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Acre: artesanato e design

Acre: craft and design

Corrêa, Glaucinei Rodrigues; Mestre; Escola de Design – UEMG


glaucinei.rodrigues@uemg.br

Resumo

O Programa de Artesanato no Acre vem, ao longo dos últimos anos, mudando o cenário do
artesanato acreano e brasileiro. Este artigo trata de três aspectos relacionados a essa temática:
primeiro, a metodologia empregada para o desenvolvimento das atividades no programa, com
ênfase na intervenção do design no artesanato; segundo, o estudo de caso de um dos artesãos
atendidos pelo projeto que tem se tornado referência no Acre e em todo o Brasil; e terceiro, os
resultados do Programa alcançados nos últimos dois anos.

Palavras Chave: artesanato; design; intervenção.

Abstract

Program Crafts in Acre has over the past few years changing the scenario craft acreano and
Brazilian. This article deals with three aspects related to this theme: first, the methodology
used for the development of activities in the program, emphasizing the intervention of the
small craft design; second, the case study of the craftsmen attended the project, which has
become reference in Acre and throughout Brazil; and third, the results of the Program
achieved in the past two years.

Keywords: craft; design; intervention.

Anais do 8º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design


8 a 11 de outubro de 2008 São Paulo – SP Brasil ISBN 978-85-60186-03-7
©2008 Associação de Ensino e Pesquisa de Nível Superior de Design do Brasil (AEND|Brasil)
Reprodução permitida, para uso sem fins comerciais, desde que seja citada a fonte.

Este documento foi publicado exatamente como fornecido pelo(s) autor(es), o(s) qual(is) se responsabiliza(m) pela
totalidade de seu conteúdo. 705
Acre: artesanato e design

CONTEXTO DO ARTESANATO ACREANO


O artesanato acreano tem sua base na grande biodiversidade das florestas locais —
revelada na utilização das matérias-primas naturais, como as sementes, madeiras, fibras,
raízes e cocos — e na cultura material e imaterial1 do povo acreano. A origem do artesanato
no Acre vem dos povos indígenas, por meio dos objetos de uso doméstico, festivo e religioso.
O jamaxi2, o remo, o cesto, o cachimbo e a canoa são alguns desses objetos que marcaram a
história do artesanato e fazem parte da cultura do estado.
Ao longo das últimas décadas, o artesanato no Acre vem passando por diversas fases,
desde a desvalorização dos valores culturais e históricos, marcada por preconceito social em
relação à sua origem, passando por tentativas de valorização, com ações de política pública
compensatória, até os anos mais recentes, em que houve uma grande valorização da floresta,
da história, dos povos indígenas, das raízes, dos heróis do estado e, em decorrência, do
artesanato.
O Programa de Artesanato do Acre3 vem sendo desenvolvido desde 1998. Tem por
objetivo melhorar a qualidade de vida, a auto-estima e a renda dos artesãos. A partir de 2005,
agregou uma série de ações integradas: metodologia específica para o artesanato, integração
das instituições de fomento, aproximação com o mercado atacadista (lojistas e empresas),
desenvolvimento de um website e sustentabilidade comercial do artesanato no Acre. Todas
essas ações fazem parte de um ciclo de atividades que tem como premissas a valorização do
artesanato acreano e a transformação do artesanato em atividade econômica.
Há um acréscimo de conhecimento e amadurecimento do Programa de Artesanato a
cada ano. Além das experiências acumuladas e apreendidas durante as capacitações, há outros
resultados expressivos, por exemplo, o crescente número de artesãos atendidos pelo projeto.
Em 2006, o evento organizado para incrementar a comercialização dos produtos, o Projeto
Comprador, contou com 12 artesãos apresentando 40 produtos. No último evento, realizado
em dezembro de 2007, 23 artesãos apresentaram, aproximadamente, 100 produtos, acusando
um crescimento de 250%.
A criação dos produtos, linhas e coleções têm como foco a exploração da
regionalidade, da história acreana, da cultura e da identidade do produto e dos grupos,
utilizando conceitos de design — pesquisa, observação, atributos de valor, processo criativo,
desenvolvimento de produtos e mercado — para atender o mercado varejista e atacadista.

