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PARA

ENTENDER
2019
Uma síntese do Brasil atual
em colunas selecionadas do Estadão
PARA ENTENDER 2019

O Estado de S. Paulo
Copyright © 2019

Direção de Jornalismo
João Caminoto

Organização
Leonardo Cruz

Capa, Projeto Gráfico e Diagramação


Thiago Jardim

Foto de capa
O presidente Jair Bolsonaro, em sua foto oficial
Presidência da República

Todos os direitos estão reservados a


O Estado de S. Paulo
Índice
Carta aos leitores ----------------------------------------------------------- 4
Quem sabe faz a hora
William Waack -------------------------------------------------------------- 6
Ausência
Ana Carla Abrão------------------------------------------------------------- 9
“Os militares se prepararam para o País, os partidos,
não”
Sonia Racy--------------------------------------------------------------------12
O otimismo cauteloso
Zeina Latif--------------------------------------------------------------------18
Felicidade Nacional Bruta
Celso Ming-------------------------------------------------------------------21
Guerras industriais
Monica De Bolle-------------------------------------------------------------25
Comunicação sem rumo
João Domingos------------------------------------------------------------- 28
O MEC em suspenso
Renata Cafardo-------------------------------------------------------------- 31
Sem vontade para privatizar
Adriana Fernandes----------------------------------------------------------34
Não vai mudar
Vera Magalhães--------------------------------------------------------------37
Mares revoltos
Eliane Cantanhêde--------------------------------------------------------- 40
Você já foi à Disney?
Leandro Karnal--------------------------------------------------------------43
PARA ENTENDER 2019

Carta aos leitores


Caro leitor, cara leitora, bem-vindo, bem-vinda.
Esta seleção de artigos do Estadão foi escolhida especialmente
para você, que demonstra interesse por nosso conteúdo e navega
por nossas páginas. É uma síntese do Brasil atual, por meio do
olhar atento dos nossos colunistas. E é também uma degustação
das ideias desses profissionais bem-informados, em um conteúdo
normalmente exclusivo para assinantes.
Natural que a maioria destes 12 textos abordem o governo do
presidente Jair Bolsonaro. Sua eleição representa uma ruptura
com os ciclos políticos anteriores e um momento-chave em nossa
história. É o que escreve William Waack, na coluna publicada pelo
Estadão logo após a posse e que agora abre esta coletânea.
Na sequência, Ana Carla Abrão alerta os governantes recém-
empossados de como o Estado brasileiro ainda é ausente em áreas
essenciais, como saúde e educação, para os que mais precisam.
Sonia Racy nos traz a voz da academia, numa entrevista com o
historiador Carlos Guilherme Mota, que, já em janeiro, apontava o
papel estratégico de moderação que os militares teriam no Planalto.
Zeina Latif, por sua vez, traduz o espírito da iniciativa privada,
otimista com a possibilidade de reformas, mas cautelosa com os
primeiros sinais do presidente.
Ainda na seara econômica, Celso Ming recorre a imperadores,
faraós e sultões para relembrar como o crescimento econômico,
hoje sinônimo de felicidade, não era obrigatório na Antiguidade.
Já Monica de Bolle traz um olhar internacional a este livro, em
uma análise sobre a corrida industrial global e os perigosos tons
nacionalistas adotados por Alemanha e China.
De volta à política, João Domingos diagnostica as falhas de
comunicação no governo e o papel do general Hamilton Mourão

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PARA ENTENDER 2019

como o vice “corretivo” de Bolsonaro. E Renata Cafardo, por sua


vez, faz um preciso resumo da crise no Ministério da Educação, no
auge do que foi a aventura Vélez Rodriguez.
Com Adriana Fernandes descobrimos como há frentes dentro
do governo contrárias às privatizações, uma das principais bandeiras
do ministro Paulo Guedes. E, com Vera Magalhães, vemos como os
próprios aliados do presidente Bolsonaro já começam a se adaptar ao
seu estilo informal de governo.
Eliane Cantanhêde fecha o bloco político desta seleção, com um
balanço dos 100 primeiros dias do governo federal, no qual o termo
“ideologia” é a palavra-chave.
Para encerrar esta coletânea com leveza, uma reflexão bem-
humorada de Leandro Karnal sobre como a era das redes sociais
mexeu com nossos hábitos de viagem.
Espero que você, caro leitor, cara leitora, aproveite este passeio e
continue a prestigiar o conteúdo de qualidade do Estadão, que há 144
anos pratica e defende o jornalismo profissional.

João Caminoto, Diretor de Jornalismo

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PARA ENTENDER 2019

Quem sabe faz a hora


Por uma ironia da História, o refrão “esperar não é saber” pode
mudar de mãos

William Waack
3 de janeiro de 2019

Momentos decisivos na história são raros e o Brasil acabou de entrar


num deles. A eleição de Bolsonaro foi só a preparação para o que vem
agora: um País que, se quiser sair da mediocridade e estagnação, terá
de confrontar a si mesmo.

O novo presidente prometeu libertar o Brasil de amarras que


levaram gerações para serem confeccionadas. E que podem ser
resumidas numa constatação preocupante: a sociedade brasileira
falhou na tentativa de construir um Estado de bem-estar social nos
moldes de países europeus. Nossa geração de riquezas não comporta
um Estado de bem-estar social com o qual sonhamos.

Criamos um marco regulatório e legal que é um verdadeiro


compêndio de aspirações sociais, e que atribui ao Estado distribuir
e garantir essas benesses e direitos codificados em leis. Esse papel
garantiu a explosão de custos do setor público que financiamos
através de aumentos de impostos nos últimos 30 anos (agora
no nível do insuportável) e endividamento (beirando também o
insuportável). Tudo junto mais a baixa produtividade são o famoso
“custo Brasil”, que torna o País pouco competitivo.

O principal desafio de curto prazo é conhecido: lidar com as contas

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PARA ENTENDER 2019

públicas, o que significa reformar a Previdência. Os principais


obstáculos políticos são bem conhecidos também. Bolsonaro
tomou posse graças a uma onda transformadora de amplo alcance
e raízes profundas (ainda que em parte disfarçadas pelo repúdio
ao petismo). O “mandato” conferido por esse fenômeno político
para “defender a liberdade”, “acabar com corrupção e privilégios” e
“fazer o Brasil crescer” é amplo para funcionar como inspiração, mas
precisa ganhar contornos práticos e diretos imediatamente.

A combinação dos dois discursos de Bolsonaro no dia da posse é


elucidativa. Ele reconhece que precisa do Congresso para governar
e preferiu não esbravejar com o Legislativo – ao contrário, confia em
velhas mãos (leia-se Rodrigo Maia como presidente da Câmara). Mas
continua tratando de galvanizar o eleitorado como forma de manter
a “temperatura” política necessária para, eventualmente, lidar
numa posição de força com os senhores legisladores. Não parece
que haverá em breve qualquer grande separação entre “palanque” e
“governo”.

Ocorre que há sempre um limite para o nível de ebulição e


efervescência políticas e o capital acumulado em termos de votos
na recente eleição é erodido pelo tempo, que não é o cronológico.
É o tempo da consagrada expressão alemã do “momentum”, a
rápida conjunção de fatores estruturais e circunstanciais que abrem
às vezes oportunidades únicas para alcançar objetivos amplos e
difíceis.

Claro, seria muito mais elegante e refinado reescrever a Constituição


(quem sabe tornando-a liberal) ou realizar uma ampla reforma
política (a mãe de todas as reformas), mas isso significaria perder
o ritmo e se deixar sufocar pelo peso monstruoso da crise fiscal,

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PARA ENTENDER 2019

que já está paralisando serviços essenciais de saúde e segurança


em vários Estados. O Brasil não é um país com mentalidade
predominantemente liberal. Ao contrário: aqui a burocracia é
encarada por muitos como proteção e não como obstáculo. O lucro
é visto como pecado, e se alguém ficou rico é porque alguém ficou
pobre.

