r o v e e cosa p o r J u s t i ç i a m e r e ç im ie n tu n i p a r te s , s in o p o r p u r o d in e r o , q u e es Ia s u m m a
m i s e n a d e u n a c o m u n i d a d 293
0.

Infere-se ainda, segundo o direito, que nem mesmo o Príncipe pode dar
licença para que os que têm mão no governo possam receber dádivas e subor­
nos porque “ [...] es muy maio acuerdo danar a muchos por aprovechar a u.no’m .
Peca o Príncipe que o permite, pois torna-se ocasião de inumeráveis pecados
e põe em perigo moral o bem de seu Estado. Peca, princípalmente, porque
não o pode permitir: “ [...] por ser derecho natural, y Divino, aunque pueda no
castigar, ni penar, comosu Ley positiva reza”3132.Finalmente, conclui Suárez que:

[...] s ie n d o e l c a s tig o d e s to s d e s a fu e r o s J r e n o d e ta n to s y ta n g r a v e s d a n o s y p e c c a d o s , e l no
h a ç e r lo q u ie n tie n e o b l ig a ç io n y p ite d e , se ra c a u sa v o l u n t á r i a d e to d o s e llo s ,y d e los q u e h iç ie r o n
estos ta le s , q u e tie n e n m a n o en e l g o v ie r n o , a c a u s a d e los p r e s e n te s , d a d iv a s , o a v a r iç ia , q u e no
p o d r a n s e r p o c o s , n i p e q u e n o s , p o r q u e c o m o el q u e f a ç i l i t a a u n o la V ir lu d , m e r e ç e m u c h ó , assi
d e s m e r e ç e g r a n d e m e n te q u ie n a b re c a m in o p a r a e l 1iç io e s p e ç ia lm e n te s i es e n d a iio d e la
C o m u n i d a d 12.

Estas considerações são feitas para recusar uma noção de “hierarquia”


proposta como quadro de oposições simples do tipo “dominante/dominado”

29. Cf. F. Suárez, op. cit., pp. 232-233.


30. / d e m , p. 235.
31. I d e m , p . 236.
32. I d e m , ibidem.

122
A M U R M U R A Ç Ã O 1) 0 C O R P O M Í S T I C O

muita vez aplicadas aos documentos do século X V I I . Também na Bahia, por


ser genericamente prescrita, a hierarquia é muito difusa, no que concerne às
práticas. Regida pela doutrina do “corpo místico” do Império, reiterada pe­
las virtudes medievais que a corporificam naturalmente - nobreza, lealdade,
coragem, fé, prudência -, a hierarquia é pontualmente destruída em vários
níveis simultâneos, enquanto se repropõe e reconstitui-se o tempo todo. Este
duplo movimento encontra-se em toda a sátira atribuída a Gregório de Matos
e Guerra e também nas Cartas do Senado da Câmara e em outros documentos
da época, sendo o índice de confusões entre transgressão e lei natural, um dos
temas prediletos da sátira. Como um sistema de normas, a hierarquia classi­
fica os corpos distribuindo-os por lugares sociais do “corpo místico” da Re­
pública. Feixe de relações, algaravia de posições conflitantes, nela se intertra-
duzem a propriedade, a limpeza de sangue, a fidalguia, a escravidão, o trabalho
manual, a religião, o saber letrado, o comércio, como classes jurídicas trans­
formadas na sátira como matéria semântica que preenche tópicas retóricas
tradicionais.
Quando aqui se lêem as Canas cAtas como documentos, mantém-se de­
les a regra de unificação da multiplicidade dos eventos que narram e que se
traduzem pela hierarquia, princípio generalíssimo aqui interpretado pelo
direito. Tal regra é a vontade unificada de todos na subordinação ao Rei, que
os oficiais apregoam nos papéis que escrevem como “bem comum”, “bem
comum deste povo”, “bem comum da República”, “bem comum deste Esta­
do” etc. Homens de “mor qualidade” ou “de representação” - proprietários,
livres, brancos - os senhores oficiais da Câmara declaram abdicar de suas
prerrogativas particulares de mando ao tratar dos negócios públicos como
vereadores: homens da República. Assim, como se escreveu, enunciados do
interesse geral muitas vezes entram em choque com enunciados dc interesse
particular.
A mesma unificação hierárquica inclui a “murmuração”, que a questio­
na, para solvê-la e repropô-la como hierarquia. A “murmuração”, evento, deve
ser evitada e corrigida, enfim, movimento também observável na sátira, que
murmura contra a murmuração ou que corrige a hierarquia que permite a
murmuração33.
Como a vontade do Rei constitui a lei, os súditos das Cartas cAtas subor­
dinam-se a d a formalmente, quase abrindo mão de seus direitos para em

33. A sátira costuma dramatizar a murmuração: “o vulgo tem murmurado" (OC. II , p. 251); “[...] diz
e s t a plebe inimiga” (OC, I I I , p. 317); “[...] veio ocasião/de todo o povo malvado / dizer...” (OC, IV,

p. 833) etc.

123
A SÁTIRA E 0 E N G E N H O

troca receber os privilégios revogáveis a qualquer momento pela mesma von­


tade soberana. Pela subordinação de todos à unidade dessa vontade, funda­
menta-se a hierarquização que subordina a si outras vontades hierarquica­
mente inferiores, como as dos senhores proprietários. A sátira produz a
divagem entre a vontade dos homens bons, evidentíssima nas atas e cartas, e
as ocasiões em que, publicamente, ferindo o bem comum da República, os
deveres e os direitos são politicamente subvertidos pelos interesses particula­
res dessas vontades subordinadas. Critica tanto o não-reconhecimento dos
privilégios (pela infração de precedências, pela presunção de passar por ou­
tro, pela exorbitância da ambição) quanto o desvio no exercício dos mesmos
privilégios (pela corrupção da justiça dos magistrados da Relação, pelo su­
borno34, pelo abuso na isenção de impostos pelo clero, pela corrupção mono­
polista dos comerciantes da Junta do Comércio, pela tirania dos governado­
res etc.). Em outros termos, a sátira é reguladora: circulando como o sangue
por todo o corpo da República, prescreve as posições e as trocas hierárquicas
adequadas para sua boa saúde, criticando a falta e o excesso. Os efeitos grotes­
cos da vituperação subentendem, assim, a racionalidade das leis positivas da
Cidade.
Hierarquizada no bem comum, a população é constituída nos discursos
das Cartas e Atas como sobretaxada de impostos e miserável. E natural, se­
gundo os discursos, que seja taxada; o que desvirtua a naturalidade, contudo,
é justamente o excesso, tanto de impostos quanto de miséria e de murmura-
ção. Segundo a Câmara, cs membros do corpo místico da República “[...] não
faltam vendo que é igual a justiça”35, o que implica sua adesão à mesma. “Fal­
tam”, contudo, quando a desigualdade é excessivamente desigual - por exem-

34. Cf., por exemplo, Carta de 26.6.1678, vol. 2, p. 42: “Foi Vossa Alteza servido atender as queixas
deste Senado mandar informar como de fato se informou dos Desembargadores desta Relação com
toda a atividade e inteireza de que deve dar conta a Vossa Alteza [...] a justificada queixa deste
Senado c o procedimento destes Ministros por ausentes da Presença de Vossa Alteza e ainda muito
mais apareceriam suas culpas se o Escrivão dela não fosse um Ministro da mesma Relação que
ocasionou a muitos o pejo e o temor com que se lhe restringiu a liberdade de poderem jurar por
não se sujeitarem ao dios, e padecerem ao depois os golpes das vinganças que têm prontas nas
varas com que executam e nas penas com que o sentenciam, condenam como de fato já sabem a
maior parte dos jurados e dos jurantes segundo se diz, dissimulando para seu tempo com a vingan­
ça...’’. Veja-se a sátira: “Mas que o Juiz da ciência / por causa de alguns respeitos / não faça exame
nos feitos, / por forrar o da consciência: / que o tal com muita insolência / por descuido, ou por
preguiça / não reforme esta injustiça / da sentença lisonjeira! / Boa asneira” (OC, II, p. 482). Ou:
“[...] os três paus da Relação / sempre é carta de ganhar” (OC, II, p. 422).
35. Cf. Carta de 26.6.1678, vol. 2, p. 45.

124
A M UR MU RAÇÃO DO C O R P O M Í S T I C O

pio, pelo excesso dos privilégios, dos quais a mesma Câmara representante do
“comum Sentimento” dá índices de se aproveitar sempre que pode.
Miserável, faminta, empestada, como nas Cartas, a população é represen­
tada como temível porque amotinável. Ela murmura. Em uma Carta de 1678
sobre a cobrança de um donativo não pago, a Câmara informa ao Rei que ele
teria recebido informações falsas - o documento não informa de quem - de
que as quantias a serem enviadas ao Reino teriam sido “inferiores quantias”
porque, com saudável eufemismo, se “retardaram” em mãos dos tesoureiros
e encarregados da cobrança. A Câmara alega que a diminuição da quantia se
deve não ao desvio dela para as arcas dos tesoureiros, mas à diminuição dos
cabedais do povo (aqui, o termo “povo” se generaliza e inclui os senhores de
engenho e lavradores de canas), causada pelo pouco rendimento das lavouras
e pela falta de fábricas de açúcar. Segundo os oficiais, o movimento da Alfân­
dega o comprova, pois faz cinco anos (desde 1673) não vão para o Reino senão
dez mil caixas de açúcar ou menos, anualmente, “[...] quando nos anos passa­
dos lavrava esta Bahia dezessete e dezoito mil caixas”. A causa da diminui­
ção, alega a Câmara, são os excessivos direitos reais, que acrescem em cada
arroba de açúcar:

[...] d e q u e r e s u lt a a o n e g ó c i o v e n d e r m o s o s f o r n e c i m e n t o s p a r a a s la v o u r a s c o m a v a n ­
ç o d e c in q ü e n t a p o r c e n t o p a r a a s s im g a n h a r e m e p a g a r e m o s m u i t o s t r i b u t o s q u e se
tê m p o s t o s o b r e n o s s a s d r o g a s e t u d o r e d u n d a e m p r e j u íz o d e s t e E s t a d o e d e t o d o o
a r r u in a m a s e x e c u ç õ e s p r e s e n t e s a s s im a s p a r t ic u la r e s c o m o a s d a F a z e n d a d e V o ssa
A lt e z a 36.

Após o arrazoado, os oficiais referem-se à “parte não menos deste Povo”,


que consta de “ [...] Religiosos e Clérigos pobre fogeticos [síc] Vagabundos
mulheres vadias, homens quebrados e outros de semelhantes condições” que
não pagam o donativo. Excetuando-se os clérigos, as categorias relacionadas
pela Câmara formam a “gente baixa” ou “pessoas vis”, que, embora façam
parte da mesma população, são julgadas inferiores e desprezíveis: juntem-se
bêbados, ciganos, contrabandistas, gatunos aos “pobres fogeticos Vagabun­
dos mulheres vadias, homens quebrados e outros de semelhantes condições”.
A Câmara escreve que a ralé alega, nas “muitas inumeráveis petições” que o
Senado recebe diariamente, justa causa para não pagar o imposto, buscando
“todos, por todas as vias”, meios de isenção. O que, mais uma vez, também
implica que a população nomeada pela Carta não exige outra justiça, mas a

36. Idem, ibidem.

125
A SÁTI RA E O E N G E N H O

mesma, desde que “igual”: com o zelo e a inteligência do governador, afirma


a Carta, “[...] se tem remediado o que se reputaria descuido porque sabe jus­
tamente nos dar calor e ajuda para o fazermos dos pequenos e pobres os quais
não faltam vendo que é igual a justiça”37.
“O que se reputaria descuido” é o modo como a Câmara incorpora e con­
testa a acusação real, numa operação muito hábil, que alega o governador
como avalista da situação de penúria e da correção administrativa sempre
preocupadíssima, óbvio, com “os pequenos e pobres”: “[...] é de conhecer [fal­
ta trecho no documento] com a evidência [falta trecho] Governadores que
foram deste Estado lhe nascia a piedade para a dissimulação a que Vossa
Alteza chama omissão”38.
Segundo a Câmara, “[...] parece ser escusado haver Ministros e Oficiais
com novos ordenados para executar o que se dever da contribuição”39. A no­
meação dos novos oficiais, magistrados do Tribunal da Relação, evidencia a
desconfiança real quanto à lisura das cobranças. Segundo a Câmara, que se
opõe à criação dos novos cargos, mantendo para si a atribuição da cobrança
do donativo com a alegação de que o povo murmura e não confia na justiça e
seus magistrados, “[...] o fazemos sua [a cobrança pelos novos ministros e
oficiais] somente aveixado e atropelado aos miseráveis em um Donativo vo­
luntário que com tanto zelo ofereceram a Vossa Alteza e só tiveram lugar
outros Ministros”40. A Câmara alega, ainda, que o pagamento dos novos oficiais
será retirado da contribuição dos “miseráveis”:

[...] P o r q u e u m a d a s c o n d i ç õ e s c o m q u e e s t e P o v o a c e it o u s o b r e s i e s t e d o n a t i v o c o m tão
b o a v o n t a d e fo i q u e s e n d o c a s o q u e p o r a lg u m a c i d e n t e s e i n t r o m e t e s s e m i n i s t r o s d e
j u s t iç a n e s t a R e p a r t iç ã o e c o b r a n ç a d e s t e lo g o h a v ia m p o r le v a n t a d o d i t o d o n a t iv o e
n e s t a f o r m a p a r e c e u o a c e it a v a V o s sa A lt e z a n a a s s i s t ê n c i a d o s G o v e r n a d o r e s C o n d e d e
Ó b id o s , e F r a n c i s c o B a r r e t o 41.

Uma carta posterior a esta, provavelmente do mesmo ano de 1678,


rearticula a crítica aos ministros da cobrança e estende-a para a Relação, com
índices muito fortes de oposição contra ela, valendo a pena sua transcrição
integral:

37. Idem, p. 46.


38. Idem, p. 45.
39. Idem, p. 46.
40. hiem,ibidem.
41. Carla de 22.8.1678, vol. 2, pp. 45-46.

126
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

R e g is t r o d e u m a C a r t a e s c r it a a S u a A lt e z a s o b r e o n ã o se t o m a r c o n h e c i m e n t o a s
E x e c u ç õ e s d a F a z e n d a R I . F o i V o s sa A lt e z a R e a l S e r v id o m a n d a r q u e n e s t a R e la ç ã o s e
n ã o t o m a s s e c o n h e c i m e n t o s d e m a t e r ia is e C a u s a s p e r t e n c e n t e s à s c o b r a n ç a s d a F a z e n ­
da R e a l d e V o s sa A lt e z a o c a s iã o d e s e a r g ü ir e m m u it a s q u e ix a s e m a n i f e s t a s d i l i g ê n c i a s
c o m n ã o p a r e ç a lá s t im a d e s t e P o v o e c o m e s ta o r d e m d e V o s sa A lt e z a p r o c e d e m o s M i ­
n is tr o s d e s t a R e a l c o b r a n ç a se g u n d o se u s a fe to s e v o n ta d e s se g u ro s e m q u e n ã o h á q u e m e m e n ­
de seu [sic] p r o c e d im e n to s p o r q u e p r o c e d e m e x e c u tiv a m e n te c o n tr a os d e v e d o r e s d e Vossa A l t e ­
z a se m e m b a r g o d a s L e is e m c o n tr á r io q u e Vossa A l t e z a ta n t o a m a p e n h o r a n d o o s s e u s b e n s q u e
os C o n tr a ta d o r e s d e Vossa A l t e z a n o m e ia m se u s d ig o n o m e ia m se m o u tr a f i g u r a d e J u í z o e s ta
v e r d a d e h á d e s e r m a n i f e s t a a V o s sa A lt e z a p o r q u e h á d e c o n s t a r q u e e s t e a n o f in d o d e
m enos f r u t o s se c o b r o u m a is q u e n o s p a s s a d o s e j á q u e Vossa A l t e z a é s e r v id o c o n s e r v a r a q u i e sta
R e la ç ã o s e r á r a z ã o p a r a q u e n o s s e ja e m a lg u m a m a n e ir a p r o v e it o s a p a r a e m e n d a r este
p r o c e d im e n to [sic] p e lo s m e io s o r d in á r io s d e u m a g r a v o p o r q u e d e o u tr a m a n e ir a n ã o só nos
fic a r á e sta R e la ç ã o m o le s ta m a s a i n d a in ú t i l su a a s s is tê n c ia is t o p r o p o m o s a V o s s a A lt e z a
p ela f i d e li d a d e d e n o s s o s â n i m o s q u e t e m o s d e o b s e r v a r a s o r d e n s d e V o s sa A lt e z a p o r
e s ta r m o s n o C o n h e c i m e n t o c e r t o s d e q u e V o s sa A lt e z a h á d e r e m e d ia r t u d o c o m o P r ín ­
c ip e tã o b e m i n c l i n a d o a q u e m d e s e j a m o s c o m o s a n g u e d e n o s s o s b r a ç o s a d q u ir ir - lh e
m a io r e s f e l i c i d a d e s p a r a o E s t a d o d e V o s sa A lt e z a n a s o c a s i õ e s p r e c i s a m e n t e n e c e s s á r i a s
q u e e s t a s a s n ã o t e m o s d e p r e s e n t e s e ja D e u s lo u v a d o p a r a se p r o c e d e r a s e x e c u ç õ e s se m
recurso; e o o r d in á r io n e s ta C id a d e h a v e n d o M in is tr o s n e la L e tr a d o s . G u a r d e D e u s a P e s s o a
d e V o ssa A lt e z a m u i t o s a n o s c o m o h a v e m o s m is t e r s e u s V a s s a lo s 42.

Segundo a Câmara, a Relação age à revelia, “sem embargo das Leis em


contrário”, que proíbem as execuções de dívidas dos senhores de engenho em
suas propriedades. Num lapso, o escrivão diz que os contratadores “nomeiam
seus” os bens que penhoram, para corrigi-lo por “nomeiam sem outra figura
de Juízo”. O pedido por intervenção real para que se emendem tais procedi­
mentos “pelos meios ordinários de um agravo” indica nitidamente a posição
da Câmara na defesa dos interesses senhoriais, uma vez que os “meios ordi­
nários” são atribuição dos Juizes Ordinários, dois homens-bons eleitos anual­
mente com os outros três componentes da Câmara, seus oficiais. Os conflitos
com a Relação intensificam-se nos documentos das décadas finais do século
XVII. Neles, a baixa geral dos preços do açúcar, a morte da mão-de-obra es­
crava pelas pestes, a falta de moeda circulante dramatizam a ruína dos se­
nhores cujas propriedades, safras e escravaria são penhoradas em pagamento
de dívidas. A mesma carta acima transcrita fornece pista da oposição entre
Juizes Ordinários, letrados formados no colégio local da Companhia de Jesus, e
magistrados da Relação, formados no Reino.

42. Carias do Senado 1673-1684, vol. 2, pp. 50-51 (grifos meus).

127
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Tais conflitos são do conhecimento do doutor Gregório de Matos e Guer­


ra quando procurador da Bahia em Lisboa, nos anos de 1673 e 1674 - bem
antes, portanto, do seu retorno para a terra das bananeiras43. Vale ler a carta
endereçada a ele pela Câmara, pois nela se explicitam conflitos com a Rela­
ção, envolvendo Juizes Ordinários, e, ainda, as atribuições do procurador:

R e g is t r o d e u m a C a r t a e s c r it a a o P r o c u r a d o r G r e g ó r io d e M a t o s e G u e r r a e m L i s ­
b o a s o b r e a m e s m a m a t é r ia a tr á s d a C a r ta p a r a S u a A lt e z a .

N e s t e p a s s a d o a n o d e s e i s c e n t o s s e t e n t a e o it o d i g o s e t e n t a e tr ê s a c o r d a r a m o s
D e s e m b a r g a d o r e s e m R e la ç ã o f e s t e j a r a o E s p ír it o S a n t o e m u m a d a s S u a s o it a v a s n o
C o n v e n t o d o C a r m o a t í t u l o d e f e s t a d a j u s t iç a o b r ig a n d o a t o d a e la a a c o m p a n h a r o
r e g e d o r d e C a v a lo c o m p e n a d e v i n t e C r u z a d o s fo r a m o s J u i z e s n a v é s p e r a o b e d e c e r a
e s t e m a n d a t o e n ã o fo r a m a o d ia a s s im p o r n ã o s e r o b r ig a ç ã o c o m o n e s s a C o r t e c o m o
p e lo h a v e r e m f e i t o a s s im o s d o a n o p a s s a d o q u e t a m b é m s e n ã o a c h a r a m n e le : m a s o s d o
p r e s e n t e se a s s e m e l h a r a m a o s d o p a s s a d o n a a ç ã o n ã o o s i g u a la r a m n o m e r e c i m e n t o ou
f o r tu n a p o r q u e a tiv e r a m a q u e l e s d e q u e s e n ã o f i z e s s e c a s o d a s u a f a lta e e s t e s a d e q u e
s e o l h a s s e p a r a e s t a p a r a s e a r r o ja r e m d e m a n e ir a e s t e s M i n i s t r o s q u e f iz e r a m a t o d e le s
e s e m a t e n t a r e m a q u a l i d a d e d a s P e s s o a s n e m a d o C r i m e o f iz e r a m tã o a t r o z q u e o
s e n t e n c ia r a m e m v i n t e d i a s d e C a d e ia p ú b lic a e e m v i n t e m i l r é is a c a d a u m s e m r e s p e it o
a o s P r i v il é g i o s q u e p o r m u i t o s g r a n d e s p u d e r a m s e r i n v i o l á v e i s . I s t o m e s m o s e e s c r e v e
a S u a A lt e z a c o m o V o s s a M e r c ê v e r á n a C a r ta in c l u s a , e s e l h e m a n d a m o s a u t o s e C e r ­
t i d õ e s q u e s e r ã o c o m e s ta [sic] p o r m ã o d e V o s sa M e r c ê p a r a q u e o b r e n e s t e C a s o n ã o só
c o m o z e l o d e o b r ig a ç ã o q u e V o s s a M e r c ê t e m d e o fa z e r c o m o P r o c u r a d o r d e s t e S e n a d o
m a s c o m o f i lh o d a m e s m a p á tr ia q u e d e v e s e r o r e p a r a d o r d a s m o l é s t i a s v i t u p é r io s d e
s e u s p a t r í c i o s e v i z i n h o s r e q u e r e n d o m u it o a S u a A lt e z a a e m e n d a d e s t e d e s a c e r t o p ara
q u e s e e v i t e m a s s im o s m a is q u e p o d e m s u c e d e r , p o r q u e q u e m c o n s e n t e a p r im e ir a
a n im a p a r a a s e g u n d a , c o m o p o r q u e s e d is t o S e n h o r n ã o m a n d a r e s t r a n h a r m u i t o e s te
C a s o t e n h a V o s s a M e r c ê e n t e n d i d o p a r a o r e p r e s e n t a r a s s im a S u a A lt e z a q u e n ã o h á d e
a c h a r h o m e n s q u e o s ir v a m p o r q u e q u a n d o n ã o h á d e a c h a r h o m e n s q u e o s ir v a m p o r ­
q u e q u a n d o [síc] n ã o fo r a m b a s t a n t e s a s q u a lid a d e s e o s p r i v i l é g i o s c o m g r a n d e c o n s i d e ­
r a ç ã o s e p o d ia m r e s p e it a r a s V a r a s d e S u a A lt e z a a r e t e n ç ã o d o s D e s p a c h o s e a a lt e r a ç ã o
P o p u la r q u e s e p o d ia t e m e r d e s t a v i o l ê n c i a p a r a c u ja e m e n d a n ã o fo r a p e q u e n a [fa lta
t r e c h o d o d o c u m e n t o ] V o s s a M e r c ê a S u a A lt e z a m a n d a s s e c o b r a r d e s t e s M i n i s t r o s s e is
m il S o ld a d o s , q u e p õ e m d e p e n a a o s q u e n ã o g u a r d a r e m e s t e s s e u s P r i v il é g i o s c o m o
V o s sa M e r c ê h a v e r á a o p é d e le s . E p o r q u e s u a A lt e z a c o n c e d e t a m b é m a o s C id a d ã o s
d e s t a C id a d e o s m e s m o s P r i v il é g i o s , q u e t e m o s d e s s a d e L is b o a t o m e V o s sa M e r c ê ao
s e u c a r g o m a n d a r - n o s a C ó p ia e t r a s la d o d e l e s e m p ú b lic a fo r m a p a r a s e r e g is tr a r e m
n e s t a C â m a r a a in d a , q u e n o s n ã o V a lh a m , e a p r o v e it e m p a r a a s r e s p e it a r e m m a s e s p e r a ­

43. C f . OC, IV, p . 8 9 7 : “Ontem avistamos terra, / e quando na barra vi, / coqueiros e bananeiras, / disse

comigo: Brasil”.

128
A M U R M U R A Ç A O DO C O R P O M Í S T I C O

m o s m u i t o c e r t a m e n t e q u e c o m o f a v o r d e D e u s e b o a d i s p o s iç ã o d e V o s sa M e r c ê c o l h a ­
m o s o s f r u t o s d e n o s s a s e s p e r a n ç a s d e c u j o e f e i t o p e d i m o s a V o s sa M e r c ê s e h a ja p o r
m u it o e n c a r r e g a d o . G u a r d e D e u s a V o ssa M e r c ê B a h ia v i n t e d e d e z e m b r o d e m il s e i s ­
c e n t o s s e t e n t a e q u a tr o '14.

Nos documentos, volta e meia explode o conflito aberto entre a Câmara e


a Relação, como no caso referido da prisão dos Juizes Ordinários. Um desses
conflitos encontra-se no próprio emperramento burocrático da Justiça portu­
guesa, com suas várias instâncias de apelação e recursos. Os processos são
muito lentos e os altos custos implicados neles oneram o bolso dos senhores.
Por isso, a Câmara deseja a mediação dos Juizes Ordinários locais, apesar da
limitação dos poderes destes, substituindo o recurso legal moroso, caro e afi­
nal incerto da Relação por vias mais seguras4445. Nesses conflitos, a Câmara e a
Relação funcionam como instâncias públicas em que desejos e interesses de
senhores se modelam institucionalmente, de modo que a discussão jurídica e
administrativa de privilégios infringidos, de precedências desrespeitadas, de
abusos de atribuições etc. também significa lutas por demarcação de terras,
pela lenha escassa para as moendas, execução de dívidas, penhora de safras,
brigas familiares por heranças, atritos provocados por incêndios criminosos
em canaviais etc.
Não se têm mais informações, nas cartas, sobre o resultado da ação do
procurador Gregório de Matos e Guerra para desagravar os Juízes Ordinários
presos por ordem da Relação46. A Carta que o demite do cargo é instrutiva,
contudo, pois nela de novo o “Sentimento geral” é efetuado e, segundo a Câ­
mara, por iniciativa do Juiz do Povo, representante das classes mecânicas de
Salvador47. Mais uma vez, a murmuração e o “escândalo” dos novos impostos

44. Carta de 20.12.1674, vol. 2, pp. 15-17.


45. Cf. Stuart B. Schwartz, op. cii., pp. 281-282.
46. Carta de 27.7.1674, vol. 2, pp. 18-20, informa a demissão de Gregório de Matos e Guerra ao novo
procurador e pede-lhe dar continuidade à queixa junto ao rei: “Em particular encomendamos o da
queixa que se fez a Sua Alteza sobre o procedimento da Relação com os juizes por não assistirem no
ato da Festa do Espírito Santo”.
47. Carta de 26.7.1674, vol. 2, pp. 17-18, demite Gregório de Matos e Guerra do cargo de procurador da
Bahia na Corte. Há um equívoco na datação das Cartas, a menos que a data de 20.12.1674 seja a do
seu registro, pois a Carta de 26.7.1674 demite Gregório e a de 20.12.1674 passa-lhe as procurações
cujo não-atendimento alegado pela Câmara é causa de sua demissão. Leia-se a de demissão: “Com
esta enviamos a Vossa Mercê a Procuração que nos pede para confirmação do ato que Vossa Mercê fez
nas Cortes, que se celebraram este ano de Procurador desta Cidade. Aqui se tem grande escândalo do
que se diz de novos e pesados impostos sobre o Tabaco fruto deste Estado e também de vir esta Frota
com ordem de invernar, e ficarem os açúcares juntos com os da nova safra de que se seguem a este
Povo mui graves danos: e não nos diz Vossa Mercê que sobre pontos de tanta importância fizesse alguma

129
A SÁ T IR A E O E N G E N H O

são alegados, bem como a “alteração popular” que se “[...] podia temer desta
violência”. A carta de demissão evidencia ainda, no eufemismo irônico de
seus oficiais, que atribuem a Gregório de Matos, como causa de sua omissão
alegada, “suas maiores ocupações”, a auto-representação dos oficiais: “[...] e
assim nos pareceu, a requerimento do Juiz do Povo aliviar Vossa Mercê da
nossa que na verdade é bem grande e pede sujeito mais desocupado’'.
Nos conflitos e posições que relatam, as cartas evidenciam que no século
XVII o poder real se divide em poder ordinário, cujos limites são o direito pri­
vado, a lei comum e o interesse particular dos súditos, determinados num
contrato, e poder absoluto, que visa o bem comum, determinando meios e fins
da razão de Estado soberana*5. A divisão fica evidenciada em trechos das car­
tas citadas acima, por exemplo, como a referência ao “escândalo” dos “[...]
novos e pesados impostos sobre o Tabaco fruto deste Estado” ou aos “[...]
Privilégios que por muitos grandes puderam ser invioláveis”. A mesma divi­
são implica que, formalmente, o imposto real só é lançado com o consenti­
mento dos súditos - o que não significa, como se comprova facilmente nas
cartas e também nas sátiras, que o contrato seja sempre cumprido: alterações
do valor da moeda, aumentos de taxas, novos impostos etc. são muito co­
muns, acarretando carga pesada sobre o povo, tomado o termo, aqui, generi­
camente, já sobrecarregado. O efeito: “murmuração” e mesmo “tumultos”,

d ilig ê n c ia d e r e q u e r im e n to p r o p o n d o a S u a A l te z a o q u e m a is c o n v in h a a S e u S e r v iç o m a n d a n d o o C o n tr á r io

e n e m u m a só p a l a v r a n o s d i z V ossa M e r c ê n e s ta s m a té r ia s f o i o S e n ti m e n t o g e r a l d e s ta o m is s ã o d e V o ssa M e r c ê

q u e a t r i b u í m o s a s u a s m a i o r e s o c u p a ç õ e s e a s s im n o s p a r e c e u , a r e q u e r i m e n t o d o J u i z d o P o v o a l i v i a r a V ossa

M e r c ê d a n o s s a q u e n a v e r d a d e é b e m g r a n d e e p e d e s u je ito m a is d e s o c u p a d o p e lo q u e r e so lv e m o s q u e s u c e d a a

V ossa M e r c ê o C a p i tã o S e b a s tiã o d e B r i t o d e C a s tr o t a m b é m n o sso p a t r í c io q u e n o z e lo ig u a l a o s m a is e n a s

Vossa Mercê se sirva, de lhe noticiar de todos os ne­


o c u p a ç õ e s d e n e g ó c io s f a z v a n t a g e n s a V o s s a M e r c ê .

gócios que se tem encarregado muito des [falta trecho no documento] papéis a ele concernentes e as
Cartas para Sua Alteza que se acharem por despesa ao dito Capitão continuar os Requerimentos e
mandará Vossa Mercê Certidão do dia em que acabá-la a comissão que se fez a Vossa Mercê para cons­
tar cá e se mandar pagar a seu Procurador de Vossa Mercê o que se deve do ordenado e demos a Vossa
Mercê as graças do Zelo com que acudiu ao mais que se ofereceu Guarde Deus a Vossa Mercê Bahia
vinte e seis de julho de mil seiscentos setenta e quatro anos” (grifos meus).
48. Cf. José Antonio Maravall, “A Função do Direito Privado e da Propriedade como Limite do Poder
do Estado”, em Antônio Manuel Espanha (org.), P o d e r e I n s t i t u i ç õ e s n a h u r o p a d o A n t i g o R e g i m e ,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1984, pp. 240 e ss. Sobre a Península Ibérica dos séculos
XVI e XVII, Maravall escreve que a “propriedade baseada no contrato, a propriedade como relação
jurídico-privada, era o limite constituído do poder do Estado. Era, assim, como que o perfil em
negativo do próprio poder soberano. Isto encontrava-se em íntima conexão com o mundo burguês
da economia, regido pelas conveniências de mercado, e com a necessária formação de capital re­
querido por uma sociedade em vias de transformação”. A mesma divisão está implicada na doutri­
na da alienação do poder em mãos do soberano, aliás, tal como Suárez a expõe.

130
A M U R M U R A Ç Ã O DO CORPO M ÍST IC O

como refere outra carta da Câmara, sempre às voltas com a Relação. Assim,
por exemplo, Luís Gomes da Mata, correio-mor do Reino, elege por assisten­
te em Salvador a Bartolomeu Fragoso Cabral. Como a criação do novo cargo
demanda mais impostos para pagar o ordenado de Cabral, a Câmara apela
para a Casa da Suplicação, interpondo embargo contra a nomeação. O
postulante do cargo, porém, opõe embargo ao embargo e, apresentando uma
carta régia em seu favor, consegue que a Relação o nomeie. Segundo a Câma­
ra, seu embargo não foi considerado e nem ela ouvida. Não obstante isso, dá
posse ao nomeado, pois a Relação o ordena, juntando para isso a carta régia:

[•■■] E m v i r t u d e d a C a r t a d e V o s s a A l t e z a l h e m a n d a m o s d a r P o s s e e e s t a n d o e x e r c i t a n ­
do o d ito O f íc io d e a s s is t e n t e n o p r im e ir o d ia q u e tev e C artas tivemos nós um tumulto dos
moradores desta Cidade q u e c o n v o c a d o s v iera m a este S e n a d o req u erer -n o s n ã o p e r m itís ­
sem o s h o u v e s s e n o S e n a d o d ig o h o u v e ss e n esta C id a d e u m O fíc io tão o d io so à R e p ú b li­
ca sossegam osestes moradores e lhe prometemos fazer presente a Vossa Alteza o dano irreparável
que recebe esta Cidade c o m e s t e n o v o O f í c i o e q u e n ã o t e n d o e s t e E s t a d o f e i t o m e n o r e s
Serviços a V ossa A lte z a d o q u e t e m feito os E s ta d o s da ín d i a fic a r a m e le s i s e n t o s d e s te
O fíc io e e ste E s ta d o c o m o s c a r g o s e d a n o s q u e r e c e b e m c o m e s ta e l e iç ã o d o C o r r e io -
m o r d o R e i n o 49.05

Da mesma maneira, outra carta do mesmo dia expõe ao Rei “[...] o proce­
dimento dos ministros desta Relação e as vexações que este Povo fica pade­
cendo com eles”, afirmando que “[...] estão mais insuportáveis que nunca”'u.
Tanto as Cartas do Senado quanto as sátiras operam na circunscrição do
poder ordinário, tendo sempre como pressuposto do discurso o poder absolu­
to da razão de Estado, que é soberana. Desta forma, coisa não vista pela crítica
que postula o protonacionalismo de Gregório de Matos, podem até contestar,
em função de interesses particulares de grupos ou de súditos individuais, de­
terminadas ordens e imposições - por exemplo, recorrendo ao lugar-comum
do “miserável Povo” contra o excesso dos impostos mas não contestam, nun­
ca, a razão de Estado que determina tal excesso, nem seu fundamento, a sobe­
rania real: “[...] Porém por ocultos princípios, que não devem os Vassalos per­
guntar às Majestades, foi servido brevemente Mandar Sua Majestade, que
corresse toda a moeda de Selos pelo que tivessem a Respeito de tostão a oita­
va”, confirma uma “Protesta da Nobreza da Cidade da Bahia ao Senado da
Câmara para a fazer presente a Sua Majestade”, em 28 de julho de 169351.

49. Carta de 15.7.1679, vol. 2, pp. 53-55.


50. Idem, p. 55.
51. Cartas do Senado 1693-1698, vol. 4, p. 4.

131
A SÁTIRA E O E N G E N H O

Por isso, é possível afirmar mais uma vez que as intervenções das cartas e
da sátira incidem sempre sobre abusos em questões do poder ordinário, por­
que o pressuposto de sua intervenção é o uso estabelecido sempre alegado
como o bom uso - e este se encontra predeterminado na vontade do Rei, que é
intocável52. É neste sentido, ainda, que se pode entender a solicitude freqüen-
tíssima com que as Cartas do Senado insistem em questões de fisco. Além de,
obviamente, formalizarem a questão do direito privado dos senhores de enge­
nho e do direito do Estado, permitem ver que o Tesouro, na medida em que
pertence à potência pública, é res quasi sacra, coisa quase sagrada, que consti­
tui e mantém a vida da República como corpo dinamicamente integrado: o
Tesouro é sua alma e substância, nela circulando como o sangue, que é sagra­
do e que ocorre como sua metáfora. É nesta linha que também se esclarece
por que o termo “ladrão”, assacado contra qualquer membro desse corpo, é
um “insulto atroz”, juntamente com o termo “corno”. Ambos incidem sobre a
harmonia hierárquica ao desqualificar os laços de sangue pela imputação de
“puta” à mulher do atacado ou às mulheres de sua família e pela acusação de
corrupção da parte e do todo do corpo místico do Estado.
Porque o Tesouro é coisa quase sagrada, certamente, é que uma carta, não
da Cântara, mas de senhores de engenho e lavradores de canas, endereçada
ao Rei em 20 de j unho de 1662 contra os interesses de Bernardo Vieira Ravasco,
irmão do Pe. Vieira, afirma que “ [...] quem diz Brasil diz açúcar e o açúcar é a
cabeça deste corpo místico que é o Brasil”, numa síntese felicíssima das vir­
tudes do sistema, negócio, teologia, hierarquia, docemente dosados53. As crí­
ticas e as denúncias, tanto dos oficiais da Câmara quanto da persona satírica,
da corrupção da Junta do Comércio, por exemplo, que em suas transações
monopolistas eleva ou baixa os preços dos gêneros, conforme os venda ou
compre, têm por fim indicar os pontos em que o açúcar azeda e o corpo mís­

52. Em 1678, os oficiais da Câmara fazem sugestão à Coroa que é interpretada como interferência
direta na razão de Estado. A resposta de Lisboa é severa, recolocando os oficiais em suas atribuições
de poder ordinário.
53. Cf. Maria lzabel de Albuquerque, "Liberdade e Limitação dos Engenhos d’Açúcar”, em Anais do
Primeiro Congresso de História da Bahia, Salvador, Instituto Geográfico e Histórico, 1955, p. 494. Em
1662, Bernardo Vieira Ravasco, secretário do Estado, pretende que seja proibido o estabelecimento
de novos engenhos, alegando a suficiência dos já existentes. A Carta de 20.6.1662, de mais de cem
“cidadãos”, afirma que Bernardo pretende a limitação dos engenhos por necessitar das lenhas para
mover o seu. Escrevem que “[...] porque o açúcar é a cabeça deste corpo místico do estado do Brasil
e conforme a qualidade dos engenhos são as quantias que se lançam nos dízimos e de seus açúcares
se pagam grandes direitos à fazenda real com que engrossam os comerciantes navegantes; e dc 150
anos a esta parte temos experiência que nas capitanias donde houve muitos engenhos houve mais
gente e mais comércio e mais cabedal e mais navegações”,

132
A M U R M U R A Ç À O DO CORPO M ÍST IC O

tico se corrompe e apodrece em misturas monstruosas contra naturam: visam


a purgação da escureza dos males, enfim, para o bom funcionamento das par­
tes e do todo purificados do corpo da República.
Falou-se de teologia, vamos à Igreja. Em carta de julho de 1643, bastante
anterior, portanto, à circulação das sátiras atribuíveis a Gregório de Matos e
Guerra e aqui tratada por exemplificar um gênero de conflito muito comum
na Cidade do Salvador durante todo o século XVII, a Câmara escreve ao Rei
relatando “[...] o excesso e a insolência do Bispo Dom Pedro da Silva”, pedin­
do providências54. Segundo a Câmara, na procissão de Corpus Christi daquele
ano, dom Pedro saiu para o adro da Sé sem dar tempo para que a procissão
saísse. Ao fazê-lo, não espera que a Câmara chegue para acompanhá-la, “como
é costume”, nem espera haver músicos na Sé, nem “gente de qualidade como
convinha” para levar o pálio, apesar de o deão e outras pessoas eclesiásticas o
advertirem. A Câmara afirma que dom Pedro faz “tudo dc propósito”. Assim,
“[...] tomando o Senhor nas mãos saiu tão antecipadamente e escandalosa­
mente que fez força com a pouca gente para sair a Procissão”. Vindo o gover­
nador à pressa, busca a procissão. O bispo, contudo, persiste em seu “tudo de
propósito”, entrando pela rua Direita com “[...] toda esta descompostura”. Aí
chegando, larga o Senhor das mãos e, saindo-sc fora do pálio, larga também a
Custódia do chantre, “com admiração de todo o povo”. Aproximando-se de
um homem bom, vereador no ano anterior, o bispo o empurra publicamente,
segundo a carta, dizendo-lhe vá adiante com o guião da Câmara sob pena de
excomunhão. O bispo o “[...] fez ir assim intimidado para onde iam as ban­
deiras e insígnias das mecânicas afrontosa e escandalosamente”55. Segundo a

54. Este gênero de conflito e reclamação é rotineiro desde o século XVI - lembrem-se, por exemplo, os
desentendimentos do bispo Dom Pero Fernandes Sardinha com o padre Manuel da Nóbrega e,
ainda, com o filho do governador Duarte da Costa. Cf., por exemplo, Frei Vicente do Salvador, “Das
Fortificações e Outras Boas Obras que Fez o Governador Diogo de Mendonça Furtado na Bahia e
Dúvidas que Houve entre Ele e o Bispo e Outras Pessoas”, em História do Brasil: 1500-1627, rev.
Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia e Frei Venâncio Willeke, OFM; apres. Aureliano Leite, 7.
ed., Belo Horizonte, São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1982, cap. 21. Cf. também Affonso Ruy, op. cit., pp.
158-159; Padre Manuel da Nóbrega, “Carta do Padre Manuel da Nóbrega ao Padre Simão Rodrigues,
Lisboa”, em Serafim Leite, S. J., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil, São Paulo, Comissão do IV
Centenário da Cidade de São Paulo, 1954, pp. 367-375.
55. Em 4.6.1699 {Atas da Câmara, vol. 6, pp. 374-375), os juizes Ordinários e mais pessoas nomeadas
determinam as insígnias que devem ter os oficiais mecânicos e mais obrigações para assistirem nas
procissões da Cidade em louvor de Deus e de seus santos. Propõem que se devam conservar e au­
mentar as “antigualhas que se costumavam”, encarregando-se os alfaiates da confecção das novas
insígnias e bandeiras. Os ofícios de carpinteiro, torneiro, marceneiro e entalhador são obrigados a
dar uma bandeira e quem a leve; os ofícios de alfaiate, palmilhador, botoeiro são obrigados a dar,
com a sua bandeira, a madeira e “pano pintado para a Serpe e negros que a carreguem”; os sapatei-

133
A SÁ T IR A E O E N G EN H O

mesma carta, a população é testemunha e o governador e a Câmara se por­


tam, por isso mesmo, “[...]com toda a prudência e dissimulação para não se
alterar o povo, e romper em outro sucesso que julgava merecia o seu”56.
O conflito hierárquico se evidencia, no relato, na relação bispo e governa­
dor e Câmara, bispo e povo, governador e Câmara e povo. Interpretada pela
Carta como “teima” pessoal, a ação do bispo se evidencia como possível pelo
respaldo de sua autoridade, que lhe confere o poder, por exemplo, de exco­
mungar um homem-bom (o vereador do ano anterior) e, mais, o de fazê-lo
publicamente, quando lhe ordena andar junto das “mecânicas”, misturando-
se aos grupos representativos de corporações de ofícios, numa nítida quebra
de regras protocolares que evidencia seu arbítrio e exorbitância no uso do
privilégio. Primeiro, por ordená-lo em frente da mesma população, toman­
do-a como testemunha desigual de seu arbítrio; segundo, por ordena-lo de­
gradando o vereador e o emblema da Câmara numa posição socialmente in­
ferior e, portanto, indecorosa para a pessoa do vereador, que é de “mor
qualidade”. É justamente o olhar da população presente57 que impõe um li­
mite a medidas imediatas contra a afronta. Governador e oficiais da Câmara
dissimulam o insulto para “não se alterar o povo” - o que, supõe-se pela carta,
faz-se também sob o olhar do mesmo, “com admiração de todo o povo”.
Aqui se tem um espelhamento generalizado de visões e de visadas, em
cujos reflexos a hierarquia se estilhaça e simultaneamente se recompõe: o

ros, cortadores e hachureadores são obrigados a dar “a sua bandeira e o drago aparelhado de tudo
e negros para carregarem”; os pedreiros dão uma bandeira e quem a leve; padeiros e confeiteiros
são obrigados a dar “dois gigantes, uma giganta e um anão e quem carregue”; os tanoeiros e sirgueiros,
“uma bandeira e quatro cavalinhos frescos e quem carregue”; os ferreiros, serralheiros, barbeiros,
armeiros e caldeireiros “todos ditos oficiais darão o guião e São Jorge a cavalo com todo o necessá­
rio e o pajem deceniemente vestido e o Alferes da mesma sorte vestido, trombetas, tambores e seus
alabardeiros de guarda do Santo, tudo vestido decentemente”; os vendeiros e vendeiros de porta
são obrigados a dar “quatro lanças”; e os prateiros e os marchantes são obrigados a dar “três
tourinhos”. Observa-se, pela atribuição dos encargos das várias corporações, a riqueza de algumas
em relação a outras - por exemplo, ferreiros, serralheiros, armeiros etc. Pelas atribuições, pode-se
imaginar a sua disposição hierárquica na procissão. Na carta contra o bispo Dom Pedro da Silva,
ínfere-se que todas essas classes mecânicas estão assistindo ao conflito com o bispo.
56. C a n a s do S e n a d o 1 6 3 8 - 1 6 7 3 , vol. 1, pp. 18-19. Cf., a respeito de Dom Pedro da Silva, Anita Novinsky
(introd.), U m a D e v a s s a d o B i s p o D o m P e d r o d a S i l v a 1 6 3 5 , 1 6 3 7 , separata do tomo XXII dos A n a i s d o
M u s e u P a u l i s l a , São Paulo, 1968; I. Accioli, & B. Amaral, M e m ó r i a s H i s t ó r i c a s e Políticas da B a h i a ,

Salvador, Imprensa Oficial do Estado, 1937, vol. V, p. 265.


57. “As Ordenações Filipinas determinavam o comparecimento obrigatório dos habitantes da Cidade
e dos moradores dos termos distantes uma légua do local onde se verificava o cerimonial, sob pena
de serem multados em mil réis, divididos entre o denunciante e o Conselho”. Cf. Affonso Ruy, o p .
cm., pp 167-168.

134
A M U KM U RAÇÃO DO CORPO M ÍS T IC O

povo vê o bispo e o vereador em situação irregular, o governador e a Câmara


vêem o bispo e o vereador sendo vistos, vendo-se a si mesmos ultrajados, en­
quanto vêem que o povo os vê. A decisão final é política: a quebra da hierar­
quia não é punida imediatamente em função da mesma hierarquia. Assim, o
incidente de desestabilização momentânea da ordem é, pela mesma prudên­
cia e dissimulação políticas, absorvido na mesma ordem, em função de um
bem maior, que é o bem comum da República. O que não impede, evidente­
mente, a queixa posterior ao Rei, responsável pelo padroado, para o ressarci­
mento do dano.
Como os bispos têm poder de excomunhão, o poder local da Câmara é,
aparentemente, inoperante contra a ameaça que Dom Pedro da Silva já fez
contra o vereador na procissão, por isso os oficiais remetem a queixa para a
instância superior à qual se subordina o bispo e da qual pode vir eventual­
mente a correção da falta, o Rei. Aqui, os agentes da carta constituem-se como
representantes e impetrantes da ordem hierárquica contra o bispo, exigindo
que a hierarquia, os decoros e os privilégios, visíveis na distribuição espacial
das várias ordens e dos vários corpos na procissão, sejam mantidos. Situam-se
na própria posição do destinatário real, exigindo-lhe a providência que deve
dar™.
E preciso lembrar que, neste quadro colonial de divisão do poder em or­
dinário e absoluto, a justiça é sempre dita pelos poderes locais, nunca dada,
pois só o Rei pode conferir o direito, ao passo que outros - Juizes Ordinários,
Juizes da Relação, por exemplo - só podem dizê-lo. Essa distinção implica
uma concepção muito legalista da soberania real, forte e centralizada como
fonte de direitos e deveres, que também abre a brecha para a multiplicidade
das interpretações e dos casuismos determinados, por exemplo, pelos inte­
resses dos “homens bons” locais entretecidos das relações de favor, compadrio,
parentesco, suborno e violência5859. Assim é que, prevendo justamente a versão
do bispo, a Câmara outra vez se antecipa, avisando o Rei de que Dom Pedro
também está escrevendo para pedir providências contra ela. O bispo afirma
existir uma provisão do rei Filipe de Castela (Filipe II) sobre a posição em
que há de ir o guião da Câmara nas procissões. Segundo sua alegação, que a
Câmara supõe esteja comunicando ao Rei nos mesmos termos que a expõe na
carta, a provisão determina que o guião vá “diante [...] por evitar inconvenien­

58. Lembre-se mais uma vez que, no período, soberania e lei são identificadas.
59. “Através de alianças políticas com os burocratas, os grupos, famílias e indivíduos da colônia adqui­
riam um apoio poderoso que poderia vir a ser eficiente na aplicação da lei e na maneira de seguir as
linhas políticas.” Cf. Stuart B. Schwartz,op. cil., p. 292.

135
A S A T I R A li 0 E N GE N H O

tes”. O bispo acusa a Câmara, segundo os agentes da carta, de “[...] não estar
por esta verdade”. A Câmara alega desconhecimento de tal provisão, referin­
do-se a registros escritos, como as Atas: “[...] nem está registrado”. E ainda
comunica ao Rei que, nas procissões de Santa Isabel e do Anjo, comparece­
ram os oficiais, juntamente com o governador Antônio Teles da Silva, “[...]
sem Guião por não tornar a haver com o mesmo Bispo segunda ocasião de
sucesso ou perigo de se perder com ele este povo”60.
Nunca se poderá saber das motivações de Dom Pedro da Silva, famoso por
sua intolerância contra os cristãos-novos - o que não tem importância, aliás,
pois a carta do Senado faz antes falar precedências, privilégios e cuidados com
a coisa pública. Neste sentido, a quebra das disposições protocolares da hie­
rarquia dos membros da procissão evidencia o “[...] perigo de se perder [...] este
povo”. Que seria tal “perigo”, cuja precaução faz com que a desestabilizaçâo
hierárquica de que acusam Dom Pedro seja “esquecida”, isto é, intencional­
mente dissimulada pelo governador e pela Câmara em função de uma estabi­
lidade superior do bem comum, determinada pela “prudência”?61
Trata-se de evitar a todo custo a murmuração do vulgo. Em outros ter­
mos, trata-se de manter intactas a reputação e a honra dos cargos, bem como
a reverência que lhes é devida. Honra, reputação e reverência são, neste sen­
tido, praticamente sinônimas no século XVII62, sendo doutrinadas politica­
mente como função da opinião, que se aplica sobre um ponto social determi­
nado, conferindo-lhe a forma da “honra”. A honra é constituída pela opinião
alheia, devendo ser mantida a todo custo como moral da aparência e aparên­
cia da moral: a reputação do vereador obrigado pelo bispo a andar junto das
mecânicas seria duplamente ultrajada, se o governador e a Câmara intervies-
sem publicamente, fornecendo ocasião ao vulgo presente para testemunhar
um duplo conflito em que representantes do poder real se exporiam publica­
mente à murmuração popular63. Conserva-se a honra, portanto, mantendo-se
as aparências, para impedir que a reputação seja abalada: paradoxalmente,

60. Carta de julho de 1643, vol. 1, p. 20 (grifo meu).


61. “Q u i é n n o s a b e d i s i m u l a r e s a s c o s a s l ig e r a s , n o s a b i á Ia s m a y o r e s ”, escreve Saavedra Fajardo a propósito
da opinião e murmuração da plebe, recitando Tácito: “Magnarum r e r u m c u r a m n o n d i s s i m u l a l u r o s ,
q u i a n i m u r n e l i a i n l e v i s s i m u m a d v e r l e r e n l " (Tac., A n n a l e s , lib. 3). Cf. D. Diego Saavedra Fajardo,

E m p r e s a s P o l í t i c a s . I d e a d e u n P r í n c i p e P o l í l i c o - C r i s l i a n o , ed. preparada por Quintin Aldea Vaquero,

Madrid, Ed. Nacional, 1976, 2 vols., Empresa XIV, vol. 1, pp. 178-179.
62. “H o n r a d o es e l q u e e s t á b i e n r e p u t a d o , y m e r e c e q u e p o r s u v i r l u d y b u e n a s p a r l e s s e le h a g u h o n r a y
r e v e r e n c i a ’’ (Covarrubias, T e s o r o d e l a L e n g u a C a s t e l l a n a , 1612).

63. Algo semelhante ocorre na Corte de Luís XIV quando se recebe com toda a pompa o embaixador
turco que, dcscobre-se tarde demais, é um simples mercador. Nada se diz e a recepção continua. Cf.
Phillipe Beaussant, V e r s a U le s O p e r a , Paris, Gallimard, 1981.

136
A M U R M U R A Ç Ã O D O C O R P O A lIS T IC O

não é o vereador e não é a Câmara que têm honra e merecem reverência, mas
aqueles que, não a tendo, podem deixar de atribuí-la, o povo64. Se o fizesse,
deixaria também de reconhecer a autoridade merecedora da obediência: em
outros termos, tem honra quem pode tirá-la de outro e assim, paradoxalmen­
te, os grandes se mantêm em evidência e recebem a fama e a glória devidas à
sua posição por parte daqueles que institucionalmente não a têm, o vulgo,
mas que pode tirá-la pela murmuração. A honra está constituída, desta ma­
neira, na opinião alheia, para que esta seja temida e, dependendo as ações da
censura e do juízo de outros, para que se procure satisfazer a todos agindo
bem656. Funcional, a honra é uma relação que implica sempre o ver e o dizer, um
testemunho e uma opinião sedimentados em juízo. Quando ultrapassa os limites,
portanto, a murmuração transforma-se em sedição e é crime de traição. As­
sim como é monstruoso um pé falante ou um braço reflexivo, pois quem de­
tém tais atribuições é a cabeça, é também monstruoso que os membros subor­
dinados do corpo político se rebelem contra a soberania da razão de Estado
visível nas instituições:

[...] E n m e d io d e ta n t o vulgo, a p a r e c ió u n r a r o m o n s tr u o , q u e n o te n ía c a b e z a , a u tiq u e le n g u a


si, n i b r a z o s n i o m b r o s y manos ta m p o c o , a u n q u e s i d e d o s p a r a s e n a la r ; e r a fu r i o s o e n a c o m e te r ,
pero fá c il de a c o b a rd a r [...] ese m o n s tr u o es e l V u lg a c h o ,p r im o g ê n ito d e la I g n o r â n c ia , p a d r e d e
la M e n t i r a , h e r m a n o d e la N e c e d a d , m a r id o d e la M a l ic ia M.

Como o monstro inventado por Gracián, a murmuração da plebe pode


tornar-se excessiva, constituindo um perigo para a conservação do poder. É
justamente por isso, também, que está prevista como mecanismo de consti-

64. O q u e é e v i d e n t e , p o r e x e m p l o , e m L o p e d e V e g a , n a p e ç a Los comendadores de Côrdoba: “Veiniecualro -


cSabes que es la honra? / Rodrigo - Sé que es una cosa que no la liem el hombre. / Veiniecualro - Bien has
dicho. / Honra es aquello que consiste en olro. / Ningún hombre es honrado por si mismo, / que dei olro recibe la
honra un hombre. / Ser virluoso un hombrey lener méritos / no es ser honrado; pero dar las causas / para que los
que iraian les den honra. / El que quita la gorra cuando posa / el amigo o mayor, le da la honra; / el que le da
su lado, el que le asienta / en el lugar mayor; de donde es cierto / que la honra está en oiroy no en él mismo. /
Rodrigo - Bien dices que consiste la honra en otro. /Porque si tu mujer no la tuviera / no pudera quitártela. De
suerte / que no la lienes lú: quien le la quita".
65. C f . S a a v e d r a F a j a r d o , op. cit., H m p r e s a XIV, p . 1 7 8 . F e r r o l c i t a M e n é n d e z y P e la y o (El Sentimienlo
dei Honor en el Teatro de Calderón. Est.ydisc. de Crítica Histórica Literaria, t o m o I II, p p . 3 7 9 - 3 8 0 ) , q u e
c o n s id e r a a b s u r d o ta l c o n c e ito d e h o n r a , a tr ib u in d o - o a “ u m a p o é tic a d a h o n r a e a u m a ju r i s p r u ­
d ê n c i a t a m b é m a b s u r d a e d e t e s t á v e l , c o n f o r m e a q u a l n ã o s e e n f r e n t a m o s v íc io s p r ó p r i o s , m a s a
i n s o l ê n c i a a l h e i a , n ã o s e e n f r e n t a a p r ó p r i a la s c í v i a , m a s a d a e s p o s a ” . C f . F r a n c i s c o A l u r i l l o F e r r o l ,
op. cit., p. 310.

66. C f. B a l t a s a r G r a c i á n , “ C r i s i V: P l a z a d e i P o p u l a c h o y C o r r a l d e i V u l g o ” , El Criticón, em Obras


Completas, M a d r i d , A g u ila r, 1967.

