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Soteriologia.

Antes de mais nada, é necessário saber que Deus nos move, mas esta moção é dividida em 3
aspectos, a saber, incoação (principio), trajeto e o fim, cada um destes são oferecidos por duas
vias diferentes, a saber, pela vontade antecedente que oferece a incoação e a vontade
consequente é a que oferece os meios para os fins intencionados na incoação.

A incoação é sempre infalível, ora, uma criatura não pode rejeitar a incoação da moção pois
obviamente algo não pode mover-se por si próprio. E quando o fim não é material, ele
não é movido materialmente, mas é movimento pelo seu fim, concluímos então que se
o fim é a salvação, o motor para tal fim é sempre Deus. Portanto, o consentimento e
assimento em nós, na verdade é de Deus, pois já estava previsto na incoação iniciada
por Deus, e como bem sabemos, o homem não pode obrar com uma determinação a
mais do que aquela disposta pela incoação divina iniciada desde nosso nascimento (pois
nada surge do nada), portanto, todas as coisas que nos levam a Deus, são unicamente
culpa d’Ele, e não nossa. Importante também salientar que esta incoação não é só
‘posse’ (mera potência para a glória, como dizem os banesianos, sendo uma potencia
que é atualizada por nossas boas ações) mas um ‘agere’ (uma ação efetiva, que se não
for interrompida, será efetivamente o caminho sozinho para a gloria, dependendo não
do consentimento e do livre arbítrio, mas dependendo da não-prossecução).
Porém, somos dotados de autodeterminação, de tal forma que embora a incoação seja
infalível, o trajeto e o fim não são, pois a prossecução do movimento incoado (iniciado)
é condicional, a saber, a condição é que a criatura não coloque obstáculos ou
impedimentos atuais a prossecução e execução da moção. Mas ora, isso não dizer que
a salvação depende do nosso consentimento, pois como já mostramos, o homem não
pode obrar com uma determinação a mais do que aquela disposta pela incoação divina
iniciada desde nosso nascimento, mas pode entretanto, fazer menos ou simplesmente
não fazer.
Percebemos então, uma dissimetria entre a reprovação e predestinação. Onde todos
foram sim predestinados, mas aqueles que foram reprovados, não é por vontade de
Deus remotamente, mas é pela culpa própria do homem. Se há uma causa remota para
a salvação, é sempre Deus pois sua graça é suficiente para salvar, e se há uma causa
remota para a perdição, é sempre o homem, que embora seja imbuído de graça
suficiente para a salvação, ele a torna ineficaz por não dão prossecução a incoação
iniciada por Deus.
Agora, é onde se surge as duvidas que classificarei de modo geral em algumas aqui:
1 - Se o homem é salvo, é portanto, por mérito dele, pois ele resistiu ao pecado e não
impediu a prossecução da incoação infalível. Mas ora, como pode ser o mérito do
homem, se a moção para o ato é sempre de algo que já possua tal ato? Como o passar
de uma tocha fria para uma tocha flamejante, necessita que algo seja flamejante em ato
para atualizar a potência da tocha, de tal forma que, para a salvação, é necessário algo
que dê a graça não só suficiente, mas eficaz de salvar o homem, e é obvio que o homem
não tem essa graça.
2 - Como o homem pode resistir ao pecado, sabendo da radicalidade do pecado, onde
sem uma força dada por Deus, cairíamos ao pecado sem pestanejar, de tal forma que
todos seriamos reprovados. Como poderíamos nos salvar de nossa depravação total?
3 – A dependência da graça suficiente falivelmente eficaz (infalivelmente incoada) de
que não se deve impor impedimentos ao trajeto, é por fim, uma dependência da vontade
humana?
4 – Deus é mal por permitir que se faça o mal?
Antes de responder as dúvidas, precisamos ir mais fundo nos conceitos, nos lembrando
no início, onde falei que a incoação é provida pela vontade antecedente de Deus e os
meios para o fim é provido pela vontade consequente de Deus.
Que é então, a vontade antecedente? Existem em primeiro lugar os decretos da vontade
antecedente (falívelmente eficazes e condicionais), que não subentendem nenhum
conhecimento prévio da parte de Deus do que fará a criatura com os auxílios conferidos por Ele
e que são portanto, apenas o início de um decreto divino incoador infalível porem de execução
impedível, como já vimos.

