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TEXTO PARA O QUESTIONÁRIO 2

CLASSIFICAÇÃO, TESAURO E TERMINOLOGIA


- fundamentos comuns -

Hagar Espanha Gomes

1 INTRODUÇÃO
2 PRIMEIRA VERTENTE: O MÉTODO DE FACETA
3 SEGUNDA VERTENTE: A ORGANIZAÇÃO ALFABÉTICA
3.1 O Sistema Unitermo
3.2 O Tesauro Documentário
3.3 O Sistema de Fichas Perfuradas na Margem
4 TERCEIRA VERTENTE: REVISITANDO RANGANATHAN
5 QUARTA VERTENTE: A TEORIA GERAL DA TERMINOLOGIA
6 AGORA PODEMOS JUNTAR TUDO
7 PARA FINALIZAR: A TEORIA DA CLASSIFICAÇÃO COMO UM ‘MUST’

1 INTRODUÇÃO

O título pode parecer estranho porque aparentemente estabelece relação entre referentes de
distinta natureza, que pertencem a diferentes áreas de conhecimento. Tesauro é um conjunto
de termos semântica e genericamente relacionados, cobrindo uma área específica do
conhecimento. É um instrumento da indexação/recuperação de informação. Terminologia é um
termo ambíguo que pode se referir, por exemplo, a uma área de estudo ou a um conjunto de
termos de uma área de assunto. Esta última acepção já deixa perceber que há características
comuns entre terminologia e tesauro, ou seja, ambos lidam com termos de uma área
específica. Mas Terminologia - assim, com T maiúsculo para designar a área de estudo -
também nos interessa aqui, pois o que buscamos é a identificação de seus fundamentos para
compará-los com os fundamentos de elaboração de tesauros. Infelizmente, inexiste uma
palavra para designar a área de estudos que se ocupa da elaboração de tesauros, mas tal área
não só existe, como também tem seus fundamentos. Classificação, no âmbito da
documentação, é uma palavra associada, na maioria das vezes, às tabelas de classificação
bibliográficas. Neste contexto, será visto como Teoria da Classificação, abordando os
fundamentos estabelecidos por Ranganathan, com a finalidade de criar tabelas de classificação
facetada (linguagem documentária).

Para iniciar, queremos enfatizar que a característica comum entre tesauros e terminologias é
que são ambos sistemas de classificação.

Classificar é ordenar, organizar, reunir segundo características comuns. Na Biblioteconomia


esta organização é um imperativo e ela se dá através de instrumentos como tabelas de
classificação - criadas com o fim específico de organizar fisicamente as coleções de
documentos - e tesauros - criados para organizar os assuntos tratados nos documentos e/ou
orientar os procedimentos de busca numa base de dados. As tradicionais tabelas de
classificação de assunto como a CDD e a CDU têm, como unidades, conceitos ou assuntos e,
por isto mesmo, nem sempre é possível construir o número de classificação de modo co-
extensivo com o documento. Isto seria possível se a unidade fosse sempre o conceito o qual,
por ser a menor unidade de manipulação, permitiria uma infinidade de arranjos e combinações
necessárias a representar qualquer assunto de um livro, como pode ocorrer com um tesauro
baseado em conceitos (proposta que defendemos)

Nas terminologias, que lidam com conceitos, estes se organizam com base em características
e, segundo a TGT, os conceitos de uma área de assunto se relacionam entre si, isto é, se
definem uns em relação aos outros, constituindo-se num sistema.
2

Embora a Biblioteconomia não tenha relação com a Terminologia, o fato de ter ela, também,
uma natureza sistemática, é um fator suficientemente relevante para que se deva conhecê-la e
verificar se existem fundamentos comuns entre esta última e os sistemas de classificação,
incluindo-se nesta última categoria não apenas os esquemas de classificação bibliográfica mas
também os tesauros documentários.

Um pouco de história pode ajudar.

O que pretendemos aqui é mostrar como o a fundamentação teórica do Tesauro pode se


beneficiar dos fundamentos ou de algum aspecto particular das outras áreas, de modo
complementar.