137
A SÁT IR A E O E N G E N H O

tuição e manutenção da fama de honradez e justiça dos que aplicam o poder


sobre a população. Ir e vir de visadas, reciprocidade do espelhamento genera­
lizado: sempre é outro o que tem honra, sempre é outro o que pode tirá-la de
outrem. Nominalismo exacerbado da convenção hierárquica naturalizada,
torna-se evidente na sátira, em que costumeiramente personagem masculino
ataca a honra de personagem masculino por meio da desonra atribuída à
mulher. Por exemplo, na constituição da imoralidade hiperbólica do com­
portamento sexual feminino, ilustre produtor de cornos e bastardos, mancha
irreparável em sociedade fidalga. Como já se disse, a “murmuração”, muito
referida nos documentos, é índice do evento, o acontecimento transgressor
das normas vigentes que, muitas vezes, identifica-se com a mesma “murmu­
ração”. Nesse tempo, é evento o incidente com o bispo na procissão, uma
rebelião de soldados, desordens de mulatos, recusa de pagar impostos por
parte da população, fuga e revolta de escravos, contrabando de moeda, roubo
da Fazenda, uso inadequado de formas de tratamento e de trajes, heresia,
fome, peste etc.
Em carta de 6 de novembro de 1669, a Câmara dirige-se ao Rei pedindo-
lhe tome providências contra o clero local, principalmente os padres da Com­
panhia de Jesus. A Câmara alega que foi levada a pagar a Infantaria com
donativos e imposições de dízimos sobre a população já sobretaxada com a
contribuição do dote de Paz de Holanda. Argumenta: “[...] em Angola man­
dou Vossa Alteza que pagassem todos os Direitos impostos os Religiosos da
Companhia, livrando-lhes somente os direitos de 26 escravos para seu uso”.
Pede que “[...] nenhuma pessoa se possa isentar das imposições que temos
lançado ao Povo para o sustento da Infantaria”. Explica que “[...] os Religio­
sos não querem contribuir com o que lhes toca”. Generaliza: “[...] sendo que
nestas partes negociam e lucram com vantagens dos mais moradores”67. Aqui,
representando o interesse comercial dos senhores de engenho enquanto alega
o bem comum, a enunciação da carta propõe que os privilégios dos jesuítas
não sejam considerados. Retorna, pois, o lugar-comum deste capítulo: o bem
comum proposto deliberativamente ao Rei como fim das medidas a serem
tomadas serve interesses particulares.
Outros privilégios eclesiásticos são criticados pela Câmara. Por exemplo,
o referido em uma carta de julho de 16726S. Como os familiares do Santo
Ofício da Inquisição são isentos do pagamento, Simão de Sotomaior, religio­
so da Companhia, afirma ser comissário do Santo Ofício e ameaça de excomu-

67. Carta de 6.11.1669, vol. 1, p. 20.


68. Carta de julho de 1672, vol. 1, p. 35.

138

Â
A M U R M U R A Ç Ã O DO CORRO M ÍST IC O

nhão os oficiais da Câmara que querem cobrar-lhe os donativos e as imposi­


ções. Ainda uma vez, a função de árbitro é atribuída ao Rei, mas a Coroa nada
faz, de modo que a indignação dos melhores da Câmara tem seu limite evi­
denciado tanto pelo privilégio dos padres, que continuam sem pagar, quanto
pelo silêncio real, palavra muda que confirma os padres, ainda os que chanta-
geiam tão explicitamente, como Simão de Sotomaior.
Da mesma maneira, quando os oficiais pedem ao Rei uma ordenação para
que nenhuma ordem religiosa possa ter ou comprar bens de raiz, alega-se o
acrescentamento contínuo das riquezas de jesuítas, carmelitas e beneditinos
para a persuasão do real destinatário. Não se convence, pois nada ocorre69,
apesar da reiteração do pedido em outras cartas. Lembrando ao Rei sua or­
dem - a de que nenhuma ordem religiosa possa comprar bens imóveis -, a Câma­
ra relata que os religiosos da Bahia não só se desfazem dos herdados, como
também compram sempre mais, enunciado este seguido de enumeração de­
monstrativa: engenhos, canaviais, terras de gado, casas, escravaria. A Câmara
afirma que não pede a expropriação das propriedades, mas a proibição de que
as ordens religiosas comprem mais, alegando duas razões que diz acreditar
serem bastante fortes: as propriedades são “bastantíssimas” para seu sustento
e, uma vez que as possuem contra as ordens reais, “parece ser razão” concor­
rerem para as necessidades da Fazenda Real, o que evitará que o povo conti­
nue a pagar por elas: “[...] que é certo que se este povo possuira suas proprie­
dades havia concorrer com o que se lhes lançasse logo eles que o possuem
devem pagar”.
Silogismo perfeito o da Câmara, mas do tipo non sequitur: nada ocorre, ape­
sar da sanção implícita, que também constitui os oficiais como detentores de um
poder de barganha, quando afirmam que a Câmara se julga isenta de fornecer o
vinho e o azeite dos religiosos enquanto o que propõem ao Rei não for ordenado
às Religiões e aos demais sacerdotes do hábito de São Pedro. A ordem hierárqui­
ca e seus privilégios tradicionais são mantidos, entretanto: a Câmara continua a
fornecer azeite e vinho às ordens religiosas e, como sempre, o povo paga.
Observou-se que os agentes das Cartas chegam a interpelar o Rei, fazen­
do-lhe ameaças mais ou menos veladas de não-cumprimento ou desacato de
determinadas ordens se uma petição ou providência não forem efetivadas.
Ao fazê-lo, os oficiais se autoconferem poderes pelas sanções com que amea­
çam - o que a mesma distância hierárquica desmente, contudo, uma vez que
o silêncio do Rei e outras determinações da Coroa colocam os oficiais da Câ­
mara em seu lugar de homens de poder local representantes do poder real. A

69. Carta de 6.2.1656, vol. 1, pp. 54-55.

139
A SÁ T IR A E 0 E N G E N IIO

mesma hierarquia, tomada como tema desenvolvido positiva ou negativamente


pelos comentários das cartas, é, segundo a situação da escrita, o mecanismo
pragmático que filtra os temas, dando solução aos problemas que levantam.
A hierarquia é, assim, matéria das cartas, como descrição e narração de even­
tos sintetizáveis como “Cidade” e também regulação das posições dos agen­
tes discursivos. Desta maneira, a solução confirma-os em seu lugar de repre­
sentantes e, para isso, por vezes os ignora e mesmo anula, segundo o interesse
real nunca explicitado diretamente, mas sempre operante nas cartas como
origem legal do poder, que elas encenam.
Quando está em jogo seu poder de intervir - por exemplo, nos conflitos
com a Relação os enunciados performativos tornam-se predominantes.
Neles, a enunciação se auto-referencia e tenta captar o favor real como forma
de suas decisões, validando-as, ora por ameaças veladas, ora por pedidos in­
sistentes, ora por declaração protocolarmente encomiástica, ora por anteci­
pação, no discurso, da forma e do teor da ordem real. As cartas evidenciam,
portanto, também a razão por que procuram transmitir um sentido e não
outro ao destinatário - e, por isso, o porquê de escolherem, para transmiti-lo,
um enunciado e não outro. Por exemplo, uma carta de 2 de julho de 1685
rende graças ao Rei pela provisão em que ordena que as filhas de oficiais da
Câmara que servem e tiverem servido ao Senado tenham preferência sobre
outras na entrada do Convento de Santa Clara - “[...] a qual mercê fez Vossa
Majestade sem limitação alguma”. A expressão “sem limitação alguma” é
oposta pelos oficiais à informação que retransmitem ao Rei: “[...] Porém de­
pois foi V. Majestade servido escrever ao Arcebispo deste Estado, que a prefe­
rência se entendia não havendo prejuízo de terceiro, e da pública conserva­
ção do Convento as quais palavras ambíguas dão motivo a que a mercê Real
de Vossa Majestade não venha surtir efeito algum conforme a interpretação
que aqui lhe quiserem dar”70.
Desfazendo a ambigüidade alegada, os oficiais reafirmam o lugar-comum
de que o favor real foi concedido “[...] em remuneração do trabalho contínuo,
que temos de servir neste Senado sem salário algum e ser o dito Convento
criado pelos Oficiais da Câmara que são os legítimos fundadores dele”. E
prescrevem: “[...] nos pareceu justo que Vossa Majestade mande observar a
sua real provisão sem limitação alguma para que não haja nas preferências
dúvidas ou contendas”71. Uma carta de 12 de agosto de 1688 evidencia, po­
rém, o “legítimo fundador” do convento: “[...] Foi Vossa Majestade servido

70. Carta de 2.7.1685, vol. 3, p. 9.


71. Idem,ibidem.

140
A M U R M U R A Ç A O DO CORPO M ÍST IC O

conceder a este Povo o Convento de Santa Clara por requerimento que ti­
nham feito muitos anos aos Senhores Reis antecessores de Vossa Majestade
os Moradores desta terra”72. A carta evidencia, ainda, a pretensão de fidalguia
dos senhores locais representados pela Câmara, quando se refere às vagas do
convento: de “véu preto” para as mulheres “de representação”, de “véu bran­
co” para outras que, não fazendo os votos, ocupam-se dos trabalhos manuais
próprios de mulheres de outra condição social. É elucidativo ler que nenhu­
ma das vagas do véu branco é preenchida:

[...] V o s s a M a j e s t a d e [...] l h e s p r o m e t e u e s t a c o n c e s s ã o c o m n ú m e r o d e C i n q ü e n t a
R elig io sa s d e V éu P reto, c v in te e c in c o de V éu b ra n co , q u e ta m b é m são R e lig io sa s , m a s
com o não têm voto , até h o je não h o u v e m u lh e r a lg u m a que in te n ta sse a lg u m d e sse s
lugares. E p o r q u e o n ú m e r o d a s C in q ü e n ta d e V é u P reto está c o m p le t o , e fic a r a m q u e
as p e s s o a s n o b r e s , f i l h a s d e C i d a d ã o s q u e t ê m s e r v i d o , e s e r v e m a V o s s a M a j e s t a d e s e m
recurso para e n t r a r e m , M o t i v o q u e n o s o b rig a a p e d i r a V ossa M a j e s t a d e c o m o e m
r e m u n e r a ç ã o d o s S e n d ç o s [...] n o s p e r m i t a V o s s a M a j e s t a d e c o n c e d e r f a c u l d a d e p a r a
q u e o s V i n t e e C i n c o l u g a r e s q u e se d e r a m p a r a a s m u l h e r e s d e V é u B r a n c o s e c o m u t e m
em q u e s e ja m to d a s d e V é u P reto p o r q u e d e sta S o rte n ã o se a c r e s c e n ta o N ú m e r o da
C o n c e s s ã o , n e m se falta ao r e m é d io d e m u i t a s m u l h e r e s n o b r e s c a u to r iz a d a s , q u e p o r
n ã o t e r e m d o t e s c o m p e t e n t e s p a r a c a s a r e m , s e a c o m o d a m a o d e R e l i g i o s a s 73.

Em carta de 23 de julho de 1695, os oficiais pedem “mais trinta lugares”,


afirmando que o fazem movidos da “[...] desconsolação que têm as filhas dos
homens nobres de irem a Ser Religiosas nesse Reino, e Ilhas, sendo dobrada
a despesa, e incômodos; e mais que tudo o Risco do mar, do Mouro, e Vidas”74.
Reiterando que falam em nome das “[...] amiudadas lágrimas de muitas mu­
lheres filhas da principal Nobreza”, informam que são “seus poucos cabedais”
a principal causa do pedido de vagas, que desejam exclusivas, evidenciando a
concorrência local:

[...] q u e n ã o s e j a m a i s q u e p a r a as f i l h a s d o s q u e s e r v e m , e t ê m s e r v i d o a V o s s a M a j e s t a ­
d e , n a o c u p a ç ã o d e V e r e a d o r , o u j u i z , n a f o r m a q u e s e p e d i u a V o s s a M a j e s t a d e e fo i
s e r v i d o m a n d a r d e c l a r a r p o r C a r t a S u a d e 16 d e n o v e m b r o d e 1 6 9 4 , c u j a o r d e m s e n ã o
g u a r d a p o r se e n t e n d e r s e r e m o s l u g a r e s p r e b e n d a s a n e x a s à R e g a l i a d a M i t r a 75.

72. Carta de 12.8.16S8, vol. 3, p. 58.


73. Idetn, ibidem.
74. Carta de 23.7.1693, vol. 4, p. 54.
75. Idetn, ibidem.

141
A SÁ T IR A H O E N G E N H O

A reclusão social, mais que religiosa ou sexual das mulheres, visa a ga­
rantir “[...] estas casar [...] com homens de maior esfera do que muitas são”,
tornando-se evidente na carta o temor dos pais proprietários de que venham
a casar-se com maus partidos, o que não ocorre se conseguem vaga no conven­
to: “[...] se evitarão as Ruínas que podem suceder a muitas mulheres nobres
por não terem seus Pais com que as possam mandar como outros fizeram, e
menos para as Casarem com Pessoas de igual qualidade”76. Como se verá na
tópica “amor freirático” do capítulo V, ao imaginário da nobreza somam-se a
avareza, a falta de dinheiro ou sua destinação como herança de filho primogê­
nito, ou a mera ênfase: “[...] por andar a Nobreza pobre, e desgraçada, assim
se experimenta com grande lástima, e mágoa choram os homens Nobres, e
temem se arruinem suas honras, vendo preferir às suas filhas as dos homens
de menor Condição, sem utilidade, ou Crédito do Convento”77.
A mesma alegação de privilégio e nobreza dos senhores locais encontra-
se, por exemplo, em cartas sobre pessoas que “ [...] se consideram aí na Corte
bem apadrinhadas e nesta Cidade com pouca suficiência para servirem os
Ofícios que por posse e regalia imemorial provê este Senado”, como distin­
gue uma carta de 22 de julho de 1686. Segundo a Câmara, tais pessoas apre-
sentam-se com provisões reais contrárias ao serviço do Rei, pois os provimen­
tos muitas vezes se fazem em pessoas reprovadas pela Ordenação e “[...]
justamente contra nossa posse, privilégios e foros que por esta via se nos que­
bram”. Contra tais pessoas com foros falsos, a Câmara exige do Rei que o
Conselho do Ultramar não admita as petições e os provimentos e “[...] no caso
que se façam se julgue por obreptícios e subreptícios”78.
Em 23 de julho de 1697, a Câmara dirige-se ao Rei repropondo-lhe um
tema tratado em outras cartas, o da concessão à Bahia dos mesmos privilégios
do Porto. Lembrando que Dom João IV os concedeu em 1646, pedem ao Rei
que especifique se os privilégios concedidos à Cidade são extensivos aos cida­
dãos ou “homens de mor qualidade” porque “[...] se têm argüido muitas dú­
vidas pelos Ministros de Vossa Majestade para não gozarem os ditos privilé­
gios”79. Mais uma vez, o argumento persuasório é o do serviço “[...] com
detrimento de suas Pessoas e fazendas sem ordenado algum”80. Os oficiais
tentam convencer o destinatário, alegando que a Bahia é “[...] autorizada com
uma Relação que tem Regimento da Casa da Suplicação e um Arcebispo

76. Idem, ibidem.


77. Idem, ibidem.
78. Carta de 22.7.1686, vol. 3, p. 24.
79. Carta de 23.7.1697, vol. 4, p. 76.
80. Idem, ibidem.

142

i
A M U R M U R A Ç A O DO CORPO M ÍS T IC O

Metropolitano de todo o Estado”, concluindo que os vereadores devem estar à


altura de tanta importância, pelo que se declaram “leais obedientes Vassalos”
enquanto aguardam a Carta de Conformação que os confirme e faça gozar
dos privilégios8182.
A reiteração de pedidos semelhantes em inúmeras outras cartas é índice
da auto-representação dos oficiais como “melhores”. Viu-se há pouco que exis­
tem muitos falsos pretendentes a cargos de representação, apadrinhados em
Lisboa, segundo os oficiais, com provimentos ilegais e foros falsos de fidalguia.
A mesma reiteração dos pedidos de privilégios e as várias medidas para garan­
tir a exclusividade deles - como as vagas do convento - indiciam o desejo e o
interesse de fixar os autênticos pretendentes, ameaçados em suas pretensões
locais pelos que vêm de Portugal. Em 23 de julho de 1695, a Câmara relata a
Manoel de Carvalho, seu procurador em Lisboa, a decisão de mandar o filho
de Bernardo Vieira Ravasco, o coronel Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albu­
querque, representado como “verdadeiro Pai da Pátria”, substituí-lo:

[...] O i n t e r e s s e q u e l e v a v a o d i t o J u i z e r a o t e r - l h e m o s t r a d o a e x p e r i ê n c i a d e d o i s a n o s
q u e s e r v i u , s e r p r e c i s o ir a S u a p e s s o a , e i s t o o f a z s e m R e p a r a r n a p e r d a d a F a z e n d a ,
fa lta d a S u a C a s a , e R i s c o d e S u a P e s s o a , e v i d a , ir R e p r e s e n t a r a S u a M a j e s t a d e n e g ó ­
cios g r a v ís s im o s t o c a n d o ao se u R e a l S e r v iç o , e a u t ilid a d e p ú b lic a , o s q u a is n ã o se
p o d e m f ia r d e p a p é i s p e l a c e r t e z a q u e t e m o s d e t o r n a r e m às m ã o s d a s p e s s o a s d e q u e m
não q u e ir a m o s , d e q u e R e s u lta o d ia r -n o s , e se v i n g a m c o m a f in g id a c a p a da J u stiça ,
tira n d o -n o s as h o n ra s, e fa zen d a s, e n ão p o d e m o s R e m e d ia r este d a n o p ela d esg r a ça d e
viv erm o s tão a fa sta d o s d o s R ea is P é s d e S ua M a jesta d e, e nesta c o n sid e r a ç ã o n o s R e ­
s o l v e m o s a p a d e c e r , e c a la r * 2.

Enigmática, a Câmara, que talvez esteja se referindo obliquamente à


Relação ou a juizes da Casa da Suplicação, quando alegoriza seu prejuízo
referindo “[...] a fingida capa da justiça, tirando-nos as honras, e fazendas”.
Os temas do “ir para Portugal” e privar com os grandes da Corte, do apadri­
nhamento, do foro falso, da jactância danosa das conveniências no “vir de
Portugal” são também dramatizados na sátira segundo a oposição discreto/
vulgo. Não que, no caso, Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albuquerque seja um
arrivista - também nem chega a ir, como a mesma carta evidencia, quando
refere estar impedido pelo mal das vias respiratórias.
A condição de tal fidalguia proclamada insistentemente pelos vereado­
res como exclusiva deles nas cartas por vezes é cômica, a se levarem em conta

81. Idem, pp. 76-77.


82. Caria de 23.7.1695, vol. 4, pp. 55-56.

143
1

A SÁ T IR A E O E N G E N H O

seus mesmos critérios hierárquicos de precedência: na Bahia, a nobreza tam­


bém é responsável pela coleta do lixo, como uma carta de 30 de julho de 1694
evidencia. Escrevem os oficiais que, tendo conseguido do Rei concessão para
nomear dois Almotacés da Limpeza, logo o fizeram para “[...] se evitarem por
este meio as doenças grandes que costuma haver nestes Povos, por falta de
semelhantes prevenções”83. Como os almotacés são “pessoas de ínfima condi­
ção”, escrevem, não conseguem o menor efeito junto à população, evidenciando
novamente a hierarquia: “[...] assim pelo pouco caso que deles faz o Povo,
como por não se atreverem a executar as penas e Condenações impostos nos
Escravos que nelas caem ou temor de seus Senhores”84.
As doenças, segundo os oficiais, são ocasionadas pela malignidade dos
ares corruptos por causa das imundícies que se lançam, de dia e de noite, na
maior parte das ruas, as quais têm três ou quatro lugares “[...] no meio delas
em que o Povo acostuma fazer barbaramente despejos”85. Aos males da terra
juntam-se os do mar: navios de São Tomé e da Costa da Mina trazem enfermi­
dades contagiosas. Isto posto, os oficiais pedem ao Rei os autorize nomear
um “[...] Provedor da Saúde [...] por cuja conta corra a Limpeza desta Bahia,
e que o Senado possa fazer da primeira nobreza da Cidade o sujeito que lhe
parecer mais capaz [...] porque não sendo desta qualidade, nem Vossa Majes­
tade ficará bem servido nem o Povo com remédio”86.

Os temas da baixa dos preços do açúcar, da escassez da moeda, da falta de


“efeitos” (impostos) para pagar a Infantaria, das farinhas falsificadas e atra­
vessadas, da rebelião de soldados, da peste, da escravaria e da murmuração
do povo configuram, nas/Lus e Cartas, desordem, traduzida por expressões
como “ruína de todo este povo”, “perigo de todo este Estado”, “miserável
estado deste povo”, “clamor geral”, “clamor dos pobres”, “sentimento geral”,
“dor geral”, “lágrimas das viúvas” etc., que hiperbolizam o narrado. São abun­
dantes as informações sobre a chegada de navios negreiros pestilentos, vin­
dos de Angola e da Costa da Mina; sobre a morte em massa de africanos;
sobre execuções de dívidas dos senhores de engenho nos escravos; sobre rebe­
liões deles e seu controle através da jeribita, a aguardente etc. A comemora­
ção festiva com luminárias e a missa solene em agradecimento a Deus pela

83. Carta d e 30.7.1694, v o l. 4, p. 32.


84. I d e m , i b i d e m .
85. I d e m , i b i d e m .
86. I d e m , p. 33.

144
A M U R M U R A Ç Á O DO CORPO M ÍS T IC O

destruição do quilombo de Palmares efetuam, na ata que as registra, índices


de alívio pela restauração da ordem87.
Numa carta de 25 de abril de 1681, a Câmara informa ao Príncipe que o povo
representa ao Senado sua ruína e falta de cabedais, causadas pelo pouco rendi­
mento e saída das drogas e, sobretudo, pelo “irremediável dano” que “[...] de
presente padecem com as bexigas de que lhe eram mortos mais de dois mil escra­
vos, e que esta falta lhe prometia não poderem acudir a suas culturas e ficarem
mui diminutos seus cabedais”88. Como sempre, os oficiais declaram-se “[...] in­
capazes de poderem acudir a nenhum pedido mais para que se não faltem as
obras de tanta utilidade como eram as do Convento das Religiosas e Cadeia”89.
A perda da mão-de-obra escrava com as bexigas torna mais crítica a situa­
ção dos engenhos devido à diminuição ou suspensão da produção, segundo a
Câmara. Diminuem os preços do açúcar, faltam capitais e os credores conti­
nuam executando dívidas. Assim, em Carta de D de julho de 1681, após es­
crever mais uma vez sobre a “[...] imensidade do dano que causou o pestilento
contágio das bexigas que este presente ano experimentou esta Cidade de Vos­
sa Alteza ficando tão atenuado pelas diminuições das fábricas e pouco lucro
dos frutos”90, os oficiais solicitam ao Príncipe que, como “Pai e Senhor”, con­
ceda a faculdade de não serem os donos de engenhos e plantadores de canas

87. Ata de 25.12.1694, Alas da Câmara 1684-1700, vol. 6, pp. 239-240: “Aos vinte e cinco dias do mês de
fevereiro de 1694 nesta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos nas Casas da Câmara dele cm
Mesa de vereação foi vista uma Carta do Senhor governador Antônio Luís Gonçalves da Câmara
Coutinho que está no Cartório desta Casa da Câmara e em dita Carta ordena dito Senhor governador
se fizessem luminárias e se dessem graças a Deus pelo feliz sucesso das nossas armas vencedoras con­
tra os negros dos Palmares o qual se havia destruído com morte, e prisioneiros do que resultava parti­
cular serviço a Sua Majestade e maior utilidade aos moradores de Pernambuco que viviam desde a sua
Restauração oprimidos e avexados com as insolências de insultos mortes e roubos que amiudadamente
faziam os ditos negros dos Palmares dos quais eram prejudicados de assaltos amiudados os moradores
do Porto Calvo Pojuca e Rio de São Francisco e por tão particular serviço em que DEUS foi servido
fazer àqueles moradores e ainda os desta Cidade e seu Recôncavo que experimentavam a perda de
alguns negros que lhe fugiam de suas casas e lavouras e saíam a matarem ditos mocambos dos Palmares
fazendo-se salteadores como os mais e por estas e outras Razões úteis e Convenientes à utilidade pú­
blica resolveram e assentaram que se mandasse apregoar por esta Cidade e que se Fizessem as Luminá­
rias e se incorporassem os oficiais que de presente servem com o Senhor com a nobreza (a que se deu
recado) fossem à Santa Sé desta Cidade e nela se dessem graças a Deus nosso Senhor por tão particular
mercê e benefício como havia feito a estes moradores e aos de Pernambuco na destruição de ditos
Palmares”.
88. Carta de 25.4.1681, Carias do Senado 1673-1684, vol. 2, p. 94.
89. Idem, ibidem. Num lapso, o escrivão dá “Convento que tanto desejamos”, corrigindo imediatamente
por “desejavam”. Como se viu, a Câmara pretende a exclusividade do privilégio das vagas do con­
vento para as filhas dos oficiais e congêneres.
90. Carta de 1.7.1681, Cartas do Senado 1673-1684, vol. 2, p. 103.

145
A SA T IR A E O E N G E N H O

constrangidos com a execução de dívidas “de cinqüenta mil réis para cima”,
pedindo-lhe também dilatar o prazo de pagamento por três anos “[...] para
que melhor e com mais suavidade se possam as fazendas fabricar”91. Suavida­
de dos senhores, certamente, haja vista a notícia dos dois mil negros mortos e
outras, que convém rastrear.
Em 23 de dezembro de 1663, o Rei passou uma provisão de que não se
fizessem penhoras e execuções por dívidas nas fábricas dos engenhos. Deter­
minou então que os credores fossem pagos com os rendimentos do açúcar
vendido. O açúcar que vinha à praça por execuções de dívidas também não
podia ser arrematado, uma vez que se costumava fazê-lo por preço muito
inferior ao estabelecido. Visando a proteger os senhores e a garantir a expor­
tação do produto, outra provisão real, de 3 de novembro de 1681, proíbe que
os credores, fraudando os devedores executados, façam as execuções do açú­
car e de outros gêneros da terra no tempo em que seu valor é baixo por não ser
a época da sua carga nas frotas. Determina-se então que seja avaliado segun­
do o valor do tempo das frotas por duas pessoas indicadas pela Câmara, que
faz esta recapitulação quando reclama contra os credores, que continuam em
ação e tratam de cobrar por execuções. Assim, em carta de 6 de julho de 1683,
os oficiais escrevem que esperam medidas da Coroa para coibir-lhes os abu­
sos. Reencenando o mesmo quadro de misérias já descrito em cartas de 1680
e 1681, acusam a ação dos credores que, não podendo penhorar fazendas,
engenhos e açúcar, fazem-no nos escravos do serviço de casa. Levam-nos à
praça, segundo os oficiais, e os arrematam “[...] por muitos baixos preços pela
mesma causa da falta de moeda”92:

[...] c o m q u e t i r a n d o e s t e s , q u e t a m b é m e m m u i t a s o c a s i õ e s j u n t o c o m a s f á b r i c a s s e r ­
v e m n o s co rtes d as can as, e cargas, e d escargas, e b e n e f íc io s d o s fru tos, fica m o s m o r a ­
d o res se m o s escra v o s d o seu serv iço e c o m o não há n o B ra sil o u tr o s se r v e n te s lh es é
n e c e s s á r io tira rem d a s fá b r ica s d o s e n g e n h o s e la v o u ra s o u tr o s ta n to s para se u serviço
co m q u e se v ã o d i m i n u i n d o as fábricas d e escravaria e la v o u ra c o m ela s e p o r esta cau sa
se f a z e m t a m b é m m e n o s a ç ú c a r e s e m e n o s f r u t o s 93.

O trecho é totalmente elucidativo do fundamento mercantil que regula a


relação entre senhores e escravos na Colônia. Dominação local e simultanea­
mente produção mercantil orientada para a exportação, tal relação atravessa
todas as outras práticas coloniais, como as relações dos homens pobres livres

91. I d e i n , íb id e m .

92. Carta de 67.1682, vol. 2, p. 11?,


93. hkm, p. 116.

146
A M U R M U R A Ç Ã O DO CORPO M ÍS T IC O

com os senhores, nos laços de favor e cooptação. É a mesma relação, aliás, que
a pragmática satírica efetua como ordenação jurídica dos corpos de linguagem
na hierarquia prescrita pela persona. É a mesma relação que também fornece,
para o satírico, o referencial de discursos dramatizados como investimento
semântico dos poemas. Uma mesma normatividade hierárquica, unificada na
relação senhor-escravo, permeia os discursos das Atas e Canas, assim, encon­
trando-se também atuante na sátira, em registro paralelo. Veja-se que, no tre­
cho transcrito, a falta de escravos é causa de “menos açúcares e menos frutos”,
ou diminuição da produção e do lucro. Evidencia-se, pelo documento, que tan­
to o escravo doméstico, supostamente mais próximo do senhor e recebendo,
supostamente, tratamento mais suave, quanto o escravo da lavoura, suposta­
mente mais distante e recebendo obviamente tratamento mais duro, estão efe­
tivamente subordinados a um mesmo e único interesse mercantil, que deter­
mina as duas situações, casa e eito. Facilmente se troca a posição dos negros no
trabalho, como se evidencia pelo trecho em que os da casa “[...] servem nos
cortes das canas, e cargas, e descargas, e benefícios dos frutos”. Veja-se que os
das fábricas de açúcar vão sendo retirados, na situação referida pela carta, para
o serviço doméstico. Não há dois tratamentos, suave ou duro, mas, sim, uma
unidade de violência e de benignidade94. Esta relação atravessa todas as outras,
como arbitrariedade exercida pelas autoridades locais sobre o restante da po­
pulação livre, como se evidencia na cobrança e no desvio de impostos, na ad­
ministração irregular da justiça, na desigualdade da proteção pessoal, na ge­
neralidade sempre alegada do tema do “bem comum” etc.
A falta da mão-de-obra escrava, causa da baixa produtividade e do lucro
escasso, já é motivo de uma carta de l2de dezembro de 1674, aliás, pedindo ao
Príncipe Regente que proíba o embarque para o Reino de negros de Angola

94. Cf. Ataria Sylvia Carvalho Franco, “Organização Social do Trabalho no Período Colonial”, Discur­
so, São Paulo, FFLCH-USP/Hucitec, maio 1978, n. 8, pp. 39-40: “Assim, enquanto núcleo domésti­
co, o latifúndio colocou o escravo em contato contínuo e estreito com os membros da camada
dominante, tecendo os fios firmes da dependência pessoal: o tratamento condescendente dado á
ama-de-leite, à mucama, ao pajem, exprime esses aspectos mais brandos de suas relações. No ex­
tremo oposto, encontramos o homem ‘coisificado’, submetido à dura disciplina requerida pela
produção mercantil. Essa diversidade de ajustamentos possíveis prende-se, sem dúvida, às situa­
ções particulares, onde se determinaram os contatos entre o senhor e o escravo, isto é, a casa e o
eito. Mas é preciso não escorregar numa dissociação e sublinhar que essas duas situações compu­
nham uma unidade socioeconômica: isto nos permite notar que as relações entre senhor e escravo
permanecem essencialmente as mesmas, em quaisquer das posições diferenciadas que possam ocu­
par na estrutura do latifúndio. Significa isto que estão implícitos e sintetizados no curso de suas
relações tanto a compulsão e a violência como os seus contrários, a quebra do rigor e a mercê".

147
A SÁT IR A K 0 K X G E N H O

trazidos para a Bahia. Mais uma vez, explicita-se a relação entre a mortanda­
de escrava e o lucro mercantil:

[...] n ã o h ã o u t r o s s e r v i d o r e s s e n ã o o s n e g r o s d e A n g o l a q u e a q u i v ê m v e n d e r - s e e s ã o
tão p o u c o s o s q u e aq u i estã o d ig o o s q u e en tra m n esta P raça e n a s m a is d o lista d o e
tantos os que morrem pelo contínuo trabalho q u e p o r n ã o t e r e m os m o ra d o res q u a n to s hão
m i s t e r e d e m a n d a m e s t a s f á b r i c a s sc perde muito lucroA

Afirmando que toda a África é um inesgotável celeiro de escravos, pois


tem “gente infinita”, reclamam os oficiais da Câmara de que, dos inúmeros
que são carregados de Angola para a Bahia, mandem-se muitos para Portu­
gal. Afirmam também que, embora se necessite deles no Reino, nenhuma
utilidade produtiva têm lá para a Fazenda Real. Homens de poder local, pro­
põem-se os oficiais neste passo da Carta como homens do poder real; no caso,
a defesa dos interesses da Coroa identifica-se com a defesa dos seus interesses
como produtores locais:

[...] n o s p a r e c e u r e p r e s e n t a r a V o s s a A l t e z a o g r a n d e d a n o q u e s e s e g u e ao S e r v i ç o d e
V ossa A lt e z a e ao b e m c o m u m d e s t e p o v o p e d i n d o se sir va V ossa A lt e z a m a n d a r sob
g r a v e s p e n a s q u e n e n h u m m e s t r e n e m p e s s o a a l g u m a l e v e e s c r a v o a l g u m d a n d o a is s o
fia n ça n e sta C â m a r a q u a n d o despachar'*.

Sempre preocupada com a falta de mão-de-obra escrava, em 21 de maio


de 1685 a Câmara registra em ata as providências tomadas quanto a um navio
chegado de Luanda que traz negros com bexigas. A Bahia já conhecera uma
epidemia de bexigas em 1666, com grandes perdas na escravaria, atribuída
então ao aparecimento de um cometa, em dezembro de 166595967, que profetizava
desastres às vésperas do ano de número cabalístico. A ata registra narrativa­
mente a ida a bordo do Santa Marta do médico Manoel de Mattos de Viveiros
e de oficiais da Câmara, relatando o escrivão, João de Couros, que “[...] vimos
negros com bexiga e um deles com bexiga dentro da costa”98. Pela experiência

95. Carta de 1.12.1674, C a n a s d o S e n a d o 1 6 7 3 - 1 6 8 4 , vol. 2, p. 21 (gritos meus).


96. hlcin, ibidem.
97. Cf. Sebastião da Rocha Pita, H i s t ó r i a d a A m é r i c a P o r t u g u e s a , Belo Horizonte-São Paulo, Itatiaia/
Edusp, 1976, Livro VII, 33, p. 196: “Principiou este terrível contágio em Pernambuco no ano dc mil
e seiscentos e oitenta e seis, e devendo atribuir-se aos pecados dos moradores destas províncias,
corruptos de vícios e culpas graves, a que os provocava a liberdade e riqueza do Brasil”. Cf. tam­
bém Dr. José Carlos Bahiana Machado, “As Grandes Epidemias na Bahia - A Peste da Bicha de
1686 e a c o l e m m o r b u s de 1885”, em Primeiro Congresso de História da Bahia, A n a i s , Salvador,
Instituto Geográfico e Histórico, 1955, pp. 267-275.
98. Ata de 21.5.1685, A t a s d a C â m a r a 1 6 8 4 - 1 70 0 , vol. 6, p. 23.

148
A m u r m u r a ç Ao d o c o r r o m ís t ic o

anterior da morte de “muitas mil Almas” pelo contágio da Madre de Deus, nau
que trouxe escravos infectados “sem dar por isso”, o médico justifica seu re­
querimento de que não se desembarquem os cativos, propondo que se avisem
todas as vilas do Recôncavo. Considerando os oficiais da Câmara “[...] tão gran­
de ruína que além da mortandade que seriamente havia de haver se arruinar os
engenhos efazendas se deu nas bexigas passadas que muitos engenhos não moeram por
haver morto os negros de munas fazendas”, determinam a quarentena do Santa
Marta no morro (ilegível) a quatro léguas da Cidade09.
Outras cartas e atas também informam, com muita naturalidade, o medo
da doença, sempre relacionado ao horror principal, a perda da mão-de-obra e
do lucro. Quase dois meses após o registro da chegada do .Santa Marta, em 16
de julho de 1685, registra-se que chega de Luanda com escravos a nau N. S. da
Conceição e São Francisco infestada de bexigas, sendo enviada para a quaren­
tena. A Câmara relata o que o capitão do navio requer: “[...] morrendo algu­
mas cabeças protestava não pagar os direitos delas nem um real”, declarando-
se forçado à quarentena e sem responsabilidade pelas mortes que ocorressem
durante o recolhimento99100.
Nas cartas e atas das duas décadas finais do século XVII, o contágio é ameaça
sempre referida. Causa pânico na população, constituída como atemorizada após
a epidemia do “mal da bicha” de 1686, febre amarela que ataca endemicamente os
documentos até a década seguinte. Assim, em 27 de janeiro de 1694, o governador
Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho determina que, “[...] estando esta
Cidade corrupta pelas contínuas enfermidades que se experimentam degeneran­
do os ares aquele saudável clima que havia nesta Cidade”, sejam evitados todos os
navios, especialmente os que vêm de Angola, São Tomé e Costa da Mina, como
prevenção contra os danos que “[...] com certeza julgavam os médicos e homens
experimentados vinham de ditas partes a corromper e infeccionar esta Cidade que
com tão lamentável lástima se tem experimentado”101.
Acompanhando o médico, o escrivão da Câmara sobe, na ata, a bordo de
um navio vindo da Costa da Mina e transcreve a decisão dos oficiais. Nova­
mente, explicita-se o interesse mercantil na violência com que a naturalidade
da escravidão é referida:

[...] n ã o c o n v i n h a q u e d e s e m b a r c a s s e m g e n t e q u e v i n h a e m d i t a e m b a r c a ç ã o p o r v i r
m u itas d ela s danificada e m u ita d ela com sarna e lepra, e c o n s ta n d o ao d ito m e d ic o por

99. Itlám. ibidem.


100. Ata de 16.7.1685, vol. 6, p. 30.
101. Ata de 27.1.1694, vol. 6, p. 237.

149
A SÁ T IR A H O E N G E N H O

declaração do Capitão do dito patacho se lhe havia mono 15, ou 16 negrosfora outros que
se mataram por quererem alevantar [...] viu dito médico dois mortos em dito navio c muitos
deles incapazes de se poderem alevantar do lugar em que estando deitados o que julgou ser
doença

Decidem o médico e o escrivão “[...] pelo que toca ao cargo e consciência”


que não convém “[...] se comunicasse esta sobredita gente com a dita Cidade
por estarem os moradores dela com doença de febres, e por se não acrescentar
maior mal e evitar este dano em prejuízo do povo”. O navio da Costa da Mina
é recolhido em quarentena na ilha de Itaparica, “no sítio que chamam de
Manguinho”, apesar da segunda petição de seu capitão, João Godinho da Maia,
para que os negros sejam logo desembarcados102103104.
Rotineira nas atas e cartas do final do século XVII, tal situação narrativa
efetua-se contraditoriamente: a falta local de mão-de-obra escrava determina
a chegada constante dos negreiros que, quase sempre empestados, são ameaça
muito temida à mão-de-obra existente. Embora necessária para o “bem co­
mum” da população atacada de febres, a quarentena é também fator de atra­
so na reposição dos braços nas fábricas do açúcar e, assim, na produção, im­
plicando a diminuição geral dos lucros, hajam vista as petições dos capitães
negreiros, inconformados com a quarentena que lhes impede o negócio ime­
diato e que os descapitaliza com as mortes prováveis de escravos doentes. A
essa dificuldade somam-se outras nas cartas, tal a da situação relatada como
produzida por uma ordem régia de dezembro de 1689, que determina a
sustação do fabrico de aguardente pelos engenhos, para assim se evitarem
mortes e doenças que, diz-se, a bebida causa no reino de Angola.
Em 18 de junho de 1690, os oficiais da Câmara escrevem ao Rei afirman­
do-lhe que:

[...] muita parte dos moradores desta Cidade e quase todos os do Recôncavo vivem
deste gênero, e o têm quase por fruto, e com ele pagam comumente os escravos que traba­
lham nas suas lavouras, e há lavrador que para este efeito faz esta bebida das próprias
canas de que se faz o açúcar; e com esta droga sefacilita a condução dos negros, efaltando
fica cessando o traio e negócio'"*.

Afirmam ainda que, se a aguardente não puder ser remetida para Angola,

102. Idem, p. 238 (grifos meus).


103. Idem,ibidem.
104. Carta de 18.6.1690, Cartas do Senado 1684-1692, vol. 3, p. 94 (grifos meus).

150

4
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R PO M ÍS T IC O

[...] f i c a m p e r d i d o s o s i n t e r e s s e s q u e g r a n j e i a m e s t e s m o r a d o r e s , q u e n ã o b a s t a m p a r a
o s e r v i ç o d a s m a n d i o c a s , t a b a c o s , c a n a s , e e n g e n h o s , e p r o ib in d o - s e e s ta n a v e g a ç ã o é u m
d a n o t o ta l d e s te E s t a d o p o r q u e v i v e m q u a s e t o d o s o s m o r a d o r e s d e s t a d r o g a , u n s d e a
v e n d e r e m , o u t r o s d e a f a b r i c a r e m , e m u i t o s d e s e m b a r c a r e m " 15.

Mais uma vez, a Câmara enuncia o fundamento mercantil da sua inter­


pretação das relações Bahia-Angola-Portugal. No caso, a proibição da remes­
sa da pinga para a África é prejudicial aos interesses locais, por isso a Câmara
pede ao rei mande despachar “por Ministros desinteressados”, que deverão
examinar o requerimento da Câmara de Angola pedindo a proibição da aguar­
dente brasileira:

[...] q u e a n ó s a s s e g u r a m s e r f i n g i d o e c o m a c a p a d o b e m d o r e a l s e r v i ç o p r e t e n d e a
n o s s a r u í n a , p e r s u a d id o s d e m u ito s p o u c o s H o m e n s d e N e g ó c io q u e m e t e m o s [ f a l t a t r e c h o ]
d o r e i n o n a q u e l a P r a ç a , e c o m o l h e f a l t a m e s t e s i n t e r e s s e s p r o c u r a a su a a m b iç ã o a n o ssa
r u ín a se m r e p a r a r n o g r a n d e d a n o q u e f a z e m a to d o este E s ta d o s o lic ita m p r o ib iç ã o d a s a g u a r ­
d e n te s p a r a a ss im s e r e m m a is c e r to s os se u s in te re ss e s q u e h ã o d e [ a c h a r ] n a v e n d a d o s v in h o s , e
dos neg ro s, q u e u m a e o u tr a c o u s a h ã o d e v e n d e r p e la m e d id a d e se u d e s e jo m .

Resumindo-se o exposto em cartas das três décadas finais do século XVII,


evidencia-se que, devido sobretudo às crescentes barreiras alfandegárias im­
postas à distribuição e venda dos açúcares brasileiros nos mercados europeus
por Inglaterra, França e Holanda, que se assenhoreiam da sua produção nas
Caraíbas e no Oriente, os estoques se avolumam em Lisboa, abarrotando os
armazéns. A partir de 1675, a Coroa determina redução dos preços, visando a
torná-los competitivos. A baixa afeta imediatamente as folhas de pagamento
do clero e da burocracia, tendo outras ramificações numerosas: eleva o valor e
o preço dos escravos e do fornecimento de cobre, ferro e breu indispensáveis
aos engenhos; descapitaliza os senhores, leva-os ao crédito, à impossibilidade
de saldar dívidas, às execuções, às falências e ao fogo morto; afeta a cobrança
dos donativos, favorece a especulação e o lucro dos mercadores; intensifica a
miséria da população. Acompanha-se a crise da desvalorização da moeda
metropolitana de prata e ouro, fixada num valor facial inferior ao da moeda
circulante no Brasil, o que produz grande evasão do metal para Portugal,
acompanhada da alta dos gêneros metropolitanos. A crise atinge o auge por
volta de 1688, quando, após a desvalorização espanhola da pataca em 20%, a
moeda portuguesa de ouro e prata se torna mais vulnerável ao contrabando e1056

105. Idetn> pp. 94-95.


106. Idem, ibidem.

151
A SÁ T IR A K O E N G E N H O

a outras práticas de desvio, como a do corte de seus bordos e fundição das


aparas, transformadas em metal, prata ou ouro.
Em carta de 12 de agosto de 1688, um mês após as medidas protecionistas
do Conde da Ericeira lamentadas em outras, os agentes relatam ao destinatá­
rio o “notável prejuízo” da produção e comércio do açúcar, resultante da lei
que sobretaxa o produto e o breu, o treu, o ferro, o cobre e os escravos necessá­
rios às fábricas dos engenhos. Como vítimas, seu arrazoado tenta persuadir o
Príncipe da justeza do que alegam, afirmando que o “notável prejuízo” é o da
Fazenda Real. Reiterando protocolarmente os signos de fidelidade irrestrita,
afirmam que é imposto a que estão prontos a obedecer e a dar execução, haja
vista o “notável prejuízo” da Fazenda Real se não o pagam. Escrevem, contu­
do, que recorrem à clemência real para propor-lhe a dificuldade grande e
inconveniências decorrentes da taxação. E nesta figuração, em que o “notável
prejuízo” se refrata, que o arrazoado avança.
Todos vivem “arrastados em dívidas”, segundo os agentes, alegando que
são testemunhas fidedignas de sua situação os governadores e ministros que,
nos últimos dez anos, assistiram na Bahia. Segundo alegam, até o presente -
12 de agosto de 1688 - os açúcares venderam-se por preço mais alto do que
lhes concede a lei e, custando muito menos do que custam todos os gêneros
necessários para sua fabricação, é muito pouco o que os senhores de engenho
e os lavradores de canas lucram. Há, dizem, e houve visível diminuição dos
cabedais. Se um maior preço já não era suficiente no passado que relatam
para que, pagos os gastos e os fornecimentos, sobrasse lucro suficiente para se
conservarem com os mesmos cabedais, vão-se no presente empenhando mais
e mais. Como e possível, perguntam muito enfaticamente, lavrar no presente
o açúcar, quando o vendem por preços tão abatidos?107
Segundo os agentes, a experiência mostra que todos os que vêm tomando
dinheiro emprestado para se abastecerem de gêneros vendidos fiados para
produzir o açúcar vão ficando destruídos em breves anos. Lei especial de 15 de
novembro de 1683 determina que sejam nulos todos os contratos de dinheiro e
açúcar, prevendo que basta uma pequena diminuição para que se arruinem os
que fazem tal negócio. Na carta, lamentam os agentes a nova lei que taxa os
açúcares em baixa a 750 réis: “[...] há de ser a total ruína do Brasil”108. A razão
da ruína é manifesta quando consideram a grande despesa da lavoura e fábri­
ca do açúcar. Seu rendimento, pelo preço passado de 10 e 11 tostões, deixava

107. Carta dc 12.8.1688, vol. 3, p. 63.


108. Idem, p . 6 4 .

152

À
A M U R M U R A Ç A O DO CORPO M ÍST IC O

líquido “[...] um limitado lucro para quem o lavrava”109. Passam a demonstrar,


pois, que as despesas sobrepujam no presente todo lucro: para as soldadas dos
oficiais, são necessários 100 réis para o mestre, 100 réis para dois banqueiros,
100 réis para barqueiros, 80 réis para um feitor-mor, 40 réis para um feitor da
moenda e 50 réis para o caixeiro. A partida de lenhas que se queimam nas
moendas importa em 26 títulos cada safra, “pouco mais ou menos”, segundo a
“mais ou menos” cana que se tem para moer. Os caixões do açúcar custam,
levantados, 1200 réis, 2060 o milheiro de tijolos de alvenaria para a reforma da
fornalha a cada dois anos. Empregam-se 2 ou 3 mil fôrmas de barro “[...] que
quase se quebram todas na mesma safra a 80 réis cada uma”. O conserto das
barcas é de 80 mil-réis cada ano; o frete da condução do açúcar para a Cidade
é de 320 réis por caixa, 200 réis de entrada nos trapiches, além de um vintém
da estada cada mês. Acresce o sustento da escravaria e as miudezas que, “[...]
por serem muitas, se não podem referir”. Mas referem, pois nelas entram o
breu, o ferro e o treu taxados pela nova lei11012.
Afirmam os agentes, ainda, que tais fornecimentos, oferecidos por preços
exorbitantes em relação aos do passado de seu relato, poderíam tolerar-se,
caso o açúcar do Brasil “[...] se pudera lavrar sem tão grande numero de Es­
cravos, Bois e Cavalos, de que morrem todos os anos uma grande parte, que
precisamente se há de refazer, com que só para os escravos que se vendem a
50-60 e 70 [mil-] réis é necessário uma grande soma de dinheiro”1". Conclui-
se com evidência, segundo eles, que, “[...] se não houver remédio para que se
conserve no valor de dez e onze tostões”, que é o do açúcar no passado, em
“brevíssimos anos” não haverá na Bahia quem se possa abastecer, ficando
inúteis as propriedades de engenhos e fazendas de canas fabricados em “[...]
tantos anos de tanto trabalho”: “[...] com diminuição excessiva dos dízimos e
alfândegas de Vossa Majestade; e prejuízo das folhas eclesiástica e secular e
outras aplicações”" 2.
Amplificando o alcance da argumentação, os agentes afirmam não serem
apenas os senhores de engenho e lavradores de canas os prejudicados na bai­
xa do açúcar, mas também os mercadores:

[...] p o r q u e é c e r i o q u e n ã o l h e t e n d o c o n t a a s u a l a v o u r a , n e c e s s a r i a m e n t e a h ã o d e d a r
p or p e r d i d o s , e d e i x a [sir] a m o n t e o s c a n a v ia is, e n ã o te n d o e s ta d ro g a q u e se v e n d e

109. Idem, ibidem.


110. Idem, ibidem.
111. Idem, ibidem.
112. Idem, pp. 64-65.

153
A SÁTI RA H O E N G E N H O

(que era o Dinheiro e Riqueza do Brasil) não lhe fica ouira com que possam comprar as
Fazendas que vêm de fora"5.

O Brasil cambaleia:

[...] O Brasil, Senhor, desde o seu nascimento se sustentou sempre em duas Colunas,
uma era a do Tabaco, é a outra o Açúcar: a do Tabaco arruinou-se há alguns anos,
ficando perdida a pobreza do Brasil que, por depender de pouca fábrica a sua lavoura,
se ocupavam dela"4.

O Brasil desmorona, pois, arruinada a “Coluna do Açúcar”: “[...] porque para


todos se acabaram as Colunas em que se sustentava”" 5.
Após a ênfase apocalíptica, segue-se a encenação da resignação permeada
de ameaça da perda do monopólio do comércio. E que, como “a necessidade é
muito industriosa”, escrevem os oficiais, ela os ensinará a buscar na mesma ter­
ra com que vivam, seguindo o exemplo da índia. Esta faz, dizem, de algodão,
panos; de cocos, vinhos, vinagres, azeite. Se no Brasil abundam esses gêneros e
outros muito melhores e mais convenientes para a “sustentação da vida” que os
da índia, por que não fará o mesmo? Pois falta-lhe ou vai-lhe faltando tabaco e
açúcar com que compre os gêneros que vêm de fora. Arrematam: “[...] se isto é
convenierte para esse Reino, Vossa Majestade o mandará ponderar”"6.
Feita essa pequena previsão, continuam, no presente. Definindo “negó­
cio” como “conveniência das partes”, os agentes afirmam que a taxa não pode
ser conveniente. Passam, neste passo da carta, a criticar e a culpar os merca­
dores de Lisboa, responsáveis por especulações e interpretações errôneas, se­
gundo sua interpretação. Os mercadores de Lisboa desconsideram a inconve­
niência da taxa do açúcar, fazendo taxar os quatro gêneros, cobre, breu, ferro
e treu “[...] por lhes parecer (erradamente)” que neles estão compreendidos
todos os fornecimentos para a fábrica do açúcar. Taxando o açúcar por preço
que “não tem conta”, fazem taxar os quatro gêneros por preços mais altos:

[...] querendo nesta forma, com anos [sua] perda certa, segurar a sua ganância infalível,
pois vendendo-se nestes anos próximos passados o cobre a 320, o breu a 1600, o ferro a
3200 e o treu a 35 reis, os fazem taxar agora o cobre a 350, o breu a 2800, o lcrro a 4800
e o treu a 51 réis"7.134
7
56

113. Idem, p. 65.


114. [dem, ibidem.
115. Idem, ibidem.
116. ídem, p. 66.
117. Idem, ibidem.

154
A M U R M U R A Ç A O DO C O R P O MÍ S T I C O

Segundo os agentes, os comerciantes metropolitanos entendem que a baixa


do açúcar e as poucas vendas são devidas ao preço excessivo que tem o produ­
to na Bahia e aos “[...] vícios com que ele se fabricava”. A carta passa a rebater
o que afirma ser uma alegação interesseira dos comerciantes, defendendo
que de nenhuma dessas duas coisas nasce a pouca saída que o açúcar tem no
Reino. Quanto aos “vícios”: “[...] é certo que se lavra hoje com o mesmo cui­
dado, cultura e diligência com que se lavrava e fabricava nos anos passados”.
Melhor, segundo a enunciação: “[...] com algumas circunstâncias melhora­
das, que foi ensinando e aperfeiçoando a experiência”118.
O “maior estudo” e cuidado dos produtores de açúcar é fazê-lo bom e fino
e, segundo os agentes, nunca acharam remédio para assim ser, alegando-se a
experiência holandesa em Pernambuco que, com “toda a sua indústria”, nada
descobre em 24 anos. Outro argumento: não se sabe como fazê-lo menos cus­
toso: “[...] esta obra não tem medida nem compasso, nem se tempera pelo
gosto, toda a sua bondade pende da Ventura”" 9. Exemplos dos oficiais da
Câmara: se o mestre não acerta em fazê-lo bom, o senhor de engenho e o
lavrador perdem, embora o mestre continue cobrando o mesmo, como quan­
do o faz fino: “Nenhum mestre sabe o que faz”, senão depois de sessenta dias,
quando se quebram as fôrmas para secar o açúcar. Se o vêem ruim, não sabem
a causa para poder emendar-se na tarefa seguinte. O melhor mestre, que em
uma safra acerta fazê-lo bom, na outra o faz “broma”. Na mesma tarefa em
que o açúcar é moído e cozido, em 24 horas saem as fôrmas dele muito dife­
rentes, umas boas, outras más. Com o que, concluem, de nenhum modo se
pode dizer que o vício do açúcar é voluntário, fundando-se essa “falsa pre­
sunção” apenas naquele (o comerciante) que “[...] tem o preço dele a seu arbí­
trio”120. Além disso, insistem, nunca a Câmara ou os lavradores “[...] lhe puse­
ram preço a seu arbítrio”. Desde sempre é mandado pelas portarias dos
Governadores, como ainda fazem as alfândegas para ajustar os fretes, o servi­
ço do Rei e o apresto das frotas:

[...] Em esta consideração mandamos se ajuntasse muitos dos vendedores, e outros [...] dos
compradores nesta Câmara, e com efeito ajuntando, sem a Câmara intervir nisso de que
fazia termo nos livros dela, que o açúcar que se vendesse a dinheiro fosse a Convença das
Partes, e o que se deu em pagamento de fazendas que se devessem fosse a mil cento e ses­
senta: havendo respeito ao maior preço porque os mercadores as davam fiadas121.

118. Idem, ibidem.


119. Idem, p. 66.
120. Idem , p. 67.
121. Idem, ibidem.

155
A SÁTI RA E O E N G E N H O

A “Convença das Partes” é de 1665, quando o Rei foi servido ordenar que
o preço dos açúcares devia ser acordado. Assim, afirmam os agentes da carta,
mentem os mercadores que dizem que o preço do açúcar depende do arbítrio
dos senhores porque sempre que os preços foram livres os mercadores recorre­
ram ao Rei. É o que fazem em 1665, sendo atendidos com a “Convença das
Partes”, que desde então proíbe que se faça “o chamado preço”. Os açúcares
vêm sendo dados em pagamento de fazendas pelo mesmo preço de 1160 réis,
alegam. Quando os negociantes vendiam os gêneros e os lavradores os compra­
vam, faziam-no com o ajuste de que receberíam os pagamentos pelo dito pre­
ço. Escrevem ainda que nem o preço de 1160 réis em pagamento se pode achar
excessivo, uma vez que os lavradores do açúcar também perdem com ele:

[...] a maioria que vai deste preço ao que vale o açúcar a dinheiro é muito menos do que
os maiores que vai do valor das fazendas a dinheiro ao valor por que se vendem fiado; e
suposto que todos os moradores do Brasil conhecem claramente o quanto ficam enga­
nados em comprarem e venderem na sobredita forma, a sua necessidade os faz sujeitar
[-se] a estes danos por não poderem evitá-los comprando de contado porque nenhuma
que de seus frutos lhe fique para fornecer-se na nova safra1” .

Defendem-se os agentes, ainda, contra acusação dos “vícios do açúcar”,


que consistem em irem algumas caixas falsificadas com diferentes açúcares:
os “batidos” (mascavos) por “machos” (brancos) ou misturados... Propõem ao
destinatário que o mesmo tem o remédio “[...] na pena gravíssima que pode
pôr aos caixeiros por cuja conta correm os engenhos o secá-lo e encaixá-lo,
sem que os donos estejam presentes”12123. A intervenção dos oficiais da Câmara
se faz como prescrição simultaneamente semantizada: constitui-se, com a afir­
mação de que os senhores devem eleger com cuidado os caixeiros do açúcar, a
honestidade dos senhores partilhada pela auto-representação dos agentes. A
mesma é, contudo, mediatizada por outros enunciados que referem a descon­
fiança dos mercadores, que não aceitam receber o açúcar em pagamento nem
comprá-lo sem examinar caixa por caixa com furos e canas: “[...] e pelo que
acham nela fazem a compra”. Denegando a falsificação, os oficiais a confir­
mam, contudo, quando escrevem que alguns engenhos costumam pôr o me­
lhor do açúcar - “macho” - por cima do pior - “batido” informação que se
reforça pela justificativa de práticas semelhantes, pois afirmam que é corren­
te no Reino e nos demais países da Europa pôr para fora a melhor parte do
tecido nas caixas com peças de linho, seda e lã, ocultando-se na de baixo os

122. Idem, p. 68.


123. Idem, ibidem.

156
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

panos com côvados e varas diminuídos. Com isso, afirmam, quem as compra
sempre o faz pelo que “descobre na entranha”12'1.
Não se pode generalizar a falsificação, evidentemente, a partir de um
documento apenas, mas as prescrições, denegações e justificativas são índi­
ces da “murmuração” sobre as condições do comércio, comum nos discursos
do período como reclamação contra os mercadores, que a sátira constitui como
tipos desonestos, pois só interessados na “medida de seu desejo”, como já se
leu.
Rebatendo o que chamam de “opinião” dos compradores metropolitanos
- a de que a pouca venda do açúcar na Europa é devida aos preços altos por
que se vende no Brasil -, os agentes a propõem como “engano manifesto”124125.
Ao “engano manifesto” opõem a “razão manifesta”: a concorrência holande­
sa, inglesa e francesa, que demonstram conhecer plenamente. Segundo eles,
Inglaterra, França e Holanda “[...] com o decurso do tempo foram acrescen­
tando outras fábricas e aperfeiçoando-as de modo que já têm tanta quantida­
de de açúcares que abundam a toda Itália, vendendo-lho refinado a 1200
réis”126.
Esta é a “manifesta razão”, segundo os oficiais da Câmara, de não ter
saída o açúcar do Brasil - o que, afirmam, é a ruína do local e a causa da
miséria, do descontentamento e da murmuração do povo. Açúcar e pimenta
são comparáveis:

[...] Sucedeu ao açúcar do Brasil o mesmo que sucedeu à pimenta da índia, que dando-
se alvitre a El-Rei de Castela no ano de 1598, lhe acrescentasse o preço, porque os
estrangeiros a não achavam em outra parte, e de necessidade haviam de comprá-la em
Portugal127.

Os holandeses, porém, logo desfazem o monopólio, pois em 1600 fir­


mam a Companhia das índias e não só têm a pimenta fina de Cochim, mas
também o cravo e a canela do Ceilão: “[...] recebem todos os anos frotas ri­
quíssimas”. Fazem o mesmo ingleses, franceses e outras nações do Norte,
“[...] com que ficou perdido aquele grande comércio que o Reino tinha na­
quele Estado”128.

124. Idem, p. 69.


125. Idem, ibidem.
126. Idem, ibide?n.
127. Idem, p. 70.
128. Idem, ibidem.

157
A SÁTI RA E O E N G E N H O

A análise da crise é relacionada pelos oficiais ao tema dos impostos e da


“ruína”. Recordam que o rei Dom João IV, atendendo à necessidade da guerra
contra a Espanha e a Holanda, determinou que fosse acrescentado ao valor do
açúcar o tributo de 220 réis pagos na Alfândega de Lisboa. O tributo chegou a
580 réis por arroba, cobrados a partir de 1650 para cobrir os gastos da Compa­
nhia Geral do Comércio, então fundada, com as 26 naus de guerra para o com­
boio das frotas. Com a Paz de Holanda, reduziram-se a quatro, depois a duas.
Reclamam os agentes de que, embora a Paz de Holanda tenha sido firmada há
mais de vinte anos, nem por isso se suspende ou diminui o tributo. Assim, con­
cluem, o açúcar brasileiro não pode concorrer com os estrangeiros porque a
baixa do preço que o faria competitivo deveria implicar a suspensão do tribu­
to, o que não se faz. Referem-se ainda à diminuição do comércio português com
outras nações, desde que “[...] as drogas [...] cujo preço é Ganância”129 foram
proibidas (aludem à política protecionista do Conde da Ericeira, que restrin­
ge a importação de bens suntuários, como as sedas e as lãs, que a aristocracia e
o clero continuam usando). Como falta aos mercadores estrangeiros o negócio
de darem saída às suas drogas, deixam também de carregar seus navios com o
açúcar. Interessados na suspensão do tributo, os oficiais afirmam que não bas­
ta a sua diminuição para que o açúcar tenha saída:

[...] Estas são, Senhor, as causas que teve a baixa dos açúcares, que Vossa Majestade
deve mandar ponderar com toda a atenção, advertindo-se que ainda que o açúcar se
pudera lavrar pelos preços da taxa, sem sua total destruição, não bastava só a diminui­
ção dela para terem segura saída; é que de lhe faltar esta, se segue não somente a ruína
de todos estes moradores, que não têm outro gênero de que possam lançar mão para o
negócio, mas também das rendas de Vossa Majestade: porque é certo que o contrato dos
dízimos não havendo açúcar, não há de chegar a pagar nem ainda a folha eclesiástica; e
que faltando os cabedais a estes vassalos, necessariamente hão de faltar aos tributos c
contribuições que pagam. [...] Pagam estes Povos, Senhor, tirando Forças de Fraqueza,
sem embargo dos empenhos, e apertos com que vivem por leais, e por servir a Vossa
Majestade: 40 donativos cada ano da Paz de Holanda e Dote da Sereníssima Rainha da
Grã-Bretanha, e pagam mais cada ano 50 donativos para o sustento da Infantaria por
imposto que aceitaram sobre os vinhos desde o tempo da Aclamação do Senhor Rei
Dom João (que até ali, se pagava pela Fazenda Real, por meio de assentistas com que
ajustava este negócio)1"1.