METODOLOGIA
O método utilizado como referência para o planejamento e a construção das ações de
trabalho foi a pesquisa-ação, que de acordo com Thiollent (1986) é:

Um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em


estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no
qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou problema
estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

Seguindo esse conceito, foram definidas e realizadas as seguintes etapas:


1. Diagnóstico: mapeamento das necessidades
2. Capacitação 1: comportamental, técnicas artesanais e identidade cultural
3. Capacitação 2: design e tecnologia
1
Para Sampaio (2003) cultura é aquilo que os homens criam, atribuem sentido, transformam e podem compreender. Aquilo
que, ao mesmo tempo, faz com que os homens se transformem e possam ser apresentados, conhecidos e compreendidos por
outros homens.
2
Jamaxi é um tipo de cesto cargueiro de três lados utilizado pelos índios.
3
Programa SEBRAE-AC de Artesanato, coordenação geral de Aldemar dos Santos Maciel.

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4. Capacitação 3: gestão e comercialização


5. Acompanhamento: em gestão e design
6. Inserção dos produtos no mercado: feiras, rodadas e eventos
7. Avaliação dos resultados: volume de vendas, postos de trabalhos gerados, média de
preço dos produtos, qualidade de vida e auto-estima dos artesãos
8. Acompanhamento pós-venda: suporte dado ao artesão para garantir a produção e
entrega das encomendas

1ª) Diagnóstico — Consiste em: levantamento, investigação minuciosa sobre as


tradições do grupo, técnicas dominantes, liderança, matérias-primas, processos produtivos,
identidade do produto e do grupo, qualidade dos produtos e fontes de renda do artesão. Esta
etapa é que fornece os subsídios para as demais. O planejamento e as ações futuras dependem
das informações colhidas e investigadas nessa etapa, que tem duração de aproximadamente 20
dias.
2ª) Capacitação 1: comportamental, técnicas artesanais e identidade cultural —
Consiste em três módulos distintos. No primeiro, comportamental, são tratadas questões
relativas ao trabalho em grupo, aspectos psicológicos, motivacionais e de liderança. No
segundo, técnicas artesanais, com base nas observações realizadas na primeira etapa,
identificam-se os grupos ou os artesãos que devem melhorar ou, mesmo, adquirir alguma
técnica específica. No terceiro, identidade cultural, trata-se da história da região, dos
antepassados, das tradições, da arquitetura, dos signos e significados, dos heróis e dos ícones
do povo. Esta etapa é uma preparação, uma base para o começo das atividades ligadas
diretamente ao produto. Cada um dos três módulos tem duração média de uma semana.
3ª) Capacitação 2: design e tecnologia — Consiste em discutir os assuntos relativos
ao produto, ao processo produtivo (tecnologia) e ao mercado (demanda), com base, também,
nas informações apuradas na primeira etapa. Em alguns casos, é preciso dar ênfase a certos
assuntos, acrescentar algum ou retirar outro. De maneira geral, os temas abordados com os
artesãos são: identidade do produto e do grupo; processo criativo, decodificação (abstração);
linha de produto; conceitos de artesanato, mercado; tendências; e desenvolvimento de
produtos e processos produtivos. Nesta fase, inicia-se o trabalho direcionado aos produtos.
Quando o artesão já tem um produto, trabalha-se na melhoria e no aprimoramento de
determinado aspecto específico, por exemplo, acabamento, trama de uma determinada fibra
ou, até mesmo, a necessidade de inserir a identidade regional/local no produto existente. Essa
fase tem duração de uma semana.
4ª) Capacitação 3: gestão e comercialização — Consiste em capacitar os artesãos em
relação à formação de preços (custo da matéria-prima, apontamento de horas trabalhadas e
margens de lucro) e em ministrar-lhes noções de comercialização para prepará-los para
negociar com os lojistas/compradores. Nesta fase, que tem duração de aproximadamente 10
dias, os produtos já estão quase prontos e é possível já se ter uma noção dos custos e despesas
associadas à produção de determinada peça.
5ª) Acompanhamento: de design e de gestão — Consiste em reforçar os conceitos,
assuntos e temas tratados nos módulos anteriores e dar suporte direto para o artesão no que for
necessário no momento. Tem duração de 20 dias.
6ª) Inserção dos produtos no mercado — Consiste principalmente no Projeto
Comprador, evento que reúne os artesãos e os lojistas/compradores com o objetivo de
comercializar os produtos no atacado. Nesta fase, os artesãos já estão com os produtos prontos
para serem comercializados. Os lojistas de todas as regiões do Brasil — previamente
selecionados de acordo com o perfil da loja e dos produtos desenvolvidos pelos artesãos do

