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INTRODUÇÃO

A palavra de Deus, fundamento da ação litúrgica


O Autor começa citando a passagem de atos em que Felipe encontra o eunuco, servo da rainha. Nesta perícope,
o eunuco diz a Felipe que não compreendia a escritura pois não havia quem o explicasse. Renato de Zan usa
esse trecho para ressaltar a importância de se explicar aos fiéis e de se estudar a Sagrada Escritura.
Em seguida o autor cita a II Pedro em que o autor sagrado afirma que muitos ímpios não compreenderam as
palavras de Paulo e as distorceram. Sendo assim, o autor tira disso a conclusão de que o verdadeiro lugar de
interpretação da Bíblia é a comunhão eclesial.
Outro ponto citado é uma diretriz da conferencia episcopal italiana que diz que a homilia deve ser uma
explicação simples que parte das escrituras. Não deve ser algo sentimentaloide, ou moralista ou um show de
retórica ou uma demonstração de erudição estéril.
Depois de citar diversos tipos de leitura da escritura possível, o autor afirma que o presente livro tratará da
leitura litúrgica das escrituras.
CAPÍTULO 1: A liturgia da Palavra do I ao VI século de pois de Cristo
Paulo e os membros de sua escola recomendavam que as cartas por eles escritas, fossem lidas nas assembleias
litúrgicas. A liturgia naquele tempo era celebrada nas casas. Segundo o autor, estudos exegéticos afirmam que
a paixão do Senhor era proclamada nas Igrejas Cristãs, antes mesmo dos evangelhos terem sido escritos.
Os Atos dos apóstolos narram uma celebração de Paulo em que ele, no primeiro dia da semana, dialogava com
o povo, até que um jovem caiu do terceiro andar. Paulo ressuscitou o jovem, partiu o pão e depois estabeleceu
uma fala (omilein em grego) até o outro dia de manhã. Com isso é possível identificar uma estrutura de culto:
Um diálogo entre o presidente e a assembleia, o partir do pão e uma fala familiar do presidente. Tudo isso
realizado no primeiro dia da semana: O Domingo.
No século II, Justino afirma que se liam primeiro a memória dos apóstolos (evangelhos) e em seguida os
profetas do Antigo Testamento. Com isso, se repetia a estrutura do culto sinagogal, que primeiro lia a Torá e
em seguida os profetas.
Nos séculos seguintes, ao que parece se fazia uma leitura semi-continua das escrituras. Com a fixação de
alguns textos em festas fixas como o Natal e a Páscoa, e também na festa de alguns santos. Um concilio em
Hipona no século IV estabeleceu que somente se podia ler na liturgia as escrituras canônicas. Com exceção
para as atas dos martírios no dia em que se celebrava algum santo mártir.
Os lecionários nasceram da organização do culto sagrado. E mantém esta prática da leitura semi-continua
intercalada com leituras de determinados tempos litúrgicos e leituras fixas de algumas festas. Cabe ressaltar
que cada bispo possuia muita autonomia no campo litúrgico.
CAPÍTULO II
CAPITULO II
Reconstrução do panorama histórico da Liturgia da Palavra nos ritos romanos e não romanos

 Comes = livro que contem as leituras por extenso. Deriva do latim, do nome comma que
significa secção, perícope.
1) Liturgias ocidentais não romanas

a) Liturgia africana = possuía um livro para a Liturgia da Missa, porém não se encontrou nenhum exemplar ou
documento que o testemunho. Alguns pesquisadores fizeram a reconstrução deste lecionário por meio do estudo das
homilias de Santo Agostinho.
b) Liturgia hispânica: havia um livro para a liturgia da Palavra, chamado de Liber commicus. Foram encontrados alguns
exemplares, de épocas diferentes sendo que o mais significativo deles é Liber commicus de Silo, que hoje se encontra
na Biblioteca de Paris.

c) Pouco se sabe sobre os livros da Liturgia da Palavra céltica, pois só chegaram até nós alguns evangeliários muito
antigos.

d) Liturgia gálica = a liturgia da palavra na Gália no período merovíngio é testemunhado por manuscritos. Estes
mostram que não havia um único sistema de leitura.

e) Liturgia ambrosiana = possui um fragmento de lecionário do século VI-VII e um evangeliário. Pode-se afirmar que,
a partir do século IX, os textos da liturgia da Palavra estão sempre inseridos num Sacramentário.

f) Norte da Itália = há diversos testemunhos da liturgia da Palavra, porém, em grande parte, fragmentários o que
dificulta ter uma visão orgânica sobre este assunto.

g) Sul da Itália = há muitos testemunhos antigos sobre a liturgia da Palavra.

