Ocupando e comprando para construir o território

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estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre

Marcelo Piedrafita Iglesias

GT POVOS INDÍGENAS Tema: "INICIATIVAS E ESTRATÉGIAS INDÍGENAS" (coordenado pelos Prof. Dr. João Pacheco de Oliveira e John Manuel Monteiro)

XXVII ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 21 a 25 de outubro de 2003 Caxambu, Minas Gerais

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Ocupando e comprando para construir o território: estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre
Marcelo Piedrafita Iglesias1 Introdução Há hoje três terras indígenas (TIs) reconhecidas pelo governo federal para o povo Kaxinawá2 no Município de Jordão, no Estado do Acre3. Incidem nestas terras dez seringais nativos, distribuídos de forma contígua ao longo do rio Jordão e do alto rio Tarauacá, com extensão total de 107.482 ha. Esta situação difere daquela vigente em 1991, quando, após quatorze anos da sua primeira identificação pela Funai, encerrava-se o processo de regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão, situada à época no Município de Tarauacá. Neste texto serão analisados os principais processos de redefinição territorial e de reorganização política e econômica protagonizados pelos Kaxinawá do Município de Jordão desde início dos anos 1990. Para tal, serão focadas diversas mobilizações das famílias e lideranças Kaxinawá, bem como da Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ), para a conquista, a garantia, o uso produtivo e a regularização de quatro novos seringais, incorporados ao território a partir de 1990, que envolveram, em diferentes contextos, órgãos de governo, instituições e grupos de atores das arenas local, estadual, regional, nacional e internacional. Serão também explicitadas as inter-relações e determinações mútuas que existiram entre estas mobilizações e as deliberações oriundas de diferentes órgãos e instâncias do Estado brasileiro pelos quais trafegou (e continua a trafegar) o processo de regularização administrativa das duas terras indígenas Kaxinawá através da quais essa ampliação territorial foi oficialmente reconhecida. Essas mobilizações, bem como a participação dos Kaxinawá no campo intersocietário atualmente configurado no Município de Jordão, serão contextualizadas no bojo de outras transformações territoriais, políticas e econômicas que ganharam força como resultado da profunda crise instalada na economia da borracha nos anos 1990, da criação desse município em 1993, da constituição do aparato administrativo do poder público municipal, do realinhamento das forças políticas, tradicionais e emergentes, na sociedade

Doutorando em Antropologia Social no PPGAS-Museu Nacional-UFRJ; Pesquisador do Laboratório de Pesquisas em Cultura, Etnicidade e Desenvolvimento (LACED/MN/UFRJ). E-mail: marcelo@piedrafita.eti.br ¹ Os Kaxinawá (gente do morcego) se autodenominam Huni Kui (gente verdadeira) e falam o hãtxa kui (língua verdadeira), da família Pano. Pouco mais de 4.000, os Kaxinawá estão distribuídos em doze terras indígenas no Estado do Acre, nos rios Breu, Jordão, Tarauacá, Murú, Humaitá, Envira e Purus. Em final de 2000, havia 17 aldeias Kaxinawá no alto rio Purus, em território peruano. A maior população indígena do Acre, os Kaxinawá hoje constituem 43% dos índios do estado. Do total dos Kaxinawá, cerca de 70% habitam dez terras indígenas na bacia do rio Tarauacá. ² A TI Kaxinawá do Rio Jordão foi identificada em 1977, reidentificada em 1982, aprovada pelo Grupo Interministerial criado pelo Decreto Nº 88.118/83 e delimitada em 1984, demarcada fisicamente no ano seguinte, registrada em Cartório de Imóveis e no Serviço de Patrimônio da União em 1988 e homologada pelo Presidente da República em 1991, com área de 87.293 ha. As TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kaxinawá do Seringal Independência foram identificadas em março de 1994 pelo GT PP 1.204/93. A primeira tem extensão de 8.726 ha, foi delimitada em 1998, fisicamente demarcada e desintrusada em 2000, homologada em 2001 e registrada na Secretaria de Patrimônio da União e no cartório de Tarauacá em início do ano seguinte. A segunda tem 11.463 ha e é composta pelos seringais Independência e Altamira, comprados pela Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ) em 1993-94.

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jordaniense a partir da configuração de um campo político-partidário que reflete interesses locais e extralocais, da criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá, do surgimento de instâncias de representação política dos seringueiros e agricultores (o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Associação da Reserva Extrativista), de conflitos envolvendo grupos de "índios isolados" nas cabeceiras dos rios Tarauacá e Jordão, da regularização pela Funai para esses índios da TI Alto Tarauacá, limítrofe à TI Kaxinawá do Rio Jordão, assim como de várias políticas e programas dos governos federal, estadual e municipal na área de jurisdição do município. Um breve sobrevôo histórico Até 1977, ano em que a Funai identificou a TI Kaxinawá do Rio Jordão, os Kaxinawá controlavam e concebiam o pequeno seringal Fortaleza como seu território, encravado no meio de outros dez seringais nativos, distribuídos em ambas margens desse rio, à época movimentados por gerentes e patrões ligados a um mesmo arrendatário. Era na sede do Fortaleza e em suas cinco colocações, que somavam 27 estradas de seringa, onde 144 Kaxinawá, distribuídos em 19 casas, viviam e trabalhavam sob a chefia de Sueiro Sales Cerqueira. O restante dos Kaxinawá, 239 pessoas, estava disperso em 38 casas nos seringais Revisão, Transual, Sorocaba, Bom Jardim e Bonfim (Aquino, 1977). O Fortaleza passara ao controle de Sueiro na segunda metade dos anos 1940, após a morte de sua madrinha de fogueira, a piauiense Marcolina do Forno. Os Kaxinawá já trabalhavam neste seringal para Marcolina, viúva de Joaquim Rogério, fazia pelo menos duas décadas, antes chefiados pelo pai de Sueiro, Chico Curumim, que, por sua vez, trabalhara com Felizardo Cerqueira, famoso mateiro cearense, que nas décadas de 1900-20 teve contribuição decisiva para a incorporação dos Kaxinawá à empresa seringalista nos rios Tarauacá e Jordão (Aquino, 1977; Aquino & Iglesias, 1994; Iglesias, 1992, 1996). Através do barracão do Fortaleza, Sueiro permaneceu, por três décadas, atrelado a redes de aviamento atualizadas por sucessivos proprietários e arrendatários dos seringais do rio Jordão, bem como por comerciantes e regatões sediados na Vila Jordão, junto aos quais trocava mercadorias por borracha, couros, peles de fantasia, criações domésticas e gêneros agrícolas produzidos pelos seus parentes e fregueses Kaxinawá. A posse do Fortaleza, e depois do seringal Sorocaba, chefiado por Nicolau Sales, irmão de Sueiro, foi importante para que as famílias Kaxinawá que ali moravam lograssem uma coesão que, diferente do que acontecia em outros seringais controlados por patrões brancos, em muito contribuiu para a manutenção, em uma situação histórica adversa, de importantes formas de sua organização social e cultural. Antes da chegada da Funai, a construção dessa noção particular de território, centrada no Fortaleza, o "seringal de caboclo", e no Sorocaba, era condicionada, portanto, por correlações de forças inerentes a um padrão de dominação que os Kaxinawá viviam fazia três décadas nos seringais do rio Jordão, parte de uma situação histórica mais longa, por eles categorizada como "o tempo do cativeiro", instaurada com a implantação da empresa seringalista na região e os primeiros contatos, ainda na década de 1900, marcados pelas "correrias" patrocinadas pelos caucheiros peruanos, exploradores de seringais e por sucessivos patrões.

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A quase secular existência do seringal enquanto matriz de organização espacial, econômica e política no rio Jordão veio condicionar as propostas formuladas pelos Kaxinawá em diferentes contextos institucionalizados de demandas e redefinições territoriais. Inauguradas com a identificação de sua terra pela Funai em 1977, estas propostas ganharam diferentes formas nas décadas seguintes, em conjunturas diversas, relacionadas com à situação econômica e política na região do Alto Tarauacá, com sucessivas mudanças nos procedimentos de regularização das terras indígenas no país, com as formas próprias pelas quais o órgão indigenista ganhou configuração e interveio em nível local e com programas do governo federal, alguns em conjunto com a cooperação internacional, que favoreceram o avanço do reconhecimento das terras indígenas no Estado do Acre. Essa projeção territorial particular, tendo o seringal como matriz, embasou também os processos de mobilização e de reorganização política, econômica e cultural protagonizados pelos Kaxinawá na gradual construção de uma nova situação histórica, por eles denominada “o tempo dos direitos”. As mobilizações empreendidas, de meados dos anos 1970 até fins dos 1980, para a desnaturalização da identidade genérica de "caboclo", a demarcação e o reconhecimento local de sua terra indígena, a estruturação de sua cooperativa, a retirada dos patrões e seringueiros brancos, o uso produtivo dos seis seringais de sua terra, a abolição do pagamento da renda das estradas de seringa, a abertura de espaços para a comercialização mais autônoma da borracha e a compra das mercadorias necessárias ao abastecimento das cantinas nos seringais, a capacitação de professores bilíngües e agentes de saúde e a participação no movimento indígena regional, resultaram em rupturas e reordenamentos na situação histórica que predominara no rio Jordão durante décadas e, portanto, nas relações até então travadas com os patrões, comerciantes e demais grupos da sociedade que gravitavam ao redor da Vila Jordão e da cidade de Tarauacá (Aquino, 1977, 1991; Iglesias, 1992, 1993, 1996; Aquino & Iglesias, 1994). Novos territórios Kaxinawá Em 1988, as lideranças Kaxinawá fundaram e legalizaram a ASKARJ, canal de representação política através da qual continuaram participando das várias instâncias do movimento indígena no Acre e têm se relacionado diretamente com órgãos governamentais, ongs, agências da cooperação internacional e empresas. Têm, assim, estabelecido parcerias institucionais e implementado programas que vêm viabilizando a capacitação continuada de professores bilíngües, agentes de saúde e agentes agroflorestais, bem como a canalização de recursos para "projetos", voltados para o fortalecimento institucional da associação, a manutenção e diversificação do extrativismo e do artesanato, a abertura de novas alternativas econômicas e a gestão e vigilância de seu território. Entre 1990-94, os Kaxinawá iniciaram a redefinição dos limites do território que controlavam efetivamente fazia uma década, circunscrito aos seis seringais da TI Kaxinawá do Rio Jordão, cujo processo de regularização encerrou-se em 1991. Através de mobilizações locais, bem como da representação política exercida por lideranças e pela ASKARJ, ocuparam e passaram a controlar mais quatro seringais, 22.450 ha, limítrofes à terra regularizada.

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Em 1990, grupos familiares Kaxinawá ocuparam os seringais Nova Empresa e São Joaquim, no baixo curso do rio Jordão, que fazia anos se encontravam “sem patrão”. Com recursos do Projeto de Implantação da Reserva Extrativista do Alto Juruá e Desenvolvimento Comunitário das Áreas Indígenas Circunvizinhas, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 1990-92, as lideranças Kaxinawá instalaram o "Astro Luminoso", sede central da cooperativa, no Nova Empresa e estabeleceram acordos comerciais e de uso das colocações e estradas de seringa com as poucas famílias de seringueiros brancos que ali habitavam. Essas iniciativas gradualmente construíram no Município de Jordão um consenso entre autoridades, proprietários, comerciantes, patrões e seringueiros a respeito dos legítimos direitos dos Kaxinawá sobre os dois seringais recém ocupados (Iglesias, 1993, 1996). O Nova Empresa e o São Joaquim somam dez colocações e 55 estradas de seringa. Além de ocupar boa parte das colocações que estavam “vadiando”, famílias Kaxinawá abriram novos locais de moradia em ambas as margens do rio. Em final de 1991, o grupo familiar extenso do cacique Getúlio Sales Tenê mudouse para o Nova Empresa. Nos anos de 1992-93, marcando o ocaso do Astro Luminoso, foi em sua casa que funcionou uma nova sede centralizada da cooperativa, parcialmente financiada com recursos levantados pela ASKARJ junto à World Wildlife Fund (WWF-US) para a implementação do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. Nesta mesma época, várias outras famílias Kaxinawá chegaram ao Nova Empresa e São Joaquim, parte das quais chefiadas por velhos aposentados, que passaram a se beneficiar da maior proximidade da sede do Município de Jordão para mensalmente receberem seus vencimentos do INSS. Em 1993-94, a ASKARJ comprou os seringais Independência e Altamira, situados no alto rio Tarauacá, a quatro horas de subida de barco da sede do Município de Jordão, que fazem fundos com o Boa Esperança e o São Joaquim, seringais localizados nas duas terras Kaxinawá na margem direita do baixo curso do rio Jordão. Os seringais comprados têm 11.463 ha, 13 colocações e 48 estradas, e são fartos em igarapés, lagos, praias, peixes e caça. Sua ocupação foi iniciada em fins de 1993, com a chegada de oito famílias extensas, em torno de 60 pessoas. Outras chegaram nos anos seguintes, algumas vindas dos seringais recém ocupados no baixo Jordão. Nas sedes do Independência e Altamira, assim como em outros locais nas margens do rio Tarauacá, construíram casas, plantaram roçados de terra firme e de praia, começaram a cortar seringa e a criar animais domésticos. Em março de 1994, a população Kaxinawá nestes dois seringais era de 97 pessoas (Aquino, 1995), tendo aumentado para 138 quatro anos e meio depois, segundo levantamento realizado pelos professores bilíngües sob encomenda da ASKARJ. Em documento enviado em novembro de 1993 ao Departamento de Identificação e Delimitação, da Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai, a ASKARJ reivindicou a inclusão dos seringais Nova Empresa, São Joaquim, Independência e Altamira nos trabalhos de identificação que seriam realizados no primeiro semestre do ano seguinte pelo Grupo Técnico (GT) PP 1.204/93, no âmbito de convênio firmado pelo órgão indigenista, a Embaixada da Suíça e a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre). Em abril de 1994, logo após a passagem deste GT pelo rio Jordão, os missionários, um casal de americanos e outro de brasileiros, das Novas Tribos do Brasil abandonaram definitivamente o Nova Empresa,

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consenso nos dados oficiais a respeito da real extensão do Município de Jordão. nº 5 de 10 de outubro de 2002. em janeiro de 1996. usados para fundamentar a criação do Município. num novo marco jurídico instaurado pela promulgação. não havia. de 28 de abril de 1992. incorporou um trecho de floresta situado além dos divisores de água dos rios Tarauacá e Envira. mas sua extensão. Dados divulgados pela Comissão Especial para Criação de Novos Municípios e pela Secretaria de Estado de Ciência. realizei. Nos anos de 1995-96. todavia.000 ha. 1996). que normatizaram novo procedimento administrativo de regularização das terras indígenas no Brasil. que os limites municipais estabelecidos pela Lei nº 1. publicada no Diário Oficial da União de 11/10/20024. Para tentar sanear esta dúvida. após a realização de plebiscitos de consulta às populações locais. sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1993. assim. 6 . de 1996. ato legal que. limite da TI Kaxinawá do Rio Jordão (Iglesias. foram emancipados dez novos municípios no Estado do Acre. que a extensão municipal é de 542. paradoxalmente.onde haviam permanecido por onze anos. Os dados produzidos pelo Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Acre em 1999 refletem esta dúvida: mantiveram os limites previstos na lei. permanece desconhecido pelos governos municipal e estadual. tem área plotada no mapa bastante superior àquela com a qual foi criado. 1996) e Kaxinawá do Seringal Independência (Aquino. a saber: Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. em setembro de 2002. federal e estadual). 1995) e Kampa do Seringal Primavera (Aquino. Dados do IBGE. os antropólogos desse GT apresentaram ao DEID/DAF propostas para a delimitação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. do IBGE. além de outras duas no Município de Tarauacá: Kaxinawá da Praia do Carapanã (Iglesias. 1996). apontaram uma extensão de 669. Informou. A Diretoria informou. nos níveis estadual e municipal. indicavam uma área de 559. de 9 de dezembro de 1992. o Município de Jordão. À época. em 1991. consulta à Diretoria de Geociências. ainda. O Município de Jordão e outras dimensões territoriais Em 1992. limite intermunicipal estabelecido em sua lei de criação. com a sede da missão situada logo abaixo do igarapé Bonfim.034.069. Através da Lei 1. 28% de sua extensão correspondiam a terras indígenas.500 ha. Até há pouco. Teve início. área que consta na Resolução da Presidência do IBGE. a 9 de janeiro de 2003. em diferentes etapas de regularização. Após a primeira eleição municipal realizada em outubro desse ano. do Decreto Nº 1. foi criado o Município de Jordão.2% da área do município fora alterada por ação antrópica.500 ha. O mapa que serviu de base para este novo cálculo. Tecnologia e Meio Ambiente do Estado do Acre (SECTMA). é a menor das três antes previstas. algumas com partes incidentes nos Municípios de Feijó e Marechal 4 Este fato permite pensar que não só as terras indígenas estão sujeitas a alterações ao longo do tempo. Estudos formulados pela SECTMA em 1991 informavam que apenas 0.775 e da Portaria Nº 14. 1995). reitero.876 ha. em função de ações e atos administrativos oriundas de diferentes órgãos de governo (nesta caso. em hectares. o reconhecimento oficial dos processos de ampliação territorial protagonizados pelos Kaxinawá no Jordão a partir de 1990. desmembrado do Município de Tarauacá. mas conservaram a extensão municipal em 669.034 foram alterados pela Lei nº 1. Após onze anos de sua lei de criação.