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projeto — são convidados a participar do evento, que acontece na região onde os produtos são
desenvolvidos. Geralmente, tem duração de dois dias.
Além da comercialização, o evento tem o caráter de aprendizado, principalmente para
os artesãos. Os lojistas são convidados a visitar todos os artesãos, mesmo que o produto não
seja do seu interesse, e a preencher um relatório com as observações sobre os produtos e os
artesãos. Esse retorno é de fundamental importância para o aprimoramento do evento, para os
organizadores, para os consultores e, principalmente, para os artesãos. Esse feedback direto do
mercado garante que os novos produtos terão maiores chances de sucesso. Durante o evento,
os consultores do projeto (de gestão, comportamental, identidade e design) dão o suporte
necessário aos artesãos.
Outras possibilidades de inserção dos produtos no mercado contemplam o site,
desenvolvido especificamente para o artesanato acreano, no qual os artesãos e lojistas podem
se cadastrar e comercializar os produtos, e o catálogo, que em 2007 contou com a
apresentação de 100 produtos.
7ª) Avaliação dos resultados — Consiste em corrigir e aprimorar, de forma contínua,
as ações do Projeto, com base nos resultados, a partir da utilização de ferramentas, por
exemplo: questionários direcionados especificamente aos lojistas e artesãos, entrevista direta
com os lojistas e os artesãos, planilhas com resultados do volume de vendas, média de venda
por artesão e preço médio de venda por produto. Outra avaliação contempla: qualidade de
vida do artesão e aumento dos postos de trabalho, renda e auto-estima. Esta fase, por tratar-se
de um resultado que não é imediato, geralmente, é feita em longo prazo, no decorrer do
acompanhamento pós-venda.
8ª) Acompanhamento pós-venda — Consiste em oferecer suporte ao artesão para
garantir a organização da produção e a entrega dos pedidos gerados no Projeto Comprador.
O ciclo com as oito etapas tem duração de aproximadamente seis meses, mas pode
variar em relação ao perfil do grupo. Para cada etapa são contratados consultores com
competência, habilidade e experiência necessária para lidar com os temas específicos e gerais
de cada fase.

INTERVENÇÃO DO DESIGN NO ARTESANATO


Para descrever como se dá a intervenção do design no artesanato durante as
capacitações em design e tecnologia, no Programa de Artesanato no Acre, inicialmente,
citam-se alguns trechos de textos de autores que tratam do assunto e que, de alguma maneira,
são referências para as intervenções nessa etapa do processo.
a) Nemer (2003) discorre sobre a importância de ouvir o artesão:

O artesanato é fruto da mão do ser humano e depositário de sua cultura complexa. É


importante conhecer a artesã-bordadeira e ouvi-la, criar meios para fazer emergir o
que ela considera um ícone. Ela é a criadora e só ela poderá ser a intérprete. Ela não
precisa fazer jogos americanos com os principais monumentos de sua cidade. É
preciso acreditar que os ícones vêm da inspiração, vêm do coração, vêm de algum
território misterioso, mas certamente da pessoa que faz. A intervenção adequada
consiste, muitas vezes, em apenas ajudá-la a ver, a aperfeiçoar aquilo que ela faz,
mas sempre respeitando a sua essência. A gente vê logo quando a pessoa sente que,
com a sua intervenção ela cresceu e não, ao contrário, ela se anulou.

O trabalho desenvolvido pela equipe de designers4 no artesanato acreano apóia-se


justamente, como cita o autor, em saber ouvir o artesão, um ouvir com o coração. Em alguns
casos, percebe-se que é isto que ele quer: ser ouvido. Outro fator importante também é
4
Mazarelo Carneiro de Miranda, Glaucinei Rodrigues Corrêa e Jivago Nolli.

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mostrar possíveis caminhos e deixar que o artesão faça sua própria escolha e, jamais,
escolher/fazer por ele.
b) Borges (2006) trata do respeito que se deve ter no momento das intervenções:

Quando a gente não respeita o artesão, estou convencida de que é melhor deixar
quieto do que intervir sem cuidado, com pretensão. O potencial de periculosidade de
uma intervenção mal feita é alto e seus efeitos são muito nocivos.

Ao chegar a determinadas comunidades ou grupos, percebe-se claramente se a


intervenção teve ou não esse respeito pelo artesão.
c) Barroso (1999) aborda a descaracterização do produto:

Como intervir no produto e processo artesanal sem descaracterizá-lo, valorizando e


reforçando as tradições regionais, a habilidade dos artesãos e as relações existentes
no interior dos grupos enfocados?