O “ponto de equilíbrio” entre mudança e “status quo” no qual nos


encontramos é o da instabilidade política, insegurança jurídica,
estagnação econômica e mediocridade generalizada. Momento
decisivo é empurrar o País para fora disso aí. Oportunidades desse
tipo não se apresentam muitas vezes. E que ironia da História: cabe
agora a um outro conjunto de forças políticas entoar o velho refrão –
“quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

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PARA ENTENDER 2019

Ausência
Enquanto sobra Estado para apadrinhar, falta Estado para definir
as reais prioridades e viabilizar projetos em prol da população

Ana Carla Abrão


8 de janeiro de 2019

Esta semana visitei o Jardim Colombo, uma comunidade na zona


oeste da cidade de São Paulo, parte do complexo de Paraisópolis.
Estima-se que ali vivam 5 mil famílias, habitando barracos que
se sobrepõem numa arquitetura guiada pela necessidade. Num
labirinto que avança morro acima, a favela divide muros com o
tradicional Colégio Santo Américo e com o Cemitério Gethsêmani,
expondo os contrastes de um Brasil tão desigual.

Não há como ignorar os sinais de vitalidade numa comunidade que


se organiza como pode e se estabelece econômica e socialmente
onde dá. O comércio ativo, uma liderança comunitária presente e a
busca contínua de soluções e melhorias pelos próprios moradores –
amparados pela sociedade civil, como o ArqFuturo, e por empresas
privadas – são provas da resiliência daqueles que enfrentam
problemas reais. A creche fechada, o córrego tomado pelo esgoto que
invade os barracões em dias de chuva, a coleta de lixo precária e as
condições insalubres de habitação são a realidade de quem vive ali.

A visita surgiu no contexto de uma discussão com especialistas


na área de cidades. O que haverá de ser da nossa população como
consequência do processo de disrupção tecnológica que vivemos?
O que acontecerá com as nossas cidades quando carros autônomos,
inteligência artificial e tantas outras inovações que surgem a cada

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PARA ENTENDER 2019

dia tomarem conta dos centros urbanos e definirem uma nova forma
de viver e de conviver? Nossas cidades estão prontas para abraçar
o avanço? Seus gestores saberão enfrentar os desafios de uma nova
realidade tecnológica e tirar proveito de soluções inovadoras para
melhorar a vida das pessoas? Pois essa discussão ganha novas e duras
cores quando nos damos conta que a maior parte da população dos
nossos centros urbanos vive alijada desse mundo, prisioneira de uma
realidade em que falta o básico, falta o urgente.

Assim como no Colombo, comunidades carentes espalhadas


por todo o Brasil têm projetos e planos que de alguma maneira
dependem da atuação do Estado. Mesmo com os avanços nas
parcerias com o setor privado, não há solução para essa enorme
parcela da população que prescinda do setor público. É o Estado que
viabiliza os necessários e urgentes investimentos em infraestrutura
básica, os projetos sociais nas áreas de educação e saúde, a oferta
de equipamentos culturais e esportivos. É o Estado que concede
propriedade e permissões, regula e licencia. Sem ele, não há como
trabalhar pela plena dignificação desses cidadãos.

O Brasil real sofre hoje com uma enorme ausência do Estado. Por
mais paradoxal que pareça, ao mesmo tempo em que a máquina
se mostra gigante e inchada e os gastos públicos atingem níveis
insustentáveis, falta Estado onde ele é de fato necessário. Enquanto
sobra Estado para apadrinhar, atender a interesses específicos e
lotear cargos públicos, falta Estado para definir as reais prioridades,
viabilizar projetos e realizá-los em prol da população. Se hoje
sobra Estado para gerir empresas ineficientes e financiar ações
públicas sem avaliação de resultados, também falta para resolver os
problemas básicos do dia a dia das pessoas e para alocar os recursos
visando a melhoria de vida de quem mais precisa. O Estado hoje

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PARA ENTENDER 2019

é grande nos seus próprios gastos, na defesa dos seus próprios


privilégios e forte na sua autoproteção. Mas se ausenta na defesa do
interesse público quando prioriza a burocracia e o formalismo em
detrimento do resultado. Não se pode mais conviver com um Estado
que consome tanto e é incapaz de devolver o mínimo. A verdade é
o que o nosso Estado disfuncional e grande perdeu a capacidade
de servir às necessidades dos cidadãos e precisa ser reformado
urgentemente. Há que se resgatar sua capacidade de planejar,
priorizar e executar com eficiência seu papel de cuidar das pessoas.

Desde 1.º de janeiro, temos um novo presidente e 27 novos


governadores que se juntam a mais de 5.500 prefeitos para liderar o
Poder Executivo no Brasil. Ao lado deles, há um novo Legislativo e
um não tão novo Judiciário que terão renovadas chances de tomar
grandes decisões. Juntos, os três poderes deverão, respectivamente,
propor, aprovar e validar uma agenda de reformas que definirá se
finalmente o Estado brasileiro passará a cuidar dos brasileiros ou
se permanecerá privilegiando alguns e se mantendo ausente para
tantos.

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PARA ENTENDER 2019

“Os militares se prepararam para


o País, os partidos, não”
Para o historiador Carlos Guilherme Mota, governo Bolsonaro tem
“um certo anacronismo” mas presença de militares “nada traz dos
traços autoritários de 64

Sonia Racy
21 de janeiro de 2019

O horizonte “é de construção para longo prazo”. É com essa


frase curta que o historiador Carlos Guilherme Mota resume seu
olhar do Brasil 2019 – uma visão alimentada por meio século de
vida acadêmica e mais de 30 livros publicados, como autor ou
organizador. O atraso do País, especialmente na educação, e a falta
de cabeças para pensar o futuro, como havia no passado – ele cita
nomes como Afonso Arinos, Celso Furtado, Hélio Jaguaribe… –,
dificultam, a seu ver, a tarefa de criar uma estratégia para um Brasil
daqui a 30 anos.

Na sua análise do novo governo, Mota destaca um grupo de militares


bem preparados, habituados à disciplina, e um setor anacrônico –
“somos um País que tem guru…”. E, à volta deles, uma classe política
velha, partidos que ignoraram os desafios do futuro e uma oposição
enfraquecida e desorientada.

Professor titular de História do Mackenzie e cofundador do Instituto


de Estudos Avançados da USP e do Memorial da América Latina,
Mota recebeu em 2011 o prêmio Machado de Assis da Academia
Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Entre outras, escreveu

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PARA ENTENDER 2019

Ideologia da Cultura Brasileira e, com Adriana Lopes, História do


Brasil, Uma Interpretação.

O historiador enfatiza: o grupo militar instalado no governo


Bolsonaro é bem preparado e não tem “os traços ditatoriais do antigo
regime militar de 1964” – mas resta saber como a atual fórmula do
poder vai se entender com a anterior. Nesta entrevista a Gabriel
Manzano, ele define: o que se instalou no poder foi “uma ordem
autocrática com aparência democrática”, na qual “a massa, sem
lideranças capacitadas, consagrou um líder de estatura mediana,
orientado por gurus de meia-confecção”. Um modelo “democrático
na aparência mas desmobilizador das oposições”. A seguir, os
principais trechos da conversa.

A vitória de Bolsonaro põe fim a uma longa bipolaridade entre


PT e PSDB e está mudando o clima político do País. A que atribui
essa mudança?
Ao esvaziamento ideológico dos partidos. Esqueceram, na classe
política, que partidos têm de se basear num sistema de valores,
num conjunto de ideias – e destaco aqui o esvaziamento de um
partido que cresceu com a promessa de ser inovador, o PT, que ao
longo do tempo perdeu seus objetivos e aderiu aos vícios da política
convencional. Cabe lembrar, aqui, que a mensagem da centro-
esquerda, ao longo da história, sempre foi muito fluida.

