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Trabalho de Tutela Coletiva de Direitos

Alunos: Gabriel Zandomeneghi Rodrigues e Lucas da Silva Rodriguez

Matrícula: 1522014251250 e 1522014159849

Professor: Humberto Dalla

Tema: Definição e distinção entre as espécies de direitos transindividuais: direitos


difusos, coletivos e individuais homogêneos.

 Direitos Difusos

Segundo Mazzilli, os interesses difusos são interesses “de grupos menos


determinados de pessoas, entre as quais inexiste vínculo jurídico ou fático muito
preciso. Em sentido lato, os mais autênticos interesses difusos, como o meio
ambiente, podem ser incluídos na categoria do interesse público”1

Já José Eduardo de Oliveira Figueiredo Dias, define os interesses difusos


propriamente ditos ou em sentido próprio como “(...) aqueles interesses (em que
normalmente se incluem, entre outros, os interesses relativos ao ambiente e os dos
consumidores) que, encontrando-se ancorados numa categoria mais ou menos ampla
de pessoas, não estão todavia subjectivados num ente representativo; e que, nesta
medida, apresentam natureza ‘híbrida’, pois se supõem uma certa ‘pessoalidade’ são
indeterminados quanto aos seus titulares. Relativamente a esta categoria de
interesses as dificuldades avolumam-se quando se pretende determinar se e em que
termos são eles suscetíveis de conferir legitimidade a uma pessoa determinada para
surgir em juízo a litigar sobre eles”2..

1Hugo Nigro Mazzilli, A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo, p. 21


2José Eduardo de Oliveira Figueiredo Dias, Tutela Ambiental e Contencioso Administrativo (Da
Legitimidade Processual e das
suas Consequências), p. 147.
André Ramos Tavares, por sua vez, ao explicar sobre os direitos difusos,
explica que “são características essenciais dos interesses difusos a indeterminação
dos sujeitos (com o que sua titularidade transcende ao individual), ligados por uma
relação fática comum e indivisibilidade do objeto.”3

E continua: “Consideram-se difusos os direitos que, nos termos do inciso I do


parágrafo único do art. 81 do CDC, são transindividuais (pertencentes a diversos
indivíduos concomitantemente), indivisíveis (por natureza), pertencentes a pessoas
(titulares) indeterminadas, unidas por meras circunstâncias de fato (não há qualquer
vínculo jurídico).” 4

Ao falar sobre direitos do consumidor, anota Ecio Perin Junior que “À


‘descoberta’ do consumidor não se seguiu, todavia, a adoção imediata de medidas
legislativas para sua defesa. Ocorre um longo período de tempo para sensibilizar a
opinião pública e reclamar a atenção dos legisladores sobre os problemas dos
consumidores. E o mérito não deve somente atribuir-se à análise doutrinária dos
economistas e dos sociólogos, mas também às organizações espontâneas dos
consumidores que deram início à campanha de publicidade com o dever de assinalar
todos os fenômenos mais graves e danosos nos quais se manifesta a estratégia de
lucro da empresa”5

José Geraldo Brito Filomeno preconiza que os interesses difusos “foram


definidos como os que se apresentam transindividuais, de natureza indivisível e de
que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstância de fato. Como
exemplos ocorrem-nos a publicidade enganosa, as condições gerais dos contratos de
forma lesiva a um número indeterminado de consumidores, a segurança e saúde
comprometida ou em perigo diante de bens ou serviços perigosos e nocivos, sendo
certo que, nessa hipótese, os mandamentos jurisdicionais serão preponderantemente

3 Tavares, André Ramos. Curso de direito constitucional / André Ramos Tavares. – 15. ed. rev. e
atual. – São Paulo : Saraiva, 2017. 1. Direito constitucional I. Título., pp. 790/791
4 Idem, pp. 791
5 Il Fenomeno del Consumerism. Il suo Sviluppo in America, in Europa ed in Italia, in Tutela Colletiva

del Consumatore, p. 11.


voltados para obrigações de fazer ou não fazer, sobretudo diante da experiência aqui
trazida à baila, bem como nas de qualidade e quantidade de bens e serviços.”6

 Direitos Coletivos

Anota José Eduardo de Oliveira Figueiredo Dias que “(...) os interesses


coletivos — também chamados interesses difusos em sentido impróprio — têm como
nota diferenciadora, relativamente aos interesses difusos tout court ou em sentido
próprio, a circunstância de estarem ancorados num portador concreto e determinado,
já que a sua titularidade é atribuída a uma figura subjetiva pública ou privada
(associação, sindicato, ordem profissional, etc.)”7.