2%.876 87. foi arrecadada. estas transferências representaram.517 3. cujos membros lograram se eleger em 1992 para a Prefeitura e a Presidência da Câmara dos Vereadores locais na primeira eleição após a criação do Município.6 2.600 ha e sua outra parte fica no Município de Feijó.726 11. a Prefeitura Municipal adquiriu o seringal São João. Também parte do patrimônio da União. com área de 139. As mobilizações dos Kaxinawá para a ampliação de seu território. Na primeira metade dos anos 1990. pela família Melo. as herdeiras de Munir Bissat colocaram à venda dois importantes seringais no alto rio Tarauacá.6 18. 8 A extensão total da Resex é de 151. Junto com os processos de ampliação protagonizados pelos Kaxinawá. Município de Jordão TI Kaxinawá do Rio Jordão TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão TI Kaxinawá do Seringal Independência TI Alto Tarauacá 5 TI Jamináwa Arara do Rio Bagé 6 TI Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu 7 Reserva Extrativista do Alto Tarauacá8 Seringal São João (Prefeitura Municipal) Área Municipal Restante Extensão (ha) 542. Por outro lado. levando-se em conta a extensão total de 542.926 ha e sua maior parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo. Das mesmas herdeiras de Bissat. a outra tradicional proprietária de seringais nessa região e dona da principal casa comercial da sede do Jordão.9 Fontes: Anexos do “OF/SECTMA/Nº. a redefinição da extensão da TI Alto Tarauacá destinada aos índios isolados. a Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. incidindo nos Municípios de Jordão e Feijó.470 ha.876 ha para o Município de Jordão. com área registrada de 3.1 20. sem destinação claramente definida. CNPT-Ibama 5 6 A extensão total desta TI é de 142. em 1993.976 3.199 ha e o sua outra parte incide no Município de Tarauacá. na segunda metade dos anos 1990.750 14. mas permaneceram à margem dos cargos políticos e administrativos a partir de 1996.6 0.463 112.470 200.293 8.Thaumaturgo. em novembro de 1993.6 36. houve significativas mudanças na propriedade de importantes seringais na região do alto Tarauacá. ainda. O São João extrema com o perímetro urbano do município. Em início dos anos 1990. 164/91”. com intenção de ampliar a sede municipal. arrendatários e comerciantes. os divisores de águas dos rios Murú e Jaminauá e. 7 .7 0. mas se alteraria.0 16. A extensão total desta TI é de 28. 7 A extensão total desta TI é de 31. desde então.650 ha. após a criação em fins dos anos 1970 da TI Kaxinawá do Rio Jordão. de 17 de dezembro de 1991. com as possibilidades abertas pela participação de seus membros na política partidária e na administração pública municipais.242 100. com a compra dos dois seringais no alto rio Tarauacá e a regularização da terra indígena no baixo rio Jordão.7 2. a proporção ocupada atualmente por terras indígenas é de 43. declarada em abril de 2001. a terra Jordão-Envira. processo que se consolidaria. em parte sobreposta às TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá.439 % 100. Conforme pode ser visto no quadro abaixo. como proprietários de terras.1 1. contribuíram para marcar a decadência de uma das duas tradicionais famílias locais. as terras Kaxinawá no alto Tarauacá e no baixo Jordão. a segunda mudança de monta na estrutura fundiária nesta região. os Farias.277 ha e sua outra parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo. vieram a alterar significativamente a proporção da extensão municipal ocupada por terras indígenas. registrada no Cartório de Imóveis de Tarauacá. DEID/DAF. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. O Iracema foi adquirido.

ao longo de toda a fronteira internacional do Acre com o Peru. No Vale do Juruá outro mosaico é constituído por 19 terras indígenas. deve levar em conta. 2001a. 8 .438 4. Iglesias. 10% da superfície do estado.933. castanheiros. e são ocupadas por pouco mais de 15. cabe contextualizar a inserção territorial do Município de Jordão numa dimensão mais ampla.435 8. distribuído por sete municípios. com extensão total de 6. seringueiros e agricultores.475 ha. de uso direto e de proteção integral. e ocupado por pouco mais de 11.500 15. ampliou-se para 62.532. 2001b). contíguas à TI Alto Rio Purus e à Floresta Nacional do Macauã9. com 750. três reservas extrativistas e o Parque Nacional da Serra do Divisor. no âmbito do “Projeto Corredores Ecológicos”. por sua vez.600 ha. distribuídas por oito municípios.380.400. 1999.283 ha (40% do território acreano). à Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema. à pesquisa científica e ao ecoturismo. a Reserva Extrativista Chico Mendes.041 1.514 4. que. e à Floresta Nacional São Francisco. Vales AcrePurus Terras Reservadas Terras Indígenas Reserva Extrativista Estação Ecológica Projetos de Assentamento Extrativista Subtotal Terras Indígenas Reservas Extrativistas Parque Nacional Subtotal Total Quantidade 2 1 1 2 6 19 3 1 23 29 Municípios 2 7 1 3 7 6 3 5 8 15 Extensão (há) 392.087. com área de 695 mil ha. A inserção das terras Kaxinawá e do Município de Jordão numa dimensão territorial mais ampla.É importante destacar. as TIs Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate.758 ha.414 População 699 9. Nas últimas duas décadas. O Parque é limítrofe às TIs Mamoadate e Alto Rio Purus. ainda. a Estação Ecológica Rio Acre e os Projetos de Assentamento Extrativista Santa Quitéria e Remanso formam um corredor contínuo de 1.574. A criação do Parque Estadual do Chandless consolidará um corredor contínuo de 33 áreas reservadas pelos governos federal e estadual. regional e estadual. regional. por fim.128 26. agricultores e índios.000 índios.815 11. por sua vez.193 2.160 976.642 Alto Juruá Estes dois mosaicos de terras reservadas nos Vales do Acre-Purus e do Alto Juruá são.570 77.500 seringueiros. destinado à conservação integral da biodiversidade.532.794 ha.000 1. Por fim. com 21.978 ha. No Vale do Acre-Purus. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. ganharam configuração no Estado do Acre dois mosaicos de terras contínuas reservadas pelo governo federal com variadas destinações. reconhecidos pelo governo federal no Estado do Acre integram o Corredor Ecológico Oeste-Amazônico. 22% da superfície do estado. ligados por terras arrecadadas pela União. que em novembro de 2000. decretada em 1998 com 173.4% a proporção das terras da jurisdição do Município de Jordão reservadas pelo governo federal com distintas finalidades. do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PP-G7). que encontram-se hoje em diferentes etapas de seus respectivos processos de regularização (Aquino & Iglesias. extremam como a Floresta Nacional do Macauã. que ambos mosaicos de terras indígenas e unidades de conservação.978 1.012 3. Estas 23 terras contíguas.470.748 1.500 86. 9 Está hoje em processo final de criação em parte destas terras arrecadadas o Parque Estadual do Chandless. abrangem 3.385 843.

os grupos de índios isolados aproveitaram esta conjuntura para ampliar seus territórios de habitação e uso de recursos naturais. ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas proximidades.795 127. 1996. elaborou.a) Os índios isolados e a TI Alto Tarauacá No Vale do Alto Juruá acreano. em gabinete. 1999. fato que suscitou surpresa. com extensão total de 962. assim como conflitos armados. da Funai. pois até então acreditava-se que os isolados viviam no Alto Juruá peruano e entravam nos altos rios no Acre apenas durante o verão. 10 Sobre as relações dos brancos e dos Kaxinawá com os "isolados" ao longo do século XX e após a criação da TI Kaxinawá do Rio Jordão. Humaitá e Tarauacá. 9 . 2001b. Neste mesmo ano. o Departamento de Índios Isolados (DEII).383 84. Nos rios Envira. em 1987. os sertanistas estimaram que ali vivam entre 600 e mil índios. "caboclos brabos" e "arredios". 2001a.000 142.712 Situação Jurídica Declarada/ Demarcada Regularizada Regularizada Regularizada A identificar Declarada Regularizada Homologada Jordão Marechal Taumaturgo Totais = 3 Devido ao acirramento nos cabeceiras dos rios Jordão.293 31. Tarauacá e Jordão. a crise na economia da borracha e a desarticulação das cooperativas indígenas e dos últimos barracões dos patrões seringalistas levaram a um quase total esvaziamento dos seringais mais às cabeceiras dos rios e das colocações de centro na floresta. Aquino & Iglesias. ambas foram interditadas para "fins de estudos e definição". Chefe do DEII.364 175. seringais próximos e a cidade de Tarauacá. os Ashaninka. Pelo número de malocas. e José Carlos dos Reis Meirelles sobrevoaram o alto rio Tarauacá e comprovaram a existência de malocas entre os rios Envira. talvez a maior população de isolados na Amazônia brasileira. ver Aquino. Tarauacá e Envira dos conflitos entre os Kaxinawá. no alto rio Tarauacá. a morte de três pessoas pelos isolados motivou migrações de dezenas de famílias de seringueiros para a sede do Município de Jordão.600 87. Ashaninka e seringueiros. continuaram freqüentes. como durante o "tempo das correrias".277 962. oito terras indígenas contíguas já reconhecidas pelo governo federal.712 ha. Município Terra Indígena Jaminauá/Envira Kampa e Isolados do Rio Envira Feijó Kaxinawá do Rio Humaitá Kulina do Rio Envira Xinane Alto Tarauacá Kaxinawá do Rio Jordão Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu 8 Povo Madijá (Kulina) Ashaninka Ashaninka Isolados Kaxinawá Madijá (Kulina) Isolados Isolados Kaxinawá Kaxinawá Ashaninka Pop 40 52 230 ? 255 235 ? ? 920 365 60 2. ver Iglesias.000 232. denominados na região de "índios brabos". Entre 1996-98. a proposta de criação das TIs Xinane e Alto Tarauacá. Pereira Neto. 1987.157 Extensão (há) 82. os seringueiros acreanos e os índios isolados. Na última década. 1996. quase um século de existência da empresa seringalista e após a criação das terras indígenas nessa região10. com mortes de ambos os lados. constituem territórios de moradia e perambulação de populações de índios ainda sem contato sistemático. Sidney Possuelo. Saques às casas dos Kaxinawá. sobre a expansão mais recente dos territórios dos isolados e suas conseqüências para os atuais padrões de ocupação das terras Kaxinawá e a configuração territorial do Município de Jordão. Em março de 1998.

continuaram ocorrendo com freqüência no Alto Tarauacá.600 ha. no Município de Jordão. Após mais de um ano e meio de negociações. O processo estava pronto para ser encaminhado à Justiça Federal em novembro de 2001. todavia. sem que a Funai realizasse estudos para sua identificação e delimitação. 2000c. publicou portaria de “restrição ao direito de ingresso. como parte do ritual de regularização de terras indígenas no Brasil. e comprovada a existência das malocas. sobrinho do atual prefeito do Jordão e à época vereador. o Convênio Nº 001/2001. Na ocasião. do Presidente da Funai. por co-autoria e ocultação de cadáver. com requintes de crueldade. da família Melo. recebeu cópia desses documentos em visita feita à Administração Executiva Regional da Funai em Rio Branco (AER-RBR) em junho de 2000. Em início junho de 2000. declarou a TI Alto Tarauacá. determinou sua demarcação física. dos limites propostos para esta terra indígena. à época vereador.A TI Alto Tarauacá permaneceu interditada de 1987 a 1998. a Presidência da Funai. que ampliou a extensão da terra indígena para 132. ver Iglesias. faz limites com as TIs Kampa e Isolados do Rio Envira e Kaxinawá do Rio Humaitá e seringais do alto rio Murú. Turiano Farias. no âmbito do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL/ PPG7). Conflitos entre isolados e famílias de seringueiros. flechando a escola do seringal Seretama e obrigando os últimos moradores a abandonarem suas casas e colocações11. 11 10 . por homicídio. a Portaria nº 369. por exemplo. o relatório de identificação e delimitação (Pereira Neto. coordenado pelo antropólogo Antônio Pereira Neto. A ação pedia a condenação de cinco indiciados: José Lourenço da Silva (Trubado).600 ha. O Prefeito Municipal de Jordão. Com extensão proposta de 142. 2000) publicado no Diário Oficial da União de 20 de abril e no Diário Oficial do Estado do Acre de 15 de junho. entre a Presidência da Funai. à imprensa de Rio Branco. moradores da sede municipal. A respeito desta diligência e seus desdobramentos no Município de Jordão. 1999) teve seu resumo (Pereira Neto & Aquino. A 20 abril de 2001. Dados os conflitos com as famílias que viviam nos seringais do alto rio Tarauacá. no seringal Oriente. a TI Kaxinawá do Rio Jordão e o seringal Iracema. locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros" do órgão. Governo do Estado do Acre e Prefeitura Municipal de Feijó. Auton Farias. e com a fronteira internacional Brasil-Peru. seu sobrinho. 2000b. que encontrou um grupo de três índios e matou um. foi assinado. Ney Ferreira de Sousa. e abriu a possibilidade da indenização das benfeitorias de boa-fé das famílias de seringueiros e agricultores acreanos cadastradas pelo grupo técnico Funai/Incra três anos antes. 2002b. realizou os trabalhos de identificação e delimitação da TI Alto Tarauacá. com 142. que incluiu sua castração e enterro em cova rasa. chefiou uma expedição de caçadores. por eventuais interessados. a 5 de abril de 2001. de posse permanente dos índios isolados. Francisco Alves de Morais Filho (Chico do Maranhoto).000 ha. segundo declarou à época o superintendente da PF no Acre. com o objetivo de fortalecer as ações da Frente de Proteção Etno-Ambiental Rio Envira e proteger os A Polícia Federal insatrou processo criminal para apurar o assassinato do índio na TI Alto Tarauacá e diligência foi realizada pela PF e a Funai em agosto de 2000. abrindo prazo de 90 dias para contestação. Auton Farias. o que acabou não acontecendo. foram levantadas benfeitorias de boa-fé de 53 famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. por ocultação de cadáver e. grupo técnico da Funai-Incra. em Rio Branco. Parentes do índio assassinado revidaram. no Município de Feijó. com extensão de 52. ainda. de 18 de abril de 2000. a 21 de maio de 1998. Em junho de 1998. Dézio Oliveira e Francisco Sampaio da Silva. pouco dias antes da visita do Prefeito do Jordão à Funai.500 ha. assinada pelo Ministro da Justiça. Aprovado pelo Despacho Nº 18.

mas. prevista no âmbito do PPTAL para o segundo semestre de 2001. tendo o governo estadual prometido honrar seus compromissos ao longo de 2002. situada nos Departamentos de Ucayali e Madre de Dios. criando a Zona Reservada Alto Purus. impedindo o final do procedimento demarcatório e a homologação dessa terra indígena. no âmbito da Concorrência Nº 3/2001. foi licitada a 12 de setembro. onde estava configurada grave crise social. O governador Jorge Viana tomou esta decisão após visitar as instalações da Frente e sobrevoar as malocas. em outubro. era objetivo do convênio que a Funai tivesse condições efetivas para estabelecer presença permanente também no alto rio Tarauacá. o então Presidente Alberto Fujimori assinou o Decreto Supremo Nº 030/2000AG. A liberação de parte dos recursos para o início da execução do convênio acabou não acontecendo no segundo semestre de 2001. o convênio previa a estruturação de um posto de vigilância na foz do Rio D'Ouro. sem que houvesse qualquer acompanhamento de funcionários da Funai. que logrou fazer a primeira foto de um índio nessa região.101. este trecho de 11 . bem como a contratação de pessoal e compra de material e equipamentos para as duas bases da Frente. Alto Tarauacá e Xinane. faixa de proteção ambiental com 5. Contígua à fronteira internacional com o Brasil. pouco antes da demarcação. elaborado e publicado no Diário Oficial da União parecer atestando a boa fé das benfeitorias de 52 famílias. como previsto. 2001a. garantir-lhes a exclusividade no uso dos recursos naturais dos territórios que habitam naquelas terras indígenas. sim. o que tampouco aconteceu.índios isolados que vivem nas TIs Kampa e Isolados do Envira. Prevista para acontecer em 2001. as peças técnicas ainda não foram analisadas tecnicamente. Estas começaram a ser indenizadas em janeiro de 2002. Entregues no segundo semestre desse ano ao Departamento de Demarcação. por outro lado. A demarcação teve início na segunda quinzena de fevereiro de 2002. publicada na edição de Natal do ano 2000.945 ha. Com duração de dois anos. Por esta razão. não foi iniciada qualquer ação da Frente no Município de Jordão e os poucos recursos liberados acabaram empregados na manutenção da reduzida equipe da sede da Frente na TI Kampa e Isolados do Rio Envira. em Brasília. para impedir a continuidade das invasões nesta parte do território dos índios isolados por madeireiros e caçadores advindos da sede do Município de Jordão e de seus arredores. a indenização das benfeitorias dos ocupantes não-índios acabou não sendo realizada nesse ano. A 7 de julho de 2000. na TI Alto Tarauacá. antes da demarcação física. A demarcação física desta terra. quando a quase totalidade já se encontrava morando na sede do município. Seguindo a atual orientação do DEII. a necessidade de pensar esta situação à luz da fronteira internacional Brasil-Peru e das ações que o governo peruano e a organizações indígenas que atuam nesse país têm tomado para a criação de "zona reservadas" e "reservas territoriais" destinadas a essas populações indígenas "isoladas" (Iglesias. acompanhado de técnicos da Funai e do Ministério do Meio Ambiente e de uma equipe da Revista Época. bem como dos conflitos armados entre índios e seringueiros. tendo sido declarada vencedora a empresa Engetop Topografia Ltda. Para tal. 2001b). tendo em vista a falta de moradias. mesmo com recursos alocados para este fim e depois de Comissão de Sindicância da Funai ter. oportunidades de trabalho e inclusive espaço para criar as cabeças de gado que alguns poucos trouxeram do seringal. A existência de índios isolados no Município de Jordão introduz. a atuação da Frente não visava promover o contato com os grupos de isolados.

