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ESCRITÓRIO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE

DROGAS E CRIME
Tráfico de mulheres - Exploração sexual e
casamentos forçados.

III MUNdoVAGÃO

Colégio Militar de Santa Maria

14 de setembro de 2018
1

ROMEU És tão nu e tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas
faces; Necessidade e opressão passam fome nos teus olhos, O desprezo e a mendicância
estão pendurados nas tuas costas; Não se te mostra amigo o mundo e, menos ainda, a
lei do mundo. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te rico. Não sejas pobre,
então; quebre a lei e toma isto.
BOTICÁRIO Minha pobreza, mas não minha vontade, consente.
ROMEU Eu pago a tua pobreza e não a tua vontade.
William Shakespeare, Romeu & Julieta ato V, cena 1.
Sumário

1 Carta de apresentação 4

2 O ESCRITÓRIO DE DROGAS E CRIMES DAS NAÇÕES UNIDAS 6

3 EXPLORAÇÃO SEXUAL 10

4 CASAMENTOS FORÇADOS 16

5 SITUAÇÃO MUNDIAL 20
5.1 PERFIL DAS VÍTIMAS E FLUXO DE TRÁFICO . . . . . . . . . . . . . 20
5.1.1 AMÉRICA DO SUL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
5.1.2 LESTE DA ÁSIA E PACÍFICO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
5.1.3 EUROPA CENTRAL E OCIDENTAL . . . . . . . . . . . . . . . . 22
5.1.4 SUDOESTE E CENTRO DA EUROPA . . . . . . . . . . . . . . . 22
5.1.5 EUROPA ORIENTAL E ÁSIA CENTRAL . . . . . . . . . . . . . . 23
5.1.6 AMÉRICA DO NORTE, CENTRAL E CARIBE . . . . . . . . . . 24
5.1.7 ÁFRICA SUBSAARIANA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
5.1.8 NORTE DA ÁFRICA E ORIENTE MÉDIO . . . . . . . . . . . . . 25

6 MEDIDAS EM VIGOR 26

7 BLOCK POSITIONS 33
7.1 Alemanha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
7.2 Arábia Saudita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
7.3 Bangladesh . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
7.4 Bulgária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
7.5 Camarões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
7.6 Cambodia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
7.7 Cazaquistão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
7.8 Colômbia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
7.9 Equador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
7.10 Estados Unidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

2
SUMÁRIO 3

7.11 França . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
7.12 Filipinas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
7.13 Guatemala . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
7.14 Holanda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
7.15 Índia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
7.16 Kuwait . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
7.17 Malásia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
7.18 Myanmar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
7.19 Nigéria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
7.20 Paraguai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
7.21 República Tcheca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
7.22 República Democrática do Congo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
7.23 República Dominicana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
7.24 Romênia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
7.25 Russia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
7.26 Sudão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
7.27 Tailândia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
7.28 Turquia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7.29 Uganda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7.30 Uruguai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7.31 Vietnã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 49
Capı́tulo 1

Carta de apresentação

Olá senhores e senhoras delegados, é um prazer ter a oportunidade de simular com os


senhores discutindo um assunto que infelizmente ainda é tão pertinente para o contexto
internacional. Esperamos que os senhores conduzam um debate bem embasado e que
valorize o caráter diplomático da casa que representamos. Estamos muito ansiosas para
a simulação e para ajudá-los a desenvolverem o tema da melhor forma possı́vel, qualquer
dúvida é só entrar em contato. Nos vemos em breve!
As diretoras, um breve resumo:

Carolina Klauck Novaes


Carolina Klauck Novaes, membro full time do CRI CMPA, está no terceiro ano do
ensino médio e em sua primeira vez como diretora de um comitê. O sonho de sua vida
era ser YouTuber, mas, em sua curta e fracassada carreira (que rendeu vı́deos de alta
qualidade), percebeu que essa não seria a melhor maneira para se tornar famosa. Há 4
anos, escreve uma fanfic que, em seus 80 capı́tulos, tem uma guerra, muitos personagens
e enredos que nem ela entende. Além disso, em seu tempo livre, dedica-se a sua fixação
por famı́lias reais europeias, sua relação tóxica com Riverdale (documentada pelo twitter)
e yoga.

Júlia Beninca Guterres


Sobrenome social Covfefe. Desistiu do curso de Direito no 5o semestre e agora é
estudante de Biologia. Simula há quatro anos e já participou de quatro MundoCMPA.
Gosta de memes sem sentido e I II II L.

Giovanna Hassler
Giovanna Hassler, 19 anos, ex aluna do Colégio Militar de Salvador e estudante de
direito na UFPR. Entusiasta de simulações desde 2015. Outros vı́cios são assistir docu-
mentários (aceito recomendações), Pinterest e sorvete de flocos.
Estou super animada para simular com vocês e ansiosa para discussões bem embasadas

4
CAPÍTULO 1. CARTA DE APRESENTAÇÃO 5

e que valorizem o caráter diplomático da casa que representamos.

Gabriela Alves de Borba


Criada em Estrela, porém ainda em ascensão. Gosta de polı́tica, dias ensolarados
e piadas sem graças. Já quis ser presidente do mundo no auge dos seus 4 anos e hoje
se dedica a estudar relações internacionais com menores ambições. A realista chata das
simulações por 3 anos consecutivos.

Kassyane Sara da Silva Prado


Kassyane Sara da Silva Prado, talvez a única envolvida na MUN que nunca pisou
no Sul, encontra-se no avanço escolar e morando no cursinho, para ingressar na rede
universitária pública em Medicina. Aos 17 anos de vida, não compreende o porquê de
seus pais não a nomearem de “Cassiane”. Assim, não se incomoda com apelidos, chegando
a apreciar as alternativas. Ainda que afastada do CMR, continua participando do staff
do CRI (ou ORIJN), onde foi membro de diretoria em 2017 e SG das simulações internas
em 2018. Tı́pica de famı́lia pernambucana adora presentear seus amigos outsiders com
bolo de rolo e alega veementemente que não é rocambole. Atualmente, órfã de Game of
Thrones e desejando que o Enem passe.

E nossas ilustrı́ssimas Lauras, imprescindı́veis para a compleição do guia:

Laura Ribas
Laura Ribas, 16 anos, aluna do CMSM, é membro do CRIG a pouco tempo mas não
por isso menos entusiasta pelas simulações. Com mil e uma utilidades, não se encontrou
em uma área só e ama fı́sica, história e biologia igualmente, além de fazer teatro (apesar
de ser péssima mentirosa - ou será que não?). No seu tempo livre, assiste documentários
sobre serial killers e tubarões e como qualquer adolescente médio contemporâneo assiste
muitas séries. Se encontra honradı́ssima por ter tido a oportunidade de contribuir para o
UNODC acontecer.

Laura Lencina
Laura Lencina, membro do CRI do CMSM (vulgo CRIG), tem 16 anos e está cursando
o segundo ano do ensino médio (mal podendo esperar pra feel like summer again). No
tempo livre, lê tudo que pode e dorme pra esquecer dos problemas, torcendo pra que
um sonho diga a ela o que fazer da vida. Amante de teatro com todo o coração, espera
ansiosamente a voltar a atuar e sonha em participar de um musical da Broadway.
Capı́tulo 2

O ESCRITÓRIO DE DROGAS E
CRIMES DAS NAÇÕES UNIDAS

O United Nations Office on Drugs and Crime - em português, Escritório das Nações
Unidas sobre Drogas e Crimes - surgiu em 1997 como resultado da fusão entre o Programa
de Controle de Drogas e Centro Internacional para Prevenção de Crimes. O UNODC
tem como função assistir os Estados-membros no que tange à problemática das drogas
ilı́citas, do crime e do terrorismo internacional. Em parceria com Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, mediante os Objetivos do Milênio, busca: reduzir signi-
ficativamente todas as formas de violência e trabalhar com governos e comunidades para
encontrar soluções duradouras para conflitos e insegurança; fortalecer o estado de direito;
promover os Direitos Humanos; e reduzir o tráfico de armas ilı́citas. O orçamento do es-
critório baseia-se em contribuições voluntárias, imprescindivelmente nos auxı́lios advindos
de governos.
O UNODC oferece ajuda prática aos Estados, não apenas ajudando a elaborar leis
e criando estratégias nacionais abrangentes de combate ao tráfico, mas também auxili-
ando com recursos para implementá-las. Os Estados recebem assistência especializada,
incluindo o desenvolvimento de capacidades e conhecimentos locais, bem como ferramen-
tas práticas para incentivar a cooperação transfronteiriça em investigações e processos
(UNODC, 201-).
Em 15 de novembro de 2000, foi adotada a Convenção das Nações Unidas contra o
Crime Organizado Transnacional pela resolução 55/25 da Assembleia Geral - o principal
instrumento internacional de vı́nculo jurı́dico na luta contra o crime organizado transnaci-
onal. Foi sancionada a assinatura pelos Estados-membros de uma Conferência Polı́tica de
Alto Nı́vel convocada para esse fim na cidade italiana de Palermo, no perı́odo de 12 a 15
de dezembro de 2000, entrando em vigor no dia 29 de setembro de 2003. A Convenção é
complementada por três protocolos, que têm como alvos especı́ficos áreas e manifestações
do crime organizado: o Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas,
Especialmente Mulheres e Crianças; o Protocolo contra o Contrabando de Migrantes por

6
CAPÍTULO 2. O ESCRITÓRIO DE DROGAS E CRIMES DAS NAÇÕES UNIDAS 7

Terra, Mar e Ar; e o Protocolo contra a Fabricação e o Tráfico Ilı́cito de Armas de Fogo,
suas Peças e Componentes e Munições. Os paı́ses devem se tornar partes da própria
Convenção antes que possam se tornar partes de qualquer um dos protocolos.
O Artigo 3o , parágrafo (a) do Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de
Pessoas define o tráfico de pessoas como o recrutamento, o transporte, a transferência, o
abrigo ou o recebimento de pessoas, por meio de ameaça, uso da força, abuso de poder,
fornecimento de pagamentos ou benefı́cios para obtenção do consentimento acerca do
controle sobre um indivı́duo, com o propósito de exploração. A exploração incluirá, no
mı́nimo, a prostituição de outrem, além de exploração sexual, serviços forçados, remoção
de órgãos, escravidão ou práticas similares à escravidão. Pode-se evidenciar que a definição
de tráfico de pessoas fornecida pelo Protocolo não especifica quaisquer movimentos por
parte das vı́timas.
A definição contida no Artigo 3o do protocolo sobre tráfico de pessoas visa fornecer
consistência e consenso em todo o mundo sobre o fenômeno. O Artigo 5o exige, portanto,
que a conduta prevista no Artigo 3o seja criminalizada na legislação interna. A legislação
interna não precisa seguir a linguagem do Protocolo sobre Tráfico de Pessoas com precisão,
mas deve ser adaptada de acordo com os sistemas legais internos para dar efeito aos
conceitos contidos no Protocolo.
Além da criminalização do tráfico, o Protocolo requer a criminalização também de
tentativas de cometer uma ofensa de tráfico, participação como cúmplice de tal ofensa, e
organizar ou direcionar outras pessoas para cometer tráfico.
O tráfico de seres humanos é uma faceta multibilionária de crime organizado, cons-
tituindo a escravidão moderna. A maior parcela das vı́timas é recrutada e traficada in-
ternacionalmente, por intermédio de fraude ou coerção, o que totaliza 57% dos episódios
no perı́odo de 2012 a 2014 (UNODC, 2016). Uma vez que a definição do Protocolo de
tráfico não determina o movimento transnacional, torna-se imprescindı́vel salientar os ca-
sos domésticos, em que as vı́timas são transmigradas compulsoriamente das áreas rurais
às mais industriais de seu paı́s, por exemplo, ou até mesmo nas delimitações de um centro
urbano. Em suma, são destituı́das de sua autonomia, liberdade de movimento, de escolha
e enfrentam várias formas de abuso fı́sico e mental.
De acordo com a Organização Internacional de Polı́cia Criminal (INTERPOL), as
finalidades de tráfico humano são classificadas em: trabalho forçado; transplantes de
órgãos, tecidos e células; e exploração sexual. Somando à categorização da INTERPOL,
o UNODC (2016) evidencia outros propósitos para a prática criminosa em questão, dentre
os quais podem ser destacados: casamentos forçados, venda de crianças, alistamento de
soldados menores de idade e mendicância compulsória.
As vı́timas de tráfico para trabalho forçado advêm principalmente dos paı́ses em de-
senvolvimento. São recrutadas mediante o engano e, no local de destino, encontram-se
em condições de escravidão, exercendo diversas funções laborais. Homens, mulheres e
CAPÍTULO 2. O ESCRITÓRIO DE DROGAS E CRIMES DAS NAÇÕES UNIDAS 8

crianças estão engajados em atividades agrı́colas, pesqueiras e de construção, juntamente


com a servidão doméstica e outros cargos intensivos em desgaste fı́sico e psicológico.
O tráfico de seres humanos com o propósito de extraviar seus órgãos, em particular os
rins, é um campo de crescente atividade criminosa. Em muitos paı́ses, as listas de espera
para transplantes são muito longas e os criminosos aproveitam essa oportunidade para
explorar o desespero de pacientes e potenciais doadores. A saúde das vı́timas é posta
em risco, pois as operações majoritariamente são realizadas em condições clandestinas,
sem acompanhamento médico, ameaçando a integridade da vida dos envolvidos. O en-
velhecimento da população e o aumento da incidência de doenças que comprometem a
renovação de estruturas corporais - a exemplos das diabetes - em muitos paı́ses desen-
volvidos intensificam a necessidade de transplante de órgãos e tornarão esse crime ainda
mais lucrativo.
A predominante forma de tráfico - a que visa exploração sexual - afeta todas as regiões
do mundo, seja como paı́s de origem, trânsito ou destino. Mulheres e crianças de paı́ses
em desenvolvimento, e de partes vulneráveis da sociedade em paı́ses desenvolvidos, são
atraı́das pelas promessas de emprego decente a deixar suas casas e viajar para o que con-
sideram ser uma vida melhor. As vı́timas são frequentemente fornecidas com documentos
de viagem falsos e uma rede organizada é usada para transportá-los para o paı́s de destino,
onde eles são forçados à escravidão sexual e mantidos em condições desumanas e medo
constante.
Esse tipo de crime tem sido aparente na Ásia há muitos anos e estabeleceu-se na África,
assim como na América Central e do Sul. O fenômeno é promovido pelo crescimento de
viagens aéreas baratas e pelo risco relativamente baixo de proibição e repressão nesses
locais por se engajar em relações sexuais com menores.
Embora os homens também sejam vitimados, a esmagadora maioria dos que são tra-
ficados configura-se em mulheres e crianças. Estimativas mostram que entre um e dois
milhões de mulheres e crianças são traficadas anualmente em todo o mundo para tra-
balho forçado, servidão doméstica ou exploração sexual (DAW, 2005 apud DEVI). O
tráfico de seres humanos, especialmente mulheres e crianças, tornou-se uma das ativi-
dades econômicas ilegais mais gratificantes e pode ser comparado ao tráfico de drogas e
contrabando de armas (DAW, 2005 apud SALT, 2000).
Segundo o Relatório Global de Tráfico de Pessoas (UNODC, 2009), a forma mais
comum de tráfico de pessoas, cerca de 79% dos casos, é a exploração sexual. As vı́timas
da exploração sexual são predominantemente mulheres e meninas. No que tange ao perfil
dos traficantes, aproximadamente 6 a cada 10 mercadores são homens, em análise aos
investigados em todas as etapas judiciais (UNODC, 2016). Entretanto, percebe-se o
recrudescimento do quantitativo de mulheres envolvidas com tráfico internacional,
A adoção dos Protocolos sobre Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes constitui-
se em um marco significativo nos esforços internacionais para deter o comércio de pessoas.
CAPÍTULO 2. O ESCRITÓRIO DE DROGAS E CRIMES DAS NAÇÕES UNIDAS 9