 O exame de todos estes testemunhos mostram que há em comum entre eles a mesma
estrutura nos sistemas de leituras. Normalmente toda a celebração tem três leituras bíblicas
retiradas de uma tradução anterior da Vulgata. Às vezes, em alguns casos, ao lado das
leituras se tinha também algum texto não bíblico, na maioria das vezes tirados dos escritos
Patrísticos.
2) A liturgia Romana

a) Na primeira etapa (final do sec. VI e início do sec. VII) a liturgia da Palavra compreende o sistema de leituras presente
nos Epistolário de Würzburg, enquanto para os evangelhos temos o sistema de leituras evangélicas do qual existem
indícios dentro do tipo P dos Capitularia de Klauser. O Sacramentário a que corresponde este sistema de leitura seria
o Gelasianum Vetus.

b) Na segunda etapa ( sec. VII) a Liturgia da Palavra da Missa compreende, para as epístolas, o sistema de leituras
testemunhado pelo Epistolário do Comes de Alcuíno, ao passo que para os evangelhos temos o sistema de leituras
evangélicas presente no Capitularia. O Sacramentário ao qual se associavam os sistemas de leitura (epistola e
evangelho) apenas descritos é o modelo gregoriano.

c) Na terceira etapa ( sec. VIII em diante) a liturgia da Palavra da missa usa os lecionários tanto da ordem de leitura
romana quanto franco-romana. O Sacramentário é de ordem gelasiano-franco, do século VIII.

3) A tipologia dos manuscritos e das perícopes

a) Os tipos de livros = o exame destes códices permitiu reconstruir quatro tipos de “lecionários” que a Igreja do
Ocidente utilizava para a Liturgia da Palavra. Possibilitou também descobrir os modelos das perícopes: perícopes
compactas e perícopes compostas.

b) Os modelos dos Livros

I - Escritura com anotações litúrgicas marginais = usado na liturgia ocidental do sec. VII ao XIV.

II – Lista de incipit e explicit = aparece a primeira vez na Itália, no séc VI e perdura até o final do século XVI. A
lista, como norma, é colocada no inicio e no fim do manuscrito bíblico.

III – Lecionário = livro que contém as perícopes bíblicas por extenso. Surge no sec. VIII e é chamado de Comes.

IV – Lecionário fundido com o Sacramentário = surge na metade do século VIII

c) Os modelos das perícopes

I – Perícopes compactas = o trecho bíblico é tomado por inteiro de um livro da Escritura.

II – Perícopes compostas = é formada por meio de três processos distintos: a sintonização; a eclogadia, e
harmonização.
- Sintonização: um trecho é formado por mais versículos tirados de diferentes textos bíblicos.

- Eclogadia: um trecho é resultante de mais versículos separados entre si do mesmo texto bíblico. Ex:
Lv 19, 1-2.11-19.25

- Harmonização: um trecho é formado pela fusão de várias passagens paralelas.

4) A reforma litúrgica do Vaticano II

- Em âmbito romano, não houve grandes mudanças nos livros litúrgicos da liturgia da Palavra. Apenas pequenos
retoques.

- No missal tridentino de 1570 (revisto e reeditado por João XIII em 1962) o lecionário estava fundido no próprio
missal. O Antigo testamento nunca era proclamado nas festas e nos domingos. O Ev. de Marcos, aparece apenas oito
vezes pois era considerado um resumo do Ev. de Mateus. Não havia leitura continua nem semicontínua. A liturgia da
Palavra não era tida como parte integrante da missa, pois era chamada de missa didática (vale lembrar que para
cumprir o preceito bastava participar da Missa ex velo ad velum).