atestavam seu mapa e seu memorial descritivo e rezava o consenso entre a população e lideranças dessa Reserva e as autoridades de Jordão e Marechal Thaumaturgo. com as TIs Alto Tarauacá. e criadas por Resolución Directoral Regional em 1997. Por não terem reconhecimento respaldo na legislação federal do país vizinho. deixou de honrar dívidas oriundas de financiamentos feitos junto ao Banco do Brasil para a implantação da Álcool Brasileiro S. conforme. nas bacias do rio Jordão e do alto rio Tarauacá. Em início de 1996. já à época. Esses quatro seringais. Ambas foram propostas e sustentadas tecnicamente pela organização indígena Asociación Interétnica de Desarrollo de la Amazonia Peruana (AIDESEP). foi lavrado no Cartório de Tarauacá auto de penhora e depósito incidindo sobre ambos seringais. uma área de 506 mil ha. O dono do Nova Empresa e do São Joaquim. Reivindicações feitas desde 1988 pelo Conselho Nacional dos Seringueiros e pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais de Tarauacá 12 .263 ha. no Município de Marechal Thaumaturgo. Seu decreto de criação. anos depois. vendera em 1987 essas propriedade a José Alves Pereira Neto. ex-senador biônico pela Arena e maior proprietário de seringais no Município de Tarauacá na década de 1970. no trecho que coincide com os limites sul das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. os seringais Nova Empresa. estão situados no Município de Jordão. em território peruano. Boa Vista. têm sido invadidas por madeireiros. contígua ao lado oeste do Município de Jordão. todavia. Em fevereiro de 1992. mas manteve a área limítrofe à fronteira internacional coincidente com o Município de Jordão e Feijó. fora da Reserva do Alto Juruá. portanto. ainda. Kaxinawá do Rio Jordão e Kampa e Isolados do Rio Envira. resultando.florestas se estende. abrangendo partes dos Municípios de Jordão e Tarauacá. o Decreto Supremo 001-2002-AG reduziu a extensão da Zona Reservada Alto Purus para 2. no Município de Senador Guiomard. b) A Reserva Extrativista do Alto Tarauacá Em janeiro de 1992. no conjunto dos seringais incidentes na Reserva Extrativista do Alto Juruá. Altevir Leal. bem como palco de enfrentamentos violentos entre índios isolados e moradores locais. em cumprimento a carta precatória em que figurava como credor o Banco do Brasil e como devedores a Alcobrás e outros. empresário paulista que. reconhece a necessidade da tomada de medidas para proteger o direito ao livre trânsito e aos "usos tradicionais" das populações indígenas "en aislamiento voluntario" que têm "territórios ancestrais" nessa região. todavia. coincidindo com os limites das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e do Baixo Rio Jordão. A Zona Reservada é destinada à conservação da biodiversidade. extremando com o Município de Jordão.A (Alcobrás). na nomeação de depositário particular para os imóveis. Cabe lembrar que esses dois seringais se encontravam ocupados pelos Kaxinawá desde final de 1990 e que o Nova Empresa fora desapropriado pelo Ibama em janeiro de 1992. extremando com o Município de Jordão. Em janeiro de 20002. passou a tramitar no CNPT-Ibama processo para a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. entre as cabeceiras do rios Acre e Amônia. A Zona Reservada Alto Purus veio a incluir duas Reservas Territoriales destinadas a populações de índios isolados no Departamento de Ucayali: Alto Purus e Murunahua. nos limites norte das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. esta ultima situada nas cabeceiras dos rios Yurua e Huacapahtea. traficantes e missionários.724. Massapê e Duas Nações foram desapropriados pelo Ibama. fazendo referência à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Nesta nova conjuntura. Riozinho da Liberdade. pela Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá (ASAREAT) pleiteavam. Duas Nações e Massapê. todas regularizadas. Essas reivindicações. e Riozinho da Liberdade. com a ida de nova equipe com a incumbência de elaborar proposta para fundamentar a criação da reserva. Cruzeiro do Vale. e outras duas reservas extrativistas: Alto Juruá. a partir de 1997. 1998a). quando havia preço e mercado para a borracha. a inclusão na área da Reserva dos seringais Alagoas (abrangendo Restauração. 1997). São Salvador e Primavera.843. já desapropriados. É na área dos fundos destas reservas e terras indígenas que emanam alguns dos principais afluentes da margem direita do alto rio Juruá e da margem esquerda do rio Tarauacá. Ouro Preto e Nazaré). criara a Reserva Florestal do Território do Acre.080 pessoas. com extensão de 151. Na circunvizinhança desta Reserva há hoje quatro terras indígenas.199 ha. além do Boa Vista. O corte da seringa deixou de ser. Oriente e parte do Primavera. Houve um aumento significativo da densidade da ocupação na margem do rio Tarauacá e o progressivo abandono das colocações de centro. abrindo campos e ampliando as pastagens nos arredores 13 . em parte coincidente com a atual área da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. Bagé. para a maioria das famílias. a 8 de novembro de 2000. Hermes da Fonseca. o Presidente da República. A Reserva foi criada. de 26 de julho de 1911. deixando de atualizar as redes de aviamento através dos quais os seringueiros vendiam sua produção de borracha e compravam as mercadorias necessárias à vida na floresta. Gregório. como resultado do abandono pelo governo federal das políticas de preços e garantia de mercado para a borracha do seringal nativo. quando. Tabocal. a saber: Tejo. em pedaços ou mangas das estradas. A população de seringueiros e agricultores que ali vivia em início de 1998 era de 1. legitimavam a ocupação e a pretensão dos Kaxinawá de verem os seringais Nova Empresa e São Joaquim reconhecidos como terra indígena. apesar de ser retomada. Os trabalhos preliminares para a criação da reserva extrativista foram iniciados pelo CNPT-Ibama em setembro e outubro de 1996 (Iglesias. distribuídas em 133 colocações de sete seringais situados na margem esquerda do baixo rio Jordão e do rio Tarauacá. A forte desarticulação da atividade gumífera no alto Tarauacá teve como resultado intensas migrações de dezenas de famílias de seringueiros para as sedes dos Municípios de Jordão e Tarauacá e suas proximidades. decretada em 1990. 181 famílias.e. por decreto presidencial. A intensificação das atividades agrícolas de terra firme e da criação de pequenos animais domésticos foi a estratégia buscada pela maioria das famílias para tentar garantir sua subsistência e vender excedentes junto a pequenos comerciantes do Jordão e a marreteiros de Tarauacá. Tiveram prosseguimento nos meses de dezembro/97 e janeiro/98. Esta região é de extrema importância para a preservação da rica biodiversidade existente no Alto Juruá. Grupos familiares com maiores recursos deram início a pequenas criações de gado. que acabou formalizada em outubro (Iglesias. portanto. atividade central na combinação de atividades produtivas implementadas ao longo do ciclo anual. Valparaíso. os moradores deixaram de pagar renda das estradas de seringa e passaram a se considerar donos de suas colocações. Os últimos patrões abandonaram os seringais da reserva. através do Decreto Nº 8. Processos semelhantes aos constatados nas terras indígenas Kaxinawá ocorreram na área da Reserva Extrativista ao longo dos anos 1990. em processo de criação. Esta relevância já fora reconhecida pelo governo em início do século passado.

assim como pelos próprios moradores. tornaram-se comuns os conflitos e “questões” entre vizinhos. especialmente cedro e mogno. A partir de 1999. brancos e Kaxinawá. políticos e proprietários de seringais empreenderam retiradas ilegais e predatórias de madeira de lei. em especial daquelas do seringal Alagoas e arredores. organizou.A. dando condições para seu enraizamento e a construção de maior capacidade gerencial. como fruto das mobilizações de parte dos moradores. com a aquisição de dois barcos motorizados e dois aparelhos de radiofonia. inclusive nos seringais da reserva. com o qual manteve abastecidos com mercadorias básicas alguns entrepostos de compra da borracha produzida pelas famílias da Reserva e de seringais vizinhos. entre 1997-98. Em função do agravamento da crise da borracha. junto com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o Tribunal de Justiça do Acre. na sede do Município de Jordão. Em janeiro de 2000. Em 2001. diminuíram posteriormente. e financiar a produção de borracha de algumas famílias. Além da representação política dos moradores e do apoio à produção e comercialização da borracha. da ASAREAT e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. que resultou na documentação de muitos chefes de família. aprovou projeto junto à Secretaria de Coordenação da Amazônia/MMA. comuns até pouco tempo. tendo comercializado. comerciantes. já em curso. Estas atividades predatórias. no tradicional Novenário de São Sebastião. como parte do Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia. que procuravam novas alternativas de inserção na economia local. Na maioria dos casos. Em março desse ano. Ganharam monta também as caçadas e pescarias com fins comerciais. quase vinte. Com a intermediação do Conselho Nacional dos Seringueiros. vendeu cerca de nove toneladas de borracha a duas empresas. teve início um gradual processo de organização das famílias de seringueiros e agricultores que moram nos seringais incidentes na Reserva. especialmente no sistema de diária para a Prefeitura e comerciantes locais. Contou também com recursos do subsídio estadual.de suas casas. causados por invasões de criações domésticas (porcos e gado) nos roçados de terra firme e de praia. as estratégias produtivas postas em prática pelos grupos familiares ganharam cada vez maior relação com as alternativas de comércio e a demanda por serviços na cidade. recebeu recursos do Programa Amazônia Solidária e constituiu um capital de giro inicial. (BASA). o que dificultou um maior aproveitamento de praias. Dada a proximidade das colocações recém abertas na margem do rio. com o objetivo de fortalecer a Associação. através do Banco da Amazônia S. no âmbito do Programa de Subvenção Econômica aos Seringueiros Produtores de Borracha Natural Bruta. contudo. Assinou convênio com o governo estadual para fortalecer os sistemas de transporte e de comunicação. em 2000. Com a criação da ASAREAT e sua legalização. a Associação logrou acessar os primeiros recursos de programas governamentais. Em 1999. incentivadas por regatões e levadas a cabo por moradores da cidade de Tarauacá e do Jordão. barrancos e terras firmes em ambas as margens do rio Tarauacá. não dispunham de meios para a compra de arame farpado e o cercamento dos campos. uma edição do Projeto Cidadão. deu início ao cadastramento de moradores da Reserva para viabilizar a obtenção de recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex). mais conhecida como Lei Chico Mendes. Nos seringais mais próximos à sede do Jordão. de maneira a alargar sua representatividade e 14 . importante desafio atual da ASAREAT continua sendo o de capitanear processos continuados de informação e discussão em todos os seringais do Alto Tarauacá.

contra as 55 que ali moravam em final de 1998.015 Kaxinawá distribuídos em oito seringais do rio Jordão. confronto armado no Novo Segredo. dois Kaxinawá foram baleados pelos “Jaminawa”. têm extensão de 107. transporte e comunicação. os Kaxinawá constituíam pouco mais de um terço da população total do município. cujas malocas ficam situadas no Brasil e no Peru.se legitimar como instrumento de organização local. Em 1988. que servirão para a regulamentação das formas de uso e preservação dos recursos naturais e para definição de programas voltados ao desenvolvimento à melhoria das condições de educação. no médio curso do rio. como represália. que só tornou a ser povoado em início de 2000. Em meados da década de 1980. criado em 1998. como estes índios são denominados em hãtxa kui.287 Kaxinawá nas três terras. o Novo Segredo chegou a ser habitado por 125 pessoas. Nos anos seguintes. Os roubos dos “brabos”. distribuídos em três terras indígenas. provocaram intensas migrações dos Kaxinawá rumo ao baixo curso do rio Jordão. Com a retirada dos patrões e seringueiros brancos. seringal mais às cabeceiras do rio Jordão. com vistas à eleição de representantes dos "povos da floresta" para a Câmara dos Vereadores local e ao delineamento de projetos que venham a resultar no reconhecimento de suas respectivas terras e em benefícios concretos para os moradores da reserva e das terras indígenas. às vezes em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jordão. interessadas em ter maior fartura de caça e retomar a produção de borracha através da produção de lâminas de couro vegetal. área de florestas que constitui cerca de 30% da extensão da TI Kaxinawá do Rio Jordão e abriga grande número de colocações e estradas de seringa desocupadas e fartos territórios de caça e de pesca. representantes da ASKARJ e vereadores indígenas. À época. Os Kaxinawá têm sido impossibilitados de aproveitar ricos recursos naturais do Novo Segredo. a família extensa dos Sereno abandonou este seringal. nos anos 1990. na elaboração coletiva dos Planos de Uso e de Desenvolvimento da reserva. como os Kaxinawá se referem aos isolados em português. A população Kaxinawá mais que triplicou nos últimos 25 anos. os isolados chegaram a saquear casas dos seringais Bondoso e Belo Monte. resultante do processo de reconhecimento oficial da terra indígena. que indicou uma população de 1. resultou na morte de um isolado. com a vinda de famílias da aldeia Independência. por exemplo. após duas incursões dos "isolados" no Bondoso. passaram a saquear casas de famílias Kaxinawá. O uso das cabeceiras do rio Jordão pelos Kaxinawá tem sido gradualmente restrito desde meados dos anos 1980. índios isolados. Neste mesmo ano. composta por 249 famílias. Ocupação e uso do novo território Kaxinawá Os dez seringais atualmente habitados e ocupados produtivamente pelos Kaxinawá. Com o progressivo esvaziamento do alto rio Jordão. conforme exige a legislação. têm procurado firmar estratégias comuns com as lideranças Kaxinawá. 15 . os professores bilíngües realizaram novo censo. Por outro lado. que viviam em 14 aldeias e 171 casas.482 ha contínuos de florestas e abrangem 20% da área total do Município de Jordão. Recenseamento feito pela ASKARJ em início de 1992 revelou a existência de 1. Em fins de 1998. bem como avançar. saúde. e o medo de possíveis enfrentamentos e de conviver com sua presença nas proximidades das casas. distribuídas em dez seringais. a partir de 1998. os diretores dessa instância de representação dos seringueiros e agricultores da Reserva.

Bondoso. 16 . resultaram num intenso processo de rearranjo das alianças familiares. associado a renovadas estratégias políticas. A concentração das aldeias ao longo do rio Jordão tem resultando no uso mais intensivo dos trechos de florestas e capoeiras situadas em suas margens. ligadas por laços de parentesco. Em 1992. esta cifra alcançava os 80%. mais próximo à sede do Município de Jordão. a partir de 1993. estes quatro seringais abrigavam 589 índios. dificultando a navegabilidade dos rios e privando as caças e peixes de fontes naturais de alimentação. Principal atividade voltada para comércio durante quase setenta anos. foram abertas onze novas aldeias. afinidade e vizinhança. Nova Empresa e São Joaquim. mais fartas em caça. no rio Tarauacá. também próximos à sede do município. a grande maioria das famílias extensas Kaxinawá optou por abandonar as colocações nos centros da floresta. econômicas e territoriais destas famílias extensas nas novas aldeias. resultou no surgimento de novas "aldeias". O estilhaçamento do antigo sistema de poder político centrado em torno das "lideranças" e das cantinas. Boa Esperança. Em final de 1998. que antes acumulavam o cargo de "cantineiros" e centralizavam redes de aviamento em relação às demais famílias extensas. além de outras dez que se reagruparam em torno e nas proximidades das antigas sedes dos seringais. em certas aldeias. com o esvaziamento das colocações de centro e o desmonte das antigas sedes. em seu baixo curso. que viviam e produziam borracha nos seringais das três terras indígenas. no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex). Em várias aldeias. A partir de 1994. principalmente em seu baixo curso. as "freguesias". quase três dezenas de famílias se mudaram para os seringais Alto do Bode. em trechos de florestas bem mais escassos de peixes e caças grandes. e do sistema de poder político a ela associado.A. a produção continua. principais fontes de proteína animal na dieta cotidiana. com uma situação marcada pela ausência de canalização pela ASKARJ de recursos externos advindos de "projetos". junto com a progressiva desnaturalização da matriz espacial do seringal. e redundou na desarticulação da cooperativa e no redimensionamento do poder das "lideranças". assumiu peso bastante reduzido no conjunto de estratégias produtivas das famílias extensas. somado aos fluxos migratórios rumo ao baixo curso do rio Jordão. esta proporção já alcançava os 70%. Em apenas três aldeias. em 1996. Resultou ainda.Nos anos 1990. à época quase 60% dos Kaxinawá. através de parceria comercial assinada pela ASKARJ com a empresa Couro Vegetal da Amazônia S. Outros fatores contribuíram decisivamente para os intensos processos de reordenamento territorial e de redistribuição populacional dos Kaxinawá na última década. Três Fazendas e Independência. a desestruturação da cooperativa. antes usadas para a moradia e o corte da seringa. Esta crise combinou. e preferiu se concentrar nas margens do rio Jordão.A. a produção de borracha. na forma de lâminas de couro vegetal. Desde então. que chegaram a um total de 25 neste ano. formadas por números variáveis de famílias extensas. Se somados às famílias que neste mesma época moravam nos seringais Independência e Altamira. numa relativa escassez de espécies florestais usadas na construção de casas e canoas e na confecção de outros instrumentos de uso cotidiano. no baixo curso do rio Jordão. No quadro configurado com o aprofundamento da crise da economia da borracha. em ritmo lento. com 892 índios. onde não foi totalmente abandonada. Um dos principais foi a profunda crise na economia da borracha desde meados dos anos 1980. levou ao comprometimento da cobertura florestal e da proteção natural das margens. contando também com financiamentos do Banco da Amazônia S.

seis famílias de seringueiros e agricultores. ocupavam periodicamente outras duas colocações de centro no São Joaquim. é que muitas famílias Kaxinawá tem procurado garantir sua subsistência e encontrar alternativas para se inserir na restrita economia do Município de Jordão. onde as redes comerciais são controladas por poucos comerciantes e marreteiros. fora. Os demais ocupantes. apenas três mantinham residência fixa no Nova Empresa e São Joaquim. Limites e Conflitos com os "ocupantes não índios" no baixo rio Jordão O processo de regularização da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão se estendeu por oito anos e cinco meses. distribuídos por cinco colocações e uma "colônia" situadas nos dois seringais da terra indígena. A demora no avanço do processo de regularização. apontou 29 ocupantes.A maior parte das famílias extensas. plantavam e caçavam. A chegada de várias famílias Kaxinawá implicou na necessidade de estabelecer novos acordos com os "ocupantes não índios" que ali viviam enquanto não chegava a indenização de suas benfeitorias. portanto. atividade que colocou dificuldades adicionais aos plantios nas praias. solteiros. De 1994 a 2000. e principalmente o recebimento das aposentadorias e salários de funcionários públicos (professores. que em muito tem permitido que esses "patrões" estejam enricando. o então Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto homologando sua demarcação física. no seringal Boa Vista. como à restauração de formas de endividamento com os comerciantes no Jordão. enquanto os trâmites administrativos se desenrolavam na burocracia da Funai. quando da assinatura do convênio Funai. colônias e pomares. onde cortavam seringa. São freqüentes as queixas quanto à falta de mercado para a produção agrícola e as criações domésticas. 17 . aliada à criação de animais domésticos. ocorrida de março a setembro de 2000. permitindo a compra de gêneros básicos necessários à subsistência de redes extensas de parentes. O censo feito em março de 1994 pelos membros do GT de identificação. e agentes de saúde). com suas lojas sortidas de mercadorias. resultou numa série de negociações e conflitos entre famílias Kaxinawá e esses moradores. Foi registrada no Cartório de Imóveis do Município de Tarauacá em 2 de janeiro de 2002 e na Secretaria de Patrimônio da União a 14 de março. desde novembro de 1993. A comercialização das criações domésticas e de produtos agrícolas. Através desta nova combinação das atividades produtivas realizadas ao longo do ciclo anual. junto com o preenchimento dos Laudos de Vistoria e Avaliação de Benfeitorias. mas moravam com suas famílias extensas na margem esquerda do rio Jordão. envolvendo os proventos do INSS dos velhos aposentados. os moradores continuaram ocupando estradas de seringa e cultivando as melhores terras firmes do seringal São Joaquim. e principalmente da indenização das benfeitorias. aos baixos preços pagos por esses produtos e aos altos preços das mercadorias nos comércios da sede municipal. Dessas famílias. a caça. são hoje as principais fontes de renda de considerável parte das famílias Kaxinawá. à época já desapropriado pelo Ibama. preferiu intensificar a diversificada agricultura de terra firme e de praia. em especial ao cultivo do amendoim. estaduais e municipais. A 30 de abril de 2001. Alegando que apenas aguardavam a indenização para abandonarem suas colocações. assim. as famílias Kaxinawá se mobilizavam para ocupar os seringais Nova Empresa e São Joaquim. da terra identificada. a pesca e a coleta. no âmbito do PPTAL. conciliada com os plantios nos terreiros. por sua vez. inclusive pequenos rebanhos bovinos. O decreto de homologação foi publicado no Diário Oficial da União a 2 de maio de 2001. Embaixada da Suíça e CPI-Acre.

