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CONSTELAÇÕES SISTÊMICAS COMO TÉCNICA DE RESOLUÇÃO DE

CONFLITOS FAMILIARES

SYSTEMIC CONSTELLATIONS AS A FAMILY CONFLICT RESOLUTION


TECHNIQUE

Camila Schroeder Lucachinski1


Márcia Sarubbi Lippmann2

Resumo

Esta pesquisa objetiva analisar a aplicação das Constelações Sistêmicas no


sistema Judiciário brasileiro. Especificamente, aborda-se referida técnica como
uma alternativa para a resolução de conflitos familiares e também de como
ocorre a sua aplicação. Trata-se, ainda, do trabalho realizado pelo magistrado
Sami Storch, na Bahia, e, no âmbito catarinense, aquele feito sob a coordenação
da magistrada Vânia Petermann. Para tanto, faz-se uso das técnicas de pesquisa
bibliográfica e, na fase de investigação, utiliza-se o método indutivo para
pesquisar e identificar os conceitos, ideias e posicionamentos doutrinários
pertinentes. Com isso, verificou-se que a técnica de Constelação Sistêmica está
presente em vários Tribunais do país e já conta com estudos que visam obter
dados estatísticos e qualitativos da sua utilização. Infere-se também que a
técnica contribui para a humanização do ideal de Justiça brasileira, bem como é
capaz de proporcionar uma solução mais profunda e concreta dos conflitos
levados à apreciação jurisdicional.

Palavras-chave: Constelação sistêmica. Abordagem sistêmica de conflitos. Leis


sistêmicas. Conflitos familiares.

Abstract: This research aims to analyze the application of systemic


constellations in the Brazilian Judiciary. Specifically, this is a technique used as
an alternative form to solve family conflicts, as well as it’s application

1
Acadêmica do décimo período do curso de Direito da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI),
campus Itajaí (SC). E-mail: slcamila94@gmail.com.
2
Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí. Professora titular do curso de
Direito da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), campus Itajaí (SC) e Balneário Camboriú
(SC). E-mail: sarubbi@univali.br.
methodology. The paper, records the work done in state of Bahia by the state
judge Mr. Sami Storch, and the initiatives proposed in the state of Santa Catarina,
by Mrs. Vânia Petermann. A list of references was used, as well of the induct
method to present the ideas, abstraction, concepts and the doctrine standards
applied in several Brazilian courts, an initial statistical qualitative analysis of
court's decision. As a result, the technic represents a more humanise
implementation of the Brazilian justice system ideals, therefore, capable to
implement deeper and more concrete resolution of the conflicts taken to the
Brazilian judiciary system.

Key-words: Systemic constellation. Systemic approach to conflicts. Systemic


laws. Family conflicts.

Introdução

O presente ensaio tem como objeto a análise das Constelações


Sistêmicas aplicadas no sistema Judiciário. Especificamente, objetiva-se
analisar a aplicação da técnica como uma alternativa para a resolução dos
conflitos familiares.
Compreendida como método psicoterapêutico realizado por meio de
representações e aplicado segundo a metodologia da abordagem sistêmico-
fenomenológica3, a Constelação Sistêmica é dinâmica capaz de vislumbrar todo
o corpo social de um Sistema4 e, com isso, contribuir com a análise e cura das
suas desordens e conflitos5.
Imperioso salientar que a Constelação Sistêmica, quando aplicada aos
sistemas familiares, pode ser chamada de Constelação Familiar. Quando

3
ROSA, Amilton Plácido da. Direito Sistêmico: A Justiça Curativa, de Soluções Profundas
e Duradouras. Disponível em: https://www.carpesmadaleno.com.br/. Acesso em: 15/04/2017.
4
“[...] uma ordem dinâmica de partes e processos que interagem mutuamente”. BERTALANFFY,
Ludvig Von. Teoria Geral dos Sistemas: Fundamentos, Desenvolvimento e Aplicação. 7ª
Edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2013, p. 25.
5
CARDOSO, Hélio Apoliano. Direito de Família à Luz da Constelação Familiar e do Direito
Sistêmico. Revista Síntese de Direito de Família. São Paulo, v. 17, nº 97, p. 75-78, ago/set 2016.
Disponível em:
http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_ser
vicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2007/Rev.Sint.Dir.Fam_n.97.pdf. Acesso em: 16/04/2017.
direcionada a sistemas empresariais e do trabalho, também é chamada de
Constelação Organizacional.
Muito se discute sobre a necessidade de humanização da Justiça
brasileira, no sentido de tratar de cada controvérsia de maneira que, ao conduzir
e estimular uma solução pacífica, se possa levar em consideração as
particularidades e necessidades dos diferentes indivíduos que recorrem ao
sistema Judiciário para a solução dos seus conflitos6.
Nesse diapasão, dentre as técnicas e métodos adequados de solução de
conflitos, sob um prisma sistêmico7, vislumbra-se a Constelação Sistêmica como
uma técnica capaz de proporcionar àqueles que propõe suas controvérsias à
apreciação do Judiciário uma solução realmente satisfatória, pacífica e
duradoura.
Além disso, referida técnica propõe-se à resolução de conflitos de modo
a fazer com que as partes tomem para si a responsabilidade de olhar para seus
reais interesses, sentimentos e para todo o seu Sistema, honrando,
conscientemente ou não, a hierarquia que nele existe, acolhendo e respeitando
todos que a ele pertencem e também compreendendo o equilíbrio a ele
necessário8.
Com isso, é possível identificar e abordar o conflito oculto, aquele por trás
das posições assumidas em um processo judicial, contribuindo para uma
pacificação mais efetiva do que ocorre através da lógica adversarial que impera
nos pleitos judiciais9.
É nesse contexto que este ensaio visa realizar um estudo sobre a
aplicabilidade da técnica de Constelação Familiar como forma de resolução