Para entendermos a relação entre Tesauro (vamos designar com letras maiúscula para
designar a área de estudos), Terminologia (enquanto área de saber - e não enquanto produto
final) e Classificação, temos que acompanhar o desenvolvimento histórico de várias atividades
ligadas em grande parte, à Biblioteconomia/ Documentação e o surgimento da Teoria Geral da
Terminologia (TGT).

Podemos dizer que para chegar ao tesauro temos 4 vertentes distintas, com distintos
propósitos, mas que, de alguma forma - embora não intencionalmente - contribuíram, cada uma
delas, com fundamentos que foram se complementando com o tempo. Veremos, no entanto,
que tais fundamentos não cobrem todos os aspectos necessários à atividade tesaurográfica
(vamos falar assim).

Uma análise da Teoria Geral da Terminologia nos permite perceber que ela tem algo a oferecer
para completar o quadro teórico da atividade tesaurográfica. Embora nosso intento seja o de
focalizar as áreas que contribuíram para o estabelecimento de bases teóricas dos tesauros
documentários, não podemos deixar de apontar que falta à TGT - segundo nosso ponto de
vista- algo em seu método que não permite a organização sistemática dos termos de uma área
de assunto, como é seu intento. Neste caso, procuraremos mostrar que a Teoria da
Classificação de Ranganathan é uma contribuição relevante.

As 4 vertentes a que nos referimos anteriormente seguem, às vezes, concomitantemente;


outras vezes, seguem paralelas. Ao final, o quadro estará completo?

A atividade documentária é mais antiga e, por isto mesmo, tem um curso mais rico do que o da
atividade terminológica. Comecemos por ela.

2 PRIMEIRA VERTENTE: O MÉTODO DE FACETA

Ranganathan, pesquisador indiano e um dos fundadores da moderna Biblioteconomia/


Documentação, era professor de Matemática na India, quando foi enviado para a Inglaterra
para estudar Biblioteconomia e iniciar o movimento biblioteconômico em seu país.

À sua formação matemática e filosófica se deveu, sem dúvida, o modo de analisar as questões
profissionais que se apresentaram a ele e, sobretudo, à forma como ele se propôs a resolvê-las
[1]. Ranganathan atuou em todas as áreas da Biblioteconomia e da Documentação e procurou
sempre sistematizá-las, identificar-lhes princípios, estabelecer postulados, etc.

No que nos interessa aqui, ficamos com a classificação. Ranganathan desenvolveu um método
de classificação bibliográfica que tinha por objetivo garantir uma seqüência útil dos livros nas
estantes. Sua preocupação era a de organização física dos livros numa biblioteca.

À época em que estudou Biblioteconomia, várias tabelas de classificação estavam em uso.


Elas refletiam a compreensão que se tinha dos assuntos naquele momento. Para Ranganathan
tais tabelas eram descritivas, ou seja, descreviam os assuntos conforme se apresentavam nos
grandes tratados e, por isto mesmo, havia uma certa dificuldade em classificar assuntos novos.
3

Ele acreditava que uma tabela deveria ser prescritiva, ou seja, a partir de alguns princípios e
instruções previamente estabelecidos, de modo a poder classificar qualquer assunto, inclusive
os novos.

Conta-se que o ‘estalo’ veio quando ele passava por uma loja e viu um jogo no qual diferentes
peças podiam ser combinadas para formar distintos objetos.

O método de Ranganathan para conceber seu esquema de classificação - a Colon


Classification - foi o de partir dos assuntos dos livros para identificar as unidades conceituais
neles existentes; estas seriam as peças do quebra-cabeças, ou seja, aquelas unidades que,
combinadas de diferentes maneiras, poderiam formar qualquer assunto que se desejasse. A
estas unidades ele chamou de focos e isolados; não se pode afirmar que fossem, ainda,
conceitos; ele mesmo chamava de idéias, de perceptos. As unidades poderiam ser conceitos,
num momento, mas poderiam ser características destes conceitos, no outro.

