Você está na página 1de 362

AS CINCO LEIS DA BIBLIOTECONOMIA

Reproduzido com a gentil permissão do Sr. C. Seshachalam, de Curzon & Co., Madras. Copyright: Curzon & Co.
S.R. Ranganathan

As Cinco Leis da
Biblioteconomia

Tradução de Tarcisio Zandonade


© Sarada Ranganathan Endowment for Library Science. 1963

Esta tradução: © 2009 by Lemos Informação e Comunicação Ltda.

Do original inglês: The five laws of library science (2. ed. 1963)

Primeira edição original: 1931


Segunda edição: 1957
Reimpressão (com pequenas correções: 1963)

Todos os direitos reservados. De acordo com a lei n° 9610, de 19/2/1998, nenhuma parte
deste livro pode ser fotocopiada, gravada, reproduzida ou armazenada num sistema de
recuperação de informação ou transmitida sob qualquer forma ou por qualquer meio
eletrônico ou mecânico sem o prévio consentimento dos autores e do editor.

Este livro obedece ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990

Capa: Formatos Design Gráfico Ltda.

Revisão e notas: Antonio Agenor Briquet de Lemos e


Maria Lucia Vilar de Lemos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)


Cãmara Brasileira do Livro, sp, Brasil

Ranganathan, S. R., 1892-1972.


As cinco leis da biblioteconomia / S.R. Ranganathan ; tradução de Tarcisio
Zandonade. – Brasília, df : Briquet de Lemos / Livros, 2009.

Título original: The five laws of library science.


Bibliografia.
isbn 978-85-85637-38-5

1. Biblioteconomia I. Título.

09-06911 cdd 020

Índices para catálogo sistemático:


1. Biblioteconomia 020

2009

Briquet de Lemos / Livros


srts - Quadra 701 - Bloco o - Loja 7
Edifício Centro Multiempresarial
Brasília, df 70340-000
Telefones (61) 3322 9806 / 3323 1725
www.briquetdelemos.com.br
editora@bríquetdelernos.com.br
À

Querida Memória

de

Srimati RUKMINI
SUMÁRIO

Apresentação desta edição xi


Prefácio de sir P.S. Sivaswamy Aiyer xix
Introdução do Sr. W. C. Berwick Sayers xxi

0 Gênese 1
01 Ingresso na profissão de bibliotecário 1
02 Primeira experiência 1
03 Tendências bibliotecárias 1
04 Método científico 2
05 Enunciado 2
06 Divulgação 3
07 Publicação 4
08 Consequências 5
1 A Primeira Lei 6
11 Princípio fundamental 6
12 Negligência da lei 6
13 Localização da biblioteca 10
14 Horário da biblioteca 15
15 Mobiliário da biblioteca 19
16 Um diálogo 20
17 Pessoal da biblioteca 25
18 Não se enamore dos frutos 49
2 A Segunda Lei e sua luta 50
20 Introdução 50
21 As classes e as massas 51
22 Homens e mulheres 59
23 Os moradores das cidades e os moradores do campo 67
24 O normal e o excepcional 81
25 O coral da biblioteca 86
26 A terra e o mar 87
27 O adulto e a criança 90
28 Democracia ilimitada 92
3 A Segunda Lei e sua digvijaya 94
30 Abrangência 94

vii
viii as cinco leis da biblioteconomia

31 Américas 94
32 África do Sul 105
33 Europa oriental 108
34 Escandinávia 118
35 Europa ocidental 123
36 Oceano Pacífico 130
37 Ásia 131
38 Índia 134
4 A Segunda Lei e suas implicações 138
40 Abrangência 138
41 Compromisso do Estado 138
42 Lei estadual de bibliotecas 152
43 Lei das bibliotecas da União 165
44 Sistema bibliotecário 173
45 Sistema de bibliotecas universitárias 176
46 Compromisso da autoridade responsável
pela biblioteca 177
47 Compromisso do pessoal da biblioteca 180
48 Compromisso do leitor 184
5 A Terceira Lei 189
50 Enunciado 189
51 Sistema de acesso livre 189
52 Arranjo nas estantes 192
53 Catálogo 194
54 Serviço de referência 197
55 Departamentos populares 198
56 Publicidade 199
57 Serviço de extensão 205
58 Seleção de livros 210
6 A Quarta Lei 211
60 Introdução 211
61 Sistema ‘fechado’ 212
62 Arranjo nas estantes 214
63 Sinalização do recinto das estantes 216
64 Entradas no catálogo 220
65 Bibliografia 225
66 Serviço de referência 228
67 Método de empréstimo 230
68 O tempo do pessoal 236
691 Catalogação centralizada 237
692 Localização da biblioteca 241
sumário ix

7 A Quinta Lei 241


70 Introdução 241
71 Crescimento de tamanho 241
72 Sala do catálogo 249
73 Sistema de classificação 251
74 Leitores e empréstimo de livros 254
75 Pessoal 258
76 Evolução 261
77 Princípio vital 263
8 O método científico, a biblioteconomia e o avanço
da digvijaya 264
80 O que é ciência? 264
81 O método científico 266
82 A Segunda Lei e novos tipos de livros e de práticas 276
83 A Terceira Lei e a documentação 278
84 A Quarta Lei e as novas práticas biblioteconômicas 281
85 A Quinta Lei e suas diversas implicações 283
86 Ramos da biblioteconomia 286
87 Ensino e pesquisa 289
88 A marcha da digvijaya 303

Apêndice 1: Especificações para um módulo de estante


feito de teca 314
Apêndice 2: Especifícação para uma mesa de periódicos
feita de teca 315

Bibliografia 317

Índice 326
Levar conhecimento a quem não o tem e ensinar a todos para
que possam discernir o que é certo! Nem mesmo partilhar
toda a Terra seria comparável a esta forma de serviço.
Manu

As cinco leis da biblioteconomia

Os livros são para usar


A cada leitor seu livro
A cada livro seu leitor
Poupe o tempo do leitor
A biblioteca é um organismo em crescimento

xi
APRESENTAÇÃO DESTA EDIÇÃO

Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892–1972) nasceu em Shiyali, no esta­


do de Madras, hoje Tamil Nadu, na Índia. Bibliotecário e pensador, sua
produção intelectual e seus feitos profissionais tornaram-no conhecido
como o ‘pai da biblioteconomia indiana’. Este livro foi editado pela pri­
meira vez em 1931. E por que, depois de tanto tempo, ainda se lê este
livro?
A resposta a esta pergunta é simples: porque os clássicos se leem sem­
pre. E o que faz desta obra um clássico? Por que, decorridos quase 80
anos, este quincálogo da biblioteconomia, reiterada e teimosamente re-
diviva, continua atraindo leitores e releitores? Outra pergunta, por que
publicar esta edição em português? O que tem ainda a nos dizer este
senhor mais do que centenário, que nasceu e viveu num país tão distante
do Brasil?
É razoável supor que este seja, no campo da biblioteconomia e ciên-
cia da informação, um dos livros que apresentam mais longa meia-vida,
maior número de citações e uma capacidade muito grande de estimular
novas ideias. Aliás, Berwick Sayers, no prefácio à primeira edição, ante-
via o destino dele: o de um ‘standard text-book’, standard aqui no sen-
tido de obra modelar, que, como todos os modelos, tendem a se tomar
clássicos. Clássico porque permanece atual, trazendo lições sempre úteis
mesmo quando a tecnologia da informação dá a impressão de os biblio-
tecários de hoje esta­rem muito à frente do mundo de Ranganathan. Clás-
sico porque no uni­verso brasileiro, tão distante da Índia, tanto historica
quanto culturalmente, suas palavras encontram ressonância e parecem
refletir a realidade de muitas de nossas bibliotecas e a visão de muitas de
nossas autoridades.
Os dois prefácios, de Aiyer e de Berwick Sayers, souberam logo re-
conhecer a qualidade excepcional do texto do bibliotecário indiano. Em
particular, a capacidade que teve Ranganathan, de forma simples e clara,
a partir da observação direta do mundo dos livros e das bibliotecas, de
cons­truir seus princípios, sua teoria, sua filosofia, sua epistemologia.
Sem em­pregar conceitos abstrusos, sem erigir construtos informes, sem
patinar na geleia mal digerida de ideias alheias, ele extraiu da realidade
circundante suas constatações e suas conclusões, que cada vez mais são
reconhecidas como uma das melhores contribuições para a formulação
de uma teoria da biblioteconomia. Erigiu assim, de forma exemplar, não

xiii
xiv as cinco leis da biblioteconomia

só um texto que, com a simplicidade de um manual de boas práticas


bibliotecárias, procurava estimular a criação de bibliotecas em seu país,
mas também, com argúcia e clareza de pensamento, dissecava essas
práticas em busca de sua razão de ser, de seus princípios, e argumentos
que as justificassem como técnicas e como necessidades sociais. Rana-
ganathan procura e consegue identificar o que se acha por trás de uma
sucessão de atos e rotinas sem sentido aparente, mas que se revestem de
grande significado para a produção e difusão da cultura.
Seu contato com a realidade das bibliotecas do Reino Unido levou-o
a procurar saber o que se passava em instituições semelhantes de outros
países. Isso serviu de quadro de referência no qual e com o qual contrastou
a situação das bibliotecas da Índia. Pioneiro, portanto, da biblioteconomia
comparada, buscou nesse processo elementos que fundamentassem sua ar-
gumentação, a qual também serve para ‘convencer as autoridades’, como
dizemos aqui, quanto à importância do livro, da biblioteca e da leitura.
Seu texto não tem o formalismo e a aridez de uma tese doutoral. Ele
não vacila em antropomorfizar as leis da biblioteconomia, em criar um
elenco de personagens exemplares (as diversas autoridades, os leitores
potenciais, cidadãos comuns, etc.) e colocá-las num espaço dramático,
numa feliz reunião da maiêutica socrática com o diálogo teatral, a que
não falta o apelo ao coro grego.
Encontram-se disponíveis na Rede inúmeras informações biográficas
sobre Ranganathan. Por exemplo: Gopinath, M.A. Ranganathan, Shiyali
Ramamrita. Encyclopedia of library and information science. 2nd ed., p. 2419-
2437, 2003. Disponível em: <http://www.informaworld.com/10.1081/e-
elis-120009006>. Acesso em: 15/5/2009). As referências que recomenda-
mos abaixo são relevantes para o estudo das cinco leis da biblioteconomia
e de sua repercussão em diversas vertentes da teoria e da prática.

Antonio Agenor Briquet de Lemos


editor

Recomendações de leitura

Allen, Ethan. Ranganathan’s third law and collection access at Norica: an assess-
ment. Joumal of Access Services, v. 4, n. 3/4, p. 57-69, 2006.
Atherton, Pauline A. Putting knowledge to work: an American view of Ranganathan’s
five laws of library science. Delhi: Vikas, 1973.
Beffa, Maria Lucia; Napoleone, Luciana Maria. Estruturando a informação para
um sistema virtual centrado no usuário: a avaliação do website do Serviço de
Biblioteca e Documentação da Faculdade de Direito da usp, Brasil. In: Fer-
reira, Sueli Mara Soares Pinto; Savard, Réjean. The virtual customer: a new
paradigm for improving customer relation in libraries and information services, p.
apresentação desta edição xv

49-71. Satellite Meeting, São Paulo, Brazil, August 18-20, 2004. (ifla Publica-
tions, 117)
Binkley, Peter. [As cinco leis da biblioteconomia em latim.] Libri utendi. Omni
libro lector. Omni lectori liber. Otium lectoris servandum. Floreat biblioteca. Dis-
ponível em: <http://www.wallandbinkley.com/quaedam/?s=ranganathan>.
Acesso em: 29/6/2009.
Byron, Suzanne. Preparing to teach in cyberspace: user education in real and
virtual libraries. Reference Librarian, n. 51/52, p. 241-247, 1995.
Campos, Maria Luiza de Almeida. As cinco leis da biblioteconomia e o exercício profis-
sional. Disponível em: <http://www.conexaorio.com/biti/mluiza/index.htm>.
Acesso em: 4/5/2009.
Cana, Mentor. Open source and Ranganathan’s five laws of library science. July
5, 2003. Disponível em: <http://www.kmentor.com/mtcgi/mt-search.cgi?sear
ch=ranganathan&IncludeBlogs=1>. Acesso em: 24/1/2009>.
Caulking, V. Norbert. The five laws of library science of S.R. Ranganathan. Ameri-
can Libraries, v. 16, p. 329, May 1985.
Cloonan, Michèle V.; Dove, John G. Ranganathan online: do digital libraries vio-
late the Third Law? Library Journal, v. 130, n. 6, p. 58-60, Apr. 1, 2005.
Cochrane, Pauline Atherton. Information technology in libraries and Rangana-
than’s five laws of library science. Libri, v. 42, p. 235-242, July/Sept. 1992.
Cossette, André. Humanisme et bibliothèques; essai sur la philosophie de la biblio-
théconomie. Montreal: Association pour l’Avancement des Sciences et des
Techniques de la Documentation (asted), 1976. 69 p.
Croft, Janet Brennan. Changing research patterns and implications for Web page
design: Ranganathan revisited. College & Undergraduate Libraries, v. 8, n. 1, p.
69-77, 2001.
Estes, M.E. Managing information. Trends in Law Library Management & Technology,
v. 7, n. 10, p. 1-3, Oct./Dec. 1996.
Figueiredo, Nice Menezes de. A modernidade das cinco leis de Ranganathan.
Ciência da Informação, Brasília, v. 21, n. 3, p. 186-191, set./dez. 1992.
Foskett, D.J. Ranganathan and ‘user-friendliness’. Libri, v. 42, n. 3, p. 227-234,
Sept. 1992.
Garfield, Eugene. A tribute to S.R. Ranganathan, the father of Indian library sci-
ence. Part 1. Life and works. Current Contents, n. 6, p. 5-12, Feb. 6, 1984. Dis-
ponível em: <http://www.garfield.library.upenn.edu/essays/v7p037y1984.
pdf>. Acesso em: 11/5/2009.
­———. A tribute to S.R. Ranganathan, the father of Indian library science. Part 2.
Contribution to Indian and international library science. Current Contents, n.
7, p. 3-7, Feb. 13, 1984. Disponível em: <http://www.garfield.library.upenn.
edu/essays/v7p045y1984.pdf>. Acesso em: 11/5/2009.
Gnoli, Claudio. Il tavolino di Ranganathan. Bibliotime, a. 3, n. 3, nov. 2000. Dis-
ponível em: <http://www2.spbo.uníbo.it/bibliotime/num-iii-3/gnoli.htm>.
Acesso em: 1/7/2009.
Gorman, Michael. Five new laws of librarianship. American Libraries, v. 26, n. 8,
p. 784-785, Sept. 1995.
­——— . The five laws of library science: then & now. School Library Journal, v. 44,
n. 7, p. 20-23, July 1998.
xvi as cinco leis da biblioteconomia

­———; Caulking, N. Norbert. Gorman uncovers scholar’s magnum opus. Ameri-


can Libraries, v. 16, n. 5, p. 329, May 1985.
Grolier, Eric de. Les politiques des bibliothèques, des services d’information et
l’héritage de Ranganathan. Bulletin d’Information de l’Association des Bibliothé-
caires Français, n. 158, p. 78-82, 1993.
Gupta, Dinesh K. User-focus approach: central to Ranganathan’s philosophy. Li-
brary Science with a Slant to Documentation & Information Studies, v. 36, n. 2, p.
123-128, 1999.
Hilyard, Nann Blaine. Practical perspectives on readers advisory. Public Libraries,
v. 44, n. 1, p. 15-20, Jan./Feb. 2005.
Intner, Sheila S. Remembering Ranganathan. Technicalities, v. 15, p. 10-12, Oct.
1995.
Jas, Nikhil Kumar. Relevance of user education for efficient library service: a
study in the context of five laws. Library Science with a Slant to Documentation
& Information Studies, v. 36, n. 1, p. 49-54, Mar. 1999.
Kaur, Amritpal. Five Laws: their relevance in information technology environ-
ment. ila Bulletin, v. 36, n. 1, p. 24-27, Apr./June 2000.
Kuronen, Timo; Pekkarinen, Paivi. Ranganathan’s five laws of library science
revisited: the challenge of the virtual library. Herald of Library Science, v. 35, n.
1-2, p. 3-17, Jan./Apr. 1996.
­———; ­———. Ranganathan revisited: a review article. Journal of Librarianship and
Information Science, v. 31, n. 1, p. 45-48, Mar. 1999.
Lancaster, F.W. If you want to evaluate your library... 2nd ed. Champaign, il: Uni-
versity of Illinois, Graduate School of Library and Information Science, 1993,
p. 11-15. [Trad. brasileira: Avaliação de serviços de bibliotecas. Brasília: Briquet de
Lemos / Livros, 2004.]
­———; Mehrotra, R. The five laws of library science as a guide to the evaluation
of library services. In: Agarwal, S.N.; Khan, A.A.; Stayanarayana, N.R. (ed.)
Perspectives in library and information science. Lucknow: Print House (India),
1982, v. 1, p. 26-39.
­———; Metzler, L. Ranganathan’s influence examined bibliometrically. Libri, v.
42, n. 3, p. 268-281, Sept. 1992.
Langridge, D.W. Book selection and the five laws. Library Science with a Slant to
Documentation, v. 5, n. 3, p. 193-199, Sept. 1968.
Leiter, Richard A. Reflections on Ranganathan’s Five laws of library science. Law
Library Journal, v. 95, n. 3, p. 411-418, Summer 2003.
Line, Maurice B. Line’s five laws of librarianship... and one all embracing law.
Library Association Record, v. 98, p. 144, Mar. 1996.
Mitchell, W.B. Access: the key to public service. Collection Management, v. 17, n.
1/2, p. 1-22, 1992.
­———. Reflections on academic libraries in the 21st century. Journal of Access Ser-
vices, v. 5, n. 1/2, p. 1-9, 2007.
Murthy, T.A.V. Digital information environment and application of the laws of
Ranganathan. Herald of Library Science, v. 44, n. 3/4, p. 229-234, Jul./Oct. 2005.
Neelameghan, A. Books and other learning materials: the windows of knowledge.
Information Studies, v. 5, n. 2, p. 67-72, Apr. 1999.
­———. Infrastructure facilities for library and information science education and
apresentação desta edição xvii

training in India. Information Studies, v. 5, n. 3, p. 129-136, July 1999.


Noruzi, Alireza. Application of Ranganathan’s laws to the Web. Webology, v. 1,
n. 2, Dec. 2004. Disponível em: <www.webology.ir/2004/vln2/a8.html>. Aces-
so em: 15/1/2009. Trad. para o português disponível em: http://extralibris.
org/revista/pesquisa/aplicacao-das-leis-de-ranganathan-a-web. Acesso em:
4/5/2009.
Patkar, Vivek N. On library as an autopoietic system. Information Studies, v. 4, n.
2, p. 105-114, Apr. 1998.
Rahman, Afifa. A reaction to Timo Kuronen and Paivi Pekkarinen’s ‘New
Supple­mentary Laws’. Herald of Library Science, v. 44, n. 3/a, p. 226-229, July/
Oct. 2005.
Rimland, Emily. Ranganathan’s relevant rules. Reference & User Services Quar-
terly, v. 46, n. 4, p. 24, Summer 2007.
Satija, M.P. The five laws in information society and virtual libraries era. srels
Journal of Information Management, v. 40, n. 2, p. 93-104, June 2003.
Schoffner, Ralph M. Appearance and growth of computer and electronic products
in libraries. In: Abel, Richard E.; Newman, Lyman W. (ed.) Scholarly publishing:
books, journals, publishers. and libraries in the twentieth century. New York: John
Wiley, 2002, p. 209-255.
Sen, B.K. Ranganathan’s five laws. Annals of Library & Information Studies, v. 55,
n. 1, p. 1, June 2008.
Sepúlveda, Fernando Antônio Miranda. A gênese do pensar de Ranganathan:
um olhar sobre as culturas que o influenciaram. 1996. 80 p. Dissertação (Mes-
trado em ciên­cia da informação) — ibict/ufrj/eco. Disponível em: <http://
www.conexaorio.com/biti/sepulveda/index.htm>. Acesso em: 29/6/2009.
Sharma, R.N. Ranganathan’s impact on intemational librarianship through in-
formation technology. Libri, v. 42, n. 3, p. 258-267, Sept. 1992.
Shera, J.H. The dimensions of magnitude (library services). Library Science, v. 20,
n. 1, p. 2-17, Mar. 1983.
Siddiqui, Mohammad Azeem. Dr. S.R. Ranganathan’s five laws and their relevance
and imperatives in context of library science. Disponível em: <http://ezinearticles.
com/?Dr.-S.R.-Ranganathans-Five-Laws-and-Their-Relevance-and-Imperatives­
-in-Context-of-Library-Science&id=371593>. Acesso em: 24/1/2009.
Simpson, Carol. Editor’s notes: five laws. Librany Media Connection, v. 26, n. 7, p.
6, Apr./May 2008.
Singh, Ram Shobhit (ed.) Encyclopaedia of the Five laws of library science. New Delhi:
Anmol, 2008. 280 p.
Sowards, Steven W. ‘Save the time of the surfer’: evaluating Web sites for users.
Library Hi Tech, v. 15, n. 3/4, p. 155-158, 1997.
Taher, Mohamed. The reference interview through asynchronous e-rnail and
syn­chronous interactive reference: does it save the time of the interviewee?
Internet Reference Services Quarterly, v. 7, n. 3, p. 23-34, 2002.
Talukder, Tridibesh; Ghosh, Saptarshi. Total quality rnanagernent and its impli-
cation on library laws. srels Journal of Information Management, v. 41, n. 3, p.
255-266, Sept. 2004.
Walter, Virginia A. Library services to children: future tense. Journal of Youth
Services in Libraries, v. 15, n. 3, p. 18-20, Spring 2002.
xviii as cinco leis da biblioteconomia

Yucht, Alice H. Guiding princíples. Teacher Librarian, v. 28, n. 5, p. 38-39, June


2001.
Yusuf, Mohammad. Role of cooperation in library and inforrnation centres. Herald
of Library Science, v. 45, n. 3/4, p. 204-212, July/Sept. 2006.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO

O movimento por bibliotecas é de origem comparativamente recente nos


países ocidentais e é o resultado das influências democráticas que se tor-
naram preponderantes no final do século xix. O anseio de estender os be-
nefícios do saber ao povo em geral inspirou a fundação de numerosas
bibliotecas públicas. As potencialidades das bibliotecas como instrumen-
tos de educação popular ocuparam desde então a atenção dos interessa-
dos neste movimento. Nos anos recentes têm-se estudado intensamente
quais os melhores métodos de popularização do uso das bibliotecas.
O grande aumento do número de livros publicados ano após ano
e dos que dão entrada nas bibliotecas suscitou uma enorme gama de
questões relativas à organização, administração e gestão de bibliotecas.
A perspectiva das pessoas em relação a estes assuntos passou por uma
mudança radical. As bibliotecas são hoje vistas não como bens precio-
sos a serem ciosamente preservadas da intromissão da plebe, mas como
instituições democráticas para benefício e satisfação de todos. Como
atrair os leitores para as bibliotecas, como ampliar para todas as classes
as oportunidades de usá-las, como prestar a maior ajuda possível aos que
desejam usar as bibliotecas e como poupar o tempo dos leitores e também
dos funcionários da biblioteca são questões que, aparentemente simples,
demandam não pouca reflexão, imaginação, capacidade e experiência por
parte do bibliotecário.
A bibliografia produzida sobre esta matéria tem se avolumado
grandemente. Foram criadas associações de bibliotecários em muitos
países, foram iniciados cursos em várias universidades para o ensino
da administração de bibliotecas e surgiram numerosos periódicos de
biblioteconomia. Foram feitas tentativas de sistematizar o conhecimento
sobre a matéria e agora se afirma que ela atingiu o status de ciência.
Dispensa comentar se a organização e administração de bibliotecas deva
ser considerada uma ciência ou uma arte. Não há dúvida, entretanto,
de que há certos princípios essenciais subjacentes à administração de
bibliotecas de acordo com as necessidades e concepções atuais.
O autor deste livro procurou expor estes princípios numa forma siste-
mática. Conseguiu sintetizá-los em cinco princípios cardeais e desenvol-
ver todas as regras de organização e administração de bibliotecas como
xix
xx as cinco leis da biblioteconomia

implicações necessárias e corolários inevitáveis destas cinco leis. Uma


vez enunciadas, as leis parecem tão óbvias que nos surpreendemos que
não tenham sido claramente percebidas e elaboradas antes.
O tratamento dado ao tema pelo Sr. Ranganathan é claro, lógico e
lúcido. Ele trouxe para este empreendimento um amplo domínio da
literatura sobre bibliotecas, um conhecimento pessoal com os métodos de
administração de bibliotecas na Grã-Bretanha, uma inteligência analítica
experiente e um entusiasmo ardente, mas iluminado pelo movimento por
bibliotecas. Ele foi o pioneiro desse movimento na província de Madras
e vem realizando uma propaganda enérgica para divulgá-lo. Ele sabe
como despertar e manter o interesse do leitor e produziu um livro muito
atraente e agradável de ler. Não tenho dúvida de que encontrará ampla
receptividade e logo virá a ser reconhecido como um texto clássico da
biblioteconomia.
A Madras University é afortunada de ter o autor como seu
bibliotecário. Em suas mãos, essa biblioteca evoluiu para se transformar
numa instituição humana viva, que busca um contato pessoal proveitoso
entre funcionários e usuários. O enorme crescimento no empréstimo
de livros desde que o autor assumiu a biblioteca é um testemunho
impressionante da solidez dos princípios em que a administração dela
se baseia, bem como da eficiência de seu trabalho de gestão, apesar das
precárias condições do local onde a biblioteca tem funcionado.
A publicação deste livro pela Madras Library Association não é a me-
nor de suas reivindicações pela gratidão do público.

P.S. Sivaswamy Aiyer


INTRODUÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO

Este é um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos sobre nossa
profissão. Ele é único, acredito, na medida em que procura pela primeira
vez apresentar um estudo abrangente, feito por um bibliotecário que
tem uma mente inconfundivelmente indiana, e que faz refletir a própria
cultura de seu povo nas teorias básicas da arte da difusão dos livros
como ela é entendida no moderno mundo das bibliotecas. Para quem
é recém-chegado à nossa profissão talvez cause surpresa o tanto que se
pode extrair de algo que, à superfície, parece ser um ofício tão simples,
mas uma leitura atenta das páginas do Sr. Ranganathan propiciará ao
iniciante uma compreensão profunda do tema.
O Sr. Ranganathan está extraordinariamente dotado para a empresa a
que se propôs. Faz alguns anos ele esteve, por um período de tempo,
sob a orientação de professores assistentes da School of Librarianship da
University of London, quando se aproximou particularmente de mim.
Percebi que era homem de notável cultura, muito original em seu modo
de ver, persistente e incapaz de se desviar de suas investigações, e que,
prudentemente, acatava quaisquer sugestões que lhe fossem apresen-
tadas. Não somente assistiu às aulas de biblioteconomia na University
of London, mas estudou intensamente os serviços de bibliotecas de to-
dos os tipos, visitando-as em várias partes do país. Por algum tempo,
estudou diariamente nas bibliotecas públicas de Croydon, onde eu ob-
servava seu trabalho com interesse. Ele examinou os processos de cada
departamento e empregou muito tempo analisando-os e criticando-os.
Ao longo de toda essa jornada, buscava as razões subjacentes a todos os
nossos fazeres.
Não estava interessado somente em livros e bibliotecas, e usou parte
do seu tempo de lazer para examinar os métodos pedagógicos adotados
nas escolas das cidades e as relações destes com as bibliotecas. Seu modo
crítico de ver era tão profundo que ele resolveu partir para a elaboração
de uma nova classificação bibliográfica. Esta classificação, como ele nos
diz mais adiante neste volume, é empregada na biblioteca da universi-
dade de Madras, e em algumas outras bibliotecas da Índia, que começam
a classificar seus acervos.

xxi
xxii as cinco leis da biblioteconomia

Este programa de estudos e esta atitude mental não poderiam deixar


de resultar na preparação de um tipo de bibliotecário, cujo trabalho se
tornaria importante. A obra que temos em mãos é prova disto.

ii

A prática da biblioteconomia precedeu de muito a formulação de


quaisquer leis. Em todas as profissões, naturalmente, o mesmo acontece.
É só lentamente e a partir da experiência contínua dos profissionais que
uma teoria pode ser deduzida e enunciada. Nossa profissão pode reivin-
dicar, entretanto, ser uma das mais antigas do mundo, e alguns dos pro-
cessos bastante comuns que hoje se mostram tão aperfeiçoados, a ponto
de o Sr. Ranganathan ser capaz de formular seus resultados como ‘leis’,
existiam em forma embrionária nas bibliotecas assírias e provavelmente
em outras mais antigas. Os catálogos de tabuletas de argila do British
Museum provam-nos que havia então não somente bibliotecas, mas uma
biblioteconomia sistemática. Anos mais tarde, mas ainda em tempos an-
tigos, o trabalho de bibliotecários, como Calímaco, nas bibliotecas dos
faraós, apresenta métodos de gestão, especialmente na classificação dos
livros, que surpreendem os bibliotecários modernos que os estudaram.
Cada uma das grandes nações do passado teve suas bibliotecas públi-
cas, mesmo que seu uso fosse às vezes limitado a certas classes da co-
munidade, e, na anarquia geral da civilização europeia, que se seguiu à
queda do Império Romano Ocidental, os mosteiros ainda preservaram e
ampliaram suas bibliotecas.
A história das bibliotecas foi muito influenciada por esta preservação
dos livros nos mosteiros, pois durante séculos as bibliotecas estiveram cir-
cunscritas a escolas superiores e outros estabelecimentos fechados, e seu
uso era restrito aos ocupantes dessas instituições. Preservar o livro era de
importância igual ou maior do que fazer com que fosse usado. Esta men-
talidade vem desaparecendo desde meados do século xix. As grandes bib-
liotecas do mundo, com variados graus de generosidade, foram abertas
para leitores externos, e a atitude do conservateur cedeu lugar àquele que
me arrisquei a chamar alhures de explorador de livros [exploiter of books] por
julgar ser esta a descrição apropriada do bibliotecário.
O principal fator da atitude moderna diante das bibliotecas e dos livros
tem sido o que é conhecido na Inglaterra e nos Estados Unidos como
‘bibliotecas públicas’. Este termo tem hoje um sentido bem diferente do que
tinha antes de 1850. Então, as bibliotecas eram públicas mais no sentido
com que as public schools* da Inglaterra são públicas; quer dizer, o seu uso

* Escola particular mantida pelos pais dos alunos, oriundos, na maioria, das classes privile-
giadas. A escola pública mantida pelo Estado chama-se, no Reino Unido, local school (n.e.).
introdução à primeira edição xxiii

estava em muito limitado às classes governantes. A biblioteca pública


moderna é uma instituição municipal, sustentada pelos municípios para
uso gratuito pelos cidadãos sem discriminação. Eram anglo-saxônicas
em sua origem, e surgiram quase ao mesmo tempo na Grã-Bretanha e nos
Estados Unidos. Essas bibliotecas são agora formadas com o emprego de
técnicas próprias, e, em muitos casos, contam com um grande acervo de
livros e, literalmente, milhões de leitores.
Um dos fatores sociais mais significativos da segunda metade do sé-
culo xix e do primeiro quartel do século xx foi o desenvolvimento amplo
do hábito da leitura entre os povos ocidentais. Até mesmo as nações mais
conservadoras da Europa desenvolveram sistemas de bibliotecas mais
ou menos de acordo com o modelo anglo-saxão.

iii

A visão moderna das bibliotecas, portanto, é a que considera toda a


população como sua clientela. Até mesmo em bibliotecas universitárias e
especializadas, em quase todos os lugares, os estudantes sérios dispõem
sem dificuldade dos recursos da biblioteca. Esta é a atitude que, espero e
acredito, assumirá o bibliotecário, na Índia. Deve ficar bem claro, en-
tretanto, que regras ou noções universais devem sempre receber um
tratamento local e individual. Não acho que os métodos das bibliotecas
dos Estados Unidos, por mais que eu as admire, sejam completamente
adequados para a Europa, ou até mesmo para a Inglaterra. A psicologia
dos povos varia, e variantes da prática bibliotecária devem ser feitas para
adequar-se a este fato. Mais ainda entre os povos da Índia, com sua imen-
sa história, fortes tradições, e distintas características étnicas, a aplicação
pura e simples das ideias anglo-saxônicas a algo tão íntimo, pessoal e
espiritual como a literatura, sem modificação, pode não ser sensata. Tive
muitos estudantes estrangeiros nas bibliotecas de que cuidei, e sempre
procurei convencê-los de que o que eles aprendem de nós deve sempre
ser examinado cuidadosamente à luz das necessidades de seus próprios
países de origem. Sinto que isto é imensamente importante para a Índia.
Isso, em minha opinião, dá um valor especial à obra do Sr. Rangana-
than. Ele trata de todas as questões que ocupam as mentes dos bibliotecá-
rios europeus. A seleção de livros, com uma mente universal que deter-
mina que todos os lados devem ser ouvidos, e que nenhuma preferência
pessoal terá influência indevida; os melhores métodos para mobiliar e
equipar bibliotecas; uma descrição ponderada sobre o que pode ser pro-
porcionado pelo catálogo e pela classificação: isto será óbvio para o leitor.
Ele escreve, ademais, como um educador — como deveriam ser todos
os bons bibliotecários —, e espero que tenha deixado bem claro que o
desenvolvimento de uma nação culta, com um profundo amor por sua
xxiv as cinco leis da biblioteconomia

grande literatura e um entendimento correto da importância dos livros,


deve começar com o atendimento criterioso e generoso das crianças.
No Ocidente, toda criança é um leitor em potencial. Também deve ser
assim no Oriente, mesmo em lugares onde as crianças ainda não tiveram
a oportunidade de ler o bastante ou ter acesso aos livros.

iv

Um experiente bibliotecário norte-americano observou certa vez que


uma tora de madeira com um livro numa ponta e um bibliotecário na
outra faria uma perfeita biblioteca. Era, naturalmente, um exagero pi-
toresco, mas é o elemento pessoal que o bibliotecário traz para a bibliote-
ca que lhe dá sua vitalidade; muitas bibliotecas, infelizmente, carecem de
vitalidade; têm funcionários, mas não têm bibliotecários. O espírito do
bibliotecário autêntico nunca foi descrito com mais beleza ou sabedoria
do que no epitáfio escrito por Austin Dobson para Richard Garnett, um
dos maiores bibliotecários do século xix:

Dele podemos falar merecidamente, — Aqui estava alguém


Que sobre a maioria das coisas sabia mais que todos;
Que amava aprender de tudo sob o sol,
E olhava para cada aprendiz como se fosse um irmão.

As implicações disto são suficientemente profundas para chamar à mo-


déstia o mais consumado bibliotecário. Isto implica que o bibliotecário
deve ser uma pessoa de mente aquisitiva, que não fecha a mente para
nenhum assunto de interesse humano. É sempre um aprendiz; deve es-
tar sempre alerta e acolher qualquer desenvolvimento do pensamento
humano e toda aventura do espírito humano. Deve, portanto, ser uma
pessoa educada não somente no sentido geral, mas em toda operação e
processo da biblioteca. Deve amar o próximo. Quando jovens me pro-
curam como aspirantes ao trabalho bibliotecário, pergunto-lhes: “Vocês
gostam de livros?” Invariavelmente respondem que gostam, mas per-
gunto-lhes em seguida: “Vocês gostam de gente e de servir às pessoas?”
Rejubilo-me de que na Índia haja pessoas que atualmente tomaram em
suas mãos o papel de selecionar e treinar bibliotecários. Não conheço
profundamente a situação do país em matéria de bibliotecas, mas com
suas grandes literaturas, tão variadas, haverá sem dúvida muitos cam-
pos de pesquisa e muitas possibilidades bibliotecárias até o momento
não sonhadas nem mesmo pelos indianos.
Eis, portanto, um livro que pode servir de inspiração para todos aque-
les que, em posição mais elevada ou mais humilde, servirão à Índia em
suas bibliotecas. Concebido com um espírito aberto e generoso, deve
introdução à primeira edição xxv

entusiasmar quem ingressa em nossa profissão naquele país com as


imensas, embora nem sempre impressionantes, possibilidades de uma
biblioteca. Mostrará que ela não é meramente uma coleção de livros que
acumula idade e pó, mas um organismo vivo e em crescimento, que
prolonga a vida do passado e a renova para a geração presente, mas que
também dá a esta geração o melhor que seus próprios pesquisadores,
pensadores e sonhadores têm a oferecer.

W.C. Berwick Sayers


Bibliotecário-Chefe, Croydon
Professor da School of Librarianship da University of London
Examinador de organização de bibliotecas da Library Association
1

CAPÍTULO 0

GÊNESE

01 Ingresso na Profissão de Bibliotecário


Em julho de 1923, a University of Madras criou o cargo de bibliotecário
da universidade. Em novembro, fui nomeado seu primeiro ocupante. Na
época, ensinava matemática no Presidency College, em Madras, uma das
faculdades da universidade. Comecei meu trabalho como bibliotecário na
tarde de quinta-feira, 4 de janeiro de 1924. Nas primeiras semanas, não
havia quase nada para fazer. Sentia-me enfastiado, e queria muito voltar a
dar aula. Mas meus amigos aconselharam-me a não me precipitar. Ocupei-me
com a catalogação de centenas de livros que estavam empilhados. O nú-
mero de leitores que usavam a biblioteca raramente passava de dez por dia.

02 Primeira Experiência
Em outubro de 1924, ingressei na School of Librarianship do Univer-
sity College, em Londres. Sua biblioteca era bastante completa, ainda que
pequena. Bastaram uns dois meses para ler os livros do acervo. Depois
dessa bagagem teórica, adquiri alguma experiência prática, trabalhando
nas bibliotecas públicas de Croydon por uns seis meses. Nos seis meses
seguintes, visitei cerca de uma centena de bibliotecas de diferentes tipos.
Os bibliotecários deram-me plena liberdade de observar, fazer perguntas
e conversar. Esta foi a primeira experiência. Foi uma experiência rica.

03 Tendências Bibliotecárias
As bibliotecas encontravam-se em diferentes estágios de desenvolvi-
mento, o que facilitou um estudo comparado das práticas bibliotecárias.
As tendências progressistas eram impressionantes. Mas, as linhas de de-
senvolvimento nos diversos setores da prática biblioteconômica pareciam
desconexas. As conversas com quem trabalhava nesses setores davam-me
a impressão de que cada um trabalhava isolado sem muito contato ou
relação com outros setores. Mesmo quem trabalhava num mesmo setor
não dava muito sinal de trabalho em equipe. Não havia indicação alguma
de que houvesse uma visão de conjunto. Todos esses fatores tendiam a
ocultar a característica comum de tendências que estivessem surgindo
nos diferentes setores. Portanto, o que se via era somente um agregado de

1
2 as cinco leis da biblioteconomia

técnicas que não formavam um todo. Era como se os desenvolvimentos


futuros fossem totalmente imprevisíveis. Tudo parecia ser uma questão
de norma prática, rigorosamente empírica.

04 Método Científico
A experiência que eu acumulara em matéria de estudo e pesquisa cien-
tífica gerou uma sensação de revolta contra o ter de guardar na memória e
lidar com uma miríade de informações desconexas e tipos de práticas sem
relação entre si. Será que todos esses agregados empíricos de informações
e práticas não seriam redutíveis a um punhado de princípios fundamen-
tais? Será que não se poderia adotar, neste caso, o processo indutivo?
Não seria possível deduzir, a partir dos princípios fundamentais, todas
as práticas conhecidas? Será que os princípios fundamentais não contêm,
como implicações necessárias, muitas outras práticas que atualmente não
são correntes, nem conhecidas? Não se tornarão tais práticas necessárias
sempre que as condições-limite estabelecidas pela sociedade se modifica-
rem? Estas questões começavam a fremir em minha mente. É claro que
havia a consciência de que o tema a ser estudado pertencia ao campo das
ciências sociais e não ao das ciências naturais. O método científico, porém,
era aplicável igualmente a ambos os campos. A única diferença estava na
posição ocupada pelos princípios fundamentais. Estes constituíam hipó-
teses nas ciências naturais e princípios normativos nas ciências sociais.
Mas o ciclo do método científico era semelhante em ambos os casos. A
pergunta a ser respondida era esta: quais são os princípios normativos a
que aludem as tendências que se observam nas práticas bibliotecárias e
aludem às tendências futuras que atualmente ainda não são muito visíveis?
Isso agitava minha mente desde os primeiros meses de 1925.

05 Enunciado
Depois que voltei à Índia, em julho de 1925, o trabalho extenuante de
organizar e formar a biblioteca da universidade de Madras, praticamente
a partir do zero, afastou esse problema do meu consciente. Os 32 mil volu-
mes da biblioteca tinham que ser classificados e recatalogados; ao mesmo
tempo, era preciso planejar e desenvolver a Classificação dos Dois Pontos
[Colon Classification] e o Código para o Catálogo Sistemático [Classified
Catalogue Code]. Implantou-se o acesso livre às estantes. Não tinha ajuda
no serviço de referência. A publicidade da biblioteca era feita em grande
escala. Como consequência, o comparecimento diário saltou de uns vinte
para duzentos. Os funcionários tinham que ser recrutados e treinados.
Ao mesmo tempo, era preciso redigir um manual de administração de
bibliotecas. As aquisições no ano pularam de mil para seis mil. O projeto
do novo prédio da biblioteca exigia sua parcela de reflexão. A pressão
gênese 3

de todas essas tarefas compulsórias empurrava os princípios normativos


para camadas cada vez mais profundas da mente. Mas era uma pressão
conveniente e proveitosa. Cada passo do projeto da Classificação dos Dois
Pontos, cada regra formulada para o Código do Catálogo Sistemático e
cada parágrafo do rascunho do manual de administração de bibliotecas
teve origem e se irradiou dos princípios normativos que se achavam
ocultos, sob aquela pressão, no subconsciente. Inversamente, os avanços
e as necessidades impostas por essas tarefas estavam inconscientemente
moldando os princípios normativos numa forma exprimível. Isso durou
três anos. O ponto crítico foi alcançado no final de 1928, a altas horas da
noite. A pressão mudou de rumo. Todas as outras tarefas foram postas
de lado. O esforço era insuportável. À tardinha, o professor Edward B.
Ross fez-me sua costumeira visita diária. A ele eu devia minha formação
intelectual. Fora meu professor de matemática durante todo o curso uni-
versitário; sua versatilidade e sua amizade o levaram a se interessar, de
modo profundo e inteligente, por minha nova área de trabalho. Ele perce-
beu meu estado de angústia. Partilhei com ele minhas preocupações. Ele
se preparava para montar a motocicleta. Seus olhos brilhavam, o que era
sempre indício de que estava descobrindo alguma novidade, então, surgiu
o sorriso característico dessas ocasiões, e falou, “Você quer dizer, ‘Os livros
são para usar’; você quer dizer que esta é a sua primeira lei.” Partiu sem
nem ao menos esperar por minha reação; este era bem o seu jeito de ser.
Mas seu toque de intuição fez-me voltar à realidade com grande alívio.
Os enunciados das outras leis surgiram automaticamente. Levei umas três
horas preenchendo cinco folhas de papel com a dedução das cinco leis.
Seus enunciados estavam assim completos.

06 Divulgação
A seguir teve início a divulgação das implicações dessas leis nos diver-
sos setores da prática bibliotecária. Não havia então nenhuma publicação
profissional na Índia dedicada à biblioteconomia. No entanto, alguns anos
antes, eu participara do lançamento da revista mensal South Indian Teacher,
e suas páginas estavam abertas para mim. Para tratar dos problemas da
organização de bibliotecas e do serviço de referência, que tivessem interesse
para o público em geral, o jornal local Hindu prestou-se ao duplo objetivo
de fazer propaganda da biblioteca e liberar minha tensão. Em dezembro
de 1928, a University of Madras convidou-me para proferir uma série de
palestras para professores durante as férias, por ocasião da conferência
provincial de educação, que, naquele ano, foi realizada no Meenakshi
College, em Chidambaram, às vésperas de se transformar na Annamalai
University. Havia cerca de mil professores presentes, muitos deles meus
amigos pessoais. Não poderia ter havido uma plateia com mais afinidade
4 as cinco leis da biblioteconomia

e mais simpática na primeira apresentação formal das recém-enunciadas


cinco leis da biblioteconomia. As implicações de cada uma das leis foram
expostas em duas palestras. Algumas, como era corrente, foram ilustradas
com a projeção de diapositivos e diagramas e de viva voz. Algumas novas
práticas foram também deduzidas como passíveis de virem a existir. Algu-
mas já se concretizaram; a Insdoc list, iniciada em 1954, é substancialmente
uma delas. Como a plateia consistia inteiramente de professores, as impli-
cações educacionais das cinco leis mereceram grande ênfase. Entretanto,
elas não são inteiramente apresentadas neste livro. Tornaram-se o único
tema de uma série independente de palestras de férias, proferidas em Ma-
dras três anos mais tarde, que foram expandidas no livro School and college
libraries (1942). Em dezembro de 1930, a primeira conferência pan-asiática
de educação foi realizada em Benares. Seu organizador, P. Seshadri, con-
vidou-me para secretariar a sessão sobre serviços bibliotecários. Isso me
propiciou o ensejo de expor as cinco leis para um público formado por
bibliotecários, que, naquela época, ainda eram poucos. Foi um incentivo a
mais para que eu desenvolvesse minuciosamente todas as implicações das
leis da biblioteconomia na área de organização e legislação bibliotecária.
Na verdade, rascunhei um anteprojeto de lei-modelo de bibliotecas, que
foi discutido, artigo por artigo, durante a conferência. A lei de bibliotecas
de Madras (1948) foi baseada nesse anteprojeto. A de Hyderabad (1955)
também a seguiu. Essa lei-modelo encontra-se no capítulo 4 da primeira
edição deste livro, mas, nesta, foi substituída por uma versão melhorada e
mais ousada, projetada em 1950 para adaptar-se à situação da Índia como
Estado independente. Acima de tudo, a School of Library Science, fundada
em abril de 1929, ensejou a divulgação sistemática das cinco leis a cada ano.

07 Publicação
A Madras Library Association foi fundada em janeiro de 1928 com o
objetivo de promover a criação de um serviço de bibliotecas de alcance
nacional. Cerca de 800 membros a ela se filiaram em pouco tempo. Natu-
ralmente, eram todos amantes de livros e amigos da biblioteca, mas nem
todos pertenciam à profissão de bibliotecário. De fato, mal chegava a dez o
número de profissionais em Madras naqueles tempos. Para atrair o interesse
ativo dos sócios, o presidente, Sr. K.V. Krishnaswamy Ayyer, teve a ideia de
solicitar a alguns que apresentassem trabalhos para um simpósio. Houve
uma boa resposta a essa iniciativa. Os anais do simpósio foram publicados
em 1929 sob o título Library movement: a collection of essays by divers hands.
O ensaio principal foi What makes a library big, de Rabindra Nath Tagore, o
poeta nacional. Em 1930, decidiu-se iniciar uma publicação seriada regular
“sobre os aspectos técnicos e práticos do trabalho bibliotecário”. Percebeu-
-se que seria apropriado começar com um volume que apresentasse uma
gênese 5

exposição completa das cinco leis da biblioteconomia, do qual todos os


demais volumes decorressem como consequências necessárias. Assim, a
primeira edição deste livro foi publicada em junho de 1931. Com a graça
de Deus, os volumes posteriores fluíram, ano após ano, desdobrando as
implicações das cinco leis em cada um dos ramos da biblioteconomia. Cerca
de 48 livros foram assim publicados, alguns pela Madras Library Associa-
tion, e outros por diversas entidades. E em 1953, chegou-se ao vigésimo
primeiro volume da série da Madras Library Association. Tratava-se de
Library science in India: silver jubilee volume presented to the Madras Library
Association.
Com mais dois amigos passamos vários dias dando forma à primeira
edição. O Sr. K. Swaminathan, então professor de inglês no Presidency
College, empenhou-se grandemente no exame de cada frase, com olhar
crítico, de modo a reduzir ao mínimo as deficiências de linguagem e estilo.
Sir P.S. Sivaswamy Aiyer — respeitável estadista da Índia, ex-membro do
governo de Madras, ex-vice-reitor da University of Madras e da Benares
Hindu University, erudito intelectual e grande amante de livros, leu as pro-
vas tipográficas, fez muitas sugestões úteis e, por fim, escreveu o prefácio.
Meu professor em Londres, W.C. Berwick Sayers, escreveu a introdução.
Foi dele que recebi a maior inspiração. Além de assistir às suas aulas,
compartilhei com ele muitas horas de conversas informais. Ele me ajudou
de muitas formas a fazer com que o ano que passei na Grã-Bretanha fosse
verdadeiramente proveitoso. Minha consideração e afeição para com estes
três cavalheiros fizeram-me manter, na presente edição, o texto original,
o prefácio e a introdução.

08 Consequências
Ao longo dos 25 anos desde a primeira edição, surgiram, no entanto,
duas mudanças fundamentais. Uma foi a generalização do conceito de
‘livro’, acentuado nos anos recentes no vocábulo ‘documentação’. A se-
gunda mudança foi a generalização do termo ‘crescimento’, que ocorreu
em minhas próprias ideias, suscitada enquanto lecionava e trabalhava nos
livros Library development plan (1950) e Library book selection (1953). Além dis-
so, senti a necessidade de responder à pergunta ‘a biblioteconomia é uma
ciência?’ Além disso, o movimento bibliotecário tem feito grandes avanços
em muitos países, inclusive na Índia. Para dar lugar a essas mudanças,
acrescentei um oitavo capítulo, intitulado ‘Método científico, biblioteco-
nomia e a marcha da digvijaya’. Este capítulo é a novidade nesta edição.

12 de agosto de 1956
248 Hofwiesenstrasse, Zurich 57
6 as cinco leis da biblioteconomia

CAPÍTULO 1

A PRIMEIRA LEI

11 Princípio Fundamental
A Primeira Lei da biblioteconomia se assemelha à de qualquer outra
ciência: incorpora um princípio fundamental. Na verdade, é evidente por
si mesma; somos levados a supor que seja trivial. Entretanto, esta é uma
característica invariável de todas as primeiras leis. Vejamos, por exemplo,
a primeira lei de conduta upanixádica* — satyam vada — ‘falar a verdade’.
Assim também é a primeira lei do movimento, de Newton.

111 Enunciado
A Primeira Lei da biblioteconomia é: os livros são para usar. Nin-
guém questionará a correção desta lei. Entretanto, na vida real, a história
é diferente. Os órgãos responsáveis por bibliotecas raramente levaram
esta lei em consideração.

12 Negligência da Lei
Se examinarmos a história de qualquer aspecto da prática bibliotecária,
nela encontraremos inúmeras provas da negligência deplorável com que
esta lei é tratada.

121 Biblioteca Acorrentada


Vejamos, em primeiro lugar, a maneira como os livros eram mantidos
nos séculos xv e xvi. Naqueles dias, não era incomum encontrar livros
realmente acorrentados às estantes. Eles eram equipados com molduras e
argolas de bronze, presas a correntes de ferro, com uma das extremidades
fixada nas estantes. Os livros assim acorrentados não podiam se afastar das
estantes além do comprimento da corrente. Sua liberdade estava confinada
ao espaço determinado pelas correntes. É claro que tal acorrentamento
propiciava mais a preservação do que o uso dos livros. Na verdade, as
bibliotecas eram vistas, nessa época, não como organizações voltadas para
a promoção do uso dos livros, mas para a sua preservação.

* Conforme ao Upanixade, um dos livros da literatura védica que tratam da divindade, da


criação e da existência. (n.e.)
6
a primeira lei 7

122 Preservação para a Posteridade


Talvez seja interessante refletir um pouco sobre esse complicado
processo de preservação. Qual teria sido a finalidade dessa preservação?
É difícil pensar em alguma finalidade, a não ser a de preservação para a
posteridade. Sem dúvida, é uma característica saudável ou, de qualquer
forma, uma característica inevitável da natureza humana, que pensemos
em nossos filhos — na nossa posteridade — e que estejamos preparados a
negar-nos muitas coisas, a fim de legá-las intatas à posteridade. Esta prática,
porém, implica uma dedução inevitável. Mesmo que tenhamos o anseio de
legar nossos livros à posteridade, cada geração pode ser impelida por um
motivo altruístico exatamente similar, e, por conseguinte, os livros talvez
tenham que ficar para sempre acorrentados e jamais serão liberados para
o uso. Este aspecto da questão parece não ter sido percebido por muito
tempo e ‘os livros existem para serem preservados’ usurpou o lugar de
‘os livros são para usar’.

123 Costume Herdado


Essa tendência de entesourar livros teve origem numa época em que
eles eram raros e de produção difícil. Antes da invenção da imprensa,
levavam-se anos para copiar um livro. Copiar o Mahabharata era traba-
lho de uma vida inteira. Nessas condições, havia uma justificativa para
esquecer que os livros são para usar e para exagerar na sua preservação.
Mas essa tendência parece infelizmente que se transformou num hábito
regular, como resultado de uma longa prática. A situação foi totalmente
alterada pela invenção da imprensa. Ainda assim, passaram-se séculos até
que fosse superado esse costume herdado de há muito tempo. O primei-
ro passo consistiu em declarar anistia para os livros e libertá-los de seus
grilhões. Entretanto, mesmo depois que foram desacorrentados e se lhes
permitiu que fossem retirados da biblioteca para uso e manuseados pelos
leitores, não houve, por um longo tempo, um reconhecimento generoso,
por parte daqueles que mantinham e administravam a biblioteca, do direito
dos leitores ao uso desembaraçado dos livros. Muitas eram as restrições
postas no caminho dos livros para que fossem usados livremente, e só
em anos recentes é que parece ter-se firmado um vigoroso movimento
visando a eliminar todas essas deficiências. Este movimento ainda não
se tornou, de forma alguma, universal. Há vários países — e nossa terra
parece reivindicar, com justiça, ser classificada entre eles — que ainda mal
foram afetados por este novo movimento.

124 Exemplo 1
Um professor de uma faculdade chefiou seu departamento por quase
25 anos. O estudo de sua especialidade, a zoologia, aos poucos foi limitando
8 as cinco leis da biblioteconomia

o âmbito da sua visão, e ele passou a ter uma mentalidade mecanicista.


Detalhes triviais começaram a se avolumar para ele. Por isso, passou a
executar, pessoal e meticulosamente, cada rotina, desde abrir as portas e
janelas até esvaziar os cestos de lixo. Era comum ter acessos de cólera se
tudo não estivesse no devido lugar. Infelizmente, sob a influência desta
tendência incoercível, começou a ver as estantes, mais do que as mãos dos
leitores, como o lugar próprio para os livros. Seus auxiliares, cuja promoção
nos cargos dependia da boa vontade dele, preferiam abster-se de usar os
livros a correr o risco de despertar sua cólera ao retirá-los das estantes.
Os alunos do primeiro ano, os únicos que desconheciam suas idiossincra-
sias, solicitavam ocasionalmente os livros da biblioteca do departamento.
Ele costumava despachá-los com este dilema: “Vocês acompanharam as
aulas? Se prestaram atenção, não precisam destes livros. Se não consegui-
ram acompanhar as aulas, nada lucrarão com a leitura deles.” Os alunos
mais antigos jamais o abordavam, pois haviam passado por experiências
dolorosas com suas tentativas baldadas. O resultado foi que, quando ele
finalmente se aposentou, seu sucessor teve que abrir as páginas de vários
dos livros que ele deixara! Em alguns casos, descobriu-se até mesmo que
não valia a pena perder tempo em abri-los, uma vez que haviam se tor-
nado completamente desatualizados e era preciso descartá-los. Teria essa
carreira profissional sido possível se a faculdade tivesse agido conforme
a lei segundo a qual os livros são para usar?

125 Exemplo 2
A força e a inexorabilidade extraordinárias dessa tendência herdada,
que se interpõe entre os livros e seus usuários, são realçadas por um outro
caso, desta vez com um professor de filosofia. Este era um filósofo não
somente de profissão, mas também pela prática e pelo temperamento. Era
também uma daquelas pessoas que sentiam vontade de ser úteis à comuni-
dade. Uma forma de serviço comunitário que nosso professor de filosofia
decidiu prestar consistia em dar uma oportunidade aos seus vizinhos para
que se instruíssem. Para isso, costumava investir a maior parte de suas
economias em livros. Depois que formou uma boa coleção, construiu uma
bela cabaninha para leitura, a fim de abrigar os livros. Costumava passar a
maior parte do tempo livre nessa cabana, de forma que pudesse emprestar
pessoalmente os livros. Ficou, entretanto, muito desapontado com a total
indiferença dos vizinhos. Por isso, levou-me um dia à cabana para que eu
o aconselhasse. No trajeto, foi ficando cada vez mais eloquente ao falar dos
excelentes livros que comprara para a biblioteca, da deprimente indiferença
das pessoas do lugar com relação ao uso de livros, e assim por diante. A
conversa que se seguiu tão logo entramos na encantadora mas desolada
cabana lançou uma luz profusa sobre a persistência do hábito de preservar,
a primeira lei 9

há muito herdado, que podia sufocar até mesmo a determinação sincera


e as boas intenções de um honesto filósofo.
“Onde estão os seus livros, meu amigo?”
“Estes dez armários estão cheios deles. Gastei cem rupias* na compra
de cada um destes armários, confeccionados especialmente para isso, etc.
etc. etc.”
“Mas, querido professor, por que cobriu estas belas portas de vidro
transparente com estas horríveis folhas de papel pardo?”
“Você não sabe como as visitas me incomodam. Se eu não colocar este
papel pardo, verão os livros através do vidro. E aí pedirão ou este ou aquele
e terei que retirar todos os livros.”
Pobre filósofo derrotado! Sem comentários.

126 Exemplo 3
Embora estas coisas sejam corriqueiras para nós do século xx, basta
voltar apenas um século para encontrar a forte influência deste costume
de acumulação nas bibliotecas norte-americanas. T.W. Koch, da North-
-Western University, registra uma história significativa, mas típica, de
um bibliotecário da Harvard University. Este “certa vez, tendo terminado
o inventário da biblioteca, foi visto cruzando o campus com um sorriso
particularmente feliz”. Perguntado qual o motivo de seu humor excep-
cionalmente agradável, exclamou orgulhoso, “Todos os livros estão na
biblioteca, menos dois. Agassiz está com eles e vou buscá-los”.

127 O Bibliotecário Moderno


Por outro lado, um bibliotecário moderno, que acredita na lei de que
os livros são para usar, só se sente feliz quando os leitores esvaziam
constantemente as estantes. O que o preocupa não são os livros que são
retirados da biblioteca. O que o deixa perplexo e o deprime são os volumes
que ficam em casa. Ele também atravessará constantemente o pátio atrás
de seus Agassiz. Mas irá até eles não para pegar de volta os livros que es-
tão usando, mas para entregar as novas aquisições que precisam ser-lhes
apresentadas o mais rápido possível.

128 A Força da Primeira Lei


Os diferentes estágios pelos quais a força da lei os livros são para
usar levou à gradual remoção das restrições induzidas pelos mencionados
costumes herdados podem ser resumidos da seguinte maneira: primeiro,

* O autor menciona rupias, mesmo quando se refere a valores monetários de outros países.
Diante da dificuldade de definir uma equivalência atual, em termos de cotação ou de poder
aquisitivo, tanto da rupia quanto de uma moeda-padrão de circulação internacional, foi
mantida nesta tradução a redação original do autor, que data de 1931. (n.e.)
10 as cinco leis da biblioteconomia

as correntes foram removidas e vendidas como ferro-velho, mas o acesso


continuava limitado aos poucos eleitos. Mais tarde, o uso dos livros foi
permitido a quem podia pagar por isso. Em seguida, veio a etapa quando
se tornaram acessíveis para todos, mas somente para uso no recinto da
biblioteca. Depois, passou a ser feito o empréstimo aos poucos favorecidos;
posteriormente, aos que pagavam uma taxa, e, finalmente, o empréstimo
gratuito para todos. Talvez estejamos acabando de atingir este estágio em
nossa terra. Mas não foi isso, de forma alguma, o que aconteceu alhures,
onde a Primeira Lei já era conhecida há bastante tempo, para revelar todas
as implicações ali profundamente enraizadas. Nesses lugares, métodos
agressivos, que tornaram bem-sucedidos outros empreendimentos, foram
empregados para fazer avançar o uso dos livros. Depois, foram abertas
filiais de bibliotecas nas grandes cidades, a fim de oferecer uma coleção
satisfatória de livros e uma sala de leitura convidativa a poucos minutos
de caminhada de cada residência. Posteriormente, os livros eram despa-
chados, mediante o pagamento de uma taxa insignificante, àqueles que
não podiam, de forma conveniente, chegar até eles. Mais tarde, caixas de
livros eram enviadas gratuitamente às residências daqueles que se ofe-
recessem para mostrá-los aos vizinhos. Mais recentemente os livros são
transportados num furgão, de rua em rua, para atendimento dos morado-
res. É difícil imaginar qual o triunfo adicional que ainda está reservado à
Primeira Lei. Mas, como afirmou J.P. Quincy, é-se tentado a adaptar um
conhecido paradoxo celta,* ao dizer que uma biblioteca pública é tão boa
quanto uma biblioteca privada e, para o estudo dos livros, possui vantagens
indiscutíveis sobre ela.2

13 Localização da Biblioteca
A localização de uma biblioteca pode, em geral, ser tomada como um
índice do grau de confiança que os órgãos responsáveis por bibliotecas
têm na lei os livros são para usar.

131 Exemplo 1
Ocorreu-me visitar Dindukkal, uma cidade no sul da Índia. Os pró-
ceres do lugar convidaram-me para uma conversa sobre a construção de
uma biblioteca para a cidade. A questão da localização logo veio à baila.
Praticamente todos sugeriram um lugar nos arrabaldes da cidade. Um
dos motivos para sugerir um lugar tão remoto era de que havia muita
poeira no centro e de que os livros se estragariam. Outro motivo era que,
se não fosse assim, ‘todo tipo de gente’ teria acesso à biblioteca. Nunca lhes
ocorrera que a função da biblioteca era fazer com que ‘todo tipo de gente’
* O paradoxo lembrado é o que diz que um homem é tão bom quanto outro homem e
também muito melhor. (n.e.)
a primeira lei 11

usasse os livros e que o problema da poeira não deveria permitir que a


biblioteca ficasse afastada da área onde fosse acessível e útil. Por outro lado,
mostraram-se chocados quando me ouviram sugerir uma localização na
rua comercial, que atravessa o coração da cidade. Tive que citar o exemplo
de várias cidades do Ocidente e explicar, minuciosamente, o evangelho da
organização da biblioteca antes que admitissem haver pelo menos algo a
dizer em favor de minha sugestão.

132 Exemplo 2
Numa conferência no Kellett Hall, não faz muito tempo, antes da exis-
tência do serviço de ônibus, o talentoso conferencista S. Satyamurti, de
forma jocosa, fixou as coordenadas de uma das nossas grandes bibliotecas
da seguinte maneira: “Encontre um lugar na cidade que fique no mínimo
a dois quilômetros de qualquer linha de bonde ou de qualquer estação
ferroviária, que não tenha nem mesmo um posto de jinquirixá num raio
de um quilômetro, cujo alojamento de estudantes mais próximo fique a
uma distância de cinco quilômetros. Talvez só exista um único lugar na
cidade que atenda a esta descrição e esse será o lugar escolhido para nossa
biblioteca.” E, no entanto, ninguém reclamou, pois a biblioteca era vista
mais como um ornamento da cidade do que como uma instituição, com
a função essencial de propagar o uso dos livros.

133 Exemplo 3
Por outro lado, em todas as cidades ocidentais que creem vivamente na
Primeira Lei da biblioteconomia, e que votam em favor das bibliotecas e as
mantêm, pois têm a preocupação de que os livros sejam usados, a biblioteca
principal é normalmente erigida no centro da cidade, num lugar por onde
a maioria dos cidadãos passe obrigatoriamente todos os dias, por algum
motivo. Ela também funciona através de diversas filiais e postos de aten-
dimento em partes diferentes da cidade, de modo que a distância não seja
empecilho ao livre e pleno uso dos livros. Dublin, por exemplo, conta com
cinco bibliotecas regionais para uma população de 324 mil habitantes. Até
mesmo a próspera Edimburgo, com uma população de 420 mil habitantes,
já construiu sete bibliotecas regionais. Manchester sentiu a necessidade
de 30 filiais para que sua população, que soma 744 mil habitantes, possa
usar plenamente seus livros. Birmingham, com 919 mil habitantes, não
acha que suas 24 bibliotecas sucursais sejam suficientes para difundir o
uso dos livros. Toronto, com uma população de apenas 550 mil habitantes,
criou 15 filiais e planeja construir mais. Cleveland, onde vivem cerca de
800 mil pessoas, dá acesso a seu acervo de livros em 25 filiais e 108 pos-
tos de atendimento, enquanto 25 filiais e 108 postos de atendimento são
considerados insuficientes para os três milhões de moradores de Chicago.
12 as cinco leis da biblioteconomia

134 Analogia com a Localização do Comércio


Tão logo a ideia de que os livros são para usar esteja firmemente
estabelecida, tão logo as bibliotecas compreendam que a sua existência é
justificada somente na medida em que os livros sejam usados pelos leito-
res, não haverá qualquer diferença de opinião quanto à sua localização.
Uma localização igual à descrita pelo conferencista do Kellett Hall jamais
seria imaginada. O comerciante sagaz, que deseja vender seus produtos,
instala sua loja no santuário (sannidhi) de um templo popular. O dono de
uma cafeteria, que quer ver seu negócio prosperar, instala-a perto de um
grande albergue estudantil, como o Victoria Hostel. Um vendedor de bé-
tel, preocupado com a receita diária, arma sua tenda defronte a um hotel
grande e popular. Do mesmo modo, a biblioteca, interessada em que seus
livros sejam plenamente utilizados, instalar-se-á no meio de sua clientela.
Por outro lado, nenhum santuário de templo popular existe sem uma loja
e a vizinhança de todas as repúblicas de estudantes está invariavelmente
rodeada de cafés e lojas de vender bétel. O mesmo acontece com as biblio-
tecas. Qualquer lugar onde houver habitualmente a presença de grupos
humanos será um local potencial para instalar uma biblioteca.

135 Exemplo 4
Um exemplo extremo mas feliz desta dedução da Primeira Lei da biblio-
teconomia nos é dado pela biblioteca de jardim, em Lisboa.3
Lisboa, construída sobre sete colinas, como a nossa Tiruppati e com-
parável à nossa Madura em tamanho e população, conquistou um lugar
único no mundo da biblioteconomia. Um provérbio português diz: “Quem
não viu Lisboa, não viu coisa boa”.4 Se esta afirmativa é válida ou não,
Lisboa certamente sobrepujou todas as demais cidades com sua singular
biblioteca de jardim, que é certamente uma coisa boa.
Na encosta de uma das colinas, sobranceiro às águas azuis do Tejo,
encontra-se um ensolarado jardinzinho público, com um lago artificial, de
mármore, no centro, em torno do qual as flores tecem uma orgia nas cores
do arco-íris e as crianças gritam e correm em alegre êxtase.
Ao fundo, há um cedro gigantesco, que se alastra como um guarda-
-chuva, desafiando o sol e a chuva. Sob sua sombra intensa predomina um
silêncio profundo, e ali se encontra uma fileira de cadeiras em torno de uma
coleção encantadora de volumes numa linda estante. Estudantes com suas
capas esvoaçantes, trabalhadores cobertos de caliça, rústicos camponeses
de olhos tímidos e lânguidos, empregados de escritórios e lojas mastigando
o almoço, soldados, gráficos, eletricistas, marinheiros e estivadores, todos
compartilham o conteúdo dessa biblioteca ímpar, despojados de qualquer
formalidade, mas auxiliados pela ágil e simpática bibliotecária, a andar
daqui para lá, de lá para cá, com seu sorriso radiante.
a primeira lei 13

Quem teve essa ideia? Foi uma sociedade educativa particular, conhe-
cida como Universidade Livre. Na expectativa de promover o amor pela
leitura em todas as classes, a Universidade Livre fundou esta biblioteca de
jardim, fornecendo os livros e o mobiliário.* Os próceres de Lisboa, que
acreditavam na Primeira Lei da biblioteconomia, calorosamente aprova-
ram este empreendimento e contrataram os serviços de uma bibliotecária.
Conta com menos de mil volumes, que são substituídos de tempos em
tempos. Possui um pouco de tudo — clássicos, autores contemporâneos,
viagens, história, eletricidade, química, taquigrafia, contabilidade, constru-
ção, ferraria, navegação, e assim por diante. E esses livros são avidamente
procurados por todos os visitantes do jardim. A biblioteca fica aberta diaria-
mente das 10 às 18 horas. As estatísticas mostram que durante o primeiro
ano não houve menos de 25 mil leitores que a utilizaram. Que a sombra
do vetusto cedro no jardim público da cidade das sete colinas jamais deixe
de crescer! Que ele sirva de abrigo a esse empreendimento patriótico, a
serviço desta verdade absoluta: os livros são para usar!

136 Exemplo 5
Também nas escolas e faculdades, a localização das bibliotecas pode ser
tomada como um índice confiável do grau de fé das autoridades na lei os
livros são para usar. A evolução das ideias relativas à localização e dimen-
são das bibliotecas escolares e universitárias tem ocorrido de modo muito
paralelo ao crescimento gradual da crença nesta lei. Conheci, por dentro,
uma escola. Sua biblioteca consistia de algumas centenas de volumes, na
sua maioria livros didáticos, que as editoras enviavam como amostras de
cortesia e eram descartados pelos professores porque não mereciam estar
em sua posse particular. Essas poucas centenas de livros estavam cuida-
dosamente trancados num armário de madeira. O próprio armário ficava
trancado numa sala de pouco mais de um metro quadrado, cuja ventilação
se dava por uma única janela pequena. Havia uma característica mais
assustadora. O diretor da escola invariavelmente dava aulas — inclusive
suas inumeráveis aulas especiais — no saguão que dava para esta sala,
quase bloqueando a entrada. Quem se lembra do respeito mortal em que
eram tidos os diretores dessas escolas, vinte e cinco ou trinta anos atrás,
perceberá o que isso significava para os livros da biblioteca. Para quem não
sabe, pode-se dizer que o aparecimento da figura do diretor na esquina
era suficiente para fazer com que um grupo de alunos, que jogavam bolas
de gude ao sol da tarde, corresse para salvar a própria pele, escondendo-
-se nos cantos mais escuros das cozinhas das casas próximas, onde seus

* A biblioteca do jardim da Estrela, ou jardim Guerra Junqueiro, ainda em funcionamento.


Esta biblioteca-quiosque dispõe de cerca de mil livros para consulta e empréstimo, jornais,
revistas e jogos de entretenimento. [http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1056] (n.e.)
14 as cinco leis da biblioteconomia

olhares e modos, assustados e denunciadores, fariam as mães exclamar,


‘O diretor está indo para o templo?’ Seria muito difícil algum dos meninos
se atrever a sair de seu esconderijo, enquanto o mais corajoso dos ousados
diabretes não se arriscasse a espreitar furtivamente e anunciar, contente,
‘Caminho livre’. Com esta informação, é fácil perceber como a localização
da biblioteca escolar era eficiente, se o objetivo fosse evitar que os livros
fossem utilizados. Com certeza, a escola não acreditava, naqueles dias,
que os livros são para usar, e não era, de forma alguma, uma exceção.

137 Exemplo 6
Há não muito tempo, o diretor de uma grande escola secundária
convidou-me para fazer uma visita à sua biblioteca e sugerir alguns melho-
ramentos. Compareci de bom grado. Fui recebido com grande afabilidade
e conduzido através de um labirinto de salas e corredores apertados, es-
curos e malventilados, com armários ao longo das paredes. Ao chegarmos
perto da outra extremidade, perguntei onde ficava a biblioteca e quando
chegaríamos lá. Para minha surpresa, o diretor respondeu que, em todo o
trajeto, estivéramos passando pela biblioteca. Maravilhado diante desse
estranho arranjo, numa escola secundária, de um lugar onde os meninos
brincavam de esconde-esconde no intervalo de almoço, perguntei por que
fora escolhida uma localização tão infeliz para a biblioteca. Sua resposta
imediata e inocente: “Estas salas não servem para outra coisa e precisa-
vam ser usadas”. Teria esta resposta inocente sido dada, se a Primeira
Lei tivesse alguma influência nas autoridades da escola? Há vinte anos,
mudamo-nos para um novo prédio. A sala mais agradável, dando para o
mar, foi destinada aos periódicos. Eu fiquei numa pequena sala do lado
do poente. Uma pessoa imprópria para a profissão de bibliotecário um
dia apareceu ali. Expressou surpresa por eu ter escolhido a pior das salas
como meu gabinete. “Se eu fosse você, instalaria meu gabinete na sala dos
periódicos”, disse ele. Respondi, “Se a Primeira Lei não se tivesse revelado
a mim, eu também teria feito isso”. “— Hum! Sua Primeira Lei. Se um dia
eu vier a substituí-lo, verá o que farei”, foi a resposta imediata!

138 Exemplo 7
O que hoje predomina em nossas escolas e faculdades prevalecia há uns
sessenta ou setenta anos nas escolas e faculdades do Ocidente. Discursando
na inauguração da biblioteca do Colorado College, em março de 1894, o
Sr. Harper, primeiro reitor da Chicago University, afirmou

Há um quarto de século, a biblioteca, na maioria das nossas instituições, até


mesmo as mais antigas, quase não chegava a ter tamanho suficiente [...] para
merecer o nome de biblioteca [...] Conheço uma faculdade, que tem cento e
cinquenta estudantes matriculados [...] e, apesar disso, numa sala de três por
a primeira lei 15

quatro metros, chamada de biblioteca, não chega a ter duzentos e cinquenta


volumes [...] Como existia o local, para lá o professor costumava dirigir-se
ocasionalmente, mas o estudante, nunca [...] O lugar, raramente frequentado,
era uma sala remota, que não poderia servir para qualquer outra finalidade.5

Quase as mesmas palavras do diretor mencionado acima!

139 Exemplo 8
Mas tudo isso mudou tão logo a Primeira Lei da biblioteconomia se
instalou nas mentes das pessoas. Atualmente, diversas faculdades no Oci-
dente, que acreditam que os livros são para usar e sabem que um dos
seus deveres fundamentais consiste em desenvolver o hábito da leitura nos
alunos de graduação, destinam a sua melhor sala para a biblioteca. Pelo
menos em uma faculdade do Ocidente, cujos “livros eram colocados em
corredores, porões e sótãos”, até que esta lei tivesse influência sobre ela,
a área agora ocupada pelas bibliotecas da faculdade corresponde a quase
metade da área ocupada por toda a escola. Citando Harper novamente,

Hoje o edifício principal da faculdade, o edifício do qual temos mais orgulho, é


a biblioteca. Com o conjunto de estantes do acervo geral, a sala de consulta para
obras de referência, as salas de atendimento, as salas para os seminários, é o
centro dinâmico da instituição [...] Dificilmente se pode imaginar uma mudança
que fosse maior do que esta [...] Está próximo o dia em que o estudante pouco
estudará em seu gabinete: ele deverá estar no meio dos livros. Como o cientista,
que, embora dispondo de milhares de volumes em sua própria biblioteca, deve
procurar as grandes bibliotecas do Velho Mundo, se quiser fazer um trabalho
de alta qualidade, também o estudante universitário, embora tendo centenas
de volumes em seu próprio aposento, deverá fazer seu trabalho na biblioteca
da instituição [...] Sua mesa deve ficar onde, sem a menor delonga, sem a
mediação do zeloso bibliotecário, que provavelmente pensa mais no livro do
que no seu uso, ele possa pegar um dentre dez ou vinte mil livros que desejar
utilizar [...] Este fator do trabalho do nosso colégio e da universidade, a biblio-
teca, cinquenta anos atrás quase desconhecida, hoje já o centro da atividade
intelectual da instituição, e daqui a cinquenta anos, absorvendo tudo o mais,
ter-se-á transformado na própria instituição. 6

14 Horário da Biblioteca
A influência da lei os livros são para usar foi não menos profunda com
relação ao horário da biblioteca. Enquanto predominava a noção herdada
sobre preservação e a lei os livros são para usar não se havia consolidado
plenamente, a biblioteca permanecia mais tempo fechada do que aberta.
Talvez fosse aberta mais vezes para matar as traças e tirar a poeira dos livros
do que para a entrada de leitores e o empréstimo dos livros. Conta-se que
os registros dos livros emprestados na década de 1730–1740 da Bodleian
16 as cinco leis da biblioteconomia

Library, de Oxford, mostram que eram emprestados não mais de um ou


dois livros por dia. Às vezes, decorria toda uma semana sem que fosse feito
um único empréstimo. Conta-se que um aviso interessante, datado de 1806,
teria sido preservado por essa biblioteca. Encontrando-a fechada, um
estudioso, furioso pela frustração, afixou à porta da biblioteca um pedaço
de papel com as palavras que a musa grega lhe havia oferecido para aliviar
seus sentimentos: — “Ai de ti que levaste a chave do conhecimento! Não
entras e impedes a entrada àqueles que comparecem!” Na sua Story of
the University of Edinburgh, sir Alexander Grant deplora como, no começo
do século xix, os horários da biblioteca da universidade restringiam as
oportunidades oferecidas aos alunos para usá-la. Os livros só podiam ser
retirados por duas horas, dois dias por semana. Segundo Koch, a biblioteca
do Amherst College abria, em 1850, apenas uma vez por semana, de uma
às três horas da tarde. Os alunos da Princeton University podiam usar a
biblioteca somente por uma hora, duas vezes por semana, enquanto aos
seus contemporâneos em Missouri se permitia apenas uma hora, a cada
duas semanas. No Columbia College, criado em 1859, por muitos anos

aos alunos do primeiro e do segundo ano era permitido visitar a biblioteca


somente uma vez por mês, para contemplar as lombadas dos livros; os alunos
do terceiro ano eram levados até lá uma vez por semana por um orientador,
que lhes passava informações orais sobre o conteúdo dos livros, mas somente
os alunos do último ano [...] podiam tomar livros emprestados da biblioteca,
durante uma hora, às quartas-feiras à tarde.

141 Insulto contra a Primeira Lei


Se o horário era, até o final do século xix, tão restrito no mundo das
bibliotecas, pode-se facilmente imaginar as condições que predominam
hoje em dia em nossas bibliotecas escolares e universitárias, quando, ob-
viamente, elas existem! A prática corrente numa grande faculdade pode
servir de exemplo. Teoricamente, essa faculdade concede ‘dois dias de
empréstimo’ por semana. Mas, que a ocorrência da palavra ‘dia’, de modo
algum nos engane levando-nos a multiplicar o ‘dois’ por 24 ou mesmo por
12, para chegar a um número de horas por semana com a biblioteca aberta.
Na prática, o professor encarregado da biblioteca tinha convenientemen-
te interpretado os ‘dois dias de empréstimo’ como dois períodos de 15
minutos. Nenhum menino prudente ousaria expor-se ao seu desagrado.
Talvez alguém queira saber o que acontece na biblioteca durante as horas
restantes da semana. Bem, os livros gozam do seu imperturbável repouso
eterno, atrás de portas trancadas, numa sala fechada e escura.

1411 Uma Realidade


A biblioteca da Madras University durante muito tempo fez experi-
a primeira lei 17

ências com seus horários. As pessoas, suficientemente letradas para usar


os livros, dispunham do horário entre 11 h e 17 h nos dias úteis. Sábados
e domingos eram normalmente feriados para elas. Nesses dias, costuma-
vam dedicar as horas da manhã a visitas sociais, compras domésticas e
outros afazeres de fim de semana; depois do deleite do almoço e da sesta
ao meio-dia, sentir-se-iam dispostos para o estudo ou para uma série de
visitas à biblioteca somente à tarde. O horário a que a biblioteca finalmente
chegou, depois de seus infindos experimentos e investigações, adequou-se
ao hábito da clientela de uma maneira idealmente equivocada. A decisão,
na realidade, foi ficar aberta das 10 h às 17 h nos dias úteis e das 7 h às 14
h aos sábados e domingos! Pode uma decisão mais eficaz ser imaginada
para um lugar onde a Primeira Lei da biblioteconomia era quase uma he-
resia? Em outra ocasião, quando as autoridades de uma biblioteca estavam
solenemente discutindo os modos e meios para fazer frente a um grande
aumento no empréstimo de livros, um verdadeiro Daniel apareceu ‘para
uma decisão’.
“Quando é que ocorre o maior afluxo de público durante o dia?” per-
guntou o Daniel.
“No final da tarde, entre 4 e 6 horas”, respondeu o bibliotecário.
“Olhe”, apareceu a solução, “feche a biblioteca às 4 e não às 6. Isso vai
acabar com a complicação.”
Houve um submisso resmungo: “Mas esse é o único horário em que a
maioria dos alunos e professores pode usar a biblioteca.”
“Você sabe que leitura demais não faz bem”, retorquiu o enérgico
Daniel.
Coitada da Primeira Lei! Desprezada de modo tão sumário e descortês!
Mas não se deve recusar clemência ao Sul da Índia; pois, todos os climas
e todos os tempos fazem jus à nossa clemência. O Sul da Índia não está
sozinho ao mostrar desrespeito nessa hora tão tardia. Lembrem-se das
recentes queixas de um bibliotecário parisiense: “Falando de maneira
geral, uma biblioteca escolar na França era um armário fechado, que se
abria uma única vez a cada quinzena ou mensalmente.”

142 Magia da Primeira Lei


Mas a magia do mantra os livros são para usar provocou mudanças
maravilhosas nos horários da biblioteca em outros lugares do Ocidente.
Até mesmo a Bodleian, vergada ao peso inexorável da tradição medieval,
rompeu os grilhões de um antigo preceito sobre sua iluminação. Antiga-
mente tomara a decisão de que seu expediente seguiria a caprichosa luz
solar do hemisfério norte. A iluminação elétrica, proibida durante muito
tempo, está agora tornando seu horário de funcionamento não apenas
uniforme, mas também bastante longo. Outras bibliotecas renderam-se,
até antes, aos preceitos da Primeira Lei. Segundo um levantamento da
18 as cinco leis da biblioteconomia

American Library Association sobre as bibliotecas,7 “as horas, durante as


quais as bibliotecas estão diariamente abertas, variam de dez a quatorze”.
O Amherst College que, oitenta anos atrás, abria a biblioteca durante
meras três horas semanais, agora a mantém aberta por aproximadamente
cem horas por semana. Na verdade, informa-se que o seu horário diário
é das 8 h às 22 h 30 min. A Cornell University age da mesma forma. A
Oregon University abre a biblioteca diariamente às 7 h 30 min e a fecha
somente às 22 h. Até mesmo a biblioteca da Madras University fixou das
7 h às 20 h o seu horário de abertura e fechamento, para todos os dias do
ano, inclusive domingos e feriados. Se Deus quiser, poderá brevemente
imitar o University College London nas suas vigílias noturnas. Não foram
unicamente as bibliotecas universitárias que responderam ao chamado da
Primeira Lei da biblioteconomia. A resposta das bibliotecas públicas tem
sido não menos ardorosa. A maioria delas, que possuem livros para serem
usados, mantêm-se abertas diariamente das 9 h às 21 h, enquanto outras,
como em San Francisco e Seattle, trabalham até as 22 h.

143 Todas as Horas de Vigília


Não há nenhuma necessidade de multiplicar as estatísticas. Pode-se
afirmar com segurança que os argumentos a priori sobre horário de fun-
cionamento das bibliotecas levam exclusivamente a conclusões coerentes
com essas novas práticas. Em nenhum país onde a lei os livros são para
usar houver deitado raízes na consciência pública será permitido que as
bibliotecas encerrem seu expediente antes de a maior parte das pessoas
ir dormir e, portanto, fiquem impedidas de usá-la. Nem poderão ficar
fechadas depois que a maioria sai da cama. Também não se permitirá que
biblioteca alguma fique fechada em qualquer dia da semana, inclusive aos
domingos, mesmo em países cristãos. O público requer horários amplos, e
as autoridades responsáveis pelas bibliotecas* reconhecem a correção dessa
exigência. É, na verdade, considerado criminoso encerrar o expediente da
biblioteca num horário em que as pessoas possam usá-la comodamente.
Seria o caso de perguntar quanto custa a biblioteca ser mantida aberta por
longas horas e todos os dias. A sociedade moderna reconhece que qualquer

* O leitor encontrará amiúde esta e expressões afins, que correspondem à tradução do


conceito de library authority e seus correlatos, indicativos de âmbito de atuação, como
nacional, estadual, local, etc. Trata-se de característica da administração de bibliotecas
públicas, levada à Índia pela colonização inglesa. No Reino Unido, library authority podia
ser “qualquer conselho local [local council] responsável pelo governo local que houvesse ado-
tado as leis sobre bibliotecas” [do poder central], condição que ainda persiste no essencial
(Cf. The librarians’ glossary & reference book, comp. by L.M. Harrod, 4th ed., London: Andre
Deutsch, 1977, p. 491.) O conselho local é formado por conselheiros eleitos, com funções
executivas. Sobre governo local na Índia, ver http://www.citymayors. com/government/
india_government.html#Anchor-Municipal-14210. (n.e.)
a primeira lei 19

quantia a mais despendida na manutenção de bibliotecas é despendida


legitimamente e é bem-vinda. Além de tudo, qual a proporção entre o custo
adicional da instituição e o enorme benefício que decorre de um uso mais
amplo da biblioteca? Que grande soma de dinheiro está encerrada nos
livros das bibliotecas! Não será fazer economia de palito com as pequenas
quantias e ser perdulário nas grandes despesas ficar pechinchando algumas
rupias a mais no custo da instituição e assim restringindo o uso pleno desse
tesouro? Algumas vezes, a sabedoria está em gastar uma boa soma para
ganhar uma soma maior: “[...] mas, se consentes em lançar outra flecha
na direção em que lançaste a primeira, como vigiarei o voo, não duvido
que [...] voltarei a encontrar as duas”.8

144 O Dia Inteiro e a Noite Inteira


Mas em matéria de horário de biblioteca, leva o prêmio o University
College, London. A aula inaugural aos calouros foi proferida, no ano em
que lá estudei, por uma feliz coincidência, pelo Dr. E.A. Baker, diretor da
School of Librarianship. Declarou, orgulhoso, que o University College
era um pioneiro em romper tradições. Citou vários fatos em apoio à sua
afirmação. Não lembro, entretanto, que tenha incluído as conquistas da
universidade no que diz respeito aos horários da biblioteca. Em suma, o
expediente da biblioteca do University College não é fixado absolutamente
pela administração. É deixado inteiramente nas mãos dos alunos. Cada um
recebe uma chave da biblioteca de seu departamento; está livre para usar
a biblioteca na hora que quiser, do dia ou da noite. A última palavra em
matéria de liberdade de horários! Este ideal foi endossado sem restrições,
no relatório final de maio de 1927, do Public Libraries Committee, desig-
nado em 1924 pelo presidente do Board of Education da Grã-Bretanha.
Ali se diz que

na medida em que não existe nenhum horário noturno ou diurno em que o


cidadão não possa sentir necessidade de consultar um livro de que não dispo-
nha, o preceito ideal seria que as bibliotecas ficassem sempre abertas ao público.9

15 Mobiliário da Biblioteca
A seguir, vejamos o efeito que a lei os livros são para usar pode ter
sobre o mobiliário da biblioteca. Pode-se dizer com segurança ‘mostra-me
o mobiliário da tua biblioteca e eu te direi se crês ou não na Primeira Lei
da biblioteconomia’. Em primeiro lugar, na época em que prevalecia o
enunciado contrário — os livros existem para serem preservados —, as
estantes das bibliotecas eram construídas somente com vistas à preserva-
ção. O problema consistia em acomodar a maior quantidade de livros no
menor espaço e pelo menor custo. A regra do menor espaço fazia com que
20 as cinco leis da biblioteconomia

a altura das estantes fosse determinada unicamente pela altura do teto.