6
MUSZKAT, Malvina E.; OLIVEIRA, Maria Coleta; UNBEHAUM, Sandra; MUSZKAT, Susana.
Mediação Familiar Transdisciplinar: Uma metodologia de trabalho em situações de
conflito de gênero. São Paulo: Summus, 2008.
7
Entende-se por sistêmico o trabalho e abordagem munidos de técnicas capazes de
proporcionar um apoio transdisciplinar ao problema jurídico posto a análise. PETERMANN,
Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca de Florianópolis
(SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta pesquisa em
18/05/2017.
8
HELLINGER, Bert. Ordens do Amor: Um Guia Para o Trabalho com Constelações
Familiares. São Paulo: Cultrix, 2003.
9
MUSZKAT, Malvina E.; OLIVEIRA, Maria Coleta; UNBEHAUM, Sandra; MUSZKAT, Susana.
Mediação Familiar Transdisciplinar: Uma metodologia de trabalho em situações de
conflito de gênero.
pacífica e adequada de conflitos, de modo a tornar-se também instrumento
capaz de contribuir para o descongestionamento do sistema Judiciário.
Além disso, discorrer-se-á, com foco no âmbito do Judiciário catarinense,
sobre como tal aplicação já está sendo feita, tratando do momento em que a
vivência de Constelações acontece, quem a realiza e a forma com que é
conduzida.
Estabelecidos tais objetivos e ponderações, o presente artigo é divido em
três partes, sendo que na primeira dedicar-se-á a um apanhado conceitual das
Constelações Familiares. Em um segundo momento, tratar-se-á das leis
sistêmicas, ou Ordens do Amor, desenvolvidas por Bert Hellinger, cuja
observância e consideração pelo operador do direito está intimamente
relacionada à abordagem sistêmica de conflitos e à aplicação das Constelações.
Por fim, tratar-se-á, mais especificamente, da aplicação da técnica nos conflitos
familiares levados ao Judiciário, tratando do pioneirismo de Sami Storch, juiz de
direito do Tribunal de Justiça da Bahia, e também da aplicação da técnica
perante o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, através da oficina Conversas
de Família, que ocorre na comarca de Florianópolis, sob a coordenação da
magistrada Vânia Petermann.
No que se refere à metodologia empregada, na fase de investigação, “[...]
momento no qual o Pesquisador busca e recolhe os dados, sob a moldura do
Referente estabelecido [...]”10, utiliza-se o método indutivo, que consiste em
“pesquisar e identificar as partes de um fenômeno e colecioná-las de modo a ter
uma percepção ou conclusão geral”11. Além disso, fez-se uso também das
técnicas da pesquisa bibliográfica, que, segundo Cesar Luiz Pasold, é “técnica
de investigação em livros, repertórios jurisprudenciais e coletâneas legais”12.
Quanto às limitações deste trabalho, salienta-se que não se pretende aqui
esgotar as formas de abordagem sistêmica de conflitos e de aplicação da técnica
de Constelação Familiar. Portanto, toma-se como paradigma a ser analisado o
trabalho desenvolvido por Sami Storch, juiz titular da 2ª Vara de Família, Órfãos

10
PASOLD, César Luiz. Metodologia da Pesquisa Jurídica: teoria e prática. 13ª Edição.
Florianópolis: Conceito Editorial, 2015, p. 87.
11
PASOLD, César Luiz. Metodologia da Pesquisa Jurídica: teoria e prática, p. 91.
12
PASOLD, César Luiz. Metodologia da Pesquisa Jurídica: teoria e prática, p. 215.
e Sucessões da comarca de Itabuna (BA) e precursor da utilização das
Constelações Sistêmicas no Judiciário, e aquele desenvolvido por Vânia
Petermann, no Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, da comarca de
Florianópolis (SC), vara da qual é juíza titular.