Como guardião do Protocolo, o UNODC aborda questões de tráfico de seres humanos por
meio de seu Programa Global contra o Tráfico de Pessoas. A grande maioria dos Estados
assinou e ratificou o Protocolo. Mas traduzi-lo em realidade permanece problemático.
Muito poucos criminosos são condenados e a maioria das vı́timas provavelmente nunca é
identificada ou assistida.
Como defensor da Convenção sobre Crime Organizado, o UNODC desempenha um
papel de liderança no fortalecimento e na coordenação da resposta da justiça criminal ao
tráfico de seres humanos.
Capı́tulo 3

EXPLORAÇÃO SEXUAL

Exploração sexual é definida pelo glossário das Nações Unidas sobre exploração sexual
e abuso como: “Qualquer abuso ou tentativa de abuso de posição de vulnerabilidade,
poder diferencial ou confiança, para propósito sexual. Incluindo, mas não se limitando
a lucrar monetária, social ou politicamente da exploração sexual de outro.” É um termo
amplo, que inclui as seguintes tipificações, segundo a ONU:
(a) Sexo transacional: a transação de dinheiro, emprego, auxı́lio, bens ou serviços
por sexo. Pode incluir favores sexuais e outras formas de comportamento humilhante,
degradante ou explorador.
(b) Solicitação de sexo transacional: a solicitação do mesmo.
(c) Relacionamento Exploratório: Uma relação onde ocorre exploração sexual, pode
constituir a prática e negociação de sexo transacional ou não.
Há várias estratégias e situações usadas pelos traficantes para efetuar o tráfico das
vı́timas de seu lugar de origem até seu destino e para a manutenção da situação de
exploração. No entanto, algumas se destacam.
O perfil das vı́timas de tráfico são populações femininas jovens de baixa renda, vul-
neráveis por sua condição financeira, falta de oportunidades (especialmente em educação)
e de uma estrutura social de apoio a qual recorrer.
Nessas situações mulheres se encontram mais vulneráveis não só pela grande quanti-
dade de sociedades onde o sexo feminino é caracterizado como propriedade que pode ser co-
mercializada, mas também por frequentemente terem sua educação negligenciada em prol
de atividades consideradas como “obrigações femininas” e consequentemente se concen-
trarem em trabalhos de menor remuneração, mantendo-se sob vulnerabilidade econômica.
Da mesma forma são vı́timas de violência com base em sexo e são alvo mais frequente,
devido à demanda por prostituição feminina em escala mundial que alimenta o tráfico de
pessoas. Ademais, a presença de preconceito com base em sexo dificulta que consigam
a proteção necessária em situações de risco, por diminuir sua credibilidade e influência
social.
Outros fatores que têm um importante papel na permanência do tráfico de mulheres

10
CAPÍTULO 3. EXPLORAÇÃO SEXUAL 11

para fins de exploração sexual são o turismo sexual e a caracterização da “profissão” na


“indústria do sexo”.
O turismo sexual é um dos principais fomentadores do tráfico de mulheres em algumas
regiões do mundo, como Tailândia e Camboja, especialmente conhecidos como destino
para este tipo de atividade. Um ponto crucial na continuidade dessas atividades é o
descaso e a falta de fiscalização proposital, por parte das autoridades, seja por corrupção
ou pela valorização do benefı́cio econômico que trazem 1
Já a atual tentativa de caracterizar tais atividades, nas quais as mulheres são forçadas
a engajar-se, como “profissão” é altamente nociva ao combate dessa prática. Percebe-se,
frequentemente que os “clientes”, em sua maioria homens, encaram as mulheres como um
produto a ser comprado, as rotulam como intrinsecamente diferentes de outras mulheres e
moralmente depravadas, assim culpam as vı́timas pela sua exploração. Também justificam
sua participação afirmando que as estão ajudando financeiramente ou que elas ficam ricas
fazendo esse trabalho, como afirmou um turista de prostituição canadense sobre mulheres
na prostituição tailandesa: ”Essas garotas tem que comer, não é? Estou colocando pão no
prato deles. Eu estou fazendo uma contribuição. Elas morreriam de fome a não ser que se
prostituı́ssem” (Moore, 1991; Bishop e Robinson, 1997, pp. 168–199). Muitos “clientes”,
mesmo quando conscientes da realidade de abuso, afirmam que isso não os incomoda, pois
a partir do momento que há um pagamento entendem que a mulher é um produto e isso
os exonera de qualquer dano que possa ocorrer ao objeto da transação, pois é só uma
troca comercial por um serviço e não como um ser humano em estado vulnerável sendo
explorado.2
O “rebranding” (nota de rodapé) que se percebe atualmente em relação a prostituição
é nocivo, pois incentiva e normaliza a caracterização da mulher como um produto a ser
consumido, esse fenômeno é bem resumido pelo texto de 3 :

“São formuladas palavras que apelam para essas racionalizações ou para o


desejo de não testemunhar a crueldade da prostituição. Essas manobras para
negar o risco incluem palavras que escondem danos: a prostituição voluntária,
o que implica que ela consentiu quando não tinha alternativas de sobrevivência;
tráfico forçado, o que implica que em algum lugar há mulheres que se volun-
tariam para serem traficadas para a prostituição; trabalho sexual, que define
a prostituição como um trabalho e não como um ato de violência. O termo
trabalhador sexual migrante desaparece com tanto a prostituição como com
o tráfico. A prostituição de strip-tease foi reenquadrada como expressão se-
xual ou dança exótica ou liberdade para expressar a sua sensualidade. Bordéis
são referidos como casas de massagem, saunas, salões de manicure e clubes
1
https://glc.yale.edu/sites/default/files/pdf/shih_erotics_of_authenticity.pdf.
2
https://www.journals.uchicago.edu/doi/full/10.1086/695670
3
https://www.journals.uchicago.edu/doi/full/10.1086/695670
CAPÍTULO 3. EXPLORAÇÃO SEXUAL 12

de saúde. Os homens mais velhos que compram adolescentes para sexo em


Seul chamam isso de compensação. Nos Estados Unidos, é referido como na-
moro. Em Tóquio, a prostituição é descrita como relação sexual assistida.
Homens que compram mulheres na prostituição são chamados de interessados
ou hobistas, os cafetões são descritos como gerentes.”

Crianças são o segundo maior grupo traficado após as mulheres, sendo que o sexo
feminino também se encontra em maior número nesse contexto. Em 2014 garotas com-
punham 71% das crianças traficadas (UNODC, trafficking persons report, 2016). São
especialmente vulneráveis em paı́ses que não tem instituições que protegem menores ade-
quadamente.
É importante destacar que atividade sexual com menor é definida pelo glossário das
Nações Unidas sobre exploração sexual e abuso como: “atividade sexual com uma pessoa
com menos de 18 anos” e que toda atividade sexual com uma criança é proibida indepen-
dentemente da idade de maioridade ou consentimento local, e é considerada abuso sexual.
Crença errada quanto a idade de uma criança não é uma defesa válida e a responsabilidade
é considerada inteiramente do adulto participante no ato (UN Glossary on SEA).
Venda de virgindade é uma prática frequente em algumas regiões e entre os paı́ses
onde ocorre o Camboja se destaca. No entanto em vários paı́ses asiáticos como China,
Tailândia e Singapura a virgindade e “inocência” em mulheres e garotas é altamente valo-
rizada e diretamente ligada à honra da famı́lia, também há a crença de que a virgindade é
como um elixir de juventude e que pode auxiliar a saúde, especialmente para homens mais
velhos. A venda ocorre especialmente com famı́lias de baixa renda que por necessidades
financeiras vendem a virgindade de suas filhas como um modo de auxı́lio financeiro, (al-
guns consideram seus filhos como sua propriedade por questões culturais) ou por agentes
intermediários que prometem levar as jovens para trabalhar em centros urbanos e reme-
ter os ganhos às famı́lias que ,em sua maioria, se encontram em áreas rurais. Grande
parte dessas jovens após serem estupradas são vendidas a prostı́bulos ou a eles se voltam,
por verem a prostituição como meio de sobrevivência, uma vez que, após perderem sua
virgindade é extremamente difı́cil que consigam casar e, por consequência, necessitam
sustentar-se, é recorrente também que não sejam aceitas por suas famı́lias e comunidades,
pois sua “impureza” traz vergonha àquelas. Essa prática resulta em altos lucros, perma-
nece predominantemente impune e deve ser discutida pelos delegados levando em conta
que é altamente danosa e profundamente enraizada nas culturas nas quais existe. 4
A busca por melhores oportunidades é um dos grandes trunfos usados pelos traficantes
na cooptação de vı́timas. Estas, frequentemente aceitam deslocar-se a outra região ou paı́s
ao receberem ofertas de emprego, como domésticas, babás, trabalhos manuais, etc , que
se revelam falsas e quando chegam ao seu destino escapar se torna extremamente difı́cil.
4
https://www.theguardian.com/society/2014/jul/06/virginity-for-sale-cambodia-sex-trade
CAPÍTULO 3. EXPLORAÇÃO SEXUAL 13

Tal estratégia é mais prolı́fica em lugares com alta desigualdade social, seja em uma
área, paı́s ou paı́ses limı́tros, uma vez que um fluxo migratório naturalmente se forma
para regiões mais desenvolvidas, criando assim mais oportunidades para traficantes, como
observado na Tailândia quando, o rápido desenvolvimento, e especialmente de Bangkok,
e estabilização do Paı́s gerou um fluxo migratório tanto interno quanto externo 5 (Global
Report 2016).
Quanto ao perfil dos envolvidos, homens e mulheres participam como traficantes, sendo
os homens majoritários. No entanto, se percebe o crescimento da participação de mulhe-
res e sua prevalência no tráfico de garotas jovens (Global Report on Trafficking in Persons
2012), assim como um destaque de sua participação no processo de recrutamento (2014
Global Report). Correntemente há a participação de familiares e conhecidos das vı́timas
nesse processo, incentivando e facilitando seu ingresso nessa indústria. É frequente fami-
liares mandarem jovens para grandes centros urbanos para trabalharem na prostituição e
remeterem seus ganhos para o sustento de suas famı́lias no interior.
Também se observa a recorrência de antigas vı́timas do tráfico para exploração sexual
se tornarem traficantes elas mesmas. Pode ser oferecida essa posição pelos perpetradores
e as vı́timas a aceitam com o objetivo de diminuir suas dı́vidas, melhorar sua situação,
escapar da exploração, entre outros motivos (2016 Global Report on Trafficking in Per-
sons). Quando se tornam cúmplices isso também diminui a probabilidade de cooperarem
com as autoridades e auxiliarem na condenação dos traficantes, já que participam das
atividades criminosas.
Em áreas de conflito e de imigração se percebe forte atuação de traficantes, tirando
proveito da situação de necessidade e frequentemente de desespero das populações dessas
regiões. Se destaca o tráfico de jovens para serviços sexuais e como esposas para os
soldados 6 Frequentemente são usadas como moedas de troca e recompensas no âmbito
de conflitos.
Os métodos de transporte variam dependendo das rotas escolhidas pelos traficantes e as
distâncias. 57% das vı́timas são traficadas internacionalmente, o restante está envolvida
em tráfico doméstico (Global Report 2012-2014). Tráfico na mesma área geográfica é
muito comum, como do Sudeste da Europa para a Europa Ocidental, dos paı́ses andinos
para o cone sul da américa latina, entre paı́ses vizinhos, etc.
O tráfico pode ser de curtas distâncias (doméstico e entre paı́ses vizinhos), média
distância (paı́ses que não dividem fronteiras até 3,500 Km) e longas distâncias (acima de
3,500 Km). Sendo que 54% do tráfico de pessoas consiste de pequenas distâncias (Global
Report 2016). Outrossim foi constatado que quanto maior o Produto Interno Bruto (PIB)
mais são detectadas vı́timas de tráfico de longa distância e de diferentes regiões (Global
Report 2014 e 2016).
5
https://glc.yale.edu/sites/default/files/pdf/shih_erotics_of_authenticity.pdf
6
https://revista.drclas.harvard.edu/book/human-trafficking-0.
CAPÍTULO 3. EXPLORAÇÃO SEXUAL 14

