Você está na página 1de 3

Os modelos de Administração Pública: patrimonialista,

burocrática e gerencial
Autores:
SARTURI, Claudia Adriele

Historicamente, em síntese, é possível listar três diferentes modelos de Administração Pública: a administração patrimonialista, a
burocrática e a gerencial.

Administração Pública burocrática, que surgiu basicamente com o advento do Estado Liberal, busca romper com o modelo
anterior, patrimonialista, pois separa os interesses pessoais do detentor do poder e os instrumentos colocados à disposição do
Poder Público para garantir a satisfação do interesse público. Tem como objetivo defender a sociedade contra o poder arbitrário
do soberano.

No modelo de Administração burocrática são adotadas uma série de medidas cujo objetivo é a defesa da coisa pública, em
contraposição ao período patrimonialista antecedente, cuja característica principal é a confusão entre patrimônio público, Estado,
e o patrimônio particular do detentor do poder.

O modelo burocrático enfatiza aspectos formais, controlando processos de decisão, estabelecendo uma hierarquia funcional
rígida, baseada em princípios de profissionalização e formalismo. Os procedimentos formais são feitos por funcionários
especializados, com competências fixas, sujeitos ao controle hierárquico. Há a profissionalização do funcionário burocrático, que
exerce o cargo técnico em razão de sua competência, comprovada por processo de seleção. Afasta-se o nepotismo e as relações
de apadrinhamento. O exercício de cargos públicos passa a ser uma profissão, com remuneração previamente conhecida pelo
indivíduo e pela sociedade. Houve, nesse período, a criação das primeiras carreiras para funcionários públicos e a realização dos
primeiros concursos públicos, efetuados no Governo Vargas, na década de 30.

Na Administração burocrática, inicialmente não havia controle finalístico ou de resultados, pois o foco era tornar a Administração
Pública impessoal. Esses objetivos somente apareceram com o surgimento da Administração gerencial.

O texto constitucional de 1988, em sua redação original, traz inúmeras disposições que lembram características do modelo
burocrático, enfatizando o controle entre os poderes, a instituição de Tribunais de Conta, estabelecendo princípios que regem a
atuação administrativa, especificando garantias dos agentes públicos quanto ao sistema remuneratório, previdenciário,
estabilidade, entre outras.

Nesse contexto, citamo, o disposto no art. 37, em sua redação original, que previa como princípios da Administração
Pública a legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade. Além disso, nos termos do inciso II, redação atual, a investidura em
cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as
nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração. O inciso X especifica que a remuneração
dos servidores públicos e o subsídio somente poderão ser fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa
em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices. O inciso XV especifica que,
salvo as exceções previstas, os vencimentos e subsídios ocupantes de cargos e empregos públicos são irredutíveis.

Um exemplo de que a Constituição Federal estabelece que o administrador não pode utilizar a máquina pública para se
autopromover é a previsão do §1º do art. 37: “ A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos
públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens
que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.”

O princípio da legalidade, no modelo burocrático, possui máxima relevância na questão do controle exercido sobre a atuação do
agente e da própria atuação do Estado, na medida em que somente pode atuar nos limites da previsão legal (princípio da
legalidade estrita – ao administrador só é dado fazer o que a lei permite).

Com a passagem para o modelo de Administração Pública gerencial, presente em um Estado não mais prioritariamente
produtor de bens e serviços, mas regulador da economia e da sociedade, tanto no aspecto econômico como de outras questões
sociais relevantes, como o meio ambiente, o enfoque muda, passando para o controle de resultados pretendidos, atenuando os
rígidos controles procedimentais do período antecedente.

A partir do momento em que houve a transformação do modelo de Estado Social para o Estado Regulador, a administração
passou a se ocupar de funções gerenciais, de gestão do patrimônio e das tarefas do Estado. Desloca-se o foco do princípio da
legalidade, do controle de procedimentos, para enfatizar o controle de resultado a ser obtido pela administração, com o
cumprimento de metas e emprego eficaz do dinheiro público, havendo redução de custos e buscando-se o emprego eficaz do
dinheiro público e, por consequência, aumentando a qualidade dos serviços prestados pelo Estado. Em síntese, a Administração
Pública gerencial busca o atingimento de metas com a eficiência necessária.

O alicerce desse terceiro modelo de Administração Pública é o princípio da eficiência, o qual foi inserido nocaput da Constituição
Federal por meio da Emenda Constitucional n.º 19, de 1998.
A Administração Pública gerencial revê as características principais do modelo burocrático, ou seja, as estruturas rígidas, a
hierarquia, a subordinação, o controle de procedimentos, passando a direcionar a atuação para o controle de resultados
pretendidos. Nesse contexto, o modelo gerencial possui maior ênfase no princípio da eficiência que, segundo Celso Antônio
Bandeira de Mello, não pode ser concebido senão na intimidade do princípio da legalidade, porquanto a busca da eficiência jamais
seria justificada pela postergação daquele que é o dever administrativo por excelência.[1] [2]

Emerson Gabardo, em sua obra “Eficiência e Legitimidade do Estado”, assim contextualiza o princípio da eficiência:

No Brasil, a eficiência tornou-se princípio constitucional expresso a partir da Emenda Constitucional nº


19/98, que alterou a redação do caput do artigo 37. Isso não implica asserir que a reforma introduziu
uma novidade no sistema administrativo nacional. O princípio constitucional da eficiência administrativa
já se denotava implícito na Carga Magna. Assim sendo, é importante considerar que a natureza da
eficiência como norma constitucional não compreenderá a essência neoliberal que permeou os
trabalhos reformadores. A eficiência como mero símbolo ou valor ideológico não se confunde com a sua
manifestação jurídico-normativa.[2] [3]

Entre vários meios de atuação da Administração Pública gerencial, há a parceria com a sociedade civil e uma maior autonomia
para as entidades administrativas. A eficiência da administração pública, a necessidade de reduzir custos e aumentar a qualidade
dos serviços públicos prestados, tendo o cidadão como beneficiário, torna-se a meta do Estado, a essência da atividade
desempenhada por este.