A organização que ele deu a estas unidades já não tinha a ver com os assuntos dos livros, mas
buscava refletir uma realidade empírica. Esta organização representou uma das rupturas com a
metodologia vigente para elaborar tabelas de classificação.

Para Ranganathan, as idéias de uma área de assunto podem ser vistas como um todo e ser
sempre reunidas sob 5 Categorias Fundamentais - ou Facetas - que ele denomina
Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo.

As Facetas têm sua manifestação nas classes mais gerais dentro de uma área do
conhecimento [2]. Por exemplo, na Siderurgia, temos Facetas (classes gerais) como Produtos
Siderúrgicos e Aço. Na Agricultura, Facetas como Solo, Clima, Técnicas de Cultivo, Pragas.

Para organizar os conceitos no interior de cada Faceta ele desenvolveu princípios e


estabeleceu postulados, criou uma terminologia própria para formular sua teoria e seu método.
Agora, torna-se possível estabelecer relações de subordinação lógica (as chamadas relações
hierárquicas) com segurança. Ranganathan incluiu, ainda, em sua tabela as relações partitivas.

O método de Faceta foi visto como muito complexo, quando estudado à luz do esquema de
classificação que ele desenvolveu - a Colon Classification. E ficou restrito a isto, durante algum
tempo.

Enquanto isso, nos Estados Unidos...

3 SEGUNDA VERTENTE: A ORGANIZAÇÃO ALFABÉTICA

A Biblioteconomia moderna deve muito aos bibliotecários norte-americanos. O movimento de


bibliotecas floresceu naquele país como talvez em nenhum outro. Com uma certa ojeriza pelos
métodos europeus, os bibliotecários norte-americanos nunca viram com bons olhos os
sistemas de classificação para o tratamento da informação, provavelmente por serem
pragmáticos.

Para organizar os livros nas estantes, tinham o Dewey Decimal Classification[3], e isto era
suficiente como classificação. Para organizar as informações dos documentos, tinham os
cabeçalhos de assunto, que são um produto tipicamente americano para tratamento dos
assuntos dos livros e para organização do catálogo alfabético de assunto. Embora os
cabeçalhos de assunto não tenham contribuído para o desenvolvimento dos tesauros eles
estão na origem dos instrumentos alfabéticos para tratamento de informação. E para contornar
certas limitações outras técnicas foram desenvolvidas, como o Unitermo ou a ficha perfurada
na margem, estas, sim, mais próximas, cada uma a seu modo, dos tesauros. As informações
sobre o cabeçalho de assunto que se seguem servem apenas para mostrar em que contexto
eles se mostraram insatisfatórios e como se desenvolveram novas modalidades chamadas
genericamente de indexação pós-coordenada e os instrumentos de controle desenvolvidos
para ela.
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Os cabeçalhos são constituídos de uma palavra ou de um conjuntos de palavras que


representam os assuntos dos documentos. A criação de novos cabeçalhos ocorre sempre que
um novo livro não possa ser representado pelos cabeçalhos já registrados na lista. Esta lista
caracteriza-se, pois, como uma lista descritiva, ou seja, não há princípios para a criação de
cabeçalhos - eles são criados ad-hoc. A tradicional LCSH - Library of Congress Subject
Headings - que é a fonte utilizada pelos bibliotecários para organizar seus catálogos, é uma
lista de cabeçalhos de assunto que reflete, na verdade, os cabeçalhos existentes no catálogo
da Library of Congress - os novos e os velhos. Este comportamento explica, por um lado, as
incoerências da lista, detalhadas em estudos de Gomes e Torres. Como a Library of Congress
tem um acervo geral, com milhões de títulos, sempre é possível recuperar alguma coisa,
mesmo com tais incoerências. Mas, o que interessa discutir aqui é que cada cabeçalho
representa um assunto existente em pelo menos um livro; não é uma lista que represente de
modo orgânico as diferentes áreas de assunto ali incluídas. Daí afirmarmos ser ela uma lista
ad-hoc [4].