Características dos decretos da vontade antecedente:

1) Condicionais (sua prossecução está suposta embaixo de uma condição, a saber, que o
trajeto não seja interrompido)
2) Falívelmente eficazes (porque podem ser impedidos pela criatura em vista de seu curso
e término)
3) Não pressupõem a presciência de nenhuma culpa, mérito ou demérito da parte das
criaturas (é, portanto, 'ante praevisa merita et demerita').

Portanto, a vontade antecedente tem tão somente a incoação falivelmente eficaz, isto é, um
princípio de movimento (infalível como princípio) dado indistintamente a todos que podem
seguir ou não, pois embora o princípio seja infalível, seu trajeto para o fim dado por Deus não o
é (A eficácia ou ineficácia sempre se diz com relação ao trajeto e término).

Vemos então que no segundo momento da teoria de Francisco Zumel, há os decretos da vontade
consequente, porém, antes de explicá-los cabe dizer que os decretos da vontade antecedente
produzem efeitos, e tais efeitos são conhecidos pela ciência divina na eternidade. Então, tendo
Deus em conta os efeitos produzidos por seus decretos, efeitos estes que são refletidos na
eternidade que abarca num único instante (nunc stans) todos os momentos das criaturas, Deus
já possui então o conhecimento do 'futurorum contingentium' de cada criatura: Deus tem
presciência dos futuros (o que serão) e dos futuríveis (o que poderiam e/ou deveriam ser) de
cada criatura.

Este é o ponto de referência dos decretos da vontade consequente, que já subentendem da


parte de Deus um conhecimento prévio do que farão as criaturas com os auxílios por Ele
conferidos, que nesse caso foram conferidos pelos decretos da vontade antecedente, e que
cujos efeitos, isto é, o conhecimento das respostas das criaturas, são conhecidos pela ciência de
improvação e aprovação de Deus;
Características dos decretos da vontade consequente:

1) Incondicionais (Sua prossecução não está embaixo de nenhuma condição)


2) Infalívelmente eficazes (não podem ser impedidos pela causa segunda)
3) Pressupõem a presciência da culpa, dos méritos e deméritos da criatura em vista dos
auxílios soberanamente conferidos pela vontade antecedente (é, portanto, 'post
praevisa merita et demerita').

Deus provê a nós a graça [suficiente na vontade antecedente] que pode ser resistida pelo
homem e que é destinada a todos indistintamente. Se o homem impede o prosseguimento da
graça suficiente Deus pode [pela vontade consequente]:

A) Subtrair e remover o impedimento (incoando uma graça eficaz, que infalivelmente


se segue)
B) Pode permitir que o obstáculo colocado livremente pelo homem se siga, onde o
pecado se segue infalivelmente pela culpa do homem.

Portanto, quando o homem impede o trajeto para o fim de uma moção iniciada por Deus, Deus
pode então ou fazer da graça suficiente (incoação falivelmente eficaz dada a todos
indistintamente na vontade antecedente) uma graça eficaz, isto é, antes, a graça era suficiente
para a salvação, mas não eficaz pois o homem embora seja consentido dela (o consentimento
mesmo é um produto inicial da graça suficiente) pode, e irá, pelo pecado, resistir a graça e
impedir o trajeto, tornando-a ineficaz. Donde descobrimos que em fato existem duas
predestinações:

Os predestinados para a glória, e os predestinados para a graça. Para Tomás o predestinado a


glória não pode perder a salvação, e seu nome tampouco pode ser apagado do Livro da Vida,
embora conserve em si a possibilidade “em sentido dividido” de separar-se de Deus
definitivamente, esta possibilidade jamais se atualizará, muito embora nesta vida possam pecar
e se separar de Deus, mas tratar-se-á sempre de algo temporário. Já os predestinados a graça
podem sim efetivamente perder, principalmente quando colocam impedimento à graça
suficiente divina, e Deus mesmo decide de modo libérrimo não subtrair este impedimento
(porque Deus não é obrigado, segundo a escola tomista, a conservar ninguém no bem).