1 Constelações Sistêmicas

Constelação Sistêmica, ou também chamada de Constelação Familiar


quando aplicada especificamente aos sistemas familiares, é método
psicoterapêutico realizado por meio de representações e aplicado segundo a
metodologia da abordagem Sistêmico-fenomenológica13.
Para Hélio Apoliano Cardoso14, Constelação Familiar é dinâmica
terapêutica que tem por escopo vislumbrar todo o corpo social de uma família
quando o que se pretende é a solução de conflitos, sejam eles do âmbito familiar
ou não.
Referida técnica é capaz de acessar o Campo Morfogenético15 da família,
que é onde estão todas as suas informações emocionais e psicológicas, e por
isso é capaz de identificar desordens, conflitos e pontos de tensão emocional e
psicológica no sistema familiar que condicionam o comportamento dos sujeitos
que o compõe sem que, na maioria das vezes, se deem conta16.
Bert Hellinger17, desenvolvedor da técnica psicoterapêutica, explica que a
Constelação Familiar toma como pressuposto metodológico que, nos sistemas
familiares, questões vivenciadas por gerações anteriores, como, por exemplo,
mortes precoces, suicídios, tragédias, depressões e conflitos entre ascendentes

13
ROSA, Amilton Plácido da. Direito Sistêmico: A Justiça Curativa, de Soluções Profundas
e Duradouras.
14
CARDOSO, Hélio Apoliano. Direito de Família à Luz da Constelação Familiar e do Direito
Sistêmico.
15
Estruturas de probabilidade, nas quais as influências dos tipos passados mais comuns se
combinam para aumentar a probabilidade de repetição destes tipos. SHELDRAKE, Rubert. A
Ressonância Mórfica e a Presença do Passado. Lisboa (Portugal): Instituto Piaget, 1995.
16
BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um
Estudo de Caso. Revista Psicopedagogia. São Paulo, v. 26, nº 80, p. 274-285,
2009. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
84862009000200012&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16/04/2017.
17
HELLINGER, Bert. Ordens do Amor: Um Guia Para o Trabalho com Constelações
Familiares.
e descendentes, podem inconscientemente afetar a vida de seus familiares com
novos suicídios, relações de conflito, transtornos físicos e psíquicos, dificuldade
de estabelecer relações duradouras com parceiros e conflitos intermináveis entre
familiares.
O Autor chama isso de herança afetiva, que é a transmissão
transgeracional de conflitos emocionais ou psíquicos e que acaba criando um
verdadeiro emaranhado. Um ancestral deixa situações por resolver dentro do
sistema e seus descendentes, conscientemente ou não, carregarão consigo os
sentimentos e pensamentos oriundos desse conflito, que, devido à herança
afetiva, muitas vezes acabam reproduzindo-o em suas vidas, perpetuando a
transmissão às gerações futuras e criando um verdadeiro emaranhado18.
Bert Hellinger e Gabriele Tem Hövel explicam que emaranhado, dentro da
abordagem psicoterapêutica, é quando
alguém na família retoma e revive inconscientemente o destino de um
familiar que viveu antes dele. [...] existe uma consciência de grupo que
influencia todos os membros do sistema familiar. A este pertencem os
filhos, os pais, os avós, os irmãos dos pais e aqueles que foram
substituídos por outras pessoas que se tornaram membros da família.
[...] se qualquer um desses membros do grupo foi tratado injustamente,
existirá nesse grupo uma necessidade irresistível de compensação.
Isso significa que a injustiça que foi cometida em gerações anteriores
será representada e sofrida posteriormente por alguém da família para
que a ordem seja restaurada no grupo. É uma espécie de compulsão
sistêmica de repetição. Mas essa forma de repetição nunca coloca
nada em ordem19.
Sendo assim, verifica-se que, através da técnica de Constelação Familiar,
é possível analisar se no sistema familiar de determinado indivíduo existem
emaranhados nos quais ele possa estar envencilhado, para, então, orientá-lo na
análise e entendimento desses emaranhados e, assim, entender a causa e as
possíveis soluções para problemas específicos. Tais problemas, ou conflitos,
podem ser os mais variados possíveis, desde transtornos emocionais e
psíquicos até questões profissionais.

18
HELLINGER, Bert. Ordens do Amor: Um Guia Para o Trabalho com Constelações
Familiares.
19
HELLINGER, Bert; HÖVEL, Gabriele Ten. Constelações Familiares: O Reconhecimento
das Ordens do Amor. São Paulo: Cultrix, 2004, p.13-14.
Décio Fábio de Oliveira Junior e Wilma Costa Gonçalves Oliveira20
atentam para a estranheza, e até mesmo o preconceito, que a Constelação
Familiar causa em muitas pessoas e afirmam categoricamente não se tratar de
qualquer tipo de ideologia e não haver nenhuma conexão com qualquer religião
ou crença religiosa. Salientam que a Constelação Familiar possui abordagem
metodológica psicoterapêutica e é regida por princípios naturais.
Ana Lucia de Abreu Braga21 salienta ainda que o ponto mais importante
de uma Constelação Familiar é a revelação da dinâmica que permeia o sistema
constelado. O objetivo não é alterar ou mudar algo que já ocorreu e definiu a
dinâmica do sistema, mas sim a sua compreensão e o reconhecimento da sua
ordem.
Na prática, as vivências de Constelação Familiar podem ser feitas de
forma individual ou em grupo. Em ambas, para que tanto o constelador como a
pessoa que busca a técnica possam visualizar o emaranhado, são feitas
representações. Na modalidade grupal, tais representações são realizadas com
o auxílio dos participantes do grupo, enquanto na Constelação individual são
feitas através de figuras, bonecos ou desenhos22.
As representações consistem numa espécie de simulação do sistema.
Nelas, constelador e constelado posicionam as pessoas, ou as figuras e
bonecos, para representar os componentes do sistema familiar.
A fim de orientar a representação do sistema, o constelador pede para
que o indivíduo posicione as pessoas ou figuras e bonecos de acordo com
determinado conflito ou situação que lhe ocorreu e que será objeto de
Constelação23.
O cliente posiciona todos os escolhidos para representar as pessoas
importantes, segundo o terapeuta, e senta-se, para observar a
movimentação que se segue. A representação é parte do fenômeno
que ocorre neste tipo de trabalho, onde o terapeuta e os participantes
disponibilizam suas percepções para "ver" o que acontece na dinâmica