Segundo os oficiais, Dom João IV determinou que a Bahia devia susten­


tar a sua defesa contra Holanda enquanto o Reino sustentava a sua contra

129. I d c n t i i h i d e m .
130. Ideniy p. 71.

158

â
A M U R M U R A Ç À O DO C O R P O M Í S T I C O

Castela. Findas as guerras, a Bahia continua a pagar os tributos como se ain­


da existissem. Os oficiais afirmam não terem requerido sua suspensão até o
momento em que escrevem porque respeitam mais ao serviço de Sua Majes­
tade que à própria impossibilidade... As contribuições importam “melhor de
90000 cruzados cada ano” e faltarão caso os açúcares não sejam vendidos “ao
menos” por 10 e 11 tostões para poderem os lavradores continuar lavrando
sem perdas. Doutra forma, escrevem, “[...] não terão sustância para que pos­
sam pagá-los”. Neste passo final da carta, os oficiais evidenciam para o Rei
que sabem o que ele pode:

[...] porque suposto que nos primeiros anos se cobrem com violência e por força tiran­
do-lhe as peças de ouro e prata que tiverem, é certo que cm poucos se hão de esgotar
dessas alfaias, e parar também com elas a contribuição, e os impostos, de que se seguem
conseqüências muito prejudiciais131.

A mesma referência se encontra com outra figuração, ainda, em carta de


Ia de julho de 1693, em que o Estado é corpo de hierarquias e o Tesouro, ves
quasi sacra, fluido vital das trocas que o acumulam:

[...] tirando-nos o sangue na paz, o não teremos para derramar se por pecados houver
guerra como muitas vezes fizemos; o Sangue, Senhor, que sustenta e anima toda a M o­
narquia, é a abundância da moeda assim o confessam todos e o confirmam muitos
Ministros de Vossa Majestade por cuja razão pretendem tirar o sangue dos braços para
com ele se acudir a cabeça: pede-o assim a razão, e o julgamos conveniente mas deve-se
primeiro considerar que se faltar o maior rio com a contribuição de suas águas ao Mar
que não se há de enxergar esta falta132.

A mesma metaforização escorre, por exemplo, na Representação do gover­


nador Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho ao Rei, datada de 4 de julho
de 1692:

[...] Toda a opressão, Senhor, e ruína que se teme, nasce da falta do dinheiro, que c
aquele nervo vital do corpo político, ou o sangue dele, que derivando-se e correndo
pelas veias deste corpo, o anima e lhe dá forças; e do contrário, como sucede no corpo
natural, desmaia e enfraquece não só quanto às partes principais, e que animam as
outras, senão quanto aos membros, que são aqueles de cujas operações tomam seu va­
lor, c eficácia as superiores; sendo certo que são muito mais generosas e muito melhor

131. Id e m , p . 72.

132. C a r t a d e 1 . 7 .1 6 9 3 , v o l. 3, p p . 1 1 4 -1 1 5 .

159
A SÁTI RA E O E N G E N H O

reputadas, e ainda temidas as resoluções daquele Príncipe, República, ou Estado aonde


sobra o Erário, que as daquele onde totalmente falta o dinheiro133.

A doença se alastra pelo corpo político, contudo, como “ruína de toda a


República”, no dizer dos oficiais da Câmara, que determinam medidas rigo­
rosas para saná-la, ordenando, por exemplo, a repressão e a prisão dos ouri­
ves. A falta da moeda é um evento que, modulando os discursos baianos dos
anos finais do século XVII como gesticulação de intervenções, medidas, pres­
crições, simultaneamente fornece os signos que preenchem o vazio do evento,
semantizando as medidas segundo as posições dos agentes no acontecimento.
No “Treslado do Requerimento que fez o Juiz do Povo e Mesteres sobre a
moeda e prata feito aos 11 de fevereiro”, requerimento dirigido aos vereado­
res e ao procurador do Senado da Câmara pelo juiz do Povo Francisco Ribei­
ro Velho e os mesteres Domingos Pais e José Carvalho, fala-se do “[...] miserá­
vel estado a que se tem reduzido a antiga opulência desta Cidade e a presente
ruína dos negócios”13'1. Duas causas da “ruína” são apresentadas: a falta da
moeda, que se envia para Portugal pelos comerciantes, e a sua fundição pelos
ourives. No requerimento, os três agentes, representantes de interesses das
corporações e outros grupos populares, alinham-se contra interesses de mer­
cadores de açúcar, argumentando que o abatimento do preço, as despesas dos
fretes, o comboio para a Europa, a demora da sua venda e “[...] os mais incon­
venientes que lhe suspende [sic] o lucro e diminuem o cabedal e a facilidade
de o poderem engrossar na prontidão de novos empregos, sempre mais segu­
ros à vista do dinheiro”135são causas do “miserável estado”. O principal negó­
cio dos mercadores, segundo o Juiz do Povo e os mesteres, consiste em man­
dar o dinheiro para o Reino, “como é notório”, sem reparo algum da “utilidade
do Estado”.
E contra os ourives, contudo, que o requerimento concentra o fogo. Se­
gundo os requerentes, devem-se coibir os ourives, que batem e lavram a prata
das moedas à vista de todos: “[...] com dor e escândalo e admiração de toda
esta Cidade”136. Segundo eles, a sua ação é pior que a dos mercadores mono­
polistas: “[...] é mais atroz esta ruína que a de se levar o dinheiro pois aquele
que foi pode voltar”. A moeda convertida em baixelas e usos extraordinários

133. Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, “Representação do Governador Antônio Luís Gon­
çalves da Câmara Coutinho ao Rei sobre o Estado do Brasil”, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, MEC, 1939, vol. LVII, p. 147.
134. Alas da Câmara 1684-1700, vol. 6, p. 202.
135. Idem, p. 203.
136. ídem3ibidem.

160

i
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O MÍ S T I C O

não torna, o que é delito sem perdão: embora se enriqueçam as casas particu­
lares, o todo do corpo político da República se enfraquece, pois só se conserva
com “[...] a substância comum do dinheiro, como a alma que mais vivamente
anima as Cidades, os Reinos e as Monarquias”137. Reiteram que por isso “[...]
se deve preferir sempre o bem universal ao apetite ou luzimento particu­
lar”138.
O Juiz do Povo e os mesteres lembram que é bem presente que antes,
quando vinham de Buenos Aires dois ou três navios carregados de prata, só
havia na Bahia um ourives, Francisco Vieira, o Fanha, com quatro ou seis
oficiais. No momento (1693), não entra mais prata - o que se dá desde a acla­
mação de Dom João IV - e há “uns vinte e cinco ourives” na Cidade, que
batem “[...] as moedas do México de colunas e as mais cuja qualidade toca em
21 dinheiros”139140.Lavram a prata com “[...] engano dos donos e evidência dos
danos”, enquanto “o Povo clama”. A prata derretida e lavrada é empregada
no tráfico de escravos de Angola: “[...] como a riqueza natural dos de Angola
consiste em panos e em vidas fundem o mais permanente nas baixelas de
prata lavrada que mandam ir desta Cidade da qual vão para aquele Reino
cada ano nesta espécie vinte e cinco e trinta mil cruzados”1411.
Referindo a Representação de Câmara Coutinho, escrevem que o remédio
proposto pelo governador141 fica sujeito ao prejuízo e à indústria dos ourives,
que continuam não respeitando nenhuma das novas leis sobre a moeda: “[...]
são mais prejudiciais os ourives em desfazê-la que os mercadores em levá-
la”142. Por isso, solicitam que os oficiais da Câmara requeiram ao capitão-
geral o lançamento de um bando que proíba, antes que partam os navios para
Angola, que nenhuma pessoa da Bahia, de qualquer qualidade e condição,

137. Idcm, ibidem.


138. Idern, ibidem.
139. Idem, p. 204.
140. Idem, ibidem.
141. Em 4.12.1692, Câmara Coutinho pede ao Rei que mande lavrar “dois milhões de moeda provincial,
assi de prata, como de ouro, para todo o Estado do Brasil [...] a qual moeda tenha tanto mais valor
extrínseco quanto baste para obrigar a que se não leve do Estado: com proibição e pena grave [...]
aos ourives para que desta soma de moeda não lavrem prata ou ouro algum que sirva a outros
usos". Também pede, em nome da “pobreza deste Estado [...] muita e grande, tanto mais digna de
ser ouvida quanto são as suas vozes mais fracas”, que se fabriquem mais “40000 cruzados em
moeda miúda” para o troco c as esmolas dos mendigos. Cf. A. L. G. C. Coutinho, op. cit., pp. 151 e
ss. Por lei de 8.3.1694, a Coroa manda montar na Bahia uma Casa da Moeda e refundir o numerá­
rio existente.
142. “Requerimento que fez o Juiz do Povo e Mesteres sobre a Moeda e prata feito aos 11 de fevereiro",
Alas da Câmara 1684-1700, vol. 6, p. 205.

161
A SÁTI RA F. 0 E N G E N H O

mande fazer prata lavrada para Angola sob pena de 500 cruzados, nem reme­
ta o que está feito sob pena de se tomarem duas partes para a Fazenda Real e
outra para o denunciante público ou secreto. Na mesma pena devem incorrer
o mestre ou passageiro que aceitem levar a prata: duzentos açoites o mari­
nheiro ou mandador do navio a quem a prata for entregue. O ourives que
dentro de 24 horas da publicação do bando não vem declarar ao procurador-
mor da Fazenda a prata que tem lavrado para Angola e quem a encomenda
paga o mesmo valor dela. Incorre na pena vil (açoites) o obreiro que, passado
aquele termo, não o denuncia. Os ourives devem comunicar, dentro de três
dias a partir do bando, toda a prata fundida que possuem, seja para Angola,
seja para Salvador. Nenhum ourives pode aceitar prata velha para fazer obra
nova sem primeiro apresentar à Câmara o registro dos marcos, que lhe são
entregues pesados pelo contratador na presença do juiz e do escrivão da Câ­
mara. Deve-se ainda declarar o dono da prata, identificá-la com um sinal
apropriado e também identificar os novos oficiais ourives da Cidade143. Os
mesmos procedimentos devem ser seguidos quanto à prata do culto divino144.
Evidencia-se neste requerimento e em inúmeras cartas e atas que a eva­
são da moeda e sua fundição atingem todo o Império, principalmente a partir
da metade do século XVII, quando a prata peruana de Potosí contrabandeada
de Buenos Aires deixa de chegar à Bahia. Toda a segunda metade do século
vive a crise da falta da moeda circulante, acumulando-se medidas para saná-
la. Como demonstra Carl A. Flanson, as Cortes de Lisboa de 1668 propõem
desvalorizar a moeda de ouro em 20% como meio de reduzir a quantidade do
metal precioso necessária para pagar salários de mercenários franceses e in­
gleses, principalmente, que trazem as montarias para Portugal. O sustento e
o transporte dos animais somam-se aos salários, que orçam por 100 mil cru­
zados mensais145. Propõe-se então que, aumentando-se o valor facial da moe­
da de ouro pela cunhagem de moedas com valores superiores ao valor intrín­
seco, salva-se um quinto do metal que foge para o estrangeiro. Os reajustes
monetários fazem parte da legislação protecionista146intensificada pelo Con­
de da Ericeira na década de 1680. Em 1663, a moeda de prata é desvalorizada
em 25%. Por volta de 1680, a Câmara de Lisboa demonstra serem necessários
160 réis para em Portugal comprar um artigo que se compra por 100 na Ingla­
terra. Em 1668, como a evasão do metal continua, a Junta e o Conselho ale­

143. Idem, p. 206.


144. Idem, p. 207.
145. Carl A. Ilanson, Economia e Sociedade no Portugal Barroco 1668-1703, Lisboa, Publicações Dom
Quixote, 1986, p. 167.
146. Idem, p. 168.

162
A M U R M U R A Ç Ã O DO CORPO M ÍST IC O

gam que as reservas de ouro e prata estão mais reduzidas com a desvaloriza­
ção, uma vez que os comerciantes estrangeiros colocam mais facilmente seus
produtos em Lisboa, vendendo-os em maior quantidade e, assim, levando
mais prata e ouro para seus países147.
E prática rotineira, como se leu no requerimento do Juiz do Povo, raspar
os bordos das peças de ouro e prata, apagar-lhes o valor facial, fundir as apa­
ras acumuladas ou as moedas e vender o metal. Apesar das penas governa­
mentais, que incluem multas pesadas e degredo de quatro anos em Angola
para os infratores, na década de 80 o corte e a fundição se intensificam. A
desvalorização de 1688, que acompanha a desvalorização espanhola da pataca,
de 1686, torna precária a situação no Brasil. Por ordem da Coroa, a moeda
brasileira deve circular de acordo com seu valor intrínseco, não com o valor
facial148. A cotação da moeda metropolitana com um valor inferior ao da moe­
da do Brasil acelera a evasão da prata e ouro coloniais, como se leu no reque­
rimento. A conseqüência da falta crônica de moeda corrente é o recurso aos
empréstimos a crédito por parte dos senhores de engenho, como se viu, geral­
mente com hipoteca dos engenhos ou parte deles e, principalmente, das sa­
fras. Torna-se rotineira, segundo as cartas, a prática de garantir o empréstimo
com a colheita seguinte, cujo preço é fixado antecipadamente abaixo do pre­
ço do mercado149, com grande murmuração dos senhores contra os negocian­
tes. Como se viu, muitos credores executam as dívidas nos escravos.
Em 14 de fevereiro de 1693, os oficiais da Câmara determinam que ne­
nhum ourives pode lavrar prata sem que primeiro venha à Câmara registrá-
la, declarando o nome do destinatário da obra. A intervenção da Câmara con­
tra os ourives prescreve medidas severas: trinta dias de cadeia para o ourives
e 6 mil-réis de recompensa para o denunciante. A murmuração entre os oficiais
mecânicos intensifica-se, bem como a murmuração das denúncias motivadas
pela cobiça. As penas da Câmara são mais severas ainda para os ourives que
fazem obra de prata não registrada. Executa-se neles a pena da Ordenação,
livro V, título 12, parágrafo 5: dez anos de degredo na África, com perda da
metade da fazenda150. A lei atinge não só os que fundem moeda, mas também
todos os que a mandam fundir. Contradição, portanto, uma vez que a mesma

147. Idem, ibidem.


148. Idem, p. 242.
149. Cf. Stuart B. Schwartz, Sugar Planlations in lhe Formalion of Brazilian Society, Bahia 1550-1835,
Cambridge, Cambridge University Press, 1985, p. 205. [Trad. bras.: Segredos lutemos, São Paulo,
Companhia das Letras, 1988.]
150. “Termo de acórdão que tomaram os oficiais da Câmara sobre o requerimento que fez o juiz do Povo
da moeda e prata lavrada”, Alas da Câmara 1684-1700, vol. 6, p. 209.

163
A SÁ T IR A K O E N G E N H O

prata lavrada a mando de senhores compra escravos em Angola para suprir a


falta crônica de mão-de-obra que diminui os lucros senhoriais, principalmente
após as epidemias de 1686-1690. Ao mesmo tempo em que tomam tais medi­
das, os oficiais continuam reclamando providências ao Rei, lamentando-se:

[...] a l é m d a s R a z õ e s q u e a S u a M a j e s t a d e se t ê m R e p r e s e n t a d o , e d a s q u e p o r p a r t e d o s
B r a ç o s E c le s i á s t i c o s e N o b r e z a , n e sta o c a siã o t a m b é m se a le g a m , q u e to d o s p r o p o m o s ,
e a p r o v a m o s, a t e n d e n d o m a is e m p a rticu la r no ú ltim o , e m a is m ise r á v e l e sta d o nosso,
do q u al tod avia se c o m p õ e o g ra n d e C o r p o desta R e p ú b lic a , n ã o d e ix a r e m o s d e exp or
a o s C l e m e n t í s s i m o s o l h o s d e S u a M a j e s t a d e c o m o P ai, e P r ín c ip e n o s s o , o q u e d e sta
g r a n d e falta d e d i n h e i r o p a d e c e e s te s e u P ovo. P rim eiro : u m a g r a n d e , e q u a s e e x t r e m a
n e c e s sid a d e d o n e c e s sá r io para su s te n to da v id a , p o rq u e o s N o b r e s , e E c le siá stic o s,
vivem , ou das S u as F azendas, ou das suas C ôn gru as, e su p osto ten h am grande dano e
d e t r im e n t o na falta da M o e d a é s e g u n d o m a is o u m e n o s a v iv e r c o m m a is lim ita ç ã o ,
p o r é m o P o v o , q u e s o m e n t e se a lim e n t a d o tra b a lh o d e su a s m ã o s , e d o su o r d e seu
R o s t o n a s o b r a s m e c â n i c a s , e f a l t a n d o o c o m q u e s e m a n d e m f a z e r , o u já f e i t a s , c o m q u e
se p a g u e o q u e n e l a s s e o b r o u , f i c a m e a n d a m o s O f i c i a i s f a m i n t o s e o c i o s o s , e n e s t e
e s ta d o p e la m a io r p a rte se a c h a o P o v o da B a h ia , d e p o is q u e n ela falta a m o e d a . S e g u n ­
do, q u e p o r esta ca u sa a s T e n d a s de m u it o s O fic ia is tra b a lh a m m u it o m e n o s d o que
c o s t u m a v a m , e m u i t a s d e t o d o s e f e c h a m , p o r q u e c o m a f a l t a d a m o e d a c a d a u m se
r es tr in g e, e r e m e d e ia c o m m e n o s obra do q u e p e d e a S u a n e c e s s id a d e , d e q u e R esu lta
p a g a r e m -s e as ob ra s p o r m e n o s p reço p o rq u e s o b e ja m e m g r a n d e n ú m e r o o s O f ic ia is e
O b reiros, e p ela m a io r parte a n d a m v a g a b u n d o s, p o rq u e o s q u e h a v ia m de ocu p á -lo s,
c o m o a s o b r a s s ã o m e n o s se m e d e i a m c o m m e n o s o b r e i r o s p o r n ã o p o d e r e m p a g a r
m ais; o u tr o s d e p o is de tra b a lh a r em , fica m sem p aga do S eu trab alh o, c o m q u e se vão, e
fica m im p o s s ib ilita d o s a ex erc ita r se u s O fíc io s, e c o n s e g u in t e m e n t e a v iv e r e m v a d io s, o
q u e m a i s c la r a m e n te se v ê n o S e r v iç o d o s E n g e n h o s , e m a is F a z e n d a s , p o r q u e , i m p o s s i ­
b i lit a d o s o s S e n h o r e s d e l e s a p a g a r o s jo rn a is q u e sã o m u i t o s a d i n h e i r o , p e lo n ã o te­
rem , n e m h a v ê -lo d e s p e d e m s e u s se rv en te s, e fica m i m p o s s ib ilit a d o s para as F á b r ic a s
d o A çú car. T e rceiro: p o r q u e e s s e s tais v e n d o q u e tr a b a lh a m s e m fru to , m o r r e m d e ío m e ,
e se m e t e m p e lo in te r io r d o S ertã o d e sta C id a d e , q u e é i m e n s o , e h o je m u i t o p o v o a d o de
C u rra is m a io r e s p o r o n d e d isco r rem fa zen d o m il in s o lê n c ia s a q u e o s ob rig a , p or um a
p arte a fo m e , e n e c e s s id a d e , p o r ou tra o p e c a r e m se m m e d o d a J u stiç a a D iv in a , p o r que
a n ã o v ê e m , e a H u m a n a n ã o r e c e i a m p o r q u e l h e f ic a m u i t o l o n g e 1' 1.

Longa a citação porque é admirável seu poder de figurar eventos como o


desemprego das mecânicas, o descontentamento, a fome, a ociosidade, as in­
solências da crise. Segundo os oficiais da Câmara, são os comerciantes que
lucram, pois fazem o dinheiro render só na venda: 5 cruzados de bacalhau em15

151. Carias do Senado 1692-1698, vol. 4, p. 11.

164
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O MÍ S T I C O

Lisboa tornam-se 20 cruzados na Bahia152. Uma carta de 1689 pede ao Rei


ordene a cunhagem de moedas de vintém, 2 vinténs, meio tostão, 3 vinténs, 4
vinténs e tostões: “[...] que tenha toda de valor intrínseco 25 ou 30% menos,
para assim se não poder levar”. Representam os agentes da Carta “[...] a geral
queixa da Pobreza, e Povo”, referindo “[...] os descômodos que padecem por
falta de troco” para compras miúdas, além do grande prejuízo da caridade:
não há moedas para as esmolas dos mendigos...153
Como um índice muito explícito de controle da murmuração da “Pobre­
za” e também da absoluta naturalidade da hierarquia que prevê os mendigos
e suas esmolas, pedidos semelhantes são reiteradamente feitos. Por exemplo,
em l2 de julho de 1693, após repisar o lugar-comum da “ruína de toda a Re­
pública” e novamente tratar do crédito, das execuções de dívidas e falências
de senhores, a Câmara escreve que as missas faltam, pois os capelães se vêem
sujeitos a dizê-las fiadas por não haver dinheiro para pagá-las; que os mendi-
cantes não têm esmolas; que perece o culto divino nas celebrações dos santos,
na pompa das armações, no ornato dos altares; que tudo o mais fenece: “[...] o
que podia ser exemplo da grandeza dos ânimos vai passando a ser mágoa da
piedade cristã”154. Piedosamente, propõe-se outra vez que se reduza a moeda
provincial, conferindo-lhe maior valor extrínseco que impeça o saque para
fora do Brasil. Que se abra Casa da Moeda em Salvador para fundir a moeda
havente - por exemplo, com o ouro que vem da Costa da Mina, suprindo com
ela a falta155.
Desde os anos de 1670, os oficiais pedem a criação da Casa da Moeda
Provincial, comparando o Brasil com a índia, onde a Coroa tem três “em Goa,
Rio e norte”156. A resposta do Rei é legível, por exemplo, em Carta de 24 de
julho de 1680, tomada aqui como exemplo do que se repete em outras até o
final do século: “Não foi Vossa Alteza servido deferir até agora”157.
E com essas referências de crise açucareira e falta crônica da moeda que
outras “conseqüências muito prejudiciais” que desordenam a hierarquia se
ordenam nos discursos das atas e cartas. Entre elas, a murmuração e subleva-
ção dos soldados do Terço da Infantaria por falta de soidos e farinha para o
pão do seu sustento. Conflitos com a Infantaria agitam Salvador nas cartas
dos anos finais do século XVII, envolvendo a Câmara, mercadores, membros

152. Carias do Senado 1673-1684, vol. 2, p. 101.


153. Carta de 16.7.1689, Carias do Senado 1684-1692, vol. 2, p. 85.
154. Carta de 1.7.1693, vol. 3, p. 116.
155. Idem, ibidem.
156. Carta de 15.7.1679, vol. 2, p. 54.
157. Carta de 24.7.1680, vol. 2, p. 83.

165
A SATIRA E 0 E N G E N H O

da Relação, produtores de farinha, o clero, governadores, além da população


genericamente referida como sobretaxada de impostos, descontente e mur-
muradora, e, evidentemente, os soldados. Alguns dos envolvidos são citados
nominalmente na sátira, como o governador Câmara Coutinho, os desembar­
gadores Cristóvão de Burgos e José de Freitas Serrão, o “Rabo de Vaca”. Ou­
tros, como oficiais da Câmara e mercadores, são referidos genericamente, como
tipos. A sátira também dramatiza o referencial dos discursos quando representa
as “farinhas: tardas”, os “sírios mesquinhos”, “guardas”, “meirinhos”, “sar­
gentos”, “mulatos”, “fome” e “murmuração”.
Cerca de 2500 homens compõem o Terço da Infantaria acantonado em
Salvador em fins do século XVII. Estabelecido no tempo de Dom João IV num
contrato pelo qual a população se obriga a pagar e alimentar os soldados, o
Terço defende a Cidade contra inimigos externos. Como só entra em ação
quando há guerra, sua situação é ambígua: desfruta uma ociosidade mantida
pela população sobretaxada. A murmuração é grande: pagam-se impostos para
alimentar o ócio de soldados que produzem distúrbios que ameaçam os que
pagam... Uma carta de 12 de agosto de 1688 sintetiza o que se acha dissemina­
do por muitas outras dos trinta anos finais do século XVII:

[...] não chegam hoje estes efeitos [recursos do açúcar e dos vinhos] à conta de 50 Quin­
tos, que monta o Sustento desta Gente de Guerra, c é força repartir no Povo por Finta o
que falta de que ele Clama, Sentido de tantas Contribuições, e mais neste tempo em
que Seus frutos não têm estimação, e lhe faz maior o Sentimento ter-se acabado a Guer­
ra, e comprada a Paz à Custa deste Estado, e esta Cidade Só em um milhão e 280
Quintas, e não ser escusada do Sustento da Guerra, que aceitou só porém quanto ela
durasse. Para nisto ter este Povo algum alívio nos pareceu propor e Pedir a Vossa Majes­
tade com a humildade devida seja Servido mandar reformar um Terço dos Dous que
tem esta Praça, reduzindo a um toda a Infantaria que há em ambos, e a dos Artilheiros
não exceda de Sessenta, que por gozarem de seus Privilégios assentam muitos esta
praça sem dela entenderem, nem saberem. Também não parece justo, que as reformações
Sejam pagas à Custa do Povo, pois é Mercê Real, e não o Sustento a que nos Sujeitamos,
assim mesmo as Casas, e Cavalo do Tenente General e seu Ajudante, e outros oficiais;
Cujos aluguéis montam também Despesa considerável; E se dão por Despachos do
General, Sem atenção a que não é Fazenda Real mas só de Serviço que faz o Povo; e há
Casas tomadas pelos Tenentes e seus Ajudantes de Cincoenta mil-réis de Aluguel: Tudo
isto Senhor pede reformação158.15

15S. Carta de 12.8.1 688, vai. 3, pp. 56-57.

166
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R PO M ÍS T IC O

Já em 24 de novembro de 1673, os oficiais da Câmara escrevem ao Prínci­


pe informando-lhe que, como falta o dinheiro do pagamento da Infantaria e
como a despesa procede da taxação dos vinhos de Portugal e da terra, a Câma­
ra se vale de um empréstimo de 8 mil cruzados em vinhos da ilha da Madeira,
feito pelo rendeiro deles, João Rodrigues Reis. Informam que os fazem “[...]
repartir pela vendagem das tavernas recebendo 2000 réis de cada pipa”159. Os
mercadores que têm o mesmo negócio julgam-se lesados, contudo, e agravam
da Câmara para a Relação, argumentando que o Rei proíbe o estanco, contra­
tado com um tal Sebastião Duarte. Defendendo-se, a Câmara responde que
na preferência da venda de oitenta pipas de vinho que se gastam em um mês
não se faz estanco, nem há ordem real em contrário, afirmando que são “efei­
tos” da Câmara. Alega que se prefere sua venda a todos para remediar a ne­
cessidade dos soldados “[...] contra os quais havia queixas de roubos que se
faziam atualmente de noite a que dava ocasião ser a necessidade”160. A carta
evidencia, desta maneira, a precariedade da situação dos soldados, aos quais
faltam o soldo, a farda e a farinha. Para “[...] prevenir maiores excessos mui­
tas vezes vistos” é que as medidas são tomadas, afirmam os oficiais da Câma­
ra, declarando que nisto não se prejudicava o negócio dos Particulares” e
alertando para “[...] o maior respeito e atenção aos danos que procedem de
Soldados inquietos por mal pagos”161162.Os agentes ainda alegam que há muitos
exemplos de procedimento semelhante, lembrando a venda “[...] dos açúca­
res dos Dízimos de Vossa Alteza lançados violentamente pelos homens de
negócio quando falha dinheiro por eles ao Contratador”163.
Apesar da “necessidade” e das “ruins conseqüências de Soldados mal
pagos”, a Relação julga que os mercadores de vinho estão agravados. A Câ­
mara recorre diretamente ao Príncipe, assim, pedindo-lhe resolver o que há
por seu serviço, pois “[...] este é o meio mais fácil e pronto de remediar-se o
socorro dos Soldados nas ocasiões de necessidade sem vexações do Povo”163.
Não há notícia do prosseguimento da pendência, mas uma carta de 30 de
janeiro de 1675 repropõe o tema sob outro aspecto. Segundo os oficiais da
Câmara, o desembargador sindicante Sebastião Cardoso de Sampaio diz ter
ordem real para remeter o dinheiro recolhido a fim de pagar a Infantaria
para o Conselho Ultramarino, em Portugal. Por esta razão, alegam os oficiais,

159. Carta de 24.11.1673, vol. 2, p. 3.


160. Idem, p. 4.
161. Idem, ibidem.
162. Idem, íbidem.
163. Idem, ibidem.

167
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

o sindicante não permite que se despenda no sustento dos soldados, retendo o


imposto nas mãos do tesoureiro. Novamente, o Príncipe é invocado como su­
prema instância na apelação dos agentes: a Câmara pede-lhe ordenar que o
dinheiro seja efetivamente gasto no sustento do Terço. A referência do “senti­
mento geral do Povo” efetua, no discurso, a indignação dos que pagam o im­
posto da Infantaria:

[...] pois assim foi condição quando tomamos sobre nós o sustento dela e o Juiz do Povo
nos fez presente o sentimento geral do Povo por se lhe querer levar o dinheiro que
pagam para este serviço de Vossa Alteza e ser necessário lançar-se-lhe finta para outro
sendo que sempre pagam que por não chegar se está sempre devendo aos Soldados
alguns meses de seus socorros1'’4.

A sonegação continua, porém, e a pendência se arrasta indefinidamente,


embaraçada nos trâmites da burocracia. Medidas paliativas são tomadas, com
outros desdobramentos. Por exemplo, em 31 de agosto de 1678, a Câmara
registra uma carta dirigida ao governador Roque da Costa Barreto. Nela, re­
corda-se que Barreto lhe passa despacho que ordena pagar a Infantaria com
sal, uma vez que algumas rações de farinha estão atrasadas. A Câmara contes­
ta-lhe a ordem, alegando que os “efeitos” mais imediatos que se têm para o
sustento da Infantaria são “[...] o líquido da pensão que paga o sal”. Com o
dinheiro dele, alega-se, a Câmara compra farinha com preço mais baixo às
“Vilas de Baixo”, Cairu, Camamu e Boipeba: “e o damos aos soldados pelo
mais alto, donde resulta o ganho de 100%”. A Câmara alega que, “dando em
sal e dinheiro” o pagamento, deixa de lucrar165. Citando o lucro, voltam os
oficiais ao tema do dinheiro da carta de 1675, afirmando ao governador que
esperam ordem para pagar-se à Câmara o dinheiro que “[...] Sua Alteza man­
da das de sua real Fazenda que se nos está doando, e com elas suprimos estes
atrasados”. Junta-se no discurso outro prejuízo à miséria dos “pobres solda­
dos”166. Quando pagos em sal, que não lhes serve de matar a fome, vendem-no
com muita perda: “[...] dando-se-lhe o alqueire a pataca o vendem por meia”.
Porém, dizem, se o governador ordena tal pagamento, deve fazê-lo por porta­
ria que os exima da responsabilidade: “[...] será necessário que conste que
não provam esta perda de nossa negligência e omissão senão de que Vossa
Senhoria assim o entendeu”167.

164. Carta de 30.1.1675, Cartas do Senado 1673-1684, vol. V, p. 22.


165. Carta de 31.8.1678, vol. V, p. 37.
166. Idem, ibidem.
167. Idcm,ibidem.

168

á
A M U R M U R A Ç À O DO CORTO M ÍST IC O

Em 30 de julho de 1681, a Câmara torna a escrever ao Príncipe sobre a


ordem de entregar o dinheiro que o sindicante Sampaio, referido na carta de
24 de novembro de 1673, deixa depositado. Lembrando outra carta de 1675
sobre o mesmo Sampaio, “[...] que não entregava os efeitos digo cobrava per­
tencentes a este Senado”168, afirmam os agentes que esperam do Príncipe a
ordem, uma vez que consta do encargo do tesoureiro entregar várias partidas
de dinheiro. Ocorre que, por ordem real, o desembargador José de Freitas
Serrão substitui Sebastião Cardoso de Sampaio. Indo para a Corte, Serrão
deixa “400 e tantos mil-réis” depositados com o tesoureiro Antônio de Azeve­
do Moreira, os quais pertencem ao sustento da Infantaria. Informam os agen­
tes que, pedindo a Câmara a quantia ao desembargador Bento de Barros Rosei­
ra, nomeado pelo governador Roque da Costa Barreto na forma de uma ordem
régia para acabar os negócios da Sindicatura, ele responde “[...] não ter ordem
para entregar dito dinheiro”169. Mais uma vez, assim, a Câmara representa a
sonegação junto ao Príncipe, pedindo-lhe mandar entregar o dinheiro “[...]
visto serem de efeitos pertencentes a este Senado e aplicado para a paga da
Infantaria”170.
A falta dos “efeitos” causada pela sonegação e pelos casuísmos soma-se o
não-pagamento das quantias tributadas. São extremamente comuns os re­
querimentos para que sejam cobradas. Por exemplo, o de 11 de dezembro de
1686, do capitão Baltasar Carvalho da Cunha, tesoureiro do Senado:

[...] O T e s o u r e i r o d e s t e S e n a d o B a l t a s a r C a r v a l h o d a C u n h a r e q u e r a v o s s a s m e r c ê s
m a n d em cobrar todas as p esso a s q u e d e v e m a este S en a d o o q u e é p e r te n c e n te ao s u s ­
tento da I n f a n ta r ia , e q u e lh e faça p a g a r o q u e o d ito S e n a d o d e v e e p a ra q u e se n ã o
p e r c a m a l g u n s d e s t e s e f e i t o s p e l a d i l a ç ã o c o m q u e h ã o c o m q u e m o s d e v e m [s ic ] 171.

Ou, ainda, em 27 de janeiro de 1687, quando os vereadores Domingos


Dias Machado e Miguel Gomes, mais o procurador Domingos Pires de
Carvalho, requerem aos Juizes do Ordinário “[...] que presentes estavam
que mandassem cobrar todas as dívidas pertencentes aos oficiais da Infan­
taria para assim lhe acudir com a ração ordinária em que se lhe costuma
dar”172.

168. Carta de 30.7.1681, Carias do Senado 1673-1684, vol. 2, p. 100.


169. Idem,ibidem.
170. Idem,ibidem.
171. “Termo de Vereaçào e Requerimento que fez o Tesoureiro o Capitão Baltasar Carvalho da Cunha
em 27.1.1687”, Atas da Câmara 1684-1700, vol. 6, p. 65.
172. Ata de 27.1.1687, Alas da Câmara 1684-1700, vol. 6, p. 73.

169
A SÁTI RA E O E N G E N H O

Concorrem para o não-pagamento do tributo a baixa geral do açúcar e a


escassez da moeda, conforme se viu, além de outros fatores locais, como o
“sentimento geral” e o “escândalo” da população, que se recusa a pagar quan­
do vê a sonegação do dinheiro ou o desvio das farinhas. Carta de 25 de março
de 1688 para o procurador da Bahia na Corte, o capitão Manuel de Carvalho,
expõe-lhe que:

[...] d e p r e s e n t e n ã o c h e g a m o s e f e i t o s a p l i c a d o s a o s u s t e n t o d a d i t a I n f a n t a r i a , p e l a
d i m i n u i ç ã o c o m q u e se a r r e m a t a m , o q u e t a m b é m e x p e r i m e n t a a F a z e n d a R e a l, o c a s i o ­
n a d o d a p o u c a sa íd a d o açúcar, q u e é a total ru ín a d e s te E s ta d o , e n e s t e s te r m o s, n ão
p o d em os p ovos con sigo, q u an to m ais com novas co n trib u içõ e s, que certamente se hão de
fazer, se n o s n ã o a l i v i a r e m p a r t e d a c a r g a d a I n f a n t a r i a 173.

Em 20 de agosto de 1688, o juiz Ordinário, coronel Francisco Dias d’Avila,


requer que se executem todas as cobranças pertencentes à Infantaria para
assim se lhe não faltar com a ração ordinária a que são obrigados. Pede listas
das pessoas deventes para passar os mandatos das execuções. Os oficiais da
Câmara determinam, na ocasião, que, não pagando os devedores ou fiadores,
sejam presos na forma da lei174.
Em 23 de outubro de 1688, os soldados se rebelam. A Bahia acha-se asso­
lada do “mal da bicha”. Morre na mesma data o governador Matias da Cunha,
assumindo o cargo interinamente o arcebispo. Grande confusão e medo, pois
os soldados ameaçam entrar na Cidade e saqueá-la, especialmente as casas
dos oficiais da Câmara:

F o r a m o s s e u s c a b o s ao c a m p o a so s s e g á -lo s e r e d u z i- lo s , s e g u r a n d o - l h e s d a parte
d o g o v e r n a d o r e d o S e n a d o a p r o n t i d ã o d o s s o i d o s q u e se l h e d e v i a m , a f e a n d o - s e a q u e l e
m o t i m s e m p r e d e t e s t á v e l , e m a i s f e i o n a q u e l a o c a s i ã o d e t r â n s i t o m o r t a l e m q u e se
ach ava o seu g e n e r a l, m a s n ã o p u d e r a m p ersu a d i-lo s. A m e s m a d ilig ê n c ia fez o a rceb is­
p o e m u m a c o n c e r ta d a p rá tica , e a in d a q u e se m o d e r a r a m n o s e x c e s s o s q u e fa z ia m em
t o d a s a s p e s s o a s q u e c o m c a r g a s d a s fa z e n d a s v i z i n h a s p a s s a v a m p o r a q u e la estrada,
n ã o s e r e d u z i r a m , c o n t i n u a n d o n a m e s m a r e s o l u ç ã o 175.

Consegue-se, às pressas, juntar a quantia devida. Levada ao Campo do


Desterro, pagam-se os nove meses de soidos atrasados. Os soldados mantêm-

173. Carta de 25.3.1688, Carias do Senado 1684-1692, vol. 3, p. 75 (grifo meu).


174. Ala de 20.8.1688, vol. 6, p. 111.
175. Cf. Sebastião da Rocha Pita, op. cil., p. 201.

170

Á
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

se armados, contudo, exigindo o perdão geral do governador Matias da Cunha,


que ainda vive, e do arcebispo, seu sucessor. O indulto é concedido e eles
entram na Cidade para assistir ao enterro do governador. São traídos, contudo.
Uma carta do novo governador, Antônio Luís Gonçalves da Câmara
Coutinho, ao Rei, datada de 16 de junho de 1691, depois de referir que mais de
trezentos soldados se rebelaram e que muitos se encontram foragidos no ser­
tão e que outros estão degredados para Angola e Pernambuco, pede ordem:

[•■■] S ó J o ã o d a S i l v e i r a d e M a g a l h ã e s [...] q u e e s t á n e s t a p r a ç a p o r o r d e m d e V o s s a
M a j e s t a d e t e n h o p r e s o n a e n x o v i a d e s t a C i d a d e , p o r q u e fo i c a b e ç a d e s t a a l t e r a ç ã o , e o
que d ava as r e s p o s ta s a o s C a b o s , q u a n d o o s iam red u zir, a n d a n d o c o m u m a e s p a d a e
rodilha c a p it a n e a n d o o s le v a n ta d o s , e ju n t a m e n te fez n esta C id a d e c o u s a s q u e n ã o são
p ara s e d i z e r e m p r e s e n ç a d e V o s s a M a j e s t a d e , e n e s t e p a r t i c u l a r p o d e r á V o s s a M a j e s t a ­
d e o r d e n a r - m e o q u e h e i d e f a z e r l7,\

A ordem régia é ditada em Lisboa, em 16 de fevereiro de 1692:

G o v e r n a d o r d o E s t a d o d o B r a sil. E u E l- R e i v o s e n v i o m u i t o sau d ar. Vi a v o s s a


carta e m q u e m e d a i s c o n t a d o q u e t í n h e i s o b r a d o c o m o s c u l p a d o s e m o m o t i m q u e
h ou ve n essa c id a d e n o s ú lt im o s d ia s da v id a d o G o v e r n a d o r M a t ia s da C u n h a c o q u e
vos p a r e c e u so b r e a m e s m a m a té r ia e m e c o n f o r m o c o m o q u e m e r e p r e s e n t a is ser m a i s
co n v en ien te a p ro v a n d o -v o s tu d o o que ten d e s obrado e m que p r o c e d e ste s c o m a p r u ­
dência e acerto q u e e u d e v ó s esperava. N o q u e resp eita a João d e M a g a lh ã e s q u e t e n d e s
preso p or ser c u l p a d o n o m e s m o m o t im . H e i p o r b e m q u e n a p r im e ir a e m b a r c a ç ã o q u e
p a r tir p a r a o R e i n o d e A n g o l a o m a n d e i s c o m c o m i n a ç ã o d e n ã o t o r n a r a e n t r a r e m
tem po a lg u m n essa c id a d e p or se co n sid er a r q u e n ão c o n v é m p assar-se a m a io r d e m o n s ­
tração p o r n ã o s e r a ú n i c a p e s s o a c o m q u e m s e faça e m u m d e lit o e m q u e h o u v e m u i t o s
c u l p a d o s , o q u e a s s i m e x e c u t a r e i s 177.
671

Controlado o motim dos soldados, o atraso dos pagamentos continua sen­


do praxe, porém, apesar do medo legível na enunciação de cartas imediata­
mente posteriores à sedição. Assim, por exemplo, em 2 de dezembro de 1688,
os agentes repisam o lugar-comum colonial do “ser hoje a despesa maior que
a receita”, avisando o Rei de que estão utilizando como empréstimo parte do

176. Cf. Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, “Carta para Sua Majestade sobre o Motim dos
Soldados desta Praça. Bahia 16.6.1691 ”, Livro de Carias que o senhor Antônio Luís Gonçalves da Câma­
ra Coutinho escreveu a Sua Majestade, sendo governador, e capitão geral do Estado do Brasil, desde o
princípio do seu governo até ofim dele (que foram as primeiras na frota que partia em 17 de julho do ano de
1691), Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
177. I. Accioli & Brás do Amaral, op. cit., vol. II, p. 247.

171
A SÁTIRA F- O E N G E N H O

donativo do dote de Paz de Holanda e do que se cobra para a construção do


cais de Viana:

[...] p a r a s e a c u d i r a s b o c a s d o s s o l d a d o s c o m a r a ç ã o o r d i n á r i a ; e a i n d a a s s i m s e n ã o
s a t i s f i z e r a m ; e p a r a s e l h e s c o n t i n u a r a s a t i s f a z e r o q u e se d e v e n o s p a r e c e m u i t o c o n v e ­
n ie n t e ao se r v iç o d e V ossa M a j e s t a d e trazer por o r d e m m u i t o ap e r ta d a o G o v e r n a d o r
q u e V o s s a M a j e s t a d e f o r s e r v i d o m a n d a r g o v e r n a r e s t a P r a ç a 1'*.

O novo governador deve, segundo os agentes, mandar cobrar executivamen­


te as pessoas devedoras dos “efeitos” da Infantaria e rendas da Câmara. A situa­
ção é tão grave em sua representação que pedem ao Rei que os “efeitos” sejam
excetuados da mercê de não se “[...] desfabricarem as fazendas e engenhos”1'9.
Todos devem pagar, enfim, sem exceções; o que não se dá, bastando lembrar aqui
a ordem-régia de 23 de setembro de 1692, que determina que Câmara Coutinho
apure queixas da Câmara contra o desembargador Cristóvão de Burgos, os pa­
dres da Companhia de Jesus, os artilheiros e bombardeiros, que se recusam a
pagar alegando privilégios e conseguindo sentenças favoráveis da Relação. Cris­
tóvão de Burgos é isentado de pagar as taxas de aguardente que destila em seus
alambiques. Quanto aos jesuítas, não se contentam com as 25 pipas de vinho que
recebem grátis mensalmente, e passam a exigir todas as pipas que seu reitor jul­
ga necessárias para o consumo mensal do Colégio e dos aldeamentos anexos. A
ordem régia evidencia também que é comum o expediente do alistamento como
artilheiro ou bombardeiro para isentar-se das contribuições e fintas, segundo
antigo privilégio180. A “população”, genericamente referida, também se esquiva
ao pagamento, segundo a Câmara, lançando mão de vários expedientes. Por isso,
ainda em 4 de dezembro de 1688, os oficiais pedem ao tesoureiro Antônio de
Azevedo Moreira um empréstimo de 5 mil cruzados para pagar a Infantaria “[...]
por se arrecear que fizessem algum levantamento”181. O levantamento temido é
efeito não só de andarem os soldados descalços e sem fardamento, ou do atraso
dos soidos, mas também da fome.
Anualmente, os oficiais da Câmara de Salvador reúnem-se com os procu­
radores das “Vilas de Baixo”, Camamu, Cairu e Boipeba, para fazerem o con­
chavo das farinhas de mandioca fornecidas aos soldados da Infantaria em
substituição do pão. Uma ata de 3 de outubro de 1687 relata o procedimento:

178. Carta de 2.12.1688, C a r i a s d o S e n a d o 1684-1692, vol. 3, p. 80.


179. Idem, ibidem.
180. I. Accioli & B. Amaral, o p . c i l . , vol. II, p. 254.
181. Ata de 4.12.1688, Alas da C â m a r a 1 6 8 4 - 1 700, vol. 6, p . 116.

172

A
A A1URM URAÇA0 DO CORPO M ÍST IC O

[...] s e a j u s t o u c o m o p r o c u r a d o r d a v i l a d o C a m a m u o L i c e n c i a d o V a r j ã o q u e d e v i a d i t a
v i l a 5 0 0 0 s í r i o s d e f a r i n h a [...] c o m a m e d i d a d e s e t e q u a r t a s d a m e d i d a d e s t a C i d a d e
q u e são 2 a lq u e ir e s da d ita v ila , a p r e ç o d e 3 2 0 réis e m e i o to stã o d e frete q u e ao to d o faz
3 7 0 r é i s v i n d a p o r c o n t a e r i s c o d e s t e S e n a d o d a C â m a r a [...] C a i r u [...] c a d a a n o 2 2 5 0
s í r io s d e f a r i n h a q u e s ã o o s m e s m o s d o a n o p a s s a d o p e l o p r e ç o d e 3 2 0 r e i s e 2 v i n t é n s d e
f r e t e q u e a o t o d o f a z 3 6 0 r é i s 1*2.

Outra ata, de 28 de fevereiro de 1693, relata o modo como a farinha é distri­


buída. Lê-se nela que os oficiais da Câmara determinam que o procurador re­
parta a farinha pelos soldados na forma do assento feito pelo Senado com o go­
vernador Conde de Castelo Melhor: “[...] 9 tostões e três quartos de farinha por
mês”182183. Os agentes do documento não querem que o procurador seja substituí­
do por outro porque “[...] passando a outra pessoa é sem dúvida certo não dar a
grande sobra que costumam dar os procuradores que servem com zelo [...] e faltando
são necessários mais de 200 mil-réis cada ano para se ajustar a Infantaria e pou­
pam estes porquanto se lhe ajusta com dita sobra”184. Ou seja: o procurador dis­
tribui menos que o necessário para os soldados, não ficando explícito se outros
que não ele desviam a farinha ou a dão na quantidade adequada. A Câmara de­
termina, no caso, que o procurador Jacinto de Guisenrode continue com a obri­
gação de recebere distribuira farinha na forma dos procuradores anteriores, não
aceitando seu requerimento “[...] que fazia de se livrar da moléstia e enfado de
repartir a farinha”185. Segundo a Câmara, distribuir farinha não diminui “[...] a
qualidade da pessoa” e, o que é muito elucidativo sobre a natureza do negócio,
“[...] de tal recebimento da farinha se dava conta a ministro algum, salvo por
ordem expressa de Sua Majestade, e somente para clareza se dava de uns a ou­
tros oficiais no que se mostrava claramente serem estes efeitos de muito diferente
qualidade e natureza”186. Facilmente se conclui do documento que a farinha pode
ser e é desviada, uma vez que seu distribuidor não presta contas a ninguém. Na
mesma ata se arquiva o que diz Guisenrode na sessão em que requer a dispensa:
“[...] somente a consideração de fazer o tal serviço o fazia aceitar sem reparar o
grande trabalho e maior moléstia que se tinha com os Sargentos e infantaria desta
Praça [...] e por evitar as queixas da infantaria”187- o que também é índice das
reivindicações e do descontentamento dos soldados.

182. Ata de 3.10.1687, vol. 6, pp. 94-95.


183. Ata de 28.2.1693, vol. 6, p. 214.
184. Idem, p. 215 (grifos meus).
185. Idem, p. 215.
186. Idem, ibidem (grifos meus).
187. Idem, ibidem.

173
A SÁTI RA H O E N G E N H O

A variação das medidas dos sírios, os danos sofridos por eles no transpor­
te, a desonestidade dos produtores, a conivência do governador ficam razoa­
velmente explicitados em outro requerimento de Jacinto de Guisenrode, em
1“ de agosto de 1693. Nele, o procurador da Câmara alega que está a seu cargo
o recebimento das farinhas dos conchavos que o Senado faz com as “Vilas de
Baixo” para o sustento dos soldados da Cidade. Guisenrode acusa a “conheci­
da falsidade” da medida dos sírios, atribuindo-lhe várias razões. No seu en­
tender, uma delas é não trazerem os ditos sírios uma divisão por onde se reco­
nheçam os pertencentes à Infantaria. Como o Senado paga 320 réis as vilas
referidas e como, na falta da farinha, quem a manda buscar “[...] paga 800 e
900 réis, os produtores diminuem a quantidade dos sírios da Câmara devido
ao aumento de seu valor quando os vendem a outros. Devendo ser de oito,
saem os sírios de Camamu, Cairu e Boipeba com sete medidas, “havendo-se a
respeito a ruptura da palha e avarias do mar e descuido no embarcar responsá­
reis pelas 7 medidas sempre perfeitas que o suplicante constata”188. Constata com
ironia, evidentemente, não se sabe se de Guisenrode ou do escrivão da Câma­
ra que a atribui a ele.
Guisenrode também relata, em seu requerimento, que dá parte da falsifi­
cação ao governador Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, falando-
lhe da falta das farinhas para o sustento da Infantaria. Segundo o documento,
o governador “[...] ordenou ao suplicante que as não registrasse ainda que viesse
com qualquer falta $onhecida”m . Não há indícios de envolvimento do governa­
dor no desvio das farinhas e o procurador Jacinto de Guisenrode aparece ho­
nesto nos documentos:

[...] e como os ditos sírios recebe o suplicante por 6 quartas e só acha trazerem 5 quartas
e pouco mais e isto prejudicar ao seu crédito [...] e como a este Senado toca o resolver
este incidente em ordem as contas que de futuro está o suplicante para dar do dito
recebimento requer o suplicante a este Senado para determinar o que deve o suplicante
haver sobre o recebimento da dita farinha falsificada1"".

A Câmara dirige-se ao governador, dando-lhe conta e pedindo-lhe provi­


dências, uma vez que o Senado não tem j urisdição sobre os moradores das “Vi­
las de Baixo”. A margem esquerda do documento, lê-se, anotado pelo escrivão:18

1S8. “Requerimento que fez o Procurador e Juiz do Povo e mesteres ao diante assinados sobre digo do
Procurador Jacinto de Guisenrode”, dias da Câmara I6S4-1700, vol. 6, p. 224 (grifes meus).
189. [dem, ibidem (grifo meu).
190. Idem, ibidem.

174

i
A M U R M U R A Ç À O D O C O R P O MÍ S T I C O

[...] d e f e r i u o S e n h o r G o v e r n a d o r p o r c a r t a s u a d e 2 2 d o c o r r e n t e [...] C o m o s e m p r e f o i
e s t i l o c o m c o m i n a ç ã o d e se t o m a r p o r p e r d i d o s t o d o s o s s í r i o s q u e s e a c h a r a m d e f e i t u o ­
sos o u s e ja m d a c o n t a d o c o n c h a v o o u para se v e n d e r ao p o v o a m e t a d e p a r a o p r e s í d i o
e a o u t r a p a r a o d e n u n c i a d o r d i t a c a r t a e s t á n o c a r t ó r i o 191.

Assim, os discursos dos oficiais da Câmara em atas e cartas recortam-se


em um espaço móvel de intervenções, temas e posicionamentos, no qual o
fundamento mercantil é o principal ordenador das trocas discursivas, segun­
do temas particularizados na ocorrência: produção do açúcar, exportação, baixa
de preços e prejuízos; importação de gêneros e preços monopolistas; impos­
tos e murmuração do “povo”; controle dos escravos e das classes mecânicas;
falsificação de gêneros e corrupção administrativa; falta de moeda e desesta-
bilização hierárquica; temor das pestes e urgência da mão-de-obra escrava;
descapitalização senhorial e crédito; autoridade dos oficiais da Câmara em
conflitos com magistrados da Relação, com eclesiásticos, com o governador;
imaginário fidalgo, reclusão social das mulheres solteiras e lucro mercantil,
enfim.
O “povo”, termo genérico nas Cartas e Atas, aparece diferencialmente
conforme a intervenção: fidalgos e foros falsos; clero e privilégios; mercado­
res e monopólio; ourives e fundição de metais; soldados ociosos e rebeliões;
escravos e doenças; mendigos e esmolas etc. Cada grupo de interesse, ordem
e indivíduos são, por sua vez, particularizados na ocorrência: pseudofidalgo
vindo de Lisboa com foro falso e apadrinhamento; certo magistrado da Rela­
ção; padres da Companhia de Jesus; freiras do Convento de Santa Clara do
Desterro; capuchinhos franceses; negociantes de vinhos, mercadores de açú­
car, financiadores do crédito; ourives que transformam a prata em baixelas;
mulatos e negros forros do Terço da Infantaria ou comerciantes de carnes192;
distribuidores de farinhas; governadores, conflitos e negócios de clãs ou pes­
soas particulares etc.

Discursos paralelos que efetuam temas comuns como designado, o da


Câmara e o da sátira interceptam-se, conforme se escreveu. Fazem-no dife-

191. [dem, pp, 224-225.


192. Muitas atas da Câmara de Salvador registram determinações baixadas pelos vereadores de que a
carne seja exposta pendurada para que o sangue escorra todo e não pese; açougueiros mulatos insis­
tem em expõ-la amontoada, contudo. As atas registram, neste sentido, intervenções dos juizes do
Povo contra eles, afirmando “porque são inimigos do Povo” como justificativas das medidas. Em
fins do século XVII, a Câmara chega a baixar ordens que proíbem a permanência dos mulatos
dentro do termo da Cidade.

175
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

rencialmente, contudo, pois ao posicionamento basicamente unívoco da Câ­


mara quanto aos temas opõe-se a abertura das posições encenadas na sátira.
Apersona satírica é, como diz a voz etimológica, vazia: convenção retóri­
ca, é um ator móvel que pode ser investido por posições institucionais que
asseguram, em cada ocorrência, o efeito de unidade virtuosa e contrastiva do
eu discursivo, bem como a possibilidade de sua mudança quando efetuado
em outras posições, segundo outros registros. Estes misturam-se nos poemas,
afastam-se, tornam a aproximar-se, traduzem-se uns pelos outros, sendo o caso
desenvolvido que unifica, no poema particular, os múltiplos valores que o
referencial discursivo que o preenche assume na posição institucional drama­
tizada, interpretando-se para o destinatário. Seja, por exemplo, o tema do
“mulato”: preceituário ético, pelo qual o “mulato” é aristotelicamente mau,
porque misturado; regulamentação jurídica, pela qual se classifica na “gente
baixa”, quando livre, e fora do corpo político, quando escravo; troca sexual, na
qual é “puta” e “animal”; fundamentação teológica, pela qual é naturalmente
escravo; classificação hierárquica, no fim do fim, abaixo dos brancos mais bai­
xos; pragmática de precedência, traje, formas de tratamento, pela qual é “atrevi­
do”, “vão”, “arrogante”, “desavergonhado”; referência letrada, na qual é “ladino”
ou “boçal”; transação econômica, pela qual é peça e mercadoria; ortodoxia cató­
lica, pela qual é “gentio” ou “herege”, “feiticeiro” dado ao calundu, ao sexo
nefando, a Satanás etc.
Um termo como “mulato”, assim, condensa uma hierarquia de níveis
efetuados na sátira segundo o relevo e o direcionamento dados a eles pela
persona satírica no poema particular. Tem por correlato não um indivíduo
empírico supostamente refletido ou dado na sátira, mas o campo institucional
em que o termo ocorre, segundo registros diversos, definindo um dever, uma
transgressão, um evento, um caráter, um tipo. Por isso, um termo como “mu­
lato” ocorre na sátira para referir tanto o branco quanto o não-branco, como
dramatização dos valores institucionais condensados nele. Por isso, ainda, o
tema dos poemas não é copiado diretamente da vida cotidiana, mas liga-se
sistemicamente a temas de outros discursos contemporâneos que se intertra-
duzem produzindo o evento e variantes dele para destinatários compostos
como cientes dos mesmos valores. Tal interpretação encontra-se em atas e
cartas como princípio ordenador e limite: além de temas, elas permitem esta­
belecer padrões de auto-representação de um grupo enquanto constitui o que
aí se dá como seu outro, segundo a hierarquia.
Da mesma maneira que o “bacalhau”, nas Cartas do Senado da Câmara, o
valor semântico de enunciados em que o termo “mulato” ocorre é condicio­
nado pelo valor particular que o enunciado assume em discursos éticos, jurí-

176

J
A A lU R M U R A Ç A O DO C ORPO M ÍS T IC O

dicos, sexuais, teológicos, econômicos, hierárquicos etc. O valor semântico da


informação refrata-se, uma vez que a sátira que a enuncia subordina o enun­
ciado à posição que a persona encena - no caso do “mulato”, por exemplo,
indignação e desprezo próprios dos “melhores”, “brancos” por definição.
Refrata-se, principalmente, porque o enunciado é justaposto a outro, para
compor mistos em que ocorrem enunciados de outros registros, como mescla
de valores raciais, religiosos, morais, econômicos, políticos etc.
Por isso, ainda, seria ingenuamente esquemático postular a empiria, pro­
pondo-se um nexo mimético imediato, sem mediação do artifício poético,
entre “farinha” (e “açúcar”, “moeda”, “soldados”, “padres”, “governadores”,
“mulatos”, “senhores” etc.) e “sátira”: tal nexo é redutor, pois a sátira não é
segunda em relação às farinhas e outros: seu discurso é tão real quanto elas,
constituindo de maneira muito ativa, como prática, a mesma realidade de
que faz parte e que acusa. A falsificação das farinhas e o atraso dos pagamen­
tos dos soldados, contudo, são condições materiais da produção dos discursos
locais que a sátira encena. Não determinam a significação da sátira de modo
unívoco, evidentemente, uma vez que ela é mista e genérica, pois opera com
tipos. São condições, porém, para especificar outras posições hierárquicas no
referencial local, donde a pertinência da análise das cartas e atas.
A univocidade das cartas, representada na posição do sujeito coletivo
“Câmara”, encontra-se disseminada nas posições da persona satírica. A sátira,
já se repetiu bastante, é retoricamente mista e esta sua inclusividade a dife­
rencia dos outros discursos, fazendo-a extremamente plástica, apta para mol­
dar um tema segundo outras posições discursivas diferenciadas. É o que se
dá, por exemplo, na dramatização do tema da “fome”:

1. T o d a a c i d a d e d e r r o t a
e s ta f o m e u n i v e r s a l ,
un s dão a c u lp a total
à C â m a r a , o u t r o s à fr ota:
a f r o ta t u d o a b a r r o t a
dentro d o s e s c o tilh õ e s
a carne, o p e ix e , os feijões,
e se a C â m a r a o l h a , e ri
p o r q u e a n d a fa r ta a t é a q u i ,
é c o u s a , q u e m e n ã o to ca:
Ponto em boca.

2. S e d i z e m , q u e o M a r i n h e i r o
nos p reced e a toda a L e i,
p o r q u e é s e r v i ç o d ’E l - R e i ,

177
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

c o n c e d o , q u e esta p rim eiro:


m a s t e n h o p o r m a is in te ir o
o c o n se lh o , q u e reparte
c o m ig u a l m ã o , ig u a l arte
p o r t o d o s , j a n t a r , e c e ia :
m a s frota c o m trip a c h e ia ,
e p o v o c o m p a n ç a oca !
P o n to em boca.

3. A f o m e n t e t e m já m u d o ,
q u e é m u d a a boca esfaim ad a;
m a s se a frota n ã o traz n a d a ,
p o r q u e razão leva tud o?
q u e o P ovo por ser sisu d o
la r g u e o o u r o , e la r g u e a prata
a u m a frota p a ta r a ta ,
q u e e n t r a n d o c o ’a v e l a c h e i a ,
o la str o q u e traz d e areia,
p o r l a s t r o d e a ç ú c a r tr o c a !
P o n to em boca.

(O C , II, pp. 4 3 5 -4 3 6 .)