A Guerra de 1939-1945 provocou um grande desenvolvimento científico e tecnológico. Os


serviços de informação - acervos especializados para comunidades especializadas - daí
decorrentes tiveram que procurar outros caminhos para organizar o assunto de seus
documentos.

Os especialistas precisavam de uma ferramenta que lhes possibilitasse acessar um assunto


por qualquer dos aspectos nele incluído. A representação do assunto de um documento por
meio dos cabeçalhos de assunto era linear e, portanto, se um assunto tivesse que ser
procurado por um aspecto (idéia) considerado secundário no tradicional cabeçalho de assunto,
tal documento não poderia ser encontrado. A recuperação só seria possível quando fosse
conhecida a palavra que iniciasse o cabeçalho.

Para resolver esta questão, e dentro da tradição de catálogo alfabético, uma interessante
proposta surge no início dos anos 50: o sistema Unitermo.

3.1 O Sistema Unitermo

Para acessar qualquer aspecto de um documento, no sistema Unitermo, bastava colocar cada
palavra representativa do assunto do documento em uma ficha a qual continha, além disso, os
números dos documentos que tinham a ver com a idéia representada por aquela palavra. O
nome ‘Unitermo’ deve ser entendido aqui por uma única palavra técnica (termo).

Havia um pressuposto que as idéias seriam representadas por uma única palavra. Logo se viu
que não era bem assim. Algumas vezes o sentido só podia ser dado por meio de um grupo de
palavras; muitas vezes o conjunto era formado de um substantivo e um adjetivo, outras vezes
por dois substantivos. E aí várias alternativas poderiam ocorrer: manter as palavras juntas ou
separadas - isto sem nenhuma prescrição -, o que introduzia incoerências. O controle de
sinonímia também não foi considerado, porque se partia de outro pressuposto - o da
homogeneidade -, acreditando-se que os autores e os usuários pertenciam à mesma
comunidade e, portanto, o modo de procura era o mesmo modo da redação, ou seja, haveria
coincidência entre a maneira como se escrevia e a maneira como se procurava informação.

O sistema foi se desenvolvendo, permitindo, algumas vezes, palavras combinadas a priori,


mantendo-as separadas em outras ocasiões, sem que fossem estabelecidos princípios, o que,
mais uma vez, é causa de incoerências, exatamente como nos cabeçalhos de assunto. Mas o
que o sistema tinha de revolucionário, de início, não era propriamente o vocabulário de
indexação, mas a forma de arquivamento das fichas, que permitia acesso a qualquer aspecto
tratado num documento, além de permitir, também, acesso através da combinação de mais de
um aspecto. Então os diferentes aspectos (ou facetas) deveriam ter um tratamento de sorte a
abolir as incoerências. A novidade maior para o que nos interessa aqui, foi a criação de um
instrumento de controle de vocabulário chamado tesauro documentário.

3.2 O Tesauro Documentário


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O Tesauro surge como um instrumento alfabético de controle, tão ao gosto dos americanos.
Nele, cada termo se relaciona com outros que com ele guardam alguma proximidade lógica ou
semântica.

Embora os cabeçalhos de assunto também tenham relações, a diferença está no fato de as


relações no tesauro serem mais refinadas, ou seja, há duas possibilidades para se indicar o
antigo ‘ver também’: há as relações genérico/específicas e as relações associativas. Este
instrumento foi chamado ‘thesaurus’ por ter se inspirado no dicionário analógico intitulado
Thesaurus of English words and phrases, de Roget. É interessante observar que em seu
Thesaurus a organização das idéias-chave obedecem a um sistema de classificação em que as
categorias estão dispostas do mais abstrato para o mais concreto. Em sua Introdução Roget
define seu dicionário como uma 'classificação de idéias' e explica que, diferentemente dos
outros dicionários, o seu permite que se chegue a uma palavra mais adequada ou que melhor
se ajuste à necessidades do escritor, sem que, de início, ele saiba qual é ela.