Um aspecto do transporte que se repete é a posse dos documentos das vı́timas pelos
traficantes, este se estende até sua destinação final e é usado como um instrumento de
controle, pois impossibilita a fuga e retorno ao paı́s de origem. Os traficantes recorrente-
mente também confiscam o dinheiro das vı́timas, ficando assim com total controle sobre
sua possibilidade de ir e vir.
Rufiões e clientes usam métodos de coerção para manter seu controle sobre as vı́timas
como: exploração econômica, isolamento social, abuso verbal, ameaças, violência fı́sica,
agressão sexual, cativeiro, minimização e negação de seu uso de violência fı́sica e abuso
(também caracterizado como gaslighting) (2006 Prostitution, Trafficking, and Cultural
Amnesia: What We Must Not Know in Order To Keep the Business of Sexual Exploitation
Running Smoothly Melissa Farley) .
Prostituição é uma prática extremamente perigosa qualquer que seja a condição de
liberdade do praticante, o Comitê Especial sobre Pornografia e Prostituição no Canadá
expôs que o ı́ndice de mortalidade de mulheres na prostituição é quarenta vezes mais alto
que o da população em geral. Uma pesquisa ocupacional constatou que 99% das mulheres
em prostituição foram vı́timas de violência, com ferimentos mais frequentes do que as
profissões consideradas como as mais perigosas (mineiros, bombeiros, etc) (Gibbs, Sydie,
and Krull 2000, 47).
Isolamento é um importante fator em qualquer etapa do tráfico e especialmente em
manter as vı́timas sob a influência e controle dos traficantes. Para atingir este objetivo
traficantes controlam e muitas vezes impedem a comunicação com os entes queridos e
com qualquer pessoa que exclua seus “clientes”. Sua liberdade de ir e vir é limitada ao
extremo, frequentemente se resumindo a um quarto ou prédio. Os traficantes controlam
as finanças das vı́timas, além de cobrarem delas uma “dı́vida” que inclui as despesas da
viagem, de alojamento, comida, etc, o que implica em que elas percam a independência
financeira (2016 Global Report on Trafficking in Persons). As vı́timas são proibidas de
deixar sua situação até pagarem a dı́vida, que muitas vezes é um valor extremamente alto,
o que somado à baixa ou inexistente remuneração se torna quase impossı́vel a liberação
da servidão a qual foram impostas.
Outra tática usada é a maior facilidade de vı́timas confiarem em cidadãos de seu paı́s
ou falantes de sua lı́ngua materna em detrimento de autoridades de paı́ses estrangeiros, a
quem temem por serem ilegais no paı́s de destino. Essa confiança muitas vezes se mantém
mesmo depois de serem exploradas, e evita que vı́timas procurem auxı́lio (2016 Global
Report on Trafficking in Persons).
Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2012), até 95% de ex-
vı́timas sofreram altos nı́veis de abuso fı́sico durante sua exploração, que causaram sin-
tomas fı́sicos após sua libertação caracterizados principalmente por problemas na saúde
sexual e reprodutiva, perda de peso, fadiga, etc. Além de sintomas psicológicos que se
estenderam por muito mais tempo que os sintomas fı́sicos, manifestando-se em proble-
CAPÍTULO 3. EXPLORAÇÃO SEXUAL 15

mas de saúde mental. Distúrbios dissociativos, depressão e outros transtornos de humor


são comuns entre mulheres prostituı́das (Ross et al. 1990). Dois estudos de mulheres
coreanas prostituı́das refletem o sofrimento psicológico intenso das mulheres com taxas
de prevalência de PTSD de 78% e 80% (citado em Farley e Seo, 2006). Ademais, a
participação de mulheres prostituı́das em pornografia aumenta sua vulnerabilidade e seu
desgaste emocional (Farley 2007a). Estas são questões que devem ser levadas em consi-
deração pelas delegadas e delegados nas discussões sobre resgate e apoio às vı́timas de
tráfico após sua libertação.
Fica claro na análise do tráfico de mulheres e meninas para exploração sexual que um
motivo inerente da sua existência é a presença de uma demanda. Seja em paı́ses ricos
ou em desenvolvimento o denominador comum é a demanda pela prostituição, que é tra-
tada pelos “clientes” como um comércio, onde um “bem de consumo” pode ser vendido e
comprado. Assim, ignoram a situação das vı́timas e negam seu papel como importantes
participantes na alimentação de uma indústria criminal de bilhões de dólares, que fre-
quentemente está ligada a organizações que também efetuam tráfico de drogas, armas,
órgãos, etc. A responsabilidade e papel dos “consumidores” de serviços de prostituição
entre outros no contexto do tráfico de pessoas é um importante tópico a ser discutido
pelas senhoras e senhores no Comitê.
Entre os motivos mais influentes na persistência do tráfico também temos a demanda
por serviços ilegais de imigração, que auxiliam pessoas em suas jornadas em busca de
um futuro melhor em áreas mais desenvolvidas, fruto da abundância de uma população
vulnerável que é facilmente explorada sem grandes consequências para os traficantes 7 .
Esses fatores criam uma situação propensa para a atuação de traficantes nessas áreas de
imigração com falsas promessas de empregos e de um transporte seguro para uma região
com mais oportunidades e que possa oferecer um futuro promissor. Essa demanda se
encontra potencializada em áreas de conflito e de inquietação civil onde a necessidade de
escapar da situação de crise é ainda mais imperativa.

7
https://revista.drclas.harvard.edu/book/human-trafficking-0
Capı́tulo 4

CASAMENTOS FORÇADOS

A Organização das Nações Unidas (ONU) define Casamento Forçado como a união
entre duas pessoas, em que, pelo menos, uma delas não deu o consentimento pleno e livre
para participar dessa união. É considerado pela mesma organização como uma violação
dos Direitos Humanos, pois vai contra os direitos básicos de autonomia e liberdade. Vale
ressaltar que o casamento forçado é diferente do casamento arranjado. Ao contrário dos
casamentos forçados, em um casamento arranjado tanto a noiva quanto o noivo escolhem
se querem ou não se casar com a pessoa sugerida a eles por suas famı́lias. Em um
casamento forçado não há liberdade de escolha.
Para o antigo Secretário Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon, em seu discurso do
Dia da Mulher em 2015, esta prática, “(. . . ) é uma violação aos direitos das meninas,
deixando-as prisioneiras da ignorância e da falta de saúde, além de expô-las à violência”.
Já para especialistas de Direitos Humanos da ONU, este casamento pode ser considerado
uma situação análoga à escravidão, pois as vı́timas experimentam servidão doméstica,
escravidão sexual e sofrem violações de seu direito à saúde, à educação, entre outros.
Ademais, de acordo com as Nações Unidas, este tipo de matrimônio está sendo um
entrave para o progresso de seis dos oito Objetivos do Milênio promovidos pelas Nações
Unidas. As expectativas globais na redução da mortalidade infantil e materna, no combate
ao HIV e na educação primária universal são prejudicadas pelo fato de uma em cada
sete mulheres nos paı́ses em desenvolvimento serem casadas antes dos 15 anos. Isso
acontece pois não há a promoção de informações sobre prevenção das doenças sexualmente
transmissı́veis nesses lares ou a possibilidade de conversas com o parceiro sobre a utilização
de métodos contraceptivos.
O casamento infantil também frustra as ambições para eliminar a extrema pobreza e
a promoção da igualdade de gênero. A probabilidade das meninas menores de 15 anos
morrerem durante a gravidez ou no parto é cinco vezes maior do que as mulheres na faixa
dos 20 anos. Além disso, as noivas-crianças são mais propensas a abandonar a escola para
se concentrarem nas tarefas domésticas e na criação dos filhos.
Atualmente cerca de 7,5 milhões de meninas são casadas ilegalmente a cada ano.

16
CAPÍTULO 4. CASAMENTOS FORÇADOS 17

Esse número é alarmante para a comunidade internacional e pode vir a crescer. A fraca
fiscalização e a desconexão entre as leis nacionais, consuetudinárias e religiosas fazem
parte do problema. Tradições e crenças profundamente enraizadas significam que os
lı́deres tradicionais nas comunidades ainda apoiam com demasiada frequência a prática.
As razões que motivam o casamento forçado são diversas. Podem estar relaciona-
das à migração, questões culturais, religiosas ou financeiras. Na Europa, o tópico mais
pertinente atualmente é o casamentos forçados entre imigrantes, dado que o casamento
representa uma possibilidade legal de imigração. São frequentes os relatos de jovens
muçulmanos de ambos os sexos que subitamente casam no território da União Europeia,
criando desconfiança na legalidade da união, principalmente por ser muito ténue a bar-
reira entre um casamento forçado e um casamento arranjado. O casamento forçado na
União Europeia já suscitou polêmica após o lı́der espiritual da Arábia Saudita, mufti Ab-
dul Aziz al-Ashaikn, defender que as meninas de dez ou doze anos estão aptas a casar e
quem pensa o contrário é por não compreender a cultura ou sentimentos envolvidos.
E nesse ponto cabe trazer que o casamento infantil é uma das formas do casamento
forçado mais cruéis existentes. Esse tipo de casamento, também identificado como “Casa-
mento Precoce”, é é aquele em que a pessoa que se está a casar não tem ainda 18 anos. As
vı́timas são, normalmente, provenientes das camadas mais marginalizadas e vulneráveis
da sociedade. Segundo as Nações Unidas, cerca de 10 milhões de meninas, por ano, são
forçadas a se casar antes de completar 18 anos. Há casos de meninas de oito anos de
idade, que são obrigadas a se casar com homens que podem ser três ou quatro vezes mais
velhos que elas (ONU BRASIL, 2012).
O casamento infantil atravessa paı́ses, culturas, religiões e etnias, no entanto costumam
acontecer com maior frequência em paı́ses marginalizado. Segundo estimativas, 46% das
meninas menores de 18 anos são obrigadas a se casarem no Sul da Ásia; 38% na África
Subsaariana; 29% na América Latina e no Caribe; 18% no Oriente Médio e no Norte
da África; e em algumas comunidades na Europa e na América do Norte também (ONU
BRASIL, 2012).
As consequências fı́sicas e psicológicas são variadas e graves, principalmente porque as
criança que celebram o matrimônio ainda não se encontram com o seu desenvolvimento
fı́sico e emocional concluı́do. Deste modo, estão mais vulneráveis a violência e abusos
por parte dos maridos. Além disso, nesse quadro as complicações durante a gravidez são
mais frequentes, podendo levar a complicações no parto e a morte da mãe ou do recém
nascido. Também em termos de acesso à educação e a trabalho por parte destas meninas,
o casamento precoce impossibilita que muitas delas concluam seus estudos ou ingressem
no mercado de trabalho para dar prioridade aos cuidados dos filhos.
Existem argumentos culturais e relacionados com tradições que servem para justificar
os casamentos forçados, arranjados e precoces, sendo muitas vezes vistos pelas próprias
meninas como algo que é preciso manter e de que se orgulham. Na África Subsariana e
CAPÍTULO 4. CASAMENTOS FORÇADOS 18

no Sul da Ásia, os pais frequentemente acreditam que estão preservando a segurança das
suas filhas menores ao casá-las com homens com dinheiro ou condição social mais elevada.
Em algumas comunidades, uma menina que tem o casamento planejado desde cedo é
melhor vista e aceita pela comunidade e, quando tal não acontece, são marginalizadas e
discriminadas.
Para algumas famı́lias de paı́ses subdesenvolvidos poderem casar filhas com homens
mais velhos que residem em paı́ses com ı́ndices de desenvolvimento alto constitui uma
oportunidade para alcançar melhores condições de vida. Isto é, o casamento forçado mui-
tas vezes tem como fator de promoção o desejo de uma famı́lia sem condições financeiras
de fornecer às filhas mulheres condições de vida melhores no futuro. No entanto casar
uma menina por essas razões pode promover consequências extremas.
Ao passo que uma menina é casada sob essas condições, o casamento por muitas vezes
não é mais interpretada pelo cônjuge como uma união por laços sentimentais. Mas como
um contrato de troca entre uma parte provendo condições de vida estável e confortável e
a outra um indivı́duo à disposição das vontades do primeiro, o que leva a atos de violência
e até à morte. Assim o casamento forçado não mais promove o bem-estar, mas constrói
a ideia de posse da mulher como um objeto que deve retribuir da melhor forma o favor
exercido pelo homem à famı́lia da menina. que ele realizou. Um caso que ficou conhecido
o qual se aproxima do quadro descrito foi o de Nojoud Ali em 2008.
Noujoud Ali tinha 10 anos quando entrou com pedido de divórcio, desafiando não só
as tradições ancestrais do seu paı́s, mas também a autoridade que seu cônjuge acreditava
exercer sobre ela. Casada à força, com idade inferior à legal, Nojoud Ali manifestou uma
maturidade que só a violência pode forjar na cabeça de uma criança, indo ao tribunal
da sua cidade pedir o divórcio ao juiz, sob o pretexto de ir comprar pão. Libertando-se
de um casamento indesejado com um homem três vezes mais velho do que ela, Nojoud
Ali tornou-se um sı́mbolo da causa das mulheres do Iêmen, criando um antecedente que
ajudou outras crianças casadas à força, antes da idade legal do casamento, a obterem
também o divórcio.
Atualmente cerca de 100 milhões de meninas não são protegidas contra o casamento
infantil sob as leis de seus paı́ses. Carolyn Miles, presidente e CEO da Save the Children,
disse: ”Não veremos um mundo onde meninas e meninos tenham as mesmas oportunidades
de ter sucesso na vida até que erradiquemos o casamento infantil. Quando uma garota
se casa cedo demais, ser esposa e mãe são seus únicas contribuições à sociedade. Por ter
se casado cedo não terá mais chances de concluir seus estudos ou entrar no mercado de
trabalho, já que deverá se dedicar inteiramente à famı́lia”.
Um número crescente de paı́ses está aumentando a idade legal para o casamento ou
eliminando exceções sob a lei que permitem o casamento precoce com o consentimento
dos pais ou o consentimento do tribunal. No entanto, implementar essas leis é um de-
safio, principalmente nos paı́ses nos quais o registo dos recém-nascidos não é efetuado
CAPÍTULO 4. CASAMENTOS FORÇADOS 19

imediatamente. O que acarreta na idade adulterada na hora de registrar as meninas


recém nascidas em detrimento da facilitação dos casamentos precoces, isto é, assim as
meninas menores de idade podem facilmente ser declaradas como maiores para legitimar
casamentos forçados.
Nos paı́ses em desenvolvimento, a idade mı́nima mais comum do casamento sem o con-
sentimento paterno é de 18 anos. Contudo, muitos destes Estados permitem casamentos
mais cedo com o consentimento dos pais, responsáveis legais ou autoridades judiciais ou
religiosas. Particularmente, os casamentos antes dos 15 anos violam as leis que estabele-
cem uma idade mı́nima para o consentimento de uma jovem para a prática de sexo. A
maioria dos paı́ses já legislou sobre o casamento de crianças, inibindo-o, ou são signatários
de tratados internacionais que o proı́bem. Mas estes procedimentos não se traduziram,
na prática, em mudanças reais.
No Nı́ger, o Código Civil proı́be que os rapazes se casem com menos de 18 anos e as
meninas com menos de 15 anos. Contudo, o código raramente é aplicado por causa da
existência de dois sistemas legais, o judicial e o islâmico, que permitem o casamento com
menores de idade. Mesmo sem estas excepções, a legislação que rege a idade mı́nima para
o casamento pode ser ignorada ou burlada. Uma menina pode casar-se numa cerimônia
tradicional muito antes de a união ser registada junto das autoridades civis ou as idades
podem ser falsificadas na ausência de certidões de nascimento. Na Zâmbia, a idade legal
mı́nima para o casamento é de 21 anos, mas 10 por cento das meninas casam quando
chegam aos 15 anos.
Torna-se necessário fortalecer os sistemas de registo de casamentos para exigir o registo
civil obrigatório, comprovação da idade e consentimento livre e total dos noivos e eliminar
o mito do casamento como zona de segurança para as meninas. Mas, além disso, também
são necessárias estratégias nacionais com intervenções direcionadas bem planejadas, es-
pecialmente para permitir que as meninas permaneçam na escola como uma alternativa
viável ao casamento.
Capı́tulo 5

SITUAÇÃO MUNDIAL

Segundo os dados mais recente (coletados entre os anos de 2012 e 2014 pelo Global
Report for Trafficiking in Persons), 54% das 53.700 vı́timas detectadas foram, de fato,
traficadas para fins de exploração sexual e em sua maioria são originadas da Europa
Oriental, assim como sul da Europa e América Latina.
Muitas mulheres não são traficadas apenas para um objetivo. Na República Domini-
cana, por exemplo, adolescentes eram forçadas a trabalharem como garçonetes e, ainda,
prestar serviços sexuais ao dono do bar em que eram mantidas e, também, aos clientes
do local. Além disso, há outra maneira de trabalho forçado misto, sendo este uma com-
binação de trabalhos domésticos e sexuais. Na África do Sul, um homem solicitou a sua
empregada que recrutasse meninas menores de idade para trabalharem para ele. Sendo
assim, a mulher enganou jovens de Moçambique com a promessa de um emprego digno, as
levou para a casa onde trabalhava e lá elas foram obrigadas a fazerem afazeres domésticos
e, ainda, serem escravas sexuais.
Cerca de 1% das vı́timas detectadas e reportadas para a UNODC durante o perı́odo
de 2012-2014 não puderam ter sua forma de exploração definida, ou porque a vı́tima foi
detectada antes da exploração se estabelecer ou porque a forma não era única. Essas
vı́timas não constam nas análises anteriores.