Submetidos à interpretação econômica da enunciação, os enunciados têm


função referencial e avaliativa, mimética e judicativa: representam a fome da
Cidade e simultaneamente a interpretam como indigna. A informação eco­
nômica visa a obter a adesão do destinatário porque a persona afirma sentir
naquilo que informa. No caso, principalmente, porque articula a adesão a
uma medida superior, hierárquica, que venha corrigir o que critica. Apropriado
em Góngora, o refrão “Ponto em boca”, neste contexto discursivo, avalia e
explicita o limite da voz satírica, sendo reproposto por ela como função irôni­
ca de auto-imposição de silêncio. A enunciação diagrama, assim, vários pon­
tos da hierarquia, pelo menos três: teatraliza em sua dicção a fome da Cidade,
que murmura indignada através dela; representa a posição da Câmara como
suspeita ou omissa e, de qualquer modo, como diversa da posição do povo,
pois “olha, e ri”; produz, na troca sarcástica de areia por açúcar, a posição da
frota. Operando uma divisão de vozes, que opõe “boca esfaimada”, “Câmara
farta até aqui” e “frota com tripa cheia”, alegoriza posições conflitantes. Por
exemplo, pela identificação emotiva da persona com o povo, condensa-se no
governador a crítica à Câmara e à frota, numa denegação irônica que diz não
culpá-lo, não lhe pondo “alguma culpa”:

178

ã
A M U R M U R A Ç À O DO CORPO M ÍS T IC O

5. Eles tanto em seu abrigo,


e o povo todo faminto,
ele chora, e eu não minto,
se chorando vo-lo digo:
tem-me cortado o embigo
este nosso General,
por isso de tanto mal
lhe não ponho alguma culpa;
mas se merece desculpa
o respeito, a que provoca,
Ponto em boca.
(OC, II, p. 436.)

Quem é, pois, o destinatário da sátira? Supostamente, toda a população


esfaimada com que a persona se identifica no pranto, na medida mesma em
que, na sociedade portuguesa do século XVII, o “público” é justamente a esfe­
ra do “bem comum”. Indiretamente, porém, é a mesma Câmara e o governa­
dor, constituídos como cabeças irresponsáveis donde uma medida deveria vir
para sanar a carência dos membros do corpo político. Não vem, e a Câmara,
ironicamente elevada no início da estrofe, é rebaixada pela tradução do mau
alimento, que a persona diz ser fornecido por ela, em “cristéis”, num gesto
obsceno que penetra as cabeças mandantes bem embaixo:

6. Com justiça pois me torno


à Câmara Nó Senhora
que pois me trespassa agora,
agora leve o retorno:
praza a Deus, que o caldo morno,
que a mim fazem cear
de má vaca no jantar
por falia do bom pescado
lhe seja em cristéis lançado;
mas se a saúde lhe toca:
Ponto em boca.
(OC, II, p. 437.)

Na sua isenção irônica - “é cousa, que me não toca: / Ponto em boca” a


persona denuncia aquilo que, nas cartas, é pretextado pela Câmara, o descon­
tentamento popular. Como intervenção que também postula o bem comum
da República pela correção de seus vícios, a sátira explicita os limites do bem

179
A SÁ T IR A E O E N G EN H O

comum alegado pela Câmara nas cartas e atas. Por exemplo, quando a fari­
nha, que não entra na boca dos soldados, sai, espalhando-se como murmura-
ção, ingrediente de misturas que diagramam posições e interesses em jogo:

Q u e m f a z o s s í r i o s m e s q u i n h o s ? .................. M c i r i n h o s
Q u e m f a z a s f a r i n h a s t a r d a s ? ......................... G u a r d a s
Q u e m a s t e m n o s a p o s e n t o s ? ......................... S a r g e n t o s .
O s s í r i o s lá v ê m a o s c e n t o s ,
e a terra fica e s f a i m a n d o ,
p orq u e os vão atravessando
M e ir in h o s, G u ard as, Sargentos.

A C â m a r a n ã o a c o d e ? ............................................. N ã o p o d e
P o i s n ã o t e m t o d o o p o d e r ? ............................. N ã o q u e r
É q u e o g o v e r n o a c o n v e n c e ? ...........................N ã o v e n c e .
Q u e m h a v e r á q u e tal p e n s e ,
q u e u m a C â m a r a tão n ob re
p or ver-se m ísera , c p ob re
N ã o p o d e, n ão quer, n ão vence.

( O C , I, P P . 3 2 - 3 4 . )

A crítica à Câmara, representante da Cidade junto ao Rei, não pode ser


generalizada como crítica protonacionalista ao Rei e defesa liberal do povo,
contudo: “[...] porque é serviço d’El-Rei, / concedo, que está primeiro” (OC,
II, p. 435). A generalização - que a sátira à frota admite - é desmentida no
mesmo poema e por inúmeros outros, que encenam as virtudes políticas da
mesma ordem corporificada na pessoa do Rei, volta e meia convocado como
soberania curadora de outras partes corruptas do corpo místico. A voz “povo”
que fala na sátira tem de ser matizada, enfim, pois não há oposição contra o
poder constituído193: a sátira corrige o abuso para propor o uso ou a ordem
preestabelecidos no pacto de sujeição.

193. A população do século XVII, tanto cm Portugal quanto na Bahia, não demonstra interesse em mu­
dar a ordem do Amigo Regime. Reivindicações existem, contudo, c são pela melhoria de posição
nos quadros do sistema, sendo a fidalguia o alvo de todos. Nesta linha, rebeliões como a do Porto,
em 1661, ou a do sal, na Bahia, em 1711, são feitas em geral contra o cobrador de impostos, contra
o imposto, não contra a ordem que o impõe. Desta maneira, muitas vezes membros da população
propõem medidas que, em nome do bem comum, terminam por prejudicar a mesma população e
favorecer os interesses senhoriais. Por exemplo, em 11 de agosto de 1646, o juiz do Povo Alves
Camanho, apoiado dos mesteres Antônio Manuel da Fonseca e Domingos Gonçalves, propõe a

180
A M U K MU K A Ç Ã O DO C O R P O M Í S T I C O

Por isso mesmo, outras posições críticas do “povo” ou contrárias a ele são
legíveis:

[...] este povo c tão ruim,


tão jocoso, e tão burlesco.
(OC, IV, p. 898.)

[...] tanto mecânico vil


que na ordent mercantil
são criados dos criados!
(OC, IV, p. 907.)

G u a rd a i-v o s, Israelita,
que se me chega a mostarda,
talvez que a casa vos arda,
porque é casa de mesquita.
(OC, III, p. 739.)

proibição de fabricar aguardente, e vinho de mel (cachaça), alegando que a bebida, popularíssima,
é “muito ao bem comum e que não servia mais que de grande escândalo”. A jcribha ou aguardente,
principalmente quando bebida por escravos, é causa dos excessos que perturbam a Cidade. A medi­
da provoca o descontentamento dos senhores de engenho fabricantes, que interpõem recurso con­
tra a Câmara, justificando a fabricação. Os comerciantes de vinho, por sua vez, apoiam a medida,
pois têm grande quantidade dele armazenada c pensam vendê-la com lucro quando as outras bebi­
das forem proibidas. Sempre interessada nas taxas, a Coroa apóia a decisão da Câmara, com a
condição de que os comerciantes de vinho paguem ao Tesouro Real os 6 mil cruzados anuais da
taxação da aguardente. Para tazê-lo, os comerciantes seguem a indicação metropolitana de lançar a
taxa em outros gêneros, e taxam com mais 400 réis cada barril de azeite importado. A população,
que não bebe a aguardente, supondo-se a eficácia das medidas proibitivas, passa a pagar o dobro
pelo azeite. O episódio é esclarecedor de posições conflitivas: o juiz do Povo proíbe a bebida em
nome do bem comum e ainda consegue sobretaxa do azeite, além de favorecer duplamente os co­
merciantes de vinho. Se existe, no caso, oposição contra os senhores de engenho, não fica claro. De
qualquer maneira, são atingidos em seus negócios. Cf. Affonso Ruy,op. aí., pp. 179 e ss. Uma carta
de 14.8.1671 retoma a bebida, afirmando que com ela se enriquecem os poderosos e enfraquecem os
pequenos. A Câmara então representa ao Governo “o dano que se seguia de uns a fazerem e outros
não”. Os senhores de engenho se recusam a dar o preço de seus alambiques ao contratador e, embo­
ra proíbam a bebida aos escravos, “porque os ditos Escravos do que é remédio, fazem vício”, conti­
nuam a fabricação. Como oticialmente os engenhos não fabricam, também não pagam impostos
sobre a aguardente: a população passa a arcar com os impostos para o sustento da Infantaria
acantonada na Cidade (o contrato da fabricação de aguardente fora aplicado para seu sustento). Os
senhores têm “um estanco irremediável da dita bebida”, afirma-se na carta. Já em carta de 31.5.1652,
o procurador da Câmara João de Góis escreve que, ames do estabelecimento da Companhia Geral
do Comércio, quando a aguardente era livre, Salvador contava com mais de duzentas tavernas e
“agora somente há cerca de vinte”. O que, a acreditar na notícia, faz a Bahia mais sisuda, bem
menos espirituosa. Cf. Carta de 14.8.1671, vol. 1, pp. 106-107; Carta de 31.5.1652, vol. 1, p. 9.

181
A SÁ T IR A E O E N G E N H O

É pardo rajado em preto,


ou preto embutido em pardo,
malhado, ou já malhadiço
do tempo em que fora escravo.
(OC, II, p. 458.)

Dramatizando o referencial de um conflito de poderes em que se opõem


Juizes Ordinários locais, representantes de senhores de engenho, e Juizes
do Tribunal da Relação, representantes do poder metropolitano envolvidos
nas relações locais de parentesco e favor, a sátira concentra-se contra os da
Relação, como no poema dirigido ao Ouvidor Geral do Crime, quando se
embarca para Lisboa194, ou os que referem o desembargador Pedro Unhão
de Castelo Branco e Antônio Roiz da Costa, o “Doutor Gilvaz” ou “Cutila-
da”. A “molesta” e “inútil assistência” da Relação, como a define a Câmara,
é similar ao entendimento efetuado na sátira, que afirma que a justiça não
é “de graça distribuída”, mas “bastarda”, “vendida”, aplicando à desqua-
lificação os critérios do Direito Canônico encenado na posição avaliativa
dapersona satírica:

E que justiça a resguarda?.............Bastarda


É grátis distribuída?...................... Vendida
Que tem, que a todos assusta?...... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
(OC, I, p. 32.)

É equivocado, contudo, postulá-lo tão univocamente, pois a sátira tam­


bém se faz contra Juizes Ordinários, que são desqualificados como maus le­
trados ignorantes do Direito, enquanto a sátira prescreve como excelência a
formação ministrada em Coimbra, que é a dos Juizes da Relação, oposta à
formação local do Colégio dos jesuítas:

1 9 4 . L e i a - s e o s o n e t o d i r i g i d o a o o u v i d o r g e r a l d o C r i m e : “ L o b o c e r v a l , f a n t a s m a p e c a d o r a , / A lim á r ia
c r i s t ã , s a l v a g e h u m a n a , / Q u e e r a s c o m v a r a p e s c a d o r d e c a n a , / Q u a n d o d e v i a s s e r b u r r o d e n o ra .
/ L e v e - t e B e r s a b u , v a i - t e e m m á h o r a , / L e v a n t a já d a q u i f a t o , e c a b a n a , / E n ã o p a r e s s e n ã o n a
T r a p o b a n a ,/ O u n o c e n tr o d a L íb ia a b ra s a d o ra . / P a rta -te u m r a io , q u e im e - te u m c o ris c o / N a ca m a
e s t e j a s t u , s e j a n a r u a , / S e p u l t u r a t e d ê e m m o n t e s d e c i s c o . / E t o d a a q u e l a c o u s a , q u e f o r tu a /
C o r r a s e m p r e c o n t i g o o m e s m o r i s c o , / O s a lv a g e c r i s t ã , ó b e s t a c r u a ” ( O C , II, p . 4 1 5 ) .

182

i
A A1URM URAÇÃ0 DO CORPO M ÍST IC O

Vós graduado a borrões


em uma universidade
que fundou nesta cidade
o braço dos asneirões:
fazeis tais alegações
nas lides, causas, e pleitos,
que vos dão alguns sujeitos,
que afirmam letrados velhos
fedem os vossos conselhos
tanto, como vossos feitos.
[...]
Não vos culpo, asno barbado,
senão a esta simples gente,
que de um tão mau requerente
quer formar um bom letrado.
(OC, III, pp. 734-735.)

Da mesma forma, encena-se a desqualificação do “asno barbado” com


trocadilhos - por exemplo, alegando-se autoridade no ensino do Direito na
Península Ibérica e no curso de Cânones de Coimbra:

[...] um Bártolo pareceis


não sendo senão Bartolo.
(OC, III, p. 735.)

Ou, ainda:

O Bártolo de improviso,
o subitâneo Licurgo,
que anoitece um sabe nada,
e amanhece um sabe tudo.
(OC, II, p. 279.)

O tema dos fidalgos com foros falsos, comum nas demandas dos senhores
locais, também se encontra encenado genericamente na sátira, interpretando-se
a posição satírica segundo os topoi do “dinheiro”, da “origem” e da “ocupação”:

Que se despache um caixeiro


criado na mercancia
com foro de fidalguia
sem nobreza de Escudeiro!

183
A SÁ T IR A E 0 E N G E N H O

e que a poder de dinheiro,


e papéis falsificados
se vejam entronizados
lanio mecânico vil,
que na ordem mercantil
são criados dos criados!
( O C , I V , p. 9 0 7 . )

Particularizando-se contra Pedralves da Neiva, fidalgo “obreptício e


subreptício”, a sátira o compõe na oposição discreto/vulgo, generalizando o
ataque para outros senhores locais, fidalgos, traduzidos como vulgo nas tópi­
cas do “dinheiro”, “ofício mecânico”, “heresia” e “bastardia”:

Quem quer ser bem despachado


a seu Rei serviços faz,
a vida entre as balas traz
como valente soldado:
mas por serviço comprado,
com as premissas a pares,
ou mentiras como os mares
faz ser caso lastimoso,
que, o que deu honra a um Barroso,
o merecesse um Cazares.
Quando hábito se traz
co dinheiro poderoso,
torne outra vez o Barroso,
e venha o Doutor Gilvaz195:
também nesta conta jaz
Fuão Maciel Teixeira,
Manuel Dias Filgueira,
o Marruás do sertão,
e o Lobato patifão
marido da confeiteira.
Também vai a Escudeiro
Marinículas da praia196,

195. “ D o u t o r C iilv a z " c o a p e l i d o q u e a s á t i r a a p l i c a a o d o u t o r A n t ô n i o R o d r i g u e s ( o u R o i z ) d a C o s ta ,


C a v a le iro d o H á b ito d e C r is to : “ D a q u i a g e n te m a lv a d a / v e n d o -v o s n a c a r a u m z á s, / n ã o c u id a ,
mas c u i d a ,
q u e fo i g ilv a z , / q u e fo i c o r n a d a ” (O C , III, p. 717). Em o u t r a s á tir a , G ilv a z é “ C u tila d a ”
(O C , III, p. 725).
196. A s á t i r a r e m e te a o u t r a s , e f e t u a n d o u m s is te m a d e r e f e r ê n c ia s in t e r n a s . C f ., p o r e x e m p lo :
“ M a r in í c u la s to d o s o s d ia s / o v e io n a s e g e p a s s a r p o r a q u i / c a v a lh e ir o d e tã o lin d a s p a r t e s / co m o

v e r b i g r a tia L o n d r e s , e P a r is ” (O C , VII, p . 1 6 6 2 ).

184
A M U R M U R A Ç Ã O DO C O R PO M ÍS T IC O

porque para isso sc ensaia


a fiúza do dinheiro197:
por direito um canastreiro
é homenzarrão de chapa,
mas a cruz, que anda em tal capa,
o faz com maior desonra
sambenitado da honra
porque não c cruz, é aspa.
(OC, IV, p. 908.)

A sátira também teatraliza uma prática rotineira, segundo as cartas, que


propõem a ida do coronel Gonçalo Ravasco Cavalcante e Albuquerque para
Lisboa. Apersona irônica depõe a indignação e faz-se jocosa, desdenhosamente
amável, ao figurar códigos cortesãos de discrição e a sua afetação vulgar que
esperam o viajante na Corte:

Mas vos heis de ir a Lisboa


apesar do vilão ruim,
El-Rei vos há de fazer
com mil mercês honras mil.
Os cavalheiros da Corte
Trazendo-vos junto a si,
vos hão de dar como uns doudos
piparotes no nariz.
E como vós sois doente
de fidalgos frenesis,
por ficar enfidalgado
toda a mofa heis de rustir.
O que trareis de vestidos!
uns assim, outros assim:

197. M u i t o r i c o s e i n f l u e n t e s , o s s e n h o r e s d e e n g e n h o n ã o s e i n t e r e s s a m p e l a s l e t r a s . A l é m d e b a r r a d o
p e l a c e n s u r a m e t r o p o l i t a n a , o li v r o n ã o é u m a n e c e s s i d a d e . S t u a r t B. S c h w a r t z r e f e r e u m a e x c e ç ã o ,
q u e c o m p a re c e c ila d a n a s á tira c o m o p e rs o n a g e m p s e u d o d is c re ta e p s e u d o fid a lg a , a d e J o ã o L o p e s
F iú z a , p o r tu g u ê s c h e g a d o a S a lv a d o r e m 1 6 9 0 e a í e s ta b e le c id o c o m o s e n h o r d e e n g e n h o e h o m e m
in f lu e n te . F iú z a é d o s h o m e n s m a is ric o s d o B ra s il c o lo n ia l. Q u a n d o m o r r e , e m 1 7 4 1 , d e ix a u m a
b ib lio te c a d e c e rc a d e c in q ü e n ta v o lu m e s e m la tim , e s p a n h o l e p o r tu g u ê s , e m q u e s e a l in h a m C íc e ro ,
V ir g í l i o , C e r v a n t e s , L o p e d e V e g a , S á d e M i r a n d a , F r a n c i s c o M a n u e l d e M e l o , e n t r e o u t r o s . C f .
S tu a r t B. S c h w a rtz , Burocracia..., op. cil., p . 28 7 . O b s e rv e -s e q u e , c o m p o n d o o tip o d o p s e u d o f íd a lg o ,
a s á tir a fa z r e f e r ê n c ia a F iú z a , m u i to ir o n ic a m e n te , tr a n s f o r m a n d o o n o m e p r ó p r io e m c o m u m ,
co m o s ig n if ic a d o a r c a ic o d e “ c o n f ia n ç a ” : “fiúza d o d i n h e i r o " . H la o f a z e n c e n a n d o o u t r o s n o m e s
d e s e n h o r e s , d e s q u a l i f i c a d o s c o m o v u lg o .

185
A SÁ T IR A E O E N G EN H O

sereis o molde das modas,


e o modelo dos Turins.
A conta disto me lembra,
quando em Marapé vos vi,
vestido de pimentão
com fundos de flor de Li.
Lm verdade vos afirmo,
que então vos supus, e cri
surrada tapeçaria,
tisnado guadamecim.
O que direis de mentiras,
quando tornares [síc] aqui!
amizades de um Visconde,
favores de um Conde vis.
Valido de um tal Ministro,
Cabido de um tal Juiz,
e até mesmo do Cabido
leiguíssimo Mandarim.
El-Rei me fez mil favores:
mil favores? mais de mil;
bem fez, com que lá ficasse,
mas uao o pude servir.
Quem casou, como eu casei
com Mulher tão senhoril1'"1,
é cativo de um Terreiro,
não me posso dividir.
D’E1-Rei é minha cabeça,
porém o corpo gentil
todo é de minha Mulher,
não tem remédio, hei de me ir.
(OC, IV, pp. 895-897.)

A s várias posições satíricas ordenam o evento segundo m otivos poéticos


associados em tópicas retóricas, que se estudam no capítu lo V. C on stituin do a
desonra com o torpeza execrável, castigando-a logo quando a d ivu lg a publica- 19
8

198. “ M u l h e r t ã o s e n h o r i l " é a q u a l i f i c a ç ã o i r ô n i c a d e “A n a M a r i a " , a d o n z e l a n o b r e e r ic a q u e v e m d a


í n d i a e q u e é p e r s o n a g e m d e s o n e t o p a r ó d i c o : “ S e t e a n o s a n o b r e z a d a B a h i a / S e r v i u a u m a P a s to ra
i n d i a n a , e b e l a ” ( O C , IV , p . 891). T a m b é m é r e f e r i d a e m o u t r a s á t i r a c o n t r a P e d r o A l v a r e s d a N e iv a ,
o n o iv o : “ C a n t o u - s e - l h e e m p r o f e c i a , / p o r q u e c o r r e n d o a l g u n s a n o s / v e i o c a s a r p o r e n g a n o s / c o m
M a d a m a A n a M a r i a : / p o r f o r ç a d e c a n t o r i a / s e m e t e u P e r ic o e n t r e e l a s ” ( O C , IV, p . 892).

186
A M U R M U R A Ç Â O DO CORPO M ÍST IC O

mente como murmuração e vulgaridade199, a sátira funciona como opinião do


testemunho formalizado como murmuração. Acusando o que obra mal, su­
põe a virtude do obrar bem: justiça, prudência, discrição, hierarquia. Funcio­
na, portanto, como um dispositivo de supervisão e distribuição hierárquicas
da opinião: a censura efetua a honra, a calúnia avança a boa reputação, o
ataque prescreve a reverência. Como murmuração, o juízo da persona pode
exceder-se como “acérrimo inimigo de toda hipocrisia”, muito além da joco­
sidade zombeteira do poema acima. Lembre-se o relato das causas do degre­
do de Gregório de Matos para Angola, interpretado na Vida do Licenciado
Rabelo como generosa proteção de Dom João de Lencastre, que evita que o
poeta seja assassinado pelo filho de Câmara Coutinho, vindo para vingar o
pai ultrajado na sátira como “fanchono beato”, “putana”, “mamaluco em quar­
to grau”, “Rabi” e “sodoma”200. Fazer falar o interdito, modulando-o mons­
truosamente no discurso para capturá-lo numa formulação que o controla -
este procedimento da hierarquia, de que a persona se faz avalista, propõe-se
como exemplaridade do testemunho racional: não se fala para o delinqüente,
mas para todos os outros, instados a temer e a obedecer.

199. “ T r a t a i s a e s t e e a a q u e l e / p o r e l e d e p u r o h o n r a d o , / q u e o S e n h o r b e m i n c l i n a d o / e m l u g a r d e u m
v ó s d á u m e le : / m a s q u e o c h a n t r e s e d e s v e l e / e m v i s i t a r - v o s c a d a h o r a , / e l h e d i g a i s , v e n h a
e m b o r a , / C h a n t r e , f o lg a d e o v e r b e m , / i s s o é s e r s e m t o m n e m s o m / a s n e i r ã o d e f o z d e f o r a ” ( O C ,
IV, p . 9 0 1 ) ( “A o m e s m o P e d r o A l v a r e s d a N e i v a q u e c h e g a n d o à B a h i a , c o m h á b i t o , e f o r o f a l s o ,
e n t r a d e s v a n e c i d a m e n t e c o n f i a d o a t r a t a r o s h o m e n s n o b r e s p o r t e r c e i r a p e s s o a ” ). S e g u n d o a persona
s a tír ic a , P e d ra lv e s n ã o te m p o s iç ã o p a r a c o n s ti tu ir o u tr o s c o m o ig u a is o u in f e r io r e s , tr a ta n d o - o s
e m 3‘ p e s s o a ; a o d e n u n c i á - l o , a persona p o s tu la a c o n v e n ç ã o h ie rá rq u ic a d a s c o m p e tê n c ia s e d a
h o n r a , d e q u e e la se fa z a c a u ç ã o . A s á tir a e v id e n c ia , n o c a so , q u e a s h o n r a s d e P e d ra lv e s s ã o
d e s o n ra s : P e d ra lv e s u ltr a ja o s m e lh o r e s q u a n d o o s h o n r a c o m s e u tr a ta m e n to d e fid a lg o , e n fim . A o
d e s o n ra r P e d ra lv e s , a persona p r o p õ e a v e r d a d e i r a h o n r a , d a q u a l é a v a l i s t a . C f . C a r t a d e 4 .8 .1 6 8 4 ,
v o l. 2, p . 126, e m q u e a C â m a r a n o tic ia q u e P e d r o Á lv a re s d a N e iv a a le g a s e r C a v a le ir o d o H á b it o
d e C ris to e re c u s a -s e a s e rv ir o c a rg o d e p ro c u ra d o r d o S e n a d o d a C â m a ra .
200. C f . L i c e n c i a d o M a n u e l P e r e i r a R a b e l o , “ V id a d o E x c e l e n t e P o e t a L í r i c o , o D o u t o r G r e g ó r i o d e M a ­
to s e G u e r r a ” , e m J a m e s A m a d o ( o r g .) , Obras Completas de Gregório de Matos e Guerra ( C r ô n i c a do
1968, 7 v o ls ., v o l. VII, p . 1708: “ G o v e r n a v a e n t ã o
V iv e r B a i a n o S e i s c e n t i s t a ) , S a l v a d o r , J a n a í n a , D.
J o ã o d e L e n c a s tr e , s e c re to e s ti m a d o r d a s v a lc n tia s d e s ta M u s a , q u e a to d a a d ilig ê n c ia lh e c n te s o u r a v a
a s o b r a s d e s p a r c i d a s , f a z e n d o - a s c o p i a r p o r e l e g a n t e s le t r a s : q u a n d o d e u m a N a u d e g u e r r a d e s e m ­
b a rc o u o F ilh o d e u m a c e rta P e rs o n a g e m c o m â n im o v in g a tiv o c o n tr a o P o e ta p o r h a v e r s a tir iz a d o a
h o n ra d e se u P a i g o v e r n a n d o e s ta te rra ; e b e m q u e d is fa rç a v a s u a m a lig n a in te n ç ã o , to d a a in te n ç ã o
m a lig n a p e r c e b e u D . J o ã o d o s m e s m o s d is f a r c e s d e la . E r a e s te C a v a lh e iro g e n e r o s a m e n te c o m p a d e ­
c id o : e e x c o g ita n d o m e io s d e liv r a r u m a v id a , e m q u e a n a tu r e z a d e p o s ita r a tã o s in g u la r e s p r e n d a s ,
a c h o u tr a ç a s d e s e g u r a r - lh e o p e rig o n o s f in g im e n to s d e r ig o ro s o ju s tic e ir o . O r d e n o u a u n s o fic ia is
d e m ilíc ia q u e , s a in d o fo ra d a c id a d e a to d a a c a u te la , lh e tr o u x e s s e m p r e s o o D o u to r G re g ó r io d e
M a to s ” .

187
A SÁ T IR A E O E N G E N IIO

Como se leu páginas atrás, Câmara Coutinho não enforca João de Maga­
lhães, o soldado sedicioso, embora enforque inúmeros outros criminosos, sendo
alvo de referências elogiosíssimas da Câmara quando é substituído por Dom
João de Lencastre. Apersona satírica assume posição simetricamente inversa,
chamando-o de “amigo de enforcados” (OC, I, p. 215), polvilhando a desqua-
lificação com as “farinhas” da murmuração local:

Sois amigo de enforcados,


quem vo-lo pode impedir?
oxalá fôreis amigo
de levar o mesmo fim.
Ora vamos a farinha,
foi pouca, cara, e ruim:
mas vós não sois sol, nem chuva,
para haver de a produzir.
Eu confesso que houve fome,
governando vós aqui,
sois mofino, e por contágio
ficou mofino o Brasil.
(O C , I, P . 216.)

Acumulados até aqui para evidenciar o misto e a variedade das posições


da persona, os exemplos recortam-se no mesmo referencial das “conseqüên-
cias muito prejudiciais” da “falta da moeda”, como advertência e prudência
experientes, ligeiramente céticas:

Tratam de diminuir
o dinheiro a meu pesar,
que para a coisa baixar
o melhor meio é subir2111:
quem via tão alto ir,
como eu vi ir a moeda,
lhe pronosticou a queda,
como eu lha pronostiquei:
dizem, que o mandou El-Rei,20
1

2 0 1 . " P a r a a c o u s a b a i x a r / o m e l h o r m e i o é s u b i r ” : o m e s m o t e m a s e e n c o n t r a d e s e n v o l v i d o p o r S a a v e d ra
F a ja rd o e m s e u Empresas Políticas c o m o títu lo d e “ O subir o bajar", s e g u n d o a id é ia d e q u e o a u g e da
a s c e n s ã o - d e u m a f l e c h a n o e s p a ç o , d e u m h o m e m , d e u m i m p é r i o - já é o p r i m e i r o m o m e n t o de
s u a q u e d a e i r r e p r i m í v e l d e c a d ê n c i a . C f. D . D i e g o S a a v e d r a F a j a r d o , op. cit., E m p r e s a LX.

188
A M U R M U R A Ç A O DO CORPO M ÍST IC O

quer creiais, quer não creiais.


Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
(OC, II, p. 438.)

O prognóstico de que as trocas comerciais serão feitas em espécie é parale­


lo de discursos contemporâneos, como os dos senhores de engenho, cujos em­
préstimos são pagos com o açúcar e o tabaco das colheitas, ou os da Câmara,
que advertem o Rei de que a Bahia, arruinada, nada terá para trocar, passando
a dedicar-se às manufaturas, como fpz a índia com azeites, vinhos, vinagres:

Porque como em Maranhão


mandam novelos à praça,
assim vós por esta traça
mandareis o algodão:
haverá permutação,
como ao princípio das gentes,
e todos os contraentes,
trocarão droga por droga,
pão por sal, lenha por soga,
vinhas por canaviais:
Não vos espanteis,
que inda lá vem mais.
(OC, II, p. 439.)

Os exemplos condensam-se na metáfora da “doença” que contamina a


sátira e outros discursos da época. Em sua circulação, a metáfora efetua a
equivalência de circulação monetária e circulação sangüínea: “[...] a moeda
[...] sendo ela o mais precioso sangue que alimenta esta República”202. Na
sátira, diagrama a corrupção e a morte da acumulação pela circulação defei­
tuosa das trocas. Encena-se, assim, também o discurso que lamenta e critica
os impostos que sobretaxam o açúcar, referidos na carta em que se pede sua
suspensão ou diminuição, demonstrando-se a impossibilidade de pagar o
donativo do dote da rainha de Grã-Bretanha e Paz de Holanda:

O açúcar já se acabou?.......................... Baixou


E o dinheiro se extinguiu?..................... Subiu
Logo já convalesceu?............................. Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece

202. Cf. Alas da Câmara 1684-17 00, v o l. 6, p. 204.

189
A SÁ T IR A E 0 E N G E N H O

cai na cama, o mal lhe cresce,


Baixou, Subiu, e Morreu.
(OC, I, p. 33.)

É essa pragmática que hierarquiza na sátira, enfim, o mesmo referencial


discursivo das atas e cartas, prescrevendo o bem comum, a unidade e a unifi­
cação do corpo místico da Cidade nas virtudes da política católica mercanti­
lista. Isto é matéria do capítulo III, em que se analisa o código de honra da
persona satírica relacionado com outros discursos contemporâneos, como os
do Santo Ofício da Inquisição e os dos juristas ibéricos contra-reformistas.
Para tanto, volta-se agora ao Licenciado Rabelo, focalizando-se o final da sua
Vida.

190
III
A Proporção do Monstro

Lá ides por esses mares,


que são vidraças de anil,
semeando de asnidades
ioda a margem de Zafir.
( O C , IV , p . 8 9 5 . )

A Vida do licenciado Rabelo fecha-se com a figuração óptica com que


este capítulo se abre. Segundo ela, Gregório de Matos e Guerra tinha “fantesia
natural no passeio, e quando algumas vezes por recreação surcava os quietos
mares da Bahia a remo compassado com tão bizarra confiança, interpunha os
óculos, examinando as janelas de sua cidade, que muitos curiosos iam de pro­
pósito a vê-lo”1.
O passeio pelo mar compõe um hábito idílico da personagem, sendo um
ornamento do discurso e, como tal, um acessório. Nunca foi considerado pela
crítica, a não ser anedoticamente, como mais uma das esquisitices do ho-

1. C f. L i c e n c i a d o M a n u e l P e r e i r a R a b e l o , “ V id a d o E x c e l e n t e P o e t a L í r i c o , o D o u t o r G r e g ó r i o d e
M a to s e G u e r r a ” , e m J a m e s A m a d o ( o r g .) , Obras Completas de Gregório de Matos e Guerra (Crônica do
Viver Baiano Seiscentista), S a l v a d o r , J a n a í n a , 1 9 6 8 , 7 v o ls ., v o l. V II, p . 1 7 2 1 . H á v a r i a n t e d e s t a v e r ­
sã o : “ T i n h a f a n t e s i a n a t u r a l n o p a s s e i o , e q u a n d o a l g u m a s v e z e s p o r r e c r e a ç ã o s u r c a v a o s i n q u i e t o s
m a r e s d a B a h i a , h a v i a d e s e r a r e m o s c o m p a s s a d o s : c o m tã o b i z a r r a c o n f i a n ç a e n t r e p u n h a o s ó c u l o s ,
e x a m in a n d o c o m e le s a s ja n e la s , q u e m u ita s v e z e s c h e g a v a m c u r io s a s D a m a s s ó d e p r o p ó s ito a vê-
lo , d e o n d e n a s c i a s c r e i e p a r a e l a s t ã o á s p e r o n o s s e u s v e r s o s ” . C f . “ V id a e M o r t e d o D o u t o r G r e g ó r i o
de M a tto s e G u e r r a ” , Obras Sacras e Divinas (Códice Imperador)> S e ç ã o d e M a n u s c r it o s d a B ib lio te c a
N a c i o n a l , t o m o I, C o f r e 5 0 , 5 6 , p p . 5 5 -5 6 .

191
A SÁ T IR A E 0 E N G E N H O

mem. O ornamento metaforiza vários procedimentos da prática satírica, con­


tudo, e aqui é proposto como um emblema dela. Seu desenvolvimento é útil,
assim, para explicitá-la2.
Ressalta no exemplo a dimensão do ver e do ser visto. Mais, do ver como
técnica da visão privilegiadamente exterior e distante, que se concentra num
ponto, “janela” que se põe entre a coisa privada e a visibilidade pública. Invi­
sível e insignificante, pois não visto e não dito no fechamento e, alegoricamen-
te, na dissimulação de seu estado no anonimato dos eventos cotidianos da Ci­
dade, o ponto torna-se visível e dizível pela invenção do olho, ganha volume
pela ampliação dos óculos, ressalta estranhado e continua a aumentar, fantas­
ticamente desproporcional, ei-lo misturado e borrado se espalha obsceno na
confusão programática de seus pedaços amplificados, que ocupam todo o cam­
po da visão. Técnica, portanto, do olhar distanciado e distanciador que inter­
põe - verbo de Rabelo - óculos de aumento entre si e o que traz para fora e para
perto de si enquanto o desfoca e deforma, evide?itia e amplificado retóricas.
Seja um nariz pinçado pelos óculos atrás de uma das janelas discursivas,
nariz que vai crescendo sacada afora, nariz que vai avançando por ladeiras,
nariz que vai dobrando esquinas muito antes de seu dono, nariz obsceníssimo,
que fere toda verossimilhança em sua autonomização fantástica3; seja uma
panela de doce em mãos de padre guloso do melindre freirático, cujo conteú­
do se derrete horrorosamente merda, corrupção do açúcar amoroso no desvalor
absoluto4; seja a gesticulação pública, na Praça e no Terreiro, da intimidade

2. O gênero satírico articula a informação acerca de boatos c, portanto, a vigilância. Cf. John Harold
Wilson, Courl Saiires of lhe Resioralion, Columbus, Ohio Univcrsity Press, 1976, pp. X-XI:
“According lo Bishop Burnel, Loul Rochester dressed a footman as a guardsman senlinel *and kepl hitn
all lhe winler long every nighl ai lhe doors of such ladies as lie believed mighi be in intrigues*. We are
lold by lheir rival thai Ilugh, Lord Cholmondeley, used his foolmen as spies to follozv suspccied sinners
aboul tozvn, and lhai Jack Ilozoe sem fonh his sisters to zvatch lhe aclions of lheir friends and
acquainlances. The aulhorof A satyr (1680), accuscd NedRussel, ihirdson ofWilliam, Earl ofBcdford,
of spying on the tozvn: ‘[...] Like a cur zoho’s taughi to fetch he goes / From place to place lo bring back
zohat he knozvs; / Tells zvho’s i ’th’Park, zvhat coached lurned aboul, / Who zvere the sparks, and zvhom
lhey followed ouT. Eighl years later Sir George Etherege commenied thai Ned had speni most ofhis
life joliing aboul lhe sireeis in a hackney coach ‘lo find out lhe harmless lusis of lhe Tozvn’. Finally,
Capiain Robert Julian, a busy purveyor of satires, trotted from coffee houses to bazvdy houses zvith his
pockcls full of verses for sale, picked up the latesi scandal, and passed it on lo the siable of poels zvho
supplied him zvith labeis
3. C f “Chato o nariz de cocras sempre posto: Te cobre todo o rosto, / De gatinhas buscando algum
jazigo / Adonde o desconheçam por embigo: / Até que se esconde, onde mal o vejo / Por fugir do
fedor do teu bocejo” (OC , I, p. 156).
4. Cf. “A hora foi temerária, / o caso tremendo, e atroz, / e essa merda para vós / se não serve, é
necessária” (OC, II, p. 317).

192
A PROTORÇAO DO M O NSTRO

arfante dos quartos onde o sodomita pratica o ato estéril contra naturam5; se­
jam a fusão e a confusão, enfim, de mil e um pontos obsessivamente vistos e
diagramados, que se amplificam e afluem selvagens para amalgamar-se em
híbridos monstruosos, índio fidalgo em cujo sangue deságua a mandioca puba,
o vinho de caju e a carne humana6, mulato pernóstico que arroja as precedên­
cias da brancura7, marrano em que se funde e queima o cisma de Lutero,
Calvino e Melanchton8, anatomias grotescamente moralizadas de órgãos, in­
versões do corpo místico, cabeças que obedecem, pés que ordenam, sexos que
se crispam falantes, murmurações, humores, fedores, gestos, cores, ecos...9
No mar onipresente, a distância, o olho esquadrinha: não copia o que ob­
serva, antes o produz como dissimetria entre unidade e mistura, numa forma
que o retrata como tipo e o destrata como infame, excluindo-o como falha en­
quanto o inclui na mesma operação: o vício é relacionai, só ganha consistência
quando conjurado, assim como o Diabo. Segundo registros de adequação dos
tipos ao referencial de discursos, a moral do olho adapta-se ao caso e utiliza,
em benefício da operação, todas as possibilidades da moral10. Invariante, sua
pragmática compõe múltiplos ilegalismos, formalizando-os exemplarmente -
entre eles, o ilegalismo da persona satírica, cujo olhar desce no vício, estilo bai­
xo das paixões, para subir em virtude, estilo alto de seu juízo, compondo-se
como parte da mesma visibilidade da Cidade diagramada em seu ver-dizer.
Preceitos regulam sua prática: a sátira é inversão de regras que segue regras.
Como anatomia e medicina das almas, o discurso do olho inventa-lhes corpos,

5. C f. “ E s te s , q u e se d e b r e i a m m a n o a m a n o , / D is c ip lin a r - s e - á o d e q u a r t o e m q u a r t o , / E o q u e d e
m a i s s u b s t â n c i a e s t i v e r f a r t o , / A v ia b u s q u e , q u e o n e g ó c i o é c a n o . / C o n h e ç a a I n q u i s i ç ã o e s t a s
v e r d a d e s , / E c o m o é c e r t o , o q u e o s o n e t o d i z , / P a g u e m - s e e m v iv o f o g o e s t a s m a l d a d e s ” ( O C , I, p .
210 ).
6. C f . “A l i n h a f e m i n i n a é c a r i m á / A l o q u c c a p i t i t i n g a c a r u r u . / M i n g a u d e p u b a , e v i n h o d e c a j u /
P is a d o n u m p ilã o d e P ir a j á ” (O C , IV, p. 8 4 1 ).
7. C f. “ P a r a o b ê b a d o m e s t i ç o , / e f i d a l g o a t r a v e s s a d o , / q u e t e n d o o p e r n i l t o s t a d o , / c u i d a , q u e é
b r a n c o c a s t i ç o : / e d e ( l a t o s e n f e r m i ç o / s e a t a c a d e j e r i b i l a , / c r e n d o , q u e o s l l a t o s lh e q u i t a , /
q u a n d o o s v o m ita e m r e to r n o s : / s e is c o r n o s ” (O C , II, p . 4 5 3 ).
8. C f. “ G u a r d a i - v o s , I s r a e l i t a , / q u e s e m e c h e g a a m o s t a r d a , / ta l v e z , q u e a c a s a v o s a r d a , / p o r q u e é
ca sa d e m e s q u ita ” (O C , III, p . 7 3 9 ).
9. C f . “ [...] o s f e d o r e s d a b o c a é u m s e p u l c r o / A c ã e s m o r t o s t e f e d e a d e n t a d u r a ” ( O C , II, p . 3 4 1 ) ; “ [...]
e fe d e c o m o o d ia b o / a o b u d u m d o tra p e z a p e ” (O C , IV, p . 8 5 7 ) ; “ [...] p o r q u e é m u l a t o : / t e r s a n g u e
d e c a r r a p a t o / te r e s to ra q u e d e c o n g o /c h e ir a r - lh e a ro u p a a m o n d o n g o / é c ifra d e p e rfe iç ã o ” (O C ,
IV, p . 7 9 3 ); “ N in g u é m c o m M a r ta S o a re s / q u e r tr o c a r o d re p o r o d re , / p o r q u e d e p o d r e , e m a is
p o d re / n ã o há d is tin ç ã o d e a z a re s ” (O C , III, p . 6 3 0 ) ; “ [...] v o s t r e s a n d a , / ( q u a n d o lá p o n d e s o c u ) / o
so v a c o a p u t i ú , / e q u e a c a tin g a a p e la n d a ” (O C , II, p . 3 8 3 ) ; “ [...] e n jo a , p o r f e d e r a b a c a lh a u ” (O C ,
III, p . 5 7 1 ) ; “ [...] o v u l g o t e m m u r m u r a d o ” ( O C , II, p . 2 5 1 ) e t c .
10. C f. J o sé A n to n io M a r a v a ll, La cultura dd Barroco, 3. e d ., B a r c e l o n a , A r i e l , 1 9 8 3 , p . 1 3 9 .

193
1

A SÁT IR A E 0 E N G E N H O

define-os como culpados de uma falta para cuja correção receita o remédio de
seu dogma. Distribuindo os corpos de linguagem pelos múltiplos espaços
efetuados da Cidade, o olho os retalha e detalha públicos, segundo ordenação
jurídica, sendo o avalista deles e do seu próprio regime de crenças, que articu­
la como instrumento político11. Dois princípios complementares modulam a
visada: a exclusão dos corpos que o olho constitui, remetidos para os modos
negativos da ausência de Bem - falha, falta, erro, pecado - e a sua inclusão, que
os traduz poeticamente como ridículos, moralmente como viciosos, politica­
mente como culpados na luz da sua verdade. Ridículo, vício e culpa se reco­
brem, segundo o rebatimento extensivo dos pedaços; intervém a voz do mes­
tre, porém, que aplica o corretivo da virtude como gravidade, prudência, bem
comum da República, discrição. Ao fazê-lo, a voz magistral assume corpo, in­
flação católica da bondade mercantil e fidalga, ela que é somente um olhar
vazio e obsessivo. Embora enuncie em primeira pessoa do singular, nela ecoa
um nós majestático e terrível, força de coesão, hierarquia que unifica a tudo e
a todos, ditada como um se impessoal e anônimo, imagem onipresente de au­
sências solenes, Deus e Rei. As mesmas regras valem para vícios opostos às
virtudes estabelecidas e um único piscar do olho evidencia que sabe que não
se pode louvar um homem de bem com justiça e abundância sem conhecer-lhe
as virtudes, nem vituperar o vicioso com aspereza e sarcasmo sem conhecer-
lhe os vícios12. O olho é princípio e limite, assim.
A distância do mar à terra alegoriza outra: o olho põe-se fora e longe para
pôr-se acima e perto, hierarquicamente. Por isso distingue, permite-se pene­
trar janela adentro, descer, espionar e subir. Entre ele, os óculos e o ponto,

11. Cf., por exemplo: “O Ministro há de ser são, / justo, e não desobrigado, / há de ter ódio ao pecado,
/ e ao pecador compaixão: / que se tem má propensão, / faz justiça, mas com vício” (OC, I, p. 201).
Ou: “Os fidalgos, e os Senhores/ faltos de jurisdição/ fazem tudo, e tudo dão/ a amigos, e servido­
res: / os que jogam de maiores / por sangue, e não por poder / fazem jogo de entreter: / porque o
sangue desigual / sempre brota ao natural, / e o mando bota a perder” (OC, I, p. 192).
12. M. T. Cicero, De oralore, texte établi, traduit et annoté par François Richard, Paris, Garnier, s/d.,
pp. 349-350. Cf., por exemplo, tratado como integração política neste capítulo: “O bem, que os
mais bens encerra, / e as glórias todas contem, / é reinar quem reina bem, / pois figura a Deus na
terra: / eu cuido, que o mundo erra / nesta alta reputação, / que se o Rei erra uma ação, / paga o seu
alto atributo, / um tristíssimo tributo, / e misérrima pensão” (OC, I, p. 202). O Decrelum de peccaio
originali do Concilio de Trento fixou a doutrina católica no sentido de que o pecado original não
destrói a natureza nem a lança imediatamente ao mal. Manchada embora pelo pecado, mantêm-se a
luz natural, a virtude natural, o livre-arbitrío. As artes e as letras sciscentistas encenam tal doutrina
do pecado e sua lição pós-tridentina, afirmando que a natureza humana é perfectíve! também pela
arte. Nesta linha, a sátira é uma arte educativa. Cf. também, a respeito, “Deleitando ensina”, em
Diego Saavedra Fajardo, Empresas Poltlicas, ed. preparada por Quintin Aldea Vaquero, Madrid,
Nacional, 1976, 2 vols., vol. I, Empresa II.

194
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

várias linhas imaginárias são traçadas como visibilidade do corpo místico da


República. Perpassam todos os poemas e nelas opera uma técnica de recortes
que, sendo sempre uma engenhosa invenção e disposição retórico-poéticas,
também é política. A operação finge seccionar um corpo ou um campo como
notável e o expõe, amplificando-o como anotado cm que se corrige o notado.
Ordena a operação um notandum, paradigma que orienta e interpreta a sele­
ção. Modo histórico de hierarquizar, nele tramam a ética senhorial, o catoli­
cismo pós-tridentino, o comércio açucareiro, a racionalidade engenhosa, a
prudência política.
Os óculos, interpostos, transpõem os paradigmas do olho projetando-os
em mistos amplificados numa proporcionada deformação. Nesta convergem
conceitos, agudezas, ironias, paródias, trocadilhos, facécias, insultos, peripé­
cias, alegorias, tolices, indignidades, inverossimilhanças, burlesco, obsceni­
dades, pedaços... Como uma cenografia, a convergência de pedaços de corpos
e vozes do ponto amplificado no foco da lente é um jogo óptico de deforma­
ções proporcionadas13.
Por que, assim, o recurso dos óculos? O ver de longe é a correta distância
posta entre o olho e a Cidade para deformar com proporção. Ao amplificar
certas partes e proporções de um corpo - seja o nariz -, as lentes deixam de
ampliar outras proporções e partes, que se tornam deformadas pela distân­
cia. Simultaneamente, parles e proporções amplificadas - o nariz - é que
apresentam desproporção para aquele que as vê pelas lentes. Efeito óptico
em que a distância aproxima e a proximidade distancia, o ridículo surge como
incongruência ou deformidade na relação de duas proporções. Feio, também
é desonesto: o visível alegoriza o moral. Por isso, o mesmo jogo perto/longe e

13. No Sofista, o Estrangeiro eleata distingue a imitação (234bc), subdividindo-a numa distinção entre
imagem icástica efantástica (235b-236c). Porque o observador está mais distanciado de certas partes
de uma grande pintura ou escultura do que de outras, a desproporção aparente entre as partes pode
conflitar com seu conhecimento prévio do assunto figurado e alerta-o para a discrepância da veros­
similhança. Para compensar a distorção visual, ao invés de reproduzir as dimensões reais do modelo
com precisão icástica, o artista as altera de modo que a imagem fantástica resultante parecerá estar
proporcionada quando vista de um ponto de observação “próprio” (ikanós, 236b). Tal arte é a ceno­
grafia de tratados de óptica posteriores. Em cenografia, não se trata simplesmente de distância ou de
proximidade, mas da correia distância, nem tão longe, nem tão perto. Se o objeto pudesse ser toma­
do como um todo a partir de uma hipotética posição ideal, as mesmas compensações efetuadas pelo
artista apareceríam como distorção e teriam de ser corrigidas. Cf. Platão, Le sophiste, 2. ed. revue et
corrigée, texte établi et traduit par Auguste Diès, Paris, Belles Lettres, 1950. Cf. também o ensaio
fundamental de Wesley Trimpi, “The early metaphorical uses of SKIAGRAPHIA and SKENOGRA-
PHIA”, Traditio. Studies inAncient and Medieval History, Thought and Religion, New York, Fordham
University Press, 1978, vol. XXXIV, pp. 406-408.

195
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

proporção/desproporção elabora os hábitos: pela lente, o olho perspectiva tipos


hiperbólicos em sua mania, desproporcionais na unicidade de uma paixão
que os escraviza e desfigura, frade e luxúria, mercador e usura, fidalgo e hi­
pocrisia, mulato e presunção, judeu e heresia, puta e comércio etc. A alternân­
cia de longe/perto, desproporcional!proporcional, amplificação/redução também
faz ver que o olho efetua seus recortes como visibilidade comum àqueles que
vão à praia para verem que são vistos. São eles que sabem as medidas daquilo
que o olho esquadrinha por detrás de janelas e que julgam as proporções de
sua imagem deformada pela lente. É a mesma população que se vê sendo
vista, quando vê, que avalia sua imagem refratada segundo os mesmos crité­
rios. Desta maneira, o olho no mar não reproduz as proporções do que vê:
pelas lentes interpostas, ele as altera fantasticamente de modo que, de um
ponto de vista “próprio”, que é o do bem comum, a desproporção efetuada
parece verossímil justamente porque é inverossímil: ela é inadequada à vir­
tude que reina no lugar do olho, lugar do qual a população é instada a parti­
cipar e, a partir dele, ver e ver-se. A desproporção está prescrita como verossímil
porque é muito proporcionada a um fim, como técnica de afetar as vontades,
prodesse ou utilidade. Referido a Sousa de Meneses ou a Câmara Coutinho, o
mesmo nariz dotado de vida própria estabelece à distância o ridículo dos go­
vernadores, trazidos para perto dos que os conhecem segundo vários graus
hierárquicos. Na caricatura, vêem a proporção adequada às arbitrariedades
que o olho condena e, rindo, aprendem.
Corpos e ações ordenados pela proporção racional do olho se multipli­
cam, cruzam-se em inversões e misturas monstruosas, deformadas todas
pelo recurso das lentes interpostas. As misturas são desprezíveis, obscenas
e divertidas, porque desproporção, e, convergindo todas no olho, que as
irradia e absorve, tornam-se graves, prudentes, proporcionadas: ensinam
divertindo, castigam rindo, movem rebaixando. Ut pictura poesis: a sátira
enfatiza graus intermediários da distância entre o excelente e o ignóbil.
São numerosíssimos e não se resolvem como um contínuo, mas permane­
cem distintos uns dos outros, dispostos em duas séries, compostas na sátira
como vozes paralelas, uma racional e grave, outra fantástica e livre. Confli-
tam, assim como bem comum e corrupção conílitam, mas é a voz grave que
dá o tom, interpretando as misturas fantásticas para si e para o público
como distância regulada da visão. A série fantástica é, por isso, como exem-
plaridade do vício, composta por justaposição de várias naturezas que re­
presentam um tipo ou um caráter como mistura. Por não ter unidade,
figura a monstruosidade da ausência de Bem irrepresentável e que, sem
forma racional, é infame. A sátira o faz visto e dito, pelo jogo perto/longe,

196
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

proporção/desproporção, para capturá-lo como semelhança negativa da uni­


dade que a voz grave prescreve14.
Efetuação, portanto, não só do espaço estirado entre o olho e o tipo, mas,
principalmente, efetuação sensibilizadora da distância ideal, hierárquica, que
os une e separa, como os pólos complementares da excelência, racional e clara,
e da infâmia, confusa e obscura.
Nesta alegoria de alegorias, é oportuno detalhar as regras retórico-políti-
cas da seleção do olho: por que esse ponto e não aquele, por que tal janela e não
outra? Visão naturalíssima, pois o olho só vê o que historicamente pode ver, sua
“fantesia natural” é sistêmica, como artifício e arte de engenho. Convenção
para o ver, também é oportuno estabelecer outras proporções dessa distância,
seu código, medidas e marcas. A distância, o olho no mar é ponto de constru­
ção e de inversão do visível e do dizível. Ele é ao mesmo tempo limite dos vícios
pululantes que recorta e amplifica como excesso exemplar e princípio de sua
ordenação como tipos15. E pelo olho que os pontos focalizados assumem a iden­
tidade genérica de tipos reconhecíveis nas imagens deformadas das lentes:
chim, brâmane, judeu, negro, mulato, índio, mameluco, mazombo, turco,
muçulmano, fidalgo, luterano, freira, padre, soldado, puta, dama, marido cor­
no, sodomita etc. Subdividindo seu elenco, o olho infla os caracteres, faz dis­
tinções meticulosas entre sagrado e profano, puro e impuro, legítimo e bastar­
do, adaptando-as a pontos mais particularizados da mesma visibilidade:
fidalgo/não-fidalgo, mulher honesta/puta, padre virtuoso/simoníaco ou usurá-
rio, governador justo/tirano etc. Os costumes, ou o caráter, são produzidos pela
ação do olho, assim, em toda espécie de condição: talvez uma mulher possa ser
boa, se for branca, nobre e honesta, também um escravo talvez o possa, se sub­
misso, embora seja certo que o negro é, segundo a mesma visibilidade, quase
que absolutamente mau, e a mulher, de uma bondade inferior à do homem16.
O homem, por sua vez, alguns são fidalgos, muitos não, outros trabalham ma­
nualmente, todos se dedicam ao dinheiro, poucos não são escravos da ambição
que os rouba, pois há homens livres escravos de suas paixões e... as subdivisões
são ilimitadas, conforme o rebatimento tabular da hierarquia. Unindo a todos,
porém, o mesmo pecado e o mesmo livre-arbítrio: decaída, a natureza humana
é perfectível também pelas artes.

14. Levado ao extremo, o estilo cenográfico propõe o objeto pintado para ser visto de um ponto de
vista calculado, como uma pintura anamorfótica; levado ao extremo verbal, o objeto deve ser enten­
dido em termos alegóricos. Cf. W. Trimpi, op. cit., p. 412.
15. Cf. Michel de Certeau, La fable mysiique, XVl-XVIPsiècles, Paris, Gallimard, 1982, p. 71.
16. Cf. J. Racine, Príncipes de Ia iragédie, Paris, Vinaver, 1951, p. 27.

197
A SÁ T IR A E O E N G E N H O

Como subdivisão particularista dos tipos unificados pelo olho segundo


padrões aristotélico-escolásticos de virtudes proporcionais e vícios despro­
porcionais, a lente interpõe outros efeitos ópticos que, continuando a defor­
mar, individualizam. Existe a Mulata: “Eva atroz” (OC, II, p. 386), tipo dispo­
nível; e assiste-se ao lundu, avançam-se os nomes que retratam Maribonda,
Agueda e Jelu: “Macotinha a foliona/bailou rebolando o c u / duas horas com
Jelu / mulata também bailona: / senão quando outra putona / tomou posse do
terreiro” (OC, III, p. 622). Há o Cristão-Novo: eis o nome, o traço, o tique que
individualizam aquela mulher da perversa sinagoga17, esse letrado rabino,
este escrivão judaizante etc.
Entre o efeito particularista do enunciado e o princípio ordenador da
enunciação, perpassa argumento de autoridade que recicla Cícero: o olho é
porta-voz de um código de honra que o autoriza a falar. Aconselhando sobre
os negócios da Cidade, a distância em que se posiciona figura a distância
discreta daquele que proclama conhecer bem a República e o homem que nela
habita:

E s to s e n g a n o s y a r te s p o lític a s n o se p u e d e n co n o cer, s i n o se c o n o c e b ie n la n a t u r a l e z a d e i
h o m b r e , c u y o c o n o c im ie n to es p r e c is a m e n te n e c e s a r io a l q u e g u b ie r n a p a r a s a b e r r e g ílle y
g u a r d a r s e d é l '8.

Como os costumes mudam freqüentemente, conforme a posição das “na­


turezas”, acarretam também modificação no tom e na elevação dos discursos
que tratam deles. Especularidade, aqui, da visão e da teoria que lhe informa a
visada: o olho efetua a Cidade como baixa, corrupta, pecaminosa, vendo-a
por uma doutrina do vício e seus topoi, construindo-a segundo a concepção
tradicional da lei que deriva da rigorosa hierarquia dos valores19. Referida
pela persona a pessoas e situações, a dispersão empírica das descrições faz
com que a lei seja deduzida de casos caracterizados por elas, que ratificam a
lei pelo avesso, desproporção e proporção. Da doutrina para o caso, do caso
para a doutrina, a remo compassado sobre os quietos mares do texto de Rabelo,
o olho espia, pesquisa e esquadrinha a Cidade - é o “bem freqüente olheiro”
que vitupera como malvado - para levar à Praça e ao Terreiro o que diz ver:

17. Cf., por exemplo: “[...] aquela má mulher / da preversa sinagoga / fez no sermão tal chinoga, / que
o não deixou entender” (OC, II, p. 253).
18. Diego Saavedra Fajardo, op. cit., vol. I, Empresa XLVI.
19. Cf. F. M. Ferrol, Saavedra Fajardoy la Política dei Barroco, Madrid, Instituto de Estúdios Políticos,
1957, p. 83.

198

1
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

sua ação é a de tornar público, a de mostrar àqueles que vão vê-lo na praia que
são vistos, que Alguém providencial provê, prevê20.
Elevação petrarquista de dona Maria dos Povos acima da Cidade nas len­
tes de Garcilaso e Góngora, pastoral galante de Marfída21, Sílvia22, Gila23, Lise24,
Clóri25, Tisbe26, Maricas27; paródia camoniana nas definições do amor; fanta­
sia hiperbólica da feiura do Braço de Prata, da luxúria de padres e frades;
corrupção da Junta do Comércio, faminta sempre de açúcar e lucro; roman ­
ces alegóricos28; figuração misógina de brancas, negras, pardas, índias, casa­
das, solteiras, viúvas, freiras, putas; baixo corporal, fluidos do corpo, humo­
res, secreções, calores, cheiros, merda - tantas são as janelas focalizadas, tantas
são as visadas, tantas as adequações da lente, tantas as proporções e despro-
porções, virtudes e vícios.
A força da eloqüência da enunciação permanece a mesma, como escreve
Cícero, e porque a suprema dignidade é a da coisa pública, o discurso deve
levar o destinatário à esperança, à prudência, à paz, e, mais freqüentemente,
deve desviá-lo da intemperança, da injustiça, da estupidez, das esperanças
fúteis29. Cada virtude comporta deveres e obrigações fixos, merecendo um
elogio que lhe é próprio. Em todas, portanto, deve-se fazer ver o acordo entre
os atos, o gênero, a natureza e o nome de cada uma30. As mesmas regras
valem, como se escreveu, para vícios opostos: o olhar no mar é técnico em
evidenciar o desacordo entre os atos e o gênero da virtude ausente - injustiça,

20. O Concilio de Trento determinou a ordenação hierárquica e jurídica exterior, pública, como propa­
ganda da fé - lembre-se o caráter de ostentação dos signos do poder na grande festa seiscentista,
nos sermões, nos castra doloris. Lembre-se ainda que, segundo os juristas ibéricos contra-reformis­
tas, o livre exame luterano transforma a Igreja numa instituição invisível. Cf. Richard Alewyn, “La
fête de cour”, üunivers du Baroque. Paris, Gonthier, 1959; Ugo Spirito, “Barocco e Controriforma”,
em III Congresso Internazionale di Studi Umanistici, Venezia, 15-18 giugno 1954, A cura di Enrico
Castelli, Retórica e Barocco. Alli, Roma, Fratelli Bocca Editori, 1955; André Chastel, “Le Baroque
et la mort”, íbidcm; Jan Bialostocki, “Arte y vanitas”, Estiloy Iconografia (Conlribución a una Ciência
de las Artes), Barcelona, Barrai Editores, 1973.
21. Cf. Gregório de Matos e Guerra, em Amado James (org.), op. cit., vol. III, p. 660.
22. Idem, p. 680.
23. Idem, p. 681.
24. Idem, p. 682.
25. Idem, p. 685.
26. Idem, p. 692.
27. Idem, p. 695.
28. Cf., por exemplo, “Os Gatos”, romance (OC, II, pp. 455-461).
29. M. T. Cicero, op. cit., p. 342.
30. Idem, p. 343.