Percebemos então que na vontade antecedente, todos nós somos incoados de graça suficiente
e falivelmente eficaz e portanto somos todos predestinados para a gloria, mas quando Deus
vê o que se faz com seus auxílios dados indistintamente, Deus pode permitir que o pecado se
siga infalívelmente no sujeito que instalou obstáculos a graça, ou pode suprimir os obstáculos
mediante a incoação de uma graça eficaz, donde o sujeito será, então, um predestinado à glória;
ele provê para somente alguns a graça infalivelmente eficaz, sendo então, estes alguns que
são predestinados a glória. Há uma predestinação para o médio (graça) e uma predestinação
para o fim (glória). Com a vontade antecedente Deus quer infalivelmente os médios, mas
falivelmente o fim, porém, com a vontade consequente quer falívelmente os médios, mas
infalívelmente o fim.

Portanto, os homens, muito embora incoados para a vida eterna, podem interromper o
caminho, pois a incoação é falível no princípio mas não no que resta ao trajeto e ao fim. De tal
forma que o homem no pecado original demonstrou a radicalidade do pecado, onde em um
uma natureza perfeita, ainda sim, pecou. Dando impedimento as vontades de Deus por culpa
dele mesmo. Se há resistência a culpa é nossa, mas se não há é por conta da moção de Deus que
operou em nós e com nós para não disposição de impedimentos. Esta dissimetria que Zumel
terminou percebendo é a chave de todo seu sistema: A dissimetria onde a causa remota e
primaria da salvação é sempre Deus enquanto a causa remota e primeira da reprovação é
sempre o homem. Não cai nos problemas banezianos onde Deus é causa da reprovação e do
mal, ou nos problemas molinistas onde o homem é causa da salvação e do bem.

Podemos então, biblicamente, organizar nosso pensamento da seguinte forma:

Na ordem da Vontade antecedente:

1) Por sua ciência de simples inteligência, Deus conhece desde toda a eternidade todas as
coisas possíveis com todas suas infinitas combinações.
2) Deus decide ordenar o gênero humano ao fim sobrenatural, indistintamente (vontade
salvífica universal), conferindo a todos a graça suficiente falivelmente eficazes – pelas
quais poderão (se não houver impedimento) alcançar a beatitude.
3) Deus permite (post-moção, isto é, provê materialidade para o ato de negação da
humanidade como gênero, que chamamos de pecado original) e prevê por sua ciência
de reprovação o pecado original (futurição condicional das criaturas na linha do mal)
que vem a destruir esta ordenação da natureza humana ao fim sobrenatural, em razão
dos impedimentos atuais postos pela vontade criada. Ademais, conhece e prevê por sua
ciência de aprovação a futurição condicional na linha do bem das criaturas, pela não
disposição de impedimentos da parte das mesmas aos auxílios suficientes divinos.

Na ordem da Vontade Consequente:

4) Deus decreta a encarnação do Verbo para redimir o gênero humano e ordenar-lhe de


novo ao fim sobrenatural (que é o contemplar a Deus face a face).
5) Por um decreto absoluto decide dar aos que responderam positivamente à graça
suficiente, auxílios intrinsecamente eficazes para a realização de obras boas pelas quais
o predestinado alcançará a glória eterna (simul justus et pecator). E aos não
predestinados (os réprobos) decide dar graças suficientes para se salvarem, prevendo,
no entanto, que resistiriam a elas e se perderiam por sua própria culpa, decidindo, por
fim, não remover seus obstáculos livremente colocados à ajuda divina.
6) Com sua ciência de visão, Deus vê as obras boas e salutíferas, bem como a perseverança
final dos bons, e também as obras más e a impenitência dos homens (sendo sempre as
boas obras meritadas de Deus, e as más obras culpadas do homem).
7) Com um decreto de execução Deus decide dar aos bons a glória como prêmio as suas
obras boas, e aos maus reserva a pena eterna em castigo as suas culpas voluntariamente
cometidas.