E no lugar dela temos agora uma direita, ou centro-direita. Dá


pra comparar com a que comandou o País no regime militar
entre 1964 e 1985?
Quando você vê hoje no primeiro escalão um vice-presidente, sete
generais como ministros, mais outros 20 em postos próximos,
pode fazer alguma relação histórica. Embora, é claro, sem os traços

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PARA ENTENDER 2019

fortemente ditatoriais daquele período. Mas os tempos são outros. A


centro-direita já desempenhou um papel de peso na nossa história,
quando atuaram estadistas como um Milton Campos. Acho que hoje
há semelhanças e diferenças.

Sim, o respeito à Constituição, por exemplo, é sempre


apregoado pelo grupo atual.
De fato. Um Garrastazu Médici não teria lugar nessa turma. Talvez
um Castelo Branco… E cabe dizer que o preparo era diferente,
naqueles anos 60 e 70. Era uma boa formação em Agulhas Negras, na
Escola Superior de Guerra. Mas hoje me parece que a preparação é
diversificada, mais integrada.

Vivia-se o auge da Guerra Fria entre EUA e a antiga URSS, o


temor ao comunismo era uma agenda diária. Hoje Rússia e
China são capitalistas.
Sem dúvida, o cenário é outro, mas também há um certo
anacronismo. Somos agora um país que tem ideólogos, que
tem guru… E esse guru, Olavo de Carvalho, tem seguidores
entusiasmados, entre eles um assessor internacional da Presidência.
Soa ridículo.

Como definiria o núcleo do atual comando político?


Acho que o que temos aí é uma ordem autocrática com aparência
democrática. A massa de cidadãos despossuídos, sem lideranças
capacitadas, consagrou um líder de estatura mediana, orientado
por gurus de meia-confecção. Não é de estranhar que seus melhores
quadros provenham das Forças Armadas, gente que tem estudo
e disciplina, viaja e conhece o mundo, acompanha as novas
tecnologias. Aliás, comparada com ela, vejo que o caminho das
esquerdas, para se reabilitar, será bastante longo.

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PARA ENTENDER 2019

Acha que isso aponta para o risco de militarização?


Eu chamaria isso de modelo autocrático burguês, que se diferencia
do democrático burguês. Um sistema fechado. Democrático
na aparência mas desmobilizador das oposições. Marcado por
essa brigada ministerial, que, no País que temos, representa uma
segurança contra personalismos e familismos imprudentes, visto
que esses militares passam por uma academia militar rigorosa.
Trabalham focados em tarefas e na formação de quadros, coisa que a
política convencional e as esquerdas não fazem.

Que tipo de limites veria nesse tipo de comando para o País?


O risco que se corre, num processo assim, é o do anacronismo
evidente em algumas áreas do governo. Afinal a guerra fria já passou
há muito tempo, a China está aí abrindo caminhos novos, o planeta
entra na chamada revolução 4.0, na cultura digital. E na vida real, no
universo político, o que vemos é um governo que chega sem projeto.
Entrou, colocou a reforma da Previdência como prioridade, mas o
que temos até agora mais parece um picadinho do assunto.

Acha que os auxiliares militares poderiam influir na agenda


defendida por Bolsonaro?
Bem ou mal, os militares atuais representam novos valores. O
general Augusto Heleno é uma figura preparada, tem uma visão
ampla e menos esquemática das coisas. Mesmo fora do governo, cito
o almirante Mário César Flores, que é um intelectual lúcido, domina
conceitos sociológicos. Mas na verdade me parece descabido, ao lado
disso, o horror que certos setores do novo poder têm do socialismo
democrático. Eles me trazem à memória a figura do general Antonio
Carlos de Andrade Serpa, que em 1981 – estávamos no governo
Figueiredo, o quinto e último dos generais-presidentes – escreveu

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PARA ENTENDER 2019

seu Manifesto à Nação Ameaçada que acabou sendo subscrito por


intelectuais como Antonio Cândido, Alceu Amoroso Lima, Ariano
Suassuna, José Honório Rodrigues.

O que dizia esse manifesto?


Ele conclamava à união de civis e militares preocupados com a
questão nacional. Fazia reparos ao sistema financeiro, falava de um
modelo independente e de desestatização. Como adido militar em
Paris por 15 anos, Serpa tomou o pulso da Europa. Propunha um
pacto nacional civil e militar.

Isso tem algo a ver com o momento que vive o País.


Sim. Na minha avaliação, é preciso entender, como pregava Serpa,
que a sociedade civil, bem compreendida, inclui os militares
também. E ao mesmo tempo é preciso lembrar que ainda somos
um País com resquícios até da era colonial misturados com a
modernidade. Onde um capitalismo senzaleiro eterniza o elevador
de serviço para os empregados. Um modelo que, na verdade, nem
FHC nem Lula quebraram. Torço para que os setores conservadores
do atual conjunto deixem de lado essa mania de ver comunistas
embaixo da cama.

Isso enquanto grande parte do mundo já embarca na revolução


tecnológica – dita 4.0 –, uma agenda da qual o Brasil ainda parece
distante.
Sim, e mesmo a esquerda deixou de se modernizar, olhar para a
forte transformação que essas tecnologias nos impõem. O nosso
problema é que aqui as desigualdades prevalecem. Temos por aí
escolas filé mignon, para alunos ricos, preparados às vezes por uma
classe de professores mal paga. No caso da USP, temos setores que
se atualizaram, em áreas como economia, biociências, mas nas

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PARA ENTENDER 2019

humanidades o investimento sempre foi menor.

A classe intelectual está preparada, nas universidades em


especial, para dar sua contribuição a esse projeto?
Acho que, falando em universidades, estamos um pouco longe disso.
Já tivemos, em outros tempos, figuras como Afonso Arinos, Celso
Furtado, Florestan Fernandes, Hélio Jaguaribe… Claro que temos
instituições que fazem um bom papel. Como Insper, Ibmec, Fapesp,
o Instituto de Estudos Avançados da USP, outros no Rio, mas temo
– de forma muito geral – pelo que disse o (escritor) Mia Couto,
segundo o qual estão preparando ricos, não um país para a riqueza.
Ainda somos um país de muitos pedagogos e poucos educadores.

Pode explicar isso?


Lembro aqui o uso banalizado que fizeram do Paulo Freire e de seu
método, de um modo que nada tem a ver com o que ele pensava. O
que o Freire descobriu foi um conjunto de técnicas com uso centrado
no vocabulário de conceitos-chave, conceitos geradores. Foi usado
nas periferias de Nova York. Acabou sendo distorcido por aqui,
virando até uma metodologia “perigosa”.

Qual cenário imagina para o Brasil daqui a 30 anos?


Falar do futuro exige projeções sólidas. Sem elas, o que temos é
uma nebulosa mesmo, não há muita saída. Mas a meu ver há uma
revolução que precisa ser feita, que é valorizar o estudo da História.
Autores recentes como Yuval Harari estão clamando por mais
atenção para os movimentos histórico-culturais de longa duração. O
horizonte é de construção para longo prazo, e temos, nós brasileiros,
de aprender essa lição.

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PARA ENTENDER 2019

O otimismo cauteloso

Essa expressão resume o sentimento dos líderes do setor


privado em relação às perspectivas para o Brasil

Zeina Latif
21 de fevereiro de 2019

A expressão “otimismo cauteloso” tem sido utilizada com frequência


por lideranças do setor privado para descrever o atual sentimento
em relação ao Brasil. Por ora, o quadro de incertezas sobre o cenário
econômico faz a balança pender mais para o “cauteloso” do que para
o “otimismo”.