199
A SATI RA E 0 E N G E N H O

tirania, discórdia - e também entre os atos e os nomes - simulação, dissi­


mulação, aparência, hipocrisia, mentira. A “fantesia natural” faz-se “acérri-
ma inimiga de toda a hipocrisia”, como se leu no capítulo I, entendendo-se
por “hipocrisia”, genericamente, toda espécie de desacordo de atos e nomes
de atos com o gênero e a natureza postulados. Como imita segundo as nature­
zas muito misturadas dos desacordos de casos, o excesso mesmo da “fantesia
natural” é linguagem adequada, uma vez que as mesmas naturezas são ridí­
culas, viciosas, excessivas. Neste sentido, a sátira e sua obscenidade têm uma
função alegórica de dirigismo político aristotelicamente determinada: pro-
põem-se como catarse, purgação de paixões, como arte de persuasão. Como
caricatura, a sátira menospreza o aptum e, reduzindo ao mínimo a verossimi­
lhança com o excesso e a mistura, tem em vista o destinatário, de quem espe­
ra a cumplicidade e o deleite favoráveis à causa que a move3132.Como subgênero
do cômico, ensina: apersona se constitui como mestre do público, pois depen­
de de seus avisos o ensinamento do que expõe. Mais que ensinar ou agradar,
porém, ela quer mover: o mestre procura que o público tire escarmento e não
exemplo das ações más, exemplo e não escarmento das boas:

P a r a lo q u a l c o n v ie n e q u e a p u r e lo s c o lo res a la e lo c u e n c ia y p i n t e los v ic io s t a n fe o s ,
d e s c rib a los d e lito s t a n a b o m in a b le s y r e p r e s e n te la s c u lp a s ta n h o n i b i l e s q u e e l m o z o in a d v e r t i ­
d o , la d o n c e lla in c a u ta , e l h o m b r e m a d u r o , la m u je r e x p e r im e n ta d a y to d o lin a je d e g e n te s les
c o b ren h o r r o r y n o d ese o , y v a y a n p e r s u a d id o s c o n a q u e lla a p a r ie n c ia e s c a n d a lo s a a o ir la
tr a ic ió n v i é n d o la c a s tig a d a , e l a d u lté r io r e p r e h e n d id o , a c u s a d o d h o m ic íd io , r e p r o b a d a la
liv i a n i d a d , in f a m a d a la c o b a r d ía , p a r a e v i t a r s e m e ja n te s in s u lto s a l v e r d e s a ir a d a la e n v id ia ,
a fr e n to s a la m a lic ia , c u lp a d o e l e n g a n o , d e s h o n r a d a la m e n tir a , m a l v i s ta la to r p e z a , a b o rr e c i­
d a la m a l d a d y d e s c u b ie r ta la a le iv o s ía 22.

A sátira seiscentista é, nesta pragmática, técnica política de extrema apro­


ximação que mantém todas as distâncias adequadas à hierarquia que encena
como porta-voz, ponto por ponto, caso por caso. Há variação, deslocamentos
de posição dos tipos e hábitos efetuados por ela, conforme o maior ou o me­

31. Cf. Heinrich Lausberg, Manual de Retórica Literaria (Fundamentos de una Ciência de la Literatura),
Atadrid, Gredos, 1968, 3 tomos, tomo III, p. 320.
32. José Pelliccr dc Tovar, “Idea de la Comedia de Castilla (1635)”, em F. S. Escribano y A. P. Aiayo,
Precepliva Dramática Espaiiola (Del Renacimientoy el Banoco), Atadrid, Gredos, 1965, pp. 219-220.
Cf. ainda Aíicer Andrés Rey de Artieda, “Carta al Ilustríssimo Alarqués de Cúellar sobre la come­
dia (1605)”, Discursos, Epístolasy Epigramas de Artemidoro, em F. S. Escribano y A . P. Atayo, op. cil.,
p. 112. Observe-se que, segundo Tovar, a “aparência escandalosa" faz ver as paixões viciosas, que
são corrigidas - “desonrada a mentira” - para que o vício do público sofra o mesmo efeito de
correção do vício representado hiperbolicamente, tornando-se virtude.

200
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

nor empenho da persuasão e, ainda, da distância delineada pelo olho. Ela não
é transparência do vivido, mas espécie de complemento e, quase sempre, seu
reverso, na medida em que, moralizadora e hierarquizante, enuncia aquilo
que é seu princípio de proporção, postulado como ausente na Cidade: a
racionalidade.
Toda virtude é uma justiça e a justiça é todas as virtudes33 segundo um
fim, que é o bem comum. Na ordenação dupla, teatralizam-se a desonestidade,
a tolice, a hipocrisia, a desmedida, em várias instituições e ocasiões; simulta­
neamente, a honra, o juízo, a verdade, o equilíbrio. Assim, a sátira é sempre
dupla quanto ao seu efeito de sentido, afirmando uma ausente plenitude do
bem comum, identificada com a boa política e a boa religião, oposta à deca­
dência do presente mau e corrupto, negado como teatro da falha, falta e cul­
pa. Pela oposição da ordem mítica e da temporalidade presente, rebaixamen­
to ou dejeto da ordem, a sátira tenta constantemente fazer o tempo ser
absorvido no mito. Na dissimetria aberta entre o vazio da Ausência e a espes­
sura dos corpos, a ponderação judiciosa dapersona recolhe e une aquilo que,
na outra série que encena, é disparatado como mistura fantástica e jogo do
conceptismo engenhoso das semelhanças negativas34. Nela, a dissimetria das
formas misturadas está a serviço da simetria do sentido virtuoso.
Encenada como intervenção da prudência, arte do juízo, a enunciação da
persona atua na complexidade dos discursos que se disseminam, coletando-os
ha experiência de casos análogos já ocorridos no passado35. Exemplos morais
da tradição, princípios imutáveis da teologia e modelos poéticos convergem

33. Cf. Aristóteles, Elhique a Nicomaque, Introd., Notes et Index par J. Tricot, Paris, Librairie
Philosophique Vrin, 1967, V, 3, 1130-9-10.
34. Cf., por exemplo, em OC, I, p. 155, as liras dirigidas contra Antônio de Sousa de Meneses, o Braço
de Prata, quando da sua entrada em Salvador: “visão de palha sobre um Mariola”, “rosto de azarcão
afogueado”, “O bigode fanado feito ao ferro”, “olhos cagões”, “Chato o nariz de cocras sempre pos­
to”, “rocim das Alpujarras”, “descendente de lampreia” etc. são algumas das caracterizações
caricaturais, que fazem a personagem grotesca, monstruosa, não só pela hipérbole, mas também
pela participação, nela, de várias naturezas. Tais caracterizações são unificadas pela voz da persona
satírica: “cuidei, que a esta cidade, tonta, e fátua / mandava a Inquisição alguma estátua”; “[...] o
julguei um saco e melões”; "vi-te o braço [...]"; “Cuidei, que eras rocim [...]”; “o tive por um odre
esfuracado”; etc. Quanto ao conceptismo, onipresente nesta produção como racionalidade enge­
nhosa da fantasia, bom exemplo também são as décimas dirigidas a um padre Baltasar, amancebado
com duas mulheres, uma negra e uma mulata, poema cuja imaginação pode comparar-se à dos
ingleses metafísicos, como Dryden, Cowley e, principalmente, Donne, pelas fusões súbitas de con­
creto e abstrato, pela violenta aproximação de conceitos distantes, pelos trocadilhos, pelo desen­
volvimento expositivo-dissertativo de “casos” tratados hiperbolicamente (cf. OC, II, p. 287).
35. Cf. por exemplo, OC, I, p. 155: “Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito, / Lucano do mosquito, /
Das Rãs Homero, e destes não desprezo, / Que escreveram matérias de mais peso”.

201
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

no olhar distanciado e distanciador, código não só do que ocorre, mas do que


vai ocorrer. É da relação entre a memória dos signos e sua experiência, os
modelos e seus princípios e os eventos do referencial, que vive a sátira como
técnica política da ação prudente - prudência que, por bem julgar, critica o
presente, recicla o passado e corrige o futuro. A sátira é providencialista, pois
esforça-se em dar conta do presente através da anamnese do Ditado: o vício,
imprudência e falta de juízo, dilui-se como gosto, afetação irracional do ins­
tante que foge. O passado se soletra, assim, não só como memória de casos,
mas como visada ideal: circularidade da intervenção, em que a memória arti­
culada tem sempre corte teológico, que funde razão de Estado com Razão
divina. Representação no sentido teatral do termo - ação posta em cena -
ainda quando carregado de descrições, o discurso mantém-se discurso de
persuasão36, reiterando que a Ausência encontrou, no eu que a enuncia, a figu­
ra adequada.
Nesta linha, ainda, a sátira seiscentista funciona como subgênero cômi-
co-sério do conceptismo engenhoso dos poemas de temática religiosa e estilo
elevado, como os que desenvolvem a Epístola Moral a Fábio, de Andrada. O
mesmo princípio ordena os dois gêneros de poesia, diferindo quanto à técni­
ca e ao efeito de sentido: a gravidade estóica dos poemas sacros intercepta o
burlesco das composições satíricas, como oposição de estilo alto dos primei­
ros, unificados para cima, tanto no léxico quanto na referência inatingível do
discurso, Deus e a Graça, e de estilo cômico dos segundos, misturados para
baixo, tanto no léxico quanto na referência irônica ou maledicente do discur­
so, a falta e a culpa. Direcionando ambos os gêneros de composição como
modelos da experiência moral exemplar, contudo, a mesma teologia política
da unidade e da unificação é metaforizada pela enunciação.
Em sua reativação neo-escolástica dos séculos XVI e XVII, a história é
uma compilação de contingentes passados que, ciceronianamente, formam
um análogo prático para a ação e experiência presentes. Como magistra vitae,
a história fornece, enquanto narração política, a exemplaridade dos modelos
da experiência moral prudente vivida por varões ilustres e proféticos, espe­
lho de príncipes. Acrescentando-se do objetivo pedagógico, é previdente: His­
tória do Futuro é bem o título que figura a especularidade da doutrina da
história como a conservação da experiência passada como padrão futuro que
pressupõe a repetição da Identidade divina nos diferentes tempos históricos
tornados análogos pela participação na substância metafísica incriada. Or­

36. Cf. Paul Zumthor, La masque ei la lumicre (La poélique des grands rhétoriqueurs), Paris, Seuil, 1978, p.
50.

202
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

dem natural figurada por Deus no tempo, a especularidade da tipologia im­


plica obediência política, uma vez que o governante é causa segunda da Cau­
sa Primeira e desobedecer-lhe é não só um erro político, mas também pecado
contra a Vontade.
Na poesia, a esse padrão ibérico providencialista dos séculos XVI e XVII
corresponde a grande quantidade de poemas de tema mitológico, principal­
mente romano, com deuses moralizados alegoricamente. Tais figurações
acoplam-se à experiência presente, má e decaída, teatro do mundo, sonho e
passagem, determinando a coexistência e o conflito de pelo menos duas vo­
zes. Uma delas é a das razões morais e políticas da persona dos poemas, figu­
radas na marca dos cultos da época, a agudeza, que os fazem solenes, erudi­
tos, pesadões de alusão clássica alegorizante. A outra voz - que são muitas no
referencial da Cidade - só se deixa ouvir recortada na outra, surgindo pelo
avesso ou interstício das razões morais alegadas. Desenvolvendo a concepção
da vida como desengano, o topos antigo da fugacidade do tempo vem entretecido
de motivos religiosos que, embora fortíssimos, não o determinam como for­
ma artística produzida diretamente pela Contra-Reforma, como é costumeiro
ouvir e ler, dada sua anterioridade mesma. Os motivos religiosos reinterpretam
o topos na propaganda da fé, não o inventam.
Nesses poemas, quando líricos, a interpretação conceptista do petrarquis-
mo efetua uma cisão no modelo, propondo-se os corpos do homem e da mu­
lher como objetos de gozo e, simultaneamente, como cadáveres antecipados
pela luz pálida do fim em que o prazer se absorve. Como se neles confluíssem
dois tempos, um mítico-heróico, já gasto, outro contemporâneo, que, no seu
“ainda não”, deságua com o outro continuamente no mar da morte. De grande
circulação no século XVII ibérico, tais poemas compõem até à exaustão a dis­
crição de suas personagens no estilo alto das metáforas exuberantemente
minerais, cuja riqueza alegoriza não apenas a juventude e a beleza dos corpos
precários, como tipificação dos amantes, mas também a posição dos tipos da
hierarquia como “melhores”, disponibilidade discreta da dama, virilidade
ociosa do cortesão. A excelente emulação de Garcilaso de la Vega e Góngora
atribuída a Gregório de Matos e Guerra - “Discreta e formosíssima Maria” -
é uma das obras-primas desse gênero.
Tanta pompa fúnebre e tanta ocasião aristocratizante estão rebatidas na
sátira, na voz prudente da persona que as encena como teatro do vício e utopia
política. Enquanto gesto de intervenção na Cidade, a sátira postula a unifica­
ção de todos em torno das virtudes do bem comum. O gesto fracassa a priori,
contudo, pois são essas mesmas virtudes as que o poder estatal alega e o poder
é, efetivamente, divisão hierárquica. Assim, a unicidade do bem comum

203
A SÁ T IR A E 0 E N G E N H O

apregoado na sátira visa a manter a mesma hierarquia, como lei natural da


divisão a que não faltam as cores do pecado e da morte:

U m a só n a tu r e z a n o s fo i dada:
N ã o c r io u D e u s o s n a t u r a i s d i v e r s o s ,
U m só A d ã o fo r m o u , e e s se d e n ad a.
T o d o s s o m o s r u in s , to d o s p r e v e r so s
S ó n o s d i s t i n g u e o v í c i o , e a v ir t u d e ,
D e q u e u n s sã o c o m e n s a is , o u tr o s a d v erso s.

(O C , II, p. 471.)

Dramatizando a mesma divisão natural em sua estrutura, a sátira unifica


quando divide e só divide para unificar - politicamente:

D e s e jo , q u e to d o s a m em ,
s e ja p o b r e , o u s e ja r ic o ,
e se c o n te n te m c o m a so r te ,
q u e tê m , e e s tã o p o s s u in d o .

(O C , I, p . 2 8 .)

Como sua dicção é dupla, deve-se perguntar pela posição dos corpos de
linguagem inventados pelo olho e amplificados pelos óculos interpostos. A
caracterização da visão pelos crivos com que pensa o que vê e vê o que pensa,
ora alargando, ora estreitando as malhas, ora agredindo maledicentemente,
ora ironizando jocosamente, esfumaçando ou clareando os contornos na mo­
dulação dos casos ridículos e obscenos, estabelece o código de honra dapersona
nos poemas. Como é sempre a instituição que produz a perversão, simultanea­
mente também estabelece outras codificações, rebaixadas como deformidade
ridícula e obscena.
O código de honra é enunciado na sátira como moral sentenciosa, em
cuja composição vários saberes concorrem, determinantemente a teologia-
política da divisão hierárquica. Nela se imbricam virtudes medievais, rearti-
culadas como mito épico-cavalheiresco e padrão cortesão discreto. Como mito,
a virtude brilha em ausência e estabelece a legalidade fundamentando-a no
nascimento nobre, segundo o Direito natural37. No código de honra atuam

37. Como se vê no capítulo IV, a sátira opera com procedimentos do gênero epidítico ou demonstrati­
vo, como arte de vituperação. Desta maneira, é simetricamente inversa da poesia encomiástica. A
relação entre louvor e viluperação permite, portanto, também relacionar poesia encomiástica e poe­
sia satírica, uma vez que o mesmo princípio, presente no encômio, é efetuado como ausente na

204

M
A PROPORÇÃO DO M O NSTRO

formulações religiosas, ainda, como distinção sempre operante de católico/


herege/gentio. Antiluteranismo, anticalvinismo, antierasmismo, antijudaísmo,
antimaquiavelismo, desprezo radical pelas práticas religiosas de negros, ín­
dios, mulatos, árabes, mouros, indianos, em discursos em que a razão teológi­
ca não se dissocia da razão prática: seja a concorrência com os holandeses
calvinistas no riquíssimo comércio do açúcar e do tráfico negreiro, seja a es­
poliação dos capitais judaicos na Península e no Brasil pelo Santo Ofício alia­
do da nobreza fundiária, seja o escravismo e as técnicas pedagógicas oportu­
nas do jesuitismo como catequese e destribalização, controle, castigo exemplar
e produção contínua da mais-valia dos corpos pela fabricação de almas.
Efetuada como intervenção reguladora, a sátira é mimética, não no senti­
do da cópia realista, mas como mímica do caráter, “dramatização estamental”38
de princípios e casos retóricos cuja exageração esboça um sentido desfigura­
do e desfigurador. Não obstante a deformação por vezes extrema, tal sentido
mantém-se35 como apelo verossímil da referência que preenche o caso, cons­
truindo o destinatário como capaz de identificar a pessoa satirizada pela com­
paração do tipo grotesco e dos traços individualizantes extraídos do referencial
que o compõe. A sátira estiliza alguns elementos individualizadores - geral­
mente, o nome ou a ocupação - montando-os seletivamente. Ao mesmo tempo,
intercala-os em outros motivos caracteriais, fantásticos, formulando carica­
turas40:

O q u e te v ir s e r t o d o r a b a d ilh a
D i r á , q u e te p e r f ilh a
U m a q u a r e sm a (c h a to p e r c e v e jo )
P o r A r e n q u e d e f u m o , o u p o r B a d e jo :
S e m c a r n e , e o s s o , q u e m h á a l i , q u e c r e ia ,
S e n ã o q u e é s d e s c e n d e n t e d e L a m p r e ia .

sátira. Cf. também os poemas laudatórios dirigidos ao Conde do Prado, OC, I, pp. 170, 176-177,
183, 191-192 ctc.
38. A expressão é de Maravall e aqui c utilizada para designar a rearticulação da virni medieval pela
sátira seiscentista, não sua adequação à Colônia, que não é feudal. Cf. José Antonio Maravall, op.
cil.
39. “Mantem”, supondo-se o presente de enunciação da sátira, que efetua o destinatário articulando-
o com a referência local. Seria difícil sustentar que sempre “mantém”, contudo, porque hoje tal
referência inexiste, de modo que aquilo que é o presente evidente para destinatários contemporâ­
neos da enunciação da sátira hoje é muita vez um passado enigmático.
40. Cf. Lomazzo, “Compositione di ritrarre dal naturale", em Traltato dcWarle delia pitlura, scollura ct
architeltura, Mílano, Apresso Pier Paolo lo Gottardo Pontio, 1585. A instantia di Pietro Tini.

205
A SÁ T IR A E O E N G E N H O

N a m ã o e s q u e r d a t r a z ia s a b e n g a la
o u p o r f o r ç a , o u p o r g a la :
N o s o v a c o p o r v e z e s a m e t ia s ,
S ó p o r fa z e r e n fim d e s c o r te s ia s ,
T ir a n d o a o p o v o , q u a n d o te d e s t a p a s ,
E n to n c e s o c h a p é u , ago ra a s ca p a s.

F u n d ia -s e a c id a d e e m c a r c a ja d a s,
V en d o as d u a s e n tr a d a s,
Q u e f i z e s t e d o M a r a S a n t o I n á c io ,
E d e p o i s d o c o l é g i o a t e u p a lá c io :
O R a b o e r g u id o e m c o r t e s ia s m u d a s ,
C o m o q u e m p e lo c u t o m a v a a j u d a s .

(O C , I, p p . 1 5 7 - 1 5 8 .)

O que produz a verossimilhança dessas “Liras” que se ocupam de Antô­


nio de Sousa de Meneses, governador, é duplo: a semelhança positiva da
estilização, reconhecível no referencial local de discursos - “Braço de Prata”,
“palácio”, “bengala na mão esquerda”, “entrada do Mar a Santo Inácio” etc. -
assegura a mímese como abstração, conforme critérios aristotélicos. A seme­
lhança negativa das deformações da fantasia - “ser todo rabadilha”, “Aren­
que”, “Badejo”, “sem carne, e osso”, “descendente de Lampreia”, “pelo cu
tomava ajudas” etc. - traduz, na desproporção irracional e estúpida das mis­
turas, a adequação aristotélica: a desproporção, como já se viu, é proporcio­
nada para caracterizar o vício e o vicioso tipificados. Assim, os motivos fan­
tásticos, alternados com motivos icásticos, deslocam a estes, propondo-os
também amplificados: a caricatura conserva os traços individualizantes, como
um retrato “comentado” pela metaforização grotesca. Por isso, também, a
sátira se torna muita vez enigmática hoje, quando para seu leitor falta a signi­
ficação da referência estilizada, sobrando-lhe o segundo movimento, a defor­
mação. Esta também é obscura, muitas vezes, pois é uma glosa metafórica e
avaliativa de um sentido literal mimético, supostamente um discurso refe­
rencial ausente na leitura e que, para contemporâneos, era evidente. Com
isto, afirma-se que a formulação grotesca condensa duas funções, representa­
tiva e avaliativa, mimética e judicativa, como ainda se vê no capítulo IV.
Pelo cotejo de poemas e outros textos do século X V I I , alguns critérios
dessa dupla funcionalidade, representativa e avaliativa, puderam ser estabe­
lecidos. Entre eles, os da persona e de seu tema de eleição, o bem comum da
República, articulado como unidade das ordens do corpo místico do Estado.
Tal discurso, já se viu, é o sentido próprio das Atas da Câmara e das Cartas do

206
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Senado analisadas no capítulo II. Dupla, a sátira opera este sentido próprio,
que é o de uma normatividade generalizada, e com glosas dele, alterando-o e
deformando-o conforme os casos. Em outros termos, ela pode fazer-se como
variação mista de um sentido próprio encontrável em discursos contemporâ­
neos segundo outros fins. Este sentido, diga-se ainda uma vez, é critério de
representação e de avaliação. Lugar-comum dele, como se leu nas Atas e Car­
tas, é a miséria da população.
Toda essa população murmura, como se viu no capítulo II. Murmura: os
impostos, a justiça, a administração da Câmara, os mercadores monopolistas,
os escândalos de convento, os cristãos-novos, os contrabandos dos ourives, o
atravessamento das farinhas, a vida alheia. Se a convivência na Cidade4142de­
termina a prescrição das liberdades pela administração e a imposição das leis
de precedência, controle hierárquico e outras formas mais óbvias de controle,
como a milícia, os almotacés, a Infantaria, os açoites, o degredo e a forca, o
relativo anonimato dessa população efetuada nos documentos implica, por
sua vez, a liberdade da isenção relativa do controle, que os mesmos documen­
tos exemplificam. De modo que: “La ciadad que por la concordia era una ciudad,
sin ella es dosy a veces tres o cuatro,faltándole el amor, que reducía en un cuerpo los
ciudadanos”*1.
Essa mesma falta de amor, virtus unitiva da República, caracteriza na sá­
tira a corrupção efetuada do bem comum, que desagrega a ordem e divide a
Cidade em duas, três e quatro. A sátira se faz como distância dramatizada do
sentido próprio de sua intervenção, bem comum, em glosas que o encenam
em situações diferenciadas. Num longo romance, em que a Bahia é personi­
ficada e fala em primeira pessoa, queixando-se das críticas da mesma sátira,
confessa que as culpas que lhe increpam não são suas, mas dos moradores
viciosos que alberga. Como um mapa de culpas, ou um arquivo de incons-
tâncias, o poema perspectiva a distância hierárquica ideal, segundo a técnica
do confessionário, numa alegoria que estiliza os Dez Mandamentos cristãos.
No exórdio, a Bahia encena a contrição, dispondo-se a confessar-se em res­
posta aos que a atacam. Movimento irônico, a sátira encena a desqualificação
da sátira e de seus autores, caracterizados como “murmuradores nocivos” a
que se atribuem “culpas, e delitos”:

41. Cf. José Antonio Maravall, op. dl., p. 262. “A cidade é, por antonomásia, o lugar problemático da
época barroca” (idern, p. 264).
42. D. Saavedra Fajardo, op. cit., vol. II, Empresa LXXXIX.

207
A SÁ T IR A E O E N G E N H O

Já q u e m e p õ e m a to r m e n to
m u r m u r a d o r e s n o c iv o s ,
c a r r e g a n d o s o b r e m im
s u a s c u l p a s , e d e lit o s :
P o r c r é d it o d e m e u n o m e ,
e n ã o p o r te m e r c a s tig o
co n fessa r q u ero os p eca d o s,
q u e f a ç o , e q u e p a t r o c in o .

(OC, I,p. 11.)

O móvel da confissão é, ironicamente, a defesa da honra ultrajada: “por


crédito de meu nome”. Dissimetria, logo a seguir, entre honra e estilização da
referência local, a população:

T e n h o T u rco s, te n h o P ersa s
h o m e n s d e n a çã o ím p io s
M a g o r e s , A r m ê n io s , G r e g o s,
in fié is , e o u tr o s g e n tio s .
T e n h o o u s a d o s M e r m id ô n io s ,
te n h o ju d e u s , te n h o A s s ír io s ,
e d e q u a n ta s ca rta s h á ,
m u i t o t e n h o , e m u i t o a b r ig o .

(OC, I,p. 12.)

“Infiéis” e “gentios” são padrões da hierarquização, conforme já se escre­


veu, efetuados como tipos - por exemplo, índios, negros e cristãos-novos. Como
amplificação metafórica, transformam-se em “Persas”, “Mermidônios”, “As­
sírios”, classificações buscadas à tradição clássica ou bíblica como exemplos
de maldade. Assim estilizados os “infiéis, e outros gentios” - entre os quais
também se alinham homens de negócio, como os ciganos magiares, armênios
e gregos -, segue-se um elenco de vícios estilizados negativamente nas dez
partes do poema após o exórdio, como preceitos que retomam, pela ordem, os
Mandamentos:

E sc n ã o d ig a m a q u e le s
p r e z a d o s d e v in g a tiv o s ,
q u e s a n t i d a d e t e m m a is ,
q u e u m T u r c o , e u m M o a b it o ?
D i g a m id ó la t r a s f a ls o s ,
q u e e s to u v e n d o d e c o n tin o ,
a d o r a r e m a o d in h e ir o ,

208
A PROPORÇÃO DO M O N ST RO

g u la , a m b i ç ã o , c a m o r ic o s .
Q u a n t o s c o m c a p a c r is tã
p r o fe ss a m o ju d a ís m o ,
m o str a n d o h ip o c r ita m e n te
d e v o ç ã o à L e i d e C r is to !
Q u a n t o s c o m p e l e d e o v e lh a
s ã o lo b o s e n f u r e c i d o s ,
la d r õ e s , f a l s o s , e a l e i v o s o s ,
e m b u s t e i r o s , e a s s a s s in o s !
E s t e s p o r s e u m a u v iv e r
se m p r e p é s s im o , e n o c iv o
são, os q u e m e a c u sa m d a n o s,
e p õ e m l a b é u s in a u d i t o s .

(OC, I,p. 12.)

Ira, idolatria, heresia, hipocrisia, gula, luxúria, usura, maledicência, rou­


bo, assassínio, ambição, vingança - suficientemente genérico para referir
qualquer ocasião negativa, o rol dos topoi é muito convencional e, como ainda
se vê no capítulo V deste livro, próprio dos discursos do gênero demonstrativo
da oratória, que opera com lugares de louvor e vituperação. A generalidade
das tópicas é particularizada, contudo, em cada preceito que o poema desen­
volve como exemplo, depois do exórdio em que fala a Bahia. Assim, cada
vício do referencial local - a macumba dos negros, os amores ilícitos, as agres­
sões, a dissimulação, os negócios escusos - é estilizado como semelhança in­
fernal da verdade de cada preceito bíblico. Incluído no modelo genérico dos
vícios, o vício local é caracterizado negativamente, traduzido como transgres­
são da unidade virtuosa: por exemplo, as práticas religiosas africanas são ido­
latria, heresia, pecado mortal. E a mesma tradução que funciona como metá­
fora deformadora e amplificação, segundo a fantasia poética. A mesma
tradução é operada por traços descritivos das naturezas locais, observando-se
o procedimento já referido acerca da caracterização do governador Sousa de
Meneses. O que efetua, ainda esta vez, generalização do alcance da crítica,
“sem andar excogitando / para quem se aponta o tiro”. Assim é que a Bahia
ainda finge uma causa maior de seus tormentos, os pasquins anônimos e,
entre eles, a sátira e a temporalidade curta de sua recepção na praça:

M a s o q u e m a is m e a t o r m e n t a ,
é v er, q u e o s c o n t e m p l a t i v o s ,
sa b e n d o a m in h a in o c ê n c ia ,
d ã o a s e u m e n t i r o u v id o s .

209
A SÁTI RA E O E N G E N H O

A té o s m e s m o s c u lp a d o s
tê m to m a d o p o r c a p r ic h o ,
p a r a m a is m e d i f a m a r e m ,
p o r e m p e la p r a ç a e s c r it o s .
O n d e e screv em se m v erg o n h a
n ã o só b r a n c o s, m a s m e s tiç o s ,
q u e p a r a o s b o n s s o u in f e r n o ,
e p a r a o s m a u s p a r a ís o .

( O C , I , p . 1 3 .)

Alegada a inversão, lugar-comum da C olônia-“para os bons sou inferno,/


e para os maus paraíso” -, a fala da Bahia é recortada, ironicamente, como
inversão de inversão, ou fala retificadora cuja articulação é, ainda, a hierar­
quia. Muito racionalmente, num discurso deliberativo, a Bahia argumenta
com seus detratores, retomando o início do poema como confissão:
Ó v e lh a c o s in s o le n t e s ,
in g r a t o s , m a l p r o c e d i d o s ,
se e u so u e s s e , q u e d iz e is ,
p o r q u e n ã o l a r g a is m e u s ít io ?
P o r q u e h a b i t a i s e m t a l te r r a ,
p o d e n d o e m m e l h o r a b r ig o ?
e u p e g o c m v ó s ? e u v o s ro g o ?
r e s p o n d e i! d i z e i , m a ld it o s !
M a n d e i a ca so c h a m a r -v o s
o u p o r c a r t a , o u p o r a v is o ?
n ã o v ie s te s p ara a q u i
p o r v o s s o liv r e a lv e d r io ?
A to d o s n ã o d e i e n tr a d a ,
t r a t a n d o - v o s c o m o a f ilh o s ?
q u e razão te n d e s agora
d e d if a m a r - m e a t r e v id o s ?
M e u s m a le s , d e q u e m p r o c e d e m ?
não é d e v ó s ? c la r o é is s o :
q u e eu n ã o fa ç o m a l a n a d a
p o r s e r t e r r a , e m a t o a r is c o .

(O C , I, p . 1 4 .)

Depois da imprecação e de um retrospecto43de sua história segundo o


modelo da parábola do semeador e da conclusão de que “o que produzia ro­

43. O procedimento de retrospecto encontra-se em outros poemas cuja tópica é “Cidade”.

210
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

sas, / hoje só produz espinhos” (OC, I, p. 14), a Bahia enuncia o tema do


poema, anunciando o desenvolvimento dos preceitos:

V ó s m e e n s in a s te s a ser
d a s i n c o n s t â n c i a s a r q u iv o ,
p o is n e m a s p e d r a s , q u e g e r o ,
g u a r d a m fé a o s e d i f íc io s .
P or v o ss o r e s p e ito d e i
c a m p o fr a n c o , e g r a n d e a u x ílio
para q u e se q u e b r a n ta s s c m
o s m a n d a m e n to s d iv in o s .
C ad a um p o r su a s ob ra s
c o n h e c e r á , q u e m e u x i n g o 44,
se m a n d a r e x c o g ita n d o
p a r a q u e m s e a p o n t a o tir o .

(O C , I, p p . 1 4 -1 5 .)

A seguir, em dez preceitos, o poema estiliza os Dez Mandamentos,


efetuados como seu sentido próprio positivo. A negativa de cada preceito,
deformado e descritivo, funciona duplamente, pois, como glosa do discurso
bíblico, modelo do bem comum, e como referência da Cidade, lugar do vício.
Como um mapa desse “arquivo das inconstâncias”, uma vez que seu sentido
próprio são os Dez Mandamentos centrais na fundamentação da hierarquia,
o poema é útil para fixar os principais vícios que afligem a Cidade, segundo a
enunciação, e, assim, as virtudes de seu código de honra. Vale lembrar que a
estilização é, em cada preceito, dramatização montada por quadros justapos­
tos nos quais a Bahia é um ator emissário, desdobramento metafórico da
persona. Veja-se o primeiro deles: “Amar a Deus sobre todas as coisas”.

Q u e d e q u ilo m b o s q u e te n h o
c o m m e s tr e s su p e r la tiv o s ,
n o s q u a is s e e n s i n a m d e n o it e
o s c a lu n d u s , e fe itiç o s .
C o m d e v o ç ã o o s fr e q ü e n ta m
m il s u j e i t o s f e m i n i n o s ,
e ta m b é m m u ito s b a r b a d o s,
q u e s e p r e z a m d e n a r c is o s .

44. “Quem eu xingo” é mais adequado, neste contexto, que “quem m eu xingo” da e d ição de Ja m e s
Amado.

211
A SA T IR A E 0 E N G E N H O

V en tu ra d iz e m , q u e b u sc a m ;
n ã o s e v iu m a io r d e lír io !
e u , q u e o s o u ç o , v e j o , e c a lo
p o r n ã o p o d e r d iv e r t i- lo s .
O q u e s e i, é , q u e c m t a i s d a n ç a s
S a ta n á s an d a m e tid o ,
e q u e só ta l p a d r e - m e s t r c
p o d e e n s i n a r t a is d e l í r i o s .
N ã o h á m u lh e r d e sp r e z a d a ,
g a lã d e s f a v o r e c id o ,
q u e d e i x e d e ir a o q u i l o m b o
d a n ç a r o se u b o c a d in h o .
E g a s t a m b e l a s p a ta ç a s
c o m o s m e s tr e s d o c a c h im b o ,
q u e s ã o t o d o s j u b ila d o s
e m d e p e n a r t a is p a t in h o s .
E q u a n d o v ã o c o n fe ss a r -s e ,
e n c o b r e m a o s P a d r e s is t o ,
p o rq u e o têm por p a ssa te m p o ,
p o r c o s tu m e , o u p or e s tilo .
E m c u m p r i r a s p e n i t ê n c ia s
r e b e ld e s sã o , e r e m is s o s ,
e m u i t o p io r se a s t a is
sã o d e je ju n s, e c ilíc io s .
A m u ito s o u ç o g e m e r
c o m p e sa r m u ito e x c e s s iv o ,
n ã o p e lo h o r r o r d o p e c a d o ,
m a s s im p o r n ã o c o n s e g u i - l o .

(O C , I, p p . 1 5 -1 6 .)

Ficção narrativa, a voz da Bahia ocupa o mesmo lugar do olho a distância


do início deste capítulo, como olhar do testemunho: “eu, que os ouço, vejo, e
calo”; “o que sei”; “A muitos ouço”. O ponto-tema do olho, a religião africana,
é idolatria e heresia, segundo a lente deformante da ortodoxia católica. A
mesma religião que constitui Deus e sua falta, “Satanás”, ordena a visão da
Bahia, quando opõe práticas católicas a africanas: a sátira exclui o negro da
boa semelhança, incluindo-o na operação como seu outro idólatra, herético,
pactário. Propõe, ainda, que os hábitos e práticas católicos se imponham a
todos, lamentando que estejam alterados, o que se observa na estilização das
perguntas do confessionário - sobre o sacrilégio, por exemplo: “Calaste

212

j
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

sacrilegamente, por vergonha, algum pecado numa confissão passada?”45,


estilizado como: “E quando vão confessar-se, / encobrem aos Padres isto, /
porque o têm por passatempo, / por costume, ou por estilo”. Desqualificação
do negro, mas também de outros, não-negros: “mil sujeitos femininos, / e
também muitos barbados,/que se prezam de narcisos”.
Se a heresia é soletrada pela legibilidade doutrinária da hierarquia, aqui,
pela mediação de “Satanás”, a prática religiosa não-católica é “delírio”, “lou­
cura”, classificação de irracionalidade que se estende ao judaísmo, islamismo,
bramanismo, luteranismo, calvinismo etc., enquanto o catolicismo se eleva
como racionalidade e verdade.
A interpretação da voz prudente da p e r s o n a articula o imaginário do sis­
tema - ética, religião, divisão jurídica - como qualidade positiva ausente na
Cidade, sobredeterminando as imagens de sua referência. Na sobredetermi-
nação, o discurso divide-se para unificar seu efeito amplificado: a voz descri-
tívo-narrativa mimetiza a Cidade e sua corrupção; a voz prescritiva avalia o
sentido de tais imagens, dividindo-as pela antítese virtude/vício como tradu­
ção moralizante, como acusação de culpa, como normatividade de medidas a
serem tomadas para sanar o mal. O vício é investido nas imagens torpes, como
metaforização disfórica da ponderação da voz que dramatiza a virtude. Com
isto se repete que é a virtude que gera os vícios, não o oposto: a sátira constrói
uma imagem amplificada da corrupção de um tipo decaído porque, simulta­
neamente, alega a ordem, paralela à mesma corrupção. Como opera com tra­
ços estilizados que individualizam, compõe o destinatário como capacitado
para estabelecer analogia entre a imagem deformada e o evento referido pela
deformação e, ainda, como capaz de preencher a ausência efetuada pela voz
virtuosa quando identifica a imagem e o evento. A sátira atinge seu fim, que
é o de fazer com que a imagem apenas verossímil seja tida como dada ou
positiva, quando o destinatário adetp ao lugar da enunciação e assume a pon­
deração como critério avaliativo e corretivo do mal. Assim, a ordem mítica
das virtudes absorve em sua idealidade a mesma dissimetria que sua mera
postulação implica: para ela flui toda a corrupção das imagens dos maus há­
bitos do presente, inclusive os do destinatário e a sua murmuração, que adere
à ordem quando ri com a catarse de sua encenação.
A utilização de outros documentos do século XVII, que efetuam uma
regulação prática dos discursos de seu tempo, permite posicionar a regulação

45. Cf., por exemplo, A Pérola Eucarística das Crianças. Lembrança da Primeira Comunhão pelo Pbro.
Vicente-Jimenez C. Aí., versão por um padre jesuíta, 3. ed., Czechoslovakia, Casa Ed. Católica J.
Steinbrener, A. N. Vimperk, s/d., p. 27. Cf, principalmente, “Exame pelos Mandamentos”.

213
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

moral do verossímil satírico, indicando outros motivos para a constituição de


tanto monstro que nele pulula. Como já ficou dito no capítulo II, são perspec­
tivados: quando um mesmo tema é tratado neles e na sátira, sua comparação
permite evidenciar outras posições da crítica a determinados eventos. Sirva
de exemplo a encenação constante do “mulato” na sátira, criticado sempre
por meio do estereótipo ibérico da “limpeza de sangue”. Segundo a encena­
ção satírica, a mesma “limpeza de sangue” é limite da pretensão e da arrogân­
cia mulatas:

Alerta Pardos do lrato,


a quem a soberba emborca,
que pode ser hoje forca,
o que ontem foi mulato.
(OC, II, p. 423.)

ou

[...] porque é mulato:


ter sangue de carrapato
ter estoraque de Congo
cheirar-lhe a roupa a mondongo
é cifra de perfeição:
milagres do Brasil são.
(OC, IV, p. 793.)

Além da obviedade da classificação do negro e seus descendentes como


“peças”, “bestas”, “alimárias” para os brancos em sociedade escravista, há
outras razões da crítica a eles, mais particulares, englobadas no quadro geral
do escravismo. Quando se lêem asAfas da Câmara e as Cartas do Senado en­
contram-se várias providências da Câmara para proibir a entrada ou a per­
manência dos mulatos na Cidade, indicando-se que devem ser mantidos fora
de seu termo. Conforme o verossímil satírico, a interpretação exclusiva da
aversão pelos mulatos é a “limpeza de sangue”, como um estereótipo. Contu­
do, como se leu no capítulo II, o Terço da Infantaria que protege Salvador
chega ao efetivo de 2500 homens, mercenários quase todos, que volta e meia
se rebelam nas Cartas pelo não-recebimento de soidos e de sírios da farinha
que substitui o trigo, prometidos pela mesma população que se autotributa
para comprá-los de Cairu, Camamu e Boipeba. No capítulo II, os sírios são
desviados, têm peso menor, são revendidos, o que efetua a rebelião da solda-

214

à
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

desca indignada e faminta, como se leu. Os soldados são também propensos à


prática de arruaças e assuadas quando, aos bandos, metem-se em encrencas
nas ruas dos documentos e quando bebem a jeribita, a aguardente proibida e
vendidíssima, nas tavernas espalhadas pelas notícias das Cartas eAtas. Gran­
de parte do efetivo do Terço é composta de mulatos. Num soneto satírico,
andam

Muitos Mulatos desavergonhados,


Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
(OC, I, p. 3.)

Aqui, as cartas de nobreza mulata, as palmas brancas das mãos, são fusti­
gadas pela sátira de maneira bastante tradicional, segundo a tópica medieval
do mundo às avessas, pela presunção e pelo excesso do não-reconhecimento
de seu lugar de membros ínfimos no corpo da República. Pela condensação
de “pícaro” e de “picard”, os mulatos são desqualificados como os pícaros de
outra estirpe que a sátira figura insultuosamente: rufiães, gente vil. PelasAms
e Cartas, sabe-se que os soldados do Terço, principalmente oficiais, também
sargentos e outros, costumam desalojar os habitantes, passando a morar sem
pagar aluguel, privilégio que se alastra perigosamente, pois torna-se murmu-
ração. Eis aqui uma espécie de metaforização das razões: o que nas Atas e
Cartas é questão de controle da população, independentemente da cor, pois a
“limpeza de sangue” está incluída naturalmente no controle exercido, na sá­
tira é enquistamento metafórico na cor, posição fidalga que o povoamento do
Recôncavo já torna um arcaísmo no mesmo século XVII, pela miscigenação
crescente que é, inclusive, ambígua política oficial, dada a falta de gente16.
No soneto referido, o motivo central do ataque contra os mulatos encontra-se
no verso: “Trazidos pelos pés os homens nobres”, que pode ser metaforizado
aqui pela notícia de arruaças, rebeliões e ocupação dos imóveis, segundo as
Atas e as Cartas, que também referem que o negócio das carnes está, geral­
mente, em mãos de açougueiros mulatos que as vendem com alteração no
peso. Muitas/Pas da Câmara de Salvador registram, aliás, determinações dos
vereadores de que a carne seja exposta pendurada, para que o sangue escorra
todo e não pese. Os açougueiros mulatos insistem, segundo elas, em expô-la
amontoada. As Atas registram também, neste sentido, intervenções de juizes
do Povo contra eles, afirmando “porque são inimigos do Povo” como justifi-46

46. Cf. C. R. Boxer, O Império Colonial Português (1415-1825), Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 250*255.

215
A S Á T I R A E O E N GE N H O

cativa das medidas. Tal referencial de discursos é dramatizado, na sátira, pelo


verso “Posta nas palmas toda a picardia”, segundo o topos convencional “ori­
gem”. Pode-se afirmar, portanto, que intervém dois princípios miméticos: o
da seleção e o da abstração corretora dos casos da invenção. Por eles, a inter­
pretação da ameaça mulata das Cartas eAtas é encenada como improprieda-
de de tal ameaça e abuso, vistos à luz da hierarquia e da limpeza de sangue47.
As referências disfóricas a negros e a mulatos adaptam-se, economica­
mente, a ocasiões muito variadas em que há interesse em denegri-los e que a
sátira não nomeia, necessariamente: a deformação funciona como um chavão,
estereótipo aplicável a várias ocasiões e pessoas. Por exemplo, revoltas de
escravos, bebedeiras e arruaças, confusões nas festas da Igreja, feitiçaria,
calundus, a própria proximidade dos negros etc.
Dada a orientação descritiva e prescritiva das Atas e Cartas, viu-se que é
possível construir outras versões de um tema determinado, pois tais docu­
mentos são também articulados pelo referencial dos discursos locais. Preços
do azeite, bacalhau e vinho, cotação do açúcar, estanco do sal, eleição da Câ­
mara, disposições sobre festas religiosas e provisões da Santa Casa de Miseri­
córdia e do Convento de Santa Clara, petições de senhores de engenho, novas
máquinas para a moagem da cana, relatórios de avarias de navios e cargas,
reclamações contra impostos, providências para a coleta de lixo, pendências
com religiosos de várias ordens, proibição de trajes e porte de arma, querelas
com ouvidores, desembargadores, juizes de Órfãos e dos Defuntos e Ausen­
tes, elogios ou críticas de governadores e bispo, protestos protocolares de
vassalagem, afirmação reiterada da ponderação e prudência na boa condução
do navio da República, precedências infringidas, casos de prisão, contraban­
do e naufrágios etc. desenham mapas imaginários da delinqüência e da os­
tentação, da ordem e da desordem, de fomes e de fartura, de murmuração e
de adesão, de distribuição, enfim, de práticas muito diversificadas no mesmo
lugar e tempo dos textos, Salvador em fins do século XVII.
Propondo sempre a experiência dos casos, a mímese satírica dramatiza
em suas formas a mesma movimentação das trocas discursivas legíveis em
Atas e Cartas. Sua gesticulação é a do dinamismo tenso característico da épo­
ca e talvez se explicite melhor quando se lembram os dois tempos que postu­
la: este, presente mau e decaído, e que passa como esvaziamento contínuo do

47. “Esse preto de rabo ao léu” - assim o venerável Patriarca jesuíta da Etiópia, Dom Afonso Mendes,
costumava referir-se a seu colega, um brâmane cristianizado, Dom Mateus de Castro, bispo de
Crisópolis. Cf. C. R. Boxer,/l Igreja e a Expansão Ibérica (1440-1770), Lisboa, Edições 70, 1981, p.
26.

2 16
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

outro, aquele, perfeito e pleno, que não passa nunca, porque já passou desde
sempre. Nesse dinamismo, a mesma linguagem circula como diagrama das
trocas48 que dramatiza e efetua: "troca”, "trocar”, “ligeireza”, “trote”, “su­
bir”, “baixar”, “mudança”, “cuidado”, “fortuna”, “fortunilha”, “roda”, “aca­
so”, “ocasião”, “fogo ativo”, “de contínuo”, “hoje-ontem”, “ontem-hoje”, “mu­
dar”, “mudar-se”, “mudança” são exemplares do léxico que, na desordem
dinâmica de tudo, compõe o próprio dizer como passagem para a solução
conservadora, desejosa de agarrar o instante que passa fixando-o, ao instante,
numa duração que é a medida precária do tempo que o leva para sua autodis-
solução.
Olho no mar, lente interposta, ponto: tópicas, tipologia, topologia. Nas três
classificações das trocas discursivas, aqui um artifício que lineariza sua si-
multaneidade na sátira, funcionam regras: regras retóricas para a mímese,
para a invenção dos corpos de linguagem, fundindo a retórica com o aparato
jurídico-teológico, para sua ordenação por lugares encenados da hierarquia.
Funcionam como crivos da intervenção, metaforizando e classificando a tudo
e a todos pelas normas ja aludidas do Bem. Dividcm-se em verossímeis, com­
põem cruzamentos ibéricos e italianos, reiteram, estilizam ou parodiam o
petrarquismo, reativam o escárnio, as burlas, a diatribe, o entremez e a farsa,
movimentam o conceptismo engenhoso, retomam resíduos quinhentistas...49
Tais regras efetuam a adequação, segundo o decoro, da invenção, dispo­
sição e elocução dos casos, como arte que subordina seus procedimentos
retóricos e código de honra a um fim, a hierarquia. Segundo ela, a ordem
retórica dos conceitos nos poemas é homóloga do conceito teológico-políti-
code ordem. O extensocorpus dos poemas é, desta maneira, um rebatimento
discursivo de uma ordenação vertical, imanente, gravada nos corpos e ins­
tituições, figura de El-Rei, metáfora encarnada da Lei transcendente que
nele se atualiza e expande dilatando a Fé e o Império, descendo com sua
imagem, vestígio e sombra escolásticos até a prostituta negra mais desgra­
çada, fluindo pelos desvãos sombrios que toda afirmação da Qualidade fun­
damenta, prescreve e cega em sua luz. Infinitismo da lei, a sátira também

48. Cf. José Miguel Soares W isnik (Seleção, Introdução e Notas), Pontua'Escolhido* de Gregário de
Maios, São Paulo, Cultrix, 1975. W isnik vê num "mundo trocado pela troca [...] uma das chaves da
poética gregoriana", p. 19.
49. Lembre-se que, entre outros, a sátira da “vã cobiça” e da “glória de mandar" tinha-se tornado um
topos das letras portuguesas quinhentistas, como se pode ler em O Soldado Prático, de Diogo do
Couto; em Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto; em Lusitânia Transformada, de Fernão Álvares do
Oriente; em relatos da História Trágico-maritima; cm Sá de Miranda, Antônio Ferreira, Gil Vicente
e, obviamente, Camões.

217
A SÁTI RA E O E N G E N H O

é disseminação do olho, espalhamento dos corpos de linguagem por múlti­


plos escaninhos da ordem, segundo o ritmo ilimitado das trocas, amorosa,
mercantil, religiosa. Na cartografia que opõe e inclui a Cidade Alta e a
Cidade Baixa, o olho escorre, vai do Rosário dos Pretos enfrascados de
jeribita para a festa à Praia onde se joga o lixo, detém-se em São Bento onde
as ruas são buracos e a procissão tropeça, volta uma vez mais ao Dique onde
há memórias de holandeses, desce e sobe ladeiras rumo à Misericórdia e
não a encontra, esbarra em São Pedro com a guarnição esfarrapada que
reclama farinhas tardas, desvia-se para a Sé, faz reverência muda ao arce­
bispo, vê a Câmara e sua prisão, entra, perscruta o crime, atenta para uma
gola de renda ou para o veludo cor de pimentão com fundos de flor-de-lis
da roupa de um vereador, sai, vai a Palácio, espia a bengala do Braço de
Prata e a cama de Câmara Coutinho, passa pelo Terreiro de Jesus, namori­
ca as putas, diverte-se com a cavalhada dos mouros e cristãos, enfada-se
com o cheiro do peixe que ali se vende, participa de certame letrado no
Carmo, no Colégio e na Quinta do Tanque, glosa um mote, discute na Al­
fândega a baixa do açúcar e a moeda, despreza outro mulato, observa São
Francisco e certo frade freirático, avança para Santa Clara onde a freira
geme o desterro atrás do ralo e grade, retorna, desce bamboleando pelos
guindastes, passa pela Conceição da Praia donde enxerga a frota abarrota­
da de dizimo, tabaco e açúcar, gira sobre si, entra mar adentro até as ilhas
de nomes doces, Maré, Madre de Deus, Itaparica, desce a Porto Seguro e a
Camamu onde inspeciona as farinhas reclamadas em São Pedro ou canta
em estilo épico a expedição contra bandidos paulistas, retorna, sobe aos
navios que vêm da índia com a canela e o escorbuto, esquadrinha o contra­
bando de prata e peles de Buenos Aires, desvia-se dos negreiros bexiguentos
de Luanda e Mina, viaja para Sergipe do Conde e Pernambuco, manda novas
de Palmares, acompanha cartas do Senado e caixas de açúcar até Lisboa,
passa por Coimbra, revê a Universidade, retorna, da barra vê os incultos
matos da Bahia, coqueiros, bananeiras que sussurram “Brasil” na brisa
quente, navega para os reinos de África, Congo, Zambézia, Moçambique,
Mombaça, horroriza-se com animais de estranhas raças qual bárbara milí­
cia, é capturado por piratas, vendido em Argel, naufraga, emerge, adorme­
ce ao som de seu tormento entre cafres, vai além, Macau e Goa, atinge os
confins do Pegu, onde encontra o brâmane primaz da greparia, avô de um
Rolim da Bahia, e retorna, para cantar as excelências do cono, as cruzes de
dois ladrões, o atrevimento de criados, a Sé da Bahia, o ardor em coração
firme nascido, os que campam no mundo, os memoriais de afligidos, as
damas presas no xadrez, as mesuras de A com pé direito, a turbulenta terra,

218

â
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

as queixas da esperança e o desengano de viver. Cartografia, enfim, que


funciona como um mapa da referência do evento, como envelope imaginá­
rio sempre movediço, cujas coordenadas balizam e interpretam os mil e
um acidentes, gestos, vozes, cheiros, murmurações, casos, crimes, mesqui­
nharias, depravações, ridículos, obscenidades, pompas e circunstâncias desse
lugar, Bahia, onde “se gastam as mais das fazendas que do reino vêm e dos
engenhos de açúcar saem [...] porque o açúcar é a cabeça deste corpo mís­
tico do estado do Brasil”50.
Intervenção neste “corpo místico do Estado do Brasil”, a sátira é uma
prática que define um modus loquendi e um modus agendi, falas, ações e suas
trocas. Encena os pontos de azedume do açúcar e a corrupção das doçuras do
ócio: discursos e ações das partes mecânicas desse corpo, articulações em que
a máquina emperra, mau funcionamento das peças, podridão dos órgãos.
Assim, dramatiza na encenação a direção especulativa da ciência política ibé­
rica do século X V II, segundo sua interpretação neo-escolástica que doutrina a
política como um item da Teologia. No campo da ação, traduz as causas por
normas do fazer e do agir afirmando, no que se refere àquilo que é operávei,
factível e agível, conhecimento universal das normas:

A causa é melhor, que o efeito


na boa filosofia.
(OC, II, p. 309.)

No primeiro caso, o saber é arte ou técnica, como recta ratiofactibilium; no


segundo, o produto de um hábito do entendimento prático, recta ratio agibilium,
que permite conhecer os primeiros princípios na ordem da ação: a sindérese,
com uma virtude, moral e intelectual, a prudência, que ajusta a norma univer­
sal à ocasião temporal51.
A noção rotineira de “crítica de costumes” com que se caracteriza a sátira
seiscentista explicita-se historicamente segundo esses mesmos paradigmas de
uma Escolástica reinventada pelos séculos XVI e XVII ibéricos para regulamen­
tar o fazer e o agir. A “crítica de costumes”, aliás, está implícita na mesma
conceituação da ordem monárquica da época, não sendo oposta ou exterior a
ela, mas operação teológico-moral que condena os abusos para reiterar o bom

50. Cf. Maria Izabel de Albuquerque, “Liberdade e Limilação dos Engenhos d’Açúcar”, em Primeiro
Congresso de História da Bahia, Anais, Salvador, Instituto Geográfico e Histórico, 1955, p. 494. C f
nota 53 do capítulo II.
51. C f F. M urilo Ferrol, op. cil., p. 60.

219
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

uso, combatendo as partes doentes do corpo da República porque ele é corpo


místico, sagrado, que tem o Rei por cabeça. Por isso, se o Estado é um artifício
montado por analogia com o corpo humano, a ação política inclui-se no campo
prático de suas ações regidas por normas e pela virtude da prudência52. Como
arte da ponderação judiciosa e discreta, a prudência isola e classifica, baseada
indutivamente em casos, aquilo que é criticável e indesejável53. A sátira
seiscentista funciona como uma arte de prudência: técnica da encenação de
eventos como inversão de regras do decoro e transgressão de interditos, segue
regras de um gênero misturado, muito conforme ao conselho moral e ao
dirigismo político de sua voz magistral. Tem dois movimentos: o da ruptura
do decoro, que expõe o evento aberrante, disforme e ridículo, sempre mau, e
o da sua ponderação, que identifica e analisa o monstro como ausência de
Bem, presentificado pela mesma ponderação como norma da excelência, que
é a sua. Claro e escuro, luz da ponderação judiciosa e sombra do gosto confu­
so, ordem e desordem, razão de Estado e sem-razão das paixões, virtudes e
vícios, enfim, a sátira teatraliza duas direções que o olho recorta como visibi­
lidade da Cidade: no caso, o olho relega ao silêncio e à invisibilidade, depois
de fazê-lo falar e evidenciar-se grotescamente, aquilo que não é da sua alçada,
segundo norma de sua autoconstituição que postula, nuclearmente, uma de­
finição racista da ordem: não é “nascido” quem quer54.
Para fazê-lo, repita-se ainda esta vez, a sátira encena o evento como aqui­
lo que ocorre e que poderia não ocorrer: como ruptura indevida na homoge­
neidade de sua visibilidade. Resulta disto que

[...] nenhuma descrição de um fato ou de uma ação em sua relação com um referente
real ou com o sistema semântico da língua pode ser definida como evento ou não-
evento antes que se resolva a questão acerca de seu lugar no campo semântico estrutu­
ral segundo, definido por um tipo de cultura55.

O trecho de Lotman é útil para explicar, por exemplo, a baixa freqüência,


no corpus dos poemas atribuídos a Gregório de Matos e Guerra, de sátiras
contra negros e índios. Pela classificação hierárquica, são invisíveis e
irrepresentáveis. Por isso também, quando descritos ou narrados, a sátira os

52. Fusão de particularismo, que visa a dar coma de todas as ocasiões, com a concepção tradicional da
lei, como derivação de uma rigorosa hierarquia de normas repetidoras de um ditado divino.
53. Cf. Baltasar Gracián, Obras Completas, Madrid, Aguilar, 1967.
54. As mesmas regras funcionam, por exemplo, na França do século XVII. Cf. Hélène Duccini, “Discours
et réalité sociale: le révélateur des pamphlets”, em Henry Méchoulan (org.), CE tal baroque (1610-
1652). Regards sur la pensée politique de la France du premier XVII1siècle, Paris, Vrin, 1985, p. 395.
55. Cf. Iuri Lotman, La struciure du lexte artistique, Paris, Gallimard, 1973, p. 326.

220
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

faz vistos e ditos como aquilo que é indigno de ver e de dizer, propondo-os
comoà parte, sub-humanidade gentia, ou fora, irracionalidade, do campo de
sua visão, afirmada como luminosa, racional, verdadeiramente humana:

Não posso sofrer


que um tangarumanga
use de pendanga
com língua asneirona:
forro minha cona.
(OC, II, p. 463.)

ou

[...] um homem bronco


racional como um calhau,
mamaluco em quarto grau,
e maligno desde o tronco.
(OC, I, p. 203.)

E ainda:

Animal sem razão, bruto sem fé,


Sem mais Leis, que as do gosto, quando erra,
De Paiaiá virou-se em Abaeté.
(OC, IV, p. 841.)

Fique claro que esta é uma das regras de hierarquização: o mesmo episó­
dio - por exemplo, a desqualificação do índio ou do mulato - pode ser situa­
do em níveis estruturais diferentes, sendo ou não um evento conforme sua
posição no campo institucional dos discursos que lhe definem o valor. Ao
lado da ordenação semântica geral do texto, há nele lugar também para orde­
nações parciais. O evento pode ser efetuado como uma hierarquia de eventos
parciais, como uma cadeia de eventos, isto é, como tema principal caracteri­
zado por subtemas secundários. Neste sentido, aquilo que em um poema par­
ticular é um evento - por exemplo, a arrogância mulata - pode ser deslocado
como elemento descritivo de tipo em outro. Da mesma maneira, o topos “ne­
gro” ou “mulato”, por vezes tema, por vezes subtema, pode ser deslocado
como insulto no ataque de não-negros e não-mulatos. Assim entendido, o
tema não representa algo independente, diretamente extraído do vivido ou
passivamente recebido, mas associa-se a paradigmas que fornecem a escala

221
A SÁTI RA E O E N G E N H O

do que é evento e daquilo que é uma variante dele, não comunicando nada de
novo56no contexto em que ocorre como caracterização de tipo. Quando tratado
como tema, torna-se evento. A sátira se ocupa de preferência dos homens-bons
católicos, brancos e livres, inflados do excesso da Bondade que o mesmo siste­
ma postula, corruptos e hipócritas. No caso, a prudência é articulada em termos
de natureza fidalga, boa e racional, e a vituperação se faz em termos da bastardia
e ilegalidade das ações, pela desqualificação “mulato”, “mamaluco”, “negro”.
Referidos a pessoas brancas, os termos sensibilizam a falta das virtudes fidalgas.
Se o que hoje se convenciona como “Barroco” pode também ser concebi­
do como um efeito literário ou pictórico das refrações do Absoluto relativizado,
da potência indivisa dividida, do incontestável contestado57, conflitos de de­
ver e de poder em poemas satíricos do século XVII dramatizam as divisões
múltiplas e a unificação de um Estado difuso, onipresente, que fala por bocas
de inferno privilegiadas como bocas da verdade providencial. Como as divi­
nas lanças, vomitam fogo e maldição - seu fim é cauterizar, queimar, purgar
as partes gangrenadas do corpo da República.
Se o olho fidalgo se compraz na vileza que produz e que condena, o que é
sua ação de descer tão baixo na infâmia do ramilhete de víboras? Volte-se uma
vez mais para o mar inumerável, para perto do olho, mantendo-se a distância
conveniente para vê-lo enquanto ele vê. Eis a Cidade - Alta e Baixa -, feliz
partição topográfica que alegoriza a mesma divisão moral e política de virtude
e vício, discreto e vulgo. Quando o de baixo subir, deverá moralmente descer, e
vice-versa, segundo os movimentos da compensação que a prudência prescre­
ve: “Las dos mudanzas propias a la comedia ya dicho que son que el bueno suba dei
miserable estado a la grandeza, y el maio baje de la grandeza al miserable estado”58.
Articulação da antítese própria das operações da prudência, que aproxi­
ma e compara extremos para distingui-los e opô-los, o olhar satírico diagrama-
se como quiasma que processa a visibilidade da Cidade. Como quiasma, figu­
ra a feliz intersecção do meio-termo, ponto de equilíbrio dos extremos. Entre
eles - “bom/miserável” e “grandeza/mau” - desenrola-se o campo de inversões
a serem invertidas e postas no lugar adequado. O quiasma esquematiza a au­
sência de virtudes, aparência, ilusão e teatro do mundo, que é um desacordo a
ser preenchido pela fala que traz a ordem. O ato de enunciação da persona é,
por isso, referencial de seus enunciados: a sátira dramatiza as classes da inver­

56. [dem, pp. 326-327.