Nem mesmo um centímetro do espaço vertical poderia ser desprezado.
Assim, cada estante deveria começar bem rente ao chão e chegar até o
teto. Da mesma forma, outro corolário da regra do menor espaço era que
nenhum centímetro de espaço horizontal, além do mínimo absoluto,
seria desperdiçado. Isto exigia que o corredor entre as estantes fosse o
mais estreito possível — somente o suficiente para que um funcionário
por ali passasse — quer dizer, entre 30 e 45 cm no máximo. Além disso,
na ausência de correntes, cada estante teria pelo menos portas, cadeados
e chaves. A lei do menor custo exigia que o mobiliário da sala de leitura
fosse tão simples e tão barato quanto possível na prática. O leitor não devia
esperar por conforto. A sala de leitura não precisava de outros acessórios.
As paredes nuas, sem papel de parede que tornasse a sala mais atraente.
Nada de fotografias interessantes ou quadros de bom gosto, nos quais
os olhos cansados dos leitores pudessem, de vez em quando, repousar e
revigorar-se. Mas o advento da Primeira Lei da biblioteconomia lançou
sobre essas regras, a de menor espaço e a de menor custo, um agradável
feitiço, e as transformou por completo.

16 Um Diálogo
Primeira Lei: Seus métodos são intoleráveis. Devem ser descartados.
Regra do Menor Espaço: Você poderia, por favor, ser mais específica?
Primeira Lei: Primeiro, veja as estantes. Como é que você imagina que se
chegue ao topo destes arranha-céus?
Regra do Menor Espaço: Use uma escada!
Primeira Lei: Isso é muito fácil de dizer. Tudo bem, se forem funcionários
ágeis e treinados. Talvez você não esteja sabendo que permitirei ao leitor
retirar diretamente da estante o livro que ele bem quiser.
Regra do Menor Espaço: Isso é novidade para mim. Nunca ouvi falar nisso.
Primeira Lei: Ah! Já sei... Então é isso? Sim, qualquer leitor poderá dirigir-se
às estantes. Então, imagine um leitor corpulento subindo uma escada,
pela primeira vez na vida, ansioso para pegar um livro. Imagine-o
distraindo-se no alto da escada, caindo e quebrando o pescoço. Quem
pagará os estragos? O que é que sua irmã, a regra do menor custo, tem
a dizer sobre isso?
Regra do Menor Custo: Sem dúvida, é um assunto para se pensar seriamente.
Regra do Menor Espaço: O que é que você sugere, então?
Primeira Lei: Nenhuma estante deverá ter uma altura superior à que possa
ser alcançada confortavelmente por uma pessoa de estatura média, de
pé sobre o piso nu.
a primeira lei 21

Regra do Menor Espaço: Uma altura de dois metros a dois metros e dez?
Primeira Lei: Maravilhoso. Esta é a altura correta. Você é muito sensata.
Regra do Menor Espaço: Muito bem, já anotei isso. Algo mais?
Primeira Lei: A largura adotada para o corredor entre as estantes é muito
pequena.
Regra do Menor Espaço: Foi definida para condições diferentes, sabia?
Pretendíamos que somente um auxiliar da biblioteca passasse por ali.
Primeira Lei: Desculpe-me, se rio. Se só um auxiliar pode usar esse corredor,
caberia a você informar às autoridades responsáveis pelas bibliotecas
para que contratem como auxiliares apenas seres esbeltos ‘unidimen-
sionais’, se não quiserem que eles fiquem entalados entre as estantes!
Regra do Menor Espaço: Mas, sem querer ofender, estes pontos têm que ser
esclarecidos. Permitir que os leitores tenham acesso às estantes é uma
ideia muito recente. Isso muda tudo por completo. Mas, as dimensões
são mais da minha competência. Sem medo de ser considerada pedante,
digo que você parece contemplar um tipo de leitor que se expandiu,
como represália, nas minhas três dimensões e exige um corredor capaz
de comportar o maior deles!
Primeira Lei: Você está quase certa. Gostaria, entretanto, que o corredor
fosse suficientemente largo para permitir que dois leitores pudessem
percorrê-lo, um ao lado do outro.
Regra do Menor Espaço: Sim... Agora vejo aonde você quer chegar. Um metro
e vinte a um metro e oitenta será uma largura suficiente?
Primeira Lei: Muito obrigada. Mais uma palavra. Embora não seja relevante
para nossa conversa, gostaria de agradecer-lhe de todo o coração pela
maneira desinteressada como vocês se colocaram contra as autoridades
responsáveis pela biblioteca quando elas propuseram paralisar tem-
porariamente todas as novas compras, com o argumento de que a sala
das estantes estava congestionada de livros e não havia mais espaço.
Lei do Menor Espaço: Quer dizer...
Primeira Lei: Já sei, pela troca de sorrisos com sua irmã, que há algo mais
atrás disso.
Regra do Menor Custo: Realmente, foi tão bom minha irmã ter concordado
e me apoiado nessa questão.
Regra do Menor Espaço: Ela apenas me convenceu que, se esta proposta fosse
adotada, ela estaria em palpos de aranha, pois o custo dos livros antigos,
e, de modo especial, dos periódicos científicos e outras publicações das
sociedades científicas, que são indispensáveis para a pesquisa, vão se
multiplicar por dez a curto prazo.
Primeira Lei: Mesmo assim, estou em dívida com você. Quem é que, hoje
em dia, está preparado para ser tão altruísta e preocupar-se com o
conforto de uma irmã em apuros?
22 as cinco leis da biblioteconomia

Regra do Menor Espaço: Muito obrigada. Fico tão feliz que ao nos despe-
dirmos continuemos amigas, embora você haverá de reconhecer que
estava bem violenta no início.
Primeira Lei: Desculpe-me. Peço-lhe que me perdoe. A falha é devida ao
entusiasmo pela minha causa. Não quis dizer nada pessoal. Vou remediar
isso, dando algumas notícias alegres à sua irmã.
Regra do Menor Espaço e Regra do Menor Custo: O que é? O que é?
Primeira Lei: Não quero portas, nem fechaduras, nem chaves nas estantes.
Vocês podem economizar o que seria gasto com tudo isso....
Regra do Menor Custo: De certo modo, estou muito satisfeita; mas, o que
fazer com os ratos e os esquilos? E você ainda me diz que qualquer
pessoa poderá andar pelos corredores entre as estantes. O que impedirá
que joguem os livros para fora pelas janelas?
Primeira Lei: Esta é uma pergunta muito inteligente. Mas vocês não pre-
cisam se preocupar com isso. Pedirei ao arquiteto que torne a própria
sala à prova de animais nocivos e de ladrões.
Regra do Menor Custo: E à prova de ar, também, não é?
Primeira Lei: Não, não necessariamente. Sejam compreensivas, em compen-
sação, para não tornar a sala de leitura à prova de pessoas.
Regra do Menor Custo: Não estou entendendo.
Primeira Lei: Basta providenciar cadeiras aconchegantes e confortáveis e um
amplo espaço para as mesas. E também aprove os recursos necessários
para colocar no piso um forro à prova de ruído.
Regra do Menor Custo: Isso não é problema. Pode ser feito facilmente.
Primeira Lei: Queria também pedir-lhe insistentemente que mobilie a sala
de leitura da forma mais agradável possível, como uma sala de visitas
de alta categoria, ou seja, como esta linda sala de vocês, com belo papel
de parede, flores, quadros, ventiladores, luminárias etc. Lembre-se,
especialmente, das luminárias, pois minha política é permitir que os
estudantes sérios permaneçam na biblioteca depois que anoitece, se
assim desejarem, para continuar o estudo.
Regra do Menor Custo: Esta é uma boa ideia.
Primeira Lei: Mais um pedido. Confio que vocês não vão pensar que estou
exagerando.
Lei do Menor Custo: Não se preocupe. É melhor que você nos permita co-
nhecer de uma vez todas as suas exigências.
Primeira Lei: Basta providenciar um bom suprimento de água potável,
alguns sanitários, um banheiro e, sinto quase um receio ao dizê-lo, a
instalação e manutenção de uma cantina.
Regra do Menor Custo: Por que a preocupação? Estamos somente trocando
ideias. Seja franca.
Primeira Lei: Então, vou acrescentar: providencie também uma sala reserva-
a primeira lei 23

da, talvez com alguns sofás, onde os pesquisadores, que vêm à biblioteca
para passar o dia inteiro, possam refestelar-se e fechar os olhos de vez
em quando, por alguns minutos. Naturalmente, posso assegurar-lhe
que as devidas precauções serão tomadas para que esse privilégio de
primeira classe não seja mal utilizado por ninguém. Vi salas mobiliadas
serem confiadas a estudantes sérios por meses ininterruptamente numa
biblioteca em Amherst. A famosa biografia autorizada de Woodrow
Wilson foi escrita em uma dessas salas. O autor praticamente a trans-
formou em sua casa por cerca de um ano. O bibliotecário contou-me
este fato com orgulho e prazer quando entrei naquela sala.
Regra do Menor Custo: Quantas ideias singulares! Lindo... mas caro. Mas...
talvez... eco... nômico tam... bém...
Regra do Menor Espaço: Custinho!... Custinho! Sobre o que é que você está
refletindo, de olhos fechados?
Regra do Menor Custo: Sim..., querida Espacinho. Meditando... Cogitando,
se você preferir. Acabei de entrar na ‘máquina do tempo’ para explorar
o que isso significaria a longo prazo. Já percebi, Espacinho, que a essa
distância de tempo, toda essa pequena quantia que teremos de gastar a
mais nessas coisas, para que os livros sejam mais bem utilizados, resulta-
rão, ao fim e ao cabo, numa genuína e saudável economia nacional. Sim,
a coisa toda agora está clara para mim. Estou certa, Sra. Primeira Lei?
Primeira Lei: Sim, você falou corretamente como uma empresária.
Regra do Menor Custo: Em suma, você não quer que a biblioteca continue
mais como um depósito morto de livros. Você a quer equipada como
uma oficina de primeira classe, com comodidades de primeira ordem.
Regra do Menor Espaço: Custinho! Você me faz lembrar as palavras revo-
lucionárias de lord Lytton, na inauguração da biblioteca pública de
Manchester, em 1851. Você talvez se recorde das palavras dele: “Uma
biblioteca não é somente uma escola, é um arsenal e um depósito de
armas. Livros são armas, seja para a guerra, seja para a autodefesa”.10
Regra do Menor Custo: Sim, também me lembro desse discurso. Mas estas
são palavras de um homem anterior à Liga das Nações. Nossa amiga
quer que imaginemos a biblioteca como uma oficina pacífica normal,
que eliminará para sempre (uma panaceia para todos os males da hu-
manidade, e para o que mais me preocupa) todo o desperdício, tanto
na administração local quanto no estado.
Regra do Menor Espaço: Nunca conseguirei acompanhar seu ritmo nos
seus vôos econômicos rumo ao futuro. Sra. Primeira Lei, está satisfeita?
É tudo o que queremos.
Regra do Menor Custo: Tenho certeza de que ela ficou satisfeita.
Primeira Lei: Oficina! Exatamente. Esta é a palavra. Você a captou. A partir
24 as cinco leis da biblioteconomia

de agora, estou certa de que sempre nos olharemos, olhos nos olhos, e
prosseguiremos de uma forma amigável. Fico feliz com sua compreen-
são. Digo-lhe que, além de fazer tudo isso, quero a ajuda permanente
dos seus olhos vigilantes para economizar até o último vintém, a fim
de comprarmos exatamente aqueles livros, para cujo uso, afinal, estou
dando a vocês todo este incômodo.
Regra do Menor Custo: Vejo que você é uma missionária regular. Mas, já que nos
entendemos, posso tomar a liberdade de fazer uma ou duas sugestões?
Primeira Lei: Com toda a certeza. Preciso delas?
Regra do Menor Custo: Penso que a sala de descanso, a cantina e os esmerados
móveis da sala de leitura — como uma sala de estar de primeira classe,
como você disse — podem esperar. Talvez você não perceba como cer-
tos grupos poderão reagir a isso. Você deve se lembrar que, por algum
tempo, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas serão formadas
por pessoas que há muito estão nesta vida, desde antes de você chegar.
É quase impossível nutrir a esperança de que venham a desenvolver
o hábito de usuários de bibliotecas nesta etapa tardia da vida. Nestas
circunstâncias, como esperar que avaliem de modo adequado todas
essas inovações que inesperadamente caíram sobre suas cabeças?
Primeira Lei: Eu não ignorava totalmente essa dificuldade. Na verdade,
falando com sua irmã, foram essas considerações que fizeram abster-
-me, com relutância, de pedir espaço para uma ‘sala de conferências’ e
uma ‘sala de exposições’. Pensei que seria melhor deixar este assunto
para minha irmã, a Terceira Lei, uma vez que ela está mais diretamente
interessada nestas coisas.
Regra do Menor Espaço: Faz tanto tempo que estou aqui. Posso dizer o que
acontecerá. Toda a culpa recairá sobre a cabeça do infeliz bibliotecário.
Todos os motivos serão atribuídos a ele, tal como a ambição de popu-
laridade barata, e sua vida estará repleta de preocupações.
Regra do Menor Espaço: Minha irmã tem razão.
Primeira Lei: Discordo. Talvez meu zelo missionário, como você disse, e
meu entusiasmo exacerbado tenham me cegado para esta sabedoria
secular, que lhe é tão natural... a financista sagaz que você é... quero
contar com a boa vontade do bibliotecário e de seus funcionários, mais
que qualquer outra coisa, para que minha missão seja bem-sucedida.
De fato, é com ele que me encontrarei a seguir. Não quero que venha
de alguma forma (um inocente...) a cair em descrédito sem ser culpado.
Por outro lado, não apenas quero que coopere comigo, mas também
conte com a benevolência e a cooperação dos órgãos responsáveis pelas
bibliotecas. Caso contrário, ele não me será de muita valia. Não quero
fragilizar sua posição por nada deste mundo... Muito obrigada pelo
conselho. Achava que tinha vindo para ensinar, mas volto mais sábia.
a primeira lei 25

Regra do Menor Custo: O mesmo acontece conosco. Até logo!


Regra do Menor Espaço: Desejo-lhe boa sorte com o bibliotecário.
Primeira Lei: Obrigada. Adeus!

17 Pessoal da Biblioteca
Passemos agora do mobiliário para o pessoal da biblioteca. O advento da
Primeira Lei teve efeito fundamental sobre o pessoal da biblioteca. Afetou
a questão de pessoal de várias formas. Examinemos cada uma delas com o
maior cuidado e profundidade possíveis. Qualquer que seja a localização,
o horário, o mobiliário e a forma como são guardados os livros, é o pessoal
da biblioteca que, em última análise, constrói ou destrói a biblioteca. De
fato, um enorme esforço foi desenvolvido nos últimos cinquenta anos
para adequar o pessoal da biblioteca às necessidades deste novo concei-
to — os livros são para usar. Se o mero número de artigos publicados
sobre biblioteconomia pudesse ser tomado como medida desse esforço,
ter-se-ia uma ideia de sua extensão a partir da admirável Bibliography of
library economy, de Cannons. São 58 páginas, impressas de forma compacta,
dedicadas a este assunto do pessoal, e convém lembrar que a bibliografia
chega somente até o final de 1920.11

170 Qualificação do Pessoal


Enquanto a preservação dos livros era a principal preocupação de uma
biblioteca, tudo o que ela almejava no que concerne a pessoal era um com-
petente guardião que combatesse os quatro inimigos dos livros: o fogo, a
água, os animais daninhos e os seres humanos.

1701 Os eternos incompetentes


Não raro era criada uma sinecura na biblioteca para pessoas que não
tinham condição de conseguir emprego em outros lugares. Não era in-
comum, por exemplo, os cargos nas bibliotecas serem preenchidos por
surdos e aleijados, tartamudos e corcundas, apáticos ou irritadiços, por
incompetentes de todo tipo.* O termo keeper,** pelo qual os bibliotecários
das bibliotecas antigas são ainda designados é, de fato, um importante

* O autor escreveu numa época em que predominavam preconceitos que levavam à exclusão
social dos portadores de necessidades especiais, ao contrário de hoje, quando prevalecem
políticas públicas de inclusão produtiva, respeitadas as aptidões e habilidades dessas
pessoas. Apesar disso, pelo menos no Brasil, ainda se encontram exemplos de escolas
onde a biblioteca serve de abrigo para professores e funcionários que, por algum motivo,
apresentem problemas de desempenho funcional. E é na biblioteca onde muitas vezes ficam
‘encostados’, à espera da aposentadoria. (n.e.)
** Até fins do século xviii, os termos keeper (guardião, zelador), housekeeper, library keeper ou
keeper of printed books eram empregados nos países anglófonos com o sentido de librarian
(bibliotecário). (n.e.)
26 as cinco leis da biblioteconomia

vestígio do período anterior à Primeira Lei. A paródia de um trecho da


República, de Platão, escrita pelo Dr. A.D. Lindsay, diretor do Balliol College,
na aula inaugural de 1928, coincide apropriadamente com esta concepção
de bibliotecário.

Então, em que ocasiões relativas aos livros é o bibliotecário um parceiro


mais útil que outro?
Nos casos em que os livros precisam ser guardados e conservados com
segurança.
E isso não seria o mesmo que dizer ‘Quando não é preciso ler os livros, mas
apenas conservá-los sem serem lidos?’
Sim.
Então, a biblioteconomia é útil para os livros quando eles são inúteis?
Assim parece.
A biblioteconomia, então, meu amigo, não pode ter grande importância,
se for útil para os livros somente quando eles forem inúteis.12

Na realidade, à biblioteconomia, até recentemente, não era dada grande


importância, não importa qual fosse sua finalidade.

1702 Grã-Bretanha
Na verdade, tardou muito para que fosse percebida a necessidade de
um profissional bibliotecário. Se havia um cargo de bibliotecário, não se
sabia quem recrutar, e se havia um bibliotecário, não se sabia o que fazer
com ele. Por quase meio século, até mesmo o University College, Lon-
don, que hoje se transformou num centro de formação de bibliotecários,
costumava deixar sua biblioteca “aos cuidados de um auxiliar, às vezes
dignificado com o título de bibliotecário, mas nunca percebendo mais de £
80 por ano, ou aos cuidados de um bedel da biblioteca”.13
Em sua Story of the University of Edinburgh, sir Alexander Grant registra
que “entre 1635 e 1667 houve uma sucessão de não menos de dez bibliote-
cários; provavelmente, nenhum deles tinha vocação especial para o cargo”.
Quando finalmente conseguiu um bibliotecário que não iria embora, mas
não sabendo o que fazer com ele, foi-lhe solicitado que ficasse incumbido
do “livro de colação de grau, no qual, durante alguns anos, ele registrou
os diplomas concedidos”. Como isso não ocupava todo seu tempo, foi-lhe
dada a função adicional de trabalhar “como secretário do College, cargo
que desde então esteve combinado com o de bibliotecário!” Quando os
livros existiam somente para serem preservados e até se perceber que os
livros são para usar, de que outra forma poderiam o tempo e a energia do
bibliotecário ser utilizados? Edimburgo não foi, de modo algum, a única
a atribuir ao bibliotecário alguns desses encargos diversos, em troca do
salário que lhe pagavam. A vizinha Glasgow fez o mesmo. Conta-se que,
a primeira lei 27

até 1858, “a matrícula e o registro dos alunos eram feitos pelo bibliotecário”
na University of Glasgow.14

1703 Estados Unidos da América


A situação no Novo Mundo também não era muito diferente. Foi so-
mente em época comparativamente recente que, em Harvard ou Yale, era
nomeado um bibliotecário que se dedicaria em tempo integral ao trabalho
na biblioteca. Quando o Kenyon College, que oferecia alojamento para os
estudantes, foi fundado em 1826, as funções do bibliotecário recaíram sobre
a esposa do diretor, a Sra. Chase. Mas o trabalho de bibliotecária não era o
único atribuído a ela. “O cuidado dos afazeres domésticos recaíam sobre
a Sra. Chase. Ela também fazia a contabilidade da instituição e cuidava da
biblioteca”.15 (Grifo nosso.)
Segundo Koch,

Não faz muito tempo que em geral se achava que a biblioteca era o lugar para
a meia aposentadoria de um professor idoso ou um assistente inepto. Ainda
hoje, é comum indagar-se ao bibliotecário se não dispõe de um serviço onde
um acadêmico alquebrado possa prestar ajuda. A necessidade de capacitação,
vigor, vivacidade e aptidão específica para o trabalho bibliotecário ainda não
é percebida por muitos que, apesar da familiaridade ocasional com as biblio-
tecas, deveriam saber melhor que tipo de ajuda se requer para administrar
uma biblioteca.16

1704 Ensinar o uso dos livros


Diz-se que William Frederick Poole, que foi bibliotecário da Newberry
Library nos últimos anos do século xix, teria dito pouco antes de morrer:
“Nenhuma universidade alcançou até agora o elevado padrão de poder
contar com um professor de bibliografia, mas estão caminhando nesta
direção”. Em 1894, o reitor Harper alimentava a esperança de que “alguns
de nós verão o dia em que em cada divisão principal da universidade
haverá professores de bibliografia e de metodologia, cujas funções serão
as de ensinar às pessoas sobre os livros e como usá-los”.17 O mesmo reitor,
porém, estava convencido de que “a instalação da biblioteca jamais estará
pronta enquanto não tiver entre seus funcionários homens e mulheres, cujo
único encargo será não o cuidado de livros, não a catalogação de livros,
mas ministrar instrução sobre seu uso”.18

1705 Índia
Voltando-nos para nosso próprio país, ainda temos que conseguir um
Harper para dirigir alguma das nossas instituições de ensino. Parece que a
realidade não é muito propícia a que alimentemos tal esperança.
A maior parte de nossas faculdades, sem dúvida, começou a incluir em
28 as cinco leis da biblioteconomia

sua folha de pagamento um cargo com o honroso título de ‘bibliotecário’.


Embora o salário mostrado ao lado do item da lista possa sugerir uma
deplorável falta de consideração quanto à necessidade de um bibliotecá-
rio de verdade, que faça com que os livros sejam usados, sua verdadeira
situação somente será compreendida por quem houver, por algum tempo,
trabalhado em alguma dessas faculdades.

1706 Biblioteca de Faculdade


Na maioria das faculdades, o assim chamado bibliotecário não passa
geralmente de um funcionário administrativo, tanto por formação e índole
quanto pelo cargo. Não lhe é dada muita iniciativa e ele tampouco é capaz
de alguma. Passa a maior parte do tempo arrumando os fichários e levando-
-os, ocasionalmente, para uma sala distante, ocupada pelo dignitário — o
‘professor encarregado da biblioteca’ — a quem ele responde e diante de
quem marca presença, na esperança de ser mantido no cargo. Seu auxiliar
é geralmente um atendente, cuja escolaridade está um pouco acima da
que é exigida para uma vaga de peão. Sua função consiste em entregar
livros por cima do gradil que separa o salão de leitura do armazém de
livros, em determinados horários da semana, e também espanar a poeira
das estantes ou arrumar os livros e os arquivos. Nenhum dos funcionários
da biblioteca se identifica com o quadro docente da instituição, para não
falar no acompanhamento do programa de estudos adotado pela facul-
dade; ninguém que possa examinar o material solicitado, para não falar
de reuni-lo de antemão à espera de demanda futura; ninguém que possa
orientar o estudante comum no uso dos livros da biblioteca, para não falar
em ajudar os alunos envolvidos em pesquisa no que concerne aos métodos
de utilização de fontes originais. O ‘professor encarregado’ pode fazer estas
coisas — há ‘professores encarregados’ excepcionais que realmente fazem
essas coisas e merecem todo o crédito. Mas o ‘professor encarregado’ é um
professor e não um bibliotecário, e comumente ele é levado a entender que
sua obrigação começa com a aprovação de cópias autenticadas e termina
com a assinatura de cópias passadas a limpo. Por outro lado, deve-se real-
mente agradecer se o professor não sucumbir à tentação de manter todas as
boas aquisições sob sua guarda exclusiva, obtendo, assim, uma vantagem
temporária sobre os alunos para os quais leciona. Assim agindo, o que é
raro, ele se enquadrará naquela categoria de bibliotecário cuidadosamente
descrita pelo diretor do Balliol na paródia de outra passagem da República.

E ele é um excelente guarda de um exército hábil no roubo de planos do


inimigo e todos os seus preparativos?
Com certeza.
Então, qualquer um que for um hábil guardião de qualquer coisa será
também um hábil ladrão dessa coisa?
a primeira lei 29

Aparentemente.
Então, se o bibliotecário for um hábil guardador de livros, também será
hábil em roubá-los?
Este é certamente o sentido do argumento.

O compromisso das bibliotecas das escolas de nível médio é ainda pior no


que diz respeito ao pessoal. Com muita frequência, um jovem imaturo,
que acabou de passar raspando pelo exame final, é colocado no ‘honroso’
assento (gadi) do bibliotecário. Os colégios de nível médio geralmente têm
um departamento de ensino muito numeroso. Cabe a este departamento,
com frequência, aliviar o diretor da incômoda incumbência de arranjar
ocupação para os jovens, a fim de afastá-los do mal. O registro diário da
frequência horária dos alunos, a preparação mensal das listas de chama-
das nominais nos registros de presença e o registro final das entradas nos
livros de certificados de conclusão da escola secundária são, via de regra,
transformados em seu monopólio. Se isso não o deixar totalmente ocupado,
terá de ajudar o contador na coleta das taxas escolares, ou a penosa tarefa
de manter o estoque de papel e de formulários aguarda por sua atenção.

1707 Biblioteca Escolar


Mas o pior acontece nas bibliotecas escolares. Estas sequer reconhece-
ram a necessidade de ter um empregado administrativo como bibliotecário.
Geralmente solicita-se ao instrutor de educação física ou ao instrutor de
desenho que cuide da biblioteca, caso exista. Numa escola que conheci,
o mais forte e cruel dentre os funcionários foi incumbido de ser o anjo da
guarda da biblioteca. Ganhou o apelido de Mohammad de Ghazni, em
homenagem ao número de tentativas infrutíferas para obter matrícula.* E
ele provou ser um guardião muito zeloso. Era tarde da noite, quando um
aluno aplicado teve a coragem de abordá-lo para pedir um livro para uma
‘leitura extra’. Ele estava morto de cansado depois de seis horas de aulas.
“Que é que você quer?”, trovejou Mohammad de Ghazni, quase cha-
muscando o garoto com seus olhos vermelhos.
“O livro Peeps at many lands: Japan,** senhor”, gaguejou o menino.
“Quanto você tirou no último trimestre?”
“Qua.. quarenta e dois de cinquenta, senhor.”
“Vá embora e consiga os oito pontos restantes antes de pensar em

* Mohammad ou Mahmud de Ghazni (971–1030), sultão de Ghazni, no Afeganistão, que,


entre os anos 1000 e 1025, assolou repetidamente, fala-se em 17 invasões, territórios da
Índia e do Paquistão. (n.e.)
** ‘Uma olhadela em muitos países: Japão’. Volume de uma série de livros com descrições
de diferentes países, destinados ao público juvenil. Alcançou grande êxito na época. (n.e.)
30 as cinco leis da biblioteconomia

‘leitura extra’”, foi a enfática recomendação acompanhada do punho di-


reito do Mohammad de Ghazni, que o pousou, com uma força de doer,
na testa do garoto, trêmulo, que fugiu soluçando para nunca, nunca mais
voltar à biblioteca.

1708 Coração da Escola


Se a escola acreditasse que os livros são para usar pelas crianças,
tê-los-ia confiado aos cuidados deste monstrengo assustador? Por outro
lado, não poderia tê-los colocado sob os cuidados de um simpático bi-
bliotecário de biblioteca infantil, cujo treinamento especializado e cuja
atitude compreensiva teriam atraído todas as crianças para o que é agora
corretamente denominado o ‘coração da escola’? Então, como teriam sido
diferentes as lembranças que as crianças guardariam da escola! Imaginem,
por exemplo, as agradáveis recordações de alguém do Novo Mundo, que
seja contemporâneo do nosso garoto em prantos:

Posso quase afirmar que devo à biblioteca o maior estímulo mental de minha
vida. A imagem do rosto inteligente, de olhos cinzentos, daquele bibliotecário e
o próprio cheiro da sala da biblioteca estão indelevelmente impressos na minha
memória. Pessoalmente, minha dívida com a biblioteca como instituição e com
os bibliotecários como classe é maior do que jamais poderei ter esperança de
pagar com uma gratidão eterna.19

171 O Pessoal da Biblioteca e a Cultura


Mesmo depois de a Primeira Lei ter tido êxito, ao convencer as pesso-
as quanto à necessidade de a biblioteca contar com pessoal especial, de
tempo integral, ainda demorou muito até que as autoridades responsáveis
pelas bibliotecas se dessem conta das qualidades e qualificações essenciais
exigidas para que esse pessoal pudesse cumprir todas as injunções dessa
lei. A luta travada pela Primeira Lei ao estabelecer padrões adequados para a
biblioteconomia foi ainda mais tenaz do que a encetada para fixar horários
adequados para a biblioteca. Sua antecessora — os livros existem para
serem conservados — legara muitas tradições arraigadas. A tradição, como
se sabe, é obstinadamente indiferente ao raciocínio de qualquer natureza.
Não ouviria facilmente os argumentos da Primeira Lei. A analogia, embo-
ra sugestiva, não iria convencê-la. Um vendedor de cereais, obviamente,
deve conhecer todos os tipos de cereais. Um vendedor de tecidos deve
saber tudo sobre vestuário. Um corretor de seguros não pode ter sucesso
se não conhecer tudo sobre tabelas de vida e seu significado. Ninguém
será contratado como professor, a menos que conheça o assunto que tem
que ensinar. Mas foi preciso muito tempo para se perceber que o biblio-
tecário — que tem que se dedicar ao ensino, que tem que encontrar para
cada pessoa o livro que lhe seja adequado, que deve persuadir as pessoas
a primeira lei 31

a se beneficiarem do conhecimento entesourado nos livros, que tem, na


verdade, que auxiliar na educação ao longo da vida de todos e não apenas
de fedelhos imberbes — deve possuir uma cultura muito ampla.

1711 Inglaterra
Em seu humorístico retrospecto dos ‘primeiros tempos’, o Sr. Frank
Pacy, ex-secretário da Library Association britânica, refere-se a certas
impressões interessantes, causadas pela cultura dos primeiros bibliotecá-
rios britânicos. “A pessoa que nos mostrou a biblioteca não sabia nada de
nada.” “O bibliotecário de Westminster não somente se parecia com um
limpa-chaminés, mas era muito surdo.”20 Felizmente, esses dias acabaram.
Atualmente, ninguém no Ocidente questiona o lugar da biblioteconomia
entre as profissões cultas.

1712 Índia
Em nosso país, porém, poucos compreendem, ainda hoje, a necessidade
de pessoal culto trabalhando na biblioteca. Não muito tempo atrás, recebi
de um alto funcionário da educação uma carta patética de recomendação
que dizia, “O portador, você verá, é muito idoso. Ele se apresentou para
o exame de conclusão do ensino secundário mais de umas dez vezes. Não
existe perspectiva alguma de que venha a ser aprovado ainda ‘nesta vida’
(janma). Seria possível aproveitá-lo nem que fosse num cargo adminis-
trativo? Interesso-me por ele. Você poderia recebê-lo em seu quadro de
pessoal? Esta é a única oportunidade que ele tem.” Quando a biblioteca
da Madras University foi fundada, uma das primeiras nomeações para o
‘serviço superior’ da biblioteca foi a de um contínuo do museu da univer-
sidade, pela simples razão de que ele era uma pessoa honesta e de que
não havia nenhuma outra forma para que seu salário fosse aumentado.
Talvez, o precedente para isso esteja no fato de o porteiro da Bodleian Li-
brary ter sido nomeado sub-bibliotecário em 1712.21 Igualmente, quando
um conselho municipal autorizou o presidente de um território federal a
nomear um bibliotecário em tempo parcial para a biblioteca do território
(union), com um salário mensal de 10 rupias, conta-se que esse presidente
logo passou a pagar este salário ao seu criado pessoal, pois ele era uma
pessoa prestativa e iria vigiar zelosamente a biblioteca. Algumas semanas
atrás, um ilustrado professor, nascido na Grã-Bretanha e que serve na Índia,
formulou o princípio segundo o qual a escolaridade de um atendente de
biblioteca não precisava ser tão alta quanto a de um balconista de farmácia.

1713 Uma História


Mais interessante, porém, é a inferência de que um bibliotecário não
pode ser um intelectual. Certa vez, a um proeminente funcionário de uma
32 as cinco leis da biblioteconomia

cidade do norte do país foi solicitado que me recebesse, a mim, um simples


bibliotecário, como seu convidado. Seu constrangimento só foi aliviado
quando um de seus jovens secretários se ofereceu para me hospedar em
sua casa. Entretanto, como desconhecia tal arranjo, dirigi-me diretamente
para a casa do alto funcionário. Ao ver as iniciais ‘m.a.’ [Master of Arts] de-
pois do meu nome imediatamente seu constrangimento deu lugar a uma
sensação de assombro. E ele me recebeu! Terminado o almoço e chegada
a ocasião do pan supari,* o assombro transformou-se em compaixão. Cheio
de simpatia, o douto funcionário condoeu-se do Master of Arts pelo que
o destino lhe reservara. Amaldiçoou os tempos difíceis que levaram um
homem da minha capacidade e cultura a ter que cuidar de uma biblioteca.
Mas esta sincera compaixão foi sobrepujada por uma justa indignação, ao
descobrir que o meu salário era mais alto do que o dele e que as autoridades
haviam esbanjado num cargo de bibliotecário não somente um Master of
Arts do país, mas também uma fatia tão elevada de sua receita. O que me
preocupa é que esse douto funcionário parece ser a regra e não a exceção.

1714 Tanto de Cultura quanto de Capacidade Executiva


A opinião do douto funcionário ocorre naturalmente a quem raramente
usa uma biblioteca e nunca sentiu a influência de uma que fosse moderna
e bem administrada. Mas quem a usou, com assiduidade e seriedade, e
estudou em profundidade algum assunto uma vez na vida, espera encon-
trar entre os funcionários da biblioteca pelo menos um que ‘fale a mesma
língua’ e conheça a bibliografia e a metodologia de seu tema. O reitor da
Western University certa vez observou:

Todo aquele que estiver incumbido de uma biblioteca deverá ser capaz de
lecionar. A capacidade executiva é, sem dúvida, necessária ao bibliotecário,
mas, se não estiver conjugada com uma grande cultura, não será, de forma
alguma, suficiente.

1715 A Cultura Segundo Mark Pattison


Que tipo de pessoa culta deveria a biblioteca recrutar para seu quadro
de pessoal? Certamente não o erudito retratado nos jornais humorísticos
como alguém despido de senso comum, nem o tipo pedante, que seja
inapropriadamente formal e artificioso; nem alguém do tipo especialista,
que sabe ‘cada vez mais sobre cada vez menos’. A biblioteca necessita,
em seu quadro, de pessoas que tenham cultura no sentido dado à palavra
por Mark Pattison, isto é, discernimento, disciplina e hábito científico. Sua
especialidade deve ser a bibliografia, e sua atitude, a de um estudioso.

* Preparado à base de folhas e nozes de bétel e limão, usado como mastigatório. Após as
refeições, suaviza o hálito e funciona como um estimulante suave. (n.e.)
a primeira lei 33

Nas palavras do Public Libraries Committee da Grã-Bretanha, devem ter


conhecimento e familiaridade suficientes com todos os ramos do saber,
a fim de que possam contemplá-los adequadamente na seleção de livros,
de modo a oferecer aos leitores a orientação de que precisam e descobrir,
com a maior rapidez possível, o lugar onde a informação procurada pode
ser encontrada. Devem ser capazes de usar os livros como instrumentos
não somente de disseminação do conhecimento, mas também de expansão
das fronteiras do saber.

1716 Grau Universitário


É por isso que o grau universitário é considerado um requisito normal
para admissão pelas escolas de biblioteconomia do Ocidente, e são exigidos
títulos universitários mais elevados daqueles que aspiram aos postos mais
altos no serviço bibliotecário. Isso também explica a prática recente, em
bibliotecas progressistas, de atrair para seu quadro, como bibliotecários de
referência em tempo parcial, pessoas com larga experiência docente. Foi a
partir desta ótica que Arnold Bennett disse que se as bibliotecas

gastassem menos com livros e mais com pessoal capacitado, alcançariam


resultados muito melhores. Não são livros que faltam nas bibliotecas; o que
falta é a chave para seu uso eficaz. E esta chave está nas qualidades pessoais e
conhecimentos dos bibliotecários e seus auxiliares.

172 Pessoal e Formação Profissional


Mas só cultura não basta para fazer um bibliotecário. Muitas pessoas
pensam que, por terem pendor para a leitura, estão qualificadas para serem
bibliotecários. Bem ilustra este desconhecimento a história ocorrida com
MacAlister e narrada por Augustine Birrel:22

1721 Ignorância
Ainda anteontem, no navio de Calais, fui apresentado a um militar de renome
mundial que, quando soube que eu tinha alguma ligação com a Library Asso-
ciation, exclamou: ‘Pois bem, você é exatamente de quem preciso! Ultimamente,
ando preocupado com meu criado, o velho Atkins. Você pode vê-lo, encurva-
do, procurando abrigo ali atrás da chaminé. Coitado! Já passou do tempo de
trabalhar, mas continua tão fiel quanto um cão. Acabou de ocorrer-me a ideia
de que se você pudesse dar-lhe um empurrãozinho para empregá-lo numa
biblioteca agradável do interior, eu lhe ficaria profundamente agradecido. O
único defeito dele é a paixão pela leitura, de modo que uma biblioteca seria a
coisa mais acertada.’
A habitual senhora da nobreza também esteve na conferência. Desta vez,
estava recomendando sua ex-cozinheira para o cargo de bibliotecária, alegando
a seu favor o mesmo estranho traço de personalidade: a paixão pela leitura.
34 as cinco leis da biblioteconomia

1722 Analogia na Ignorância


O lado patético desse desconhecimento só se compara ao provocado
por um jovem ingênuo que se candidatou ao cargo de ‘leitor de matemá-
tica’ em uma de nossas universidades.* Baseava tal pretensão em sua alta
qualificação, pois acabara de obter o grau de bacharel em matemática, com
aprovação simples, e era ‘apaixonado pela leitura’.

1723 Noções Equivocadas


Entretanto, ainda mais incômoda é a arrogância desdenhosa daqueles
que, além de adorarem os livros, julgam-se competentes para criticar um
estilo literário ou possuem algum conhecimento de uma área especializa-
da do saber. Imaginam que tudo numa biblioteca que esteja além de seu
saber é manual, burocrático, ficando muito abaixo da sua capacidade, e
ignoram o fato de que ainda não passam de uma boa matéria-prima com a
qual se tornariam bibliotecários. Não é raro encontrar um recém-chegado
presunçoso, que se atreve a dizer: ‘O que a indexação tem de importante?’,
querendo com ‘indexação’ dizer ‘catalogação’. Gostaríamos que lhe fosse
permitido tentar ‘indexar’ por alguns meses para descobrir por si mesmo
a confusão que seria capaz de fazer. Outra pessoa, um venerável senhor,
exclamou: ‘Qual a formação exigida para entregar livros no balcão? No meu
tempo, fulano fazia isso de forma notável e não tinha qualquer formação
profissional.’ Bastaria perguntar-lhe: ‘No tempo dele, quantos volumes tinha
a biblioteca nas estantes? Quantos deles se negaram a deixar as estantes
sequer uma única vez em sua longa existência? Quantos volumes eram
acrescentados à sua biblioteca por ano? E quantos dos seus sábios con-
temporâneos alguma vez conheceu uma biblioteca ou sabia qual era sua
finalidade?’ Outro, muito cioso das prerrogativas de sua especialidade, faz
uma observação impertinente: ‘Não é assim que se classifica. É assim que se
cataloga. O trabalho de referência não é de sua competência. Isso é função
dos professores’, e assim por diante. Somos forçados a dizer-lhe, ‘Senhor
Especialista, sou tão especializado no meu ramo quanto o senhor é no seu.
Se seu campo está envolto em mistério e requer uma longa iniciação formal,
o meu também. Atente para o que você pensaria de um fulano, beltrano ou
sicrano que, sem qualquer preparo, fosse meter o bedelho em sua seara.”

1724 Desvantagens de uma Profissão Nova


O fato é que, quando a obrigação da biblioteca era preservar os li-
vros, não havia necessidade de dar treinamento especial ao bibliotecário
‘guardião de livros’. A partir do momento em que os livros são para usar

* Em inglês, reader é sinônimo de professor, da mesma forma que o português leitor, embora
neste caso seja mais empregado para designar o docente contratado por uma universidade
de outro país para lecionar sobre a cultura do país de origem. (n.e.)
a primeira lei 35

entrou no lugar de os livros existem para serem preservados, a bibliote-


conomia recebeu vários encargos que exigiam formação profissional bem
planejada, com tanto estudo e técnica como o que se exige de qualquer
outra profissão superior, seja medicina, engenharia ou direito. Um médico,
um engenheiro e um advogado terão razão para estourar de indignação
se alguém se arriscar a questionar a necessidade de sua formação profis-
sional. Mas o mesmo médico, o mesmo engenheiro e o mesmo advogado
ingenuamente questionarão a necessidade de formação profissional dos
bibliotecários. Isso se deve simplesmente a que medicina, engenharia e
direito são profissões antigas, esquecidas por completo das lutas travadas
para que fosse reconhecida a necessidade de sua formação especializada,
enquanto que a biblioteconomia é uma profissão nova. É natural que quem
hoje se encontra numa posição privilegiada defenda cada centímetro dela
antes de admitir a um estranho o mesmo privilégio. Essa luta só terminará
quando o médico, o engenheiro e o advogado de hoje forem substituídos
por aqueles que tiveram, desde a juventude, o prazer e o benefício de
serem servidos por profissionais bibliotecários tecnicamente qualificados.

1725 Grã-Bretanha
Isso pode parecer um círculo vicioso. Mas sob o coro crescente do novo
canto — os livros são para usar —, em outros lugares as pessoas rompe-
ram este círculo vicioso, e podemos tirar proveito disso. A Grã-Bretanha
há muito decidiu,

i) instruir a opinião pública para exigir que bibliotecários formados sejam


a regra e não a exceção;
ii) fazer valer, junto às autoridades responsáveis pelas bibliotecas, sua
responsabilidade para levar na devida conta a qualificação na seleção de candi-
datos e a conceder facilidades ao quadro de pessoal para que dê continuidade
à sua própria capacitação, tanto técnica como cultural, ao mesmo tempo em
que desempenham seus serviços.23

1726 Outros Países


Os Estados Unidos da América avançaram e criaram quatorze insti-
tuições credenciadas para o ensino da biblioteconomia. Os ministérios da
Educação da maioria dos países da Europa continental assumiram a tarefa
de prover o país de bibliotecários com formação profissional adequada.
O Japão criou, há muito tempo, sua própria escola de biblioteconomia,
enquanto a China possui a Boone Library School.* O mais importante, em

* Fundada em 1920 pela missionária e bibliotecária Mary Elizabeth Wood (1861–1931), da


Igreja Episcopal norte-americana, em Wuchang (hoje Wuhan). O Boone College foi assim
denominado em homenagem a W.J. Boone, primeiro bispo dessa igreja na China. (n.e.)
36 as cinco leis da biblioteconomia

alguns países ocidentais, é que a profissão de bibliotecário saiu há muito


da infância e alcançou a idade madura, produzindo vários ramos, que
apresentam a tendência de desenvolver certa independência e individuali-
dade, de modo que logo teremos várias profissões semi-independentes de
bibliotecários, distribuindo-se em torno do tronco primitivo, assim como
as raízes aéreas, que brotam em profusão dos galhos da gigantesca árvore
baniana,* parecem estar separadas da árvore, mas ainda fazem parte dela,
dando abrigo a milhares de pássaros.

1727 Início na Índia


Vivemos esperançosos. Um pequeno começo está ocorrendo até mes-
mo em nossa terra. Uma nova plantinha desta espécie, a Summer School
of Library Science, foi zelosamente cuidada por dois anos no viveiro da
Madras Library Association. Quando estava pronta para ser transplantada,
encontrou seu lugar no fértil pomar da Madras University. Essa univer-
sidade pode não somente cuidar dela com mais facilidade, mas também
encontrar um mercado para seus frutos. Que essa pequena árvore cresça
cada vez mais! E que a colheita dos seus frutos enriqueça esta terra, do
Himalaia ao cabo Comorim!

173 Pessoal da Biblioteca e sua Posição


O trabalho seguinte da Primeira Lei, em prol do pessoal da biblioteca,
teve que ser orientado na direção da renovação de outro demônio legado
pelo conceito os livros existem para serem preservados. Mesmo depois
que um quadro de pessoal com formação cultural e tecnicamente treinado
foi recrutado, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ofuscadas
pela tradição, não compreendiam a necessidade de revisão da tabela de
salários que fora originalmente projetada para atrair e manter o ‘bibliote-
cário guardião’ e o ‘bibliotecário secretário’. É até provável que a tabela
tenha ficado abaixo da dos chefes dos serventes, ou da do pedreiro ou do
guarda-fios. Embora essa anomalia não tenha abalado a consciência das
autoridades, era uma questão com a qual a Primeira Lei se preocupava
seriamente. Essa tabela de forma alguma atrairia o tipo certo de gente.
E, mesmo que o fizesse, a pessoa que ela conseguisse atrair do exército
de desempregados estaria simplesmente marcando passo, com a mente
e o coração em outro lugar. Até mesmo a pouca experiência que viesse a
acumular estaria logo perdida para a biblioteca, uma vez que aproveitaria
a primeira oportunidade para deixá-la. Por uma ou duas gerações, nos
primeiros tempos da Primeira Lei, quando as autoridades responsáveis

* Ficus benghalensis, conhecida também como figueira, figueira-baniana, figueira-de-bengala,


árvore-da-borracha, falsa-seringueira, etc. A metáfora desta árvore, considerada sagrada
pelo hinduísmo, é retomada pelo autor em seus estudos sobre classificação. (n.e.)
a primeira lei 37

pelas bibliotecas consistiam, em sua maioria, de pessoas que jamais haviam


recebido a influência de uma biblioteca, cujo lema orientador fosse os li-
vros são para usar, quando o trabalho do pessoal da biblioteca não podia
nem ser apreciado nem avaliado adequadamente, era, de fato, uma tarefa
árdua para a Primeira Lei convencer as autoridades sobre a necessidade
de se fixar uma tabela salarial equitativa.

1731 Perigos de um Pessoal Malremunerado


A Primeira Lei sabia que pessoal insatisfeito era um risco social. Mesmo
sem levar em conta essa palavra de ordem genérica, sabia que o pessoal
malremunerado não teria o entusiasmo necessário para cumprir, com êxito,
sua missão. E se o cumprisse, o entusiasmo, o zelo e a solicitude não teriam
o resultado esperado. As palavras do pobre, mesmo quando proveitosas,
são raramente ouvidas.24

Seriam menosprezadas como intromissão egoísta, embora o desdém


induzido na mente do leitor pelo seu baixo salário viesse a repercutir no
próprio leitor. Seria o caso de dizer: que se lixe o leitor! Mas, assim, o uso
dos livros da biblioteca haveria de sofrer e isso é assunto que merece muita
atenção, para quem crê na Primeira Lei.

1732 Posição e Dinheiro


Certo ou errado, a sociedade humana desenvolveu a economia com base
no dinheiro. Uma análise simples das bases da teoria do valor revelará,
para espanto de muitos, que os pés do deus Mamona são de barro. Mas,
o que é o bem? Será a maioria das pessoas guiada pelo supremo valor
das coisas? “Um enfático não”, é a resposta daquele sagaz professor de
Sabedoria Terrena, Bhartrihari.25 “Por outro lado”, diz ele,

acredita-se que aquele que tiver riquezas terá o mais azul dos sangues correndo
nas veias. É tomado por sábio. Passa por mais bem informado. É considerado
o mais distinto. Sua oratória é enaltecida como inigualável. E a sua imagem é
descrita como a mais formosa. É o ouro sob sua posse que determina a quali-
dade de cada um de seus atributos.

­
38 as cinco leis da biblioteconomia

With reason may ye wele se,­


That Peny wyll mayster be,­
Prove nowe man of mode;­
[...]
­He makyth the fals to be soende­
And ryght puttys to the grounde.*26
­

1733 Remunere Bem o Pessoal


O dinheiro, portanto, rege o mundo. Ele determina a posição das pes-
soas, da mesma forma que regula o valor dos serviços prestados por elas.
Infelizmente, as pessoas só estão dispostas a usufruir de um serviço na
proporção do valor que lhe for atribuído pelo dinheiro. Assim, funcionários
que passem fome tornarão os esforços da Primeira Lei tão fúteis quanto a
escassez de livros ou a escassez de leitores. Na tríade da biblioteca — livros,
funcionários e leitores — a riqueza dos funcionários em bens mundanos
parece ser tão necessária quanto a riqueza dos outros dois em número e
variedade, se se quiser que a lei os livros são para usar seja traduzida
na prática. Assim terá que ser, enquanto a condição social das pessoas
for deixada ao controle caprichoso e arbitrário do deus Mamona. “Por
conseguinte, remunere bem o pessoal da biblioteca”, diz a Primeira Lei.

1734 Benefícios Tardios


Um empecilho importante, que o serviço prestado pela biblioteca
apresenta, para que receba o que merece, consiste em que os benefícios
que ele proporciona se manifestam com certa demora. O médico ganha
suas quinze rupias por uma única visita, pois as pessoas acreditam que a
vida ou a morte do paciente nas horas seguintes depende do seu atendi-
mento. O advogado ganha cem rupias para ficar de pé por uma hora, pois
as pessoas acreditam que a propriedade de um bem no minuto seguinte
depende do seu serviço. Mas os benefícios do serviço proporcionado pelo
pessoal da biblioteca, da mesma forma que os serviços ministrados pelo
professor, não são percebidos de imediato, nem mesmo no ano ou década
seguintes. Seus benefícios, embora mais universais e duradouros, tornar-
-se-ão evidentes somente uma ou duas gerações mais tarde, quando as
pessoas que deveriam abrir a carteira e pagar por eles, já estarão mortas
ou esquecidas. Trata-se de um predicado angustiante, que parece que
lhe foi atribuído por Deus num momento em que talvez estivesse com a
intenção de fazer uma travessura.

* De uma poesia popular inglesa do século xv intitulada Syr Peny (Dom Dinheiro). Possui
versões, algumas anteriores, em outras línguas. “Com razão você verá / que o dinheiro será
o senhor, / comprove-o agora almofadinha / [...] / Ele transforma o falso em verdadeiro /
E arrasa o que está certo .” (n.e.)
a primeira lei 39

1735 Progresso no Ocidente


Apesar disso, a Primeira Lei já chegou perto do sucesso em países do
Ocidente para eliminar os efeitos dessa travessura. A sociedade ocidental
está hoje preparada para admitir que um bibliotecário universitário deva ter
o mesmo nível e o mesmo salário de um decano da universidade, que um
bibliotecário de faculdade deve receber tratamento semelhante ao de um
professor, que um bibliotecário escolar não é de forma alguma inferior a um
professor e que um bibliotecário municipal merece o mesmo pagamento,
os mesmos direitos e os mesmos privilégios que os demais funcionários
do município, como o engenheiro, o sanitarista, o funcionário graduado
da Receita e o funcionário graduado da Educação.

1736 Apelo à Índia


Quando a Índia se equiparará às suas irmãs ocidentais? Irá ela apro-
veitar a experiência de suas irmãs ou fechará os olhos para elas e trilhará
cada centímetro daquele velho e incômodo caminho? Se agir dessa maneira,
seus filhos jamais alcançarão seus primos na sua marcha para o progresso.
Esperemos e oremos para que ela não tome este curso fatal, mas mergulhe
na primeira crista da onda do progresso, triunfalmente coloque seus bibliote-
cários em pé de igualdade com os de outros países, e, dessa forma, aumente
a possibilidade de a Primeira Lei da biblioteconomia conduzir os filhos
da Índia, há muito tempo negligenciados, à mesma posição de vantagem
que esta lei foi capaz de assegurar às outras nações do mundo. Amém!

1737 Na Índia Medieval


Uma luz esclarecedora incidiu sobre a posição que as bibliotecas ocupa-
vam nas instituições educacionais da Índia medieval graças às Inscriptions
of Nagai, publicação no 8 da Hyderabad Archaeological Series.27
Nagai é uma vila perto de Wadi e ali existiu uma antiga cidade, hoje
desaparecida, que deixou um legado de vários monumentos e inscrições
de grande valor histórico.
Uma inscrição na língua cânada, no templo de sessenta colunas, cha-
mado ‘Aruvathu Kambada Gudi’ dessa vila, que se supõe datar do dia
que corresponde a 24 de dezembro de 1058 d.C., faz um relato sobre as
instituições públicas fundadas por Madusudana, famoso general e ministro
do rei de Chalukya, Rayanarayana. Uma das instituições por ele fundadas
foi um colégio interno chamado Chatikasala, destinado a duzentos sábios
que estudavam os Vedas e cinquenta e dois que estudavam os sastras.* O

* Os Vedas são os livros sagrados da literatura e religião védica. Os sastras ou shastras são
obras que tratam das regras de conduta dos seguidores do hinduísmo. A palavra que
designava as bibliotecas na Índia antiga era sarasvati-bhandagaras, que significava ‘casas
do tesouro da deusa do saber’. (n.e.)
40 as cinco leis da biblioteconomia

colégio era “administrado por três professores de Vedas, três professores


de Sastras [...] e seis bibliotecários (sarasvati-bhandarikas)”.
Se a presença de seis bibliotecários tem alguma importância, talvez se
possa com razão inferir que a biblioteca anexa ao colégio deve ter sido de
tamanho e utilidade consideráveis. Somos ainda tentados a comparar essa
biblioteca universitária medieval com nossas bibliotecas universitárias de
agora, que são tão notoriamente indiferentes e relutantes, tanto no que
tange ao melhoramento de seus recursos bibliográficos como ao supri-
-las com os recursos humanos necessários para auxiliar os professores e
estudantes na utilização adequada de seus recursos.
Um verso de data posterior na mesma inscrição mostra que Madusu-
dana estava muito à nossa frente, ao definir a posição dos bibliotecários
da faculdade. Pois a distribuição de terra aos professores e bibliotecários,
em lugar do salário, era feita do seguinte modo:
48 unidades (materiais) de terra para o professor de Prabhakara darsana.
35 unidades para o professor de Bhatta darsana.
30 unidades para o professor de Nyaya.
20 unidades para o professor de Vendangas.*
30 unidades para cada um dos seis bibliotecários, e assim por diante.
Isto mostra que Madusudana tratava professores e bibliotecários quase
da mesma forma e ainda é possível deduzir que suas qualificações acadê-
micas também seriam de igual ordem.
As instituições educacionais do Ocidente, que avaliam corretamente o
lugar que as bibliotecas devem ocupar, colocam os bibliotecários na posição
de docentes e, em compensação, insistem em que tenham alta qualificação
acadêmica. Espera-se ardentemente que o padrão definido por nosso ilustre
patrício Madusudana, que se aproxima tanto da prática atual de outros
países, seja logo alcançado por nossas universidades, faculdades e escolas.

174 Pessoal da Biblioteca e sua Responsabilidade


Vimos que a tarefa essencial da Primeira Lei era educar as autoridades
a respeito do pessoal da biblioteca, e que ela foi cumprida passo a passo
em quatro estágios. Primeiro, convenceu-as da necessidade de pessoal
especializado, depois, de pessoal com cultura, em seguida, de pessoal capa-
citado, e finalmente de pessoal bem remunerado. Sua segunda tarefa, nesta
questão, foi afinar o mesmo pessoal ao tom adequado. De fato, seria trágico
se o próprio pessoal da biblioteca, como Sugriva,** esquecesse a causa
nobilíssima que lhes garantiu instrução, pagamento dos estudos e posição.

* As matérias lecionadas pelos professores tratam do estudo de obras essenciais da filosofia


hindu. (n.e.)
** Na mitologia hindu, Sugriva é o rei dos macacos que se esqueceu de cumprir a promessa
de ajudar a libertar da prisão Sita Devi, a esposa do herói Rama. (n.e.)
a primeira lei 41

28

Os melhores prêmios são como a maçã do Éden. E quem deles estiver


usufruindo precisará de vez em quando perscrutar o coração, à luz das
palavras indignadas dos filhos de Kausalya e Sumitra.29 A cada instante o
pessoal da biblioteca deve lembrar-se que os livros são para usar. Jamais
deve cair no estado de espírito de seu ancestral da Bodleian Library, do
qual se diz que “era um bibliotecário muito bom em alguns sentidos; mas
odiava quem se aproximasse dos seus livros”.30 Jamais deve esquecer que
nas bibliotecas os livros são reunidos para serem usados, preparados para
serem usados, guardados para serem usados e oferecidos para serem usa-
dos. Os intermináveis processos e rotinas técnicas — receber sugestões dos
especialistas, adquirir por compra ou doação, registrar, classificar, catalogar,
registrar o número de chamada, colocar nas estantes, emprestar e dar baixa
— tudo isso é executado tendo como única finalidade o uso. Para cumprir
esta suprema missão da Primeira Lei do modo mais amplo possível, o
pessoal da biblioteca deve não só lembrar-se constantemente desta missão,
não só adquirir a necessária cultura e formação profissional, mas também
desenvolver certas atitudes e interesses, que são também indispensáveis.

175 O Pessoal da Biblioteca e os Leitores


Em primeiro lugar está a atitude diante dos leitores. Talvez pareça
supérfluo ter que afirmar que os leitores constituem uma parte essencial
do trabalho de uma biblioteca viva. Mas, infelizmente, há pessoas que não
conseguem abandonar o hábito de ver os leitores como um estorvo. Há
outras que somente permitem o ingresso dos leitores se eles se lembrarem
que estão ali graças à sua tolerância e não têm direito algum de pedir nada,
menos ainda qualquer conforto que propicie o estudo. Há ainda outras
que não se importarão de prestar atenção às necessidades dos leitores, se
isso não interferir na meticulosa execução de sua rotina administrativa.
Seu lema é ‘administração’ primeiro, tudo o mais, inclusive os ‘leitores’,
depois. Cerca de um século e meio atrás, quando a Primeira Lei não era
amplamente conhecida, uma biblioteca com esta perspectiva talvez tivesse
sido tolerada. Na verdade, infelizmente era assim mesmo.

1751 Anacronismo
Durante quase meio século, a partir de 1763, a Bodleian Library, de
Oxford, esteve nas mãos do reverendo John Price, do Jesus College. Bem no
começo de sua carreira de bibliotecário, em 1771, foi publicado A journal of a
42 as cinco leis da biblioteconomia

voyage round the world, do capitão Cook, e havia uma grande procura dessa
obra. Mas nosso bibliotecário Price emprestou imediatamente o exemplar
da biblioteca para um amigo e pediu-lhe que ficasse com ele o maior tempo
possível. Assim, não seria “importunado constantemente pelos leitores
que o procurassem”. O bibliotecário Price, de bom grado, teria tido uma
biblioteca sem leitores. Na verdade, dele se diz que “desencorajava os
leitores por negligência e por grosseria”. Apesar disso, foi-lhe permitido
dirigir a Bodleian, sem qualquer estorvo, durante toda a metade de um
século e instalar no seu ‘trono’ o próprio genro, que era farinha do mesmo
saco, e conseguiu nele se manter com igual determinação por outro meio
século. Mas o bibliotecário Price é hoje um anacronismo. Uma biblioteca
moderna não pode existir sem leitores. A ‘negligência’ e a ‘grosseria’ mu-
daram de lado, por assim dizer, pois não é mais o leitor que tem que tolerar
docilmente a ‘grosseria’ do pessoal da biblioteca, mas, infelizmente, é o
pessoal da biblioteca que, calado, tem que suportar a grosseria que parte,
de vez em quando, de leitores descorteses e presunçosos.

1752 Boas-Vindas e Atenção


A biblioteca deve hoje em dia adotar os métodos de uma loja moderna.
É verdade que, em inúmeras bibliotecas, talvez não seja possível contar
com um número suficiente de auxiliares, que fiquem simplesmente por ali
à espera de que apareça alguém. Haverá consultas a serem pesquisadas,
cartas para responder, fichas catalográficas para redigir e mil e outras coi-
sas para fazer. Mas, apesar disso, assim que um leitor entrar na biblioteca,
prevalecerá a regra segundo a qual qualquer que seja o trabalho em curso
deverá ser imediatamente interrompido de modo que o leitor perceba que
teve boa acolhida e atenção.

1753 Bom Humor e Cortesia


Sabemos que é muito importuno quando estamos bem no meio do tra-
balho de somar uma coluna de números e alguém chega repentinamente.
E pior ainda é descobrir que a pessoa quer simplesmente dar uma olhadi-
nha, sem procurar nada em particular. Mas isso são detalhes mandados
para nos testar; devemos manter uma atitude cordial e, de modo algum,
sermos indelicados. É muito importante lembrar que o ‘cliente adora um
atendente cordial’.

1754 Comportamento Equivocado


A conduta dos funcionários da biblioteca não deve, absolutamente,
ensejar este tipo de comentário: “Estivemos, há pouco, naquela biblioteca
bonita e imponente. Encontramos uma figura, de quem emanava um ir-
ritante cheiro de essência de eucalipto, cuidando da biblioteca, inclinada
a primeira lei 43

sobre o balcão, aparentemente endereçando envelopes. Ao chegarmos,


nossa presença nem foi notada e somente depois de passados alguns
minutos essa figura nos fez saber que estava viva. E, ao fazê-lo, podia-se
ler claramente em seu semblante: ‘Gostaria que as pessoas não entrassem
quando tenho de terminar meu trabalho’. Na verdade, porém, pergun-
tou: ‘Em que lhes posso ser útil?’, sem se erguer da cadeira. Ao explicar
o que queríamos e dele ouvir ‘Lamento, mas esse livro está emprestado’,
não ficamos com a certeza de que estivesse lamentando ou mesmo de que
soubesse qual o livro que procurávamos e ficamos a imaginar se de fato
o livro não estivera nas estantes o tempo todo.”

1755 Comportamento Correto


Por outro lado, o ideal seria que, ao voltar para casa, os leitores dis-
sessem: “O jovem que nos atendeu naquela biblioteca tinha um sorriso
tão cativante que iluminava toda a sala e sentimos com muita certeza que
tínhamos ido ao lugar certo. Tudo ali é tão confortável. Qualquer dia desses,
gostaria de voltar lá nas minhas horas de folga.” Todo leitor deve sentir
a presença da personalidade radiante do bibliotecário. Como Krishna, o
bibliotecário, de vez em quando, deve colocar-se ao lado de cada leitor.
Não permanecer grudado ao assento, nem se refugiar na sala de descanso.
Deve circular entre os leitores e estar sempre disponível para eles.

176 Pessoal da Biblioteca e Psicologia


Depois de saudá-los, deve-se traçar um perfil mental dos leitores e en-
trar em sintonia com ele. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o bibliotecário
precisa ser um psicólogo. Melhor ainda seria se todos os funcionários da
biblioteca fossem psicólogos, para alcançar os melhores resultados. Será
que isso implica que todo o pessoal da biblioteca deva seguir um curso for-
mal sobre teoria da psicologia? Nada disso, embora não fizesse mal algum.
Até uma criança aprende, pela observação, o tipo de tática necessária para
se entender com os pais e professores. Assim também, todo funcionário
da biblioteca, que tem inúmeras oportunidades de observar as pessoas,
deve adquirir, pela prática, um conhecimento operacional de psicologia
e a capacidade de entender a natureza humana. É função do bibliotecário
saber lidar com todos os tipos de leitores e não só com os que se mostram
dóceis. O bibliotecário realmente bem-sucedido deve ser capaz de lidar
com leitores difíceis. Caso contrário, seus livros ficarão sem uso em igual
proporção. Quantas vezes o bibliotecário atribui seu fracasso à insensatez
do leitor! Conhecer os livros é somente metade da batalha. Quase tão fatal
quanto ignorar a diferença entre João e José é desconhecer a diferença
entre Newton e Einstein. Para lidar com êxito com o leitor difícil é preciso
entendê-lo. Ele resmunga? Se resmunga, quer dar a entender isso mesmo
44 as cinco leis da biblioteconomia

ou se trata de simples afetação? É realmente uma pessoa mal-humorada


ou apenas seu jeito é desagradável? Muitos leitores potenciais se afastarão
do balcão de atendimento se nos esquivarmos de enfrentar o problema do
visitante sem modos, desagradável, nervoso ou excessivamente crítico. O
êxito estará em nossa competência ao traçarmos rapidamente o perfil da-
queles de trato fácil, e na paciência e inteligência que tivermos ao estudar
e lidar com os que são difíceis.

1761 Exemplo
Há alguns anos, um indiano de turbante estava de plantão no departa-
mento de referência de uma biblioteca inglesa. Um inglês de cartola entrou
com a habitual familiaridade, mas se sentiu intimidado ao ver aquela figura
exótica na área reservada ao pessoal.
O bibliotecário indiano ofereceu-lhe ajuda, disfarçando cuidadosamente
a sensação que lhe provocara aquele olhar assustado.
— Não, obrigado — foi a resposta polida, e o inglês passou a percorrer
as estantes.
Passados alguns minutos, o indiano aproximou-se com outro ‘em que
posso ser útil?’
— Muito obrigado. Onde estão os livros sobre temperança? — foi a
única resposta relutante.
Em seguida, livro após livro da seção de ‘temperança’ foi aberto e
fechado em rápida sucessão. O relógio era tirado do bolso a cada minuto.
Evidentemente, tinha pressa. Ainda não havia encontrado o que procurava
e já eram 16 h 45 min. Coitado!
— Se o senhor me disser exatamente o que procura sobre temperança,
talvez eu possa ajudá-lo — foi o novo oferecimento do indiano de plantão.
Desta vez, com a cabeça virada para o outro lado, o cavalheiro de
cartola disse:
— Tenho que presidir uma reunião sobre temperança. Preciso de algo
para meu discurso de abertura. Será que você pode me ajudar? O meu
trem sai às cinco e quinze.
Instantaneamente, um volume da enciclopédia que ficava em outro lu-
gar da sala ofereceu-lhe aquele algo que ele procurava, e ele partiu com uma
profusão de agradecimentos, que cintilavam de seus lábios sorridentes.

1762 Vencer a Timidez dos Leitores


“A que se deve esse comportamento estranho?” perguntou o novo
bibliotecário de referência, quando a biblioteca estava sendo fechada no
fim do expediente daquele dia. “Timidez, meu amigo, timidez”, foi a
resposta de um experiente colega, que acrescentou, “se você quiser ser
a primeira lei 45

um bibliotecário de referência, deve aprender a superar não apenas sua


timidez, mas também a dos outros!”

1763 Trabalho com o Leitor


Situação comum é a do consulente que chega à biblioteca e que você
nunca viu antes. Ele diz o que precisa. Você lhe mostra os livros que acha
que servirão. Você deve observá-lo continuamente para verificar se sua
primeira impressão está correta ou se precisa revê-la. Acima de tudo, você
não deve impor-lhe suas ideias, suas preferências e suas antipatias. Se lhe
oferecer a nova edição em formato grande do Vanbrough e ele disser ‘não
gosto de Vanbrough, ele é horrível’, será melhor não insistir, e tratar de
passar para a estante seguinte. Não discuta sobre isso. Ah! Somos todos
humanos e ao tentar provar que estamos corretos, perdemos de vista nosso
objetivo principal, que consiste em ajudar o consulente a encontrar o que
pode usar com prazer e proveito. Trabalhe com o leitor. Não o influencie.
Você pode orientá-lo, mas não arrastá-lo. Trabalhe com ele respeitando sua
posição. Se ele for vaidoso, aproveite essa qualidade. Se fala de si próprio,
ouça com respeito, mas não deixe que ele se afaste muito do assunto, ou
seja, a escolha dos livros. Se for insensato e irrequieto, mostre-lhe o mais
cedo possível que pode ser categórico e que conhece os direitos e poderes
atribuídos a você. Mas não ceda à tentação de cair numa conversa agra-
dável, pelo simples prazer dessa conversa, por mais agradável que seja.

1764 Dois Grupos de Leitores


Os consulentes dividem-se em dois grupos: os que querem atenção
imediata, para que possam ir embora o mais rápido possível, e os que
querem fazer uma seleção sem pressa e sem muita ajuda. Erros de diag-
nóstico nesse momento criam uma impressão desfavorável imediata e
duradoura. O erro é usar um cumprimento estereotipado para todos os
visitantes. Deve-se buscar uma resposta para a pergunta ‘em que grupo
este leitor se enquadra’ e atendê-lo de acordo com esta análise.

1765 Ramo Especial da Psicologia


“O mesmo Polônio de sempre aparece para dar conselhos!” poderia
alguém zombar. Mas uma breve reflexão mostrará o tamanho do desserviço
que causaria à Primeira Lei da biblioteconomia, se fossem desprezados
alguns desses preceitos aparentemente banais. Todo bibliotecário que
tiver sido obrigado a lidar com muitos funcionários lembrar-se-á com
que frequência em sua carreira foi preciso pregar esses preceitos aos seus
colegas. Se houver dúvida quanto à imparcialidade desse testemunho,
eis as palavras ponderadas deliberadamente incorporadas em relatório
46 as cinco leis da biblioteconomia

‘apresentado pelo presidente do Board of Education ao parlamento por


ordem de Sua Majestade’, em maio de 1927:

A disposição de ajudar, a paciência diante da estultícia, o controle do tempe-


ramento diante de provocações devem ser inculcados em cada auxiliar e em
cada atendente da biblioteca, ao mesmo tempo que os membros de hierarquia
superior necessitam cultivar o estudo da natureza humana, um tipo de estudo
que talvez quase possa aspirar à posição de um ramo especial da psicologia. O
fator humano tem uma importância tão grande na administração das bibliotecas
que conviria solicitar às escolas de biblioteconomia e aos cursos de treinamento
que dediquem parte de sua atenção a orientações sobre este tema.31

177 Os Funcionários da Biblioteca e o Serviço Pessoal


O prazer de compreender a natureza humana e lidar com casos difí-
ceis não deve, entretanto, ser visto como o início e o fim da biblioteconomia.
São apenas meios para alcançar um fim. O que é uma biblioteca? Uma
biblioteca é uma coleção de livros mantidos para serem usados. A biblio-
teconomia, por conseguinte, consiste em estabelecer a ligação entre um
usuário e um livro. Portanto, a própria existência da biblioteca consiste
no serviço pessoal prestado aos consulentes. De qualquer maneira, isso é
o que impera nas bibliotecas que acreditam sinceramente que os livros
são para usar. Esta Primeira Lei da biblioteconomia é um capataz firme.
Uma vez que se admita sua doutrina, fica impossível fugir da conclusão
lógica à qual nos arrastará. Ela dirá, por exemplo, “se a biblioteca mantém
livros para serem usados, o trabalho do bibliotecário não consiste em
baixar das estantes um monte de livros e dizer aos leitores que se sirvam.
Nem se deve abastecê-los à força com livros de nossa escolha. É preciso
ajudá-los, e ajudar alguém significa cooperar com ele para levar a cabo seus
próprios planos e desejos — ajudá-lo a ajudar-se a si mesmo.” Este é o tipo
de serviço pessoal que a Primeira Lei espera dos funcionários da biblioteca,
se de fato pretendem auxiliá-la no cumprimento de sua missão. É digno
de nota o fato de as solicitações individuais por esse serviço pessoal estarem
crescendo. A resposta a essas solicitações devem ser livros selecionados
de modo a coincidirem com as necessidades individuais e acompanhados
por uma orientação hábil.

1771 Necessidades Individuais Diferentes


Há quem almeje melhorar suas perspectivas de vida; há quem almeje
complementar a educação formal recebida na escola; há quem almeje
ampliá-la, ingressando em novos campos do conhecimento; há quem
almeje reunir dados de certo tipo; há quem almeje ler pelo simples prazer
de ler. A essas diferentes necessidades individuais o pessoal da biblioteca
deve atender com igual eficiência. Para prestar esse serviço pessoal, o co-
a primeira lei 47

nhecimento e a experiência dos funcionários da biblioteca devem ser de tal


natureza que eles sejam capazes de recomendar, com o devido discerni-
mento, livros adequados sobre um mesmo assunto para homens e mulheres
que difiram amplamente em termos de aptidão, educação e objetivos.
Por exemplo, todo mundo quer ler a respeito da teoria da relatividade e
temos inúmeros livros sobre este tema. Será que qualquer um ou todos
esses livros atendem aos requisitos de qualquer leitor? Será que Relativi-
ty, de Lodge, Readable relativity, de Durell, Reign of relativity, de Haldane,
Meaning of relativity, de Einstein, A. B. C. of relativity, de Russell, Principles
of relativity, de Whitehead, Mathematical theory of relativity, de Eddington,
e Origin, nature and influence of relativity, de Bikhoff agradariam a todos
da mesma forma? Um destes títulos talvez seja muito ruim na avaliação
de determinada pessoa, mas pode ser o único que apresenta a teoria da
relatividade no nível de compreensão de outras pessoas. Outro pode ser
muito especulativo, mas este talvez seja o único aspecto da relatividade
que agradaria a algumas pessoas. Um terceiro pode ser muito místico, mas
há almas que se deleitam no misticismo. E ainda outro talvez adote um
tratamento do tema que constitui um desafio ao mais consumado estudante
avançado de matemática, mas que pode ser o verdadeiro osso duro que
ele buscava encontrar para praticar sua capacidade de roer. É nesta selva
de publicações, de dimensões perturbadoras mesmo para quem lida com
ela constantemente, de um lado, e a igualmente atordoante variedade dos
gostos e capacidades dos leitores, de outro lado, que tornam o serviço pessoal
dos funcionários da biblioteca indispensável para efetuar o contato entre
o leitor certo e o livro certo no tempo certo e da maneira certa.

1772 Serviço de Inteligência da Comunidade


Nas palavras de William S. Learned,

A biblioteca do futuro será um serviço de inteligência da comunidade. Exigirá


pessoal altamente especializado, que deverá, assim como os professores de
uma faculdade, estar familiarizado com a literatura de um campo estrita-
mente delimitado e ter além disso aquela aptidão que frequentemente falta
por completo ao professor, qual seja a capacidade de rapidamente captar a
bagagem intelectual do consulente e entender intuitivamente a natureza de
sua necessidade pessoal.32

Para atender às demandas da Primeira Lei em matéria de serviço pessoal, os


funcionários da biblioteca devem também estar preparados para recorrer a
especialistas, sempre que necessário, em busca de orientação sobre livros
que possam ser recomendados a leitores interessados em estudar ou se
deleitar em ramos recônditos do saber.
48 as cinco leis da biblioteconomia

1773 O Que Torna Grande uma Biblioteca


Além disso, os funcionários devem ter personalidade, tato, entusiasmo
e simpatia. Na verdade, a relação entre bibliotecário e leitor deve ser a
mais fácil e agradável, não a de um superior dizendo a um inferior quais
os livros que deve ler, não a de um professor ensinando a uma criança,
mas de dois iguais trocando pontos de vista e informação sobre livros. Em
suma, o bibliotecário deve ser ‘amigo, filósofo e guia’ para todo aquele
que vier a usar a biblioteca. É esse serviço pessoal simpático junto com “essa
hospitalidade que tornam grande uma biblioteca, não o seu tamanho”,
como diz o poeta Rabindra Nath Tagore.33

178 O Pessoal da Biblioteca e o Serviço à Comunidade


O resultado lógico do conceito os livros são para usar é um serviço pesso-
al executado com elevada boa vontade. Percebe-se facilmente que somente
pessoas dotadas de irrefreável anseio interior de servir à comunidade é que
podem chegar a ser bibliotecários, atingindo o alto padrão estabelecido pela
Primeira Lei. Percebe-se que nem a cultura, nem o treinamento profissional,
nem o elevado salário podem, de per si, formar um bibliotecário, por mais
que sejam necessários. A cultura pode levar a um retraimento fleugmáti-
co, a formação profissional pode resultar em fatuidade arrogante e o alto
salário gerar insociabilidade. Tudo isso poderá se submeter ao objetivo
da Primeira Lei somente se houver aquela ‘disposição mental’ — nata ou
cultivada — que levou nosso santo Tayumanavar a explodir em versos
arrebatados, argumentando com Ele, o Maior dos Maiores:34

­
“Se somente me concederdes a disposição de servir a meus semelhantes,
a condição de prazer virá espontaneamente até mim.”35

1781 Bibliotecário Pioneiro


Este prazer com o serviço à comunidade é requisito para qualquer
bibliotecário. É absolutamente necessário para alguém que deva lançar a
primeira semente do movimento em prol das bibliotecas numa sociedade
ou num país. As incisivas palavras de Edward Edwards, um dos baluartes
do movimento por bibliotecas na Inglaterra no século xix, ao enumerar
as dificuldades e as recompensas que um bibliotecário pioneiro enfrenta,
serão uma fonte de conforto e estímulo para muitos dos funcionários de
bibliotecas de hoje em dia nesta parte do mundo:

Deve encontrar lenitivo entre os desestímulos por um trabalho pouco apre-


ciado [...] Trabalho feito sob a direção de homens que não entendem suas
dificuldades, nem apreciam seus resultados, provavelmente estará fadado a ser
a primeira lei 49

prestado com relutância. Torna-se cada vez mais difícil admitir que o aplauso
não seja o objetivo correto do trabalho; que a busca que for muito afetada por
recompensas imediatas, ou por sua ausência, deve ser imerecida ou realizada
de forma imerecida. Mas ainda existe um amplo terreno para se perseverar com
firmeza e alegria. Cada passo dado para ampliar a utilidade da biblioteca — para
difundir por toda a parte as melhores ideias dos melhores pensadores — faz
minar ainda mais o terreno dos abusos sociais que com tanta frequência têm
exercido influência dominante nas instituições públicas deixando-as ao alcance
de ladinos aproveitadores ou demagogos espalhafatosos.36

18 Não se Enamore dos Frutos


Mas não há necessidade de invocar a ajuda dessa história de mina ou
esperar uma recompensa ainda que remota. A Primeira Lei diria: “Plante
sua alegria e sua perseverança nas minhas palavras, os livros são para
usar. Seu dever é servir por intermédio dos livros. Servir é sua alçada.
Não as recompensas. Não vacile. Não se enamore dos frutos. Avance sem
se deixar influenciar por qualquer recompensa, real ou fictícia, remota
ou imediata.” Para o bibliotecário, as celebradas palavras do Senhor Sri
Krishna possuem um apelo especial:

Teu direito é à ação apenas e jamais aos frutos.


Não deixai que os frutos da ação sejam o motivo.
Nem te deixes apegar à inação.
50 as cinco leis da biblioteconomia

CAPÍTULO 2

A SEGUNDA LEI E SUA LUTA

20 Introdução
No capítulo anterior, reconstituímos o lento surgimento da Primeira Lei
e examinamos, de modo sucinto, seu efeito no método de guardar livros,
na localização, horários, mobiliário e pessoal da biblioteca. As mudanças
causadas pela Primeira Lei em todas estas questões foram fundamentais.
Se fosse para definir numa palavra o efeito final desta Primeira Lei, ela
seria revolução. Uma vez radicalmente transformada a perspectiva, outras
coisas vieram com o tempo.

201 Enunciado
A Segunda Lei da biblioteconomia surge no encalço da Primeira Lei
para que essa revolução avance mais. Se a Primeira substituiu o conceito
os livros existem para serem preservados, a Segunda dilata o conceito os
livros são para os poucos eleitos. Se o grito revolucionário da Primeira
era os livros são para usar, o da Segunda é os livros são para todos. Se
a abordagem da Primeira se fazia pelo lado dos livros, a da Segunda se
faz pelo lado dos usuários de livros. Se a Primeira vivificava a biblioteca,
a Segunda amplia-a para um problema nacional. Se a Primeira escancarou
as bibliotecas existentes, a Segunda cria novas bibliotecas e faz surgir a
cultura de novas espécies de bibliotecas. Se havia relutância em proceder
de acordo com a Primeira, encontra-se, em suas etapas iniciais, oposição
categórica à Segunda. Assim, a revolução causada pela Segunda Lei é de
natureza mais avançada e aproxima mais a humanidade de seu objetivo.

202 Potencialidade
para cada pessoa o seu livro! Que volume de ideias repousa em estado
potencial nestas seis palavras de tão poucas sílabas! Quão árdua será a
tarefa de concretizar estas ideias! Que variedade de interesses adquiridos
se ergue contra qualquer tentativa de fazer valerem estas ideias! Estas ques-
tões precisam ser cuidadosamente analisadas num estudo da Segunda Lei.

203 Valor Educacional


Talvez seja conveniente começar bem do começo. O que é uma biblio-

50
a segunda lei e sua luta 51

teca? As bibliotecas são coleções de livros, formadas para atender a uma


finalidade especial. Que finalidade é essa? ‘Uso’ é a resposta dada pela
Primeira Lei. Qual a utilidade dos livros? Os livros fornecem informação;
eles educam. Podem também oferecer alívio; podem proporcionar uma
forma de recreação inofensiva. Concentremo-nos primeiro em sua utilidade
educacional. Se os livros são instrumentos de educação, a lei para cada
pessoa o seu livro pressupõe o conceito educação para todos. Isso revela
a questão fundamental. A história da resposta à questão ‘Todos têm direito
à educação?’ mostrará como a Segunda Lei também tem sido na prática ra-
ramente levada em conta pelas autoridades responsáveis pelas bibliotecas.

21 As Classes e as Massas
211 Antiguidade
É habitual começar toda história clássica com Aristóteles. Qual a res-
posta que ele deu para esta questão fundamental?

A intenção da natureza é que os corpos dos escravos e dos homens livres sejam
diferentes entre si [...] E uma vez que isso é verdade com relação ao corpo, mais
justo ainda é definir do mesmo modo quando consideramos a alma.38

Estas premissas plausíveis levaram Aristóteles à conclusão característica de


que “um escravo não tem qualquer faculdade de deliberar”.39 O resultado
deste raciocínio rigoroso foi que “embora Atenas e Esparta oferecessem
educação aos homens livres, nove décimos da população estavam excluídos
do privilégio de estudar.”40 Traduzindo isso em termos de livros, desco-
brimos que livros para os poucos eleitos era o conceito dominante e que
a Segunda Lei não tinha qualquer reconhecimento. Mesmo em Roma, que
iniciou a criação de escolas municipais e públicas, o privilégio da educação
raramente cruzava as fronteiras ocupacionais e de renda.

212 Idade Média


A mesquinhez da Idade Média é descrita por Margaret Hodgen com
as seguintes palavras:

O espírito de exclusão que as classes dos proprietários de terras sustentava


contra os camponeses que, ansiosos por melhorar de vida, procuravam a Igreja;
o que a Igreja praticava contra os leigos que buscavam independência intelec-
tual; o que os comerciantes adotavam contra os forasteiros que procuravam o
lucro em empreendimentos comerciais, era, por sua vez, assegurado por todos
contra as aspirações educacionais dos pobres.41

Conta-se inclusive que “os pais vassalos eram punidos por permitir
que seus filhos vassalos frequentassem a escola”.42
52 as cinco leis da biblioteconomia

213 Século xviii


O espírito de exclusão perdurou por séculos. Eis um exemplo de um
tipo de opinião encontrado no século xviii:

Para que a sociedade seja feliz e o povo viva tranquilo nas piores circunstân-
cias, é preciso que muitos sejam não só ignorantes mas também pobres [...] O
bem-estar e a felicidade, portanto, de cada Estado e de cada reino, exige que
os conhecimentos dos trabalhadores pobres fiquem confinados aos limites de
suas ocupações e nunca se estendam (no que diz respeito às coisas visíveis)
além daquilo que diga respeito à sua vocação. Quanto mais um pastor, um
lavrador ou qualquer outro camponês conhecer do mundo e das coisas que são
estranhas ao seu trabalho ou emprego, tanto menos apto ele será para suportar-
-lhes a fadiga e as provações com alegria e satisfação. Aprender a ler, escrever
e contar [...] é algo muito pernicioso para os pobres forçados a conseguir o pão
de cada dia na labuta diária.43

Que ordenamento caridoso! Que exibição de fatalidade nesse raciocínio


do século xviii! Com essas ideias à solta, é fácil imaginar a eficiência com
que o conceito os livros são para os poucos eleitos teria frustrado o sur-
gimento do conceito antagônico os livros são para todos.