e a indenização das benfeitorias dos ocupantes não índios. Parte destas pescarias era para subsistência. que. acabou por cercou seu campo com arame. Os ocupantes. brancos e índios. o principal criador do Boa Vista. visto que os moradores do Boa Vista e da sede do município invadiam as matas da terra indígena. Comunicou-lhe. 2000d. Apesar dos vários avisos feitos pelos chefes de família Kaxinawá. encaminharia carta à Funai e ao Ibama cobrando providências. na sede municipal. mas. muitas vezes interessados em vender carne de caça. estes moradores também subiam o rio Jordão para mariscar de tarrafa e de mergulho nas cachoeiras. matando e espantando as caças. Como resultado destes conflitos e queixas. outra “questão” envolvia as pescarias. bastante reduzidas. poços e tronqueiras. desenharam novo cenário nessa situação de conflito vigente nos seis anos anteriores. se queixaram ao então Vice-Prefeito do Jordão. mobilizaram-se com maior sucesso para empatar a entrada de caçadores nestas duas terras. as lideranças Kaxinawá do alto Tarauacá e do baixo Jordão. com apoio dos agentes agroflorestais. fresco e salgado. se queixavam de que as piracemas. bem como outras famílias do seringal Boa Vista. em muitos casos. chegando a invadir colocações localizadas nas águas do alto Tarauacá. No baixo Jordão. os ocupantes insistiam em caçar com cachorro nas matas dos fundos do seringal São Joaquim. ainda.obrigando os Kaxinawá a plantar seus roçados em terrenos alagadiços e de igapós. evitando novas invasões nos roçados dos Kaxinawá. antigo proprietário do seringal Boa Vista. A criação de gado feita em dois campos não cercados no seringal Boa Vista impossibilitava o aproveitamento das poucas praias boas existentes no baixo curso do rio. A partir de 1998. diziam que se viam obrigados a usar esta alternativa para pescar. Estas queixas se estendiam também às freqüentes invasões feitas pelo gado. em seus roçados de terra firme e de praia. não subiam o rio. caso as denúncias prosseguissem. durante os meses do verão. que passou a ter grande demanda devido ao crescente processo de urbanização. Além disso. Todos no baixo Jordão. Este solicitou ao vereador Kaxinawá Noberto Sales Tenê que aconselhasse seus parentes a interromper essas pescarias. A demarcação física e seu "acompanhamento" A demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Francisco Alves de Moraes (Maranhoto). argumentando que eram esporádicas e usavam pouco tingui. inclusive no seringal Independência e Altamira. Turiano Farias. e geravam freqüentes reclamações das famílias Kaxinawá da aldeia São Joaquim. sem comprometer o estoque de peixes no baixo Jordão. Os Kaxinawá defendiam essas pescarias como parte de sua tradição. 18 . o que não ocorreu. ocorrida de março a setembro de 2000. o peixe era vendido. Por outro lado. que prejudicavam a durabilidade da macaxeira e dos demais legumes e frutíferas (Iglesias. reclamavam das pescarias coletivas com tingui feitas pelas famílias Kaxinawá nos poços e tronqueiras ali existentes. 1998a. em agosto. Em fins de 1997. 2002b). de propriedade da ASKARJ. Isto também continuou sendo feito por moradores da sede do Município de Jordão. ao abrir possibilidades efetivas para o usufruto exclusivo dos recursos naturais pelas famílias Kaxinawá e o engendramento de novos acordos com os moradores vizinhos do seringal Boa Vista. porque moradores da sede municipal e do seringal São João colocavam mangas na foz do rio.

no Município de Mâncio Lima. dividida em três blocos: no Bloco I. São Joaquim. assinado pelo PPTAL e a Associação Agro-Extrativista Poyanawa do Barão e Ipiranga (AAPBI). Kaxinawá da Praia do Carapanã e Kampa do Igarapé Primavera.. Morada Nova. na aldeia Nova Empresa. a parceria esteve formalizada. 2002a) Com apoio institucional e logístico. e os Postos Indígenas nas sedes dos municípios. vista como etapa crucial para potencializar e qualificar a participação indígena. aposentados e outros chefes de família. A empresa pode propor na assembléia a contratação de mão de obra indígena. remuneração. Cachoeira. para implementação do projeto "Acompanhamento e Consolidação da Demarcação Física da TI Poyanawa" (Iglesias. de abril de 1999 a junho de 2000. no Município de Tarauacá. assessoria antropológica e instrumentalização com informações e recursos financeiros. Na primeira etapa. Torre da Lua. ocasiões vistas como indispensáveis para garantir a participação indígena. professores. garantissem a correta materialização e a sinalização dos limites e gerassem subsídios para futuras ações de vigilância de suas terras. 2002). na casa do cacique Getúlio Sales Tenê. que atuarão em convênio com o PPTAL e contarão com recursos próprios para este fim". fiscalizassem os trabalhos da Asserplan. etapa que o edital passou a exigir das empresas de engenharia antes da chegada dos topógrafos e suas turmas de peões13. todavia. através do Edital de Tomada de Preços FUNAI/CEL/Nº01/99.777 ha. A Asserplan-Engenharia e Consultoria Ltda. O custo dos representantes indígenas corre por conta da empresa. 2000a. além do responsável técnico da Asserplan. pelo Contrato de Prestação de Serviços Nº 99/025. e no Bloco VI. foi introduzida no edital de licitação das demarcações cláusula obrigando a empresa a realizar duas "assembléias" na aldeia principal da terra indígena. a TI Poyanawa. Na etapa de "preparação das demarcações". 2002a). 13 Em 1999. uma no início e outra no fim da demarcação. agentes agroflorestais. Além dos representantes indígenas indicados. para acompanhar a demarcação e fazer a interlocução junto aos representantes desta. o PPTAL procurou motivar a "participação indígena" no acompanhamento destas seis demarcações. Estavam presentes 32 Kaxinawá. No caso Poyanawa.. não caracterizando. Em quatro outras terras. agentes de saúde. 19 . contratado como consultor ad hoc do PPTAL de janeiro a dezembro de 2000. Esta atividade coincidiu com a realização da "primeira reunião" nestas cinco terras. de Manaus. em Feijó. Luiz Takao Arashiro. no Bloco III. foi declarada vencedora para os serviços dos Blocos I e III e a Pórtico Engenharia Ltda. com intermediação do PNUD. Está prevista. acompanhei as primeiras reuniões nas terras indígenas a serem demarcadas pela Asserplan (Iglesias. e de mim. lideranças. foi viabilizada pela assessoria deste antropólogo. A primeira reunião na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão foi realizada no dia 13 de março de 2000. Bambu. para que acompanhassem as demarcações. que a comunidade indique seus representantes.Em 2000. o PPTAL viabilizou a demarcação de seis terras indígenas em cinco municípios do Alto Juruá acreano. a participação indígena foi discutida com lideranças e chefes de família em reuniões nas aldeias. na primeira assembléia. um por equipe da empresa. das aldeias Nova Empresa. 12 Esta instrumentalização. um total de cinco meses de campo. o PPTAL viabilizou a instrumentalização das comunidades Kaxinawá e Ashaninka. consultor ad-hoc contratado pelo PPTAL. o edital estipula que "os trabalhos de demarcação poderão a qualquer momento ser acompanhados e vistoriados por equipes indígenas. feitas por essas duas empresas de agrimensura contratadas pela Funai12. no Município de Marechal Thaumaturgo. o PPTAL repassou recursos financeiros para a aquisição de materiais de consumo a serem usados pelas comunidades no acompanhamento das demarcações. A licitação destas demarcações aconteceu em setembro de 1999. 2000d. Lima. 2000a. quando foram realizadas duas viagens às cinco terras. entre fevereiro e abril. as TIs Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. de Rio Branco. Via a AER-RBR. a TI Kulina do Igarapé do Pau. com extensão total de 192. do Bloco VI (Iglesias.

os Kaxinawá exigiram. teto máximo estabelecido por lei para a modificação de serviços licitados. pois este trecho seria contígua a outra terra indígena. 2000d. pela Procuradoria Jurídica da Funai. não seria suficiente para cobrir os custos com os serviços extras a serem realizados nos rios Jordão e Breu. e depois à Asserplan. durante a demarcação da Reserva Extrativista do Alto Juruá. nos limites da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão com o seringal São João. onde a invasão de caçadores era constante e a materialização do limite com o seringal da Prefeitura era desejado. o DED. parte também deste bloco. à Coordenação Técnica do PPTAL e à Cooperação Técnica Alemã (GTZ). para corrigir este erro. feita no âmbito do Projeto Reservas Extrativistas. já materializado pela Pórtico em 1998. a completa demarcação de sua terra. reivindicaram. e com os seringais Independência e Altamira. a Funai afirmava que a legislação não permitia a regularização. tanto no trecho com o seringal São João. que não era necessário a abrir a parte da picada que faz limite com seringal Independência. na hora de pagar o serviço topográfico para a completa demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. O edital não previu a abertura de qualquer picada na margem direita do baixo rio Jordão. Na hora de reconhecer esses dois seringais como terra indígena. da ASKARJ. Mas. E ameaçava não completar os serviços no baixo rio Jordão caso o valor do termo aditivo ao contrato não superasse esse limite legal14. na contratação dos serviços da demarcação. Os Kaxinawá. o DED cogitou. Após reconhecer o erro. mas não no limite com o seringal Independência. eu já percebera este erro e comunicara-o ao DED/DAF. O representante da empresa chegou a cogitar que. E exigiram também a demarcação de todo o limite da terra da divisão na margem direita. e a DAF e o PPTAL acabaram consentindo. E levantaram a possibilidade. pleiteava a assinatura de um termo aditivo ao contrato e o acréscimo do valor estipulado para o serviço. primeiro. portanto. por sua vez. Além destas demandas. ao invés de tornar a abrir este trecho. as lideranças presentes fizeram questão de incluir que o PPTAL destinasse os recursos necessários à completa demarcação de sua terra. pois não tinham certeza se a Funai um dia os reconheceria e demarcaria como terra indígena. após realizar os cálculos dos serviços extras que deveriam ser efetuados em função de erros cometidos por seus técnicos na licitação das TIs Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Para tal. ainda em Brasília. acabou por deliberar que um termo aditivo com um acréscimo de 25% sobre o preço inicial. como com os seringais Independência e Altamira. já em Rio Branco. a abertura de nova picada nas terras da divisão da margem esquerda do baixo Jordão. nesta "primeira reunião". Antes de minha viagem ao Acre. também do PP-G7. 20 . portanto. que defendia a impossibilidade do órgão reconhecer como terra indígena os seringais comprados pela ASKARJ. na ata que resultou dessa reunião. A empresa defendia que o acréscimo de 25% sobre o valor original. 2002a). num primeiro momento. Somente em abril. alegando que a picada da Reserva invadira parte dos fundos de sua terra e cortara colocações e estradas de seringa. todavia. A empresa. o entendimento do DED neste momento foi de que era necessária a abertura de picada somente no limite da terra indígena com o seringal São João. além de outro cometido pelo DED na licitação da TI Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. da Prefeitura. Surpresos com estes detalhes de ordem legal. O principal foco de discussão esteve centrado no erro cometido pelo Departamento de Demarcação (DED/ DAF) na elaboração do edital de tomada de preços e. teto máximo estabelecido na legislação. a equipe poderia abrir a picada não prevista do outro lado do rio.Os entendimentos entre o responsável técnico da empresa e os Kaxinawá não foram simples. caso isto não 14 A ironia nesta proposta inicial do DED era que a reivindicação dos Kaxinawá para a criação e regularização da TI Kaxinawá do Seringal Independência tinha sido obstaculizada por dois pareceres elaborados. na divisão de águas entre os rios Tarauacá e Jordão. em 1996 e 1997. seria suficiente para realizar os dois trechos não orçados (Iglesias. não concordaram com esta proposta.

no manual de normas técnicas para demarcações e no contrato assinado com a Funai. que defendia a abertura da picada ao longo das linhas da divisão. a picada foi traçada com três metros de largura. enquanto realizava esse mesmo serviço em outras terras que estavam sendo simultaneamente demarcadas pela empresa. A discussão começara. da própria comunidade completar o serviço restante. um terçadeiro. 2000a. 2002]). Foram abertas duas clareiras. parte das estradas de seringa da colocação Centro do Meio. os chefes de família Kaxinawá decidiram acompanhar os serviços antes de acessar os recursos destinados pelo PPTAL para este fim. além de já pouco visível. iniciou os trabalhos no baixo rio Jordão a 21 de março. durante toda a demarcação. O operador de GPS se fez presente depois. serviço previsto na licitação. Joselino Sales Banê. visto se tratar de limite entre uma terra indígena e uma unidade de conservação. sem a presença do operador de satélite e sem rastrear de ante mão todos os pontos geodésicos. em certos trechos. em rápidas passagens. em duas oportunidades. como técnico da mesma empresa participara da demarcação da TI Kaxinawá do Rio Jordão em 1985). a picada foi feita linhas retas. dois "balizas". junto com seu filho mais velho. fazendo as medições e abrindo as picadas na mata bruta. que coordenava. no início do trabalho e remontava ao erro cometido pelo DED na licitação e às conversas tidas com o representante da Asserplan na primeira reunião. empicando o traçado da terra da divisão. variaram entre dez e vinte metros do lombo da terra. com distâncias que. passando pelas clareiras e picadas previamente abertas pela equipe da empresa e registrando os pontos para a posterior elaboração do memorial descritivo. mas não ao seringal Independência. Os trabalhadores da empresa seguiam atrás. um meloso e um cozinheiro). O topógrafo informou a Getúlio que recebera ordens da empresa para demarcar apenas o limite adjacente ao seringal São João. Na margem direita foi que se configurou o desentendimento mais sério entre o Getúlio e o topógrafo Dacildo (que um mês antes tivera a demarcação da TI Poyanawa. paralisada pelos índios em função de divergências entre o memorial descritivo e os reais limites da terra indígena [Iglesias. Lima. ficando a cargo da empresa disponibilizar o topógrafo e um operador de motoserra. rolando. chefiada pelo topógrafo Dacildo de Menezes da Silva (que. Conforme decidido na primeira reunião. inclusive. Assim como já fizera na primeira reunião 21 . penetrara na terra indígena em trechos extensos. Durante todo o trabalho. Contra o desejo de Getúlio. Visto que a demarcação começou pouco mais de uma semana após a primeira reunião. em certos trechos. Ali. todavia. Getúlio e Joselino foram à frente da equipe da empresa. o cacique Getúlio Sales Tenê desempenhou o papel de representante oficial da comunidade junto à única equipe da empresa. e composta por outros sete membros (dois operadores de motoserra. na direita) e a garantir a integridade das colocações estradas de seringa em ambos lados da picada. no limite adjacente à Reserva Extrativista do Alto Juruá. na margem esquerda e Jordão-Tarauacá. Na margem esquerda do rio Jordão. os Kaxinawá tornaram a constatar que a picada aberta dois anos antes. e dois guias e um carregador. na demarcação da Reserva.acontecesse. A equipe da Asserplan. colocados os marcos testemunhas e assentadas sete placas indicativas. de forma a preservar os limites tradicionais entre os seringais das diferentes bacias hidrográficas (Jordão-Tejo. acumulando-o com a coordenação da equipe indígena de acompanhamento. Cinco Kaxinawá foram contratados pelo topógrafo para integrar a equipe da empresa: um terçadeiro e um carregador de bateria. entrando com a mão de obra e a alimentação.

que haviam descido à sede municipal a 22 . argumentou. ao longo da terra da divisão. Getúlio não concordou. foram abertas duas clareias. Percebi incongruências entre o mapa. de maneira a incluir todos os igarapés que colocam suas águas na margem direita do rio. Dacildo pareceu se conformar e a obra foi iniciada também na margem direita do rio Jordão. ou não. confeccionado sobre dados repassadas pela Asserplan. professores. da TI Kaxinawá do Rio Jordão. de realizar uma reunião com as comunidades Kaxinawá do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. sem que o fiscal ali tivesse pisado ou conversado com as lideranças Kaxinawá que haviam feito o acompanhamento. em 1985. até a cabeceira do igarapé João Ferro. homens e mulheres. mas não teve jeito: a demarcação foi paralisada. caso a Funai e a Asserplan assim decidissem. as picadas foram abertas com seis metros de largura. a demarcação poderia ser concluída. na confluência dos igarapés Batista e João ferro. das três terras Kaxinawá do Município de Jordão. O relatório da fiscalização dava ciência que a demarcação alcançara as cabeceiras do igarapé Batista. bem como chefes de famílias. Getúlio tornou a argumentar que se assim fosse. portanto. indicava que a picada chegara apenas à cabeceira do igarapé João Ferro. A partir de então. era melhor nem começarem. Francisco Colombo. Faltava. conforme estabelece a legislação. como demandavam os Kaxinawá. por ocasião do retorno da empresa para colocação dos marcos geodésicos de fibra de vidro. ao invés de prosseguir no rumo do último ponto plotado no memorial descritivo da delimitação. com o resultado já materializado da demarcação. O topógrafo concordou e a picada começou a ser aberta. conforme as reivindicações dos Kaxinawá. para encostar no limite demarcado. assentados os marcos testemunha e colocadas duas placas indicativas. resultado. por sinal. agentes de saúde. feita por técnico da Funai. aproveitando minha ida à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão durante a segunda etapa da consultoria ao PPTAL. deveria ser levada até as cabeceiras do igarapé Batista. O topógrafo alegou que. Neste ponto.com o representante da Asserplan. diferentemente. assentados os marcos de testemunha e colocada uma placa indicativa. bem como um croqui dos serviços realizados pela Asserplan. insistindo que tinha alcançado as cabeceiras do igarapé Batista. para dirimir as dúvidas se o traçado exigido por Getúlio implicara em prejuízos para os moradores do Independência e para saber se estavam de acordo. Na minha passagem por Brasília. elaborado pelo Departamento com base nas informações do fiscal. agora com três metros de largura. Dacildo anunciou que não prosseguiria. que não haviam ficado prontos à época do início dos trabalhos. de forma que todas as águas do baixo rio Jordão e as áreas mais ricas em caça estivessem incluídas. Diante destas incongruências que apontei. onde foram aberta uma clareira. em fins de junho. nova exigência das demarcações no âmbito do PPTAL. o Chefe do DED. Neste momento. incumbiu-me. portanto. No limite entre a terra indígena e o seringal São João. a dissensão cresceu. e o relatório da fiscalização. pois todo o perímetro da terra deveria ficar totalmente demarcado. de observações realizadas num sobrevôo. Contou com a presença de cerca de 50 lideranças. recebi do DED o relatório de fiscalização técnica da demarcação. no limite com o seringal Independência. mas o mapa anexo. conforme havia sido solicitado pela própria Asserplan. Getúlio conseguiu convencer o topógrafo que a picada. a abertura e medição da picada no trecho entre as cabeceiras destes dois igarapés. Esta reunião aconteceu na sede do Município de Jordão a 10 de agosto. agentes agroflorestais.