Essas citações refletem a grande importância que se atribui ao trabalho realizado no


artesanato acreano. Acredita-se que o respeito e a valorização da cultura dos
grupos/sociedades devem constituir a base para todo o desenvolvimento do trabalho. De outra
maneira, os resultados podem ficar incompletos e comprometidos.
O gráfico 1, ilustra como deve ser a relação entre o tipo de artesanato (o valor cultural
do produto) e a intervenção do design. Quanto maior o valor cultural, menor deverá ser a
intervenção. Em alguns casos, por exemplo, produtos de arte popular e artesanato indígena,
nem é preciso acontecer a intervenção.

VALOR CULTURAL X INTERVENÇÃO

Mestres e
artistas populares
Produtos
valor cultural

tradicionais, indígenas
e de referência cultural
Artesanato
contemporâneo
valor cultural

Produtos típicos:
doces, compotas, etc.
Artesanato
estereotipado,
souvenir, industrianato

Interven ão do
intervenção dodesign
designindustrial
industrial

Gráfico 1: Relação entre valor cultural versus intervenção do design industrial. Fonte: Informações de Barroso
(1999). Interpretação e adaptação do autor.

Laraia (1986) afirma que o termo cultura é muito abrangente. Compreende os


processos de aprendizagem, a fala, a história, a arte, a escrita e os idiomas. Para o autor, o
homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado e a manipulação adequada e
criativa do patrimônio cultural permite as inovações e as invenções, que são não o produto da
ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade.
Quando não há o respeito e o limite de interferência é ultrapassado, o artesão não
reconhece aquele trabalho/produto como resultado do seu trabalho. Então, abandona as
atividades e, em alguns casos, mais sérios e críticos, busca outro meio para sobreviver. Ou,

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ainda, quando a intervenção acaba, simplesmente não sabe mais o que fazer. É preciso cuidar
para que o trabalho do designer seja sutil e dê condições de autonomia aos artesãos.
Em relação às possibilidades da aplicação dos conceitos de design ao artesanato,
Freitas (2006) descreve que a atividade de design industrial se concentra na solução de
problemas específicos e concretos, e se preocupa em trabalhar suas descobertas em aplicações
práticas que possam ser colocadas a serviço da produção. Estes conceitos, quando aplicados
ao desenvolvimento do produto artesanal, significam pensar a experimentação, a matéria-
prima, a técnica, o mercado e a comercialização.
E é justamente a experimentação, conforme descreve a autora, que norteia todo o
trabalho. O objetivo é fazer com que o artesão perceba os valores que podem ser inseridos no
produto que ele está desenvolvendo/criando. Para isso, deve levar em consideração a
experimentação, o ensaio e o fazer.
Como referência ao desenvolvimento das atividades com os artesãos durante as
capacitações de design e tecnologia, utilizam-se exatamente esses conceitos, métodos e
metodologias do design industrial adaptados ao produto/processo artesanal.
Keley (2001) descreve a metodologia utilizada por um dos maiores escritórios de
design do mundo, que é composta pelas seguintes etapas: a) compreender o mercado; b)
observar as pessoas reais em situações da vida real; c) visualizar conceitos novos; d) avaliar
e aprimorar os protótipos; e e) implementar o novo conceito. Baxter (1995) considera que à
medida que se têm mais informações sobre o público-alvo, o produto, e o mercado,
aumentam-se as chances de sucesso e diminuem-se os riscos de fracasso do produto em
desenvolvimento.
Em relação ao produto artesanal não é diferente. O artesão tem de compreender o
contexto em que o produto estará inserido; pesquisar a demanda; conhecer o seu público-alvo;
e pesquisar quais são os atributos de valor que definem a compra de um ou de outro produto
artesanal no ponto de venda.
A capacitação em design e tecnologia consiste em dois módulos distintos. O primeiro
enfatiza os conceitos gerais; é a base para que o artesão entenda o processo de
desenvolvimento de produtos aplicado ao artesanato. O segundo, mais objetivo, trata
diretamente das questões relativas ao produto, aos aspectos relacionados à produção e à
comercialização. Ambos têm duração de aproximadamente uma semana. O tempo depende do
perfil do grupo.
No primeiro módulo, as atividades são coletivas. Basicamente, os temas tratados com
os artesãos são:
a) Conceito de artesanato – oferecer subsídio para que o artesão entenda as classificações do
artesanato e faça uma leitura do seu próprio trabalho; e mostrar que para cada tipo de
classificação existe uma estratégia diferente de comercialização.
b) Pesquisa (olhar) – despertar no artesão o olhar do pesquisador, do questionador, uma forma
de ver diferente, investigativa; e exercitar as formas de pesquisar e as fontes de informação.
c) Identidade – valorizar a identidade regional do grupo; e resgatar a cultura material e
imaterial (como os artesãos podem fazer isso).
d) Mercado – fazer com o que o artesão busque informações sobre o mercado (lojistas e
consumidores) e possa questionar: Quem são os compradores do meu produto? Do que eles
gostam? O que preferem? O que valorizam no produto artesanal? Quem são os meus
concorrentes?
e) Tendências – falar sobre tendências é sempre complexo, porque quase sempre se cai no
lugar-comum, nos modismos: Qual é a cor da estação? e Qual é o acabamento que está na
moda? Nesta etapa, tenta-se evitar os modismos e discutir com os artesãos de onde vem a
tendência, porque é importante estar atento às mudanças de comportamento dos