5.1 PERFIL DAS VÍTIMAS E FLUXO DE TRÁFICO


5.1.1 AMÉRICA DO SUL
A grande maioria das 5.800 vı́timas detectadas entre os anos de 2012 e 2014 na América
do Sul eram mulheres: 45%, adultas; 29%, jovens menores de 17 anos. O nı́vel de crianças
sequestradas é bastante alto - somado com crianças do sexo masculino menores de 17 anos,
o total é de 40% das vı́timas sendo menores de idade. O tráfico de crianças, segundo os
dados obtidos, é mais comum nos paı́ses andinos como Equador, Peru e Bolı́via. Já
mulheres adultas são mais comumente traficadas na Argentina, Chile e Uruguai.

20
CAPÍTULO 5. SITUAÇÃO MUNDIAL 21

Mais da metade das vı́timas detectadas entre os anos de 2012 a 2014 foram traficadas
com o objetivo de exploração sexual. Importante ressaltar que o Brasil denunciou mais
de 3000 vı́timas anualmente, geralmente voltadas para trabalho forçado e prostituição nas
grandes cidades.
Quanto ao fluxo de tráfico, 76% foi reconhecido como sendo tráfico doméstico de
vı́timas. O tráfico de pessoas na América do Sul é predominantemente regional, tanto
pela distância do resto do mundo, quanto pela grande diversidade étnica dentro da região,
além do tamanho da região em si.
O tráfico transfronteiriço dentro da América do Sul, geralmente, se resume a paı́ses
vizinhos. Entre 2012 e 2014, vı́timas da Bolı́via foram encontradas na Argentina e no
Chile, e vı́timas do Paraguai foram encontradas na Argentina. Vı́timas do Paraguai, Peru
e Bolı́via foram encontradas em diversas partes do Brasil, enquanto pessoas colombianas
foram encontradas no Equador e Peru.
Um fluxo importante para paı́ses da América do Sul provém do Caribe, sendo que
diversas vı́timas da República Dominicana, Haiti e Cuba. Também há um fluxo menor
vindo do Leste e do Sul da Ásia.
Como destino de tráfico de pessoas, a América do Sul tem um caráter regional. To-
davia, como paı́s de origem, o caráter é transnacional. Vı́timas sul-americanas foram
encontradas em mais de 50 paı́ses ao redor do mundo, como na América do Norte, Eu-
ropa, Leste da Ásia e Oriente Médio.
Enquanto o fluxo do tráfico transregional é bastante difuso, sua intensidade é restrita.
No Oeste e no Sul da Europa, a quantidade de vı́timas da América do Sul vem caindo ao
longo dos anos, cerca de 3% no ano de 2014. Valores semelhantes foram reportados pela
América do Norte. Todavia, 9% das 600 vı́timas que foram levadas da América do Sul
foram traficadas até o Leste da Ásia.

5.1.2 LESTE DA ÁSIA E PACÍFICO


A maioria das 2.700 vı́timas detectadas entre os anos de 2012 e 2014 nesta região são
mulheres (51%) e meninas (26%), sendo as primeiras encontradas no Japão e na Austrália
e as segundas no sudoeste da Ásia. 60% dessas mulheres foram levadas para prostituição
forçada nessas regiões e cerca de 30% para trabalho forçado.
85% das vı́timas detectadas foram traficadas dentro da própria região. Geralmente,
assim como em outras regiões, as vı́timas são levadas de paı́ses mais pobres para paı́ses
mais ricos como Austrália e Japão. 6% das vı́timas foram traficadas do Sul da Ásia, em
especial Bangladesh e Índia. Outros 5% das vı́timas pertenciam a etnias menores e que
não tinham nacionalidade definida.
Os fluxos de tráfico da região são complexos. Os paı́ses mais desenvolvidos são paı́ses
de destino. Todavia, China, Malásia e Tailândia também foram reportadas como destinos
CAPÍTULO 5. SITUAÇÃO MUNDIAL 22

para paı́ses mais próximos. Tailândia detectou vı́timas do Camboja, Laos e Myanmar,
com adição do tráfico doméstico. Malásia reportou vı́timas da Indonésia, Filipinas e
Vietnam.

5.1.3 EUROPA CENTRAL E OCIDENTAL


15.200 mulheres foram reportadas ao UNODC na região da Europa Central e Ocidental
entre os anos da pesquisa; 67% destas foram traficadas para exploração sexual. 30%
também foram traficadas para trabalho escravo no setor agrı́cola. As meninas também
podem ser exploradas sexualmente, mas os dados não são precisos.
Essa região também é o destino de vı́timas de várias outras localidades: durante o
perı́odo de 2012 a 2014, mulheres de 137 diferentes nacionalidades foram encontradas na
Europa Central e Ocidental. Todavia, a maioria das vı́timas do fluxo de tráfico percorrem
curtas distâncias na região; cerca de 18% foram vı́timas de tráfico doméstico, ou seja,
dentro da mesma região.
Paı́ses da União Europeia são as principais origens das mulheres que são levadas para a
região central e oriental do continente (47%), sendo que vı́timas da Bulgária e da Romênia
foram encontradas em quase todas os paı́ses dessa região. Por outro lado, quase não foram
detectadas vı́timas originárias da região dos Balcãs.
Mulheres da Europa Central e Ocidental foram encontradas na França em grande
número, assim como na Alemanha, Paı́ses Baixos e Reino Unido, assim como em outros
paı́ses europeus. Algumas vı́timas, porém, parecem ter sido traficadas para toda a região:
mulheres do leste da Ásia e norte da África, por exemplo, além, também, de outras partes
da Europa, como região norte e ocidental.
Fora o tráfico dentro da própria Europa, a região em questão é receptora de vı́timas,
principalmente, da África Subsaariana. Mulheres Nigerianas foram detectadas em larga
escala na Escandinávia, Sul da Europa, França, Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Paı́ses
Baixos. Vı́timas de Camarões, Gana, Guiné Bissau e Serra Leoa foram também encon-
tradas em diversos paı́ses, chegando a ser parte de 5% das vı́timas que foram levadas até
o Reino Unido.
O fluxo de vı́timas vindas do leste da Ásia é composto, principalmente, de mulhe-
res vindas da China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnam. Porém, há um paı́s de
preferência para esse fluxo em especial: Turquia, totalizando 86% da vı́tima desse paı́s.

5.1.4 SUDOESTE E CENTRO DA EUROPA


75% das 6.870 vı́timas dessa região são mulheres, entre elas 18% são menores de 17
anos. Desse número, mais de dois terços foi levada para exploração sexual. 14% dessas
mulheres foram levadas para trabalho forçado.
CAPÍTULO 5. SITUAÇÃO MUNDIAL 23

Essa região é mais conhecida por ser origem de vı́timas de tráfico internacional. As
vı́timas são levadas, principalmente, para outras partes da Europa, principalmente para
os paı́ses mais ricos do Leste da Europa. Todavia, cerca de 41% das vı́timas foram levadas
dentro de seus próprios paı́ses, de zonas mais pobres para zonas mais ricas. O tráfico mais
comum é o doméstico ou entre paı́ses vizinhos, sendo uma região conhecida por tráficos
de curta distância.

5.1.5 EUROPA ORIENTAL E ÁSIA CENTRAL


Há um contraste dessa região com as demais. Cerca de 27,800 vı́timas foram levadas
desses lugares, porém, ao contrário dos locais acima, 90% das vı́timas são homens. Isso
ocorre porque as vı́timas são levadas para áreas de trabalho forçado que demandam força
fı́sica e, por isso, a demanda de homens é maior.
Essa região é conhecida por ser ponto de fluxo de tráfico tanto transnacional quanto
local, além de várias mulheres terem sido levadas por fronteiras da região. Cerca de
7 de 10 de aproximadamente 1700 vı́timas foram reportadas por tráfico dentro de seus
próprios paı́ses e cerca de 22% foram detectadas fora de suas fronteiras, mas dentro da
mesma região.
O fluxo de tráfico transfronteiriço apresenta caracterı́sticas padronizadas; geralmente,
de paı́ses mais pobres para paı́ses mais ricos. A Rússia e o Cazaquistão, paı́ses mais de-
senvolvidos da região, são ambos pontos de fluxo de tráfico de pessoas de diversas regiões.
Todavia, foram detectadas poucas vı́timas desses paı́ses em outras regiões. Mulheres de
paı́ses mais pobres da Ásia Central são levadas para esses lugares, mas com mais predo-
minância para o Cazaquistão. Outro paı́s com grandes vı́timas traficadas é a Ucrânia, em
que geralmente as pessoas são levadas para a Rússia.
Vı́timas da Ucrânia também foram encontradas em Belarus, e vı́timas da Moldávia
foram encontradas na Rússia, Cazaquistão e Ucrânia. Mulheres de Belarus foram en-
contradas na Rússia, enquanto vı́timas do Uzbequistão foram encontradas no Cáucaso.
Belarus e Ucrânia são dois paı́ses de fluxo de tráfico para fora e para dentro do paı́s;
todavia, há poucos dados quanto ao Cáucaso.
10% das vı́timas dessa região também foram encontradas em 25 paı́ses da Europa
Central e Ocidental. Todavia, esse fluxo, segundo dados de 2012 a 2014, diminuiu ao
longo dos anos.
Vı́timas da Europa Central e Ásia Central foram encontradas em grande número no
Oriente Médio, conforme dados fornecidos pela própria região. Por outro lado, 7% das
pessoas levadas do Oriente Médio foram para a Europa Central e Ásia Central, o que
demonstra que é um fluxo mais comum de destino entre as vı́timas.
CAPÍTULO 5. SITUAÇÃO MUNDIAL 24

5.1.6 AMÉRICA DO NORTE, CENTRAL E CARIBE


Tanto a América do Norte quanto a região do Caribe detectaram muitas vı́timas
mulheres. Cerca de 70% das 8.900 vı́timas são mulheres, sendo que as vı́timas caribenhas,
em sua maioria são crianças. É o segundo maior ı́ndice de tráfico de crianças no mundo,
perdendo apenas para a África Subsaariana.
Muitas vı́timas foram traficadas domesticamente, como mulheres norte-americanas
levadas para outras regiões dos Estados Unidos, o que dificulta na detecção dessas vı́timas.
Dito isso, a América do Norte é uma das três regiões – junto com África Subsaari-
ana e Oeste e Sul da Europa – em que o tráfico de longa distância apresenta números
importantes. Cerca de um quarto das vı́timas encontradas nessa sub-região, segundos os
dados mais recentes de 2014, foram traficadas de locais de mais de 3.500km de distância
e cerca de 7% eram de 7000km de distância. Foram encontradas vı́timas de mais de 90
nacionalidades diferentes.
Quando a questão é intensidade do fluxo de tráfico, o Leste da Ásia é a região com
mais vı́timas encontradas na América do Norte. Cerca de 16% das vı́timas eram dos paı́ses
dessa região. Os Estados Unidos encontraram diversas mulheres das Filipinas, assim como
da China e de Taiwan. Fluxos menores de tráfico também foram detectados, com vı́timas
originárias do Sul da Ásia, África e Oriente Médio.
Apesar da proximidade, apenas 2% das vı́timas encontradas na América do Norte são
da América do Sul; essa é a porcentagem, também, do fluxo de vı́timas da Europa para
os Estados Unidos.
Tráfico transfronteiriço também apresenta um número significativo nessa região: cerca
de 12% encontradas tanto no México quanto nos Estados Unidos eram de origem caribenha
ou da América Central.
A América Central é principalmente ponto de origem das vı́timas, mas pode, também,
ser destino. Guatemala e El Salvador detectaram vı́timas de Honduras e Nicarágua, entre
outras, e o tráfico dentro dessa região é bastante comum. Os 6% das vı́timas detectadas
nessa região foram traficadas ou domesticamente ou para paı́ses vizinhos com menos de
algumas centenas de quilômetros de distância.
As vı́timas geralmente são levadas de paı́ses mais pobres para paı́ses relativamente
mais ricos. Pessoas encontradas nos paı́ses mais ricos da América Central – como Barba-
dos, Panamá e Trinidad e Tobago – eram de origem de paı́ses próximos da América do
Sul, como Bolı́via, Venezuela, Colômbia e Guiana. Além disso, vı́timas do Haiti foram
encontradas na República Dominicana.
O Caribe e paı́ses da América Central são paı́ses de origem de 10% das vı́timas en-
contradas na América do Sul. A maioria dessas vı́timas são levadas do Caribe até paı́ses
como Argentina, Uruguai e Brasil, mas também para os paı́ses Andinos. No total, as
vı́timas dos paı́ses caribenhos e da América Central foram encontradas em mais de 30
CAPÍTULO 5. SITUAÇÃO MUNDIAL 25

paı́ses ao redor do mundo.

5.1.7 ÁFRICA SUBSAARIANA


A maioria das vı́timas reportadas nessa região são crianças, totalizando 64% das pes-
soas detectadas e são levadas por conta de trabalho forçado em outras regiões. As meninas,
porém, podem também ser exploradas sexualmente, mas os dados não são precisos quanto
a esta forma de exploração.
O fluxo de tráfico para dentro dessa região é predominantemente doméstico; in-
formações sobre pessoas vindas de outras regiões é extremamente escassa. De 2700
vı́timas, 87% foram traficadas domesticamente. Dentro desse número, foram detectadas
32 nacionalidades, sendo que apenas 12 eram de fora da África Subsaariana.
As vı́timas geralmente são levadas de zonas rurais para zonas urbanas; depois disso,
as vı́timas são levadas para locais com mais atividades, como pontos turı́sticos ou zonas
perto de grandes propriedades.
Apesar de o tráfico doméstico ser o mais comum de destino, a África Subsaariana tem
um grande fluxo de origem de vı́timas para o resto do mundo. Vı́timas, entre mulheres e
crianças, foram encontradas em mais de 50 paı́ses ao redor do mundo, principalmente na
Europa; 13% das vı́timas foram detectadas no Norte da África e no Oriente Médio.