57. Cf. André Robinet, “Prcface”, em Henry Méchoulan (org.),op. cil., pp. V-VI.
58. Cf Jusepe Antonio Gonzálcz de Salas, “Nueva idea de la Tragédia Antigua (Madrid, 1633)", em F.
S. Escribano y A. P. Mayo, op. cil., p. 215.

222
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

são - amor, comércio, religião, administração, política - e os viciosos que as


ocupam - puta, negociante, padre, oficial, fidalgo. As glosas metaforizam, pelo
negativo de sua carência, o lugar cheio de “eu” com autoridade para dizer o
Ditado e, portanto, para fixar e confirmar a culpa, a falha. Efeito de circula­
ridade discursiva, portanto, como passagem continua de posição extrema para
posição extrema, tendo por instrumento o lugar da enunciação. A persona se
desdobra, toma-se como tema da fala, apresenta-se para o destinatário em
micronarrativas que tematizam seu lugar de origem e de pertença, ação e qua­
lidade, e, ainda, fazendo tal lugar ser preenchido por fábulas, exemplos, cita­
ções de outros textos que intensificam a interpretação judiciosa.
Em muitos dos poemas, principalmente os mais longos, os romances, opera
procedimento análogo ao do prólogo da comédia espanhola do século XVII59.
Apersona é personagem que se apresenta em qualquer ponto do poema, geral­
mente no início, captando a benevolência do destinatário comendativamente,
recomendando-lhe a fábula, a história ou o “eu” que o compõem:

E pois coronista sou


desta grã festividade,
tenho de falar verdade,
e dizer, o que passou:
(OC, III, p. 643.)

Um segundo modo consiste no que os preceptistas espanhóis do século


XVII chamam de “modo relativo”: nele se vitupera o vicioso ou se rendem
graças aos benévolos ouvintes, logo no início, como neste poema em que as
interrogações constituem o destinatário:

Estamos na cristandade?
Sofrer se há isto em Argel,
que um convento tão novel
deixa um leigo por um Frade?
que na roda, ralo, ou grade
Frades de bom, e mau jeito
comam merenda a eito,
e estejam a seu contento
feitos papas do convento,
porque andam co papo feito?
(OC, IV, p. 855.)

59. Cf. Luís Alfonso de Carvailo, “Cisne de Apoio (1602)”, em F. S. Escribano y A. E Alayo, op. cil., p. 92.

223
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Um terceiro modo é argumentativo, apresentando-se logo no início do


poema um resumo da fábula que se vai desenrolar - por exemplo, no monólo­
go do Braço Forte, auxiliar do Braço de Prata:

Preso entre quatro paredes


mc tem Sua Senhoria
por golotão de despachos,
por fundidor de mentiras.
(OC, I, p. 162.)

Um quarto modo, ainda, é misto, por participar dos três anteriores, apre­
sentando uma espécie de intróito em que a persona se dirige ao público, um
desenvolvimento chamado “faraute” pelos preceptistas espanhóis da época,
e que consiste na declaração do argumento do poema, e uma “loa”, em que se
louva a mesma sátira, o público ou a situação - no caso, ironicamente:

Cansado de vos pregar


cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,
por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
(OC, II, p. 472.)

A persona da sátira é lugar de uma condensação de motivos e esquemas.


Funcional, nela coexistem vários paradigmas ou conjuntos de possibilidades de
ação, segundo códigos do século XVII ibérico. No caso, tais códigos são, basica­
mente, três- direito, ética, religião -, relacionados como matrizes interpretantes
das posições da persona e de suas personagens. Retomando-se a citação de
Lotrnan, religião, ética e direito constituem o código que determina o que é even­
to, segundo critérios comparativos de lei natural e lei positiva. Apersona se cons­
trói, assim, como uma convenção semiótica que ordena e distribui convenções -
nela se condensam funções metalingüísticas que operam traduções, definição e
distribuição dos temas para o destinatário, principalmente como tradução
conativa do tipo. Como hierarquização, o código é operado binariamente:

224
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

branco X não-branco
católico X herege, gentio
discreto X vulgo
fidalgo X plebeu
honesto X desonesto
livre X escravo
masculino X feminino.

Como paradigmas, os termos da coluna à esquerda são semanticamente


eufóricos e é a partir deles que se estabelecem os termos marcados disforica-
mente. Admitem várias subcategorizações, segundo a referência efetuada pelo
caso retórico ou pela encenação do insulto:

branco X não-branco
católico X luterano, calvinista, judeu, muçulmano, brâmane, gentio
discreto X poeta medíocre, pregador inepto, mau letrado, mau jurista,
pseudofidalgo
fidalgo X mecânico, negro, índio, mulato, mamaluco, vulgo
honesto X ladrão, simoníaco, usurário, hipócrita, simulado
livre X escravo, escravo de si mesmo
masculino X mulher, puta, corno, sodomita

É com eles, simultaneamente limite e princípio dos termos negativos, que


a sátira fixa, pelo ponto de vista do olho, o que é evento: ruptura das normas
visível e dizível como afastamento diferencial da unidade encenada que a
interpreta. Assim, a persona satírica tem função contrastiva: no lugar de sua
efetuação no poema associa-se o conceito cultural de verdade60 (o direito, a
ética, a religião) com o ponto de vista único, estabelecido como válido, da
persona que partilha nessa verdade das classes positivas-branco,fidalgo,cató­
lico, discreto, honesto, livre, masculino - como um ator móvel. Desta maneira,
também no lugar da enunciação são dramatizadas não só virtudes, generica­
mente, mas postos e funções institucionais: a fala mimetiza o discurso da
Justiça, da Igreja e da Moral e, mais particularmente, é convenção para a
mímese do discurso do juiz, do magistrado, do ouvidor, do oficial da Câmara,
do inquisidor, das cartas monitorias do Santo Ofício, do governador etc. Isto
implica grande movimentação, dadas as múltiplas ordens e funções dramati­
zadas e, simultaneamente, unificação na norma ideal - racionalidade, ordem,
bem comum - que fundamenta tais funções e ordens. Juízo que analisa e enge-

60. Cf. Iuri Lotman, op. cit., p. 373.

225
A SÁTI RA H 0 E N G E N H O

nho que funde, divisão e integração, a sátira opera macro-estruturalmente os


mesmos procedimentos da elocução engenhosa de antíteses e metáforas como
ornato dialético. Ao encenar o ponto de vista como reiteração da verdade de
que é emissária, a persona estabelece uma oposição de dois pontos de vista, o
seu e o de outros, simetricamente inversos:

racional x irracional
prudente x néscio
sábio x ignorante
discreto x rústico

Ela é o detentor do protocolo61 e, por isso, joga com a dupla hierarquia de


seu ponto de vista. Pragmaticamente, a persona fixa o lugar do monstro,
posicionando-o embaixo, ao lado, fora, como extra ou bastardo, em relação ao
lugar da verdadeira personagem, posicionada por sua vez como semelhança
positiva da unidade virtuosa. Além de constituir semanticamente uma tipo­
logia, a sátira diagrama pragmaticamente uma topologia: a (des)constituição do
tipo prova a (im)propriedade política do topos. Fundamenta-se com isso um ve­
rossímil, pois a estrutura de repetição encenada no lugar da persona não é
dominada pelo valor de verdade. Ação deceptiva, típica da moralidade: o ato
de fundar a virtude não implica apenas o de fundamentar a técnica de um
discurso prudente que a estabelece, mas, ironicamente, também a sua distorção
incontrolável. Na sátira, tal distorção é construída pela justaposição de traços
descritivo-narrativos individualizantes e traços caracteriais fantásticos. O
sentido geral da justaposição é uma alternância da expectativa que é produ­
tora de humor, pois a passagem de um segmento para outro, no poema, abre-
se para duas possibilidades, sua continuidade, como reiteração individua-
Iizante, ou segmento grotesco. A alternância é, aliás, índice da enunciação
produtora do ridículo aristotelicamente qualificado, pela sua desconformi-
dade, que sobredetermina partes do discurso em detrimento de outras. Siste­
ma classificatório, atualiza-se no lugar da persona o imaginário do sistema,
adaptado a várias ordenações particulares, conforme o caso mimetizado-por
exemplo, reiteração de texto de estilo alto em contexto não-sério, como paró­
dia; acumulação de metáforas fantásticas do corpo, extraídas como sinédoques
de vários campos discursivos; dupla ordenação do ponto de vista sério, com
encenação irônica do ponto de vista rebaixado, postulando-se o estilo baixo
como discreto e o alto como vulgar, em adequação a um mundo irracional

61. Expressão de Lotman, op. cá., p. 370.

226
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

(auto-ironia, portanto); constituição do destinatário como discreto e cúmpli­


ce na crítica; formulação do destinatário como vulgo que se diverte sem en­
tender que a fábula se ocupa dele etc.62634
Como um ator, a persona é modelizada pela mesma convenção que, ainda
quando refere com muita verossimilhança o homem Gregório de Matos e Guer­
ra, nunca é psicológica, pois sua representação se faz pela estilização de signos
convencionais de origem, profissão e posição - por exemplo, pela tópica “ve­
lho”, nas inúmeras declarações de amor licenciosas em que retorna a conven­
ção medieval legível em Gil Vicente, no Cancioneiro de Resende etc.; e, ainda,
por outras tópicas, como “ministro”, “advogado”, “letrado”, “branco” etc. Na
generalidade dos tipos, mesmo a invectiva mais feroz é convenção: trata-se
sempre de uma construção proporcionalmente ordenada para figurar o não-
ordenado, produção de uma estrutura recebida como ausência de estrutura53.
Essa voz que nos poemas se coloca para dar nascimento a um corpo veros­
símil de linguagem é anônima, assim, ainda que avance mascarada de pri­
meira pessoa. Ela antes encena os princípios que a regulam como voz autori­
zada que propriamente se expressa. Nesta posição, constitui os outros corpos
como lugares de inscrição hierárquica das instituições, fixando o espaço do
lícito, do interdito e do abominável, atentando à qualidade das pessoas, ca­
sos, tempo, lugares e outras circunstâncias54. O lugar ideal da persona, diga-se

62. Cf., por exemplo, OC, II, pp. 446-450.


63. Cf. Iuri Lotman,op. cil., p. 370.
64. O Regimento da Relação da Casa da Bahia, dado pelo rei Dom João IV, no ano de 1652, dispõe
sobre as coisas da Justiça e ordem que o governador há de ter. Ele explicita alguns princípios dessa
distribuição hierárquica, pois faz ver o que então se considera crime ou vício, isto é, evento ou
acontecimento desviante da normalidade institucional:
“12. Poderá o Governador conceder ação de perdão despachar em Relação com aquelas pessoas
com quanto despacham Alvarás de fiança, conformes a este Regimento, não sendo agravo de peti­
ção de penas pecuniárias e oferecendo-se perdão da parte; e poderá comutar a condenação ou
penas que pelas culpas mereciam em penas pecuniárias ou em outras, as que melhor parecer; e
parecendo-lhe que há causas para algumas culpas, ou apenas em que os culpados estão condenados
deverem ser perdoados, principalmente atenta a qualidade das pessoas, tempo e lugares e outras
circunstâncias o poderá fazer sem outra comutação pecuniária; porém, não tomará petições de
perdões em casos declarados abaixo. Blasfemar de Deus e de seus Santos, moeda falsa, falsidade,
testemunho falso, matar ou ferir com besta, arcabuz ou espingarda, posto que não mate nem fira;
de dar peçonha, ainda que morte se não siga; de morte cometida atreiçoadamente, quebrantar
prisões por força, pôr fogo acintemente, forçar mulheres, fazer ou dar feitiços, nem de carcereiro
que soltar presos por vontade ou peitas, ou de entrar em Mosteiro de freiras com propósito deso­
nesto, fazer dano ou qualquer mal por dinheiro, de passadores de gado, salteadores de caminho,
ferimento de propósito em Igreja ou procissão onde for ou estiver o Santíssimo Sacramento,
ferimento de qualquer a juiz ou pancadas; posto que pedâneo ou vintaneiro seja, sobre seu ofício,
ferir ou espancar alguma pessoa tomada às mãos, furto que passe de marco de prata, manceba de

227
1

A SÁTI RA E O E N G E N H O

assim, lugar em que as virtudes se unem, jamais ocupado e somente referido,


é um ponto cego, condição mesma da visão e do preenchimento discursivo de
todos os lugares: o lugar mítico do Rei, não o Rei como pessoa, mas como
personaficta (mystica ou idealis, como os teólogos políticos escrevem).
Rebatimento dos avessos, o burlesco propõe a retidão, como técnica orto­
pédica de produção de monstros morais que, capturados nas malhas da ética,
são catalogados pelos rótulos da religião, teologia que naturaliza a divisão, e
do direito, instituição que a regula positivamente. Neste sentido, a sátira é
procedimento típico do dirigismo generalizado de sua época, funcionando
como exclusão inclusiva. Com isto se diz que ela finge rebaixar para fora da
sociedade dos melhores alguns vícios e viciosos, excluindo-os da República e
das relações ditas naturais, pelo ridículo e pela infâmia. Ela só o faz, porém,
referindo-os ao seu princípio, o Rei, para capturar as monstruosidades como
categorias ou subclasses da mesma regra que as determina, moralizando-as
como falta enquanto o Bem político é proposto.
A “gravidade e liberdade da sátira”, no dizer do espanhol Francisco de
Barreda65, não são arbitrárias, pois seguem preceitos: entre eles, o da eleição
criteriosa do “caso” a satirizar, seja histórico ou apócrifo. Para tal, o poeta
deve valer-se do “juízo” e do “conselho”, segundo José Pellicer de Tovar, por­
que há sucessos na história e casos na invenção incapazes de publicidade,
como tiranias, sedições de príncipes e vassalos, que não devem ser propostos
aos olhos de nenhum século66, prevendo-se o efeito político deles na recepção.
Também não se devem inventar casos de poderosos livres, fiados em sua ma­
jestade, que se atrevem absolutos a violências e insultos, violando a gravidade
pública com torpezas. Tais prescrições, bastante genéricas, têm em vista a
adequação. Apersona dos poemas, contudo, não é tão horaciana que evite cui­
dadosamente a invectiva agressiva ou os abusos obscenos; pelo contrário, se
fosse o caso de estabelecer uma genealogia para eles, boa analogia é o nome de

clérigo ou frade, se pedir perdão segunda vez, quer seja das portas adentro, quer das portas afora,
nem de adultério com levada de mulher fora da casa de seu marido, nem da ferida dada pelo
rosto com tenção de dar; da culpa de a mandar dar-se com efeito deu; nem de perda de direito na
cadeia na casa da Relação ou da Cidade do Salvador, nem de ladrão”. I. Accioli & B. Amaral,
Memórias Históricas e Políticas da Bahia, Bahia, Imprensa Oficial do Estado, 1925, vol. 11, pp. 104-
105.
65. Cf. Francisco de Barreda, “Invectiva a las comédias que prohihió Tra jano y apologia por las nuestras"
(Madrid, 1622), em F. S. Escribano y A. P. Mayo, op. cit., p. 192.
66. Cf. José Pellicer de Tovar, “Idea de la Comedia de Castilla” (1635) em F. S. Escribano y A. P. Mayo,
op. cit., p. 223. A prescrição é formal - basta lembrar, por exemplo, os discursos violentos contra
Filipe IV de Espanha, evidenciando-se que a generalidade da norma se adaptava às situações.

228
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Juvenal, principalmente pela sua obscenidade e enunciação irada, aparente­


mente contraditória, porque irracional, na vituperação das paixões. Não há
contradição alguma na indignação satírica, contudo, a não ser que seja postu­
lada psicologisticamente como expressão da fraqueza de caráter do autor, na
linha do “canalha genial”, de Araripe Jr., ou do “nervoso, quiçá um nevrótico”,
de José Veríssimo.
E preceito retórico o de que o orador enraivecido obtém mais sucesso que
o tranqüilo. O sucesso não decorre de o orador estar efetivamente irado, mas
de imitar a ira com precisão. Na sátira, a ira é convenção para a ira. Assim
como muitos romanos da audiência de Juvenal, também muitos letrados
baianos estão preparados não só para reconhecer a máscara da indignação,
mas também para criticá-la67. Em outros termos, o poeta é mesmo um fingidor
e a persona satírica é um ator, personagem, máscara, persona: o famigerado
“pessimismo” de Gregório de Matos é a prescrição retórica da maledicência
satírica.
Da mesma maneira, a obscenidade. Em um romance dirigido a uma dama
por nome Maria Viegas, duplamente virtuosa por ser “francesa nas obras, /
Portuguesa nas palavras”, apersona detém-se na convenção do léxico sórdido:

Tudo c h a m a is p or seu n o m e
tão p r o p r ia m e n te , tão d a r a ,
q u e ao c o n o lh e c h a m a i s c o n o ,
c h a m a is c a r a lh o à caralh a.
M ald itas da m a ld içã o
de D e u s sejam as tavascas,
que de surradas nas obras
p õ e m d e b io c o as palavras.
H á cousa c o m o cham ar,
o q u e u m a c o u s a se c h a m a ,
p o rq u e sirva d e s u s te n t o
à lu x ú ria , q u e d esm a ia .
H á c o u s a c o m o falar,
c o m o o P ai A d ã o falava,
pão por pão, v in h o por vin h o,
e ca ra lh o p o r caralh a.
Q u e m p ô s o n o m e d e crica

67. Cf. William S. Anderson, Essays on Roman Satire, Princeton, Princeton University Press, 1982, p.
326. Cf. também Sêneca, De ira, em Trailésphüosophiques, texte établi, traduit et annoté par François
et Pierre Richard, Paris, Garnier, 1955, vol. I.

229
A SÁTIRA E O E N G E N H O

à crica, que se esparralha,


senão nosso Pai Adão
quando com Eva brincava?
Pois se pôs o nome às cousas
o Pai da nossa prosápia,
porque Deus lho permitiu,
nós por que hemos de emendá-las?
(OC, III, pp. 568-569.)

Jocosamente, a convenção é naturalizada como um grau zero da inocên­


cia do sentido literal, como lei natural prévia à formação do corpo político do
Estado e das leis positivas da Cidade. A formulação é ortodoxa, ainda que
jocosa, e efetua a duplicidade de uso, haja vista a referência ao “bioco” das
palavras. Embora convenção naturalizada, o léxico continua prescrição, par­
ticularidade da regra para um fim determinado: entre eles, no caso, a mesma
adequação retórica (“porque sirva de sustento / à luxúria”) e a crítica da hi­
pocrisia (“surradas nas obras”).
Certa concepção da assim chamada “época barroca” como tempo de forte
censura intelectual e moral, principalmente através da Igreja e de seu Tribu­
nal do Santo Ofício, correta quanto à censura6*, não leva em conta, geralmen­
te, que ela se exerce primordialmente sobre atos e palavras que podem confi-
gurar-se como heresia, sendo censura antes de tudo religiosa. Por hipótese:
caso a Inquisição se ocupasse do trecho referido acima, não o censuraria pelos
termos como “caralho”, “cono”, “crica” - como tem sido o critério da censura
exercida sobre os poemas desde a edição das muitas reticências do Florilégio68

68. Cf. José Timóteo da Silva Bastos, História da Censura Intelectual em Portugal (Ensaio sobre a Compres­
são do Pensamento Português), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926. Uma das atribuições do
Conselho Geral do Santo Ofício da Inquisição, de acordo com as decisões do Concilio de Trento,
consistia em ordenar visitas ás “livrarias públicas e particulares, fazer os róis dos livros proibidos
e conceder licença para a impressão de livros novos” (p. 63). Nas Constituições Sinodais do Bispado
de Coimbra, de 1598, tit. 1“, lè-se: “E conformando-nos com o Concilio Latcranense & Tridentino &
Extravagàtc do Papa Gregorio XIII & breves apostolicos neste caso passado: mandamos a todos os
Impressores, & Livreiros deste nosso Bispado que não imprimão, nem vendâo, nem tenhâo, nem
fação imprimir, nem vender livro algum de qualquer qualidade que seja, sem ser primeyro visto &
aprovado pelo concelho geral do saneio officio, & por nos: por atalhar aos grandes males que contra
nossa saneia fee catholica & etc.” No tit. 1“, foi. 11, intitulado Da fe catholica “[...] Assi defendemos
a todos os Impressores do nosso bispado sob a pena posta no concilio latcranense a qual he exco­
munhão ipso facto e perdimento dos livros impressos q nã imprima livro algum sem ser primeyro
examinado por nos ou por pessoa que nos deputarmos para isso: pollos errores que se causaram e
introduzirá entre os Chrístàos por maas e suspeitas doutrinas de livros q se imprimiam e pubricavâ
sem serem vistos examinados pelos prelados" \idem, p. 68).

230
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

de Varnhagen até a da Academia (só por publicá-los James Amado merece


louvor) -, mas pela citação do par bíblico em situação não-ortodoxa passível
de ser interpretada heterodoxamente como heresia. Em outros termos, a obs­
cenidade não seria censurada enquanto obscenidade sexual, segundo critérios
da moralidade burguesa hoje dominante, mas pela sua interpretação como
judaísmo, erasmismo, libertinagem, maquiavelismo ou luteranismo, em ter­
mos de heresia69. Por isso mesmo, a prescrição retórica do movere também é
tematizada pela persona satírica, que opõe boa e má convenção:

Que alguém que aqui se consome


com a sátira abundante,
diga, que está mui picante,
mas quem se queima, alhos come:
que este por si mesmo a tome,
quando eu falando bem claro,
a ninguém hoje declaro
nesta carta monitoria!
Boa história.
Mas que outros por vários modos
satirizem muito bem e sem monir a ninguém
queiram declarar a todos:
que estes tais com mil apodos
assim queiram ganhar fama,
quando a dos outros se infama,
levantada tal poeira!
Boa asneira.
(O C , II, p. 509.)

A sátira é má, portanto, quando nada ensina, “sem monir a ninguém”,


atacando indiscriminadamente a todos em função da fama individual do
satirista, que se exalta com a desonra alheia. Clareza (como a clareza do léxi­
co obsceno referido antes), generalidade e didatismo determinam seu bom
funcionamento, supondo-se também a eleição criteriosa do “caso”.
Cândida moral, portanto, a do satírico - não se disse que disse Vieira que
um poema de Gregório aproveitava mais que dez sermões de Vieira? o que
não significa não seja moral obscena, pois os monstros pululam como efeito
seu. Lembre-se que é a mesma instauração do princípio ordenador do Bem

69. Cf. Kenneth R. Scholberg, Algunos Aspectos de la Sáliraãf el Siglo XVI, Berna, Frankfurt am Main; Las
Vegas, Peter Lang Publisher.s, 1979, vol. 12, p. 181 (Ltah Studies in Literature and Linguistics).

231
A SÁTI RA E O E N G E N H O

pela enunciação satírica que torna verossímeis os desvios, prevendo-os como


variações ou semelhanças negativas da mesma lei que os proscreve. Exemplar
é um pequeno poema que glosa o mote “Bêbado está Santo Antônio”:

Entrou um bêbado um dia


pelo templo sacrossanto
do nosso Português Santo,
e para o Santo investia:
a gente, que ali assistia,
cuidado, tinha o demônio,
lhe acudiu a tempo idôneo,
gritando-lhe todos, tá,
tem mão, olha, que acolá,
Bêbado, está Santo Antônio.
(OC, I, p. 78.)

O poema é anedótico e secundário, mas explicita que a proposição de


motes semelhantes como matéria para transformações poéticas é prática muito
rotineira da inversão sacrílega, num tempo em que se colocam coroas de cor­
nos em cruzes ou se jura pelo pentelho da Virgem e simultaneamente se ins­
titui seu culto piedosíssimo, principalmente após a vitória cristã de Lepanto,
em 157170. Aliás, o crime de blasfêmia e sacrilégio não é passível de ter a pena
comutada, como se deve ter lido na nota 64 deste. A Inquisição ocupa-se dos
blasfemos desde que a formulação da blasfêmia seja herética ou suspeita de
heresia. Reconhecem-se dois tipos de blasfemadores: aqueles que não se opõem
aos artigos da fé e que, “agitados pela ingratidão, amaldiçoam o Senhor, ou a
Virgem Maria ou negligenciam prestar-lhes graça”71. Blasfemadores simples,
a Inquisição costuma abandoná-los às punições da justiça secular. São heréti­
cos os blasfemadores que atacam artigos da fé: por exemplo, os que dizem que
Deus não pode fazer chover, opondo-se diretamente, segundo o Santo Ofício,
ao dogma da onipotência divina proclamado no primeiro artigo do Credo, ou
aqueles que desonram Maria, tratando-a como puta, ataque direto ao dogma
da maternidade virginal72.

70. Cf. G. Tüchle & C. A. Bouman, “Luta contra a Meia Lua”, em líislória da Igreja: Reforma e Contra•
Reforma, trad. Waldomiro Pires Martins, 2. cd., Petrópolis, Vozes, 1983, vol. III, p. 240.
71. Cf. Nicolau Eymerich & Francisco Pena, Le manuel des inquisiteurs, Introduction, Traduction et No­
tes de Louis Sala-Molins, Paris, La Haye, Mouton-École Pratique des Hautes Études, 1973, p. 63.
72. Idem, pp. 63-64. O sacrilégio não é apenas uma idiossincrasia, desvio de singularidade, nem mes­
mo uma perversão. Antes, é a metáfora de uma oposição que, ao atacar o santo, toma-o como
sinédoque e alegoria da ordem ortodoxa em que funciona - a Igreja, seus padres, a Inquisição.

232
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Como se verá adiante, essas distinções sutis dos inquisidores permitem


capturar qualquer ação não-ortodoxa como blasfêmia e sacrilégio. O poema a
captura com uma vírgula: dado o mote sacrílego, a correção moral da pontua­
ção transforma um predicativo referencial e assertivo em segunda pessoa
discursiva, deslocando através do vocativo - “Bêbado, está Santo Antônio” - a
referência do enunciado para um vicioso, recapturado performativamente
dentro da igreja pela Igreja, enquanto o santo se safa e sobe em sua pureza. O
mesmo verbo “estar”, que no enunciado declarativo do mote rebaixa o santo,
atribuindo-lhe o vício, na glosa prescritiva eleva-o na Presença plena, impon­
do silêncio ao vicioso intruso. Não obstante a correção, observe-se que o poe­
ma continua a propor a voz discordante e herética, que a glosa retifica, como
um subtexto irônico do sentido literal: “Santo Antônio está bêbado”.

A sátira seiscentista tem, desta maneira, muita afinidade com as técnicas


inquisitoriais católicas, principalmente as da delação ao Santo Ofício, que
cabe aqui referir, descrevendo-se seu funcionamento discursivo.
Na Bahia, desde o final do século XVI, em 1591-1593, o Santo Ofício está
atuante - em 1618, em 1646, durante o restante do século. O mito ibérico da
pureza de sangue, presente na sátira como topos racista distintivo da origem
fidalga, amalgama então o imaginário de cristãos-velhos de todas as ordens,
validando a perseguição às heresias, notadamente a judaica, como adesão à
hierarquia73. Entre as várias técnicas de perseguição e expropriação dos ju­
deus ou das pessoas assim constituídas conforme a economia teológica do
Santo Ofício, as delações avultam como prática generalizada, certamente com
várias motivações pessoais, funcionando todas como validação das práticas
inquisitoriais como onipresença da ortodoxia e teatro pedagógico do medo74.
Terror, as delações fornecem o material necessário para o funcionamento
do Tribunal, sendo coletadas pelos auxiliares que o Santo Ofício mantém tan­
to em territórios portugueses quanto em países estrangeiros75. Pelo juramen­
to solene de guardar segredo dos assuntos delatados, as denúncias de 1618
evidenciam, como as outras de outras datas, que o julgamento dos denuncia-

73. O Judaísmo é uma religião infiel, apenas, segundo o Cristianismo; mas a conversão forçada dos
judeus permitiu ao Santo Ofício ocupar-se dos cristãos-novos com muito zelo.
74. Cf. Nicolau Eymerich & Francisco Pena, o/>. ctí., p. 195: “18. O inquisidor pode perseguir indistin-
tamente todo mundo, do rei até o último dos leigos? Muito evidentemente. O inquisidor persegui­
rá todo leigo, qualquer que seja seu grau ou sua condição, quer ele seja herético, suspeito, ou
simplesmente difamado. Está dito explicitamente na bula Prae cunclis de Urbano IV” .
75. Cf. Anita Novinsky, “O Cristão-novo em Portugal no Século XVII”, em Cristãos-novos na Bahia
(1624-1654), São Paulo, Perspectiva/Edusp, 1972 (Estudos, 9).

233
A SÁTI RA E O E N G E N H O

dos é sigiloso, de modo que não ficam sabendo a causa de sua prisão nem o
conteúdo das acusações76. É neste contexto de fé ardorosa que a sátira colonial
toma posição, sobretudo quando encena publicamente os temas do cristão-
novo, da sodomia e da bruxaria.
As delações são práticas discursivas que nomeiam dissidências e que, ao
fazê-lo, as excluem como marginais e heréticas, sejam elas comprovadamente o
luteranismo, o judaísmo, o erasmismo e o maquiavelismo, sejam elas virtual­
mente heréticas, como manifestações de autonomia de pensamento ou ações
não-costumeiras conforme a ortodoxia - por exemplo, lavar-se em noite de sex­
ta-feira, cruzar as pernas na igreja, comentar as coisas sagradas, ler uma Bíblia
em castelhano, ter uma égua chamada Maria Parda etc. No século XVII ibérico,
esse terror é sistêmico, tornando-se passível de denúncia qualquer ação, desde
que interpretada ou interpretável como herética - uma só testemunha é o bas­
tante, conforme rezam os manuais de inquisidores77. Delação e confissão pro­
duzem uma culpa, os culpados e também as medidas práticas para seu expur­
go78 como urgente socorro do bem comum ameaçado e obediência política. O
que interessa, neste trabalho, é evidenciar que a sátira seiscentista dramatiza
em sua formulação não só o léxico inquisitorial - as referências aos “casos”,
“mariolas”, “monitórios”, “sambenitos”, “rabis”, “sinagoga”, “Fortuna” (como
metáfora da imprevisibilidade do Tribunal do Santo Ofício) etc. - ou seus te­
mas - a sinagoga proibida, o cristão-novo que pratica secretamente os ritos
israelitas, o judeu queimado, a desconfiança do excessivo zelo católico de cris-
tãos-novos etc. -, mas, principalmente, o próprio procedimento da delação, que
ela efetua como verossímil poético. Com uma diferença, contudo, fundamen­
tal. Para evidenciá-la, é oportuno inquirir os documentos da delação católica.
O Livro das Denunciações que se Fizeram na Visitação do Santo Ofício à Ci­
dade do Salvador da Bahia de Todos os Santos do Estado do Brasil, no ano de
161879 apresenta os casos de denúncias praticadas por homens e mulheres de
11 de setembro de 1618 a 26 de janeiro de 1619. Neste intervalo, presidiu a

76. Cf. Anita Novinsky, “A Posição dos Cristãos-novos na Sociedade Baiana”, op. cil., pp. 69-72.
77. Cf. N. Eymerich e F. Pena, “Les lémoins”, op. cit., pp. 212-219.
78. Cf., por exemplo, na sátira: “Conheça a Inquisição estas verdades / H como é certo, o que o soneto
diz, / Paguem-se em vivo fogo estas maldades” (OC, I, p. 210); “O caso tocou logo a Inquisi-” (OC,
1, p. 207); “Verão um Doutor / em Judá nascido / mais entremetido/ que um grande fedor” (OC, II,
p. 464); etc. Cf. também José Timóteo da Silva Bastos, op. cil., principalmente pp. 54 e ss.
79. Cf. Livro das Denunciações que se Fizerão na Visitação do Samo à Cidade do Salvador da Bahia de Todos
os Samos do Estado do Brasil, no anno de 1618. Inquisidor e visilador o licenciado Marcos Teixeira.
Introdução de Rodolfo Garcia, Annaes da Bibliolheca Nacional do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
Biblioteca Nacional, 1927, vol. XLIX, pp. 75-198.

234

Â
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

duas sessões diárias, pela manhã e pela tarde, o licenciado Marcos Teixeira,
protonotário apostólico, deputado do Santo Ofício, seu inquisidor e visitador
na Cidade do Salvador, seu Recôncavo e Angola, por comissão de Dom Fernão
Martins Mascarenhas, bispo e inquisidor-geral dos reinos e senhorios de Por­
tugal80. Marcos Teixeira ouviu 52 denunciantes, que acusaram 134 pessoas.
Os pecados denunciados podem unificar-se sob a rubrica genérica de heresia,
consistindo, em sua maioria, de blasfêmias, desrespeito às imagens santas e
aos recintos sagrados, leitura de livros proibidos e práticas heréticas como o
judaísmo e a sodomia. Como na sátira, nas denúncias o pecado nefando da
sodomia é traduzido como prática judaizante, o que evidencia que a morali­
dade sexual tem recorte teológico-político. Quase todas as denúncias baseiam-
se num “ouvir dizer” e, ainda, numa lembrança que o denunciante afirma ter
de gestos, ações ou palavras do denunciado, geralmente datados de meses ou
anos antes. Cada denúncia é ordenada pelo notário inquisitorial conforme
fórmula narrativa estereotipada, que explicita a técnica rigorosa da seqüên-
cia dos procedimentos de gênero judicial durante a entrevista com o inquisidor.
Segui-los permite algumas considerações sobre os códigos interpretativos da
heresia, intertexto da sátira, segundo denunciante e inquisidor. Faz-se aqui
uma descrição sumária da estrutura da denúncia, utilizando-se exemplos re­
cortados em várias delas.
Começando por situar o evento de que o texto é narração sob as graças
divinas - “Em nome de Deus amém” -, os documentos figuram de início a
partição dos poderes, eclesiástico e secular, bem como a sacralidade incontes­
tável do ato que narram: nele são expostos e prejulgados os crimes de lesa-
majestade divina, como escreve o dominicano Eymerich comentado por Pena,
em seu minuciosíssimo manual de inquisidor81. Segue-se uma data e a indi-

80. Idem, p. 95.


81. No século XVI, Francisco Pena, doutor em Cânones e Direito Civil, comenta e aperfeiçoa o manual
de inquisidores escrito por Eymerich no século XIV. Pena assim conceitua “heresia”: “Na sua acepção
primitiva, a noção de heresia nada tinha de infamante: eram ‘heréticos’ todos os que adotavam
uma escola filosófica, simplesmente. Mas hoje este termo é odioso e infame porque designa aque­
les que acreditam ou ensinam coisas contrárias à Fé do Cristo e de sua Igreja. Mas, vão retrucar-
nos, no sentido grego do termo, escolher a verdade católica constituí também uma ‘heresia’, pois
escolher uma doutrina é também escolher uma ‘seita’? Respondemos, com Tertuliano, que não há
‘divisão’ na ‘eleição’ da fé católica, pois não nos cabe escolher, neste caso, segundo nosso livre
arbítrio, mas ‘seguir’ o que nos é proposto por Deus. Há heresia, e há seita, quando há compreen­
são ou interpretação do Evangelho não conforme com a compreensão e com a interpretação tradi­
cionalmente defendidas pela Igreja católica. Consequências da heresia? Blasfêmias, sacrilégios,
ataques aos fundamentos mesmos da Igreja, a violação dos julgamentos e leis sagradas, injustiças,
calúnias e crueldades de que os católicos são vítimas. Pelo efeito da heresia, a verdade católica se

2 35
A S Á T IR A E O EN G EN H O

cação do lugar - por exemplo, 11 de setembro de 1618, Cidade da Bahia,


Colégio dos Jesuítas -, citando-se a seguir a pessoa do inquisidor que preside
a sessão: “o senhor Inquisidor e Visitador o Licenciado Marcos Teixeira”.
Segue-se uma fórmula: “perante ele apareceu sem ser chamado”, indica­
tiva da espontaneidade narrada da denúncia82, ratificada no final, quando o
denunciante afirma que delata por “descargo de consciência” - em outros
termos, por motivos de “foro íntimo”. Dado o nome do denunciante - no caso
da data referida acima, um deles é Melquior de Bragança -, arrolam-se ori­
gem, raça, religião, idade, estado civil, ocupação e, por vezes, razões que o
fizeram vir para o Brasil:

Melquior de Bragança hebreu de nação, que disse ser doutor converso à nossa San­
ta Fé, de idade de quarenta anos natural da cidade de Marrocos em África, casado na
cidade de Lisboa e residente nesta, degradado pela culpa de uma morte de homem, e
disse que tivera em Espanha por ofício ensinar a língua hebraica com exposição da
sagrada escritura83.

Segue-se o juramento do denunciante com as mãos postas sobre os San­


tos Evangelhos, pelo qual declara agir “para em tudo dizer verdade e ter se­
gredo”. Entre verdade e segredo, transcrevem-se a seguir as intenções decla­
radas pelo denunciante: “disse que com zelo da Santa Fé e por descargo de
sua consciência denunciava bem e verdadeiramente de Domingos Alvares de
Serpa da nação”84.
As denúncias são muito indeterminadas quanto ao tempo e ao lugar das
ações pecaminosas, lendo-se nos documentos a confiança aparente dos
inquisidores na memória do denunciante, capaz por vezes de lembrar ações
triviais ocorridas muitos anos antes, como é o caso da denúncia culinária de
uma Margarida Jorge. No dia 13 de setembro de 1618, denuncia Felipa Gon­
çalves e Margarida Dinis como judaizantes, pelo que afirma ter visto durante
a preparação de comida em casa das denunciadas, doze anos antes, em Lisboa:

enfraquece e se extingue nos corações; os corpos e os bens materiais definham, nascem tumultos e
sediçòes, a paz e a ordem pública são perturbadas”. Cf. N. Eymerich & F. Pena, op. cit., p. 43.
82. O governador Antônio Teles da Silva “obriga a população a ir denunciar, e pede o estabelecimento
do Tribunal da Bahia. Ante a resistência oferecida por uma parte da população, coloca um guarda
de sua milícia ao lado de cada cidadão, forçando-o assim a comparecer à Mesa no Colégio da Com­
panhia”, escreve Anita Novinsky, “A posição dos Cristãos-novos na Sociedade Baiana”, op. cit-, pp.
72-73.
83. Cf. Livro das Denunciações que se fizerão na Visilação do Santo Officio [...], p. 97.
84. Idem, p. 97.

236

A
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

“se cozeu a carne com azeite na casa da dita Felipa Gonçalves”; “viu ela que a
dita Margarida Dinis tirava a gordura da carne da vaca antes de a salgar”85.
Ocorre ainda, quando não se trata de declaração de testemunho, a de­
núncia baseada no “ouvi dizer”. João de Sevalhos denuncia Manoel ou Fran­
cisco de Oliveira (a própria flutuação do nome próprio já diz muito ou tudo),
afirmando que “o qual denunciado ouviu ele denunciante dizer haverá dois
anos pouco mais ou menos geralmente no Rio de São Francisco, que pusera a
boca sacrilegamente na pureza e virgindade da Virgem Maria Nossa Senhora
afirmando que parira duas vezes”86. A indeterminação, como se vê, é dupla:
tanto da datação da ocorrência denunciada - “haverá dois anos pouco mais
ou menos” -, quanto da fonte - “ouviu ele denunciante dizer que [...]”. No
caso desta denúncia, o denunciante aproveita-se da situação para prestar mais
serviços, valendo transcrever o trecho na íntegra, pois a hipertrofia do proce­
dimento evidencia a regra:

E assim disse mais ele denunciante que Diogo Fernandes castelhano tambor mor
desta cidade, casado e morador nela à porta de Santa Luzia na banda de dentro lhe disse
haverá quinze dias que ouvira dizer a certa pessoa que dissera uma mulher por um
homem: “ Não basta açoitar-me a mim, senão açoitar ao Cristo” . E disse que a dita teste­
munha referida lhe dissera que a seu tempo declararia quem lhe dissera o que tem dito
neste caso87.

A aceitação de tais asserções indica que, para o Santo Ofício, certamente


era mais oportuna a própria prática institucional das denúncias que a veraci­
dade delas, produzindo-se praticamente culpas e culpados pela simples insta­
lação do aparato inquisidor, capaz de traduzir como heresia as mais variadas
acusações - ao que tudo indica, muitas vezes articuladas como vingança. Não
importam as motivações, contudo, os documentos fazem ler os códigos inter-
pretativos da heresia encenados na sátira. Vejam-se alguns exemplos de blas­
fêmia e sacrilégio:

[...] pusera a boca sacrilegamente na pureza e virgindade da Virgem Maria Nossa Se­
nhora afirmando que parira duas vezes88.

85. Idern, p. 143.


86. Idem, pp. 102-103.
87. Idem, p. 103. A fórmula canônica da denúncia é, assim, do tipo:“A diz que B diz que Cdiz que DfazX".
88. Idem, p. 103.

237
A SÁTI RA E O E N G E N H O

[...] p e d i n d o o s p r e s o s e s m o l a p o r a m o r d e D e u s N o s s o S e n h o r J e s u s C r i s t o d i s s e p a r a
o s p r e s o s a s s e g u i n t e s p a l a v r a s : N ã o v a i aí N o s s o S e n h o r J e s u s C r i s t o , p o r q u e v o s n ã o
t i r a d a c a d e i a ? 89

A r r e n e g o d a O n i p o t ê n c i a D i v i n a 90.

D i s s e q u e n e s t a terra h á a lg u n s m a u s cristã o s, p o r q u e s e g u n d o se d iz g e r a lm e n t e nela,


há q u atro o u c in c o a n o s q u e a m a n h e c e u u m a cru z d o s P a sso s q u e está às portas desta
C id a d e in d o para o C a r m o c o m u m a co ro a de c o r n o s e m lu g a r de co ro a d e e s p in h o s . E
n o m e s m o t e m p o a m a n h e c e u o u t r a c r u z e n f o r c a d a n a f o r c a p ú b l i c a d e s t a c i d a d e 91.

[...] a n d a r a p o r c i m a d o A l t a r m o r q u e é o n d e e s t á o S a n t í s s i m o S a c r a m e n t o , c o m o
c h a p é u n a c a b e ç a e e s p a d a n u a c o m g r a n d í s s i m o d e s a c a t o e i r r e v e r ê n c i a r e v o l v e n d o as
c o r t i n a s , d o q u e h o u v e g r a n d e e s c â n d a l o e m t o d a a p e s s o a q u e s a b i a d o c a s o 92.

[...] o r d i n a r i a m e n t e c h a m a v a m t o d o s à d i t a é g u a M a r i a P a r d a [...] o q u e e r a c a s o d e
g r a n d e e s c â n d a l o p o r s e r m u i t o d e s a c a t o e i r r e v e r ê n c i a d a V i r g e m N o s s a S e n h o r a 9-’ .

[...] q u a n d o j o g a v a e p e r d i a s e ia p a r a c a s a e a ç o i t a v a u m c r u c i f i x o q u e t i n h a 94.

[...] p e g a n d o p e l a b a r b a a u m a i m a g e m d e S ã o P e d r o [ d i s s e ] c o m o e n c a i x a r i a e s t e v i l ã o
r u i m e m s e u t e m p o u m a b o r r a c h a q u a n d o a n d a v a p e s c a n d o 95.

[...] a o t e m p o d e d i z e r o s a c e r d o t e Domine non sum dignus, q u a n d o toda a g e n te estava de


g i o l h o s e b a t i a n o s p e i t o s , v i u e l e d e n u n c i a n t e a D o m i n g o s A l v a r e s d e S e r p a [...] e s t a r
a s s e n t a d o e m u m b a n c o [...] a m ã o e s q u e r d a e n c o s t a d a à p a r e d e c o m u m a p e r n a s o b r e
o u t r a d a n d o e b o l i n d o c o m a p e r n a q u e t i n h a s o b r e a o u t r a , s e m b a t e r n o s p e i t o s 96.

B o to a C risto m u ita m erd a , e p ela h ó stia sagrada m u ita m erd a , p ela V irg em M aria
m u i t a m e r d a 97.

E d is s e q u e era v e r d a d e q u e e s ta n d o o te r ceiro d o m in g o d e A g o s to p r ó x im o p a ssa d o


n a Sé d e s t a C id a d e , e a c a b a n d o d e p reg a r o P a d re F rei  n g e lo da O r d e m e M o s te ir o

89. Idem, p. 105.


90. Idem, p. 110.
91. Idem, p. 111.
92. Idem, p. 113.
93. Idem, p. 115.
94. Idem, ibidem.
95. Idem, p. 121.
96. Idem, p. 123.
97. Idem, p. 160.

238
A PROPORÇ Ã O DO M O N ST RO

d e S ã o B e n t o d e s t a c i d a d e a p r o p ó s i t o d e h a v e r p o u c o s d ia s q u e se a c h a r a j u n to da
d ita S é u m A u t o d a p a ix ã o d e C r is t o n o s s o R e d e n t o r q u e t in h a u m a i m a g e m d e u m
c r u c ifix o c o m o rosto su jo d e e ster co d e g e n te , e s ta n d o o a u to to d o li m p o , o q u e o
d ito P r e g a d o r a f ir m o u q u e vira c o m se u s o lh o s , e e s tr a n h o u q u a n to d e v ia tão e n o r m e
sa c r ilé g io e b la s f ê m ia , d isse r a S iin ã o d e L e ã o da n a çã o , n a tu r a l d e L is b o a , c a s a d o e
m orad or nesta cid a d e, e con tratad or dos d ízim o s dos açú cares, m o stra n d o -se m u ito
in d i g n a d o , q u e se e s tiv e r a m a is p e r to d o d ito P r e g a d o r l h e h o u v e r a d e d i z e r q u e era
um d e sa v e r g o n h a d o a m a n c e b a d o , o q u e d issera e s ia n d o a sse n ta d o ju n to da M esa d o
S a n t í s s i m o S a c r a m e n t o e m q u e e l e d e n u n c i a n t e e s t a v a a s s e n t a d o [...] t o d o s o s q u e
o u v ir a m as d i t a s p a la v r a s d e v i a m fic a r e s c a n d a l i z a d o s d e l a s , e e l e d e n u n c i a n t e se
e s c a n d a liz o u m u it o p o r q u e lh e p a recera e p a recia q u e n ão se p o d ia ta n t o e s tr a n h a r
a so b redita irr e v e r ê n c ia e d esa c a to feito à im a g e m d o c r u c ifix o q u e m u it o m a is n ã o
d ev esse ser e s tr a n h a d o d e q u e m fosse b o m cristã o e te m e n te a D e u s , e q u e p o r o
d e n u n c i a d o se r da n a ç ã o e e s t a r a c o m p a n h a d o d e g e n t e d e la q u e n e sta terra era m u i ­
to p o d e r o s a e s o b e r b a , l h e p a r e c i a q u e n e n h u m d o s c r i s t ã o s v e l h o s q u e l h e o u v i u a s
d i t a s p a l a v r a s s e a t r e v e r í a a i r - l h e à m ã o 98.

No último caso, evidencia-se que o excesso de zelo facilmente se torna


sacrílego - mas o que mais interessa é a afirmação de que “gente dela [...]
nesta terra era muito poderosa e soberba”, indicativa de interesses que ultra­
passam a simples questão pessoal.
Embora as blasfêmias e os sacrilégios sejam atribuídos a denunciados
muitas vezes classificados como cristãos-velhos, são facilmente interpretáveis
como oposição e afirmação de heterodoxia, principalmente o judaísmo. Nes­
te sentido, a blasfêmia permite dupla leitura: sendo uma infração do dogma
católico, o sentido da infração pode ser traduzido como infração simples, mas
também como heresia, como se a blasfêmia fosse um momento de negação de
artigos da fé, a heresia. Referências diretas a práticas judaizantes são menos
numerosas, assim, sendo o judaísmo uma inferência construída a partir de
exemplos de atos não-ortodoxos:

[...] f u r t a n d o - s e n e s t a c i d a d e u m e s c r i t ó r i o a o d e n u n c i a d o F e l i p e T o m á s s e l h e a c h a r a
d e n t r o u m a T o u r a [ T o r á ] 99.01

[...] [ o u v i u ] g a b a r u m l i v r o i n t i t u l a d o Belial a J e r ô n i m o R u i z [...] d i z e n d o - l h e q u e t r a t a ­


va o l i v r o d e u m a d e m a n d a q u e o D i a b o p u s e r a a C r i s t o 1™.

98. Idem, pp. 157-158.


99. Idem, p. 108.
100. Idem, p. 119.

239
A SÁTI RA E O E N G E N H O

[...] o u v i r a d i z e r G a y a s , G a v a s , q u e é p a l a v r a d e j u d e u 101.

[...] o l i v r o [...] t i n h a p o r r u b r i c a Processo judiciário [...] a m a t é r i a [...] e r a d e u m a d e m a n ­


d a q u e B e l i a l p r o p u n h a d i a n t e d e D e u s s o b r e n ã o s e r M e s s i a s C r i s t o N o s s o S e n h o r 103.

[...] [o d e n u n c i a d o d i s s e r a ] C o i t a d o d e t i , d e s a m p a r a s t e a l e i q u e s e d e u n o m o n t e
S i n a i 103.

[...] o b s e r v â n c i a d o s á b a d o [ , . . ] 104

[...] q u e r i a e n s i n a r - l h e a l e i d e M o i s é s p o r q u e f o l g a r i a m u i t o d e o s a b e r ? 103

[...] s e x t a s - f e i r a s à n o i t e l a v a v a m o s p é s e t o d o o c o r p o e m u m a c a l d e i r a g r a n d e d e
e n g e n h o d e a ç ú c a r c o m á g u a m o r n a , e v e s t i a m c a m i s a s l a v a d a s [...] l h e s n ã o v i u c o m e r
c a r n e d e p o r c o 106.

[...] o d i t o M a n o e l h o m e m a p o s t a t a r a d a n o s s a S a n t a F é c a t ó l i c a e s e f i z e r a J u d e u na
d i t a c i d a d e d e N o s t r a D a m a 107.

[...] e a í e s t a v a m a t é m e i a n o i t e e s c a v a n d o e m u m l i v r o g r a n d e , l h e d i s s e r a e l e d e n u n ­
c ia n te q u e seria o liv r o d e c o n t a s q u e fa z ia m , e o d ito M a t e u s d e S o u sa r e s p o n d e r a q u e
n ã o e r a s e n ã o o l i v r o d a c o n f r a r i a d o s J u d e u s 108.

[...] r e s p o n d e r a P a s c o a l B r a v o [...] q u e o s d i t o s q u e i m a d o s m o r r i a m m á r t i r e s 109.

Outro crime, simulação demoníaca do coito, a sodomia, é castigado com o


fogo. Nas denúncias, é a principal fornicação delatada:

[...] m a t o u p e l o t e r a c u s a d o d e c o m e t e r e m a m b o s o p e c a d o n e f a n d o d e s o d o m i a 110.

[...] h a v e r á q u a t r o o u c i n c o a n o s m a i s o u m e n o s c o m e t e r a o p e c a d o n e f a n d o d e s o d o m i a
c o m u m m u l a t o fo r r o p o r n o m e J o s é 111.

101. Idem, p. 123.


102. Idem, p. 125.
103. Idem, p. 130.
104. Idem, ibidem.
105. Idem, p. 131.
106. Idem, p. 134.
107. Idem, p. 163.
108. Idem, p. 185.
109. Idem, p. 194.
110. Idem, p. 107.
111. Idem, p. 112.

240

Â
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

[...] n e s t a te r r a s e d i z i a v u l g a r m e n t e q u e o d i t o L i c e n c i a d o F e l i p e T o m á s d e M i r a n d a
c o m e t i a o p e c a d o n e f a n d o d e s o d o m i a c o m u m s e u c r i a d o p o r n o m e A n t ô n i o R u i z [...]
e a ss im t a m b é m c o m e t ia o m e s m o p e c a d o c o m B e n to C o rreia , o C a la m b a u z i n h o p o r
a l c u n h a [...] d i z e m v u l g a r m e n t e q u e o d i t o d e n u n c i a d o m a t a r a u m m o ç o q u e o s e r v i a
por ter c o m e t id o c o m e le o d ito p e c a d o e p o r q u e o n ã o d e s c o b r is s e , c é tão in fa m a d o
d e s te p e c a d o n e s t a terra e n a d e P e r n a m b u c o d o n d e v e i o para e la q u e a n d a e m p r o v é r ­
b i o e n t r e b r a n c o s e n e g r o s [ , . . ] 112

[...] P e r o G a r c i a [...] c o m e t i a o P e c a d o n e f a n d o d e s o d o m i a c o m u m m o ç o d e q u a t o r z e
o u q u i n z e a n o s n a t u r a l d e V i a n a e c o m u m m u l a t o s e u p o r n o m e J o s é 1".

[...] E d i s s e q u e e l a d e n u n c i a v a b e m e v e r d a d e i r a m e n t e d o P a d r e B a l t a s a r M a r i n h o ,
c l é r i g o d e m i s s a , v i g á r i o d e J a g u a r i p e [...] p o r q u e h a v e r á c i n c o o u s e i s a n o s [...] q u e n a
e r m i d a d e S ã o F r a n c i s c o [...] n a T a p o ã [...] s e n d o c a p e l ã o d a d i t a e r m i d a o d i t o P a d r e
B a lta sa r M a r i n h o e c o n f e s s a n d o - s e ela d e n u n c i a n t e c o m e le , a c o m e t e r a n o a to da c o n ­
f i s s ã o p a r a d o r m i r c o m e l e c a r n a l m e n t e [...] d i s s e m a i s [...] q u e u m s e u f i l h o p o r n o m e
M an oel d e M a c e d o , e s tu d a n te h averá quatro a n o s p o u c o m a is o u m e n o s q u e se n d o da
id ad e d e q u a to r z e a n o s o c o m e te r a o d e n u n c ia d o para o p e c a d o n e f a n d o d e s o d o m ia , e
que haverá n o v e ou d ez an os q u e o m e s m o d e n u n c ia d o co m etera o m e s m o p eca d o a
P a s c o a l S o a r e s já d e f u n t o f i l h o d e l a d e n u n c i a n t e " 4.

Outra prática denunciada é reminiscência de ritos pagãos; uma delas con­


siste, por exemplo, em pôr uma moeda na boca de um morto"5. E, ainda, o
sexo ilícito, fora das especificações do matrimônio:

[...] d i s s e r a m [...] G o n ç a l o C o r r e i a e J o ã o G a r c i a m e s t r e d e a ç ú c a r e s c r i s t ã o - v e l h o [...]


que d o r m ir c a r n a l m e n t e c o m u m a m u l h e r so lteira o u c o m u m a n eg ra n ã o era p e c a d o
m o r t a l " 6.

Relatado o caso pelo denunciante, o inquisidor pergunta-lhe se havia


mais testemunhas, ao que responde o denunciante que, quando ocorreu, não
estavam mais que ele e o denunciado, ou então as indica, citando-as nomi­
nalmente, comprometendo-as com o Santo Ofício, que as convoca. No caso
da denúncia contra o padre Baltasar Marinho, a viúva Madalena de Góis
indica duas mulheres já defuntas. Outras questões do inquisidor, prova­
velmente atenuantes: “se estava o denunciado em seu perfeito juízo ou se123456

112. Idem, pp. 160-161.


113. Idem, p. 170.
114. Idem, p. 180.
115. Idem, p. 189.
116. Idem, p. 177.

241
A SATIRA E O E N G E N H O

era falto dele ou costumava a emborrachar-se, ou lhe dissera as ditas pala­


vras zombando?”" 7
As respostas geralmente afirmam que estava em perfeito juízo e, por vezes,
admitem que costumava beber, muito ou pouco. As questões seguintes do
inquisidor são acerca das relações do denunciado com outras pessoas: “se o denun­
ciado era infamado de culpas de judaísmo e se fora já preso e penitenciado pelo
Santo Ofício ou algum parente seu?”118 Estabelecida a trama da heresia, o de­
nunciante é ainda interrogado “pelo costume”, isto é, acerca das relações existen­
tes entre ele e o denunciado. As respostas são muito elucidativas - por exemplo:

E perguntado pelo costume disse que o denunciado o tratava mal de palavras, dizendo
que por ele denunciante ter dito mal dele ao Vigário geral desta cidade, e que arremete-
ra sobre isso para lhe dar com um pau, dando-lhe a entender que por ele denunciante
ter denunciado dele, como na verdade o tinha feito diante do Bispo desta cidade, ser­
vindo de Notário o Vigário geral dela, mas que ele denunciante lhe não queria mal, e
tinha dito a verdade119.

ou

[...] disse que bem e verdadeiramente denunciava de Dinis Bravo da nação senhor dc
engenho casado e morador nesta cidade [...] que haverá ano e meio pouco mais ou
menos, que mandando-lhe ele denunciante pedir por escrito uma esmola, e responden­
do-lhe o denunciado que fosse falar com ele foi ele denunciante por esta causa à sua
casa que é nesta cidade, a um dia à tarde segundo sua lembrança e estando só com ele,
lhe disse o denunciado desta maneira. Vós sois, vós sois, vós sois o doutor hebreu? é
possível que éreis pregador da lei de Moisés e desamparaste-la? bem dizem que a
desamparastes senão por necessidade. I-vos embora que temos cá muito a que acudir. E
levantando-se ele denunciante para se ir o fez o denunciado assentar, e lhe disse: Vós
cuidais que todos os que comem porco são cristãos? pois sabei que os que são judeus cm
Espanha, são melhores judeus que os que receberam a lei de Moisés no monte Sinai. Ao
que ele denunciante não respondeu cousa alguma por temor de se ver na casa do de­
nunciado que é muito rico e poderoso nesta terra, e assim se saiu calado e escandaliza­
do do caso e com mau conceito do denunciado1211.

Segue-se, nos documentos, mais uma questão: se o denunciante sabe de


mais culpados. Nada havendo a declarar, a narração fecha com outra fórmula:
“Estiveram a tudo presentes pessoas honestas e Religiosos”, reiterando-se os

117. Idetn , p. 98.


118. Idetn, ibidem.
119. Idetn, ibidem.
120. Idetn, pp. 98-99.

242

à
A P RO PORÇ Ã O DO M ON ST RO

votos de dizer verdade e guardar segredo, seguindo-se assinaturas ou marcas


dos participantes.
A mesma disposição das mesmas questões do inquisidor em todas as denún­
cias compõe o rigor do método: nada é deixado ao acaso, tratando-se de traduzir
todos os casos particulares de denúncias pela letra pré-inscrita da ordem dog­
mática, que se corporifica na instituição do Santo Ofício e na pessoa terrível do
inquisidor, senhor dos protocolos. Por isso, tanto quanto as confissões, as denún­
cias são discursos formalistas - no sentido de que obedecem sempre ao padrão
das fórmulas nas quais a Regra é dramatizada pelo avesso, através dos exemplos
de pecados e heresias, marcas de sua privação. Desta maneira, as normas da or­
todoxia pressupostas e dispostas em cada denúncia particular contra sodomitas,
blasfemos e judaizantes têm, em todas as delações, sempre a mesma função de
regulação prática, propiciando-lhe a intervenção providencial para purificar os
pontos de falha e falta da ordem plena, que o Santo Ofício encarna.
Além de pressuporem que a distinção e a perseguição das pessoas caracteriza­
das como cristãos-novos, judaizantes, sodomitas etc. estão fundamentadas de di­
reito na Palavra Absoluta de que a Inquisição é representante, as denúncias impli­
cam também uma reiteração obsessiva dos dogmas da ortodoxia: basta lembrar que
tanto a fala solícita do denunciante quanto a audição inspiradíssima do inquisidor
interpretam ações e discursos como textos pré-inscritos, inseparáveis do sentido
de seu destinador terrível e essencial, Deus - a própria denúncia assume, por isso,
a exemplaridadc mítica da reiteração da narrativa da Queda, ação dramática que
repropõe o conflito e a culpa, referindo-os a uma instância fundante in absentia,
sanáveis pela intervenção providencial e curativa do Santo Ofício.
Horror e lógica, parodiando um autor russo, é porque Deus existe que tudo
é permitido, principalmente a falta e o fogo. Assim, a denúncia produz não só
a culpa e os culpados, mas também se reproduz a si mesma como teatro da falha
e ao Santo Ofício, que se alimenta da falha, como onipresença da ortodoxia e
das medidas práticas válidas e validadas como verdades da Fé: prisão, inqué­
rito, tortura, auto-da-fé, que hoje chocam a consciência iluminista, são lógicas
aplicadas. A denúncia faz falar aquilo que não se pode falar ou fazer para pro­
duzi-lo e capturá-lo na forma que o controla e aniquila, a sublime verdade re­
presentada pelo inquisidor. A prática da denúncia não tem por alvo apenas o
denunciado, assim, mas a todos os outros, a começar pelo mesmo denunciante,
movido pela caridade, e pelo mesmo inquisidor, absolvido na regra, como
exemplaridade do olhar do testemunho onipresente121.