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consumidores, ao modo como afetam as tendências e como eles (artesãos) podem observar
essas mudanças.
f) Linha de produtos – fazer com que o artesão perceba quais são os elementos essenciais
para criar uma linha de produtos, como trabalhar, desenvolver e aplicar esses elementos que
caracterizam a linha ou coleção, como se faz a abstração ou decodificação de formas/figuras
de ícones para que sejam aplicados em produtos artesanais.
g) Desenvolvimento de produtos – repassar os conceitos e a metodologia que envolve todas
as etapas para o desenvolvimento do produto artesanal. É nesta fase que o artesão começa a
desenvolver seu produto ou aprimora o produto existente. Os assuntos tratados/abordados vão
desde a criação do produto, pesquisa, materiais, processo de produção e técnicas até a
embalagem final do produto.
O segundo módulo é direcionado especificamente ao produto. Compreende
atendimentos individuais, com o objetivo de rever os produtos, formas, técnicas, materiais,
tecnologia empregada, linha de produtos, qualidade e acabamentos. Também orienta os
artesãos no melhoramento dos protótipos e na finalização dos produtos.

ESTUDO DE CASO
Paulo Sérgio foi um dos artesãos participantes dos Programas em 2006/2007 que, na
opinião dos lojistas/compradores, mais destacou no último Projeto Comprador. Começou a
participar timidamente, mas revelou-se um artista. As figuras a seguir ilustram os produtos
que ele apresentou nas primeiras capacitações.

Figura 1: Produtos do artesão Paulo Sérgio anteriores a participação no projeto. Fonte: Arquivo do autor.

O artesão utiliza como matéria-prima principal o cupuaçu.5 Percebem-se em seu


trabalho habilidade, domínio da técnica e preocupação em utilizar elementos simbólicos
locais, como o mapinguari6 (figura 1), desenhado em um dos objetos. Mas os desenhos, os
acabamentos, as cores e o verniz não são apropriados/adequados quando se trata de um
produto que tem como meta atingir o mercado nacional.

5
Cupuaçu é o fruto de uma árvore originária da Amazônia brasileira (Theobroma grandiflorum). A árvore é conhecida como
cupuaçuzeiro. Os frutos, que surgem de janeiro a maio, apresentam forma esférica ou ovóide e medem até 25 cm de
comprimento, tendo casca dura e lisa, de coloração castanho-escura.
6
Os caboclos o descrevem como um bicho semelhante a um homem com o corpo coberto de pêlos, como um grande macaco,
e com apenas um olho bem no meio da testa.

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Figura 2: Outro produto do artesão Paulo Sérgio anterior à participação no projeto. Fonte: Arquivo do autor.

Figura 3: Foto do artesão Paulo Sérgio com os produtos desenvolvidos ao final da primeira capacitação em
design e tecnologia, em 2006. Fonte: Arquivo do autor.

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Figura 4: Produtos do artesão Paulo Sérgio que foram expostos e comercializados durante o Projeto Comprador
de 2006. Fonte: arquivo do autor.