5.1.8 NORTE DA ÁFRICA E ORIENTE MÉDIO


A pesquisa feita nessa região não foi conclusiva nos anos de 2012 a 2014. Todavia,
acredita-se que a grande maioria das vı́timas sejam homens, sendo eles traficados para
trabalho escravo. As mulheres que são levadas acabam sendo exploradas sexualmente; em
relação a crianças, a exploração não pode ser explicitada por não haver dados concretos.
Essas duas áreas possuem dois fluxos diferentes de tráfico. O Oriente Médio, assim
como sul e oeste da Europa, é um grande destino para pessoas vı́timas desse crime.
Cerca de 48 diferentes nacionalidades foram detectadas entre as pessoas que foram levadas
ilegalmente até a região, sendo que 35 eram de paı́ses fora do Norte da África ou do Oriente
Médio.
Essa região, porém, possui grande fluxo de origem de tráfico. Mais de 30 paı́ses
reportaram vı́timas originárias do Norte da África e do Oriente Médio, sendo que 2% das
pessoas foram encontradas no Oeste e no Sul da Europa. Paı́ses da Ásia e das América
reportam vı́timas esporadicamente, mas não foi possı́vel obter dados recentes no último
Global Report.
Capı́tulo 6

MEDIDAS EM VIGOR

A Organização das Nações Unidas — e a comunidade internacional como um todo


— adereçou documentos e resoluções que condenavam o tráfico humano e que sugeriam
regras e medidas práticas para seu combate. Tais medidas, entretanto, eram uma arma
ineficaz de combate ao problema, visto que nunca realmente definiram tráfico e seu al-
cance era limitado ao ato de seduzir ou sequestrar mulheres para prostituição no exterior.
Até os anos 90, existiam cinco acordos internacionais sobre o tráfico, eram eles: o Acordo
Internacional para a Supressão do Trabalho Escravo Branco (1904), a Convenção Inter-
nacional para a Supressão do Tráfico de Escravos Brancos (1949), a Convenção para a
Supressão do Tráfico de Mulheres e Crianças (1921), a Convenção para a Supressão do
Tráfico de Mulheres em Idade Adulta (1933) e a Convenção de Supressão do Tráfico de
Pessoas e Exploração da Prostituição de Outros (1950). Alguns desses documentos ainda
são utilizados como referência para resoluções da ONU.
Esses acordos, por mais que tenham sido ratificados por algumas nações, que incluı́ram
as medidas em suas legislações nacionais, não contemplavam a complexidade do tráfico
humano nos parâmetros do século XXI. Além disso, mesmo com todos os acordos anteri-
ormente feitos, a previsão da Organização Internacional de Migração, ao final do século
XX, estimava que 150 milhões de pessoas migravam anualmente para escapar das mais
diversas situações em seus paı́ses de origem, sendo aproximadamente 2 milhões desses mi-
grantes eram traficados todos os anos, visto que traficantes aproveitavam-se das crises e de
desvantagens econômicas e sociais para encontrar suas vı́timas (HYLAND, 2001). Dessa
forma, com as pressões da comunidade internacional — que já visualizava o tráfico humano
como uma questão não só de direitos humanos, mas também questão de crime organizado
transnacional — e de governos que lidavam com o processo judicial na ausência de leis
eficientes sobre tráfico, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que
solicitava a criação de um protocolo acerca de tal problemática.
Foi apenas no final de 2003 que entrou em vigor o Protocolo das Nações Unidas de
Proteção, Supressão e Punição do Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças,
solicitado pela Assembleia Geral entre os anos de 1998 e 2000, o qual criava um instru-

26
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 27

mento universal para adereçar essas questões (UNODC, 2004). O Protocolo reflete o
primeiro consenso internacional sobre a definição de tráfico, o que é o primeiro passo em
direção a um esforço internacional conjunto para combater esse tipo de crime. Em 2016,
179 paı́ses já haviam ratificado tal documento (UNODC, 2016).
Tal protocolo propõe uma série de medidas legislativas que deveriam ser tomadas por
seus Estados signatários, a fim de prevenção, investigação e acusação das ofensas por ele
estabelecidas (UNODC, 2004). Vale notar seu artigo 5, que obriga os Estados-partes a
criminalizar o tráfico, a tentativa de tráfico, a participação como cúmplice e a organização
e direção de tráfico.

Artigo 5. Penalização
1. Cada Estado Parte adotará as medidas legislativas e de outra ı́ndole que
sejam necessárias para tipificar como como infrações penais a conduta
estabelecida no artigo 3 deste Protocolo, quando cometida intencional-
mente;
2. Cada Estado Parte também deve adotar as medidas legislativas e de outra
ı́ndole que sejam necessárias para tipificar como infrações penais:
(a) Sujeito aos conceitos básicos de seu sistema legal, tentando cometer
uma ofensa estabelecida de acordo com o parágrafo 1 deste artigo;
(b) Participar como cúmplice de uma ofensa estabelecida de acordo com
o parágrafo 1 deste artigo;
(c) Organizar ou dirigir outras pessoas a cometer uma ofensa estabele-
cida de acordo com o parágrafo 1 deste artigo.
Fonte: Convenção das Nações Unidas Contra a Delinquência Transnacional
Organizada e seus Protocolos, 2004

Desde que o Protocolo entrou em vigência há 15 anos, muitos paı́ses, além de o assi-
narem, já adicionaram a suas legislações nacionais a proibição do tráfico de pessoas. É
evidente que, para a erradicação de tais atos, é necessário que tal legislação seja apli-
cada em todas as nações, visto que, uma vez oficializadas, estas aceleram o processo de
identificação e julgamento dos responsáveis, assim como proporcionam ajuda eficiente e
legal às vı́timas — que passam a ter mais direitos frente à justiça nacional criminalizando
algumas formas de tráfico. Segue, na Figura 6.1, mapa temático acerca da legislação de
tráfico mundialmente, realizado pelo Trafficking in Persons Report.
Sobre o perı́odo que as medidas propostas pelo Protocolo de Tráfico de Pessoas, a
maioria dos esforços legislativos dos paı́ses foi realizada nos cinco anos após sua entrada
em vigor. Cerca de 37% dos paı́ses que atualmente possuem legislação contra o tráfico de
pessoas a introduziram entre o inı́cio de 2004 e o final de 2008. Outros 22% introduziram
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 28

Figura 6.1: Tradução:


1. Atos compreensivos que proı́bem todas as formas de tráfico
2. Ação (ões) proibindo algumas formas de tráfico
3. Ações ou código penal proibindo algumas formas de tráfico
4. Código penal criminalizando todas as formas de tráfico
5. Código penal criminalizando algumas formas de tráfico
6. Leis anti-tráfico insuficientes
7. Leis primárias relacionadas a crianças
8. Região não incluı́da no relatório

a infração no perı́odo entre dezembro de 2008 e agosto de 2012, enquanto 11% dos 179
paı́ses considerados o fizeram nos quatro anos entre setembro de 2012 e agosto de 2016. A
frequência da adoção de legislação contra o tráfico de pessoas diminuiu nos últimos quatro
anos, em comparação com perı́odos anteriores (UNODC, 2016). Conhecendo os dados
apresentados no mapa anterior, sabe-se que nem sempre as medidas adotadas atendem
completamente as recomendações da ONU, porém, de qualquer maneira, é positiva a
aderência de um número cada vez maior de paı́ses.
Ademais, voltando à estrutura do Protocolo, este também propõe uma conduta padrão
para a identificação de potenciais vı́timas de tráfico e de métodos criminosos utilizados
para traficar indivı́duos, encontrada no Artigo 10. As disposições obrigatórias relativas às
vı́timas são uma vantagem adicional do Protocolo de 2003 em relação aos anteriores. Por
exemplo, o Artigo 9 aborda medidas de prevenção obrigatórias, citando especificamente
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 29

Figura 6.2: Tradução:


Perı́odo 1 – azul mais escuro: antes de dezembro de 2003
Perı́odo 2 – amarelo: entre janeiro de 2004 e novembro de 2008
Perı́odo 3 – marrom mais escuro: entre dezembro de 2008 e agosto de 2012
Perı́odo 4 – marrom mais claro: entre setembro de 2012 e agosto de 2014
Perı́odo 5 – azul claro: entre setembro de 2014 e agosto de 2016
Sem perı́odo – azul mais claro: Não tem nada ainda

campanhas de informação dos meios de comunicação de massa, estreita cooperação com


ONGs e a criação de incentivos sociais e econômicos. Outro Artigo importante de ser
citado é o 6, que obriga os Estados-partes a incluir disposições dentro de suas estruturas
legais internas relativas à indenização às vı́timas e às informações sobre processos judiciais.

1. Cada Estado Membro deve considerar a implementação de medidas


para proporcionar a recuperação fı́sica, psicológica e social das vı́timas
do tráfico de pessoas, inclusive, em casos apropriados, em cooperação
com organizações não-governamentais, outras organizações relevantes e
outros elementos da sociedade civil, e em particular, a prestação de:
(a) Moradia apropriada;
(b) Aconselhamento e informação, em particular no que diz respeito a
seus direitos legais, numa linguagem que as vı́timas do tráfico hu-
mano possam compreender;
(c) Assistência médica, psicológica e material; e
(d) Oportunidades de emprego, educação e treinamento.
2. Cada Estado Membro deverá levar em consideração, na aplicação do que
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 30

foi disposto neste artigo, a idade, o gênero e as necessidades especiais das


vı́timas do tráfico de pessoas, em particular as necessidades especiais das
crianças, inclusive moradia apropriada, educação e cuidados.
3. Cada Estado Membro deverá se esforçar para garantir a segurança fı́sica
das vı́timas do tráfico de pessoas enquanto estiverem no seu território.
4. Cada Estado Parte deverá assegurar que seu ordenamento jurı́dico interno
contenha medidas que ofereçam às vı́timas do tráfico de pessoas
(a) Possibilidade de obter indenização pelos danos sofridos.

A respeito desse último artigo e de suas aplicações, vale notar a situação das crianças
em relação ao tráfico humano. É importante lembrar a Convenção sobre os Direitos das
Crianças (1989), que, apesar de não ter como tema especı́fico o tráfico humano, em seu
artigo 39, afirma especificamente que:
Os Estados-partes devem tomar todas as medidas apropriadas para promover a recu-
peração fı́sica e psicológica e a reintegração social de crianças vı́timas. Essa recuperação
e reinserção devem ocorrer em um ambiente que promova a saúde, o auto respeito e a
dignidade da criança. (CDH, 1989).
Atualmente, diversos organismos internacionais contribuem para a proteção e identi-
ficação de crianças vı́timas de tráfico humano. Um deles é a UNICEF que, a fim de facilitar
a ajuda esses indivı́duos, ajuda apoiando o treinamento de profissionais que trabalham
com crianças, incluindo assistentes sociais, agentes de saúde, policiais e funcionários de
fronteira para lidar efetivamente com o tráfico. Além disso, a UNICEF apoia os governos
no estabelecimento de padrões para lidar com o tráfico de crianças, como o desenvolvi-
mento e o treinamento de pessoal responsável em técnicas de entrevista para elas.
Ainda sobre a proteção de vı́timas de tráfico humano, lembra-se da resolução 71/167
da Assembleia Geral das Nações Unidas, aprovada em dezembro de 2016, que trata do
tráfico de meninas e mulheres, foco principal desse comitê. Em seus 50 artigos, lembra
documentos anteriores importantes que já haviam tratado do assunto. Além disso, clama
para que os governos, principalmente os signatários do Protocolo e da Convenção sobre
a Eliminação de Todas as Forma de Discriminação contra a Mulher (1979), a adotarem
medidas preventivas contra o tráfico dessas pessoas. Também é importante frisar que
essa resolução aborda a questão desse crime em zonas de conflito, nas quais mulheres e
crianças tornam-se mais vulneráveis a pessoas mal-intencionadas. Seguem abaixo dois
artigos importantes desta resolução:

[...] 16. Pede aos governos que tomem medidas preventivas apropriadas
para enfrentar as causas subjacentes, bem como os fatores de risco que aumen-
tam a vulnerabilidade ao tráfico humano, incluindo pobreza e desigualdade de
gênero, particularmente discriminação e violência baseadas em gênero, e a de-
manda persistente que fomenta todas as formas de tráfico e os bens e serviços
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 31

produzidos como resultado do tráfico de pessoas, bem como outros fatores que
encorajam o problema especı́fico do tráfico de mulheres e meninas para ex-
ploração, inclusive na prostituição e outras formas de sexo comercializado,
casamento forçado, trabalho forçado e remoção de órgãos, a fim de prevenir e
eliminar tal tráfico, incluindo o fortalecimento da legislação existente, visando
melhor proteger os direitos das mulheres e garotas e punir os responsáveis,
incluindo funcionários públicos envolvidos ou facilitando o tráfico de pessoas,
através de medidas criminais e civis; 17. Apela aos governos, à comunidade
internacional e a todas as outras organizações e entidades que lidam com si-
tuações de conflito, pós-conflito, desastres e outras emergências para abordar
a elevada vulnerabilidade de mulheres e meninas ao tráfico e à exploração e à
violência associada ao gênero; incluir a prevenção do tráfico de mulheres e me-
ninas afetadas em todas as iniciativas nacionais, regionais e internacionais;
[...] Fonte: Organização das Nações Unidas

A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Forma de Discriminação contra a Mulher


, assinada pelas Nações Unidas em 1979, por mais que não seja o foco principal da presente
reunião da UNODC, sugere medidas para a proteção e inserção da mulher na sociedade.
Como é sabido, em muitos paı́ses, os direitos do sexo feminino são limitados, o que,
muitas vezes, leva à falta preocupação com aquelas que são vı́timas do tráfico humano.
Assim, a Convenção, assegurando que todas devem ser tratadas legal e socialmente com
condições iguais a de seu sexo oposto, abre caminho para os signatários. Nesse documento,
é importante notar a Parte I, Artigo 3, que afirma:

Os Estados-partes tomarão, em todas as esferas e, em particular, nas esfe-


ras polı́tica, social, econômica e cultural, todas as medidas apropriadas, inclu-
sive de caráter legislativo, para assegurar o pleno desenvolvimento e progresso
da mulher, com o objetivo de garantir-lhe o exercı́cio e o gozo dos direitos
humanos e liberdades fundamentais em igualdade de condições com o homem.

