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BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance.

In:
Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad.: BERNADINI, Aurora F.
et al. 5ª ed. São Paulo: UNESP-HUCITEC, 2002. [p. 397-428]

Epos e romance [1941]

O estudo do romance enquanto gênero > dificuldades particulares > condicionadas pela
particularidade do próprio objeto > “o romance é o único gênero por se constituir, e ainda
inacabado [...] A ossatura do romance enquanto gênero ainda está longe de ser
consolidado, e não podemos ainda prever todas as suas possibilidades plásticas.” (p. 397)
Outros gêneros > autênticos moldes rígidos para fusão da prática artística > aspecto
acabado > “ossatura dura e já calcificada” > ex: epopeia, tragédia > cada um deles tem o
seu cânone que age como uma força histórica real > gêneros mais velhos do que a
escritura e o livro > guardam, em maior ou menos grau, sua antiga natureza oral e
declamatória. (397)
ROMANCE: único mais jovem do que a escritura e os livros (dos grandes gêneros) > só
ele está organicamente adaptado às novas formas de percepção silenciosa – à leitura >
“Mas o principal é que o romance não tem o cânone dos outros gêneros: historicamente
são válidas apenas espécies isoladas de romance, mas não um cânone do romance como
tal.” (p. 397)
Dai vem a extraordinária dificuldade para uma teoria do romance > “trata-se do único
gênero que ainda está evoluindo no meio de gêneros já há muito formados e parcialmente
mortos. Ele é o único nascido e alimentado pela era moderna da história mundial, e por
isso, profundamente aparentado a ela [...] Ele se acomoda mal com os outros gêneros. Ele
luta por sua supremacia na literatura [...]” (p. 398) x ideia de literatura como um todo e
em harmoniosa (coexistência) composição de todos os gêneros nesse todo – poética de
Aristóteles, Horácio – todas elas ignoram o romance, que tinha, à época antiga, uma
existência não oficial, foram do limiar da grande literatura.
O romance se acomoda mal com os outros gêneros > não há harmonia possível > “O
romance parodia os outros gêneros (justamente como gêneros), revela o
convencionalismo das suas formas e da linguagem, elimina alguns gêneros, e integra
outros à sua construção particular, reinterpretando-os e dando-lhes um outro tom.” (p.
399)
Supremacia do romance: segunda metade do século XVIII > “quase todos os gêneros
resultantes, em maior ou menor grau, “romancizaram-se”; romancizou-se o drama [...], o
poema [...], e até mesmo a lírica [...]” (p. 399)
É característico que o romance não dá estabilidade a nenhuma de suas variantes
particulares > “Em toda a história do romance desenrola-se uma parodização sistemática
ou um transvestimento das principais variantes de gênero, predominantes ou em voga
naquela época, e que tendem a se banalizar: as paródias dos romances de cavalaria [...], o
romance barroco, [...], o romance sentimental, etc. Este caráter autocrítico do romance é
o seu traço notável como gênero em formação.” (p. 400)
Explica-se todos esses fenômenos pela “transposição dos gêneros para uma nova área de
estruturação das representações literária (a área de contato com o presente inacabado),
área pela primeira vez assimilada pelo romance.” (p. 400)
Por ser o único gênero em evolução, é só ele capaz de refletir de modo mais profundo,
substancial, sensível e rápido a evolução da própria realidade > “Somente o que evolui
pode compreender a evolução”. (p. 400)
Tornando-se o senhor, o romance contribui para a renovação de todos os outros gêneros
> “ele os contaminou e os contamina por meio da sua evolução e por seu próprio
inacabamento”. (p. 400)
Até o momento da romancização de outros gêneros (poema romanceado, exemplo), a
poética de Aristóteles dava conta de todos os outros gêneros acabados (outros poéticas
não adicionavam nada muito substancial além do que já havia na poética aristotélica) >
tudo ia bem enquanto não se tocava no romance. Outros gêneros “romancizados” também
colocaram a teoria em xeque > “Sobre o problema do romance, a teoria dos gêneros
encontra-se em face de uma reformulação radical” (p. 401).
[NÃO] REGRAS DO ROMANCE: “Os trabalhos sobre o romance levavam, na grande