20
OLIVEIRA JUNIOR, Décio Fábio de; OLIVEIRA, Wilma Costa Gonçalves. Esclarecendo as
Constelações Familiares. Belo Horizonte: Atman, 2016.
21
BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um
Estudo de Caso.
22
BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um
Estudo de Caso.
23
BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um
Estudo de Caso.
do sistema do cliente. Este "ver" dá-se de diversos modos: as pessoas
têm sensações físicas como tremores, arrepios, dores, calor, frio,
suores; sentimentos diversos como alegria, raiva, tristeza,
desconfiança, entre tantos outros24.
Analisando tais reações e sentimentos, o objetivo do constelador é
identificar em que ponto foram desrespeitadas as leis sistêmicas para então
tentar reestabelecer, juntamente com o constelado, o que Bert Hellinger chama
de as Ordens do Amor25, que nada mais são do que observância e aceitação
das leis sistêmicas, cuja abordagem conceitual será realizada no próximo
tópico26.
Assim, objetivando verificar, por meio das representações feitas por
pessoas, bonecos ou figuras, se as Ordens do Amor foram e estão sendo
respeitadas dentro de um sistema, a Constelação Familiar é técnica capaz, ou
potencialmente capaz, de reestabelecer o diálogo, harmonia e paz nas relações
interpessoais.

2 Leis Sistêmicas

No desenvolvimento da abordagem psicoterapêutica sistêmica, Bert


Hellinger percebeu que nos sistemas atuam leis arcaicas, princípios naturais
presentes de tal forma que, se respeitados, permitem o equilíbrio e o
desemaranhar dos conflitos neles desenvolvidos. O Autor denominou tais
princípios de Ordens do Amor27, também chamadas de leis sistêmicas. São elas
a hierarquia, o pertencimento e o equilíbrio.
A hierarquia, ou também chamada de ordem de origem, diz respeito à
sequência cronológica de ingresso no sistema. Tal lei parte da premissa de que

24BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um


Estudo de Caso, p. 275.
25 HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações

Familiares.
26BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um

Estudo de Caso.
27 SCHUBERT, René. As Constelações Familiares Aplicadas à Justiça. Jornal Alternativo,

Edição 123. São Paulo: Agosto/2016, p.13-14. Disponível em


http://aconstelacaofamiliar.blogspot.com.br/search/label/Artigos?updated-max=2016-11-
23T12:05:00-08:00&max-results=20&start=1&by-date=false. Acesso em 10/07/2017.
a partir do momento em que um sistema começa a se formar, dentro dele há
uma hierarquia que precisa ser respeitada por todos os seus membros28.
Bert Hellinger explica que isso se deve ao fato de que
o ser é definido pelo tempo e, através dele, recebe seu
posicionamento. O ser é estruturado pelo tempo. Quem entrou primeiro
num sistema tem precedência sobre quem entrou depois. Da mesma
forma, aquilo que existiu primeiro num sistema tem precedência sobre
o que veio depois. Por essa razão, o primogênito tem precedência
sobre o segundo filho e a relação conjugal tem precedência sobre a
relação de paternidade ou maternidade. Isso vale dentro de um sistema
familiar29.
Outra lei sistêmica estabelecida por Bert Hellinger como uma das Ordens
do Amor é o pertencimento. De acordo com esta lei, cada pessoa que integra
um sistema deve ser por todos os seus membros reconhecida e aceita como
parte integrante, tendo seu papel e lugar dentro dele respeitado por todos30.
Em um sistema familiar, todos os membros da família são únicos e têm o
direito de pertencer àquele grupo independente de suas características,
condições físicas e econômicas, virtudes e defeitos.
Assim, além da necessidade de ser respeitada a ordem de chegada de
cada um, também é preciso que haja entre os membros o reconhecimento da
importância de cada integrante do sistema, de modo que nenhum deles sinta-se
excluído31.
Isso porque, quando ausente a lei do pertencimento, de forma consciente
ou não, o membro descendente ou colateral ao excluído sente o ímpeto de
reparar a injustiça cometida contra aquele, tomando para si a responsabilidade
de restaurar a ordem dentro do sistema e restabelecer o seu equilíbrio32.
Tal comportamento, que faz com que os descendentes ou colaterais
assumam posturas negativas oriundas da exclusão de um membro do sistema,