214 Século xix


Até mesmo o século xix esteve por longo tempo seduzido por esse
conceito de uma divisão dicotômica das pessoas entre uma pequena classe
governante formada pelos que, quase que por direito divino, ocupavam a
posição privilegiada, e uma grande classe formada pelos demais que, como
então se supunha, devido à constituição essencial das coisas, pertenciam
às ordens inferiores, sem direito algum à educação e, portanto, sem direito
aos instrumentos da educação, ou seja, os livros. As classes abastadas e
influentes — os homens livres do século xix — resistiam acintosamente, por
puro egoísmo, até mesmo à simples sugestão de que aos pobres fossem
ministrados os rudimentos da educação. Conta-se a história do marquês
de Westminster, que se recusou a dar um vintém que fosse ao Mechanics’
Institute de Londres, preocupado com a possibilidade de a educação dos
trabalhadores torná-los rebeldes. “É verdade”, disse, “mas nós temos que
cuidar de nós”.44 As lutas que os livros travaram para chegar a cada pessoa
estão muito bem ilustradas na experiência registrada por Francis Place, um
alfaiate de Charing Cross, nos primeiros anos do século xix. Ele devia ter o

maior cuidado para que nenhum dos clientes habituais tivesse acesso à biblio-
teca que ficava nos fundos da alfaiataria. [...] Se soubessem que eu nunca lera
um livro, que era completamente ignorante, exceto no meu próprio ofício, que
me embebedava num bar, não teriam feito qualquer objeção contra mim. Eu
seria um ‘sujeito’ inferior a eles, e me tratariam com condescendência. Mas [...]
a segunda lei e sua luta 53

colecionar livros e pretender conhecer algo de seu conteúdo seria colocar-me


em pé de igualdade com eles, ou até bancar superioridade; seria uma ofensa
abominável por parte de um alfaiate, senão um crime, que merecia punição.
Se todos meus clientes soubessem que, no breve período de 1810 a 1817, reuni
uma biblioteca considerável, onde passava todo o tempo livre que conseguia
[...] pelo menos a metade deles teria se afastado.45

Sabemos que Green reclamava ainda no final do século xix de que “um
dos transtornos relativos à atual situação da sociedade na Inglaterra está
no fato de todas as questões ligadas à educação serem complicadas por
distinções de classes”.46 Mesmo recentemente, em 1918, a Hansard revela
que o projeto de lei da educação, apresentado pelo Sr. H.A.L. Fisher, foi
combatido com o argumento de que, se aos trabalhadores fosse oferecida
uma educação longa e complexa,

Como é que os cavalos serão conduzidos no trabalho, as vacas ordenhadas, as


ovelhas apascentadas e os currais abastecidos de feno? Como poderá a educação
ajudar um homem que tem que espalhar estrume nos campos?47

Uma verdadeira encarnação de Bernard de Mandeville!

215 Instinto Político


Todos os estudiosos de política salientam com palavras inconfundíveis
que o instinto político daqueles que se encontram em posições privilegiadas
se opunham veementemente ao advento da Segunda Lei da bibliotecono-
mia. O visconde Bryce, por exemplo, afirma

Que todos os governos despóticos de sessenta anos atrás, e alguns deles até
mesmo nos nossos dias, foram indiferentes ou hostis à disseminação da educa-
ção entre os seus súditos, porque temiam que o conhecimento e a inteligência
criariam um anseio de liberdade.48

2151 Inglaterra
Os argumentos de quem se opunha à lei Ewart* – a primeira lei de
bibliotecas públicas da Inglaterra – era que “o conhecimento em demasia
era uma coisa perigosa e que as bibliotecas poderiam se tornar centros de
educação política”.49 Em seu discurso presidencial na conferência de Leeds,
o Dr. Guppy observou

É um tanto embaraçoso constatar que em meados do século xix muitos dos


homens mais eminentes debatiam, com toda a seriedade, não o que a literatura
tinha de melhor para oferecer às pessoas, mas se seria de todo seguro, sensato

* William Ewart, político inglês (1798–1869). (n.e.)


54 as cinco leis da biblioteconomia

e prudente admitir o público em geral às bibliotecas. Mais do que os leitores


serem considerados competentes para manusear e pesquisar nos livros, tratava-
-se de indagar se se permitiria que uma democracia rude e inculta, apesar das
precauções e regulamentos mais severos, invadisse os sagrados recintos da
biblioteca.50

2152 Rússia
Quando uma biblioteca escolar foi inaugurada em Moscou, em 1913,
a seguinte questão foi levantada na Duma nacional pelo líder da extrema
direita: “Como pode o governo tolerar cursos de biblioteconomia, que
prepararão o caminho para uma revolução?”51

216 Autopreservação
Assim, a Segunda Lei teve que enfrentar não somente um hábito her-
dado, como foi o caso da Primeira Lei, mas também uma oposição muito
forte baseada em instintos políticos e econômicos. Por mais equivocados
que estes instintos possam ter sido, não existe qualquer fundamento para
duvidar de sua natureza bona fide. Na verdade, como se percebe facilmente,
eram meras consequências de um instinto mais fundamental, ou seja, o
instinto de autopreservação.

2161 Inferência Contrária


À sociedade, porém, não faltaram espíritos previdentes que puderam
entender a natureza equivocada dessa oposição. Houve, de fato, pessoas
que fariam exatamente a inferência contrária desse mesmo instinto de
autopreservação. A localização de fábricas perto das fontes de energia
causou uma redistribuição da população e as cidades foram inundadas
com um dilúvio de pessoas que ignoravam as responsabilidades civis. A
aglomeração de dezenas de milhares de pobres analfabetos criou uma
enormidade de flagelos terríveis. Por um período, as classes altas conse-
guiram manter-se a uma distância segura dos centros de sujeira, pestilência
e pequenos delitos. Mas não poderiam manter-se à distância para sempre.
A miséria, com o tempo, ultrapassou, inclemente, os limites. Trouxe doenças
e cenários desagradáveis às portas da paróquia e da casa senhorial. Na ân-
sia de se defender, os nobres recorreram às pressas aos seus conselheiros
mais confiáveis. Os primeiros deles, os economistas, recomendaram uma
dose prudente de educação. Adam Smith, por exemplo, recomendou que

O Estado pode impor à quase totalidade da população a obrigatoriedade de


adquirir tais elementos mais essenciais da educação, obrigando cada um a
submeter-se a um exame ou experiência em relação aos mesmos, antes que ele
possa obter a liberdade em qualquer corporação ou poder exercer qualquer
atividade, seja em uma aldeia, seja em uma cidade corporativa.52
a segunda lei e sua luta 55

Ele aproveitou essa situação desagradável em que se achavam as classes


ricas e ainda propôs o seguinte:

A educação das pessoas comuns talvez exija, em uma sociedade civilizada


e comercial, mais atenção por parte do Estado que a de pessoas de alguma
posição e fortuna [...] O Estado pode facilitar essa aprendizagem elementar
criando em cada paróquia ou distrito uma pequena escola, onde as crianças
possam ser ensinadas [...] Ainda que o Estado não aufira nenhuma vantagem
da instrução das camadas inferiores do povo, mesmo assim deveria procurar
evitar que elas permaneçam totalmente sem instrução. Acontece, porém, que
o Estado aufere certa considerável vantagem da instrução do povo. Quanto
mais instruído ele for, tanto menos estará sujeito às ilusões do entusiasmo e
da superstição, que, entre nações ignorantes, muitas vezes dão origem às mais
temíveis desordens. Além disso, um povo instruído e inteligente é sempre mais
decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso. As pessoas se sentem,
cada qual individualmente, mais respeitáveis e com maior possibilidade de ser
respeitadas pelos seus legítimos superiores e, consequentemente, mais propen-
sas a respeitar seus superiores. Tais pessoas estão mais inclinadas a questionar
e mais aptas a discernir quanto às denúncias suspeitas de facção e de sedição,
pelo que são menos suscetíveis de ser induzidas a qualquer oposição leviana
e desnecessária às medidas do governo.53

217 A Escada do Saber


Ainda que, falando de maneira geral, as palavras de Adam Smith
tenham caído em ouvidos moucos, houve quem pôde apreciar a correção
de seu raciocínio. De fato, isso levou o Sr. Whitbread a apresentar um
projeto de lei no parlamento em 1807 em favor da educação universal.
É desnecessário dizer, porém, que foi rejeitado por maioria esmagadora.
Apesar do escárnio dos conservadores, a Society for the Diffusion of Useful
Knowledge [sociedade para difusão de conhecimentos úteis] muito fez para
disseminar a educação entre as massas, sob a liderança inspiradora de lord
Brougham. A Penny cyclopaedia, o Penny magazine, a Gallery of portraits e a
Pictorial Bible são os monumentos sobreviventes do zelo missionário que
promoveu a causa dos livros para todos, na década de 1830. A maioria
dos magnatas e das autoridades do começo da era vitoriana queria que o
jovem camponês cultivasse os mesmos campos, com as mesmas ferramen-
tas e nas mesmas estações, como antes fizera seu pai. Contudo, espíritos
iluminados, como Matthew Arnold, estavam impacientes com a lentidão
do reconhecimento do novo conceito que então surgia: educação para
todos. Na condição de inspetor escolar do governo inglês, lamentava,
em 1853, que

Os filhos das classes inferiores e mais pobres do país, que pertencem às chama-
das ‘massas’, não são, em geral, educados; as crianças que são educadas per-
tencem a uma classe diferente, e, consequentemente, em matéria de educação
56 as cinco leis da biblioteconomia

das massas, eu, no curso de minhas funções oficiais, falando estritamente, não
vislumbro nada ou vislumbro muito pouco.54

As primeiras vinte páginas do Educational systems of Great Britain and Ireland,


de Graham Balfour, oferecem uma imagem breve mas nítida da perspicácia
e da tenacidade com que alguns estadistas previdentes e patrióticos asse-
guraram a legislação educacional de 1870, 1880 e 1891, que gradativamente
tornou a educação para todos primeiro permitida, depois compulsória e
finalmente gratuita.55 Uma vez instituída a educação para todos, bastou
não mais de uma ou duas décadas para que nossa Segunda Lei os livros
são para todos entrasse em campo e tranquilamente realizasse o sonho de
Huxley,56 de ‘uma escada do saber’, que leva das sarjetas às universidades.

2171 Exemplo 1
A forma como a Segunda Lei realizou literalmente este sonho de Huxley
pode ser vista no relato feito em Adult education and the library57 sobre a
marcha de um jovem pescador pelo caminho do saber. Nasceu na Noruega.
Aos quatorze anos, foi tirado da escola. Seu pai disse, ‘Não vale a pena você
estudar’. O adolescente foi mandado para a incessante tarefa de pescar na
costa desolada do norte da Noruega. Mas o governo norueguês mantinha
nesse fim de mundo uma boa biblioteca, apesar de pequena. Os livros eram
periodicamente substituídos e o acervo reabastecido. Enfiando a cabeça e
o coração nesses livros, esse jovem, a quem fora declarado que ‘não vale
a pena você estudar’, adquiriu uma educação superior ao que ele próprio
poderia ter imaginado. Partiu então para o Novo Mundo, matriculou-se
na escola preparatória aos vinte e três anos, graduou-se aos vinte e oito
anos e estabeleceu-se como professor com seu próprio colégio. Esta carreira
do professor Rolvaag, do St. Olaf’s College, não é de forma alguma única.

2172 Exemplo 2
Em Madras, lembramo-nos da história daquele feito maravilhoso
empreendido pelos livros, lidos à luz dos postes de iluminação, que con-
seguiram alçar um menino que nascera na obscuridade para a tribuna da
suprema corte. Trata-se de T. Muthuswami Ayyar. Sua estátua encontra-se
hoje ornamentando o centro do prédio da corte suprema de Madras. Esta
influência da Segunda Lei fez com que fossem resgatados, dos porões
da sociedade, em proveito do mundo, tantos homens promissores. Uma
geração ou duas atrás, sua rival livros para uns poucos eleitos teria
reconhecido a posição social anterior ao seu nascimento, forçando-os a se
arrastar pela vida e morrer, sem jamais alcançar sua plena estatura.
a segunda lei e sua luta 57

2173 Exemplo 3
Eis uma mulher que ganha a vida como chef em um hotel [...] Ela observou um
dia que sua filha mais velha franzia impacientemente as sobrancelhas quando
a mãe cometia um erro gramatical. A mãe decidiu que não iria perder nem um
pouquinho do respeito de sua filha por causa disto. Pediu ao bibliotecário de
referência que lhe recomendasse livros que a ajudassem a evitar os erros mais
comuns de gramática e pronúncia. Ela precisava de um curso progressivo de
bom inglês, que fosse adequado às suas necessidades especiais. Mais tarde
ela pediu livros que a mantivessem informada sobre acontecimentos atuais e
assim por diante.58

2174 Exemplo 4
Há, ainda, o caso do policial que solicitou livros que o ajudassem a des-
cobrir por que são cometidos crimes. “De que adianta prender as pessoas
se você não pode ajudá-las?” perguntava.59 Devorou livros de sociologia
e psicologia. Se tivesse vivido antes do advento da lei para cada pessoa
o seu livro, que oportunidade teria tido tanto para estudar em livros de
sociologia e psicologia, quanto para cumprir seus deveres oficiais de forma
não apenas satisfatória para sua consciência, mas também benéfica para
a sociedade? Como nossos policiais se tornarão úteis e populares se forem
levados a ler, como acontece com seus contemporâneos do Novo Mundo,
livros de sociologia e psicologia, além dos capítulos do manual da polícia!

2175 Exemplo 5
A natureza profética das palavras de Adam Smith ficou demonstrada
ao pé da letra pelos serviços prestados pela Segunda Lei da bibliotecono-
mia ao público da cidade de Grand Rapids, no estado norte-americano
de Michigan.

O abastecimento de água não podia acompanhar o crescimento da cidade. [...]


Como resultado, grande parte dos cidadãos dependia de poços para obter água
potável, pois não bebiam a água não-tratada de rios. A incidência de febre tifóide
era muito alta — várias centenas de casos por ano — com uma taxa de óbitos
igualmente alta. [...] O governo e os interesses comerciais da cidade finalmente
asseguraram a formação de uma comissão especial com pessoas de alto nível,
dentre empresários e profissionais, para estudar toda a situação e relatar um
plano a ser submetido ao voto dos cidadãos. Depois de longo e cuidadoso es-
tudo, recomendaram a adoção de um plano para retirar água do rio e tratá-la
pelo processo rápido de filtragem mecânica ou em areia. [...] Oito ou dez dias
antes da votação, panfletos de página inteira ou meia página de jornal foram
distribuídos em cada domicílio da cidade, alegando que a filtragem era um
fracasso, com base na publicação de fac-símiles de jornais e revistas técnicas,
etc., que se referiam à febre tifóide em certas cidades, seguidas da afirmação de
que nessas cidades havia água filtrada. Em suma, esses panfletos tinham como
única finalidade desacreditar o relatório da comissão especial, a fim de que
58 as cinco leis da biblioteconomia

sua proposta fosse derrotada. Novos panfletos apareciam em dias alternados,


sempre entregues em cada domicílio da cidade. Eram publicados sob o nome
de um ‘jovem engenheiro desempregado’. A biblioteca imediatamente verificou
algumas das referências a outras cidades nos relatórios anuais e documentos
municipais de sua coleção [...] nos rastros dos volantes publicados pelo jovem
engenheiro e colocou à disposição dos jornais as informações que encontrou,
tendo o bibliotecário assinado as declarações publicadas sobre os fatos en-
contrados pela biblioteca. Eis um exemplo do que encontramos. Reading, na
Pensilvânia, e Albany, em Nova York, ambas possuíam abastecimento de água
tratada, que servia a outros lugares. As epidemias de tifóide ocorreram em
áreas dessas cidades que contavam com abastecimento de água não-tratada. Os
panfletos estavam corretos ao dizer que Reading e Albany tinham epidemias
de tifóide e que ambas recebiam água tratada, entretanto, estas declarações
eram mentiras execráveis por causa das sugestões que implicavam. Assim, a
biblioteca foi a primeira [...] a arregimentar forças para salvar o projeto favorável
à água pura. A água pura ganhou na votação e Grand Rapids, exceto em casos
esporádicos trazidos de fora, erradicou da cidade, por conseguinte, a febre
tifóide [...] Sempre acreditei que a biblioteca teria sido negligente em seu dever
se não tivesse dado a público a informação que possuía sobre assunto tão vital.60

2176 Triunfo Geral


Exemplos como este podem ser multiplicados ad nauseam. Mas como
não é nosso objetivo registrar aqui as conquistas alcançadas por livros
para todos basta dizer que atualmente a Segunda Lei da biblioteconomia
fincou triunfalmente sua bandeira democrática em muitas terras, tendo
reduzido a pó a barreira aristocrática do elitismo e do esnobismo. No século
xix, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia eram tão impenetráveis aos
seus apelos e tão impermeáveis às suas investidas como a Índia. Entretanto,
atualmente, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia renderam-se a ela.

218 Resistência da Índia


A Índia, porém, desafiadoramente, ainda se mantém inabalável. Quem
é o responsável por esse estranho fenômeno? Quem estará ajudando a Ín-
dia a não arredar pé nessa batalha contra livros para todos, embora haja
conquistado recordes mundiais de derrotas em outras esferas?

2181 Indiano Educado em Inglês


Qualquer que seja o complexo de causas que contribuam para isso, os
indianos ‘educados em inglês’ não podem fugir da sua parcela de culpa.
Macaulay e Wood importaram a educação inglesa para a Índia com os
melhores motivos. Desenvolveram sua famosa ‘teoria da filtragem’ com
as melhores intenções. Não poderiam razoavelmente ter previsto que o
filtro levaria à inveja e ao elitismo egoísta. Certamente, eles nunca, por um
momento sequer, imaginaram que o filtro funcionaria ao contrário e se
a segunda lei e sua luta 59

revestiria de outro superfiltro que garantiria um lugar ao sol somente aos


indianos educados em inglês, que pudessem ser ensinados em inglês em
solo inglês. Sim. Este trágico triunfo da Índia contra a invasão da Segun-
da Lei da biblioteconomia, e, além disso, até mesmo de sua precursora, a
educação para todos, não é pouca coisa, devido à apatia quase criminosa
e à negligência do dever por parte dos seus mais bem colocados filhos
‘educados em inglês’. Eles desenvolveram uma miopia anormal que os
incapacita de enxergar um palmo adiante do nariz, de qualquer forma,
além do seu círculo privilegiado. Falam com desembaraço da Índia e dos
seus milhões de habitantes, quando de fato estão se referindo apenas aos
dois por cento desses milhões que podem balbuciar em inglês. Lembre a
eles, como puder, que a intenção de Macaulay era que eles difundissem,
de forma ativa e generosa, o seu conhecimento entre as massas. Não,
preferirão receber sua lição de Bernard de Mandeville. Exceções honrosas
existem e, para elas, toda a honra. Mas a maioria se comporta como um
obstáculo inabalável a entupir esse filtro.

2182 Esperança e Fé
Nossa única esperança repousa na suprema sabedoria da Segunda Lei.
A história tem mostrado que a Segunda Lei é adepta da arte da estratégia.
Se se constatou que o filtro de Macaulay era uma armadilha, em breve
ela se desviará do seu curso e se livrará desse entupimento do ‘filtro’. A
Segunda Lei não aceitará uma derrota. No final, vencerá. Esta é nossa fé.
Com a opinião mundial a seu favor, poderá vencer até mesmo numa data
não muito distante. Se forem empresários inteligentes, os indianos ‘educa-
dos em inglês’ deverão recebê-la com um ramo de oliveira e oferecer seus
préstimos na guerra santa que essa lei vem travando contra a ignorância
persistente. Somente então conquistarão respeito aos olhos do mundo e
somente então poderão sobreviver em meio às forças que serão libertadas
no dia em que a Segunda Lei cravar sua bandeira em solo indiano e colocar
os livros nas mãos de todos, da mesma forma que o fez em outras terras.

22 Homens e Mulheres
A antítese não tem sido simplesmente entre as classes e as massas.
À medida que examinamos os preconceitos de tempos antigos à luz da
Segunda Lei da biblioteconomia, deparamos com vários outros. Não é
apenas a fronteira da renda que, por muito tempo, divide a humanidade
entre quem tem direito de usar os livros e quem não tem. O gênero, por
exemplo, foi outro fator que restringiu a aplicação da lei livros para todos.
Em nosso próprio país, a Segunda Lei ainda não conseguiu completamente
superar as limitações vividas pelo sexo feminino.
60 as cinco leis da biblioteconomia

221 Daí em Diante na Índia


Sem dúvida, as condições começaram a mudar. Sinais da investida da
Segunda Lei não faltam. A maré montante de livros para todos poderá,
em pouco tempo, varrer dos lares indianos até mesmo a sólida barreira
do conservadorismo feminino. Mas que isso não feche nossos olhos para
a luta tenaz que vem ocorrendo em muitos lares contra a intromissão do
‘pernicioso hábito’ da leitura entre as mulheres. Nem deveríamos nos iludir
com a otimista mas enganadora ostentação de que, no passado, nosso país
manteve o caminho aberto para que as mulheres competissem com o sexo
mais forte na busca da educação. Não nos ajuda agora que nos digam que
as mulheres sabiam ler e de fato liam tanto quanto os homens desde os
tempos védicos até o dia em que uma língua estrangeira lançou uma cunha
cultural na pátria até então homogênea. Não passa de uma meia verdade
dizer que o emprego de um veículo estrangeiro para transmitir as ideias
correntes afastou as indianas da tendência mundial que permitiu às suas
irmãs de muitas regiões manterem-se no mesmo plano de seus irmãos. A
história gloriosa de mulheres como Maitreyi, Panchali, Lilavati e Auviar e a
memória que ainda persiste das sábias senhoras, que foram as dignas com-
panheiras de vida dos gigantes intelectuais de lugares como Tiruvisalur,
não devem deixar-nos dormir sobre os louros. Para cada Maitreyi temos
uma Katyayini. Muitas de nossas irmãs estão ainda desnorteadas com um
século de atraso, analfabetas, ignorantes e carentes de livros. Entretanto, se
for uma fonte de consolo e estímulo, pode-se mencionar que os conceitos
educação para todos e livros para todos definitivamente superaram a
barreira sexual somente nos últimos cinquenta anos, aproximadamente,
na maioria dos países.

223 Tradição
Desde os tempos do homem primitivo, a maioria das mulheres ge-
ralmente ocupou um lugar protegido e, portanto, não receberam uma
formação cultural e profissional elevada que as habilitasse a lidar com
questões complexas. Tanto em passadas como em recentes civilizações,
os limites que as realizações femininas podiam alcançar foram em geral
definitivamente fixados pelo costume. As que se atrevessem a excedê-los
corriam o risco de serem tidas como ‘pouco femininas’.

2231 Antiguidade
Em Atenas, aparentemente, era um dogma aceito que nenhuma moça
de respeito devia ser educada. A esposa ateniense, por exemplo, vivia como
prisioneira virtual entre quatro paredes [...] Não podiam pessoalmente
herdar propriedade, e eram consideradas um apanágio do imóvel [...] Sua
educação era trivial.”61 O ostracismo social praticado para impedir que
a segunda lei e sua luta 61

as mulheres tivessem sua parcela de educação e de livros é indicada pela


seguinte afirmação sobre a educação das mulheres na Grécia: “A educação
literária e as preocupações intelectuais pertenciam às que estavam fora do
círculo familiar, as heteras.”62 Nos escritos de são Paulo aparecem restri-
ções similares que parecem colocar as mulheres à parte como uma classe
inferior e dependente. Depois de citar o versículo 16 do terceiro capítulo
do Gênesis sobre a posição da mulher, ele disse: “E se quiserem aprender
algo, que perguntem a seus maridos em casa.”63

2232 Século xviii


Por muito tempo chegou-se mesmo a crer que as mulheres não fossem
capazes de ser ensinadas. Eis Chesterfield, escrevendo para seu filho:

As mulheres, portanto, são apenas crianças que cresceram demais; tagarelam


de modo divertido e, às vezes, com graça; mas, no que tange a um raciocínio
sólido, ao bom senso, nunca em minha vida encontrei uma que o tivesse [...]
Um homem sensato [...] não as consulta, nem confia nelas sobre assuntos sérios.64

Rousseau também diz da mulher que ela é “um homem imperfeito” e que
em muitos aspectos não passa de “uma criança crescida”.65 E acrescenta

A busca de verdades abstratas e teóricas, princípios e axiomas científicos, o


que quer que tenda a generalizar ideias, não cai no domínio das mulheres;
[...] no que diz respeito a obras de criação, elas estão fora do seu alcance, e
tampouco possuem precisão e atenção suficientes para serem bem-sucedidas
nas ciências exatas.66

Rousseau repetiria de boa vontade as palavras de Molière:

Não é muito honesto, e por várias causas,


Que uma mulher estude e saiba tantas coisas. [As sabichonas, ato 2.]

A concepção de Rousseau sobre a capacidade das mulheres corresponde


simplesmente a algo que era muito comum na França e em outros países
no século xviii.

2233 Século xix


O século xix procurou sobrepujar o século xviii, inventando explicações
anatômicas para a incapacidade de a mulher ter algum proveito com os
livros e o saber. Vejamos esta explicação científica séria, que data de 1866:

O homem tem vontade e inteligência, e um cerebelo e um cérebro que as fazem


funcionar; da mesma forma os tem uma mulher. Nisso são semelhantes. Mas no
homem a inteligência predomina e na mulher, a vontade; e aqui são diferentes.
62 as cinco leis da biblioteconomia

Sendo assim, podemos, naturalmente, esperar encontrar um desenvolvimento


maior do cérebro, ou cérebro superior, no homem, e um desenvolvimento maior
do cerebelo, ou cérebro inferior, na mulher; e é isso que acontece. A cabeça do
homem é mais alta e maior na frente do que a da mulher, enquanto a cabeça
dela é mais larga e maior atrás do que a do homem.67

Outro contemporâneo desse psicólogo ‘frenologista’ não vê mérito algum


em desperdiçar um raciocínio tão elaborado para demonstrar uma coisa
tão óbvia. Para ele, “o grande argumento contra a igualdade de intelecto
entre homens e mulheres é que ela não existe. Se essa prova não satisfizer
a uma filósofa, não temos outra melhor a lhe oferecer.”68

2234 Preconceito Masculino


Se havia escolas para moças, “elas visavam à ‘civilidade’, às boas ma-
neiras e às aptidões pessoais, não à educação”.69 Em seu Essay on projects,
Daniel Defoe faz uma descrição comovente da educação feminina habitual,
com as seguintes palavras:

É espantoso que as mulheres ainda consigam ser sociáveis, pois todo seu saber
decorre somente de seus dotes naturais. Passam a juventude aprendendo a
bordar e costurar ou a fazer bugigangas. De fato, aprendem a ler e talvez a
assinar o nome, se tanto. Esse é o ápice a que chega a educação da mulher.70

Se alguma mulher recebia educação, a atitude em relação a essas damas


cultas era de desprezo e ridículo. Segundo está escrito, o Dr. Samuel
Johnson certa vez teria dito que “o homem, em geral, fica mais satisfeito
quando tem um bom jantar à mesa, do que quando sua mulher fala grego”.
A analogia insolente que ele fez entre uma mulher pregando e um cão
andando nas patas traseiras é também muito conhecida. Temos a história
de um solteirão norte-americano, que explicava seu estado civil dizendo

Alguém me encomendou uma mulher bonita e jovem
Que falasse francês, espanhol e italiano.
Agradeci gentilmente e lhe disse que essas eu não amava,
Pois achava que uma língua para uma esposa já era demais.
Como? Não gosta das pessoas cultas? Gosto, como eu,
De um estudioso culto, mas não de uma esposa culta.71

2235 Preconceito Feminino


Os efeitos desse menosprezo à capacidade das mulheres, a falta de
incentivos ao estudo e o ridículo a que eram expostas as poucas que es-
tudavam tinham um efeito desastroso em moldar a opinião das próprias
mulheres com relação ao seu direito à educação e aos livros. Elas continua-
riam resignadamente para sempre com os costumes estabelecidos de ideias
a segunda lei e sua luta 63

tradicionais. Muitos indianos de hoje podem ouvir dentro das paredes de


sua casa um eco inconfundível das palavras enfáticas “Estudar nos livros
não faz bem algum às mulheres”, pronunciadas por uma senhora norte-
-americana há mais ou menos duas gerações.72 Na verdade, o obstinado
conservadorismo feminino, que mantém a Segunda Lei acuada e se satisfaz
com a autocomplacência numa situação sem livros e sem educação, lembra
uma das vítimas de Comus que são

[...] transformadas
Numa forma bruta de lobo, ou urso,
Ou onça, ou tigre, porco, ou bode barbudo,
[...] E elas, tão perfeitas em sua miséria,
Nunca percebem sua deformação hedionda,
E se vangloriam como mais belas que nunca.73

224 O Direito das Mulheres à Educação


Por mais obstinado que o costume haja sido, durante a lenta passagem
de muitos séculos, mantendo a ‘educação’ e sua companheira, a Segunda
Lei da biblioteconomia, num dos lados da linha divisória do sexo, o certo
é que, nestes tempos de inquietação social, quando praticamente todos os
costumes e instituições de todas as sociedades são expostos ao impiedoso
escrutínio de mentes críticas, as mulheres e o direito das mulheres à edu-
cação e aos livros foram trazidos para o primeiro plano dos debates. Toda
a debatida questão do ‘mundo’ da mulher e de sua educação vista à luz
desse ‘mundo’ ocupou as mentes dos homens por mais de uma geração e
está, hoje, quase resolvida da única forma correta admissível. Reconhece-
-se atualmente que mesmo a educação universitária é desejável para pelo
menos um grande número de mulheres. Que a educação tornará a mulher
inapta para ser esposa e mãe, que o esforço físico será muito grande, ou
que ela seja intelectualmente incapaz de dominar os setores de estudo mais
complexos, foram argumentos sérios usados há uma ou duas gerações e,
inegavelmente, funcionavam como empecilhos. Mas agora são apenas
memórias adormecidas na mente social de um mundo atarefado e que
afloram à consciência somente em alguns grotões isolados, que ainda não
despertaram. A visão antediluviana, que confinava totalmente a mulher,
tornando-a, na melhor das hipóteses, uma escrava toleravelmente inteli-
gente e obediente, já está desaparecendo. O mínimo que agora pode ser
feito seria dar-lhe liberdade que lhe permita avançar no campo educacional,
mostrando que, por meio da influência desta mãe educada, a vida social
poderá ser aprimorada na própria origem. Mas a visão mais radical, que
ganha terreno rapidamente, propõe a absoluta igualdade de oportunidades
na educação e na vida política, social e econômica, sustentando que a mu-
lher não precisa, a menos que assim o deseje, cumprir com sua obrigação
64 as cinco leis da biblioteconomia

para com a sociedade, biologicamente falando, mais do que o homem, e


que deveria ser dotada dos meios que lhe permitam ser igualmente livre
para escolher uma carreira literária, científica ou empresarial.

2241 Educação pela Aprendizagem


Por enquanto, vimos somente a primeira fase da guerra na barreira
sexual. A Segunda Lei da biblioteconomia não teve qualquer participação
nesta fase da guerra. Tudo foi deixado à sua precursora educação para
todos. Mas a campanha contra a discriminação sexual envolveu mais ba-
talhas do que aquela contra a discriminação de classe. Mesmo depois que
a barreira sexual foi derrubada por sua companheira, a Segunda Lei não
foi capaz de avançar livremente. Pois, até que a mais recente visão radical
começasse a surgir em cena, as pessoas argumentavam, ‘Sim. A educação
é necessária para a mulher e ela tem capacidade para isso. Mas a educação
da mulher, a fim de prepará-la para o mundo que lhe foi atribuído — o
lar —, pode ser obtida pelo aprendizado com sua mãe, em casa. Não há
necessidade de nenhum ensino formal ou de aprendizagem nos livros, o
que a levaria para longe da família.’

O pouco de saber que consegui
Veio-me todo da simples natureza,74

era uma descrição correta do estado de coisas na segunda metade do século


xix, situação que não era favorável para o êxito de livros para as mulheres.

2242 Necessidade de Educação Formal


Felizmente, entretanto, até mesmo antes que a visão radical se expres-
sasse e rompesse a barreira sexual, percebeu-se que esse processo natural de
educação não era praticável na vida agitada de hoje, que a educação formal
e a aprendizagem pelos livros são necessárias até mesmo para cozinhar,
amamentar e cuidar de crianças. A crescente incapacidade da família para
manter o monopólio da educação das filhas e a concepção cambiante de
educação muito fizeram para preparar a consciência pública para receber
a boa nova também para cada mulher o seu livro. Mesmo supondo que o
mundo feminino seja o lar, percebeu-se que a economia doméstica é ao mesmo
tempo uma arte e uma ciência. Uma arte em progresso e uma ciência em
desenvolvimento. Mantém contato orgânico sério com as belas-artes por
um lado e com as ciências mais rigorosas por outro. Incluiria, por exemplo,
puericultura, enfermagem, primeiros socorros, alimentação e nutrição,
naturalmente, culinária, fazer compras, lavanderia, chapelaria, costura,
orçamento e poupança, jardinagem e horticultura, higiene doméstica,
a segunda lei e sua luta 65

saneamento doméstico, decoração doméstica, pequenos reparos, cortesias


e obrigações da família e da vida familiar.75 Este é o conjunto de elemen-
tos envolvidos na profissão de economista doméstica. As mulheres seriam
constantemente treinadas para estes deveres assim como os homens são
treinados para as suas ocupações e profissões.

2243 Educação pelos Livros


Este desabafo tem muito a dizer:

Quando o outro sexo vai estudar direito, medicina ou teologia, tem a seu
dispor inúmeras instituições muito bem providas, com professores altamente
qualificados e preparados, além de bibliotecas de elevado custo [...] A profis-
são da mulher envolve cuidar do corpo em períodos críticos da vida, como na
infância e na doença, treinar a mente humana no período mais sensível, que
é a infância, instruir e controlar os criados, e a maior parte da administração e
economia da propriedade familiar. Estes deveres das mulheres são tão sagra-
dos e importantes quanto quaisquer outros que sejam atribuídos aos homens.
Contudo, não lhes foi dada nenhuma dessas vantagens para sua preparação.76

Esta censura era justificável até três ou quatro décadas atrás. Entretanto,
todos os esforços vêm sendo feitos em todos os países avançados para
eliminar essa censura por meio de uma orientação adequada da educação
inicial na escola e por um suprimento abundante de livros para que essa
educação continue até o fim da vida. para cada mulher o seu livro é o
lema que orienta as bibliotecas de hoje em dia. Elas agora cuidam para
que seus livros cheguem além do purdah.* Esforçam-se, por exemplo, para
que “todas as mães, cujos nomes são incluídos nos cartórios de registro
civil quando nasce um filho, procurem conhecer os livros de puericultura
existentes na biblioteca.”77 Esta difusão diferenciada de livros, em campos
restritos do conhecimento, marca o segundo estágio.

225 Estudo Científico


Foi, entretanto, na terceira fase da guerra que a barreira sexual foi
completamente derrubada com o avanço da lei livros para todos. Esta
fase começou a tomar forma somente neste século. Iniciou com uma in-
vestigação crítica da tradição herdada a respeito do ‘mundo feminino’ e
da ‘inferioridade feminina’ em questões intelectuais.

2251 Estudo Anatômico


O primeiro a assestar um golpe mortal na opinião pseudocientífica

* Peças do vestuário ou do mobiliário destinadas a manter as mulheres afastadas da vista


de estranhos; também o sistema de forçar à reclusão mulheres de alta condição social. (n.e.)
66 as cinco leis da biblioteconomia

do século xix foi Karl Pearson. Em trabalho de 1897, Variation in man and
woman,78 demonstrou com clareza que, de fato, não havia qualquer va-
riação significativa nas medidas anatômicas de seres humanos tratadas
com acuidade matemática. Ele conduziu um rigoroso exame estatístico
de diversos dados anatômicos. Baseado neles, concluiu o longo trabalho
com seu característico tom mordaz:

Afirmo que os presentes resultados mostram que a maior variabilidade frequen-


temente reivindicada para os homens continua sendo até agora um princípio
totalmente infundado [...] A falta de originalidade revelada por uma multidão
de autores semicientíficos acerca da evolução é possivelmente um sinal da
ínfima capacidade de variação intelectual possuída pelo macho letrado.79

As provas reunidas por Karl Pearson foram ampliadas e corroboradas por


dados estatísticos adicionais publicados por Montague e Hollingworth no
American Journal of Sociology de outubro de 1914.

2252 Estudo Psicológico


Essa pesquisa baseada na anatomia foi seguida pela demonstração
pela psicologia da absoluta ausência de diferença sexual na variabilidade
mental, graças aos elaborados testes mentais realizados por Trabue, Cour-
tis, Terman e Pyle. Mesmo assim, houve a tradicional e veneranda opinião
segundo a qual os períodos fisiológicos causam um efeito desfavorável
na capacidade mental da mulher. Havelock Ellis, por exemplo, faz a ob-
servação radical de que o ciclo fisiológico mensal “influencia ao longo do
mês todo o organismo físico e psíquico da mulher”.80 Contudo, a pesquisa
experimental, feita em 1914, pela Dra. Hollingworth, sobre essa alegação,
revelou o contrário. Os dados reunidos por ela mais minaram do que
apoiaram estas opiniões.81

226 Afirmação de Igualdade


Depois que a psicologia experimental estabeleceu, desse modo, que
a divisão do trabalho entre os sexos, que existira ao longo dos tempos
históricos, não foi absolutamente o resultado de diferenças psicológicas e
que as mulheres são tão competentes intelectualmente quanto os homens
para assumir qualquer ocupação humana, percebeu-se que “a educação
das mulheres, especialmente nos estágios mais elevados, liberará para o
país uma riqueza de capacidades que está hoje desperdiçada por falta de
oportunidade”82 e se concluiu que a mulher educada, a mulher a quem
tenham sido proporcionados seus livros, “é uma garantia melhor e mais
segura da educação da próxima geração do que um homem letrado”.83
Surgiu então a oportunidade de a Segunda Lei cruzar a barreira sexual
e proclamar triunfante: “A educação deve desenvolver os gostos e as ap-
a segunda lei e sua luta 67

tidões das mulheres tanto quanto dos homens. Os direitos das mulheres
de escolher seus livros devem ser precisamente iguais aos dos homens.
Os livros que divulgo devem ser diferentes, não porque esta pessoa seja
homem e a outra seja mulher, mas devem ser diferentes apenas com base
no fato de que cada um é um indivíduo.” Assim, a Segunda Lei da bibliote-
conomia não se satisfaz mais em oferecer às mulheres livros sobre afazeres
domésticos ou livros de devoção ortodoxa; por outro lado, insiste em que
todos os livros têm o lídimo direito de entrar em qualquer domicílio para
o benefício de todos os membros da família, independentemente do sexo.

23 Os Moradores das Cidades e os Moradores do Campo


Uma terceira antítese que teve que ser superada pela lei livros para
todos foi aquela entre o morador da cidade e o morador do campo. A bar-
reira do pedágio municipal parece ter postergado a Segunda Lei ainda por
mais tempo do que a barreira da renda ou a barreira sexual. Vimos que a
da renda quase foi deixada para trás na maioria dos países há cerca de um
século. Também observamos que a escalada da barreira sexual começou pelo
menos há uma geração. Mas o clamor de livros para todos somente nos dias
atuais conseguiu atravessar as muralhas da cidade. Para ser mais preciso,
o direito dos moradores do campo aos livros só veio a ser respeitado na
maioria dos países depois da Primeira Guerra Mundial. Embora o primeiro
serviço sistemático de biblioteca itinerante haja sido inaugurado em Maryland
e Ohio (eua) ainda em 1905, foi somente mais ou menos na última década
que um esforço sério foi envidado pela maioria das nações para suprir os
habitantes de regiões rurais dispersas com os livros que eles queriam.

231 Diferenciação
Que aos camponeses falta a oportunidade de estudo e cultura fica
claro a partir do desprezo implícito no vocábulo inglês rustic [rústico, em
português, com os mesmos sentidos] e na palavra tâmil nattuppurattan
[literalmente, um aldeão]. É também indicado pela conotação comum do
epíteto sânscrito gramya [grama significa vila, enquanto gramya quer dizer
vulgar]. Em Helênicas, Xenofonte de forma ingênua sugere por dedução
que a moradia habitual em aldeias bastaria para privar alguém de alguns
dos direitos e privilégios mais comuns. Diz ele:

Eles [os espartanos], entretanto, não os expulsaram da presidência do templo


de Zeus Olímpico, embora este não houvesse pertencido aos eleus em tempos
antigos, mas porque pensavam que os pretendentes rivais fossem moradores do
campo84 (grifo nosso).

Uma tal visão discriminatória tem persistido através dos séculos. Hannah
More, por exemplo, “não ‘acabaria com a ignorância’ das aldeias; o vício,
68 as cinco leis da biblioteconomia

se pudesse, ela o extirparia, mas o conhecimento, exceto dos deveres e de


seu ‘lugar’, aconselharia os [...] aldeões a deixar para seus superiores”85
das áreas urbanas.
2311 Ameaças na Cidade
O fato é que, mesmo numa etapa muito inicial, a crescente complexida-
de e as graves ameaças presentes nos problemas urbanos de uma cidade
superpovoada colocaram uma grande demanda de educação para todos e
livros para todos no caso da gente das cidades. Aquela inexorável dama,
a Necessidade, entretanto, não exerceu por muito tempo igual pressão com
relação à gente do campo. Embora as consequências da ignorância e da
falta de livros sejam imediatas nas áreas urbanas, são latentes e tornam-se
visíveis somente muito tardiamente nas áreas rurais.

2312 Importância do Campesinato


Apesar disso, os trabalhadores agrícolas que moram no interior cons-
tituem uma classe muito importante em qualquer país. A agricultura é
uma das ocupações fundamentais e originais do homem. Adão cuidava
de um pomar e Abraão era pastor. A agricultura alimenta o mundo.
Requer habilidades em constante progresso. A necessidade que um país
tem de trabalhadores agrícolas preparados e adaptáveis somente pode ser
atendida levando-se o uso de livros para as áreas rurais. Mesmo num país
industrial como a Inglaterra, onde somente 20% da população moram no
campo, e as cidades constituem os centros principais de produção, percebe-
-se que o futuro da nação estaria ameaçado se aos poucos habitantes das
zonas rurais não fossem dados seus livros. Não seria ainda mais sério e
mais fundamental o problema das bibliotecas rurais na Índia, onde, mes-
mo que nos limitemos à Índia britânica, somente 12,9% da população de
247 milhões de habitantes vivem em cidades [...], há somente 29 cidades
com população superior a 100 mil habitantes [...] e mais de 2 100 cidades
contam com população entre cinco mil e 100 mil habitantes, enquanto o
número de vilas não fica muito longe de meio milhão?86 Além disso, as
cidades indianas ainda não se tornaram semelhantes em sua função às
cidades industriais da Inglaterra. Como o Sr. V. Ramasvamy Ayyar, douto
presidente da Indian Mathematical Society, observou, bem-humorado, em
recente retiro da International Fellowship, a função da maioria das cidades
indianas se parece com a do tanque de um compressor de ar: muito pouco
do barulho e da trepidação que apresentam se deve a atividades produti-
vas. Ocupam-se principalmente em sugar a riqueza produzida nas vilas e
levá-la para o ultramar. Por isso a comissão Linlithgow observou, “É sobre
os lares e as terras de seus agricultores que a força do país e as bases de
sua prosperidade devem, em última análise, apoiar-se.”87
a segunda lei e sua luta 69

2313 Estímulo de Novas Ideias


Entretanto, na situação atual de competição e luta internacional,
verifica-se que a agricultura e outras indústrias rurais serão cada vez mais
inúteis e menos valiosas, se forem praticadas com métodos de produção
e comercialização antiquados. A necessidade principal dessas indústrias
rurais é o estímulo diário que lhes proporcionam as novas ideias e a cons-
tante oferta de treinamento sobre essas ideias. Novos métodos de produção
agrícola são inventados a cada ano. Novos mercados devem ser encontra-
dos de tempos em tempos. Surgem formas de comunicação com as quais
nem mesmo se sonhava, e que devem ser conhecidas. É preciso adotar
urgentemente máquinas e dispositivos que economizam mão de obra.

2314 Fluxo de Ideias e de Livros


Até recentemente, as famílias viviam da terra e produziam manual-
mente quase tudo de que se alimentavam ou vestiam. Os bois e o arado
de madeira eram quase os únicos recursos disponíveis que permitiam
economizar mão de obra. As pessoas fabricavam a própria manteiga, velas
e roupas, produziam por evaporação o próprio sal, moíam o próprio cereal
em primitivos moinhos manuais. O comércio era praticado principalmente
mediante escambo. Mas, no curto período de uma geração, invenções notá-
veis em matéria de implementos e métodos agrícolas foram aperfeiçoadas
e são introduzidas em outros lugares. Neste ritmo, a escola de livros deve
constantemente complementar a escola da experiência prática.

2315 Mudanças na Comercialização


As melhoras na comercialização também contribuíram muito para a
necessidade de um campesinato progressista e para a necessidade de ele
ser abastecido frequentemente com livros e revistas. Não é mais preciso
transportar pequenas cargas de produtos por estradas lamacentas para
serem vendidas ou trocadas. Boas estradas de cascalho, caminhões, redes
ferroviárias e encomendas expressas mudaram em muito os métodos
de transporte. Os navios a vapor e a motor coletam os produtos e rapi-
damente os despacham para os grandes mercados do mundo. O bétel
de Kumbakonam tem agora que encontrar mercados em Madras e na
distante Benares. As bananas de Erode têm que ser comercializadas pela
Índia afora. O mesmo acontece com as frutas dos pomares e vinhedos de
Coorg e Caxemira. O algodão de Tinnevelly e o arroz de Tanjore devem
procurar mercados no exterior. Os produtos agrícolas não podem mais
ser trocados nas vilas. Devem ser criteriosamente vendidos em troca de
hundies.* Estas condições não serão efêmeras ou passageiras. Vieram para
* Espécie de letra de câmbio ou nota promissória, utilizada na Índia e outras regiões da
Ásia. (n.e.)
70 as cinco leis da biblioteconomia

ficar. Ano após ano, tornar-se-ão cada vez mais importantes. De agora em
diante, encaramos a agricultura como uma indústria capitalizada, que
requer conhecimento e capacidade executiva e que atrai homens com
capital e cérebros. O homem de pouca energia ou capacidade e aquele a
quem falte o conhecimento científico terão cada vez mais dificuldade para
não serem postos de lado. Não se pode mais depender de um campesinato
eternamente megulhado na ignorância e presa de métodos tradicionais. Se
o país quiser manter-se em dia com o mundo, os agricultores deverão ser
constantemente sacudidos de sua rotina. Deverão ser esclarecidos com os
fatos e as ideias científicas e econômicas mais atuais. Como fazer isso senão
com livros e revistas? Poderemos ainda permitir-nos continuar adiando a
oferta aos agricultores dos seus livros?

2316 Mudança no Horizonte Social


Tampouco é permitido aos moradores das cidades negar a seus irmãos
do campo os prazeres dos livros e outras amenidades da vida. Pois, como
disse recentemente a Royal Commission of Agriculture,

Na estrutura antiga da vida das vilas, certas influências estão em curso, que
deverão, mais cedo ou mais tarde, modificar profundamente suas caracterís-
ticas de auto-suficiência, e que, em algumas partes do país, já começaram a
produzir seus efeitos. [...] O desenvolvimento das comunicações e a consequente
aceleração e barateamento dos meios de transporte estão levando as vilas a se
aproximarem mais das áreas urbanas [...] o contato com as cidades introduz
novas ideias e o anseio por melhores condições de vida.

A vida do agricultor está, de fato, mudando mentalmente. O antigo isola-


mento e o estreito provincianismo estão rapidamente chegando ao fim. Ele
e a esposa não mais serão marcadamente ‘caipiras’. Eles, e principalmente
os filhos, vestem-se muito melhor do que antigamente. Os movimentos da
família não estão mais limitados pela força de tração de sua alimária. O
ônibus interurbano leva-os à cidade quase a qualquer hora. Uma viagem
à cidade, que antes consumia quase um dia inteiro, é agora uma questão
de mais ou menos uma hora. É fácil viajar à noite, uma vez encerrado o
trabalho do dia. O cinema e o teatro, antes desconhecidos, agora oferecem
suas atrações. As ligações com a cidade — financeiras, sociais e políticas
— estão consolidadas. Os filhos vão à escola secundária na cidade vizinha,
acabam copiando os modos de lá e fazem novas amizades. O horizonte
social amplia-se assim grandemente. Os casamentos consequentemente são
realizados a distâncias maiores do que antes e entre novas classes sociais.
a segunda lei e sua luta 71

232 Biblioteca Itinerante


Esta rápida e intensiva interação dos moradores da cidade com os
moradores do campo levaria estes últimos a exigir para si todas as fa-
cilidades de que os primeiros gozam. Os trabalhadores agrícolas e os
fazendeiros começariam a peguntar “Pagamos impostos do mesmo modo
que o pessoal das cidades. Qual o motivo, portanto, desse tratamento
discriminatório? Por que somente os moradores das cidades têm suas
bibliotecas e todas as comodidades que se encontram ao seu redor? Por
que o Estado não providencia também para nós bibliotecas iguais e outras
facilidades? Também temos cérebro. Também queremos melhorar nosso
conhecimento do mundo. Também queremos estar atualizados em nossos
métodos de trabalho. Também queremos nossos livros.” A democracia
moderna investiu estes camponeses conscientes com o poder de exigir seus
livros, se não estiverem chegando voluntariamente, e de fazer com que
sua reivindicação seja ouvida. Esta, na verdade, foi a origem da primeira
biblioteca itinerante de caráter regular.

2321 Maryland
No condado de Washington, Maryland (eua), viviam muitas pessoas que pos-
suíam poucos livros para ler, para quem o processo de comprar livros custava
muito caro, mas que eram ávidas por uma boa literatura. Algumas delas pro-
curaram a senhorita Mary L. Titcomb, da biblioteca pública de Hagerstown, e
solicitaram que lhes fossem remetidos livros (grifo nosso) [...] Com isso a senhorita
Titcomb teve a ideia de uma carroça onde seriam instaladas estantes e carre-
gada com um grande sortimento de livros, e que subissem, pelos caminhos
montanhosos, até as moradias, o que seria uma forma esplêndida de oferecer
às pessoas uma oportunidade de ler [...] Isso aconteceu em 1905 [...] Em 1910,
o cavalo e a carroça deram lugar ao automóvel. Atualmente, cerca de 300 con-
dados seguiram o exemplo de Hagerstown, Maryland.88

E, ademais, os municípios de várias outras partes do mundo também


começam a seguir esse exemplo. Foi a reivindicação inicial dos camponeses
de Maryland que desencadeou a ideia.

2322 Inglaterra
Os experientes administradores do Carnegie United Kingdom Trust
mostraram como criar nos moradores do campo uma demanda por livros,
no caso de estarem esquecidos tanto dos benefícios trazidos pelo uso de
livros quanto do seu direito de reivindicá-los. Soubemos disso pela auto-
ridade nada menos de sir William Robertson, o primeiro vice-presidente
do Trust, ao descrever a origem das bibliotecas rurais na Grã-Bretanha:

Colocamos a isca em nossos anzóis com bastante generosidade. Dissemos ‘não


72 as cinco leis da biblioteconomia

só nos responsabilizaremos pelas despesas de capital, mas também arcaremos


com as despesas de manutenção durante cinco anos’. Assim, os governos lo-
cais, sempre apavorados com as taxas cobradas da população, não teriam que
recear a necessidade de aumentar essas taxas. Tivemos que seduzi-los ainda
mais, pois estávamos convencidos de que, expirado o prazo de cinco anos, uma
fome real e permanente de leitura teria sido descoberta, não criada, uma vez
que já existia de forma latente. Se os governos locais, depois desse período, se
mostrassem contrários e quisessem voltar atrás, a população não lhes permitiria
que fizessem isso. Fomos de condado em condado [...] Não esperamos que nos
procurassem, pois, como tínhamos sido nós que lançamos o projeto, partiu de
nós o passo inicial para convidá-los a examinar nossa proposta.89

O primeiro projeto de biblioteca de condado da Inglaterra foi inaugurado


em Staffordshire, em 1916. Essa campanha deliberada e planejada foi sufi-
ciente para, em menos de uma década, levar livros para todos além dos
limites daquela cidade e espalhá-los vitoriosamente por todos os condados
da Inglaterra, com exceção de três. O resultado foi que a reivindicação
dos moradores do campo por seus livros tornou-se tão insistente que o
parlamento inglês teve que instituir, pelo Amending Act de 1919,90 um
projeto de bibliotecas rurais, por condados, e nomear uma comissão de
bibliotecas públicas em 1924 “para estudar a suficiência dos serviços das
bibliotecas”e investigar, entre outras coisas, “os meios de ampliar e concluir
esses serviços em toda a Inglaterra e no País de Gales”.91

2323 Índia
As reformas recentes investiram os camponeses (ryots) da Índia tam-
bém com o poder similar de reivindicar seus livros e exigir um projeto
de bibliotecas rurais, de âmbito nacional, que ofereça as mais modernas
facilidades que hoje lhes são inerentes. Talvez não tarde muito o dia em
que se deem conta de que possuem esse poder e venham a pô-lo em prá-
tica. O advento desse dia pode ser acelerado por meio de incentivos como
os que seus contemporâneos da Grã-Bretanha receberam do Carnegie
United Kingdom Trust. Mesmo que não haja tal perspectiva para os ryots
da Índia, a propaganda sistemática e contínua feita por entidades como
a Madras Library Association pode ser muito útil para levar a mensagem
da Segunda Lei ao interior e abrir os olhos dos camponeses para o uso dos
livros e para o direito de tê-los.

233 Êxodo para a Cidade


Mas, mesmo de um ponto de vista tacanho e estritamente egoísta, os
urbanitas fariam bem em admitir as exigências da Segunda Lei quanto a
fornecer aos moradores do campo os seus livros. É de seu próprio interesse
contribuir para a redução do crescente êxodo da população rural para as
a segunda lei e sua luta 73

cidades. Várias causas estimulam esse êxodo, mas várias delas podem ter
seus efeitos atenuados por meio de uma rendição prudente à Segunda
Lei da biblioteconomia.

2331 Jovem que Fora Educado


Vejamos, por exemplo, uma dessas causas, claramente exposta pela
comissão Linlithgow. Os conterrâneos de um rapaz que fora à escola

viam que ele possuía uma qualificação com a qual poderia, simplesmente se
candidatando, obter um tipo de emprego que estava além do alcance deles [...]
Isso contribuiu para o êxodo dos rapazes que haviam frequentado a escola do
interior para a cidade, que ainda continua, embora as condições que lhe deram
origem estejam mudando rapidamente. A oferta de mão de obra qualificada
para trabalho de rotina no governo e no comércio quase supera a demanda [...]
Na medida em que essa oferta é aumentada pelo êxodo dos jovens escolariza-
dos do interior para as cidades, onde incharão os exércitos de desempregados
qualificados, só é possível remediar isso, em nossa opinião, por meio da difusão
da educação em áreas rurais junto com a melhoria das comodidades oferecidas pela
vida nas vilas do interior. É inútil esforçar-se para fazer o relógio andar para trás,
restringindo a educação ao mínimo92 (grifo nosso).

2332 De Filho para Pai


A tendência ao êxodo rural passa facilmente de filho para pai. A grande
maioria dos agricultores tem pelo menos de dois a quatro meses de folga
no verão, o que leva a que desenvolvam o hábito de férias. Por isso, o agri-
cultor passa alguns verões com o filho ou a filha ‘na cidade’, próxima ou
distante, deixando as terras aos cuidados de um empregado. As atrações
urbanas seduzem-no e à sua família de tal modo que ele arrenda a terra,
muitas vezes fechando completamente a casa na vila, e todos se mudam
para a cidade, para usufruir suas vantagens sociais e educacionais. Na etapa
seguinte, volta para casa, vende tudo e retorna à cidade em caráter perma-
nente, esquecendo-se por completo da vila e da fazenda. Uma das questões
sociais mais importantes, que agora defrontam os que se interessam pelo
bem-estar no campo, consiste em como prevenir esse êxodo absurdo.

2333 O Tédio da Vida Rural


Mesmo que um jovem escolarizado tenha a força mental para voltar
para seu povoado, as tristes condições que lá prevalecem, a absoluta falta
de meios de recreação intelectual e de orientação em suas atividades diárias
leva a um de dois resultados. Com o passar do tempo, ou negligencia seus
interesses importantes e acaba por esquecê-los, mergulhando num estado
mental doentio e tornando-se vítima crônica do jogo de cartas, ou volta
para a cidade, com medo daquela vida parada do interior.
74 as cinco leis da biblioteconomia

234 Efeito do Êxodo Rural


Além das desastrosas consequências econômicas, esse êxodo para as
cidades aumenta desnecessariamente o adensamento populacional nas áreas
urbanas, aumenta o custo de vida para os moradores e torna a manutenção
da saúde pública mais difícil e mais cara.

235 Prevenção do Êxodo Rural


O fato é que o país necessita de uma nova classe rural e de novas con-
dições nas regiões rurais de modo que estas continuem sendo utilizadas
para fins e funções agrícolas. Isto requer necessariamente a presença de
livros nas vilas — livros de todos os tipos — de modo que o longo verão
de ócio possa ser suportável e as mentes inquiridoras encontrem alimento
pronto ao seu alcance, sem ter que ir flanar nas cidades à sua procura.
Uma vez dado início ao projeto de bibliotecas rurais, será possível, como
já ocorre em outros países, ampliar seu campo de ação para muito além
dos livros. O projeto enviará filmes e diapositivos para as vilas, tanto para
recreação, quanto para informação. Ajudará na organização de concertos
musicais, conferências, espetáculos de teatro e exposições de todos os tipos.
Esforçar-se-á para atuar em toda nova oportunidade de serviço que surja e
se situe naturalmente em sua área de ação. Ademais, como um centro para
a vida comunitária, a biblioteca rural possui certas vantagens em compa-
ração com outras instituições rurais. É propriedade de todos e possui um
sentido democrático que, em geral, nem o templo nem o mutt* possuem.

2351 Serviço de Bibliotecas Rurais


Na verdade, se se permitir à lei livros para todos que atravesse os
limites da cidade, ela tentará dotar a vila com todas as comodidades e
oportunidades intelectuais possíveis que, até hoje, somente são encontradas
em áreas urbanas. Desta forma, um serviço de bibliotecas rurais moderno
passa a ser uma instituição forte que poderá reduzir o indesejável êxodo
das vilas para as cidades.

236 Organização do Serviço de Bibliotecas Rurais


Embora seja nossa intenção reservar todas as informações técnicas
para um volume posterior desta série, a suprema importância do projeto
de bibliotecas rurais para a Índia justificará uma breve digressão sobre o
problema da organização de bibliotecas nas vilas. Embora o taluk possa
ser, essencialmente, a unidade territorial mais conveniente para o projeto
de bibliotecas rurais, por enquanto talvez seja mais adequado começar por
uma base municipal. Mesmo que a área do município seja muito grande,

* Instituição religiosa e monástica. (n.e.)


a segunda lei e sua luta 75

os recursos do conselho municipal, bem como sua capacidade de trabalho


e direção permanentes são muito maiores que os de um conselho de taluk.*

2361 Bibliotecário Municipal


A criação e implementação de um serviço municipal de bibliotecas de-
penderão em muito da habilidade e do entusiasmo do primeiro bibliotecário
municipal. Tenho motivos para atribuir, em grande parte, as excepcionais
atividades educacionais de um dos distritos de nossa costa ocidental à
nomeação de um dinâmico diretor de educação, de tempo integral, ao qual
se deu não somente total liberdade, mas também generosos recursos. Do
mesmo modo, para que um novo projeto, como o de bibliotecas municipais,
tenha êxito, a primeira exigência é selecionar e nomear um bibliotecário
bem capacitado, empreendedor e entusiasta, para ser o organizador da
biblioteca municipal. Nenhum governo municipal deve cometer o erro
crasso de iniciar esse projeto sem atender a este pré-requisito básico. Se
o cometer, estará somente tentando provar que o projeto não dará certo.

2362 Primeiro Conheça a Comunidade


Se a nomeação do bibliotecário municipal deve ser o primeiro passo
do conselho municipal, a primeira providência que o próprio bibliotecário
deve tomar é conhecer, diretamente, a comunidade a quem servirá. Seria
insensato e desastroso partir de noções estereotipadas sobre as reivindica-
ções dos moradores do local. A experiência de outros países mostrou que
localidades de espécies aparentemente idênticas na realidade necessitam
de diferentes espécies de livros. A bibliotecária do condado de Nottingha-
mshire, na Inglaterra, dá um exemplo notável disso em seu trabalho sobre
como implantar um projeto de biblioteca de condado,93 que, a propósito,
constitui uma exposição muito lúcida das dificuldades iniciais enfrentadas
por quem organiza uma biblioteca municipal. A primeira recomendação
que ela faz é: “Primeiro conheça sua comunidade, e para isso é essencial
visitar cada local antes de implantar o projeto.”

2363 Bibliotecário Distrital**


O segundo passo do bibliotecário municipal consiste em recrutar a
colaboração do diretor de educação do município, dos inspetores escola-

* A Índia divide-se administrativamente em estados e territórios, que possuem quatro


níveis hierárquicos: divisão, distrito, taluk (tehsil, quadra e outras denominações) e vila.
Assim, o distrito seria aproximadamente o município no Brasil; por isso, nesta tradução
empregou-se ‘município’ para district, opção seguida também para o adjetivo, sempre
que pertinente, com a ressalva de que não se trata de uma analogia perfeita. Os conselhos
municipais (district boards) são órgãos executivos colegiados de autogoverno local. (n.e.)
** No original, village librarian (bibliotecário da vila). (n.e.)
76 as cinco leis da biblioteconomia

res, dos coletores de impostos (tahsildars), dos presidentes dos conselhos


comunitários (panchayats), das cooperativas e outros interessados nas
atividades de desenvolvimento rural. Com sua ajuda e também por meio
de sondagens que faça, o bibliotecário municipal deve escolher a pessoa
mais indicada para ser o bibliotecário de cada localidade. O professor, o
juiz (munsif), ou o contador da vila — quem for a pessoa mais popular —
deve ser selecionado para essa incumbência. Como exemplo e norma, o
representante escolhido deve ser auxiliado para despertar o entusiasmo
necessário. A motivação dos bibliotecários locais é parte crucial da orga-
nização. Para esta tarefa precisamos de um organizador, que seja acima
de tudo muito entusiasmado, que seja uma personalidade de muito bom
relacionamento, paciente e com capacidade para trabalho duro. Muitas
vezes existe na vila um partidarismo insuperável. Convém, neste caso, ter
um representante local de cada partido.

2364 Publicidade da Biblioteca


O passo seguinte consiste em divulgar ao máximo a ideia da biblioteca
em toda a região. Convém pedir aos jornais do município que anunciem
os recursos oferecidos pela biblioteca municipal, da forma que for mais
destacada e tão frequente quanto possível. Folhetos atraentes devem ser
amplamente distribuídos de tantas formas quanto possível. Cartazes de óti-
ma qualidade, com cores atraentes e texto cativante, devem ser distribuídos
em profusão. A imagem do belo cartaz, desenhado pelo Carnegie United
Kingdom Trust para uso das bibliotecas dos condados da Grã-Bretanha,
mostra “uma tocha do saber, de ferro esmaltado, de 43 por 33 cm, com uma
filactera vermelha que leva, em letras brancas, as palavras biblioteca do
condado.94 As festas e feiras locais devem ser visitadas, bem como, nessas
ocasiões, ser lançada uma forte campanha publicitária, contando com a
cooperação de diligentes voluntários. Vejamos esta descrição de uma feira
norte-americana: “Em toda parte eram encontrados avisos ‘venha assistir
à nossa palestra sobre livros de viagens no estande da biblioteca, hoje, às
15 h.’ E muita gente realmente compareceu.”95 Dá muito trabalho levar a
palavra da Segunda Lei a cada vila e povoado e inculcar nas mentes de
seus moradores a importância para o país do trabalho feito pela biblioteca
municipal.

2365 Seleção de Livros


Por último, mas não menos importante, deve ser oferecida, de modo
imediato e com regularidade, uma variedade de livros de qualidade, bem
escritos e bem ilustrados. Devem ser remetidos para a biblioteca tanto
livros para leitura recreativa como de natureza informacional. Alguns
destes devem ser pertinentes às indústrias e interesses locais. Vale a pena
a segunda lei e sua luta 77

citar a experiência do bibliotecário local de uma vila do condado de Cam-


bridgeshire, na Inglaterra:

Livros que tenham relação com as indústrias locais — agricultura e horticultura


— são avidamente procurados, e, com relação a isso, gostaria de mencionar um
método que adotamos de vez em quando. Muitas vezes recebemos um livro que
sabemos que será útil para algumas pessoas que nunca utilizaram a biblioteca.
Neste caso, mandamos o livro para o provável leitor com uma mensagem,
sugerindo que dê uma olhada e, se estiver interessado, que o retenha por uma
ou duas semanas. Dessa forma fizemos circular vários livros técnicos que, ao
contrário, nunca seriam lidos. A dificuldade neste caso foi receber o livro de
volta; o usuário achou-o tão útil no seu trabalho diário que não podia ficar
sem ele. Não tenho dúvida alguma de que esse cavalheiro já ganhou muito
dinheiro depois do que aprendeu sobre embalagem de frutas, etc., num livro
que lhe enviei por acaso. Fizemos, porém, outro amigo e criamos outro leitor.
Começo a acreditar que muitos agricultores e jardineiros não percebem que
há livros que tratam exclusivamente de seus interesses e dificuldades, e nosso
trabalho consiste em corrigir esta noção equivocada.96

2366 Seleção de Materiais de Extensão


A circulação de diapositivos deve ser incorporada ao trabalho da biblio-
teca municipal. Em alguns municípios, vi vários projetores, que haviam
sido distribuídos pelo conselho municipal, simplesmente enferrujando
devido à falta de diapositivos. Muitas vezes, as peças se quebram e o bico
de gás fica entupido de ferrugem. Em certo lugar, a lente estava tão irre-
mediavelmente suja com uma camada oleosa que, mesmo depois de meia
hora de limpeza, não pôde recuperar a transparência original. Revelando
a mesma falta de coordenação, é possível encontrar vários projetores
num único lugar, sendo que um está com o inspetor de saúde, outro com
o inspetor escolar e ainda outro na escola local, mas nenhum deles em
condições de funcionamento e nenhum com diapositivos. A biblioteca
municipal pode eliminar esta duplicação perdulária e, o que é mais im-
portante, fazer os diapositivos circularem periodicamente. Pode também
promover a circulação de discos fonográficos e coleções de fotografias. Há
ainda grandes possibilidades para o trabalho educacional mediante sessões
de cinema itinerante, quando podem ser exibidos filmes que despertem o
interesse por outros países, pela natureza, pelas fábricas, pelas indústrias,
pelos métodos de venda e pela saúde pública. É bom conquistar simpa-
tia, mostrando primeiro filmes baseados no Ramayana, Mahabharata,
Sakuntala e assim por diante, alternando-os com filmes mais utilitários e
informativos. No início, quando a palavra impressa somente é entendida
ao ser lida por outrem e não pode ser lida pessoalmente pela imensa
multidão de analfabetos, este aspecto do serviço de biblioteca municipal
será não somente essencial, mas também um bom incentivo para que os
78 as cinco leis da biblioteconomia

camponeses almejem e se sujeitem a superar rapidamente o analfabetismo.


Essa deve ser uma das características transitórias das atividades de nossas
bibliotecas municipais por um curto período.

237 Biblioteca Central Municipal


Talvez seja conveniente instalar o depósito central da biblioteca munici-
pal na sede da administração local. Deve ser planejado de modo a facilitar
o trabalho tanto quanto possível. Uma sala com estantes, uma sala para
empacotamento e um escritório serão suficientes. No início, uma ou duas
salas contíguas no andar térreo do escritório do conselho municipal podem
ser suficientes. O quadro de pessoal deve evoluir conforme o projeto se
desenvolva. Mas, desde o início, deve haver pelo menos um assistente
competente que cuide do trabalho rotineiro, caso contrário o bibliotecá-
rio terá que dedicar a isso grande parte do tempo que deveria dedicar à
organização. Como o bibliotecário estará com frequência viajando pelo
interior do município, o assistente deverá ter competência para assumir
responsabilidade nessas ocasiões.

2371 Transporte de Livros


O transporte variará de acordo com as condições locais do município.
Um município como Tanjore pode facilmente despachar caixas de livros
graças à sua rede ferroviária e às linhas de ônibus. Num distrito como
Kurnool, talvez seja preciso pedir a ajuda de carros de boi e carregadores.
Mas talvez não seja preciso o bibliotecário distrital “como um de nossos
colegas, viajar durante dois dias em lombo de mula, puxando outra
mula carregada de livros, por dentro de um rio,” nas palavras do coronel
Mitchell.97 Um método ideal de transporte é o do carro-biblioteca. Ele
pode ser adaptado com prateleiras para transportar aproximadamente
um milheiro de volumes, onde os moradores e os bibliotecários das vilas
podem selecionar o que desejam ao devolver os volumes que foram lidos.
O próprio bibliotecário pode dirigir o veículo ou acompanhá-lo em suas
viagens pelo município. Também fará publicidade do projeto da biblioteca
municipal de uma maneira muito eficiente. Esta é uma forma econômica
de transporte e eliminará as despesas de locomoção do bibliotecário. O
carro-biblioteca poderá visitar cada localidade uma vez a cada três meses.

2372 Centro Local


Os centros locais de entrega e substituição dos livros podem ser quais-
quer que sejam convenientes, como escolas, templos, mutts, agências de
correios, lojas e residências. Assim que o bibliotecário chega com o carro-
-biblioteca, uma multidão de homens, mulheres e crianças cerca o veículo
e em pouco tempo a maioria dos livros é tirada das prateleiras.
a segunda lei e sua luta 79

238 Resistência Inicial


No início, o bibliotecário municipal deve estar preparado para en-
contrar, nas vilas, uma atmosfera absolutamente hostil e desconfiada. Os
motivos para essa desconfiança inicial podem, entretanto, ser facilmente
identificados. O professor local, malremunerado, a quem provavelmente
será repassado o trabalho de fato, talvez já preste uma cota de colaboração
voluntária mais do que razoável e não receba de bom grado qualquer en-
cargo adicional. O juiz (munsif) da aldeia pode estar na função há muitos
anos. Talvez haja desenvolvido um arraigado desprezo por essas novidades
modernas e por isso careça da juventude e entusiasmo que são essenciais
ao desenvolvimento rural hoje em dia. Um terceiro fator, de mais difícil
persuasão, pode ser o latifundiário local, que vê com desconfiança e des-
crédito todas as tentativas de ampliação dos recursos educacionais, que
podem capacitar os trabalhadores rurais (ryots) a terem independência
de pensamento. Todos estes elementos de hostilidade — o professor so-
brecarregado de trabalho não remunerado, o juiz em quem se apagou a
chama da juventude, e o obscurantista latifundiário (mirasidar)* — levarão
aos limites o tato e o entusiasmo do bibliotecário municipal. Porém, com
paciência e compreensão das condições locais, esses obstáculos não serão
insuperáveis.

2381 Depois de Quebrado o Gelo


Depois de superados estes primeiros preconceitos e quebrado o gelo,
o progresso ocorrerá sem problemas e de forma automática. Pelo menos
assim tem sido em outros lugares. A seguir são relatados alguns casos,
que demonstram as tremendas potencialidades de leitura dos moradores
do campo que apenas esperam os recursos necessários para eclodirem de
forma irrefreável.

2382 Exemplo 1
O bibliotecário do condado de Surrey conta que deparou

uma jovem empregada doméstica que aprecia The garden party [A festa], de
Katherine Mansfield, mais do que qualquer outro livro que já tinha lido, por-
que ‘gosta do jeito que ela escreve’. Ou pode ser uma motorista de ônibus com
um gosto pela literatura tão bom quanto o de qualquer estudante do curso de
inglês adiantado que eu tenha orientado. Mas há também os adolescentes,
recém-egressos da escola, numa idade em que a falta de emprego combinada

* Na Índia, antes e depois do domínio britânico, sistema de trabalho rural assemelhado,


grosso modo, à parceria ou meação. A parte que cabia ao trabalhador chamava-se mirasi
(do verbo merah, compartilhar) e mirasidar era quem detinha a posse da terra, ou seja o
latifundiário, que possuía ampla presença, e interferia grandemente em quase todos os
aspectos da vida da comunidade que dependia do trabalho em suas terras. (n.e.)
80 as cinco leis da biblioteconomia

com o fim da educação formal formam uma grande ferida em todo o tecido
social. Numa de nossas bibliotecas ramais, soube de vários jovens — um men-
sageiro de telegramas, um carregador da estação ferroviária, um entregador
e um balconista de mercearia — que sempre que a biblioteca é aberta vão
direto para as estantes onde estão os livros de história natural, passatempos,
mecânica e ciência.98

2383 Exemplo 2
A bibliotecária da vila de Sohan, Cambridgeshire, conta: “Há certa
demanda por livros sobre assuntos domésticos da parte de jovens casadas,
interessadas em melhorar os métodos antigos.”99 A mesma bibliotecária,
falando a respeito dos jovens de sua vila, observa

Seus gostos são mais universais e geralmente percorrem as estantes onde


ficam os livros de não-ficção, aprendendo a garimpar entre eles. Obras sobre
invenções, passatempos e história natural os fascinam e por isso esses livros
deveriam ser mais profusamente ilustrados.100

Em dois anos de existência, a biblioteca do condado de Cambridgeshire


revelou a existência de inúmeros interesses de leitura.

2384 Exemplo 3
O bibliotecário de Cottenham, outra vila do mesmo condado, registra

Há o sapateiro que recusa tudo que não seja história ou romances históricos,
que não pode acreditar que exista alguém na própria terra do Wake que não
tenha lido Hereward, de Kingsley;* e do fruticultor que insiste em livros de
astronomia.101

2385 Exemplo 4
Outro bibliotecário de condado menciona um jardineiro que devora
todo livro sobre o Egito que o bibliotecário da vila lhe consegue, e um
guarda ferroviário que lê os livros de viagem de Sven Hedin.**

2386 Exemplo 5
A alegria que a biblioteca itinerante está levando aos moradores de
vilas monótonas é ilustrada por uma nota102 recebida pelo bibliotecário
do condado de Kent e enviada por moradora “que vive a mais de 13 qui-

* Referência ao romance histórico Hereward, the last of the English, de Charles Kingsley
1819–1875, baseado na figura semilendária de Hereward the Wake, que teria se insurgido
contra Guilherme, o Conquistador (c. 1028–c. 1087). (n.e.)
** Geógrafo e explorador sueco (1865–1952), que percorreu regiões da Ásia central. Sobre
suas viagens escreveu vários livros, que foram muito populares na Europa nas primeiras
décadas do século xx. (n.e.)
a segunda lei e sua luta 81

lômetros de qualquer cidade e que recebeu livros úteis para seus estudos
de literatura francesa”. A nota termina assim: “sou-lhe eternamente muito
grata por ter me ajudado a construir para mim um pequeno mundo de
felicidade”. Segundo outro relato, o pároco de Esclusham Below, em Den-
bigshire, com cerca de 1 900 habitantes espalhados por vários vilarejos de
mineração, transformou 263 deles em leitores constantes e empresta cerca
de sete mil volumes por ano; e o bibliotecário local relata com satisfação
que “os membros do conselho paroquial estão jubilosos com o progresso
feito e envidarão todos os esforços para assegurar o seu sucesso futuro”.103

2387 Exemplo 6
Não podemos encerrar esta seção mais adequadamente senão citando
os votos ardorosos desejados ao progresso da Segunda Lei da biblioteco-
nomia no meio rural pelo diretor do New York State College of Agriculture:

Quase não é preciso dizer que o sistema educacional de um condado não estará
completo enquanto não houver uma ou várias boas bibliotecas que atendam a
toda a população. Para a maioria dos condados rurais, a biblioteca do condado
parece ser a resposta. Enquanto as crianças e também os adultos das fazendas
não tiverem acesso conveniente e regular a coleções de livros adequados a
seus diferentes gostos e necessidades, nosso bem-estar e progresso nacional
ficarão aquém de suas possibilidades. Chegou a hora de promover um movi-
mento nacional para implantar e fazer com que os recursos da biblioteca sejam
ativamente utilizados e estejam acessíveis a todos os moradores do campo.104

24 O Normal e o Excepcional
A próxima antítese a ser considerada — o normal e o excepcional — é
de natureza mais complicada. Há condições excepcionais de todos os tipos.
Há o enfermo temporariamente internado num hospital. Há o analfabe-
tismo, que é uma condição passível de ser eliminada. Temos o prisioneiro
recuperável atrás de grades, enquanto os deficientes visuais, auditivos e
da fala formam as classes dos que são comumente descritos como ex-
cepcionais.* A palavra ‘todos’ em livros para todos abrange cada um
deles. A Segunda Lei não conhece qualquer exceção. Não pode descansar
enquanto não houver providenciado o atendimento de cada um, normal
ou excepcional, com o seu livro.

241 Uma Mesa-Redonda


O Paciente: Ah! Estar preso para sempre a este leito! Essas paredes sempre
brancas, nuas! Como eu gostaria de poder fugir!
O Psicólogo: Calma, meu amigo, calma. Não se deixe cair neste mau humor.

* Portadores de necessidades especiais. (n.e.)


82 as cinco leis da biblioteconomia

Irá prejudicá-lo. Nossa amiga acabou de chegar para conversarmos


sobre as formas e os meios de acabar com este tédio.
A Segunda Lei: Anime-se, senhor, eu trouxe um carrinho cheio de livros.
Você logo verá que ele passou por cada enfermaria e cada leito.
O Paciente: Eu não aguento esse barulho do carrinho.
O Psicólogo: (À parte, para a Segunda Lei). Coitado! Está com os nervos
em frangalhos! O menor rangido o angustia.
A Segunda Lei: Não tenha receio. Meu carrinho não faz barulho. Foi es-
pecialmente construído para uso hospitalar. Um cego não consegue
adivinhar que ele esteja em movimento.
O Cego: Ah! Você não sabe como nossos ouvidos são afiados.
A Segunda Lei: Mesmo assim, estou certa, você não conseguirá ouvi-lo.
O Paciente: Muito atencioso da sua parte. Peço desculpas pelo meu mau
humor. Que livros você nos trouxe?
A Segunda Lei: Lindos livros ilustrados, belas revistas de arte, romances
divertidos, poemas inspiradores, alguns hinos, a revista Tit-Bits, e...
O Paciente: Sim... Sua seleção é muito ampla. Mas me deixou de fora.
A Segunda Lei: Como?
O Paciente: Veja, fui professor a vida inteira. Não gosto de nenhuma leitura
que não seja substanciosa.
A Segunda Lei: Não faço nenhuma objeção a lhe dar o que quer, mas
lembre-se de um perigo. Imagine se você tiver uma rebordosa — Deus
me livre! — aí o médico culpará os livros difíceis que eu lhe trouxe, e,
quem sabe, talvez até cancele meu passe de visitante!
O Psicólogo: Não precisa mais se preocupar. Talvez não saiba que estou
aqui em tempo integral. Mande livros de todos os tipos. Cuidarei para
dar a cada paciente o seu livro, ou seja, o que ele puder apreciar sem
dano para a saúde. De qualquer modo, assumirei a responsabilidade
e providenciarei para que o médico não a jogue sobre você.
A Segunda Lei: Agradeço desde já. Que posso lhe mandar, professor?
O Paciente: Alguma coisa do Croce, em italiano, por favor... É tão gentil da
sua parte pensar em nós, pobres infelizes. Estou cansado. Não aguento
mais ficar sentado. Posso, com sua licença, recolher-me?
O Psicólogo: Sim, com certeza. Atendente! A cadeira de rodas.
A Segunda Lei: Professor, transmita minha mensagem de leito em leito.
Quando meu bibliotecário circular com o carrinho de livros, cada pa-
ciente dirá a ele o que deseja. Agora que o Psicólogo está aqui, posso
mandar qualquer coisa que eles peçam.
O Paciente: Muito obrigado, Deus o abençoe. Até logo.
A mãe do surdo: Imagine a disposição do velhinho em ficar estudando seu
italiano mesmo estando de cama.
O Analfabeto: Que Groce é esse, dona?
a segunda lei e sua luta 83

O Cego: Ah! Você não o conhece! É Croce e não Groce, um dos maiores
filósofos vivos. É italiano, e, é claro, escreve em italiano.
O Psicólogo: Também sou encarregado da prisão local, quer dizer, como
psicólogo, tenho também que cuidar dos internos.
A Segunda Lei: Mas, o que posso fazer? Foi só outro dia que mandei meu
bibliotecário dar uma volta com o carro-biblioteca. O velho carcereiro
aí ficou duro feito pedra. Rosnou algo como “O quê! Livros para esses
assassinos detestáveis!” Parece até que insultou meu bibliotecário,
dizendo “Se não tem um jeito melhor de ganhar a vida, aproveite a
primeira oportunidade de assaltar uma casa, e terei a oportunidade
de lhe conseguir trabalho”.
O Carcereiro: O quê? Quando foi isso?
A Segunda Lei: Alguns meses atrás, acho.
O Carcereiro: Graças a Deus! Não era eu!
O Psicólogo: Tudo isso agora são águas passadas. Esse velho carcereiro
já se aposentou. Parece que você não faz ideia de como as reformas
recentes humanizaram tudo. Esse tipo de carcereiro sarcástico já era.
Agora estão recrutando pessoas qualificadas, pessoas simpáticas, que
querem recuperar os criminosos ao invés de mantê-los eternamente
presos. Por isso é que me querem lá.
O Carcereiro: Asseguro-lhe, dona, que a senhora terá sempre minha en-
tusiástica cooperação na sua missão filantrópica. Em nome do meu
predecessor, apresento-lhe e ao seu bibliotecário o meu mais sincero
pedido de desculpas.
A Segunda Lei: Muito obrigado, senhor, mas fico muito contente ao saber
dessa mudança. Estou muito feliz. Um problema difícil que trouxe para
esta conversa já está assim resolvido.
O Psicólogo: Você tem a lista dos livros que mandou outro dia?
A Segunda Lei: Aqui está.
O Psicólogo: Tudo bem, enquanto estiver funcionando... Mas parece que
você esqueceu completamente os prisioneiros políticos. Eles gostariam
de receber livros e mais livros, de economia, política, metafísica, socio-
logia, e assim por diante.
A Segunda Lei: Eles permitirão esses livros na prisão?
O Psicólogo: Certamente, por que não? Apesar de tudo, é com a maior relu-
tância que o governo manda essas pessoas cultas para a prisão. É mais
para justificar a majestade da lei, do que para privá-los da liberdade.
Jogadores de fim de semana e infratores da lei do sal* são normalmente
os maiores intelectuais da comunidade. São presos apenas por causa de

* Lei que proibia a fabricação do sal, mesmo artesanal, sem autorização. Foi proposital-
mente violada pelo Mahatma Gandhi, em manifestações ocorridas em 1930, quando ele e
inúmeros de seus seguidores foram presos. (n.e.)
84 as cinco leis da biblioteconomia

delitos técnicos, e o governo também se preocupa para que se permita


a estas pessoas uma boa oferta de livros e periódicos, para que sua
inércia forçada não termine em mórbida melancolia.
O Carcereiro: Sim. Esta é a política correta. Enviarei hoje à noite para o
senhor uma lista do que eles querem.
A Segunda Lei: Levarei em mãos tão logo ela chegue e farei com que os livros
cheguem a você amanhã, por volta do meio-dia. Mas nosso serviço
não estará em sua melhor forma, a menos que entremos em contato
direto com nossos leitores.
O Carcereiro: Isso é fácil. Vou incluir seu bibliotecário em nossa lista semanal
de visitantes. Isso vai ajudar?
A Segunda Lei: Isso é o ideal.
O Cego: Senhoras e senhores, estou contente que vocês façam isso tudo por
aqueles que estão presos. E nós que estamos presos em perpétua escu-
ridão? Soube que, pelo último censo, chegamos a um total de 479 637.105
A Segunda Lei: Com certeza, este é o meu próximo ponto para discussão.
Estou consciente de que quinze em cada dez mil pessoas são cegas em
seu país.106 Mas, tenho livros para vocês também.
O Carcereiro: O quê? Cego pode ler?
A Segunda Lei: Sim, os livros em Braille. O cego pode lê-los com as pontas
dos dedos.
O Carcereiro: Isso é novidade para mim. Eles se parecem com livros de
verdade?
A Segunda Lei: Sim, mas são muito volumosos. A Bíblia compõe-se de 38
tomos que medem 25 cm por 31 cm por 5 cm; enquanto um romance
de Scott ou Dickens chega a ter de 8 a 10 tomos com as mesmas dimen-
sões.107 Além disso, são muito pesados. Cada volume em Braille pesa
quase 2,5 kg.108 Mesmo assim, como o cego não pode ir à biblioteca,
eles são normalmente remetidos pelo correio e o correio cobra apenas
uma taxa nominal.
O Analfabeto: As letras são fáceis? Podemos aprendê-las?
O Psicólogo: Por quê? Sua vista é boa e você pode aprender a escrita usual.
As letras do Braille são formadas com pontos em relevo, arranjados de
acordo com um código.
O Carcereiro: E quando isso foi inventado?
A Segunda Lei: Muito tempo atrás. Há mais de um século. De fato, foi em
1827 que se publicou o primeiro livro para cegos no Reino Unido.109
A primeira edição completa da Bíblia em Braille foi feita em 1890.110
O Cego: Que coisa! No século pasado! Onde se conseguem esses livros?
A Segunda Lei: A maioria dos países já criou uma biblioteca nacional para
cegos. A Inglaterra fundou a sua já em 1882.111 Os Estados Unidos,
pouco depois. A Alemanha, em 1894,112 e...
a segunda lei e sua luta 85

O Cego: E nós?
A Segunda Lei: O movimento está se espalhando. Recentemente chegou à
China e poderá chegar aqui muito em breve.
O Cego: E enquanto não chega?
A Segunda Lei: A Inglaterra e os Estados Unidos terão prazer em ajudá-los.
O Cego: Terão eles livros em quantidade suficiente?
A Segunda Lei: Ah, sim. Somente na Inglaterra, o estoque passa de 100 mil
volumes.
O Carcereiro: Cem mil volumes para cegos!
O Psicólogo: Os livros, você sabe, são o principal refrigério com que contam
os que padecem da cegueira.
O Carcereiro: São populares?
A Segunda Lei: Sim. Os usuários da biblioteca britânica para cegos excedem
10 mil, enquanto o empréstimo anual passa de 50 mil. E não faz muito
tempo a rainha distribuiu prêmios para as crianças cegas que usavam
as bibliotecas de forma mais eficiente.
O Analfabeto: E o que eles leem?
O Psicólogo: Naturalmente, todos os assuntos. As necessidades dos cegos
não diferem materialmente das necessidades das outras pessoas. O
nível de inteligência deles não é inferior, e algumas de suas faculdades
muitas vezes são mais desenvolvidas.113
O Cego: É verdade. Um de nós é especialista em consertar relógios de qual-
quer tipo. Sua oficina vai de vento em popa e seus concorrentes que
enxergam usam os olhos para admirar o sucesso dele, maravilhados
e com inveja.
A Segunda Lei: Há atualmente vários jovens cegos que ingressam nas uni-
versidades e se formam.
O Analfabeto: Então, estamos piores do que os cegos.
O Cego: Sim, como diz o Senhor, “Tendo olhos, não vedes?”114
A Segunda Lei: É fácil você ajudar a si próprio.
O Analfabeto: Mas, eu não sei ler.
A Segunda Lei: Se você for à biblioteca, alguém poderá ler os livros para
você. Há leitores especialmente designados para esta finalidade.
O Psicólogo: E, nesse meio tempo, você pode aprender a ler e escrever.
O Analfabeto: Gostaria muito. Mas será que consigo?
O Psicólogo: A biblioteca tem um clube de alfabetização. Matricule-se e em
seis meses você saberá ler e não precisará mais de ajuda.
O Analfabeto: Posso levar minha mulher? Ela também gostaria de aprender.
O Carcereiro: Sim. E sua avó também!
A mãe do surdo: E meu filho? Ele é surdo-mudo.
A Segunda Lei: Para mim, não será um problema especial, desde que ele
saiba ler e escrever.
86 as cinco leis da biblioteconomia

A mãe do surdo: Ele não sabe. Esse é meu problema.