121. C f. P i e r r e L e g e n d r e , O Amor do Censor (Ensaiosobre a Ordem Dogmática) , t r a d . C o lé g io F r e u d ia n o d o


R io d e J a n e i r o , R i o d e J a n e i r o , F o r e n s e / U n i v e r s i t á r i a , 1 9 8 3 , p p . 1 1 2 -1 2 7 .

243
A SÁTI RA K O E N G E N H O

Tal função prática das normas da ortodoxia não é tematizada nas denún­
cias, tanto pelo denunciante quanto pelo inquisidor. Além de indicar sua na­
turalidade, isso significa também a extrema generalidade e abrangência das
mesmas normas que, afinal, pretendem legislar o erro e são aptas, por isso,
para capturar como herética qualquer diferença. Na superfície das denúncias,
tais normas aparecem como auto-evidentes, indiscutivelmente justas e incon­
troversas, porque fundamentadas como profundeza da Fé: “Em nome de Deus
amém” é a fórmula que inicia ritualmente os relatos de denúncias: questioná-
las é pouco ortodoxo e impróprio de Fiéis.
Teatro do perfeito funcionamento da ordem dogmática, em todas as de­
núncias de 1618 os denunciantes insistem sempre em relatar sua reação quan­
do referem a heresia que dizem ter testemunhado: traduzem-na como “es­
cândalo” e ainda como “silêncio” imposto ao pecador por palavras de censura
e atos físicos. João Rodrigues denuncia Antônio Velho em 13 de setembro de
1618, contando ao inquisidor que, seis meses antes, tendo ido à casa do de­
nunciado na rua da Fonte da Urina, “tratando entre eles das prisões que se
fizeram por parte do Santo Ofício na dita cidade do Porto, os anos passados,
dissera o denunciado Antônio Velho que prendiam a gente da nação por lhe
tomarem as fazendas”1” .
A lucidez de Antônio Velho é herética: “E indo-lhe ele denunciante à
mão e mais a testemunha referida, dizendo-lhe que não falasse aquelas cousas
que eram mal faladas, não respondera cousa alguma o denunciado”12123.
Não importa saber se as afirmações de tanto zelo por parte dos denuncian­
tes são expressões sinceras da fé ou ênfase retrospectiva muito oportuna para
captar as boas graças do inquisidor, principalmente quando o denunciante é
de origem comprovadamente judaica e alega ser cristão fervoroso ou, ainda,
quando ambiguamente afirma ser amigo de heréticos tão perigosos. Tais ex­
pressões de “escândalo”, de censura, de indignação e de imposição de silên­
cio apenas ratificam,praticamente, o consenso quanto à validade inquestionável
das normas do dogma.
Ao mesmo tempo que encena tal função prática da denúncia pela qual a
obediência que é seu ponto de partida é rearticulada em vários exemplos, a
sátira colonial a modifica. As normas inquisitoriais deixam de funcionar, nela,
apenas como reguladores práticos da ação ou paradigmas dogmáticos natura­
lizados. Na sátira, as mesmas normas tornam-se evidentes como metáforas,
pois, sendo deslocadas do discurso inquisitorial, são objeto de formulação

122. Livro das Denundações que se fizerão na Visitação do Santo Officio [ ...] , p p . 1 3 2 -1 3 3 .
123. Idem, p . 133.

244
A P RO P O RÇ Ã O DO M ON ST RO

“teórica”124. Em outros termos, a sátira encena os mesmos paradigmas dogmá­


ticos de avaliação prática de situação de culpa em outro nível do sentido, no
qual eles são comentário e interpretação metafórica, sendo propostos pública
e positivamente. Desta maneira, a sátira efetua uma evidenciação discursiva
das normas que, nas denúncias, são implícitas porque ortodoxamente natu­
rais. Lembre-se, uma vez mais, que a denúncia e a atividade do Santo Ofício
são secretas, ao passo que a sátira é pública. O que implica, de imediato, uma
função tautológica de reconhecimento público, por parte de seus destinatários,
daquilo que teoricamente já deve ser muito bem sabido por eles como verda­
de da Fé. Metaforizando tais normas, que culturalmente formam uma isotopia
paradigmática ou sistema da ortodoxia, adaptando-as aos “casos” dos boatos
e convenções retóricas que dramatiza, a sátira as transforma sintagmatica-
mente, produzindo um “horizonte de expectativa” inerente aos poemas125.
Em outros termos, a matéria do poeta são formas discursivas contemporâ­
neas: a sátira se faz como expansão e variação de um sistema semiótico con­
temporâneo, do qual encena as normas, tematizando-as metaforicamente como
verossímil. Neste concorrem as regras do gênero misto com que se compõe, a
forma e os temas de obras anteriores e contemporâneas cuja referência, en­
quanto citação, estilização, paródia, é dramatizada como conhecida dos desti­
natários e, no caso em questão, como metaforização poética dos discursos or­
todoxos do Santo Ofício. Por isso, ainda, o reconhecimento do destinatário é
efetuado segundo dois planos simultâneos, próprios da formulação composta,
que justapõe a dicção grave e prudente com a dicção fantástica e burlesca: di­
retamente, as normas dos discursos inquisitoriais são tema tratado positiva­
mente pela voz icástica da enunciação satírica - lembre-se que, tanto na de­
núncia quanto na sátira, a caução da autoridade é uma Palavra essencial, donde
emanam a racionalidade, a prudência, a boa religião e o bom Estado; indireta­
mente, ainda, a positividade das normas é legível pelo avesso da fantasia poé­
tica e da descrição negativa de tipos, propostos misturados, como desvios ou
erros em relação às mesmas normas, assim como nas denúncias. Por isso, pro­
cedimentos, léxico e temas legíveis nas denúncias ao Santo Ofício e que nelas
funcionam como linguagem da regulação ortodoxa dos corpos, na sátira são o

124. C f. W . I s e r , Der implizile Leser: Kommunikalionsformen dei Romans von Bunyan bis Beckcil, p . 8: “A s
n o r m a s s ã o r e g u la d o r e s s o c ia is q u e , tr a n s p o r ta d o s p a r a o u n iv e r s o d o r o m a n c e , a í p e r d e m im e d ia ­
ta m e n te s e u c a r á te r p rá tic o . S ã o in s e rid o s e m u m n o v o c o n te x to q u e m o d ific a s u a fu n ç ã o n o s e n tid o
d e q u e n ã o a g e m m a is c o m o re g u la d o re s (c o m o e le s o fa z ia m n o c o n te x to d a s o c ie d a d e ) , m a s t o r ­
n a m - s e e le s m e s m o s o b je to s d e u m a f o r m u la ç ã o te ó r ic a ” . C it. p o r H a n s R o b e r t J a u s s , “ D e Ylphigénie
d e R a c in e à c e lle d e G o e th e ” , Pour une eslhélique de la réceplion, P a ris , G a llim a r d , 19 7 8 , p. 260.
125. C f. H . R . J a u s s , op. cil., p p . 4 9 -5 1 .

245
A SATI RA E O E N G E N H O

sentido próprio de transformações poéticas e também critérios interpretativos,


teatralizados como código para os casos e tipos que os poemas metaforizam.
Não se trata, por isso, de pensar mecanicamente as práticas inquisitoriais como
um resultado histórico que seria origem da sátira: não há tal relação de exterio-
ridade da representação entre seus discursos, mas uma simultaneidade que
impede ver a sátira como um reflexo ou cópia estilizada, decalque a posteriori
de formas preexistentes. Simultâneos, os discursos se interceptam e transfor­
mam, observando-se neles dois registros diversos.
Desta maneira, a sátira trata metaforicamente procedimentos, léxico e
temas inquisitoriais, compondo-os, através de sua fusão em formas literárias
contemporâneas ou da tradição medieval e latina reativada, em outra situa­
ção discursiva: uma situação pública, aberta para recepções muito assimétricas,
em que funciona como metáfora crítica ou dramatização de denúncia. Desta,
mantém a estrutura de narração e descrição de pecados-metáforas de desejos
censurados e o intuito declarado de falar a verdade; afasta-se da denúncia
inquisitorial, contudo, ao transformar o segredo em coisa pública e, ainda, ao
submeter os temas blasfemos, sodomitas e hereges à fantasia poética, que os
sobredetermina e deforma como caricaturas e insultos. Desta maneira, pro­
pondo-se aqui uma função extremamente dinâmica de sua intervenção polí­
tica, que é a do bom pastor que a toda parte leva a verdade de sua indignação
moral, a sátira não reflete conteúdos preexistentes e acabados das práticas
inquisitoriais contemporâneas a ela. A manter a metáfora óptica, seria mais
adequado dizer, com Bakhtin, que ela refrata significados de discursos con­
temporâneos. Ao fazê-lo, produz uma redistribuição das normas inquisitoriais
conforme outras regras discursivas verossímeis, adequadas retoricamente à
comunicação de seu tema. Ao fazer-se como denúncia pública, a sátira pro­
põe a partilha coletiva da falta para a qual receita o remédio.
Inversão, a persona satírica ocupa metaforicamente a posição de um
inquisidor que, ao invés de ouvir denúncias e confissões através de “questões”
(perguntas e tortura), fala as respostas, propondo ao pecador que sofre de seu
desejo proibido o substitutivo sublime de sua Lei, transformada em objeto de
amor. Na inversão, mais uma vez a sátira encontra o Santo Ofício: a represen­
tação fantástica, exagerada e deformante de culpas e culpados, funciona nega­
tivamente como representação de desejos censurados, fazendo entrever o Di­
reito, que regula o medo e os monstros126. Veja-se um exemplo dessa pedagogia:
num dos inúmeros ataques ao governador Câmara Coutinho, invariavelmen­
te acusado do pecado nefando de sodomia, aparece a referência judaica:

126. C f. P ie rrc L e g e n d r e , op. c r í., p . 12 7 .

246
A P RO PORÇ Ã O DO M ON ST RO

A vós, fanchono beato,


sodomita com bioco,
e finíssimo rabi
sem nasceres cristão-novo:
A vós, cabra dos colchões,
que estoqueando-lhe os lombos,
sois físgador de lombrigas
nas alagoas do olho [...]
(OC, I, pp. 213-214.)

Observe-se, inicialmente, a identificação metafórica de “sodomita” e “ju­


deu”, que nas denúncias inquisitoriais é uma virtualidade de constituição de
heresias:

Mandou-vos El-Rei acaso


a Sodoma, ou ao Brasil?
Se não viveis em Judá,
quem vos meteu a Rabi?
(OC, I, p. 217.)

Conforme a sátira, Câmara Coutinho, por ser sodomita, habita Sodoma;


Sodoma é Judá; logo, por entimema, Câmara Coutinho é judeu proeminente -
“Rabi” - com conotação escatológica. O significado do termo “rabi”, neste tre­
cho e no anterior, violentamente ofensivo ao referir o governador segundo as
normas vigentes da limpeza de sangue, é acrescido da violência metafórica ine­
rente ao contexto discursivo do poema, em que Câmara Coutinho vai sendo
caricaturizado como “sodomita”. Deslocado do contexto inquisitorial em que
tem valor pejorativo, o termo mantém sua referência e seu significado heréticos,
mas é sobredeterminado com outro valor disfórico pelo trocadilho “rabi/rabo”,
evidenciado pelo verso “sem nasceres cristão-novo”, que lhe reorienta o sentido
como metáfora anal amplificada ironicamente pelo superlativo “finíssimo”.
Nesta linha, como nas denúncias, a sátira também produz heréticos, quando
encena publicamente o léxico inquisitorial como metáfora para referir fantasti­
camente pessoas cristãs-velhas, como o governador fidalgo. O léxico judaizante
torna-se, no caso, metáfora para o insulto e sua convenção. Por isso, ainda e mais
uma vez, diga-se que a metáfora satírica dramatiza discursos, não “fatos”. Veja-
se a sátira contra Luís Ferreira de Noronha, criado de Câmara Coutinho:

Estas as novas são de Antônio Luí-


No que passa sobre um gato de algá-

247
A SÁTIRA E Q E N G E N H O

Que algália tira com colher de Itá-


Que coze e corcoja em fonte Rabi-
Se lhe escalda ou não a serventi-
Isto tem já provado o mesmo ga-
Porque passando os rios de cuá-
O caso locou logo a Inquisi-
Há cousa mais tremenda e mais atró-,
Que em terra, onde ha tanta fartu-,
E haja quem por um cu enjeite um có-?
E que por mau gosto seja um pu-?
Eu me benzo, e arrenego do demô-
E do pecado, que é contra a natu-127.

Os versos agudos de cabo roto diagramam o tema cômico-escabroso. To­


dos os motivos dos discursos das denúncias encontram-se aqui: o procedi­
mento de designar um culpado; a partição ortodoxia/heresia; a identificação
de sodomia, pecado nefando contra a natureza, com judaísmo, heresia contra
a fé católica; a metaforização anal do léxico judaizante (“fonte Rabi-”); a ade­
são à normatividade do dogma vigente etc. Observe-se ainda que a alegorização
de Câmara Coutinho como um “gato de algália” do qual se extrai algo com
“colher de Itá-” obscena faz o poema jogar com o duplo sentido do provérbio
popular “gato escaldado tem medo de água fria”, acendendo, pela conotação
de “escaldar”, o calor da fé do Santo Ofício. Observe-se, também, que Câma­
ra Coutinho é referido em uma representação que o sobredetermina como
vicioso: sendo “sodomita”, é “judeu”; sendo “judeu”, é um “puto”, de modo
que “sodomita = judeu = puto”. O corpo fantástico do governador torna-se,
assim, ponto de convergência dos maiores insultos de sua época: pecador con­
tra naturam, herege e bastardo.
A partir das conceituações de Jauss sobre a recepção, pode-se afirmar que
a função comunicativa de poemas como os referidos - função de reiteração de
normas sociais vigentes e de produção social de significações novas em outras
situações, como no exemplo de “rabi” - não ocorre simplesmente no momen­

127. C f. t a m b é m o u t r o s o n e t o d e v e rs o s d e c a b o ro to : “ Q u e a g u a r d e L u í s F e r r e i r a d e N o r ô = / T ã o

g r a n d e p e s p e g a r p e lo b e s b ê = ! / P a r a o P u t o , q u e a g u a r d a tal p e s p é = / H f a z s e r v i r s e u c u d e c o c ó = .

/ S u b v erteu -se a c id a d e de S o d ô = / Pelo m u ito , q u e a n d o u d e c a r a n g u ê = : / A P alácio tam b ém

creio, s u c é = / O m esm o , q u e à c id a d e de G o m ô = . / Q u e desse e m p escad o r A n tô n io L u í = ? /

N e f a n d o g o sto te m o seu c a rá = / E m n ã o q u e r e r t o p a r p o n t a d e c r i = . / P o is t a n t o se n a m o r a do

p e s c a = , / A c u a m a s e v á p e s c a r l o m b r i = , / E e m c a s t i g o d e D e u s m o r r a q u e i m a = " ( O C , I, p. 2 0 8 )

248
A 1' ROl’O R ÇAO DO M O N S T R O

to em que um destinatário isolado se torna “um ator da história associando-se


a outros indivíduos cujo esforço vai no mesmo sentido”. Tal função já opera
quando o destinatário, figurado como ciente das práticas do Santo Ofício,
retoma, por coma própria, certas normas, certas expectativas, aprendendo,
pela identificação estética, aquilo que pode ser a experiência e o papel social
de outros e dele mesmo. Assim, o poema particular pode reforçar seu com­
portamento no sentido da imitação de modelos antijudaicos e da morali­
dade sexual “natural”, certamente, mas também no sentido de uma modifi­
cação consciente e de uma mudança de sua experiência futura12812930.
Neste sentido do reconhecimento público das normas implícitas por par­
te dos destinatários contemporâneos da sátira, os discursos inquisitoriais de
delação fornecem, aqui, um modelo interpretativo da encenação satírica da
delação. Transposição e metáfora, a sátira constitui um verossímil judaico ou
herege segundo tal ou qual ator particular, tematizado pelo léxico judaizante,
referindo-o a um indivíduo em situação determinada, cristão-novo ou cris-
tão-velho.
Regra da delação ao Santo Ofício, como se viu, é a pergunta, feita sempre
pelo inquisidor no final do depoimento do denunciante, "pelo costume”, ou
relação que mantém com o denunciado. Muito comum é a resposta de que
são amigos. Veja-se um pequeno exemplo muito piedoso em que o amor da
ortodoxia católica justifica a traição da amizade. Manoel Rabelo, cii- tão-ve-
lho de 19 anos de idade, denuncia Cristóvão Henriques, “da nação”, de 22
anos, no dia 13 de setembro de 1618, contando ao inquisidor que “[...] um mes
e meio pouco mais ou menos [...] em um dia de que não está lembrado”, es­
tando na casa de Francisco Henriques, um alfaiate irmão do denunciado, fa­
lou-se que vinha a Inquisição para a Bahia e que muitos judeus morreríam
queimados:

[...] respondera o mesmo Cristóvão Henriques que alguns morriam mártires, ou todos
segundo lembrança dele denunciante que não se afirmava bem se o denunciado disse
todos, se alguns, mas que estava bem lembrado que dissera ou todos, ou alguns
[...] E perguntado pelo costume disse que era amigo do denunciado133.

A sátira põe em cena a mesma situação equívoca - amizade com cristãos-


novos tematizando-a negativamente como imprudência, no sentido que se
dá ao termo no século XVII: irracionalidade, gosto, “asneira”. Publicamente, a

op. c i t p p . 2 6 0 - 2 6 1 .
128. H . R . J a u s s ,
129. Livro das Denunciações que se fizerão na Visitação do Santo Officio [...], p . 1 3 9 .
130. Idem, p . 141.

249
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

censura funciona como “monitório”, advertência do provável comprometimen­


to com a heresia e seu castigo. Publicamente, a sátira propõe a discriminação e o
isolamento dos tipos suspeitos de heresias ou passíveis de suspeição. Ao fazê-lo,
dramatiza também uma recepção que, ciente da onipresença da pedagogia do
medo do Santo Ofício, reorienta o comportamento futuro, “aprendendo” a lição:

Que hajam turcos belicosos [sic]


filhos da perversidade,
havendo na cristandade
Monarcas tão poderosos:
que não se juntem zelosos
para prostrar seus furores,
mandando-se embaixadores
de eloqüéncia persuasória!
Boa história.
Mas que hajam com mais extremos [sic]
entre cristãos batizados
sacrílegos, renegados
ímpios, judeus, e blasfemos:
que algum cristão (como vemos)
dos t a i s seja muito amigo,
tendo tão grande perigo
de pagar-se-lhe a manqueira!
Boa asneira.
(O C , II, p . 4 77.)

Quando o inquisidor pergunta ritualmente ao denunciante a causa da


delação, a resposta invariável é a de que delata “com bom zelo”, “por descargo
de consciência” ou para obedecer ao “Édito da fé”, expressões sinônimas da
mesma economia unitária da alma implícita também no trecho do poema
citado acima, em que o “bom zelo” da enunciação constitui “sacrílegos, rene­
gados,/ ímpios, judeus, e blasfemos”, expressões que recobrem os crimes das
denúncias: sacrilégio, blasfêmia, heresia. Embora muitas delações obedeces­
sem certamente a motivos de “foro íntimo”, como a vingança, o efeito prático
da declaração do denunciante é o de ratificar a fé na Fé: delata-se porque se é
bom católico; em outros termos, por caridade e submissão ao corpo visível da
Igreja. Afinal, a Igreja Católica é inquestionavelmente uma instituição visível
e jurídica, cuja estrutura e tradições derivam diretamente da inspiração do
Espírito Santo, doutrina defendida e consolidada pelos dominicanos e jesuí­
tas que a debateram em Trento, em 1546, contra os luteranos, os erasmianos e

250
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

os maquiavélicos: conforme o Decreto sobre as Escrituras Canônicas, promulga­


do então, ninguém vive uma vida plenamente cristã se vive fora da Igreja
Católica visível. E a mesma visibilidade dos ritos e tradições que implica o
segredo, no caso das denúncias ao Santo Ofício, como adesão incondicionada
ao “poder diretivo e coercitivo” de que fala Suárez131 e que a Inquisição repre­
senta, como senhora do dogma. O dogmatismo é absoluto, a ponto de arrogar-
se a força de condenar os judeus culpando-os de heresia contra a sua própria
fé - porque, segundo a Igreja, alterar o rito judaico é profanar um testemu­
nho válido da fé cristã... Assim, os papas Gregório XI e Inocêncio III fizeram
queimar livros judaicos contendo grande número de heresias e de erros con­
tra o judaísmo, castigando os que os propagavam e ensinavam132.
E a mesma visibilidade que se recorta na sátira: a amizade com cristãos-
novos é uma infração de tal visibilidade, sombra que a mancha, mistura
indevida “tendo tão grande perigo / de pagar-se-lhe a manqueira”. Qual é o
perigo que a sátira evidencia ao ameaçar não apenas os cristãos-novos, mas
também os “cristãos batizados” (expressão que, ao ocultar que os cristãos-
novos também são batizados, propõe mais uma vez a visibilidade dos rituais
católicos como critério distintivo do autêntico cristão)? O perigo, óbvio dizê-
lo neste contexto, é o braço de mil olhos do Santo Ofício. Como se viu, sua
ação não implica a verificação de culpas, antes sua constituição, de modo que
qualquer um - cristão-velho ou cristão-novo - está sujeito ao fogo:

Serão legilimamente considerados heréticos, conforme opinião unânime de teólo­


gos e canonistas, aqueles que visitam os heréticos, ou que os mantêm, assistem ou acom­
panham. As suspeitas são, neste caso, suficientemente fortes para justificar por si só os
processos de heresia133.

Por isso mesmo, o zelo - demonstrado também por denunciantes cris­


tãos-novos - é efetuado na sátira como suspeito:

Quantos com capa cristã


professam o judaísmo,
mostrando hipocritamente
devoção à Lei de Cristo.
(OC, I,p. 12.)

131. C f . Q . S k i n n c r , " T h e R e v i v a l o f T h o m i s m ” , e m The Foundations of Modem Political Thoughl,


II (The Age of Refonnation), p . 14 5 .
C a m b r i d g e , C a m b r i d g e U n i v e r s i t y P r e s s , 1 9 7 8 , 2 v o ls ., v o l.
132. C f . N . E y m e r i c h & F. P e n a , op. cil., p . 77.
133. ídem, p . 54.

251
A SÁTI RA E O E N G E N H O

OU

Verão um Doutor
em Judá nascido
mais entremetido
que um grande fedor:
Grande assistidor
de Igreja festeira,
que ao longe lhe cheira
como mangerona:
forro minha cona.
(OC, II, p. 464.)

e, ainda, propondo o zelo cristão-novo como gênero cômico:

Deixe, Senhor Beato, a Beati-,


Que se é via do Céu a via sa-
Ninguém o quer já crer nesta cidá-
Porque é você da casta Israeli-.
Quando devoto corre a sacra vi-
E a cada pé de Cruz estende os bra-
Parece um entremez da Lei da gra-
Que a toda a cristandade causa ri-.
Deixe-se disso, e trate do escritó-
Que esse lhe há de render o pão da me-,
E o céu também, se com bom zelo advó-,
Mas se quer, que por Santo o reconhê-
E na paixão de Deus faz o graciô-,
Embolsará as risadas da comé-.
(OC, III, p. 728.)

Quando demonstrado por cristãos-velhos e mesmo por padres, o zelo ca­


tólico também pode ser criticado pela sátira, como denúncia da denúncia.
Ela o critica pela metáfora do judeu contra não-judeus. A sátira ao deão André
Gomes Caveira, por exemplo, faz trocadilho com seu nome e, traduzindo-o
como judeu:

Como não há de acabar-se,


se uma Caveira tão feia
ao Prelado galanteia

252
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

a risco de enamorar-se!
onde se viu galantear-se
o roxete carmesi
pela caveira de Heli?
(OC, II, p. 259.)

termina por invalidar-lhe as ações:

Aqui anda, e aqui está


rosnando sempre entre nós,
Deão com cara de algoz,
e pertensão de Bispá:
ele é, o que os pontos dá,
e os vícios vai acusando
com zelo torpe, e nefando,
com que nos bota a perder:
porque quem não há de crer
uma Caveira falando.
(OC, II, p. 260.)

Desta maneira, o léxico judaizante é composto como metaforização de


várias ações interpretadas como viciosas, não importando sua adequação
referencial como representação de judeus ou cristãos-novos, mas como teatra-
lização de uma norma cultural conhecida, que, referindo a situação da invec-
tiva, funciona como insulto que significa não importa qual pessoa ou condição.
A desqualiftcação opera não só como insulto racial - como subitem do topos
“raça”, também desqualifica as relações de parentesco, associando-se a ela os
motivos da “puta”, do “bastardo” e do “corno”, fundamentais no imaginário
fidalgo:

Verão um sandeu
que quer sem disputa
ser filho da puta,
por não ser judeu:
se hábitos perdeu
por ser cristão-novo,
a mim todo o povo
de velho me abona:
forro minha cona.
(OC, II, p. 463.)

253
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Amplificação da degradação, observe-se mais uma vez a estrutura da de­


núncia dramatizada no trecho como exposição pública de um tipo - “Verão
um sandeu” - objetivado pelo olho prudente como “louco” - extremo da im­
prudência - que prefere ser “filho da puta / por não ser judeu” (OC, II, p.
463). A desqualificação é absoluta, indicativa da posição das mulheres cris-
tãs-novas nesses discursos de fé muito ardorosa, que as situam abaixo das
“putas”. Por isso, o mesmo topos da origem racial e parentesco é operado como
metáfora pejorativa de práticas sexuais ilícitas. Por exemplo, na crítica a clé­
rigos:

Clérigo verão
que porque em Cantabra
nasceu de uma cabra
cresceu a cabrão:
Tão fino ladrão
que até a filha alheia
com ser cananéia
furta à mãe putona:
forro minha cona.
íOC, II, p. 464.)

Como ocorre com o termo “rabi” referindo sodomitas, aqui “cananéia” e


sua equivalência “puta” são qualificações do insulto e convenções para ele. É
a mesma desqualificação radical do herético que atribui várias qualificações
metafóricas, extraídas de contextos discursivos diversos, a um mesmo tipo
satirizado:

O Galileu Requerente,
Macabcu solicitante,
quem vos deu tamanho guante,
tendo-vos de gozo o dente?
Se me dais cá por agente,
sois homem de tantas partes
que me ganhais estandartes:
eu zombo de vossos pleitos,
porque são vossos direitos
de Pedro de malas artes.
Latis, e cuidais, que eu morro
de ouvir o vosso latir,
e eu zombo de vê-lo ouvir,
porque quem late, c cachorro:

254
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

vós latis, e eu me desforro


dando-vos estas pedradas,
que quando um cão nas estradas
late ao manso caminheiro,
assentando-lhe o cacheiro
deixa as partes sossegadas.
Guardai-vos Israelita,
que se me chega a mostarda,
talvez, que a casa vos arda,
porque é casa de mesquita:
se à força da jeribita
tendes a idéia turbada,
com que vos não dais de nada,
vede, que a minha Camena
como vos corta co’a pena
vos pode cortar co’a espada134.
( O C , III, p p . 7 3 8 - 7 3 9 . )

Pela semelhança negativa que as liga, as metáforas são intercambiáveis,


produzindo-se grande dinamismo no poema, correspondente à sua intertra-
dução que vai compondo o tipo como mescla de discursos. Assim, por exem­
plo, o epíteto “Galileu”, buscado ao dogmatismo da Inquisição italiana ini­
miga da ciência heliocêntrica, conota /herege,/ e é traduzido na sequência do
poema por “Macabeu”, equivalente metafórico que, ao remeter o poema à
referência das Escrituras, direciona e explicita o significado herético do nome
“Galileu” quando o judaíza. Segundo tópica retórica do insulto, as ações de
“Galileu” e “Macabeu” são categorizadas como/bestial id a d e /-“gozo” (cão),
“dente”, “latir”, “cachorro”, “cão” - de maneira que a significação herética
dos dois epítetos é acrescida do significado /irracionalidade/. “Homem de
muitas partes”, acrescenta-se mais uma ao tipo, que interpreta os significa­
dos acumulados passando-os pela tradição oral e pela figura do pícaro, comum
nas letras contemporâneas da sátira: “Pedro Malasartes”. A contínua inter-
tradução tem efeito cumulativo de conceitos e intensificação grotesca do tipo
que os epítetos compõem como mescla. Como se viu, as denúncias ao Santo
Ofício narram ações e nomes muito variados, habilmente conduzidos pelas
questões do inquisidor para dentro da grade conceituai da heresia e sua tra­
dução como judaísmo. A sátira teatraliza a mesma operação, mas de modo
simetricamente inverso: ela parte de um significado genérico -/ju d e u /-q u e ,

134. A d i d a s c á l i a d e s s e p o e m a d i z “A o u t r o r e q u e r e n t e d a m e s m a c i ê n c i a e d a m e s m a p r e s u n ç ã o , m a s

i n f a m a d o d e c r i s t ã o - n o v e e d e m u l a t o c h a m a d o P e d r o d e T a l ” ( O C , [It , p . 7 3 8 ) .

255
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

conotando /heresia/, é um hiperinclusivo, signo que üngüistas chamam de


arqui-semema, que pode incluir e designar não importa qual significado não-
ortodoxo: /judeu/ pode conotar, assim, não-ortodoxia científica (Galileu),
referência bíblica (Macabeu), bestialidade e irracionalidade (cão), pícaro e
ação picaresca (Pedro Alalasartes): o poema funciona como um repertório de
nomes para a heresia. Quando a terceira estrofe passa a advertir o tipo, tradu-
zindo-o por “Israelita”, explicita-se o sentido próprio de “cão”, “Pedro
Malasartes”, “Macabeu” e “Galileu”, e é justamente a encenação da identifi­
cação de um culpado - o “judeu” - que faz o poema abrir-se para o teatro
violento de um auto-da-fé. Como a Inquisição também mata mouros, a ope­
ração de inclusão estende-se um pouco mais e o “judeu” é identificado ao
“muçulmano”, por meio da substituição de um termo logicamente previsível
segundo o paradigma /judaísmo/ - “sinagoga” - por outro - “mesquita” -
trazido para o poema como metáfora ou equivalência herética135. Observe-se,
ainda, que a esses significados mais um se acrescenta, como retomada e refor­
ço da /irracionalidade/ já produzida: a “jeribita”, que turva a idéia, ou o vício
da embriaguez.
A flutuação das metáforas encena, assim, o processo mesmo da denomi­
nação da heresia nas delações, como elenco de nomes e ações que, podendo
ser traduzidos por termos da referência judaica, nas denúncias são aproxi­
mados e fundidos, passando a designar uma ação herética própria de judeus,
conforme o Santo Ofício. A sátira opera como que a partir dos resultados prá­
ticos de denúncia e confissão - ela efetua a identificação do herético como
que prévia ao ato de torná-la pública, produzindo uma disseminação meta­
fórica da heresia por termos análogos e negativos, que remetem o significado
/judeu/a diversas heterodoxias, traduzindo-as e unificando-as nele e através
dele.
Observe-se, ainda, a encenação do extermínio dos judeus através da reto­
mada, no fim da terceira estrofe, do topos renascentista da “pena e espada” ou
das “letras e guerra”, comum nos Galateos, oráculos manuais e artes de pru­
dência dos séculos XVI e XVII: aqui, a metáfora torna-se literal, ameaçando o
herético com o sentido próprio contido no corte metafórico da pena.
A mesma desqualificação já referida, quando se mencionou a tópica “fi­
lho da puta”, é efetuada neste poema que se analisa, funcionando como inten-

135. S á tira q u e m is tu r a o s topoi d a s o d o m ia e d a h e re s ia c o n tra C â m a r a C o u tin h o é m u ito e x p líc ita a


r e s p e i t o d o s m u ç u l m a n o s : “ Q u e , p o r q u e 1 'u rto , o q u e c o m a , / m e e n f o r q u e m , p o d e p a s s a r , / m a s q u e
m e m a n d e e n f o r c a r / a b e n g a la d e u m S o d o m a ! / q u e m s o fre rá , q u e M a fo m a / m c q u e im e p o r m a u
c ris tã o , / v e n d o , q u e M a fo m a é c ã o , / v e lh a c o , e d e s u ja a lp a r c a , / e o m a is to r p e h e r e s ia r c a , / q u e
h o u v e e n t r e o s filh o s d e A d ã o ” (O C , I, p. 201).

256

â
A 1’R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

sificação e, pela mistura e apagamento da origem, como encenação do aniqui­


lamento do tipo:

Dizem, que um ílebreu vos fez


entre o Porto, e entre Judá,
por isso não falais cá
nem hebreu, nem português:
temo, que caiais de vez
neste, ou noutro qualquer porto,
porque culpado no Horto,
e do Egito no desterro,
não podeis me pegar, Perro,
como eu a vós, Perro morto.
Quem vos meteu, canzarrão,
co demo, que vos atiça,
a ser membro da justiça,
se não sois membro cristão?
Corre de vós opinião,
que bem pouco vos aflige,
que o mais a que se dirige
o vosso negro saber,
é somente o requerer
crucifige, crucifige.
Dirigi pois os sapatos
caminho da Terra Santa,
onde heis de fincar a planta
no Pretório de Pilatos:
Lá tão sacrílegos tratos,
como em pretório fiel
fareis, Escriba cruel,
porque vejais entre os cães,
que há na Bahia escrivães,
e Escribas cm Israel.
(OC, III, pp. 739-740.)

A indeterminação metafórica da origem - “entre o Porto, e entre Judá” -


leva à crítica da língua, que a sátira doutrina como “torpe idioma” quando
trata do índio, do negro, do judeu e do muçulmano, como linguagem da au­
sência e, no limite, como ausência de linguagem, segundo a interpretação
escolástica renovada da participação das línguas na Letra revelada por Deus
na Escritura e na natureza. É essa mesma ausência de linguagem alegada que

257
A SÁ T IR A E O EN GEN H O

faz rosnar o topos do “animal” no final da estrofe, como encenação da ameaça


e prepotência: “não podeis me pegar, Perro, / como eu a vós, Perro morto”. A
intensificação prossegue: o tipo judaico é Judas (“culpado no Horto”), ho­
mem pecador submetido ao inferno (“do Egito no desterro”) e, crime máxi­
mo, deicida (“crucifige, crucifige”). Donde, portanto, o pacto com o diabo
(“co demo, que vos atiça”) (“negro saber”), participante no julgamento de
Jesus Cristo (“Pretório de Pilatos”) etc. Para concluir pela oposição: “há na
Bahia escrivães, / e Escribas em Israel”, na qual “Escribas” se torna o termo
hiperinclusivo das ofensas e desqualificações referidas, ao passo que “Escri­
vães”, simetricamente oposto, se eleva em excelência.
O poema funciona, assim, como uma exposição pública de estereótipos
antijudaicos correntes no século XVII ibérico, sendo muito valioso porque
condensa a maior parte deles. Segundo ele, o judeu é herético, não-ortodoxo,
bestial, irracional, misturado, vulgar, pícaro, muçulmano, bêbado, indeter­
minado, de língua torpe que não espelha nenhum Bem, traidor, pecador, pac-
tário, necromanta, deicida, sacrílego, cruel - o que, segundo a sátira, é mui­
tíssimo mais que suficiente para a aplicação da “mostarda”. A Inquisição a
aplicava por muito menos e mesmo por nada, conforme o interesse da ortodo­
xia católica posta a arder.
Ainda é oportuno lembrar que poemas de outros gêneros dramatizam
referências inquisitoriais e judaicas como elementos descritivos de um cená­
rio. Muito plásticas, têm horrível força sensibilizadora, brilhando sombria­
mente na lírica, em que o “sol inquisidor” arde pelos montes, ou em poemas
encomiásticos que celebram personalidades da Igreja. Umas décimas que
descrevem a magnificência com que os moradores da vila de São Francisco
recebem o ilustríssimo senhor Dom João Franco de Oliveira, que já tinha
sido bispo em Angola, iluminam-se com os artifícios de fogos metafóricos por
mar e terra de antíteses. Neles, o judeu queimado é termo para uma compara­
ção com o mar, segundo o binarismo do conceptismo engenhoso posto a enca­
recer a luz de Sua Ilustríssima:

A p a r e c e r a m tão b elas
n o m ar can oas, e truzes,
q u e se o c é u é m a r d e l u z e s ,
o m a r e r a u m c é u d e e s t r e la s :
era u m a a r m a d a s e m v e la s
m o v id a dc outro e lem en to ,
er a u m p r o d í g i o , u m p o r t e n t o
ver c o m tanto desa fo g o
esta n a v e g a r e m fogo,

258
A PROPORÇ Ã O DO MONST RO

se o u tr a s a r r ib a m c o m v en to .
S ua Ilu s tr ís sim a estava
a ssu sta d o sob absorto,
p o r q u e v i a u m r io m o r t o
o f o g o , e m q u e s e a b r a s a va:
g ra n d e c u id a d o lh e dava
ve r , q u e o m a r m o r r i a e n t ã o
in fa m a d o na o p in iã o ,
e co m o u m judeu q u eim ad o,
se n d o , q u e o m ar é sagrado,
q u e in d a é m a is q u e ser cristão.

ÍOC, II, p. 244.)

Fernando da Rocha Peres edita uma denúncia contra Gregário dc Matos


e Guerra, datada de 1685, ao Tribunal do Santo Ofício em Lisboa. O denuncian­
te é um Antonio Rodrigues da Costa:

(f. n. 4 6 6 ) “ I l u s t r í s s i m o s S e n h o r e s [...] P a r e c e u - m e a g o r a d a r c o n t a a V o s s a s S e ­
n h o r i a s d e a l g u m a s c o i s a s p e r t e n c e n t e s a e s s e t r i b u n a l p a r a q u e n o s s a S a n t a F é s e ja
s e m p r e e x a l t a d a e s e d ê c a s t i g o à q u e l e s q u e e r r a r a m s e u S a n t o C a m i n h o . [...]
(f. n . 4 6 7 ) N e s t a C i d a d e v i v e u m B a c h a r e l c h a m a d o G r e g ô r i o d e M a t o s e G u e r r a
n a t u r a l d e s t a C i d a d e q u e n e s s a C o r t e foi J u i z d o C í v e l , h o m e m s o l t o s e m m o d o d e
C r i s t ã o , e n a s c o i s a s p e r t e n c e n t e s a e s s e T r i b u n a l f a l a c o m n o [ - ] (f. n . 4 6 7 v.J n o t á ­
vel d e s p r e z o e n o tó r io e s c â n d a lo e s e n d o T c s o u r e ir o -m o r da S a n ta Sé d e s ta C id a d e
e D e s e m b a r g a d o r E c l e s i á s t i c o d i s s e q u e era tão g r a n d e le t r a d o q u e se a t r e v ia a m o s ­
trar c o m o J e s u s C r i s t o n o s s o R e d e n t o r f o r a N e f a n d o p o r o u t r a p a l a v r a m a i s t o r p e , c
e x e c r a n d a , e s t a n d o p r e s e n t e u m C l é r i g o c h a m a d o A n t o n i o da C o s t a q u e n a Ilha T e r ­
c e i r a f o i v i g á r i o d e u m [sic] I g r e j a d a q u e l e B i s p a d o e n a s c o n v e r s a ç õ e s d i z e m t a m ­
b ém o d isse r a , te m n o tíc ia desta B la s fê m ia ta m b é m o D o u t o r M a n o e l A n t u n e s C u ra
da S a n t a S é d e s t a C i d a d e e o P a d r e S u b - C h a n t r e S o l a n o d e L i m a , e e m o u t r a s o c a ­
siões d is s e q u e to m a r a m o r r e r s u b i t a m e n t e p o r n ã o o u v i r e s ta r o n d e lh e d i s s e s s e u m
P a d r e d a C o m p a n h i a [ d e ] J e s u s q u e o e n f a s t i a v a ; e o u t r a s m u i t a s (f. n . 4 6 8 ) M u i t a s
co isa s e s c a n d a lo s a s , e p a s s a n d o p e la sua p orta a p r o c is s ã o d o s P a s s o s d e C r is to , p a s ­
s a n d o o A n d o r d o S e n h o r c o m a C r u z as c o s t a s se d e i x o u e s ta r c o m u m b a r r e t e b r a n ­
co n a c a b e ç a s e m f a z e r n e n h u m a i n c l i n a ç ã o a o S e n h o r e p o r o p o v o m u r m u r a r a p e ­
nas fe z a c a t a m e n t o c o m a c a b e ç a ao S a g r a d o lignum crucis com que por seus n u nca
ja m a is v is t o s c o s t u m e s foi p r iv a d o d o o f íc io , e m e s ta terra é h a v i d o p o r u m a te ísta ,
g e r a l m e n t e d e t o d o s , ( f i n a l d a d e n ú n c i a c o n t r a G r e g o r i o d e M a t o s e G u e r r a ) . [...] (f.
n. 4 6 8 v.) I s t o é o d e q u e p o r h o r a p o s s o f a z e r p r e s e n t e a V o s s a s S e n h o r i a s . S e h o u v e r
de n o v o ou tra co isa d c q u e o faça n ão serei e m n a d a m o r o s o e m tu d o o q u e tocar a
esse S a g r a d o T r ib u n a l. G u a r d e D e u s a V ossas S e n h o r ia s c o m o d e s e jo para S a n to R e ­

259
A S ATI HA E O E N G EN H O

g i m e n t o d e s s e T r ib u n a l e e x t ir p a ç ã o d a s h e r e sia s. B a h ia l ü d e M a io d e 1 685. P r o s ­
trado a so m b r a d o R e s p e ito d e V ossas S e n h o r ia s I lu s tr ís sim a s
A n t o n i o R o d r i g u e s d a C o s t a 136.

A denúncia, muito convencional, compõe-se de tópicas encontráveis em


inúmeras outras da época: acusação de blasfêmia, como a de alegar a sodomia
de Jesus, ou a de não se descobrir quando passa o andor, acrescidas da nomea­
ção da heresia - no caso, o ateísmo. Não importa saber se o homem Gregório
de Matos foi blasfemo e herege - o que aliás é improvável; o documento mes­
mo, justamente por ser denúncia, não permite afirmá-lo. Mas importa dizer
que a denúncia não é conclusiva sobre a sátira atribuída ao nome Gregório de
Matos, principalmente quando se interpretam as representações desta sem
mais evidências como “prova” do ateísmo suposto em poemas supostamente
produzidos por um homem que supostamente se expressaria neles. Fazê-lo
implica motivar expressivamente as convenções retóricas da época e, com
isso, substancializar o pronome “eu”, ator ficcional, como pessoa empírica.
Toda linguagem é consciência prática e, independentemente das supostas in­
tenções ou crenças do suposto autor dos poemas, a sátira seiscentista que se
atribui ao nome Gregório de Matos e Guerra é, objetivamente, antijudaica sem­
pre, encenando a adesão também objetiva ao Santo Ofício da Inquisição. Quan­
to à obscenidade como a das rimas “cu/Jesu”137 ou à dramatização da dúvida
religiosa, deve-se lembrar que nada há de libertinagem ou heresia nelas, ain­
da que efetivamente as rimas sejam ousadas. A poesia seiscentista desenvol­
ve, na doutrina, invenção e elocução do conceito, também a vertente neoplatô-

136. Cf. Fernando da Rocha Peres, Gregório de Mattos e a Inquisição, Salvador, Centro de Estudos Baianos
da Universidade Federal da Bahia, 1987, n. 128, pp. 18-19. Segundo informação do autor, o docu­
mento encontra-se em Cadernos do Promotor n. 58 (antigo 56), ANTT, fólio 466 até fólio 475 -
Inquisição de Lisboa, tendo sido atualizada a grafia na transcrição. Agradeço ao autor, aqui, a
gentileza de me enviar exemplar de seu trabalho. Lembre-se, como se viu no capítulo I, que o
vigário de Passé, Lourenço Ribeiro, encena a denúncia na sátira contra Gregório: “De Cristão não
é, senão / de herege, tudo, o que obra, / pois nele a heresia sobra, / e lhe falta o ser cristão: / remcté-
lo à Inquisição / já uma vez se intentou, / mas bem veis, que atalhou, / senhores, tão grande bem:
/ mas não o saiba ninguém" (OC, IV, p. 788). Quanto a Antônio Roiz da Costa, denunciante, é a ele
que a sátira aplica os apelidos de “Doutor Gilvaz” e “Cutilada”. Fernando da Rocha Peres informa
que foi “solicitador” da Câmara, em 1666. Cf. op. cit., p. 47.
137. Cf., por exemplo: “Passou o surucucu,/e como andava no cio, / com um e outro assobio, / pediu a
Luísa o cu: / Jesu nome de Jesu, / disse a Mulata assustada” (OC, II, p. 387); “Catona, Ginga, e
Babu, / com outra pretinha mais / entraram nestes palhats/ não mais que a bolir co cm : / eu vendo-
as, disse, Jesu, / que bem jogam as cambetas!” (OC, VI, p. 1368); “A mim me tremia o cu / co’as
moquecas, não em vão, / pois sendo da vossa mão / qualquer peixe é Baiacw: / Jesu nome de Jestí!”
(OC, VI, p. 1533).

260
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

nica da metáfora e da alegoria sem semelhança com o termo próprio, aptas


para figurar o Infigurável e dizer o Inefável138. Técnica da negação ou apophasis,
no que concerne aos mistérios divinos, só negações são verdadeiras, pois toda
afirmação a respeito de Deus é inadequada. A negação é, aqui, uma conven­
ção do inexprimível e para ele: valoriza-se o sentido figurado, para evidenciar
que é inadequado e, ainda, só adequado quando totalmente inadequado, pois
o que realmente importa é o sentido próprio inexprimível139140. Lembre-se o
“Cristo é um verme”, do Pseudo-Areopagita, o “mitero porque no nntero” de
Santa Teresa; o “Entre a conceição e o parto não meteu o anjo mais que o seu
e t ” , do sermão de N. Senhora do Ó, de Vieira; e, ainda, passagens de São João
da Cruz, como:

E n tr e m e d o n d e n o s u p e
y q u e d e m e , n o s a b ie n d o
to d a s c ie n ç ia ir a ç e n d ie n d o .
Yo n o su p e d o n d e e n tr a v a ,
p e r o q u a n d o a lli m e v i ,
s in s a b e r d o n d e m e e s la v a
g r a n d e s c o sa s e n te n d i.
N o d ir è lo q u e s e n ti
q u e m e q u e d e n o s a b ie n d o
to d a s c ie n ç ia t r a ç e n d ie n d o m .

Deve-se ressaltar, enfim, que é típica da poesia seiscentista a dúvida


hiperbólica como dramatização da certeza por meio da oposição montada,

138. Cf., por exemplo: “Se é possível figurar o infigurável, dar forma ao que é sem forma, tal se dá não
só porque somos incapazes de contemplar diretamente o inteligível, porque nos são necessárias
metáforas espirituais adaptadas à medida dos nossos meios, imagens que coloquem à nossa altura
espetáculos sem figura e maravilhosos - mas também porque convém perfeitamente às passagens
mísiicas das Escrituras ocultar sob enigmas indizíveis a santa e misteriosa unidade dessas inteli­
gências que não pertencem ao nosso mundo”. Pseudo-Dionísio, o Areopagita, “La hierarchie celes­
te”, O e u v r e s c o m p l è i c s d u P s e u d o - D e n y s , V A r é o p a g i t e , Trad., Préf. et Notes de Maurice de Gandillac,
Paris, Aubicr Montaigne, 1943, pp. 189-195.
139. Cf., por exemplo: “Assim, duma parte, os segredos divinos permanecem inacessíveis aos profanos
enquanto que aqueles que sabem interpretar as imagens santas ultrapassam as figuras; doutra
parte, esses mesmos segredos divinos recebem a homenagem que lhes é devida através da verda­
deira negação e dessas metáforas destituídas de qualquer semelhança, retiradas dos ecos mais
longínquos da Tearquia” Pseudo-Dionísio, o p . cil., pp. 194-195. Trata-se da questão em João Adolfo
Hansen, A l e g o r i a ( C o n s t r u ç ã o e I n t e r p r e t a ç ã o d a M e t á f o r a ), São Paulo, Atual, 1986, pp. 59-64.
140. Cf. San Juan de La Cruz, “Copias dei mismo hechas sobre un estasi de harta contemplación", T h e
P o e m s o f S t . J o h n o f lhe C r o s s , New English version by John Frederick Nims, New York, Grove Press,

1959, p. 24.

261
I

A SÁ T IR A E O EN GEN H O

quase sempre, entre o insondável da Providência e a pequenez do entendi­


mento humano. Comum, por exemplo, é o procedimento de figurar o “eu” do
poema como indigno e pecador:

A vossa m e sa d iv in a
com o poderei chegar-m e,
se é tria g a da v ir tu d e ,
e v e n e n o da m aldad e?

( O C , I, p. 4 9 . ) ul

É sedutor, é simpático, é anacrônico propor um Gregório de Matos e Guer­


ra crítico do dogma, contestador das Escrituras e do Sacramento da Eucaris­
tia, livre-pensador, panteísta, ateísta. Trechos como

L o u v e-v o s m in h a rudeza,
p or m a is q u e so is in efá v el,
p o rq u e se o s b ru tos vos lo u v a m ,
se r á a r u d e z a b a s t a n t e .
T o d o s o s b r u t o s v o s l o u v a m , 14

141. Fernando da Rocha Peres propõe que o poema de que se extraem os trechos lidos “denota a sua
visão ‘desconstrutora’ interior, a sua dúvida e a sua 'praxis' religiosa ao contestar, com ‘perplexida­
de', as Escrituras e o Sacramento da Eucaristia”. Nesta linha, Gregório de Matos e Guerra aproxi-
ma-se de Pascal (“Le silence éternel de ces espaces infinis nTcffraye”): “ele reconhece, como saída,
o insondável do desconhecido (vida eterna) e retruca, com uma divindade ‘criadora' única, sem as
imperfeições da religião revelada (histórica), a qual deve ser (re)conhecida e adorada pela sua
‘natureza’, dentro de uma visão (pan)teísta”. Cf. Fernando da Rocha Peres, op. cii., pp. 27-28. A
aceitar a interpretação, Gregório é luterano, ou quase, por recusar a Igreja visível, dogma
reconfirmado em Trento. Veja-se todo o poema: “Tremendo chego, meu Deus, / ante vossa divinda­
de, / que a fé é muito animosa, / mas a culpa mui cobarde. / À vossa mesa divina / como poderei
chegar-me, / se é triaga da virtude, / e veneno da maldade? / Como comerei de um pão, / que me
dais, porque me salve? / Um pão, que a todos dá vida,/e a mim temo, que me mate. / Como não hei
de ter medo / de um pão, que é tão formidável / vendo, que estais todo em todo, / e estais todo em
qualquer parte? / Quanto a que o sangue vos beba,/ isso não, e perdoai-me: / como quem tanto vos
ama, / há de beber-vos o sangue? Beber o sangue do amigo / é sinal de inimizade; / pois como
quereis, que o beba, / para confirmarmos pazes? / Senhor, eu não vos entendo; / vossos preceitos
são graves,/ vossos juízos são fundos, / vossa idéia incscrutávcl. / Eu confuso neste caso / entre tais
perplexidades / de salvar-me, ou de perder-me, / só sei, que importa salvar-me. / Oh se me dêreis
tal graça, / que tendo culpas a mares, / me vira salvar na tábua / de auxílios tão eficazes! / E pois já
à mesa chegueí, / onde é força alimentar-me / deste manjar, de que os Anjos / fazem seus próprios
manjares: / Os anjos, meu Deus, vos louvem, / que os vossos arcanos sabem, / e os Santos todos da
glória, / que, o que vos devem, vos paguem. / Louve-vos minha rudeza, / por mais que sois inefável,
/ porque se os brutos vos louvam, / será a rudeza bastante. / Todos os brutos vos louvam, / troncos,
penhas, montes, vales, / e pois vos louva o sensível, / louve-vos o vegetável" (OC, I, pp. 49-50).

262
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

tro n co s, p e n h a s, m o n t e s , vales,
e p o is v o s lo u v a o se n s ív e l,
lo u v e -v o s o veg etá v el.

( O C , I, p. 5 0 .)

são ortodoxos, encenando nada mais que o reconhecimento neo-escolástico


da unidade divina como Causa Primeira das sombras, vestígios e imagens da
multiplicidade sensível do mundo criado, também várias vezes tratada, como
ocorre no poema em pauta, segundo a tópica do “todo e parte”:

[...] e s t a i s t o d o e m t o d o ,
e e s ta is to d o e m q u a lq u e r parte.

( O C , I, p. 4 9 . )

A persona satírica não é néscia', logo, não pode ser imprudente, em termos
católicos, isto é, atéia ou herética. Ao contrário, ela é metáfora emissária da persona
mystica do Rei, cabeça teológico-política do Estado, cujo poder é reposto na
anatomia dos vícios.
Pspersona satírica também não é etapista: não veste a toga sociológica que
alguma vez se costuma alinhavar. O engenho dos intérpretes intenta excessos
e consegue prodígios, certamente, mas é apenas divertido imaginar a livre
expressão e o jansenismo em Portugal, no século XVII.

Como técnica retoricamente regrada de enunciar a Lei na forma mons­


truosa dos interditos, confirmando o Um no misto e no múltiplo, a sátira
seiscentista encena a punição. Ao evidenciar publicamente no monstro moral
que a pulsão é pecado e que o pecado é uma culpa, propõe o remédio e o alívio
de sua prudência política: teatro da persuasão e pastoral do remorso. Referi­
do à sátira, o termo “política” tem aqui o significado, corrente nos séculos
XVI e XVII, de uma arte que, além de garantir a segurança da República con­
tra seus inimigos externos, também cuida de sua concórdia interna, manten­
do a ordem e a paz apesar das divergências de posições e conflitos de interes-
ses1'12. Na chave típica do providencialismo ibérico que se opõe ferrenhamente
a Maquiavel, o termo “ política” também é tomado no “mau sentido”, signifi­
cando uma arte de triunfar nas competições da Cidade por meio da simula-142

142. Cf. R. Pillorget, “Lc mouvement insurreciionnel comme pratique politique dans Ia I-rancc du X V '
sièclc”, em Théoric cí pratique poliliques à la Reitaissance, XV II'' Colloque International de Tours,
Paris, Librairie Philosophique Yrin, 1977, p. 106.

263
A SÁ T IR A E 0 EN GEN H O

ção, da hipocrisia e de outros meios adequados à ocasião. O termo aplica-se,


assim, tanto à caracterização de uma técnica de “policiar” o Estado, “primei­
ra parte da moral” que visa a felicidade do bem comum, quanto ao jogo livre
das paixões e à satisfação das ambições pessoais servidas por diversos expedien­
tes, como arte de triunfar143.
A sátira seiscentista é política segundo esse duplo registro: funciona como
uma técnica que hierarquiza metaforicamente a segurança da população ence­
nando seu controle no discurso epelo discurso. Impondo normas aos corpos de
linguagem, ela os interpreta como adequação ou desvio da lei positiva reflexo
da lei natural de que se faz emissária, fundamentando a crítica, de direito, para
a mesma população, a um tempo referência e testemunha de sua intervenção.
Ao propor a correção dos vícios - políticos no “mau sentido” referido -, ela o
faz em nome do ideal de bem comum ausente que sua enunciação racional
efetua, ditando a retificação do que expõe. Sua validação é o Direito Canônico,
principalmente em sua versão contra-reformista, que regula a hierarquização
jurídica das práticas do Antigo Regime. Desta maneira, um de seus pólos de
referência, lugar da unificação e unidade ideais do bem comum, é a figura do
Rei, sempre presente ainda quando não nomeado. Dele emana e para ele con­
verge o sentido superior das ações: à sombra da sua luz difusa e onipresente, a
infelicidade e o erro das diferenças cobram sentido pleno, o de serem seme­
lhanças próximas ou distantes de seu Um, senhor, sacerdote, pai, quase deus.
A mesma tensão do Um e do múltiplo metafóricos, rebatida nas variações
do mesmo e do outro, do puro e do impuro, do permanente e do fugaz, e sua
intertradução contínua como antíteses unificadas precariamente em uma e
mais outra metáfora sempre diferida e fugidia, legíveis nos jogos do concep-
tismo engenhoso, têm aqui um de seus fundamentos. Cabe descrever sumaria­
mente essa teologia-política para tentar evidenciar alguns princípios hierár­
quicos que na sátira constituem apersona como voz autorizada para falar.
Opondo-se à afirmação papista da plenitudo potestatis, relativizada e
criticada pelos próprios contra-reformistas no século XVI, como Vitoria e
Bellarmino, o Estado moderno afirma sua soberania144 incorporando contra

143. Idcm, p. 106. É neste sentido, por exemplo, que se faz a sátira do vigário Lourcnço Ribeiro contra
Gregório de Matos.
144. Cf. Kantorowicz, “Mysteries of State, an absolutist concept and íts late medíaeval origins”, p. 382,
cit. por Jean-François Courtíne, “Chéritagescolastique dans la problématique théologico-politique
de l’Ãge Classique”, em Ilenry Mcchoulan (org.), op. crí., p. 110: “Sob a autoridade do Papa en­
quanto princeps el vents imperator, o aparelho hierárquico da Igreja romana [...] mostrou uma ten­
dência de tornar-se o protótipo perfeito de uma monarquia absoluta e racional sobre uma base

264
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Roma a mesmaplenitudopotestatis na caracterização do poder real145. Trata-se


de uma determinação teológica de novas estruturas políticas146, feita nos ter­
mos de uma reatualização de doutrina principalmente nos países católicos,
como Portugal e Espanha, em que a Escolástica reciclada pelos dominicanos
e jesuítas contra-reformistas do século X V I e início do X V I I é difundida como
ortodoxia pelas instituições universitárias, como Coimbra, Évora, Salamanca,
sendo o modelo não só do ensino do Direito, mas também das doutrinas
providencialistas do Estado monárquico então produzidas para fazer frente
às teses “ímpias” de Maquiavel, Erasmo, Lutero, Calvino e Melanchton. Si­
multaneamente, mantidas as proporções desta generalização, a arte dita
“barroca” do século X V I I ibérico corresponde a uma reinterpretação de tópi­
cas da retórica antiga, principalmente Aristóteles, Cícero, Quintiliano, Séneca
e Hermógenes, que são mantidas - basicamente, a elocução, reproposta como
ornato dialético agudo - pela doutrina escolástica da analogia de atribuição e
proporção com que nessa época se interpreta o conceito engenhoso. Essa
reinterpretação, operada em vários graus e intensidades, mantém a norma-
tividade antiga dos gêneros, da divisão dos estilos e da verossimilhança, adap­
tando-a aos novos fins da centralização monárquica. É ela que permite pensar
o espetáculo maravilhoso da arte como proliferação retoricamente ordenada
em função da unidade de sua Causa Primeira implícita que, por isso, sempre
efetua os vestígios do sagrado, mesmo quando cortesã e programaticamente
ornamental. A mesma reinterpretação já implicara, no século X V I , até certo
ponto, a redução dos paradoxos ditos “maneiristas”, depois que se tornaram
convencionalmente previsíveis, ao binarismo sóbrio da tensão dos opostos e
contraditórios da arte “barroca”. Os procedimentos “maneiristas” muitas ve­
zes coincidiram com as sugestões da situação política introduzida pela Con-
tra-Reforma - e, em Portugal, com o afundamento beato da vida que o Santo
Ofício e a fortíssima censura intelectual impuseram. Assim, certos procedi­
mentos artísticos foram apropriados pela máquina católica da propaganda da

mística enquanto que, simultaneamente, o Estado manifestou mais e mais uma tendência de tor­
nar-se uma quase Igreja e, em muitos aspectos, uma monarquia mística sobre uma base racional”.
145. Por exemplo, na proposição de Jaime I, da Inglaterra: “regem non apflpulo, sed immediaie a Deosuam
poieslatem habere". É contra tal doutrina absolutista do direito divino que se opõe a versão dos
contra-reformistas ibéricos, noiadamente Suárcz, que conceitua o absolutismo como quase aliena­
ção popular do poder em mãos do soberano. Tal determinação teológica de novas estruturas políti­
cas é que permite pensar a sacralização do poder, o ritual e o espetáculo próprios das artes
conceptistas do século XVII. Ela implica também, nas mesmas artes, a posição de defesa dos estilos
“clássicos”, como é o caso, por exemplo, do ataque de Vieira aos dominicanos gongóricos e, ainda,
do provincial d3 Companhia de Jesus, Aluzio Vítelleschi, em relação aos sermões de Gracián,
146. Cf. Jean-François Courtine, “Chéritage...”, em Henry Aléchoulan (org.),«/>. cil., p. 109.