para ser entregue ao DED e ao PPTAL. feitas as alterações decorrentes da recente demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. para colocar os marcos geodésicos nas clareiras previamente abertas e concluir a abertura e a sinalização da picada entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. PPTAL. em campo. fez com que este limite coincidisse com a da terra indígena já regularizada e materializou corretamente os limites dos seringais do baixo rio Jordão com os seringais 23 . de forma conjunta. de que todo o perímetro da terra indígena deveria ser demarcado. Este documento foi entregue por mim ao DED e ao PPTAL em final de agosto. A ata que resultou desta reunião. como exigiam os Kaxinawá desde a primeira reunião. Em setembro de 2000. As decisões tomadas nesta reunião tornaram a ser discutidas em visitas que realizei logo à continuação às aldeias do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. bem como as áreas mais ricas em caça. fizera reunião na Asserplan para expor a representantes da empresa as reivindicações dos Kaxinawá e deixar cópia da ata da reunião recém realizada no Jordão. as lideranças reivindicaram. Esta nova mobilização dos Kaxinawá resultou na ampliação desta terra de 7. de maneira a incluir todos os igarapés cujas águas colocam no rio Jordão. a comunidade do baixo rio Jordão. exprefeito e proprietário desse seringal adjacente. liderada por Getúlio Sales. uma nova equipe da Asserplan se fez presente ao rio Jordão. a 13 de março. seis meses após o início da demarcação. não havendo. Foi esclarecido que este traçado da demarcação não causaria qualquer intrusão nos fundos do seringal Independência ou do seringal Iracema. em minha passagem por Rio Branco. a picada deveria seguir até as cabeceiras do igarapé Batista. para encerrar a demarcação. realizar esta empreitada. As mobilizações e o acompanhamento atento das lideranças Kaxinawá permitiram. que os seringais Independência e Altamira. reafirmou a decisão tomada na primeira reunião com a empresa. assim. de propriedade da ASKARJ. evitando problemas que talvez levassem meses para serem resolvidos em intrincados trâmites burocráticos. por fim. GTZ e principalmente das comunidades locais.convite do governo do estado para participarem do Fórum "Orçamento Participativo-Jordão. de forma que ficasse correta e definitivamente fechado todo o perímetro da terra indígena. que poderiam ter visto sua terra demarcada em desacordo com seus anseios. aproveitando o retorno da empresa para a colocação dos marcos de fibra de vidro. assinada por 33 lideranças Kaxinawá.726 ha. críticas dos doadores e frustrações da Funai. fossem reconhecidos e regularizados como terra indígena. corrigir erros cometidos pela Funai na licitação e na contratação da demarcação. Para tal. Por solicitação do Chefe do DED. O documento cobrou que a Funai tomasse providências para que. garantiu a inclusão de todos os igarapés e das áreas de caça nela existentes. em ambas as margens do rio Jordão. e que a demarcação física de seus limites fosse viabilizada no âmbito do PPTAL.700 para 8. Resultados 2000 e Propostas para 2001". fosse realizada a demarcação do trecho da linha do divisor entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. conforme os limites estipulados no relatório de identificação e delimitação entregue ao DEID/DAF em novembro de 1995. até encontrar o limite já demarcado da TI Kaxinawá do Rio Jordão. Reiterou que. Aproveitando esta reunião. novos desembolsos de recursos. qualquer possibilidade de conflitos entre as comunidades Kaxinawá ou destas com o Hilário Melo. se colocou à disposição da equipe da empresa para.

na preparação e avaliação da demarcação física de seis terras indígenas no Vale do Juruá. ao cargo de Prefeito pela segunda vez (Iglesias. ocorreu em um clima carregado no município. achamos importante contextualizar com dados locais o momento em que estas atividades estariam sendo realizadas. sobrinho do Prefeito Turiano Farias. onde nos reunimos com o Administrador Antônio Pereira Neto e Vânia Albano Lucena. o militar Fernando Amim de Moura. vinham promovendo vários comícios e festas nos seringais. na TI Alto Tarauacá. coordenadora da comissão pagadora instituída pela Portaria 753/PRES.Independência e Altamira. Usavam como exemplos a recente demarcação das TIs Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio 24 . em junho. estava em pleno andamento tensa campanha para as eleições municipais de outubro. assumira tom monocórdico. uma turma de caçadores. ao longo de toda a campanha. colocar farta lenha na fogueira do preconceito latente entre boa parte da população branca do município. com chances de sucesso. “os caboclos tomariam conta de todo o município”. os roçados invadidos e mulheres desrespeitadas. que pleiteava a reeleição. caso Siã fosse eleito. elaborado pelo Departamento Fundiário (DEF/ DAF) em 1999. que há seis anos aguardavam que a Funai indenizasse suas benfeitorias. bem como com as Reservas Extrativistas do Alto Juruá e do Alto Tarauacá. nas quais Siã Kaxinawá. Apesar de ambos reconhecermos que a indenização e a diligência não deveriam em nenhum momento estarem condicionadas pela dinâmica da política partidária municipal. Conversamos sobre o assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá e a diligência que a Funai e a PF estavam prestes a realizar na sede municipal e nessa terra indígena. o seringal da Prefeitura. chefiada pelo vereador Auton Farias (PPB). positivos e negativos. os prazos da desocupação e o usufruto exclusivo pelos índios dos recursos de suas terras (Iglesias. Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. por uma comissão pagadora da Funai em agosto de 2000. de 31 de julho. De outro. Afirmavam que Siã colocaria uma família Kaxinawá no terreiro de cada família de brancos. 2000c e 2001a). Siã aproveitou para alertar sobre desdobramentos. concorria. a indenização. nas duas etapas de minha consultoria ao PPTAL. Ao invés de ressaltar os benefícios trazidos por sua administração ou apresentar seus planos para um novo mandato. então Presidente da ASKARJ. realizamos visita à sede da AER-RBR. De retorno do Município de Jordão. a 23 de agosto. fato que ganhara ampla repercussão na imprensa de Rio Branco. 2002b). Foram mostrados documentos e as portarias declaratórias das terras e debatido o "Plano de Indenização e Remoção de Não-Índios em Terras Indígenas". criteriosa divulgação do início das demarcações fora feita junto à famílias de ocupantes nas TIs Kaxinawá da Praia do Carapanã. em que invariavelmente batiam na tecla de que. logrando com surpreendente eficácia. 2000b. pois. as criações domésticas seriam mortas. A indenização dos ocupantes e a desintrusão da terra indígena A indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. De um lado. Estes alertas eram cruciais. No primeiro semestre de 2000. assassinara um índio isolado no seringal Oriente. que a diligência poderia trazer para os interesses dos Kaxinawá e o resultado da campanha política em pleno curso. Com as lideranças Kaxinawá e Ashaninka. discutimos com essas famílias de seringueiros e agricultores novos cenários e acordos que deveriam ganhar forma com a demarcação. Turiano Farias e seu vice. o discurso do candidato à prefeito pelo PPB. junto com Siã Kaxinawá.

viagem esta que foi acompanhada pela coordenadora da comissão pagadora. Turiano e seu vice deixavam subentendida a ligação dos Kaxinawá e da candidatura de Siã com os conflitos armados nos seringais da TI Alto Tarauacá. o envolvimento do vereador Auton Dourado de Farias. semear desinformações sobre a veracidade da pretensão da Funai de criar esta terra indígena e da indenização dos ocupantes ali cadastrados pelo grupo técnico Funai-Incra em 1998. cuja casa não foi alcançada. como mandante do crime. Esta preocupação tinha razão de ser pelo clima pesado no ambiente político local. integrantes da comissão pagadora. a obrigatoriedade de pagar em mãos as indenizações nas TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kampa do Igarapé Primavera. na TI Alto Tarauacá. e se mudado para a sede do Jordão e a cidade de Tarauacá. inclusive às que já haviam se retirado da terra indígena. Pouco depois. haviam resultado no assassinato de três brancos (não se sabe quantos índios isolados) e em intensa migração das famílias de seringueiros e agricultores para a sede municipal e seringais próximos. mostramos preocupação com a decisão de fazer coincidir. candidato à reeleição e sobrinho do Prefeito. e a "perseguição" que estava em curso pelo governo federal contra os " brancos" nos Municípios de Jordão e Tarauacá. a 26 de agosto. A comissão pagadora esteve composta por três servidores da AER-RBR: a Chefe do Setor de Atividades Produtivas.63 às seis famílias. foi realizada a indenização na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. com viagem prevista para o seringal Oriente. de 27 a 30. Por outro lado. Neste interim. por conta do rio seco. no Município de Jordão. ainda. e por dois agentes da Superintendência da Polícia Federal no Acre: José de Brito Lira Júnior e Marcelo Ferreira Fonseca. onde o corpo foi desenterrado e levado a Cruzeiro do Sul. as atividades dos membros da Funai. castrado e enterrado em cova rasa. nos quatro anos anteriores. chegou ao Jordão um helicóptero da Força Aérea Brasileira trazendo um delegado e um escrivão da PF e dois peritos do Instituto Médico Legal. Vânia Albano de Lucena. Os trabalhos de campo nos Municípios de Jordão e Tarauacá. Foi pago um total de R$ 20. e as reações dos ocupantes e das autoridades de Tarauacá e Jordão à demarcação das três terras indígenas nesses municípios. prazo extremamente exíguo quando levados em conta os deslocamentos necessários para chegar às terras indígenas. estiveram marcadas por seu envolvimento na diligência. 25 . e a viagem. com a presença de várias autoridades e cerca de 50 moradores do Jordão. Procuravam. de onde os ocupantes teriam de sair após a indenização de suas benfeitorias. Além de uma reunião. Adauto Peres. aconteceram de 26 de agosto a 6 de setembro. as atividades de indenização com as da diligência. mas não pelo cacique Getúlio Sales Tenê. na Câmara de Vereadores. Na sede do Município de Jordão. que.491. o técnico em indigenismo Lacy Ferreira Lessa e o Chefe do Posto Indígena Tarauacá. feita pelas equipes da Funai e da PF. ao seringal Oriente e ao local onde foi encontrado o corpo do índio assassinado. e a diligência para a apuração da morte do índio isolado. acompanhada por lideranças Kaxinawá da aldeia São Joaquim. que tornaram ao Oriente. Apesar de reconhecermos a urgente necessidade da Funai tomar providências para a condenação dos culpados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. na qual foi comunicado que seria realizada a indenização dos ocupantes da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. as demais atividades estiveram diretamente relacionados aos objetivos da diligência: a coleta de depoimentos dos suspeitos e testemunhas. segundo alegaram os integrantes da comissão pagadora.Jordão.

que teve lugar poucos dias depois. A indenização das seis famílias ocupantes na TI Kampa do Igarapé Primavera. em Rio Branco. apenas zelar pela tranqüilidade destas atividades. neste episódio.Houve. da forma como foi levada a cabo pela Funai. supostamente capacitados para tal. é legítimo afirmar que mais “votos dos brancos” não foram dados a Siã Kaxinawá. Segundo previsto. acabou não acontecendo. foi realizada logo à continuação. As negociações e os acordos foram fruto de tensas discussões entre as lideranças e os ocupantes. José de Brito Lira Júnior. foi uma grande revolta dos ocupantes e vizinhos da terra indígena Ashaninka. ao chegar em suas casas. Repetiu. num total de R$ 24. Em várias oportunidades. pois voltaria a estes locais para matar os cachorros e prender os chefes de família.21. os contatos e a costura de acordos. O resultado mais evidente da truculência que marcou esta passagem da comissão pagadora. a conclusão de mais uma importante etapa da regularização dessas duas terras. já que foram. em várias ocasiões. cabendo aos agentes da PF. vista como personalização da Funai e do governo federal. candidato da Frente Popular do Jordão. que não esquecessem seu nome. Discussões mais ásperas aconteceram apenas com o ocupante Francisco da Silva Silveira (Chagas Brás) a respeito do reduzido valor de sua indenização e de um motor de farinhada que ganhara da Prefeitura em 2000. acompanharam as atividades da comissão. e se encarregaram de amplamente divulgar na vizinhança e na sede do município no dia da votação. Mas. prazo após o qual as benfeitorias indenizadas ficariam para a população Kaxinawá. e isto foi motivo de grande alegria para as famílias e lideranças Ashaninka e Kaxinawá. Mesmo com percalços. recebera denúncias a respeito de caçadas ilegais e invasões na terra indígena. no caso da PF e a Funai receberem qualquer reclamação por parte das lideranças Ashaninka. veio a confirmar as ameaças de “perseguição” e invasão por parte dos índios pregadas pelo candidato do PPB e seu vice durante toda a campanha. as lideranças Kaxinawá e os membros da comissão. criterioso trabalho junto a cada chefe de família. esta ação. com as demarcações. o que. portanto. segundo a coordenadora da comissão. felizmente. mediadas pelos membros da comissão.207. Para essas famílias. A costura dos acordos em relação a estes prazos foi tema de intensas discussões entre os ocupantes. Turiano Luiz e Armando Manoel. Com relação à eleição no Município de Jordão. a respectiva indenização e a assinatura do recibo de quitação. Duas lideranças Ashaninka. prejudicou outro desfecho possível para as eleições municipais no Município de Jordão. Os depoimentos de vários ocupantes desta terra indígena foram unânimes em apontar a truculência e o desrespeito que marcaram as ações do agente da PF. o agente teria afirmado que. De Brito chegou a dar um tiro de revólver para o chão no terreiro da casa de uma das famílias. "de Brito". a situação que viveram. o abuso da autoridade por parte do agente da PF e uma clara inversão dos papéis e atribuições que caberiam aos membros da comissão pagadora. com a explicação dos objetivos da viagem. é obrigação dos funcionários da Funai. Ficou claro. e que a coordenadora acreditava deveria também ficar para os índios. a indenização dos ocupantes e sua desintrusão. que formalizou o recebimento do dinheiro e a data acordada para a desocupação do imóvel. bem depois do levantamento de 1994. 26 . usar de respeito ao se relacionar com os brancos durante os trabalhos de indenização. como reação de várias famílias de moradores dos seringais e do município à violência que marcou a indenização na TI Kampa do Igarapé Primavera. dentre os quais. logrou-se.

recursos financeiros. 1998a. das redes elétrica e hidráulica e. cantina escolar. associação e povo etnicamente diferenciado. quando a Prefeitura Municipal comprou o seringal São João. um delegado e um escrivão de polícia. 27 . de um depósito de água e de uma usina geradora de energia. com mil metros quadrados. posto de saúde. o Prefeito do Departamento do Alto Juruá. hospital (em construção). creche. peladeira de arroz. a ser denominada Villa Jordão. A Vila Jordão foi oficialmente instalada. Este processo incluiu também a constituição de um conjunto de repartições públicas da administração municipal. houve um Sub-Prefeito na Vila. juiz de paz e oficiais do Corpo da Guarda. Iglesias. como indivíduos. dentre os quais. casa do gerador e olaria. deu início à urbanização da sede do município. Manaus e Belém. além de algumas casas comerciais. A partir de 1993. cargo ocupado por membros das principais famílias de seringalistas e comerciantes locais. nos arredores do perímetro urbano da sede do município recém criado e instalado. com a construção de calçadas. em 1913. a Vila contou os serviços de profissionais de diferentes ofícios e funcionários públicos. por falta de espaços físicos. Prefeitura Municipal. Com a criação do Departamento do Alto Tarauacá. A Ata da Sessão de Instalação da Vila Jordão explicita que “posteriormente será adquirido maiores áreas de terras. Câmara dos Vereadores. ali instalou a sede da Oitava Circunscrição de Paz. do governo e da sociedade civil local (Aquino & Iglesias. arena de múltiplas formas de relacionamento dos Kaxinawá. em 1957. lavanderia (sem água). o que aconteceu só em 1993. esta inaugurada apenas em 2000. foi o comércio de borracha e de mercadorias que movimentou os seringais e as casas comerciais do Jordão por décadas. 1997. Hilário de Holanda Melo. contudo. 1999). Em 1905. Em certos períodos. Thaumaturgo de Azevedo. O censo do IBGE em 1996 indicou as seguintes: escola estadual. de 12 de dezembro do ano anterior. O funcionamento de muitos órgãos públicos. casa do motor.processo pelo qual os Kaxinawá também procuravam construir novas modalidades de cultura e atuação política. escola. a Foz do Jordão passou. é o campo intersocietário constituído na sede do Município de Jordão. Ali começaram a funcionar uma escola. Com a instalação da Vila Jordão. Neste período. como entreposto comercial de apoio à atividade gumífera na região do alto Tarauacá. Desde início do século passado. delegacia. caso necessite para o desenvolvimento da Vila”(sic). famílias extensas. esta passou a ser distrito do Município de Tarauacá. A Vila fora demarcada nos moldes do Decreto N° 209. e algumas das perspectivas que se configuram para os próximos anos. a administração do primeiro prefeito eleito. principalmente os que deveriam prestar serviços de atendimento à população. ainda. foi de início precário. por sua localização estratégica. Apesar das diferentes conjunturas configuradas na economia gumífera na região. mantendo-as articulada às redes de aviamento de casas comerciais de Tarauacá. a foz do rio Jordão serviu. material de trabalho e profissionais capacitados e bem remunerados. bem como aprofundar a cidadania e direitos arduamente conquistados nas duas décadas anteriores. que ganharam maior número com a chegada de comerciantes de origem árabe nos anos 1920-30. Os Kaxinawá e "o Jordão" Outra dimensão crucial para compreender o atual momento vivido pelos Kaxinawá. almoxarifado. um posto fiscal e uma guarnição. com outros grupos de atores e instituições.