A discussão sobre os direitos e deveres das mulheres leva à questão dos casamentos
forçados e sua proibição e regulamentação pelas Nações Unidas. Segundo a Declaração
Universal de Direitos Humanos, nenhum casamento pode ser realizado sem o consenso das
duas partes. Porém, mesmo com essa proibição, foi necessário que mais uma convenção
fosse criada acerca do assunto. A Convenção sobre Consentimento para Casamento, Idade
Mı́nima para Casamento e Registro de Casamento (1965) , a qual reafirma a natureza
consensual dos casamentos e exige que as partes estabeleçam uma idade mı́nima de casa-
mento e assegurem o registro dos casamentos, foi assinada por 16 paı́ses e tem 55 partes.
Entre os princı́pios de tal documento a reafirmação de que um casamento só pode legal
se houver consentimento de ambas as partes — que deve ser feito na presença de uma au-
toridade — e a proibição de casamento de pessoas menores de 15 anos — exceto quando
CAPÍTULO 6. MEDIDAS EM VIGOR 32

uma autoridade competente tenha concedido uma dispensa quanto à idade, por razões
graves, no interesse dos futuros cônjuges.
Dada a crescente preocupação com o bem-estar e com a criação de crianças no mundo
moderno, inúmeros documentos reforçam seus direitos de proteção e medidas legais para
que estes sejam garantidos. Quando se trata de casamento forçados, além da Convenção
sobre Consentimento para Casamento, Idade Mı́nima para Casamento e Registro de Casa-
mento, a Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravo
e Instituições e Práticas Similares à Escravatura obriga os Estados a tomarem todas as
medidas legislativas e outras necessárias para levar à abolição ou abandono de várias insti-
tuições e práticas que equivalem a casamento forçado, como prometer ou dar uma mulher
em casamento, ao qual ela não tem o direito de recusar, seguindo pagamento a seus pais,
responsáveis, familiares ou outra pessoa ou grupo. Todas as convenções e documentos
acerca do assunto estão compilados no relatório A/HRC/26/22 da Assembleia Geral das
Nações Unidas.
Apesar do progresso percebido nos últimos anos, ainda persistem desafios significa-
tivos na adoção e implementação de leis, polı́ticas e estratégias para abordar os fatores
sistêmicos e subjacentes que permitem a persistência casamento de crianças. Atualmente,
a legislação em 147 paı́ses contém exceções que permitem o casamento de crianças meno-
res de 18 anos e, mesmo quando a legislação está alinhada aos padrões internacionais, a
proibição de casamento forçado e infantil é difı́cil de implementar devido a vários desafios,
incluindo atitudes culturais que apoiam a prática.
Capı́tulo 7

BLOCK POSITIONS

7.1 Alemanha
Ainda que possua leis rı́gidas contra qualquer tipo de tráfico humano, esta atividade
tem intensa ocorrência na Alemanha, sendo as vı́timas – sobretudo mulheres e meninas
– oriundas principalmente do Leste Europeu. Um dos fatores que agrava esse fato é a
legalidade da prostituição no paı́s, tornando os fluxos de tráfico e trabalho sexual forçado
uns dos mais intensos da União Europeia.
Segundo a constituição alemã, as vı́timas devem receber apoio judiciário, incluindo
indenização e reivindicação de direitos, porém apenas caso seu traficante seja julgado e
condenado, o que em geral não acontece por falta de provas. Comumente também, os
sofredores de abuso, por medo de uma consequente extradição, não recorrem aos seus
direitos, visto que esses são válidos no paı́s apenas durante o perı́odo de julgamento.

7.2 Arábia Saudita


Considerado um dos paı́ses mais perigosos para mulheres, o Reino da Arábia Saudita
é destino para homens e mulheres para trabalho forçado e, em menor grau, para a prosti-
tuição forçada. A Constituição desse paı́s é baseada nos princı́pios e leis do Corão, livro
sagrado islâmico, que, apesar de não proibir especificamente o tráfico humano, proı́be
muitos elementos e atos que constituem esse crime e também garante aos migrantes o
mesmo tratamento que os locais. Contudo, esses princı́pios tradicionais não são seguidos
na prática, levando o tráfico, muito frequente em território saudita, a ser negligenciado
por muito tempo. Já em tempos contemporâneos, em 2009, foi aprovado um decreto
intitulado “Supressão do Ato de Tráfico de Pessoas”, que contém dezesseis artigos que
definem o tráfico e criminalizam determinados atos e fatores agravantes que constituem o
Tráfico de Pessoas. O artigo quinze desse mesmo documento fornece uma lista limitada
de proteções a serem disponibilizadas às vı́timas do tráfico. No entanto, mesmo com os

33
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 34

esforços do governo — que se diz comprometido com o fim do tráfico — a situação dos
direitos humanos em relação ao tráfico ainda não atinge os parâmetros mı́nimos esta-
belecidos internacionalmente (ZIMMERMAN, 2016). Apesar disso, a Arábia Saudita é
pioneira na ratificação dos protocolos de combate ao tráfico, mostrando o interesse do
paı́s em trabalhar cooperativamente contra esse crime (ESTIMO JR, 2017).

7.3 Bangladesh
Em 2013, mediante o Ato de Emprego Ultramar e Migração (OEMA, em inglês), a
República Popular do Bangladesh condenou a prática e as taxas de recrutamento ilegal
por agências de emprego. Entretanto, as taxas pagas pelos migrantes às agências es-
tatais apresentam juros suficientes para endividar os futuros empregados, expondo-os à
vulnerabilidade do tráfico humano acometido pelo setor privado.
Apesar do Estado comprometer-se em incrementar suas ferramentas de combate ao
tráfico, mesmo não sendo signatário do Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o
Tráfico de Pessoas, dados oficiais demonstram padrões aquém dos parâmetros exigidos
pela comunidade internacional: em 2017, apenas 1 traficante foi condenado pela Corte de
Justiça e 1 vı́tima de tráfico encaminhada a centro de reabilitação (US DEPARTMENT
OF STATE, 2018).
Os mecanismos de proteção à vı́tima são fornecidos pela polı́cia bangladeshi e apresentam-
se falhos, posto que não atendem aos requisitos especı́ficos para o perfil do injuriado, nem
a vı́timas adultas do sexo masculino. Desse modo, ONGs providenciam assistência, porém
não abrigo, também aos homens lesados.

7.4 Bulgária
A situação da Bulgária é bastante delicada. Apesar de apresentarem um programa
de combate ao tráfico de pessoas que foi promulgado em 2004, em que oferece proteção a
todas as vı́timas dessa prática, o paı́s não tem apresentado redução nos números de pessoas
traficadas para dentro de para fora do paı́s. O governo se mostra bastante aberto para
discussões a aplicar medidas para modificar esse cenário, porém não apresenta informações
concretas desde 2011 quanto as vı́timas que ingressaram ou saı́ram do paı́s. As últimas
informações fornecidas apontam que 154 vı́timas foram identificadas, sendo que 124 eram
para trabalho sexual.

7.5 Camarões
A República dos Camarões demonstra acentuação dos esforços ao combate do tráfico
em seu território, com: o aumento do quantitativo de investigações, acusações e con-
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 35

denações de suspeitos traficantes; o treinamento do oficialato jurı́dico e da sociedade civil


- representada por ONGs - com a revisão do código penal; a melhora de serviços direciona-
dos a potenciais vı́timas de tráfico tanto de Camarões quanto de outros paı́ses africanos;
e a otimização de procedimentos de segurança em aeroportos.
Apesar das medidas terem sido adotadas, não apresentam os padrões mı́nimos inter-
nacionais. Prova disso são a inexistência de uma polı́tica de incentivo à participação de
vı́timas nos processos jurı́dicos e o relapso governamental em não elaborar estatı́sticas
acerca do número de vı́timas identificadas, contactadas e assistidas (US DEPARTMENT
OF STATE, 2018).
Em 2017, a embaixada de Camarões na Arábia Saudita coordenou, em conjunto com
a embaixada de Gana no Kuwait, a recuperação e a devolução de documentos de cama-
roneses vı́timas de tráfico em território kuweitiano, ocorridas em março de 2018

7.6 Cambodia
O Cambodia é um paı́s que não só é fonte como também destinação de vı́timas de
tráfico. Uma grande quantidade de cambodianos são encontrados em áreas mais abasta-
das, em busca de trabalho fora de seu Paı́s.
O Paı́s é reconhecido como uma destinação de turismo sexual, prostı́bulos amplamente
disfarçado como casas de massagem, bares,etc.
Tráfico de crianças para fins de exploração sexual, incluindo venda de virgindade,
ocorre frequentemente. Prostituição infantil é procurada tanto por homens cambodianos
como por estrangeiros que viajam ao Paı́s para esse fim.
Casamentos forçados também são um problema que o Paı́s enfrenta.
O governo do Paı́s ainda não cumpre com todos os mı́nimos requerimentos para a
eliminação do tráfico, mas se observa uma tentativa de melhora, com a adoção de um
novo plano nacional de combate ao tráfico. No entanto há várias falhas em relação a falta
procedimentos realmente implementados, de julgamento, de condenações e se apresenta a
necessidade de maior fiscalização de funcionários do governo complı́citos com tais ativida-
des. É necessária uma presença muito maior do Governo para que se tenho uma chance
real de combater com sucesso o tráfico de mulheres.

7.7 Cazaquistão
O Cazaquistão é um paı́s de origem, trânsito e destino para mulheres e meninas tra-
ficadas. O paı́s recebe meninas e mulheres principalmente do Uzbequistão, Quirguistão,
Tadjiquistão e Ucrânia Rússia para fins de trabalho forçado e exploração sexual. Já as
mulheres do Cazaquistão são traficadas internamente e para os Emirados Árabes Unidos,
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 36

Azerbaijão, Turquia, Israel, Grécia e Rússia. Dada as condições crescentes de tráfico hu-
mano no paı́s e principalmente de mulheres para a exploração sexual, o governo em 2008
ratificou as seguintes convenções: a Convenção das Nações Unidas para a Supressão do
Tráfico de Pessoas e a Exploração da Prostituição de Outros, a Convenção de 1926 para
a Repressão ao Tráfico de Escravos e Escravidão. Além disso, com base na recomendação
da Comissão de Direitos Humanos, em 2008 os seguintes documentos também foram rati-
ficados: o Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, especialmente
Mulheres e Crianças, complementando a Convenção das Nações Unidas contra o Crime
Organizado Transnacional; Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas
contra os Desaparecimentos Forçados.
Apesar do Cazaquistão proibir o tráfico de pessoas para exploração tanto laboral como
sexual no seu Código Penal, o paı́s prescreve penas de até 15 anos de prisão aos conde-
nados por tráfico humano. A polı́cia realizou 22 investigações sobre tráfico e iniciou 16
processos em 2007, comparados com 13 investigações e sete processos em 2006. Tribunais
condenaram 19 traficantes em 2007, uma melhora significativa em relação a uma con-
denação em 2006. Dos 19 condenados por crimes de tráfico, um foi condenado para 12
anos de prisão, quatro foram condenados a dez anos de prisão, cinco foram condenados
a sete anos de prisão, quatro foram condenados a seis anos de prisão, dois foram con-
denados a cinco anos de prisão e três foram condenados a três anos de prisão. prisão.
Durante o ano houve relatos de cumplicidade de tráfico de alguns guardas de fronteira,
polı́cia migratória, promotores e policiais. O governo não dedica esforços para mudar essa
realidade enraizada, em 2007 apesar de financiar a produção de 3 mil folhetos que foram
distribuı́dos por ONGs entre grupos vulneráveis ao tráfico, incluindo pessoas em áreas
rurais e crianças em idade escolar, não implementa medidas para reduzir a demanda por
atos sexuais comerciais.

7.8 Colômbia
Tendo uma taxa cada vez maior de tráfico humano, a Colômbia apresenta forte fluxo
de chegada, transição e partida de vı́timas desse crime. Apesar de grupos armados serem
identificados como os principais promotores desse abuso, no paı́s, os conflitos internos não
possuem correlação tão direta com o contrabando de pessoas, mas sim a concentração de
facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas em algumas regiões.
Sendo submetidas à exploração sexual, trabalho forçado e casamento servil, as vı́timas
são em principal mulheres e crianças – meninos e meninas – que chegam de paı́ses vizinhos
– sobretudo do Equador e Venezuela – ou são levados para o exterior – maiormente para
Chile e China. Apenas em 2005 a Colômbia adotou medidas próprias sobre o tráfico
humano geral, com a criação da Lei 985, que criminaliza a atividade com pena de 13 a
23 anos e garante apoio às vı́timas de qualquer tipo de exploração. Antes disso, o paı́s só
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 37

tratava da questão no campo do comércio sexual forçado.

7.9 Equador
Dentre os paı́ses da América Latina, o Equador é um dos que possui maior fluxo de
tráfico de pessoas – em especial crianças do sexo feminino, com a finalidade principal
de exploração sexual e trabalho forçado. O governo equatoriano tem tomado medidas
com a finalidade de diminuir tal crime, como a operação de resgate, ocorrida em 2015,
onde redes de tráfico para o Brasil e os Estados Unidos foram desmontadas, assim como
uma organização mundial de tráfico de mulheres, que foi igualmente desmontada com o
apoio colombiano e peruano. Apesar de tais ações, o crime de tráfico de pessoas, pela lei
equatoriana, recebe pena de apenas 4 à 6 anos de prisão e a existe uma grande deficiência
por parte do sistema judiciário, que julga apenas uma pequena parcela dos acusados.
Oriundas principalmente de paı́ses em desenvolvimento, as vı́timas – em geral mulheres
e crianças – são levadas aos Estados Unidos da América com a promessa de uma vida
melhor, porém quando chegam ao destino, são comercializadas e submetidas a trabalhos
forçados e exploração sexual.

7.10 Estados Unidos


O maior foco de tráfico humano nos Estados Unidos é o estado do Texas, devido
a sua fronteira com o México, onde a migração para dentro do paı́s é muito intensa e é
facilmente mesclada com o contrabando de pessoas. Para evitar o crescente fluxo do crime
nas fronteiras, foi criada a Central Texas Coalition Against Human Trafficking, que tem
como objetivo alertar a população sobre o assunto e auxiliar na identificação de possı́veis
vı́timas do abuso. Apesar da intensa ocorrência do crime no território americano, o
paı́s possui severas medidas contra o tráfico humano, tanto interna quanto externamente,
incluindo assistência às vı́timas e sanções econômicas em desfavor a paı́ses que não tomam
as devidas atitudes sobre esta questão.

7.11 França
A França se identifica primariamente como um destino para tráfico de mulheres, em
2016 sendo identificadas vı́timas da China, Nigéria, Romênia entre outras. Aproximada-
mente 90% das mulheres que trabalham como prostitutas são vı́timas de tráfico.
O governo francês tem tido bons esforços prolongados no combate do tráfico humano,
mais recentemente estabelecendo centros especializados para crianças vı́timas de tráfico e
confiscando os bens de traficantes com mais consistência. Agentes da lei frequentemente
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 38

triam indivı́duos que trabalham como prostitutas por sinais de serem traficadas. Também
houve um aumento de ações para a proteção de vı́timas. No entanto se percebe falta de
treinamento de alguns de seus oficiais diplomatas no reconhecimento de vı́timas.
Por mais que necessite de uma implementação mais consistente o Paı́s tem mecanismos
de proteção a vı́timas, provendo moradia e uma quantia mensal após seu resgate. A França
se comprometeu em 2016 a também prover educação, reabilitação e integração para as
crianças vı́timas de tráfico.
Aprovada em abril de 2016 a “Lei para fortalecer o combate a prostituição” trouxe
medidas efetivas na prevenção do tráfico e proteção das vı́timas a curto e longo prazo,
assim como no respeito de seus direito e liberdade de escolha. E deve ser considerada
como um exemplo de legislação compreensiva no que diz respeito ao tráfico de mulheres.