- O Vaticano II ocupou-se da recoranização da Liturgia da Palavra. Com base nos princípios da SC 24, 35 e 51, os
responsáveis pela execução do novo lecionário optaram por um ciclo trienal para os domingos e festas, três leituras e
um salmo; e bienal para as férias, composta de duas leituras e um salmo. Cada ano retoma-se um Evangelho sinotico,
lido de modo semicontínuo. De modo que a Sagrada Escritura possa ser lido de modo mais amplo.

CAPÍTULO 3
Pontos teológicos fundamentais da Introdução Geral ao Elenco de Leituras da Missa

Esta Introdução foi elaborada levando-se em consideração aos acenos dos documentos do Magistério que tratam do
tema da Bíblia na liturgia.

1) Estrutura geral do ELM

Este texto foi reescrito em 1981 e é formado de seis capítulos e três tabelas. O primeiro capítulo é teológico, o segundo
litúrgico, o terceiro de rubricas e ministérios, os outros três são fundamentalmente técnicos.

 Segue em anexo a foto com o índice geral dos capítulos.

2) A dimensão teológica da Liturgia da Palavra

O texto da ELM faz três importantes afirmações, a saber, que:

- a palavra de Deus enriquece e confere força à celebração litúrgica;

- a Palavra de Deus não é apenas “comunicação” da revelação, mas é capaz de ser ação, por ser viva e eficaz;

- há um equilíbrio entre Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística.

a) A Palavra é o fundamento da celebração

Reconhece que a liturgia da Palavra torna presente a salvação do Mistério Pascal e a liturgia Eucarística torna essa
salvação possível de ser acolhida e vivida por cada fiel.

b) A Palavra é eficaz

Reconhece a força performativa, configurava da Palavra de Deus. Por isso mesmo a Liturgia da Palavra não pode ser
apenas considerada como missa didática, pois a Palavra também é ação e por isso mesmo possui em si aquilo que
manifesta.

c) Palavra e eucaristia constituem um único ato de culto


O único pão da vida do qual a Igreja se nutre é constituído na Sagrada Liturgia por dois elementos: a mesa da Palavra
e a mesa do Corpo do Senhor. Portanto é impossível haver separação entre eles sem haver prejuízo.

3) Cristocentrismo da Liturgia da Palavra

Cristo é o centro e a plenitude de toda a Escritura e de toda celebração litúrgica. Portando, o mistério de Cristo jamais
pode ficar em segundo plano, diante de nada. Isso se comprova na Liturgia da palavra por meio de alguns elementos,
como a importância do Evangelho – entendido como ápice e cume de toda a liturgia da Palavra; o Evangeliário ser um
livro distinto e formosamente ornado, diferente do livro das outras leituras; e ser precedido de uma súplica de
purificação antes de ser proclamado. Tudo isso apontam para a especial dignidade do Evangelho que remete, por sua
vez, a centralidade de Cristo no mistério celebrativo.