maioria dos casos, ao registro e à descrição tão completos quanto possíveis sobre as
variedades romanescas, mas, no conjunto, tais registros nunca conseguiram dar qualquer
fórmula que sintetizasse o romance como um gênero. Além do mais, os pesquisadores
não conseguiram apontar nem um só traço caraterístico do romance, invariável e fixo,
sem qualquer reserva que o anulasse por completo”. (p. 401) > A SEGUIR: “índices de
gênero”.
p. 403 “O romance deve ser para o mundo contemporâneo aquilo que a epopeia foi para
o mundo antigo” > confronto romance e epos > acepção positiva: “tem por objetivo elevar
a sua significação como gênero-mestre da nova literatura”.
Bakhtin, tenta, no entanto, descobrir as particularidades estruturais e fundamentais do
“mais maleável dos gêneros, particularidades que determinaram a orientação da sua
própria versatilidade, de sua influência e de sua ação sobre o resto da literatura” p. 403.
> Três são estas que diferenciam o romance de todos os outros gêneros > 1) tridimensão
estilística ligada à consciência plurilíngue que se realiza nele; 2) transformação radical
das coordenadas temporais das representações literários no romance; 3) nova área de
estruturação da imagem literária no romance (área de contato máximo com o presente
[contemporaneidade] no seu aspecto inacabado). [ver a partir da página 403]
[404] O plurilinguismo sempre teve o seu lugar (mais antigo do que o unilinguismo
canônico e puro) > mas a consciência criadora da arte literária realizava-se nas línguas
puras e fechadas sobre si próprias [grego/latim clássico] > “À diferença dos outros
grandes gêneros, o romance se formou e se desenvolveu precisamente nas condições de
uma atividade aguçada do plurilinguíssimo exterior e interior. Este é o seu elemento
natural. É por isso que o romance encabeçou o processo de desenvolvimento e renovação
da literatura no plano linguístico e estilístico”. (p. 405)
[ 2 e 3 ] > aspectos temáticos da estrutura do gênero romanesco > em oposição à epopeia
> epopeia: mundo das “origens”, da história nacional, dos “primeiros” e dos “melhores”
> a referência e a participação do mundo representado no passado é o traço constitutivo
formal do gênero épico > fala sobre um passado inacessível x “passado familiar” (p. 406)
Passado absoluto <não é o aquele tempo nosso sentido limitado e preciso da palavra, mas
uma certa categoria axiológica, temporal e hierárquica) > (para a visão do mundo épico):
“neste passado tudo é bom, e tudo é essencialmente bom (“o primeiro”) unicamente neste
passado. O passado épico absoluto é a única fonte e origem de tudo que é bom para os
tempos futuros. Assim afirma a forma da epopeia”. (p. 407) “Ele é fechado como um
círculo, e dentro dele tudo está integralmente pronto e concluído. No mundo épico não há
nenhum lugar para o inacabado, para o que não está resolvido, nem para a problemática.
[...] A conclusão absoluta e o seu caráter acabado – eis os traços essenciais do passado
épico, axiológico e temporal” (p. 408)
“A memória, e não o conhecimento, é a principal faculdade criadora e a força da literatura
antiga. [...] A experiência, o conhecimento e a prática (o futuro) definem o romance.” (p.
407)  experiência no sentido de prática do homem comum.
O narrador do romance narra as experiências de terceiros ou as suas próprias, no caso do
narrador em primeira pessoa, mas dentro do pacto ficcional; o autor não precisa ter vivido
tais experiências, há mesmo a possibilidade de se mimetizar o narrador tradicional (GS:V)
Diferente do narrador tradicional que vive as experiências que narra > a narrativa
tradicional é narrativa de experiência de vida: sabedoria.
“A partir desse elemento natural do riso popular, surge espontaneamente no solo clássico
um domínio bastante vasto e diversificado da antiga literatura, que os antigos
denominavam por força de expressão como “sério-cômico” [...] “diálogos socráticos”
(enquanto gênero) [...] a sátira menipéa (como gênero) e os diálogos à maneira de
Luciano” (p. 412) << todos aparecem como autênticos predecessores do romance [a
questão é mais desenvolvida nas páginas seguintes] - a importância do “riso”. >> Quase
todos esses gêneros se caracterizam pela presença de um elemento declaradamente
autobiográfico e memorialista (p. 417).