265
A S Á T I R A E O E N G EN H O

fé: por exemplo, o binarismo das antíteses, a construção geométrica do poe­


ma como oposição de “sensível”/ “inteligível”, que poetas portugueses e espa­
nhóis desenvolvem como diluição de Camões e Góngora, são muito coníor-
mes com a piedade católica e seu dogma da natureza humana decaída. Da
mesma maneira, a reciclagem do aticismo, com a valorização da clareza, é
adaptada à propaganda147.
É a mesma reinterpretação que permite pensar também a defesa dos esti­
los “clássicos”, durante todo o século XVII148149:caso, entre outros, da posição de
Vieira contra os gongóricos dominicanos, oposição artística cuja fundamen­
tação é teológico-política. Nela, o apelo às virtudes retóricas tradicionais de
clareza, brevidade e verossimilhança visa a representação adequada da har­
monia preestabelecida da Causa Primeira, como estilo natural que teologica­
mente alegoriza a escrita divina natural. Trata-se, enfim, do que Tirso de
Molina chama, em outro contexto, de “política perfeição”. Para tratar dela é
útil, portanto, um pequeno excurso escolástico.
Escolasticamente, a metáfora do corpo do Estado, presente nas letras do
período, corresponde ao terceiro modo da unidade dos corpos exposto por
Santo Tomás de Aquino em seu comentário do Livro V da Metafísica, de
Aristóteles: unidade de integração, que não exclui a multiplicidade atual ou
potencial. É o modo correspondente ao corpo humano:

[...] q u ia e iu s p e r fe c tio in te g r a l u r e x d iv e r s is m e m b r is , s ic u t e x d iv e r s is a n i m a e in s tr u m e n tis ;


u n d e e t a n i m a d i c i t u r esse a c tu s c o r p o ris o r g a n ic i, id e s t e x d iv e r s is o r g a n is c o n s titu tis ip.

147. A ultima sessão do Concilio de Trento, em 3 e 4 de dezembro de 1563, baixou algumas determina­
ções genéricas, que encontraram reciprocidade na arte sóbria e religiosa dos pintores da segunda
metade do século XVI que se fazia em Roma ames das determinações do Concilio. Estas especifica­
vam que a finalidade das imagens religiosas é instruir os crentes e confirmá-los na prática de sua
fé. O uso de imagens que possam conter doutrina falsa ou encorajá-la é proibido. As imagens não
devem encorajar a superstição; devem conformar-se às exigências da modéstia e da moderação;
nenhuma imagem extraordinária ou de forma muito imprevisível poderá ser exposta na igreja sem
permissão do bispo etc. Cf. S. J. Freedberg, Painting in Italy 1500-1600, 2nd ed., London, The
Pelican History of Art, 1983, p. 702.
148. Por exemplo, a partir de fins do século XVI, os jesuítas começam a lançar mão dos livros de emble­
mas como veículo pedagógico e propaganda da fé, substituindo os motes dos emblemas por apólogos
e moralizando as imagens. Com o objetivo de substituir o herói pagão pelo cristão, a fábula mito­
lógica pela parábola evangélica, a linguagem se adapta ao Ratio studwrum, tornando-se clara. Cf.
Maria Luisa Doglio, “Introduzione”, em Emanuele Tesauro, Idea delle Perfette Intprese, Firenze,
Leo S. Olschki, 1975, p. 11.
149. Santo Tomás, “Lectio 3 ad Corinth. XII”, cit. por F. M. Ferrol, o/>. cit., pp. 210-216.

2 66
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Partes de um todo, os membros do corpo humano são instrumentos para


um princípio superior, a alma. O tema é comum na poesia dos séculos XV, XVI
e XVII, lembrando-se aqui dois sonetos atribuídos a Gregório de Matos e
Guerra150. Unidade do corpo, pluralidade dos membros, diversidade das fun­
ções das diferentes partes são as três articulações com que Santo Tomás pro­
põe o corpo, de modo que a integração de suas partes num todo harmônico é
ordem', o pé é instrumento do olho, pois o leva de lugar a lugar; o olho, instru­
mento do pe, porque o guia em sua marcha151. Por analogia, o corpus hominis
naturale é termo de comparação com o corpus Eclesiae mysticum: é o termo
caput (cabeça) que, basicamente, efetua a relação. Analogicamente, assim, as
metáforas da cabeça e do corpo humano podem nomear a parte superior e
inferior de outros corpos analógicos: referem-se à Igreja como corpus Christi, à
sociedade como ordinata multitudo e ao homem, ser natural, como corpus
naturale'-2. Transferido para a esfera política, o termo “corpo” mantém o signi­
ficado da analogia teológica. A cabeça, sede da razão, é proporcionalmente,
para o homem individual, o que Deus é para o mundo. Como o homem é
naturalmente social, a semelhança com o universo não se encontra apenas no
homem individual, mas também na sociedade regida pela razão de um só
homem, o Rei, cabeça do corpo político do Estado153. O Rei está no reino
assim como a alma está no corpo e Deus, no mundo. Como princípio regente
da sociedade que analogicamente é um corpo, o Rei é sua cabeça ou razão
suprema, que o dirige em função da integração de todas as suas partes e fun­
ções - enfim, da sua harmonia ou ordem. Pertencer ao corpo político do Esta­
do implica, por isso, a imediata responsabilidade pessoal para com os demais
homens partes dele. Isto só se atinge pela concórdia, coincidência da vontade
de todos quanto ao fim do corpo político. Uma vez que pode ser imposta à
força, porém, a concórdia não é suficiente, se não houver também a concórdia
de cada um consigo mesmo. É preciso reduzir a uma unidade comum da
tranqüilidade da alma a diversidade dos apetites individuais que concorrem

150. Este topos, reciclado pela interpretação neoplatônica de Pico delia Mirandola, no século XV, que em
seu Heptaplus escreve haver encontrado toda a sabedoria de Moisés em cada verso de Moisés, retorna
na poesia seiscentista na forma de conceptismo engenhoso e lúdico. Cf., por exemplo, os dois
sonetos de Gregório de Matos “Entre as partes do todo a melhor parte” (OC, I, p. 43) e “O todo sem
a parte não é todo” (OC, I, p. 44).
151. Santo Tomás, “Lectio 2 ad Rom. XII”, em F. M. Ferrol, op. cit., pp. 210 e ss.
152. Santo Tomás, ,Suntma lheolog., III, 9, VIII, a.l., em The Summa Theologica of Sainl Thomas Aquinas,
translated by Fathers of the English Dominican Province, London, Encyclopaedia Britannica, 1952,
2 vols.
153. Cf. F, M. Ferrol, op. cit., pp. 210 e ss.

267
A S Á T IR A E O EN GEN H O

na situação social de concórdia154 - em outros termos, as paixões devem ser


evitadas ou, como são inevitáveis, controladas. Desta maneira, o modo de
união mais perfeito do corpo político do Estado é a paz, como conformitas e
proponio dos apetites1551567:

E s d im p é r io u n ió n d e v o lu n ta d e s en la p o te s ta d de u n o ; si é s ta s si m a n t i e n e n c o n c o r d e s,
■ vivey c r e c e ; si se d i v i d e n , c a e y m u e r e , p o r q u e n o es o lr a cosa la m u e r te s in o u n a d is c ó r d ia d e la s
p a r l e s '- 1'.

No século XVII ibérico, a virtns unitiva do amor do bem comum aparece


traduzida na metáfora estóico-aristotélica da amizade, como se lê no mesmo
Saavedra Fajardo:

E n la s r e p ú b lic a s es m á s im p o r ta n te la a m is la d q u e la j u s l i c i a ; porque, si to d o s fu e s e n
a m ig o s , n o s e r ia n m e n e s te r la s le yes n i lo s j u e c e s ; y a u n q u e to d o s f u e s e n b u e n o s , n o p o d r ía n v i v i r
si n o fu e s e n a m i g o s '’' .

A enunciação satírica encena tais asserções escolásticas, recicladas pelos


juristas contra-reformistas dos séculos XVI e XVII, como Vitoria, De Soto,
Bellarmino, Ribadeneyra, Molina, Botero e Suárez, segundo os quais a legiti­
midade real é acompanhada inevitavelmente da legalidade das distinções e
dos costumes que o próprio monarca não pode tocar:

[...] e u c o m p u r a c l a r i d a d e
d ig o e m literal se n t id o
q ue o R ei por D e u s p rom etid o
é: q u e m ? S u a M a j e s t a d e

154. Idem, pp. 215 e ss.


155. Summa lheolog. / / - / / , q. XXIX, a.l.: “Pax el iranqmUúas ordinis; quae quidem iranquillilas consislit in
hoc quod omnes motus appelilivi in uno homine conquiescunl". A paz implica, assim, o sossego interior
e a união dos apetites.
156. D. Saavedra Fajardo, Corona Gólica, cit. por Ferrol, op. cil., p, 223. Cf. ainda, do mesmo Saavedra
Fajardo, a Empresa LXXX1X: “I,a ciudad que por la concórdia era una ciudad, sin ella es dos y a
veees tres o cuatro, faltándole cl amor, que reducia en un cuerpo los ciudadanos”. A sátira encena
a virtus uniliva da caridade e do amor como critérios da concórdia e da paz: “[...] para os bons sou
inferno / e para os maus paraíso”, fala a Bahia personificada (OC, 1, p. 13); ou “[...] debaixo desta
paz, / deste amor falso, e fingido / há fezes táo venenosas, / que o ouro é chumbo mofino" (OC, I, p.
22). Veja-se que a persona satírica efetua a virtus unitiva como o que falta na Cidade, dominada pelo
mal. Cf. D. Saavedra Fajardo, Empresas políticas, op. cit
157. D. Saavedra Fajardo, Empresas políticas, op. cil., Empresa XCI.

268

A
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

Logo em boa conscqücncia


na Pessoa realçada
de Pedro está atenuada
desta Prole a descendência:
logo com toda evidência
c a luz da divina luz
se vê, que a Pedro conduz
o olhar, e ver de Deus,
que ao primeiro Rei, e aos seus
prometeu na ardente cruz
(OC, Y,p. 1208.)

Se outro princípio da monarquia afirma que Princeps legibus solutus - “O


Príncipe está livre das leis”-, isto se dá menos para submeter os súditos ao
arbítrio de um só que para afirmar o direito real de tomar iniciativas em
matéria de poder legislativo, como os interesses do governo exigem. Por di­
reito, assim, os súditos têm sempre o que dizer, desde que não saiam do qua­
dro da lei positiva e da lei natural que regulam a harmonia do corpo político.
Basta-lhes, por exemplo, exaltar a lei, para que defendam seus direitos e seus
bensI5S, uma vez que a exaltação corresponde a um reforço da legalidade, numa
espécie de movimento de adesão das partes do corpo à cabeça - o que tam­
bém é uma chave para o dimensionamento político de tanta poesia enco-
miástica158159 e da mesma sátira feitas como apologia da “cabeça” decisória:

Porém Sua Majestade,


qual Príncipe Soberano,
que não se indigna de humano
sem dano da dignidade:
conhecida esta verdade,
que é verdade conhecida,
fará justiça cumprida,
para que se lhe agradeça,
que o mau na própria cabeça
traga a justiça aprendida.
(OC, I, p. 205.)

158. Cf. Jean-François Courtine, “Chéritage...", em Hcnry Méchoulan (org.), op. cil., pp. 98-99.
159. O gênero encomiástico, hoje ilegível, figura a potência, a sabedoria e o amor dos “melhores”, se­
gundo o modelo teológico da Trindade.

269
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

Os temas entrelaçados da unidade do bem comum e da amizade das par­


tes do corpo político são centrais na sátira seiscentista, aliás, que os dispõe
como oposição de mundo das relações pessoais virtuosas (amizade) versus mundo
da ordem definida pelas relações econômicas impessoais e viciosas, que tiram de si
mesmas sua justificação, traduzido como “amor falso” e “mortal ódio”. E a
metáfora corporal dessas relações pessoais de amizade do bem comum (como
concórdia epaz) opostas ao ódio de sua ausência (como discórdia e guerra) que
se dá na sátira como evento discursivo: comportamentos, hábitos, atos, gestos,
falas, metaforizados conforme elencos de vícios da tradição aristotélico-
escolástica, figuram o mau funcionamento do corpo político.
Afinal, se a justiça não é de graça distribuída, mas vendida, em várias
acepções do termo, é justiça bastarda - e da bastardia brotam frutos de
corrupção160. Segundo a articulação dos deveres recíprocos que ligam súdito
e Estado, a sátira ataca pessoas não exclusivamente por alguma peculiarida­
de que as faça imorais - afinal, somos todos filhos do mesmo Adão - enquan­
to particulares, mas pelo vício político que tal peculiaridade vem a ser como
desordem na harmonia de todas as partes e do todo do corpo político, que se
corrompe:

Nem ao sagrado perdoam,


seja Rei, ou seja Bispo,
ou Sacerdote, ou Donzela
metida no seu retiro.
A todos enfim dão golpes
de enredos, e mexericos
tão cruéis, e tão nefandos,
que os despedaçam em cisco.
Pelas mãos nada; porque
não sabem obrar no quinto;
mas pelas línguas não há
leões mais enfurecidos.
(OC, I, pp. 22-23.)

Assim, é mesmo a caridade cristã e, num nível abaixo, a amizade que


exigem que os maus sejam amputados do corpo da República, de modo que
sua corrupção não contamine outros, virtuosos e honestos. Por isso, ainda,

160. Cf., por exemplo: “E que justiça a resguarda?..............Bastarda / É grátis distribuída?................


Vendida / Que tem, que a todos assusta?............Injusta. / Valha-nos Deus, o que custa, / o que El-
Rei nos dá de graça, / que anda a justiça na praça, / Bastarda, Vendida, Injusta” (OC, I, p. 32).

270
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

embora encene o imaginário fidalgo, a sátira é genérica, extensiva a todo o


corpo político. A mesma sombria caridade agostiniana, em outra circunstân­
cia, propõe diretamente o amor do próximo para a concórdia e a paz:

Desejo, que todos amem,


seja pobre, ou seja rico,
e se contentem com a sorte,
que têm, e estão possuindo.
(OC, I, p. 28.)

Dois elementos concorrem para a paz social do corpo do Estado, segundo


tal doutrina: um é o da concórdia quanto ao bem comum e não aparente, sem
o qual a paz é o “amor falso, e fingido” e “fezes tão venenosas”; outro, o da
tranquilidade da alma ou sossego interno dos apetites de cada homem, sem a
qual “todos pecam no desejo”. O tema estóico, retomado do Sêneca de De
tranquillilate anirni, tem intensa circulação nas belas letras do século XVII,
aliás, sendo adaptado ao desenvolvimento político de temas correlatos, como
o do desengano, o da vanitas e o da concórdia ausente da sociedade vivida como
teatro de enganos ou sonho. A paz social do corpo do Estado, perfeita integração
de suas partes e funções, combina a concórdia de todos no bem comum e a
adesão de cada membro ao corpo político pelo controle da vontade161.
Os teóricos contra-reformistas, como Molina e Suárez, interpretam tal par­
ticipação das partes no corpo pelo viés agostiniano da natureza humana enlu-
tada pelo pecado original. A mesma sátira, como se viu, dramatiza tal crença:

Uma só natureza nos foi dada:


Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos preversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

(OC, II, p. 471.)

Neste trabalho, a obra de Quentin Skinner, tal um Virgílio-guia nos mean­


dros neo-escolásticos do Boca do Inferno, serve de roteiro para um sumário

161. O tema cstóico, tratado por Sêncca em De iranquillitalc anirni, é frequentíssimo nas belas-letras
seiscentistas, articulando a virtude individual, que consiste no domínio dos apetites, como con­
córdia (ou discórdia) com os restantes indivíduos, no que toca ao bem comum. Cf. Sêneca, op. cil
vol. II.

271
A SÁTI RA E O E N G E N H O

dos principais pontos das doutrinas teológico-políticas encenadas na sátira.


Não se trata de teorizá-las aqui, antes de construir um pequeno paradigma
avaliativo da sátira. Assim, certo tom positivo deve ser atribuído à exposição
documentadíssima de Skinner, não a qualquer pretensão de exaustividade do
assunto, aliás muito complexo e apenas secundariamente objeto deste texto,
que o trata como instrumento.
Assim, se o homem tem capacidade inata racional e volitiva para enten­
der os ditames da lei natural nele inscrita por Deus, também é certo que é
criatura decaída, manchada pelo pecado original - como escreve Suárez, “[...]
paz e justiça não podem ser mantidas sem leis convenientes” porque “[...] os
homens individuais ordinários acham difícil entender o que é necessário para
o bem comum e dificilmente fazem qualquer tentativa para atingi-lo por si
próprios”162. Deve haver, desta maneira, uma conexão da lei natural, que Deus
inscreve nas almas para que entendam seus desígnios e ajam segundo o livre-
arbítrio, e a lei positiva, que os homens ordenam para si mesmos em função
do governo das comunidades políticas que fundam. Em outros termos, as leis
positivas devem ter a autoridade de leis genuínas - para tanto, devem ser
compatíveis em todos os tempos com os teoremas da justiça natural fornecida
pela lei natural163. Esta fornece a moldura moral de todas as leis positivas.
Basicamente, por isso, o fim da lei positiva é simplesmente evidenciar (in foro
externo) uma lei superior que todo homem já conhece em sua consciência (in
foro interno)m .
Tal doutrina, presente na sátira seiscentista, faculta-lhe operar em dois
sentidos: um deles consiste em denunciar o que passa por lei, por não estar
caracterizado por tal justiça ou retidão natural, evidenciando que não tem for­
ça legítima para impor coisa alguma e que não deve ser obedecida jamais, como
escreve Suárez. É, por exemplo, o teor das críticas contra os governadores, acu­
sados de tirania, e, mais particularmente, o da maledicência contra Câmara
Coutinho, cuja justiça nos enforcamentos se pauta pelo prazer de ver morrer:

Enforcastes muita gente?


mente, quem tal coisa diz;
Gabriel os enforcava,
que eu com estes olhos vi.
É verdade, que gostáveis
vós muito de vê-los ir,

162. Cf. Quentin Skinner, op. cil., vol. II (The Age of Reformatiotl), p. 160.
163. Idem, p. 149.
164. Idem, ihidem.

272

A
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

sois amigo de enforcados,


ter-lhes ódio, isso fora ruim165.
(OC, I, p. 215.)

O outro sentido, complementar, consiste em denunciar aquelas ações que


infringem a lei positiva existente, tida como adequada expressão da lei natu­
ral - por exemplo, é esse o teor das sátiras aos religiosos luxuriosos, aos co­
merciantes usurários, aos cristãos-novos heréticos, aos feiticeiros idólatras etc.
Em ambos os casos, evidencia-se como enunciado metaprescritivo da sá­
tira a afirmação dos dominicanos e jesuítas contra-reformistas: sem a lei po­
sitiva para impor a lei natural, viver-se-ia um estado de “total confusão”. Por
auto-interesse, segundo os mesmos juristas, os homens abrem mão de sua
liberdade .natural em função das limitações da lei positiva; fazem-no movi­
dos “[...] a criar alguma autoridade pública cuja tarefa é manter e promover o
bem comum”166. Por isso, ainda, a conceituação do direito como ius (“aquilo
que é certo”) - mas também como “uma certa capacidade moral que todos
possuem” - implica, na doutrina política dos juristas contra-reformistas, prin­
cipalmente Suárez, uma reinterpretação da doutrina tomista tradicional do
direito como lei objetiva. Segundo Skinner, a subjetivação da interpretação
do direito, posta a funcionar para afirmar a luz inata da Graça divina contra
o protestantismo e o maquiavelismo, implica também a questão política da
obediência ou não do súdito individual a um príncipe tirano. Referindo-se à
pessoa individual, parte do corpo político do Estado, Suárez escreve que é
direito pessoal fundamental a manutenção da própria vida. Como em seu
ataque papista às pretensões do direito divino de Jaime I da Inglaterra, afir­
ma que “[...] é legal a comunidade resistir contra seu príncipe, e mesmo matá-
lo, se ela não tem outros meios de se preservar”167. Com restrições: se o gover­
nante não estiver engajado numa guerra agressiva destinada a destruir a
comunidade e a matar grande número de cidadãos, mas, sim, “[...] meramen­
te ferindo a comunidade por outros e menores modos [...] neste caso não há
lugar para a defesa da comunidade seja pela força, seja pela traição, direcio­
nadas contra a vida do príncipe”168. Em outros termos, a comunidade deve
“sofrer em silêncio”. A questão, portanto, presente nas críticas ao poder
monárquico, é a de onde e quando tal direito de até matar o Príncipe pode

165. Cf. também, no mesmo poema, estrofes 8, 9, 14, 16 etc. (OC, I, pp. 198-206).
166. Q. Skinner, op. cit., p. 161.
167. Idem, pp. 176-177.
168. Idem, p. 177.

273
A SÁTI RA E O E N G E N H O

vigorar. Suárez propõe assembléias representativas da vontade popular; só


depois que a ação é discutida e aceita por várias cidades do reino, consultan­
do-se os cidadãos, um ato de deposição pode ser legalmente executado169. Não
se pense, porém, que os padres contra-reformistas são “democráticos”: a dou­
trina visa, antes de tudo, a fortalecer a Santa Sé em sua ação contra os segui­
dores de Erasmo, Maquiavel e Lutero, além de opor-se às teses tradicionais
do poder político, como as de Bártolo e Ockham, que teorizam o poder
monárquico como delegação popular170. Os contra-reformistas afirmam, como
já se viu no capítulo anterior, que o poder monárquico não é delegação, mas
quase alienação do poder popular.
É nesse teatro monárquico que a sátira atua, determinando papéis para
seus atores discursivos: ela também postula que as instituições são legais por­
que fundamentadas na legitimidade do poder da população quase alienado
na pessoa do Rei, segundo um contrato que o faz cabeça do corpo político do
Estado. Na ambigüidade da interpretação do que é natural e do que é positi­
vo, oscila, identificando as inadequações, para sempre propor que a lei positiva
é justa se é expressão da lei natural. Oscila, por exemplo, naturalizando uma
convenção humanista, quando postula a inferioridade natural do gentio ou
do herege, como ocorre na desqualificação dos Caramurus da Bahia, reduzi­
dos à bestialidade, e dos cristãos-novos, aproximados do pecado mortal.
No Concilio de Trento e em Valladolid, em 1550, na conferência convocada
por Carlos V para discutir a questão da conquista espanhola do Novo Mundo,
o dominicano Juan Ginés de Sepúlveda legitimou os massacres, defendendo
a tese de que, desde que não possuíam nenhum conhecimento da fé cristã, os
índios não poderíam estar vivendo uma vida de “genuína liberdade política e
dignidade humana”171. A mesma argumentação, baseada na Política, de
Aristóteles, constituía os índios como “escravos por natureza”. Vivendo eles
uma natural bruteza e inferioridade, a conquista espanhola seria uma guerra
justa contra infiéis: sua escravização traduzia-se na economia da salvação de
suas almas pela conversão ao cristianismo172. E esta doutrina que permanece

169. Idem, p. 178.


170. Idem, p. 179.
171. Cf. Lcwis Hanke,“0 Grande Debate de Valladolid - 1550-1 551: A Aplicação da Teoria de Aristóteles
da Escravidão Natural aos Indígenas Americanos”, em Aristóteles e os índios Americanos, trad. Maria
Lúcia Galvão Carneiro, São Paulo, Martins, s/d.; Georg Thomas, Política Indigenisla dos Portugueses
no Brasil 1500-1640, trad. Padre Jesús Hortal, S. J., São Paulo, Ed. Loyola, 1981
172. Os cronistas portugueses do século XVI propõem a mesma interpretação da Conquista: “gente
bestial”, “bárbaro sem lei”, “multidão de bárbaro gentio”, “falta de F, L, R” são lugares-comuns em
Caminha, Gândavo, Gabriel Soares de Sousa. A versão huguenote de Léry, por exemplo, faz fortu-

274
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

na sátira seiscentista, observando-se que não partilha da doutrina dos padres


contra-reformistas, que nas teses de Sepúlveda viram analogia com a tese
luterana herética de que toda sociedade política genuína deve fundar-se na
divindade. Contra Sepúlveda e seus partidários, os padres da Contra-Refor-
ma afirmam que qualquer grupo humano segue a lei natural, mesmo que não
conheça a Revelação; portanto, como conclui Vitoria, é ilegítima a conquista
baseada na noção de doação do poder pela Graça divina173. Dramatizando o
que a teologia propõe como vício contra naturam, porém, a sátira é ortodoxa -
por exemplo, quando seu tema é a usura, a simonia, a sodomia - pois tais
paixões ameaçam a harmonia da lei natural expressa na harmonia do bem
comum do corpo político, não havendo nenhuma lei positiva que possa
legitimá-las. Por isso, a sátira toma como casos de sua invenção justamente os
pontos de não-coincidência ou de não-cumprimento dos deveres recíprocos
da relação corpo social/Rei e súdito individual/Rei, relação ordenada pela lei
positiva como expressão da lei natural. Desde que o Príncipe é a cabeça de
todo o corpo da comunidade, como escreve o dominicano contra-reformista
De Soto174, ele “[...] deve em conseqüência ser maior que todos os seus mem­
bros considerados juntos {maior universis)” e também “[...] maior que todos os
seus cidadãos individuais {maior singulis)". A sátira funciona como crítica fe­
roz de toda veleidade de ação isolada ou autônoma, classificada como paixão
próxima do pecado mortal, como a ação dos comerciantes usurários, brichotes
estrangeiros e mazombos baianos, que elevam artificialmente os preços dos
gêneros básicos, como a farinha, o azeite, o vinho, o bacalhau, levando a po­
pulação à ruína e à fome que desestabilizam a concórdia e a paz do corpo
político e que atingem, por isso mesmo, a cabeça desse corpo. Tais pessoas e
ordens não têm como fim de sua ação a paz da República, mas a satisfação de
seus próprios apetites175. Sua ação individual é tirânica. A sátira assume, por
isso, função de integração política quando, advertindo contra a tirania, lem­
bra a prescrição da harmonia de todas as partes da República. O tema da
tirania, significando genericamente os apetites individuais, particulariza-se
politicamente, em chave aristotélica, quando encenado na crítica aos gover­
nadores Sousa de Meneses e Câmara Coutinho:

na literária quando, estilizada por Ronsard e admiravelmente incorporada por Montaignc aos
Ensaios, passa a metaforizar a “idade do ouro” virgiliana, dando origem ao mito do “bom selva­
gem”.
173. Q. Skinner, op. cil., p. 169.
174. Idem, p. 182.
175. Este é o teor das críticas, por exemplo, aos comerciantes da Junta do Comércio, aos magistrados do
Tribunal da Relação, aos governadores e à Câmara.

275
A SÁTI RA n 0 E N G E N H O

O bem, que os mais bens encerra,


e as glórias iodas contém,
c reinar, quem reina bem,
pois figura a Deus na terra:
eu cuido, que o mundo erra
nesta alta reputação,
que se o Rei erra uma ação
paga a seu alto atributo
um tristíssimo tributo,
e misérrima pensão.
O Príncipe soberano,
bom cristão temente a Deus,
se o não socorrem os céus,
pensões paga ao ser humano:
está sujeito ao tirano,
que adulando ambicioso
c áspide venenoso,
que achacando-lhe os sentidos,
turbado o deixa de ouvidos,
de olhos o deixa ludoso176.
(OC, I, p. 202.)

Vários motivos das teorias jurídicas dos padres contra-reformistas con­


correm neste trecho de sátira contra o governador Antônio Luís Gonçalves da
Câmara Coutinho - entre eles, o do providencialismo, o da divisão da pessoa
real em duas pessoas, o da soberania do poder real, o do povo vítima de um
erro pessoal do Príncipe e, ainda, o da sua murmuração justa contra um desa­
certo que o faz sofrer:

Sc fosse El-Rei informado,


de quem o Tucano era,
nunca à Bahia viera
governar um povo honrado:
mas foi El-Rei enganado,
c eu com o povo o paguci,
que é já costume, e já lei

176. Cf. também as décimas cuja didascália diz: “Na era de 16S6 quimeriavam os sebastianistas a vinda
do Encoberto por um cometa que apareceu. O poeta pretende em vão desvanecc-los traduzindo um
discurso do Pe. Antônio Vieira que se aplica a El Rei D. Pedro II”. Os versos finais são, aliás: “que
em prosa o compôs Vieira, / traduziu cm versos Matos” (OC, V, pp. 1207-1211).

276
A P R O P O R Ç Ã O DO . MONSTRO

dos reinos sem intervalo,


que pague o triste vassalo
os desacertos de um Rei.
(OC, I, p. 202.)

Não considerar tais pressupostos jurídicos leva, geralmente, a interpre­


tar a crítica da sátira como oposição nativista aos poderes constituídos ou
como ação de uma consciência liberal progressista ou possível contra os pri­
vilégios; ou ainda, como no caso dos versos “eu cuido, que o mundo erra /
nesta alta reputação”, contrapostos ortodoxamente à teoria luterana do direi­
to divino dos reis, a interpretá-la como oposição libertina, atéia, herética ou
libertária. O que ocorre, porém, é que a sátira está perfeitamente integrada à
ortodoxia teológico-política de sua época, podendo-se afirmar que o trecho
acima é uma glosa da doutrina. Para mostrá-lo, é preciso inicialmente
relativizar a noção de “direito divino” que, aplicada indistintamente ao sécu­
lo XVII ibérico, transpõe para ele formulações talvez válidas na França de
Luís XIV ou na Inglaterra de Jaime I, mas não em Portugal, onde a ação con-
tra-reformista dos jesuítas e dominicanos está intensificada no mesmo sécu­
lo177. Não fazê-lo implica, como já se escreveu, postular um Gregório de Ma­
tos subversivo e profético da crise do sistema colonial, crítico da mesma
monarquia em função de um desejo de liberação atual de seu intérprete.
Lutero, seguido de Melanchton e outros protestantes, afirma que, devido
à Queda, a natureza humana corrompida não é capaz de entender a vontade do
verus Deus Absconditus e, desta forma, não é capaz de produzir um reflexo da
justiça divina na ordenação da vida. A conclusão lógica é a de que os poderes
que existem - e que devem necessariamente existir - foram diretamente orde­
nados por Deus aos homens para remediar a insuficiência moral da natureza
humana corrompida. Os defensores da rngione di stato, identificados em Portu­

177. Cf. L. Cabral dc Aloncada, “Restauração do Pensamento Político Português”, em Estudos de Histó­
ria do Direito, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1948, vol. I, pp. 189-226. A Restauração dc
1640 opõe a tese contra-reformista do “tirano” contra Castela, no sentido com que Suárez a teoriza
quando trata da transferência do poder do povo para o rei. A doutrina de Suárez faz clara distinção
entre o rei e o tirano, garantindo ao povo o direito de resistência contra a opressão injusta. Veja-se
o assento das Cortes gerais de 1641, que recebem o duque de Bragança como rei legítimo de Portu­
gal: “Porquanto, conforme às regras do Direito natural c humano, ainda que os reinos transferis­
sem nos reis todo o seu poder e império para os governarem, foi isso debaixo de uma tácita condi­
ção de o regerem e mandarem com justiça e sem tirania, e tanto que no modo de governarem e
usarem deles podem os povos privá-los dos reinos em sua legítima e natural defensão, e nunca
nestes casos foram vistos obrigarem-se, nem o vínculo do juramento estender-se a eles” (pp. 216-
217).

277
A SÁTI RA H 0 E N G E N H O

gal como maquiavélicos, não pressupõem a natureza humana como dada pela
Queda original, irremediavelmente corrompida, segundo os protestantes,
perfectível, segundo os católicos, mas propõem o poder político como virtude
da ocasião. Em outros termos, Lutero e Maquiavel coincidem, segundo os ju­
ristas contra-reformistas, porque ambos rejeitam a lei natural como base mo­
ral apropriada para a vida política. Sua crítica a eles visa a provar que é falsa a
assunção maquiavélica de que o objetivo do Príncipe é a conservação de seu
Estado e de que, para tal fim, deve usar de todos os meios, bons e maus, justos
e injustos, que possam assisti-lo178. Contra a “hipocrisia” maquiavélica, que
prescreve que o Príncipe seja a raposa e o leão, afirmam que a “honestidade”
católica é o maior poder para manter a paz e a felicidade políticas179180:o Prínci­
pe deve ser, como no discurso da sátira, “bom cristão temente a Deus”, “socor­
rido pelos céus”. Contra a heresia luterana, cuja implicação política é a afir­
mação de que o Príncipe governa pela vontade divina para impor a lei e a ordem
à natureza humana corrompida, os contra-reformistas retrucam com a doutri­
na da “graça inata”, pela qual os homens, certamente pecadores, são aptos não
obstante para apreender a lei natural inscrita em suas almas pela vontade e
inteligência divinas. Ao sublinhá-lo, o principal fim dos padres, como demons­
tra Skinner, é o de repudiar a tese herética de que o estabelecimento da socie­
dade política é diretamente ordenado por Deus e, portanto, de que o Rei é in­
falível. Ao fazê-lo, reforçam a autoridade papal quando, por exemplo,
repudiam como herética a tese de Marsilio de Pádua de que todo poder coerci­
tivo deve ser, por definição, secular. Vitoria, exemplifica Skinner, ataca aque­
les que “[...] isentam os governantes seculares da jurisdição da Igreja num tal
grau que quase nada é deixado ao poder eclesiástico, e mesmo as causas espiri­
tuais são remetidas a cortes civis e decididas lá”lso.
Assim, desde que “[...] príncipes seculares são ignorantes da relação en­
tre matérias espirituais e temporais, não podem ocupar-se da consideração
de causas espirituais”181. Em outros termos, se o Papa não tem nenhum poder
direto de controlar os negócios seculares, tem poderes indiretos, muito exten­
sos. Como Vigário de Cristo ou Vice-Cristo, tem a extensão de seu poder limi­
tada pelo modelo de Cristo. Criticando Lutero e reforçando os poderes do
Papa, os juristas contra-reformistas demonstram a necessidade de criar a so­
ciedade política para afirmar que é realmente um erro postular que ela é um

178. A crítica é de Ribadeneyra e é citada por Q. Skinner, op. dl., p. 143.


179. A "honestidade” é proposta por Suárez, cit. por Q. Skinner, op. cil., p. 175.
180. Idem, p. 179.
181. Idem, ibidem.

278
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

dom de Deus e não uma convenção meramente humana182. A questão do con­


trato origina] entre população e Príncipe torna-se, assim, fundamental para
os juristas da Contra-Reforma. E ela que está encenada na sátira, confirman­
do a solução dos padres.
Quentin Skinner evidencia que, segundo Bártolo e Ockham, todo o po­
der conferido a um governante no momento da instituição de uma sociedade
política foi-lhe conferido pelo povo. Este nunca confere ao governante pode­
res maiores do que o que ele mesmo, povo, possui. Assim, ao transferir seus
direitos para o Príncipe, este se torna uma espécie de reitor ou ministro da
comunidade183184.Contra tal teoria, os contra-reformistas opõem a da transfe­
rência do poder como alienação - com ela, justificam a monarquia absoluta e
a legalidade das instituições monárquicas com restrições, como a do direito
de desobediência do súdito, se o contrato, baseado na lei natural, deixar de
segui-la. Ao mesmo tempo, pela teoria do contrato, demonstram o erro das
teses luteranas, segundo as quais o poder monárquico é diretamente ordena­
do pela justiça divina.
O poder político pertence a priori eperius naiurale (“por direito natural”)
ao povo como tal, isto é, ao povo constituído como estado de natureza prévio
ao momento da transferência do poder. O estado de natureza não é, segundo
Suárez, uma comunidade qualquer de indivíduos, mas “um único corpo mís­
tico” no qual todos os membros reconhecem as mesmas obrigações e “do pon­
to de vista moral são um único todo unificado” - em outros termos, têm uma
única vontade unificada18'1. O estado de natureza (status naturae) corresponde
à situação em que se encontraram todos os homens depois da Queda antes da
criação das sociedades políticas. Neste estado, todos eram livres e sem leis
positivas. A ausência da lei positiva não significava ausência de lei, contudo,
pois existia a lei natural. Os contra-reformistas, como Molina e Suárez, expli­
cam que o homem escolheu perder a liberdade do estado de natureza, para
transformar-se em animal político, submetendo-se ao poder de outros por­
que sua vida seria marcada pela injustiça crescente se não o fizesse: a mancha
do pecado original levaria à “total confusão”. Por isso, a passagem do estado
de natureza para a sociedade política consiste na constituição da lei positiva
que impõe a lei natural, numa mescla muito contra-reformista, que no século
XVII luso-brasileiro é fundamental, de política e moral. Segundo Suárez, a

182. Suárez o demonstra, como se viu, pela doutrina da alienaçao do poder.


183. Idem, p. 181.
184. Idem, p. 165. Repete-se aqui, com ampliação, o que se escreveu no capítulo II quando se tratou da
hierarquia.

2 79
A SÁTI RA E O E N G E N H O

soberania do príncipe é recebida, hic et nunc: sua autoridade pressupõe o povo


corporificado e a vontade popular como mediação essencial do poder". Em
outros termos, fundamentais contra os luteranos, a autoridade política e sem­
pre instituída de iure humano (“por direito humano”). Assim, Suárez escreve
que é certamente permitido afirmar que todo poder provém de Deus, mas não
que Deus confere imediata eformalmente um poder ao soberano. Deus é, escolasti-
camente, causa próxima et universalis, causa próxima e universal, mas não cau­
sa próxima e imediata (“causapróxima, seu voluntate conferem talem potestatem”)
quando confere tal poder ao monarca185186187. O mesmo Suárez, ainda, teoriza o
absolutismo: “Tal transferência de poder da república para o príncipe não é
delegação mas quase alienação, ou um perfeito abandono do poder que estava
na comunidade”1", A transferência do poder é tão próxima da total alienação
- quasi alienado que se deixa interpretar analogicamente segundo o modelo
jurídico da escravidão:

[...1 assim quando um homem particular se vende e sc entrega a outro como escravo,
este dominiuin é puramente e simplesmente instituído pelo homem. Com efeito, estan­
do suposto este contrato, o escravo é obrigado, por direito divino como por direito
natural, a obedecer a seu mestre. Da mesma forma, o poder (potestas), tendo sido trans­
ferido ao rei, este é feito por ele superior ao reino que o deu a ele, porque, dando-se a

185. Em 1614, livros de Suárez são queimados na França. Cf. Richelieu,Mémoires, année 1614: “Environ
ce temps, le Parlement fit brüler, par la main du bourreau, un livre de Suárez, jésuite, intitulé La
defere:: de la fui catholique, apostoliqui^tontre les eirewm.de la secle d'Angleterre comme enseignani qu'il
ctoit loisible aux sujets et aux étrangers d’attcnter à la personne des souverains”. Cf. Joel Cornctte,
“L’État baroque dans la France du premier XVIPSièdc: une approche par la chronologie”, em
Henry Méchoulan (org.), op. cit., p. 463 (Années 1614-1615).
186. Cit. por Jcan-François Courtine, “ilhéritage...”, em Henry Méchoulan (org.), op. cit., p. 98.
187. Suárez, De legibus, V, 4,11, cit. porJean-François Courtine, “Ehéritage...”, em Henry Méchoulan (org.),
op. cit., p. 99. Como muito bem demonstra Courtine em seu estudo excelente, não há possibilidade de
tratar uniformemente as doutrinas do direito divino dos reis - por exemplo, na França, Jurieu propõe
a necessidade de um pacto mútuo entre o povo e o soberano, assim como Bossuet, por exemplo,
certamente sc alinharia com Jaime I, contra Suárez, segundo seu galicanismo explicitado no 1“ artigo
da declaração de 1682 que, entre outras coisas, diz: "Celui donc qui s’oppose aux puissances résiste à
1’ordre de Dieu. Nous déclarons en conséquence que les Rois et les Souverains ne sont soumiss dans
les choses temporelles à aucune puissance cclésiastique par 1'ordre de Dieu; qifils ne peuvent ètre
déposés directement ni indirectement par 1’autorité des chefs de 1’Église; que leurs sujets nc peuvent,
au nom de cette même autorité, être dispenses de la soumission et de 1’obéissance qu’ils leur doivent,
ou absous du serment de fidélité; et que cette doctrine, nécessaire pour la tranquillité publique, et non
moins avantageuse à 1’Eglise qu’à l’État, doil être inviolablement gardée comme conforme à la parole
de Dieu, à la tradition des saints Pères et aux exemples des saints”. Cit. por Joel Cornette, “I) Etat
baroque...”, em Henry Méchoulan (org),op. cit., p. 115.

280
A P R O P O R Ç Ã O DO M O N S T R O

cle, o reino se submeteu como súdito (sc subjecil) c privou-se da liberdade anterior,
como se conclui, guardadas as proporções, do exemplo da escravidão1**.

Ao teorizar o poder monárquico como transferencia de poder da popula­


ção para o Príncipe, os juristas contra-reformistas, principalmente Suárez,
repudiam também duas interpretações políticas tradicionais na Europa cris­
tã. Demonstra Skinner que a primeira é a tese dos canonistas, pela qual o
poder político é divinamente conferido a um príncipe particular, devendo
sempre continuar em uma pessoa particular por um processo de sucessão
hereditária. Segundo Suárez, tal tese esquece que “[...] é essencial que o pri­
meiro detentor deva ter derivado seu poder supremo imediatamente da co­
munidade; de modo que seus sucessores, menos diretamente mas ainda fun­
damentalmente, devem ainda derivar seu poder da mesma origem”189. A
implicação da postura contra-reformista é a de que um direito de sucessão
não pode ser de fato a fonte básica do poder de um príncipe, reforçando-se
ainda uma vez a tese da transferência do poder da comunidade para o gover­
nante. A outra tese é a dos imperialistas, pela qual há um príncipe particular
com domínio temporal através de todo o mundo. Baseado em sua teoria da
transferência do poder, Suárez escreve que isto é uma “impossibilidade mo­
ral”, pois a condição para existir tal poder é a de tê-lo recebido dos homens e
“[...] nunca aconteceu que homens tenham alguma vez consentido cm confe­
rir tal poder ou em instituir tal única cabeça sobre eles mesmos”. A implica­
ção da tese de Suárez é a de que, mesmo se existisse, um Império universal
seria ilegítimo. Central em todas as críticas e retificações dos contra-refor­
mistas é, assim, a doutrina da transferência do poder como alienação.
Se a comunidade transfere o poder para constituir uma sociedade políti­
ca, cria o poder do Imperium acima dela - o poder do Rei - de fazer leis e
manejar a espada da justiça: “que o mau na própria cabeça / traga a justiça
aprendida” (OC, I, p. 205), como recita a sátira. Em outros termos, o momen­
to da constituição da sociedade política é também o da constituição do poder
“pela força da razão natural”190. Skinner demonstra que, segundo a interpre­
tação tradicional de bartolistas e ockhamistas do poder como delegação, a
comunidade pode obrigar o governante a cumprir as leis positivas. Proposta a
teoria da transferência - quasi ahcnatio - do poder, os contra-reformistas de-18

1S8. Suárez, De legibus, III-IV, 6, cit. por Jean-François Courtine, “Uhéritage...", em Henry Méchoulan
(org.), o/i, cit., p. 115.
189. Cf. Q. Skinner, op. cit., vol. II, p. 164.
190. Idetn, p. 181.

2S1
A SÁTI RA E O E N G E N H O

monstram a impossibilidade lógica de tais exigências populares: desde que o


Príncipe não tem superior, como escreve Suárez, não há ninguém que possa
obrigá-lo a nada - mesmo que se afirme que, “em consciência”, ele deveria
seguir as leis que promulga. O Príncipe é legibussolutus, livre do poder coerci­
tivo e das leis positivas. O que deve fazer, como “bom cristão temente a Deus”,
é seguir a lei natural para que sua ação seja legítima. Por isso mesmo, “[...] se
um reino surgir baseado em meios injustos, o governante não possui nenhu­
ma autoridade legislativa legítima”191. Ou ainda, como escreve Bellarmino,
“[...]uma lei civil justa é sempre uma conclusão da divina lei moral”19-. Por
isso, ainda, a interpretação do poder real como transferência é dirigida contra
Lutero: segundo Suárez, ao afirmar o direito, em certas circunstâncias, de
desobedecer às ordens emanadas de um governante legítimo, a heresia luterana
está com efeito afirmando que é possível desobedecer à lei natural. Ora, qual­
quer um que se desvie da lei, natural ou positiva, divina ou humana, deve, em
qualquer caso, estar pecando contra a eterna lei de Deus, como escreve Bel­
larmino193194.A posição luterana torna-se, assim, não apenas erro, mas blasfê­
mia. Observe-se, aqui, uma das razões doutrinais da intensa sacralização do
poder político pelas artes e letras no século XVII: desde que a lei natural é
também a vontade de Deus, os preceitos e as proibições das leis positivas
divinas da Bíblia não podem diferir dos preceitos da lei natural, estando con­
tidos neO. Por isso, qualquer código legal genuíno ou legítimo deve incluir
todos os preceitos e proibições feitos por Deus no Decálogom .
A potência do Príncipe é absoluta porque se constitui, formalmente, da
inteira submissão dos súditos. O que define a soberania é a sujeição completa
dos súditos, que - sendo legítimo o Princípe - abrem mão de todos os direitos
para em troca receber os “privilégios”, temporários e sempre revogáveis pela
vontade soberana do Rei195: “que o cair é dos validos”, como diz a sátira, nas
décimas em que se censura o Conde de Ericeira, Dom Luís de Meneses, que
se suicidou atirando-se de uma janela:

191. Idem, p. 163.


192. Idem,p. 167.
193. Idem, p. 168.
194. Idem, p. 150.
195. Como escreve Bodin: “Quando o chefe de família sai de sua casa onde comanda para tratar e
negociar com os outros chefes de família aquilo que lhes toca a todos em geral, então ele se despoja
do título de mestre, de chefe, de senhor, para ser companheiro, par e associado dos outros; deixan­
do sua família para entrar na Cidade, e os negócios domésticos para tratar dos negócios públicos:
em vez de senhor ele se chama cidadão”. Cf. Jean-François Courtine, “IJhéritage...”, cm Henry
Mcchoulan (org.),op. cil., p. 105. Bodin também escreve que: “C’est la reconnaissance et obéissance
du franc sujet envers son Princc souverain, et la tuition, justice et défense du Prince envcrs le sujet,
qui fait le citoyen” (idem, p. 117).

282
A PROPORÇ Ã O DO M ON ST RO

T in h a o C o n d e d e m orrer;
to d o o m o rta l n isto pára,
e se e le se n ã o m a ta ra ,
c o m o q u e m l h o h a v i a d e fa z e r ?
f e z b e m o C o n d e a m e u ver,
q u a n d o ao ja r d im se arrojou,
e en tre as flo res ex p iro u :
v e n t o é a v i d a e m r ig o r ,
e c o m o o C o n d e e r a flor,
en tre as flores acabou.
Se ign orou algu n s sen tid os,
p o r q u e t a n to m a l se u r d iu ,
era v a lid o , e c a iu ,
q u e o ca ir é d o s valid os:
tão certos são, e sa b id o s
n o m o n t e , n o lar, n a p r a ç a
estes rev eses da graça,
q u e é já d o s P a l á c i o s l e i ,
q u e q u e m d a g r a ç a d ’E l - R e i
cai, cai da su a d esg ra ça .

( O C , I, p p . 1 4 3 - 1 4 4 . )

A sátira seiscentista encena esse ponto de igualdade formal de todos na


submissão da transferência do poder, pela qual os membros do corpo político
são cidadãos e, portanto, súditos. Neste mesmo sentido, a igualdade simbóli­
ca da submissão homogênea de todos pelo contrato é a desigualdade real dos
privilégios de alguns, segundo a vontade soberana, que escalona os súditos
em ordens, hierarquicamente, e que ao mesmo tempo os guia como cabeça do
corpo político. Dificuldade, aqui, do conceito de propriedade privada: segun­
do a doutrina escolástica tradicional, o direito à propriedade é parte da lei
natural. Segundo os juristas contra-reformistas, se a lei das nações é apenas
lei positiva, o direito à propriedade deve ter sido estabelecido inicialmente
por uma autoridade também apenas humana. Portanto, o direito dos proprie­
tários poderia ser alterado e abolido a qualquer momento, sem ferir direta­
mente os princípios da lei natural. A consequência é, obviamente, subversi­
va. Assim, os juristas alegam que o direito à propriedade deve ser um direito
natural, não um simples privilégio derivado da lei positiva196. Ou, como es­
creve Suárez, se a posse comunitária se opõe à particular e se isso pode ser

196. Q. Skinner, op. cit., p. 153.

283
A S Á T IR A E O E N G E N H O

uma injunção da lei natural, é, contudo, apenas uma injunção negativa, ser­
vindo para lembrar que “[...] toda propriedade deveria ser possuída em co­
mum pela força desta lei se não tivesse ocorrido que os homens decidissem
introduzir um sistema diferente”197. Em outros termos, a lei natural pode
ser avocada tanto para sancionar a continuidade quanto a abolição da pro­
priedade comunitária e, assim, a decisão de dividir a propriedade é deixada
para a decisão da lei positiva, mas de tal forma que a decisão de instituir a
própria divisão não é um mero aspecto da lei positiva. Interpretando a con­
cessão do “privilégio”, tal doutrina implica que o privilégio é uma lei posi­
tiva que pode ser revogada a qualquer momento, segundo o casuísmo das
interpretações, mas que, ao concedê-lo ou retirá-lo, o Rei se pauta pela lei
natural.
A sátira desenvolve como um de seus temas principais essa desigualdade
de direito para ratificá-la como harmonia preestabelecida e criticar atos que
publicamente a desestabilizam quando infringem os deveres de cada or­
dem: não se critica, portanto, o privilégio, mas os efeitos de seu excesso ou de sua
carência. Tanto o excesso quanto a falta ameaçam a concórdia do bem co­
mum, desordenando a harmonia das partes do corpo político. Segundo a
sátira, a desigualdade é natural, pois adaptada ao fim superior da paz social.
As ordens sociais, assim como cada indivíduo, devem contentar-se com o
que são e com o que fazem, em função do bem comum. Em outros termos, a
virtude moral é sempre virtude política, porque é a vontade real que, sendo
legítima, expressa nas leis positivas aquilo que é lícito ou ilícito conforme a
lei natural. Como o Papa, cujaplenitudopotestatis decorre de ser o Vigário de
Cristo: contestá-lo é sacrilégio, tanto quanto ousar restringir a potência
de Deus198.
Assim como o Papa se quer Vicarius Christi, os reis do século XVII afir­
mam-se vigários de Deus: são deuses199, observando-se que a doutrina contra-
reformista não se opõe ao absolutismo, mas o retifica para introduzir a ques­

197. Idem , pp. 153-154.


198. Declaração de Urbano VI: “omitia possum el ita voto".
199. Cf. Bossuet: “Vous êtes des dieux... Mais ôdieuxdechairetde sang, ô dieuxde terreet de poussière,
vous mourez comme des hommes. N’importe, vous êtes des dieux, encore que vous mourriez, et
votre autorité ne meurt pas; cet esprit de royauté passe tout entier à vos successeurs [...] Uhomme
meurt, il est vrai, mais le roi, disons-nous, ne meurt jamais: l’image de dieu est immortelle” (2 de
abril de 1662), cit. por Jean-François Courtine, “Chéritage. .”, em Henry Méchoulan (org.),<t/>. cil.,
p. 111. C f ainda trecho de carta dejaim e I,dc Inglaterra, a seu filho: “É-vos preciso acima de toda?
as coisas aprender a conhecer e a amar a Deus a quem deveis dupla obrigação: primeiramente por
vos haver feito homem e em seguida porque fez de vós um pequeno deus para sentar-se sobre seu
trono e reinar sobre os outros homens” (idem, p. 107).

284
A PR OPORÇ ÃO DO M ON ST RO

tão do contrato, como transferência do poder, e, legitimando o poder real,


propô-lo como expressão da lei natural - em outros termos, como metáfora
expressiva do divino, quando legítimo o contrato. Virtude, honra e glória são
os corolários dessa doutrina que, desde o século XVI, foi sendo minada pelo
maquiavelismo e, mais tarde, pela teoria de Hobbes sobre a universalidade
do auto-interesse na condução da coisa pública2'10. Passando ao largo dessas
criticas, a sátira seiscentista postula virtude, honra e glória em termos de sua
concepção tradicional e providencialista.
Skinner demonstra que a tradição humanista produz duas concepções
principais sobre a virtú ética e política. Por uma delas, a virtude é uma qua­
lidade que capacita o governante a atingir seus fins mais nobres. A outra,
complementar, afirma que a posse da virtú pode ser equiparada à posse de
todas as virtudes maiores20201. Segundo a renovação escolástica, se um prín­
cipe deseja manter seu Estado e alcançar a honra, a fama e a glória, deve
acima de tudo cultivar o elenco completo das virtudes cristãs, donde a pro­
liferação, nos séculos XVI e XVII, dos textos que recuperam o estoicismo -
Marco Aurélio, Sêneca - fundindo-o com os exempla da tradição patrística
e medieval.
Maquiavel propõe que o alvo do Príncipe é, efetivamente, a honra, a glória e
a fama, rejeitando a crença cristã dominante de que o meio seguro para alcançá-
las ou mantê-las é um meio virtuoso. Para agir sempre virtuosanrente, não se
deve ser virtuoso o tempo todo. Nada mais importante que manter as aparências
porque “[...] o golfo existente entre o como se deveria viver e o como se vive é tão
largo que um homem que negligencia o que realmente é feito pelo que deveria
ser feito aprende o caminho da autodestruição antes que o da autopreservação”202.
Numa política maquiavélica, ainda, a sátira - como variedade da murmuração -
poderia, até certo limite, ser perfeitamente tolerada e mesmo incentivada pelo
Príncipe, pois manteria em evidência sua pessoa, evidenciando também sua
magnanimidade... Assim, a crítica às virtudes tradicionais203propõe que o Prín­
cipe deve ver que é essencial, positivamente vantajoso, agir contrariamente à
boa fé, à caridade, à bondade, à religião. Inversão divertida: há imensa utili­
dade política nos vícios que os leais conselheiros, galateos e espelhos de prín­
cipes, oráculos manuais e artes de prudência, comuníssimos nos séculos XVI
e XVII, descrevem e propõem sejam evitados: a avareza, a fraude, a mentira, a

200. Q. Skinner, op. cil., p. 101.


201. Idem, p. 131.
202. N. Maquiavel, The Prince, Harmondsvvorth, 1961, p. 91, cit. por Q. Skinner, op. cil., p. 133.
203. A crítica se faz, principalmcnte, em “ 16 - De liberalilate ei parsimonia ’, “ 17 - De crudelilaie ei piciaie”
e “ 18 - Quomodo fides a principibus sil scrvanda". Cf. N. Maquiavel, The Prince, op. cil.

285
A SÁTI RA E 0 E N G E N H O

crueldade são virtudes básicas para governar. Não se trata, como propõe
Skinner, de uma diferença entre uma visão moral da política e uma visão da
política divorciada da moralidade, pois o contraste essencial é antes entre
duas moralidades políticas diferentes e inimigas204. Não seria preciso tal­
vez lembrá-lo, mas a política dos reis católicos ibéricos realiza, muitas
vezes, a virtú maquiavélica de maneira exemplar: citem-se, como exem­
plo, a ação de Filipe II nos Países Baixos e, ainda, o episódio da anulação
do casamento de Dom Afonso VI e Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia,
e o casamento desta com o príncipe Dom Pedro, irmão do Rei, em 28 de
março de 1668205.
É útil lembrar, ainda, que a reativação da escolástica aplica um esquema
tipológico à figura do Rei: assim como Cristo é, em sua humanidade, instru­
mento da divindade (insvrumentum divinitatis), também o Rei é proposto dupla­
mente, como sendo o que é por aquilo que está nele mesmo e além dele mesmo.
Tem duas pessoas: persona personalis, mortal, tpersona idealis (mystica,ficta).
Os dois corpos do Rei permitem, entre outras coisas, afirmar a perpetuidade
do poder e seu absoluto: para além da sucessão temporal dos reis, mortais e
falíveis, a potência pública permanece imutável em sua identidade sagrada206.
A dupla pessoa aplica-se à esfera do poder político: este é ordinário, conforme
se trate do direito privado, quando se tem em vista o interesse particular dos
súditos, e absoluto, quando se exerce em vista do bem comum e se determina
cm função da razão de Estado.
Os vários topoi teológicos encontráveis na sátira e em outros discursos do
século XVII, como os da oratória sacra, têm assim, antes de serem mera orna­
mentação de uma retórica do poder “voltando”, como se costuma dizer, à
Idade Média, uma função determinante na elaboração e confirmação do con­
ceito moderno de poder soberano absoluto. Gregório dc Matos e Guerra está
na doutrina teológico-política e seus topoi que perpassam a obra de autores
como Lope de Vega, Quevedo, Saavedra Fajardo, Gracián, Calderón de la
Barca, Vieira, Bossuet. Por vezes opondo a soberania do Estado e a Santa Sé,
por vezes aproximando-os num misto indiscernível de razão de Estado e
providencialismo divino, prega-se a virtude do ideal ou o ideal da virtude. O

204. Q. Skinner, op. cit., p. 135.


205. Cf., por exemplo, Antonio Álvaro Dória, A Rainha Dona Maria Francisca de Sabóia (1646-
1683): Ensaio biográfico, Porto, Livraria Civilização, 1944; Carl A. Hanson, “Pedro, o Pacífi­
co”, em Economia e Sociedade no Portugal Barroco 1668-1703, Lisboa, Publicações Dom Quixote,
1986.
206. Cf. Baldo, “Dignilas (Majestas) regia nunquam moritur”, cit, por Jean-François Courtine, “Lhéritage...”,
em Henry Méchoulan (org.), op. cit., p. 102.

286
A P RO P O RÇ Ã O DO M ON ST RO

amor de Deus, a justiça, a verdade, a concórdia e a paz permitem, teorica­


mente, a honra a Deus, a dignidade honrosa, a prosperidade material, a tran-
qüilidade da alma e os bons exemplos, tópicas freqüentes nas letras seiscentis-
tas parenéticas e elegíacas. Contudo, a mesma dignidade contém os germes
do orgulho desmedido; a prosperidade material, os da cobiça e da fatuidade;
a tranqüilidade da alma propicia ocasião para maquinações contra o Estado;
e mesmo o bom exemplo pode vir a ser arte do demônio, como glorificação
maligna. Equilíbrio sempre instável na desordem dinâmica de tudo, inter­
vém a prudência, que afirma que toda iniciativa pessoal deve submeter-se à
legalidade instituída para ser legitima.
Um epitáfio composto para o Marquês de Marialva é bastante significati­
vo dessa unidade de integração visada pela sátira e que é dominante no sécu­
lo XVII ibérico:

E m tr ê s p a r t e s e n t e r r a d o
está o c o r p o d o M a r q u ê s
d e M arialva: p o r q u e em d ez
m íl seu n o m e é ven erad o:
e foi d e s t in o a c e r ta d o ,
que em tanta parte estivesse,
para q u e o m u n d o s o u b e s se ,
que este v a lero so M arte
m o rto assiste e m q u a lq u e r parte,
c o m o se a i n d a v i v e s s e .

(OC, I, p. 15 0 .)

O mesmo topos “todo/parte” aqui é desenvolvido: as partes de Marialva,


enterradas cm lugares diferentes, alegorizam a mesma unidade do corpo po­
lítico do Estado, da qual ele, como fidalgo, foi exemplar: nele a honra, a glória
e a fama, sintetizadas no epíteto “valeroso Marte”.
Assim, a exemplo do que ocorre com a Bíblia católica, não se admite o
livre exame: também em política por parte dos súditos, mas uma concordada
consonância, obediência e repetição de padrões estabelecidos*7. Entre outros207

207. Cl. D. Saavedra l-ajardo, op. cit., vol. I, Empresa XXVII: “Quando o povo começar a opinar cm
religião: e quiser introduzir novidades nela é preciso aplicar logo o castigo, e arrancar pela raiz a
má semente ames que cresça e se multiplique”. Lembre-se ainda que, no século XVI