Na ordem da execução:

8) Deus confere aos predestinados, a graça da justificação, doando-lhes em consequência


disto, graças eficazes para a realização de boas obras (cujo fim é sobrenatural), pelas
quais alcançarão o céu. E por fim, Deus concede o dom da perseverança final, que é
gratuito, e que de modo algum é possível merecer, e à vista disto, doa-lhes a vida eterna.
Agora, entendido de forma minunciosa a soteriologia de Zumel, vamos responder as questões
dadas anteriormente:

A pergunta um, responde-se assim:

Não se pode tirar nenhuma conclusão que já não esteja nas premissas.

O homem não é salvo por mérito dele de forma alguma, mas é salvo pela predestinação
suficientemente eficaz, que ou dá forças para o homem resistir ao pecado, sendo então a causa
remota de boas obras o próprio Deus, afinal, uma boa videira (a predestinada a gloria) dá bons
frutos; ou mesmo quando o predestinado peca, Deus faz com que este pecado não seja uma
causa suficiente para impedir o trajeto e o fim predestinado por Deus, que é a gloria eterna.
Sobre o primeiro caso, onde Deus pela graça é causa das boas obras, percebemos que o homem
tem fatores predisponentes para a bondade, isto é, como simplesmente futurível (o que
poderia/deveria ser) ele poderia ser bom, mas como futuro (o que será) ele não é bom por culpa
do pecado, o que nos mostra que Deus nos fez de forma boa mas que nós nos recusamos a
sermos bons tal como a vontade de Deus decretou, precisando então de fatores emergentes
para a bondade, que façam ela se atualizar para o ato ao invés de mera possibilidade futurível,
tal como uma planta só nasce se o solo for capaz de produzir uma planta (fator predisponente)
mas o ato mesmo do ser da planta só se atualiza se uma semente cair sobre o local (fator
emergente).

A pergunta dois, responde-se assim:


Se podemos fazer boas obras enquanto maus (pecadores), certamente essas boas não
são meritórias (capazes de atribuir mérito), salvatórias (capazes de salvar) e capazes de
fazer o homem bom (uma boa ação, não faz do homem imbuído do pecado e da
depravação total um homem bom, a bondade do homem é acidental e não substancial).
As boas obras que se predica justiça, não como acidente mas como substância, são obras
de Deus por meio de nós, enquanto manifestação da graça de Deus, como já vimos, e a
mesma resposta se segue igualmente para as obras salvatórias e meritórias.
É ponto comum que o homem não pode atingir bens de ordem sobrenatural sem a
moção da graça. Por outro lado, existe um debate na escola tomista acerca do que
Tomás defendeu sobre os atos próprios humanos, isto é: se o homem sem a graça pode,
mediante suas forças naturais realizar algum bem, ou algum preceito e até mesmo, não
pecar.
Os que defendem que não se pode fazer nenhum bem, acabam sendo ainda mais
radicais que os calvinistas, como Marin Sola, para ele o homem em seu estado de
natureza íntegra (antes da queda), bem como decaído, não pode fazer nenhum bem
sem a graça de Deus.
É de se notar que para os que defendem que o homem só com suas forças naturais e
sem nenhuma graça atual ou habitual pode realizar algumas obras naturais e eticamente
boas: como cuidar de sua prole, edificar sua morada, cumprir alguns preceitos fáceis da
lei natural e etc. precisam de alguma forma de um auxílio de Deus. Este auxílio não
recebe o nome de graça (que supõe um privilégio totalmente indevido e gratuito), mas
sim de 'motio generalis' (moção geral). Que Deus confere para todas as coisas criadas:
sem ela nenhuma criatura poderia atuar e portanto não poderia se mover para fins
naturalmente. Para Tomás nenhuma criatura opera ou obra sem receber passivamente
uma moção da causa primeira, uma moção transeunte que aplica as potências das
causas segundas à operação.
A pergunta três responde-se assim:
Como já vimos, a vontade antecedente (“secundum quid”), é também chamada de
condicional, na medida em que nela Deus destina auxílios falivelmente eficazes, cuja
prossecução ou não depende antes de certa condição, qual seja: que a criatura não
coloque obstáculos ou impedimentos atuais à prossecução da premoção, incoada
infalivelmente “in causam”. Pois bem, nesta doutrina, a predileção divina realiza-se na
medida em que a criatura não dispõe obstáculos, sendo assim, mais amada por Deus
(com amor de predileção) - não por seus próprios méritos, já que o não colocar
obstáculo à graça falivelmente eficaz não adiciona nenhuma determinação à causa da
predestinação, que, conforme vimos, é tão somente a bondade divina. E isso contrária
arminianos que dizem que Deus nos predestina baseada numa ciência prévia que Deus
tem se nós vamos pecar ou não, e isso é claramente além de confusão entre vontade
consequente e antecedente, é dar a Deus, o ser ativíssimo, uma potência passiva que se
atualiza com uma vontade humana, coisa que não acontece no caso de uma graça
falivelmente eficaz condicional e suficiente, pois a falha humana já é contida nela mesma
que pode ser falível, que depende de condições pra prossecução e eficácia, sendo tão
somente suficiente para a salvação.
Ademais, é Deus mediante a graça incoada pela premoção física que causa (como causa
primeira e eficiente) impedívelmente porém rompívelmente o assentimento da criatura
a determinado agir, de modo que é por ela (ou pela disposição dela) e não por uma
determinação acrescida que a criatura atinge o fim sobrenatural como efeito da
predestinação. Assim sendo, não cabe a nenhuma causa segunda na linha do bem ser
a causa do consentimento enquanto tal, já que o assentir é sempre pela premoção,
que pode o causar, repito, impedívelmente ou inimpedívelmente conforme a eficácia
impressa por Deus na aplicação das criaturas ao agir. À vista disso, deve-se dizer que nos
decretos atinentes à vontade antecedente o assentimento é sempre causado de modo
impedível. Explique-se: a criatura enquanto não coloca impedimento à prossecução da
moção deve isto sempre a Deus, que como causa primeiríssima/universal do bem e do
ser a dirige produtivamente (através da premoção física) neste caso a não disposição de
impedimento para realização do bem honesto e salutífero como a miúde já explicamos.
Contudo enquanto dispõe impedimento a prossecução do movimento, cessando-o ou
intentando uma ação contrária ao bem salutífero incoado por Deus, deve isso apenas a
si mesma, dado que não cabe a omnicausalidade divina ser a causa primeira/eficiente
da carência atual da vontade humana perante certa regra moral, uma vez que isto não
é ser, nem perfeição ou bem.
O não colocar obstáculo não adiciona nenhuma determinação nova à causa da
predestinação no sentido de que consiste apenas em não impedir a prosseguimento da
aplicação disposta por Deus nos sujeitos passivos de seu governo. Portanto, não inere
uma determinação acrescida propriamente dita, do que a que já se encontra embutida
na incoação mesma da premoção. E para demonstrar nossa tese basta destacarmos que
o homem não pode obrar com uma determinação a mais do que aquela disposta pela
incoação divina: ele pode sim fazer menos ou simplesmente não fazer (como se dá na
causalidade negativa na linha do mal), mas não pode fazer mais do que a determinação
por Deus disposta, do contrário, se a criatura ultrapassasse em sua operação a aplicação
incoada pela premoção física, a entidade de sua operação estaria vindo “ipsis litteris” do
nada.
Se a criatura, pois, não coloca impedimento à moção divina, que sempre a destina ao
salutar, não faz nem mais nem menos do que aquilo que Deus a move: o homem não
pode fazer mais bem do que o que Deus o move, embora possa fazer menos (quando
desvia o curso da moção) ou não fazer (quando paralisa o curso da moção). Assim,
quando o homem não impõe impedimento à prossecução da premoção, ele não está
adicionando uma perfeição, senão que dando seguimento à determinação mesma
impressa por Deus como Causa Primeiríssima. Assim, quando a causa segunda não
descamba em um defeito atual (isto é, quando não paralisa o curso e quando não
impede o êxito da premoção desviando-a), ao assentir com o caminho dado pela
premoção, não adiciona uma nova determinação. Por ilustração, digamos que Deus
mova uma pedra com uma força imperdível (quebrável ou resistível) a determinado fim.
Com efeito, se não se põe obstáculo à sua trajetória e consecução, não se adiciona
nenhuma determinação a mais do que aquela posta na incoação do movimento dado
por Deus. Da mesma forma, o homem não colocando impedimentos ou não rompendo
com a premoção física, não adicionará com isto nenhuma determinação à causa da
predestinação, que é a bondade de Deus mesmo.
A pergunta quarta se responde de tal maneira:
Conforme disse São Tomás na Questão 19 da Suma Teológica, quanto ao mal de culpa,
Deus nem é causa direta, nem tão pouco indireta, visto que, como ser perfeitíssimo, não
se envolve no processo de defecção das criaturas. A criatura é a única responsável pelo
mal moral. Portanto, quanto ao mal de culpa (ao contrário do mal físico e de pena), Deus
não o quer nem direta nem indiretamente, senão que, como diz o mesmo São Tomás:
“quer permitir que se faça o mal”.
Deus simplesmente permite o mal para colher dele maiores bens (para que resplandeça
a sua infinita misericórdia, perdoando o pecador arrependido, e sua infinita justiça,
castigando o obstinado), o que, por sua vez, pressupõe a existência do bem do livre-
arbítrio. Portanto, Deus quer permitir que o mal se faça, pois tem boas razões para isso,
uma vez que subtraindo-se a possibilidade do mal moral, subtrair-se-ia também a
possibilidade de muitos bens [9]. Isto, contudo, não quer dizer que o mal moral seja
necessário (o que é uma contradição nos termos!). É desnecessário metafisicamente, na
medida em que é privação, não-ser (não confundir com o “non-esse simpliciter”, que é
o não-ser absoluto, ou seja, a pura inexistência de algo). No entanto, no que diz respeito
à providência, nas suas respectivas ordens (na ordem da intenção e execução), os males
são necessidades condicionais (acidentais), pois Deus quer certos fins para as suas
criaturas que inclui a possibilidade da defectibilidade formal e real delas.
O pecado das criaturas livres pressupõem sempre um decreto permissivo de Deus, sem
o qual seria realmente impossível o pecado. No entanto, tal decreto permissivo não
influi, enquanto tal, nem direta nem indiretamente, na malícia da ação, que decorre,
repita-se, única e exclusivamente da defectibilidade da criatura. Deus não pode pecar,
pois é indefectível, e se no seu decreto o mal moral estiver embutido, tornar-se-á
necessariamente o autor do pecado – o que é absurdo e blasfemo ao ser perfeitíssimo.
A natureza desse decreto permissivo é conceder uma materialidade ao ato do mal, que
se atualiza com o humano.

