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Disciplina: GÊNERO E REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

Sigla: HUM06015 Créditos: 4 / Carga Horária: 60h

Professora Responsável: JUSSARA REIS PRA

Trabalho Final (Individual)

Michele Savicki – matrícula nº 180213

1ª parte: Considerando os assuntos abordados em aula, discorra sobre


os seguintes temas.

A) Diante do quadro de sub-representação política das mulheres,


especialmente no contexto brasileiro, quais políticas públicas você sugere que
poderiam ser adotadas para promover o empoderamento/participação política
das mulheres? Sugestão: Discorra sobre o quadro e apresente as possíveis
estratégias.

Cada vez mais, ouvimos falar que as mulheres “estão conquistando o


mundo”, que não há mais limites para o “sexo frágil”, o qual está ocupando
espaços que até então eram unicamente masculinos. Todavia, se olharmos os
dados da realidade, tais comentários não se confirmam. Apesar de as mulheres
realmente estarem presentes em espaço que antes eram proibidas de ocupar,
fossem tais proibições legais ou culturais, o que se percebe é que ainda há
uma grande lacuna entre espaços ditos masculinos e femininos; essa
diferenciação se dá no acesso a empregos, a salários mais elevados, a cargos
de gestão, e, também, na participação política.
Muito embora as mulheres representem cerca de 52% do eleitorado
brasileiro, estas só ocupam a parcela de 9% dos cargos no Poder Legislativo
no Brasil. Se olharmos para o Poder Executivo, o resultado é bastante
semelhante: 9,2% das Prefeituras são ocupadas por mulheres (Inter-
Parliamentary Union apud Alves e Araújo, 2009). Porém, tal realidade não se
verifica somente no Brasil. De acordo com dados do Inter-Parliamentary Union
(2009), em 2008 somente 18,4% das posições nos parlamentos no mundo
inteiro era ocupada por mulheres. Ainda que isso represente um avanço em
relação à realidade brasileira, o número é bastante inferior ao que seria uma
representação igualitária.
Dentro desse contexto, inúmeros países tiveram a iniciativa de adotar
mecanismos de cotas de representação, e com sucesso, sobretudo em relação
Angola, Moçambique e Ruanda – este último que possui o maior percentual de
participação feminina, cerca de 57% (Inter-Parliamentary Union apud Alves e
Araújo, 2009).
Ocorre que a adoção de tais cotas, por si só, pode não ser o suficiente
para causar impacto efetivo na sub-representação parlamentar feminina. O que
ocorreu no Brasil é uma exata ilustração: nem sempre uma lei de forma isolada
é capaz de modificar uma cultura. A partir das eleições de 2014, os Partidos
Políticos foram obrigados a apresentar no mínimo 30% dos seus candidatos de
cada sexo. Contudo, o número de representantes femininas não cresceu, o que
se deve a uma taxa de sucesso das candidatas muito inferior a dos candidatos
e a ausência de cotas para a ocupação dos cargos de representação.
Dessa forma, é necessário conceber as iniciativas enquanto políticas
públicas coordenadas e organizadas por inteiro, com suporte, financiamento e
controle e que vise atingir a questão da sub-representação como um todo, não
somente ações isoladas e sem conexão entre si. Não se trata de ignorar a
importância da existência de um regramento em relação a proporcionalidade
dos candidatos apresentados aos e às eleitoras, mas de ressaltar que tão
somente essa modificação não provoca real mudança.
É importante que, nesse contexto, seja estabelecido um mínimo de
proporcionalidade dos próprios representantes parlamentares, e não só nas
candidaturas. Ainda, é vital que se realize medida semelhante em relação à
regulação dos cargos no Poder Executivo, sobretudo naquelas posições de
livre provimento da Presidência da República, Governo dos Estados e
Prefeituras, como Ministros de Estado e Secretários. Não basta tão somente a
adoção de tal critério na escolha pontual dos cargos enquanto medida de
governo, mas sim a instituição de regramento para que se torne uma exigência
de Estado a presença de mulheres de forma proporcional em tais cargos.
No que se refere a outras esferas e em paralelo e de forma não
excludente às medidas supracitadas, é importante que se estimule a
participação feminina em atividades de representação desde o espaço escolar.
Tal local é o primeiro momento em que os jovens tem contato com a esfera
pública, sendo oportunidade ímpar para estimular mulheres desde cedo a
participarem, assim como para os homens reconhecerem tratar-se de um
espaço destinado a todos e todas. Iniciativas já existentes como o “vereador
por um dia” podem ser aproveitados e realizados também com um recorte
específico destinado ao público feminino de modo a trazer tal benefício.
Mostra-se imprescindível que haja um verdadeiro rompimento entre a visão de
que a dinâmica social retrógrada em que o homem tem o monopólio do espaço
público, sendo papel da mulher somente atuar na esfera privada. Tal
rompimento somente ocorrerá, contudo, caso haja esforço verdadeiro para que
se modifique a estrutura do espaço em si (cotas e medidas afirmativas) e a
representação cultural desse espaço (educação).