Mas, se para estabelecer relações genérico-específicas o tesauro documentário adotava algum


fundamento, os princípios para estabelecer outras relações - sobretudo as relações
associativas - nunca foram claros. Assim, ora as relações partitivas eram consideradas como
genérico-específicas, ora como associativas [5]; também pela ausência de princípios
freqüentemente fica-se sem entender porque dois termos estão ligados associativamente.
Outra característica dos primeiros tesauros - que permanece na maioria dos tesauros atuais - é
que o aspecto formal continua prevalecendo sobre os aspecto conceitual. Dito de outro modo,
se a denominação de um conceito - por exemplo, uma propriedade, uma técnica ou operação,
ou um objeto - exige várias palavras, é comum encontrar-se nos tesauros uma orientação para
fatorá-los. Isto quebra o significado que aquela denominação traz (ou seja, elimina o
significado), e impede, com isto, o adequado relacionamento entre os termos.

Isto evidencia, no entanto, que as bases do que seria o termo ou descritor em um tesauro não
foram estabelecidas. Se havia mais de uma palavra para designar uma idéia - ou um tópico -,
ora se considerava todas como parte integrante de um termo/descritor, ora não; ora uma
expressão contendo mais de uma idéia era considerada como uma unidade (ou um termo), ora
não. Com isto, as relações também não foram estabelecidas de forma clara.

Assim, o novo instrumento, embora considerado um avanço, não desenvolveu os fundamentos


para sua construção coerente.

3.3 O Sistema de Fichas Perfuradas na Margem

À mesma época surge outra proposta: o sistema de fichas perfuradas na margem. Este sistema
apresenta algumas vantagens sobre o Unitermo, pois exige controle de vocabulário. Tal
controle é necessário pelo fato de haver um número limite de termos determinado pelo
tamanho da ficha: o limite de perfurações exige limite no número de termos, ou seja, o total de
termos depende do tamanho da ficha; por exemplo, se o campo de assunto permite dois
dígitos, isto significa que o sistema só pode ter até 99 termos. Assim, para cobrir uma
determinada área de assunto, alguns termos são mais amplos, ou seja, cobrem mais conceitos
específicos. Na verdade, não são chamados de 'termos', mas ‘descritores’, ou seja, palavras ou
frases com sua abrangência de significados ‘descritas’, indicando-se os conceitos específicos
neles incluídos. Recomendava-se, neste sistema, que os descritores fossem organizados em
forma sistemática, com uma notação numérica, com índice detalhado das idéias específicas
remetendo para os ‘descritores’ - mais amplos.

Se o sistema Unitermo revolucionou a forma de arquivamento das informações e foi copiado


nos primeiros sistemas computadorizados - conhecido como ‘arquivo invertido’ - o método das
fichas perfuradas na margem contribuiu para a sistematização de alguns aspectos
considerados como relevantes para a recuperação em um dado sistema de informação, como,
por exemplo, local e ano de publicação. Pode-se afirmar que as bases para futura formatação
dos dados em meio magnético se beneficiaram desta experiência. Para o que nos interessa
aqui, o sistema mostrou a utilidade da apresentação sistemática no controle de vocabulário.
6

Tanto neste último sistema como no sistema Unitermo, houve a ruptura com o sistema de
acesso linear; o vocabulário de controle e a forma de arquivamento dos dados tiveram por
objetivo permitir acesso a qualquer aspecto tratado no documento, isoladamente ou em
combinação com outro(s).

4 TERCEIRA VERTENTE: REVISITANDO RANGANATHAN

Na década de 50, estudiosos da classificação na Inglaterra se reuniram e criaram o


Classification Research Group - CRG, com o objetivo de dar seguimento aos estudos de
Ranganathan. Ali estavam Vickery, Foskett (Douglas), Mills, mais tarde, Farradane, Austin,
Aitchison, para ficar com os mais conhecidos. Retomaram o método de Faceta de
Ranganathan.

O CRG desenvolveu os estudos de classificação não apenas para produzir esquemas de


classificação, mas para aprofundar os princípios e métodos, para melhor conhecer o objeto de
seus estudos. Um dos resultados foi a identificação de muitas outras manifestações das
categorias fundamentais [6].