Os mais de 70 aposentados Kaxinawá contribuem significativamente para a oxigenação da economia local. com a falta de preço e mercado para a borracha. 23 de uso ocasional.213 pessoas no Município de Jordão. a população total do Jordão decresceu 16% até o ano de 1991 e 38% até 1996. os aposentados Kaxinawá injetam ali hoje cerca de 17 mil reais todos os meses. dentre as quais. em homenagem ao velho chefe Kaxinawá falecido dois anos antes. Levando em conta que a imensa maioria é aposentada pelo INSS. em final de 1991. uma padaria e um lanche. a desarticulação das relações de aviamento nos barracões dos seringais e uma maior sujeição dos seringueiros junto aos regatões. em janeiro. costumam participar da procissão e das desobrigas feitas pelo padre alemão da Paróquia de São José. outras 16 em construção pela Prefeitura. constatou-se uma constante e intensa migração rumo à sede do Jordão e a seringais e colônias próximos. cerca de 30% da população total do município. bem como a um maior rigor nos levantamentos realizados pelos recenseadores contratados pelo IBGE.261 Kaxinawá que habitavam nas três terras indígenas. em meu entender. habitavam na sede do município. após terem saído dos centros. Em 2000. estes recursos representaram pouco mais de 14% do total do Fundo de Participação do Município e 7% das transferências constitucionais (FPM e Fundef) recebidos pela Prefeitura. prédios públicos. ocasiões em que fazem suas compras nos comércios locais. Tomando como base os dados do censo de 1980. participam de festas. a católica e a Assembléia de Deus. todavia. seis casas de comércio. A Prefeitura proibiu. das quais 98% viviam na "zona rural". portanto. da qual 86% permaneciam na área rural. por exemplo. atualizam formas de sociabilidade próprias. além de 38 unidades não residenciais. Este acentuado decréscimo teve como razão principal o êxodo de famílias de seringueiros para a cidade e seringais de Tarauacá. 26 pessoas.Dados do Escritório Estadual do IBGE. Em 1999. indicaram uma população de 4. a Prefeitura doou um terreno nas adjacências da sede municipal. Em 1994. uma serraria. apenas cinco famílias indígenas. a Prefeitura deu à "rua" defronte a este bairro o nome de Sueiro Sales. duas igrejas. outras poucas famílias Kaxinawá se mudaram para a sede do Jordão. Ao longo de 2000. À época. à maior visibilidade que muitas famílias ganharam ao se instalarem na sede municipal e na beira dos principais rios. O aumento da população no período seguinte devese. de 28 . oficina de motores. ganhando salário mínimo por mês (poucos são "Soldados da Borracha"). As famílias Kaxinawá têm hoje relevante papel na vida econômica do município.454 pessoas. 37 vagas. eram 1. Mais recentemente. grande quantidade de famílias extensas Kaxinawá desce à sede do município. mas não há por ora qualquer tendência indicando que este processo ganhará maior monta num futuro próximo. num sítio comprado pelo então vereador Kaxinawá Noberto Sales. Em final de 1998. e no seu "bairro". dada a crise instalada na economia da região. Nas datas de recebimento das aposentadorias. No Novenário de São Sebastião. chegou a 548 cinco anos depois e a 863 em 2000. Levantamento do censo na área urbana do município em 1996 revelou a existência de 123 casas de residência. 127 pessoas em 1991.973. que os Kaxinawá ali plantassem. onde grupos familiares chefiados por aposentados construíram mais de quarenta casas para seu uso e de suas famílias nos períodos de permanência na cidade. A população da área urbana. Dados do censo de 1996 do IBGE indicaram uma população de 3. o censo demográfico do IBGE estimou a população do município em 4. Nos anos 1990. das quais 81% vivendo na zona rural.

professores. em função das precárias condições da rede de saneamento básico. 29 . Importante mobilização dos professores tem sido no sentido de conseguir contratação e a construção de escolas nas terras indígenas. de abastecimento de água e da coleta de lixo na sede municipal. outros trabalham ainda sem salário. Dada a precariedade dos cursos de formação promovidos pela secretaria municipal de educação. 42 de rubéola e 91 de sarampo no Município. Estas medidas. Apenas em 1991.Tarauacá. levando-as para as aldeias quando para ali retornam (Iglesias. Com a implantação do sistema educacional municipal. que somavam 180 crianças em final de 1998. 1998b. As periódicas descidas "ao município" constituem hoje o principal momento para o encontro de parentes e famílias que habitam nas várias aldeias das três terras indígenas. Estes somaram-se a outros seis professores da rede estadual que desde 1983 fazem sua formação nos cursos oferecidos anualmente pelo Projeto "Uma Experiência de Autoria dos Índios do Acre". além dos três contratados pelo estado. em setembro de 2001. A sede do município tornou-se local para acessar outras formas de benefícios individuais e familiares. realizadas no auge da estação seca dos rios). reconhecidos pela Secretaria de Estado de Educação. freqüentadas especialmente pelas lideranças. 654 de febre tifóide. e as exigências de qualificação introduzidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. 1998c). entre os Kaxinawá e os brancos. Outros 150 crianças Kaxinawá estudavam na rede de seis escolas estaduais. do Setor de Educação da CPI-Acre. convênio com a União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas (UNI) para repassar recursos à Prefeitura (hoje na ordem de 30 mil mensais) com a perspectiva da implantação de serviços diferenciados para a população indígena. com seu abastecimento de material e merenda escolar para os alunos. fazer valer outros direitos reconhecidos em legislação e procurar acessar recursos de ações e programas promovidos por secretarias do governo municipal. oito Kaxinawá foram contratados como professores desde 1993. agentes de saúde e agentes agroflorestais. a discriminação sofrida pelos pacientes índios que procuram atendimento no posto no Jordão e o aparecimento de freqüentes surtos de sarampo. que contraem estas doenças durante suas visitas e durante os períodos de maior concentração na sede urbana (em especial nas eleições. foram notificados 508 casos de malária. que causaram várias mortes nos últimos anos. o descompromisso das autoridades em relação aos agentes de saúde indígenas. que realizaram sua formação em cursos da CPI-Acre. Afora estes momentos. a constituição de uma equipe permanente de saúde e o trabalho em parceria com os agentes indígenas de saúde em formação pela UNI. ocasiões privilegiadas são as esporádicas reuniões promovidas pela ASKARJ. rubéola. inclusive entre os Kaxinawá. catapora. pouco alteraram a situação. surgido muitos casos de febre tifóide e salmonelose. Por outro lado. a Fundação Nacional de Saúde estabeleceu. além dos casos crônicos de hepatites. tem. dentre os quais acesso à documentação. e realizadas na sede municipal ou em alguma aldeia nas terras indígenas. dada a precariedade dos serviços municipais de prevenção e atendimento. coqueluche e malária. No âmbito do programa de Distritos Sanitários Especiais Indígenas. 106 de hepatites. a falta de médicos e profissionais capacitados para entender as concepções indígenas de saúde e doença. Há hoje seis professores formados em nível médio. na esperança de serem contratados. mesmo urgentes. vários dos professores municipais passaram a partir de fins dos anos 1990 a freqüentar os cursos de formação da CPI-Acre em Rio Branco.

combinadas com o uso e preservação dos recursos naturais da floresta. podem resultar numa oferta significativa de alimentos para venda na sede do município. em fins de 1999. em abril de 2003. acabou composta por dois enfermeiros e um auxiliar. 30 . urbana e da floresta. Viabilizou também a construção nos fundos do perímetro urbano de uma nova pista de pouso. inclusive a ASKARJ. O plano de desenvolvimento para o município deve favorecer condições para que as famílias de seringueiros e agricultores possam permanecer vivendo na floresta. e estratégias econômicas que permitam subsistência farta e alternativas reais de comercialização. do governo federal. É fundamental que essas famílias possam atualizar formas tradicionais de ocupação territorial. Assim como com os da saúde para os índios.5 mil. construída em 1977 com a participação de mão de obra Kaxinawá. que permitissem a efetiva participação destes grupos. apesar de ter acontecido de forma sistemática todos os meses. a Prefeitura Municipal de Jordão não aventou a possibilidade de envolver outros setores da sociedade local para a elaboração de um plano de desenvolvimento adequado às potencialidades e especificidades do município. além de garantir sua subsistência e melhores condições de saúde e de vida. com base nas colocações. que sejam garantidos. antes de abandonarem seus cargos alegando falta de condições de trabalho. É importante. de médico contratado pela Secretaria de Estado de Saúde para atender toda a população. para substituir a velha pista de grama. serviços básicos e fontes de emprego e. em 2000-2001. estas ações pontuais não tiveram continuidade ou engendraram planos e ações de médio prazo. este com salário previsto de R$ 5. com mil metros de extensão em terra batida. a Prefeitura tem centralizado os recursos de convênios com o governo estadual e outras agências federais em obras na sede municipal. As atividades produtivas dos grupos familiares em suas colocações. O atendimento aos Kaxinawá voltou a ser realizado no posto de saúde do município. pois têm ficado sob administração do Prefeito. dois enfermeiros e um médico. ao invés de incentivá-las a migrar para a sede municipal ou seus arredores. de um ginásio e de um escritório de representação. com tímidas ações na ampliação e calçamento de ruas e na extensão da rede de distribuição de água encanada. nos seringais. em parceria com a Comunidade Ativa. O governo estadual procurou tomar esta iniciativa por ocasião da elaboração. do Plano de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (PDLIS) do Município de Jordão. na cidade. alegando a falta de apoio por parte das autoridades municipais. ainda. que concentraram suas atividades na sede municipal e não procuraram envolver agentes de saúde indígenas. professores e agentes de saúde Kaxinawá. O governo do estado apoiou a implementação de alguns ações locais de saúde e em 1998 iniciou uma série de obras na sede municipal. de 600 metros. por falta de candidatos às vagas. com previsão de asfaltamento. Apesar de terem envolvido autoridades e representantes de diferentes grupos de interesse. ameaçou largar o cargo. não tem surtido os efeitos esperados. Estas são medidas de fundamental importância para vitalizar a economia do Município de Jordão e adequar seu desenvolvimento à sua vocação histórica e às potencialidades ali existentes. profissional que. a equipe do convênio Funasa. até a chegada. na maioria das vezes por práticos. ainda não acabada. lideranças. com construção da escola estadual. e em especial dos índios e seringueiros. dois meses depois. e da discussão dos orçamentos participativos.O modelo de repasse de recursos à Prefeitura para o atendimento à população indígena. em sua definição. Apesar de aberto concurso para a contratação dois odontológos. Até o presente. UNI e Prefeitura. planejamento ou execução.

bem como uma eficiente rede de transporte pública para deslocamento de passageiros e doentes e para o escoamento e a comercialização das produções no Jordão e em Tarauacá. Melo era importante comerciante da Vila Jordão. apoiando suas mobilizações e reivindicações. viram na política oportunidade de redimensionar a matéria prima de sua ascendência local. estes optaram por dificultar os processos de fortalecimento político das organizações dos Kaxinawá e seringueiros. no qual os Kaxinawá tem participado cada vez mais ativamente (Iglesias. em parte. junto a quem a cooperativa e alguns chefes das principais famílias extensas Kaxinawá lograram abrir canais para vender sua borracha e comprar mercadorias. tinham ocorrido novidades no quadro político local. na reserva extrativista e demais seringais do município. em função da dificuldade de acesso à documentação enfrentada à época pelos seringueiros brancos. na segunda eleição desde a criação do município. mas decidiram o pleito a favor de Melo. partidário. Os candidatos praticamente dividiram por igual os votos dos eleitores brancos. A proporção dos votos indígenas é hoje de aproximadamente 20% dos total dos votos. de educação e de saúde. a criação da Reserva Extrativista e a atuação das associações e do sindicato. Isto. face à crise já configurada na economia da borracha. Nesta época. Os Kaxinawá tiveram papel importante na estruturação de diretórios locais do Partido 31 . estadual e federal dessem condições para o fortalecimento da ASKARJ. junto a órgãos dos governos federal e estadual e outras agências. atendimento básico de saúde. porque o ex-arrendatário dos seringais do rio Jordão. através de suas próprias formas de organização e representação política. de recursos. as primeiras eleições no novo município colocaram frente à frente representantes das duas principais famílias de comerciantes e seringalistas do município: Hilário Melo. 333 Kaxinawá tinham título de eleitor. Em 1992. preferindo apregoar contra o reconhecimento das novas terras indígenas. 1998a. vistas como entraves ao desenvolvimento econômico do município. por ocasião das primeiras mobilizações para o reconhecimento da terra indígena e a estruturação da cooperativa.oportunidades de estudo para as crianças. pelo PMDB. A política local e os "tempos da política" A criação do Município de Jordão levou à configuração de um novo campo político. que. 2000c). bem como da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. A existência das terras indígenas Kaxinawá. nas terras indígenas. 2000b. pelo PFL. e Turiano Farias. financeiros e técnicos. Quatro anos depois. é crucial que os governos municipal. logo após o plebiscito realizado para deliberar sobre a criação do município. merenda escolar e material didático. Mas. nos projetos políticos e nos procedimentos cotidianos dos membros das tradicionais famílias de comerciantes e políticos locais. com professores capacitados e bem remunerados. permitem perspectivas de relacionamento das populações locais com diferentes órgãos do governo federal. Carlos Farias. tendo sido já maior nos dois primeiros pleitos. Em final de 1998. bem como legitimando suas negociações para a obtenção. irmão de Turiano. Por temor de partilharem os espaços institucionais e políticos que controlam há muitos anos. Os Kaxinawá não lançaram candidatos próprios. da ASAREAT e do Sindicato local. Neste sentido. que permitam a implementação de ações econômicas. sustentara seguidos conflitos com os Kaxinawá em fins dos anos 1970. esta é uma visão bastante diferente daquela ainda arraigada na mentalidade.

Por não contar com os dois terços necessários em certas votações. os quatro vereadores da Frente. corrupção e tentativas de cooptação de vereadores da oposição. inclusive com ameaças e agressões físicas contra aqueles que ousaram fazer-lhe oposição. votação que permitiu “puxar” outros três candidatos da legenda da Frente: dois do PT e um do PCdoB. canalizando cerca de 60 votos entre os brancos. O prefeito não estabeleceu residência fixa no município. com Turiano Farias como vice pelo PPB. apesar da falta de experiência política e parlamentar. Os Kaxinawá. vinham também se deteriorando. elegeram o vereador mais votado. Os partidos tradicionais tornaram a polarizar suas candidaturas: o PFL lançou Sebastião Aragão. o Presidente da ASKARJ. o PMDB saiu vitorioso das urnas. procuraram desempenhar uma série de trabalhos em benefício das camadas mais necessitadas da população. a Frente Popular do Jordão. Junto com o PCdoB. A Frente perdeu a prefeitura. As mesmas queixas persistiram nos seringais e na cidade. que consumia boa parte do orçamento. fatores que contribuíram para agravar a crise na economia e no comércio local. Os serviços prestados nas escolas públicas. Nos seringais. principalmente de saúde. ex-prefeito de Tarauacá. visto pela maior parte dos brancos como “o caboclo” e “o candidato dos caboclos”. estes partidos constituíram uma terceira força na política local. com 217 votos. as principais queixas das famílias de seringueiros e agricultores estavam centradas na ausência de serviços básicos. todavia. o prefeito 32 .Verde e do Partidos dos Trabalhadores. merenda e fardas. O destino do recursos era decidido na Representação do Município de Jordão. que viabilizou a implantação inicial do município. então vice-prefeito. e lançaram as candidaturas de Siã a prefeito e de meia dúzia de vereadores. a reboque de decisões do Tribunal de Contas do Estado e da Justiça Federal por processos judiciais que resultaram de desvio de recursos públicos em sua administração anterior em Tarauacá. pelo PV. algo em torno de 30% do total do eleitorado. A câmara ficou composta ainda por dois vereadores do PPB. o vice-prefeito Turiano Farias transformou a Prefeitura em feudo familiar e de seus correligionários políticos. cerrada oposição do bloco de sustentação do prefeito. todavia. que teve Siã Kaxinawá. com a forte diminuição das oportunidades de trabalho para os diaristas e a falta de compromisso da Prefeitura com o pagamento dos aposentados na sede municipal. que passaram a formar o bloco de sustentação do prefeito. Apesar da honesta administração tocada por Melo. nos seringais e terras indígenas. como presidente até 2001. montada na cidade de Tarauacá. Os Kaxinawá fizeram novamente valer seu peso eleitoral. Tendo ficado em terceiro lugar. ainda. ponto alto da administração anterior. dos quais apenas um era Kaxinawá. Após assumir. Esperidião Menezes Júnior. devido ao atraso dos salários dos professores e das merendeiras e. Na Câmara. com óbvias melhorias nos serviços públicos de educação e saúde. enfrentaram. como resultado da desconfiança e preconceito suscitados pela candidatura de Siã. Noberto Sales Tenê. na sede municipal. Pontualidade no pagamento dos servidores e vagas de trabalho na diária passaram a ser direitos apenas dos correligionários. dois do PFL e um do PMDB. Os primeiros anos do novo governo foram marcados por denúncias de favorecimento político. à falta de material escolar. e o PMDB. Em 1997-98. Havia amplo descontentamento com o atraso dos salários dos servidores públicos. Júnior foi cassado em agosto de 1998. Siã obteve 277 votos.

tiveram ampla repercussão na imprensa de Rio Branco e exigiram a intervenção das direções estaduais de ambos partidos. tendo a frente as lideranças das várias aldeias. Turiano Farias. antes presidido pelo PCdoB. se coligaram. seu principal desafio era canalizar os votos de boa parte dos eleitores brancos. A chapa lançada foi a mesma das eleições de 1996. adversários nas eleições municipais anteriores. com o 33 . “Em defesa dos povos da floresta”. Elias Paulino. quando da eleição para a escolha da nova diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais no Jordão. Atendendo às diretrizes do gabinete do governador e das direções estaduais do PT e PCdoB. Os Kaxinawá. contudo. algo que não ocorrera em 1996. formada em grande parte por moradores da sede municipal e da Reserva Extrativista. A escolha da chapa majoritária tornou a evidenciar o racha e a candidatura de um vice-prefeito do PCdoB acabou abortada. os partidos reeditaram e registraram a Frente Popular do Jordão para as eleições municipais de 2000. do PFL. que levaram a nova ruptura na bancada que prevalecera nos dois anos anteriores. a Frente logrou conquistar a presidência da Câmara para os anos de 1999-2000. desejosas de reeditar a Frente nas próximas eleições municipais. A campanha de Siã concentrou-se entre a população branca do município. para garantir que parte dos votos dos Kaxinawá servisse para puxar outros candidatos brancos. que não via resultados concretos de sua atuação parlamentar. O slogan da nova campanha. ainda. em nível estadual. que. a um isolamento do vereador Kaxinawá Noberto Sales. De novo. o que desagradou seu desafeto político. sob as orientações dos dirigentes do partido em Tarauacá. candidato imbatível na preferência popular após quatro anos da administração PMDB-PPB. professor municipal. Logo após a cassação do prefeito Júnior. devido a desavenças surgidas em torno de sua gestão à frente da ASKARJ. Esta iniciativa foi contestada pela nova direção do partido no município. foi uma resposta a esse desafio. inclsuive alguns dos quadros de sua Associação. visto que o PFL e o PPB. Esta quebra ficou patente em 1999. o que conseguiram em final de 1998. no Movimento Democrático Acreano (MDA). a adesão de um dos vereadores da Frente. Prevaleceram. projetos pessoais dos representantes do PT e PCdoB. Esta ruptura levou. passos importantes nesta direção tinham sido dados. por sua vez.e seu bloco tentaram. nos seringais do médio e alto Tarauacá e na sede municipal. do PV. Sua candidatura contou desde o início com o total apoio das lideranças e do povo Kaxinawá. Um único candidato Kaxinawá. não abriu de concorrer à reeleição. lançaram quatro nomes a vereador pelo PT. essa direção queria o lançamento de apenas dois índios candidatos. A Frente lançou uma chapa com quinze candidatos: quatro índios e onze brancos. passou a receber críticas de seu povo. o ex-prefeito Hilário Melo. Os Kaxinawá não concordaram e fizeram prevalecer sua posição. em decisões tomadas coletivamente. Mas. ambos do PT. Mesmo sabedora da importância do voto indígena para a eleição de uma bancada numerosa. A “direita” também teve processo complicado para a definição de seu único candidato. com os nomes de Siã Kaxinawá a prefeito e Francisco Rufo Figueira da Silva a vice. foi convidado pelo prefeito e lançou sua candidatura a vereador pelo PMDB. do PPB. de forma a ampliar aqueles obtidos quatro anos antes. As discordâncias entre as lideranças locais desses partidos sobre a convocação e o resultado da eleição culminaram com a invasão da sede do sindicato pelos filiados ao PCdoB. em várias oportunidades. com a filiação ao PMDB de um dos vereadores eleitos pelo PT.

início do processo de criação da Reserva Extrativista. Siã obteve 818 votos. Dado que. Mas. os candidatos. e não se elegeu. O primeiro suplente da Frente é Francisco Sabino. um deles para o terceiro mandato. lideranças e representantes das famílias extensas. mobilizar suas redes familiares extensas. que desceram em peso à sede municipal. um do PPB e um PCdoB. por sua vez. com 1. também Kaxinawá. nas quais foram discutidas estratégias para os dias finais da campanha e o dia da votação. Os cinco candidatos a vereador montaram espaços próprios para receber e alimentar seus eleitores. ocorrida poucas semanas antes. através de visitas ao município do governador Jorge Viana. em reuniões e festas. por sua vez. Além dos três Kaxinawá. um do PFL. a Câmara ficou composta por três vereadores do PMDB. Turiano Farias. todos do PT. todos novatos na política. da grande maioria dos servidores públicos lotados no Jordão e de várias famílias que ao votarem externaram reação à truculência da PF e da Funai na indenização das benfeitorias dos ocupantes das terras indígenas Kaxinawá e Ashaninka. e a consolidação do PT no município. concentraram suas campanhas nas aldeias das três terras indígenas. no seringal Alagoas. mas também passou a compor o bloco de sustentação do prefeito. um dos acusados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. 34 . teve 22 votos. Três vereadores Kaxinawá lograram se eleger pelo PT. que aproveitou os votos da Frente Popular. ficando com a primeira. pode se calcular que cerca de 438 votos foram dados à candidatura de Siã por eleitores brancos. capitalizou votos de tradicionais eleitores dos partidos de direita. procurando. Os Kaxinawá candidatos a vereador. Elias Paulino. os que não queriam votar no "candidato dos caboclos". iniciativas que haviam contado com uma efetiva participação de Siã. pois constituem o bloco de oposição ao prefeito. o kupixawa construído no bairro Kaxinawá foi palco de reuniões diárias. tio de sua esposa. O candidato do PPB foi reeleito. da senadora Marina Silva e do deputado federal Nilson Mourão. Houve alto índice de renovação na Câmara: apenas dois vereadores se reelegeram. que demonstraram grande crescimento de sua aceitação pelos brancos e descontentamento de muitos com os rumos tomados pelo governo municipal nos anos anteriores. Um avanço importante nesta eleição foi a crescente mobilização das famílias extensas Kaxinawá. a fundação da ASAREAT. de seu grupo familiar extenso. o trabalho dos três novos vereadores indígenas do partido. que perdera as eleições de 1996.078 votos. Auton Farias. 57% do total dos votos válidos no município. Durante uma semana. com a presença de Siã. não se reelegeu. tecer acordos de apoio e planejar estratégias para o dia da votação. Um dos vereadores eleitos em 1992. que prometeram atuar como bancada unida. voltou à Câmara. somados. Sivaldo Barbosa Sereno foi eleito Presidente da Câmara para o biênio 2001-02. para apresentar propostas de trabalho. A campanha da Frente contou com o apoio do governo do estado e de representantes de sua base de sustentação no congresso. ficando com 20 votos. Virgulino Rodrigues Sales e João Sales da Rosa. não tem sido simples na busca de trazer benefícios concretos para seu povo e as famílias extensas que os apoiaram. os cinco Kaxinawá candidatos a vereador tiveram um total de 380 votos. que concorreu pelo PMDB. a terceira e a oitava melhores votações: Sivaldo Barbosa Sereno. Estes votos vieram principalmente dos seringais da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá.