28
HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações
Familiares.
29
HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações
Familiares, p. 36-37.
30
TESCAROLLI, Lilian; GONÇALVES, Fernando AB. Leis Sistêmicas. Disponível em:
https://www.carpesmadaleno.com.br. Acesso em: 07/05/2017.
31
TESCAROLLI, Lilian; GONÇALVES, Fernando AB. Leis Sistêmicas.
32
TESCAROLLI, Lilian; GONÇALVES, Fernando AB. Leis Sistêmicas.
numa tentativa frustrada de nele restaurar a ordem, é o que Bert Hellinger chama
de envolvimento33.
A terceira e última lei sistêmica é o equilíbrio, ou também chamada de lei
do dar e receber.
Todo ser humano é dotado de necessária capacidade de troca. Ao mesmo
tempo em que oferece seus dons e habilidades, espera receber o que considera
importante para suas necessidades e seu desenvolvimento pessoal34.
Assim, em uma relação sistemicamente equilibrada, os membros do
sistema dão aquilo que são capazes e recebem com gratidão e respeito aquilo
que lhes é dado, compreendendo as capacidades e limitações de quem lhe dá35.
Ao analisar a presença e atuação das Ordens do Amor nos mais variados
sistemas, Bert Hellinger constatou que elas são condições preestabelecidas nos
relacionamentos humanos. Precedem, inclusive, o próprio amor no que diz
respeito ao que é necessário para um sistema psicologicamente e
emocionalmente saudável para seus membros36.
A hierarquia, o pertencimento e o equilíbrio são naturalmente buscados
pelas pessoas devido às pressões e impulsos do instinto, da necessidade e do
reflexo, da mesma forma como buscam-se satisfações de necessidades
físicas37.
Destarte, justifica-se o reestabelecimento das leis sistêmicas nas
entidades familiares, através da técnica de Constelação Familiar, como possível
método de solução de conflitos justamente por serem ordens naturalmente
buscadas pelos seres humanos em seus relacionamentos, tanto é que quando
desrespeitadas surgem os emaranhados. A eficácia da técnica e sua
aplicabilidade no âmbito jurídico será discutida no próximo subtítulo.

33
HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações
Familiares.
34
TESCAROLLI, Lilian; GONÇALVES, Fernando AB. Leis Sistêmicas.
35
TESCAROLLI, Lilian; GONÇALVES, Fernando AB. Leis Sistêmicas.
36
HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações
Familiares.
37
HELLINGER. Bert. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações
Familiares.
3 Aplicação das Constelações Sistêmicas no Judiciário

Décio Fábio de Oliveira Junior e Wilma Costa Gonçalves Oliveira38


mencionam alguns dos principais emaranhados em que a Constelação Familiar
pode ser aplicada. Dentre eles estão os relacionamentos afetivos em que o casal
não consegue levar a relação adiante e percebem, através da técnica, que algo
até então oculto estava impedindo a comunicação pacífica e clara entre eles.
Além disso, aplica-se a técnica de Constelação nos mais variados
conflitos entre pais e filhos, como aqueles que ficam emocional e
financeiramente dependente dos pais na vida adulta, em doenças de cunho
psicossomático, no uso de drogas, nos conflitos entre irmãos, na superação de
determinados hábitos e na busca pela melhora do desempenho profissional39.
Paulo Pimont40, em entrevista concedida para o desenvolvimento desta
pesquisa, afirma que as Constelações podem ser aplicadas nas mais variadas
situações que envolvam conflitos tanto interpessoais quanto intrapessoais.
Afirma ainda que não vê maior ou menor efetividade na aplicação da técnica
entre um ou outro tipo de conflito.
Referido constelador entende que o momento e o tema a ser constelado
depende da abertura da pessoa que procura a técnica. Paulo Pimont acredita
que
cada um precisa chegar a um momento da sua vida onde realmente
aquele problema, aquele conflito, ele está no ponto crucial da
mudança. Enquanto a pessoa não chegar nisso, não há nenhuma
constelação que vá trazer solução. Então as vezes a pessoa constela
um tema e ainda não está aberta para aquilo, porque esse problema
ainda traz ganhos secundários, porque tem coisas que ainda não
chegaram num ponto de mutação, um ponto de extrema necessidade
de mudança. Então essa pessoa leva mais tempo para obter resultados