A Administração Pública gerencial deve ser permeável à maior participação dos agentes privados e/ou das organizações da
sociedade civil e deslocar a ênfase dos procedimentos – meios, para os resultados - fins. Essas entidades passam a ser
denominadas de terceiro setor, podendo também ser chamada de entidades paraestatais, na medida em que atuam ao lado do
Estado. Maria Sylvia Di Pietro ensina que:

Os teóricos da Reforma do Estado incluem essas entidades no que denominam deterceiro


setor, assim entendido aquele que é composto por entidades da sociedade civil de fins públicos e não
lucrativos; esse terceiro setor coexiste com primeiro setor, que é o Estado, e o segundo setor, que é
o mercado. Na realidade, ele caracteriza-se por prestar atividade de interesse público, por iniciativa
privada, sem fins lucrativos; precisamente pelo interesse público da atividade, recebe em muitos casos
ajuda por parte do Estado, dentro da atividade de fomento; para receber essa ajuda, tem que atender a
determinados requisitos impostos por lei que variam de um caso para outro; uma vez preenchidos os
requisitos, a entidade recebe um título, como o de utilidade pública, o certificado de fins filantrópicos,
a qualificação deorganização social. (...) Normalmente, celebram convênio com o poder público, para
formalizar a parceira.[3] [4]

A ampliação da participação democrática inserida com a administração gerencial é um dos meios de defender a coisa
pública. Portanto, a Administração Pública deve enfatizar resultados, contrapondo-se à ideologia do formalismo e do rigor técnico
da burocracia tradicional.

Com a adoção do modelo de Estado Gerencial no Brasil, o que ocorreu, basicamente, com o advento da Emenda Constitucional
n. 19, de 1998, ganhou importância à participação das entidades não governamentais na realização de políticas públicas.

A prestação de serviços públicos não exclusivos do Estado, ou seja, não correspondentes à manifestação de uma feição do poder
do Estado, como o poder de polícia, ganhou novos modelos. Trata-se do estabelecimento de parceria com o Terceiro Setor para
prestação de serviços como saúde, educação, pesquisa científica, fomento, entre outros.

A prestação de serviços público por intermédio de agentes não estatais, atuando sob formas menos rígidas e sujeita ao controle
estatal quanto aos resultados, é aplicação prática do princípio da eficiência. Tal mudança visa, na verdade, ao acréscimo de
qualidade na prestação dos serviços públicos sociais, perdida com a crise de financiamento que levou à derrocada do Estado
Social.

Segundo José dos Santos Carvalho Filho[4] [5],

O primeiro grande passo para mudar o desempenho do Estado como prestador de serviços foi o
Programa Nacional de Desestatização, instituído pela lei nº 8.031, de 12/4/1990. Posteriormente, essa
lei foi revogada pela Lei nº 9.491, de 9/9/1997, que, embora alterando procedimentos previstos na lei
anterior, manteve as linhas básicas do Programa.

Assim, através de um programa de privatizações transfere-se para o setor privado a tarefa da produção, em princípio, mais
eficiente. Ainda, por um programa de publicização, desloca-se para o setor público não-estatal a produção dos serviços
competitivos ou não-exclusivos de Estado, estabelecendo-se um sistema de parceria entre Estado e sociedade para seu
financiamento e controle. O Estado continuará como promotor dos serviços básicos, subsidiando-os, buscando o fortalecimento
das funções de regulação e de coordenação do Estado.

Na Administração Gerencial entra a figura dos entes de cooperação, que colaboram com o Estado e são chamados também de
entes paraestatais. Alguns autores costumam chamá-los de terceiro setor. Como estão fora da administração, sua natureza
jurídica é de pessoa jurídica de direito privado. Essas pessoas jurídicas não podem ter fins lucrativos, não foram criadas para o
lucro, que, se eventualmente, acontecer, deve ser aplicado nas funções institucionais, mas não é seu principal objetivo.

Maria Sylvia Di Pietro, ao analisar o chamado “terceiro setor”, explica que,

Nesse mesmo sentido de entidades paralelas ao Estado, podem ser incluídas, hoje, além dos serviços sociais
autônomos, também as entidades de apoio (em especial fundações, associações e cooperativas), as
chamadas organizações sociais e as organizações da sociedade civil de interesse público.

(...)

Em todas essas entidades estão presentes os mesmos traços: são entidades privadas, no sentido de
que são instituídas por particulares; desempenham serviços não exclusivos do Estado, porém em
colaboração com ele; recebem algum tipo de incentivo do poder público; por essa razão, sujeitam-se a
controle pela Administração Pública e pelo Tribunal de Contas. Seu regime jurídico é
predominantemente de direito privado, porém parcialmente derrogado por normas de direito público.
Integram o terceiro setor, porque nem se enquadram inteiramente como entidades privadas, nem
integram a Administração Pública, direta ou indireta. Incluem-se entre as chamadas organizações não
governamentais (ONGs). Todas essas entidades enquadram-se na expressão entidade
paraestatal.[5] [6]