Este conjunto de imagens (figura 4) já revela uma alteração não só no produto do


artesão, como também nos acabamentos empregados. A matéria-prima é exatamente a
mesma, o cupuaçu. Esses objetos, em sua maioria, não fizeram sucesso, mas foram
indicadores valiosos de que o artesão estava num processo de mudança, de amadurecimento.
Uma grande empresa nacional, que tem lojas espalhadas por 17 estados brasileiros encantou-
se com os produtos denominados “bichos”.
Nesta figura, há, no canto superior direito, um tatu, que é um porta-lápis, e um
porquinho, que é um suporte para papéis e recados. A partir dessas experimentações, o artesão
começou a criar/desenvolver a linha de produtos “os bichos”. Nas capacitações de design
durante o ano de 2007, as orientações para o artesão foram direcionadas para que ele pudesse
desenvolver novos produtos tendo como referência a mesma matéria-prima e tema.

Figura 5: Produto do artesão Paulo Sérgio desenvolvido durante as capacitações de design e comercializado no
Projeto Comprador de 2007. Jaboti feito de cupuaçu e madeira de algodoeiro.
Fonte: Catálogo SEBRAE-AC, foto de Jivago Nolli.

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Os produtos mostrados nas figuras 5 e 6 fazem parte de uma coleção desenvolvida


pelo artesão, que foi exposta e comercializada durante o Projeto Comprador de 2007. O
sucesso alcançado pelo artesão Paulo Sérgio com seus produtos foi enorme. Sem exceção,
todos os lojistas o elogiaram, passando a considerá-lo um artista.

Figura 6: Produto do artesão Paulo Sérgio desenvolvido durante as capacitações de design e comercializado no
Projeto Comprador de 2007. Paca feita de cupuaçu e madeira de algodoeiro. Fonte: Catálogo SEBRAE-AC, foto
de Jivago Nolli.

O sucesso deste artesão torna-se ainda mais reconhecido quando se tem a oportunidade
de examinar o local onde ele mora, cria, desenvolve e fabrica seus produtos (figura 7).

Figura 7: A casa do artesão Paulo Sérgio e o local de trabalho (embaixo da árvore) à esquerda.
Fonte: arquivo do autor.

Durante as capacitações, é comum alguns artesãos reclamarem da falta de ferramentas,


equipamentos e máquinas adequadas para o trabalho ser realizado com mais qualidade.
Imaginam que a solução está neste item. Em muitos casos, porém, a solução está mais na
criatividade e na habilidade do artesão, na sua vontade, percepção, simplicidade, humildade e
forma de resolver as dificuldades e agruras da atividade artesanal.

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Como se pode perceber na figura 8, o artesão adaptou facas comuns, de uso cotidiano,
para serem as ferramentas de trabalho. Essas ferramentas são exatamente o instrumental que o
artesão utiliza para dar forma à sua criatividade.

Figura 8: Ferramentas de trabalho do artesão Paulo Sérgio. Fonte: arquivo do autor.

Outro ponto importante é a disponibilidade de matéria-prima. Freqüentemente, a


matéria-prima disponível atende apenas à demanda habitual. Se, eventualmente, ocorre uma
encomenda um pouco maior, o artesão não tem condições de atender.

Figura 9: Produto do artesão Paulo Sérgio. Tartaruga-preta feita com coco, madeira de algodoeiro e semente.
Fonte: Catálogo SEBRAE-AC, foto de Jivago Nolli.

É o caso do fruto do cupuaçu. Nos meses de janeiro a maio, a oferta é abundante na


região. Porém, nos outros meses, será que dá para o artesão fazer um estoque para atender aos
pedidos? A resposta não é simples, porque depende de vários fatores, por exemplo:
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quantidade de pedidos, local adequado para armazenagem e tratamento adequado para


conservar o fruto.
Foi devido à escassez desta matéria-prima na maior parte do ano que orientamos o
artesão a desenvolver produtos utilizando outras matérias-primas. Dessa experimentação e
pesquisa, o artesão criou a linha “tartarugas” (figura 9), utilizando o coco, que se encontra
disponível durante todos os meses do ano, tornando-se uma matéria-prima alternativa para o
artesão.

RESULTADOS
Os gráficos mostrados a seguir indicam os resultados alcançados com o Projeto de
Artesanato no Acre, revelando os números do evento: quanto vendeu cada artesão, média de
preço por produto, valor total comercializado e quantidade de produtos vendidos, entre outros.
Ainda não foi possível avaliar/medir outros aspectos, como: quantos postos de trabalho foram
criados e se a qualidade de vida do artesão melhorou. Mas os resultados são bons indicadores
de que a metodologia empregada está correta.