O próprio Ranganathan havia percebido que as 5 Categorias Fundamentais eram insuficientes


para mapear uma área de assunto; outras manifestações poderiam ser consideradas como
segundo nível ou segundo turno das mesmas facetas. Por exemplo, uma avaliação de uma
técnica é uma ação (Energia) sobre outra. Mas ele manteve as Facetas Fundamentais.

A grande contribuição para os estudos de classificação enquanto método para mapear uma
realidade empírica veio com o Thesaurofacet, quando Aitchison empregou o Método de Faceta
para construir uma tabela de classificação para Energia Elétrica e, ao mesmo tempo, para a
construção do Tesauro alfabético que lhe servia de índice. Nele, os termos e relações, repetiam
as relações que estavam evidentes na Tabela e cada termo de entrada na ordem alfabética,
remetia para o código de classificação, além de mostrar igualmente as relações com outros
termos. Estava claro, agora, que na organização de um Tesauro documentário a classificação
estava na base, embora desconstruída em favor da ordem alfabética.[7]

O nome Thesaurus, para essa ferramenta documentária, se torna, agora, mais apropriado, pois
fica evidente que ele é uma classificação de idéias.

Bem, parece que agora a velha Teoria da Classificação encontra sua utilidade num moderno
instrumento de indexação/recuperação e que está tudo resolvido.

Não, em nosso ponto de vista. Se a Teoria da Classificação, mais especificamente, da


Classificação Facetada se mostra atualíssima, o mesmo não se pode dizer do tratamento dado
ao termo, segundo a literatura do assunto [8].

De fato, não há questionamento entre os classificacionistas a respeito do conceito ou do termo.


Quanto ao primeiro, parece que ele está dado e que nada há a questionar. Fala-se das
características do conceito antes para utilizá-lo como característica de divisão (ou divisão da
faceta) do que para utilizá-lo no processo de denominação. Mas, no que se refere ao termo,
existe a mais completa ausência de princípios a respeito de sua forma: fala-se de fatoração
sintática, morfológica e semântica, para explicar como tratar um grupo de palavras. Os dois
primeiros aspectos mostram, nitidamente, que o tratamento é lingüístico.

Estas soluções oferecidas pelos classificacionistas e especialistas em tesauros carece de


fundamentos, sendo, mesmo, incoerentes, ao não levar em conta que existe uma relação
unívoca entre o termo e o conceito. Lancaster em seu Vocabulary control [9] considera estas
questões 'filosóficas' , mas não estabelece princípios para o tratamento dos termos, repetindo
as inconsistências de outros autores.

5 QUARTA VERTENTE: A TEORIA GERAL DA TERMINOLOGIA


7

À mesma época que Ranganathan desenvolvia seu método de Faceta, um engenheiro


austríaco - E. Wüster - desenvolvia sua Teoria Geral da Terminologia - TGT, que deu origem à
Escola de Terminologia de Viena [10].

Wüster estava preocupado com as relações comerciais, as trocas internacionais, os contratos


que geravam direitos e deveres no comércio internacional. Para ele, a terminologia precisava
estar bem estabelecida.

Infelizmente, e por ironia, Terminologia é um termo ambíguo. Entre outras coisas, ele não é
evocativo. Pode-se pensar que a Terminologia seja uma ramo da Lingüística, porque se ocupa
de termos e termos são unidades lexicais. Nada mais falso. Segundo a Teoria Geral da
Terminologia, a atividade terminológica trata de conceitos e sua sistematização; ela tem início
no conceito e termina no termo. E termo é uma palavra ou um grupo de palavras que designa
um conceito, guardando com ele uma relação unívoca [11]. Ela incorpora, sobretudo, a
realidade extra-lingüística. Seu objeto não é a língua, mas o conceito. Somente após este estar
bem estabelecido, com seu conteúdo identificado, é que vamos nos ocupar do termo que o
designa. Segundo a TGT, existe uma relação direta entre o termo e o referente, e esta relação
se dá via conceito.