Ordo Salutis:
Ordo Salutis: A ordem da salvação, na qual inclui varios passos pelo qual o Espirito Santo
traz a graça de Cristo ao pecador no tempo, culminando na entrada na gloria eterna.
Esses passos na ordem não são temporais, mas lógicos (terceiro artigo do credo
luterano). Essa discussão é do alto escolasticismo do qual dura de 1655 até 1713 pelo
alto-escolasticismo que é uma onda imediata após a reforma na qual doutos estavam
sistematizando as doutrinas novas (nomes notáveis: Abraham Calov, Johanes
Quenstedt, David Hollaz e Johann Baier. Ernst Luthardt, Ernst Sartorius, , Heinrich
Schmid e Adolf Von Harless. Henry Eyster Jacobs, Charles P. Krauth, Revere Franklin
Weidner, Adoph Hoenecke, George Henry Gerberdin e Joseph Stumb. Francis Pieper)
Chamado
Iluminação
Conversão
Regeneração
Justificação
União mistica com o Deus trino
Renovação
Preservação da fé e santidade
Glorificação
Agora, levanta-te e põe-te em pé. Eu te apareci por isto, para te fazer ministro e
testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei
ainda. Eu te livrarei deste povo e dos gentios, a quem agora te envio, para abrir-lhes os
olhos, e das trevas o converter à luz, e do poder de Satanás a Deus, para que recebam
perdão dos pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim.
(Atos 26; 16-17)
Podemos ver todos os conceitos expostos nestes versiculos como categorias, na qual
está contido cada ato concreto de Deus em nós. Há também outros versículos, que
tratam disso.