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FICHAMENTO

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos 1750-


1880. 16. ed. São Paulo: FAPESP; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2017.
Capítulo IX – O INDIVÍDUO E A PÁTRIA
1) O nacionalismo literário
2) O Romantismo como posição do espírito e da sensibilidade
3) As formas de expressão
O nacionalismo literário
[O movimento arcádico brasileiro foi o precursor do Romantismo ao utilizar a literatura
como um “recurso de valorização do país – quer no ato de fazer aqui o mesmo que se
fazia na Europa culta, quer exprimindo a realidade local. O período que se abre à nossa
frente prolonga sem ruptura essencial este aspecto, exprimindo-o todavia de maneira
bastante diversa, graças a dois fatores novos: a Independência e o Romantismo,
desenvolvido este a exemplo dos países de onde nos vem influxo de civilização.” (327)]
Graças ao Romantismo, a nossa literatura pôde se adequar ao presente. Por outro lado,
essas tendências reforçaram as que se vinham acentuando desde a segunda metade do
século XVIII. Assim como a Ilustração favoreceu a aplicação social da poesia, voltando-
a para uma visão construtiva do país, a Independência desenvolveu nela, no romance e
no teatro, o intuito patriótico, ligando-se deste modo os dois períodos [Arcadismo e
Romantismo], por sobre a fratura expressional, na mesma disposição profunda de dotar
o Brasil de uma literatura equivalente às europeias, que exprimisse de maneira adequada
a sua realidade própria ou como então se dizia, uma “literatura nacional”. (327)
// Macedo Soares: As nossas raízes são “dúplices”, devendo o poeta, se quiser ser
nacional, harmonizar as indígenas com as portuguesas. (328)
“Quanto à natureza, considerada como elemento da nacionalidade da literatura, onde ir
buscá-la mais cheia de vida, beleza e poesia [...] do que sob os trópicos?” (328) [1857]
Com efeito, a literatura foi considerada parcela dum esforço constitutivo mais amplo,
denotando o intuito de contribuir para a grandeza da nação. Manteve-se durante todo o
Romantismo este senso de dever patriótico, que levava os escritores não apenas a cantar
a sua terra, mas a considerar as suas obras como contribuição ao progresso. Construir
uma “literatura nacional” é afã, quase divisa, proclamada nos documentos do tempo até
se tornar enfadonha. (328)
(...) essa geração punha no culto à ciência o mesmo fervor com que venerava a arte
(329)
A Independência importa de maneira decisiva no desenvolvimento da ideia romântica,
para a qual contribuiu pelo menos com três elementos que se podem considerar como
redefinição de posições análogas do Arcadismo: (...) (329)
Um grupo em Paris
Só se pode falar em literatura nova, entre nós, a partir do momento em que se adquiriu
consciência da transformação e claro intuito de promovê-la, praticando-a
intencionalmente. Foi o que fez em Paris, de 1833 a 1836, mais ou menos, um grupo de
jovens: Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre,
Francisco de Sales Torres Homem, João Manuel Pereira da Silva, Cândido de Azeredo
Coutinho, sob a liderança do primeiro. (...) cabendo certamente a Magalhães a intuição
decisiva de que elas correspondiam à intenção de definir uma literatura nova no Brasil,
que fosse no plano da arte o que fora a Independência na vida política e social.
(329)
Para esta verificação, já os predispunham a doutrina e o exemplo de Ferdinand Denis e
os franco-brasileiros, reapreciando e valorizando a tradição indianista de Basílio e
Durão (329)
[Em] uma comunicação ao Instituto Histórico de Paris, sobre o estado da cultura
brasileira (...) se exprime o tema proposto por Denis na História literária: há no Brasil
uma comunidade literária, um conjunto de manifestações do espírito provando a nossa
capacidade e autonomia em relação a Portugal. Exprime-se, de modo vago e implícito, a
ideia (acentuada por Denis apenas na parte relativa ao Indianismo) de que alguns
brasileiros, como Durão, Basílio, Sousa Caldas, José Bonifácio, haviam mostrado o
caminho a seguir, quanto a sentimentos e temas. Bastava prosseguir no seu esforço,
optando sistematicamente pelos assuntos locais, o patriotismo, o sentimento religioso.