Segundo Wüster, um dos postulados da Teoria Geral da Terminologia é que os termos de uma
área de assunto se relacionam como um sistema. E aqui nos aproximamos da Classificação.

As relações são muito bem identificadas na TGT; de alguma forma, de modo mais claro do que
em Ranganathan [12],porque ela se ocupa do conceito: sua análise e conteúdo. Para Wüster
os conceitos se relacionam lógica e ontologicamente. As relações lógicas se dão por abstração.
As relações ontológicas são aquelas que se referem ao objeto numa realidade empírica: sua
relação com outros no tempo ou no espaço.

São relações lógicas as relações de superordenação/subordinação - ou genérico-específicas;


as relações ontológicas englobam as relações partitivas e as relações seqüenciais
(contigüidade no espaço ou no tempo). Neste aspecto, a TGT oferece bases mais seguras para
o estabelecimento das chamadas relações não-hierárquicas (associativas) nos tesauros.

A TGT usa o método de classificação como base para identificar o conteúdo dos conceitos,
para estabelecer a posição dos conceitos na hierarquia, tudo isto para produzir definições
coerentes. As definições são, portanto, descrições do conteúto dos conceitos. É o método de
classificação que possibilita fazer predicações verdadeiras sobre os itens da realidade. (Aqui
estamos incorporando uma outra Teoria, que refina ainda mais a questão do conceito, que é a
Teoria analítica do conceito [13]).

A TGT fornece, ainda, solução para as questões relativas ao termo. Se o termo designa o
conceito, então não cabe falar de 'determinante' ou 'determinado', ou se se trata de um termo
composto, complexo, sintagmático ou o que seja. O termo designa uma unidade conceitual,
não importa de quantas palavras seja constituído [14]. O importante é identificar esta unidade.

6 AGORA PODEMOS JUNTAR TUDO

Chamamos vertente cada uma dessas atividades/ações. Cada uma delas deriva um conjunto
que, ao final, se harmoniza num todo coeso.

Sintetizando: Ranganathan produziu um método dedutivo, que fornece uma visão holística. Por
meio do método de Faceta conseguimos perceber qualquer área de assunto como um todo.
Podemos organizar dedutivamente, as hierarquias. Com isto, podemos criar esquemas de
classificação e tesauros documentários. O método de Faceta contribui para a apresentação
sistemática dos termos nos glossários, como recomenda Wüster.
8

A TGT é um método indutivo. Embora nela se fale de sistema de conceitos, na verdade, ao não
incorporar o conceito de Faceta, o máximo que a TGT consegue estruturar são cadeias e
renques, sem que se alcance a visão do todo.

Tanto o método de Faceta quanto a TGT fornecem bases seguras para estabelecer relações
lógicas/hierárquicas. Ranganathan desenvolveu à exaustão a construção de cadeias e renques
(hierarquias - relações dentro de uma mesma faceta). Wüster foi além: com as relações
ontológicas ofereceu base para relações entre classes de diferente natureza (não-hierárquicas)
[15].

Ranganathan não se ocupou do termo. Para ele o termo é a notação. A TGT esgota a questão
do termo, e o coloca em seu devido lugar, ou seja, como designação do conceito.

7 PARA FINALIZAR: A TEORIA DA CLASSIFICAÇÃO COMO UM ‘MUST’

A Teoria da classificação não tem recebido a devida atenção nos cursos que se ocupam de
organização e tratamento da informação. No seu bojo está, como se pode perceber, o conceito,
que é o que se procura classificar, sistematizar. Mas ela é importante, não apenas para
produzir tesauros documentários ou terminologias. Sua importância vai muito mais além.

A literatura tem mostrado que a classificação está presente não apenas nos sistemas de
recuperação de informação, mas na base de sistemas e atividades que se ocupam da
organização do conhecimento em suas diferentes manifestações como, por exemplo, os
sistemas de inteligência artificial e hipertextos. A unidade a ser manipulada nestes sistemas e
atividades é o conceito, que é uma unidade de conhecimento. As propriedades do conceito - ou
as suas características - fornecem os elementos para seu interrelacionamento, ou seja, para o
estabelecimento da estrutura do sistema, que o usuário percebe como uma rede, ou teia...