VOLUME DE NEGÓCIOS

R$ 104.576,98

R$ 27.855,00

275%

PROJETO COMPRADOR 2006 PROJETO COMPRADOR 2007 EVOLUÇÃO

Gráfico 2: Comparativo entre 2006 e 2007, demonstrando o volume de venda gerado durante os eventos nos
respectivos anos. Fonte: SEBRAE-AC.

O gráfico 2 demonstra o volume de vendas gerado somente nos dias do evento. O


Projeto Comprador I teve em 2006 duração de apenas um dia, contra dois dias na versão
2007. Valem ressaltar outras diferenças significativas: em 2006, 12 artesãos expuseram 25
produtos e 5 lojistas participaram das negociações; em 2007, 25 artesãos, com
aproximadamente 100 produtos e 15 lojistas.

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PEÇAS VENDIDAS

6092

2474

146%

PROJETO COMPRADOR 2006 PROJETO COMPRADOR 2007 EVOLUÇÃO

Gráfico 3: Comparativo demonstrando a quantidade de peças vendidas. Fonte: SEBRAE-AC.

PREÇO MÉDIO

R$ 17,17

R$ 11,26

52%

PROJETO COMPRADOR 2006 PROJETO COMPRADOR 2007 EVOLUÇÃO

Gráfico 4: Comparativo demonstrando o preço médio de cada peça vendida. Fonte: SEBRAE-AC.

O gráfico 4 mostra o preço médio de cada peça vendida. Talvez este dado seja o mais
importante e significativo em se tratando do assunto “Intervenção do design no artesanato”.
Os números indicam que houve um acréscimo de 52% de um ano para outro. Isso significa
que o artesão conseguiu inserir em seu produto mais valor e, principalmente, que esse valor
foi percebido pelos lojistas/compradores. Os resultados apontam que o trabalho de
intervenção do design no artesanato atingiu o objetivo proposto, pois agregou valor ao
produto. Como resultado direto, tem-se o aumento da fonte de renda dos artesãos e,
conseqüentemente, a melhoria da auto-estima.

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MÉDIA DE VENDA POR ARTESÃO

R$ 5.228,85

R$ 2.321,25

125%

PROJETO COMPRADOR 2006 PROJETO COMPRADOR 2007 EVOLUÇÃO

Gráfico 5: Comparativo demonstrando a média vendida por artesão. Fonte: SEBRAE-AC.

PÚBLICO ATENDIDO

150

85

76%

PROJETO COMPRADOR 2006 PROJETO COMPRADOR 2007 EVOLUÇÃO

Gráfico 6: Comparativo demonstrando quantos artesãos foram atendidos nos respectivos anos.
Fonte: SEBRAE-AC.

O gráfico 6 indica quantos artesãos foram atendidos nos anos de 2006 e de 2007. Para
os eventos de comercialização Projetos Compradores, somente participaram os artesãos que
tiveram bons resultados, ou seja, produtos de qualidade e que estavam de acordo com as
características dos eventos. Os demais artesãos são direcionados ao ciclo de atividades nos
anos posteriores, para que possam aprimorar e participar dos outros eventos de
comercialização.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acredita-se que os objetivos do Programa de Artesanato no Acre — valorizar o
artesanato; e melhorar a qualidade de vida, auto-estima e renda do artesão — estão sendo
atendidos, que a metodologia empregada está, de certo modo, correta e que a intervenção do
design no produto de artesanato está acontecendo de forma adequada.
Reconhece-se, porém, que há muito caminho a ser percorrido e que questões
fundamentais devem ser respondidas em relação ao artesanato e à interferência do design, por
exemplo: Como tornar o artesão totalmente autônomo em relação a este processo? Como
determinar com precisão o limite de interferência? Até quando será necessária a aplicação
dessa metodologia?
Além dos resultados numéricos e práticos, há outros, também muito significativos, que
não podem ser descritos em palavras senão pela emoção: os artesãos, com os olhos cheios de
lágrimas ao final do evento, lágrimas de felicidade, de esperança de que as coisas podem ser
diferentes e que há um processo de mudança do qual estão fazendo parte.

REFERÊNCIAS

BARROSO NETO, E. Design, Identidade, Cultura e Artesanato. Primeira Jornada Ibero-


americana de Design no Artesanato. 1999.

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