Os empresários estão mais confiantes, mas não a ponto de aumentar


contratações e investimentos. Aguardam os sinais da política. Ajuda,
e muito, a alta qualidade da proposta de reforma da Previdência,
buscando uma importante economia de recursos, incluindo os
Estados e contemplando um sistema mais justo socialmente. Sua
aprovação será fator central para redução das incertezas. O primeiro
semestre será de compasso de espera.

Em que pese o emblemático fechamento da fábrica da Ford em


São Bernardo do Campo, ao menos o pessimismo tem tido peso
bem menor no sentimento dos empresários. Afinal, não estamos
em 2015, apesar de a situação fiscal ser mais grave. É um outro
perfil de presidente, mais pragmático e humilde quanto ao seu
desconhecimento de Economia; outro debate econômico, menos
influenciado pelo equivocado nacional-desenvolvimentismo, que
produziu uma crise sem precedentes; e outro contexto político, mais

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PARA ENTENDER 2019

benigno, já que Bolsonaro ganhou a eleição com margem confortável


e não carrega o peso de um primeiro mandato conturbado.

Por outro lado, há razões para cautela. O quadro econômico é frágil,


com a economia quase estagnada. As reformas necessárias para
resolver a crise fiscal são politicamente desafiadoras e envolvem
contrariar muitos interesses. Os grupos afetados, principalmente do
funcionalismo, estão se organizando e poderão frustrar bastante as
pretensões do time econômico em relação ao escopo da reforma. O
governo inexperiente e pouco coeso tropeça na política.

O Brasil é um país difícil, e isso não será mudado rapidamente.


Os tristes acontecimentos neste início de ano que ceifaram vidas
servem de alerta da falência do Estado. O poder público não cumpre
bem o papel de regulação e fiscalização da atividade privada e os
governos gastam boa parte do dinheiro público com a folha do
funcionalismo e sua Previdência, deixando de cuidar das pessoas e
da infraestrutura.

Isso não quer dizer que a sociedade não tenha sua parcela de
responsabilidade. Não o mais humilde, que não tem acesso à
educação de qualidade e sofre com a desigualdade de oportunidades,
mas a elite, que deveria dar o exemplo.

Um exemplo singelo: na terça-feira, a capa do Estadão trouxe a triste


foto do lixo carregado pelo Rio Tietê por conta das fortes chuvas.
Não é só culpa do mau funcionamento do Estado, que não cuida
devidamente da limpeza das ruas, da coleta e tratamento do lixo. É
também da sociedade. Quando se percorre os bairros ricos em São
Paulo, o lixo espalhado pela rua, algo pouco visto nos vizinhos da
América Latina, indica que necessitamos de um choque civilizatório.

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PARA ENTENDER 2019

Somos uma sociedade em que o sentimento de responsabilidade


social é fraco.

Em um contexto mais amplo, as reações dos diferentes grupos à


reforma da Previdência são mostra de nossas dificuldades para olhar
o outro. A bancada da agropecuária ameaça não apoiar a reforma se
o ministro Guedes insistir em políticas de cunho liberal para o setor.
Justamente o setor que menos paga impostos. Alguns governadores
pressionam o Congresso e o governo por uma nova renegociação da
dívida e outras benesses como contrapartida por apoiar a reforma
da Previdência, apesar de os governos estaduais serem beneficiados
pelas mudanças no regime previdenciário. Corporações do
funcionalismo exercem forte pressão para não perderem seus
privilégios. E assim vai.

Economia e política não andam separadas por muito tempo.


A fraqueza da economia impacta a política, cedo ou tarde, e a
aprovação de reformas econômicas depende da política. Caberá ao
presidente exercer liderança para não cair nesse círculo vicioso.

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PARA ENTENDER 2019

Felicidade Nacional Bruta


Crescimento econômico virou imperativo, mas a História
mostra que essa é uma exigência dos nossos tempos

Celso Ming
3 de março de 2019

Crescimento econômico virou imperativo. Falta de crescimento do


PIB derruba governo ou impede a reeleição, tornou-se necessidade e
pressuposto de qualquer política. Não passa pela cabeça de ninguém
que um país possa renunciar ao aumento persistente da renda e do
emprego.

E, no entanto, essa exigência é uma novidade histórica. Nenhum


imperador chinês da dinastia Ming, nenhum faraó do antigo Egito,
nenhum rei da Pérsia, nenhum imperador romano, nenhum sultão
otomano, nem mesmo os reis absolutistas do Ocidente pensaram
em política centrada no crescimento econômico.

Naqueles tempos, a riqueza ou já existia, como minas de ouro e


de prata, ou era produzida de maneira limitada, como rebanhos
e colheitas de grãos. A maneira mais conhecida como os grandes
chefes empilhavam riquezas era ou pela pilhagem ou pela
arrecadação de impostos. Na Idade Média, a cobrança de juros era
monstruosidade punida severamente pela Igreja, porque equivalia
a roubar o endividado. Ninguém imaginava que a concessão de
créditos pudesse pôr em marcha investimentos que, por sua vez,
produzissem empregos e riquezas.

Apenas a partir do Iluminismo (séculos 17 e 18), economistas e

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PARA ENTENDER 2019

dirigentes passaram a entender que o crescimento econômico é


consequência do emprego maciço de capital, trabalho e tecnologia,
como sistematizou depois a teoria neoclássica.

O grande salto de crescimento econômico aconteceu no século 18


com a Revolução Industrial, graças ao aumento da produtividade
proporcionada pela invenção da máquina a vapor e das estradas de
ferro. Logo depois, no final do século 19, veio a segunda explosão
gerada pelo largo emprego de energia elétrica, da água encanada e do
motor movido a combustíveis fósseis. Hoje, fala-se da terceira onda
tecnológica, puxada pelo computador, pela digitação, pela telefonia
móvel e pela internet. Mas nenhum estudioso entende que essa nova
fase tenha o mesmo dinamismo das anteriores.

As economias mais ricas vão convergindo em direção à


inexorável estagnação. Enquanto isso, as economias atrasadas
(ou subdesenvolvidas) já não podem contar, como antes, com
a arrancada proporcionada pelas economias maduras. A nova
percepção é a de que há limites para o crescimento econômico,
mesmo que novos desenvolvimentos tecnológicos sobrevenham
para garantir avanços de produtividade.

A crença em crescimento econômico perene não encontra nem


justificativas históricas nem filosóficas. Na década de 60, o
Clube de Roma advertia para a limitação da oferta de matérias-
primas. O aumento da produção esbarra nas fronteiras do que é
ecologicamente sustentável. No entanto, mesmo que não seja uma
impossibilidade física, crescer indefinidamente para quê? Vale a
pena continuar a perseguir o progresso para além do Bojador e dos
eventuais abismos que oculta? Ou não seria melhor prosseguir sem
pressa, aceitando os limites que a natureza impõe ao ser humano e a

22
PARA ENTENDER 2019

si própria?

Num primeiro momento, talvez a compulsão do crescimento


econômico sirva como instrumento destinado a derrotar a pobreza.
Mas e depois disso? Essa pergunta pode parecer prematura em
países que estão longe de acabar com a miséria e se desenvolver,
como o Brasil. Mesmo assim, é preciso olhar além, para que não se
perca o ponto de chegada.

Em todo o mundo crescem as pressões para que as Contas Nacionais


deixem a obsessão materialista de medir apenas a riqueza nacional
bruta (PIB), mas se voltem para acompanhar a Felicidade Nacional
Bruta, ou seja, o grau de satisfação de uma sociedade, este, sim,
objetivo de corações e mentes.

Pode-se avançar nesse caminho, mas essa questão puxa outra,


a de saber o que seja essa tal felicidade social que se quer medir.
O objetivo do homem e da sociedade em que vive, tal como o
entendemos, não é propriamente ser feliz, mas estar feliz quando
existem razões para isso, coisa que o crescimento e a melhor
distribuição da renda, por si sós, não garantem.