CAPITULO 4
OS PONTOS FUNDAMENTAIS DA HERMENEUTICA DO LECIONÁRIO
A identidade e o contexto da perícope: Há diferenças entre os textos que se lê na celebração liturgica e a
versão encontrada na Bíblia. O autor cita como exemplo Mc 9,2-8 em que a Bíblia de Jerusalém inicia com as
palavras “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João...” e o lecionário diz “Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João...”. Na liturgia, a expressão “Seis dias depois” não é contemplada,
além de ser introduzido a expressão “Naquele tempo”.
Um texto Bíblico tem como contexto o livro no qual está inserido. O texto do lecionário pode ter um duplo
contexto: O contexto literário, formado pelo formulário do lecionário; e o contexto da celebração. Por
exemplo: A perícope de Zaqueu em Lc 19, pode ser usada na missa de dedicação de uma Igreja, e aí o tema
de destaque será a frase de Jesus “Hoje a salvação entrou nesta casa” ou no 31º domingo do Tempo Comum
no Ano C. Aí o tema principal é “O Filho do Homem veio salvar o que esta perdido”. Os títulos que se
encontram no lecionário ajudam a identificar o tema da celebração. O contexto da celebração é formado
também pelas orações eucológicas (escritas pela Igreja ao longo dos séculos).
A leitura semicontínua e a leitura com concordância temática: A leitura semi-continua é assim chamada
por ler um determinado livro bíblico quase inteiro. Por motivos pastorais se omitem determinados trechos que
mais induziriam a assembleia à incompreensão devido à sua dificuldade, além de esta leitura ser interrompida
por dias de santos e solenidades da Igreja que interrompem a leitura daquele livro.
A leitura temática significa que alguns textos do Antigo Testamento são lidos quando os temas presentes neles
são retomados ou têm sua compreensão renovada no texto do novo. Trata-se da antiga leitura tipológica dos
padres da Igreja. Ela se fará presente especialmente quando o próprio Novo Testamento citar o Antigo.
As regras para a concordância temática são as seguintes: O tema mais importante é sempre o do Evangelho.
A leitura do Antigo Testamento está sempre em relação com o Evangelho. Esta relação pode ser : 1 Profética
(promessa – cumprimento), Tipológica (Antecipação – plenitude) ou pedagógica (mentalidade, sabedoria etc).
O Salmo Responsorial é uma meditação orante da leitura. Se a primeira leitura cita um salmo, ele se torna o
salmo responsorial. Se o Evangelho é quem cita um salmo, ele se torna preparação e antecipação do evangelho.
Se o salmo não é citado, ele é escolhido em virtude de sua afinidade temática com a primeira leitura.
A segunda leitura nos tempos fortes (Advento, Natal, Quaresma, tríduo Pascal e Páscoa) ou nas solenidades
está sempre relacionada com o evangelho ou com a primeira leitura. No tempo comum, faz-se uma leitura
semi-continua das cartas.
Advento: Quatro domingos que giram em torno de dois temas importantes. A encarnação do Senhor e a vinda
de Jesus na parusia.
1º Domingo: Parusia 2º e 3º Domingo: João Batista
4º Domingo: Acontecimentos anteriores à vinda do Senhor.
Tempo do Natal: No dia de Natal e no Segundo domingo, as leituras se referem aos temas do nascimento de
Jesus.
Na festa da Sagrada Família, se conta a infância de Jesus e leituras relacionadas à vida familiar. Na Festa da
Mãe de Deus se lê sobre a mãe de Deus e na epifania a primeira leitura fala da luz dos povos enquanto a
segunda trata da universalidade da salvação.
Tempo da quaresma: 1º Dom Tentação 2º Dom Transfiguração. O terceiro é baseado em cada ano litúrgico
(A,B e C. O A trata da iniciação cirstã (Samaritana, Cego de nascença e ressurreição de Lázaro); O B trata da
Glorificação de Jesus (Sinal do templo, Nicodemos e Grão de mostarda). Ano C trata do itinerário da
Conversão (Figueira estéril, Filho pródigo e Mulher Adúltera).
No Domingo de Ramos se lê o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém e a paixão segundo os sinóticos.
Tríduo Pascal: Quinta – Texto da última ceia. Sexta – Evangelho da Paixão segundo João. Sábado – Anúncio
da Ressurreição segundo os sinóticos. As sete leituras desenvolvem as maravilhas de Deus na história da
Salvação. A leitura do Novo Testamento trata do tema batismal. No Domingo, se lê o texto de João do Sepulcro
vazio. À tarde pode-se substituir pela leitura dos discípulos de Emaús.
Tempo Pascal: 2º e 3º Domingo : Aparições do ressuscitado; 4º Dom Bom Pastor; 5º 6º e 7º Dom trechos dos
discursos de Jesus na Santa Ceia segundo o Evangelho de João. A primeira leitura é sempre retirada dos atos
dos apóstolos. A ascenção sempre tem como primeira leitura o trecho de atos que fala da ascenção e o
evangelho fala da ascenção cada qual a seu modo. Na missa de Pentecostes o Evanelho recorda a promessa
do Espírito. A primeira leitura do dia de pentecostes é sempre retirada dos atos dos apóstolos.
Tempo comum: é feita a leitura semi-contínua do evangelho. No Ano A o de Mateus, Ano B o de Marcos e
Ano C o de Lucas.
Forma breve e forma longa dos textos: O presidente da celebração poderá escolher segundo critérios
pastorais entre a forma mais breve ou a mais longa de um texto. Em geral, pode-se dizer que os textos
doutrinais foram organizados em perícopes mais curtas e os textos narrativos em perícopes mais longas.
CAPÍTULO 5
Propostas de metodologia para leitura do lecionário.
Toda riqueza hermenêutica oferecida pela introdução ao ELM (Elenco das leituras da missa) se
tornaria algo inútil se não fosse traduzida numa proposta de método. Este capítulo nos ajudará a
compreender a riqueza bíblica, litúrgica e teológica presente no lecionário.
O Evangelho nas celebrações dos domingos e das festas aparece sempre como terceira leitura, mas
em nível de método é abordado por primeiro. São três as razões fundamentais:
1ª A celebração é sempre celebração do Mistério de Cristo;
2ª O Evangelho goza de merecida primazia, uma vez que constitui o principal testemunho sobre a vida e a
doutrina do Verbo Encarnado, nosso Salvador;
3ª O Evangelho é o ponto alto da própria liturgia da Palavra, por que as outras leituras têm o papel de
preparar a assembleia para a escuta do próprio Evangélico.
Essas três razões fundamentais podem ser consideradas o programa ritual, e depois se tornam a celebração.