(Palestra preparada para as Tertúlias do Departamento de Biblioteconomia da UNIRIO,


apresentada em julho de 1996)

____________________

Notas e Referências bibliográficas

[1] No momento de enviar este texto para divulgação acaba de ser apresentado ao Mestrado
em Ciência da Informação a dissertação de Fernando Antonio Sepúlveda sobre a Gênese do
pensamento de Ranganathan (Rio de Janeiro, IBICT, 1996), cuja leitura recomendamos. Voltar

[2] A Colon Classification é um esquema geral organizado segundo áreas de conhecimento. O


método de Faceta mostrou-se igualmente válido para sistematizar áreas específicas de
assunto, de âmbito mais restrito. Voltar

[3] Embora o foco aqui não seja Tabela de Classificação, é importante ressaltar que a Dewey
Decimal Classification representou, igualmente, uma ruptura com os métodos vigentes ao
permitir posição relativa dos livros nas estantes. Voltar

[4] O cabeçalho de assunto é também uma lista alfabética e nele os cabeçalhos também se
relacionam. Apesar de rejeitar a classificação, o sistematizador dos cabeçalhos de assunto
sentiu necessidade de estabelecer relação entre assuntos, relação que apenas a ordem
alfabética não daria. Idéias próximas teriam que ser reunidas de alguma outra forma, como, por
exemplo, através de referências cruzadas do tipo "ver também". Estas relações foram
chamadas de relações sindéticas. Voltar
9

[5] Willetts faz uma pesquisa sobre o tema, na década de 70, analisando dez tesauros. Cf
Journal of Documentation (1975) v. 31, n. 3, p. 158-184. Voltar

[6] Cf a este respeito Vickery, B.C. Faceted classification schemes. New Brunswick, N.J.,
Rutgers Univ. press, 1966, p. 46-47. Voltar

[7] O Prof. Astério Campos insistia sempre neste aspecto e registrou seu ponto de vista no
artigo O Processo classificatório como fundamento das linguagens de indexação, publicado na
R. Bibliotecon. Brasília, (1978) v. 6, n. 1, p. 1-8. Voltar

[8] A obra mais conhecida e popular, neste aspecto, é o Manual de construção de tesauros, de
J. Aitchison, cuja primeira edição está traduzida para o português pela editora Brasilart; mas é
importante consultar, também, as Diretrizes da UNESCO sobre o assunto, ou o livro de
Lancaster. Ver [9]. Estes autores consideram o termo ou descritor por suas propriedades
lingüísticas e não conceituais. Voltar

[9] Lancaster, F.W. Vocabulary control for information retrieval. 2nd ed. Arlington, Va.,
Information Resources Press, 1972. Voltar

[10] As propostas de Wüster deram origem à ISO TC 37 - Comitê de Estudos sobre Princípios
de Terminologia. De fato, a TGT se aproxima do modelo normativo. Cf. o artigo de Riggs, F.W. A
new paradigm for social science terminology. International classification, (1979) v. 6, n. 3, p.
150-158. Voltar

[11] Esta univocidade é possível dentro de uma área de assunto, que é o campo de atuação da
TGT, em especial nas áreas das Ciências Básicas e na Tecnologia. Voltar

[12] O objetivo de Ranganathan era estabelecer um sistema de notação para as idéias ou


perceptos. Voltar

[13] A este respeito, cf. DAHLBERG, Ingetraut. A referente-oriented analytical concept theory for
INTERCONCEPT. International Classification (1978) v.5, n. 3, p. 142-151. Voltar

[14] Esta discussão só é válida para o tratamento automático dos termos. Voltar

[15] Não se pense, no entanto, que a questão esteja esgotada. Pesquisadores da área de
Inteligência artificial têm aprofundado estudos principalmente referentes à relação partitiva.
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