B) Escolha uma problemática relacionada às questões de gênero (com


exceção da questão política solicitada no ponto anterior) e expresse o seu
entendimento desta a luz da reflexão das autoras(es)/teorias discutidos em
aula. Sugestões de temas: dicotomia publico/privado, diversidade dos
feminismos, transversalidade de gênero nas políticas públicas, direitos sexuais
e reprodutivos, mulheres e mercado de trabalho etc.

No que tange aos espaços ocupados pelas mulheres, não há dúvidas de


que uma das principais mudanças sociais diz respeito à entrada da mulher no
mercado de trabalho. Se na década de 70 somente 18,5% das mulheres eram
economicamente ativas, em 2014 o percentual chegou a 57% (Ministério do
Trabalho e Previdência Social, 2016). A parcela ainda é inferior à masculina, já
que em 2014 cerca de 80% dos homens eram economicamente ativas. No
entanto, não é este o principal indicativo de que a desigualdade ainda persiste.

Apesar da população feminina economicamente ativa ser cada vez


maior, as mulheres, em especial mulheres negras, ainda são maioria a ocupar
trabalhos precários, entendidos enquanto aqueles sem carteira de trabalho
assinada ou trabalhos autônomos com renda de até dois salários mínimos
mensais; enquanto cerca de 35% das mulheres exerce trabalho precário, o
correspondente de homens é de 20% (Ministério do Trabalho e Previdência
Social, 2016).

A diferença de remuneração entre homens e mulheres constitui dado


também bastante marcante. Mais uma vez, as mulheres, em especial mulheres
negras, constituem a parcela da população mais precária, ou seja, com
menores salários. Em 2014, as mulheres no geral recebiam somente cerca de
65% do salário dos homens no geral; por sua vez, mulheres negras recebiam
na média somente 40% do salário de homens brancos (Ministério do Trabalho
e Previdência Social, 2016). Tais dados, que demonstram a desigualdade
ainda existente entre mulheres e homens no mercado de trabalho, se repetem
em outras situações, por exemplo, ao analisar o percentual de mulheres em
cargos de chefia.

Para entender tais diferenciações, faz-se necessário recorrer ao conceito


de gênero, o qual, conforme Joan Scott, é elemento constitutivo de relações
sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, bem como uma
forma primeira de significar as relações de poder (SCOTT, 1990). O gênero,
embora criado a partir de uma vinculação com o sexo biológico, não
corresponde a este. Em verdade, o gênero consiste em um papel social
culturalmente construído e atribuído a determinado sexo; no entanto, não há
vinculação necessária entre ambos. Podemos dizer ainda que “gênero refere-
se à institucionalização social das diferenças sexuais” (OKIN, 2008).

Em termos práticos: ao gênero feminino atribuem-se características


como a delicadeza, a maior habilidade em relacionamentos pessoais, a menor
habilidade em liderança, a obrigação em cuidar da família e dos filhos, dentre
outras. Tal papel de gênero é atribuído, historicamente, à mulher, sendo que
não necessariamente uma pessoa do sexo biológico feminino vá possuir
qualquer uma das características citadas.