Os sete passos do método:


1) Atenção a fisionomia da perícope;
2) O estudo do novo contexto;
3) A compreensão do Evangelho;
4) A compreensão da primeira leitura do Salmo responsorial em relação ao Evangelho;
5) A compreensão da segunda leitura em relação as outras leituras;
6) A temática bíblico-litúrgica do lecionário e sua ligação com a eucologia;
7) A compreensão do formulário dentro do ciclo litúrgico.

1) Um primeiro dado fundamental para a compreensão de um texto bíblico no lecionário é a nova fisionomia
que ele assume, em relação a fisionomia originária que possui na Bíblia.
 As principais intervenções que a liturgia faz no trecho bíblico para o Lecionário são três: retoca o
“início” (incipit) da perícope da Bíblica; intervém no final (explicit), na parte conclusiva da perícope;
e por fim, retira versículos da própria perícope. Por exemplo, quando a liturgia intervém, retoca o
"início" com fórmulas litúrgicas fixas: naquele tempo, naqueles dias, irmãos, caríssimos, assim diz o
Senhor.
 O início litúrgico, mesmo não sendo texto inspirado, torna-se parte integrante para compreensão do
texto bíblico:
 Examinemos, por exemplo, texto de Marcos 9,2-10, começa assim: "Seis dias depois" (Texto
original). A liturgia cancela este início e substitui por um litúrgico: "Naquele tempo".
A “conclusão” também, determinada pela liturgia para perícope, tem o seu valor interpretativo de
significativa importância. Alguns antecipam a conclusão, outros a atrasam um ou dois versículos. Com isso
pode-se haver na conclusão observações bíblicas teológicas muitos interessantes.
No que tange ao corte de versículos: a supressão de material literário (parte de um versículo ou até
um ou mais versículos inteiros) não é algo de inocente. Tem que ser o valor interpretativo. O corte de um
versículo às vezes simplifica a leitura da perícope; outras, muda o significado ou até eliminar dificuldades
exegéticas que certos versículos apresentam ao presidente e a própria assembleia.

2) O segundo passo para compreender a perícope na liturgia está relacionado ao contexto. É muito
importante conhecer o contexto bíblico original para compreender quais podem ser as temáticas mais
acentuadas na perícope. Somente assim se poderá valorizar o novo contexto litúrgico no qual a perícope se
encontra.
Quando se fala de contexto da liturgia é bom saber que três coisas são sempre indicadas: o contexto
literário, contexto ritual e o contexto da liturgia do dia.
 Por contexto literário se entende o contexto expresso no livro liturgia.
 No contexto ritual se entende, ao invés, algo mais amplo e melhor articulado, a celebração.
 E por fim, por contexto da liturgia do dia se entende a ligação temática entre a liturgia da palavra da
missa (contexto literário + contexto ritual) e a liturgia das horas.
3). É o momento de passar para o estudo da perícope bíblica- litúrgica do Evangelho, presente no lecionário
- que é a atenção ao texto bíblico-litúrgicos e a atenção aos temas. (A primeira leitura sempre está em
concordância temática com o Evangelho).
4) O Salmo responsorial, chamado também gradual, sendo parte integrante da liturgia da Palavra, tem
grande importância litúrgica e pastoral. Os fiéis devem, portanto, ser instruídos com cuidado sobre o modo
de acolher a palavra que Deus lhe dirige nos salmos e transformar os próprios Salmos em coração da Igreja.
Devemos nos esforçar para encontrarmos nos Salmos a sua concordância temática com as demais leituras,
principalmente com a primeira.