André Ramos Tavares afirma que “Consideram-se coletivos os direitos que, nos
termos do inciso II do parágrafo único do art. 81 do CDC, são transindividuais,
pertencentes a pessoas indeterminadas porém determináveis, unidas entre si ou com
a parte contrária por uma relação jurídica-base. Esta necessita ser anterior à lesão.”8

Como exemplo, o autor cita “o caso do grupo, categoria ou classe de pessoas,


como os beneficiários de um mesmo sistema habitacional, os pais de menores
matriculados em uma mesma escola.”9.

José Geraldo Brito, por seu turno, expõe que interesses coletivos “tratar-se-iam
de interesses ou direitos coletivos, assim entendidos os também transindividuais, de
natureza igualmente indivisível, mas de que seja titular grupo, categoria ou classe de
pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica-base.
Destacam-se tais direitos e interesses, por conseguinte, dos chamados ‘difusos’, pois
que pertencem a determinável número de pessoas, ou já determinadas, mas cujo
conteúdo continua indivisível.”10

6 Filomeno, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor / José Geraldo Brito Filomeno. – 15. ed. rev.,
atual. e ref. – São Paulo: Atlas, 2018, p. 590.
7 José Eduardo de Oliveira Figueiredo Dias, Tutela Ambiental e Contencioso Administrativo, p. 144.
8 Tavares, André Ramos. Curso de direito constitucional / André Ramos Tavares. – 15. ed. rev. e

atual. – São Paulo : Saraiva, 2017. 1. Direito constitucional I. Título., pp. 791.
9 Idem.
10 Filomeno, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor / José Geraldo Brito Filomeno. – 15. ed. rev.,

atual. e ref. – São Paulo: Atlas, 2018, p. 590.


Bruno Miragem realiza uma distinção entre os direitos difusos e coletivos,
explicando que “com relação aos primeiros seria observado o traço de indeterminação
dos sujeitos titulares destes direitos. Já no que tange aos direitos coletivos, seriam
caracterizados pelo fato dos seus titulares serem determináveis. Em comum, tem-se
o fato de serem indivisíveis.”11

 Direitos individuais homogêneos

Humberto Theodoro Junior, ao tratar sobre os direitos individuais homogêneos,


leciona12:

Quando a lei consumerista cuida da proteção coletiva dos direitos individuais


homogêneos não está atribuindo a eles a categoria de direitos coletivos ou
difusos. Apenas, por política processual lhes confere, no âmbito das relações
de consumo, um remédio que possibilite, por economia processual, tratá-las
cumulativamente num só processo. Essa ação especial, portanto, não pode
ser confundida com a ação civil pública da Lei nº 7.347/1985, que tutela os
verdadeiros direitos coletivos ou difusos, inclusive os dessa categoria
originados de relações de consumo. É equivocado tanto tratar os direitos
individuais homogêneos como espécie de direitos coletivos ou difusos como
pretender que a ação civil pública seja destinada a resolver os conflitos em
torno dos direitos individuais homogêneos.

Adverte Teori Albino Zavascki que “o legislador brasileiro criou mecanismos


próprios para defesa dos chamados ‘direitos individuais homogêneos’,
distintos e essencialmente inconfundíveis, dos que se prestam à defesa dos
direitos difusos e coletivos” 13

Assim é que o Título III do Código, que trata “da defesa do consumidor em
juízo”, estabelece neste tópico distinções importantes entre a configuração
processual da defesa dos direitos coletivos e difusos dos consumidores e da
defesa dos seus direitos individuais, traçando-lhes regimes próprios e
diferenciados.