(330)
[Com a Niterói,] Estava lançada a cartada, fundindo medíocre, mas fecundamente, para
uso nosso, o complexo Schlegel-Staël-Humboldt-Chateaubriand-Denis. (331)
(...) desprezando a regra universal, a arte das impressões pessoais e intransmissíveis
descia sobre a nossa pequena e débil literatura. (331)
(...) a renovação literária designada genericamente por Romantismo – nome adequado e
insubstituível, que não deve porém levar a uma identificação integral com os
movimentos | europeus, de que constitui ramificação cheia de peculiaridades. Tendo-se
originado de uma convergência de fatores locais e sugestões externas, é ao mesmo
tempo nacional e universal [europeia]. O seu interesse maior, do ponto de vista da
história literária e da literatura comparada, consiste porventura na felicidade com que as
sugestões externas se prestaram à estilização das tendências locais, resultando um
momento harmonioso e íntegro, que ainda hoje parece a muitos o mais brasileiro, mais
autêntico entre os que tivemos. (332)
Os contemporâneos intuíram ou pressentiram esse fato, arraigando-se em consequência
no seu espírito a noção de que fundavam a literatura brasileira. Cada um que vinha –
Magalhães, Gonçalves Dias, Alencar, Franklin Távora, Taunay – imaginava-se detentor
da fórmula ideal de fundação, referindo-se invariavelmente às condições previstas por
Denis e retomadas pelo grupo da Niterói: expressão nacional autêntica. (332)
O Romantismo brasileiro foi (...) tributário do nacionalismo. (...) Nem é de se espantar
que assim fosse, pois sem falar da busca das tradições nacionais e do culto da história, o
que se chamou em toda a Europa “despertar das nacionalidades”, em seguida ao
terremoto napoleônico, encontrou expressão no Romantismo. Sobretudo em países
novos e nos que adquiriram ou tentaram adquirir independência, o nacionalismo foi
manifestação de vida, exaltação afetiva, tomada de consciência, afirmação do próprio
contra o imposto. (332)
Descrever costumes, paisagens, fatos, sentimentos carregados de sentido nacional, era
libertar-se do jugo da literatura clássica, universal, comum a todos, preestabelecida,
demasiado abstrata – afirmando em contraposição o concreto espontâneo, característico,
particular. (...) tais necessidades de individuação nacional iam bem com as
peculiaridades da estética romântica. (333)
Dentre os temas nacionais, onde esta imaginação se movia por dever e prazer, ocorriam
alguns prediletos. A celebração da natureza, por exemplo, seja como realidade presente,
seja evocada pela saudade, em peças que ficaram entre as mais queridas, como Canção
do Exílio e O gigante de pedra, de Gonçalves Dias, (...). (334)
(...) Esta tendência define um desejo de individuação nacional, a que corresponde o de
individuação pessoal: libertação graças à definição da autonomia estética e política
(expressa principalmente pelo Indianismo) e a conquista do direito de exprimir direta e
abertamente os sentimentos pessoais (manifesta sobretudo nas tendências propriamente
românticas do lirismo individual). (338)
O Romantismo como posição do espírito e da sensibilidade
(...) visava a redefinir não só a atitude poética, mas o próprio lugar do homem no mundo
(341)
(...) concebe de maneira nova o papel do artista e o sentido da obra de arte, pretendendo
liquidar a convenção universalista (...) em benefício de um sentimento novo, embebido
de inspirações locais, procurando o único em lugar do perene. (341)
Era o êxito do irregular e do diferente, sobre a uniformidade que o Classicismo
pretendeu eternizar.
(...) um novo estado de consciência, cujos traços porventura mais salientes são o
conceito do indivíduo e o senso da história. Por isso, individualismo e relativismo
podem ser considerados a base da atitude romântica, em contraste com a tendência
racionalista para o geral e o absoluto. (341)
 Natureza:
Para a estética setecentista, nutrida dos ideais clássicos, havia na verdade dois termos
superiores: natureza e arte, concebida como artesanato; o artista era um intermediário
que desaparecia teoricamente na realização. O amor, a contemplação, o pensamento
tinham alcance, não na medida em que eram manifestação de uma pessoa, mas na
medida em que existiam num soneto, numa ode ou numa écloga; a imaginação humana
se satisfazia com o ato de plasmar a forma artística correspondente. (342)
Para a estética romântica, todavia, o equilíbrio dos termos se altera; importam agora a
natureza e o artista; de permeio, a arte, sempre aquém da ordem de grandeza que lhe
competia exprimir e, por isso mesmo, relegada a plano secundário.
Paralelamente, altera-se o conceito de natureza. Em vez de ser, como para os
neoclássicos, um princípio, uma expressão do encadeamento das coisas, apreendido
pela razão humana, que era um de seus aspectos, torna-se cada vez mais, para os
românticos, o mundo, o cosmos, a natureza física cheia de graça e imprecisão, frente à
qual se antepõe um homem desligado, cujo destino vai de encontro ao seu mistério. O
individualismo, destacando o homem da sociedade ao forçá-lo sobre o próprio destino,
rompe de certo modo a ideia de integração, de entrosamento – quer dele próprio com a
sociedade em que vive, quer desta com a ordem natural entrevista pelo século XVIII.
(342)
A “missão do vate”
Essencialmente lírica, a atitude romântica propriamente dita se revela melhor na poesia,
no drama e nos romances de tendência poética. Analisemos a figura ideal do poeta
romântico, para compreendermos o escritor romântico de modo geral.