5) . Em nível metodológico é preciso esclarecer como as segundas leituras no tempo ordinário não entram
em consonância temática nem com outras leituras nem com os textos eucológicos da celebração (isto porque
a segunda leitura tem o critério de
leitura semi-contínua). Se acontece alguma consonância, é por acaso e não porque previsto pelos redatores
que lecionário. Em todos os outros casos (tempos fortes, solenidades, santoral etc.) a segunda leitura entra
em consonância temática com as
outras leituras e a celebração.

6) A ligação temática entre a primeira leitura e o Evangelho tem identidades diversificadas. Pode ser do tipo
Profético, Tipológico e Sapiencial.
 Há ligação temática de tipo profético quando o texto da primeira leitura, considerado profecia pela
Tradição cristã, encontra sua realização no texto do Evangélico.
 Há uma ligação de forma tipológica quando o texto da primeira leitura, considerado eucológico pela
tradição Cristã, antecipa em fatos, ou personagens ou coisas sagradas, realidade que se tornaram
presentes em seu pleno significado no Novo Testamento. Exemplo: o maná e o Pão do céu (o próprio
Jesus).
 Há uma ligação de tipo sapiencial quando é algo pedagógico. Por exemplo, o caso do 6º domingo do
tempo comum, ano A.

7) O ciclo não tem nenhum valor para o tempo comum, salvo em casos excepcionais. Ele está direcionado
para os tempos fortes, solenidades, próprios dos Santos etc.
CAPÍTULO VI
breve exemplificação do método aplicado ao segundo domingo da Quaresma, ano B
Parte-se da análise dos textos tanto bíblicos como eucológicos. São tais os textos bíblicos:
• Oração do dia: “ Ó, Deus, que nos mandastes ouvir o vosso filho amado, alimentar em nosso espírito com a
vossa palavra, para que, purificado olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória. Por Nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo”
• Oração própria da Conferência Episcopal Italiana: “Ó, Deus, Pai bondoso, que não poupaste o vosso filho
unigênito, mas o entregastes por nós, pecadores, reforçai- nos na obediência da fé, para que sigamos em todos
os seus passos e sejamos transfigurados com ele na luz de vossa glória”.
•Primeira leitura extraída do livro do Gênesis Capítulo 22 narrativa da oração de Isaque por seu pai Abraão
•Salmo responsorial 115 guardei a minha fé. Por responsório: "andarei na presença de Deus, junto a Ele na
terra dos vivos."
• Segunda leitura: Rm 8, 31b-34. "Se Deus é por nós, quem será contra nós? "Deus não poupou seu próprio
filho, mas o entregou por todos nós..."
•Aclamação ao Evangelho: "Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai: 'Eis meu Filho muito amado,
escutai-o, todos vós."
•Evangelho narrativa da Transfiguração segundo Marcos (Mc 9, 2-10)
•Embolismo do prefácio: “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha
Sagrada, todo seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos
ensina que, pela Paixão e Cruz, chegará à glória da Ressurreição”.
2. Identidade das perícopes e contexto
a) no lecionário a primeira leitura não acentua a figura de Isaque, como a Palavra de Deus que da promessa
torna-se cumprimento, mas insiste somente no tema da Obediência de Abraão a Deus, o qual transforma essa
obediência em benção para o próprio Abraão, para sua descendência e para as nações da terra.
b) o Salmo responsorial é essencialmente uma Ação de Graças que abre-se com um ato de fé (Guardei a minha
fé...)
c) o texto da segunda leitura, acrescido do vocativo "Irmãos", assume o aspecto de uma espécie de maiêutica
cristã (exigência de o cristão encontrar a verdade em si mesmo, extraindo-a do mundo interior pessoal e de
sua experiência de fé); leva os ouvintes a tomarem consciência do Dom que receberam, isto é, foram
justificados e como tais ninguém os poderá arrancar de sua união com Deus.