38
OLIVEIRA JUNIOR, Décio Fábio de; OLIVEIRA, Wilma Costa Gonçalves. Esclarecendo as
Constelações Familiares.
39
OLIVEIRA JUNIOR, Décio Fábio de; OLIVEIRA, Wilma Costa Gonçalves. Esclarecendo as
Constelações Familiares.
40
Psicoterapeuta, constelador e formador de consteladores no Instituto Ipê Roxo, em
Florianópolis. Também atua como psicoterapeuta e constelador voluntário junto ao Juizado
Especial Cível e Criminal da Trindade, na comarca de Florianópolis (SC).
na constelação, ou a constelação às vezes não tem efeito nenhum.
Isso acontece sim e o terapeuta não pode controlar isso41.
Sami Storch, juiz titular da 2ª Vara de Família, Órfãos e Sucessões da
comarca de Itabuna (BA), foi pioneiro na aplicação das Constelações Familiares
no Judiciário brasileiro42.
A prática do magistrado considera a existência das leis sistêmicas, tanto
na conciliação, no julgamento e no atendimento às partes quanto na sua própria
postura diante de qualquer lide. Realizando uma abordagem sistêmica, o
magistrado passa a agir da forma mais adequada quando o objetivo principal é
conduzir as partes à um acordo efetivo, à verdadeira paz43.
Destarte, infere-se que, ao assumir uma postura sistêmica, aquele que
conduz uma solução pacífica trata o conflito levado até si como algo sintomático
e conduz as partes a enxergarem as reais motivações que as levaram àquela
situação conflituosa.
Assim agindo, o profissional é capaz de proporcionar às partes
instrumentos hábeis a solucionar verdadeira e intrinsecamente o conflito que
levam ao judiciário. Um desses instrumentos é a Constelação Sistêmica.
A utilização da técnica no Judiciário encontra respaldo legal na resolução
nº 125, de 29 de novembro de 2010, do Conselho Nacional de Justiça, porquanto
estimula práticas capazes de proporcionar tratamento adequado aos conflitos
judicializados44.
Referida resolução institui a Política Nacional de Tratamento dos Conflitos
de Interesses, que visa assegurar o direito à solução de conflitos através de
meios adequados, de acordo com a natureza e peculiaridades de cada conflito.
Ademais, o Código de Processo Civil de 2015 dá especial atenção aos
métodos alternativos de solução de conflitos. Da leitura do referido caderno

41
PIMONT, Paulo. Constelador e formador de consteladores no Instituto Ipê Roxo, em
Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida em 18/05/2017, para o
desenvolvimento desta pesquisa.
42
ROSA, Amilton Plácido da. Direito Sistêmico: A Justiça Curativa, de Soluções Profundas
e Duradouras.
43
STORCH, Sami. Direito sistêmico na TV – As Contribuições das Constelações de
Hellinger no Judiciário. Disponível em https://iperoxo.com/2016/09/09/direito-sistemico-na-tv-
as-contribuicoes-das-constelacoes-de-hellinger-no-judiciario/. Acesso em 10/07/2017.
44
Agência CNJ de Notícias. “Constelação Familiar” ajuda a humanizar práticas de
conciliação no Judiciário. Disponível em http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/83766-constelacao-
familiar-ajuda-humanizar-praticas-de-conciliacao-no-judiciario-2. Acesso em 05/08/2017.
normativo, infere-se que a aplicação de técnicas como a de Constelação Familiar
está em perfeita consonância com o ordenamento processual civil brasileiro45.
O artigo 359 do referido Código, por exemplo, prevê que, instalada a
audiência, “o juiz tentará conciliar as partes, independentemente do emprego
anterior de outros métodos de solução consensual de conflitos, como a mediação
e a arbitragem”46.
Na prática, percebe-se que as Constelações podem ser aplicadas de
maneiras e em momentos processuais distintos. O Conselho Nacional de Justiça
afirma que, naqueles Estados em que a técnica já é aplicada, ela é utilizada
“como reforço antes das tentativas de conciliação”47.
Sami Storch, por sua vez, explica que realiza uma vivência coletiva,
convidando as partes envolvidas em processos que tenham temáticas afins,
como guarda, alimentos ou divórcio, e realiza uma palestra-vivência, na qual
explica como atuam as leis sistêmicas, exemplifica como o seu desrespeito gera
emaranhados nas famílias e realiza algumas Constelações48.
Destarte, o próprio magistrado realiza a Constelação e tem como objetivo
final uma solução que vá além do simples acordo reduzido em ata e homologado
pelo juiz em audiência, mas sim que produza uma solução concreta, profunda e
duradoura49. Segundo Sami Storch, com a aplicação da técnica, o índice de
satisfação dos acordos na vara de sua titularidade chegou a 91%50.
No contexto catarinense, a magistrada Vânia Petermann, titular do
Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, da comarca da Florianópolis, foi

45 TARTUCE, Fernanda. Mediação no Novo CPC: questionamentos reflexivos. Disponível em


http://www.fernandatartuce.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Media%C3%A7%C3%A3o-no-
novo-CPC-Tartuce.pdf. Acesso em 20/07/2017.
46 Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em 20/07/2017,


47
Agência CNJ de Notícias. “Constelação Familiar” ajuda a humanizar práticas de
conciliação no Judiciário.
48
STORCH, Sami. Direito sistêmico na TV – As Contribuições das Constelações de
Hellinger no Judiciário.
49
STORCH, Sami. Direito sistêmico na TV – As Contribuições das Constelações de
Hellinger no Judiciário.
50 Agência CNJ de Notícias. Justiça restaurativa e constelações familiares avançam no