7.12 Filipinas
Filipinas: O tráfico de filipinos para outros paı́ses – como Malásia, Cingapura, Hong
Kong, República da Coréia, China, Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Ca-
tar, Kuwait e Sı́ria – é muito recorrente, sobretudo com as crianças sendo vı́timas. Os
tráficos internos também ocorrem em grande escala, com o objetivo de trabalho com-
pulsório e exploração sexual, sendo, neste último caso, a maioria das vı́timas meninas
adolescentes, que são postas a trabalhar involuntariamente em estabelecimentos muitas
vezes conhecidos e visı́veis, atendendo a demanda de comércio sexual por parte de filipinos
nativos e turistas. As crianças filipinas também estão sendo cada vez mais submetidas
à exploração sexual virtual, por meio de transmissões. O governo filipino não cumpre
plenamente as condições mı́nimas para o combate ao tráfico, porém tem feito esforços
significativos. Deficiências no sistema jurı́dico – falta de promotores – acabam atrasando
o processo e poucos casos acabam sendo julgados.

7.13 Guatemala
Com crescente fluxo de tráfico humano em áreas mais isoladas do paı́s, a Guatemala
possui um dos maiores ı́ndices do crime da América Central, sendo as vı́timas principais
mulheres e crianças, submetidas a trabalho forçado e comércio sexual.
Ainda que existam leis recentes que garantem a penalização dos criminosos e assistência
às vı́timas não só de tráfico, como de abuso e exploração sexual, as medidas jurı́dicas são
pouco eficientes. O alcance do Estado é insuficiente, visto que as áreas com mais ocorrência
do crime sejam as áreas com menor controle governamental.
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 39

7.14 Holanda
A Holanda é um dos poucos paı́ses do mundo onde a prostituição é legalizada e corpo-
rativizada, fenômeno simbolizado pelo “Red light district”. Como resultado é uma famosa
destinação para turismo sexual, atraindo milhões todo ano. Consequentemente tem altas
taxas de tráfico de mulheres doméstico e internacional, se caracterizando primariamente
como paı́s destinatário.
Nos últimos anos foram detectados não só um alto número de vı́timas de origem inter-
nacional, principalmente de paı́ses próximos como Búlgaria, Polônia, Romênia e Hungaria,
mas também um aumento no número de vı́timas de tráfico doméstico.
Se percebe um número considerável de vı́timas de exploração sexual menores de idade,
por mais que essa prática seja proibida por lei no Paı́s.
O Governo tem mostrado iniciativa no combate ao tráfico de pessoas, com programas
como a “Força Tarefa para Tráfico de Pessoas” e assistência provida por autoridades locais
para vı́timas (abrigo, cuidados, etc). No entanto, não há presença suficiente de medidas
que terão resultados concretos no combate ao tráfico e exploração e proteção dos direitos
das vı́timas.

7.15 Índia
A Índia se caracteriza como fonte, destinação e trânsito de vı́timas de tráfico. Em
2016 cerca de 20,000 mulheres e crianças foram vı́timas de tráfico, um aumento de 25%
em relação ao ano posterior, segundo O Ministério da Mulher e Desenvolvimento Infantil
indiano. Aproximadamente 7.000 mulheres que trabalham em prostı́bulos se deslocam
anualmente do Nepal, assim como uma grande quantidade de crianças originárias de Ban-
gladesh que também entram no Paı́s. Crianças de baixa renda da Índia rural se encontram
em uma situação de particular vulnerabilidade, sendo vendidas por suas famı́lias ou rap-
tadas por traficantes.
Organizações de iniciativa da população em combate ao tráfico e apoio às vı́timas
como a Odanadi vem surgindo no paı́s. Iniciativas como a Free Girl Campaign e comitês
de vigilância ,estratégia largamente adotada pelo governo indiano, tem tido um impacto
significativo nas comunidades. Em colaboração com a polı́cia essas organizações também
são importante agentes em missões de resgate e na condenação de traficantes.
O tráfico para o fim de casamentos forçados e casamentos infantis é uma prática
que vem aumentando. Tem como uma de suas motivações o desequilı́brio do número de
mulheres e homens no Paı́s, resultado em grande parte do feticı́dio feminino, aliado com o
fato de que homens que não casam perdem o respeito de sua comunidade. Uma pesquisa
da UNODC demonstrou que entre 10,000 casas em vilas em Haryana, 9,000 mulheres
casadas tinham sido compradas de vilas pobres em outros estados. Casamentos onde são
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 40

frequentemente abusadas, usadas como escravas domésticas e estupradas.


Nos últimos anos o Governo indiano tem feito esforços na melhora de suas iniciativas
contra o tráfico, na conscientização da população, aumentando o orçamento de progra-
mas de abrigo para mulheres e crianças e já dando atenção ao crescimento do tráfico na
fronteira com o Nepal como resultado do terremoto. No entanto ainda deixa a desejar em
vários aspectos, como na prevenção do tráfico, e sua atuação permanece inconsistente.

7.16 Kuwait
O Estado do Kuwait, apesar de ser um dos paı́ses mais abertos do Oriente Médio
quanto à questão da liberdade das mulheres e que mais se atentam aos direitos humanos,
ainda enfrenta diversos problemas com o tráfico humano. Um dos fatores agravantes da
situação é a lei do patrocı́nio, que vincula a residência legal e o status de imigrante válido
de um imigrante a seu empregador, tornando trabalhadores domésticos vulneráveis ao
trabalho forçado.Por mais que, mesmo com diversos apelos internacionais, o governo não
ter revogado essa lei, ele tem tomado medidas para prevenir o tráfico em seu território. A
legislação anti tráfico, promulgada em 2013, proı́be todos os tipos de tráfico. Em fevereiro
de 2018, o Conselho de Ministros aprovou oficialmente e fundou a estratégia para combater
o tráfico. Embora tenha feito muito progresso, Governo do Kuwait ainda deve implantar
medidas que visem à melhor prevenção do tráfico e à proteção das vı́timas, trabalhando
cooperativamente com outros Estados e com organizações internacionais.

7.17 Malásia
No ano de 2007, o Parlamento da Federação da Malásia promulgou o Ato Antitráfico
e Anticontrabando de Migrantes, explicitando medidas de combate aos respectivos crimes
(MALAYSIA PARLIAMENT, 2015). O governo, desde então, tem apresentado expres-
sivos investimentos na condenação de traficantes, incluindo o apoio financeiro a abrigos
coordenados por ONGs e o aumento de retenção de passaporte desautorizados. Dentre
os resultados, é válido ressaltar a inauguração, em março de 2018, da Corte Antitráfico
no estado de Selangor, o qual apresenta o maior ı́ndice de casos de tráfico. Ademais, o
Ministério da Mulher, da Famı́lia e do Desenvolvimento Comunitário mantém sete espaços
para vı́timas de tráfico interno, sendo quatro deles destinados ao público feminino, e geren-
cia recursos reservados à operação de abrigos nos estados de Kedah, Kelantan e Sarawak,
totalizando, até então, 1,4 milhões de dólares no ano de 2018 (US DEPARTMENT OF
STATE, 2018).
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 41

7.18 Myanmar
A Lei de Combate ao Tráfico de Pessoas da República da União de Myanmar, pro-
mulgada em 2005, condena todas as formas de trabalho compulsório e parte dos ramos
de exploração sexual. Entretanto, em descompasso com a Lei Internacional, o Judiciário
da Birmânia requisita a demonstração de força, fraude ou coerção para a constituição de
abuso ao menor de idade, além de não criminalizar o tráfico sexual de crianças. Como
agravante do cenário, as Forças Armadas de Myanmar, Tatmadaw, em operação no es-
tado de Rakhine, têm deslocado milhares de centenas de rohingyas e membros de outros
grupos étnicos, sendo acusadas de subjugarem os migrantes a exploração não apenas em
território nacional, como também em paı́ses próximos, a exemplo de Bangladesh. ONGs
alegam que existem casos de oficiais envolvidos em redes de tráfico de mulheres e garotas
sob propósito de exploração sexual, visando lucros pessoais. Apesar das alegações, as au-
toridades da Birmânia não realizaram quaisquer processos de investigação e julgamento
dos militares acusados (US DEPARTMENT OF STATE, 2018).

7.19 Nigéria
A República Federal da Nigéria é um paı́s fonte, trânsito e destino para o tráfico hu-
mano. Esse crime, em território nigeriano, gera mais de 10 bilhões de dólares anualmente.
A extrema pobreza, a corrupção, os conflitos — especialmente contra o Boko Haram —
e a consequente migração são alguns dos fatores que tornam a situação crı́tica no paı́s.
Apesar disso, a Nigéria é o único paı́s da África a adotar uma lei nacional contra o tráfico,
adereçando o tema de uma maneira ampla. Já o tráfico de mulheres, especialmente, foi
criminalizado no código criminal em 1904 e em 1960 pelo código penal. Ainda assim, anu-
almente, milhares de meninas nigerianas são levadas à Europa e à Ásia, onde trabalham
em bordéis e clubes de strip, ou mandadas para se prostituir nas ruas. Internamente,
jovens são recrutados de famı́lias pobres em áreas rurais com a promessa de trabalho e
educação na cidade e, então, são vendidos à servidão doméstica (UNESCO, 2006). Assim,
vê-se claramente que a Nigéria ainda tem muitos problemas a superar, sendo crucial para
o paı́s as medidas e os acordos internacionais para a prevenção e supressão do tráfico
humano.

7.20 Paraguai
No Paraguai o tráfico de mulheres representa o terceiro negócio ilegal mais lucrativo,
depois das drogas e armas, movimentando mais de 30 milhões de dólares por ano. O
Informe Global 2014, mostrou que as mulheres representam 70% das vı́timas de trafico
humano. A ministra da Mulher do Paraguai, Ana Marı́a Baiardi, na declaração feita
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 42

durante a apresentação de um acordo de colaboração entre a União Européia e a produtora


paraguaia Púa Tarará, para a divulgação do documentário espanhol “Chicas Nuevas 24
Horas”, que aborda a exploração de mulheres.em 2014, informou que o paı́s é um centro de
tráfico de mulheres na região, mas ressaltou que hoje nenhum paı́s está livre do problema.
Para a ministra, no Paraguai é comum o explorador ser uma pessoa conhecida da mulher.
Dentro das vı́timas paraguaias de tráfico sexual muitas vı́timas são encontradas em boates
na Argentina, Brasil e Espanha, mas a principal rota de vı́timas paraguaias são as rotas
Paraguai- Argentina e Paraguai-Brasil (DEPARTAMENTO DE ESTADO, 2015, p. 276
- 277).
As organizações criminosas utilizam muitas técnicas de captação. Uma das mais usa-
das é a técnica do engano, já a técnica do sequestro é utilizada em menores proporções,
uma vez que poderia chamar mais a atenção das autoridades. O governo paraguaio criou
instâncias para velar e garantir os direitos das crianças e das mulheres vı́timas do tráfico
internacional de pessoas, tais como a Secretaria da Mulher da Presidência da República do
Paraguai (SMPR), criada em 1993, com o objetivo de criar polı́ticas de gênero. A SMPR
conta com autonomia para gerir os planos de ação para a promoção de oportunidades e
equidade de gênero. Além da secretaria, o governo conta com uma Mesa Interinstituci-
onal de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, responsável pela articulação
de polı́ticas nacionais de prevenção e enfrentamento do delito em âmbito interno e in-
ternacional. A mesa está sob a coordenação do Ministério de Relações Exteriores e está
integrada por instituições não governamentais. Em 2012, o governo paraguaio aprovou
a Polı́tica Nacional de Prevenção e Combate ao Tráfico de Pessoas 2010-2019, que tem
como objetivos principais a proteção e atenção integral às vı́timas, cooperação local, na-
cional e internacional, investigação, julgamento e sanções penais. No texto do informe
institucional da Polı́tica Nacional, divulgado pelo governo paraguaio, há uma ênfase na
responsabilidade estatal no âmbito de direitos humanos, e esta como eficaz instrumento
na prevenção e combate ao tráfico de pessoas. Em 2012, o governo aprovou a Lei no
4788/12 contra o Tráfico de Pessoas, com o objetivo de prevenir e penalizar o tráfico de
pessoas em qualquer de suas manifestações, seja em território nacional ou internacional.
(PARAGUAI, 2014).
As ações que são passı́veis de penalizações se referem diretamente à mobilização das
pessoas, e também são incluı́dos outros tipos de exploração, não apenas a exploração
sexual. O fenômeno do tráfico de mulheres para fins de exploração sexual foi reconhecido
e visualizado na região recentemente. Mas são muitos e profundos os desafios e debilidades
para poder combater essa violação de direitos humanos com eficiência e eficácia a partir
de um enfoque adequado (MERCOSUL, 2011 p. 75).
Segundo o Diagnóstico Regional: o tráfico de mulheres com fins de exploração sexual no
MERCOSUL, ainda não foi possı́vel estabelecer a magnitude do problema a nı́vel regional,
principalmente pelas falta de dados suficientes para fornecer um panorama completo.
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 43

7.21 República Tcheca


A República Tcheca considera fortemente a implementação de polı́ticas governamen-
tais que impeçam o tráfico de pessoas e ajudem no reconhecimento das vı́timas desse
crime. O Ministro da Justiça propôs uma agenda de discussão para que tal prática seja
discutida e que seus praticantes sejam punidos. Para incentivar o público, o governo e
diversas Organizações Não Governamentais lançaram campanhas para conscientizar a po-
pulação na denúncia de crimes desse escopo. Além disso, o Governo da República Tcheca
mobilizou as embaixadas para receberem vı́timas tchecas ao redor do mundo assim que
forem identificadas, para facilitar o retorno dessas pessoas às suas casas. Em 2008, um
software governamental foi lançado para ajudar no reconhecimento das vı́timas, além de
registrar todas as pessoas identificadas e que estão envolvidas nessa prática, tanto como
vı́timas quanto como traficantes.
O paı́s tem um programa de proteção a pessoas traficadas, sendo que em 2010 sete
vı́timas pediram ajuda desse órgão, sendo que 3 delas haviam sido levadas para trabalho
sexual. Para garantir que esse crime seja uma das prioridades de investigação da justiça da
República Tcheca, foi criado em 2012 um programa nacional para combate ao tráfico de
pessoas. O objetivo do programa é garantir que todas as vı́timas sejam identificadas, tanto
as que foram levadas do paı́s, quanto as que ingressaram nele. Além disso, a República
Tcheca reforçou a segurança em suas fronteiras para diminuir a intensidade do fluxo de
pessoas traficadas por esse meio.