A Segunda Lei: Então, encaminhe-o primeiro à minha irmã, educação para
todos. Rapidamente ela o dotará com a capacidade de ler e escrever.
Talvez nosso amigo, o Psicólogo, tenha mais informações.
O Psicólogo: Hoje é bastante simples ensinar os surdos-mudos. Cuidarei
disso.
A mãe do surdo: Depois que ele aprender, você conseguirá livros para ele?
A Segunda Lei: Com muito prazer. Estou aqui para isso.
A mãe do surdo: Você já encontrou leitores surdos-mudos?
A Segunda Lei: Muitos. Aqui está um relatório recente:115

Sobre a mesa de uma bibliotecária de referência uma moça passou um


bilhete. Nele estava escrito: ‘Estudei somente até a quinta série. Você pode me
indicar alguns livros para me ajudar a prosseguir nos estudos?’
A moça era surda-muda. Sentou-se ao lado da bibliotecária e começaram a
trocar mensagens escritas numa grande folha de papel.
‘Quantos anos você tem?’, escreveu a bibliotecária.
‘Dezenove,’ ela escreveu em resposta, ‘Trabalho como passadeira numa
lavanderia. Gosto de poesia, mas quero também estudar alguns fatos.’ [...]
A jovem voltou muitas vezes para pegar mais livros, estimulada por saber
que podia aprender graças à sua própria capacidade de ler.

A mãe do surdo: Que menina encantadora! Gostaria que meu filho também
tivesse esse conforto de espírito.
A Segunda Lei: A verdadeira finalidade da minha existência está em pro-
porcionar isso a ele.

25 O Coral da Biblioteca
Todos cantam em coro:

Há lugar para todos


Não vá um diretor
Malvado ou doutor
Confinar os livros
Para uma rica elite.
Temos livros para todos.

Livros para os ricos


E livros para os pobres
Livros para o homem
E para a mulher também.
Livros para os doentes
E livros para os contentes
a segunda lei e sua luta
87

Livros para os cegos


E para os surdos também.

Livros para os sabidos


E livros para os mandriões
Livros para os burgueses
E livros para os peões.

Livros para os letrados


E livros para os apenados
Temos livros para todos
Para cada um e para todos.

Um estranho entra, cantando:

Livros para todos, sim. Livros para todos


Mas falta acrescentar
Livros na terra
E livros no mar.

O Carcereiro: Posso saber, senhor, com quem estou falando?


O Estranho: Sou um marinheiro comum, senhor. Meu navio chegou a este
porto ontem à noite. Ao passar pela rua, meus ouvidos captaram o coral.
O porteiro me disse que vocês estavam fazendo uma mesa-redonda so-
bre livros para excepcionais, e o velhinho gentilmente deixou-me entrar.
O Carcereiro: Desculpe-me, mas você chegou muito tarde. Estamos quase
terminando.
O Marinheiro: Senhor, nossa reivindicação chamou a atenção de vocês?
Somos as pessoas mais carentes do mundo, pois passamos o tempo
todo sobre a água, flutuando de um lado a outro deste vasto mundo.
A Segunda Lei: Aceito isso como uma consulta. Fique tranquilo, pois você
não será esquecido.

26 A Terra e o Mar
Embora as antíteses entre ricos e pobres, homens e mulheres, cidade e
campo, normais e excepcionais tenham, desde o começo, atraído a atenção
do público com resultados diferentes, a antítese entre terra e mar parece ter
sido negligenciada por muito tempo, pois, como se diz, ‘longe dos olhos,
longe do coração’. As pessoas que levam a vida no mar passam a maior
parte do tempo longe de casa e suas exigências e carências raramente
são notadas por quem leva uma vida sedentária em terra. Entretanto,
88 as cinco leis da biblioteconomia

mesmo na Índia, onde as atividades e empresas marítimas não são muito


importantes, cerca de 600 mil pessoas116 passam mais tempo no mar do
que em terra. Ainda que este caso nos seja lembrado, o problema de levar
a cada marítimo o seu livro está cercado de dificuldades. Nas palavras
da comissão executiva do Carnegie United Kingdom Trust,

condições inerentes à vida no mar combinam-se para criar obstáculos para um


serviço organizado. A impraticabilidade de conseguir apoio financeiro com
impostos municipais; as constantes mudanças, exceto nas grandes companhias,
na tripulação dos navios; as incertezas quanto à movimentação de cargueiros
sem rota fixa; a necessidade de que haja meios para reposição de livros em
muitos dos principais portos do mundo, todos são fatores que contribuem
para a complexidade do problema.117

Apesar disso, a Segunda Lei da biblioteconomia insiste em que tais difi-


culdades não são intransponíveis e devem ser resolvidas. Em resposta à
sua insistência, a Inglaterra fundou, em 1919, o

Seafarers’ Education Service, que procura fornecer livros para os navios em


escala ambiciosa, tanto no que tange à organização quanto à seleção dos li-
vros [...] Em maio desse ano, a World Association for Adult Education reuniu
representantes dos armadores, dos sindicatos de marítimos e das sociedades
missionárias. Uma comissão permanente foi então designada para executar
o trabalho de fornecer bibliotecas como parte de um esquema educacional
completo para os marítimos.118

261 Leitura da Tripulação


A experiência logo mostrou que os marítimos liam os melhores livros
e cuidavam deles com respeito. Especialmente em viagens de longo curso,
a maioria dos livros é utilizada e estima-se que aproximadamente 75%
da tripulação usufruem a leitura, enquanto menos de 10% dos que vivem
em terra estão dispostos a isto. No fim de 1928, o número total de navios
assim atendidos era de 1 276.119

262 Financiamento da Biblioteca dos Marítimos


A questão relativa a como financiar adequadamente o fornecimento de
livros para os marítimos foi amplamente debatida pelo Public Libraries
Committee.120 Começa com a mensagem da Segunda Lei: livros para
todos, seja em terra, seja no mar. Os marítimos não têm menos direito
a um serviço de livros financiado com recursos públicos do que seus
compatriotas que vivem em terra . A única dúvida diz respeito a se a
responsabilidade por esse serviço deve ser honrada exclusivamente pelo
Estado, pela cooperação entre o Estado e as prefeituras das cidades por-
tuárias, ou somente por estas. Os membros da comissão não acham que a
a segunda lei e sua luta 89

última alternativa seja razoável ou viável. Tampouco recomendariam que


o Estado devesse ser onerado com a totalidade desse encargo. Por outro
lado, sugerem que a tarefa seja dividida igualmente entre as companhias de
navegação, os próprios marítimos, os órgãos responsáveis pelas bibliotecas
das cidades portuárias e o Estado.
O Public Libraries Committee fez a seguinte análise da receita da Sea-
farers’ Education Society durante seus primeiros cinco anos:

Valor em libras esterlinas


Companhias de navegação 6 899
Câmara da marinha mercante 500
Sindicatos dos marítimos 590
Carnegie United Kingdom Trust 2 385
Diversas pessoas jurídicas e físicas 390
Venda de livros, etc. 84
Total ............. 10 848

Esta análise revela a ausência significativa do Estado e das autoridades


municipais. O Committee deveria chamar-lhes a atenção para o apelo
constante da Segunda Lei e instá-los a que contribuam com sua quota, não
necessariamente em espécie, mas, o que talvez fosse melhor, com livros,
os do acervo da biblioteca central do Estado e os do acervo das bibliotecas
municipais das cidades portuárias.

263 Os Faroleiros
Os faroleiros necessitam de livros tanto quanto os próprios marinheiros.
A sorte da maioria dos homens confinados na solidão dos faróis é tão dura
quanto a de Robinson Crusoe em sua ilha deserta. Ou talvez pior. Enquanto
Robinson Crusoe tinha a liberdade de perambular, até mesmo esta liber-
dade lhes é negada. Embora o destino dos navios e seus passageiros, bem
como a prosperidade de seus proprietários em terra dependam de seus
serviços vigilantes e abnegados, não deixa de ser razoável que o apelo da
Segunda Lei a seu favor seja ouvido com a maior boa vontade. Embora os
faróis da costa possam ser atendidos pelas bibliotecas sucursais ou pelas
bibliotecas municipais, conforme for o caso, deve haver uma organização
central especial que atenda às necessidades dos faróis isolados em ilhas e
embarcações. O total de faróis e navios-faróis que recebem regularmente
livros na Grã-Bretanha e na Irlanda é de quase 300.

27 O Adulto e a Criança
Os embates da Segunda Lei, porém, atingem a fase mais complicada
quando tem que negociar a antítese entre o adulto e a criança. Por muito
90 as cinco leis da biblioteconomia

tempo, todos acreditaram — e mesmo hoje alguns ainda acreditam – que


a criança não tinha direito a livro algum, a não ser os didáticos, e que so-
mente os ineptos ‘perderão tempo com leituras adicionais’. Por outro lado,
acreditava-se — e alguns ainda acreditam — que, concluída a educação
formal, já se teria obtido o melhor acesso possível aos conhecimentos que
os livros podem oferecer. Basta assistir, do alto da ponte Cauvery, em
Kumbakonam, às águas do rio Cauvery cobertas e ornadas com páginas
de livros rasgados, ali atiradas por estudantes que saem do saguão da
faculdade, depois dos exames finais. Muitos interpretam este ato como
uma cerimônia que simboliza que eles superaram a etapa dos livros.

271 Educação Permanente


Essa crença de que o adulto que concluiu a escola não precisa mais de
livros remonta ao que se pode chamar a ‘teoria educacional do camelo’,*
segundo a qual, antes de iniciarmos nossa jornada na vida, devemos rece-
ber total e integralmente o alimento mental de que precisaremos ao longo
de todo o caminho. Essa crença não reconhece que a maturidade tem suas
aptidões, aspirações e urgências educacionais. Esta teoria, para a qual a
educação tem que ver apenas com a educação das crianças, encontra, po-
rém, fundamentação muito limitada na psicologia e tem pouco apoio da
experiência prática. Naturalmente, as crianças devem ser educadas. Mas
um sistema educacional que não reconheça a necessidade contínua do
adulto pelos instrumentos da educação, será mera futilidade. Em qualquer
democracia dinâmica, que esteja sempre desenvolvendo uma ordem de
coisas nova e melhor, a tarefa definitiva da educação pública será cons-
tantemente ensinar os adultos a participarem de forma inteligente dessa
nova ordem de vida. Os adultos devem primeiro aprender a viver a nova
ordem antes que possam ensiná-la. Foi a deplorável negligência deste
fator que fez com que o relógio de nosso currículo escolar fosse cega mas
prejudicialmente atrasado de vez em quando, por instância de poderosos
políticos, que insistem em meter o nariz onde não são chamados, mas que,
na plenitude de sua ignorância, desconhecem qualquer outro currículo
a não ser aquele com que foram ensinados, em sua remota infância. Da
prática da vida deve surgir a compreensão que traduza esse tipo de vida
em educação para as crianças. Portanto, mesmo que a pessoa possua tantos
graus quanto um termômetro, mesmo que se tenha graduado com a mais
alta distinção, ela será flagrantemente inculta, ou logo se tornará, se parar

* Menção à capacidade que o camelo tem de armazenar uma grande quantidade de água,
de uma só vez, o que lhe permite varar longas distâncias nos desertos e sobreviver até
oito dias sem beber. (n.e.)
a segunda lei e sua luta 91

de ler e deixar que o cérebro se enferruje a partir do dia da formatura. De


fato, a educação começa no berço e só termina na sepultura. Todos os adul-
tos educados estão, portanto, abrangidos no ‘todos’ de livros para todos.

272 Serviços para os Ex-alunos


Persuadir o adulto que se formou em seu curso superior a se submeter
ao poder da Segunda Lei constitui apenas um lado desta etapa da luta. A
Segunda Lei tem igualmente uma tarefa penosa a cumprir, que é convencer
a universidade que seu interesse pela educação dos alunos não termina
no dia em que ela lhes confere seu diploma. Embora não tenha o direito
de impingir-lhes mais educação formal, compete-lhe o dever de continuar
educando seus ex-alunos por meio dos livros da sua biblioteca. Uma das
conquistas da Segunda Lei da biblioteconomia consiste em inculcar este
novo dever, no qual as universidades progressistas e suas bibliotecas começam
a participar cada vez mais. A Segunda Lei poderia até ameaçar a universi-
dade, advertindo-a de que “você não pode reter o interesse e a lealdade de
seus graduados, a menos que reforce este novo serviço para eles através
dos seus livros. Deve haver esta ligação intelectual mais elevada. Sim,
do ponto de vista nacional, e afinal de contas é o tesouro nacional que a
mantém, este serviço aos ex-alunos é essencial, se não se quiser jogar fora
o dinheiro gasto no ensino de graduação por falta de acompanhamento
dos alunos formados.”

273 Reorientação do Ensino


Isso nos leva à nova orientação que a Segunda Lei causou nos métodos
de ensino. Ela diz à universidade, “O melhor que você pode fazer pelos
seus imaturos graduandos é despertar neles o entusiasmo pelo pensar e
pelo hábito de leitura. Lembre-se, a educação não termina na sala de aula.
Tenho que começar onde você terminou. É mais fácil para mim fazer com
que os graduandos que leem continuem lendo do que reconquistá-los para
a leitura depois de pessoas feitas. Em troca, nada tenho a opor a que você
dependa de mim, mais amplamente, durante suas aulas; na verdade, estou
bem preparada para ficar ao seu lado em seu trabalho diário e dar a mão
ao graduando, levando-o a andar com as próprias pernas quando a deixar
para trás.” Da mesma forma, ela diz às escolas, “A esperança do futuro
depende das crianças de hoje. Lembre-se que uma grande proporção das
crianças sai diretamente de seus cuidados para os meus. Não existe uni-
versidade para eles. Portanto, é imperativo que você lhes ofereça a maior
oportunidade em sua biblioteca escolar para formar o correto hábito de
leitura. Você sabe que a criança que adquire um amor profundo pela leitura
na escola tem mais probabilidade de continuar com esse hábito de leitura
depois que sai da escola. Portanto, fortaleça o trabalho da biblioteca escolar
92 as cinco leis da biblioteconomia

de modo que eu possa fortalecer o trabalho da biblioteca do futuro.” Em


sua tentativa de superar a embaraçosa antítese entre o adulto e a criança,
esta é a conciliação e a compreensão que a Segunda Lei está alcançando
entre os antigos e os novos instrumentos da educação, ou seja, escolas e
faculdades de um lado, e a biblioteca de outro.

28 Democracia Ilimitada
Assim, a luta da Segunda Lei da biblioteconomia deveu-se grandemente
à ilimitada democracia e universalidade de seu apelo. Os caprichos da na-
tureza podem militar contra a lei da democracia em muitas esferas da vida.
Nenhum credo político ou ético pode uniformizar as diferenças físicas, de
temperamento e inteligência mais do que as diferenças de altura ou cor.
Mas, a lei livros para todos mostrou ser mais do que um adversário à
altura dos perversos caprichos da natureza. Ela pode cegar alguns; pode
atar a língua de outros; pode lançar a sorte de outros destinando-os à soli-
dão; pode sujeitar a maioria ao jugo da miséria. No entanto a Segunda Lei
tratará a todos como iguais e oferecerá a cada um o seu livro. Obedecerá
escrupulosamente ao princípio da igualdade de oportunidades em relação
aos livros, ao ensino e ao entretenimento. Não terá descanso enquanto não
houver reunido todos — ricos e pobres, homens e mulheres, quem mora
em terra firme e quem navega os mares, jovens e idosos, surdos e mudos,
alfabetizados e analfabetos — a todos, de todos os cantos da Terra, até que
os tenha conduzido para o templo do saber e até que lhes tenha garantido
aquela salvação que emana do culto de Sarasvati, a deusa do saber.

281 O Episódio de Sambandhar


Para fazer uma analogia com esta abrangência universal da Segunda
Lei recuemos a Sambandhar e ao século vii.121 Shiyali, o lugar onde ele
nasceu, ainda conserva a memória de sua última façanha. No dia em que
ele se casou no povoado vizinho de Achalpuram, enquanto caminhava em
volta do templo com sua recém-consorte, vendo que de repente as portas
do céu se abriam, logo reuniu seus pais e parentes, os amigos e visitantes,
criados e seguidores — e não somente estes, mas todos os moradores do
lugar, todos os homens de todas as religiões, que acompanhavam ou não
a multidão, fossem cegos ou aleijados, jovens ou idosos, de bom grado ou
à força se não quisessem — reuniu todos, primeiro fê-los cruzar as portas
do céu, e, por último, também ali adentrou com sua amada esposa e se
tornou Um no Único, na companhia de todos os demais. Este último feito
de Sambandhar, que servirá, em sua expressão de fraternidade universal,
como um símbolo da Segunda Lei da biblioteconomia, é descrito com
detalhes por Sekkilar, famoso biógrafo da região tâmil do século xii.
a segunda lei e sua luta 93

122
94 as cinco leis da biblioteconomia

CAPÍTULO 3

A SEGUNDA LEI E SUA DIGVIJAYA*

30 Abrangência
No capítulo anterior, testemunhamos a lenta luta da Segunda Lei, de
trincheira em trincheira, de obstáculo em obstáculo; neste, veremos o su-
cesso arrasador de livros para todos, em sua desimpedida digvijaya ou
expedição de conquista do mundo. O capítulo precedente enumerou os
vários interesses adquiridos entrincheirados contra a marcha da Segunda
Lei; este capítulo nos levará numa volta ao mundo na esteira da majes-
tosa conquista da mensagem livros para todos. Por enquanto vimos a
difusão da Segunda Lei em diferentes camadas e segmentos da sociedade;
agora testemunharemos a difusão de livros para todos nos diferentes
continentes e países. livros para uns poucos eleitos tinha existido desde
que os livros são escritos. Mas, livros para todos é um conceito novo.
Embora as bibliotecas existam desde tempos imemoriais, só as origens
do ‘movimento por bibliotecas’ é que estão na memória de nossos avós.
Não é nosso objetivo traçar a história das bibliotecas que foram constru-
ídas tanto para acumular quanto para oferecer livros, no máximo, para
uns poucos eleitos. Nosso esforço, por outro lado, será fazer um rápido
levantamento do desenvolvimento do movimento em prol de bibliotecas
de nossos dias no maior número possível de lugares. Não trataremos aqui
de bibliotecas isoladas, por maiores que sejam, mas teremos que tratar
de uma multidão de bibliotecas. A irrupção de miríades de bibliotecas,
muitas delas, apesar de diminutas, palpitantes de vida e radiantes com
o resplendor causado pela recepção da boa nova democrática anunciada
pela incansável Segunda Lei.

31 Américas
A Segunda Lei da biblioteconomia lançou as sementes do movimento
por bibliotecas em todo o mundo. Algumas caíram em lugares pedregosos,
outras entre espinhos, e outras em solo fértil. Mas parece que as sementes
que caíram nos campos do Novo Mundo foram as primeiras a germinar.

* Na Índia medieval, as tentativas de alguns governantes para expandir sua influência


no subcontinente e mais além. Campanha militar. Vitória ampla, conquista, influência
alcançada no maior número de lugares. (n.e.)

94
a segunda lei e sua digvijaya 95

Parece que alcançaram o estágio de frutificação e que já começaram a espa-


lhar novas sementes em todo lugar. Como os primeiros a cuidar desta nova
família de plantas, os norte-americanos tiveram a oportunidade de fazer
um trabalho pioneiro que está longe de ter sido modesto. Aproveitaram
essa oportunidade única com um sucesso único. A energia, o entusiasmo
e os recursos do Novo Mundo foram colocados incondicionalmente à
disposição dessa espécie recém-germinada: o movimento por bibliotecas.
Novos solos foram constantemente preparados, novos transplantes fre-
quentemente feitos, novas espécies ousadamente cultivadas, novas classifi-
cações cuidadosamente testadas, novas técnicas tornaram-se necessárias e
foram inventadas, e surgiram facilmente novos adeptos em números cada
vez maiores. Um astuto escocês, que ganhara uma montanha de dólares,
distribuiu livremente sua fortuna para a causa desse movimento. A conju-
gação de circunstâncias é de longe a mais propícia que jamais aconteceu.
O resultado foi que os Estados Unidos passaram a ser considerados com
justiça como a terra das bibliotecas. Se perguntarmos às nações do mundo
o que sentem em primeiro lugar a respeito de seu próprio movimento por
bibliotecas, a maioria começa dizendo, “Estamos seguindo a liderança
dos Estados Unidos. Estamos adotando os métodos dos Estados Unidos.”
Por conseguinte, seria conveniente começar nosso estudo da digvijaya da
Segunda Lei com um breve levantamento de suas façanhas neste primeiro
lar do movimento em prol de bibliotecas.

311 American Library Association


O ano de 1876 parece ter marcado uma época do progresso do mo-
vimento por bibliotecas nos Estados Unidos. Foi o ano de fundação da
American Library Association. Discursando na 15a conferência dessa
associação sob o título Seed time and harvest, o Sr. R.R. Bowker, um dos
fundadores sobreviventes, disse

Faz meio século, reuniram-se em Nova York três jovens com ideias e ideais,
semente intelectual da qual ricos frutos se mostram neste conclave, na American
Library Association e no desenvolvimento do moderno sistema norte-americano
de bibliotecas, cujos métodos, conforme esta conferência internacional está a
indicar, estão presentes em todo o mundo.123

No dia 4 de outubro de 1876, estes três jovens conseguiram reunir “noventa


homens e treze mulheres”, que formaram “a American Library Association,
na qual o Sr. Melvil Dewey, primeiro-secretário, orgulhosamente inscreveu-
-se como o número 1, e à qual ele deu o lema ‘A melhor leitura para o maior
número pelo menor custo’”. Na segunda conferência, realizada em 1877,
a presença caiu para sessenta e seis, e numa outra, mais tarde, chegou até
a ser mais baixa com trinta membros. Entretanto, com exceção das duas
96 as cinco leis da biblioteconomia

conferências bienais seguintes e o intervalo de 1894, a American Library


Association tem realizado conferências a cada ano, chegando à marca de
mil em 1902 e de duas mil em 1926. O número de associados, que começou
com 103 nomes, cresceu agora para 11 833. Além disso, em 1850, os Esta-
dos Unidos possuíam apenas 644 bibliotecas, muitas das quais estavam
abertas somente para alguns eleitos. Mas hoje são mais de 6 500 bibliotecas,
de portas abertas para todos.

312 Pesquisa sobre as Bibliotecas


Podemos inferir a partir desses números impressionantes que a Se-
gunda Lei chegou ao fim de sua missão nos Estados Unidos? A Ameri-
can Library Association não tinha certeza da resposta a esta pergunta e,
portanto, com a ajuda de uma pequena doação da Carnegie Corporation
of New York, contratou os serviços, em julho de 1925, de um experiente
especialista para fazer uma pesquisa da situação. As perguntas objetivas
formuladas ao especialista foram:124
1. Quantas pessoas nos Estados Unidos e Canadá têm acesso a bi-
bliotecas públicas?
2. Quantas não dispõem do serviço de bibliotecas públicas e onde
moram?
3. Quantas bibliotecas públicas surgiram desde que a American
Library Association foi fundada?
4. A que distância estamos da meta de um serviço de bibliotecas que
atenda a toda a população?

3121 Resultados
A Segunda Lei estava interessadíssima no relatório do especialista.
A pesquisa foi feita com a maior rapidez possível e o relatório veio à luz
em julho de 1926. Quais foram os resultados da pesquisa sobre as quatro
questões fundamentais? Eis um resumo:
1. Cerca de 64 milhões ou 56% da população vivem em áreas onde
há bibliotecas.
2. Cerca de 50 milhões ou 44% da população ainda não dispõem de
serviço de bibliotecas públicas e, desse total, três milhões vivem em áreas
urbanas e os restantes 47 milhões vivem em áreas rurais.
3. Desde que a American Library Association foi fundada, um dos
seus objetivos, estabelecido no estatuto de 1879, a saber, “fomentar no país
o interesse pelas bibliotecas [...] predispondo a consciência pública para
a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”, vem sendo cumprido de
forma sistemática. Cerca de seis mil novas bibliotecas foram construídas.
Ao invés dos dois milhões de volumes de antes, 70 milhões de volumes
vieram a ocupar as estantes das bibliotecas públicas. Cerca de 240 milhões
a segunda lei e sua digvijaya 97

de volumes são emprestados anualmente e uma soma de aproximadamen-


te 90 milhões de rupias é gasta por ano em bibliotecas públicas.
4. O objetivo de atendimento universal da população foi alcançado
apenas em parte. Sem considerar os 44 milhões de pessoas que não dis-
põem de serviço de bibliotecas, o número atual de volumes é totalmente
inadequado. Corresponde somente a seis décimos de livro por habitante.
O número de volumes emprestados por ano chega apenas a dois por
habitante e o montante aplicado anualmente em bibliotecas públicas é
inferior a uma rupia per capita. Esse atendimento insuficiente, do qual
resultam médias tão baixas, atende à metade da população, deixando a
outra metade a descoberto.

3122 Implementação
A Segunda Lei protestou porque essa insuficiência e a consequente
desigualdade de oportunidades oferecidas pelas bibliotecas não são nada
democráticas, e perguntou: “O problema de fornecer serviço de biblioteca
pública para 50 milhões de pessoas que atualmente não dispõem dele é
grande o suficiente para pôr em xeque as melhores ideias e esforços de que
você seja capaz. Você teve o honroso privilégio de iniciar o movimento por
bibliotecas no mundo. Você vai tolerar a perda dessa honrosa posição?“
“Nada disso. Resistiremos,” disseram os Estados Unidos, e a American
Library Association imediatamente encarregou125 o Standing Committee
on Library Extension [comissão permanente de desenvolvimento biblio-
tecário] de envidar

um esforço organizado visando à meta de estabelecer um serviço de bibliotecas


públicas adequado, ao alcance fácil de cada um, nos Estados Unidos e no Canadá, e
a orientou para que isso fosse feito [...] em íntima cooperação com a League
of Library Commissions [liga das comissões de bibliotecas] e todas as demais
entidades interessadas, mediante quaisquer dos seguintes métodos ou similares:

1. Agentes de campo para prestarem assistência na instalação de agências


estaduais de desenvolvimento de bibliotecas, bibliotecas municipais e biblio-
tecas locais e melhoria das bibliotecas existentes.
2. Publicidade especialmente através de serviços sociais rurais e do meio
escolar.
3. Distribuição gratuita e ampla de publicações que estimulem o desen-
volvimento bibliotecário.
4. Pesquisas sobre condições e necessidades de bibliotecas, a fim de de-
senvolver programas estaduais ou locais de bibliotecas.
5. Estudo e levantamento de leis de bibliotecas e elaboração de projetos
de uma legislação-modelo.
6. Estímulo a demonstrações e iniciativas experimentais, especialmente
em áreas do estado e do município.
98 as cinco leis da biblioteconomia

7. Estímulo à obtenção de subsídios privados como ajuda ao desenvolvi-


mento de bibliotecas.
8. Estudos complementares sobre os problemas do desenvolvimento de
bibliotecas.
3123 Realizações
Uma breve descrição das atividades dessa comissão de desenvolvi-
mento de bibliotecas,126 em 1929, nos dá uma ideia da seriedade com que
o repto da Segunda Lei foi encarado. Se a quantia destinada pela comissão
puder ser tomada como um indicador, pode-se dizer que era mais ou me-
nos 50 mil rupias além das várias subvenções concedidas pela Carnegie
Corporation para determinados fins. Foi realizada uma conferência em
Chicago e um seminário de verão na University of Wisconsin, que serviu
de curso de revisão para agentes de campo. Do lado da publicidade, muitos
artigos de divulgação foram publicados em revistas destinadas ao homem
do campo, como American Farming, Prairie Farmer e Southern Planter, em
revistas femininas, como Farmer’s Wife e Women’s Home Companion, e em
periódicos educacionais, como Illinois Teacher, School Life e Texas Parent-
-Teacher. O total de matérias impressas e distribuídas gratuitamente entre
a população foi de 75 670, além de muitos textos mimeografados. Seis
exposições foram montadas e várias palestras ministradas em eventos.
A comissão colaborou para a aprovação de legislação favorável em cinco
estados e foram elaborados projetos de leis sobre bibliotecas em outros
cinco estados. Conseguiu obter ajuda financeira de uma instituição filan-
trópica destinada à criação de quinze novas bibliotecas municipais e ao
melhoramento de treze outras já existentes.

3124 Aplicação à Índia


Se o berço do moderno movimento por bibliotecas precisa de tanta
publicidade, de tantas conferências e de tantas despesas para predispor “a
consciência pública para a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”,
qual seria a necessidade de trabalho similar em nosso próprio país, onde
o movimento por bibliotecas não passa de um nome? Não só inexiste
aqui uma Carnegie Corporation que nos apóie, nenhum anjo com seu
akshayapatra,* que nos dê uma interminável ajuda financeira, mas, por outro
lado, temos o demônio da inércia, que parece ser um astuto kamarupi. Este
monstro assume tantas formas diferentes quanto Proteu. Ora é um esnobe
a zombar da publicidade da biblioteca, que considera vulgar, ora um cí-
nico que tenta associar todos os serviços públicos a algum motivo pessoal
inconfessável, ou um misantropo praguejando que jamais nos sucederá

* No hinduísmo, vaso mágico ofertado por Surya, o deus-sol, a Yudhistira, e que fornecia
alimentos de forma constante e infinita. Análogo, na mitologia grega, à cornucópia com
que Zeus presenteou a cabra Almateia. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 99

algum bem; ora aparece como ciúme, ora como uma filosofia paralisante.
Uma atmosfera dessas não favorece o crescimento do movimento por bi-
bliotecas. A ajuda talvez parta somente do Estado. Assim que o prestígio
da ação do Estado clarear a atmosfera, o movimento em prol de bibliotecas
poderá ter a oportunidade de preparar adequadamente a consciência da
população e encontrar mais nutrientes no solo natural da opinião pública.

313 México
Um passo para o sul nos leva ao México. Aqui, as sementes do movi-
mento por bibliotecas parece que haviam sido lançadas em solo sáfaro, até
que a Revolução de 1910 suscitou aspirações para a cultura popular. Os
esforços iniciais, com o objetivo de mostrar que a cultura e a educação não
poderiam ser uma reserva fechada das classes altas, não foram, entretanto,
eficientes, até ser criado um ministério da educação pública por lei de abril
de 1917. Este ministério foi incumbido pelo presidente com a tarefa de
produzir a tão necessária ‘transformação social’. Assim sendo, tentou, pela
primeira vez, construir uma ponte sobre o fosso cultural entre as classes
altas e as massas. Em pouco tempo, descobriu que a única ponte adequada
seriam as bibliotecas públicas e para isso estabeleceu um departamento
de bibliotecas em setembro de 1920. Ao verificar que a maioria da popu-
lação era analfabeta, o ministério teve que adotar métodos rápidos para
erradicação do analfabetismo, com a ajuda do que ficou conhecido como
‘missões culturais’.127 O trabalho desse departamento foi tão bem-sucedido,
que o México conta atualmente com cerca de 1 500 bibliotecas populares,
mil bibliotecas escolares, 800 bibliotecas industriais e 500 bibliotecas rurais.
Foram distribuídos em 1927 aproximadamente 700 mil volumes para as
bibliotecas das zonas rurais. As verbas alocadas variam conforme a situação
do tesouro nacional. Eram de aproximadamente 700 mil rupias em 1923,
mas de somente 60 mil rupias em 1927. O número de leitores superou a
marca de um milhão em 1927. A seção técnica do departamento mantém
um catálogo coletivo dos recursos bibliográficos de todo o país e publica
uma revista bibliográfica intitulada El libro y el pueblo.

3131 Dificuldades Superadas


As dificuldades enfrentadas pelo ministério da educação nessa missão
de ‘transformação social’ não foram poucas.

O México é um país de muitas raças, muitos climas e muitas opiniões. Da


mesma forma, é um país de castas e classes sociais [...] Grandes distâncias e
comunicações lentas tornam muito difícil mobilizar a opinião pública [...] O
complexo de inferioridade do índio em relação aos europeus [...] dificulta o
progresso de integração nacional.128
100 as cinco leis da biblioteconomia

Este México tão variegado está atualmente sendo integrado pelo ministério
da educação por intermédio da escola e da biblioteca. Algumas bibliotecas
são mantidas pelo governo federal e outras pelos governos estaduais. O seu
acervo de livros tem o objetivo de atender ao gosto de todos e às necessida-
des de todos. Inclui não só livros didáticos comuns, mas também manuais
de técnicas industriais e agrícolas, bem como livros sobre ‘administração do
lar’, conformes às necessidades locais. Conferencistas munidos de filmes e
diapositivos são mandados até mesmo para os povoados mais remotos, a
fim de atrair o povo para as bibliotecas. Criam-se espaços para as crianças
destinados a estimular o hábito da leitura e o amor aos livros, antes mes-
mo que os demais hábitos se consolidem. Assim, o México mostrou o que
pode ser feito por um punhado de técnicos, trabalhando com entusiasmo
e devotando toda sua energia a uma tarefa cheia de obstáculos, se tiverem
o apoio de um ministério popular que lhes seja favorável.

3132 Ajuda de Carnegie


Em 1926, a Segunda Lei induziu outro akshayapatra legado por Carnegie
— The Carnegie Endowment for International Peace — a socorrer a veterana
Library Association dos vizinhos Estados Unidos, dizendo-lhe “Por que não
cruza a fronteira ao sul e ajuda a nova plantinha que está germinando em
campos mexicanos? Eu assumo os custos.” A associação norte-americana
aceitou, entusiasmada, essa oferta e nomeou um Committee for Library Co-
-operation with the Hispanic Peoples [comissão de cooperação bibliotecária
com os povos hispânicos] para dedicar atenção integral a esse gesto de
confraternização. A comissão começou sua atividade com muita serieda-
de, e com a ajuda de uma subvenção de cerca de 3 500 rupias da Carnegie
Endowment enviou uma representação de influentes bibliotecários norte-
-americanos ao segundo congresso anual de biblioteconomia, que se reuniu
na cidade do México em abril de 1928. Esta visita amigável foi retribuída
por uma comitiva mexicana que assistiu à conferência de West Baden da
American Library Association. A comitiva aproveitou ao máximo possível
sua estada para se informar por completo sobre os métodos biblioteconômi-
cos norte-americanos. Visitaram várias bibliotecas, grandes e pequenas, e
nenhum esforço foi poupado para que suas visitas fossem tão informativas
e proveitosas quanto possível. Um resultado interessante de uma visita à
Library of Congress foi o anúncio feito por seu diretor de que um conjunto
completo das fichas catalográficas impressas desta biblioteca seria depo-
sitado na Biblioteca Nacional do México. Como a Library of Congress não
dispunha de verba para pagar a embalagem e transporte desse precioso
instrumento bibliográfico, o Carnegie Endowment for International Peace
ofereceu a quantia de cinco mil rupias para tal fim, além das 10 mil rupias
que fornecera para cobrir as despesas da comitiva.
a segunda lei e sua digvijaya 101

3133 Manual de Biblioteconomia


Esse intercâmbio de visitas foi um estímulo para o crescimento do
movimento por bibliotecas no México, e o problema de manter padrões
adequados de administração tornaram-se muito sérios com esse aumen-
to rápido do número de bibliotecas. Para fazer frente a essa situação o
Carnegie Endowment aprovou rapidamente a dotação de cerca de 12 mil
rupias para a impressão de 5 700 exemplares do livro Las bibliotecas en los
Estados Unidos,* do Dr. Ernesto Nelson, para distribuição gratuita entre as
bibliotecas da América Central e da América do Sul.129 Este é um manual
cuidadosamente redigido, que descreve os métodos de administração de
bibliotecas adotados nos Estados Unidos. O México deu-lhe uma recepção
cordial como uma fonte proveitosa de informação. Na verdade, a demanda
de exemplares foi tão grande que uma segunda edição teve que ser feita
em 1929. Assim, a Segunda Lei viu o movimento por bibliotecas crescer
vigorosamente dia após dia entre o povo mexicano. Em decorrência de
seu crescimento bem-sucedido junto com a difusão de escolas rurais, “um
México diferente do que existia antes da revolução está sendo forjado”.130
Quando a nação finalmente chegar à idade adulta, os estudantes de sua
história descobrirão que uma grande parte do crédito pelo seu amadure-
cimento recairá sobre a missão da Segunda Lei da biblioteconomia.

314 América Central e América do Sul


O movimento por bibliotecas nas demais nações da América Latina está
ainda em sua infância. Somente agora é que as ideias sobre a necessidade de
difundir a educação entre as massas estão se expandindo na maioria desses
países. Os homens e as mulheres da América Latina que têm fortuna ainda
não se conscientizaram da necessidade e da sabedoria de fazer doações em
dinheiro para as bibliotecas ou outras finalidades educacionais, “indo seus
donativos preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”.131
Por conseguinte, o custo de manter o movimento por bibliotecas recai
sobre os próprios governos.

3141 Ajuda dos Estados Unidos da América


A mensagem da Segunda Lei da biblioteconomia, contudo, está sen-
do lentamente difundida em todas as vinte repúblicas que constituem a
América do Sul. O Committee for Library Co-operation with the Hispanic
Peoples da American Library Association está estendendo a esses países a
mesma cooperação que vem oferecendo ao México. Na conferência de 1929,

* Compare-se com a influência que a mesma obra exerceu no pensamento e nas ativida-
des de Rubens Borba de Moraes voltadas para a modernização das bibliotecas públicas
da cidade de São Paulo. Cf. O mestre dos livros: Rubens Borba de Moraes, de Suelena Pinto
Bandeira (Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2007, p. 19-20, 24). (n.e.)
102 as cinco leis da biblioteconomia

realizada em Washington, e à qual compareceram todos os embaixadores


da América do Sul, o embaixador da Colômbia declarou

Diante do Committee for Library Co-operation with the Hispanic Peoples


estende-se um campo destinado a produzir uma abundante safra [...] Quem
está a par do problema do comércio do livro reconhece depois de cuidadoso
estudo que os Estados Unidos estão destinados a ser o centro do livro para o
continente sul-americano [...] O Sul agora mais do que nunca precisa ler.”132

3142 União Pan-Americana


Outra importante organização que tenta levar a cabo uma difusão
uniforme do movimento por bibliotecas na América do Sul é a União
Pan-Americana, que foi organizada em caráter permanente por meio de
convenção adotada por unanimidade pela Sexta Conferência Internacional
dos Estados Americanos, realizada em 1928. Uma das funções da União
é “contribuir para o desenvolvimento de [...] relações culturais, [...] entre
as repúblicas americanas”, conforme está enunciado no artigo sexto da
convenção.133 A União, que está instalada em prédio doado por Andrew
Carnegie, trabalha em íntima cooperação com a American Library Asso-
ciation e com o Carnegie Endowment for International Peace e muito se
espera de seu trabalho na propagação da mensagem da Segunda Lei da
biblioteconomia em todas as vinte nações da América do Sul.

315 Feliz Aliança


Deduz-se, pelo que foi dito acima, que um fator notável que caracterizou
a expedição encetada pela Segunda Lei no Novo Mundo foi o permanente
auxílio daquele constante aliado, Carnegie, e suas boas ações. É muito
difícil crer que o Novo Mundo pudesse ter arrebatado a palma na corrida
mundial das bibliotecas se não fosse pelo serviço extraordinário prestado
por Carnegie à missão da Segunda Lei. Por isso, talvez não seja fora de
propósito dedicar algum espaço ao próprio Andrew Carnegie, antes de
deixarmos o Novo Mundo.

3151 Andrew Carnegie


Filho de um tecelão escocês, de tear manual, que voltava para casa à
noite totalmente desesperado com a dolorosa notícia, “Pois é, Andrew, não
consigo mais arranjar trabalho”, e da filha de um sapateiro, que buscava
melhorar as finanças da família com uma ‘confeitariazinha’ em Dunfer-
mline, Andrew Carnegie começou a trabalhar aos 13 anos, ganhando 13
rupias por mês, como coletor de carretéis numa tecelagem dos eua,134 e, por
fim, “emergiu das sórdidas espeluncas de Pittsburgh a distribuir dádivas
pelo mundo afora”,135 como um aliado, enviado por Deus, da Segunda
Lei da biblioteconomia.
a segunda lei e sua digvijaya 103

3152 Dois Carnegies


A.G. Gardiner imaginou que havia dois Andrews Carnegies coexistin-
do no mesmo corpo e com a mesma alma — o empresário que ganhava
milhões e o filantropo que gastava milhões — sem qualquer conflito entre
eles, e que cada um agia ao ouvir a palavra de ordem, desaparecendo quando
a tarefa estava concluída. ‘Negócio!’, e aí surgia o rei do aço, afiado como
uma navalha; ‘Humanidade!’, e então era o filantropo, extravasando bene-
volência. Seu incomum tino comercial, incansável industriosidade e atilada
antevisão pemitiram a Andrew Carnegie acumular uma fabulosa fortuna.

3153 O Evangelho da Riqueza


Em seu ‘evangelho da riqueza’ (gospel of wealth), apresentado pela pri-
meira vez na North Atlantic Review de junho de 1899, afirmou:

Esta, portanto, deve ser a obrigação do homem de fortuna: um exemplo de


modéstia, de um modo de vida sem ostentação, evitando exibicionismo ou
extravagância; atender moderadamente às necessidades legítimas de quem
dele dependa; e, feito isso, tratar todas as rendas excedentes que obtiver sim-
plesmente como fundos fiduciários, que lhe caberá administrar da forma que,
a seu juízo, melhor servir para alcançar os resultados que sejam mais benéficos
para a comunidade. Assim, o homem de fortuna torna-se um mero depositário
e agente para seus irmãos mais pobres.136

E este seu ‘evangelho da riqueza’ o levou a doar, à maneira de Raghu,* prati-


camente tudo que economizara, “para o aperfeiçoamento da humanidade”.

3154 Carnegie Corporation


A quantia que ele doou para beneficência pública foi de mais ou menos
dez milhões de rupias. Grande parte desta soma colossal foi entregue à
Carnegie Corporation of New York, criada por lei do estado de Nova York,
incorporada na forma do capítulo 297 das leis de 1911,

para promover o progresso e a difusão do conhecimento e da compreensão


entre os habitantes dos Estados Unidos, ajudando escolas técnicas, instituições
de ensino superior, bibliotecas, pesquisas científicas, fundos para atos de hero-
ísmo civil, publicações úteis, e outras instituições e meios que, eventualmente,
venham a ser julgados apropriados.137

3155 Doação para a Biblioteca


Embora tenha declarado em sua carta de doação que “nenhuma pessoa

* Um dos ancestrais de Rama, guerreiro audaz, famoso por sua incrível velocidade ao
dirigir carros de guerra, e sua imensa generosidade, ao ponto de se dizer que ninguém
saía de seu palácio de mãos vazias. (n.e.)
104 as cinco leis da biblioteconomia

prudente atrelará para sempre os fundos fiduciários a certos rumos, causas


e instituições,”138 ele mostrou o que pensava ao fazer este adendo: “Meu
desejo é que o trabalho que venho desenvolvendo [...] tenha continuidade
nesta e nas gerações futuras.”139 Sabe-se que o trabalho que o público associa
ao nome de Carnegie é o que ele realizou como aliado da Segunda Lei e do
movimento por bibliotecas em geral. Na verdade, dizia-se que “quando ele
enfia a mão na algibeira é quase certo que dali tirará uma biblioteca”.140
Provavelmente, no fundo da consciência, suas inúmeras contribuições
para as bibliotecas tivessem prioridade sobre todas as outras. Ele achava
que só havia um remédio real para os males que assolam a raça humana
e este remédio eram as luzes do conhecimento. ‘Let there be light’ [faça-se a
luz] era o lema que, no começo, ele insistia em colocar em todos os prédios
das bibliotecas. Ele sinceramente acreditava ser possível fazer com que as
luzes chegassem a cada um simplesmente fornecendo livros para todos.
Foi por acreditar de verdade na mensagem da Segunda Lei que ele passou
a ser um adepto tão fiel do movimento por bibliotecas e estabeleceu uma
aliança tão bem-sucedida com a Segunda Lei.

3156 Extensão às Colônias Britânicas


Graças a uma emenda de 1917, a Carnegie Corporation of New York
ampliou sua competência de modo que poderia possuir e administrar
“quaisquer fundos que lhe sejam doados para uso no Canadá ou nas
colônias britânicas com iguais finalidades [...] à semelhança da autoriza-
ção legal para aplicar seus recursos nos Estados Unidos.”141 O primeiro
resultado dessa emenda que ampliava sua área de atuação foi a Carnegie
Corporation levar a doutrina da Segunda Lei para o Canadá. Contudo,
em 1928, após constatar que o ambiente norte-americano estava imbuído
da mensagem livros para todos, a Carnegie Corporation quis levá-la
também para o hemisfério oriental. Motivada por este anseio, dirigiu o
olhar para oeste, a partir de sua sede em Nova York, e avaliou imediata-
mente as regiões visíveis do Velho Mundo. Primeiro, percebeu ao longe
um minúsculo ponto vermelho que se destacava no continente europeu.
Era o Reino Unido. Mas, ao saber que o sagaz escocês fizera um acordo
separado e exclusivo para sua terra natal, seus olhos começaram a vas-
culhar a costa do Atlântico em busca de outro ponto vermelho. Que bom
seria se a Índia fosse banhada pelo Atlântico! Finalmente, localizou uma
região bem vermelha na ponta austral do continente negro. Imediatamente,
determinou que uma comissão especial transpusesse de um salto, como
Hanuman,* o vasto Atlântico, e voltasse logo com um projeto definido

* Uma das três mais populares divindades do hinduísmo, junto com Ganesh e Garuda,
cultuado por sua força física, perseverança e devoção. Entre os poderes de que é dotado
está a capacidade de voar e mudar de tamanho. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 105

para apresentar a era da Segunda Lei àquele importante posto avançado


do Império Britânico no hemisfério sul.

32 África do Sul
321 Carnegie Commission
Desse modo, uma comissão, formada por dois bibliotecários, um
norte-americano e um escocês, desembarcou na Cidade do Cabo em 20
de agosto de 1928. Percorreu o país durante três meses e constatou que
estava totalmente possuído pela rival da Segunda Lei, ou seja, livros para
poucos eleitos. Encontraram, é claro, 211 bibliotecas.

322 O Filtro das Assinaturas


Mas todas essas bibliotecas estavam protegidas “pela malha fina do
filtro representado por uma libra pela assinatura”. Como consequência,
havia uma presença mínima de leitores, de modo que as prateleiras tinham
pouco espaço vazio, mesmo quando cada leitor tomava emprestados todos
os livros a que tinha direito, e as bibliotecas clamavam por mais estantes.
No entanto, se a Segunda Lei tivesse sido ouvida, muitos livros estariam
constantemente emprestados e também haveria uma grande porcentagem
deles sofrendo desgaste e sendo descartados, o que seria um alívio para a
falta de espaço nas estantes. Assim, esse filtro de uma libra mantinha os
brancos pobres à margem dos benefícios das bibliotecas.

323 A Barreira da Cor*


Aos negros e aos pardos, que formavam a maioria da população, era
totalmente negado o uso de livros. Os membros da comissão descrevem
este enorme obstáculo no caminho de livros para todos em termos bas-
tante inequívocos:

O sul-africano aceita — talvez não haja outra saída — que o nativo lhe faça
a comida, cuide dos seus filhos, arrume a casa, preste-lhe serviços pessoais,
como buscar livros na biblioteca e devolvê-los, mas pressente que o fim desse
regime estaria próximo se a esse criado fosse permitido abrir tais livros e lê-los
naquele lugar.142

324 A Posição do Bibliotecário


A comissão verificou que todos os males que resultam da negação das
primeiras duas leis da biblioteconomia existiam em abundância na União
da África do Sul. A pessoa selecionada como bibliotecário era comumente

* A segregação racial na África do Sul, cujas origens remontam ao início da colonização


europeia do território, no século xvii, foi sistematizada em lei em 1948. Somente em 1990,
essa política — o apartheid — deixou de existir. (n.e.)
106 as cinco leis da biblioteconomia

“alguém da localidade que tinha as qualificações geralmente aceitas de


amor aos livros ou necessidade de emprego”. Os leigos que formavam a
comissão da biblioteca invariavelmente usurpavam para si a atribuição de
desempenhar “todas as funções executivas” que geralmente são considera-
das “os motivos pelos quais os bibliotecários são capacitados, contratados
e remunerados”. Nestas circunstâncias, “a biblioteconomia comumente
não é considerada uma profissão, mas um mero trabalho de custódia”. O
resultado absurdo da prevalência deste conceito de biblioteconomia é visto
nas seguintes experiências vividas pelos membros da comissão:

Por exemplo, numa cidade relativamente grande, onde, como de costume,


fomos recebidos com irrepreensível hospitalidade, era servido chá durante
nossas conversas. Servido pela bibliotecária e sua assistente que, depois de
muito bem cumpridas suas funções, retiravam-se e não eram mais vistas. Em
outros lugares o bibliotecário nem sequer nos era apresentado, e, insistimos
neste ponto, não por causa de qualquer intenção de falta de cortesia por parte
da comissão.

325 Padrão Equivocado


Ademais, os membros da comissão constataram que os edifícios das
bibliotecas eram “mal planejados, muito desconfortáveis e totalmente sem
atrativos”. Também assinalaram que

O mobiliário é construído [...] aparentemente sem levar em conta projetos


que deram certo em outros lugares. As estantes muitas vezes começam a uns
60 cm acima do chão e vão até o teto, o que faz com que as escadas sejam
imprescindíveis.

Os mesmos livros eram encontrados em todas as bibliotecas, mas nenhum


havia sido lido. Esta tendência de cada biblioteca adquirir todos os livros
que seus leitores pudessem ocasionalmente solicitar, com total negligência
pela cooperação e coordenação bibliotecária, levou a um triste desperdício
de dinheiro, imobilizou recursos em livros improdutivos e impossibilitou
que as pessoas tivessem acesso a importantes obras especializadas que
teriam uma influência direta na superação do subdesenvolvimento do país.

326 Bibliotecas Universitárias


Verificou-se que as bibliotecas universitárias haviam sido as que mais
sofreram, devido à inexistência de um patrocínio forte da Segunda Lei.
Os membros da Comissão registraram que

As universidades de Pretória e de Grahamstown têm menos livros do que seria


razoável esperar encontrar numa boa escola secundária nos Estados Unidos.
[...] A bastante ambiciosa universidade do Witwaterstrand, em Joanesburgo,
a segunda lei e sua digvijaya 107

oferece o exemplo único de uma instituição de ensino superior sem biblioteca


e sem bibliotecário. [...] Classificação, catalogação e aqueles recursos auxiliares
para utilização dos livros, que são hoje considerados parte essencial de uma
biblioteca universitária, ou inexistem ou são executados de maneira medíocre.
Há uma carência desesperada de pessoal e é quase geral a falta de pessoal com
formação bibliotecária [...] Os livros são guardados debaixo de chave.

327 Aplicação à Índia


Esta longa transcrição das observações feitas pelos membros da co-
missão se deve a que parece descrever as condições da Índia com grande
precisão. A esperança de que as críticas feitas pelos membros da comissão
a essas condições possa, talvez, abrir os olhos daqueles que têm a ver com
a administração e a manutenção de bibliotecas na Índia é a única justifica-
tiva para essa digressão tão longa. Voltando ao objetivo principal deste
capítulo, indaguemos como a Carnegie Commission preparou o terreno
para a penetração fácil e certa da Segunda Lei na União da África do Sul.

328 Recomendações da Comissão


As viagens da comissão pelo país permitiram que a mensagem da
Segunda Lei fosse levada às comissões de bibliotecas, especialmente às
autoridades escolares, às autoridades do governo e, em suma, a qualquer
pessoa ou entidade que pudesse ser convencida a parar e ouvir. Com raras
exceções, as pessoas envolvidas reconheceram os erros de seus projetos e
muitas vezes se mostraram espantadas pelo fato de não os terem notado
antes. Quando o trabalho da comissão culminou na conferência realizada
em Bloemfontein, de 15 a 17 de novembro de 1928, o peso morto de livros
para os poucos eleitos foi sepultado, sem choro nem vela, e as únicas
discussões havidas diziam respeito a detalhes no pressuposto de que à lei
livros para todos estava assegurada a posse da terra e, de fato, um projeto
foi finalmente preparado com o toque usual da Carnegie.

1. Recomendou-se ao governo da União da África do Sul que reconhecesse


a necessidade de estimular todos os escolares no hábito da leitura, ministrando-
-lhes orientação sobre o uso dos livros, e que reconhecesse que o fornecimento
de recursos de bibliotecas constitui uma despesa legítima da receita pública
do Estado, para que os serviços educacionais financiados pelo Estado possam
ser eficientes e proporcionar um retorno justo e duradouro das quantias neles
despendidas.
2. O governo da União e a Carnegie Corporation deveriam cada um contri-
buir com uma quantia anual de 1 070 000 rupias por um período determinado,
depois do qual a Corporation se retiraria aos poucos e finalmente iria para
outros países, ficando o governo com responsabilidade integral.
3. O projeto da biblioteca nacional deveria consistir num centro principal,
seis centros secundários, diversos centros menores e um sem-número de pontos
108 as cinco leis da biblioteconomia

de atendimento espalhados pelo país, em escolas de vilas, delegacias de polícia,


agências de correios, albergues da juventude, e assim por diante.
4. Deveriam ser feitas representações à South African Railways e ao General
Post Office para que colaborassem no desenvolvimento de um serviço gratuito
de bibliotecas mediante o transporte gratuito de livros.
5. Os livros deveriam ser fornecidos a todos, independentemente da cor da
pele.
6. Deveria ser formada uma associação de bibliotecários para manter pa-
drões profissionais adequados e para propagar o movimento por bibliotecas.
7. Deveria ser proposta uma legislação bibliotecária adequada para estabe-
lecer a autoridade da Segunda Lei em base permanente.
8. E, em último lugar, mas não menos importante, a comissão recomendaria
que “é altamente desejável que um diretor ou um supervisor assuma o cargo”
imediatamente para planejar a elaboração adequada do projeto junto com o
National Library Board.

A comissão enfatizou a enorme importância do passo inicial mencionado


por último com as palavras

Se os recursos financeiros da Corporation e os da União forem desperdiçados


ou se se transformarem em sementes douradas que produzirão safras abun-
dantes ano após ano dependerá em grande medida destes primeiros princípios
de cultura biblioteconômica.

3281 Produção de Livros


Antes de deixar a União da África do Sul, as condições atuais do mundo
do livro na Índia exigem que se faça uma menção especial de uma medi-
da de importância de longo alcance tomada pela Carnegie Corporation
a pedido da comissão. A Corporation fez uma doação de cerca de 26 mil
rupias a uma editora do país para capacitá-la a aumentar a quantidade
e aperfeiçoar a qualidade bibliográfica dos livros impressos nas línguas
indígenas bantu.

3291 África Oriental


A Carnegie Commission fez recomendações similares para abrir o
caminho para a entrada da Segunda Lei nas colônias das Rodésias e do
Quênia. Mas, podemos saltar as partes restantes da África.

33 Europa Oriental
A explosão de entusiasmo que caracterizou a recepção da Segunda Lei
depois da Primeira Guerra Mundial em todos os países importantes da Eu-
ropa é bastante inequívoca. Isso foi devido, em grande parte, à luz sinistra
que a fornalha abrasadora da Grande Guerra lançou sobre os resultados
fatais da oferta de oportunidades desiguais para a autoeducação, sob o
a segunda lei e sua digvijaya 109

feitiço das antiquadas gêmeas, educação para os poucos eleitos e livros


para os poucos eleitos. Os ideais democráticos e as aspirações sociais gera-
dos por essa conflagração levaram ao banimento dessas duas fomentadoras
de discórdia, na companhia de algumas das cabeças coroadas da Europa
central e oriental. O novo movimento mental das jovens nações que fazia
pouco haviam se libertado de um longo período de repressão parece ter-se
espalhado também nos países mais antigos e nos países neutros. Parece
que todos competiram entre si para fazer, o mais rápido possível, os pre-
parativos para a recepção em seu meio da Segunda Lei da biblioteconomia.
Novas leis foram aprovadas e leis antigas foram emendadas para que sua
mensagem fosse cumprida com a menor demora possível. livros para
todos foi um dos clamores que rasgaram o céu europeu na década que se
seguiu ao Tratado de Versalhes. Mas a maneira como o Movimento por
Bibliotecas construiu seu caminho variou de um país para outro.

331 Grécia
Não precisamos nos deter na desgastada Grécia que nos recebe em sua
glória desbotada, ao cruzarmos o mar Mediterrâneo.

332 Bulgária
O veículo que ela adotou no primeiro país a que chegamos em nosso
caminho rumo ao norte a partir da Grécia reveste-se de um significado espe-
cial para a Índia. Parece que a Bulgária nos mostra como deitar vinho novo
em odres velhos. Ela possuía uma antiga instituição peculiar, denominada
chitalista, que “é uma espécie de biblioteca combinada com as atividades
de um teatro, cinema, salão social (centro comunitário) e biblioteca”.143 Esta
respeitável instituição, muito estimada pelo povo, é o agente selecionado
para distribuir livros para todos. As incontáveis conferências que organiza
sobre assuntos de interesse atual, como higiene, agricultura, sociologia,
ciência, religião, etc., levam à popularização dos livros, especialmente
entre os jovens. O ministro da educação, que é um grande entusiasta das
bibliotecas, conseguiu a aprovação de uma lei em 1928, que resultou no
rápido crescimento do número de chitalistas, que já haviam chegado perto
de 1 984. Ademais, nomeou uma supervisora de bibliotecas e a mandou
para a Inglaterra e Estados Unidos para receber treinamento. Ela participa
do conselho nacional de educação.144 O conhecimento especializado e o
entusiasmo ilimitado desta supervisora de bibliotecas mostram que há
representantes competentes da Segunda Lei na sua expedição pela Bulgária.

333 Romênia
O vizinho ao norte da Bulgária, a Romênia, também adotou plano
similar. Ao chegar a oportunidade de hospedar a Segunda Lei, ela facil-
110 as cinco leis da biblioteconomia

mente adaptou suas astras e atheneums para esta finalidade. Estas antigas
instituições parece que se adaptaram imediatamente à ideia da biblioteca
moderna, como peixe na água. A astra, que é sigla da associação de lite-
ratura e cultura romenas, realiza cursos de alfabetização, organiza círculos
de estudo e mantém bibliotecas. Tem a seu crédito em torno de três mil
bibliotecas. As dificuldades financeiras experimentadas pelo ministério da
educação levaram-no a confiar grandemente nestas antigas instituições e
em doações de particulares para a difusão da mensagem da Segunda Lei.

3331 Dois Coelhos com Uma Cajadada


As dificuldades financeiras também levaram o ministério da educação
a adotar outra medida interessante, que talvez valha a pena empregar em
nosso país, onde, de província em província, o responsável pelas finanças
traz à baila o espírito do mal dos compromissos financeiros, sempre que se
suscita a questão de uma lei de bibliotecas públicas. Parece que o ministério
da educação da Romênia tentou matar dois coelhos com uma cajadada. As
oito mil e poucas bibliotecas escolares, que possuem mais de um milhão
de volumes, criadas nos últimos anos, foram abertas ao público em geral.
A economia na administração e o uso intensivo dos recursos bibliográficos
advindos desta medida proporcionariam um grande alívio financeiro à
maioria de nossas províncias por muitos e muitos anos.

3332 Retorno ao Analfabetismo


Outra grande lição que a experiência da Romênia nos ensina é a inuti-
lidade e o desperdício resultantes de um projeto de educação compulsória
que não adote ao mesmo tempo a oferta de livros que são necessários
para preservar e exercitar a alfabetização que custa tão caro. Apesar de a
Constituição de Cuza, de 1866, ter incluído um capítulo sobre a educação
compulsória gratuita, o censo de 1899 revelou “que 78% da população
acima de sete anos de idade não sabem ler nem escrever, enquanto o nú-
mero de mulheres analfabetas atinge 90%.”145 Tal era o estrago causado
pelo retorno ao analfabetismo devido à ausência de serviço de bibliotecas.
Portanto, pode-se ver que somente o mais inconsequente guardião das
finanças públicas é que dirá, “disponho apenas do dinheiro suficiente
para a educação obrigatória, mas nenhum para o serviço de bibliotecas”.

334 Iugoslávia
As três novas nações da Europa central que formam os vizinhos oci-
dentais da Romênia abraçaram o moderno movimento por bibliotecas com
grande entusiasmo. Em cada um destes países, os ministérios da educação,
desde o princípio, compreenderam que sua obrigação fundamental era
permanecer no campo da erradicação do analfabetismo e da instalação
a segunda lei e sua digvijaya 111

de bibliotecas públicas, a fim de preservar a alfabetização adquirida. Na


Iugoslávia, por exemplo, foi criado um departamento especial no ministé-
rio da educação com o objetivo de desenvolver este novo instrumento de
educação popular. O departamento já organizou mais de mil bibliotecas
de vilas146 e aproximadamente 700 cursos para analfabetos, nos quais cen-
tenas de homens e mulheres aprendem a ler e escrever. Os acervos destas
bibliotecas de vilas incluem não só livros destinados à recreação, mas tam-
bém os destinados aos ‘afazeres domésticos’, de forma que os aldeões, ao
lê-los, possam levar uma vida mais feliz, mais asseada e mais inteligente.

335 Hungria
Na Hungria, as coisas ainda não assumiram uma forma final. Ela
ainda é muito pobre para oferecer livros para todos, pois ainda não se
recuperou por completo das consequências da guerra, da revolução e do
desmembramento do país. Ainda assim, a Segunda Lei faz o possível nesse
país. O ministro da educação iniciou, em 1923, uma minuciosa pesquisa
sobre as necessidades e os recursos para uma eficiente educação popular.
Como resultado disso, foi redigido o projeto de uma lei de educação de
adultos. O terceiro capítulo do projeto trata do movimento por bibliotecas.
Torna obrigatória para as vilas e cidades a criação de bibliotecas. Prevê-se
também em localidades muito pequenas e pobres, que não possam man-
ter uma biblioteca própria, que sejam servidas por bibliotecas itinerantes
mantidas pelos conselhos municipais e ajudadas pelo Estado.

336 Tchecoslováquia
Mas o maior sucesso alcançado pela expedição da Segunda Lei somente
foi acontecer na Tchecoslováquia. Tão logo conseguiu livrar-se das garras
da Áustria — um nome que significava para ela “qualquer mecanismo
que pudesse matar a alma de um povo, corrompê-la com um mínimo de
bem-estar material, privá-la da liberdade de consciência e de pensamento,
minar-lhe o vigor, quebrar-lhe a tenacidade e desviá-la da busca do seu
ideal”147 – os ensinamentos de Palacky, um dos que a ‘despertaram’, logo
acorreram à sua mente. Um desses ensinamentos era “somente pela edu-
cação é possível encontrar o caminho da salvação”,148 sendo a educação
interpretada não apenas como colocar as crianças na escola, mas como um
processo de toda a vida. Esta educação significava oferecer livros para
todos e, portanto,

Mesmo com todos os problemas de uma nova nação a enfrentar, a Tchecos-


lováquia tornou o serviço de biblioteca pública compulsório nas cidades e
vilas pela lei de julho de 1919. Às povoações muito pequenas foram dados
dez anos de moratória. Em 1929, o atendimento do serviço de bibliotecas era
quase universal.149
112 as cinco leis da biblioteconomia

3361 Legislação Bibliotecária


As disposições da lei foram redigidas com a maior atenção pelos deta-
lhes de ordem prática. Estabeleceu um sistema hierarquizado de bibliotecas.
As comunidades com mais de 10 mil habitantes teriam um bibliotecário
formado, a biblioteca teria todos os departamentos de uma biblioteca
pública que seriam abertos todos os dias. Em comunidades menores,
alguns departamentos podem ser dispensados, a biblioteca pode fechar
alguns dias da semana e seria empregado como bibliotecário alguém que
tivesse feito apenas um curso rápido de um mês de biblioteconomia. Em
pequenos povoados, o professor poderia administrar a biblioteca com o
auxílio de um manual prático, fornecido pelo ministério da educação. As
despesas das bibliotecas são normalmente cobertas com o pagamento de
taxas especiais locais. As comunidades mais pobres, entretanto, recebem
ajuda do ministério da educação na forma de doação de livros adequados.
O ministério deve também manter uma escola de biblioteconomia com o
objetivo de formar a criação de um corpo de profissionais competentes
que façam com que seja cumprida a Segunda Lei e realizem inspeções
periódicas nas bibliotecas, a fim de que mantenham padrões adequados.

3362 Realização
Como resultado dessa lei bibliotecária cuidadosamente elaborada, o
número de bibliotecas subiu de 3 400 em 1920 para 16 200 em 1926. Existe,
em média, uma biblioteca para cada 894 habitantes e 44 livros para cada
100 habitantes. O número de leitores permanentes da população total cres-
ceu 7,1%, e o número médio de livros lidos por leitor por ano é de 18,3.150

3363 Aplicação a Madras


A superfície da Tchecoslováquia compara-se à do estado indiano de Tamil
Nadu, embora sua população seja equivalente a quase dois terços da dos
tâmeis. Donde não se poder dizer que uma comparação entre os dois países
seja injusta. A Tchecoslováquia não acha exorbitante uma despesa anual de
15 milhões de rupias com bibliotecas públicas.151 Na verdade, acaba sendo
menos de dois anás* per capita. Nota-se a grande importância por ela atribu-
ída às bibliotecas quando se compara este montante gasto com bibliotecas
com a despesa total anual do Estado, que gira em torno de 10 bilhões de
rupias.152 Ora, a despesa anual de Madras é de cerca de 17 bilhões de rupias.153
Tem-se a curiosidade de indagar qual é a despesa pública total de Madras
com bibliotecas. Seria de pelo menos um milhão de rupias? Enquanto a
Tchecoslováquia gasta quase 1,5% de sua receita com bibliotecas públicas,
Madras não reserva nem 0,05% para serviços de bibliotecas.

* Antiga moeda divisionária equivalente a 1/16 da rupia. (n.e.)


a segunda lei e sua digvijaya 113

3364 Minoria Linguística


Outra característica que a Tchecoslováquia compartilha com nossa
terra é a heterogeneidade do seu povo. São várias as raças que o formam
e que falam diferentes línguas. Entretanto, ela tem demonstrado que estas
características não têm necessariamente que ser vistas como um obstácu-
lo no caminho do cumprimento das determinações da Segunda Lei. Na
verdade, ela enfrentou a situação por meio de um generoso dispositivo
da lei de bibliotecas, que estipula que cada comunidade onde houver uma
minoria étnica formada por pelo menos 400 pessoas, deve contar com
uma biblioteca pública especial própria, cuja comissão administrativa será
formada unicamente por membros dessa comunidade. Os interesses das
comunidades, cujo número não atinja esse mínimo, devem ser levados em
conta pela biblioteca principal da comunidade, na sua seleção de livros.

3365 Produção de Livros


Outro exemplo relevante que nos é dado pelo governo da Tchecoslová-
quia está no interesse com que estimula a produção de livros adequados
para o uso das bibliotecas. O Sr. T.G. Masaryk, o primeiro presidente e,
em certo sentido, o criador da Tchecoslováquia, criou um fundo de cerca
de quatro milhões de rupias para a instituição de uma organização semi-
pública “em relação estreita com os órgãos centrais do Estado” para dirigir as
atividades culturais da nação. Foi denominada, apropriadamente, instituto
Masaryk e funciona desde abril de 1925. Uma de suas atividades é fornecer

livros que sejam adequados e em condições vantajosas para as bibliotecas


[...] Mediante questionários especialmente projetados, o instituto estuda a
psicologia do leitor, e o poder e a influência da palavra impressa [e] interessa-
-se em encontrar bons livros para os jovens, para as bibliotecas escolares e a
juventude em geral. Publica uma revista mensal de recensões, Unor, dirigida
especialmente à literatura para a juventude, edita listas de livros recomendados
para jovens leitores e organiza todos os anos exposições de material de leitura
apropriado para os jovens.154

Este é um exemplo admirável de tudo o que será feito para promover o


movimento por bibliotecas, por parte de um Estado que sinceramente
acredita na mensagem da Segunda Lei.

337 Polônia
Agora, um passo mais ao norte nos leva à Polônia — a perseguida
Polônia — que recuperou sua plena liberdade somente depois da Grande
Guerra. No momento em que a Polônia recuperou a independência polí-
tica em 1918 e “a nação polonesa reunificada recuperou o controle de seu
destino, a causa da educação tornou-se uma das principais preocupações
114 as cinco leis da biblioteconomia

da sociedade e do Estado polonês renascido”.155 Nas etapas iniciais, mui-


tas instituições voluntárias, como a sociedade das bibliotecas populares
[Towarzystwo Czytelni Ludowych] e a sociedade de educação popular
[Towarzystwa Oświaty Ludowej], ganharam destaque e carregaram a tocha
do movimento por bibliotecas com disposição e entusiasmo. A primeira
delas é responsável pelo estabelecimento de cerca de 1 300 bibliotecas, en-
quanto a segunda tem a seu crédito cerca de 500 bibliotecas fixas e cerca de
800 bibliotecas itinerantes. Os governos locais também estão fazendo a sua
parte. A cidade de Lodz, por exemplo, tem uma biblioteca para adultos e
cinco bibliotecas infantis. Estas bibliotecas são também centros de trabalho
educativo realizado sistematicamente por meio de conferências populares
e leituras ilustradas com música e imagens. Em muitas bibliotecas infantis
estão sendo introduzidos o autogoverno e a autogestão.

3371 Legislação Bibliotecária


O Estado percebeu, a esta altura, que as organizações voluntárias eram
muito inadequadas para atender às necessidades do país em matéria de
bibliotecas e que as determinações da Segunda Lei só podiam ser ade-
quadamente cumpridas por meio de uma legislação. Um projeto de lei de
bibliotecas, recentemente elaborado, torna compulsória em cada comu-
nidade a instalação de uma biblioteca, enquanto as povoações menores
serão servidas por bibliotecas itinerantes supridas pela biblioteca central
do município. Os recursos financeiros necessários serão obtidos com o
pagamento de uma taxa especial para as bibliotecas. A associação dos
bibliotecários poloneses, em Varsóvia, está fazendo todo o possível para
aprovar esta lei. Quando isso ocorrer, haverá cerca de 15 mil bibliotecas156
e a Segunda Lei vigorará para sempre na Polônia.

338 Rússia Soviética


Um passo para o leste nos faz chegar à Rússia, esse vasto território que
abrange dois continentes. Como certo grau de ceticismo parece ocultar-se
nas mentes das pessoas sobre acontecimentos recentes na Rússia Soviética,
talvez seja interessante começar a descrição das grandes conquistas da
Segunda Lei nessa terra misteriosa por meio da transcrição da opinião
esclarecedora e honesta de um observador imparcial, o professor Paul Mon-
roe, diretor do International Institute, do Teachers’ College da Columbia
University, com base em suas experiências de uma estada recente entre
os russos. Seu relato sobre como a lei livros para todos está se espalhan-
do pelos rincões mais remotos da Rússia encontra-se na seção intitulada
‘The village culture centre, cottage library or the people’s house’ [O centro
cultural da vila, cabana-biblioteca ou casa do povo], num artigo publicado
em International Conciliation:
a segunda lei e sua digvijaya 115

A população rural e dos povoados, desinteressada em teoria e desinformada,


é a mais difícil de alcançar. Um instrumento criado para a educação dos cam-
poneses é a ‘cabana-biblioteca’ também chamada centro de cultura ou casa do
povo. Reserva-se um local para o uso cultural da pequena comunidade. Ali se
encontram alguns livros, muitos folhetos, jornais e cartazes. Grande parte da
educação da população é feita com auxílio de cartazes, produzidos pelo go-
verno central e outras instituições. Referem-se a grande variedade de assuntos:
puericultura, causas das doenças e especialmente de infecções; propaganda
contra moscas, mosquitos, tênias e outras infecções ou portadores de infecção.
Há cartazes sobre o uso de maquinaria agrícola, seleção de sementes, métodos
de fertilização e cultivo da terra, como a aração profunda; cartazes contra o
alcoolismo e contra a religião, religiões estrangeiras, relações externas e sobre
todos os princípios comunistas. Estas cabanas-bibliotecas são sempre utilizadas
para as reuniões dos camponeses à noite [...] Muitos desses centros culturais
possuem rádio, e a transmissão recebida de Moscou é excelente.
A maioria dos centros conta com um pequeno palco para apresentações
teatrais e funciona como local de recreação. O teatro é um dos métodos apro-
vados de instrução e entretenimento.
As cabanas-bibliotecas são dirigidas por comissões, cada uma incumbi-
da de uma atividade específica. Neste trabalho encontra-se também uma das
principais agências educacionais para a melhoria da situação dos adultos. Uma
forma muito popular de apresentação é a dramatização de notícias da semana
por grupos escolhidos.
Neste centro também se reúnem os comitês incumbidos dos vários inte-
resses da vila e de seu governo: saúde, agricultura, escolas, estradas, relações
com o governo do município ou do distrito, educação e propaganda comunista,
organizações de jovens comunistas, etc.
A questão da extensão das atividades de bem-estar e educacionais apa-
rece novamente em conexão com estas instituições, bem como com as escolas.
Posso apenas oferecer minha própria experiência. No distrito de Leninakan, a
mais de 3 200 quilômetros de Moscou, que visitei, existem 201 vilas. O governo
do distrito relata que em 65 delas havia instalado centros de cultura; que 65
outras vilas instalaram estes centros por sua própria iniciativa; deixando mais
ou menos um número semelhante ainda não atingido. Pessoalmente visitei
seis vilas. Todas tinham escolas; todas tinham cabanas-bibliotecas.157

3381 Proclamação de Lenin


Na verdade, tão logo a Nova Rússia emergiu da Revolução de Outubro,
o espírito de educação para todos baixou sobre ela com a velocidade de
uma águia em companhia da Segunda Lei da biblioteconomia. A Rússia
absorveu profundamente o conceito de Pestalozzi de educação social como

o retoque num elo de uma grande corrente, que une toda a humanidade num
todo único; e os erros na educação e na orientação das pessoas, em sua maioria,
resultam de que alguns elos são isolados da corrente e se começa a filosofar
sobre eles como se apenas eles existissem e, na qualidade de elos, não repre-
sentassem a propriedade de toda a corrente.158
116 as cinco leis da biblioteconomia

Lenin proclamou, no congresso pan-russo de trabalhadores sobre cultura


para o povo de 1921: “É preciso lembrar que um povo analfabeto e sem
cultura não pode vencer.”Afirmava que “a menos que as massas sejam
educadas, será impossível chegar a uma verdadeira melhoria de seu bem-
-estar econômico, será impossível haver cooperação e será impossível uma
vida política autêntica.” Portanto, o primeiro fato para o qual a energia do
novo governo se voltou foi o analfabetismo e a ignorância alarmante do
povo. “Segundo o censo de 1920, 68% da população da União Soviética
eram analfabetos [...] Uma das nossas tarefas primárias foi consequente-
mente a abolição do analfabetismo. Em torno de 1933–1934, todo cidadão
da União Soviética deverá ser capaz de ler e escrever.” Nas palavras do
reitor da universidade estatal de Moscou, esta decisão fora tomada.159

3382 Serviço aos Neoalfabetizados


Deste modo, a educação imediata da população adulta tornou-se uma
parte muito importante do trabalho do comissariado da educação. O tra-
balho envolveu a criação de

centros de erradicação do analfabetismo; clubes político-culturais e salas de


leitura (recantos de Lenin); casas de operários e camponeses; bibliotecas fixas e
itinerantes; centros e revistas de autoeducação [...] trabalho de propaganda (in-
clusive quadros vivos, peças teatrais, etc.) para campanhas especiais [...] Quem
aprende rápido ajuda o vagaroso; os semialfabetizados ajudam os analfabetos
[...] Tão logo conseguem ler um pouco são estimulados, como semialfabetizados,
a frequentar a sala de leitura local instalada numa isba ou num clube, e depois
a biblioteca. Depois de seis meses desse trabalho, instala-se uma escola para
preparar os mais capacitados para ingresso numa rabfak.*160

3383 Realizações
O décimo aniversário da Revolução de Outubro foi uma oportunidade
para fazer um levantamento das realizações alcançadas ao longo desse
período pela expedição feita pela educação para todos e livros para
todos na Rússia. Constatou-se que aproximadamente

dez milhões de pessoas aprenderam a ler e escrever [...] O número de bibliotecas


fixas cresceu de 4 640 para 6 414, de bibliotecas itinerantes urbanas, de 3 054
para 25 579, e de itinerantes de vilas, de 3 167 para 4 343 [...] Na República
Russa, em 1926, havia 7 250 círculos, nos quais estudavam 120 mil pessoas.161

O anuário mais recente de que dispomos menciona 46 759 escolas de


alfabetização e 50 000 bibliotecas itinerantes.162

* Acrônimo de rabotchi fakultet, ‘faculdade para trabalhadores’. Escolas que preparavam


operários e camponeses para o ensino superior, na União Soviética 1920. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 117

3384 Revista para Neoalfabetizados


A difusão fenomenal do movimento por bibliotecas resultou num
gosto tão disseminado pela leitura que frequentemente se encontra uma
sala de leitura até mesmo nos saguões dos cinemas, onde o público espera
pela próxima sessão. Para satisfazer a paixão pela leitura, manifestada por
quem acaba de se libertar das garras do analfabetismo, é publicada uma
revista mensal “intitulada Doloi Negramotnost [Abaixo o analfabetismo];
o uso generoso de ilustrações e diagramas no texto permite oferecer ar-
tigos elementares sobre questões políticas e econômicas àqueles que mal
começam a dominar a técnica da leitura”.163

3385 Produção de Livros


As atividades do serviço de publicações da União Soviética ilustram o
papel que o Estado deve desempenhar na reconstrução de um país como
o nosso, onde o divórcio de mais de meio século entre a intelectualidade
e a língua materna enfraqueceu esta de tal forma que as massas ignoram
profundamente as transformações recentes no mundo científico, econô-
mico, político e cultural. A União Soviética desenvolveu uma instituição,
que são os correspondentes bibliográficos nas vilas:

Estes correspondentes surgiram em resposta à conscientização por parte dos


camponeses do papel que o livro desempenha. A missão do correspondente
bibliográfico é manter o serviço de imprensa oficial do país informado sobre
os tipos de livros que foram mais úteis para os camponeses, muitos dos quais
estão apenas começando a ler, as ilustrações que se mostraram mais eficazes,
os assuntos para os quais há carência de livros, etc. Este é só o começo do tra-
balho de nossos correspondentes bibliográficos para difusão de livros na vila.164

A preparação sistemática de materiais de leitura para crianças está também


nos primeiros estágios de progresso.

3386 Aplicação ao Caso de Madras


Este interesse profundo e vigoroso que o Estado soviético vem dedican-
do à produção dos livros necessários para que cada um receba seu livro,
de acordo com os requisitos da Segunda Lei, estão em nítido contraste
com as condições predominantes em nossa própria terra. A Madras Library
Association verificou as graves dificuldades vividas por sua comissão de
seleção de livros em tâmil por causa da escassez de livros nesta língua
sobre temas atuais. O conselho da associação afirmou:

A situação atual de nosso país exige de forma imperativa que nossas biblio-
tecas promovam a circulação em grande quantidade de livros de teor infor-
118 as cinco leis da biblioteconomia

mativo. Mas, como foi observado, há muito poucos desses livros em tâmil [...]
Sem dúvida, a lei da oferta e da procura determinará a solução também deste
problema. Entretanto, a comissão reconhece que o estabelecimento de um
número considerável de bibliotecas públicas contribuiria grandemente para
formar a necessária procura.
O conselho também apela ao governo e às universidades da província para
que estimulem ativamente a criação da necessária oferta durante as etapas
iniciais. Este é um dever legítimo e fundamental do Estado, que é responsável
pelo bem-estar geral dos cidadãos, e das universidades, que têm como uma de
suas funções principais a disseminação do conhecimento. De qualquer forma,
as dificuldades nas etapas iniciais são muito grandes para serem superadas por
qualquer instituição que não seja o Estado e as universidades. As experiências
de outros países em circunstâncias similares tendem a confirmar esta opinião.165

3387 Resistência do Governo


As universidades poderiam desculpar-se dizendo que a produção de
conhecimentos, ao invés da disseminação, constitui seu dever fundamental
e que, como ainda não cumpriram sequer esse dever fundamental, por es-
tarem permanentemente envolvidas na roda-viva dos exames, não haveria
perspectiva próxima para desenvolver o lado da extensão. O ministro das
finanças do governo, que parece ter ficado assustado com a provável conta
de lucros e perdas anuais de tal aventura, não se deixou convencer e disse
que a “associação entre a responsabilidade do Estado pelo bem-estar geral
de seus cidadãos e a promoção da edição de livros adequados para uso
desses cidadãos é mais retórica do que comprovada”.166

3388 Instruindo as Autoridades


Em tais circunstâncias, a Segunda Lei da biblioteconomia terá que
desenvolver intenso trabalho de doutrinação nos gabinetes ministeriais e
nos claustros acadêmicos para instruir, em primeiro lugar, os que ocupam
altas posições e os que possuem alto nível intelectual, sobre as experiências
por que passou em outras nações progressistas, antes que possa alimentar
a esperança de oferecer a cada indiano o seu livro.