Paraná. Disponível em http://www.cnj.jus.br/noticias/judiciario/84704-justica-restaurativa-e-


constelacoes-familiares-avancam-no-parana. Acesso em 20/08/2017.
uma das precursoras da aplicação das Constelações Familiares como forma de
abordar sistemicamente situações de conflito levadas ao Judiciário51.
Em entrevista concedida para a elaboração desta pesquisa, a juíza
explica que desde que ingressou na magistratura, há mais de vinte anos, trata
dos conflitos sob um prisma sistêmico.
A magistrada conta que percebia grande resistência nas partes em olhar
e falar diretamente uma com a outra. Com isso, percebeu que alguns
movimentos seus durante a audiência melhoravam o resultado da conversa,
tanto entre as partes, como entre elas e a juíza.
Por exemplo, eu sair da cadeira de juíza e ir para a ponta da mesa,
mais perto das partes. E ir fazendo com que elas pouco a pouco fossem
se aproximando, conversando uma com as outras. [...] Até que comecei
a fazer uma formação com juízes na França e lá descobri que eles
utilizavam a técnica do psicodrama, para que o juiz sinta mesmo.
Nesse tempo eu comecei a trazer o psicodrama para as audiências52.
Assumindo uma postura sistêmica nas audiências de conciliação e
mediação, e também aplicando o psicodrama, Vânia Petermann percebeu que
entre as partes passou a imperar uma compreensão recíproca das posturas e
interesses de cada um, “um compreendia mais as necessidades e sentimentos
do outro e eles chegavam a um acordo” 53.
Buscando cada vez mais realizar uma abordagem sistêmica dos conflitos
trazidos à vara de sua titularidade, a magistrada conheceu as Constelações
Familiares e o trabalho de Sami Storch, momento em que, em conjunto com o
constelador voluntário Paulo Pimont, em outubro de 2016, deu início às vivências
de Constelações dentro da Oficina Conversas de Família, que, por sua vez, já
acontecia desde 2015 e tem por objetivo a abordagem multidisciplinar de
conflitos familiares54.

51 PETERMANN, Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca
de Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta
pesquisa em 18/05/2017.
52
PETERMANN, Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca
de Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta
pesquisa em 18/05/2017.
53
PETERMANN, Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca
de Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta
pesquisa em 18/05/2017.
54
Assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Multidisciplinaridade faz projeto “Conversas de Família” ter baixa recidiva em ações.
Disponível em https://portal.tjsc.jus.br/web/sala-de-imprensa/-/multidisciplinaridade-faz-projeto-
Quanto ao momento e forma de realização da Constelação,
diferentemente do que é feito por Sami Storch, Vânia Petermann entende que o
juiz não deve participar da vivência, porque, caso não haja composição depois
da Constelação, o juiz viu além do aparente. A magistrada explica:
Eu tenho esse entendimento que o juiz não deve ir até o final da
constelação. Porque se não há composição ele viu além do aparente.
Eu fiz uma supervisão analítica e cheguei à conclusão de que eu não
deveria participar como juíza consteladora. Só poderia ir até um certo
ponto. Porque constelação não é meio de prova e eu não sei como isso
funcionaria no meu subconsciente55.
Destarte, quando do recebimento da petição inicial, as partes são
convidadas a comparecer na oficina, que reúne partes de ações com objetos
comuns e é guiada por Paulo Pimont, psicoterapeuta e constelador que realiza
trabalho voluntário dentro da oficina Conversas de Família, e pela servidora
Marília Luci Vieira, de modo que a magistrada faz apenas uma fala inicial,
explicando os objetivos da oficina e da importância e benefícios da resolução
alternativa de conflitos56.
Atualmente, referida oficina já funciona de uma forma coordenada. As
partes ingressam com o processo e, assim que a petição inicial é recebida, são
convidadas a comparecer à oficina, sem qualquer obrigação de comparecimento
ou incitação à composição. A participação é programada para ocorrer pelo
menos três meses antes da audiência de mediação e conciliação para que,
quando da audiência, a vivência da oficina já tenha causado efeitos e reflexões
naqueles que participaram57.
No que se refere aos resultados obtidos, muito embora a análise
estatística ainda estar em fase inicial, a magistrada afirma que o número de