Em 2001 foi concluída a nova sede da Associação na sede municipal. os Kaxinawá passaram a procurar meios para fortalecer a ASKARJ. centradas na continuidade da produção de lâminas de couro vegetal e do adensamento agroflorestal dos terreiros e roçados. a ASKARJ delineou o projeto Retomada da Produção Tradicional de Borracha. registrada em cartório. que contou com 107 participantes das várias aldeias. tocado pela Secretaria de Coordenação da Amazônia. através de transação de compra e venda. do Ministério do Meio Ambiente. Serão apontados aspectos originais deste processo. Foram então compradas a metade e mais 5 partes da outra metade desses seringais. promovida pelos Kaxinawá e a ASKARJ entre junho e setembro de 2001. a aquisição de imóveis por uma associação indígena. bem como subsídios que esta situação apresenta quando se discute hoje novas alternativas para a regularização de terras indígenas no Brasil. que foi financiado pelo Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia. Conjunturas e possibilidades De início. feita no 2º Cartório de Notas da Comarca de Rio Branco. A assembléia serviu. que coincidiu com o fechamento daquela que desde 1994 funcionava na cidade de Tarauacá.5 milhões referentes à taxa de lavratura de escrituras públicas. ainda. ongs. à época. bem como a internalização de novos recursos e benefícios para as aldeias das três terras indígenas. é novidade. na forma de terra indígenas reconhecidas pelo governo federal.Feita a avaliação dos resultados da eleição. a US$ 35 . Ainda nesse ano. na retomada da produção de pranchas de borracha e no incremento da quantidade e qualidade da produção de artesanato tradicionalmente feito pelas mulheres. como alternativa para a incorporação de uma nova extensão de terras contígua ao território já controlado. me parece no Brasil. projetos e recursos para tentar garantir a vigilância e o uso sustentado desse território. Foi escolhida uma nova diretoria da ASKARJ e definida pauta a ser priorizada para o fortalecimento institucional da ASKARJ. teve lugar a sexta assembléia geral da ASKARJ. de subsistência e comercialização. Autodemarcação dos seringais Independência e Altamira Na parte final deste texto. Os seringais Independência e Altamira foram adquiridos pela ASKARJ de seus antigos proprietários. empresas. Em abril. definida para os meses de agosto e setembro daquele ano. agências humanitárias internacionais e a própria prefeitura municipal. José Ribamar Coelho de Moura e sua esposa Jamila Amin de Moura a 2 de junho de 1993. e mais Cr$ 12. como parte dos processos de consolidação da ampliação territorial iniciada na primeira metade dos anos 1990 e de busca de reconhecimento oficial como terra indígena. pretendo tecer uma série de análises e comentários sobre a recente demarcação dos seringais Independência e Altamira. a melhoria dos programas de educação e saúde e a busca de novas alternativas econômicas. ao negociar. com órgãos dos governos federal e estadual. recorrências constatadas ao compará-lo com outros momentos da conquista e garantia das duas terras indígenas já regularizadas no rio Jordão. mediante o pagamento de Cr$ 150 milhões. pelo povo que representa jurídica e politicamente. para o planejamento dos trabalhos a serem realizados pelas lideranças e pelos agentes agroflorestais durante a autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. Estas transações importaram num montante equivalente.

todavia. reivindicado pelos Kaxinawá como parte de seu novo território. as lideranças Kaxinawá resolveram. no baixo rio Jordão. ofereceu reembolsar o dinheiro investido. Ambas estratégias demandaram. a ASKARJ recebeu a oferta de venda feita pelo então proprietário. alegando que a direção da instituição temia as repercussões que poderiam advir. em início do ano. da herdeira Raimunda de Andrade Pessoa. A compra da Colônia Altamira. em 1994. fazendo uso de parte dos recursos do Prêmio Reebok de Direitos Humanos. com ênfase na estruturação da sede da ASKARJ recém comprada na cidade de Tarauacá.300. aos proprietários dos seringais vizinhos e às 36 . 1995). a ASKARJ comprou. O caráter inovador da estratégia implementada pelas lideranças e a ASKARJ para viabilizar a ampliação do território controlado pelos Kaxinawá ganha realce também ao levar-se em conta que essas compras foram levadas a cabo pouco tempo após a conclusão da regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão e da ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. filha do proprietário anterior do seringal (Aquino. A 23 de maio de 1994. Esta não chegou a ser consultada quando. foi também efetivada com outra parte de recursos do Prêmio Reebok. seria reinvestido nos objetivos originais do projeto. A ASKARJ. De outro lado. a última sexta parte da metade dos seringais. equivalentes a US$ 1. Após uma série de negociações. A primeira reação do representante da WWF responsável pelo projeto foi fortemente negativa. ao comprar outros seringais de proprietários em dificuldades financeiras e sem intenções de voltar a morar na floresta ou de se envolver no comércio de borracha e mercadorias. Assim. além de sua implementação pelas famílias Kaxinawá. a venda de importantes seringais no alto Tarauacá. resolveram aproveitar uma oportunidade única. ficou por fim definido que igual montante de recursos. e numa conjuntura em que tornava-se cada vez mais claro o aprofundamento da crise na economia da borracha. Por outro lado. a fonte dos recursos utilizados para viabilizar esta aquisição constituiu outro fator de inovação. que dispunha de recursos de projetos. do tipo "ong estrangeira usa associação indígena para comprar terras na Amazônia". primeiro. com a criação do Município de Jordão. que acabaram gerando sobreposições das ações de diferentes órgãos do governo federal sobre o seringal Nova Empresa. ganho em 1993 por Siã Kaxinawá.150. oriundos do Prêmio. se antecipar. Presidente da Associação. Capitalizando um momento favorável da ASKARJ. José Ribamar Coelho de Moura. advieram do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. denominada “Colônia Altamira”. comerciante e patrão com o qual o velho chefe Sueiro Cerqueira Sales trabalhara nas décadas de 1950-70.7. a compra do seringal São João pela Prefeitura Municipal e a incorporação de outros seringais ao patrimônio do governo federal. isto ocorreu numa conjuntura em que outras redefinições territoriais importantes começavam a se concretizar em nível local. em junho de 1993. através de desapropriações promovidas pelo Ibama e da penhora executada pelo Banco do Brasil. financiado com outros fins pela ong World Wildlife Fund (WWF-USA). intensas negociações das lideranças locais e dos representantes da ASKARJ junto às famílias de seringueiros e agricultores que ali moravam. ao ocupar seringais que se encontravam sem patrão e ao propor acordos comerciais aos seringueiros que à época não contavam com qualquer assistência de seus antigos patrões. em reconhecimento por sua luta em prol dos direitos territoriais e políticos dos índios e seringueiros do Alto Juruá. Os recursos para a compra dos seringais Independência e Altamira. por Cr$ 2 milhões.

para o patrimônio da União.autoridades do Município de Jordão. Segundo. a Presidência do órgão. buscar alternativas para o reconhecimento e a regularização destes como terra indígena. todavia. a adequação desta estratégia foi posta em questionamento por muitos. a cumprir suas atribuições legais após seu reconhecimento como terra indígena. da ASKARJ e de seus assessores foi de que a regularização desses seringais pela Funai como terra indígena. junto à Funai. que resultaram numa gradual legitimação de ambas as ações protagonizadas pelos Kaxinawá durante a redefinição de seu território anterior. que não disporia de receita própria para fazer frente a esta obrigação. não constituiriam. Na visão daqueles mesmos críticos. por um lado. Isto poderia causar de ordem legal à Associação. em tese com todas as benfeitorias ali existentes. Conforme diziam os Kaxinawá. por outro. à época. a médio prazo. bem coletivo dos Kaxinawá.775/96. pois desobrigaria a ASKARJ a anualmente arcar com custos relativos ao pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR). ao assegurar aos Kaxinawá o usufruto exclusivo dos recursos naturais. ao transferir-se um patrimônio particular da ASKARJ. pois obrigaria ao governo federal. Na visão das lideranças. e. O imbróglio jurídico Outro conjunto relevante de questões está relacionado aos posicionamentos jurídicos assumidos por diferentes instâncias da Funai face a esta inovadora demanda apresentada pela ASKARJ. no futuro. neste caso específico. era desejável por diversas razões. ser objeto de nova transação imobiliária. determinou que o GT PP 1. a ASKARJ procurou prontamente fazer gestões para. pois este procedimento legal impediria que os seringais pudessem. eles poderiam ser vendidos. Em final de 1993. Terceiro. esta era providência indispensável a um correto eqüacionamento dessa questão com os moradores brancos e à futura garantia e vigilância desta terra. uma vez ocorrido o reconhecimento oficial dos seringais como terra indígena. Primeiro. Diferentemente. com o argumento que. atendendo a uma demanda feita pela ASSKARJ. com sua incorporação ao patrimônio da União e sua retirada do mercado de terras. obrigações do governo federal. em especial funcionários da Funai em Brasília e Rio Branco. à propriedade dos seringais e ao seu uso pelos Kaxinawá. colocando riscos reais. com a ocupação dos seringais ocupados e comprados. dado. que não configuravam uma terra tradicionalmente ocupada. que os seringais haviam sido comprados pela ASKARJ de seus legítimos proprietários. a visão das lideranças. seriam "desperdiçados".204/93. atendendo a uma recomendação do DEID/DAF. ao assentar as bases para um relacionamento mais harmônico entre índios e brancos e ao livrar a ASKARJ de anualmente pagar o ITR à Receita Federal. as quais tinham sido cadastradas quando dos trabalhos de identificação realizados pela Funai e o Incra em março de 1994. como estipulado pela Constituição Federal e pelo Decreto 1. do mesmo jeito que esses seringais foram comprados. assim como os recursos investidos na compra. através da Funai. Por que da regularização como terra indígena? Iniciado o processo de ampliação territorial. ao garantir sua demarcação física e indenizar as benfeitorias de boa fé das dez famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. No caso dos seringais Independência e Altamira. a demarcação física da terra e a indenização das benfeitorias dos antigos moradores. toda a originalidade da iniciativa. que em breve faria várias 37 .

Em relação à indenização das benfeitorias dos ocupantes. após uma década e meia de tramitação. Este registro. solicitando que se manifestasse a respeito do reconhecimento dominial dessa terra. da Constituição previa este tipo de ato apenas em casos de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. cuja regularização fora concluída em 1991. justificando a adequação de regularização dessa terra indígena. colocaram em rota de colisão o DEID/DAF e a Procuradoria Geral a respeito do encaminhamento mais adequado para a demanda da ASKARJ e a forma proposta no relatório de identificação para atendê-la. em 1994. Através deste ato. a chefia do DEID sugeriu ao GT que propusesse a criação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. 38 . Já na fase de elaboração dos relatórios de identificação e delimitação. portanto. 2002 e Mendes.775/96. 2001. esta solicitação foi formalizada em memorando do então coordenador de Delimitação e Análise do DEID. hoje. antropólogo Walter Coutinho Jr. o DEID/DAF encaminhou o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral da Funai. a especificidade de cada um destes processos inovadores postos em prática pela ASKARJ. em 1996 e 1997. configurada pelos diferentes processos de ampliação territorial recém protagonizados pelos Kaxinawá e pela demanda formalizada pela ASKARJ. quando. o memorando defendia que fosse ouvida a Procuradoria Geral do órgão. a seguir. não podendo ser objeto de arrendamento ou qualquer outro ato legal que pudesse restringir o usufruto exclusivo dos recursos naturais pela comunidade e o seu pleno exercício da posse. com adequação. Esta proposta do GT gerou diferentes entendimentos dentro da Funai. 2001. a seu ver. assim. preservando. mas. relativa ao reconhecimento dos seringais Independência e Altamira como terra indígena. Cabe apontar que o relatório da TI Kaxinawá do Seringal Independência foi apresentado ao DEID em novembro de 1995. que instituíra novo procedimento para a regularização das terras indígenas no país. o artigo 231. a Presidência da Funai reconheceu uma situação de fato. § 6. o DEID confrontou. como previsto nos Artigos 17 e 32 da Lei 6. no entender do Coordenador. Para atender a reivindicação da ASKARJ. com sua demarcação e registro em cartório como terra de domínio indígena. as lideranças e as famílias Kaxinawá para a ampliação de seu território anterior. 15 A este respeito.. o relatório de identificação e delimitação recomendou sua regularização como "terra de domínio indígena".001/73 (Estatuto do Índio). deveria explicitar que o imóvel ficava destinado à posse permanente da comunidade Kaxinawá. seis meses após a promulgação do Decreto 1. devido à estranheza que inicialmente causou à nova direção do Departamento. o Processo Funai/BSB/2325/96 acabou sendo protocolado apenas em julho de 1996. Vale a pena retomar brevemente essas diferentes visões. que era a de legitimar esta expansão através da redefinição dos limites da TI Kaxinawá do Rio Jordão. a proposta inicialmente defendida pela ASKARJ.identificações de terras indígenas no Estado do Acre. também se deslocasse aos seringais Independência e Nova Empresa para "realizar levantamento da ocupação indígena". são discutidas novas alternativas para o reconhecimento e a regularização de terras indígenas no país15. em junho de 1996. consultar Rios. Em duas oportunidades. visto que. que. Ao propor esta solução. Na primeira.

Por outro lado. incorporando-a ao patrimônio da União. demarcação física dos limites e indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios. propriedade de pessoa jurídica de direito privado. Milton Cintra de Paula. sendo a terra de propriedade de uma associação. era. ou seja. Este parecer contou com a aprovação da Procuradora Geral da Funai. nos moldes estabelecidos pela Constituição e o Decreto 1. Milton Cintra de Paula. Em junho de 1997. Ana Maria de Carvalho Moreira. um possível ato administrativo de reconhecimento da terra indígena. 32 do Estatuto do Índio. solicitava a sugestão de dispositivo jurídico que viesse a garantir. contra os interesses da comunidade. Lêda Bandeira. que dessem base à proposta de criação de uma terra indígena. assinado pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. o domínio se constituíra pelo próprio título de aquisição do seringal. tornou a enviar o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral.O Parecer nº 012/96 da Procuradoria Geral da Funai. para que essa terra passasse a gozar dos mesmos direitos conferidos às de ocupação tradicional indígena. ao declarar a terra como de domínio indígena. Para isto. portanto. Na Informação nº278/PG/97. o mais indicado seria fazer constar estas proibições no estatuto da ASKARJ. tendo em visto que os estatutos da ASKARJ poderiam ser alterados em outra situação após aquela em que se faria constar a impossibilidade do arrendamento ou da alienação do imóvel. que devolveu o processo à DAF. ainda que indígena. da ASKARJ e. sem que fosse ferido o título de domínio indígena do qual a ASKARJ já era detentora. em termos legais. caso o objetivo final fosse evitar o eventual arrendamento da terra ou sua futura venda por diretores da Associação. contudo. tornou a afirmar que o ato administrativo de reconhecimento da terra de domínio indígena não teria efeito jurídico nenhum e nem incluiria os seringais comprados dentre as terras indígenas de domínio da União. devidamente registrado em cartório em nome da ASKARJ. após assim deliberado pelo voto de seus associados. Com base em seu parecer anterior. este coloca que não vislumbrava alternativa para assegurar esta proteção. dispor sobre a coisa alheia. sem validade. pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. tornando nulo o título de propriedade. a inalienabilidade do imóvel. O que não poderia se fazer.775/96. Em seu sumário despacho. dando-lhe o mesmo tratamento a estas destinado.. de outros atos legais para tornar-se de pleno direito. da comunidade Kaxinawá. sem outra recomendação para seu posterior encaminhamento. Esta Informação foi aprovada pela Procuradora Geral Interina. encaminhada à Procuradora Geral Interina. mesmo que o este viesse a ser reconhecido exclusivamente como terra de domínio da Associação. prescindindo. Neste novo memorando. a União poderia assumir todos os encargos da demarcação. para efeito de proteção. o então Diretor Substituto de Assuntos Fundiários. Apenas neste caso. considerou "írrito". considerando que a proposta feita no Parecer nº 012/96. seria necessária a realização de estudos de cunho antropológico. que deliberou pela devolução do processo à DAF. violentar ou transfigurar esse título de propriedade por interferência indébita. ou seja. conforme previsto na Constituição e na legislação infraconstitucional. solicitando nova análise. não asseguraria a proteção desta terra. entendeu que. a 19 de agosto. Em seu entender. uma sociedade civil. a Procuradora acrescentou que. já pleno. 39 . por extensão. e por outras disposições expressas tanto na Constituição Federal como no art. ou seja. Walter Coutinho Jr. o disposto no artigo 231 da Constituição federal não se aplicaria ao caso.