d) A aclamação ao Evangelho retoma o tema principal que a liturgia quer sublinhar no texto do Evangelho.
Não é por acaso que o título do Evangelho diz "Este é o meu filho amado". Portanto não é a transfiguração
como tal o tema importante, mas é o Filho amado que os discípulos escutam.
e) o texto do Evangelho foi retocado apenas no seu início onde no lugar da expressão bíblica "Seis dias depois",
encontra-se a expressão litúrgica "Naquele tempo... " que exclui qualquer paralelismo entre a experiência
sinaítica e a experiência neotestamentária da Transfiguração. Também não permite tornar evidente o
paralelismo com outros textos apócrifos onde a expressão "Seis dias" precede sempre a ressurreição. Contudo,
este particular é substituído muito bem pelo contexto ritual, porque o embolismo do prefácio o acentua de
modo bem claro: "Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha Sagrada, todo
seu esplendor".
Há também um corte na conclusão da perícope (que se estenderia, possivelmente, até o versículo 13). O corte
no lecionário quis, de propósito, ligar o tema da Ressurreição ao da Transfiguração.
Depois de ter examinado a identidade e o contexto das perícopes bíblicas do lecionário, agora é necessário
colher de cada texto os temas mais importantes capazes de dar corpo e vida a uma articulação temática através
da qual se possa entrar na celebração do Mistério Pascal.
3. As perícopes e as temáticas
a) O Evangelho. Para Mateus a transfiguração é o momento da proclamação de Jesus como novo Moisés; para
Lucas, ao invés, é o momento mais alto da preparação para Paixão, já próxima. Para Marcos trata-se da
epifania gloriosa de Jesus, o Messias escondido e funcional para os seus discípulos.
No texto em questão, do lecionário, mostra-se o grande tema da Liberdade Divina na escolha dos seus
discípulos. Parece, portanto, que a intenção da proposta litúrgica que fica seja sublinhar a ligação muito estreita
entre transfiguração e discipulado. Na primeira parte da narrativa há elementos que induzem a ver na figura
de Jesus transfigurado uma antecipação daquilo que será o Ressuscitado. Somente depois da Ressurreição o
mistério da transfiguração poderá ser entendido. Se a transfiguração, portanto, é uma antecipação da
Ressurreição, ao seu modo indica também o início da escatologia (e também da parusia). Em outras palavras,
o Jesus transfigurado já é aquilo que o crente é convidado a tornar-se.
A aparição de Elias e Moisés tem como destinatários, mais uma vez, os discípulos (v. 4) - "apareceram-lhes
Elias e Moisés". Na tradição rabínica, Elias precursor do Messias e Moisés predecessor do mesmo,
representariam a esperança messiânica presente na Torá e nos Profetas. Elias e Moisés, então, constariam na
visão por causa de sua ligação com o ministério de Jesus, enquanto um é precursor e outro é predecessor do
Messias.
Outro elemento: a voz do Pai que sai da nuvem é sinal da presença de Deus entre os homens. Repete a
revelação do batismo repetindo um título cristológico que liga Jesus ao servo de Javé e a Isaque (texto da
primeira leitura), e por fim exprime uma ordem: "Escutai-o". Poderíamos fazer alusão a Dt 18, 25 e Dt 6, 4-5.
Na primeira passagem Moisés anuncia o profeta escatológico, ao qual é necessário escutar. Nesta (Dt 6), Deus
manifesta os elementos fundamentais da Fé judaica: teológico (a própria fé) e a moral. Por trás do imperativo
de Marcos as duas verdades se unificam em Cristo. Ele é a fé dos discípulos, ele é moral dos discípulos.
A incompreensão de Pedro exprime que os discípulos ainda não podem ficar definitivamente juntos àquele
Jesus, mas são os pré-escolhidos para participarem da realidade de Jesus transfigurado e ressuscitado,
convidados pelo Pai a escutá-lo. No início do episódio Jesus tomou consigo três discípulos e os levou. O verbo