%60conversa-de-familia%C2%BF-ter-baixa-recidiva-em-
acoes?redirect=https%3A%2F%2Fportal.tjsc.jus.br%2Fweb%2Fsala-de-
imprensa%2Fnoticias%2Fvisualizar%3Bjsessionid%3D18F45A6A0EA81442D4F344512B5D00
34%3Fp_p_id%3D101_INSTANCE_Mooje1VU08hX%26p_p_lifecycle%3D0%26p_p_state%3D
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2%26p_p_col_count%3D1. Acesso em 12/07/2017.
55
PETERMANN, Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca
de Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta
pesquisa em 18/05/2017.
56
Assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Multidisciplinaridade faz projeto “Conversas de Família” ter baixa recidiva em ações.
57
PETERMANN, Vânia. Juíza titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Trindade, comarca
de Florianópolis (SC). Conteúdo extraído de entrevista concedida para a elaboração desta
pesquisa em 18/05/2017.
processos instruídos na vara diminuiu consideravelmente, de modo que há uma
composição efetiva e não recidiva das partes que participam da oficina até a
realização da audiência de conciliação e mediação58.
Ainda quanto aos resultados obtidos com a aplicação das Constelações,
na Vara Cível, de Família, Órfãos e Sucessões do Núcleo Bandeirante, do
Distrito Federal, em menos de um ano de realização das vivências de
Constelação, o índice de acordos alcançados foi de 86%, considerando aqueles
processos em que ambas as partes participaram59.
No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Justiça, em outubro de 2016,
estimou que pelo menos 11 estados (Goiás, São Paulo, Rondônia, Bahia, Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Alagoas e
Amapá) e o Distrito Federal já utilizam “a dinâmica da "Constelação Familiar"
para ajudar a solucionar conflitos na Justiça brasileira”60. Das pesquisas aqui
expostas, verifica-se que, além os Estados mapeados pelo CNJ até o presente
momento, há de se incluir também o Estado de Santa Catarina.
Sendo assim, com o trabalho de profissionais que buscam realizar uma
abordagem sistêmica do Direito e, com isso, fazem uso de técnicas alternativas
para a resolução de conflitos levados ao Judiciário, como por exemplo o dos
magistrados e consteladores citados nesta pesquisa, infere-se que a aplicação
das Constelações Familiares na resolução de conflitos familiares é técnica capaz
de gerar resultados efetivos que levem à solução pacífica, efetiva e duradoura
aos sistemas familiares.

Considerações Finais

Diante dos estudos e análises realizadas para a construção desta


pesquisa, bem como dos dados nela expostos, foi possível verificar a efetividade

58
Assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Multidisciplinaridade faz projeto “Conversas de Família” ter baixa recidiva em ações.
59 Revista Consultor Jurídico. Doze Tribunais adotam técnica alemã de conciliação em

conflitos. Disponível em http://www.conjur.com.br/2016-nov-01/doze-tribunais-adotam-tecnica-


alema-conciliacao-conflitos. Acesso em 20/07/2017.
60 Agência CNJ de Notícias. “Constelação Familiar” ajuda a humanizar práticas de

conciliação no Judiciário.
com que a técnica de Constelação Familiar está sendo aplicada em alguns
Tribunais de Justiça do país.
Destarte, infere-se que a Constelação Familiar é técnica de viés
psicoterapêutico que busca na construção familiar a origem de padrões
comportamentais que geram e alimentam sofrimentos psicológicos e emocionais
desenvolvidos pelas pessoas ao longo da vida. Destina-se a todas as pessoas
que desejam trabalhar suas relações interpessoais e intrapessoais.
É comumente aplicada nos conflitos familiares, no trato de desequilíbrios
emocionais e psicológicos, problemas de saúde, comportamentos destrutivos,
envolvimento com drogas, perdas, lutos, dificuldades financeiras, dificuldades
nos relacionamentos afetivos, comportamentos agressivos e transtornos de
aprendizagem61.
Através das constatações dos profissionais citados e dos dados
estatísticos apontados, foi possível verificar que a Constelação Familiar, além de
ser técnica alternativa capaz de proporcionar solução pacífica e verdadeiramente
eficaz àqueles que buscam a resolução judicial de seus conflitos, também é meio
que contribui para o descongestionamento do sistema Judiciário.
Pode-se observar, por fim, que a aplicação das Constelações Familiares
no âmbito jurídico está crescendo e conta com o incentivo do Conselho Nacional
de Justiça e de vários Tribunais do país. Assim, vislumbra-se o potencial
crescimento na adesão da técnica e da abordagem sistêmica de conflitos por
juízes, advogados e demais operadores do Direito.

Referências das Fontes Citadas

Agência CNJ de Notícias. “Constelação Familiar” ajuda a humanizar práticas


de conciliação no Judiciário. Disponível em
http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/83766-constelacao-familiar-ajuda-humanizar-
praticas-de-conciliacao-no-judiciario-2. Acesso em 05/08/2017.

61
BRAGA, Ana Lucia de Abreu. Psicopedagogia e Constelação Familiar Sistêmica: Um
Estudo de Caso.
Agência CNJ de Notícias. Justiça restaurativa e constelações familiares
avançam no Paraná. Disponível em
http://www.cnj.jus.br/noticias/judiciario/84704-justica-restaurativa-e-
constelacoes-familiares-avancam-no-parana. Acesso em 20/07/2017.

Assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.


Multidisciplinaridade faz projeto “Conversas de Família” ter baixa recidiva
em ações. Disponível em https://portal.tjsc.jus.br/web/sala-de-imprensa/-
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recidiva-em-
acoes?redirect=https%3A%2F%2Fportal.tjsc.jus.br%2Fweb%2Fsala-de-
imprensa%2Fnoticias%2Fvisualizar%3Bjsessionid%3D18F45A6A0EA81442D4
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