34 Escandinávia
341 Finlândia
Voltemo-nos agora para o oeste e examinemos a Finlândia e sua hos-
pitalidade para com a Segunda Lei. Algum apressado indagaria, “O que
essa terra fria e distante, escassamente povoada e pouco conhecida, tem
para nos ensinar?” Não há dúvida que a Finlândia fica muito distante.
Na verdade, encontra-se em grande parte dentro do círculo ártico, o que,
sem dúvida, a torna terrivelmente fria. Ela nem mesmo vê o sol durante
vários dias do ano. É também muito esparsamente povoada. Com uma
superfície aproximadamente do tamanho da nossa província, tem apenas
a segunda lei e sua digvijaya 119

três quartos da população do nosso distrito de Malabar. Mas, se é pouco


conhecida, não é culpa dela, que não nos impede de conhecê-la. Entretanto,

Ninguém que conheça algo dos finlandeses negará que formam a nação mais
bem-educada do mundo. Nem a Alemanha, nem os Estados Unidos podem
reivindicar igualdade com eles a respeito disso [...] O amor ao saber assim
estimulado tem permanecido como uma característica proeminente do caráter
finlandês até os nossos dias e é em parte responsável pelo progresso desse
povo. São muito poucos os membros das classes menos privilegiadas que não
sabem ler.167

Na verdade, sabe-se que, em 1920, somente 0,7% das pessoas que tinham
completado 15 anos de idade não sabiam ler, nem escrever.168

3411 Lei das Bibliotecas


Mesmo nos séculos de sua sujeição ao jugo estrangeiro, a Finlândia
se dera conta da sensatez de obedecer à Segunda Lei da biblioteconomia.
Entretanto, até conquistar sua independência em 1917, a língua finlandesa
fora substituída por um idioma estrangeiro. Foi somente depois da Primeira
Guerra Mundial que, livre desse ônus, a língua nacional recuperou seu
lugar legítimo e que houve um crescimento acentuado do número de livros
que serviam às necessidades dos trabalhadores agrícolas e industriais, e
agora não há escassez de materiais de leitura, tanto científicos quanto de
outras áreas como a educação.169 Ademais, até se libertar de seus senhores
estrangeiros, as poucas bibliotecas, separadas por grandes distâncias, só se
ligavam graças ao trabalho voluntário da associação finlandesa de bibliote-
cários [Suomen Kirjastoseura]. Mas, por lei executiva de 1921 e depois pela
lei de bibliotecas de abril de 1928, o Estado tomou sob sua responsabilidade
o fomento ao movimento por bibliotecas.

3412 Realizações
Essa lei colocou todas as bibliotecas sob a direção de uma comissão na-
cional de bibliotecas, presidida por um membro do ministério da educação.
O órgão executivo desta comissão é a repartição nacional de bibliotecas,
administrada pelo diretor de bibliotecas. Esta repartição faz propaganda
das bibliotecas, capacita bibliotecários, publica instrumentos bibliográficos
e aperfeiçoa de todas as formas possíveis os métodos bibliotecários. Por causa
do seu trabalho de fomento, 537 comunidades rurais da Finlândia são agora
servidas por quase mil bibliotecas. De suas 38 cidades e 18 províncias, cerca
de 80% têm bibliotecas públicas próprias. Sua cidade principal, Helsinque,
que tem uma população de 227 375 habitantes, empresta mais de 700 mil
volumes por ano.
120 as cinco leis da biblioteconomia

3413 Financiamento das Bibliotecas


A lei de bibliotecas estabelece uma taxa para custear as bibliotecas, que
normalmente chega a cerca de seis pies* por habitante. Mas uma caracte-
rística importante, que nos interessa, pois nossa taxação centralizada é
desproporcionalmente alta, é a do ‘sistema de meio subsídio’. O governo
central cobre 50% das despesas com livros, salários, aluguel, etc., além de
um subsídio especial para construção de prédios.170 A soma de subsídios
assim pagos às bibliotecas em 1928 foi de cerca de 70 mil rupias. Percebe-
-se que o subsídio do governo central não é tão pequeno quanto parece se
lembrarmos que a população servida é inferior à de um de nossos distritos.

342 Noruega
Podemos iniciar nosso estudo sobre os progressos da Segunda Lei na
península escandinava com uma breve revisão da recepção que lhe foi dada
pela Noruega. Embora o governo norueguês tenha financiado bibliotecas
desde 1830, foi somente no século xx que a oferta de bibliotecas atingiu
o nível exigido pela Segunda Lei. Ela conta atualmente com cerca de 60
bibliotecas municipais e mais de mil bibliotecas rurais.171 Existe um depar-
tamento de bibliotecas vinculado ao ministério da educação. Sua função
principal é efetuar o pagamento dos subsídios liberados pelo governo
central e zelar para que as bibliotecas observem padrões adequados de
funcionamento. Esse departamento também mantém algumas bibliotecas
itinerantes, especialmente uma para marinheiros, que possui postos de
atendimento em todos os portos da Noruega. Já se mencionou, na seção 2171,
o papel de um desses postos de atendimento, numa vila de pescadores
do litoral norte, na formação de um jovem pescador, que conseguiu sair
da condição de carência em que vivia e conquistar a posição de professor.

343 Suécia
A metade oriental da península escandinava oferece um testemunho
mais marcante do advento da Segunda Lei da biblioteconomia. A história
das bibliotecas suecas ilustra de forma esplêndida a transformação por
que passará um sistema bibliotecário antiquado tão logo a mensagem da
Segunda Lei o reanime. Vejamos um depoimento autêntico sobre os efei-
tos do seu advento constantes de um manual confiável, publicado pelo
governo sueco em 1914:

As antigas bibliotecas paroquiais, que existiam há muito tempo em muitos


lugares, foram vistoriadas em 1900. Constatou-se que ou consistiam dos re-
manescentes deteriorados de coleções que originalmente haviam sido boas, ou
de livros que estavam em boas condições, mas que quase nunca haviam sido

* Antiga moeda divisionária, a menor delas, que equivalia a 1/192 de uma rupia. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 121

utilizados [...] A primeira ajuda estatal às bibliotecas populares foi aprovada


pelo parlamento em 1905. No Ecklesiastik-departementet [ministério dos cultos,
de 1840 a 1967, quando foi substituído pelo ministério da educação], há desde
1913 dois especialistas em bibliotecas (bibliothekskonsulent), que apresentam
relatórios ao ministério, informam ao público em geral sobre livros, etc., e
supervisionam as bibliotecas subvencionadas pelo Estado.172

3431 Realizações
A Segunda Lei foi, portanto, bastante bem-sucedida na Suécia ao con-
fiar o fomento do movimento por bibliotecas ao próprio Estado. Dos dois
especialistas em bibliotecas, um é encarregado das bibliotecas públicas e o
outro das bibliotecas escolares. O responsável pelas bibliotecas públicas
promoveu uma reorganização completa do sistema de bibliotecas com
a introdução do ‘livre acesso’, mediante a instalação de departamentos
infantis, a modernização dos edifícios das bibliotecas e a melhoria siste-
mática da competência profissional do pessoal das bibliotecas. As vanta-
gens decorrentes da modernização tiveram tal efeito positivo na opinião
pública que o ano de 1929 assistiu à fácil aprovação da lei de bibliotecas
pelo parlamento. Esta lei

dispõe sobre a reorganização do serviço e um programa de organização de


bibliotecas distritais (lan), equivalentes às bibliotecas dos condados norte-
-americanos [...] O governo fornecerá 10 mil coroas por ano para cada distrito
(cinco mil se o distrito criar uma biblioteca, 2 500 se o bibliotecário for capaci-
tado, e 2 500 adicionais se a coleção de referência for adequada). O especialista
em bibliotecas espera organizar duas bibliotecas por ano, e cobrir cada um dos
24 distritos em 12 anos.173

Além deste novo projeto de bibliotecas distritais, a Suécia já implantou


cerca de 8 500 bibliotecas, inclusive as 1 299 bibliotecas escolares, que
recebem anualmente uma soma de cerca de 15 milhões de rupias dos go-
vernos locais e, adicionalmente, um subsídio do governo central de cerca
de três milhões e 750 mil rupias, desde que o volume anual de empréstimos
supere sete milhões de volumes.

3432 Biblioteca Escolar


Com relação às bibliotecas escolares, também muito foi feito. A edu-
cação foi planejada de forma a estar cada vez mais ligada diretamente às
bibliotecas escolares. Os alunos recebem instrução especial sobre o uso da
biblioteca e seus instrumentos. A reforma escolar de 1928 exige crescente
autoatividade da parte dos alunos em íntima associação com as bibliotecas
e isso já causou um aumento no financiamento das bibliotecas escolares.
Em vez das 279 bibliotecas escolares de 1913, havia 1 299 bibliotecas esco-
lares em 1927. Em vez dos 300 mil volumes emprestados em 1923, foram
122 as cinco leis da biblioteconomia

emprestados dois milhões de volumes aos estudantes em 1927. Seria


educativo calcular os números equivalentes para Madras.

344 Dinamarca
Da tríade de países escandinavos, foi a Dinamarca que mais se benefi-
ciou, oferecendo educação para todos e livros para todos. Com a ajuda de
um sistema educacional conscientemente voltado para o desenvolvimento
das indústrias — particularmente o singular sistema de escolas públicas de
nível médio — e de um sistema cuidadosamente coordenado de bibliotecas
públicas modernas, a Dinamarca, embora dotada pela natureza com uma
riqueza agrícola comparativamente modesta,

produz atualmente imensas safras e marca presença nos mercados mundiais


[...] (e felizmente) interrompeu o êxodo para as cidades da população rural e
construiu uma vida social rural, onde muitos dos problemas sociais enfrentados
pelas comunidades rurais em outros países foram eliminados.174

Esta demonstração de êxito da Dinamarca deveria, oportunamente, abrir


os olhos de nossas províncias para o único remédio seguro contra o devas-
tador ‘êxodo para as cidades da população rural’ que já começa a ocorrer.

3441 Sistema de Bibliotecas


Há outra lição que a Dinamarca pode ensinar àqueles que estão ansio-
sos para atender às exigentes demandas da Segunda Lei, com a máxima
consideração possível pela economia nacional. Seu sistema de bibliotecas
caracteriza-se pelo mais completo esquema de coordenação possível. A
cadeia nacional de bibliotecas começa num extremo com as duas biblio-
tecas depositárias oficiais — a biblioteca real e a biblioteca universitária
— em Copenhague, que são, por consentimento mútuo, especializadas,
respectivamente, em humanidades e em ciências. O elo seguinte da ca-
deia é o grupo de 80 bibliotecas municipais, das quais 27, localizadas em
entroncamentos ferroviários, atuam também como bibliotecas centrais
ou como bibliotecas-depósito secundárias. E, no outro extremo da cadeia,
encontramos cerca de 800 bibliotecas de vilas espalhadas pelo país. O
sistema de empréstimo interbibliotecário, junto com esta cadeia, coloca
todos os recursos bibliográficos do país à disposição de qualquer leitor,
independentemente de onde ele more, e reduz a duplicidade de livros ao
mínimo com base na demanda real. Esta maravilhosa coordenação é uma
das consequências da lei das bibliotecas de 1920, que, em certo sentido,
nacionalizou as bibliotecas do país e colocou seu desenvolvimento e su-
pervisão nas mãos de um diretor nacional de bibliotecas, que tem o apoio
de uma forte inspetoria de bibliotecas.
a segunda lei e sua digvijaya 123

3442 Financiamento das Bibliotecas


A mesma lei colocou as bibliotecas municipais sob a responsabilidade
dos respectivos municípios e as bibliotecas das vilas sob a responsabili-
dade dos conselhos paroquiais das respectivas comunidades. Os recursos
financeiros para as bibliotecas advêm de taxas locais suplementadas com
subsídios do governo central, que são iguais às contribuições locais no caso
das bibliotecas menores. O diretor nacional de bibliotecas é o responsável
pelo pagamento dos subsídios, pela recomendação de padrões de equi-
pamentos e métodos de trabalho, pelo fornecimento de orientação biblio-
gráfica e pela organização do treinamento profissional de bibliotecários. O
subsídio do governo central durante um ano atinge cerca de sete milhões
de rupias e o montante recolhido com taxas locais e outras fontes atinge
cerca de 12 milhões de rupias. Assim, as despesas anuais com bibliotecas
públicas no país atingem cerca de 19 milhões de rupias.

3443 Realizações
Há mais de um milhão de volumes no conjunto de todas as bibliotecas e
o empréstimo anual é de cerca de cinco milhões de volumes. Adotam-se
medidas de estímulo ao hábito de frequentar as bibliotecas até mesmo na
etapa escolar. De fato, “em cada escola há uma biblioteca circulante, cada
vez mais apreciada pelas crianças.”175 Portanto, a Segunda Lei da biblio-
teconomia vem sendo acolhida pelo povo dinamarquês de forma perfeita.

35 Europa Ocidental
351 Alemanha
Rumo ao sul penetra-se na república da Alemanha, onde é muito edu-
cativo passar algum tempo examinando a maravilhosa organização das
bibliotecas especializadas da Prússia, que já existiam antes do advento da
Segunda Lei. Sua organização foi impulsionada pelo anseio de oferecer a
cada estudante sério e a cada pesquisador o seu livro. Caracteriza-se
pela mesma exatidão de detalhe, que se nota nos exclusivos Handbücher que
apenas a Alemanha, entre todos os países, publica com tão grande variedade.

3511 Biblioteca Central do Estado


O centro desta organização é a biblioteca do estado prussiano [Preus-
sische Staatsbibliothek], em Berlim. Ao seu acervo de dois milhões de
volumes são acrescentados, a cada ano, cerca de 50 mil novos volumes, e
o número de periódicos correntes é de cerca de 20 mil títulos. A área do
subsolo do edifício da biblioteca, com treze níveis de armazéns, possui
cerca de 18 500 m2. O catálogo sistemático ocupa mais de mil volumes e
seu índice alfabético, três mil volumes, aos quais cerca de 90 são acrescidos
anualmente. Possui 320 funcionários, dos quais 76 são especialistas em
124 as cinco leis da biblioteconomia

diferentes ramos da ciência, que trabalham na classificação dos livros e


ajudam os leitores na localização de suas referências.

3512 Cooperação entre Bibliotecas


As bibliotecas das dez universidades e quatro escolas técnicas de nível
médio prussianas, similares em organização, mas em escala menor, fun-
cionam em estreita cooperação com a biblioteca central. Por entendimento
mútuo, especializam-se em diferentes ramos do conhecimento, de forma
que os recursos do estado destinados às bibliotecas como um todo são
postos, com eficiência, num fundo comum de modo a garantir a aquisição
do maior número possível de publicações diferentes. Esta característica
deveria ter um significado especial para nós, pois até mesmo os diferentes
departamentos de uma mesma universidade tendem a desperdiçar os
escassos recursos do orçamento para aquisições de material bibliográfico,
cada um deles insistindo na compra de seu exemplar de um mesmo livro,
para uso exclusivo, mesmo que essa utilização só ocorra esporadicamente.

3513 Catálogo Coletivo


A biblioteca do estado mantém um catálogo coletivo dos recursos de
todas as bibliotecas especializadas e um centro de informação que auxilia
o pesquisador, em qualquer parte da Prússia, a receber os materiais de que
precisa, por meio de sua biblioteca local, enviados por qualquer biblioteca
do estado. Não se pode negar que um sistema de bibliotecas especializadas,
construído de modo tão criterioso, foi um dos fatores que contribuíram
para a enorme produção científica da Alemanha.

3514 Bibliotecas Populares


É claro que as bibliotecas especializadas somente atendem a uma pe-
quena elite de acadêmicos e profissionais, a aristocracia intelectual, por
assim dizer. Embora cumpram sua finalidade de modo admirável, estão
aquém das expectativas do ideal pregado pela Segunda Lei: ‘Livros para
os sabidos e livros para os mandriões’. O atual movimento por bibliotecas
na Alemanha está nos seus trinta anos de vida, embora só tenha alcançado
uma etapa aceitável pela Segunda Lei depois das mudanças sociais revo-
lucionárias ocorridas na esteira da Primeira Guerra Mundial. A associação
dos bibliotecários da república da Alemanha, fundada em 1922,* está rea-
lizando uma propaganda tenaz a favor da Segunda Lei e tenta convencer
as administrações locais e estaduais da necessidade de fortalecer este novo
instrumento de educação universal para o fortalecimento da democracia.

* Referência, talvez, à Reichsverband Deutscher Bibliotheksbeamter und -angestellter [asso-


ciação nacional dos funcionários públicos e empregados alemães de bibliotecas], fundada
em junho de 1920, em Halle, e que encerrou suas atividades em 1933. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 125

3515 Instituto de Leipzig


De longe, a contribuição mais notável da Alemanha em prol do atendi-
mento dos requisitos da Segunda Lei é o trabalho que está sendo realizado
pelo instituto de Leipzig.* Este instituto sobre leitores e leitura deve sua
fundação aos persistentes esforços de W. Hofmann, para quem uma mera
coleção de livros, de um lado, e uma multidão de leitores desassistidos, de
outro lado, não formarão uma biblioteca pública moderna, que é aquela que
deve ajudar cada leitor a encontrar seu livro prontamente. Salientava
que o esforço humano capaz de estabelecer contato entre o livro adequado
e o leitor adequado no tempo adequado e da forma adequada constitui
um terceiro fator imprescindível. Não é fácil preparar candidatos para
esse trabalho e não é qualquer um que terá a cultura, o temperamento e
a personalidade exigidos para essa forma avançada, mas necessária, de
serviço bibliotecário. Hofmann mostrava que o profundo conhecimento
das bases psicológicas da leitura é tão importante quanto o conhecimento
dos livros. O objetivo do instituto de Leipzig é oferecer o treinamento
necessário ao pessoal da biblioteca para executar tal tarefa: o chamado
serviço de referência.

3516 Aplicação à Índia


Mesmo os profissionais mais avançados necessitam desse tipo de ser-
viço pessoal, embora seja ainda mais necessário para as pessoas comuns
e os estudantes. Se se apresentarem propostas sobre este aspecto essencial
do serviço bibliotecário, leigos, que viveram a juventude numa época
anterior à da Segunda Lei, as rejeitarão caracterizando-as com chavões
como ‘pajear’ ou ‘paparicar’. São necessários muitos Hofmanns em nosso
país para convencer as autoridades responsáveis pelas bibliotecas quanto
à imperativa necessidade desse serviço pessoal e apagar de suas cabeças
a noção antediluviana segundo a qual atendentes semialfabetizados, que
mal conseguem ler as capas dos livros, e, por isso, não precisam ganhar
mais do que ganharia um pedreiro ou um servente, tenham condições de
formar um quadro de pessoal adequado para as bibliotecas.

352 Itália
Dirigindo-nos para o sul, omitamos a Áustria, que não é diferente da
Alemanha no que concerne à maioria das questões acadêmicas, e entremos
na Itália. Embora Garibaldi antevisse a necessidade de bibliotecas e tivesse
fundado várias bibliotecas populares, a maioria delas logo caiu em desuso.
Foi somente na presente geração que elas foram reavivadas e grandemente

* Institut für Leser- und Schrifttumskunde (1926–1937), fundado em Leipzig por Walter
Hofmann (1879–1952). (n.e.)
126 as cinco leis da biblioteconomia

multiplicadas. Por exemplo, no lugar das quatro bibliotecas que tinha em


1905, Milão agora possui vinte. Durante a última década várias bibliotecas
itinerantes (aproximadamente duas mil) foram também implantadas para
atender às áreas rurais.

3521 Federação de Bibliotecas Públicas


A federação italiana de bibliotecas públicas,* fundada há duas décadas,
tem prestado um serviço persistente pela causa da Segunda Lei. Estimulou
a formação de várias bibliotecas, promoveu a publicação de livros ade-
quados para o uso popular, convenceu benfeitores privados, associações
políticas, governos locais e o Estado a fornecerem ajuda financeira às
bibliotecas, e organizou o treinamento profissional de bibliotecários.

3522 Ação do Governo


Nos últimos anos, o governo fascista começou a ter interesse direto na
promoção do movimento por bibliotecas. O seu Istituto di Cultura Fascista
começou a financiar a publicação de livros para uso popular e a distribuí-los
gratuitamente às bibliotecas mais pobres. O governo também nomeou um
diretor-geral de bibliotecas estatais para reorganizar o sistema de bibliotecas
do país. Criou também uma escola de biblioteconomia em Florença, que
se somou às escolas mantidas pelas universidades de Pádua e de Bolonha.

353 França
Rumo ao oeste, não precisamos perder muito tempo com a França, pois,
apesar de ela possuir muitas coleções valiosas, o sistema de bibliotecas
como um todo é desorganizado e fracamente desenvolvido do ponto de
vista da Segunda Lei. Foi somente no pós-guerra que algum esforço passou
a ser feito para introduzir algumas reformas adequadas. O tom melancólico
que o presidente da Association des Bibliothécaires Français fez soar no
parágrafo de conclusão da nota que remeteu à conferência comemorativa
do cinquentenário da American Library Association comprova claramente
que existe muito espaço de trabalho para a Segunda Lei. Afirma ele

Em conjunto, à França não faltam bibliotecas especializadas, que oferecem uma


variedade infinita de recursos intelectuais, mas que necessitam de esforços
vigorosos para melhorar sua eficácia. As instalações para a leitura do público
necessitam ser organizadas de forma mais democrática, e para atingir os tra-
balhadores da cidade e do campo é preciso, em síntese, multiplicar ‘bibliotecas
para todos’.176

* Federazione Italiana delle Biblioteche Popolari, fundada em 1909, como o que seria hoje
uma organização não-governamental, por Ettore Fabietti (1876–1962). Existiu até 1932, quan-
do o governo fascista criou o Ente Nazionale per le Biblioteche Popolari e Scolastiche. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 127

354 Bélgica
No sentido norte, chegamos à Bélgica, que, em superfície e população,
quase corresponde à nossa região de Kerala (isto é, Travancore, Cochin e
Malabar juntos). A Segunda Lei entrou na Bélgica com a promulgação da
lei Destrée* de bibliotecas em 1921. Entretanto, sua excursão nesse pequeno
país alcançou muitas conquistas. Já em 1928, a Bélgica contava por volta
de 2 154 bibliotecas, com um total de 3 615 494 livros. Havia 517 822
leitores, que usaram 7 518 494 volumes.177 Tem-se uma medida dos feitos
da Segunda Lei, ao se comparar estes números com os das 1 200 bibliotecas
que emprestaram somente dois milhões e 650 mil volumes em 1921. Ainda
há muito a ser feito pela Segunda Lei como se vê pelo fato de 946 das 2 675
comunidades belgas ainda não disporem de serviço de biblioteca.

355 Países Baixos


Mais um passo para o norte e chegamos aos Países Baixos. Seu sistema
de bibliotecas tem uma organização bastante inusitada. Historicamente,
a Maatschappij tot Nut van ‘t Algemeen [sociedade para o bem geral]
fundada em 1784 e comumente conhecida como ‘Nut’ [bem], espalhou
seus ramos pelo país, organizada de modo a emprestar livros, de forma
que a população da maioria das cidades começou a criar bibliotecas por
meio de subscrição e por doações, sem esperar que os governos locais to-
massem a iniciativa. São estas bibliotecas, administradas como instituições
privadas, que são normalmente conhecidas como bibliotecas públicas nos
Países Baixos. Seu número está em torno de 100, e uma biblioteca, depois
que se consolida, passa a receber ajuda financeira dos governos locais e
do governo central. A Vereniging van Openbare Bibliotheken [associação
de bibliotecas públicas], central, com sede em Haia, é um órgão influente,
de cuja recomendação depende normalmente o pagamento de subsídios
às bibliotecas pelo ministério da educação. Algumas dessas bibliotecas
públicas abastecem de livros as áreas rurais e, em troca, recebem subvenções
adicionais da autoridade local. Um defeito deste sistema é que a receita de
uma biblioteca não é fixa, flutuando, o que é inconveniente, de ano para ano,
dependendo do número de leitores registrados e da situação financeira do
governo central e das administrações locais.

356 O Reino Unido


Depois de atravessar o canal da Mancha, aportamos nas ilhas britânicas
e examinamos se a expedição empreendida pela Segunda Lei conseguira
realizar algo ali. Embora a semente do Movimento por Bibliotecas tenha
germinado com a lei Ewart de bibliotecas de 1850, a expansão da semeadura

* Jules Destrée (1863–1936), político belga. (n.e.)


128 as cinco leis da biblioteconomia

foi extremamente lenta por muito tempo, exceto no que tange ao pequeno
estímulo em seu apoio representado pelas coleções comemorativas do
jubileu da rainha Vitória. Mas o século xx presenciou esse movimento
fertilizado por Andrew Carnegie, de maneira generosa, mas criteriosa. Isto
fez com que a semente frágil e pouco promissora repentinamente flores-
cesse com todo o vigor de uma kalpaka,* lançando seus frutos de maneira
uniforme em todos cantos do Reino Unido, enquanto o Estado observava
de longe com um sorriso de satisfação diante da boa sorte da nação.

Início de operação Início de operação Total de órgãos


Anos dos órgãos de outros órgãos responsáveis Observações
responsáveis por responsáveis por por bibliotecas
bibliotecas nos bibliotecas que surgiram
condados no período

Até 1850 0 1 1
1850–1859 0 22 22
1860–1869 0 17 17
1870–1879 0 43 43
1880–1889 0 73 73 Jubileu da
rainha
1890–1899 0 139 139 Início da
Carnegie
1900–1909 0 132 132
1910–1919 0 27 27
1920–1927 57 26 83 Projeto das
bibliotecas
Carnegie de
condados

Total 57 480 537

3561 Carnegie
A tabela acima178 mostra as consequências do advento desse afortunado
aliado da Segunda Lei em solo inglês: nota-se que 71% dos órgãos respon-
sáveis por bibliotecas só vieram a existir graças às doações de Carnegie.

3562 Carnegie e as Bibliotecas de Condados


O discurso de sir William Robertson, vice-presidente do Carnegie Uni-
ted Kingdom Trust, mostra que todo o projeto de bibliotecas de condados
deveu-se somente à iniciativa dessa fundação:

Fomos muito claros (por acaso eu fazia parte da comissão e posso falar com
conhecimento de causa) que se o governo não concedesse aos condados as

* Árvore mítica capaz de atender aos desejos de quem se abriga sob sua copa. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 129

condições para dar continuidade a estes projetos (os projetos experimentais de


bibliotecas dos condados haviam sido totalmente financiados pelo Carnegie
United Kingdom Trust), teríamos que reexaminar por completo nossa posição e
sustar a concessão de fomento aos condados para a continuação deste trabalho
[...] Seria, naturalmente, absurdo estimular um condado a implantar o projeto
por dois ou três anos e depois deixar que tudo viesse a se perder; nós, portanto,
afirmamos enfaticamente perante o conselho de educação que, a menos que
nos fosse apresentada uma lei dando poder à administração do condado para
continuar o trabalho, a fundação deveria encerrar suas atividades. O resultado
disso foi a lei que permite a vocês ir adiante e continuar o trabalho para cujo
início nós os preparamos.179

3563 Passividade do Governo
Além disso, a característica passividade do governo britânico na pro-
moção do movimento por bibliotecas e na recepção da Segunda Lei foi
ressaltada pelo visconde Haldane, então presidente da câmara dos pares
[House of Lords], em seu discurso de boas-vindas aos delegados à segunda
conferência das bibliotecas de condados:

De questões como educação, de instrumentos como bibliotecas, deixamos ao


cuidado de vocês [...] O Estado, naturalmente, terá que cuidar disso, mas ele
não cuida enquanto isso não estiver funcionando. Então, dirá, ‘Isso é bom, isso
é popular; vamos desenvolvê-lo e assim atrair votos para quem o administra!’
Espero que o movimento educacional em geral tenha chegado a essa etapa; o
movimento por bibliotecas não chegou a tanto, embora ache que há sinais de
que está chegando cada vez mais perto.180

3564 Resultados
Entretanto, qualquer que seja a instituição envolvida nesse trabalho,
a expedição feita pela Segunda Lei já obteve o maior sucesso na Grã-
-Bretanha. O ideal de livros para todos foi quase alcançado. Por exemplo,
96,3% da população da Inglaterra e do País de Gales têm atualmente fácil
acesso aos livros de que precisam. Cerca de 13 milhões de volumes são
encontrados nas bibliotecas urbanas e rurais, enquanto o empréstimo anual
se aproxima de 80 milhões. Cerca de 15% da população tornaram-se leitores
regulares, enquanto a despesa anual com as bibliotecas urbanas e rurais,
em conjunto, é de cerca de 15 milhões de rupias, que equivalem a cerca
de metade de uma rupia per capita. Esta quantia é arrecadada mediante o
pagamento de uma taxa especial para bibliotecas, cujo valor médio para
áreas urbanas é de cerca de 2 pie de rupia, enquanto o valor médio para
as áreas rurais é inferior a meio pie.

3565 Fase de Consolidação


Na verdade, a expedição empreendida pela Segunda Lei já se tornou
130 as cinco leis da biblioteconomia

um êxito total no Reino Unido, uma vez que seu movimento por biblio-
tecas ingressou na etapa final de consolidação e de coordenação em base
nacional.

36 Oceano Pacífico
361 Austrália
Deixando a ilha central do Império britânico, iniciamos nossa explora-
ção do Oriente, com uma espiada na ilha-continente do mesmo Império.
Esta colônia segue os passos da metrópole em sua hospitalidade para com
a Segunda Lei da biblioteconomia, com as limitações devidas à ausência
da relação com Carnegie. São por volta de 1 200 bibliotecas em todo o país,
que recebem ajuda dos governos locais ou do governo central, conforme
o caso. As necessidades de livros da população rural, que é muito disper-
sa, são geralmente atendidas pelos órgãos chamados County Institutes,
dos quais existem cerca de 230 para servir aos 250 mil habitantes do país.
Com a ajuda de subsídios adequados pagos pelo governo central, estão
realizando um bom trabalho e reuniram um acervo de cerca de 600 mil
volumes, que estão em constante circulação.

362 O Arquipélago Havaiano


Saindo dessa ilha imensa, passamos a um minúsculo arquipélago no
meio do Pacífico. O arquipélago havaiano confirma o bom velho ditado
‘querer é poder’. São inúmeros os obstáculos naturais que tem de enfrentar
para oferecer livros para todos. Localizado na encruzilhada do Pacífico,
é um cadinho de várias nacionalidades. Sua população é formada de
chineses, japoneses, portugueses, filipinos, espanhóis, alemães, russos,
ingleses, norte-americanos e vários outros povos. Esta população poliglota
está espalhada em oito ilhas principais e várias outras pequeninas. Esses
obstáculos de língua e transporte não impediram que o Havaí viesse a sa-
tisfazer às mais exigentes expectativas da Segunda Lei da biblioteconomia.

3621 Realizações
O Havaí fornece, de fato, um serviço universal de bibliotecas públicas
de alto padrão por meio de quatro bibliotecas municipais, que contam com
246 postos de atendimento. O financiamento do sistema de bibliotecas é
proporcionado inteiramente pelo Estado, e o orçamento anual é de cerca
de três milhões de rupias. Os bibliotecários frequentemente circulam
pelas ilhas e entram em contato pessoal com os leitores, com a finalidade
de compreender suas necessidades e orientá-los para uma gama mais
ampla de estudos. Cerca de 700 mil empréstimos são feitos a cada ano. O
intenso hábito de leitura que isso implica é percebido quando se nota que
a população total do Havaí é de apenas 250 mil habitantes. Sabe-se que
a segunda lei e sua digvijaya 131

mesmo a ilha mais remota, habitada por somente 15 homens que tomam
conta de uma estação de cabo submarino, recebe a sua troca trimestral de
livros.181 Isto é, na verdade, o cumprimento literal da lei livros para todos.

37 Ásia
371 Japão
Agora é a vez do continente asiático. Antes dele, convém dar uma olhada
no progresso da Segunda Lei no Japão, no Extremo Oriente, que vem rapi-
damente alcançando as primeiras posições entre as potências mundiais. O
célere progresso do moderno movimento por bibliotecas no Japão durante
o século xx é, ao mesmo tempo, causa e efeito de “sua rápida transição
para a industrialização, de sua riqueza recente e o efeito de ideias políticas
ocidentais sobre as massas”, bem como da maneira bem-sucedida como
“as massas populares estão gradualmente se qualificando a ocupar seu
lugar na expressão da opinião pública”.182

3711 Despertar
Depois da primeira metade do século xix, quando o Japão “rompeu
a política de isolamento e contemplou o mundo, surpreendeu-se ao ver
tremulando, no litoral do lado da China, várias bandeiras desconhecidas:
a tricolor, a inglesa e, mais próxima dela, a da águia de duas cabeças”.183
Notou também sinais visíveis de intromissões ameaçadoras em seu litoral.
Isso o levou a dizer para si, ‘mude como o mundo está mudando’. Mandou
seus melhores filhos para o mundo para descobrirem o que lhe faltava e o
que deveria fazer. Quando regressaram com seus relatórios, disse: “Muito
bem, meras revoluções cosméticas e a importação integral e indiscrimina-
da de teorias inviáveis, forjadas na Alemanha, na França ou nos Estados
Unidos não produzirão a necessária mudança. A única coisa que pode ser
eficaz é a lenta mas firme transformação do espírito de cada cidadão, com
um propósito definido e com um plano definido.” Por conseguinte, um
edito imperial proclamou em 1812, “Fica decidido de agora em diante que
a educação será tão difundida que não haverá uma vila sequer com uma
família ignorante, nem uma família sequer com um membro ignorante.”184

3712 Crescimento do Sistema de Bibliotecas


Depois que a educação para todos, assim anunciada sob os auspícios
do imperador, ter lutado, sozinha, para abrir caminho durante quase uma
geração, ela percebeu a necessidade de buscar a ajuda vigorosa de livros
para todos. Por conseguinte, o ano de 1899 assistiu à aprovação da primeira
lei de bibliotecas, que autorizava prefeituras,* cidades e vilas a criar biblio-

* As prefeituras (ken) são as principais divisões territoriais japonesas, equivalentes, apro-


ximadamente, aos estados brasileiros. (n.e.)
132 as cinco leis da biblioteconomia

tecas públicas. De tempos em tempos, o ministério da educação baixava


instruções informais aos governadores das prefeituras, estimulando-os a
instalar bibliotecas públicas. Isto levou a um rápido crescimento do número
de bibliotecas durante os últimos trinta anos, como mostra o gráfico na
página seguinte. “Em 1926–1927 havia 4 337 bibliotecas no Japão com
7 623 371 volumes.”185

3713 Agências de Promoção


O ministério da educação publica uma lista semestral de livros próprios
para uso popular. Também mantém uma escola de biblioteconomia, em
associação com a biblioteca imperial, para treinamento de pessoal biblio-
tecário. A associação japonesa de bibliotecários [Nihon Toshokan Kyokai],
criada em 1892, é o órgão não-oficial que promove o movimento por bi-
bliotecas. Faz intenso trabalho de publicidade e promove anualmente uma
‘semana da biblioteca’, celebrada com o maior entusiasmo em todo o país.

372 Manchúria*
Poderemos presenciar o funcionamento de um novo instrumento de que
a Segunda Lei lançou mão para oferecer livros para todos, ao ingressarmos
no continente asiático na Manchúria. Trata-se das bibliotecas da estrada de
ferro do sul da Manchúria que formam uma categoria própria. A empresa
ferroviária mantém uma biblioteca bastante grande em sua sede, em Dai-
ren, para uso dos empregados e do público em geral. Possui um acervo
de mais de 120 mil volumes e destina por ano cerca de 25 mil rupias para
a manutenção da biblioteca. Incumbiu-se, inclusive, da tradução de livros
estrangeiros para uso da clientela. Estabeleceu ainda cerca de 20 bibliotecas
públicas nas principais cidades e entrega livros em todas as estações ao
longo da linha ferroviária, que percorre cerca de 1 120 quilômetros.

373 China
Ao chegar à China, descobrimos que o movimento por bibliotecas
ganhou grande impulso nas mãos do governo republicano. Um dos de-
-partamentos do ministério da educação é o de educação social, que é
responsável pelas bibliotecas públicas e pelas escolas para adultos analfa-
betos. Outro órgão importante que colabora com a causa da Segunda Lei na
China é a associação nacional de bibliotecários [Zhonghua Minguo tu shu
guan xue hui],** fundada em 1925. O movimento por bibliotecas chinês

* Região situada no nordeste da China, invadida pelo Japão em 1931, que ali instalou o
estado-fantoche de Manchuko. Em 1945, voltou a fazer parte da China. (n.e.)
** Foi reorganizada em Taipé (Taiwan), em 1953. Em Beijing, na República Popular da
China, foi criada em 1979 a sociedade chinesa de biblioteconomia (Zhongguo tu shu guan
xue hui), que se diz ser continuadora da que foi fundada em 1925. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 133

NÚMERO DE BIBLIOTECAS EM FUNCIONAMENTO NUM ANO

ANO

está sendo também fortalecido com generosos donativos dos eua e de


alguns comerciantes chineses. Embora a China tenha enviado durante
muito tempo a maioria dos seus bibliotecários para estudar nos eua, o
Boone College iniciou recentemente uma escola de biblioteconomia sob
os auspícios de sua faculdade de artes, atividade esta que é complemen-
tada por vários cursos de verão oferecidos por outras universidades.
134 as cinco leis da biblioteconomia

374 Pérsia*
Ao escalar a Grande Muralha da China não encontramos qualquer
vestígio da Segunda Lei enquanto vagamos pelo Turquestão, Pérsia e Afe-
ganistão. Numa comunicação sobre as bibliotecas da Pérsia, apresentada
à sessão sobre serviços bibliotecários da primeira conferência educacional
pan-asiática, de 1930, o Sr. Herrick B. Young, bibliotecário do American
College de Teerã, afirmou que o movimento por bibliotecas

ainda está realmente por começar nesta terra antiga. Solicitações de órgãos do
governo, que podem organizar suas respectivas bibliotecas, e o interesse com
que o jovem estudante persa contempla o trabalho em bibliotecas como uma
profissão alimentam a esperança de que esse movimento esteja aqui em seus
primeiros estágios.186

38 Índia
381 Punjab
Entretanto, ao ingressarmos em nosso país através do histórico desfila-
deiro de Kaiber, encontramos a Terra dos Cinco Rios** marcada aqui e ali
com as pegadas recentes da Segunda Lei. O antigo vale do Sindhu é reco-
nhecido como o berço de muitas instituições indianas. Como para respeitar
esta antiga tradição, a Segunda Lei parece ter escolhido o Department of
Public Instruction do Punjab para ser um de seus primeiros apóstolos na
Índia britânica. São realmente gratificantes estas palavras:

Outro recente desenvolvimento é a instituição de bibliotecas de vilas. São atu-


almente mais de 1 600, anexas a escolas de ensino fundamental e médio. São
mantidas pelos conselhos distritais com a ajuda de subvenções do governo, e
estão abertas não só para os estudantes e ex-alunos, mas também para a popu-
lação em geral das vilas, e ao mesmo tempo os bibliotecários são solicitados a
fazer conferências e palestras sobre temas úteis para o homem do campo, além
de ajudar as pessoas alfabetizadas a usarem as bibliotecas. Para isto, além de
livros comuns, folhetos e revistas, fornecidos pelos conselhos distritais, o con-
selho comunitário rural, além de remunerar o bibliotecário, consegue a melhor
literatura disponível sobre assuntos de agricultura, cooperativas, saúde e outros
tópicos de interesse especial para a comunidade das vilas.187

382 Províncias Unidas***


A influência da Segunda Lei parece ter também chegado à província
vizinha. Conforme se lê,

* Denominação, até 1935, da atual República Islâmica do Irã. (n.e.)


** Em sânscrito, Punjab significa ‘cinco rios’, que são Beas, Chenab, Jhelum, Ravi e Sutlej,
afluentes do rio Indo. (n.e.)
*** Durante o domínio inglês, assim se chamava um grupo de províncias no norte da Índia.
Em 1950 foi formado aproximadamente na mesma área o estado de Uttar Pradesh. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 135

Outro importante projeto é a criação de bibliotecas circulantes e carros-biblio-


tecas em distritos lançado pelo governo das Províncias Unidas no período ora
examinado. Em 1924, esse governo decidiu estabelecer, em caráter experimental,
em 1925–1926, bibliotecas circulantes em alguns distritos selecionados de acordo
com as recomendações de uma comissão nomeada para assessorar o governo
neste e em assuntos correlatos. Três distritos foram então selecionados para
este objetivo em 1925–1926 e os conselhos distritais interessados receberam
subsídios. O esquema foi expandido para mais um distrito em 1926–1927 e
informa-se que o experimento alcançou razoável sucesso.188

383 Governo da Índia


De fato, a Segunda Lei parece que conquistou a simpatia também do
governo da Índia. Seu comissário de educação foi um dos primeiros con-
versos à causa de livros para todos. Independentemente do que reformas
futuras venham a fazer com a função desse comissário, esperemos e oremos
para que os ministros provinciais de educação adotem as medidas iniciais
para concretizar sua previsão de que “as bibliotecas ocuparão uma posição
proeminente no campo da educação no futuro próximo e sua influência
se fará sentir em todo o país”.189

384 Bengala
Nossos irmãos bengaleses formaram uma associação de bibliotecários
para disseminar a mensagem da Segunda Lei na província.

385 Baroda
Somente aqui foram adotadas as providências mais satisfatórias para
proporcionar livros para todos. Segundo o primeiro-ministro de Baroda,

O movimento por bibliotecas de Baroda faz parte de um programa cuidadosa-


mente planejado de educação de massas, inaugurado e desenvolvido por sua
alteza o marajá Saheb [...] Um projeto de bibliotecas públicas gratuitas com
base em subsídios foi implantado em 1910, tendo chegado hoje, a partir de um
modesto começo, a uma rede de bibliotecas de distritos, cidades e vilas, além
de bibliotecas itinerantes, que atendem a mais de 60% da população do estado.

3851 Realizações
O centro dessas atividades é a biblioteca de Baroda com seus anexos, o Oriental
Institute, a biblioteca das mulheres, a biblioteca juvenil e a unidade de instrução
visual.* Em seguida, vêm as bibliotecas dos distritos e das cidades, em número
de 45, com 19 mil leitores e 222 mil livros. Mais abaixo na escala estão 661 bi-
bliotecas de vilas com mais de 37 mil leitores e mais de 250 mil livros; enquanto

* Equivalente ao centro de recursos audiovisuais, ou recursos pedagógicos, das últimas


décadas do século xx; unidade de tecnologia educacional. (n.e.)
136 as cinco leis da biblioteconomia

as vilas que não possuem bibliotecas são servidas por bibliotecas itinerantes,
que em 1926–1927 circularam 418 caixas com 13 400 livros para 123 centros.190

386 Andhra Desa*


Indo mais ao sul, vemos uma excelente safra de bibliotecas que bro-
taram no final da década passada na terra dos andhras. A associação dos
bibliotecários de Andhra Desa foi grandemente responsável por isso.

387 Madras
Madras, porém, possui hoje uma associação de bibliotecários com três
anos de vida, que já conseguiu convencer o governo do estado a dar uma
oportunidade para a biblioteca pública de Connemara se desenvolver como
biblioteca depositária central. Foi também bem-sucedida ao convencer os
distritos de Chingleput e Malabar a iniciarem um projeto de biblioteca distrital.
Publicou listas de livros apropriados para uso popular e criou uma escola
de verão para formar devotos bem informados para servirem à Segunda
Lei e às suas irmãs. Realiza uma campanha publicitária para “predispor a
consciência da população favoravelmente às bibliotecas e aos livros”. Ob-
teve a oportuna cooperação da principal universidade do estado, a quem
convenceu que reconhecesse a importância do movimento por bibliotecas,
primeiro organizando um curso, em forma de palestras, sobre as leis da biblio-
teconomia, e depois colocando a escola de verão sob sua tutela acadêmica.

3871 Financiamento Local


Dito isso, é questionável que se possa obter o impulso necessário para
a Segunda Lei ultrapassar a resistência colossal que a confronta. As causas
que levam a isso são muitas: políticas, econômicas, linguísticas, financeiras,
etc. Tal resistência logo se diluiria se Madras encontrasse um Carnegie,
como ocorreu nos eua e na Inglaterra, que tiveram essa sorte. Sem dúvida,
os comerciantes, os zemindars,** os chefes religiosos e a aristocracia fundiária
podem facilmente fazer por Madras o que Carnegie fez pela Grã-Bretanha
e pelos eua. Mas, infelizmente, com raras exceções, sua doutrina sobre a
riqueza parece ser ainda a que é comum na América do Sul, isto é, “seus
donativos vão preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”.

3872 Órgãos Locais


A Índia pertence ao Império Britânico*** e espera vir a se valer das

* A partir de 1953, Andhra Pradesh. (n.e.)


** Arrendatário ou trabalhador de terras do Estado e a quem cabe arrecadar o imposto
territorial. (n.e.)
*** O autor manteve a redação da primeira edição, pois, em 1931, quando foi publicada, a
Índia ainda fazia parte desse império. A independência ocorreu em 1947. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya 137

alterações feitas no estatuto da Carnegie Corporation of New York. É


discutível, porém, que venha a atrair a atenção dela em futuro próximo.
Tampouco temos as ‘Nuts’ dos Países Baixos para com elas seduzir o povo
para o hábito da leitura e também implantar suas próprias bibliotecas sem
ter que aguardar a iniciativa dos órgãos locais. Sem dúvida, existem odres
velhos, como as chitalishtas da Bulgária e as astras da Romênia. Mas o pro-
blema consiste em saber quem despejará o vinho novo nesses odres velhos.

3873 Fonte de Inspiração


Tudo que a Madras Library Association pode fazer é ser um aliado ativo
e um agente publicitário da Segunda Lei, como foi a associação polonesa de
bibliotecários, até que uma entidade mais rica e influente lhe dê seu apoio.
Se existe uma lição importante, que a história da digvijaya da Segunda Lei
salienta claramente, é a responsabilidade do ministro da educação pelo
fornecimento de livros para todos. Não são os Estados Unidos, não é a
África do Sul, não são os Países Baixos, não é a Inglaterra que nos mostram
o caminho para cumprir as determinações da Segunda Lei. São os novos
governos da Europa central e oriental e os antigos governos do noroeste
europeu que nos dão a pista. É o exemplo dos ministérios da educação da
Tchecoslováquia, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Japão, e Havaí que devem
inspirar nosso ministério da educação.

388 Máxima de Manu


Não podemos encerrar este rápido esboço da expedição de conquista
do mundo da Segunda Lei da biblioteconomia de maneira mais apropriada
a não ser orando, com toda a sinceridade, pelo rápido sucesso da Segunda
Lei na Índia, bem como para lembrar aos nossos ministros da educação
que o exemplo de seus irmãos nas outras nações adiantadas está em íntima
consonância com o preceito de nosso antigo legislador:

Levar o saber às portas de quem dele carece e ensinar a todos a entenderem


o que é certo!
Nem mesmo a distribuição de toda a terra se compara a essa forma de
serviço.
138 as cinco leis da biblioteconomia

CAPÍTULO 4

A SEGUNDA LEI E SUAS IMPLICAÇÕES

40 Abrangência
No capítulo anterior, demos uma volta ao globo na trilha da expedição
de conquista do mundo da Segunda Lei. Já que estamos em seu território,
será útil analisarmos todas as implicações de sua mensagem e examinar-
mos o que acontecerá se a Segunda Lei for acatada na escala adequada. O
estudo das implicações da Segunda Lei será mais fácil se a considerarmos
no formato a cada pessoa seu livro. Destas cinco palavras, ‘cada’ e ‘seu’
é que guardam o segredo das implicações. Portanto, será adequado dedi-
carmos algum tempo a cada uma delas.

401 Implicações de ‘Cada’


As consequências de enfatizar ‘cada’ podem ser deduzidas do pro-
vérbio ‘cada um com seu gosto’ que podemos parafrasear dizendo ‘cada
leitor com seu gosto’. A questão a ser considerada é: quais, então, são os
compromissos implícitos na tarefa de proporcionar a cada pessoa o seu
livro? Talvez seja conveniente examiná-los sob quatro categorias: 1) os
compromissos do Estado, 2) os compromissos da autoridade incumbida
das bibliotecas, 3) os compromissos do pessoal das bibliotecas, e 4) os
compromissos dos próprios leitores.

41 Compromisso do Estado
Os compromissos do Estado giram em torno de a) financiamento, b)
legislação, e c) coordenação. Destes, o último compromisso será o de ajudar
na redução do primeiro a um mínimo, e o segundo consiste normalmente
em como definir a maneira de se desincumbir dos outros dois.

411 Recursos Financeiros


Comecemos a partir do axioma segundo o qual um fator necessário
à manutenção de um sistema bibliotecário, que possa prestar um serviço
satisfatório a cada membro da comunidade, é o financiamento. Os recur-
sos financeiros raramente caem do céu como o maná. Foi apenas no Israel
pré-histórico que o Senhor disse “Eis que vos farei chover pão do céu;
sairá o povo e colherá a porção de cada dia.”191 Por algum motivo, que só

138
a segunda lei e suas implicações 139

Ele conhece, parece que o Senhor desistiu dessa atuação direta e jamais diz
“Eis que vos farei chover rupias do céu; as bibliotecas sairão e colherão a
porção de cada dia”. Portanto, cada comunidade tem que encontrar, por
si mesma, os recursos financeiros necessários para manter as bibliotecas.
Se por sorte houver milionários em seu meio, guiados pelo Evangelho da
riqueza, de Carnegie, a comunidade poderá isentar muitos de seus membros
do pagamento de sua quota. Caso contrário, cada um deverá recolher sua
parcela, cabendo ao Estado fixar a quota de cada um e providenciar sua efi-
ciente arrecadação, ou solicitar ao governo central que a arrecade e a repasse
para as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ou autorizar os próprios
órgãos locais a recolhê-la para empregá-la em suas respectivas bibliotecas,
ou distribuir essa responsabilidade entre as partes, na proporção que for.

412 Taxa de Biblioteca


Assim que são ditas as palavras ‘taxa de biblioteca’, parece que nossos
ministros perdem o fôlego. Quando voltam a respirar, frequentemente têm
a desculpa-padrão, “Haverá um clamor público. Enfrentaremos imediata
oposição.” Poderíamos contestar perguntando: “Será que eles desistem de
arrecadar todas as taxas que encontram oposição?” Mas, se por acaso não
estiverem convencidos da mensagem da Segunda Lei e da necessidade de
obter recursos para usufruir o benefício dessa mensagem, não será desca-
bido mostrar-lhes a vertente econômica da mensagem livros para todos.

4121 Economia do Financiamento das Bibliotecas


As pessoas de qualquer comunidade constituem seu maior patrimônio
econômico, que vale em dinheiro muito mais do que todos seus bens ma-
teriais. Tudo que sirva para preservar este patrimônio humano e contribua
para torná-lo mais produtivo e valioso tem valor econômico direto para a
comunidade. As escolas e as bibliotecas são duas das instituições públicas
mais relevantes para aumentar o valor econômico do patrimônio humano,
para não dizer de seu valor espiritual, que é muito mais importante. Este
valor econômico das pessoas é muito real, embora a maioria de nós jamais
cogite sobre a vastidão desta riqueza em termos de dinheiro. Os dados
coletados pelas grandes seguradoras nos levariam a compreender o formi-
dável valor econômico dos seres humanos em conjunto e as imensas pos-
sibilidades de aumentá-lo por intermédio da oferta de livros para todos.

4122 Capital Humano*


Eis as conclusões da Metropolitan Life Insurance Company sobre o valor

* No original, human wealth (riqueza humana). A tradução ‘capital humano’ justifica-se para
evitar ambiguidade, embora esta expressão somente haja passado a ter curso na literatura
econômica a partir da década de 1950. (n.e.)
140 as cinco leis da biblioteconomia

econômico da população dos Estados Unidos, baseadas em estudos feitos por


seu pessoal técnico. A riqueza material dos Estados Unidos em 1922 era de 321
bilhões de dólares — uma soma inconcebível. O valor econômico da população
dos Estados Unidos nesse ano era cinco vezes maior, isto é, mais de um trilhão
e quinhentos bilhões de dólares [...] E, contudo, em todas as discussões sobre
taxação temos o hábito de dar muito maior importância ao capital material do
que ao capital humano. Estudos como os da Metropolitan indicam a tremenda
importância das escolas e bibliotecas no desenvolvimento do valor econômico
do nosso povo, pois já se demonstrou inúmeras vezes que uma pessoa comum
com escolaridade adequada possui mais valor econômico do que uma sem
escolaridade, não só para a comunidade, mas também para si mesma.192

4123 Ato de Estadista


O reconhecimento desse notável valor — o maior recurso natural de
qualquer comunidade, bem como do país como um todo — raramente
passa pela cabeça do contribuinte comum. É função do estadista, que está
no leme da administração, perceber isso claramente e, ao invés de se refu-
giar na má vontade do contribuinte de visão tacanha, ousar dar um passo
adiante. Então, certamente receberá, no futuro, ele próprio ou sua memória,
fartos elogios por esse gesto de coragem. O estadista está à frente do governo
exatamente para implantar medidas cujo alcance foge à percepção dos ho-
mens comuns, e não só para dirigir a máquina rotineira da administração.
Poucos são os estadistas que possuem essa visão ampla e convicção arrojada.

413 Reação das Pessoas


Quanto às pessoas que são servidas, se conseguirem os livros de que
precisam quando deles precisam e se forem levadas a se conscientizarem,
como fruto da própria experiência, de que as bibliotecas só existem para
servir aos seus interesses, não tardará muito até que se regozijem ao ver a
rubrica ‘biblioteca’ no seu carnê de impostos. Na verdade, a experiência
de países, onde se reconhece que o serviço gratuito de acesso aos livros
prestado pelo Estado constitui aplicação meritória do dinheiro público,
aponta para essa conclusão. Para dar apenas um exemplo, “Em 1850 a lei
de bibliotecas públicas [da Inglaterra] foi aprovada por uma maioria de
apenas 17 votos. Em 1919, foi aprovada por unanimidade.”193 Talvez seja
instrutivo investigar, com mais detalhes, o lento mas firme desapareci-
mento da oposição à taxa de biblioteca, na medida em que os benefícios
do serviço de bibliotecas públicas começaram a chegar às massas, embora,
no início, lhes tivesse sido empurrado goela abaixo.

414 Exemplo da Grã-Bretanha


Estimulado entre outras coisas pelo trabalho de Edward Edwards
intitulado ‘A statistical view of the principal public libraries in Europe
a segunda lei e suas implicações 141

and the United States of North America’, apresentado à Statistical Society


of London, em 20 de março de 1848,194 o Sr. William Ewart anunciou, no
outono do mesmo ano, a escolha de uma comissão para estudar a neces-
sidade de implantação de bibliotecas públicas.

4141 A lei de 1850


No dia 14 de fevereiro de 1850, depois de haver recebido o relatório da
comissão, o mesmo parlamentar propôs à House of Commons autorização
para apresentar um modesto projeto de lei, com a finalidade meramente
de permitir aos conselhos das cidades que criassem bibliotecas públicas
e museus, mediante a arrecadação de uma taxa que não deveria exceder
meio pêni, na tributação geral da cidade. Opondo-se a esta inofensiva
medida, de caráter autorizativo, que exigia que houvesse uma votação
favorável de dois terços dos contribuintes para que a lei pudesse ser ado-
tada em qualquer cidade, o Sr. Buck proclamou que a “taxação adicional,
que o projeto de lei propõe, neste momento em que a nação está em geral
empobrecida, é vista como um sério agravo pelos interesses industriais e
agrícolas do país”. Outro parlamentar, o Sr. Goulburn, apoiou a oposição,
argumentando que “os contribuintes mais pobres, que não tivessem tempo
para ler ou que morassem a uma distância considerável [...] ainda teriam
que arcar com o pagamento total de sua quota”. O Sr. Bernal fez-lhes coro
ao observar que a lei “permitiria a todo conselho municipal, que quisesse
adotar as opiniões de uma minoria da população, taxar a totalidade dos
contribuintes para manter uma instituição que logo poderia degenerar
num mero clube político”. O Sr. Spooner “chegava a temer que, com a
organização de conferências, estas bibliotecas se converteriam em escolas
normais de agitação”. Depois desta série de ataques, fez-se a votação.
Foram 118 votos a favor e 101 contra.

4142 Mutilação Ridícula


A oposição continuou insistindo teimosamente em cada etapa subse-
quente, colocando à prova a paciência dos defensores do projeto de lei. Nele
foram incluídas várias modificações restritivas, tendo sido submetido a
seis votações, até que, por fim, numa versão esfarrapada, recebeu a sanção
real, em 14 de agosto de 1850. Uma mutilação ridícula, que a guerra de
guerrilha da oposição introduziu na lei, fez com que a formação do acervo
ficasse a depender de doações ocasionais, impedindo a compra até mes-
mo de um único livro com recursos municipais, enquanto aos guardiões
desses recursos era permitido, se assim quisessem, realizar qualquer des-
pesa perdulária em edifícios e mobiliário. A sensação, porém, era de que
a lei conseguira, corajosamente, quebrar o gelo e, mesmo que de modo
incipiente, continha as sementes de uma legislação mais sábia no futuro.
142 as cinco leis da biblioteconomia

4143 A emenda de 1854


Quando, porém, o Sr. Ewart solicitou, em 1854, autorização para apre-
sentar um projeto de emenda à lei, a oposição foi muito mais moderada. O
Sr. Caldwell expressou sua convicção de que “o país inteiro estava imensa-
mente agradecido ao nobre parlamentar pelos esforços despendidos com
essa questão”. Outro excelentíssimo e nobre parlamentar foi de opinião
que “essas instituições foram muito benéficas” e acrescentou que seus
eleitores “aguardavam ansiosamente que esse preceito fosse ampliado”.
A oposição ativa limitava-se praticamente aos dois velhos conservadores,
Buck e Spooner. A votação final foi de 64 votos a favor e 22 contra, embora
o valor máximo da taxa passível de ser cobrada haja dobrado. Em 1866,
graças a outra emenda, a maioria exigida para a adoção das disposições
da lei foi reduzida de dois terços para a metade.195

4144 A lei de 1919


O poder peculiar que a Segunda Lei tem de gradualmente dissolver
a oposição, desde que um estadista de visão a abrace, é amplamente
confirmado pelo fato de a lei de 1919, que eliminou totalmente o limite
embaraçoso da taxa de biblioteca e autorizou todas as autoridades respon-
sáveis por bibliotecas a cobrarem a taxa que bem entendessem em matéria
de serviços bibliotecários, foi aprovada por unanimidade. Na verdade, a
oposição à legislação bibliotecária assemelha-se aos argumentos contra a
natação, pois, segundo um deles, o homem, para nadar, precisaria saber
flutuar, e que, para flutuar, primeiro tem que saber nadar. E, no entanto,
esta lógica de gabinete é ridicularizada pela ação do homem de fé, que,
saltando e debatendo-se, descobre que pode nadar.

415 Dissolução da Oposição


O poder que a Segunda Lei tem para dissolver a oposição é o resultado
direto da educação transmitida pelo fornecimento a cada pessoa do seu
livro. Vimos no segundo capítulo como a oferta criteriosa de livros úteis,
remetidos ao acaso, sem solicitação, ao sitiante de um pomar numa vila de
Cambridgeshire, abriu seus olhos para a utilidade dos livros. Certamente,
ele não mais lamentaria ao pagar sua quota ao serviço de biblioteca do
condado. E, afinal de contas, a criação de uma opinião pública favorável
realmente consiste na criação e integração dessas opiniões individuais.

416 Legislação
Exatamente igual foi a história e a experiência de todas as nações que
tentaram fazer aprovar leis de bibliotecas no século xix. Mas as nações que
adotaram a política de ‘esperar para ver’ são como o homem que trancou
a porta depois da casa assaltada. Agora atribuem sua posição de atraso,
a segunda lei e suas implicações 143

na competição econômica do mundo, à demora que causaram à oferta de


livros para todos, e partem diretamente para uma legislação compulsória.
Parece que confiam na máxima mimamsa [‘o mundo
nunca foi diferente do que é hoje’], e o dito semelhante,
[‘em lugar algum o mundo é diferente do que é aqui’]. Muitos países estão
agora rapidamente seguindo a liderança da Tchecoslováquia, implemen-
tando rapidamente uma lei de bibliotecas públicas, com um cronograma
para implantação de serviço de bibliotecas aberto para todos.

417 Apelo à Índia


Nem Madras, nem qualquer outra província da Índia deveria con-
tinuar hesitando em adotar uma lei de bibliotecas públicas adequada e
desembolsar o pouco dinheiro necessário para fortalecer o valor de seu
patrimônio humano, de modo a colocá-la no nível atingido em outros
países do mundo.

418 Uma Conferência Ministerial


Presentes:
1. O Ministro do Desenvolvimento.
2. O Ministro das Finanças.
3. O Ministro da Educação.
4. O Diretor de Instrução Pública.
5. O Diretor de Saúde Pública.
6. O Diretor de Indústrias.
7. O Diretor de Agricultura.
8. O Diretor de Desenvolvimento Rural.
A Segunda Lei, convidada especial, também esteve presente.
O Ministro do Desenvolvimento: Senhores, com sua permissão, em primeiro
lugar transmitirei à distinta dama as mais sinceras boas-vindas de nosso
governo. É significativo que, diferentemente de outros visitantes do
exterior, ela tenha passado um ano entre nosso povo, antes de nos dar
a oportunidade de mostrar-lhe a hospitalidade do Estado.
Entrando no assunto, esta conferência é uma consequência direta das
atividades de nossa distinta convidada. A sua missão consiste em for-
necer livros para todos. É um problema cheio de dificuldades.
O Ministro da Educação: Graças à propaganda da Segunda Lei, tenho cer-
teza que não posso encarar meu eleitorado, a menos que algo seja feito
na próxima eleição. O meu colega referiu-se às dificuldades. A maior
dificuldade é financeira. Confio em que meu outro colega dará sua ajuda
generosa a este trabalho da maior importância para a educação nacional.
O Ministro das Finanças: Ficarei extremamente feliz se puder ser de algu-
ma valia neste assunto. Mas, não vejo qualquer forma de encontrar
144 as cinco leis da biblioteconomia

dinheiro, a não ser por meio de taxação adicional. Vocês sabem o que
isto causaria.
O Diretor de Instrução Pública: Agora que as finanças foram mencionadas,
posso dizer de imediato que não é financeiramente saudável — é
como economizar migalhas e esbanjar farinha, se me permitem usar
esta expressão — gastar anualmente 69 milhões e 500 mil rupias no
ensino fundamental196 de crianças e alegar falta de recursos “para a
implantação de bibliotecas adequadas nas vilas [...] para mantê-las al-
fabetizadas e para ampliar os limites de seu conhecimento, depois que
termina sua escolarização formal.”197 Não sei se o ministro das Finanças
está ciente de que não menos de “39% das crianças educadas recaem
no analfabetismo cinco anos depois que deixam a escola.”198 Será isso
economia de recursos públicos?
O Ministro da Educação: Não há dúvida que devemos ter uma visão de
longo prazo das coisas.
A Segunda Lei: Senhores, se me for permitido interrompê-los neste mo-
mento, lerei um trecho de um discurso pronunciado no Efficiency Club
pelo secretário parlamentar do Board of Education do Reino Unido:

Um dos principais argumentos que pesaram no parlamento quando da


aprovação das cláusulas sobre continuação dos estudos da lei foi que, sob
o sistema como existia naquele tempo, as somas gastas na educação fun-
damental entre as idades de cinco a quatorze anos eram em grande parte
desperdiçadas — marquem as palavras — devido à ausência de atendi-
mento posterior das crianças, e somente quando as escolas de educação
continuada — acrescento ‘e bibliotecas públicas’ – estiverem em condição
adequada de funcionamento é que teremos retorno do que estamos gas-
tando agora em nossas escolas elementares.199

O Ministro da Educação: Li o discurso do Sr. Herbert Lewis com muita aten-


ção. Dele fiz algumas anotações: ‘A situação é cheia de dificuldades. Mas
posso lembrar-lhes que há muito trabalho a ser realizado atualmente
a um custo comparativamente insignificante?’ Agora, pedirei ao meu
amigo, que é bastante generoso para nos conceder 70 milhões para
comprar a alfabetização, que nos conceda, de início, pelo menos sete
milhões para preservar essa alfabetização. Com certeza, ele considera
prudente aprovar uma certa porcentagem recorrente das despesas de
capital para que o departamento de obras públicas mantenha seus
edifícios em bom estado. O que estou pedindo corresponde somente
a essa despesa com manutenção.
O Diretor de Desenvolvimento Rural: Concordo com o ministro da Educação
em seu apelo ao colega. A biblioteca como instrumento de educação
foi muitas vezes negligenciada... O que a Índia precisa hoje, além das
a segunda lei e suas implicações 145

bibliotecas escolares e universitárias comuns, são pequenas bibliotecas


públicas, das quais existem muito poucas... Estas bibliotecas, que deve-
riam ser encontradas em toda vila importante, atenderão às necessida-
des tanto do público que sabe inglês quanto do que lê o vernáculo.200
Meu trabalho na vila é muito prejudicado pela ausência de bibliotecas.
Não há como manter as ideias vivas e fazê-las crescer nas mentes das
pessoas.
O Diretor de Agricultura: Posso dizer o mesmo a respeito do trabalho do
meu departamento. Todo o valioso trabalho que executamos em Pusa
e Coimbatore é como se estivéssemos a bombear água para o reserva-
tório de uma grande cidade, que deveria possuir, mas não possui, a
tubulação para distribuição dessa água.
A Segunda Lei: Verifiquei que praticamente todas as suas publicações eram
usadas com interesse pelos agricultores de Reading.
O Diretor de Instrução Pública: É isso aí. Reading tem uma biblioteca. Nós
não. Isso faz toda a diferença.
O Ministro das Finanças: Não tenho tanta certeza. Vocês se lembram que
tivemos um departamento de publicidade, há não muito tempo. Ele
costumava distribuir a maioria das suas publicações gratuitamente, às
toneladas, para cada vila. Isso demonstrou a inércia, a falta de vontade
de aprender de nosso povo.
O Ministro do Desenvolvimento: Acho que deveria pedir ao meu douto amigo
que refresque a memória com o recente relatório da Royal Commission
on Agriculture. Solicitaria, em especial, sua atenção para o parágrafo
conclusivo dos membros da comissão (cito a partir da p. 90 do Abridged
report, que, de fato, é idêntico ao que se encontra na p. 674 do Main report:
“Nossa pesquisa convenceu-nos de que, dada a oportunidade — mar-
quem esta palavra — se constatará que os agricultores da Índia estão
dispostos e aptos a aplicar, progressivamente, os serviços da ciência e
da organização ao negócio da produção agrícola.”
Reconheço, entretanto, que estes folhetos do departamento de publi-
cidade foram diretamente para a fornalha. Mas, por quê?
A Segunda Lei: Porque o carteiro, que entrega um pacote de folhas impressas
não é como um bibliotecário, que estabelece contato entre os livros e
as pessoas.
O Diretor de Agricultura: Agradeço à distinta senhora por apontar para o
lugar certo. Estava para dizer, gastamos dezenas de milhões por ano
preparando uma grande festa sobre melhoramentos agrícolas, mas
deixamos de chamar os convidados e lamentamos ter que pagar pelo
serviço.
O Ministro do Desenvolvimento: Com certeza, esse elefante branco do novo
Imperial Council of Research [conselho imperial de pesquisas] pode
146 as cinco leis da biblioteconomia

esperar. Meu amigo talvez tenha um retorno melhor pelo seu dinheiro
se colocar essa quantia à disposição da Segunda Lei da biblioteconomia.
Continuamos a fazer as coisas de forma desequilibrada.
O Ministro das Finanças: Sua criação se deve à Royal Commission,201 de
onde você tirou a citação.
O Diretor de Agricultura: Se você confia numa recomendação dessa co-
missão torna-se difícil perceber porque se passaria por cima de outra
recomendação, talvez até mais importante.
O Ministro das Finanças: A que você está se referindo?
O Diretor de Agricultura: Vou ler no relatório. Penso que está na página...
A Segunda Lei: Página 672, por favor.
O Diretor de Agricultura: Muito obrigado. Você está certa. Aqui está o que
eles dizem:

Em todo este relatório, procuramos deixar clara nossa convicção de que


nenhuma melhoria substancial na agricultura pode ser eficaz, a menos que
os agricultores estejam dispostos [...] a se valer das oportunidades que a
ciência, as leis sábias e a boa administração possam colocar à sua disposi-
ção. De todos os fatores que contribuem para uma agricultura próspera,
de longe o mais importante é a visão do próprio agricultor.

Agora, qual é a soma que o orçamento destina para esta recomendação


“de longe a mais importante”? Além do que, “isso, principalmente, é
determinado pelo ambiente”.
A Segunda Lei: Somente peço que haja um lugar para livros nesse ambiente.
O Diretor de Agricultura: Eles continuam dizendo: “Não hesitamos em
afirmar que as responsabilidades exigidas para realizar este melhora-
mento são do governo”.
O Ministro das Finanças: Meu amigo está discretamente se abstendo de ler
a frase seguinte: “O reconhecimento dessa importante verdade levou,
nos anos recentes, a um grande aumento dos gastos dos departamentos
envolvidos com o bem-estar rural.”
O Ministro do Desenvolvimento: Então, certamente tenho que ler também
o parágrafo que vem em seguida:

Apesar de tudo, sentimos que sua força é indevidamente percebida pelo governo
da Índia e pelos governos locais e que a necessidade de os problemas rurais
serem atacados como um todo, e em todos os pontos simultaneamente, está ainda
insuficientemente presente em suas mentes. Não podemos senão pensar que
o fracasso em apreender o pleno significado da proposição que registramos
em certa medida explica a ausência de quaisquer tentativas coordenadas para
realizar essa mudança [...] na psicologia do agricultor, sem o que não pode
haver qualquer esperança.
a segunda lei e suas implicações 147

O Diretor de Desenvolvimento Rural: Certamente, nenhuma esperança. A


cada minuto percebo a sabedoria prática dessas palavras. Muitas vezes
encontro o extensionista rural, passando pela vila, com seu carro de de-
monstração. Assim que ele se vai , o efeito da demonstração desaparece.
A Segunda Lei: Se existisse uma biblioteca na vila — uma biblioteca atuante
com um bibliotecário atuante — isso não aconteceria. Para recuperar o
dinheiro enterrado no departamento de agricultura, para recuperá-lo
para o soerguimento do país, para converter o produto numa forma
disponível, deve-se fornecer a cada agricultor os seus livros. Com
certeza, talvez não seja prudente ou econômico rejeitar o projeto da
biblioteca nacional por razões financeiras.
O Diretor de Saúde Pública: O esforço constante do meu departamento para
que a nação receba o melhor valor para tudo o que gasta é igualmente
prejudicado pela falta de bibliotecas públicas.
A Segunda Lei: Os Estados Unidos da América consideram o custo do seu
grande serviço de bibliotecas como um valioso aporte ao prêmio pago
pelo seguro de saúde.
O Diretor de Desenvolvimento Rural: Concordo. Uma grande lição que minha
experiência me ensinou é esta: nada é mais certo do que o fato de o
progresso físico e da saúde da humanidade depender não dos esforços
dos médicos, mas de toda a evolução social do povo. Ora, estes fins
desejados não são alcançados meramente por enunciá-los, ainda me-
nos se se deixam as coisas entregues à sua sorte, ao léu, sem rumo. Há
necessidade em todos os lugares de uma opinião pública educada e
esclarecida. Somente um povo educado é um povo eficiente no combate
à doença;202 e o povo não pode ser educado sem uma eficiente rede de
bibliotecas públicas.
O Ministro das Finanças: Está-se sugerindo que as bibliotecas públicas
deveriam se ocupar com um trabalho que é fundamentalmente da
competência do ministério da saúde pública?
A Segunda Lei: Sim e não. Não, se se referir de algum modo ao tratamento
das doenças; sim, no que tange à disseminação do conhecimento, que
salvará vidas e tornará a comunidade mais saudável e feliz no trabalho
e na vida.
O Diretor de Instrução Pública: Percebo perfeitamente que prestamos atenção
inadequada a este aspecto da educação na escola. Também não temos
um sistema de bibliotecas gratuitas, onde as pessoas possam se informar
sobre as leis da fisiologia e da saúde.
O Diretor de Saúde Pública: Por isso a taxa de mortalidade da Índia é duas
vezes maior que a da Inglaterra e do País de Gales. A mortalidade in-
fantil é cerca de 4,5 vezes a da Nova Zelândia. Na Índia, a expectativa
de vida aos cinco anos é de cerca de 35 anos, contra 54 na Grã-Bretanha.
148 as cinco leis da biblioteconomia

Em outras palavras, de 100 mil meninos nascidos vivos na Dinamarca


mais da metade estaria vivendo aos 65 anos de idade, enquanto na
Índia britânica quase a metade teria morrido aos 11 anos de idade.203
A Segunda Lei: Certamente não é de estranhar, se nos lembrarmos do ma-
ravilhoso sistema de bibliotecas da Dinamarca. livros para todos é o
lema da Dinamarca e isso a recompensou...
O Ministro das Finanças: A distinta dama pretende sugerir que se instalar-
mos bibliotecas aqui, o menino que morre aos 11 anos viverá até os 65!
O Diretor de Indústrias: Essa observação não é justa nem correta. Tudo o
que ela sugere é que a opinião pública, constantemente bem atendida
pelas bibliotecas públicas, apoiaria, acima de qualquer coisa, todos os
movimentos sensatos que levem a uma melhor saúde pública e proteção
contra as doenças infecciosas, a atitudes mais saudáveis em matéria de
alimentação, vestuário, exercícios, ar puro e vida sóbria,204 que, a longo
prazo, aumentariam a expectativa média de vida.
O Diretor de Saúde Pública: O excelentíssimo ministro talvez venha a valori-
zar a opinião da distinta visitante se ela for colocada assim: O coeficiente
de correlação entre a oferta de bibliotecas públicas e o nível de saúde
pública é positivo e tende a ser razoavelmente alto ao longo do tempo.
O Diretor de Reconstrução Rural: A biblioteca pública está numa posição
melhor do que qualquer outra instituição cívica para difundir o co-
nhecimento para todas as classes da comunidade.
O Ministro da Educação: Deveria, portanto, ser uma força dinâmica, positiva
e agressiva, para fazer com que o conhecimento dentro de seu domínio
contribua para o bem-estar individual e comunitário.
O Diretor de Indústrias: Digo ‘amém’ a tudo o que os meus codiretores afir-
mam. Progresso industrial moderno sem serviço de bibliotecas públicas
é como tentar fazer um carro mover-se sem um eixo.
O Ministro das Finanças: Pelo entusiasmo com que as palavras fluem dos
lábios dos meus amigos, sinto que tenho que inferir que eles estão com
a ilusão de que estou muito esquecido da utilidade dos livros e das bi-
bliotecas. Posso dizer-lhes de saída que essa não é a minha dificuldade.
Nosso problema é encontrar formas e meios de levantar os recursos
necessários. Como eu disse, estou perdido...
O Ministro do Desenvolvimento: Sim, isso também é o que sinto. É melhor
pensarmos juntos e tentar resolver o problema do financiamento das
bibliotecas. Talvez, a distinta senhora possa esclarecer-nos com o que
ela deve ter observado em suas longas viagens.
A Segunda Lei: Esse problema é resolvido por meio de uma das seguintes
soluções, ou as três juntas: 1) taxas locais, 2) verbas do governo, e 3)
benefícios e doações de particulares.
O Ministro da Educação: A última categoria mencionada pela Segunda Lei
a segunda lei e suas implicações 149

me faz lembrar nossas grandes dotações religiosas,* que atualmente


parecem que não são bem utilizadas.
O Ministro das Finanças: Esta é uma ideia. Uma parcela bem grande da ri-
queza da nação está atrelada a essas instituições medievais. Certamente
devemos modernizar a estrutura dessas instituições de caridade. De
qualquer modo, se o fizermos, não precisaremos nos sentir tristes pelo
fato de um Carnegie não ter nascido na Índia.
O Ministro do Desenvolvimento: É verdade. Mas poderão surgir dificuldades
legais no caminho.
O Diretor de Instrução Pública: Podemos levar isso à apreciação do procu-
rador-geral.
O Ministro das Finanças: E, se necessário, aprovar legislação adequada.
A Segunda Lei: Estas dotações talvez sirvam somente para dar a partida.
Mas recursos para a manutenção anual devem ser buscados localmente.
As responsabilidades locais devem recair nos ombros locais.
O Ministro das Finanças: Isso será muito difícil de conseguir.
A Segunda Lei: Vou somente observar que a experiência em outros países
prova claramente que uma vez que as pessoas começam a desfrutar os
benefícios de um serviço de bibliotecas bem-administrado, elas votam
de bom grado para pagar por esse serviço.
O Ministro do Desenvolvimento: Supondo, por enquanto...
O Ministro das Finanças: Não tenho tanta certeza.
A Segunda Lei: Se forem pacientes comigo, posso provar, com um raciocí-
nio a priori, bem como pelo exemplo de outros países, que o dinheiro
despendido em bibliotecas retorna para nós a longo prazo multiplicado
por dez. Retorna na forma da economia causada pela melhoria do sen-
timento cívico e dos costumes dos cidadãos, na forma de mais energia
humana por causa da maior expectativa de vida, na forma de aumento
da produção por causa da melhor qualificação dos trabalhadores, na
forma de melhor balança comercial por causa de métodos mais bem
informados de comercialização, em resumo, as finanças públicas e
privadas não são iguais.
O Ministro das Finanças: Isso está correto. Mas...
O Ministro da Educação: Não pode haver nenhum ‘mas’ nesta questão.
Como o eminente J.R. Clynes disse certa vez:

* Templos e outras instituições religiosas reuniram, na Índia, graças a doações dos fiéis,
muitos bens, móveis e imóveis, ao longo dos séculos, à semelhança de algumas ordens
religiosas ocidentais. A administração desse patrimônio tem sido motivo de atritos que
contrapõem os que defendem maior ingerência do Estado em sua administração e os que
defendem a manutenção das entidades religiosas como instituições independentes do
poder secular. (n.e.)
150 as cinco leis da biblioteconomia

Gastamos uma enormidade de dinheiro público em uma quantidade tão grande


de objetos, é tanto o dinheiro gasto com causas de todos os tipos, para todos
os fins, que fica impossível afirmar que não podemos proporcionar recursos
públicos para uma finalidade como essa. Na verdade, não podemos mais nos
permitir economizar dinheiro do erário dessa maneira e deixar de agir em
relação ao que constitui hoje uma das mais importantes finalidades de nossa
atividade pública. Não considero o dinheiro, venha ele do bolso privado ou
do tesouro público, como uma despesa feita sem qualquer retorno, quando é
empregado para pagar algo relacionado com um objetivo educacional. Não
é despesa no sentido de desperdiçar, no sentido de que é dinheiro gasto e
acabado, pois ele retorna em formas mais valiosas. Na medida em que, diga-
mos, aprimoramos educacionalmente o homem ou a mulher comuns, existe
aperfeiçoamento [...] O homem que gosta de livros, que gosta de ler, seja na
biblioteca ou em casa, pode estar certo, é normalmente um homem melhor do
que o homem que jamais se preocupa absolutamente com livros [...] É algo
muito sério para o futuro de qualquer país se tiver uma democracia que não
seja educada, uma democracia dependente de jornais ou revistas populares-
cos, ou coisa que o valha, de tal sorte que [...] é preciso dar início ao trabalho,
e, independentemente do desânimo que se sinta nas primeiras etapas de um
esforço como esse, quanto maior for o desânimo maior será a energia nesse
propósito, ou a imensa utilidade de tais propósitos, tende a beneficiar o Estado
como um todo [...]205

O Ministro do Desenvolvimento: Eu estava dizendo que, supondo que uma


criteriosa taxação seja possível, gostaríamos de receber mais orientação
da Segunda Lei com relação a detalhes de ordem prática.
A Segunda Lei: Se se acrescentar à sua brilhante galáxia de diretores um
diretor de bibliotecas públicas, ele cuidará dos detalhes. Talvez deva
aduzir que, mesmo antes de seu diretor ser nomeado, é possível con-
seguir a aprovação de uma modesta legislação bibliotecária.
O Ministro do Desenvolvimento: Isso é exatamente o que eu queria. A se-
nhora se incomodaria de ficar um pouco mais, de modo que possamos
rascunhar, pelo menos, os principais artigos de um projeto adequado
de lei de bibliotecas?
A Segunda Lei: Eu me adiantei a isso. Redigi um projeto de lei para Madras
e outro para a União da Índia com a assistência de alguns dos seus
diretores e do seu secretário-redator. Com pequenas modificações o
primeiro poderá ser utilizado também por outras províncias.
O Ministro das Finanças: Você trouxe alguma cópia?
O Diretor de Instrução Pública: Sim. Temos exemplares suficientes.
A Segunda Lei: Lembro-me da solução incomum encontrada por um estado
norte-americano que foi fazer do crime uma fonte de financiamento
das bibliotecas.
O Ministro do Desenvolvimento: Como pode o crime desenvolver bibliotecas?
a segunda lei e suas implicações 151

A Segunda Lei: A Constituição de Michigan, desde que entrou em vigor em


1835 até nossos dias, contém dispositivo pelo qual o produto de todas
as multas penais, aplicadas por violação das leis estaduais, é destinado
ao uso das bibliotecas; a quantia reservada para esse fim supera um
milhão e meio de rupias por ano.
O Diretor de Instrução Pública: Tivemos algo semelhante aqui.
O Ministro das Finanças: Verdade? E o que é?
O Ministro da Educação: Acho que nosso amigo está se referindo ao Fine-
-Hall [salão das multas] de uma de nossas faculdades de Andhra.
Tínhamos um diretor engenhoso, que poupava o dinheiro de todas
as multas pagas e com ele construiu um auditório para reuniões, que
é também usado para abrigar a biblioteca da faculdade.
O Diretor de Indústrias: Outro diretor, que é amigo meu, empregou todo
o dinheiro dessas multas para decorar as paredes da faculdade com
múltiplas reproduções de obras de arte.*
O Ministro do Desenvolvimento: Continuemos ouvindo a distinta dama para
que nos conte sobre como funciona esse impressionante dispositivo da
constituição de Michigan.
A Segunda Lei: As multas penais arrecadadas em cada condado aí per-
manecem e são distribuídas anualmente às bibliotecas distritais do
condado, de acordo com sua população. A maior quantia já arreca-
dada de multas penais para bibliotecas ocorreu em um dos condados
quando vários funcionários públicos e outras pessoas foram multados
e alguns condenados à prisão por causa de um escândalo no serviço
de abastecimento de água, que envolveu suborno numa conspiração
que visava a amarrar uma cidade a um contrato com uma empresa
privada. A cidade recebeu seu quinhão dessas multas e a biblioteca
imediatamente investiu várias centenas de dólares em livros sobre to-
das as etapas do tratamento da água, na esperança de que esses livros
pudessem contribuir de alguma maneira para a solução do problema
de água potável na cidade.206
O Ministro das Finanças: Este é, de fato, um exemplo muito esclarecedor.
Vamos agora suspender a reunião para o almoço. Podemos voltar a nos
reunir amanhã às 11 horas. Assim teremos algum tempo para examinar
os projetos de leis de bibliotecas, de modo que possamos discuti-las
mais tarde com um conhecimento mais profundo e com maior facilidade.

* No original, “utilised all such fines for decorating the college walls with a Fine-Arts col-
lection”. Trocadilho com o substantivo fine (multa) e o adjetivo homógrafo fine de belas-
-artes (fine-arts). Que o leitor perdoe a tentativa de preservar, no português,o espírito do
trocadilho. (n.e.)
152 as cinco leis da biblioteconomia

42 Lei Estadual de Bibliotecas


Lei de Bibliotecas para o Estado de Granthajagat
Considerando ser oportuno dispor sobre a implantação e manutenção
de um sistema de bibliotecas públicas e sobre o amplo desenvolvimento
e a organização do serviço de bibliotecas urbanas, rurais e de outros tipos
no estado de Granthajagat,
fica estabelecido:
Capítulo 1

Preâmbulo
11. (1) Esta lei poderá chamar-se ‘Lei das Bibliotecas de 1945’.
(2) Ela se aplicará a todo o estado de Granthajagat.
12. Nesta lei, a menos que haja algo incompatível no assunto ou
no contexto:
(1) ‘Bibliotecário estadual’ significa o funcionário público nomea-
do pelo governo do estado para desempenhar as funções de bibliotecário
estadual.
(2) ‘Biblioteca pública’ significa uma biblioteca, inclusive suas
filiais e postos de atendimento, implantados ou mantidos e administrados
por uma administração local de bibliotecas nos termos desta lei.
(3) ‘Biblioteca departamental’ significa uma biblioteca estabele-
cida ou mantida por um departamento do governo do estado.
(4) ‘Biblioteca externa à rede’ significa qualquer biblioteca exis-
tente no estado e que não seja uma das que pertencem a qualquer das
categorias antes mencionadas.

Capítulo 2
Autoridade Estadual Responsável pelas Bibliotecas
21. Com a finalidade de promover e organizar um sistema de bibliote-
cas no estado de Granthajagat, o ministro de educação (doravante denominado
‘o ministro’) será a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas.
211. Competirá à autoridade estadual responsável pelas bibliotecas
o estabelecimento de um adequado serviço de bibliotecas no estado de
Granthajagat e o progressivo desenvolvimento de instituições dedicadas a
essa finalidade, bem como assegurar a execução efetiva pelos órgãos locais,
sob seu controle e direção, da política nacional para a oferta adequada de
serviço de biblioteca em todas as áreas.
22. Para auxiliá-la no cumprimento de suas atribuições, a autoridade
estadual responsável pelas bibliotecas nomeará um bibliotecário estadual
em tempo integral escolhido entre aqueles que possuam qualificação
adequada para o exercício da profissão de bibliotecário, estabelecerá as
condições em que prestará serviço e a remuneração que lhe cabe.
a segunda lei e suas implicações 153

221. Sujeito ao controle da autoridade estadual responsável pelas


bibliotecas, o bibliotecário estadual
(1) administrará a biblioteca central do estado;
(2) supervisionará, dirigirá e tratará de todos os assuntos rela-
tivos à lei de direito autoral e à manutenção e conservação dos materiais
de leitura e afins, depositados no governo nos termos da citada lei;
(3) supervisionará, dirigirá e tratará do exercício das atribuições
e do desempenho funcional das autoridades locais responsáveis por bi-
bliotecas nos termos desta lei;
(4) centralizará todos os trabalhos técnicos, como aquisição, clas-
sificação e catalogação, e coordenará a seleção, conservação e manutenção
dos materiais de leitura e afins nas bibliotecas públicas, universitárias,
departamentais e externas do estado;
41. manterá o cadastro estadual de bibliotecários;
(5) submeterá à autoridade estadual responsável pelas bibliotecas
um relatório anual do progresso e funcionamento do sistema de bibliotecas
do estado; e
(6) assistirá em geral a autoridade estadual responsável pelas
bibliotecas e cuidará da correspondência e exercerá os encargos que lhe
forem atribuídos por esta autoridade no desempenho de suas funções e
no exercício de sua competência nos termos desta lei.
23. Haverá uma comissão estadual de bibliotecas com a finalidade
de assessorar a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas em todos
os assuntos abrangidos por esta lei.
231. A comissão estadual de bibliotecas será formada pelo
(1) ministro;
(2) ministro encarregado do autogoverno local ou seu suplente;
(3) bibliotecário estadual;
(4) diretor de educação ou seu suplente;
(5) dois membros eleitos pelo legislativo estadual;
(6) um membro indicado pelo governo dentre seus secretários e
chefes de departamento;
(7) um membro indicado pela direção de cada uma das universida-
des do estado ou seu suplente;
(8) um membro indicado pela direção de uma associação estadual
de bibliotecários do estado, aprovado pelo secretário para este fim, ou seu
suplente; e
(9) um membro com reconhecido conhecimento de biblioteconomia,
indicado pelo secretário.
232. O ministro de educação será o presidente e o bibliotecário esta-
dual será o secretário da comissão estadual de bibliotecas.
233. Os membros da comissão estadual de bibliotecas, exceto os
154 as cinco leis da biblioteconomia

designados ex officio, terão mandato de três anos, contados da data de sua


eleição ou indicação, conforme for o caso.
234. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas baixará
normas relativas à sua organização, às reuniões, sejam periódicas ou não,
e procedimentos respectivos, bem como às funções e competências da
comissão estadual de bibliotecas.