À respeito desse ponto, José Geraldo Brito Filomeno diz14:

Mas e se os interesses individuais consistem na reparação do dano causado


por um produto defeituoso ou perigoso, dano esse porém, observe-se, da

11 Miragem, Bruno. Curso de direito do consumidor I Bruno Miragem. - 6. ed. rev., atual.e ampl.- São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, p. 599.
12 Theodoro Júnior, Humberto. Direitos do consumidor / Humberto Theodoro Júnior. – 9. ed. ref., rev.

e atual. – Rio de Janeiro: Forense, 2017, p. 485/486.


13 ZAVASCKI, Teori Albino. Defesa de direitos coletivos e defesa coletiva de direitos, Revista

Forense, v. 329, p. 148, jan-fev-mar/1995.


14 Filomeno, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor / José Geraldo Brito Filomeno. – 15. ed. rev.,

atual. e ref. – São Paulo: Atlas, 2018, p. 591/593.


mesma natureza ou “homogêneo’’, de “origem comum’’: um defeito num
aparelho eletroeletrônico, digamos, que causa sua explosão ou choques?

Para tanto se estatuiu, ao lado daqueles outros interesses coletivamente


considerados tais direitos ou interesses homogêneos, entendendo-se porém
que qualquer outra extensão do dano (lucros cessantes ou danos
emergentes), além do dano igual ou uniforme (ou seja, a indenização pelo
equivalente em dinheiro de um aparelho novo ou sua substituição), somente
poderá ser pleiteado em ações individuais.

É o que no direito norte-americano se faz por meio das class actions, de modo
geral, e conforme exemplos por nós destacados (i.e., dos aparelhos de
surdez, autos com motores fraudados etc.).

Salienta a respeito Richard Tur (1982:155-156) que tais exemplos estão a


demonstrar que, embora a identidade dos membros do grupo ou classe não
precise ser demonstrada no início da ação, foi necessário que algum critério
fosse adotado para tal identificação, sobretudo para o fim de pagar-se a cada
qual o que lhe era devido, chamando ainda a atenção para a dificuldade de
conclamarse todos os membros interessados.

O Código Nacional de Defesa do Consumidor procura superar tal dificuldade


ao estabelecer que, proposta a ação, será publicado edital a fim de que os
interessados possam intervir no processo como litisconsortes, ao mesmo
tempo em que a demanda será divulgada o mais amplamente possível pelos
meios idôneos de comunicação. Em caso de procedência da ação, todavia, a
condenação será genérica. E nem poderia ser diferente, porquanto ainda não
se sabe quem se prejudicou com determinado ato do fornecedor de um bem
ou de um serviço, complementando o dispositivo que assim estabelece que
a sentença apenas fixará a responsabilidade do réu pelos danos causados
(vide arts. 94 a 98 do Código do Consumidor).

Transitada em julgado a mesma sentença, a liquidação será promovida pela


vítima e seus sucessores, e será por artigos, podendo ser proposta no foro
do domicílio do liquidante a quem cabe provar, tão somente, o nexo de
causalidade e dano e seu montante. Quanto à execução, poderá ser coletiva,
sendo promovida pelos legitimados a propor a ação e abrangendo as vítimas
cujas indenizações já tiverem sido fixadas em sentença de liquidação, sem
prejuízo do ajuizamento de outras execuções, e terá como base a execução
ainda coletiva, certidão das sentenças de liquidação, da qual deverá constar
a ocorrência ou não do trânsito em julgado, sendo competente tanto o Juízo
da liquidação da sentença ou da ação condenatória, no caso de execução
individual, ou da ação condenatória quando coletiva a execução. Prevê-se
ainda que, no caso de concurso de créditos decorrentes da condenação
prevista na Lei nº 7.347/85, e das indenizações pelos prejuízos individuais
resultantes do mesmo evento danoso, estas últimas terão preferência no
pagamento. Mas, para tanto, a destinação da importância recolhida na forma
do art. 13 da mesma lei ficará sustada enquanto pendentes de decisão de
segundo grau as ações de indenização, pelos danos individuais (arts. 99 e
100 do código).