grego "tomou consigo" leva a pensar que a ação realizada por Jesus introduz de certo modo os discípulos no
caminho da Cruz, ao passo que "levar sobre" pode sugerir ação que Jesus realiza para levar os discípulos à
glória.
b) A primeira leitura: da prova que Deus impôs a Abraão surge a obediência e o temor de Deus. A prova é
uma espécie de avaliação da capacidade que o homem tem que confiar em Deus enquanto temores Prime tanto
a total entrega a Deus como obediência incondicional a Ele. O eixo de todo texto é um tema expresso na
narrativa, mas não pelo vocabulário: a obediência incondicional de Abraão em relação a Deus. Trata-se da
mesma obediência a qual são chamados os discípulos pela voz do Pai quando lhes diz: "Escutai-o".
O Salmo é uma ação de graças e faz parte do Hallel egípcio o eu do salmista considera a si mesmo como servo
libertado por Deus. O contexto litúrgico sugere ler nos grilhões do salmista a angústia da prova vivida por
Abraão e, um pouco mais longe, o desvario de Pedro, que não sabia o que dizer porque estava com medo.
c) No texto Paulino o apóstolo chegou à conclusão de que nada, e ninguém, pode ser mais forte que o amor
de Deus para os que crêem. Trata-se de um amor gratuito (Rm 5, 6-11), raiz do projeto divino de salvação.
Tal projeto tem o seu comprimento e ápice no Dom do Filho. O tema fundamental do texto é,pois, a certeza
da Salvação, que nasce da obediência à ordem da voz do Pai: "Escutai-o".
d) Contexto litúrgico: no contexto Ritual (e celebrativo), a coleta geral (oração do dia), nos permite verificar
que a “palavra” (“alimentai nosso espírito com a vossa palavra”) é o próprio filho (“nos mandastes ouvir o
vosso filho amado”), transfigurado, que manifesta o que os crentes serão. Tornando-se hóspede dos crentes
através da acolhida da escuta, manifesta ser a causa da transfiguração- ressurreição deles. A coleta particular
coloca em primeiro plano o Filho unigênito dado por Deus aos pecadores. Os cristãos são chamados a escutá-
lo, numa atitude de fé obediente que se traduz em segmento (“sigamos em tudo seus passos”), o que os levam
a ser transfigurados. O prefácio liga, de modo claro, a sorte dos crentes a de Jesus. O cristão é chamado a viver
o próprio mistério Pascal, acolhendo em sua pessoa a estreita ligação da prova-sofrimento com a
transfiguração-ressurreição.
No contexto da liturgia do dia evoca-se a segunda leitura do Ofício das leituras tirada de São Leão Magno,
que compreendeu o Mistério da transfiguração do Senhor como modelo e causa da glorificação de seus
discípulos. No Mestre transfigurado os discípulos deviam ver o seu futuro escatológico, o que dá um
significado maior à expressão “Escutai-o".
O refrão do segundo responsório, que segue o texto de Leão Magno, é um apelo para não rejeitar aquele que
fala: "Prestai muita atenção para não deixar de ouvir aquele que vos fala", expressão que remete imediatamente
ao Evangelho, onde a voz celeste convida a escutar o Filho amado.
e) O papel do 2º domingo da Quaresma, ano B, em relação ao ciclo
Neste quadro representa-se o momento fundamental da vocação do cristão. Após ter constatado que na vida
existem situações de prova primeiro domingo o fiel é chamado superá-las. No segundo domingo o
cristão é chamado tornar-se um transfigurado- ressuscitado, como Cristo. Para atingir este objetivo é
necessário percorrer um caminho: a fé obediente da escuta, que se traduz no segmento incondicional
do Mestre. Assim tornam-se significativos os temas dos Domingos seguintes: o novo culto que consiste
em estar em Cristo (3° domingo), em crer nele (4°) e estar a serviço de Cristo para participar da situação
na qual ele se encontra (5° domingo), um caminho de imitação de participação na Paixão.