Capítulo 3
autoridade local responsável pelas bibliotecas
31. Com a finalidade de organizar e manter as bibliotecas públicas,
haverá uma autoridade local responsável pelas bibliotecas para cada área
municipal com população superior a 50 mil habitantes, aprovada pela
autoridade estadual responsável pelas bibliotecas com esta finalidade
(doravante denominada ‘área urbana aprovada’) e para a área de cada um
dos conselhos distritais, excluídas as áreas urbanas aprovadas (doravante
denominada ‘área rural aprovada’).
311. A autoridade local responsável pelas bibliotecas de uma área
urbana aprovada será o conselho municipal ou a prefeitura respectiva (e
poderá doravante ser denominada ‘autoridade responsável pela biblioteca
da cidade’).
312. A autoridade local responsável pelas bibliotecas de uma área
rural aprovada será o conselho distrital respectivo (que doravante poderá
ser denominado ‘autoridade responsável pela biblioteca rural’).
32. Será da competência de cada autoridade local responsável pelas
bibliotecas fornecer serviços de biblioteca para a população de sua área.
321. No prazo de um ano contado da data da vigência desta lei ou
período maior que a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas
vier a fixar ou permitir em determinados casos, toda autoridade local
responsável pelas bibliotecas elaborará e submeterá à autoridade estadual
responsável pelas bibliotecas um plano (doravante denominado ‘plano
de desenvolvimento’) de forma que a autoridade estadual responsável
pelas bibliotecas possa orientar-se e subordinar-se a tais regras, no que for
pertinente, identificando a providência que a autoridade local responsável
pelas bibliotecas propõe que seja implementada para fornecer um serviço
de biblioteca adequado à população da área e medidas subsequentes mediante
as quais se propõe atingir esse objetivo.
322. A autoridade local responsável pelas bibliotecas, antes de sub-
meter seu plano de desenvolvimento à autoridade estadual responsável
pelas bibliotecas, fará sua divulgação da forma que julgar apropriada ou
como a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas exigir, e levará em
consideração quaisquer representações feitas a ela por quaisquer pessoas,
isoladas ou em conjunto.
a segunda lei e suas implicações 155

323. Após analisar quaisquer representações relativas ao plano de


desenvolvimento apresentadas a ela, no prazo de dois meses da data de
seu recebimento, e depois de incorporar ao plano eventuais alterações, bem
como consultar a respectiva autoridade local responsável pelas bibliotecas
sobre o que considera necessário ou conveniente para garantir que o pla-
no contemple as necessidades imediatas e futuras da área em matéria de
serviço de bibliotecas, a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas
aprovará o plano e passará essa orientação à correspondente autoridade
local responsável pelas bibliotecas para que faça sua divulgação na forma
como foi aprovado por ela.
324. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas pode,
devidamente autorizada, cancelar as atribuições e competências de uma
autoridade responsável pela biblioteca da cidade e incluir sua área na de
uma autoridade responsável por bibliotecas rurais que seja adequada,
quando sua população cair consideravelmente abaixo de 50 mil habitan-
tes ou por outras razões de eficiência, e providenciar para a transferência
do patrimônio e do pessoal da biblioteca da autoridade responsável pela
biblioteca da cidade para a autoridade responsável por bibliotecas rurais,
bem como todas as questões decorrentes da transferência das atribuições
e competências da biblioteca.
325. Um município incluído numa área rural aprovada pode a qual-
quer momento, depois que sua população ultrapassar 50 mil habitantes,
requerer permissão à autoridade estadual responsável pelas bibliotecas
para que sua área seja retirada da condição de área rural aprovada e
reconhecida como uma autoridade responsável por biblioteca de cidade
e, obtida a aprovação, submeter à autoridade estadual responsável pelas
bibliotecas um plano de desenvolvimento que deve incluir informação
adicional sobre o ajuste que ela houver feito com a autoridade responsável
por bibliotecas rurais em relação à transferência do patrimônio e do pessoal
da biblioteca para si própria, e todos os demais assuntos que surgirem a
partir da transferência das atribuições e competências das bibliotecas.

33. Tão logo seja possível, depois da aprovação do plano de de-


senvolvimento de uma autoridade local responsável pelas bibliotecas, a
autoridade estadual responsável pelas bibliotecas baixará um regulamento,
denominado ‘regulamento da biblioteca local’, para sua área, especifican-
do a biblioteca central e as bibliotecas sucursais, inclusive as sucursais
em escolas, prisões e hospitais e postos de atendimento que a autoridade
estadual responsável pelas bibliotecas tem a responsabilidade de implan-
tar e manter, e o referido regulamento definirá, com a amplitude que a
autoridade estadual responsável pelas bibliotecas considerar desejável,
as atribuições da autoridade estadual responsável pelas bibliotecas com
respeito às medidas a serem tomadas por ela para proporcionar o serviço
156 as cinco leis da biblioteconomia

de biblioteca adequado para a população de sua área e as etapas em que


serão adotadas.
331. O regulamento da biblioteca local de uma área estabelecerá
as atribuições e competências de sua autoridade local responsável pela
biblioteca com relação às questões ali constantes e pode ser modificado
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas sempre que, em
sua opinião, a alteração for conveniente por causa de qualquer mudança
de circunstâncias, e desde que, antes de alterá-lo, a autoridade estadual
responsável pelas bibliotecas comunique à respectiva autoridade local
responsável pelas bibliotecas a alteração proposta e levará em conta
quaisquer representações encaminhadas por ela no prazo de dois meses
do recebimento da comunicação.

34. Se a autoridade estadual responsável pelas bibliotecas se inteirar,


seja a partir de relatório de seus funcionários, seja mediante reclamação
de qualquer interessado, ou qualquer outro meio, de que uma autoridade
local responsável pelas bibliotecas deixou de cumprir qualquer atribuição a
ela imposta por esta lei ou como consequência dela, a autoridade estadual
responsável pelas bibliotecas poderá baixar uma ordem de serviço decla-
rando que a autoridade local negligenciou aquela atribuição e orientando
para que se faça cumprir a execução dessa ordem, conforme for conveniente
para a autoridade estadual, e qualquer dessas orientações será cumprida
obrigatoriamente, com base em requerimento feito em nome da autoridade
estadual responsável pelas bibliotecas.
35. Uma autoridade local responsável pelas bibliotecas poderá, para
implantar, organizar e administrar seu sistema de bibliotecas públicas, ou
para exercer quaisquer atribuições ao abrigo desta lei:
(1) proporcionar prédios com instalações adequadas, livros,
revistas, jornais, mapas, manuscritos, projetores de diapositivos, filmes
cinematográficos, microfilmes e materiais afins e os equipamentos neces-
sários para projeção, materiais e outros recursos necessários à leitura;
(2) adquirir, comprar ou alugar terreno ou outras propriedades
e bens, demolir, reconstruir, alterar, reformar e ampliar prédios, e equipá-los,
decorá-los e supri-los com mobiliário, acessórios e recursos exigidos;
(3) assumir qualquer biblioteca com a prévia autorização da
autoridade estadual responsável pelas bibliotecas nas condições que forem
aprovadas pela mesma autoridade;
(4) desativar qualquer biblioteca pública mantida por ela ou
mudar o local de qualquer dessas instituições com a prévia autorização
da autoridade estadual responsável pelas bibliotecas;
(5) oferecer palestras e outras atividades que sejam propícias
à consecução das finalidades desta lei;
a segunda lei e suas implicações 157

(6) aceitar donativos ou presentes para atender a qualquer


dos objetivos desta lei;
(7) em obediência, neste particular, às regras estabelecidas
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas, organizar ou par-
ticipar da organização de conferências para debater questões relativas às
bibliotecas, visando à promoção dos serviços bibliotecários, e despender as
quantias que forem razoáveis para cobrir, parcial ou totalmente, despesas
incorridas em relação a conferências e exposições, inclusive as despesas
de pessoas autorizadas a assistir a essas conferências ou exposições;
(8) em obediência, neste particular, às regras estabelecidas
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas, contratar funcio-
nários e auxiliares, puni-los e demiti-los; e
(9) com a aprovação da autoridade estadual responsável
pelas bibliotecas praticar qualquer ato que contribua para a consecução
dos objetivos desta lei.
36. Todos os bens móveis e imóveis requisitados ou mantidos por
qualquer biblioteca pública ou para qualquer dos objetivos desta lei serão
propriedade da respectiva autoridade local responsável pelas bibliotecas.
361. Qualquer bem imóvel requisitado por uma autoridade local
responsável pelas bibliotecas para a finalidade desta lei será considerado
área de destinação pública conforme definido na lei sobre compra de
terrenos em vigor e poderá ser adquirido nos termos dessa lei.
362. Uma autoridade local responsável pelas bibliotecas pode, com a
prévia aprovação da autoridade estadual correspondente, vender qualquer
terreno ou edifício de sua propriedade, e os valores totais recebidos no caso
de venda ou parcialmente no caso de troca serem aplicados na compra de
outros prédios ou em qualquer outra finalidade em que o capital finan-
ceiro possa ser aplicado, nos termos da lei, com aprovação da autoridade
estadual responsável pelas bibliotecas.
37. Quando, na opinião da autoridade local responsável pelas bibliote-
cas, a população adulta da área ou uma parte ou classe dela for incapaz,
por causa do analfabetismo, de aproveitar integralmente os serviços de
biblioteca por ela oferecidos, essa autoridade poderá providenciar a rea-
lização de um estudo que analise as circunstâncias desse analfabetismo,
outros projetos que estejam funcionando para eliminação do analfabetismo,
os recursos financeiros, além dos de origem pública, disponíveis para tal
finalidade, e todos as outras questões pertinentes.
371. A autoridade local responsável pelas bibliotecas avaliará o relatório
desse estudo e apresentará um projeto à autoridade estadual responsável
pelas bibliotecas, para apreciação e aprovação, indicando propostas sobre
como ela pretende contribuir para a eliminação do analfabetismo e os
recursos que propõe despender para esse fim.
158 as cinco leis da biblioteconomia

372. Sem prejuízo das atribuições mencionadas acima, a autoridade


local responsável pelas bibliotecas poderá, para a mesma finalidade,
(1) associar-se com qualquer pessoa ou grupo de pessoas
que queiram cooperar nessa questão; e
(2) auxiliar essas pessoas ou grupos de pessoas permitindo-
-lhes o uso de seus locais, edifícios e móveis, materiais de leitura e afins,
equipamentos ou outros bens, na medida do possível.
No entanto, salvo se houver determinação favorável em projeto apro-
vado pela autoridade local responsável pelas bibliotecas, não despenderá
dinheiro nem fará donativos para tal finalidade.

Capítulo 4
Comissão Local de Bibliotecas e Comissão de Bibliotecas da Vila
41. Toda autoridade local responsável pelas bibliotecas deverá, de
acordo com as disposições da autoridade estadual correspondente, criar
uma comissão local de bibliotecas para o desempenho eficiente de suas
funções nos termos desta lei.
42. Toda comissão local de bibliotecas incluirá pessoas com experiência
no trabalho em bibliotecas, e que na sua maioria sejam membros da auto-
ridade local responsável pelas bibliotecas, inclusive o presidente desta ou
funcionário de nível equivalente.
421. O presidente ou funcionário equivalente da autoridade local res-
ponsável pelas bibliotecas será o presidente da comissão local de biblio-
tecas, e o bibliotecário municipal ou o bibliotecário distrital, conforme o
caso, da respectiva autoridade será o secretário.
43. Toda autoridade local responsável por bibliotecas levará em con-
sideração um relatório da comissão local de bibliotecas antes de exercer
qualquer de suas funções com relação ao serviço de bibliotecas, salvo quan-
do uma autoridade puder prescindir de tal relatório, se, em sua opinião,
o assunto for urgente, e informar depois à comissão local de bibliotecas
sobre isso tão logo seja possível.
44. Uma autoridade local responsável pelas bibliotecas pode delegar
à sua comissão local de bibliotecas qualquer de suas funções relativas às
bibliotecas, exceto a atribuição de impor ou modificar uma taxa, tomar
empréstimo em dinheiro, alienar a propriedade de terrenos ou edifícios,
encaminhar o orçamento ou apresentar relatório à autoridade estadual
responsável pelas bibliotecas.
45. Uma comissão local de bibliotecas pode, respeitadas as restrições
impostas pela autoridade local responsável pelas bibliotecas e as dispo-
sições baixadas pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas,
(1) nomear subcomissões constituídas da maneira que for
determinada pela comissão; e
a segunda lei e suas implicações 159

(2) autorizar quaisquer dessas subcomissões a exercer qual-


quer de suas competências em seu nome.
46. A autoridade rural responsável pelas bibliotecas nomeará uma
comissão de bibliotecas da vila para cada uma ou para cada grupo de seus
postos de atendimento, a fim de assessorá-la sobre as necessidades locais
quanto ao serviço de biblioteca.
461. A autoridade rural responsável pelas bibliotecas reconhecerá,
como comissão de bibliotecas da vila, a comissão de bibliotecas nomeada
pelo conselho municipal ou a panchayat* da vila ou seu equivalente, de
qualquer área onde uma de suas bibliotecas sucursais esteja funcionando.
47. As atas e processos da comissão local de bibliotecas ou da comissão
de bibliotecas da vila estarão abertos à inspeção de qualquer contribuinte
da área por ela atendida, mediante o pagamento de uma taxa que não
exceda uma rupia, podendo fazer cópia ou extrato desses documentos.

Capítulo 5
biblioteca estadual central
51. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas criará, manterá
e administrará uma biblioteca estadual central na capital ou outro local
adequado, que atuará como depositária do sistema de biblioteca do estado.
511. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas poderá criar,
manter e administrar bibliotecas sucursais estaduais em qualquer de suas
regiões linguísticas, no lugar que for apropriado.
52. O bibliotecário estadual será o funcionário incumbido das atribui-
ções e competências descritas nas partes iii e v da lei de imprensa e regis-
tro de livros, de 1897; a biblioteca estadual central manterá um escritório
estadual de direito autoral para assessorá-la sobre este assunto.
521. Um exemplar de cada material impresso recebido conforme deter-
mina a lei de imprensa e de registro de livros, de 1897, será conservado na
biblioteca estadual central ou numa biblioteca sucursal estadual, como uma
coleção separada de depósito legal, para consulta no recinto da biblioteca,
mas não para empréstimo de qualquer tipo, exceto para apresentação num
tribunal de justiça a pedido desse tribunal.
522. Qualquer exemplar adicional ou quaisquer exemplares adicionais,
requisitados nos termos da referida lei, serão incluídos no acervo da bi-
blioteca estadual central e ficarão disponíveis para empréstimo.
523. Um relatório das atividades do escritório estadual de direito autoral
será incluído no relatório anual do bibliotecário estadual.
53. A biblioteca central estadual poderá manter uma biblioteca estadual
para cegos, para produção, reunião e utilização de livros, gravações sonoras
de livros, e materiais similares, para cegos.

* Assembleia de cinco anciões escolhidos pela comunidade. (n.e.)


160 as cinco leis da biblioteconomia

531. A biblioteca estadual para cegos poderá colaborar com a biblioteca


nacional e as outras bibliotecas estaduais para cegos e executar trabalhos
que lhe couberem por acordo mútuo.
532. O transporte de livros para cegos entre a biblioteca estadual central
e os leitores cegos no território da Índia será feito pelo serviço de correios
com isenção de tarifas postais.
533. Um relatório sobre as atividades da biblioteca estadual para cegos
será incluído no relatório anual do bibliotecário estadual.
54. A biblioteca estadual central poderá manter um escritório estadual
de empréstimo entre bibliotecas.
541. O escritório estadual de empréstimo entre bibliotecas poderá
incluir no projeto de empréstimo entre bibliotecas as bibliotecas públicas,
as bibliotecas departamentais e as estaduais que não façam parte da rede
mas queiram aderir ao projeto nas condições que forem acordadas.
542. O escritório estadual de empréstimo entre bibliotecas poderá par-
ticipar de qualquer projeto interestadual ou internacional de empréstimo
entre bibliotecas na forma acordada pelos estados participantes e pelo
governo da União.
543. Um relatório das atividades do escritório estadual de empréstimo
entre bibliotecas será incluído no relatório anual do bibliotecário estadual.
55. A biblioteca estadual central poderá manter um escritório biblio-
gráfico estadual.
551. O escritório bibliográfico estadual poderá admitir no seu projeto
de trabalho outros órgãos, como os departamentos de governo e de órgãos
educacionais e científicos estaduais.
552. O escritório bibliográfico estadual poderá colaborar com escritórios
ou órgãos similares de outros estados e do governo da União e executar
trabalhos bibliográficos que lhe couberem por acordo mútuo entre os
escritórios e os órgãos participantes.
553. Um relatório das atividades do escritório bibliográfico será incluído
no relatório anual do bibliotecário estadual.
56. Um escritório estadual de serviços técnicos poderá ser mantido
pela biblioteca central do estado para serviços técnicos centralizados como
aquisição, classificação e catalogação de livros para as bibliotecas públicas,
bibliotecas departamentais e bibliotecas estaduais que não façam parte da
rede mas queiram aderir ao projeto conforme for acordado.
561. O escritório de serviços técnicos poderá colaborar com órgãos afins
de outros estados e do governo da União, e executar trabalhos técnicos que
lhe couberem por acordo mútuo com os órgãos participantes.
562. Um relatório sobre as atividades do escritório de serviços técnicos
será incluído no relatório anual do bibliotecário estadual.
a segunda lei e suas implicações 161

Capítulo 6
financiamento, contabilidade e auditoria
61. Com a prévia autorização da autoridade estadual responsável pelas
bibliotecas e do governo, a autoridade local responsável pelas bibliotecas
arrecadará uma taxa de biblioteca na forma de um adicional não inferior a
três centavos por rupia do imposto territorial ou predial ou qualquer outro
imposto a ser indicado para este fim.
62. A taxa de biblioteca será coletada da mesma forma que as demais
taxas e impostos pagáveis ao órgão que tenha sido constituído como autori-
dade local responsável pelas bibliotecas.
63. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas repassará,
em conformidade com regras preestabelecidas, a cada autoridade local
responsável pelas bibliotecas, as quantias correspondentes a
(1) dotações anuais que não serão inferiores às da arrecadação
da taxa da biblioteca local no ano financeiro precedente, com relação às
despesas incorridas por essas autoridades no exercício de suas funções no
concernente a esta lei; e
(2) dotações especiais para a aquisição de terrenos e prédios,
para prover edifícios e mobiliá-los, e para outras finalidades especiais
relacionadas ao desempenho de suas atribuições nos termos desta lei.
631. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas proverá, de
conformidade com as normas estabelecidas, o pagamento às universidades
aprovadas para a finalidade especificada de
(1) dotações anuais para a faculdade de biblioteconomia;
(2) dotações anuais para o pagamento de bolsas de estudo
aos estudantes do estado matriculados num curso de biblioteconomia; e
(3) dotações especiais para equipar a faculdade de biblioteconomia.
64. Toda autoridade local responsável pelas bibliotecas manterá um
fundo para bibliotecas com o qual serão pagas as despesas com o cum-
primento dos dispositivos desta lei.
641. No fundo para bibliotecas da autoridade local responsável pelas
bibliotecas serão creditados,
(1) a quantia arrecadada como taxa bibliotecária;
(2) qualquer quantia que seja transferida para ele da receita geral
do órgão constituído como autoridade local responsável pelas bibliotecas;
(3) as dotações recebidas da autoridade estadual responsável
pelas bibliotecas;
(4) as dotações recebidas do governo da União;
(5) a quantia arrecadada com base no regimento da biblioteca;
(6) qualquer quantia recebida na forma de legados; e
(7) qualquer contribuição recebida de qualquer pessoa ou
grupo de pessoas.
162 as cinco leis da biblioteconomia

65. A autoridade local responsável pelas bibliotecas poderá, com apro-


vação da autoridade estadual responsável pelas bibliotecas e do governo,
tomar empréstimos em dinheiro para qualquer um dos objetivos desta lei,
com a garantia e nas condições que o governo aprovar.
66. Haverá um fundo da biblioteca estadual com o qual se pagarão:
(1) salário e proventos do bibliotecário estadual, bem como
as despesas da biblioteca estadual central e suas sucursais;
(2) despesas eventuais com a reunião da comissão estadual
de bibliotecas;
(3) dotações a serem pagas às autoridades locais responsáveis
pelas bibliotecas;
(4) dotações a universidades destinadas às faculdades de
biblioteconomia;
(5) dotações às associações de bibliotecários e para fomentar
pesquisas em biblioteconomia;
(6) despesas com conferências e exposições promovidas pela
autoridade estadual responsável pelas bibliotecas para a promoção do
movimento bibliotecário; e
(7) despesas feitas para contribuir com conferências e exposi-
ções realizadas para a promoção do movimento por bibliotecas, inclusive
as despesas feitas por quaisquer pessoas autorizadas por ela para assistir
a essas conferências ou exposições; e
(8) todas as demais despesas incorridas pela autoridade es-
tadual responsável pelas bibliotecas com a promoção da finalidade desta
lei.
661. O poder legislativo estadual consignará verba para o fundo esta-
dual de bibliotecas.
662. Ao fundo estadual de bibliotecas serão creditados:
(1) a quantia consignada pelo poder legislativo;
(2) as dotações recebidas do governo da União;
(3) a quantia arrecadada nos termos do regimento da biblio-
teca estadual central;
(4) os valores procedentes de rendas de legados, se houver; e
(5) qualquer contribuição recebida de qualquer pessoa ou
grupo de pessoas.
67. Não obstante as disposições feitas nas outras seções deste capítulo,
em lugar do mínimo fixado para a dotação anual a ser paga às autoridades
locais responsáveis pelas bibliotecas, o governo poderá manter o pessoal
das bibliotecas públicas no estado e fazer pagamentos em dinheiro às
autoridades locais responsáveis pelas bibliotecas somente na medida em
que a dotação anual aprovada exceda a receita anual obtida com as taxas
de biblioteca.
a segunda lei e suas implicações 163

Capítulo 7
uso, normas, relatório
71. Não será cobrada taxa para ingresso em biblioteca pública criada
por uma autoridade local responsável por bibliotecas ou, no caso de biblio-
teca circulante, para que a população da circunscrição da autoridade local
responsável pelas bibliotecas retire material por empréstimo, mas esta
autoridade pode, se achar adequado, permitir que pessoas de fora de sua
circunscrição façam empréstimos numa biblioteca de empréstimo, quer
gratuitamente quer mediante pagamento.
72. Sujeito às disposições desta lei e às normas baixadas, com base nela,
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas a autoridade local
responsável elaborará regimentos para as bibliotecas, a fim de:
(1) regulamentar o uso das bibliotecas públicas sob sua res-
ponsabilidade, seus acervos e a admissão do público;
(2) proteger as bibliotecas públicas, o mobiliário e seus acer-
vos de uso impróprio, dano ou destruição;
(3) exigir garantia ou caução de qualquer pessoa que use a bi-
blioteca pública e contra perdas ou danos a qualquer livro ou outro material; e
(4) permitir aos servidores e auxiliares da autoridade local
responsável pelas bibliotecas excluir ou retirar do recinto da biblioteca
pública quem infringir dispositivos desta lei ou dos regimentos elaborados
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas ou as normas das
bibliotecas.
73. Qualquer pessoa
(1) que, numa biblioteca pública ou outra instituição mantida
nos termos desta lei, agir de modo a molestar ou perturbar qualquer pessoa
que esteja usando a biblioteca ou a instituição, se comportar de maneira
desordeira, ou usar linguagem violenta ou ofensiva; ou
(2) que, depois de advertida adequadamente, persistir em
permanecer nela além do horário estabelecido para o fechamento, será
suscetível de ser excluída ou retirada imediatamente do recinto e estará
também sujeita a pena de multa que não exceda dez rupias.
731. A infração cometida nos termos do artigo 73 desta lei será julgada
na forma prevista para julgamento sumário no capítulo xii do Código de
Processo Criminal de 1898.
74. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas poderá, por
meio de seus funcionários ou outras agências, inspecionar qualquer bi-
blioteca pública ou outra instituição mantida por uma autoridade local
responsável pelas bibliotecas, com a finalidade de verificar se os objetivos
desta lei estão sendo devidamente cumpridos.
75. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas será competente
para instaurar um inquérito público com o propósito de exercer qualquer
164 as cinco leis da biblioteconomia

de suas atribuições ou desempenhar qualquer das suas responsabilidades


nos termos desta lei com relação a uma autoridade local responsável pelas
bibliotecas. 
751. Uma cópia do relatório de qualquer inquérito público será for-
necida à respectiva autoridade local responsável pelas bibliotecas e as
manifestações dessa autoridade serão levadas em conta antes de se tomar
qualquer providência quanto ao teor do relatório.
76. A autoridade local responsável pelas bibliotecas enviará esses relató-
rios e as manifestações pertinentes à autoridade estadual responsável pelas
bibliotecas na forma requerida para exercer suas funções nos termos desta lei.
77. Um relatório sobre as atividades realizadas pelos órgãos locais em
relação ao cumprimento desta lei junto com uma lista das autoridades
locais responsáveis pelas bibliotecas, mostrando o número de bibliotecas
centrais, sucursais, carros-biblioteca e postos de atendimento mantidos
por elas e outras informações determinadas pelos regimentos baixados
pela autoridade estadual responsável pelas bibliotecas em seu nome, será
incluído no relatório anual do bibliotecário estadual.

Capítulo 8
normas e portarias
81. A autoridade estadual responsável pelas bibliotecas pode, mediante
publicação no diário oficial, baixar normas coerentes com esta lei com o
objetivo de que sejam cumpridas suas finalidades.
811. Em particular e sem prejuízo, em geral, das atribuições antes
mencionadas, essas normas poderão dispor sobre:
(1) a regulamentação das atividades de uma comissão esta-
dual de bibliotecas;
(2) a definição de diretrizes para o plano de desenvolvimento
a ser submetido pelas autoridades locais responsáveis pelas bibliotecas e a
maneira como será dada publicidade a qualquer plano de desenvolvimento
proposto;
(3) a coordenação ou centralização do trabalho técnico no
sistema estadual de bibliotecas;
41. a manutenção do cadastro estadual de bibliotecários;
42. o recrutamento, qualificações e condições de serviço dos funcio-
nários e auxiliares da biblioteca estadual central, das autoridades locais
responsáveis pelas bibliotecas e o pessoal profissional das bibliotecas dos
departamentos do governo e das instituições mantidas pelo governo;
(5) a concessão de dotações às autoridades locais responsá-
veis pelas bibliotecas
(6) a concessão de dotações a faculdades de biblioteconomia,
inclusive bolsas de estudos ao estudantes de biblioteconomia;
a segunda lei e suas implicações 165

(7) a contabilidade das autoridades locais responsáveis pelas


bibliotecas;
(8) a auditoria da contabilidade, as condições sob as quais os
contribuintes podem procurar os auditores, inspecionar livros e recibos,
e fazer objeção a itens anotados neles ou deles omitidos e a publicação da
prestação de contas auditada e do relatório que o acompanha; e
(9) todas as outras questões que tenham que ser regulamen-
tadas nos termos desta lei.

43 Lei das Bibliotecas da União


Considerando que convém prover a criação e manutenção de uma
biblioteca nacional central, bem como a promoção e coordenação de um
amplo serviço de bibliotecas na Índia e em terras e mares estrangeiros,
fica, por esta lei, determinado que:

Capítulo 1
preliminares
1. Esta lei poderá chamar-se ‘lei das bibliotecas da União de 1957’.
2. Nesta lei, a menos que haja algo incompatível no assunto ou no
contexto:
(1) ‘Bibliotecário nacional’ significa o funcionário público nome-
ado pelo governo da União para desempenhar as funções de bibliotecário
nacional.
(2) ‘Biblioteca nacional central’ significa a biblioteca criada ou mantida
ou administrada pelo governo da União como biblioteca nacional central.
(3) ‘Biblioteca departamental’ significa uma biblioteca criada ou
mantida por um departamento ou instituição do governo da União.
(4) ‘Biblioteca externa à rede’ significa qualquer biblioteca, em
Déli, diferente de uma biblioteca que pertença a qualquer das categorias
mencionadas acima, e que concorde em trabalhar em colaboração com a
biblioteca nacional central.
(5) ‘Biblioteca de contato’ significa uma biblioteca num país estran-
geiro estabelecida e mantida pelo departamento de bibliotecas do governo
da União para fornecer materiais de leitura autênticos sobre a Índia e de
indianos para o país interessado e promover contato cultural com ele.

Capítulo 2
autoridade responsável pela biblioteca nacional
21. Com a finalidade de administrar a biblioteca nacional central,
promover um amplo serviço de bibliotecas na Índia, estabelecer e man-
ter bibliotecas de contato em países estrangeiros, e estabelecer e manter
serviço de bibliotecas para os marítimos da Índia, o ministro da educação
166 as cinco leis da biblioteconomia

(doravante denominado ‘ministro’) será autoridade nacional responsável


pelas bibliotecas.
211. Será atribuição da autoridade nacional responsável pelas bibliote-
cas criar, manter e administrar uma biblioteca nacional central, para ajudar
a prover um amplo serviço de bibliotecas ao povo da Índia em colaboração
com as autoridades estaduais responsáveis pelas bibliotecas dos estados
constituintes, e coordenar o referido serviço de bibliotecas, criar e manter
bibliotecas de contato em países estrangeiros para fornecer literatura in-
diana original, prover livros e periódicos originais e informativos sobre a
Índia e promover contato cultural e entendimento com países estrangeiros,
e também serviço de bibliotecas para os marítimos da Índia.
22. Para auxiliá-la no cumprimento de suas atribuições, a autoridade
nacional responsável pelas bibliotecas nomeará um bibliotecário nacional
em tempo integral, estabelecerá as condições em que prestará serviço e a
remuneração que lhe cabe.
221. Sujeito ao controle da autoridade nacional responsável pelas biblio-
tecas, o bibliotecário nacional
(1) administrará a biblioteca nacional central;
(2) supervisionará, dirigirá e tratará de todos os assuntos re-
lativos à lei de direito autoral e à manutenção e conservação dos materiais
depositados no governo da União nos termos da citada lei;
(3) administrará as bibliotecas de contato da Índia estabele-
cidas em países estrangeiros;
(4) administrará as bibliotecas para os marítimos indianos
que trabalhem na Índia e em países estrangeiros;
(5) centralizará todos os trabalhos técnicos, como aquisição,
classificação e catalogação, e coordenará a seleção, conservação e manu-
tenção dos materiais de leitura e afins nas bibliotecas departamentais e
nas externas à rede;
(6) promoverá a classificação, a catalogação e a bibliografia
cooperativa e centralizada na Índia;
(7) submeterá à autoridade nacional responsável pelas
bibliotecas relatório anual do progresso e funcionamento do sistema de
bibliotecas da Índia; e
(8) assistirá em geral a autoridade nacional responsável pelas
bibliotecas e cuidará da correspondência e exercerá os encargos que lhe
forem atribuídos por esta autoridade no desempenho de suas funções e
no exercício de sua competência nos termos desta lei.
23. Haverá uma comissão nacional de bibliotecas com a finalidade de
assessorar a autoridade nacional responsável pelas bibliotecas em todos
os assuntos abrangidos por esta lei.
231. A comissão nacional de bibliotecas será formada pelo:
a segunda lei e suas implicações 167

(1) ministro;
(2) ministro incumbido das relações interestaduais ou seu
suplente;
(3) bibliotecário nacional;
(4) assessor de educação ou seu suplente;
(5) dois membros eleitos pelo legislativo da União;
(6) dois membros indicados pelo governo da União dentre
seus secretários e chefes de departamentos;
(7) um membro indicado pela direção da University of Delhi
ou seu suplente;
(8) um membro indicado pela direção de uma associação
de bibliotecários de âmbito nacional aprovado pelo ministro para este
propósito, ou seu suplente; e
(9) um membro com reconhecido conhecimento de bibliote-
conomia indicado pelo ministro.
232. O ministro será o presidente e o bibliotecário nacional será o se-
cretário da comissão nacional de bibliotecas.
233. Os membros da comissão nacional de bibliotecas, exceto os de-
signados ex officio, terão mandato de três anos, contados da data de sua
eleição ou indicação, conforme for o caso.
234. A autoridade nacional responsável pelas bibliotecas baixará nor-
mas relativas às suas reuniões, sejam periódicas ou não, e procedimentos
respectivos da comissão nacional de bibliotecas.

Capítulo 3
biblioteca nacional central
31. A autoridade nacional responsável pelas bibliotecas estabelecerá,
manterá e administrará uma biblioteca nacional central em Déli, que atuará
como um centro depositário para o sistema bibliotecário da Índia.
32. O bibliotecário nacional será o funcionário incumbido das atribui-
ções e competências descritas nas partes iii e v da lei de imprensa e registro
de livros, de 1897; a biblioteca nacional central manterá um escritório nacional
de direito autoral para assessorá-lo neste assunto.
321. Um exemplar de cada um dos materiais impressos, recebidos
conforme determina a lei sobre depósito de livros (bibliotecas públicas),
de 1954, será conservado na biblioteca nacional central para consulta no
recinto da biblioteca, mas não para empréstimo de qualquer tipo, exceto
para apresentação num tribunal de justiça a pedido desse tribunal. O biblio-
tecário nacional poderá requisitar um segundo exemplar de qualquer livro.
322. Qualquer exemplar adicional ou quaisquer exemplares adicionais,
requisitados nos termos da referida lei, serão incluídos no acervo da bi-
blioteca nacional central e ficarão disponíveis para empréstimo.
168 as cinco leis da biblioteconomia

323. Um relatório das atividades do escritório nacional de direito autoral


será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
33. A biblioteca nacional central poderá manter um escritório nacional
de permuta internacional para realizar o intercâmbio de publicações in-
dianas com publicações estrangeiras.
331. O escritório nacional de permuta internacional poderá estabe-
lecer acordos com escritórios similares de outros países ou de categoria
internacional numa base de reciprocidade e nos termos das convenções e
tratados internacionais ratificados pelo governo e aos quais tenha aderido
o governo da União.
332. O transporte de materiais de intercâmbio entre a biblioteca nacional
central e as partes interessadas na Índia será feito pelo serviço de correios
com isenção de tarifas postais ou pela tarifa mais baixa admissível para
os materiais enviados para fora da Índia.
333. Um relatório sobre as atividades do escritório nacional de permuta
internacional será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
34. A biblioteca nacional central poderá manter uma biblioteca nacional
para cegos, para produção, reunião e utilização de livros, gravações sonoras
de livros, e materiais similares, para cegos.
341. A biblioteca nacional para cegos poderá colaborar com as bibliote-
cas estaduais para cegos ou com as bibliotecas estaduais centrais e executar
trabalhos que lhe couberem por acordo mútuo.
342. O transporte de livros para os cegos entre a biblioteca nacional cen-
tral ou qualquer biblioteca estadual central e os leitores cegos no território
da Índia será feito pelo serviço de correios com isenção de tarifas postais.
343. Um relatório sobre as atividades da biblioteca nacional para cegos
será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
35. A autoridade responsável pela biblioteca nacional poderá manter
bibliotecas de contato em países estrangeiros.
351. O bibliotecário nacional administrará todas as bibliotecas de con-
tato da Índia no exterior.
352. Um relatório sobre as atividades das bibliotecas de contato da
Índia no exterior será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
36. A biblioteca nacional central poderá manter uma biblioteca nacional
para os marítimos da Índia.
361. Sucursais da biblioteca nacional para marítimos poderão ser man-
tidas em portos de escala frequentados por navios indianos, tanto na Índia
como no exterior, e nos próprios navios indianos.
362. O bibliotecário nacional administrará a biblioteca nacional para
marítimos e suas sucursais.
363. Um relatório sobre as atividades da biblioteca nacional para marítimos
e suas sucursais será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
a segunda lei e suas implicações 169

37. A biblioteca nacional central poderá manter um escritório nacional


de empréstimo entre bibliotecas.
371. O escritório nacional de empréstimo entre bibliotecas poderá incluir
no projeto de empréstimo entre bibliotecas as bibliotecas departamentais,
as bibliotecas externas à rede mas que queiram aderir ao projeto nas con-
dições que forem acordadas e as bibliotecas estaduais centrais dos estados
constituintes, dispostas a se unirem ao projeto.
373. Um relatório das atividades do escritório nacional de empréstimo
entre bibliotecas será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
38. A biblioteca nacional central poderá manter um escritório biblio-
gráfico nacional.
381. O escritório bibliográfico nacional poderá admitir ao seu trabalho
outros órgãos do país, como os departamentos do governo, o Indian Na-
tional Scientific Documentation Centre (insdoc), o escritório bibliográfico
estadual dos estados constituintes e os órgãos científicos e culturais do
país, nas condições que forem mutuamente acordadas e executar trabalhos
bibliográficos que lhe couberem por acordo mútuo entre os escritórios e
os órgãos participantes.
382. O escritório bibliográfico nacional poderá colaborar com órgãos
similares de outros países ou de caráter internacional e executar trabalhos
bibliográficos internacionais que lhe couberem por acordo mútuo entre os
escritórios e os órgãos participantes.
383. Um relatório sobre as atividades do escritório bibliográfico nacional
será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
391. Um escritório nacional de serviços técnicos poderá ser mantido
pela biblioteca nacional central para os serviços técnicos centralizados como
aquisição, classificação e catalogação de livros para a biblioteca nacional
central, as bibliotecas departamentais e as bibliotecas externas à rede mas que
queiram aderir ao projeto conforme for acordado e executar serviços técni-
cos que lhe couberem por acordo mútuo entre as bibliotecas participantes.
3911. O escritório nacional de serviços técnicos poderá colaborar com
órgãos similares das bibliotecas estaduais centrais dos estados constituintes
e coordenar o processamento técnico dos livros em todo o sistema biblio-
gráfico do país e executar serviços técnicos que lhe couberem por acordo
mútuo entre os órgãos participantes.
3912. O escritório nacional de serviços técnicos poderá colaborar com órgãos
similares de outros países e com escritórios internacionais que se dediquem
a atividades similares e executar serviços técnicos que lhe couberem por
acordo mútuo entre os órgãos participantes.
3913. Um relatório sobre as atividades do escritório nacional de serviços
técnicos será incluído no relatório anual do bibliotecário nacional.
170 as cinco leis da biblioteconomia

Capítulo 4
financiamento
41. A autoridade responsável pela biblioteca nacional pagará conforme
for regulamentado:
(1) uma dotação anual à faculdade de biblioteconomia da União;
(2) uma dotação anual destinada ao pagamento de bolsas
aos estudantes de biblioteconomia; e
(3) uma dotação especial para equipar a faculdade de biblio-
teconomia da União.
42. A autoridade responsável pela biblioteca nacional poderá, conforme
for regulamentado, fazer provisão para o pagamento de dotações anuais e
especiais às bibliotecas mantidas por órgãos de âmbito nacional, a associa-
ções de bibliotecários nacionais, aos estados constituintes para distribuição
a outras bibliotecas e para o fomento da pesquisa em biblioteconomia.
43. Haverá um fundo nacional de bibliotecas com o qual serão pagas:
(1) despesas da autoridade responsável pela biblioteca nacional;
(2) despesas eventuais com a reunião da comissão da biblio-
teca nacional;
(3) salário e proventos do bibliotecário nacional, bem como
as quantias destinadas a materiais de leitura e equipamento da biblioteca
nacional central, inclusive as bibliotecas de contato da Índia no exterior, a
biblioteca nacional para marítimos e suas sucursais e todas as outras des-
pesas eventuais para sua manutenção e administração, e o cumprimento
das funções estabelecidas nesta lei;
(4) dotações para a faculdade de biblioteconomia da União;
(5) dotações às bibliotecas e associações dos bibliotecários
de âmbito nacional e como auxílio às pesquisas em biblioteconomia;
(6) subsídios aos estados constituintes para distribuição às
bibliotecas;
(7) despesas com conferências e exposições promovidas
pela autoridade responsável pela biblioteca nacional para a promoção do
movimento por bibliotecas;
(8) despesas feitas para contribuir com conferências e exposi-
ções realizadas para a promoção do movimento por bibliotecas, inclusive
as despesas feitas por quaisquer pessoas autorizadas por ela para assistir
a essas conferências ou exposições; e
(9) todas as demais despesas incorridas pela autoridade res-
ponsável pela biblioteca nacional com a promoção da finalidade desta lei.
431. O parlamento da Índia consignará verba para o fundo nacional de
bibliotecas.
432. Ao fundo nacional de bibliotecas serão creditados:
a segunda lei e suas implicações 171

(1) a quantia consignada pelo parlamento;


(2) a quantia arrecadada nos termos dos regimentos da bibliote-
ca nacional central, das bibliotecas de contato e das bibliotecas de marítimos;
(3) os valores procedentes de rendas de legados; e
(4) qualquer contribuição recebida de qualquer pessoa ou
grupo de pessoas.

Capítulo 5
o funcionamento da biblioteca nacional central
51. Não será cobrada qualquer taxa para ingresso na biblioteca nacional
central ou em qualquer das bibliotecas de contato da Índia no exterior ou para
usar a biblioteca para marítimos ou suas sucursais.
511. Nenhum material de leitura será emprestado pela biblioteca nacional
central a leitores individuais exceto através de uma biblioteca departa-
mental, uma biblioteca externa à rede, uma biblioteca estadual central ou
uma biblioteca nacional central de qualquer outro país ou de qualquer
biblioteca internacional ou mundial aprovada para tal fim.
512. Nenhum material de leitura será emprestado por qualquer das
bibliotecas de contato da Índia no exterior, exceto como empréstimo en-
tre bibliotecas, ou de acordo com as normas baixadas pelo bibliotecário
nacional para tal fim.
513. Materiais de leitura podem ser emprestados a marítimos e
navios registrados pelas sucursais da biblioteca nacional para marítimos.
52. Sujeito às disposições desta lei e às normas baixadas, com base nela,
pela autoridade nacional responsável pelas bibliotecas, o bibliotecário na-
cional poderá elaborar regimentos para as bibliotecas, com a finalidade de:
(1) regulamentar o uso das bibliotecas sob sua responsabili-
dade, seus acervos e a admissão do público;
(2) proteger essas bibliotecas, o mobiliário e seus acervos de
uso impróprio, dano ou destruição;
(3) exigir garantia ou segurança de qualquer pessoa que as use
e contra perdas ou danos a quaisquer materiais de leitura ou outros artigos; e
(4) permitir aos funcionários e auxiliares das bibliotecas
excluir ou retirar do recinto qualquer pessoa que infrinja os dispositivos
desta lei, os regimentos elaborados com base nesta lei pela autoridade
responsável pela biblioteca nacional ou as normas da biblioteca.
53. Qualquer pessoa
(1) que, na biblioteca nacional central ou outra instituição
mantida nos termos desta lei, agir de modo a molestar ou perturbar qual-
quer pessoa que esteja usando a biblioteca ou instituição, se comportar de
maneira desordeira, ou usar linguagem violenta, ofensiva ou obscena; ou
(2) que, depois de advertida adequadamente, persistir em
172 as cinco leis da biblioteconomia

permanecer nela depois do horário estabelecido para o fechamento, será


suscetível de ser excluída ou retirada imediatamente do recinto e estará
também sujeita a pena de multa que não exceda dez rupias.
531. A infração cometida nos termos do artigo 53 desta lei será
passível de julgamento na forma determinada por processo sumário no
capítulo xii do código de processo criminal.
54. Toda autoridade estadual responsável pelas bibliotecas enviará
relatórios e informações à autoridade nacional responsável pelas bibliotecas
que ela vier a requerer, a fim de cumprir com suas atribuições nos termos
desta lei.
55. O relatório sobre as atividades do sistema bibliotecário nacional,
das bibliotecas de contato e das bibliotecas sucursais de marítimos, junto
com uma lista das bibliotecas estaduais centrais e das autoridades locais
responsáveis pelas bibliotecas, mostrando a quantidade de bibliotecas
centrais, sucursais, postos de atendimento e outras instituições mantidas
por ele e outras informações determinadas pelos regimentos será incluído
no relatório anual do bibliotecário nacional.

Capítulo 6
Regulamento
61. A autoridade nacional responsável pelas bibliotecas pode, mediante
publicação no diário oficial, baixar normas coerentes com esta lei com a
finalidade de que sejam cumpridas suas finalidades.
611. Em particular e sem prejuízo, em geral, das atribuições antes
mencionadas, essas normas poderão dispor sobre:
(1) a regulamentação das atividades da autoridade nacional
responsável pelas bibliotecas;
(2) a coordenação ou centralização do trabalho técnico no
sistema nacional de bibliotecas;
(3) o recrutamento, qualificações e condições de serviço dos
funcionários e auxiliares da biblioteca nacional central, das bibliotecas de
contato da Índia no exterior, e das sucursais da biblioteca nacional para
marítimos e o pessoal profissional das bibliotecas departamentais;
(4) o pagamento de dotações à faculdade de biblioteconomia
da União;
(5) o pagamento de bolsas de estudos aos estudantes de
biblioteconomia;
(6) o pagamento de dotações a bibliotecas, associações de
bibliotecários e fomento à pesquisa em biblioteconomia; e
(7) todas as outras questões que tenham que ser regulamen-
tadas nos termos desta lei.
a segunda lei e suas implicações 173

44 Sistema Bibliotecário
A terceira obrigação do Estado – a de coordenação – constitui real-
mente uma tentativa de conciliar dois fatores opostos, ou seja, a natureza
necessariamente limitada dos recursos financeiros de uma comunidade e
os recursos aparentemente ilimitados que são necessários para oferecer a
cada um ou cada uma o seu livro a cada momento. Estes dois fatores só
podem ser conciliados por meio de uma reunião criteriosa dos recursos
da comunidade mediante um projeto cuidadosamente articulado de coor-
denação e cooperação das bibliotecas, que não deve ser deixado ao acaso
ou ao bel-prazer das próprias bibliotecas, mas ser ativamente estimulado
pelo Estado no interesse da economia nacional. Em outras palavras, o
Estado deve integrar as bibliotecas deste país num sistema. Há três tipos
de coordenação possível, em três diferentes níveis, que necessitam de
diferentes modos de ação, ou seja, 1) fixando um tamanho mínimo para
a menor área de cobertura por uma biblioteca local, o que deve ser feito
por lei; 2) estimulando o entendimento, a especialização e os empréstimos
entre bibliotecas, o que somente pode ser alcançado por meio de sugestões
informais feitas em reuniões periódicas; e 3) mantendo certos órgãos cen-
trais, que devem ser financiados e administrados diretamente pelo Estado.

441 Viabilidade
Não teria objetivo dotar uma pequena área, cuja previsão de arrecada-
ção de taxas não seja muito alta, com órgãos bibliotecários independentes.
Aí, com escassa renda, nenhum serviço bibliotecário eficiente será possível.
Obviamente, não se pode nem mesmo pensar na possibilidade de um
prédio, e falar de um quadro de pessoal com escala de salários, que possa
atrair e reter pessoas competentes e profissionalmente qualificadas, seria
absurdo; a aquisição de livros seria inevitavelmente reduzida. A limitada
receita dessas pequenas bibliotecas seria consumida, quase completamen-
te, na duplicação de um mesmo conjunto de certos livros fundamentais,
solicitados com mais frequência. Portanto, o Estado deveria fixar uma
estimativa tributável mínima ou uma população mínima como requisito
para a criação de uma área bibliotecária independente. Esta é a demanda
da viabilidade.

442 Unidades Viáveis para Madras


Em Madras, somente é possível ter serviço realmente eficiente em cida-
des com população superior a 50 mil habitantes. Há, em toda a província,
apenas 12 cidades nessa categoria, a saber, Madras, Madura, Trichinopoly,
Calicute, Kumbakonam, Tanjore, Negapatam, Salem, Cuddalore, Coca-
nada, Conjeeveram e Coimbatore. Mesmo que concordemos em admitir
bibliotecas municipais de segunda categoria, não seria prudente estar
174 as cinco leis da biblioteconomia

presente em municípios com população inferior a 20 mil habitantes. E exis-


tem somente 40 outras cidades nessa categoria: Mangalore, Rajahmundry,
Tinnevelly, Vellore, Guntur, Ellore, Palamcottah, Palghat, Vizagapatam,
Masulipatam, Bezwada, Tuticorin, Bellary, Vizianagaram, Nellore, Dindi-
gul, Srivilliputtur, Rajapalayam, Aruppukottai, Berhampur, Cannanore,
Tellicherry, Adoni, Mayavaram, Kurnool, Saidapet, Tiruvalur, Srirangam,
Chidambaram, Erode, Gudiatham, Sembiam, Mannargudi, Virudunagar,
Tenkasi, Tiruvannamalai, Tenali, Vaniambady, Anakapallee, e Bodinayaka-
noor, em ordem de população. Assim, a província pode ter, no máximo,
somente 52 autoridades municipais responsáveis pelas bibliotecas. Todas
as outras áreas devem ser atendidas somente pelas 26 autoridades distritais
responsáveis pelas bibliotecas que devem ser instituídas. Este sistema de
bibliotecas distritais, com bibliotecas itinerantes, é o único meio de garan-
tir serviço satisfatório com os parcos recursos financeiros que podem ser
conseguidos.

443 Especialização por Assuntos


Mesmo com apenas 78 autoridades responsáveis pelas bibliotecas em
toda a província, talvez não seja possível para cada uma delas, sozinha,
encontrar recursos suficientes para fornecer a cada pessoa o seu livro.
Mesmo que consiga os recursos, isso acarretará um grande desperdício.
Embora cada autoridade responsável pelas bibliotecas deva possuir um ou
mais (se a demanda o justificar) exemplares de certos livros comuns, não
é saudável para a economia nacional, que cada uma delas compre exem-
plares de livros caros ou que serão usados ocasionalmente. Na verdade, é
preciso que as 78 autoridades responsáveis pelas bibliotecas concordem
com algum esquema de especialização. Segundo esta ideia, cada autoridade
responsável pelas bibliotecas terá, como sua incumbência, de formar uma
coleção tão completa quanto possível de materiais que digam respeito à
história local, às indústrias locais e a outros interesses locais. Se Salem é um
centro predominantemente de tecelagem e Nilgiris um distrito agrícola,
convém que a biblioteca pública de Salem, além de oferecer os livros de
uso corrente e de frequente demanda, se especialize em literatura têxtil e a
de Nilgiris em literatura agrícola. Se houver um ou outro cidadão de Salem
que esteja interessado em agricultura, a biblioteca pública de Salem deverá
pedir emprestados os livros de que ele precise à autoridade responsável
pelas bibliotecas de Nilgiris e, por sua vez, se alguém em Coonoor estiver
interessado em indústria têxtil, seus livros devem ser obtidos em Salem.

444 Função do Estado


A necessidade de um sistema de especialização e empréstimo entre
bibliotecas dessa natureza vem sendo cada vez mais sentida em todos os
a segunda lei e suas implicações 175

países do mundo. Somente uma autoridade central, como o estado, pode


guiar seu desenvolvimento gradual de acordo com modelos benéficos. O
estado deve convocar conferências periódicas para discutir e formular os
necessários ajustes de tempos em tempos. Estas conferências levarão even-
tualmente a um intercâmbio útil de ideias sobre vários outros problemas
bibliotecários, como classificação, catalogação, encadernação, métodos de
publicidade e assim por diante.

445 Biblioteca Estadual Central


Para se alcançar essa coordenação e cooperação saudável e de bom gra-
do entre as 78 autoridades responsáveis pelas bibliotecas, e para garantir
mais economia em âmbito nacional há necessidade de certo tipo de ação
direta do estado. Estas atividades de coordenação devem ser assumidas
pelo departamento de educação através da biblioteca estadual central.

446 Funções Essenciais


Uma dessas atividades é a manutenção de um centro de informação,
similar ao que existe na biblioteca estadual da Prússia e que mencionamos
antes. Esse centro deve manter um catálogo coletivo de todas as biblio-
tecas da província e promover um intercâmbio regular de livros entre as
bibliotecas, sempre que for necessário, de modo que qualquer estudante
em qualquer canto da província possa obter o seu livro no menor tempo
possível, pelo menor custo e com o mínimo de aborrecimento possível.
Deve também manter uma biblioteca central de livros caros e raramente
usados para emprestar a qualquer biblioteca que os solicitem, de modo
que as 78 autoridades responsáveis por bibliotecas possam investir seus
recursos na compra de livros para os quais haja maior utilização e livros
de interesse local. Deve também, de tempos em tempos, recolher os livros
’mortos’ das várias autoridades responsáveis por bibliotecas e providenciar
a guarda, em caráter permanente, de apenas um número suficiente de
exemplares para uso eventual. Embora seja impossível toda autoridade
responsável por bibliotecas reservar espaço nas estantes para todos os seus
materiais ‘mortos’, não seria apropriado que alguma delas os destruísse
indiscriminada e independentemente, pois é preciso evitar que não sobre
na província pelo menos um exemplar de uma obra importante. Deve
também providenciar a manutenção de certos tipos de bibliotecas especiais,
como a biblioteca para cegos e a biblioteca para marítimos, que, por sua
própria natureza, não podem ficar restritas a um único lugar.

447 Funções Adicionais


Embora estas atividades sejam absolutamente necessárias, a biblioteca
estadual central poderá, com proveito, participar também da catalogação
176 as cinco leis da biblioteconomia

cooperativa como faz a Library of Congress; poderá esforçar-se por publicar


instrumentos bibliográficos de tempos em tempos; poderá assim influir
no mundo editorial de modo a melhorar o nível bibliográfico da edição de
livros; poderá, como o faz o departamento de educação social do governo
da Rússia soviética, coletar dados referentes à oferta e demanda de livros
e empenhar-se para que se façam publicações de maneira que haja para
cada um ou cada uma o seu livro; poderá também contribuir, de várias
formas, para a manutenção de padrões adequados dos serviços bibliotecá-
rios e ser uma espécie de central de informação de ideias sobre bibliotecas
para toda a província. Poderá publicar um boletim periódico que estimule
este intercâmbio de ideias e mantenha as várias bibliotecas informadas
das conquistas e novidades umas das outras, de forma a estimular uma
saudável competição.

45 Sistema de Bibliotecas Universitárias


Algumas funções de coordenação propostas para o estado num sistema
nacional de bibliotecas serão igualmente aplicáveis a outros sistemas. Veja-
-se, por exemplo, um sistema de bibliotecas universitárias. É provável que
exista uma biblioteca central e várias bibliotecas departamentais, além das
bibliotecas nas faculdades que compõem a universidade. O principal exe-
cutivo da universidade deve exercer muitas destas funções coordenadoras
por meio de uma comissão de biblioteca cuidadosamente escolhida, com
membros das áreas acadêmicas e administrativas, caso se queira poupar
adequadamente os recursos da universidade e evitar uma duplicação
perdulária. Os recursos normalmente escassos das faculdades destinados
às bibliotecas podem ser mais bem investidos num número suficiente de
exemplares de livros didáticos e obras similares com demanda frequente.

451 Coordenação
A menos que a universidade conte com recursos inesgotáveis, seria
muito aconselhável que as coleções das bibliotecas departamentais se
limitassem a duplicar exemplares de obras de consulta importantes,
demandadas diariamente pelos membros do departamento, além de
outros livros frequentemente utilizados na linha de pesquisa em que
os pesquisadores estejam empenhados. Os departamentos devem ser
estimulados e aconselhados a buscar todos os outros tipos de livros na
biblioteca central sempre que for preciso. De modo particular, não é crível
que uma universidade seja suficientemente rica para adquirir coleções em
duplicata de periódicos científicos, cujo número já ultrapassou a marca de
25 mil. O executivo da universidade deve procurar investir seus recursos
em assinaturas únicas do maior número possível de títulos diferentes, ao
invés de permitir que cada departamento se dê ao luxo de possuir uma
a segunda lei e suas implicações 177

coleção completa de tais periódicos, consultados, talvez, em meia dúzia


de ocasiões num período letivo.

452 Função do Administrador da Universidade


Se o administrador da universidade tentar levar a efeito essa coordena-
ção, com certeza conseguirá fazer com que as verbas destinadas à biblioteca
no orçamento durem muito mais tempo e se aproximem mais do ideal da
Segunda Lei. Os departamentos, separadamente, talvez não consigam ter
uma visão abrangente do sistema de bibliotecas da universidade como
um todo e podem, preocupados com seus interesses imediatos e isolados,
preferir ter, cada um deles, exemplares duplicados de todos os tipos de
materiais sempre à mão. Embora esse tipo de arranjo ideal possa ser válido
na teoria, somente o administrador principal da universidade, que tem
que ajustar os fins aos meios de que dispõe, com prudência e uma visão
mais profunda das coisas, é quem pode ver o problema em sua perspectiva
adequada e decidir até onde se pode chegar na busca desse ideal.

453 Localização da Biblioteca Universitária


Ao mesmo tempo, o administrador deve procurar atenuar as dificul-
dades que a redução da duplicação causaria aos departamentos, por meio
de instalações criteriosas. A disposição dos edifícios da universidade pode
ser tal que todos os departamentos disponham praticamente de todo o
sistema de bibliotecas ao seu alcance. Se se tiver em mente a Segunda Lei,
e também do ponto de vista da Quarta Lei, será possível localizar a maioria
dos departamentos de pesquisa em torno da biblioteca. Ainda que não seja
prático acomodar todos os departamentos dessa forma, o administrador
deve pelo menos se orientar pelo princípio de que os departamentos de
pesquisa têm prioridade no que tange a todo o espaço adicional disponível
nos edifícios das bibliotecas para salas de estudo e seminários.

46 Compromisso da Autoridade Responsável


pela Biblioteca
Embora sejam necessárias medidas legislativas e de coordenação bem
pensadas por parte do estado, elas não são suficientes por si mesmas.
A ação do estado pode gerar recursos financeiros e até, talvez, ajudar a
obter o prédio. Mas a vida, necessária para animá-las, somente pode ser
suprida pela autoridade responsável pela biblioteca. A obrigação desta está
centrada em dois fatores: 1) a seleção de livros, e 2) a seleção de pessoal.

461 Seleção de Livros


Já se mencionou um dos aspectos da seleção de livros, ou seja, a especia-
lização com viés local. A maneira ideal de organizar uma biblioteca para
178 as cinco leis da biblioteconomia

oferecer a cada pessoa o seu livro talvez fosse reunir todos os produtos
da imprensa desde sua origem até o presente momento, desde o primeiro
livro impresso por Caxton* até o mais recente livro impresso hoje.

Uma ideia de tamanho nos é dada por Iwinski207 que, em 1911, publicou os
resultados de um elaborado estudo estatístico da produção bibliográfica.
Calculou ele que havia então no mundo 25 milhões de ‘livros diferentes’, sem
levar em conta diferentes edições, reimpressões, tiragens, exemplares variantes,
etc. do mesmo livro, nem incluiu determinados itens ocasionais, passageiros,
e efêmeros como mapas, gráficos, proclamações, música, gravuras, panfletos,
pasquins, jornais, sermões, almanaques, etc., o que faria crescer o seu cálculo
para uma dimensão enorme.208

Com um número tão atordoante de materiais impressos, pode-se ver


que toda autoridade responsável por bibliotecas deveria de bom grado
cooperar com as outras bibliotecas do país, talvez até mesmo de outros
países, e aceitar uma política de especialização, se for para ajudar cada
leitor com o seu livro.

462 Julgamento na Seleção


Na realidade, pode-se até mesmo dizer que não é tanto no tamanho da
biblioteca, mas na seleção de seu acervo que a Segunda Lei procura a rea-
lização da sua mensagem. Ela insistiria em que a natureza essencialmente
limitada do orçamento da biblioteca torna imperativo que se exijam tanto
conhecimento e julgamento na seleção de livros

quanto na escolha de uma casa ou de uma esposa, de uma válvula de rádio ou de


uma vela de ignição. Uma sala cheia de livros pode ser uma mera acumulação,
enquanto uma simples estante cheia pode constituir uma biblioteca, com os
volumes selecionados e colocados lado a lado para atender a uma finalidade
definida [...] Uma boa biblioteca geral pode ser vista como um agrupamento
dessas coleções especiais, adequadamente coordenadas, de modo a fortalecer
e ampliar umas às outras sem o desperdício da duplicação.209

463 Seleção de Obras de Referência


Outro aspecto importante da seleção de livros é o que lida com um
grande número de enciclopédias e outras obras de referência. Em primeiro
lugar, trata-se de livros normalmente caros e que não podem ser adquiridos
pelos cidadãos individualmente, e, em segundo lugar, costumam fornecer
a maior parte das informações frequentemente procuradas pela maioria
dos leitores. Com uma boa coleção dessas obras, o problema de fornecer a

* William Caxton (c. 1422–1492), tipógrafo e editor, introduziu a imprensa na Inglaterra.


(n.e.)
a segunda lei e suas implicações 179

cada leitor ou leitora o seu material estará em grande medida resolvido.


A necessidade de ser preciso afirmar explicitamente um fato tão elementar
é constatada pelo seguinte exemplo. Uma de nossas grandes bibliotecas
conseguiu funcionar por mais de uma década sem a Encyclopaedia britannica,
enquanto a maioria de nossas escolas ainda não percebeu a utilidade ou
necessidade de uma coleção de The book of knowledge [Tesouro da juventude].
Nestas condições, a tarefa de cumprir o que determina a Segunda Lei,
mesmo de forma limitada, é quase impossível.

464 Autoridade Responsável pela Seleção de Livros


Um terceiro ponto sobre a seleção de livros é conhecer os leitores e en-
tender e antecipar suas necessidades. Isto só pode ser conseguido mediante
um contato real com os leitores. Portanto, a autoridade responsável pela
biblioteca deveria deixar-se orientar em grande parte pelo bibliotecário;
somente ele está em posição de observar e relatar. Um risco possível talvez
esteja no fato de que, nas condições atuais de nosso país, os membros mais
influentes das autoridades responsáveis pelas bibliotecas talvez estejam
exercendo a atribuição de selecionar livros. Podem não entender ou não
serem capazes de simpatizar com as necessidades que as pessoas comuns
possam sentir por livros que tratem de artes e ofícios. Esses membros lite-
rários deveriam ter em mente a ênfase da Segunda lei em ‘cada’; portanto,
o efeito restritivo desse perigo pode ser atenuado.

465 Seleção do Pessoal


Depois da seleção dos livros, a seleção do pessoal pode causar o su-
cesso ou o fracasso da competência da biblioteca em proporcionar a cada
leitor ou leitora o seu material de leitura. Enfatizamos longamente,
no primeiro capítulo, a necessidade de um quadro de pessoal com boa
formação, tecnicamente qualificado e com remuneração adequada. Agora
podemos acrescentar a necessidade de um quadro de pessoal adequado.
Este problema voltará à tona novamente de forma mais séria quando
analisarmos a Quarta Lei.

466 Pessoal Adequadamente Competente


Uma autoridade responsável por bibliotecas que esteja disposta a
obedecer à Segunda Lei e oferecer a cada leitor seu livro, deve perceber

que uma enorme proporção do público em geral, sem excetuar os mais estudio-
sos e inteligentes, não tem ciência de tudo que as bibliotecas contêm ou que os
livros contêm, e, mesmo quando tem alguma noção, não sabe como conseguir
aquilo de que precisam. Poucos têm o conhecimento e a habilidade requeridos
para extrair o que de melhor existe em qualquer tipo de biblioteca [...] Uma das
experiências mais comuns a todos os que lidam com bibliotecas é ver pessoas
180 as cinco leis da biblioteconomia

sequiosas de informação saírem de mãos abanando depois de procurarem


demoradamente por algo que existe pronto, à sua espera, na estante aberta,
devidamente catalogado e indexado, talvez constante de obras de consulta
rápida, fitando-as nos olhos.210

Se a autoridade responsável pela biblioteca entender isso, reconhecerá a


necessidade de um quadro de pessoal adequado e competente para mostrar
a cada leitor “como usar os livros como instrumentos e bibliotecas como
oficinas” e até mesmo fazer com que os recursos limitados de sua biblioteca
produzam para cada leitor ou leitora o seu material.

47 Compromisso do Pessoal da Biblioteca


Isso nos leva à próxima categoria de compromisso, isto é, os compro-
missos do pessoal da biblioteca. Há um provérbio tâmil que diz que mesmo
que as vantagens almejadas sejam concedidas por Deus, elas podem ser
retardadas pelo sacerdote que as ministra. De maneira semelhante, mesmo
que o Estado e a autoridade responsável pela biblioteca tenham cumprido
devidamente seus compromissos com a Segunda Lei, suas determinações
poderão não ser adequadamente executadas a não ser que o pessoal da
biblioteca cumpra o seu dever de maneira eficiente. Não nos referimos à
possível negligência ou indiferença do pessoal da biblioteca, que vimos
no primeiro capítulo, mas apenas ao que a Segunda Lei exigiria de um
pessoal sério, movido por um senso de responsabilidade.

471 Serviço de Referência


Podemos mudar a ênfase para a palavra ‘seu’ e analisar as consequên-
cias. O primeiro efeito, que veio a ser compreendido assim que a ênfase
mudou para ‘seu’, foi entender que a obrigação do pessoal da biblioteca
não é simplesmente passar às mãos dos leitores os livros que são solicita-
dos. Ao contrário, sua obrigação é conhecer o leitor, conhecer os livros, e
colaborar ativamente para que cada um encontre o seu livro. Esta fase
do trabalho é conhecida como ‘serviço de referência’.

472 Conhecer o Leitor


A primeira coisa é conhecer o leitor. Referimo-nos à importância disto
nas seções 17 a 1765. Também mencionamos na seção 3515 a única ma-
neira sistemática pela qual esta competência pode ser adquirida e como
se procura obtê-la na Alemanha através do trabalho que está sendo feito
no instituto para leitores e leitura de Leipzig.

473 Treinamento Especial


Convém salientar que o ‘serviço de referência’ não pode ser prestado
sem treinamento especial e experiência intensiva. Os leigos, que admi-
a segunda lei e suas implicações 181

nistram nossas bibliotecas, raramente percebem este compromisso que


a Segunda Lei coloca nos ombros do pessoal da biblioteca, e agem no
pressuposto de que qualquer portador de um certificado de conclusão do
ensino médio se sairá bem no trabalho na biblioteca. Mas até mesmo eles
sabem que a conclusão do ensino médio não qualifica alguém a dirigir uma
locomotiva, e que boas maneiras e senso comum não são tudo que se exige
para o exercício da medicina. Mas, como veem o trabalho bibliotecário
como o ato mecânico de entregar livros aos leitores, a existência em outros
lugares de escolas e cursos de graduação em biblioteconomia, e de uma
cátedra de biblioteconomia numa universidade como Göttingen, é para
eles um quebra-cabeça. E ficarão ainda mais embaraçados se lhes disserem
que as bibliotecas começam agora a empregar ‘orientadores de leitores’ aos
quais os leitores podem recorrer para encontrar os seus livros. Podem
até mesmo objetar que este trabalho de orientação cheira muito ao de um
mestre-escola, e que o estudante adulto deve depender de si próprio. A
resposta que os países ocidentais dariam a tal objeção seria: “A gente deve
digerir o alimento no próprio estômago, mas isto não é motivo para recusar
cozinhá-lo ou para usar faca, garfo e colher.”211

474 À Falta de um Professor Particular


Depois de conhecer os leitores, o pessoal da biblioteca deve compreen-
der que ele existe para os leitores. Deve descobrir quanta ajuda pode ser
dada a cada leitor para encontrar seu livro sem ultrapassar os limites
do senso comum e sem se tornar secretários ou professores particulares.
O seguinte trecho de um marcador de página com a legenda leitura com
objetivo, distribuído pela biblioteca pública de Detroit, esclarece muito
bem a maneira como o pessoal da biblioteca deveria dar conta dessa in-
cumbência. Ali está dito que o educational counsellor for readers [orientador
educacional dos leitores] dedicará

seu tempo ao exame mais aprofundado dos livros e da leitura junto com quem
queira conhecer as aventuras de leitura de outra pessoa. Sua posição será não a
de um instrutor, mas a de quem compartilha coisas boas, que apreciará igual-
mente os prazeres de outros aventureiros. Além disso, grande parte do seu
tempo será dedicada a ministrar palestras sobre livros e outros instrumentos de
trabalho aos leitores, sempre que for convidado para tal fim por organizações
interessadas em atividades intelectuais gerais ou específicas.212

475 Conhecer os Livros


Se o compromisso, que a ênfase no ‘seu’ da Segunda Lei impõe ao pes-
soal da biblioteca, tiver que ser interpretado dessa forma ideal, percebe-se
facilmente que o conhecimento necessário sobre livros e acervos deve ser
muito amplo e completo. Embora o que se pode aprender com as orelhas
182 as cinco leis da biblioteconomia

dos livros ou o que pode ser lembrado quanto ao formato, tamanho, cor,
localização e outras relações sejam de alguma ajuda, esses dados não são
suficientes. Quando os livros são recebidos às centenas, uma semana atrás
da outra, por mais retentiva que seja a memória, perde-se o controle das
aquisições e a mente fica impossibilitada de lembrar todos os títulos.

4751 Conhecer os Instrumentos de Trabalho


Ademais, requer-se um tipo especial de conhecimento para encontrar
para cada pessoa seu livro. As pessoas de todos os níveis procurarão a
ajuda do pessoal da biblioteca para encontrar seus livros. Pode ser um
calouro que precisa de ajuda para se preparar para o exame de seleção
para uma bolsa de estudos; pode ser um estudante veterano que presidirá
um debate sobre feminismo; pode ser um catedrático que precisa resolver
uma questão sobre a fonologia do sistema de vogais dravidiano; pode
ser um físico que precisa de um livro que tenha o suficiente e nada mais
sobre matrizes para que ele possa entender a visão de Heisenberg sobre
mecânica ondulatória. Eis alguns assuntos característicos sobre os quais
foram recebidas consultas no período de um mês. Eles darão alguma ideia
do âmbito e da dificuldade do trabalho:

• Método para calcular a quantidade de calor solar que incidirá durante


um ano nas laterais de um prédio na latitude de Madras.
• As vantagens das fundações de estacas.
• Métodos de utilização de produtos do lixo.
• As regiões da Índia central onde existe a possibilidade de ocorrência de
jazidas de minério de ferro.
• Equivalentes tâmil–inglês dos nomes de plantas.
• Conteúdo vitamínico da alimentação comum de Madras.
• Um relato abalizado sobre a teoria hinduísta do carma.
• Um livro de leitura acessível sobre behaviorismo.
• O melhor livro de ‘estatística’ para uso dos professores.
• Informações sobre levantamentos do litoral de Bombaim [Mumbai] e em
particular sobre o assoreamento dos portos antigos da península de Kathawar.
• O número de eleitores e de quem realmente votou nas últimas três eleições
gerais em cada distrito eleitoral.
• A quantidade de monazita extraída nos diferentes países em 1929.
• Uma descrição das convenções sobre aviação, que inclua as regras de
tráfego aéreo e um código de leis aeronáuticas.

Ninguém pode confiar apenas na memória para dizer quais os recursos


de que a biblioteca dispõe sobre uma gama de assuntos tão complexa. O
pessoal da biblioteca tem que necessariamente depender de certos instru-
mentos reconhecidos, para se desincumbir da atribuição de ajudar cada
pessoa a encontrar seu livro.
a segunda lei e suas implicações 183

476 Bibliografia
O primeiro instrumento são as bibliografias publicadas. A palavra
‘bibliografia’ é fonte de grande confusão para muitas pessoas. O New
English dictionary, de Murray, traz quatro diferentes acepções para este
termo, mas nos interessa somente a quarta, a saber, “Uma lista de livros
de determinado autor, editora ou país, ou daqueles que tratam de deter-
minado tema; a literatura de um assunto”.

4761 Obras Bibliográficas


Uma das consequências desse aspecto da Segunda Lei é de que quase
não existe assunto hoje em dia para o qual não exista uma bibliografia.
Além da bibliografia seletiva, que atualmente tornou-se prática anexar a
cada livro, há várias bibliografias gerais, bem como aquelas sobre assuntos
específicos. A obra Reference books, de Minto, publicada pela Library Asso-
ciation, em 1929, é um bom guia a partir do qual podem ser selecionados
os instrumentos bibliográficos necessários à biblioteca.

4762 Objetivo e Estrutura


A obrigação que a Segunda Lei impõe ao pessoal da biblioteca é que
deve familiarizar-se com o objetivo e a estrutura dessas obras bibliográficas.
Somente o estudo completo e sistemático e o uso frequente é que garantirão
ao pessoal a necessária facilidade no uso rápido e eficiente desse material.
Raramente encontra-se o mesmo tipo de arranjo em diferentes bibliografias,
o que dificulta ainda mais o trabalho do pessoal da biblioteca.

477 Obras de Referência


Outra classe de material com o qual o pessoal da biblioteca deve travar
um conhecimento íntimo é o das obras de consulta rápida, tais como atlas,
dicionários, cadastros, enciclopédias e anuários. Existem atualmente inú-
meras dessas obras de referência. Na verdade, a maioria dos temas mais
importantes e até mesmo algumas de suas subdivisões menos importantes
passaram a contar com obras de consulta rápida. Muitos leitores desco-
nhecem tanto sua existência quanto a amplitude das informações que
contêm. Os requisitos da Segunda Lei serão cumpridos de modo notável,
se o pessoal da biblioteca houver estudado atentamente o conteúdo destas
obras de referência. Não pode haver nada de mais desconcertante para um
bibliotecário do que admitir para o leitor que não pode encontrar a infor-
mação que ele procura. Mas a frequência destas situações desconcertantes
pode ser consideravelmente reduzida se ele conhecer profundamente um
conjunto significativo de obras de referência. Na verdade, a porcentagem
de leitores que podem ser atendidos com o material garimpado por um
bibliotecário habilidoso nessas publicações é surpreendentemente grande.
184 as cinco leis da biblioteconomia

478 Catálogo
Um terceiro compromisso que a Segunda Lei impõe ao pessoal da
biblioteca refere-se ao catálogo. A maioria dos livros enfeixa um conteúdo
complexo. De fato, são muito poucos os que se enquadram na categoria de
‘monografias’. Embora possam conter um assunto dominante, em geral
tratam também de assuntos subsidiários. É muito frequente o tratamento
dado a determinado assunto num livro, onde ele ocupa lugar secundário,
ser exatamente aquilo que o leitor requer. O capítulo sobre vetores — uma
subdivisão da matemática — do Theoretical physics, de Haas, talvez apre-
sente precisamente o tratamento que muitos estudantes de matemática
estarão buscando. A obra Ancient and medieval India, da Sra. Manning,
que naturalmente deveria ser colocada na seção de história cultural, traz
capítulos que oferecem uma sinopse clara e crítica das grandes obras da
literatura sânscrita, além de um bom apanhado sobre as diferentes escolas
da filosofia hindu. Talvez, as páginas dedicadas à teoria da classificação
das ciências biológicas na Introduction to science, de J. A. Thomson, sejam
de grande interesse para os estudantes de classificação. Muitos dos livros
de antropologia trazem muita informação de interesse filológico. Eles
contêm, com frequência, vocabulários completos.

4781 Analíticas de Assuntos


A Segunda Lei lança sobre os ombros do pessoal da biblioteca o ônus de
ajudar rapidamente o leitor a encontrar seus materiais em todos os livros
possíveis existentes na biblioteca. Este compromisso somente poderá ser
cumprido se o catálogo for totalmente analítico, oferecendo ainda inúmeras
remissivas de assuntos, que são também conhecidas como ‘analíticas de
assuntos’. Seria impossível para qualquer um de nós, por mais talentoso
que seja, guardar todas essas informações na cabeça. Se a catalogação
analítica não for suficientemente completa, a biblioteca talvez tenha que
deixar muitos leitores sem atendimento, apesar de os materiais que eles
procuram estarem esperando silenciosamente nas estantes.

48 Compromisso do Leitor
Vimos que é difícil para qualquer biblioteca arcar com os custos de
exemplares duplicados dos livros. Por isso, todo leitor somente terá
seus livros se todo leitor se lembrar que não é o único que usa a biblioteca;
não deve esquecer que a Segunda Lei defende não somente os direitos e
privilégios dele, mas também dos outros. Em certos lugares, costuma-se
invocar o sentimento cívico das pessoas por meio de um aviso que diz: ‘ao
sair, lembre-se de deixar este local tão limpo quanto você gostaria que os
outros o deixassem para você’. Todo leitor que usa uma biblioteca pública
deve ser orientado por um princípio similar. Deve demonstrar tanto maior
a segunda lei e suas implicações 185

consideração pelos interesses de outros leitores, como gostaria que eles


mostrassem pelos seus próprios interesses.

481 Regulamento da Biblioteca


Embora apelos desse tipo sejam facilmente aceitos em teoria, na prática
são difíceis de atender a não ser que haja uma ajuda externa. Ninguém é
tão obtuso a ponto de não perceber a necessidade imperativa de respeitar as
leis de trânsito se quiser viajar por rodovias seguras, porém a maioria não
consegue resistir à tentação de desobedecê-las, a menos que um policial as
obrigue a isso quase a cada curva. Portanto, os leitores devem considerar
a rígida aplicação do regulamento de uma biblioteca como uma ajuda e
não como um inconveniente. Devem procurar obedecer a elas de forma tão
cordial como se obedece às orientações do policial no controle do trânsito.

482 Quantidade de Volumes


Uma regra comum, da qual os leitores frequentemente discordam, é a
que fixa um limite para quantos volumes podem ser tomados empresta-
dos a cada vez. Este limite pode ser fixado em três, seis, oito ou qualquer
outro número. É possível encontrar argumentos favoráveis a qualquer
número. Portanto, qualquer que seja o limite fixado pelo regulamento,
será totalmente arbitrário. Mas, uma vez fixado, a Segunda Lei espera que
cada leitor deve considerar que sua obrigação é respeitar esse limite sem
reclamar. Não se deve discordar da regra e questionar a cada momento a
propriedade do número escolhido. Quando um cliente tinha em seu poder
um livro a mais do que o regulamento permitia, o bibliotecário precisou,
com relutância, escrever-lhe para que devolvesse o livro excedente. Mas
ele, irritado, respondeu: “Acho que o regulamento de sua biblioteca é
muito exigente para vir a ser popular e seu aviso me lembra os métodos
do departamento do imposto sobre a renda. Entretanto, devolvo um livro
como solicitado.” O bibliotecário expressou seu agradecimento pela última
frase e considerou o restante da carta como se não houvesse sido escrito.

4821 Indivíduo versus Público em Geral


Todo leitor deve notar que esta regra não tem a intenção de causar
transtornos para o indivíduo, mas para beneficiar o público em geral. Um
livro da biblioteca na casa de um leitor está necessariamente impedido
de ser usado por outros; e o regulamento tenta amenizar esta objeção ao
empréstimo, limitando o uso doméstico a um número determinado de
volumes por vez, dentro dos limites razoáveis de uso efetivo. Enquanto seis
livros usados ao mesmo tempo por um leitor, que precisa consultá-los juntos,
estão prestando um serviço útil, até mesmo um único livro que fique ocioso
por uma semana na escrivaninha de alguém estará sendo desperdiçado.
186 as cinco leis da biblioteconomia

483 Prazo de Empréstimo


Outra regra, que talvez cause ainda maior aflição, é a que fixa um limite
de tempo para a devolução dos livros levados por empréstimo. A expe-
riência mundial ensinou às autoridades responsáveis por bibliotecas que
esta regra não pode ser imposta sem uma penalidade pelo seu descumpri-
mento. A penalidade preferida é uma multa monetária por dia de atraso
na devolução de um livro emprestado. A ideia não é fazer dessa multa
uma fonte de receita. Por outro lado, a biblioteca tenta ajudar o leitor, de
todas as formas possíveis, para evitar que ele tenha que pagar tais multas.
Normalmente indica a data de devolução numa papeleta especial, colada
na primeira folha do livro. Envia um lembrete tão logo a devolução sofre
atraso, e a cada semana subsequente, até que seja devolvido.

4831 Não se Trata de Pagar por um Privilégio


Mas a confusão a respeito disso, como ocorre com todas as multas por
pequenas infrações, é que ela passa a ser vista como o pagamento por um
privilégio. A pessoa que deseja reter um livro popular por mais quinze
dias, assim causando inconveniente para o próximo na lista de espera, sabe
que isto lhe custará apenas alguns centavos que pagará de bom grado, sem
se importar com a sua responsabilidade cívica. Isto é tão ruim quanto um
motorista levar consigo numerário adicional para pagar as multas, e assim
ter o privilégio de dirigir de forma imprudente.

4832 Não se Trata de um Caso para Desculpas


Há outros que se irritam com o termo ‘multa’ que aparece no regula-
mento. Alegam em altos brados, “Não somos criminosos para sermos mul-
tados. Somos pessoas educadas, jamais paguei uma multa, nem na minha
escola, nem num tribunal de justiça. Pagar multa é algo muito humilhante
para mim.” Para evitar esse tipo de reação, a biblioteca usa a denomina-
ção ‘cobrança por atraso’. Ainda há os que pedem para serem isentados
com a justificativa de que “Sou um homem ocupado. Nem sempre tenho
tempo ou me lembro de examinar essa papeleta com a data de devolução
e devolver o livro no prazo.” Ou, “Estou muito ocupado numa pesquisa
intensiva. Tiro tantos livros de uma vez. Por isso, não tenho condições de
saber quando cada livro deve ser devolvido.” Com muita frequência, o que
acontece nesses casos é que o livro fica na mesa da casa do leitor sem ser
aberto por dias e dias, enquanto outros são impedidos de seu uso legítimo.

484 Categorias Proibidas


Outra regra ditada pela experiência é que livros de consulta rápida,
obras raras insubstituíveis, livros muito pesados que não podem ser trans-
portados com segurança, livros de arte repletos de ilustrações, que são,
a segunda lei e suas implicações 187

por natureza, frágeis e de fácil destruição, não devem ser emprestados


para uso domiciliar, mas consultados somente no recinto da biblioteca.
Dicionários, enciclopédias, cadastros, anuários e publicações similares não
se destinam e tampouco podem ser lidos, em geral, de forma contínua.
Ademais, contêm tal riqueza de informações que praticamente todo cliente
necessita usá-los. A frequência de seu uso seria não somente alta, mas
também distribuída de modo uniforme durante o dia. Se o leitor aprova
a preocupação da Segunda Lei em dar a todo leitor sua oportunidade
de usá-los, notaria a natureza antissocial de confiná-los ao seu gabinete
pessoal, onde tendem a ficar ociosos a maior parte do dia.

485 Livros de Arte


Livros de arte, como Indian art, de Ananda Coomaraswamy, Rajput
painting, de Ganguly, ou Indien, de Hurlimann, não somente têm uma es-
trutura física delicada, mas são também muito caros. Tendo em vista que
as bibliotecas só disporão uma única vez de recursos para sua compra, a
Segunda Lei exige que sejam cuidadosamente conservados e usados na
própria biblioteca, de modo que sua vida seja prolongada ao máximo pos-
sível, para dar a todo leitor sua oportunidade de usá-los. Se o leitor tiver
a bondade de calcular o custo adicional que causará ao usá-los na própria
biblioteca, comparando-o com o possível risco envolvido na sua retirada
da biblioteca, e se lembrar de suas obrigações para com os colegas leitores,
reconhecerá a irracionalidade de querer quebrar esta regra restritiva.

486 Periódicos
Outra importante categoria de material impresso objeto de severas
restrições comumente adotadas pelas bibliotecas é a dos periódicos. Os
fascículos correntes, que trazem, com exclusividade, os avanços mais
recentes do pensamento, são de vital interesse para muitos leitores. Uma
característica lamentável que as pessoas que atuam em áreas muito es-
pecializadas desenvolvem, inconsciente ou propositalmente, consiste em
dizer que certos periódicos somente interessam a eles e, por isso, seriam
mais bem utilizados, se ficassem em sua escrivaninha e não na mesa da
biblioteca. Isso é difícil provar. A Segunda Lei ponderaria que “a hipótese
a ser seguida não é a de que ninguém precisará deles, mas que muitos
precisarão deles. Abra mão do prazer de folhear as páginas de uma revista
que acaba de sair do prelo, reclinado no sofá do aconchegante ambiente
doméstico. Cultive o hábito de ver a biblioteca como um lugar a ser visi-
tado — ‘como um centro comunitário’ — e faça questão de ir à biblioteca
a cada dois ou três dias, a fim de examinar os fascículos mais recentes até
mesmo de um número maior de periódicos, sem ao mesmo tempo tirar
dos outros a sua oportunidade.”
188 as cinco leis da biblioteconomia

4861 A Outra Face da Moeda


O hábito antissocial de separar os periódicos e deixá-los esquecidos por
um tempo indefinido no meio de um amontoado de livros que não são
usados, nas mesas dos professores, parece ser mais comum em faculdades
e universidades dedicadas à formação profissional. Naturalmente, talvez
surjam desculpas e justificativas plausíveis. Mas a Segunda Lei apenas lhes
pede que vejam a outra face da moeda e com calma avaliem o pequeno
sacrifício exigido do indivíduo para formar o hábito sistemático de perio-
dicamente ir a um lugar central para usar os periódicos e a oportunidade
muito maior que tal hábito dará a um número muito maior de alunos e
outros leitores, talvez menos influentes e com menos tempo livre e menos
recursos, mas que nem por isso têm menos interesse em usá-los.