Quando acontece, seja no âmbito individual seja no coletivo, a


felicidade nem sempre é percebida: “Eu era feliz e não sabia”,
cantava Ataulfo Alves. Ou chega quando não se espera: “Felicidade se
acha em horinhas de descuido”, escreveu Guimarães Rosa.

E, como relatam Heródoto e Plutarco, no século 6.º antes de


Cristo o legislador ateniense Sólon advertiu Creso, rei da Lídia, o
homem mais rico em seu tempo, que, em vida, ninguém pode ser
considerado feliz.

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PARA ENTENDER 2019

Diante de conceitos como esses, como promover e como medir


a felicidade de um povo? E, no entanto, muitos economistas vêm
tentando.

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PARA ENTENDER 2019

Guerras industriais
Num mundo em que políticas industriais ganham tons
nacionalistas, o Brasil tem lições a dar, com a experiência
fracassada do governo Dilma

Monica De Bolle
6 de março de 2019

As guerras comerciais, como a travada entre a China e os EUA,


sempre suscitam bastante atenção. O protecionismo, ao expor
rivalidades, é terreno fértil para especulações a respeito do impacto
macroeconômico e dos desdobramentos geopolíticos, sobretudo
quando os países envolvidos são as duas maiores economias do
planeta. Já as guerras industriais, ou os embates entre políticas
industriais, têm recebido muito menos atenção, ainda que os efeitos
possam ser tão perigosos para a estabilidade global quanto o das
guerras comerciais. O exemplo mais claro disso é o desprezo com
que foi tratada a recente política industrial da Alemanha delineada
pelo Ministro da Economia Peter Altmaier.

Há um mês, o ministério da economia alemão publicou documento


intitulado “Estratégia Nacional para a Política Industrial 2030”,
claramente como uma resposta à política industrial chinesa
conhecida como Made in China 2025 de Xi Jinping anunciada
em 2015. A proposta chinesa pretende acelerar o crescimento da
indústria tecnológica por meio de metas setoriais, subsídios e
crédito direcionado que somam centenas de bilhões de dólares, e o
apoio intensivo de empresas estatais.

25
PARA ENTENDER 2019

Desde o anúncio, a política industrial chinesa tem suscitado muita


preocupação entre países desenvolvidos pelos efeitos que pode vir a
ter nos setores de alta tecnologia mundo afora. As ambições da China
também são vistas com extrema desconfiança, já que as práticas para
produzir os resultados pretendidos são opacas e podem aumentar
substancialmente os riscos de roubo de propriedade intelectual. Foi
em resposta a esses riscos que a Alemanha anunciou seu próprio
plano, espécie de retaliação, ou estratégia defensiva, contra a China.

Antes de pincelar os pontos principais do plano alemão é importante


ter em mente que Peter Altmaier não é um nacionalista ferrenho,
tampouco membro de algum partido extremista. Ao contrário, ele
é filiado ao partido de centro-direita da primeira-ministra Angela
Merkel, o CDU. Contudo, o documento elaborado por ele e sua
equipe contém altíssimo teor nacionalista.

Ao tecer diagnóstico de que a indústria alemã poderia ter tido


desempenho melhor nos últimos anos e enfatizar que o país, ao
contrário dos EUA e do Japão, pouco fez para alavancar os setores
de tecnologia de ponta – como a robótica e a inteligência artificial – o
documento enumera medidas para reverter esse quadro e introduzir
a Alemanha como potência na “economia da internet”.

A proposta está estruturada em torno de cinco prioridades: defender


a atividade industrial; exigir que as empresas europeias participem
apenas das cadeias de valor europeias; promover campeões
nacionais relaxando as leis de concorrência da União Europeia e
lançando mão de crédito subsidiado, desonerações para setores
específicos, além de outras medidas; defender a intervenção estatal
para impedir que empresas locais sejam adquiridas por investidores
estrangeiros; facilitar a intervenção direta do Estado na economia,

26
PARA ENTENDER 2019

com o objetivo de prover apoio financeiro e o desenvolvimento dos


setores desejáveis.

O documento insiste que o livre comércio e o multilateralismo serão


preservados, contudo, as prioridades elencadas indicam o oposto.
Por exemplo, se as cadeias de valor europeias forem reservadas
apenas para as empresas europeias, naturalmente barreiras ao
comércio terão de ser erguidas – seja por meio de tarifas ou de outras
medidas. A defesa de grandes campeões nacionais também exigiria
não apenas o afrouxamento das políticas de concorrência, como
possíveis entraves ao comércio e ao investimento internacionais,
bem como a restrição para a aquisição de empresas locais por
estrangeiros.

O cunho nacionalista da proposta para a nova política industrial


alemã é inegável, uma vez que define o desempenho da economia
do país europeu no futuro, em termos de uma corrida global pela
supremacia industrial e tecnológica. Caso outros países avançados
decidam seguir essa mesma linha, as chances de termos uma imensa
balbúrdia mundial com consequências econômicas e geopolíticas
altamente indesejáveis é enorme.

O Brasil tem lições a dar ao mundo com a experiência fracassada da


política industrial do governo Dilma. Problemas fiscais, corrupção
endêmica associada à promoção de campeões nacionais, crises
econômicas, políticas e institucionais. Infelizmente, o mundo não
está nos ouvindo, pois, nossa perda de relevância é contínua e a força
do nacionalismo é arrebatadora.

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PARA ENTENDER 2019

Comunicação sem rumo


O general Mourão não é um vice decorativo.
Tornou-se um vice corretivo

João Domingos
9 de março de 2019

Desde que Jair Bolsonaro reproduziu em sua conta no Twitter um


vídeo obsceno, insistiu-se muito na tese de que o presidente o fez de
caso pensado. Estaria, com tal iniciativa, tentando desviar a atenção
a respeito de notícias ruins lá dos lados do governo, como o PIB de
1,1% em 2018 (resultado sobre o qual ele não tem responsabilidade),
aumento da taxa de desemprego, violência que não para de
crescer, incapacidade de formar uma base no Congresso que lhe dê
sustentabilidade e garantia de aprovação de reformas na economia.
Por fim, o vídeo seria também uma resposta às críticas que recebeu
de blocos carnavalescos Brasil afora.

Se foi uma estratégia de comunicação do presidente, foi uma


estratégia ruim. A despeito de alguns seguidores de seita, que acham
tudo o que Bolsonaro faz lindo e maravilhoso, o presidente abriu o
flanco para, na mesma rede social, apanhar como nunca. Sabe-se
que houve reação do núcleo militar do governo. Logo, o Palácio do
Planalto, ou seja, o próprio governo do qual Bolsonaro é o chefe,
teve de divulgar uma nota para dizer que o presidente não criticara
o carnaval como um todo, mas alguns blocos que se excederam em
público.

Depois, o presidente fez um discurso de improviso numa cerimônia


da Marinha e disse que democracia e liberdade só existem se as

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PARA ENTENDER 2019

Forças Armadas assim o quiserem. Choveram críticas. Afinal,


democracia e liberdade não são uma dádiva das Forças Armadas.
São conquistas da sociedade, da qual Aeronáutica, Exército e
Marinha fazem parte e pelas quais, pela Constituição, jurada por
Bolsonaro, essas mesmas Forças têm o dever de zelar. De novo,
mais explicações. Primeiro, por parte do vice-presidente, general
Hamilton Mourão, que prontamente disse que as palavras de seu
chefe haviam sido mal interpretadas, que Bolsonaro não quis dizer
o que estavam dizendo que ele dissera. Depois, numa transmissão
pelo Facebook, com os generais Augusto Heleno (ministro do GSI) e
Rêgo Barros (porta-voz) ao lado, Bolsonaro deu outras explicações.
Diretamente a Heleno, perguntou: “General, o senhor achou o meu
pronunciamento polêmico?” Para Heleno responder que não e
discorrer sobre o papel constitucional das Forças Armadas.