Pode-se afirmar que a configuração do trabalho tal como o conhecemos


hoje, tendo em foco as peculiaridades do trabalho exercido pela mulher,
apresenta relação direta com a divisão sexual do trabalho e seus
desdobramentos posteriores. Teve início, assim, com o surgimento da
sociedade capitalista, através do desenvolvimento de atividades mercantis e da
industrialização. Na medida em que a produção deixou de estar ligada ao
ambiente doméstico, tornando-se externa a este, verificou-se a separação
entre o espaço de produção e o espaço de reprodução. O primeiro tinha lugar
na esfera pública, e dizia respeito ao trabalho assalariado, sendo um espaço
predominante masculino; por sua vez, o espaço de reprodução dizia respeito
ao ambiente privado, em que mulheres exerciam atividades 'não econômicas'
tipicamente relacionadas a tarefas de cuidados. Surgiu, assim, o que hoje se
conceitua como ‘divisão sexual do trabalho’; a esse respeito:

“Embora a divisão sexual do trabalho tenha sido objeto de


trabalhos precursores em diversos países, foi na França, no
início dos anos 1970, sob o impulso do movimento feminista,
que surgiu uma onda de trabalhos que rapidamente
assentariam as bases teóricas desse conceito. Primeiro na
Etnologia (Mathieu, 1991; Tabet, 1998), depois na Sociologia e
na História. Foi com a tomada de consciência de uma
'opressão' específica que teve início o movimento das
mulheres: torna-se então coletivamente 'evidente' que uma
enorme massa de trabalho é efetuada gratuitamente pelas
mulheres, que esse trabalho é invicível, que é realizado não
para elas mesmas, mas para outros, e sempre em nome da
natureza, do amor e do dever materno.” (HIRATA e KERGOAT,
2007)

Assim, mesmo antes da incorporação ao mercado de trabalho formal, as


mulheres já trabalhavam pelo seu próprio sustento e pelo dos outros, visto que
as atividades desempenhadas no âmbito doméstico permitiam ao homem a
dedicação ao trabalho externo.

O trabalho reprodutivo, no entanto, não era realizado somente em


benefício da própria família. Mulheres de classes mais desfavorecidas eram
levadas a realizar tarefas domésticas para outras famílias. No Brasil, assim
como em outros países colonizados, o surgimento do trabalho doméstico
remunerado está diretamente ligado ao regime escravocrata.

A incorporação massificada da mulher ao mercado de trabalho ocorreu


por duas razões principais. Primeiro, as duas Guerras Mundiais levaram as
mulheres a deixarem suas casas e filhos para passarem a fazer o trabalho
antes realizado pelos homens. Além disso, a urbanização e a industrialização
geraram novos postos de trabalho. Não se pode ignorar a influência do
movimento feminista, que teve como uma de suas pautas inicias a igualdade
entre homens e mulheres especialmente no âmbito sufragista e de inserção no
mercado de trabalho.

A entrada da mulher no mercado de trabalho produtivo, a partir do


século XX, também intensificou a realidade do trabalho doméstico. Na medida
em que mulheres qualificadas, de classe média ou alta, passavam a empregar-
se, a demanda pelo serviço doméstico cresceu, a fim de manter o bem estar da
família, nicho então ocupado por mulheres pobres, que dificilmente teriam
espaço no mercado de trabalho. Frise-se que esta situação permanece até
hoje. Dos mais de 6 milhões de trabalhadores domésticos brasileiros, cerca de
92% são mulheres, 61% negras e 79,5% com baixa escolaridade; tal dado
demonstra a interseccionalidade das opressões e a importância de qualquer
política pública levar em conta as diferentes frentes de opressão, pois, assim
como a mulher é desvalorizada no mercado de trabalho frente ao homem, a
mulher negra também o é frente à mulher branca.

É importante ter em vista que a inserção da mulher não se deu em


termos de reconhecimento de sua capacidade produtiva, nem sequer consistiu
em uma tentativa de conferir oportunidades a esse grupo social. Foi, antes,
uma necessidade do mercado capitalista, que se apropriou da exclusão
existente a favor da geração de lucros ainda maiores, em especial pelo
pagamento de baixíssimos salários e pela submissão a jornadas extenuantes –
as quais a mulher se submetia, pela necessidade de rendimentos e por não
existirem melhores oportunidades.