7.22 República Democrática do Congo


A República Democrática do Congo (RDC) é um paı́s de origem e destino para ho-
mens, mulheres e crianças submetidas ao tráfico de pessoas, especificamente condições de
trabalho forçado e prostituição forçada. A maior parte desse tráfico é interna, e grande
parte é perpetrada por grupos armados nas provı́ncias do leste do paı́s de forma violenta
e seguido de estupros. As meninas congolesas são forçadas à prostituição em bordéis
ou até mesmo acampamentos informais dentro do paı́s, principalmente em regiões com
concentração de mineradores. A exploração sexual de mulheres traficadas nas áreas de mi-
neração atualmente é considerada, juntamente com o recrutamento de crianças-soldados,
a questão mais alarmante no paı́s. As mulheres e meninas também são exploradas in-
ternamente pelos grupos em condições de servidão doméstica involuntária. A pequena
parcela que é vendida para o exterior fica dentro das fronteiras do continente africano,
principalmente para paı́ses como Angola, África do Sul e República do Congo. O Governo
da República Democrática do Congo não cumpre integralmente os padrões mı́nimos para
a eliminação do tráfico e não está fazendo esforços significativos para fazê-lo. O governo
não mostrou evidências de progresso em processar e punir infratores do trabalho ou do
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 44

tráfico sexual, incluindo membros de suas próprias forças armadas que promovem alguma
das infrações.
Apesar da falta de esforços significativos, o governo tomou algumas medidas para lidar
com o tráfico sexual de mulheres, o governo investigou, processou e condenou suspeitos de
tráfico, incluindo vários funcionários, de crianças-soldado e violência sexual, que pode ter
incluı́do tráfico sexual; no entanto, não fez esforços vigorosos de aplicação da lei visando
diretamente delitos de tráfico de pessoas ou de trabalho. A falta de uma estrutura anti-
tráfico, capacidade, financiamento e corrupção generalizada continuaram a dificultar os
esforços para combater todas as formas de tráfico humano em todo o paı́s. as autoridades
continuaram a prender e deter algumas vı́timas, incluindo crianças-soldados.

7.23 República Dominicana


A República Dominicana se mantém como o paı́s da América Central e do Caribe
com maior quantidade de pessoas vı́timas de tráfico. A Organização internacional para as
migrações (OIM) indica que a República Dominicana está entre os 10 primeiros paı́ses com
maior número de mulheres no exterior, sendo o 4o paı́s com maior quantidade de mulheres
trabalhando no mercado sexual internacional, apenas depois da Tailândia, Filipinas e
Brasil. Cerca de 200.000 mulheres dominicanas moram no exterior.
O relatório do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito indica que
as vı́timas dominicanas desse flagelo foram repatriadas de pelo menos 18 paı́ses, princi-
palmente da Europa e da América. De 2007 a 2010, as dominicanas representaram um
e três por cento, respectivamente, das mulheres afetadas por esse problema nos conti-
nentes mencionados. Além do número de viajantes detidos nas fronteiras terrestres, há
também os números da Marinha de guerra da República Dominicana, de viagens frus-
tradas, e a crônica constante sobre viajantes naufragados e desaparecidos, especialmente
nas viagens em pequenas embarcações para Porto Rico. Na mesma proporção, cresce
o tráfico de mulheres para o mercado de sexo transnacional, tanto nas ilhas do Caribe
quanto na Europa. A maioria destas mulheres sai do paı́s com a promessa de trabalhos
lucrativos, desconhecendo as condições de exploração e coerção às quais serão submetidas
no exterior, por parte dos traficantes (ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL PARALAS
MIGRACIONES, 2001, 2002).
O atendimento a mulheres vı́timas do tráfico conta com respaldo legal na República
Dominicana desde 2003 por meio do Ministério da Mulher e do Centro de Orientação
e Investigação Integral. Profissionais dessa última instituição desempenham um papel
fundamental para ajudar as afetadas a regressar a seu paı́s ou locais de procedência. O
Estado dominicano promoveu e promulgou leis a esse respeito e ratificou a Convenção das
Nações Unidas contra a Delinquência Transnacional Organizadas e os dois protocolos que
a complementam. Um deles é contra o tráfico ilı́cito de migrantes por terra, mar e ar, e
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 45

o outro está dirigido a prevenir, reprimir e sancionar o tráfico de pessoas, especialmente


de mulheres e crianças. Por sua parte, a Polı́cia Nacional, a Procuradoria Geral, os
Ministérios de Relações Exteriores, Trabalho e Educação, a Direção de Migração e outras
entidades também executam ações contra o tráfico. O paı́s está conseguindo processar
vários traficantes, através do departamento do tráfico de pessoas da Procuradoria geral
da República, mesmo não conseguindo desmantelar as redes completas, porque os casos
são tratados de forma particular.

7.24 Romênia
Nos últimos cinco anos, a polı́tica de prevenção ao tráfico de pessoas tem crescido na
Romênia. O paı́s investe em campanhas públicas para conscientizar e incentivar a po-
pulação a denunciar quaisquer atividades que se pareçam com tráfico de pessoas, além de
ajudar no reconhecimento de vı́timas dessa prática e auxiliá-las levando-as às autoridades.
A Romênia também investe em plataformas online de denúncias anônimas, onde a po-
pulação pode auxiliar a polı́cia local a investigar e detectar mulheres que foram traficadas.
Além disso, o governo romeno produz campanhas sobre o risco de sair do paı́s para es-
tudar sem o acompanhamento de empresas confiáveis, informando ao público que muitas
pessoas são vı́timas de tráfico ao confiarem em instituições com propostas deslumbrantes,
mas sem muito reconhecimento do público. Desde dezembro de 2008, a Romênia treina
profissionais para detectarem vı́timas em diversas formas de exploração, principalmente
sexual, fornecendo apoio para elas e fornecendo contato com seus respectivos paı́ses.

7.25 Russia
O tráfico de mulheres começou a chamar a atenção das autoridades russas em meados
dos anos 1990. Com o fim da União Soviética, o paı́s passou por dificuldades econômicas,
como alta inflação e taxa de desemprego, o que levou muitos cidadãos russos a buscarem
por novas fontes de renda ou lugares melhores para viver, abrindo espaço para que o
tráfico humano se tornasse uma nova fonte de renda na região. Querendo ou não, muitas
pessoas passaram a se envolver com essa prática, tanto como ofensores quanto como
vı́timas com o passar dos anos. Na segunda metade da década de 90, o tráfico humano se
difundiu por todo o paı́s. Por conta da fraca manutenção polı́tica do governo, leis que não
criminalizavam de fato o tráfico de pessoa, alta taxa de analfabetos legais e de migração
ilegal, a Rússia se tornou um grande ponto de origem de vı́timas (principalmente para
o Oeste da Europa e Oriente Médio) e um paı́s receptor de vı́timas de outros paı́ses da
antiga União Soviética.
Atualmente, a Federação Russa sofre fortes crı́ticas quanto sua polı́tica para as vı́timas
do tráfico de pessoas: legalmente, não há nenhum recurso ou garantia para as pessoas
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 46

que foram trazidas ilegalmente ao paı́s, tampouco qualquer ajuda é fornecida às vı́timas,
além de que não há programas de prevenção a esse crime. Porém, o governo russo luta
desde 2013 para que esse cenário mude e que as vı́timas recebam o devido acolhimento.
O paı́s é contra a exposição dos dados das pessoas que foram levadas ao paı́s, por isso não
divulga suas pesquisas quanto ao tráfico de mulheres e suas reabilitações desde 2016.

7.26 Sudão
O Sudão é um centro tanto de saı́da quanto de chegada de vı́timas do tráfico, que
são, em grande maioria, mulheres e meninas oriundas da zona rural, que são levadas às
cidades para trabalhar de forma compulsória e serem exploradas sexualmente – seja pelo
abuso sexual por parte dos patrões ou no comércio sexual. As meninas são, muitas vezes,
obrigadas a casar, como forma de compensar assassinatos interétnicos. Os traficantes
recebem ajuda, em grande parte das vezes, de policiais e autoridades sudaneses que atuam
na fronteira. Os mesmos submetem as meninas à servidão doméstica ou à prostituição. O
governo não tem tomado medidas mı́nimas, sejam iniciativas para a proteção, prevenção
ou execução das leis contra o tráfico.

7.27 Tailândia
Estatı́sticas do Ministério de Saúde Pública da Tailândia indicam que atualmente há
mais de 120.000 pessoas trabalhando na indústria do sexo, em sua maioria, mulheres.
Como resultado da extensa rede de turismo sexual no Paı́s não só se percebe um
grande número de tráfico doméstico, mas internacional. Resultado também do crescimento
econômico de regiões como Bangkok, que se tornam pólos de atração.
ONGs como Nightligth International afirmam que o governo frequentemente negligência
a complexidade do problema, não lhe dando a devida atenção. Segundo Angkhana Ne-
elapaichit, uma dos sete Comissários Nacionais de Direitos Humanos nomeados pelo rei
da Tailândia para examinar e denunciar atos que violam os direitos humanos ou ”não
cumprem as obrigações decorrentes dos tratados internacionais dos quais a Tailândia é
parte”, afirma, ”Essencialmente, posso dizer que lidar com o tráfico entre profissionais do
sexo, a longo prazo, ainda é um desafio para a Tailândia e é difı́cil para as autoridades
encontrar os verdadeiros perpetradores”.
O governo vem progredindo no auxı́lio as vı́timas e combate do tráfico, como mostra
o julgamento de 19 julho, condenando 62 pessoas, inclusive pessoas de alto perfil. Além
de vir aumentando o número de campanhas publicitárias contra escravidão e tráfico de
pessoas, especialmente destinada a turistas, ações amplamente motivadas como resposta
a imagem negativa no cenário internacional que o Paı́s tem adquirido nos últimos anos
como resultado do rampante número de casos de tráfico. No entanto o tráfico para fins de
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 47

exploração sexual ainda é negligenciada em relação a outros tipos de tráfico e as vı́timas


ainda não sentem-se seguras o suficiente para testemunhar.

7.28 Turquia
A República da Turquia é um paı́s de destino e de trânsito para mulheres, homens e
crianças submetidos a tráfico sexual e trabalho forçado. Nesse contexto, o governo, apesar
de ainda não alcançar os padrões mı́nimos propostos internacionalmente, está tomando
medidas para atenuar a situação em seu território e também em sua região — tendo
assinado acordos bilaterais com Belarus, Geórgia, Ucrânia, Moldávia e Quirguistão. Para
isso, trabalha cooperativamente com a sociedade civil para proteger e atender às vı́timas
de tráfico humano, por mais que não exista uma regulamentação especı́fica quanto aos
direitos dessas pessoas. Além do mais, mostrando seu interesse em combater esse tipo de
crime, a Turquia é signatária de diversos protocolos e convenções. Na concepção do paı́s,
o tráfico humano não pode ser prevenido ou eliminado pelas ações individuais de paı́ses ou
pelas formas tradicionais de cooperação internacional. Assim, para o governo turco, deve-
se estabelecer de mecanismos efetivos para a rápida implementação dos procedimentos de
extradição e assistência mútua entre os Estados. (ALTUNTAŞ, 2017).

7.29 Uganda
Na República de Uganda, tráfico sexual e trabalho forçado são graves problemas.
Traficantes forçam suas vı́timas a trabalhar em diversas indústrias e a se envolver em
relações sexuais comerciais. Proibindo todas as formas de tráfico humano, foi aprovado,
em 2009, o Ato de Prevenção do Tráfico Humano, que vai de acordo com os princı́pios
básicos estabelecidos pelo Protocolo de Palermo de 2000. Esse ato prevê a proibição do
tráfico de pessoas, a criação de infrações, a perseguição penal e a punição dos infratores,
a prevenção do tráfico de pessoas, a proteção das vı́timas do tráfico de pessoas e outras
questões relacionadas a esse crime. Apesar desses esforços do governo em suprimir o
tráfico em seu território, as leis ainda não atingem o seu total potencial, sendo ações
internacionais cruciais para a melhora da situação em Uganda.

7.30 Uruguai
As principais vı́timas de tráfico sexual dentro do paı́s são mulheres e meninas, e adultos
transgêneros e meninos adolescentes em menor escala. Mulheres uruguaias são forçadas à
prostituição em paı́ses como Espanha, Itália, Brasil e Argentina. Apesar de ainda existir,
o número de uruguaias submetidas ao trabalho compulsório sexual vem diminuindo. No
CAPÍTULO 7. BLOCK POSITIONS 48

entanto, mulheres da República Dominicana e outros paı́ses da América do Sul (Bolı́via,


Brasil e Paraguai) ainda sofrem com o trabalho involuntário, que são forçadas a realizar
no Uruguai. O governo uruguaio vem tomando algumas medidas satisfatórias, como
o aumento do esforço para aplicação da lei antitráfico – apesar de nem todos os tráficos
serem proibidos – que traz uma pena de até 16 anos de prisão para os criminosos. O esforço
para melhoramento de medidas preventivas e de proteção às vı́timas tem sido significativo,
apesar do financiamento para serviços às vı́timas ainda ser considerado insuficiente.

7.31 Vietnã
A República Socialista do Vietnã encontra-se na terceira fase do Plano Nacional de
Ação Antitráfico (2016-2020), que visa incrementar serviços às vı́timas, localizar polos
de trabalho compulsório e revisar a legislação contra tal crime. Em consonância, há o
Programa de Prevenção e Combate à Prostituição (2016-2020), cujo objetivo é reduzir as
demandas comerciais por copulações, mediante campanhas educacionais aos consumidores
desse mercado e ao público infantojuvenil marginalizado (GOV UK, 2017).
Em janeiro de 2018, foram efetivadas as emendas ao código penal que criminalizam
grande parte dos ramos de tráfico para trabalho forçado e exploração sexual. Caso a vı́tima
seja menor de 16 anos de idade, a pena prevista são 12 anos de prisão e multa de 2 a 9
mil dólares - valores convertidos de dong para dólar americano (SOCIALIST REPUBLIC
OF VIETNAM, 2015). Com a adição dos artigos que discriminam as infrações relativas
a comércio ilı́cito, revelaram-se falhas no treinamento de funcionários tanto do Judiciário
quanto das Forças Armadas, dificultando a ação de combate.
No que tange às ações diplomáticas, em 2018, o governo assinou tratados bilaterais
antitráfico com Austrália, Malásia e Reino Unido. No ano anterior, apresentou-se no
Memorando de Cooperação com o governo do Japão, a fim de garantir a proteção dos
vietnamitas que participam do Programa Interno de Treinamento Técnico em território
nipônico (US DEPARTMENT OF STATE, 2018)
Capı́tulo 8

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