487 Em Busca de Privilégio Especial


Aqueles que, de forma míope, se revoltam contra a regra do tempo,
a regra da multa, a regra da obra de referência e a regra dos periódicos
não são tão difíceis de lidar. Eles, pelo menos, chamam a coisa pelo seu
nome. Um leitor muito mais intratável, porém, é aquele que admite tudo
e diz “Sim, seu regulamento é muito necessário. Todos devem respeitá-lo
se todos quiserem ter o máximo de benefícios. Mas permita que somente
eu fique isento dele.” Este privilégio especial pode ser reivindicado com
base em diversos motivos. Alguém pode dizer “sou membro do conse-
lho municipal (ou de qualquer outro órgão) que administra a biblioteca.
Portanto, devo merecer tratamento especial. Uma atenção especial que
resolvi solicitar é ficar dispensado do cumprimento de todo o regulamen-
to da biblioteca.” Outro pode dizer de forma seca, “em todos os lugares
aonde vou concedem-me prerrogativas especiais”. É como se medissem
a felicidade de sua vida pelo número de vezes que recebem tratamento
preferencial, passando por cima de regras e regulamentos.

4871 Critério para o Privilégio Especial


Exemplos como este podem ser multiplicados ad infinitum. Mas basta
dizer que o critério da Segunda Lei ao conceder privilégios especiais não é
o status social do leitor, a posição oficial, ou o fato de ele gostar e deleitar-se
com tratamento especial, mas a capacidade de utilizar plena e genuinamen-
te tais privilégios especiais, que pela sua própria natureza devam afetar,
de modo prejudicial, os privilégios comuns de outros leitores. Portanto,
o compromisso que a Segunda Lei investe nos leitores está em que cada
um procure agir de conformidade com o regulamento da biblioteca e so-
mente solicite privilégios especiais de modo parcimonioso e quando for
absolutamente impossível dispensá-los para atender às suas necessidades.
189

CAPÍTULO 5

A TERCEIRA LEI

50 Enunciado
Agora passaremos a examinar a Terceira Lei. Embora se assemelhe à
Primeira Lei ao adotar o ponto de vista dos livros, é, em certo sentido, um
complemento da Segunda. Enquanto esta se preocupava com a tarefa de
encontrar para cada leitor o livro que lhe fosse apropriado, a Terceira Lei
trata de se esforçar para que um leitor apropriado seja encontrado para
cada livro. Na realidade, a Terceira Lei diz para cada livro seu leitor.

501 Comparação
Enquanto a Primeira Lei revolucionou o panorama das bibliotecas,
a Terceira Lei tornou esta revolução a mais completa possível. Veremos,
mais adiante, que as implicações da Terceira Lei não são menos exigentes
do que as da Segunda. Dedicaremos este capítulo a uma descrição dos
diferentes instrumentos empregados pelas bibliotecas para cumprir com
os requisitos da Terceira Lei.

502 Meios
Talvez um cínico possa sugerir o artifício óbvio de ter o menor núme-
ro possível de livros na biblioteca. Mas, este artifício é descartado pelos
amplos requisitos da Segunda Lei, e sua incoerência com a Quinta Lei se
tornará aparente em capítulo posterior. O recurso mais evidente usado
pelas bibliotecas para satisfazer à Terceira Lei é o sistema de livre acesso. Os
outros instrumentos dizem respeito ao arranjo das estantes, às entradas
do catálogo, ao serviço de referência, à abertura de certos departamentos
populares, aos métodos de publicidade e ao serviço de extensão.

51 Sistema de Livre Acesso


Por ‘livre acesso’ entende-se a oportunidade de ver e examinar o acervo
de livros com a mesma liberdade que temos em nossa própria biblioteca
particular. Numa biblioteca de livre acesso, permite-se ao leitor que ande
à vontade entre os livros e pegue qualquer deles conforme for de seu
agrado. O eficiente serviço que esse sistema presta à Terceira Lei pode
ser entendido por quem houver visto uma biblioteca passar da condição

189
190 as cinco leis da biblioteconomia

de ‘fechada’ para a de ‘livre acesso’. A experiência indica que a mudança


aumenta o número de volumes retirados para uso. Mais importante do que
isso é a frequência com que os leitores ‘fazem descobertas’. Não se passa
um único dia sem que algum leitor exclame com uma agradável surpresa
“eu não sabia que vocês tinham este livro!”.

511 Exemplo 1
Outro dia me deparei com um estudante pegando da estante The provin-
ce of the state, de Roland K. Wilson, onde ele estivera em repouso por oito
anos antes da introdução do sistema de livre acesso. Perguntei-lhe quem
havia recomendado o livro. Ele disse que desconhecia a existência do livro e
que o encontrou por puro acaso, ao folhear os volumes da seção de política.
Este acaso ocorre quase a cada minuto numa biblioteca de livre acesso.

512 Exemplo 2
Eis outro exemplo notável. O secretário da associação local de profes-
sores solicitou-me materiais que tratassem de ensino médio e matrícula.
Acompanhei-o às estantes para mostrar-lhe alguns dos discursos presi-
denciais da seção de educação da British Association for the Advancement
of Science. Enquanto eu retirava os volumes e examinava o conteúdo dos
discursos presidenciais, o secretário, que estivera folheando os livros nas
estantes próximas, aproximou-se, exclamando com enorme satisfação
“encontrei o que queria”. Trazia na mão um volume vermelho, de pou-
cas páginas, no formato in-quarto. Tratava-se do volume 1, número 1 da
Universities Review. Nele um artigo intitulado ‘The dandelion and the
jack’ tratava exatamente do tema que ele buscava. Este volume vermelho
permanecera na estante por alguns meses completamente intocado por
quem quer que fosse, a não ser o servente incumbido da limpeza. Mas se
não fosse a introdução do sistema de livre acesso, teria permanecido dessa
forma por anos sem jamais encontrar seu leitor.

513 Analogia com uma Loja


Se se tiver confiança na Terceira Lei, será tão absurdo e ineficiente para
uma biblioteca negar o livre acesso e somente se dispusesse a fornecer
qualquer livro quando solicitada como seria para uma loja movimentada
trancar as mercadorias em armários e esperar que fossem vendidas. A loja,
interessada em que cada uma de suas mercadorias passe para as mãos dos
clientes, permite livre acesso completo até mesmo aos artigos de menor ta-
manho. Permite-se aos clientes que formem grupos, examinem os produtos
expostos e toquem em qualquer artigo. A loja considera todos como clientes
potenciais e, preocupada em encontrar um comprador para cada artigo,
obviamente deixa as pessoas livres nas dependências da loja. Quem quer
a terceira lei 191

que visite essa loja com certeza se convencerá da eficácia e da sabedoria


desse método. Perfeitamente, o mesmo método deve ser adotado por uma
biblioteca que queira encontrar um leitor para cada livro de suas estantes.

514 História
É sabido que a maioria dos leitores não conhece seus requisitos e que
seus interesses tomam uma forma definida somente depois que veem e
manuseiam uma coleção de livros bem organizada. Este fator veio a ser
reconhecido somente nos últimos dez ou quinze anos na Grã-Bretanha,
mas, nos Estados Unidos, onde a influência da Terceira Lei se estabeleceu
muito antes, o ‘livre acesso’ foi colocado a serviço dessa lei bem antes do
fim do século xix.

515 Visão de Longo Prazo


Que as autoridades responsáveis por bibliotecas devam ter uma visão
de longo prazo com relação ao ‘livre acesso’ é ilustrado pelo seguinte trecho
que descreve a tendência norte-americana, nova àquela época:

Como norma, as novas bibliotecas estão permitindo uma grande liberdade


com relação ao acesso direto às estantes por parte de todos os usuários da
biblioteca. Muitos dos edifícios mais recentes foram planejados de forma que
o visitante possa dirigir-se diretamente às estantes, e muitos dos prédios mais
antigos foram remodelados para permitir esta prática. Em quase todos os as-
pectos, isso foi um ganho. Uma das consequências foi o desaparecimento de
livros, em proporção não desprezível. Mas essa perda é insignificante tendo
em vista o grande aumento no uso das bibliotecas que resultou do contato
fácil com os livros.213

516 Perda Inevitável


Assim, a influência da Terceira Lei até mesmo convenceu as auto-
ridades responsáveis por bibliotecas quanto à sabedoria de aceitar a
perda inevitável e o sacrifício de alguns exemplares para aumentar as
oportunidades de garantir para cada livro seu leitor. Mas que esta
observação não nos leve erroneamente a inferir que uma perda grande
de livros a cada ano seja uma consequência necessária do sistema de
‘livre acesso’. Por outro lado, a experiência mostra que a perda por
furto é realmente insignificante. Uma medida adequada dos furtos
seria uma porcentagem do número de livros perdidos em relação ao
número de empréstimos num ano. Usando esta medida, a Srta. Isabel
Ely Lord, bibliotecária da Pratt Institute Free Library, mostrou com
estatísticas minuciosas214 que os furtos nas bibliotecas de ‘livre acesso’
não são muito maiores do que nas bibliotecas ‘fechadas’. Ela calculou
uma média de perda por ano igual a “17 por 10 mil livros empresta-
192 as cinco leis da biblioteconomia

dos”.215 Depois de examinar as estatísticas da Croydon Public Library


por várias décadas, W.C. Berwick Sayers confirmou esta estimativa
numa carta escrita em 1947.

517 Ladrão de Livros


Por outro lado, os casos de furto são invariavelmente perpetrados por
um ou dois ladrões contumazes e que agem premeditamente.

O público em geral não é formado de ladrões. Ladrões de biblioteca são uma


classe como a dos assaltantes de residências. Um sujeito comete um grande
número de assaltos e cria uma grande confusão, mas isto não prova que toda
a população de uma vila ou cidade seja propensa ao assalto de residências.
O benefício das estantes abertas é indiscutível, e a provável perda de duas ou
três centenas de livros por ano a um custo total de talvez 150 dólares pode ser
considerado pequeno, em comparação com os salários que seriam pagos a um
ou talvez dois outros auxiliares, para não mencionar contínuos, etc.216

518 Trópicos
Talvez, nós nos trópicos possamos acrescentar que a perda é pequena,
quando comparada com a causada pela deterioração do papel e pelos
estragos causados por insetos, desde que se adotem meios de proteção
contra furtos.

52 Arranjo nas Estantes


Mesmo numa biblioteca de acesso livre, as oportunidades para o cum-
primento da Terceira Lei podem ser aproveitadas ou arruinadas conforme
o princípio adotado para o arranjo dos livros nas estantes. O arranjo por
tamanho ou (exceto no caso de literatura) pela sequência alfabética do nome
do autor é tão arbitrário como o arranjo pela cor da capa. Normalmente,
não é o tamanho do livro ou seu autor (exceto em literatura) que determina
o tipo de pessoa que irá usá-lo, mas seu assunto. Por isso, é pelo assunto
que os livros devem ser organizados nas estantes se quisermos que tenham
uma chance razoável de encontrar seus leitores.

521 Arranjo Classificado


A Terceira Lei recomendaria um arranjo classificado por assuntos e que
fosse bem feito. É fácil perceber que, se todos os livros que a biblioteca pos-
suir sobre, digamos, corrente alternada foram colocados juntos em íntima
proximidade com os outros livros sobre engenharia elétrica, haverá uma
probabilidade muito maior de serem consultados por um leitor do que se
estivessem espalhados, por exemplo, entre 100 mil volumes, obedecendo
ao capricho da ordem alfabética dos nomes dos autores.
a terceira lei 193

522 Estante de Novas Aquisições


O assunto do livro não é, entretanto, o único fator que pode atrair a aten-
ção dos usuários da biblioteca. Os psicólogos nos dizem que a ‘novidade’
é um importante fator para prender a atenção. A Terceira Lei espera que o
pessoal da biblioteca aproveite também este fator na disposição dos livros
nas estantes. Constitui hoje uma prática comum nas bibliotecas colocar uma
estante destinada a novas aquisições bem perto da entrada. A validade da
afirmação do psicólogo sobre ‘novidade’ é normalmente comprovada pela
rapidez com que a ‘estante de novas aquisições’ é esvaziada. É esta estante
que invariavelmente traz a máxima satisfação ao bibliotecário moderno,
que, sob a influência da Terceira Lei, se preocupa muito com os livros que
não saem das estantes.

523 Rearrumação
A ‘novidade’ no arranjo das estantes é outro meio frequentemente ado-
tado para atrair a atenção dos usuários para livros que precisam de ajuda
para encontrar seus leitores. Uma redistribuição ocasional do conteúdo
das estantes ajuda a estabelecer novos contatos entre as pessoas e os livros.

524 Vitrinas
Outro instrumento comumente empregado em relação a isso consiste
na colocação de pequenas vitrinas atraentes com livros em posições es-
tratégicas no salão de leitura e no local das estantes, rotuladas com placas
que chamem atenção, como ‘Vale a pena dar uma olhada’, ‘Livros do mo-
mento’, ‘Livros redescobertos’, ‘Livros esquecidos, mas que permanecem
úteis’, e assim por diante.

525 Acessibilidade
Outro importante fator no arranjo das estantes que possui um efeito
decisivo nas chances de um livro conseguir seu leitor é sua maior ou menor
acessibilidade. Os livros colocados ao alcance confortável de um leitor de
estatura média serão muito mais utilizados. Fiz experiências com um varia-
do conjunto de livros, colocando-os durante algumas semanas na prateleira
mais alta, que fica a 2,10 m acima do chão, na prateleira mais baixa, que
fica a somente 15 cm do chão, e nas prateleiras intermediárias. Os livros
encontraram leitores com mais frequência quando estavam nas pratelei-
ras intermediárias do que quando estavam nas outras. Prateleiras numa
altura acima de 2,10 m constituem um permanente desacato à Terceira Lei.
A Terceira Lei insiste em que a prateleira mais alta de uma estante deve
estar ao alcance fácil de uma pessoa de altura média, de pé. Igualmente,
prateleiras mais largas do que o necessário para guardar uma fileira de
livros são uma grande tentação para o pessoal da biblioteca colocar duas
194 as cinco leis da biblioteconomia

fileiras em cada prateleira, uma atrás da outra, disso resultando que aos
livros da fileira de trás é negada a oportunidade de conseguir seus leitores.
Encontram-se no apêndice deste livro as especificações para uma estante
de dimensões adequadas, que possua outras características necessárias à
luz das outras leis da biblioteconomia.

53 Catálogo
Embora um arranjo bem estudado dos livros nas estantes seja neces-
sário, não é de modo algum suficiente para se conseguir para cada livro
seu leitor. O catálogo também pode ser de ajuda imensa com relação a
isso. Pode até ser que o leitor fique favoravelmente impressionado sobre a
utilidade de um livro ao ver sua entrada no catálogo, embora o tamanho,
a apresentação e outras características possam levar a negligenciá-lo en-
quanto examina a estante. Isso pode parecer estranho, mas a experiência
mostra que acontece.

531 Exemplo
Talvez se possa citar um fato recente a título de exemplo. Um pesquisa-
dor solicitou um dia material sobre migração populacional. Foi encaminha-
do à estante que continha os livros sobre o assunto. Havia no máximo uns
20 volumes. Ele os examinou e pouco depois alguém o ajudou a consultar
as fichas do catálogo relativas ao assunto, particularmente as fichas de
catalogação analítica. Mas sua atenção foi atraída por uma série de títulos
nas próprias fichas principais e ele, indignado, perguntou: “Mas onde
estão estes dois livros? Não os vi na estante.” Os livros, porém, lá estavam:

Reprint and Circular Series: —


No. 48, Work of the Committee on Scientific Problems of Human Migration;
and No. 87, Final Report of the Committee of Scientific Problems of Human
Migration.

Tratava-se de folhetos de poucas páginas e pouco atraentes publicados


pelo National Research Council. Depois de examiná-los achou-os tão in-
teressantes que se disse agradecido por ter sido encaminhado ao catálogo,
pois, ao contrário, teria perdido essas publicações por serem tão finas e
pouco atraentes. Note-se que o leitor era um pesquisador experiente, cujo
trabalho cotidiano exigia que examinasse as estantes da biblioteca.

532 Entradas de Séries


Além deste serviço geral que o catálogo presta à causa da Terceira Lei,
há certas classes de entradas do catálogo que atendem especificamente
ao cumprimento da Terceira Lei. Refiro-me às entradas de séries e às
entradas de catalogação analítica de assuntos. As entradas de séries no
a terceira lei 195

catálogo remetem para o nome da série a que um livro pertence. Elas se


encontram na parte do índice alfabético do catálogo. Na sequência das
fichas, todas as que tiverem a mesma série no cabeçalho ficarão reunidas,
assim revelando imediatamente todos os títulos que pertencem a essa série.
Vejamos, por exemplo, a Home University Library Series. Há livros sobre
diversos assuntos incluídos nessa série. São todos da autoria de autoridades
reconhecidas nos respectivos assuntos. Ademais, a forma de exposição do
assunto é popular e o estilo, não-técnico. Mesmo não-especialistas podem
ter algo a ganhar e satisfação com a leitura cuidadosa desses volumes. Se
um volume dessa série receber somente uma entrada de autor, quem não
for especialista no assunto de que trata esse volume poderá afastar-se in-
timidado pelo título do livro e pelo nome do especialista indicado como
autor. Por outro lado, um especialista no assunto, sabendo, sem dúvida,
que se trata de uma obra popular, talvez não se interesse por ela. Assim,
o livro talvez não consiga leitor algum. Mas, a entrada de série fará com
que o leitor não-especializado pelo menos se interesse pelo livro com certa
animação. Exemplos desta natureza podem ser facilmente multiplicados.
Pode também haver vários outros motivos que levem os leitores a querer
estudar em livros pertencentes a séries conhecidas. Por isso, um catálogo
que mostre um conjunto completo de entradas de séries será de grande
ajuda para garantir para cada livro seu leitor.

533 Entrada de Catalogação Analítica de Assuntos


A entrada de catalogação analítica de assunto pode ser até mesmo mais
útil. Ela será incluída na parte classificada do catálogo. Terá um cabeçalho
de assunto e indicará os livros que aparecem sob outros assuntos, mas
que tratam parcialmente do assunto do cabeçalho, informando, quando
possível, as páginas específicas que possam ser pertinentes. Pode-se assim
fazer remissivas para um livro a partir de vários cabeçalhos de assuntos.

5331 Exemplo 1
Por exemplo, verificou-se ser necessário preparar 10 fichas analíticas
para os Shelbourne essays, de Paul Elmer More. Será extremamente ques-
tionável a possibilidade de esse livro conquistar sua quota legítima de
leitores entre os estudantes de metafísica, se seu excelente ensaio intitulado
‘Pragmatism of William James’ não tiver uma remissiva em ‘Pragmatismo’.

5332 Exemplo 2
A experiência de Essays and studies publicado pela English Association
representa outra demonstração prática do serviço que a catalogação ana-
lítica pode prestar à Terceira Lei. Estes volumes estiveram adornando as
estantes durante anos, passando apenas de vez em quando pelas mãos dos
196 as cinco leis da biblioteconomia

leitores. Por algum motivo, o nome da English Association e a aparência dos


livros levavam a maioria dos estudantes a ver estes Essays and studies como
eruditos demais para serem de interesse para qualquer mortal a não ser o
especialista mais exigente. A Terceira Lei enfrentava grande dificuldade
ao tentar encontrar leitores para eles. Mas assim que cada um dos ensaios
passou a receber entradas analíticas com os cabeçalhos adequados, os
volumes raramente ficavam nas prateleiras. Por exemplo, a remissiva do
cabeçalho ‘Shelley — Crítica’ para o ensaio sobre platonismo em Shelley
no quarto volume da série começou a atrair um fluxo contínuo de leitores.
Saiu por empréstimo em 23 de dezembro, em 2 de janeiro, em 21 de janeiro,
em 25 de janeiro, em 4 de fevereiro, em 13 de fevereiro, em 12 de março, e
assim por diante sem nenhum descanso. Foi tal o êxito que isso represen-
tou para a Terceira Lei, que ficou difícil para a Segunda Lei encontrar este
livro para cada leitor que o solicitava. Na verdade, a demanda só pôde
ser atendida limitando-se o empréstimo para um período menor do que o
usual e organizando a demanda por meio de registro numa fila de espera.

5333 Exemplo 3
Outro exemplo interessante sobre o poder extraordinário da catalogação
analítica de assuntos para encontrar para cada livro seu leitor é o caso
dos pesados e complexos volumes que constituem os Complete works, do
conde Rumford. Uma ficha de remissiva com o cabeçalho ‘Café’, enviando
para as páginas 615–660 do quinto volume, que traz o ensaio intitulado Of
the excellent qualities of coffee and the art of making it in the highest perfection,
fez uma diferença muito grande na vida desse volume. Ao invés de ser
uma vítima impassível dos danos perfurantes das traças, começou uma
série ininterrupta de marchas triunfantes de uma casa de leitor para outra.

5334 Exemplo 4
Mesmo com livros que são geralmente populares, uma criteriosa ca-
talogação analítica pode aumentar seu círculo de leitores. Por exemplo,
Mansions of philosophy [Filosofia da vida], de Will Durant, começou a atrair
um círculo mais novo e mais amplo de leitores tão logo o seu décimo
capítulo, que trata da dissolução do matrimônio, recebeu uma remissiva
com o cabeçalho ‘Matrimônio’.

534 Pessoal da Catalogação


Estes poucos exemplos bastam para mostrar a importância da cata-
logação analítica para incrementar o uso dos livros. A Terceira Lei, por-
tanto, convida as autoridades responsáveis por bibliotecas a não invocar
o fantasma da economia e da carência de recursos quando lhes chega às
mãos uma proposta para contratar pessoal necessário para o trabalho de
a terceira lei 197

catalogação analítica. Teremos o ensejo de analisar o balanço de lucros e


perdas desse trabalho ao examinarmos a Quarta Lei. Basta dizer que, se as
autoridades tiverem alguma confiança na Terceira Lei, devem providenciar
uma profusão das remissivas feitas com as entradas analíticas, e criar as
condições necessárias para que o pessoal técnico analise exaustivamente
e leve o conteúdo de cada livro da biblioteca ao conhecimento de todas as
categorias de leitores mediante entradas analíticas apropriadas.

54 Serviço de Referência
Por conseguinte, o livre acesso, o arranjo classificado e a catalogação
analítica são três dos mecanismos necessários para se conseguir para cada
livro seu leitor. Mas estes instrumentos mecânicos são raramente suficien-
tes. Duvida-se que o livre acesso possa conseguir tudo o que pode para a
Terceira Lei se o pessoal da biblioteca interpretar o acesso livre no sentido
de “forneça os livros e se afaste tanto quanto possível do caminho”. Neste
caso, vários livros e não poucos leitores terão de compartilhar a sorte dos
burricos entre dois montes de feno. Ademais, não se tem certeza de que o
catálogo em fichas, por si só, se torne algum dia o guia, filósofo e amigo
do leitor comum da biblioteca. As dificuldades inerentes de um catálogo
analítico são muitas e sérias. Pode-se dizer com segurança que um catálogo
analítico em fichas sempre precisará de um intérprete.

541 Agentes Promotores do Produto


A organização mecânica de uma biblioteca — por mais desejável que
seja — jamais poderá ser levada ao ponto de dispensar o atendimento
pessoal. O requisito da Terceira Lei desafia e transcende a máquina. Será
sempre preciso contar com seres humanos que atuem como ‘agentes pro-
motores do produto’ para os livros. É imperativo que certos funcionários
sejam preparados exclusivamente para assistir o leitor no uso do catálogo
e na escolha do livro. Sua ocupação deve ser falar dos livros para os lei-
tores e conquistá-los, por assim dizer, para os livros. A existência desse
pessoal — o ‘pessoal de referência’ como é chamado — representa um
dos mecanismos eficientes empregados pelas bibliotecas modernas para
cumprir o que determina a Terceira Lei.

542 Contato com os Leitores


A expectativa em relação ao departamento de referência de uma bi-
blioteca é que sirva ao leitor da mesma forma como as grandes empresas
de transporte servem aos viajantes, oferecendo-lhes folhetos ilustrados
sobre os novos lugares que gostariam que fossem visitados. O pessoal
que trabalha na referência desfruta de oportunidades excepcionais para
interagir com a imensa quantidade de leitores que por ali passam. Este
198 as cinco leis da biblioteconomia

contato direto com os leitores enseja a observação de seus gostos e carências,


suas ações e reações e suas simpatias e antipatias. Como resultado desses
contatos diretos, um experiente bibliotecário de referência instintivamente
trava relações entre leitores e livros e, reciprocamente, um livro amiúde
sugere um leitor a quem ele atrairá. Ele conhece sua comunidade, e sua
maneira de pensar, sua índole e interesses dominantes lhe são conhecidos.
Esforça-se para se manter a par das necessidades de seu público e está sem-
pre à espera de uma oportunidade para encontrar um leitor para cada livro.

543 Caleidoscópio
Nas mãos de um competente bibliotecário de referência a biblioteca é
como um caleidoscópio. Sua habilidade consiste em girar suas facetas de
forma tal que todas possam ser vistas e que cada uma delas possa atrair
aqueles para os quais apresentam interesse. Este é o tipo de serviço que a
Terceira Lei espera do pessoal de referência.

544 Pesquisa Domiciliar


Nos últimos anos, a disposição de servir à causa da Terceira Lei pa-
rece que levou algumas bibliotecas do Novo Mundo até mesmo a fazer
pesquisas domiciliares. Prepara-se uma ficha para cada residência, e nela
se registram o número de moradores, suas ocupações, seus interesses de
leitura e se já são usuários da biblioteca. Esse tipo de registro fornece um
quadro da vida social e dos interesses intelectuais dos moradores de uma
localidade. Compete ao pessoal da referência identificar leitores potenciais
a partir dos registros dessa pesquisa para transformá-los em leitores reais.

55 Departamentos Populares
Isso nos leva ao problema de transformar leitores potenciais em leitores
reais. O primeiro passo é atrair esses leitores potenciais para a biblioteca.
Um método muito adotado para isso consiste em montar na biblioteca
uma sala de jornais e outra de revistas. Em geral ocupam uma área des-
proporcionalmente grande, mas ainda assim são toleradas em virtude
de sua utilidade para esse propósito. Todos sabem que a sala de revistas
atrai uma presença maior do que a biblioteca propriamente dita e que a de
jornais fica ainda mais apinhada. O pessoal da biblioteca deve ir de vez em
quando a essas salas populares, travar contato com os clientes e procurar
levar alguns para a sala das estantes e o salão de leitura. Assim, além do
fato de os jornais e as revistas fornecerem material direto de leitura, estarão
também funcionando como iscas regulares. Esse aproveitamento da ânsia
que a humanidade parece ter por notícias de natureza efêmera é um dos
métodos regularmente adotados pelas bibliotecas para aumentar a chance
de cada livro conseguir o seu leitor.
a terceira lei 199

551 Lei das Probabilidades


A Terceira Lei depende da lei das probabilidades, segundo a qual a
chance de cada livro conseguir o seu leitor aumenta conforme aumenta
o número de pessoas que frequentam a biblioteca. Tão logo esse anseio da
Terceira Lei foi reconhecido, uma consequência óbvia foi que as bibliotecas
deveriam adotar todos os métodos reconhecidos de publicidade.

56 Publicidade
Independentemente da insistência da Terceira Lei, as bibliotecas pre-
cisam de publicidade também por outras razões. Não é de admirar que,
enquanto a biblioteca amplia seu campo de ação, modifica sua perspectiva
e altera até mesmo seu caráter e suas funções, não haja um entendimento
adequado pelo público sobre o que está acontecendo. Para alguns, a biblio-
teca é ainda medieval, para outros é principalmente uma fornecedora de
literatura de entretenimento. Existe sempre uma manifestação de surpresa
quando o público descobre a amplitude do seu serviço e a universalidade
dos seus interesses. “Eu não sabia que vocês tinham livros de música!”
“Vocês ficam abertos nos feriados? Eu não sabia disso.””Eu não sabia que
o seu catálogo é tão analítico.” Manifestações como estas, com certeza,
interessam e agradam ao bibliotecário, mas são também uma indicação
preocupante de que o conhecimento do serviço que ele oferece ainda não foi
divulgado para todo o público. Elas deixam evidente que uma publicidade
bem pensada é tão necessária para a biblioteca pública quanto para uma
empresa comercial, a fim de que o público possa saber de sua existência
e do serviço diversificado que ela oferece.

561 Utilidade
Num trabalho sobre métodos de publicidade em bibliotecas, a Srta.
Wildred Othmer Peterson, diretora de publicidade da Des Moines Public
Library, afirma:

Publicidade, a arte de influenciar a opinião pública, em todas as suas variadas


formas, ocupa importante lugar no mundo de hoje. Sua utilidade para o mundo
empresarial foi comprovada, pois, se não houvesse sido, certas empresas deste
país não chegariam a gastar somas equivalentes a um milhão de dólares por
ano com publicidade. Se a publicidade é importante para eles, por que não
seria também importante para as bibliotecas? As únicas diferenças, entretanto,
são que os bibliotecários, em inúmeros casos, precisam ser educados quanto à
importância da publicidade e as bibliotecas não possuem milhões para gastar.
Toda biblioteca dedica hoje muito de seu tempo e de sua atenção à publicidade.
A imprensa é uma importante colaboradora e até mesmo o cinema e o rádio
fazem parte dela.217
200 as cinco leis da biblioteconomia

562 Mesa-Redonda de Publicidade


A publicidade da biblioteca, de fato, tornou-se um ramo especial da arte
da publicidade. Sobre ela escrevem-se livros, e nos Estados Unidos há uma
comissão de publicidade da American Library Association onde trabalha
um publicitário. Esta comissão organiza o que se chama de publicity round
table em cada uma das conferências anuais da associação. “Publicidade por
todo o estado” é a diretriz da publicity round table. Os métodos extraordi-
nários que a Califórnia adota para popularizar seu sistema de bibliotecas
e atrair para elas a população na maior quantidade possível encontram-se
em um trabalho apresentado na 52a conferência anual da American Library
Association, realizada em 1930.218

563 Publicidade Geral


Em geral, a publicidade das bibliotecas divide-se em duas classes:
publicidade geral e publicidade individual. A publicidade geral é do tipo
‘Coma mais frutas’ ou ‘Compre mais roupas de algodão’ sem mencionar
qualquer comerciante de frutas ou comerciante de confecções em particu-
lar. Esta publicidade geral no campo da biblioteca pode procurar destacar:

1) A utilidade dos livros e da leitura; a superioridade do livro como fonte de


ideias, informações, inspiração e educação em comparação com outras formas
de produtos impressos.
2) A biblioteca como instituição pública, mantida e administrada com
recursos públicos.
3) Toda a gama de serviços de uma biblioteca dinâmica, com ênfase no ser-
viço de referência, educação de adultos e outros aspectos menos conhecidos [...].
4) Alguns indicadores conhecidos para bibliotecas, como [...] circulação de
livros per capita, livros que possui per capita [...].219

5631 Meio
Esta publicidade geral deve ser incumbência de organizações de peso
como a Madras Library Association ou o departamento estadual de biblio-
tecas públicas, caso exista. Mesmo em países como os Estados Unidos e
a Inglaterra, “a necessidade de uma publicidade bibliotecária organizada
e centralizada” vem sendo enfatizada e levada a efeito. A publicidade
sistemática é feita por meio de notícias em jornais, artigos de revistas,
palestras de rádio, conferências públicas, excursões demonstrativas,
painéis de propaganda atraentes, exposições periódicas e itinerantes e
distribuição gratuita de folhetos e boletins. A associação de bibliotecários
do Japão organiza a comemoração de uma semana nacional do livro no
mês de novembro. Esta publicidade geral deve ser o elemento principal
da publicidade das bibliotecas na Índia, nas condições atuais.
a terceira lei 201

564 Bibliotecas Isoladas


Além disso, cada biblioteca deve cuidar para que seus serviços sejam
constantemente levados à atenção do público de maneira eficaz. Convém
que grandes bibliotecas contem com um assessor especial para publici-
dade. Seu trabalho ou do próprio bibliotecário, se não houver assessor,
será adotar todos os métodos reconhecidos para atrair o público para a
biblioteca, de modo que cada leitor potencial se transforme num leitor real,
assim aumentando as oportunidades de cumprimento da Terceira Lei. Ao
organizar sua campanha de publicidade, a biblioteca deve ter em mente
os princípios gerais da publicidade, tais como continuidade, variedade,
novidade, clareza e apelo pessoal.

5641 Imprensa
Talvez o veículo mais barato e de mais fácil acesso para a publicidade
bibliotecária seja a imprensa. A biblioteca deve manter-se em contato com
os jornais locais, que, em geral, se dispõem a oferecer espaço na coluna
de noticiário geral e na de notícias locais para incluir informações sobre
a biblioteca. Convém que o bibliotecário ou o assessor de publicidade
consulte frequentemente os editores e procure seguir suas instruções em
matéria de estilo, extensão, periodicidade e outros detalhes, de modo que
as matérias enviadas pela biblioteca sejam diretamente repassadas para
a composição, com o mínimo possível de edição de texto. Talvez seja útil
publicar certos tipos de informação como as aquisições recentes, estatís-
ticas de leitores e de empréstimos e dados semelhantes em determinados
dias da semana ou do mês, de modo que o público saiba quando procurar
por essas informações. Não é raro o número de usuários da biblioteca ser
levemente maior no segundo ou terceiro dia de cada mês, em virtude de as
estatísticas mensais aparecerem na coluna das notícias locais na tarde do
dia primeiro. Além desses informes sistemáticos, a biblioteca deve procurar
aparecer na imprensa a intervalos irregulares, sempre que se ofereça uma
oportunidade para fazer uma comunicação, como, por exemplo, mudanças
no sistema de empréstimo, mudanças no arranjo dos livros, mudanças
nos horários, recebimento de doações de coleções especiais, melhoria das
comodidades oferecidas ao público, participação da biblioteca em exposi-
ções e conferências e realização de eventos a respeito dos quais podem ser
preparadas bibliografias especiais. O pessoal da biblioteca pode também
ser estimulado a contribuir ocasionalmente com artigos de leitura amena,
que tratem do lado humorístico das atividades bibliotecárias. Talvez seja
conveniente enviar para os jornais relatos ou notícias ocasionais sobre os
eventos importantes nas bibliotecas de outros países. Essas publicações às
vezes despertam a curiosidade do público e o induzem a ter mais interesse
por suas próprias bibliotecas.
202 as cinco leis da biblioteconomia

5642 Textos avulsos


Depois da imprensa deve-se mencionar a publicação de avulsos e cir-
culares, impressos ou datilografados. Um bom duplicador é imprescindível
nas bibliotecas que adotem esta forma de publicidade. Seria mais barato
utilizar um duplicador do que mandar imprimir fora. Aquisições recentes,
bibliografias especializadas, notificações sobre mudanças de métodos,
notas descritivas sobre os serviços de atendimento pessoal oferecidos pelo
pessoal da referência, e vários comunicados semelhantes podem ser assim
divulgados tanto para quem já está registrado na biblioteca, como para os
que ainda podem ser atraídos para ela. Embora um pouco mais dispendio-
sa, ao contrário do método de publicidade pela imprensa, esta forma não
depende da cooperação de órgãos externos. Ela também deve abrir muito
espaço para a criatividade do pessoal da biblioteca. Será útil manter um
arquivo cronológico e classificado destes materiais para orientação futura.

5643 Boletim da Biblioteca


Uma forma mais cara de publicidade adotada por algumas bibliotecas
é editar um periódico impresso. Exemplos disso são o Readers’ Index, da
Croydon Public Library; Bulletin of the New York Public Library; Harvard
Library Notes, da Harvard University Library; Bulletin of the John Rylands
Library, de Manchester. Estes periódicos buscam:

a) interessar o público pela biblioteca como instituição,


b) manter o público informado a respeito de todas as atividades e recursos
da biblioteca,
c) relacionar os livros com os gostos e interesses atuais do público,
d) relacionar temas novos com aqueles sobre os quais os usuários da biblio-
teca já leem,
e) despertar novos interesses,
f) manter o leitor em contato com os métodos que podem ser acompanhados
através de livros, e
g) em geral estimular, de maneira ‘cortês’ e atraente, a educação profissional
e de outros tipos, bem como a cultura.220

Normalmente incluem uma lista comentada das recentes aquisições bem


como de livros de interesse atual, artigos especializados sobre as diferentes
formas de atuação da biblioteca e relatos ilustrados sobre assuntos de in-
teresse local que tenham relação com a biblioteca. Esses periódicos devem
normalmente ser distribuídos gratuitamente, para que atendam à sua fina-
lidade. Os custos de impressão e mão de obra são geralmente proibitivos,
a menos que seja possível conseguir um número suficiente de anúncios.

5644 Vitrina
Outra forma reconhecida de publicidade que pode ser adotada pelas
a terceira lei 203

bibliotecas consiste em organizar exposições ocasionais. Algumas biblio-


tecas da Califórnia instalaram vitrinas onde os livros são expostos. Através
de uma variação criteriosa na seleção e disposição do material exposto,
livros que ficariam ‘dormindo nas estantes’ podem com essa ajuda en-
contrar seus leitores.

5645 Rádio
O rádio é outro veículo que pode muito bem ser utilizado para a publi-
cidade das bibliotecas. Bibliotecas norte-americanas estão utilizando este
meio com um sucesso extraordinário. Por exemplo,

Várias bibliotecas de Iowa transmitem palestras ocasionais, enquanto as bibliote-


cas do Iowa State College e Des Moines têm mantido programas regulares nos
anos recentes. Duas bibliotecas públicas, Des Moines e Davenport, embora a
280 km uma da outra, estão cooperando numa transmissão semanal de quin-
ze minutos de duração, oferecendo recensões de livros e revistas, bem como
informações gerais sobre livros e autores [...] cartas expressando interesse e
solicitando informações foram recebidas de ouvintes situados a até 1 200 km
de distância.221

Entretanto, o relatório apresentado à conferência da American Library As-


sociation, de 1930, pela comissão de radiodifusão para bibliotecas, declarou
que parece haver um consenso de que a utilidade dessa radiodifusão “tal
como conduzida presentemente, ainda precisa ser comprovada. Embora
haja óbvias vantagens há também muitas dificuldades que permanecem
insuperáveis.”222

5646 Cartazes
Algumas bibliotecas anunciam seus serviços por meio de cartazes. Na
verdade, não há nenhuma forma direta de publicidade que as bibliotecas
não possam adotar. Vejamos este relato de uma forma inventiva e radical de
anúncio, que sabe aos métodos de marketing de uma empresa comercial:

Durante a feira anual, que dura de oito a dez dias [...], para fazer a publicidade
do sistema de bibliotecas municipais da Califórnia, o grande mapa, com ilu-
minação elétrica, usado na conferência da ala em Filadélfia, que mostrava a
localização dessas bibliotecas, foi instalado em lugar de destaque no pavilhão
da agricultura. Para dar mais ênfase a essa publicidade, as bibliotecas custe-
aram a fabricação de milhares de ventarolas, trazendo num lado o símbolo da
biblioteca e no outro informações sobre as bibliotecas municipais da Califórnia.
A cada dia, um bibliotecário municipal e um membro do pessoal da biblioteca
estadual distribuíam ventarolas às multidões de adultos. As ventarolas serviam
para sugerir muitas perguntas pelos visitantes e ofereciam a oportunidade de
explicar o sistema de bibliotecas municipais e ilustrar, com o mapa iluminado,
204 as cinco leis da biblioteconomia

pontos que precisavam ser esclarecidos visualmente. Moradores dos condados


da Califórnia onde não havia biblioteca [...] estavam entre os interessados nesta
original peça publicitária.223

5647 Conversa Pessoal


Entretanto, de longe o método mais simples e menos dispendioso
de publicidade é a conversa pessoal direta. Este método pode converter
muitas pessoas em leitores regulares, se a biblioteca tiver no seu quadro
de pessoal um ou dois funcionários com o jeito necessário e capacidade
de expressão para falar em reuniões de prováveis leitores. A experiência
ensinou que, para que essas apresentações sejam eficientes, não se deve
gastar muito tempo com assuntos vagos e genéricos como os benefícios da
leitura ou os serviços de uma biblioteca em geral. Depois de uma menção
preliminar bem curta a temas dessa natureza, deve-se passar rapidamente
para as informações específicas, ressaltando os serviços que a biblioteca
em questão pode oferecer aos participantes da reunião. Talvez convenha
mostrar estatísticas comparadas de número de leitores registrados e de
empréstimo de livros. Ao mesmo tempo, o apresentador não se deve dei-
xar levar pelo entusiasmo de prometer mais serviços do que aquilo que as
limitações do pessoal e do acervo permitirão. As reações a essas promessas
não-cumpridas causarão mais danos do que benefícios à Terceira Lei.

5648 Exemplo
A tabela e o gráfico anexos, que mostram o crescimento dos emprésti-
mos na biblioteca da universidade de Madras, ilustram o resultado desses
apelos pessoais.

Ano Número de Ano Número de Ano Número de


volumes volumes volumes
1914 5 100 1920 22 236 1926 42 336
1915 11 600 1921 27 920 1927 70 914
1916 11 600 1922 24 975 1928 79 756
1917 14 000 1923 22 339 1929 99 600
1918 15 000 1924 20 075 1930 113 321
1919 15 300 1925 27 629

Em 1927, foram feitas várias visitas às repúblicas de estudantes e palestras


para pequenos grupos de alunos de graduação sempre que havia uma
oportunidade. Professores de faculdades que tinham interesse pelo assunto
foram solicitados a mencionar em suas aulas os serviços oferecidos pela
biblioteca. Vê-se pela acentuada subida do gráfico, em 1927, que esses
tranquilos apelos pessoais tiveram o efeito desejado. Em anos seguintes,
como o aumento no quantitativo de pessoal não acompanhou o ritmo do
a terceira lei 205

aumento do trabalho na seção de referência e no balcão de empréstimo,


achou-se necessário suspender essa campanha de publicidade, embora
com grande relutância. Mas há uma grande necessidade de retomá-la e
mantê-la, se se quiser servir adequadamente aos interesses da Terceira Lei.

57 Serviço de Extensão
Além desses métodos de publicidade pura, as bibliotecas hoje em dia
desenvolvem certos tipos novos de trabalho que, além de serem direta-
NÚMERO DE VOLUMES EDITADOS NUM ANO

ANO

mente educativos ou recreativos, resultam também em publicidade como


um produto secundário importante. Estas novas linhas de atuação podem
206 as cinco leis da biblioteconomia

ser tratadas como o ‘serviço de extensão’ das bibliotecas. Pode-se dizer que
o objeto do serviço de extensão representa uma tentativa de transformar a
biblioteca num centro social, cuja função é o estímulo à leitura. Sua fina-
lidade consiste em transformar não-leitores em leitores, criar e estimular
o desejo pela boa leitura e reunir o livro ao leitor. As bibliotecas que estão
sob a influência da Terceira Lei valorizam bastante estes objetivos e se
dedicam ao serviço de extensão com grande empenho.

571 Leitura para Analfabetos


Uma forma de serviço de extensão que é muito urgente em nossas
bibliotecas de hoje é a instituição do ‘sistema de leitura’. Em decorrência
da alta porcentagem de analfabetismo, a presente geração de adultos
analfabetos somente pode usufruir os benefícios do serviço bibliotecário se
os livros forem lidos para eles, em horários predeterminados, por leitores
remunerados por esse trabalho ou por voluntários, que sejam motivados
por um espírito de serviço comunitário. Vimos no capítulo 3 como este
‘sistema de leitura’, associado à formação de clubes para erradicação do
analfabetismo, até mesmo converteu muitos adultos analfabetos em ávidos
leitores, na Rússia, após a Primeira Guerra Mundial. Não existe razão al-
guma pela qual as bibliotecas, com esta faceta da extensão adequadamente
desenvolvida, não possam também oferecer uma solução confiável para
o problema da educação de adultos na Índia.

572 Tradução em Manuscrito


Devido à escassez de livros sobre ideias atuais nas línguas do sul da
Índia, essa modalidade de serviço de extensão pode ser ainda mais am-
pliada. Para induzir e manter os interesses dos trabalhadores analfabetos
pelos livros e pela sua audição, seria necessário ler para eles não somente
livros de natureza religiosa ou recreativa, mas também livros com co-
nhecimentos úteis, que tratem de seus afazeres diários e que levem a um
aumento da eficiência de seu trabalho. Na ausência destes livros na língua
materna e na ausência de qualquer perspectiva de que estes livros sejam
impressos, o único recurso praticável seria que a biblioteca preparasse
uma tradução manuscrita de livros adequados do inglês e que estes ma-
nuscritos fossem lidos em voz alta. Talvez seja possível encontrar, entre os
moradores locais conhecedores do inglês, pessoas dispostas a fazer essa
tradução como um serviço comunitário. Se cada biblioteca num distrito
assumir o compromisso de traduzir um ou dois livros por ano e todos esses
livros manuscritos forem sistematicamente permutados entre as diversas
bibliotecas, num tempo razoável uma parcela apreciável de conhecimentos
estará disponível. Esta me parece ser a única maneira prática de romper
o círculo vicioso da lei da oferta e da procura, caso nenhuma instituição
a terceira lei 207

não-comercial competente, como o Estado ou as universidades, assuma


a responsabilidade pela oferta inicial desses livros sobre conhecimentos
úteis. Mas esta etapa final do serviço de extensão constitui apenas um
expediente estritamente temporário, que se tornará dispensável tão logo
surja um mercado para ser assumido pelas editoras comerciais.

573 Círculos de Leitura


Uma segunda forma de trabalho de extensão que as bibliotecas podem
realizar é organizar círculos de leitura. As pessoas interessadas em deter-
minados assuntos, seja por razões de lucro ou prazer, podem reunir-se
por iniciativa da biblioteca, de modo a formar um círculo de leitura. Cada
círculo pode ter um líder e entre dois e cinco membros. A biblioteca pode
oferecer meios adequados para os círculos de leitura no que se refere a
livros, periódicos e locais de reunião. Para tal fim a biblioteca deve dispor
de um conjunto adequado de pequenas salas para seminários. Os círculos
de leitura são normalmente instrumentos eficazes para a utilização integral
dos recursos da biblioteca nas respectivas áreas temáticas, e, a partir do
momento de sua formação, propiciam uma satisfação fora do comum à
Terceira Lei.

574 Centro Intelectual


Uma das condições necessárias para que estas instituições se tornem
populares está na promoção de um sentimento de cordialidade e ajuda
mútua entre os que oferecem o serviço e os que são servidos, além do
espírito de dedicação. Para tanto, a biblioteca deve fazer de tudo para
reduzir a formalidade ao mínimo e para que todos se sintam à vontade.
Como uma extensão natural desta atitude, a biblioteca moderna esforça-se
ao máximo para estabelecer contatos pessoais e sociais e com frequência
se oferece para abrigar reuniões de organizações culturais locais, na tenta-
tiva de fazer com que elas, como parcelas representativas da comunidade
em geral, percebam que a biblioteca almeja funcionar como um centro
intelectual da localidade. Essas reuniões oferecem oportunidades para a
Terceira Lei mostrar suas proezas.

5741 Exemplo
Podem-se inferir as possibilidades dessa modalidade de serviço de
extensão a partir da

seguinte lista, apresentada por uma pequena biblioteca municipal inglesa, das
associações que lá se reuniam regularmente: a associação de veteranos militares,
a associação dos criadores de pássaros de gaiola, o clube de xadrez, o clube
do jogo de damas, a organização de meninos da Igreja anglicana, a reunião de
mães da Igreja, a associação de jovens e adultos da Igreja anglicana, a associação
208 as cinco leis da biblioteconomia

de dança folclórica, duas ou três associações beneficentes, a reunião das mães


da Igreja livre, a associação dos jardineiros, a associação dos quitandeiros, o
sindicato dos agricultores, o sindicato nacional de professores, a associação de
radioamadores, o instituto de promoção da mulher e a associação de educação
de adultos.224

575 Palestras na Biblioteca


Outra modalidade comum de serviço de extensão consiste na orga-
nização de palestras para o público nas dependências da biblioteca. Para
tal fim, todos os prédios modernos de bibliotecas contam com espaçosos
auditórios, com palcos, equipamento de projeção de diapositivos e filmes e
outros recursos afins. Além de convidar as associações locais para realizar
palestras no auditório da biblioteca, esta frequentemente organiza palestras
especiais ministradas tanto por membros do seu quadro de pessoal, quanto
por especialistas externos. Uma característica especial destas palestras na
biblioteca está na divulgação de uma lista seletiva de livros sobre o assunto
da conferência, que podem ser consultados ou tomados emprestados da
biblioteca. Os temas escolhidos para essas palestras são normalmente de
interesse local ou atual. Assuntos científicos também podem ocupar boa
parte da programação. As palestras não devem limitar-se exclusivamente
a temas de natureza religiosa, filosófica ou literária. É preciso ter o cuidado
de abrir o leque de assuntos e dar lugar a todas as vertentes do pensamento
contemporâneo. Sempre que possível, é conveniente ilustrar as conferências
com a projeção de diapositivos e filmes cinematográficos.

5751 Kalakshepam
Esta tradição peculiar do sul da Índia, que apresenta uma feliz combi-
nação de música e fala, oferece enorme potencialidade como instrumento
desta modalidade de serviço de extensão. Mas se deve ter a devida cautela,
também neste caso, de afastar o kalakshepam da limitada rotina de temas
que a tradição parece lhe ter destinado.

5752 Música
Nas bibliotecas dos países ocidentais, onde se desconhece o kalakshepam,
o auditório é utilizado para concertos musicais muito frequentemente. Isto
permite à Terceira Lei encontrar leitores para a quantidade relativamente
grande de música impressa normalmente disponível nessas bibliotecas.

576 Exposição na Biblioteca


Não é raro expor no auditório os recursos da biblioteca que tratam do
evento que ali esteja acontecendo. Algumas vezes, organiza-se também
uma exposição regular destes materiais num salão próximo, pelo qual
os espectadores têm que passar ao término da função. Os livros a que se
a terceira lei 209

fez referência no auditório são cuidadosamente exibidos sobre algumas


mesas, com as gravuras mais atraentes saudando quem passa pelo salão.
Competentes recepcionistas da biblioteca pacientemente se postam ao
lado dos itens em exposição, aguardando a pessoa cujo olhar recairá sobre
esses objetos. Assim que essa pessoa é identificada, o rosto da recepcionista
imediatamente se ilumina e, com um sorriso cativante, oferece o livro para
que o leia em casa. Talvez essa pessoa, não estando registrada como usuário
da biblioteca, se sinta embaraçada; mas, antes que se refaça de sua timidez,
a experiente recepcionista oferece espontaneamente: “Não se preocupe,
mesmo que não esteja registrado, poderá, se quiser, fazer um empréstimo
especial hoje.” Enquanto estas palavras estão sendo ditas, algumas papeletas
vermelhas e verdes são inseridas no livro antes de ele ser oferecido à pessoa
atônita, com estas palavras animadoras: “Leve-o para casa. Espero que se
lembre de devolvê-lo assim que terminar a leitura ou, então, dentro de duas
semanas, o que ocorrer primeiro.” Quando este homem maravilhado chega
a casa e folheia as páginas do livro com uma excitação contida, as papeletas
vermelhas e verdes o recebem com frases do estilo “Você está pagando
para a manutenção desta biblioteca; por que não a usa?” “Para se inscrever
na biblioteca a única formalidade é preencher e assinar um formulário.” E
assim por diante. É muito raro que a psicologia ousada desta modalidade
de serviço de extensão leve a pessoa a propositalmente se apossar do livro
de modo permanente para uso particular.

577 Hora do Conto


Do mesmo modo que as palestras para adultos, as bibliotecas organi-
zam também horas de contação de histórias, palestras com projeção de
diapositivos, apresentações teatrais e outras formas atraentes de serviço
de extensão, bem como empréstimos especiais, para estabelecer contato
com as crianças da localidade. Além disso, não é raro a biblioteca organi-
zar espetáculos de teatro de grupos amadores. Mas, em todos estes casos,
não se trata de atividades que se justifiquem por si mesmas, pois todas
se destinam a servir como instrumentos para a suprema satisfação da
exigente Terceira Lei.

578 Festivais e Feiras


Outra modalidade de serviço de extensão é a celebração de festivais
locais e de datas especiais do ano, comemorativas de pessoas ou moti-
vos relevantes, bem como a participação em feiras locais. Também aqui
a demanda da Terceira Lei é sempre mantida em primeiro plano. Em
nosso próprio país, onde essas comemorações ainda atraem multidões,
esta modalidade de serviço de extensão apresenta-se repleta de grandes
potencialidades que favorecem a causa da Terceira Lei.
210 as cinco leis da biblioteconomia

58 Seleção de Livros
Antes de nos despedirmos da Terceira Lei, talvez não seja desproposita-
do lembrar uma importante relação entre ela a seleção de livros. Ao discutir
as implicações financeiras da Segunda Lei, tivemos o ensejo de tratar desta
questão de um ponto de vista levemente diferente. Pode-se ver facilmente
que uma das formas de cumprir as exigências da Terceira Lei consiste em
tratar com a maior importância as predileções e exigências da clientela da
biblioteca no trabalho de seleção de livros. Alguns dos fatores através dos
quais se podem inferir os gostos e as necessidades da clientela são:
1) as sugestões recebidas diretamente dos leitores,
2) as sugestões anotadas pelos assistentes no balcão de referência
rápida,
3) as notas feitas diariamente pelo pessoal da referência que esteja
atendendo aos leitores,
4) as principais ocupações do público local,
5) os eventos futuros de importância nacional ou local,
6) as impressões obtidas em entrevistas com os principais membros
da comunidade local e assim por diante.

581 Seleção ao Acaso


Se, dessa maneira, os livros forem selecionados levando em conta sua
provável demanda, as dificuldades da Terceira Lei serão muito reduzidas.
Mas não se deve deduzir disso que a biblioteca precise obedecer submissa-
mente às demandas dos leitores e que não tenha responsabilidade alguma
em orientar a clientela, constante e conscientemente, para que seu gosto
pela leitura trilhe caminhos benéficos. A Terceira Lei nada tem a questio-
nar quanto a esse objetivo da seleção de livros, mas ela reclamaria contra
uma seleção feita ao acaso, que fosse totalmente indiferente às exigências
imediatas e futuras dos leitores. A ameaça da proximidade imediata de
vencimento do prazo para empenho de uma verba às vezes força a auto-
ridade responsável pelas bibliotecas a se valer exclusivamente da primeira
lista ou catálogo de editora que o acaso colocar em suas mãos. Este é um
perigo que deve ser evitado. A seleção de livros é um trabalho que deve
ser realizado diariamente e tendo em conta as exigências dos leitores, o
movimento editorial e os recursos disponíveis.
a terceira lei 211

CAPÍTULO 6

A QUARTA LEI

60 Introdução
Vimos, nos cinco capítulos anteriores, que a preocupação principal das
três primeiras leis da biblioteconomia consiste em fazer com que os livros
da biblioteca sejam usados tão intensamente e por tantas pessoas quanto
possível. Vimos também que, por mais axiomáticas que pareçam ser, essas
leis começaram realmente a se afirmar como conceitos correntes somente
nas últimas décadas. Além disto, examinamos algumas de suas implicações
e descrevemos as mudanças que estão provocando na perspectiva das bi-
bliotecas e nos vários aspectos da política e da administração bibliotecária.

601 Comparação
Veremos neste capítulo que a Quarta Lei da biblioteconomia esclarece
mais alguns desses problemas. Ela faz sua abordagem pelo lado dos lei-
tores, do mesmo modo que a Segunda Lei. Talvez se possa até dizer que
o interesse da Quarta Lei está centrado quase exclusivamente nos leitores.
Admitindo como verdadeiro que os livros são para usar, que a cada
leitor ou leitora se deve proporcionar seu livro e que cada livro deve
ser ajudado a encontrar seu leitor ou leitora, resulta que se projete a
administração da biblioteca de modo compatível. Na companhia da Quinta
Lei, a Quarta Lei se preocupa com a situação que surge à proporção que
são atendidos os requisitos das três primeiras leis. Ao lidar com os novos
problemas disso decorrentes, ela introduz o elemento tempo e concentra
sua atenção inteiramente no aspecto temporal do problema.

602 Enunciado
Poupe o tempo do leitor — eis a Quarta Lei da biblioteconomia. Talvez
não seja tão evidente por si mesma como as outras. Não obstante, tem sido
responsável por muitas reformas na administração de bibliotecas e é grande
seu potencial para promover muitas outras reformas no futuro. Talvez o
método mais conveniente de estudar as consequências desta lei seja acompa-
nhar um leitor desde quando ele entra na biblioteca até o momento em que
sai, examinando criticamente cada processo pelo qual ele passa, prestando
atenção na economia de tempo que pode ser obtida em cada etapa.
211
212 as cinco leis da biblioteconomia

61 Sistema ‘Fechado’
Talvez a primeira coisa que o leitor faz, ao entrar na biblioteca, é de-
volver os livros que usou. Contudo, será conveniente adiar o exame deste
processo, para vê-lo junto com o método de empréstimo, pois as duas
operações são, por sua natureza, interdependentes.

611 Solicitação e Anotação


Por conseguinte, o processo principal a ser estudado em primeiro lugar
à luz da Quarta Lei é a escolha dos livros. Numa biblioteca ‘fechada’, isso
tem que ser feito inteiramente com a ajuda do catálogo. O catálogo de uma
biblioteca em crescimento é do tipo em fichas ou em pastas. Se for deste
último tipo, mesmo numa biblioteca pequena como a da universidade de
Madras, com apenas 70 mil volumes, o catálogo se estende por catorze
volumes in-fólio. Na British Museum Library, “o catálogo geral em pastas
ocupa atualmente mais de mil volumes”.225 Um cabeçalho comum, como
‘Smith’, ocupa sozinho um volume. Além da ocorrência inevitável de cer-
tos cabeçalhos gerais, como ‘Academies’ e ‘Periodicals’, que acrescentam
outras complicações. Naturalmente perde-se muito tempo na procura
dos títulos de que se precisa nesse labirinto de entradas. Uma vez locali-
zados, é preciso anotá-los com grande precisão em papeletas individuais
e entregá-las ao funcionário postado atrás de uma divisória. Em seguida
vem a mortificante espera, de alguns minutos em pequenas bibliotecas e
até horas em grandes bibliotecas. Não é incomum os leitores da biblioteca
do British Museum pedirem os livros logo de manhã e recebê-los depois
do almoço. Alguns leitores previdentes chegam a entregar suas papeletas
de pedidos na véspera para ganhar tempo no dia seguinte.

612 Causas de Frustração


Se for uma biblioteca muito procurada, a perda de tempo causada
pela procura de referências no catálogo e pela espera junto ao balcão pode
ocorrer várias vezes antes de se conseguir o livro certo. Estas recorrências
podem ser devidas a muitas causas. Passado algum tempo, a papeleta
pode ser devolvida com a anotação ‘entrada incorreta’. Uma parte essencial
da referência pode ter sido escrita com erro, e tornar impossível a loca-
lização do livro. O conjunto de números, que formam a cota ou número
de chamada, pode ter sido copiado erradamente. A substituição de uma
letra minúscula por uma maiúscula ou a omissão de um ponto ou de uma
vírgula poderá fazer toda a diferença. Ou a papeleta pode voltar com a
observação ‘emprestado’ ou ‘em uso’. Assim, o velho processo de escolha
e espera tem que ser repetido. Antes de a biblioteca da universidade de
Madras mudar para o ‘livre acesso’, vários casos costumavam acontecer
quase que diariamente quando o processo tinha que ser repetido algumas
a quarta lei 213

vezes até o leitor conseguir um livro. Além disso, quando o livro realmente
chega, talvez não seja aquele que o leitor imaginava ou, por algum motivo,
não lhe serve. A entrada do catálogo pode não ter dado uma indicação
suficientemente clara da natureza do livro. Isso implica a repetição de todo
o processo outra vez. Estas características podem “fazer com que a escolha
de livros cause profundo mal-estar e seja um trabalho desagradável”.226

613 Medida da Perda de Tempo


O tempo médio que um leitor perdia no balcão da biblioteca da univer-
sidade de Madras em 1928 (um pouco antes que o sistema de livre acesso
fosse introduzido) era de cerca de meia hora. A natureza colossal dessa
perda pode ser percebida se somarmos durante um ano inteiro o tempo
perdido pela comunidade como um todo. Tomemos como unidade con-
veniente de medida uma pessoa que trabalhe por uma hora. Chamemos a
isso de uma ‘hora-homem’. Ora, o número médio de usuários da biblioteca
era de 200 por dia. Desta forma, 100 homens-hora eram desperdiçados
por dia ou seja 36 500 homens-hora por ano. Para entender o significado
econômico disso, façamos a conversão para dinheiro. Um salário mensal de
75 rupias corresponderia a meia rupia por homem-hora. Mesmo com esta
equivalência baixa, o prejuízo pelo qual o ‘sistema fechado’ da biblioteca
da universidade de Madras foi responsável em 1928 alcançou cerca de 18
250 rupias por ano. Ao examinar a conta de perdas e ganhos do sistema
de livre acesso, deve-se dar o devido peso a este aspecto da questão. A
Quarta Lei insiste que, ao decidir grandes questões de política, tais como
o sistema de livre acesso versus sistema ‘fechado’, deve ser adotado o es-
pírito do método moderno de contabilidade de custos, bem como serem
traçadas perspectivas de longo prazo, abrangentes e minuciosas, sobre a
comunidade e a biblioteca como um todo. Não se deve adotar uma atitude
alarmista, dando destaque à perda provável ou real de alguns volumes
por ano ou assumindo qualquer outra visão parcial do assunto.

614 Influência da Metodologia Comercial


Em comunidades modernas, como as dos Estados Unidos e da Ingla-
terra, para as quais tempo é dinheiro e dinheiro é tempo, o lema da Quarta
Lei — poupe o tempo do leitor – parece ter produzido uma impressão
profunda. Ademais, as tendências recentes na evolução da metodologia
comercial e da rápida difusão do conhecimento sobre ‘contabilidade de
custos’ não somente entre os dirigentes, mas mesmo entre a população
em geral, levaram essas comunidades à conclusão de que na balança das
vantagens o prato pende decididamente a favor do sistema de livre acesso.
Neste sistema, o prejuízo causado pela espera no balcão é inteiramente
eliminado, bem como o prejuízo causado pelo andar arrastado das con-
214 as cinco leis da biblioteconomia

sultas em catálogos desajeitados é reduzido ao mínimo e podem até ser


inteiramente desnecessárias para muitos leitores comuns.

615 Sistema de Mostrador


Antigamente, houve uma primeira tentativa para eliminar a perda
de tempo causada por livros que estavam emprestados. Consistiu essa
tentativa na original invenção do ‘sistema de mostrador’.

Um mostrador de biblioteca [library indicator], como o nome implica, é um


dispositivo para mostrar ou registrar informações a respeito dos livros. A in-
formação comumente levada ao público mostra, de alguma forma, a presença
ou ausência dos livros, e os métodos empregados com esse fim quase sempre
utilizam números que são apresentados de maneira a indicar quais os livros
que estão na biblioteca e quais os que estão fora da biblioteca.227

Vários modelos de mostradores foram inventados desde 1870. Em todos


os casos, uma grande parte do balcão era ocupada para acomodar essas
engenhocas mecânicas, o que criava novos problemas.

616 Livre Acesso


Mas na medida em que a Quarta Lei foi gradualmente se afirmando e
insistindo para que também fosse poupado o tempo perdido na busca de
títulos nos catálogos e na espera subsequente até os livros serem entregues
pelos funcionários, os mostradores foram sendo lentamente desativados
e o sistema de livre acesso passou a ser visto como o único dispositivo
satisfatório para poupar o tempo do leitor. Assim, os pleitos favoráveis
ao sistema de livre acesso, já defendido pela Segunda e pela Terceira Lei,
foram reforçados pela Quarta Lei, com base na economia nacional.

62 Arranjo nas Estantes


O interesse da Quarta Lei não se esgota, entretanto, com a introdução
do acesso livre. Ela também se interessa pela reforma do arranjo dos livros
nas estantes. Numa biblioteca de acesso livre, a natureza da disposição
dos livros nas estantes pode ajudar ou atrapalhar a missão da Quarta Lei.

621 Arranjo Alfabético


Um método antiquado que ainda parece persistir em algumas das
nossas bibliotecas é o do arranjo alfabético pelos nomes dos autores. Na
maioria dos casos, porém, o interesse dos leitores orienta-se pelo assunto e
não pelos autores. Mesmo em literatura, os autores de biografias e críticas
não são tão importantes quanto o escritor que constitui o próprio assunto
da biografia ou da crítica.
a quarta lei 215

6211 Exemplo
Acompanhemos agora nosso leitor, para quem a Quarta Lei assegurou
o ingresso no recinto das estantes e suponhamos que ele esteja interessado
em mecânica ondulatória e que deseja ver o maior número possível de
livros sobre o assunto. Se a biblioteca adotar o arranjo alfabético, ele terá
que compulsar os livros de a a z até localizar os seus, pois existe aproxima-
damente a mesma probabilidade de cada letra do alfabeto ser a letra inicial
dos nomes dos autores dos livros sobre aquele assunto. Por exemplo, eis
alguns títulos sobre mecânica ondulatória, que a biblioteca talvez possua:

Biggs, H.F. Wave mechanics.


Birtwistle, George. New quantum mechanics.
Bligh, N.M. Evolution and development of the quantum theory.
Born, Max. Elementare Quantenmechanik.
Condon, Edward U. Quantum mechanics.
De Broglie, Louis. Mécanique ondulatoire.
De Broglie, Louis. Selected papers on wave mechanics.
Flint, H.T. Wave mechanics.
Fowler, R. H. Passage of electrons through surface and surface films.
Haas, Arthur. Wave mechanics and the new quantum theory.
Lande, A. Neuere Entwicklung der Quantentheorie.
Rice, James. Introduction to statistical mechanics.
Schrodinger, E. Collected papers on wave mechanics.
Schrodinger, E. Four lectures on wave mechanics.
Sommerfeld, Arnold. Lecture on wave mechanics.
Sommerfeld, Arnold. Wave mechanics.
Wilson, W. Relativity and wave mechanics.

Vejamos a extensão das prateleiras que os olhos devem percorrer. Supondo


que 12 volumes ocupem, em média, 30 cm, os olhos terão de percorrer
lombadas equivalentes a pouco mais de 1 600 m de livros, e isso numa
biblioteca de 70 mil volumes. Imagine-se o tempo exigido por esse processo.

622 Arranjo Classificado


Por outro lado, suponhamos que os livros da biblioteca estejam ar-
ranjados de forma classificada, detalhadamente, por assuntos. Assim, a
mecânica ondulatória será uma das classes importantes e os olhos terão
que percorrer somente de 30 a 60 cm de lombadas. Em outras palavras,
o leitor poderia ver quase todos eles num único relance de olhos. Isso fez
com que a Quarta Lei apoiasse os apelos pelo arranjo dos livros em ordem
de classificação. Vimos que a Segunda e a Terceira Lei também preferem
este arranjo. Cada lei aborda o problema do arranjo dos livros nas estantes
a partir de um ângulo diferente, mas, felizmente, todas suas conclusões
coincidem.
216 as cinco leis da biblioteconomia

623 Posição Relativa das Classes


A Quarta Lei poderá esclarecer ainda mais sobre o arranjo. Em pri-
meiro lugar, ela recomenda que as classes situadas em estantes adjacen-
tes devam ter a maior afinidade possível. O leitor que esteja interessado
principalmente por filosofia com certeza terá algum interesse por religião
e por psicologia. Então, para poupar o tempo dessa classe de leitores, é
aconselhável colocar religião de um lado da filosofia e psicologia no outro
lado. Igualmente, deve-se ter sempre em mente a Quarta Lei na fixação da
posição relativa também das outras classes.

624 Posição Absoluta das Classes


Além da posição relativa, a posição absoluta das classes também tem
que ser definida em conformidade com a Quarta Lei. A classe que estiver
em maior demanda será colocada nas prateleiras mais próximas do recinto
das estantes, e a que for menos procurada deve, normalmente, ser colocada
mais afastada. Por exemplo, para cada livro de geologia emprestado mais
de cem livros de literatura são emprestados na biblioteca da universidade
de Madras. O histograma da página 217, que mostra a popularidade re-
lativa de diferentes classes de assuntos nessa biblioteca, esclarece melhor
a importância deste aspecto do arranjo das estantes. Nota-se que cerca de
um terço dos empréstimos dessa biblioteca é de livros da classe de litera-
tura. Portanto, a fim de poupar o tempo do maior número de leitores, a
biblioteca deve acomodar a classe de literatura perto da entrada do recinto
das estantes. Assim, os livros de referência rápida, como cadastros, anuários,
dicionários e enciclopédias, serão colocados tão próximos quanto possível
do balcão, de modo que os leitores não tenham de perder tempo para
consultá-los. Embora esta recomendação da Quarta Lei possa parecer muito
óbvia, é interessante registrar que, há não muito tempo, uma grande bi-
blioteca costumava colocar a coleção da Encyclopaedia britannica no terceiro
conjunto de estantes. As aquisições recentes geralmente estão em grande
demanda. Por isso, em atenção à Quarta Lei, será necessário colocá-las
juntas, perto do balcão, durante um período limitado de tempo. Vimos,
no último capítulo, a utilidade desta prática à luz também da Terceira Lei.

63 Sinalização do Recinto das Estantes


Supondo que o leitor tenha acesso à área onde ficam as estantes e que
o arranjo relativo e absoluto dos livros esteja de acordo com os requisitos
da Quarta Lei, ele naturalmente ficará perplexo com a aquela sucessão
de livros à sua volta e poderá perder muito tempo até chegar à prateleira
onde está a classe dos livros de que precisa. Para poupar o tempo do leitor
nesta etapa, a biblioteca deve instalar um sistema eficiente de sinalização
no local das estantes.
a quarta lei 217

631 Planta do Local e Placas Indicativas


Convém colocar na entrada do local onde ficam as estantes uma
grande planta dessa área, bem visível, que mostre a disposição delas
e as classes de assuntos que contêm. Além disso, convém colocar nas
extremidades de cada fileira de estantes uma placa indicativa onde as
classes de assuntos presentes nesse renque sejam informadas de maneira
estudada para chamar a atenção do leitor. Na biblioteca da universidade
de Madras essas placas são afixadas em molduras retangulares de madei-
ra de 45 cm × 15 cm, projetando-se para fora da lateral da última estante
da fileira. Placas similares devem também ser colocadas nas estantes de
cada fileira. Algumas bibliotecas, que permanecem abertas depois que
anoitece, utilizam placas indicativas iluminadas.

HISTOGRAMA DO NÚMERO
DE VOLUMES EMPRESTADOS
SOBRE DIFERENTES ASSUNTOS
EM 1927
LITERATURA
NÚMERO DE VOLUMES EMPRESTADOS

EDUCAÇÃO
MATEMÁTICA
GENERALIDADES

CIÊNCIAS NATURAIS EM GERAL

HISTÓRIA
PSICOLOGIA

ECONOMIA
FILOSOFIA
CIÊNCIA EM GERAL

MEDICINA
ENGENHARIA

ARTES APLICADAS

POLÍTICA
TECNOLOGIA

DIREITO
RELIGIÃO
QUÍMICA

FILOLOGIA

GEOGRAFIA
AGRICULTURA

BELAS-ARTES
BOTÂNICA
GEOLOGIA
FÍSICA

SOCIOLOGIA
ZOOLOGIA
218 as cinco leis da biblioteconomia

632 Etiquetas de Prateleiras


Além disso, toda prateleira deve também receber a necessária quanti-
dade de etiquetas de prateleiras. É possível que o número destas etiquetas
seja bem grande. Na biblioteca da universidade de Madras, a quantidade
de prateleiras em uso, atualmente, é de cerca de 3 500, que contêm em torno
de seis mil etiquetas. A manutenção adequada de um número tão grande
de etiquetas constitui um problema. A natureza séria desse problema será
mais bem examinada quando o estudarmos à luz da Quinta Lei. Basta
aqui dizer que uma quantidade tão grande é necessária para poupar o
tempo do leitor com eficácia. Ao mesmo tempo, é preciso salientar que a
etiquetagem das prateleiras não deve ser excessiva. Um número exagerado
pode causar confusão para o leitor. A maioria das prateleiras comportará
duas etiquetas, enquanto algumas poderão receber uma e outras, três. Não
serão necessárias mais de três por prateleira. A biblioteca da universida-
de de Madras normalmente emprega para esse fim fichas catalográficas
inutilizadas. São cortadas de modo a formar etiquetas de 12,5 cm × 2 cm.
Cada ficha dá três etiquetas. O nome da classe mais importante situada
logo acima da etiqueta é escrito nela à mão, com traços grossos, de 1,50 cm
de altura. O número de classificação do assunto será acrescentado sempre
que houver espaço.

633 Etiquetas de Número de Chamada


Imaginemos então nosso leitor primeiro consultando a planta do local
na entrada do recinto das estantes. Depois, com a ajuda das placas indi-
cadoras que o cumprimentam no fim de cada corredor entre as estantes,
ele chegará facilmente ao corredor onde está o assunto de seu interesse.
Percorrendo o corredor, seu olhar passará pelas etiquetas das prateleiras até
chegar àquela onde está a classe importante, na qual é provável que estejam
os livros que procura. Em seguida, examinará a coleção nessa classe e fará
sua escolha. Se, por outro lado, ele já houver escolhido antes o livro de que
precisa, será necessária uma ajuda adicional que lhe permita apanhar preci-
samente esse livro, sem perda de tempo. Neste caso, o método mais rápido
para ele ter o livro em mãos será conhecer, antecipadamente, o número de
chamada do livro copiado com exatidão da ficha catalográfica. Supondo
que assim haja procedido, fica fácil constatar que deve haver indicações
adicionais com o número de chamada de cada livro. Essas indicações são
feitas com etiquetas ou rótulos afixados na lombada dos livros.

6331 Escolha da Etiqueta


As etiquetas devem ser afixadas e sobre elas escrito o número de cha-
mada, quando o livro está sendo catalogado. É muito difícil conseguir uma
etiqueta que possa aderir firmemente ao dorso do livro por um tempo
a quarta lei 219

razoável. Mesmo quando isso acontece, acaba ficando suja, com as letras
apagadas. Verificou-se que, afinal, sai mais econômico comprar etiquetas
especialmente feitas, do que cada biblioteca preparar suas etiquetas de
forma rudimentar. As mais úteis eram as etiquetas brancas circulares da
empresa Dennison, número a-144, que vêm com uma fina película de
cola. Custam cerca de uma rupia por milheiro. Encontram-se na Libraco
Limited, 62, Cannon Street, Londres, e.c. 4. É possível aumentar sua dura-
bilidade com a aplicação sobre elas de uma camada de verniz para papel
depois que são afixadas. Mesmo assim, têm de ser substituídas periódica
e sistematicamente. Não há nada mais desagradável à vista do que uma
etiqueta suja e meio-rasgada, desfigurando o dorso de um livro. Ademais,
dá uma impressão de descaso, que atenta contra a aparência limpa, como
se fosse uma loja, que a biblioteca deve mostrar ao leitor.* Na biblioteca
da universidade de Madras, que empresta cerca de 150 mil livros por ano,
foi preciso designar um atendente que leva cerca de dez horas por semana
para trocar as etiquetas. Todo esse tempo do atendente é gasto para pou-
par o tempo do leitor nessa etapa. Embora pareça uma despesa de vulto,
quando considerada do ponto de vista de uma biblioteca isolada, é, de fato,
uma economia do ponto de vista da comunidade em geral.

6332 Posição da Etiqueta


Antes de fechar este tópico, talvez valha a pena dizer que se pode
melhorar em muito a atratividade da estante afixando-se as etiquetas de
modo que fiquem todas alinhadas quando os livros estiverem na posição
vertical. Além da impressão de desmazelo, será cansativa para os olhos
do leitor a visão das etiquetas posicionadas em diferentes alturas, indis-
criminadamente. A experiência mostra que a posição mais adequada para
colar a etiqueta é de 2,5 cm a partir do pé do livro.

6333 Douração
O trabalho de ter frequentemente de trocar as etiquetas pode ser
evitado se o número de chamada for gravado diretamente na lombada
do livro. Para isso, usa-se o método comum de douração, adotado pelos
encadernadores. Talvez seja útil ensinar um assistente da biblioteca a fazer
a douração no recinto da biblioteca. Caso contrário, os livros são enviados
ao encadernador para a gravação dos números de chamada.

634 Trivial Somente na Aparência


Detalhes como estes podem parecer triviais para quem nunca viveu
a experiência de usar uma biblioteca. Com a limitada experiência de ma-

* São fabricadas, atualmente, etiquetas com aderência permanente, sobre as quais são
aplicadas películas transparentes, que sanam os problemas apontados no texto. (n.e.)
220 as cinco leis da biblioteconomia

nusear uns poucos livros soltos em seu gabinete particular, o leigo não
consegue imaginar facilmente as proporções que questões aparentemente
pequenas assumem numa biblioteca em crescimento que lida com milhares
de volumes e milhares de leitores. Por conseguinte, num país como o nosso,
quase sem tradição no que se refere a bibliotecas modernas, é provável que
as dificuldades enfrentadas pelos bibliotecários aumentem grandemente
devido ao fato de os outros não reconhecerem a magnitude do problema.
O bibliotecário, porém, precisa pensar nesses problemas e resolvê-los de
modo a poupar o tempo do leitor.

64 Entradas no Catálogo
Outro fator que pode levar o leitor a perder tempo na obtenção dos
materiais é o que se deve à inevitável natureza complexa da maioria dos
livros. Nem todos os livros são monografias. Muito frequentemente um
excelente estudo sobre um tema específico encontra-se num capítulo ou
mesmo em algumas páginas de um livro, cujo enfoque principal pode
ser outro assunto. Um estudante diligente pode querer conhecer todos os
recursos da biblioteca sobre seu tema de estudo, seja uma monografia, seja
uma parte de um livro maior. Se no catálogo houver somente uma única
entrada para cada livro sem oferecer remissivas analíticas, a única opção
que resta ao leitor será examinar livro por livro para descobrir qual o que
contém alguma informação sobre o assunto de seu estudo.

641 Exemplo 1
Suponhamos, por exemplo, que o leitor tenha interesse por estudos
de crítica literária sobre Matthew Arnold. Talvez haja uma meia dúzia de
livros na biblioteca exclusivamente sobre este assunto e que podem estar
juntos nas estantes. Mas, uma busca paciente pelo leitor irá revelar-lhe que
a biblioteca possui também muitos outros materiais sobre o assunto. Eis
alguns itens que ele pode julgar úteis:

Arnold, M. Poems, 4-16.


Palgave, F.T. Landscape in poetry, 257-278.
Swinburne, A. C. Essays and studies, 123-183.
Hutton, R.H. Literary essays, 310-360.
Quiller-Couch, A. Studies in literature, 231-245.
Ker, W.P. Art of poetry, 139-160.
Drinkwater, J. Victorian poetry, 86-90; 96-100; 121-123.
Grierson, H.J.C. Background of English literature, 68-114.
Grierson, H.J.C. Lyrical poetry from Blake to Hardy, 90-121.
Squire, S.J. Essays on poetry, 88-97.
Monroe, H. Poets and their art, 175-178.
Elliot, G.H. Cycle of modern poetry, 58-63.
a quarta lei 221

Faul, H.W. Matthew Arnold, 16-50; 99-105.


English Association. Essays and studies, v. 3, 71-91.
Traill, H.D. New fiction, 76-103.
Hutton, R.H. Modern guides to English thought, 105-149.
Hutton, R.H. Brief literary criticisms, 256-281; 288-303.
Stephen, L. Studies of a biographer, v. 2, 71-114.
Collins, J.C. Posthumous essays, 171-198.
Henley, W.E. Views and reviews, 75-82.
Birrell, A. Collected essays and addresses, v. 2, 170-198.
Raleigh, W. Some authors, 300-310.
Saintsbury, G. Essays in English literature, v. 2, 265-275.
Gosse, E. More books on the table, 381-387.
Williams, S.T. Studies in Victorian literature, 71-160.
Harrison, F. Selected essays, 1-19.
Walker, H. Age of Tennyson, 214-219.
English Association. Essays and Studies, v. 15, 7-19.
Hutton, R.H. Contemporary thought and thinkers, v. 1, 214-226.
Fitch, Joshua. Lives of Thomas and Matthew Arnold, 241-274.

Ora, para encontrar estas referências sozinho o leitor terá que folhear a
maioria dos livros nas estantes de literatura. A biblioteca talvez possua
centenas de livros sobre literatura. Mesmo que o leitor tenha a paciência de
fazer uma busca exaustiva, não há dúvida que precisará de muitas horas,
ou dias, para chegar a fazer a lista acima.

642 Exemplo 2
Vejamos outro exemplo. Faz algumas semanas, um eminente pesqui-
sador precisou consultar toda a literatura existente em nossa biblioteca
sobre o efeito Zeeman. Tínhamos apenas quatro livros exclusivamente
dedicados a esse assunto e, portanto, eram os únicos que se encontravam
na prateleira onde havia a etiqueta ‘Efeito Zeeman’. Nosso catálogo, porém,
tinha mais 17 referências:

Haas, A. Introduction to theoretical physics, v. 2, 125-132.


Konen, H. Licht und Materie, 360-388.
Watts, W.M. Study of spectrum analysis, 167-173.
Baly, E.C.C. Spectroscopy, 529-558.
Campbell, N.R. Series spectra, 73-78.
Johnson, R.C. Spectra, 27-30.
Kayser, H. Handbuch der Spectroscopie, B2, 611-672.
Back, N. Handbuch der experimental Physik, B2, 1-189.
Van vleck, J.H. Quantum principles, 230-257.
Hund, F. Linienspectrem, 78-111; 201-207.
Campbell, N.R. Modern electrical theory, 83-102.
Abraham, M. Theorie der Elektrizität, B2, 71-79.
222 as cinco leis da biblioteconomia

Stoner, E.C. Magnetism and atomic structure, 212-244.


Sommerfeld, A. Atomic structure and spectral lines, 294-303; 384-405.
Birtwistle, C. Quantum theory, 112-118.
Baly, E.C.C. Spectroscopy, v. 3, 308-416.
Andrade, E.N. da C. Structure of the atom, 501-581.

Quando estas 17 fichas vermelhas lhe foram apresentadas, ele ficou imen-
samente satisfeito e disse que tínhamos poupado muito do seu tempo com
essa catalogação analítica.

643 Pessoal do Catálogo


Isso nos leva ao aspecto econômico do trabalho de catalogação analí-
tica. As entradas de catalogação analítica somente poderão ser feitas se a
biblioteca contar com pessoal técnico adequado com elevadas qualificações
acadêmicas e completo treinamento profissional. Concluímos, depois de
quatro anos de experiência, que é preciso um quadro de cinco funcionários
de tempo integral para processar as aquisições anuais de uma biblioteca
que adquira seis mil volumes por ano, sendo necessárias em média seis
fichas por volume. Grosso modo, isto totaliza um custo médio de cerca de
10 anás por volume.

644 Evitar Desperdício Repetido


Para decidir se é prudente gastar essa quantia e manter esse quadro de
pessoal, a Quarta Lei estimula as autoridades bibliotecárias a analisarem
isso de um ângulo diferente, digamos, do ponto de vista nacional. Se essa
decisão não for tomada, qual será o desperdício de recursos com nossos
talentosos pesquisadores, altamente remunerados, que perderão algumas
horas de seu tempo nessas buscas? Além disso, se esse trabalho não for
realizado de forma definitiva e completa pelo pessoal da biblioteca, no
futuro muitas outras pessoas interessadas no efeito Zeeman perderão
seu tempo, tendo de repetir o mesmo processo de busca. Isto significará
desperdício repetido não somente do dinheiro da nação, mas também de
seus melhores cérebros. Não se deve permitir que a investigação científica
degenere em buscas desse tipo.

645 Evitar Obstáculos à Pesquisa


Todos os países do mundo são, na realidade, competidores em matéria
de investigação científica, e os pesquisadores de qualquer setor em nosso
país não devem estar sujeitos a obstáculos que podem ser evitados. Seu
precioso tempo deve ser economizado tanto quanto possível pelas biblio-
tecas com um trabalho completo de catalogação analítica.
a quarta lei 223

646 Divisão do Trabalho


Vejamos, igualmente, o prejuízo em âmbito nacional causado pelas
ações repetidas de professores e alunos, ano após ano, ao retirar livro após
livro da ampla coleção de literatura da biblioteca, a fim de elaborar uma
lista exaustiva dos recursos sobre Matthew Arnold. Será essa uma forma
econômica de empregar a força intelectual e o tempo de professores e alunos
de alta qualificação? A Quarta Lei perguntaria, ‘Não será mais econômico
do ponto de vista nacional adotar uma divisão do trabalho, selecionando
algumas pessoas para preparar essas listas exaustivas para todos os assuntos
possíveis?’ Este trabalho, feito uma vez, será útil para sempre.

65 Bibliografia
Ao examinarmos este aspecto da Quarta Lei, talvez seja oportuno
perguntar: ‘A catalogação analítica deve limitar-se aos livros ou deve
ser estendida também aos periódicos?’ Não há dúvida alguma de que o
conteúdo dos periódicos deve ser indexado de forma classificada para
poupar o tempo do leitor.