A contribuição típica do Romantismo para a caracterização literária é o conceito de
missão. Os poetas se sentiram sempre, mais numas fases que noutras, portadores de
verdades ou sentimentos superiores aos dos outros homens: daí o furor poético, a
inspiração divina, o transe, alegados como fonte de poesia. Nas épocas de equilíbrio,
como o Neoclassicismo, estas interpretações funcionam como simples recurso estético,
requeridas em certas formas, como o ditirambo. (...) O poeta romântico não apenas
retoma em grande estilo as explicações transcendentes do mecanismo da criação, como
lhes acrescenta a ideia de que a sua atividade corresponde a uma missão de beleza, ou
justiça, graças à qual participa duma certa categoria de divindade. Missão puramente
espiritual, para uns, missão social, para outros – para todos, a nítida representação de
um destino superior, regido por uma vocação superior. É o bardo, o profeta, o guia. Por
isso, sua atitude inicial é a tendência para o monólogo. Monólogo capcioso, é verdade,
na medida em que pressupõe auditores; verdadeiro monólogo de palco, em cujo fundo
fica implícito o diálogo. Não diálogo sociável, com um semelhante, uma pastora, mas
com algo que eleve a própria estatura do poeta. (344)
Revisão do mundo
O verbo literário, simples medianeiro entre a natureza e o intérprete, vai perder a
categoria quase sagrada que lhe conferia a tradição clássica. (346)
Os românticos, porém, operando uma revisão de valores, não apenas veem coisas
diferentes no mundo e no espírito, como desejam imprimir à sua visão um selo próprio e
de certo modo único, desde que a literatura consiste, para eles, na manifestação de um
ponto de vista, um ângulo pessoal. (346)
O sol nunca mais poderá ser a “lâmpada febeia”, porque só interessa na medida em que
iluminou um certo lugar, onde se deu algo, que nunca mais ocorrerá. As imagens do
arsenal clássico pressupunham relativa fixidez do sentimento, sempre capaz de passar
pelos mesmos estados. O Romantismo, impregnado de relativismo, possui em grau mais
elevado que os clássicos a dolorosa consciência do irreversível; cada situação, diríamos
retomando o exemplo acima, tem o seu próprio sol, específico, intransferível. Daí a
noção de que a palavra é um molde renovável a cada experiência, permanecendo sempre
aquém da sua plenitude fugaz e irreproduzível. (346-347) // [experiência de Tuan]
A mudança mais ou menos brusca no ritmo de vida econômica e social, com o advento
da mecanização, tornou obsoletos um sem-número de valores centenários, alterando de
repente a posição do homem em face da natureza. (...) (347)
No início do Romantismo (...) a atitude mais corrente foi a busca de abrigo contra o
tempo na contemplação do eu ou do mundo, revistos em todos os sentidos. A natureza
superficial e polida dos neoclássicos parece percorrida de repente por um terremoto: o
que se preza agora são os seus aspectos agrestes e inacessíveis – montanha, cascata,
abismo, floresta, que irrompem de colinas, prados e jardins. A casta lua, a antiga Selene,
sofre com a poesia das noites uma individualização que a banha de magia. Deixa de ser
a referência unívoca, a divindade imutável de todos os momentos, para se tornar uma
realidade nova a cada experiência, soldando-se ao estado emocional do poeta. (348)
É que o poeta romântico procura, como ficou dito, refazer a expressão a cada
experiência. Para isto, rejeita o império da tradição e reconhece autoridade apenas na
própria vocação, no gênio. A ideia de que a criação é um processo mágico, pelo qual
ganham forma as misteriosas sugestões da natureza e da alma, a ideia, em suma, do
poeta mediúnico, é frequente no Romantismo. (349)
Dessa vocação mediúnica provém uma nova marca da natureza na sensibilidade
romântica: o sentimento do mistério. Enquanto a natureza refinada do Neoclassicismo
espelha na sua clara ordenação a própria verdade (real = natural), acolhendo e abrigando
o espírito, para o romântico ela é sobretudo uma fonte de mistério, uma realidade
inacessível, contra o qual vem bater inutilmente a limitação do homem. Ele a procura,
então, nos aspectos mais desordenados, que, negando a ordem aparente, permitem uma
visão mais profunda. Procura mostrá-la como algo convulso, quer no mundo físico, quer
no psíquico: tempestade, furacão, raio, treva, crime, desnaturalidade, desarmonia,
contraste. Em lugar de senti-la como problema resolvido, à maneira do neoclássico,
adora-a e renega-a sucessivamente, sem desprender-se do seu fascínio nem pacificar-se
ao seu contato. (349) // hinos de GD
(...) abdicação dos aspectos racionais da atividade em troca da vertigem, pois se a
natureza se fecha ante as nossas perguntas, não a conseguiremos apreender
racionalmente, mas apenas deixando-nos ir à mesma irracionalidade que parece ser a
sua essência. (349-350)
De qualquer modo, a natureza é sempre algo supremo que o poeta procura exprimir e
não consegue: palavra, o molde estreito de que ela transborda, criando uma consciência
de desajuste. Boa parte do “mal do século” provém desta condição estética:
desconfiança da palavra em face do objeto que lhe toca exprimir. Daí o desejo de fuga,
tão encontradiço na literatura romântica sob a forma de invocação da morte, ou
“lembrança de morrer”; há nela uma corrente pessimista, para a qual a própria vida
parece o mal. (350)