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A resistência ao Liberalismo em Portugal (1823-1834)

No início do século XIX, Portugal era governado segundo as políticas do Antigo Regime,
algo contrário ao resto da Europa, que se regia pelo liberalismo. Corria o ano 1806
quando Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, na qual proibia qualquer
nação europeia de comercializar ou negociar com Inglaterra.
- Apesar do ultimato do líder francês, o monarca português, D. João VI, adotou uma
política ambígua, política essa que viria a provocar o flagelo das três invasões francesas.
Pouco tempo depois, a família real portuguesa embarcaria para o Brasil para fugir às
invasões de 1807, 1809 e 1810. Esta fuga da família real para o Brasil revelou-se um
preço bem alto a pagar visto que, para além dos enormes estragos provocados pelas
invasões, Portugal viu-se dominado política e economicamente por Inglaterra. Foi este
domínio inglês o principal responsável pela Revolução Vintista.
A 24 de Agosto de 1820 eclodiu uma revolução denominada Revolução Vintista. Esta
revolução ocorreu na cidade do Porto e juntou militares, negociantes, magistrados e
proprietários fundiários, todos eles descontentes com a presença inglesa. O sucesso
desta revolução deveu-se à união de todos os membros das classes em cima referidas,
visto que todos eram afetados pelo domínio inglês. Os militares portugueses eram
privados de ocupar os cargos cimeiros no exército, cargos esses ocupados por militares
ingleses. Também os negociantes e proprietários eram prejudicados estando
dependentes do tráfico para continuar a sua atividade comercial. Após a revolução, foi
formado um governo que teve como principal tarefa organizar eleições para as Cortes
Constituintes, que apenas viriam a exercer funções já em 1821.
- Coube assim às Cortes a elaboração da Constituição, que só no ano seguinte, em 1822,
viria a ser aplicada. Esta nova Constituição fora baseada nas constituições francesa e
espanhola. A Constituição de 1822 foi elaborada pelos deputados mais radicais
presentes nas Cortes Constituintes cujo seu trabalho viria a ser conhecido como
vintismo. A “nova “Constituição proclamava a soberania popular, a igualdade perante
a lei, limitava os direitos reais, não reconhecia qualquer privilégio à nobreza e ao clero
e reconhece a independência dos poderes legislativo, executivo e judicial.