651 Índice de Periódicos


A quantidade de periódicos existentes chega a milhares (60 mil é uma
das estimativas).* Até mesmo a biblioteca da universidade de Madras pos-
sui cerca de mil títulos. A da Yale University recebe por volta de 11 500. Os
artigos sobre qualquer assunto são publicados de modo muito disperso em
grande número desses periódicos. O tempo exigido para listá-los está fadado
a ser muito longo. Não convém desviar o tempo de atarefados pesquisadores
para essa tarefa de listar os artigos. Por outro lado, seria mais econômico,
do ponto de vista da comunidade como um todo, que isso fosse feito por
pessoal especializado e tornado disponível para todos os pesquisadores. A
Quarta Lei chegaria, na verdade, ao ponto de retirar este serviço não só da
alçada de trabalhadores individuais, mas também das bibliotecas isolada-
mente e até mesmo de nações e o atribuiria a organizações internacionais.

652 Exemplo
Tomemos, por exemplo, um assunto recente como o efeito Raman.
Desde que sir C.V. Raman anunciou sua descoberta de um novo tipo de
radiação em sua histórica conferência de abertura da reunião da South
Indian Science Association, em Bangalore, no dia 16 de março de 1928,
muitos físicos do mundo inteiro voltaram sua atenção para este novo fenô-

* Apesar de todos os esforços, ainda não há consenso sobre o total de títulos de periódicos
científicos. As estimativas vão de 180 mil a 50 mil. Mais informações no sítio do issn (www..
issn.org) e no artigo de Carol Tenopir ‘Online databases – online scholarly journals: how
many?’ (Library Journal, v. 129, n. 2, p. 32, 1 Feb. 2004. (n.e.)
224 as cinco leis da biblioteconomia

meno — sua elucidação e suas aplicações — e os periódicos de física foram


inundados com os resultados de pesquisas sobre o efeito Raman. Para evitar
tanto a duplicação desnecessária quanto para abrir novas linhas de pesquisa,
convém que todos os resultados sejam tornados facilmente disponíveis para
todos os pesquisadores desta área. A publicação de uma bibliografia sobre o
efeito Raman como parte 4 do volume 4 e nas páginas 256-285 do volume 5
do Indian Journal of Physics, listando cerca de 550 referências, resultou numa
economia substancial de tempo. Em obediência à Quarta Lei, publicam-se
muitas bibliografias especializadas como esta. Por exemplo:

International Catalogue of Scientific Literature.


Revue Semestrielle des Publications Mathématiques.
Science Abstracts.
Chemical Abstracts.
Bibliography of American Natural History.
Bibliographia Genetica.
Annual Bibliography of English Language and Literature.
Orientalisch Bibliographie.
Religionsgeschichtliche Bibliographie.
Bibliographie Méthodique du Pragmatisme Américain.
Psychological Abstracts.
Bibliographical Bulleltin of International Affairs.
Bibliographie der Sozialwissenschaften.
Index to Legal Periodicals.

Uma descrição detalhada destas bibliografias publicadas para poupar


o tempo do leitor encontra-se nos capítulos 3 e 9 do livro intitulado Bi-
bliography, practical, enumerative, historical, de Henry Bartlett Van Hoesen.

653 Bibliografias de Bibliografias


A influência da Quarta Lei chegou até mesmo ao ponto de provocar a
publicação de bibliografias de bibliografias, como estas:

Darbow, K.K. Classified list of published bibliographies of physics.


West, C.J.; Berolzheimer, D.D. Bibliography of bibliographies in chemistry.
Mathews, E.B. Catalogue of published bibliographies in geology.
Peddie, Robert Alexander. List of bibliographical works published since 1893.

654 Analíticas para Bibliografias


Não se poderia terminar esta seção sem nos referirmos à grande ajuda
que a Quarta Lei pode extrair do Reference catalogue, os volumes anuais do
English catalogue e o Subject catalogue da biblioteca do British Museum, bem
como as breves bibliografias no final dos artigos da Encyclopaedia britannica.
Muitos dos problemas dos leitores podem ser resolvidos rapidamente
a quarta lei 225

com a ajuda destas obras. Dificilmente se passa um dia numa biblioteca


sem que se recorra a eles. A biblioteca da universidade de Madras prepara
sistematicamente fichas analíticas para todas as listas de referências en-
contradas no final dos capítulos ou dos livros. Este é um trabalho simples
que toda biblioteca pode executar. Estas fichas analíticas, que hoje existem
em grande número, prestam um serviço inestimável para poupar o tempo
do leitor na biblioteca da universidade de Madras.

655 Bibliografias Publicadas


A principal contribuição da Quarta Lei para a seleção de livros é que
deve ser adquirida uma seleção ampla e representativa de publicações
bibliográficas. O English catalogue ou um anuário equivalente é absoluta-
mente necessário em qualquer biblioteca. Obras bibliográficas adicionais
serão adquiridas conforme seja a natureza da biblioteca, dos interesses dos
seus leitores e dos seus recursos financeiros. Uma biblioteca especializada
ou universitária deve examinar cuidadosamente os anúncios que infor-
mam sobre a publicação de índices acumulados de periódicos correntes, e
adquiri-los sistematicamente. Deve também comprar todas as bibliografias
possíveis sobre autores de obras literárias e o maior número possível de
bibliografias temáticas. Uma biblioteca pública deve adquirir o Index de
Poole ou o Index to Periodicals, da Library Association inglesa. Também será
útil fazer a assinatura das bibliografias publicadas de tempos em tempos
pelo National Book Council.

66 Serviço de Referência
Vimos nas duas seções anteriores os vários tipos de instrumentos bi-
bliográficos que são elaborados na biblioteca ou em algum outro lugar e
adquiridos pela biblioteca. Quer consideremos um catálogo complexo bem
feito, com uma profusão de remissivas, ou os outros inúmeros instrumentos
bibliográficos que possivelmente estarão disponíveis na biblioteca, talvez
não seja uma questão fácil para o leitor comum tirar o máximo de proveito
destes instrumentos que permitem economia de tempo. Em primeiro lugar,
será essencial, para poupar o tempo do leitor, que ele, por meio de algum
aprendizado pessoal, se familiarize com o uso correto desses instrumentos.
Mesmo após esse aprendizado, a maioria dos leitores recorrerá ao serviço
de pesquisa bibliográfica do pessoal da referência. Devido à prática cons-
tante, o pessoal da referência adquiriu não somente precisão maior mas
também maior presteza do que os leitores no manuseio do instrumental
bibliográfico. Além disso, apesar do aprendizado, o leitor não tem como
alcançar a mesma intimidade que o pessoal da biblioteca tem com a ordem
adotada no arranjo dos livros. O conhecimento íntimo do bibliotecário
com a classificação e a catalogação dá-lhe imensa vantagem sobre o leitor
226 as cinco leis da biblioteconomia

para chegar rapidamente ao livro ou à informação desejada. Ele conhece a


ordem em que os livros estão arrumados. Conhece o catálogo por dentro e
por fora. Pode manejar todos os índices e catálogos com maior facilidade
e rapidez. Portanto, a Quarta Lei também se unirá às três primeiras leis,
insistindo na necessidade de um quadro de pessoal de referência adequado
em todas as bibliotecas. O dinheiro gasto com este pessoal retorna à nação,
de modo crescente, como economia do precioso tempo dos seus melhores
cérebros. Que esta seja uma proposição economicamente válida pode-se
inferir do fato de bibliotecas especializadas mantidas por empresas paga-
rem sem pestanejar o salário de seu pessoal de referência. Elas conhecem
o valor econômico do tempo. Mas parece que as bibliotecas universitárias
não conseguem perceber o valor do tempo e, por isso, hesitam em admitir
a necessidade deste tipo de pessoal.

661 Duas Espécies


Do ponto de vista da Quarta Lei, o trabalho do pessoal da referência
classifica-se em duas categorias: 1) serviço de referência rápida, e 2) serviço
de referência de longo alcance.

662 Serviço de Referência Rápida


Tendo em vista os objetivos do serviço de referência rápida, as bibliote-
cas que acreditam na Quarta Lei oferecem balcões de informação colocados
em posição visível, de modo a atrair a atenção do leitor antes de ele começar
a usar a biblioteca. Os problemas que frequentemente se apresentam ao
pessoal encarregado do balcão de informações são:
1) orientação dos leitores sobre os diferentes lugares da biblioteca
e seu encaminhamento à pessoa apropriada do serviço de referência, no
caso de ser necessária uma ajuda mais demorada e exaustiva;
2) instrução aos novos usuários sobre como usar a biblioteca, par-
ticularmente o catálogo e outros instrumentos bibliográficos disponíveis
na biblioteca, bem como sobre e estrutura geral da classificação e arranjo
dos livros nas estantes; e
3) oferecer respostas a consultas simples, que exijam um mínimo
de trabalho de busca e o uso de poucos livros de referência rápida, como
anuários, cadastros e calendários comumente mantidos junto ao balcão
de informações.

6621 Qualificação do Pessoal


Grande parte do atendimento prestado pelo balcão de informações
se dá por telefone. Uma memória retentiva e associativa combinada com
a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo sem se atrapalhar,
bem como a capacidade de passar de um assunto para outro rápida e
a quarta lei 227

facilmente, são atributos essenciais para que a atuação do funcionário do


balcão de informações se destine, substancialmente, a poupar o tempo do
leitor. Pessoas lentas, apalermadas, paradas e distraídas não têm serventia
alguma para a Quarta Lei.

663 Serviço de Referência de Longo Alcance


Vejamos agora o serviço de referência de longo alcance. Acompanhemos
o leitor até a área das estantes. Se a biblioteca for organizada de maneira
ideal, o leitor logo se verá sob os cuidados de alguém que é um especialista
na bibliografia do assunto no qual está interessado. Esse bibliotecário de
referência irá cumprimentá-lo com um sorriso e começará a falar-lhe na
linguagem de seu assunto. Sentindo-se à vontade, o leitor explicará, da
forma mais clara possível, quais são suas dúvidas e o que está procurando.
O bibliotecário de referência colocará, sem reservas, à sua disposição sua
vasta experiência bibliográfica, construída ao longo de anos de contato com
vários especialistas que recorrem à sua ajuda e pelo constante manuseio
dos instrumentos e recursos da biblioteca a partir de vários pontos de vista.
Isso poupará o tempo do leitor consideravelmente, permitindo-lhe obter
seus materiais de forma muito mais rápida.

664 Variedade de Leitores


O leitor pode ser um jovem estudante inexperiente que não consegue
identificar a utilidade relativa de diferentes livros que têm o mesmo número
de classificação. Portanto, o bibliotecário de referência poupará o seu tempo
se escolher rapidamente os volumes cujo conteúdo esteja ao seu alcance.
O interesse do cliente pelo assunto talvez seja o de um amador. Neste
caso, o bibliotecário de referência indagará sobre os conhecimentos que o
leitor já possui sobre o assunto e traçará para ele uma sequência gradual
de leituras, para que possa obter a necessária intimidade com o assunto
sem perder tempo por causa de uma escolha de livros incompreensíveis,
feita sem a devida ajuda, numa sequência inconveniente. O leitor talvez
seja um administrador ou um especialista muito ocupado. Neste caso, o
bibliotecário de referência escolherá e reunirá antecipadamente tudo que
for relevante para o tema procurado, de modo que o cliente possa recorrer
a esse material sem perder seu precioso tempo vagando pela biblioteca
para reuni-lo.

665 Exemplo
Não faz muito tempo, um especialista em sânscrito veio de uma cidade
do interior à procura de material sobre certos aspectos da filosofia hindu.
Os livros em sânscrito normalmente têm títulos complicados, sem qualquer
indicação sobre a natureza do conteúdo. Portanto, ele sabia que não haveria
228 as cinco leis da biblioteconomia

qualquer atalho para identificar o que lhe serviria, a não ser abrir e examinar
livro por livro. E ele desconhecia tanto o arranjo classificado dos livros, como
a natureza analítica do catálogo de assuntos. Também ignorava a existência
do pessoal de referência. Por outro lado, estava convicto de que, uma vez
que os livros que procurava tinham sido impressos na escrita devanagari e
o assunto era um ramo obscuro da filosofia antiga, não contaria com a ajuda
de ninguém. Por isso, estava disposto a levar alguns dias até terminar seu
trabalho. No primeiro dia, apesar de repetidos oferecimentos, ele declinou
de toda ajuda e começou a levar alguns livros de vez em quando para sua
mesa de leitura. Depois de uma ou duas horas, quando já começava a esbo-
çar sinais de cansaço, ele voltou a ser abordado, com diplomacia, e aceitou
que se lhe mostrasse o recinto das estantes. Essa foi uma oportunidade
esplêndida para que o bibliotecário de referência lhe explicasse as várias
soluções que a biblioteca adotara para poupar o tempo do leitor. Por fim,
foi encaminhado ao local onde ficam os livros sobre filosofia hindu. Depois
de quase uma hora de conversa, saiu para almoçar. Resumindo, quando
eram mais ou menos 16 h 30 min ele pediu permissão para usar o telefone
do escritório, a fim de solicitar ao chefe da estação ferroviária que lhe re-
servasse um leito no trem para a mesma noite. Nem é preciso reproduzir
aqui suas inúmeras palavras de admiração e agradecimento pela maneira
como o pessoal da biblioteca havia poupado seu tempo.

67 Método de Empréstimo
Avancemos agora com o leitor. Suponhamos que ele terminou toda a
leitura que pretendia fazer no recinto da biblioteca e que está pronto para
voltar para casa. Suponhamos que ele queira levar alguns livros consigo.
O processo de preparação das anotações necessárias antes que lhe seja
permitido tomar livros emprestados para leitura domiciliar chama-se ‘fazer
empréstimo’. O processo inverso de receber os livros de volta quando o
leitor os devolve e declará-lo isento de qualquer responsabilidade adicional
quanto a esses livros é conhecido como ‘dar baixa no empréstimo’. Antes
do advento da Quarta Lei, o método de empréstimo e baixa era muito tra-
balhoso e demorado. Mesmo hoje em dia, tais métodos antiquados ainda
prevalecem em muitas de nossas bibliotecas. Mostraremos, ao tratar da
Quinta Lei, que esses métodos entrarão em colapso se a biblioteca funcionar
de acordo com o ideal das três primeiras leis. Aqui nos limitaremos apenas
ao aspecto temporal do processo.

671 Diário e Livro Razão


O método encontrado na maioria de nossas bibliotecas pode ser descrito
como o dos livros diário e razão. Nele, o leitor anota seu nome e o do autor,
o título e o número de chamada do livro em letra de forma. O funcionário
a quarta lei 229

do balcão copia estes dados no diário e lança estas anotações diárias num
livro razão destinado aos leitores para evitar a busca no diário quando
precisar encontrar uma entrada. Cada leitor tem algumas páginas reser-
vadas para si no livro razão. O número de chamada do livro emprestado
e a data do empréstimo são anotados nas colunas destinadas para tal fim.
Quando o volume é devolvido, a data da devolução é anotada em outra
coluna. Se o livro é devolvido depois da data prevista, o valor da multa,
a data e o número do recibo do seu pagamento são anotados em outras
colunas. Certas bibliotecas registram estes dados também em outro livro
razão no qual para cada livro é destinada uma página. Além da impossibi-
lidade de manter a sequência alfabética ou do número de chamada nesses
livros, o processo de fazer os registros durante o empréstimo e durante
a devolução faz com que o leitor espere muito tempo. Isso piora ainda
mais nas horas de pico, pois somente uma pessoa pode usar este livro de
registro por vez. Quando este sistema estava em voga na biblioteca da
universidade de Madras até três anos atrás, o tempo médio perdido pelo
leitor, por causa deste método antiquado de empréstimo e baixa, era de
cerca de quinze minutos.

672 Perguntas a Serem Respondidas


O reconhecimento, porém, da Quarta Lei levou a profissão de biblio-
tecário a rever completamente esse sistema de empréstimo. Para efetuar
esta revisão, os objetivos do empréstimo atual tiveram que ser analisados
criticamente. O sistema de empréstimo deve responder os objetivos de
três registros definidos, isto é, um registro da data, um registro do livro e
um registro do leitor. Em outras palavras, deve dar uma resposta rápida
a perguntas como estas:
1. Quais e quantos livros foram emprestados em determinada data?
2. Quem tirou algum volume emprestado em qualquer data?
3. Quais livros devem ser devolvidos em qualquer data?

673 Sistema de Dois Cartões


O sistema de empréstimo mais econômico até hoje planejado para res-
ponder a todos estes propósitos e, ao mesmo tempo, atender aos requisitos
da Quarta Lei denomina-se sistema de ‘dois cartões’. Nele cada livro recebe
dois cartões, que são inseridos no bolso do livro colado no verso da capa
do livro, e cada leitor recebe tantos tíquetes de empréstimo* quantos forem
os livros que ele tiver o direito de retirar por vez da biblioteca.

* No original, reader tickets: pequenos cupons, entregues ao usuário quando de sua inscrição
na biblioteca. Não confundir com o cartão de leitor ou cartão de usuário (borrower ticket),
que também pode ser chamado de reader ticket. (Cf. o verbete ‘Reader’s tickets’, em Prasad,
B.K., ed. Encyclopaedia of teaching of library science. New Delhi: Anmol, 2003, v. 1, p. 3. (n.e.)
230 as cinco leis da biblioteconomia

674 A Rotina do Empréstimo


Acompanhemos nosso leitor. Ele levará até o balcão os livros que deseja
retirar por empréstimo. Entregará os livros junto com igual quantidade de
tíquetes de empréstimo ao funcionário do balcão, perto da porta de saída,
que carimbará a data de devolução nas papeletas de data de devolução dos
livros, retirará os cartões do livro de seus respectivos bolsos e juntará cada
um deles com um dos tíquetes de empréstimo. Feito isto, o leitor estará
liberado para levar os livros para casa. O tempo que leva este processo de
empréstimo é muito menor do que o tempo que levamos para descrevê-lo.
Na verdade, é possível fazer o empréstimo de pelo menos uma dúzia de
livros por minuto. Talvez seja somente no método de empréstimo que o
ideal da Quarta Lei tenha sido realmente alcançado.

675 Juntando os Cartões


Diferentes mecanismos são empregados para juntar o cartão do livro
com o tíquete de empréstimo correspondente. Um método popular consiste
em fazer o tíquete de empréstimo no formato de um envelope de cartolina
onde é inserido o cartão do livro. Qualquer que seja o modo de reuni-los,
os cartões são arrumados num fichário, pelo número de chamada, ante-
cedidos por uma ficha-guia com a data de devolução.

676 A Rotina da Devolução


Quando o livro é devolvido à biblioteca, o funcionário do balcão perto
da porta de entrada localiza a data de devolução e o número de chamada
a partir da papeleta de data e com essa ajuda ele retira do tabuleiro onde
ficam os cartões de empréstimo o cartão do livro junto com o tíquete de
empréstimo. O cartão do livro é colocado no bolso do livro e o tíquete de
empréstimo é devolvido ao leitor. Esta rotina também toma tão pouco
tempo quanto a rotina de empréstimo. Há muitas variações deste método,
mas fugiria ao propósito deste livro determo-nos neste tema. Está prevista
a edição, nesta série, de um volume sobre administração de bibliotecas,
que tratará de modo adequado e com detalhes das rotinas do atendimento
no balcão de empréstimo.

68 O Tempo do Pessoal
Vimos que um dos métodos empregados para poupar o tempo do leitor
consiste em fornecer um número adequado de funcionários para o serviço
de referência. Por conseguinte, quanto mais funcionários houver e quanto
mais longo for o período em que possam estar disponíveis para a efetiva
prestação do serviço de referência, maior será a medida com que os obje-
tivos da Quarta Lei serão cumpridos. Um corolário disto é que a Quarta
Lei implica também que o tempo do pessoal despendido em atividades
a quarta lei 231

de rotina deve ser reduzido ao mínimo possível. Este apelo da Quarta Lei
vem de há muito ocupando a atenção das bibliotecas, com magníficos
resultados. Embora uma descrição completa da evolução dos métodos
adotados no trabalho bibliotecário esteja prevista para um volume dedi-
cado à administração de bibliotecas, pode-se dizer, sinteticamente, que o
efeito da Quarta Lei foi revolucionar os métodos de anotação e controle dos
registros das bibliotecas. Os vetustos volumes encadernados foram postos
de lado completamente e substituídos por fichas soltas. Pode-se mesmo
dizer que o sistema de fichas que parece estar hoje presente em todos os
tipos de empresas e escritórios representa uma contribuição notável da
biblioteconomia para os modernos métodos de administração em geral.
É preciso admitir que, por sua vez, a biblioteconomia deve a invenção
do sistema de fichas a um sincero desejo por parte dos bibliotecários de
satisfazer à Quarta Lei de todas as maneiras possíveis.

681 Diagrama de Processo


Talvez seja possível ilustrar a medida em que o sistema de fichas pode
poupar o tempo do pessoal, se considerarmos um conjunto de registros
da biblioteca, ou seja, os que tratam da seleção, aquisição, registro, ca-
talogação e baixa de livros. Talvez o diagrama da próxima página, que
mostra a inter-relação ou a ligação dos registros relativos a estes processos
simplificará o exame desta questão. A primeira linha indica as fontes de
seleção dos livros. A natureza dos registros mencionados na segunda e na
terceira linhas é óbvia. A quarta e a quinta linhas mostram os diferentes
canais através dos quais os livros chegam à biblioteca. Uma denominação
popular alternativa para ‘fichário de tombo’ é registro do acervo. O fichário
de baixas contém a lista dos livros perdidos, estragados pelo uso ou que
foram retirados do acervo por algum outro motivo. Os registros em cada
uma de duas linhas consecutivas são ligados entre si por certas entradas
comuns, por exemplo, o número do pedido é anotado no comprovante de
compra e o número do comprovante de compra, nos registros de pedidos.

682 Época Anterior à Ficha


Na época anterior à ficha os títulos dos livros sugeridos para aquisição
eram escritos em folhas soltas de papel ou em cadernos. Os livros que não
fossem aprovados seriam riscados. Se muitos itens fossem riscados, seria
necessário reescrever os itens remanescentes. Assim, durante o cotejo desta
lista com os livros existentes no acervo, vários itens talvez tivessem que
ser riscados, talvez fosse preciso acrescentar notas sobre edição ou ano de
publicação, etc. A esta altura, as páginas poderiam voltar a ficar muito con-
gestionadas, os itens restantes teriam que ser reescritos mais uma vez. Em
seguida, seria preparado o ‘pedido’ de compra. É bastante improvável que
232 as cinco leis da biblioteconomia

todos os livros de uma mesma encomenda fossem fornecidos no mesmo


dia. À medida que os livros iam chegando, tinham que ser listados. Esta
seria a quarta vez que as entradas seriam redigidas. A quarta lista passaria
a ser, na realidade, o cadastro de livros ou o ‘registro de aquisições’, como
é normalmente chamado. Em seguida, seriam feitas as fichas do catálogo e
as fichas do topográfico e, por fim, seria preciso manter um registro sepa-
rado para os livros da biblioteca aos quais tivesse sido dada baixa. Assim,
excluindo a preparação do catálogo e do topográfico, as informações de
cada livro teriam que ser redigidas cerca de cinco vezes. No sistema de
fichas, por outro lado, basta que as informações sejam registradas uma
única vez, em vez de cinco vezes. Isto dá uma ideia de como o sistema de
fichas poupa o tempo do pessoal da biblioteca.

683 Sistema de Fichas


No sistema de fichas, uma única ficha serve aos objetivos de cinco
diferentes livros de registro. O formato da ficha-padrão, de 12,5 cm x 7,5
cm, é mostrado na página seguinte.
Ficará claro, à medida que descrevemos o uso desta ficha que, além de
economizar tempo, proporciona muitas outras facilidades.

684 A Rotina da Seleção de Livros


Uma ficha é utilizada para cada item selecionado. Todas as informações
solicitadas no reto da ficha, exceto o número de registro, o número de
chamada e o número de baixa, são anotadas logo após a seleção. A infor-
mação sobre críticas pode ser incluída mais tarde, depois de publicadas.
A fonte onde são colhidas as informações sobre o livro é indicada perto
do canto inferior esquerdo do reto da folha. Quem fizer estas anotações
porá suas iniciais e a data na primeira linha do verso da ficha. Todas as
fichas são arranjadas aproximadamente em ordem de classificação para
facilitar o trabalho de quem for dar a aprovação final para aquisição do
livro. O funcionário responsável por isso terá apenas de classificá-las em
três grupos: ‘selecionados’, ‘rejeitados’ e ‘avaliar mais tarde’. Então, as fi-
chas do primeiro grupo são transferidas para o fichário dos ‘aprovados’ e
as fichas dos outros grupos para os respectivos fichários. Depois, a pessoa
responsável pelo trabalho de aquisição coteja cada ficha com o acervo da
biblioteca, e, após eliminadas as fichas de livros já existentes no acervo,
as remanescentes são transferidas para o fichário de ‘pedidos de compra’
com as anotações feitas nas próprias fichas.

685 Rotina da Aquisição


Se a biblioteca comprar os livros por intermédio de um vendedor, o
‘pedido de compra’ será datilografado diretamente a partir destas fichas.
Boletim semanal
Circular das editoras Anúncios das editoras Bibliografias Críticas Outras fontes
das editoras
a quarta lei

Fichário de seleção de livros

Fichário de livros aprovados

Fichário de pedidos Fichário de encomendas Fichário de periódicos Fichário de periódicos Fichário de


permanentes recebidos por assinatura recebidos por doação requisições

Arquivo de notas de compra Fichário de periódicos Fichário de doações

Fichário de tombo

Fichário do catálogo Fichário do catálogo topográfico

Fichário de baixas do acervo


233
234 as cinco leis da biblioteconomia

Se, por outro lado, a biblioteca adquirir os livros diretamente das editoras,
as fichas do fichário de ‘pedidos de compra’ são primeiramente ordenadas
pelos nomes das editoras e os pedidos são datilografados separadamente
para cada editora. De qualquer maneira, o número e a data do ‘pedido
de compra’ são registrados nos lugares apropriados no verso da ficha. O
fornecedor é comumente instruído a citar o número e a data do ‘pedido de
compra’ na nota fiscal que acompanha a mercadoria, e as fichas respectivas
são guardadas no fichário dos ‘pedidos de compra’ atrás das fichas-guia
de data que mostram a data em que o pedido foi feito.

686 Rotina de Registro


Recebidos os livros, as fichas respectivas são imediatamente retiradas
do fichário dos ‘pedidos de compra’ e inseridas nos livros correspondentes
antes da página de rosto. O funcionário do registro examina cuidadosamen-
te cada livro, comparando-o com o conteúdo das fichas no que se refere a
autor, título, tamanho, colação, edição, data de publicação, editora, e, se
for o caso, série, conferindo também a quantia indicada na nota fiscal com
o preço de catálogo anotado na ficha. Se tudo estiver correto, a nota fiscal
será repassada para pagamento e o número e a data do comprovante de
pagamento são anotados nos lugares apropriados da ficha. O número de
registro será anotado no livro, na ficha e também na nota fiscal.

687 Registro de Aquisição


Em seguida os livros e as fichas passam ao classificador e ao catalogador,
para preparação das fichas catalográficas e do topográfico, e inclusão nelas
dos números de chamada. Depois disso, as fichas do topográfico e as de
registro são contadas pelo funcionário da aquisição, e então as fichas do
topográfico são inseridas no catálogo topográfico e as fichas originais são
transferidas para o catálogo de aquisição, pois fazem parte do catálogo
ou livro de registro.

688 Rotina de Baixa do Acervo


Finalmente, quando é preciso dar baixa num livro da biblioteca, a
ficha respectiva é transferida do catálogo de aquisições para o fichário de
baixas e recebe o número de baixa. Assim, como vimos, uma única ficha
migra pelas sucessivas etapas desde o fichário de ‘seleção de livros’ até o
de ‘baixa’ e assim poupa o tempo do pessoal e também melhora em muito
sua comodidade.

6891 Vantagem
Grosso modo, para cada minuto exigido pelo sistema de fichas, teriam
que ser gastos cinco minutos no sistema antigo. Ademais, as iniciais ano-
a quarta lei 235

Conta n° N° de chamada N° de baixa

N° de doação

Autor

Título

Dimensões Colação Edição Ano

Editora Preço de catálogo

Série, etc.

Críticas

mul [sigla da biblioteca]

Fornecedor Preço
Índia
Data Iniciais Estrangeiro

Seleção
Ped. n°
Aprovado Empenho n°

Encomenda

Recebido Ano corrente Total

Pago N° de ass.

Registrado N° de líng.

Abertas pág. Preço Rupias Rupias

Classificado

Catalogado

Na estante Subtotal

Encadern.

Baixa Total

236 as cinco leis da biblioteconomia

tadas para os diferentes itens na segunda coluna permitem identificar o


responsável por eventuais erros que venham a ser detetados, a qualquer
momento, por mais tarde que seja. A experiência tem mostrado que isto
tem um saudável efeito disciplinador sobre o pessoal. Os dados registrados
de modo gradativo, em formato de tabela, no verso da ficha, permitem
ao pessoal fornecer, sem perda de tempo, respostas às perguntas que não
raro são formuladas pelas autoridades administrativas. Todos conhecem a
azáfama, o corre-corre e a excitação provocados por esse tipo de consulta.
Apesar do tempo que se perde nessas ocasiões, raramente se conseguem
respostas satisfatórias e precisas. Constatou-se que esse tipo de ficha
possibilitou que esse trabalho tivesse não só exatidão, mas também fosse
mais fácil e rápido.
Igualmente, o trabalho de rotina das bibliotecas está sendo simplificado
de muitas outras formas, a fim de poupar o tempo do pessoal e consequen-
temente poupar o tempo do leitor.

691 Catalogação Centralizada


Outro caminho que vem sendo trilhado na tentativa de poupar o tempo
do pessoal é a catalogação centralizada. Do ponto de vista nacional mais
amplo, muito tempo é desperdiçado por causa de cada biblioteca conti-
nuar a catalogar seus livros, “sem levar em consideração o fato de que os
mesmos livros são submetidos ao mesmo processamento em centenas de
bibliotecas do país”. Já no último quartel do século xix, a American Library
Association começou a dar atenção a este problema e fez uma pequena
experiência de produção e distribuição de fichas impressas, a fim de poupar
o tempo do pessoal de cada biblioteca. No entanto, somente em 1901 é
que surge uma iniciativa em grande escala de catalogação centralizada. A
circular sobre distribuição de fichas catalográficas, emitida pela Library of
Congress, no dia 28 de outubro de 1901,228 marca uma época nas realizações
da Quarta Lei da biblioteconomia. As dificuldades experimentadas nos
primeiros anos deste corajoso experimento são minuciosamente descritas
pelo chefe da divisão de fichas em suas Reminiscences and observations on
the card distribution work of the Library of Congress.229

6911 História
As bibliotecas norte-americanas, entretanto, não tardaram a reconhe-
cer a importância da catalogação centralizada para a causa da Quarta
Lei. No ano de 1929–1930, o número de assinantes das fichas impressas
chegou a 5 011. Até mesmo bibliotecas estrangeiras, como da China e da
Rússia, começaram a adquirir as fichas para suas bibliotecas. Este amplo
mercado naturalmente resultou na redução do custo destas fichas. O custo
aproximado das fichas necessárias para um volume é estimado em quatro
a quarta lei 237

anás, enquanto que, como já se disse, o custo de preparação das fichas


na própria biblioteca é de cerca de dez anás por livro numa biblioteca de
Madras. O número de livros para os quais as fichas impressas da Library
of Congress estão disponíveis é de 1 135 265. Até agora, estas fichas contêm
apenas o número de chamada da classificação da Library of Congress,
mas foram feitas negociações para incluir também o número de classi-
ficação de Dewey. O sucesso deste experimento norte-americano está
levando muitos países a lançar iniciativas semelhantes, a fim de poupar
o tempo do pessoal de suas bibliotecas. As bibliotecas governamentais da
“Rússia e da Alemanha já possuem órgãos que imprimem e distribuem
fichas. Os tchecoslovacos e os espanhóis iniciaram atividades seme-
lhantes.” Há indicações de que países da América do Sul estão também
projetando implantar a catalogação centralizada, por meio de um órgão
governamental. O Public Libraries Committee of England and Wales
recomendou enfaticamente a proposta de que fosse criada uma agência
central de catalogação no British Museum. Argumentaram em seu apoio
que “haveria grande economia de trabalho, tempo e competência” e que,
como resultado do projeto da Library of Congress, “tempo e dinheiro
antes gastos pelas bibliotecas na catalogação de livros idênticos foram
canalizados para objetivos mais úteis”.

6912 Cooperação Internacional


A Quarta Lei recomenda que o mundo das bibliotecas concilie as di-
ferenças dos códigos de catalogação de diferentes países de modo a abrir
caminho para a catalogação cooperativa internacional.

692 Localização da Biblioteca


Até agora, estivemos tratando do problema de poupar o tempo do
leitor depois que ele ingressa na biblioteca. Entretanto, a Quarta Lei está
interessada também no tempo que o leitor leva para chegar à biblioteca.
Em outras palavras, a biblioteca deve estar num local que permita poupar
o tempo do leitor. Se for numa faculdade, a biblioteca deve ter uma locali-
zação central, para que seja facilmente acessível a todos os estudantes. Os
departamentos de pesquisa de uma universidade devem, na medida do
possível, ser instalados no edifício da biblioteca. Os laboratórios de pes-
quisa, que abrigam os departamentos de pesquisa, devem ser construídos
no mesmo conjunto de edifícios onde se encontra o prédio da biblioteca.

6921 Área Urbana


Já a localização de uma biblioteca pública não é tão fácil de definir de
modo a satisfazer a Quarta Lei. Seria impossível encontrar, numa grande
cidade, qualquer local que fosse igualmente acessível a partir de todas as
238 as cinco leis da biblioteconomia

partes da cidade. As grandes cidades do Ocidente estão conciliando esta


dificuldade geográfica com a demanda da Quarta Lei mediante a criação
de bibliotecas filiais e postos de atendimento em todas as áreas que as
compõem. Tivemos o ensejo de apresentar alguns exemplos dessa práti-
ca, na seção 133, quando estivemos examinando o tema da localização das
bibliotecas à luz da Primeira Lei. O ideal seria proporcionar um número
suficiente de bibliotecas filiais, de modo que todo cidadão pudesse en-
contrar uma delas a uma distância de dez minutos a pé de sua residência.

6922 Área Rural


Os leitores rurais sofrem ainda mais com as dificuldades causadas pela
distância na implantação da Quarta Lei. É impossível construir uma biblio-
teca filial perto de cada fazenda do mesmo modo que pode ser construída
perto das residências nas cidades. O único meio para poupar o tempo do
leitor rural consiste em colocar a biblioteca sobre rodas e levá-la até ele
periodicamente. Uma boa seleção de livros, escolhidos por um bibliote-
cário experiente, é colocada num furgão equipado como uma biblioteca
itinerante que é despachado para fazer a troca periódica em bibliotecas de
pequenas vilas, postos de atendimento e casas isoladas de fazendas. Nas
vilas e residências inacessíveis a veículos, devem ser buscadas soluções
especiais para a entrega de livros, a pé, na estrada mais próxima.

“Você quer dizer que os conselhos distritais podem custear as despesas


de levar livros para o interior dessa maneira? Isso é ridículo! Que o povo do
interior se dirija à biblioteca municipal e consiga os seus livros do mesmo
jeito que nós”, dirão alguns dos moradores da cidade. Entretanto, o tempo
é tão precioso para o leitor do campo quanto para o leitor da cidade, e a
Quarta Lei não se aplica somente às bibliotecas municipais. A Quarta Lei
argumentaria, “Não há nada mais ridículo nem mais dispendioso na im-
plantação do sistema de bibliotecas itinerantes pelo conselho distrital do
que na manutenção do sistema de correios pelo governo. Uma carta não
é transportada por muitos quilômetros até o interior do país? Enquanto
o correio tem que ser levado a muitas residências rurais todos os dias, os
livros talvez só precisem ser transportados para cada vila uma vez por
mês!” Nos últimos anos, estes argumentos da Quarta Lei convenceram a
maioria dos países ocidentais, e estão sendo rapidamente criadas biblio-
tecas rurais itinerantes baseadas nos distritos. Seu objetivo é prestar um
serviço de bibliotecas que seja de fácil acesso para todos. São administradas
pela biblioteca principal do distrito por meio de postos de atendimento
e de filiais. O diagrama na página seguinte ilustra a forma ideal como a
Quarta Lei é observada por uma das bibliotecas de condado do estado de
Nova York. Ela entrega livros até 1,5 km de cada residência.
a quarta lei 239

6923 Primeira Biblioteca Itinerante da Índia


A primeira biblioteca itinerante da Índia, tirada por uma junta de bois,
foi fundada em Mannargudi. Inspirada pelo desenho original da figura
fantástica da página 2 deste livro, Sri S.V. Kanagasabhai Pillai, engenhei-
ro de Mannargudi, cidade no distrito de Tanjore, no estado de Madras,
planejou e construiu uma carroça-biblioteca mostrada na página 324 [da
primeira edição] e forneceu o capital para a manutenção da biblioteca
itinerante, inclusive o custo da coleção inicial de livros. Foi inaugurada
por Sri S.R. Ranganathan na vila Melavasal, oito quilômetros a oeste de
Mannargudi, às 17 h da quarta-feira, 21 de outubro de 1931. Assim o sonho
de 1929 tornou-se uma realidade em 1931. Em 1932, 75 das 242 vilas na
área contemplada tinham sido transformadas em pontos de atendimento.
O mapa da página 240 mostra a sua distribuição.

Condado de Tompkins, estado de Nova York (eua)

Superfície: 766 km2 .


Número de sucursais visitadas pelo carro-biblioteca da biblioteca municipal: 160.
Uma sucursal para cada 5 km2 .
240 as cinco leis da biblioteconomia

Reprodução feita com a gentil permissão do Sr. C. Seshachalam da empresa Curzon & Co., Madras. Copyright: Curzon & Co.

ÁREA ABRANGIDA PELO SERVIÇO DE BIBLIOTECA


ITINERANTE DE MANNARGUDI

Notas: 1 Os círculos indicados com linha pontilhada encontram-se num raio de 6, 12 e


18 km de Mannargudi. 2 Os pequenos triângulos indicam as unidades de vilas do serviço
de biblioteca itinerante.
241

CAPÍTULO 7

A QUINTA LEI

70 Introdução
Chegamos à quinta e última lei da biblioteconomia. Enquanto as
quatro primeiras tratam das funções da biblioteca, a Quinta nos fala das
características essenciais e perenes da biblioteca como instituição e exige a
necessidade de uma constante adaptação de nossa perspectiva ao lidarmos
com ela. Se as quatro primeiras leis mostram o espírito que deve caracterizar
a gerência e a administração das bibliotecas, a Quinta Lei enuncia o prin-
cípio fundamental que deve presidir ao planejamento e organização das
bibliotecas. Enquanto as quatro primeiras leis incorporam preceitos que
são quase óbvios, a Quinta Lei talvez não seja tão evidente por si mesma.

701 Enunciado
Reza a Quinta Lei: a biblioteca é um organismo em crescimento. É um
fato biológico indiscutível que somente o organismo que se desenvolve é
o que sobrevive. Um organismo que pare de se desenvolver acabará por
se paralisar e perecer. A Quinta Lei chama nossa atenção para o fato de a
biblioteca, como instituição, possuir todos os atributos de um organismo
em crescimento. Um organismo em crescimento absorve matéria nova,
elimina matéria antiga, muda de tamanho e assume novas aparências e
formas. Além das mudanças bruscas e aparentemente descontínuas dessa
metamorfose, está também sujeito a uma mudança lenta e contínua, que
conduz ao que se conhece como ‘variação’, em linguagem biológica, e para
a evolução de novas formas. É uma mudança tão lenta mas tão eficaz que
os adeptos da evolução afirmam que foram os protozoários informes e
indiferenciados da era paleozóica que se transformaram, por sucessivos
estágios de variação, na espécie mais diferenciada da criação — o ser
humano. O que persistiu através de todas essas mudanças de forma foi o
princípio essencial da vida. O mesmo acontece com a biblioteca.

71 Crescimento de Tamanho
Vejamos primeiro as consequências do simples crescimento de tama-
nho. Para tanto, talvez seja conveniente estudar as partes principais do
organismo que podem crescer. Elas são os livros, os leitores e o pessoal.

241
242 as cinco leis da biblioteconomia

Convém repetir que uma biblioteca moderna é uma tríade formada por
estes fatores. Deve-se ter plena consciência de que um acervo de livros sem
leitores não tem mais direito de ser chamada de biblioteca do que um grupo
de leitores sem livros, e que a mera justaposição de livros e leitores sem o
pessoal, que sabe promover o contato entre o leitor certo e o livro certo, no
tempo certo e do modo certo, tampouco constitui uma biblioteca. A mo-
déstia com que as autoridades responsáveis pelas bibliotecas subestimam
a taxa de crescimento de cada um destes fatores é inimaginável. Teremos
o ensejo de mostrar exemplos desta modéstia à medida que entrarmos em
detalhes. E menos perdoável ainda é meter-se a organizar uma biblioteca
como se ela fosse imóvel, como se nem os livros, nem os leitores, nem os
funcionários aumentasem de número. Não há nada mais censurável do
que uma organização falha, que impeça o livre e pleno desenvolvimento
da biblioteca, ou, de fato, de qualquer instituição. A reincidência contumaz
neste erro fatal em matéria de biblioteca deve-se à incapacidade de perceber
um fato fundamental, a saber, que uma forma de organização que serve
para uma pequena biblioteca pode falhar por completo se ela crescer. Os
tecnólogos sabem, por experiência própria, que um método que dá certo no
laboratório nem sempre resulta num método bem-sucedido de produção.
Os físicos também começam a perceber que o que é verdadeiro em situações
de dimensões infinitesimais pode deixar de sê-lo em situações similares de
dimensões finitas, e o que pode ser verdadeiro em ambiente de tamanho
normal pode deixar de sê-lo em situações de tamanho excessivamente
grande. A organização da biblioteca não deve, de forma míope, deixar-se
influenciar pelo tamanho atual, mas planejar sua configuração de modo
a facilitar a sintonia com o crescimento dela. Vejamos cada um dos três
elementos da tríade e esbocemos a consequência de seu crescimento nos
diferentes aspectos da organização da biblioteca.

711 Livros
Primeiro, vejamos os livros. Sua quantidade numa biblioteca viva deve
crescer e, de fato, cresce. Partimos do pressuposto de que será muito difícil
repetir-se aquela história de um deputado do estado do Kansas (eua) que,
com veemência, foi contra a aprovação de uma verba orçamentária para
mais livros para a biblioteca da universidade: “Senhor Presidente, sou
contra essa despesa. Ora essa! Eles têm 40 mil livros lá em Lawrence, e não
acredito que algum desses professores já os tenha lido todos!”230 Também
estaremos pressupondo a inviabilidade do plano Quincy,* que consiste em

* Baseado em proposta formulada em 1893 por Samuel Swett Green, para limitar o
crescimento de pequenas e médias bibliotecas públicas por meio de descarte. Cf. artigo
‘Weeding’, de Loriene Roy, na Encyclopedia of library and information science, ed. by Allen
Kent, crc Press, v. 54, suppl. 17, 1994, p. 354-357. (n.e.)
a quinta lei 243

igualar a taxa de descarte com a taxa de aquisição, depois que o tamanho


do acervo alcançar um limite estipulado. Embora os recursos financeiros
sejam sem dúvida o supremo fator no momento de decisão, é inegável
que se tem uma visão mais clara quanto à taxa média de crescimento dos
acervos das bibliotecas quando se examinam as seguintes tabelas que
mostram a produção anual de livros em alguns países importantes.
A primeira tabela mostra o número de livros publicados em alguns
países em 1927 e foi extraída de Publisher’s Weekly 115, 1928, 281. Agradeço
ao secretário de educação do governo da Índia pela outra tabela com o
número de livros publicados em algumas províncias em 1927.

7111 Produção Mundial de Livros


Estatísticas da Produção Internacional de Livros em 1927
País­ Total de livros País Total de livros
publicados publicados

1. Rússia 36 680­ 8. Itália 6 533­


2. Alemanha 31 026­ 9. Holanda 6 103­
3. Japão 19 967­ 10. Dinamarca 3 293­
4. Grã-Bretanha 13 810­ 11. Suécia 2 652­
5. França 11 922­ 12. Espanha 2 374­
6. Estados Unidos 10 153­ 13. Suíça 1 909­
7. Polônia 6 888­ 14. Noruega 1 238

7112 Produção de Livros na Índia


Estatísticas da Produção de Livros na Índia em 1927
Província Total de livros Província Total de livros
publicados publicados

1. Madras 4 042 6. Bihar e Orissa 1 550
2. Bengala 3 425 7. Déli 414
3. Províncias Unidas 3 298 8. Províncias Centrais 217
4. Punjab 2 537 9. Burma 122
5. Bombaim [Mumbai] 2 211 10. Assam 54
Total da Índia 17 120

7113 Aquisições Feitas pelas Bibliotecas


Para ver o assunto de um outro ângulo, eis uma tabela que apresenta
a taxa anual de aquisição em algumas bibliotecas:
244 as cinco leis da biblioteconomia

Biblioteca­ Número de volumes adquiridos num ano­

1. Library of Congress 202 111


2. Boston Public Library 94 339
3. Cambridge University Library 90 916
4. Birmingham Public Library 28 566
5. New York State Library 23 313
6. Imperial Library, Calcutá 7 832
7. Madras University Library 5 628
8. Aberdeen Public Library 3 726

712 Local das Estantes e Mobiliário


Primeiro trataremos do efeito do crescimento do acervo na arquitetura
das bibliotecas. A parte do edifício mais diretamente afetada por isto é o
local das estantes. Sua dimensão, sua posição relativa, os montantes que
formam as estantes, as prateleiras, os suportes das etiquetas e todos os
demais elementos relativos ao armazenamento dos livros terão que ser
examinadas à luz do inevitável crescimento do acervo.

7121 Tamanho
A começar pelo tamanho, é raro a Quinta Lei não levar a melhor diante
das autoridades responsáveis pelas bibliotecas. Por exemplo, as autorida-
des às quais a biblioteca da universidade de Madras estava subordinada
fizeram as seguintes estimativas em 1911: “Para acomodar os livros que a
biblioteca possui juntamente com os que a comissão espera adquirir durante
o próximo ano, será necessária uma sala de 13 × 13 × 6 m. Para colocar os
livros a serem acrescentados [...] durante os próximos 25 anos (supondo-se
que a alocação de verbas continue a mesma) será necessária outra sala de
igual tamanho.” Mas, por volta de 1922, a comissão foi levada a modificar
sua estimativa da seguinte maneira: “As duas salas, medindo cada uma 13
× 13 × 6 m, reservadas para o armazenamento de livros, podem ser multi-
plicadas por três, uma vez que as futuras adições possivelmente serão em
muito maior número do que foi originalmente previsto.” A experiência
posterior mostrou que o acervo, que era de sete mil volumes em 1911,
cresceu para 70 mil em 1930. O local das estantes teve que ser realmente
projetado para receber quatro seções de estantes cada uma com 47 × 13 ×
6 m, com previsão de duplicação do espaço sempre que necessário.

7122 Capacidade de Previsão


A magnitude da capacidade de previsão que a Quinta Lei induziu nas
universidades norte-americanas é ilustrada pelo seguinte comentário sobre
o planejamento da biblioteca da Yale University:
a quinta lei 245

O problema da biblioteca geral era atender adequadamente às necessidades


atuais e futuras, na medida em que estas pudessem ser previstas. O programa,
portanto, especificava que haveria espaço adequado para três milhões de vo-
lumes no dia da inauguração, e, finalmente, para quatro milhões de volumes.

7123 Torres para Livros


Além de enfatizar a necessidade de uma reserva generosa para o futuro,
a Quinta Lei foi aos poucos eliminando os antigos formatos de nichos e
galerias construídos para o armazenamento de livros. O formato de estante
cada vez mais ganha terreno e um novo desenvolvimento na arquitetura de
estantes é a torre para armazenamento de livros. Outra solução proposta
para enfrentar o crescimento dos acervos é a construção de depósitos,
no estilo de armazéns, onde são colocadas estantes, de modo compacto,
destinadas ao armazenamento em pouco espaço de livros usados menos
frequentemente. Cada estante possui rodas, que permitem que seja afastada
das que estão contíguas, quando é preciso retirar um livro para ser usado.
Não há dúvida que esta forma de atender à Quinta lei seria prejudicial
aos interesses da Terceira Lei. Este é um caso que requer uma solução de
compromisso. Somente livros totalmente desatualizados e sem nenhum
interesse, a não ser para os alfarrabistas, é que seriam depositados nessas
estantes colocadas tão próximas umas das outras.

7124 Ampliação Fácil


Como o tamanho do local das estantes deve crescer acompanhando o
crescimento do acervo, é necessário que as caraterísticas arquitetônicas e a
planta admitam uma fácil ampliação desse recinto. A expansão horizontal
nem sempre é possível. Por conseguinte, convém que as fundações da
área destinada às estantes sejam suficientemente resistentes, de forma a
suportar o peso de seções adicionais.

713 Estantes de Livros


As estantes devem ser todas iguais, de modo que os acréscimos pos-
sam ser sempre feitos com qualquer número de módulos. Em particular,
as prateleiras devem ser da mesma dimensão, de forma que possam ser
usadas de modo intercambiável. Sua posição nas estantes também deve
ser ajustável. Embora as prateleiras de aço possam ser fabricadas de modo
geralmente ajustável, mesmo as de madeira podem ser ajustáveis até uns
2,5 cm uma da outra por meio de suportes especiais de metal. A neces-
sidade de intercambialidade e ajustabilidade torna-se evidente quando
combinamos a Quinta Lei com o fato de que os livros serão colocados nas
estantes conforme uma ordem classificada de assuntos. À medida que se
acrescentam mais volumes, os livros têm de ser mudados de uma prateleira
para outra, a fim de manter íntegra sua sequência relativa. Como haverá
246 as cinco leis da biblioteconomia

livros de todos os tamanhos, será preciso que haja total liberdade para o
ajustamento das prateleiras, para evitar desperdício de espaço. Ver a figura
abaixo e a especificação no apêndice 1.

Reprodução com a gentil permissão do Sr. C. Seshachalam, da empresa Curzon & Co., Madras. Copyright, Curzon & Co.

Estante com prateleiras ajustáveis, placas indicativas dos corredores e das


estantes.

714 Mobilidade das Etiquetas das Prateleiras


Outra consequência da mudança dos livros de lugar à medida que a
biblioteca cresce será a necessidade de mudar constantemente as etiquetas
das prateleiras. Já vimos que é preciso uma grande quantidade de etiquetas
de prateleiras. De fato, deve-se atribuir uma etiqueta de prateleira a cada
grupo de 20 livros em média. A frequência com que são mudadas por
causa da Quinta Lei tende a ser muito grande. Daí os inúmeros esforços
voltados para a invenção de uma forma adequada para o porta-etiqueta. Os
a quinta lei 247

métodos primitivos de sinalizar as prateleiras, como colar as etiquetas na


borda delas ou escrever, também na borda, o nome da classe com giz, são
impossíveis de administrar numa biblioteca em crescimento. Uma forma
comum de porta-etiqueta consiste num pedaço de celulóide transparente,
dobrado em ângulos retos e fixado na parte de baixo das prateleiras com
um par de percevejos. O trabalho de retirar e fixar os percevejos acaba
sendo proibitivo. Outra forma de porta-etiqueta é feita de um pedaço de
chapa de metal, com as margens superior e inferior chanfradas de maneira
a formar um entalhe para encaixar as etiquetas. São afixadas às prateleiras
por meio da pressão exercida por um par de saliências que se projetam
da parte posterior da chapa, em cima e embaixo, e podem ser movidas à
vontade para diante e para trás. Mas o método mais simples e mais barato
consiste em fazer um entalhe adequado na borda da própria prateleira. As
prateleiras das estantes de livros, por mim projetadas para a universidade
de Madras, têm 2,50 cm de espessura. Um recorte levemente inclinado, na
borda frontal, comporta uma etiqueta de 1,60 cm de largura, que pode ser
movida de uma ponta a outra e também ser inserida e retirada sem atrapa-
lhar a prateleira e os livros. Este projeto resultou ser bastante satisfatório.
Não possui bordas cortantes nem nada que implique perda de tempo.

715 Sala dos Periódicos


Outra parte do edifício da biblioteca que precisa ser cuidadosamente
projetada à luz da Quinta Lei é a sala dos periódicos. Sua dimensão e seu
mobiliário terão que ser examinadas diante do inevitável crescimento do
número de periódicos correntes numa biblioteca em crescimento. A taxa
de aumento é indicada pelos seguintes números:231

Biblioteca­ No ano­ Total de No ano­ Total de Percentual


periódicos periódicos de aumento

Madras 1908 160 1931 913 571%


Ames 1900 200 1925 1 414 707%
Califórnia 1913 7 000 1925 11 179 160%
Illinois 1900 414 1924 9 943 2 401%
Iowa 1900 213 1925 1 176 552%
Michigan 1900 775 1925 3 361 434%
Minnesota 1906 321 1925 1 715 534%
Oregon 1909 158 1925 778 492%
Yale 1920 8 890 1925 11 548 130%
­­­­­­­­­­­­­­­­­
Outro fator a ser lembrado em relação a isso é que o número estimado de
periódicos científicos publicados no mundo inteiro passa de 25 mil, nú-
mero que seria superior a 60 mil se incluídos os periódicos não-científicos.
248 as cinco leis da biblioteconomia

716 Mesa de Periódicos


Para satisfazer às primeiras quatro leis em geral, e à Terceira Lei e
Quarta Lei em particular, é necessário que o último fascículo de todos os
periódicos recebidos pela biblioteca seja exposto numa sequência clas-
sificada numa sala especial de periódicos. A sala de periódicos deve ter
um tamanho suficientemente amplo e estar localizada e ser projetada de
maneira a permitir ampliação. Além disso, para economizar espaço na
mesa, convém colocar pelo menos seis fileiras de periódicos nos lados de
cada mesa. Os periódicos devem ficar expostos na posição vertical com a
capa voltada para o leitor. As fileiras devem ficar uma atrás da outra em
degraus ascendentes, para que os periódicos de todas as fileiras fiquem
bem visíveis. Ver a figura abaixo, e uma especificação, no apêndice 2.

Reprodução com gentil permissão do Sr. C. Seshachalam, da empresa Curzon & Co., Madras. Copyright: Curzon & Co.

Mesa de periódicos

717 Novos Princípios de Arquitetura


Para dar aos edifícios, aos equipamentos e ao mobiliário da bibliote-
ca o caráter de flexibilidade necessária para evitar que impeçam o livre
desenvolvimento do serviço da biblioteca em plena conformidade com a
Quinta Lei, estão sendo utilizados novos princípios de arquitetura, tais
como o projeto modular e a construção seca.
a quinta lei 249

72 Sala do Catálogo
Outra parte do prédio da biblioteca que deve contar com um espaço
generoso, por causa do crescimento do acervo, é a sala do catálogo ou a
sala na qual são mantidos os móveis do catálogo. Um móvel-padrão de
gavetas, que ocupe uma superfície de 0,58 × 0,71 m, comporta 48 mil fi-
chas catalográficas. Vimos que para cada livro são preparadas em média
seis fichas catalográficas, para que sejam atendidas a Segunda, a Terceira
e a Quarta Lei. Assim, precisa-se de um móvel-padrão para cada oito mil
volumes. Pode-se também inferir daí a taxa de aumento do número de
fichários catalográficos numa biblioteca em crescimento. Deve-se ter em
mente esta consequência da Quinta Lei ao se projetar a sala do catálogo.
Para começar, não somente deve essa sala ser suficientemente ampla, mas
se deve também prever sua ampliação. A Quarta Lei, por sua vez, urge para
que esta sala fique localizada bem perto da entrada do local das estantes.

721 Forma Física do Catálogo


Veremos em seguida o efeito da Quinta Lei sobre a forma física do catá-
logo. Se uma biblioteca é um organismo em crescimento, como consequên-
cia o catálogo da biblioteca também será um organismo em crescimento. Na
verdade, pode-se dizer que a taxa de crescimento do catálogo é de seis vezes
a taxa de crescimento do número de livros, uma vez que cada livro requer
seis entradas em média. Portanto, a primeira investida da Quinta Lei, no
que tange ao catálogo, foi lutar contra o catálogo impresso. Tomando-se
uma biblioteca que adquira seis mil volumes por ano e supondo-se que
uma página do catálogo impresso comporte 20 entradas, seria necessário
um volume de 300 páginas para imprimir um catálogo, mesmo se houvesse
apenas uma entrada por livro. Mas, se, de acordo com os requisitos das
outras leis, o catálogo for do tipo sistemático, com um índice alfabético
e uma profusão de remissivas, o volume cresceria para 1 800 páginas. O
tempo necessário para imprimir um catálogo desse porte faria com que
ele sempre estivesse com um ano de atraso, no mínimo, o que significa
que os livros mais recentes, que são os de maior interesse, não estariam
presentes nesse catálogo. Além disso, há a questão de custo e de impri-
mir volumes acumulados das edições anuais de tempos em tempos. Por
outro lado, jamais se consegue vender um catálogo de biblioteca, mesmo
quando o preço é nominal. As pessoas que estejam acostumadas somente
com bibliotecas paradas ou, na melhor das hipóteses, de crescimento lento
e desordenado, não avaliam o desperdício e a confusão causados pela
impressão do catálogo de uma biblioteca em crescimento. Habituadas à
oferta periódica de listas impressas por bibliotecas de crescimento lento,
essas pessoas ficam aborrecidas e irritadas se não lhes forem oferecidos
catálogos impressos. Se se tenta convencê-los com argumentos, recusam-se
250 as cinco leis da biblioteconomia

a ouvi-los e expressam seu rancor atribuindo tudo à tirania dos especialis-


tas. Talvez fosse mais apropriado falar da tirania dos grandes números ou
da tirania da Quinta Lei. E os especialistas apenas tentam encontrar uma
maneira de evitar essa tirania.

722 Formato de Livro Impresso


A atitude mais imperdoável foi, no entanto, a de um diretor de facul-
dade, que disse que a escola não se preocupava com o custo, pois que ele
conseguiria ressarcir toda a despesa ao forçar cada estudante a comprar
um exemplar do catálogo. Que visão estreita! E esse dinheiro podia ser
gasto simplesmente porque vinha do bolso do estudante? E, se fosse pos-
sível tirar dinheiro dos estudantes, não seria o caso de empregá-lo para
enriquecer o acervo da biblioteca, em vez de gastá-lo para fazer uma lista
desnecessária, desatualizada, malfeita, que se faz passar com o honroso
título de Catálogo da biblioteca? É sabido como considerações de natureza
econômica começam a se avolumar sempre que vem à baila a questão do
pessoal ou da destinação de verbas para compra de livros. Entretanto, todo
o sentido de economia parece esfumaçar-se quando se faz a impressão do
catálogo a cada ano ou a cada dois anos.

723 Formato de Livro com Papeletas Coladas


Supondo-se que o catálogo não possa ser impresso e que deva ser so-
mente um catálogo manuscrito, examinemos qual a forma que a Quinta
Lei recomendaria para ele. Durante muito tempo esteve em uso o formato
de volumes encadernados. Mas, numa biblioteca em crescimento, a neces-
sidade de intercalar entradas para manter a sequência correta logo levou
à adoção do ‘formato de papeletas coladas’. Neste formato, as entradas
são escritas, datilografadas ou impressas em papeletas estreitas, que são
coladas em folhas em branco, costuradas e encadernadas, deixando-se um
amplo espaço entre elas para futuras intercalações. Se qualquer área ficar
congestionada, as papeletas serão retiradas dali e redistribuídas. Além de
logo se tornarem umas coisas monstruosas, o tempo e o trabalho envolvidos
em retirar e colar papeletas nesses catálogos são proibitivos.

724 Formato de Livro de Folhas Soltas


A etapa seguinte na evolução a que a Quinta Lei levou o catálogo
foi o formato de folhas soltas. Nele, cada folha contém cerca de meia
dúzia de entradas e a sequência relativa das folhas pode ser facilmente
mantida. Várias formas de pastas registradoras, ou classificadores, de
folhas soltas foram inventadas durante os últimos vinte ou trinta anos.
O classificador Kalamazoo é resistente e conveniente, embora seja
um pouco caro. A ideia de folhas soltas, que teve origem na força da
a quinta lei 251

Quinta Lei da biblioteconomia, está hoje difundida em todos os luga-


res. A maioria das empresas está se despedindo de seus documentos
encadernados e os substituindo por livros de contabilidade de folhas.
Atlas, enciclopédias, cadastros e outras publicações similares, partes
das quais frequentemente ficam desatualizadas, são hoje em dia publi-
cadas no formato de folhas soltas, de modo que possam ser atualizadas
continuamente, com menor custo e menos desperdício.

725 Uma Folha — Uma Entrada


Entretanto, mesmo no catálogo de folhas soltas, a inserção de mais
de uma nova entrada numa folha levava a uma interrupção da sequên-
cia, o que se tornava cada vez mais inconveniente, na medida em que a
biblioteca continuava crescendo. Para evitar isto, o tamanho da folha foi
reduzido e somente uma entrada era colocada em cada folha. Constatou-
-se, em seguida, que o manuseio dessas pequenas e finas folhas de papel
era inconveniente.

726 Formato de Fichas


Isso deu origem ao catálogo no formato de fichas. Depois de muitas
experiências, o tamanho de 12,5 × 7,5 cm foi aceito como o mais conve-
niente. Em cada ficha coloca-se somente uma entrada, e, assim, a sequ-
ência correta é sempre mantida. Constatou-se que são apropriadas as
fichas com espessura de 0,254 mm. Para que as fichas possam suportar o
desgaste, devem ser escolhidas as que sejam encorpadas e de trama re-
sistente. Fornecedores de bibliotecas, como a Libraco, 62, Cannon Street,
em Londres, são especializados na produção destas fichas. Considera-se
que suas “fichas de 12,7 × 7,5 cm, de média espessura, com perfuração
circular”, que custam cerca de 8,8 rupias o milheiro, inclusive frete e taxas
alfandegárias, sejam bastante duráveis. Como no caso do livro de folhas
soltas, o sistema de fichas constitui outra contribuição histórica da profis-
são de bibliotecário para o mundo empresarial em geral. Trouxe enorme
comodidade, flexibilidade, simplicidade e atualização para a manutenção
de todos os tipos de registros.

727 Catálogo Topográfico


Da mesma forma, o catálogo topográfico, que mostra os livros na sequência
em que estão colocados nas estantes e é indispensável para inventariar o
acervo, passou também por semelhantes etapas evolutivas, assumindo
finalmente o formato em fichas, como consequência da Quinta Lei.

73 Sistema de Classificação
Outra questão importante, que precisa ser examinada à luz da Quinta
252 as cinco leis da biblioteconomia

Lei, é a classificação dos livros. Em primeiro lugar, como uma biblioteca


é um organismo em crescimento e como o próprio conhecimento está a
crescer, é necessário que a “classificação seja abrangente, envolvendo todo
o saber passado e presente, e que preveja espaços para possíveis acréscimos
ao conhecimento”. Na verdade, isto foi estabelecido pelo Sr. Sayers como
o primeiro cânone da classificação. E citando Sayers novamente: “Uma
classificação deve ser elástica, expansível e hospitaleira no mais alto grau.
Isto é, deve ser construída de tal maneira que todo novo assunto possa ser
inserido nela sem perturbar sua sequência.” Casos como o da mecânica
ondulatória, matrizes, efeito Raman, motor de combustão interna, rádio,
behaviorismo, plano Dalton e toda a área da sociologia tiveram que ser
acomodados num período de tempo relativamente curto. Não se pode
dizer que todos os sistemas impressos em vigor tenham saído incólumes
desse teste.

731 Notação Decimal


Além de o esquema de classes ter de ser abrangente e hospitaleiro, a
notação relativa a elas deve ser totalmente flexível. O maior serviço que
Melvil Dewey prestou à biblioteconomia foi a demonstração do imenso
potencial da notação decimal para enfrentar as dificuldades devidas ao
crescimento. É lamentável que o influente sistema da Library of Congress
não tenha conseguido valer-se das vantagens deste tipo flexível de nota-
ção e tenha adotado o método primitivo de deixar lacunas na sequência
numérica corrente. A Quinta Lei logo crescerá mais que essas lacunas, por
mais previdentes e generosas que sejam. Somente a notação decimal é que
não será atingida por essa lei. Na verdade, o brilhante sucesso da notação
decimal na superação das provas impostas pela Quinta Lei da biblioteco-
nomia está levando à sua adoção também em outros setores. Autores com
mentalidade analítica, como Jesperson e Whittaker, começam a numerar
os parágrafos e capítulos de seus trabalhos de forma estritamente decimal.
Alguns autores até mesmo alegam que o uso da notação decimal contribui
substancialmente para a clareza das ideias.

732 Sistemas Clássicos


Não é de modo algum fácil conseguir a hospitalidade das classes e a
flexibilidade da notação de modo a satisfazer plenamente à Quinta Lei. É
provável que surjam dificuldades imprevistas na medida em que a biblioteca
cresça. Não se deve, despreocupadamente, ousar construir um sistema de
classificação. O antigo plano de dividir a biblioteca em cerca de umas dez ou
vinte classes principais e sair numerando os livros de cada classe consecuti-
vamente, na ordem de sua chegada, logo se mostrará inadequado e causará
confusão na medida em que a biblioteca for crescendo. Somente a ignorância
a quinta lei 253

da Quinta Lei é que faz com que muitas de nossas bibliotecas adotem este
plano. O melhor caminho a seguir consiste em adotar um sistema de clas-
sificação reconhecido e que exista em edição impressa. Há quatro sistemas
clássicos usados em países de língua inglesa: Brown’s Subject Classification
[Classificação de Assuntos de Brown], Cutter’s Expansive Classification [Clas-
sificação Expansiva de Cutter], Dewey’s Decimal Classification [Classificação
Decimal de Dewey] e a Library of Congress Classification [Classificação da
Library of Congress]. Destas, a Classificação Decimal de Dewey é a mais
popular, usada em cerca de 14 mil bibliotecas. A Classificação da Library of
Congress também é muito utilizada nos Estados Unidos. O fornecimento
de fichas catalográficas impressas pela Library of Congress está tornando
este sistema popular. Os sistemas de Cutter e de Brown não são usados em
muitas bibliotecas, pois não existe uma instituição que os atualize periodi-
camente. A obra Classification, theoretical and practical, de E.C. Richardson,
traz um estudo sobre a história bibliográfica dos sistemas de classificação.
Existem não menos de 161 sistemas mencionados por ele. Mas, como já
disse, somente dois deles resistiram ao teste do tempo.

733 Classificação dos Dois Pontos


Elaborei um novo sistema, conhecido como Colon Classification [Clas-
sificação dos Dois Pontos]. É adotado na biblioteca da universidade de
Madras e algumas outras bibliotecas indianas que estão começando a
classificar seus acervos. A notação do sistema é mista e se valeu plenamente
da flexibilidade dos algarismos decimais. Também apresenta muitas carac-
terísticas mnemônicas. O emprego consciente de características múltiplas
como base da classificação, sem que isso acarrete classificação cruzada,
tornou suas classes muito elásticas. O próximo volume desta série tratará
desta classificação. O desenvolvimento da Classificação dos Dois Pontos
durante os últimos trinta anos resultou em três técnicas, a saber, análise
de fases, análise de facetas e análise de zonas, bem como no conceito de
classificação analítico-sintética. Estas técnicas e este conceito satisfazem em
grande medida à Quinta Lei. Este sistema agora vem sendo considerado
um sistema analítico-sintético.

734 Mudança de Sistema


Antes de continuarmos, talvez valha a pena mencionar um detalhe
prático que se deve ter em mente junto com a Quinta Lei. O número de
chamada que individualiza o livro precisa ser escrito, na prática, em vários
lugares, a saber, no verso da página de rosto do livro, na papeleta de data
de devolução colada no livro, na lombada do livro, no cartão do livro, no
catálogo topográfico, no registro de aquisição, e em cada uma das fichas
catalográficas que correspondem ao livro, e já dissemos que o número
254 as cinco leis da biblioteconomia

médio de fichas catalográficas é de seis por livro. Isto deve esclarecer que
não é uma questão banal mudar a classificação de uma biblioteca. O tra-
balho, o tempo e o custo envolvidos serão proibitivos.

735 Mutilação do Sistema


Esta dificuldade prática deve dissuadir as bibliotecas que queiram
adotar um esquema parcialmente. Não é raro que bibliotecas, que não per-
ceberam todas as implicações da Quinta Lei, mutilem o esquema escolhido,
por exemplo, limitando-o a três ou quatro números de Dewey, conforme
sua vontade. Mas, na medida em que a biblioteca for crescendo, surgirá
a necessidade de informações mais completas e não será fácil mudar ou
desdobrar os números de chamada de todos os livros. Um caminho igual-
mente perigoso será o de alterar o sistema escolhido, num ou noutro ponto.
Ninguém, porém, deve arriscar-se a fazer estas modificações sem ter uma
boa perspectiva do futuro e examinar se as alterações propostas não entra-
rão em conflito, em algum momento, com as características mnemônicas
da notação ou com os métodos de divisão em classes. Não basta que as
modificações pareçam viáveis com a classificação existente. Um esquema
mutilado, que aparentemente funciona bem em determinado tamanho de
biblioteca, raramente funcionará a contento quando a biblioteca crescer.
Sabe-se, em engenharia, que a construção de pequenos modelos é muitas
vezes algo fácil, enquanto desenvolvê-los em escala maior apresenta sérios
problemas técnicos que amiúde só são resolvidos se se adotar uma nova
abordagem. O mesmo acontece com a classificação. Como uma bibliote-
ca é um organismo em crescimento, há uma grande necessidade de um
cuidadoso planejamento por causa da dificuldade de mudar o projeto
mais tarde. O caminho mais prudente consiste em adotar um sistema
já comprovado, da forma como se apresenta, sem modificá-lo aqui e ali.

74 Leitores e Empréstimo de Livros


Veremos, em seguida, o aumento do número de leitores à luz dos
seguintes fatores: 1) o tamanho do salão de leitura; 2) o método de em-
préstimo e 3) algumas medidas preventivas.

741 Salão de Leitura


Considerando, em primeiro lugar, o tamanho do salão de leitura, é
muito raro a Quinta Lei não levar a melhor diante das autoridades res-
ponsáveis pela biblioteca. Por exemplo, essas autoridades, no caso da
biblioteca da universidade de Madras, afirmaram, em 1911, que a lei estaria
satisfeita com um salão de leitura de 18 m × 7 m. Mas, em 1926, ela teve
que exigir salas que mediam, ao todo, 67 m × 10 m. A persistir a taxa atual
de crescimento do número de leitores, não tardará muito e terá de exigir
a quinta lei 255

acomodação adicional para os leitores. A maneira generosa como a Yale


University atendeu às demandas da Quinta Lei em relação a esta questão
pode ser vista neste relato:

Os locais de leitura incluíam um salão geral com 260 lugares para leitores e
com 15 mil obras de referência nas estantes; uma sala de livros em reserva, com
lugares para 220 leitores e com 25 mil volumes em duplicata para uso em sala
de aula, com espaço adicional no subsolo para uma quantidade muito maior de
volumes, uma sala de periódicos, com lugares para 120 leitores, com estantes
ao longo das paredes para dois mil títulos de periódicos correntes; uma sala
especial para alunos de graduação, com lugares para 165 alunos, e com estantes
para 30 mil dos melhores livros em inglês sobre todos os assuntos. Um ‘estúdio
para alunos não-residentes no campus’, situado no subsolo, abrigava mil das
mais importantes obras de referência e oferecia 90 lugares.232

Essa biblioteca, portanto, oferecia espaço para cerca de mil leitores.

742 Aumento do Trabalho de Empréstimo


O aumento do número de leitores leva ao aumento do número de
empréstimos. Eis alguns números que mostram a taxa de crescimento do
empréstimo em algumas bibliotecas universitárias:

Biblioteca­ Ano­ Número de Ano Número de Percentual de


volumes em- volumes em- aumento
prestados prestados
(milhares)­ ( milhares)

Madras 1914 5 000 1930 113 000 2 260


Califórnia 1910 184 000 1925 896 000 487
Cincinnati 1905 21 000 1925 134 000 690
Columbia 1905 232 000 1924 1 206 000 520
Michigan 1910 204 000 1925 477 000 234
Minnesota 1910 115 000 1925 441 000 422

7421 Oportunidade para Crescimento Adicional


A tabela seguinte, relativa a algumas bibliotecas municipais britânicas,
não somente mostra a magnitude do trabalho de empréstimo, como hoje
se apresenta, mas também lança alguma luz sobre a oportunidade para
aumentar ainda mais o volume de empréstimos. Como a Segunda Lei
só ficará satisfeita quando a porcentagem dos leitores que retiram livros
emprestados em relação à população chegar a 90%, conclui-se que existe
muito espaço para o empréstimo crescer em quase todas as cidades men-
cionadas na tabela.
256 as cinco leis da biblioteconomia

Cidade População Leitores % dos Total de


que reti- leitores itens em-
ram livros em rela- prestados
empresta- ção à po-
dos pulação

Wigun 91 200 8 002 8,7 258 908


Twickenham 34 790 4 404 12,6 142 838
York 84 039 12 116 14,4 380 576
Walthamstow 129 395 19 043 14,7 632 517
Cheltenham 50 630 8 030 15,9 279 105
Willesden 177 973 29 192 16,4 908 980
Swinton and Pendlebury 34 750 5 814 16,7 217 205
Southend-on-Sea 128 500 22 628 17,0 770 414
Chorley 30 581 5 663 18,5 162 024
Kirkaldy 45 000 9 916 20,0 229 259
Stockport 123 315 26 704 21,7 545 027
Northampton 90 895 19 984 22,0 552 790
Royal Lamington Spa 29 450 7 107 24,1 216 249
Darwen 38 200 11 733 30,0 323 241
Montrose 10 979 6 624 60,3 131 770

743 Livre Acesso


É preciso ter em mente esse grande aumento da circulação ao planejar
os métodos de empréstimo. Quando o empréstimo chega a centenas por
dia, o método antiquado em que um atendente tem de apanhar os livros
solicitados e entregá-los no balcão exigiria o serviço de cerca de vinte
atendentes em tempo integral. Na medida em que a circulação aumenta
ainda mais, o quadro de atendentes terá necessidade de um reforço pro-
porcional. Este crescimento indefinido de pessoal, para fazer o trabalho
mecânico do empréstimo, é considerado antieconômico e as autoridades
responsáveis pelas bibliotecas estão sendo levadas a admitir que o sistema
de ‘livre acesso’ é o único método para cumprir a Quinta Lei.

744 Sistema de Empréstimo em Livro


Além disso, o método de empréstimo mediante anotação feita em
livros pautados simplesmente fracassa. A quantidade média de volumes
emprestados é normalmente o dobro do número de leitores que visitam
a biblioteca. O número de operações envolvidas no empréstimo de um
volume pelo método de anotação em livro foi mencionado na seção 671.
Esses dados mostram que o processo de registrar as entradas no livro de
folhas pautadas envolveria o emprego de vários atendentes de balcão, e,
mesmo assim, seria quase impraticável lidar com a situação nos horários
a quinta lei 257

de pico. A maioria dos leitores estaria deixando a biblioteca nos últimos


minutos do dia e o método de empréstimo mediante anotação em livro
seria simplesmente impossível.

745 Sistema de Empréstimo de Dois Cartões


Por outro lado, é possível lidar com mais presteza com um afluxo
grande de público empregando-se o método do ‘tíquete de empréstimo,
cartão do livro’, mencionado nas seções 673 a 676. Além disso, este método
resolve automaticamente o problema de identificar os leitores que retiram
livros emprestados. Este problema se torna sério na medida em que o nú-
mero desses usuários cresce. Torna-se impossível depender da memória
de alguém para guardar as fisionomias. Grandes faculdades e bibliotecas
públicas populares acham cada vez mais difícil lidar com este problema.
A introdução dos tíquetes de empréstimo transfere a responsabilidade
dos funcionários do balcão para os próprios leitores. Cada leitor fica res-
ponsável pelos livros retirados com seus tíquetes e lhe cabe mantê-los sob
seus cuidados e evitar que sejam usados por outrem.

7451 Obediência às Regras


Ademais, a emissão de um número de tíquetes igual à quantidade
de volumes a que o leitor tiver direito de retirar por empréstimo, com
retenção na biblioteca de um tíquete para cada livro emprestado, garante
automaticamente que ele não poderá levar, em qualquer momento, mais
volumes além do permitido. Será praticamente impossível ter essa mes-
ma garantia com o método de anotação em livro em face do aumento do
número de leitores.

7452 Coleta de Dados para Estatística


Igualmente, como os tíquetes de empréstimo, acompanhados dos
respectivos cartões dos livros, são colocados atrás da ficha-guia de data
de devolução, na ordem do número de chamada nos cartões dos livros,
a coleta dos dados estatísticos sobre o empréstimo diário é feita com
menor perda de tempo e de trabalho. Por outro lado, com o método do
livro de anotações, onde os livros serão registrados somente pela ordem
em que foram emprestados, a coleta desses dados será muito trabalhosa e
incômoda, tornando-se até mesmo impraticável caso o empréstimo diário
cresça grandemente.
746 Piso Regular
A questão do empréstimo, no âmbito da Quinta Lei, também tem algo
a ver com o projeto arquitetônico da biblioteca. O aumento do número de
empréstimos também implica aumento do número de volumes a serem
recolocados nas estantes. Sem esse aumento, em etapas anteriores, os pou-
258 as cinco leis da biblioteconomia

cos volumes a serem recolocados nas estantes podiam ser transportados


manualmente, sem grande dificuldade. Mas, à medida que aumenta o
movimento do empréstimo, isso talvez não seja conveniente. Será neces-
sário transportar os livros num carrinho apropriado, o que significa que
o espaço da biblioteca não deve ter soleiras elevadas, com o piso regular
e no mesmo nível, para permitir a movimentação do carrinho de livros
para qualquer lugar. Se houver mais de um andar, será preciso um eleva-
dor suficientemente amplo para comportar o carrinho de livros. O piso do
elevador deve alinhar-se com o piso dos pavimentos.

747 Medidas Preventivas


Conforme vai aumentando o número de leitores, torna-se premente, nas
bibliotecas de livre acesso, a preocupação sobre como impedir a retirada
não-autorizada de livros da biblioteca. Não é viável vigiar cada leitor a não
ser que certas medidas preventivas sejam adotadas. Tais medidas devem
realmente garantir que todos os leitores saiam da biblioteca, um por vez,
através de uma porta exclusiva de saída, onde se possa exercer vigilância.
As medidas preventivas consistem em:
A entrada na biblioteca deve ser feita exclusivamente por uma única
porta e a saída também única e exclusivamente por uma porta. As portas
devem normalmente ser mantidas na posição fechada, e abertas somente
quando o assistente do balcão liberar a tranca. Assim que o leitor passar,
ela deve se trancar automaticamente. O acesso deve permitir a passagem,
por vez, de um único leitor. Em todas as outras portas e janelas devem
ser instaladas treliças ou telas cujas aberturas sejam pequenas o bastante
para impedir a passagem de um livro. Ademais, não se deve permitir que
os leitores recoloquem os livros nas estantes.

748 Desserviço ao Livre Acesso


Talvez não se perceba a necessidade dessas medidas preventivas quan-
do o número de leitores e de empréstimos é pequeno. Mas, ela se tornará
evidente à medida que a biblioteca for crescendo, principalmente o número
de empréstimos. Talvez, o maior dano ao sistema de livre acesso seja cau-
sado pelos seus adeptos imprudentes que o introduzem sem as devidas
salvaguardas. Com o crescimento da biblioteca, a perda de material pode
chegar a ultrapassar um limite razoável e então o sistema é condenado
precipitadamente. Estes equívocos devem ser evitados desde o início, ou
seja, desde quando a biblioteca é pequena, pois a biblioteca é um organis-
mo em crescimento, que se desenvolve constante e imperceptivelmente.

75 Pessoal
Passemos ao terceiro fator — o pessoal. Mesmo quem tem consciência
a quinta lei 259

da verdade da Quinta Lei quanto aos livros e aos leitores não consegue
perceber a necessidade de crescimento do terceiro fator. O sistema de livre
acesso, com as medidas preventivas devidas, e o método moderno de
empréstimo dispensam o aumento do quantitativo de pessoal no balcão
e reduzem bastante a necessidade de aumentar o número de atendentes.
No entanto, as seções de livros, de periódicos, de catalogação, de encader-
nação e a de referência precisam crescer à medida que a biblioteca cresce.
Destas cinco seções, o crescimento das três primeiras depende somente da
taxa de crescimento do primeiro fator, os livros. O crescimento, porém,
das duas últimas seções depende não só do crescimento do acervo mas
também do aumento do número de leitores. A Quinta Lei estimula as au-
toridades responsáveis por bibliotecas a se lembrarem que a eficiência de
uma biblioteca não pode ser mantida no nível adequado, a menos que se
providencie o necessário incremento do seu pessoal em todas essas seções.

751 Especialização
Admitindo-se que a autoridade responsável pela biblioteca adote me-
didas para o aumento do quadro de pessoal na medida necessária, esse
aumento implicará novos problemas de organização. Com um grande
quadro de pessoal, serão necessários mais mecanismos de supervisão e
mais burocracia. Se o quadro de pessoal for limitado a uma única pessoa
eficiente, alcançaremos os melhores resultados. Com um quadro de duas
pessoas igualmente eficientes talvez consigamos dobrar o trabalho feito.
Mas, com um quadro de dez, não teremos o trabalho multiplicado por
dez; a proporção tende a ser muito menor. Compete ao organizador, à
pessoa que dirige, manter essa proporção tão alta quanto possível. Um
método aceito para conseguir isso está em aproveitar as oportunidades
de especialização, que o tamanho sem dúvida acarreta. Esta especialização
deve avançar, sempre que o quadro de pessoal for ampliado.

752 Especialização Progressiva


Tão logo a biblioteca aumenta o pessoal de um para dois, o atendimento
no balcão e o serviço de referência devem ser separados de todas as demais
tarefas e atribuídos a um deles. Na etapa seguinte, talvez convenha criar
três seções: a administrativa, a técnica (classificação e catalogação) e a de
atendimento. Em outra etapa, pode ser criada uma seção de referência. Se
o pessoal crescer ainda mais, a seção administrativa poderá ser dividida
em seções de aquisição, de registro, de periódicos, de encadernação, de
contabilidade, de correspondência e assim por diante, quando oportuno.
Igualmente, a seção técnica pode ser dividida em seções de classificação
e de catalogação. À medida que a seção de referência se fortalecer talvez
seja muito útil seu pessoal se especializar em diferentes assuntos.
260 as cinco leis da biblioteconomia

753 Transferência entre Seções


Quando o pessoal da biblioteca está distribuído por várias seções, é
preciso determinar cuidadosamente aquela onde cada um se sinta mais
bem ajustado, tanto fisicamente quanto profissional e emocionalmente.
Embora as transferências de uma seção para outra possam ser convenientes
do ponto de vista do pessoal, elas devem, antes de tudo, subordinar-se
ao princípio de que a biblioteca deve receber o melhor serviço que cada
pessoa for capaz de prestar.

754 Comissão de Pessoal


Numa biblioteca com um quadro grande de pessoal, talvez seja útil
constituir uma comissão de pessoal, formada pelo bibliotecário, os chefes
das seções e um representante de cada seção. A comissão de pessoal pode
orientar o bibliotecário
1) na sistematização do trabalho das seções tendo em vista a eficiência
e economia de material, energia e tempo;
2) na solução dos problemas que envolvam as relações entre as seções;
3) no desenvolvimento dos recursos bibliográficos da biblioteca de
maneira harmônica;
4) na descoberta de métodos que melhorem o serviço para o público; e
5) na organização de trabalho de extensão de todos os tipos.

755 Reuniões Secionais


Eventualmente, este conselho levará ao desenvolvimento da camarada-
gem e do esprit de corps entre os funcionários e capacitará os novos servido-
res em matéria de organização e criatividade. Desenvolverá também neles
um sentido de responsabilidade e de participação. Enquanto o bibliotecário
pode presidir reuniões da comissão e de todo o pessoal, talvez convenha
fazer com que os próprios chefes presidam as reuniões das respectivas
seções. Isto lhes propiciará maiores oportunidades para que desenvolvam
capacidade de liderança. Quando muito, o bibliotecário pode comparecer
às reuniões e participar das discussões, mas sem poder de voto.

756 Espírito da Colmeia


Como a biblioteca tem que funcionar todos os dias e por muitas horas, a
organização da seção de referência e da seção de circulação requer a maior
competência e atenção, de modo que haja absoluta continuidade no traba-
lho e que a mudança de turno possa ocorrer de forma tranquila e rápida
sem a menor perturbação do trabalho. Na verdade, os leitores nem devem
perceber que houve mudança de pessoal. Os detalhes desta organização e
dos mecanismos que têm que ser montados para assegurar um controle e
uma coordenação adequados serão estudados nos meus próximos livros
a quinta lei 261

Reference service and bibliography e Library administration. Mas há um fator


a ser mencionado: o espírito do grupo. Os funcionários devem conviver
dentro da maior cordialidade, e estar dispostos a cooperar entre si de todas
as maneiras possíveis. Não deve haver o menor sinal de ciúme ou inveja. É
preciso superar por completo a propensão a reivindicar reconhecimento
exclusivamente para si próprio. O ego deve ser contido em tal grau de modo
que todo funcionário esteja disposto a tratar qualquer trabalho como anô-
nimo. A imagem que Maeterlinck traçou do trabalho na colmeia contém a
mais vívida e precisa descrição do espír