Alguns autores entendem que, atualmente, o trabalho da mulher é mais


valorizado, ainda que nem sempre por razões ‘nobres’, o que explica em parte
as desigualdades ainda percebidas:

“se acredita que a mão-de-obra feminina é mais atraente, não


por questões biológicas (por exemplo, a destreza) ou por sua
menor participação sindical (apesar do discreto crescimento),
mas sim em razão de certos fatores sociais. O primeiro desses
fatores diz respeito à possibilidade de se pagar menos pelo
mesmo trabalho — embora se notem pequenos avanços na
redução da diferença salarial, devidos ao crescimento do nível
de instrução feminina (principalmente nos países mais
desenvolvidos). O segundo fator refere-se às habilidades de
relacionamento, mais desenvolvidas na mulher e cada vez
mais necessárias em uma economia informacional em que o
gerenciamento de recurso é menos importante do que o
gerenciamento de pessoas. Um terceiro fator, segundo Castells
o mais importante, é a flexibilidade feminina como força de
trabalho; isto é, a nova economia exige flexibilidade quanto ao
horário e à entrada e saída do mercado de trabalho. Logo, o
tipo de trabalhador exigido pela economia informacional em
rede ajusta-se às necessidades de sobrevivência das mulheres
que, sujeitadas às condições ditadas pelo sistema patriarcal,
procuram compatibilizar trabalho com família.” (GOMES, 2005)

Por fim, para além das formas de desigualdade já citadas, não podemos
esquecer que a mulher no mercado de trabalho está exposta a outras formas
de machismo e sexismo, expressas, por exemplo, através de assédio moral e
sexual.

2ª parte: Auto-avaliação e Avaliação da disciplina.

Considerando os seguintes aspectos: frequência, participação nos debates e


apresentação de trabalhos, faça um relato de sua postura e aproveitamento da
disciplina. Conclua sua exposição com uma avaliação da disciplina.

Sou formada em Direito e sou Coordenadora de Projetos da ONG


Themis que trabalha justamente com essa intersecção: questões de gênero e o
Direito. Meu interesse por esse recorte, dessa forma, foi a razão principal para
a minha matrícula nessa disciplina. Nesse contexto, sobretudo na posição de
quem atua junto a órgãos estatais de modo a garantir a promoção dos direitos
das mulheres, a experiência e o contato com os textos discutidos durante o
semestre foi de suma importância para minha atividade, uma vez que muitas
vezes nos deparamos justamente com essa problemática: de que forma
identificar o problema da sub-representação feminina e da opressão feminina
nos mais diferentes espaços e como alterar tais problemas.
Entendo que pude desempenhar minha apresentação de modo
satisfatório. Contudo, sinto-me hoje mais preparada e confortável para
participar dos debates em sala de aula sobre os temas abordados de modo que
penso que minha participação seria diferente. Talvez justamente por ter tido
mais experiência e contato com a temática durante o semestre, seja nas
próprias aulas como na própria Themis, assim como ter, hoje, uma visão mais
concreta da importância da ocupação por nós, mulheres, dos mais diferentes
espaços de discussão e embate na esfera pública.

No que diz respeito a forma de abordagem da temática e a metodologia


adotada para disciplina por parte da professora, entendo que esta foi bastante
adequada uma vez que não se ateve a tão somente uma dinâmica expositiva
unilateral, método bastante recorrente no Direito que não reconhece a
importância da diversificação e do rompimento da visão pedagógica de que o
aluno é um mero destinatário da informação a ser apresentada pelo professor
que ministra a cadeira. Exatamente o contrário, a disciplina fez com que as
pessoas pudessem participar e tomar para si, inclusive, a tarefa de
apresentação de informações através das apresentações dos textos, bem
como abriu espaço para a discussão e reflexão com uma participação mais
ampla do que de costume, sem contudo, reduzir a complexidade dos temas
abordados e a completude do conteúdo elencado no seu início.

Seu trabalho deve conter no mínimo 3 laudas e no máximo 8.

O trabalho deve ser enviado até às 23h do dia 05/07/2016 (terça-feira) para os
e-mails: jussarapra@gmail.com e rigaanilsa@hotmail.com