Do ponto de vista da comunicação, um desastre atrás do outro.


Em primeiro lugar, porque os dois casos exigiram explicações
posteriores. O do vídeo, por uma nota oficial do Palácio do Planalto;
o da liberdade e da democracia, com dois generais ao lado. Sendo que
antes o vice já se encarregara de dar também a interpretação daquilo
que Bolsonaro quisera dizer. Como escreveu o jornalista Eumano
Silva, o general Mourão prometeu que não seria um vice decorativo.
Não é mesmo. Tornou-se um vice corretivo.

De acordo com levantamento feito pelo Estado, desde a posse,


em janeiro, o vice Mourão já divergiu ou teve de explicar falas de
Bolsonaro por sete vezes.

Vê-se que, do ponto de vista da comunicação, nada do que foi feito


funcionou. Se era para desviar a atenção das notícias ruins, não
desviou. Produziu novas.

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PARA ENTENDER 2019

Quanto às esperadas reformas, como a da Previdência, os atos e as


palavras do presidente não as ajudaram em nada. Pelo contrário.
Deram mais munição para os partidos de oposição que, embora
sejam minoria, têm acuado o governo em todas as sessões, sejam do
Senado, sejam da Câmara. A ponto de o deputado Marco Feliciano
(Podemos-SP) dirigir, também pelas redes sociais, ao presidente
e aos filhos Carlos, vereador no Rio, e Eduardo, deputado federal,
um alerta quanto à comunicação do governo. “A comunicação está
péssima. Ou vocês criam um grupo político e intelectualmente
preparado ou todos os dias irão sangrar.”

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PARA ENTENDER 2019

O MEC em suspenso
Grupos que nem se conheciam foram colocados
juntos e instauraram uma guerra no ministério
comandado por Vélez Rodriguez

Renata Cafardo
17 de março de 2019

Uma das áreas mais estratégicas para o desenvolvimento do País


está parada por brigas que ninguém consegue entender. A semana
passada acabou com sete demitidos no Ministério da Educação
(MEC) e a indefinição de quantas horas mais Ricardo Vélez
Rodríguez permanece no cargo.

No meio da crise, um ministro enfraquecido e desconhecido foi


ao velório de alunos e funcionários da Escola Estadual Professor
Raul Brasil, devastada pelo massacre ocorrido no dia anterior.
Deu condolências aos familiares das vítimas, conversou com
sobreviventes. No fim do mesmo dia, de volta ao seu gabinete,
trocou pela terceira vez de secretário executivo, segundo cargo mais
importante da pasta.

O Brasil tem 40 milhões de estudantes, em milhares de escolas que


sequer sabem o nome de Ricardo Vélez Rodríguez. Mas talvez não
recebam os livros didáticos destinados ao ensino médio daqui a
algum tempo porque o colombiano se enrolou tanto que o edital para
compra sequer existe. Era para ter sido publicado em janeiro.

Não há também portaria ainda que diga como será o Sistema de


Avaliação da Educação Básica (Saeb) este ano, que deveria avaliar

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PARA ENTENDER 2019

pela primeira vez a alfabetização das crianças do 2.º ano. A prova


costuma ocorrer em outubro, mas há diversas providências que
precisam ser tomadas muito antes.

Pela primeira vez também, conforme determinado na gestão


passada, alunos do 9.º ano fariam testes de Ciências da Natureza e de
Ciências Humanas, além de Português e Matemática. Fora a inédita
avaliação de educação infantil, também prevista este ano. Nada se
sabe sobre como vão ser executadas essas políticas. Recentemente,
em um evento sobre o Saeb para secretários municipais, o Instituto
Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) do MEC não mandou
representante.

Também não se tem notícias do que vai acontecer com a Base


Nacional Comum Curricular (BNCC), uma das políticas
educacionais mais importantes dos últimos anos. Os Estados
esperam uma resposta do MEC sobre a ajuda financeira que era dada
para elaboração e implementação de novos currículos. Afinal, o MEC
faz as políticas, mas não tem escola. Quem lida com o professor, com
o aluno, com o pai são os Estados e municípios. E quase sempre não
há dinheiro nem expertise para fazer as leis saírem do papel.

Até as ideias polêmicas já ventiladas estão paradas. A criação de


uma comissão que faria uma espécie de averiguação nas questões
do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estacionou no meio
do fogo cruzado. E quem vai querer se responsabilizar por algo,
no mínimo, complicado, se não há garantia de que estará lá no dia
seguinte?

Educadores experientes em gestão pública dizem que nunca viram


situação igual. Ao longo de míseros dois meses e meio, grupos

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PARA ENTENDER 2019

que nem se conheciam foram colocados para trabalhar juntos e


instauraram uma guerra.

Seguidores do filósofo Olavo de Carvalho passaram a não tolerar os


colegas de perfil técnico, que insistiam em tirar a pecha de ideólogo
que havia colado no ministro. “Olavistas”, por sua vez, acusaram
o grupo de querer transformar o ministério em um ambiente
“tucano”. Ambos os grupos tiveram baixas na última semana, em
meio a palavrões no Twitter.

Por fora, correm os militares do MEC, que aproveitaram a batalha


entre os dois inimigos para tentar emplacar um substituto a Vélez.
Com o cargo quase vago, a bancada evangélica também luta para
indicar o próximo ministro – o fato de já haver alguns evangélicos
na pasta é apenas uma coincidência. Confuso, não? O que é fácil de
entender é que em um País tão carente de uma revolução no ensino,
a educação virou piada.

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PARA ENTENDER 2019

Sem vontade para privatizar


Ministros do governo Bolsonaro abraçaram suas estatais
e estão colocando obstáculos para privatização

Adriana Fernandes
30 de março de 2019

Não é só a reforma da Previdência que enfrenta dificuldades para


ganhar tração no governo Jair Bolsonaro. O plano de privatização do
ministro da Economia, Paulo Guedes, está fazendo água.

O programa de venda e liquidação das estatais ineficientes - central


na política econômica traçada pelo ultraliberal Paulo Guedes - não
está no DNA do governo.

O governo tem 134 empresas estatais nos mais diversos setores - 18


delas dão prejuízo anual de R$ 15 bilhões aos cofres do Tesouro.

Mas os ministros de Bolsonaro abraçaram suas estatais e estão


colocando todo tipo de obstáculo para privatizar ou fechar essas
empresas. A maioria deles já foi capturada pelas corporações e pelo
poder de distribuição de cargos que as estatais garantem, mesmo as
menores. Não largam o osso de jeito nenhum.

A equipe econômica, que colocou a privatização como uma meta


necessária para garantir recursos suficientes para a redução da dívida
pública, entrou em parafuso.

O desânimo é muito maior nesse campo do que com os sobressaltos


recentes da reforma da Previdência - que, se espera, entrou nos

34
PARA ENTENDER 2019

trilhos depois do acordo de paz fechado entre Guedes e o presidente


da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Antes mesmo do início do governo Jair Bolsonaro, já havia no


time de Paulo Guedes a expectativa de encontrar resistências para
avançar com o programa. Mas não de forma tão rápida, nem em nível
hierárquico tão elevado na Esplanada dos Ministérios. O governo
nem mesmo completou seus 100 primeiros dias.

O retrato desse desânimo foi apresentado pelo empresário escolhido


a dedo por Guedes para tocar o programa, anunciado com pompa e
circunstância: Salim Mattar.

Em entrevista à revista Veja, o secretário de Desestatização do


Ministério da Economia se diz frustrado. Ele foi corajoso ao revelar
as dificuldades em vender as estatais e admitir que as resistências
contra as privatizações partem dos próprios ministros.

Mattar disparou farpas diretas para o ministro da Ciência,


Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, um
dos mais resistentes. Contou como exemplo do pepino que tem
nas mãos o caso de uma estatal que deveria produzir chips para
monitorar os rebanhos. “O tal chip, que é instalado na orelha do boi,
nem é produzido no Brasil”, criticou.