Apesar dos inúmeros progressos alcançados com a Revolução de 1820, a verdade é que
esta passou por algumas dificuldades. Através da Santa Aliança, que era composta pela
Rússia, Áustria e Prússia, bem como da Quádrupla Aliança, que contava com a
participação de Inglaterra e de França, foram aplicadas sanções a Portugal como
tentativas de bloqueio comercial e a recusa de passaportes a cidadãos portugueses,
tendo mesmo fornecido apoio a fações absolutistas.
- Outro dos problemas que a Revolução de 1820 teve de enfrentar foi uma
contrarrevolução absolutista desencadeada pela nobreza e pelo clero devido aos
privilégios que foram revogados pelas Cortes Constituintes e pela Constituição de 1822.
Esta contrarrevolução deu-se em 1823 e teve o apoio da rainha D. Carlota Joaquina e do
seu filho, o infante D. Miguel. Influenciados por esta contrarrevolução, dois regimentos
em Lisboa tinham sido mandados para a Fronteira para a defender na eventualidade de
um ataque. No entanto, isso acabou por não acontecer e estes revoltaram-se em Vila
Franca, a quem se juntou D. Miguel, que assumiu desde logo a liderança deste
movimento. Esta revolta, conhecida como Vila-Francada (Doc.1), apenas terminou
quando o rei D. João ordenou que o filho se apresentá-se perante si, tendo retomado o
comando da situação.
- Mesmo depois de ter sido reprendido pelo monarca, D. Miguel continuou contra as
doutrinas do vintismo e em 1824, juntamente com os seus partidários, prenderam os
membros do governo com o objetivo de fazer o monarca abdicar do trono e este passa-
se para as mãos da rainha D. Carlota Joaquina, também ela contra as doutrinas do
vintismo. No entanto, os planos de D. Miguel saíram novamente forjados pois, mais uma
vez, D. João VI conseguiu impedir este golpe, que viria a ficar conhecido como Abrilada.
Em 1826, D. João VI acabou por falecer o que agravou as tensões políticas que
destabilizavam o reino há já alguns anos. O grande problema era quem iria suceder ao
monarca recentemente falecido. O seu filho mais velho, D. Pedro, era imperador no
Brasil, enquanto que o seu filho mais novo, D. Miguel, estava exilado em Viena de Áustria
e era a favor do Absolutismo. A decisão cabia assim ao Conselho de Regência, conselho
esse que enviou uma comitiva ao Brasil com o objetivo de resolver o assunto. D. Pedro
reconheceu-se como legitimo herdeiro e aprovou um novo diploma constitucional- A
Carta Constitucional de 1826.
- Porém, o legitimo herdeiro da Coroa Portuguesa acabaria por renunciar ao cargo tendo
transferido todo o seu poder para D. Maria de Glória, sua filha. Posteriormente, foi
celebrado um contrato em que a filha mais velha de D. Pedro casaria com o tio, D.
Miguel, e este ficaria com a regência do reino até à maioridade da sobrinha/ mulher,
devendo cumprir a Carta Constitucional outorgada por D. Pedro.
- Com a aprovação desta Carta Constitucional era de esperar uma recuperação do poder
real e dos privilégios da nobreza. Com esta nova Carta passou a existir um sistema
composto por duas câmaras, a Câmara dos Deputados, na qual apenas podiam votar
pessoas do sexo masculino e com uma renda liquida anual de 100$000 réis, e a Câmara
dos Pares, sendo esta a que causou mais polémica pois reacendia os privilégios à
nobreza e ao clero visto que as pessoas que constituíam esta câmara eram elementos
da alta nobreza, alto clero, o príncipe real e os seus infantes, todos eles a titulo vitalício
e hereditário. No entanto, foi através do poder moderador que o poder real foi
recuperado. Com este poder, o monarca podia nomear os Pares, convocar as Cortes,
dissolver a Câmara dos Deputados, bem como nomear e demitir o governo (Doc.2). Em
suma, a Carta Constitucional era um retrocesso à Constituição de 1822.
Em 1828, D. Miguel regressa a Portugal para fazer cumprir o acordo celebrado com o
seu irmão, D. Pedro. Porém, isso acabou por não acontecer e pouco tempo depois D.
Miguel convocou as Cortes proclamando-se rei absoluto. Uma das suas primeiras
medidas foi uma repressão aos que simpatizavam com o Liberalismo. Esta proclamação
fez com que muitos liberais fugissem para países como França e Inglaterra. Porém, quem
não fugiu foi D. Pedro que após saber do que o seu irmão fizera abandonou o trono no
Brasil e rumou a Portugal com o objetivo de fazer cumprir o acordo celebrado entre os
dois.
- Em primeiro lugar, D. Pedro rumou à Ilha Terceira (Doc.3), que se tinha revoltado
contra o domínio absolutista, e assumiu a chefia da Regência Liberal com o objetivo de
acabar com o que D. Miguel fizera. Também com a ajuda de alguns contactos nas cortes
europeias, D. Pedro conseguiu mobilizar um pequeno exército, cerca de 7500 homens,
para combater contra o domínio absolutista. Este exército desembarcou no Norte do
país em 1832, mais precisamente no Mindelo, de onde seguiram para uma ocupação
fácil da cidade do Porto. Apesar da fácil conquista, a cidade do Porto estava cercada
pelas forças absolutistas, sendo o Cerco do Porto o episódio mais marcante da guerra
civil entre liberais e absolutistas.
- Este Cerco da cidade do Porto durou ainda dois anos, dois anos esses nos quais D.
Pedro organizou expedições ao Algarve e a Lisboa na qual destruíram esquadras
miguelistas. Desmoralizados com as sucessivas derrotas e pela perda de apoio por parte
dos populares, os absolutistas não conseguiam fazer face ao exército liberalista liderado
por D. Pedro. Penosas derrotas nas batalhas de Almoster e Asseiceira fizeram com que
D. Miguel se rendesse, tendo assinado a Convenção de Évora Monte, e em seguia foi
novamente para o exílio. Com D. Miguel derrotado, isto significava o triunfo do
liberalismo.

Francisco Guimarães nº12 11ºF