Trata-se dois traços que há muito tempo relacionam-se com o romance e mesmo com os seus predecessores. Bakhtin, ao
defender como os “diálogos socráticos (enquanto gênero), a sátira menipeia (enquanto gênero) e os diálogos à maneira de
Luciano como sendo os autênticos predecessores do tomance na antiga literatura, chama a atenção para a observação de que
“quase todos esses gêneros se caracterizam pela presença de um elemento declaradamente autobiográfico e memorialista”
(BAKHTIN, 2002, p. 417).

O gênero “diálogos socráticos”, nascido no final da Antiguidade clássica, marca o


nascimento simultâneo do conceito científico e da nova personagem romanesca na arte
literária em prosa. É especialmente característico que o gênero tenha surgido como do
tipo “memória”, “como anotações a partir da memória pessoal de conversas verídicas com
os contemporâneos” e também que a figura central do gênero seja “uma pessoa que fala
e que conversa [...]” (P. 414) <outras semelhanças exploradas na página 415>
** Nas memórias nas autobiografias, a memória tem um caráter particular; trata-
se da memória que se tem da sua época e de si mesmo. É a memória individual sem
referência, limitada pela fronteira da vida pessoal. O caráter “de memórias” já está
presente nos diálogos socráticos.
Aproximação sátira menipeia e romance: p. 416
NOVA POSIÇÃO DO AUTOR (autêntico, formal e primeiro – o autor da imagem do
autor): “O romancista gravita em torno de tudo aquilo que não está ainda acabado. Ele
pode aparecer no campo da representação em qualquer atitude, pode representar os
momentos reais da sua vida ou fazer uma alusão, pode intrometer na conversa dos
personagens, pode polemizar abertamente com os seus inimigos literários, etc. [...] É
exatamente esta nova posição do autor [...] na zona de contato com o mundo representado
que torna possível a sua aparição no campo da representação da imagem do autor [...] um
dos mais importantes resultados para a superação da distância (hierárquica) épica” (p.
417)
“Mas a contemporaneidade, como novo ponto de partida da orientação literária, não
exclui absolutamente a representação do passado heroico, ainda por cima sem qualquer
transvestização” (p. 418) > Ex: Ciropedia, de Xenofonte. Passado heroico escolhido pelo
autor > o estrangeiro, o bárbaro > “mundo já havia desmoronado”.
“É aqui que se revela também um perigo, específico desta zona de contato romanesco: é
possível introduzir-se a si próprio no romance (jamais na epopeia e nos outros gêneros
distanciados). Daí a possibilidade de fenômenos tais como a substituição da vida
particular pela leitura imoderada de romances ou por sonhos à maneira romanesca [...]
como o bovarismo, [...] Os outros gêneros só são capazes de gerar fenômenos semelhantes
quando se romancizam [...]”. (p. 421-422)
“Um dos principais temas interiores do romance é justamente o tema da inadequação de
um personagem ao seu destino e à sua situação. O homem ou é superior ao seu destino
ou é inferior à sua humanidade. Ele não pode se tornar inteira e totalmente funcionário,
ou senhor de terras, comerciante, noivo, rival, pai, etc. Se um personagem do romance
consegue-o, isto é, se ele se ajusta inteiramente à sua situação e ao seu destino (o
personagem “de gênero” da vida quotidiana, a maioria dos personagens secundários do
romance), então, o seu excedente de humanidade pode se realizar na imagem principal do
herói; e este excedente sempre se realizará segundo a orientação formal e conteudística
do autor, nos moldes da sua visão e da representação do homem.” (p. 425)
“Finalmente, o homem adquire no romance uma iniciativa ideológica e linguística que
modifica a sua figura (um tipo novo e superior de individualização do personagem). Já
no antigo estágio da sua evolução, o romance apresentava as notáveis figuras dos
personagens ideólogos [Sócrates] [...], a figura profundamente romanesca de Diógenes
na vasta literatura dialogada dos cínicos e na sátira menipeia [...]. O personagem de
romance, como regra, é um ideólogo em maior ou menor grau. (p. 426)
Romance > NOVA SENSIBILIDADE EM RELAÇÃO AO TEMPO > “Desde o início o
romance foi construído não na imagem distante do passado absoluto, mas na zona de
contato direto com esta atualidade inacabada. Sua base repousava na experiência pessoal
e na livre invenção criadora [...]” (p. 427)
“Trata-se da sua plasticidade, um gênero que eternamente se procura, se analisa e que
reconsidera todas as suas formas adquiridas. Tal coisa só é possível ao gênero que é
construído numa zona de contato direto com o presente em devir. Por isso, a
romancização dos outros gêneros não implica a sua submissão a cânones estranhos; ao
contrário, trata-se de liberá-los de tudo aquilo que é convencional, necrosado, empolado
e amorfo, de tudo aquilo que feria a sua própria evolução e de tudo aquilo que os
transforma, ao lado do romance, em estilizações de formas obsoletas”. (p. 427)
“O processo de evolução do romance não está concluído”. (p. 428)