O desabafo do secretário é revelador. Não adianta mudar a cúpula do


governo. É preciso mudar também “corações e mentes”.

Bolsonaro e muitos da sua equipe não mudaram a forma de pensar.


Não houve um convencimento e faltou uma ordem clara do
presidente para fechar empresas que não têm valor e só sangram os

35
PARA ENTENDER 2019

recursos públicos.

Pelo cenário atual, é provável que se chegue ao fim dos quatro anos
de mandato de Bolsonaro sem que o governo tenha privatizado
muita coisa. Ou pior: com a venda restrita a ativos mais rentáveis
ligados aos bancos públicos, mantendo as empresas ineficientes e
com custo elevado para o Tesouro.

Investidores já perceberam que o programa de privatizações das


empresas está sem rumo - inclusive o da Eletrobrás, que a equipe
econômica promete para este ano, mas que continua enfrentando
grande resistência no governo e no Congresso. É bom lembrar
que, no Fórum Econômico Mundial de Davos, Guedes prometeu
conseguir US$ 20 bilhões ou até mais neste ano com privatizações
para ajudar a reduzir a dívida bruta.

Se a política do governo definida na campanha eleitoral é o


enxugamento da máquina, cabe ao presidente Jair Bolsonaro, e ao
ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, dar uma orientação clara
para os ministros que estão barrando as privatizações.

Empresário de sucesso, Salim Mattar pode desistir da empreitada se


perceber que não vai conseguir fazer nada.

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PARA ENTENDER 2019

Não vai mudar


Bolsonaro não mudará, e o entorno já acha
formas de se adaptar – em alguns casos,
alienando o presidente das discussões

Vera Magalhães
31 de março de 2019

“Ele não vai mudar.” Sem nuances, este foi o diagnóstico que colhi na
minha ida a Brasília na última semana, relativo a Jair Bolsonaro, feito
com a mesma convicção por ministros, assessores do presidente e
parlamentares.

Havia uma expectativa, durante a campanha e ainda depois das


eleições, de que a Presidência trataria de conferir certa noção
de institucionalidade a Bolsonaro, cuja trajetória sempre foi de
“outsider” nas corporações (Exército, Congresso, partidos) às quais
pertenceu.

Não vai acontecer, e o entorno já começa a encontrar formas de


se adaptar a isso – em alguns casos, alienando o presidente de
discussões importantes de seu governo.

As análises segundo as quais Bolsonaro moldaria suas declarações,


ideias e ações aos limites do cargo foram classificadas pelos seus
opositores mais radicais como tentativas de setores da imprensa, da
sociedade e do eleitorado de “normalizá-lo”.

É um dilema de difícil resolução. Nos Estados Unidos, já se vão

37
PARA ENTENDER 2019

quase três anos de Presidência de Donald Trump, e ele e a imprensa


seguem numa relação para lá de conflituosa. Mas o caminho de expor
as inverdades e de confrontar os insultos do presidente tem sido
adotado com mais convicção por veículos antes perplexos com sua
retórica incendiária.

O aprendizado americano serve para o Brasil. Quando um presidente


eleito democraticamente insiste até hoje em questionar o sistema de
urnas eletrônicas, investe contra a imprensa propagando fake news
nas redes sociais e propõe a comemoração, no dia de hoje, de um
golpe militar que instituiu uma ditadura, querendo rever e debochar
da História, a imprensa tem se imbuído de seu papel de expor, checar,
propor o contraditório e criticar essas práticas.

Para Bolsonaro, esse exercício equivale a questionar a legitimidade


de sua eleição. Para os opositores mais radicalizados, a imprensa
pecou justamente ao não fazê-lo. Eis um dos muitos exemplos de
como a polarização política doentia na qual o Brasil mergulha a cada
dia apenas interdita o debate.

Bolsonaro foi eleito legitimamente. Negar isso abre as comportas


para que ele próprio arreganhe seus pendores autoritários e dê asas
à ala de seu governo que flerta com saídas nada democráticas para o
Supremo, a imprensa e o Congresso. Não é por aí.

Fora da imprensa, em setores do próprio governo, do Parlamento


e do empresariado que se veem diante do desafio de lidar com
um presidente avesso a qualquer institucionalidade, no entanto,
as formas de fazê-lo são diferentes das da mídia: já surgem
arranjos, como o ensaiado por Paulo Guedes e Rodrigo Maia, em
que Bolsonaro é deixado de lado, como café com leite, enquanto

38
PARA ENTENDER 2019

os adultos cuidam dos temas importantes, como a reforma da


Previdência.

De novo, a gritaria nos extremos. O “bolsonarismo sem Bolsonaro”


desagrada tanto a opositores, como manifestou o ex-deputado Aldo
Rebelo em entrevista na semana passada, quanto aos seguidores
fiéis do “mito”, como vociferam os filhos, que enxergam tentativa de
golpear o pai a cada esquina.

Apoiadores de Bolsonaro, preocupados com a sua queda de


popularidade, elaboraram um gráfico com três esferas com fotos
dele: uma como presidente, com a faixa; outra do “mito”, em que
aparece chutando um Pixuleco de Lula, e a terceira do “homem”,
com uma lata de leite condensado na mesa do café. O ruído excessivo
que gerou as crises desses três meses estaria na intersecção das três
figuras.

Bom diagnóstico. Mas, como cravam os próprios circunstantes,


isso não vai mudar. Cabe aos atores do debate público encontrar
meios de lidar com Bolsonaro sem achar que o “novo normal” são
seus ataques às instituições, mas reconhecendo que seu governo é
legítimo e assim deve ser encarado. Vamos nessa.

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PARA ENTENDER 2019

Mares revoltos
Mais do que metas, a grande marca dos cem dias
do governo Bolsonaro se resume a uma palavra: ideologia

Eliane Cantanhêde
12 de abril de 2019

Há dois balanços dos cem primeiros dias do governo Jair Bolsonaro:


o do próprio Bolsonaro, que admite “mar revolto”, mas vê “céu de
brigadeiro”, e o da opinião pública, que só vê o “mar revolto” que
engoliu 15 pontos na popularidade do presidente.

O pacote de medidas de ontem foi uma clara tentativa de fugir de


um balanço analítico e forçar uma contabilidade aritmética. Na
solenidade, Bolsonaro confirmou o 13.º salário para o Bolsa Família, a
independência do Banco Central e o polêmico ensino domiciliar.

Muito além dessas questões pontuais, que geram acalorados


debates, a palavra-chave dos cem dias de Bolsonaro é: ideologia.
Enquanto condena o excesso de ideologia da era PT, o presidente
se pauta, a cada ato, a cada fala, a cada viagem, exatamente por um
excesso de ideologia. Só que do avesso.

Isso causou os piores momentos e as maiores críticas ao início do


governo, com a divulgação de um vídeo asqueroso contra o Carnaval,
os elogios chocantes aos ditadores sanguinários Stroessner e
Pinochet, a constrangedora opinião de que o nazismo era de
esquerda, a veneração quase infantil a Donald Trump, a reinvenção
da diplomacia nas relações com Binyamin Netanyahu. Além de
reinventar a história, Bolsonaro trouxe para a Presidência as suas

40
PARA ENTENDER 2019

crenças pessoais.

O nome mais simbólico desses cem dias não foi de nenhum ministro,
como Paulo Guedes ou Sérgio Moro, nem mesmo do próprio
presidente. Todas as tentativas de decifrar a “nova era” passam
por Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo e agora eminência
parda do governo, capaz de encantar os filhos de Bolsonaro, de
sentar-se no lugar de honra de um jantar para o presidente, de
xingar o vice Hamilton Mourão e generais do governo. E mais: de
nomear os ministros das Relações Exteriores e da Educação, grandes
responsáveis pelo “mar revolto”.