É uma forma de conciliar-se o fluid recovery, como já explanado linhas atrás,


e o interesse individual homogêneo consistente no recebimento do dano
uniformemente causado a um número considerável de consumidores
lesados.

E, com efeito, decorrido o prazo de um ano sem habilitação de interessados


em número compatível com a gravidade do dano, poderão os legitimados à
propositura da ação coletiva promover a liquidação e execução da
indenização devida, revertendo seu produto ao fundo do ainda art. 13 da Lei
nº 7.347/85.

Temos, por conseguinte, que a questão da propositura de ações e execução


das sentenças condenatórias ou de obrigações de fazer ou não fazer e outras
certamente surgirão após a vigência do “Código de Defesa do Consumidor”,
uma vez que se estatuiu que, “para a defesa dos direitos e interesses
protegidos por esta lei’’ são admissíveis todas as espécies de ações capazes
de propiciar sua adequada e efetiva tutela. A propositura dependerá não
apenas e evidentemente na meta optata, mas também da extrema e
cuidadosa capacidade criativa dos legitimados, haja vista seu caráter de
extrema novidade no mundo jurídico vigente e diríamos até revolucionário,
mormente se levada em conta a questão da substituição processual de molde
a reformular por inteiro o conceito do art. 18 do Código de Processo Civil de
2015, que diz que a ninguém é admitido propugnar por interesses alheios,
salvo quando expressamente autorizado por lei. O terreno ainda é virgem e
com extremas perspectivas, assumindo outrossim vital importância na
medida em que se destina à proteção da própria coletividade, sem se falar de
sua condição de consumidora de bens e serviços, parte, em dúvida, frágil
diante do poder dos fornecedores de bens e serviços.

Bruno Miragem afirma o seguinte sobre a diferenciação entre os danos


transindividuais e os danos tutelados coletivamente15:

Não se confundem os danos transindividuais com aqueles tutelados


coletivamente por caracterizarem-se como espécies de direitos individuais
homogêneos. Estes são definidos pela lei como sendo os interesses ou
direitos que tenham origem comum, a teor do artigo 81, parágrafo único, III,
do CDC. No caso, os direitos individuais homogêneos são antes de tudo
direitos individuais, apresentando traço de identidade apenas no que diz
respeito à sua origem comum, mas não em relação à natureza do direito.
Neste sentido, os danos eventualmente reclamados a título de direitos
individuais homogêneos são, antes de tudo, danos individualmente sofridos
por diversos consumidores, que farão jus, cada qual, à reparação que
corresponda à correta extensão do seu dano. Daí porque neste caso, o CDC
faculta a possibilidade dos consumidores-vítimas de optarem pela ação
individual ou pela ação coletiva (artigo 91), hipótese em que se estendem aos
mesmos os efeitos da coisa julgada.

No caso da responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, observam-


se como característicos destes danos individuais, mas que pelo fato de terem
atingido diversos consumidores poderem ser reclamados pela via coletiva,
por ação para defesa de direitos individuais homogêneos, os danos que
decorram de um mesmo defeito, como é o caso de diversas embalagens de
um mesmo medicamento que tenha sido comercializado com substância
ineficaz, ou as vítimas de um mesmo desastre aéreo, ou ainda os diversos
consumidores de uma mesma espécie de automóvel defeituoso O que se
altera aqui, salienta-se, é o modo identificação e reparação do dano, não sua
natureza que, em se tratando de interesses ou direitos individuais
homogêneos, caracteriza-se como espécie de dano individual (porque
individualmente sofrido, ainda que por diversas vítimas).

15Miragem, Bruno. Curso de direito do consumidor I Bruno Miragem. - 6. ed. rev., atual.e ampl.- São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, pp. 599/601.