É por excesso de ideologia que o MEC está como está, o Itamaraty


refaz a história e promove dança de cadeiras, o vice, os generais e a
ministra da Agricultura, Tereza Cristina, têm de consertar os erros
com a China e o mundo árabe. E o que Bolsonaro ganha com isso?
Nada além de dor de cabeça e apoio de quem já o apoia.

Um destaque nos cem dias é, inequivocamente, a desenvoltura


dos três filhos mais velhos do presidente. Flávio recuou diante
das confusões do motorista todo-poderoso. Eduardo arvorou-se
chanceler e infiltrou sua turma por toda parte, até na Apex, como
denuncia o embaixador Mário Vilalva, o segundo presidente do
órgão a ser defenestrado em três meses.

Quanto a Carlos, que se refestelou no Rolls-Royce presidencial na


posse: ele cuida da infantaria e da cavalaria da internet. A campanha
acabou, mas o “menino” continua brincando de games contra
inimigos de “esquerda”. Aparentemente, todo mundo que não é
bolsonarista é de “esquerda”, “petista” ou “comunista”.

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PARA ENTENDER 2019

Intrigante é Bolsonaro querer “uma garotada que não se interesse


por política”. Como assim? A política move o mundo. Aliás, seus três
filhos são políticos e ele chegou a emancipar Carlos, aos 17 anos, para
disputar um mandato e virar político. O que é bom para seus filhos
não é bom para os filhos dos outros?

A grande aposta do presidente, porém, nada tem de ideológica: é a


reforma da Previdência, que não é de esquerda, centro ou direita,
nem mesmo do seu governo. É do País.

Até aqui, as previsões de crescimento da economia caem, mês a mês,


enquanto o desemprego resiste, desesperador. Um sintoma de que a
reforma vai ser aprovada e inverter essa tendência é a pergunta que
passou a circular fortemente em Brasília: e depois da reforma, como
vai ficar o governo Bolsonaro? Taí, é uma boa pergunta.

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PARA ENTENDER 2019

Você já foi à Disney?


Na era de redes sociais, o conhecimento de um
lugar não é tão essencial quanto o registro dele
ou seu uso em conversas descoladas

Leandro Karnal
20 de março de 2019

Há um vídeo muito engraçado do mestre Ariano Suassuna narrando,


com sua verve característica, o questionamento enfrentado por
ele sobre nunca ter ido à Disney. Como eu também nunca fui ao
afamado conjunto de parques, já sofri esse “bullying” dos versados
no mundo do Mickey.

Já fiz muitas viagens, talvez até mais do que gostaria. Certa vez, ao
entrar pela terceira vez em Mianmar em 18 meses, imaginei que seria
barrado na alfândega por funcionários convencidos de que ninguém
visitaria tanto a antiga Birmânia se não houvesse um motivo escuso.
Amo culturas distintas e prédios históricos. Adoro descobrir
culinárias e visitar museus. Converso com pessoas de outros países
na rua e quero saber o máximo possível sobre como cada lugar
percebe a realidade. Porém, também sei que chegar ao Rajastão
envolve três aviões, muitas horas no ar, posições incômodas na
poltrona, espera, contratempos, filas, saguões apinhados, multidões
e riscos. Sim, as quatro primeiras vezes em Jaipur são fascinantes. As
seguintes... um pouco menos.

Em jantares e festas, o tema “viagem” é quase obrigatório. Há 20


anos, as pessoas perguntavam por Paris, Londres e Nova York,
basicamente o circuito Elizabeth Arden, como se dizia. No fim

43
PARA ENTENDER 2019

do século 20, o tema Himalaia abandonou a agenda dos hippies


e budistas e ganhou a classe média e alta. O Butão tornou-se
desejável, bem como a árdua caminhada à base do Everest. Bangcoc,
a movimentada capital da Tailândia? Não, isso é “carne de vaca”. O
legal é ver lanternas luminosas em Chiang Mai. Mal você anuncia que
já foi algumas vezes a Chiang Mai e alguém solta: “Mas ficou naquele
hotel que tem um arrozal dentro? Se você não ficou lá, nunca viajou
ao festival”.

Há 20 anos, a gente ia ao Marrocos e suas belezas impactantes.


Conhecíamos os palácios e mercados de Fez e Marrakesh. Era outra
época. Hoje é fundamental passar uma noite ao luar nos montes
Atlas, em famílias de beduínos, de preferência em barracas. “Você
nunca visitou as igrejas subterrâneas da Etiópia? É o lugar mais
incrível do mundo!” Já descobri que o lugar mais incrível do planeta
é sempre aquele exótico que só o narrador conhece. “Conhece
Israel?” “Sim”, respondo eu. “Mas... já foi àquela aldeia de cabalistas
na Galileia e visitou o ateliê do artista tal que faz arte com trechos
sagrados? Se você não fez isso, nunca visitou Israel de verdade...”

Dar uma dica complexa que demonstre intimidade absoluta com um


lugar inacessível é um verdadeiro passaporte do impacto social. Em
era de redes sociais, o conhecimento de um lugar não é tão essencial
quanto o registro dele ou o uso da memória de viagem em conversas
descoladas.

“Essa trilha na Mongólia transforma sua vida. São dias andando nas
estepes sem banho, dormindo em barracas, passando frio, porém,
a experiência é transformadora. É um sofrimento que eleva sua
consciência.” Estou reproduzindo uma conversa exata tida há duas
semanas. “No meio do passeio”, disse-me outra pessoa, “você pode

44
PARA ENTENDER 2019

pegar gelo milenar e colocar no seu uísque”. Bem, não bebo uísque de
fato e preferiria o gelo esterilizado em saquinhos industriais, menos
românticos e mais seguros.

Tenho memórias incríveis de muitas viagens. Chorei em um


crepúsculo na Baía de Halong, no Vietnã. Era muita beleza. No Taiti,
tive uma conversa com um padre nativo sobre a concepção de Deus
que me lembro com afeto até hoje do nosso denso diálogo. Sozinho,
em um balão na Capadócia, o guia turco falou sobre a visão dele do
Islamismo e eu anotava coisas para buscar referências depois. Adorei
a culinária de centenas de lugares. Tendo alguns cuidados sobre
a proporção da pimenta, o resto é puro prazer. Tenho o privilégio
de ter um estômago extraordinário. “Ovos de cem anos” na China
com cheiro igualmente centenário e pretos como a noite? Nham!
Uma tonelada de cardamomo, anis-estrelado e cominho no seu
frango na Índia? Tragam-me mais. Caracóis suculentos na França?
Manteiga de Iaque em Lassa? Por vezes basta bloquear o nariz e
ser feliz. Em outras, no coração da África, do México ou no Norte
do Japão, importante não perguntar muito sobre a qual família
animal pertence aquilo que jaz sobre a mesa. Ignorância pode ser
uma bênção. Uma senhora que viajava comigo, muito religiosa,
perguntou em Ping Yao, no coração da China: “Professor, essa
comida é kasher?”. Eu respondi que não sabia nem se a carne era de
um mamífero...

Não, nunca fui à Disney. Talvez vá em 2020. Tenho uma promessa


feita a meu sobrinho-afilhado Davi. Acho que indo três vezes à
Disney, recebemos o direito de reencarnar em um lugar muito bonito
depois.

Há muita coisa fascinante enterrada em lugares ermos e ruínas

45
PARA ENTENDER 2019

em clareiras no meio do nada. Há passeios de van no meio de ilhas


desabitadas com vistas únicas. Envelheço querendo um pouco mais
de bolo de canela com chá em um bom hotel de Nova York. Sim, você
pode experimentar um simpático hamster (cuy) no Peru, que em
tudo se parece com um rato assado sobre a mesa. É uma experiência
importante. Aliás, tem um restaurante em Lima superescondido... É
preciso ter esperança e um bom estômago...

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