que coordenara os trabalhos de campo realizados pelo GT PP 1. a ASKARJ solicita apoio da assessoria jurídica da Funai para "realizar uma nova matrícula dos seringais Independência e Altamira nos Cartórios de Registro de Imóveis de Rio Branco e Tarauacá. portanto. Por isto. vistos como alternativa que pudesse fazer avançar o reconhecimento e regularização dos 16 Esta última situação mudou apenas em final de 1999. explicitando a impossibilidade da alienação futura destes seringais. logo antes. o antropólogo do DEID/DAF. passou a ser contemplado o registro em cartório da alteração dos estatutos da ASKARJ. Nesta carta. nenhuma providência neste sentido acabou sendo tomada pela DAF. Esta posição passou a constar de documentos resultantes de assembléias e reuniões promovidas pela ASKARJ. 40 . assinada pelo Presidente da ASKARJ. encaminhou ao Diretor da DAF. bem como a transferência da propriedade destes da ASKARJ para o povo Kaxinawá do Município de Jordão. deverá constar que esses dois imóveis destinam-se à posse permanente da comunidade Kaxinawá de Jordão e não poderão ser objeto de arrendamento. A exclusão destas da listagem do PPTAL foi à época justificada pela representante do Banco Mundial por não haver informação disponível para permitir a operacionalização de seus planos de regularização. ato que não foi tomado até hoje no caso da TI Kaxinawá do Seringal Independência.O fato é que conjunto de documentos elaborado pela Procuradoria Geral da Funai em 1996-97 acabaram por obstaculizar o início do processo de regularização dos dois seringais como terra indígena. previa a aplicação de parte dos recursos na contratação da consultoria de advogado. após receber ofício assinado por Judith Lisansky. mesmo quando a TI Kaxinawá do Seringal Independência integrava. respeitando a legislação do país. estas terras deveriam permanecer fora do lista de prioridades até o momento em que a Funai providenciasse à Coordenação do PPTAL informações adicionais que justificassem sua reinclusão. A 20 de junho de 2001. em carta enviada ao Administrador da AER-RBR. as listagens de terras indígenas produzidas pela DAF e a lista de terras prioritárias para regularização com recursos do PPTAL16. por fim. a Informação Nº 020/DEID/99. este tema foi retomado. cabendo à nossa comunidade indígena o usufruto exclusivo de suas riquezas naturais e todas as utilidades neles existentes". do início do recente processo de autodemarcação. da lista de terras prioritárias para identificação no âmbito do Projeto. redigido pela ASKARJ e a CPI-Acre. que orientasse a Associação na realização destes trâmites. A falta de qualquer manifestação por parte da Funai nos dois anos seguintes motivou. desde 1996. um conjunto de discussões visando encontrar meios que. em nome do nosso povo. em novembro de 1999. Desde então. a Coordenação do PPTAL retirou dez terras indígenas. Roque de Barros Laraia. À época. Neste novo registro. sugerindo que o processo Nº 22. Para tentar encaminhar esta posição. do Banco Mundial. especialista em assuntos indígenas. que o projeto original da autodemarcação. por parte da ASKARJ e das lideranças Kaxinawá. para fundamentar a assinatura do convênio. É interessante notar. onde eles foram anteriormente registrados. ou averbação ao registro anterior. quando. a TI Kaxinawá do Seringal Independência.204/93 e redigira o relatório de identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. e de várias gestões das lideranças Kaxinawá junto à AER-RBR. abrissem novas alternativas para lograr o reconhecimento oficial e a regularização destes seringais como terra indígena. ou de qualquer ato jurídico que restrinja o pleno exercício da mencionada posse. dentre as quais.325/96 fosse encaminhado à AER-RBR para que o Administrador prestasse assessoria jurídica à ASKARJ para registrar em cartório esta transferência da propriedade dos seringais para o povo Kaxinawá do Jordão. Terri Valle de Aquino.

em forma de propriedade reservada. mesmo com terras já reconhecidas pela Funai. pg. será beneficiada com a doação ou qualquer outra forma de transferência de domínio" (ibid). que podem vir a abrir novas alternativas jurídicas para a regularização de terras para os índios. Rios (2001) reflete sobre o caso de comunidades indígenas que. quem compra a terra. inclusive à ampliação protagonizada pelos Kaxinawá com a compra dos seringais Independência e Altamira. de forma pacífica. em junho de 2001. sem qualquer embaraço" (ibid. Devido a cortes no montante dos recursos originalmente destinados ao projeto. 27). Segundo Rios. bem como dos contornos particulares que assumiu no caso dos seringais comprados pela ASKARJ. o essencial não é. social e cultural. com a boa vontade da Funai em disponibilizar a assessoria solicitada em mais de uma ocasião. segundo Rios. em função das modificações pelas quais passou sua inserção no Município de Jordão nos últimos dez anos e as formas de aproveitamento do território que controlavam anteriormente. uma das alternativas para viabilizar que essas comunidades tenham acesso a novas terras contíguas às já reconhecidas oficialmente. destinada a assegurar a posse permanente dos índios à referida terra e ao usufruto exclusivo dessas terras pela comunidade indígena beneficiada. não previsto quando do início da regularização. parece também adequar-se com precisão ao caso de várias populações na Amazônia. este parece ser o mesmo objetivo da ASKARJ quando. Sudeste e Sul. ao final. para viabilizar sua reprodução física. para além dos procedimentos oficiais já vigentes. esta atividade acabou não sendo realizada. pg. formalizou que desejava transferir a propriedade dos seringais Independência e do Altamira para o povo Kaxinawá do 41 . mas sim "garantir a destinação do imóvel adquirido à posse permanente da comunidade indígena que. Em auspicioso artigo publicado na Revista Brasil Indígena. têm necessidade de ampliar seus territórios. em diversas oportunidades. Novas alternativas para regularização de terras indígenas no Brasil? A recuperação desta questão de ordem jurídica. da Funai. ou mesmo por algum particular interessado em contribuir com os projetos indígenas de futuro. é a compra de propriedades pelas próprias comunidades ou organizações indígenas. ou de pressões econômicas surgidas desde o reconhecimento oficial de suas terras. de forma a garantir seu crescimento populacional e sua reprodução econômica. é "garantir que as novas demandas ou pressões econômicas ou sociais possam ser resolvidas. sem engendrar conflitos com os demais grupos de atores da sociedade envolvente. parece bastante útil e atual neste momento. o essencial nesta compra de terras pelos próprios índios. a aquisição direta deve ser seguida da "transferência de domínio sobre as terras em questão para a comunidade beneficiada ou para a União Federal. Neste tipo de aquisição. em função de crescimento demográfico acelerado. dando-se prioridade às ações de campo e contando. De acordo com o Procurador. 26). Aurélio Virgílio Veiga Rios. Ora. direito previsto a qualquer cidadão na Constituição Federal. Se essa situação aparece no texto mais referenciada àquela vivida hoje por muitas populações indígenas nas regiões Nordeste. Segundo Rios. ou a fonte dos recursos utilizados. reflete sobre formas de aquisição de terras indígenas. Em seu artigo.seringais como terra indígena. diminuindo-se o custo político e financeiro do procedimento de demarcação de terras indígenas" (ibid. de preferência sem a intervenção do Estado. o Procurador Regional da República. mais uma vez. em Brasília.

ironicamente. comunidade que ela legitimamente representa. ou seriam obrigados a desocupá-los. é importante apontar que modificações significativas aconteceram em nível local desde 1995. da demarcação física e da indenização de benfeitorias de ocupantes não índios. num segundo momento à União. A (auto)demarcação dos limites desses seringais acabou sendo realizada pelo próprios Kaxinawá. A retirada dos ocupantes não índios que ali viviam antes da passagem do GT da Funai. propôs a regularização dos seringais como terra indígena. algo em torno de quatro mil reais. com base nas demandas das lideranças Kaxinawá e da ASKARJ. decorridos quase oito anos de sua compra. não haveria praticamente nenhum custo atualmente para a União reconhecer e regularizar estes seringais como terra indígena. transformando-os em terra indígena. por isso. Em outra direção. mesmo que estas não sejam parte do patrimônio da União? Estas são algumas questões que permanecem hoje.Município de Jordão. Parte da argumentação da Procuradoria Geral da Funai deixava implícita que. O progressivo acúmulo deste débito poderá futuramente acarretar que estas propriedades sejam. comprados em seu nome e registrados em cartório. em caso afirmativo. mesmo quando isto implicaria em abrir mão do domínio legalmente constituído sobre esses imóveis. foi se dando aos poucos. sua não regularização como terra indígena. Segundo informações do Presidente da ASKARJ. conforme alertou a segunda informação da própria Procuradoria Geral da Funai. da comunidade Kaxinawá. em 1994. O que aconteceria então. apesar destes seringais serem já de domínio da ASKARJ e. solicitar da Receita que não mais fosse cobrado o imposto. e. parte do patrimônio da União. conforme prevê a Constituição Federal e o Decreto 1. dentre outras coisas. Outro ponto a ser atentado é que. tendo em vista tratarem-se de terras ocupadas por uma população indígena. com recursos de outras fontes. incorporadas ao patrimônio da União e que a ASKARJ venha a ser considerada como inadimplente e impossibilitada de acessar recursos oficiais e de programas tocados pelo governo federal. uma terra de ocupação tradicional indígena. fico a me perguntar? Teriam os Kaxinawá direito de permanecer nesses seringais. Por outro lado. Pelo fato de ser uma propriedade particular. estando hoje os seringais unicamente ocupados e utilizados pela comunidade indígena. por não se tratarem de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. Descartada a necessidade. quem passaria a ser o responsável legal desta propriedade perante a Receita? Este ato isentaria as famílias Kaxinawá que ali vivem de pagar anualmente o ITR? Caberia à Funai e ao Incra. numa decisão extrema. é possível afirmar que estes dois seringais também constituem hoje. para as quais a ASKARJ e as lideranças 42 . por absoluta falta de recursos próprios para arcar com esta obrigação. pois comprada e inserida no mercado de terras. como forma de obrigar a Funai a realizar sua demarcação e a indenização dos ocupantes não índios que ali viviam. podendo inclusive vir a ser reconhecida e regularizada pelo procedimento administrativo usual vigente no país. a Associação devia à Receita Federal. ou seja. de forma pacífica. decidisse incorporá-los a seu patrimônio e dar-lhes outra destinação? Com a mera transferência da propriedade dos seringais da ASKARJ para o povo Kaxinawá. poderia no futuro vir a colocar obstáculos de ordem legal para este mesmo domínio. caso a União. portanto. em início de 2002. sobre ela incide o pagamento de ITR. ao longo de sete anos. quando o Relatório de Identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. a União não poderia assumir o ônus da execução destas atividades.775/96.

em muitos momentos. Se. os Kaxinawá. enfrentaram ameaças dos patrões e de seringueiros brancos quando resolveram incluir um trecho de florestas situado nas cabeceiras do igarapé Jardim. evitando a continuidade das invasões patrocinadas por caçadores e pescadores. pois a picada ameaçava deixar de fora várias colocações. elencando algumas constâncias em relação a outros momentos de mobilização empreendidos pelos Kaxinawá para a conquista de suas terras nos últimos 25 anos. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um passo tomado pelos Kaxinawá no sentido de materializar os limites de uma terra que legalmente e de fato já lhes pertence. a Funai abriu licitação pública nacional para a demarcação física da TI Kaxinawá do Rio Jordão. em Brasília e em Rio Branco. que Sueiro recebera de sua madrinha e controlava fazia cerca de três décadas. para o qual facilitaram e desoneraram o quanto puderam as obrigações que acreditavam caber ao governo federal neste processo. para coroar este processo. perante as autoridades e os demais grupos da sociedade de Jordão. onde haviam identificado grande quantidade de seringas virgens e lugar que acabou se tornando moradia da família extensa de Getúlio de 1983 a 1991. Esta autodemarcação foi feita como resposta às pressões dos proprietários dos seringais vizinhos. A demarcação do Fortaleza aconteceu com recursos dos próprios Kaxinawá. falta ainda. com grande importância para a garantia dos atuais limites de seu território. Papagaio e Duas Nações. na visão da ASKARJ e dos Kaxinawá do Município de Jordão. Nesse movimento. Em 1980. junto à qual. que incluía as colocações Dispensa. na qual foi declarada vencedora a empresa Serviços Técnicos de Agrimensura e Geodésia Ltda. Na margem esquerda do rio Jordão. após a passagem da Funai. a demarcação foi paralisada definitivamente pelas lideranças Kaxinawá que acompanhavam a equipe da empresa. Pouco após seu início. respostas precisas. por um lado. que então coordenava um survey exploratório promovido pela Funai na região. seu reconhecimento como terra indígena. a mobilizações protagonizadas pelos Kaxinawá em outros momentos importantes da conquista e da regularização de suas outras duas terras. Foram tirados piques nos limites em ambas margens do rio Jordão. com variadas formas. por outro. Em 1975. Constâncias Serão tecidos agora alguns comentários sobre aspectos mais sociais e políticos do processo de autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. (SETAG). marcar este fato publicamente. em distintos contextos de sua história recente. foram feitas seguidas tentativas de consegui-la. torna-se claro que processos de autodemarcação e de ativa participação em demarcações não constituem novidade para os Kaxinawá. esta autodemarcação constituiu um processo inovador. estradas de 43 . após a primeira passagem do antropólogo Terri Valle de Aquino pelo rio Jordão. seguindo as terras do divisão que separam as águas deste rio das bacias dos rios Tarauacá e Tejo. patrões e comerciantes da Vila Jordão e Tarauacá. por falta de recursos próprios para contratar uma assessoria jurídica adequada. que os puseram em prática. que. Mas. chefiados por Sueiro Cerqueira Sales e seu filho Getúlio Sales Tenê. demarcaram o seringal Fortaleza.parecem não ter. os Kaxinawá. ela deve ser referenciada. vislumbraram a chance real de uma ação do governo para reconhecer uma terra indígena no rio Jordão. e garantir seu usufruto exclusivo sobre os recursos naturais ali existentes. mais uma vez. e dado o descompromisso demonstrado pela Funai. liderados por Getúlio.

dinheiro este que foi reinvestido no movimento comercial da cooperativa (Aquino. durante o planejamento e a execução.seringa. Do valor total da demarcação. Ali. que conciliou o trabalho de dois velhos mateiros. à época respondendo pela Presidência da Funai. custeada com recursos da própria cooperativa. Em 1985. e cumpriu as exigências técnicas inerentes à obra de engenharia. conforme os limites estabelecidos na nova portaria declaratória publicada quatro meses antes. 1992. para iniciar a demarcação. que oferecem subsídios de valor para os movimentos indígenas. roçados. piques de caça e outros importantes recursos naturais. que ganhara licitação pública nacional aberta pela Funai no âmbito do Plano de Proteção ao Meio Ambiente e às Comunidades Indígenas (PMACI). cansados de exigirem a demarcação de sua terra. ao apontar alternativas que podem resultar no barateamento do custo das demarcações e permitir redirecionar parte dos recursos para garantir maiores investimentos no fortalecimento institucional das organizações e das comunidades e em seus projetos coletivos de gestão e vigilância territorial. a intensa participação dos Kaxinawá. Tejo e Breu. levando-se em conta o arranjo institucional que a viabilizou. órgãos governamentais e ongs de apoio. a fonte dos recursos financeiros e a intensa participação indígena em sua execução. lideranças e chefes de família locais. 5% foram devolvidos pela Asserplan às lideranças Kaxinawá. com as atividades de 17 agentes agroflorestais indígenas. Aquino & Iglesias. foi que a Asserplan. Do Senado ao seringal. serão destacadas novidades que caracterizaram a recente autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. 1991. assinada por Gerson da Silva Alves. Na autodemarcação. com exceção do trecho adjacente à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira incluiu uma série de ações inovadoras. responsáveis pela abertura inicial dos piques ao longo do perímetro desses dois seringais. devido a erros na base cartográfica do Radam e nas coordenadas geográficas e no mapa do memorial descritivo elaborados pela Funai. as lideranças preferiram não ver sua terra demarcada de maneira que em implicaria em prejuízos permanentes à integridade de seu território. chegou no rio Jordão. com a medição e sinalização das picadas. no Acre e no Brasil. Somente após o término desta empreitada. e de volta à Funai em Brasília A título de conclusão. foi novamente um dos pontos altos. além de agentes agroflorestais de todas as aldeias das três terras do Município de Jordão. 1996. Nesta ocasião. que acabar de ser demarcada. 1994). Conseguiram autorização. Getúlio e Siã foram à Brasília. novo ator social nas 44 . Iglesias. comunicaram ao Ministério da Reforma Agrária e ao Presidente da Funai que iniciariam a demarcação de sua terra por conta própria. os Kaxinawá organizaram turmas em cada um dos seis seringais e abriram piques em todos os limites da terra indígena. No rio Jordão. e para a cooperação internacional. ao mobilizar. ao longo das terras da divisão com os rios Tarauacá. fazendo uso de recursos levantados com a venda de parte da produção de borracha da cooperativa. como reconhecimento por seu trabalho.

Outra forma de perenização dos túneis abertos foi o plantio de "marcos verdes". Outras atividades mobilizadas na autodemarcação. Katukina. Nesta declaração. estas terras têm extensão agregada de 1. prescindindo da derrubada das grandes árvores. em pouco o tempo. Manchineri. agentes agroflorestais e demais chefes de família Kaxinawá durante o planejamento dos trabalhos locais. compromisso de assegurar recursos orçamentários para garantir a continuidade da formação dos agentes e de encontrar mecanismos legais para viabilizar a remuneração dos seus serviços ambientais. Desde 1996. Há hoje 56 agentes agroflorestais em atuação em 15 terras indígenas do Acre e do Sul do Amazonas. têm sido direcionados para apoiar este projeto inovador de gestão ambiental em terras indígenas da Amazônia brasileira. realizado durante a demarcação. a CPI-Acre e a UNI assinaram declaração de compromisso. atendendo antiga demanda dos próprios agentes. ainda. além de quatro oficinas itinerantes em terras indígenas. o dono do Iracema. ganharam inspiração naquelas realizadas no acompanhamento da demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. 17 45 . que. Yawanawá. com desenhos de kenê. Turiano Farias. por baixo da mata.327. ricas em frutos. Recursos do Projeto Demonstrativo (PD/A). face ao processo de rápido crescimento de matos com espinho. cuja formação têm sido realizada pelo Setor de Agricultura e Meio Ambiente da CPI-Acre nos últimos seis anos17. em nível local e face à população urbana e às autoridades do município. o governo assumiu. da SCA/MMA e do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC). Como resultado da combinação destes conhecimentos. de propriedade da Prefeitura. caminhos bem roçados com três metros de largura. nas linhas da divisão. percebida pelos Kaxinawá como fonte de destruição indesejada em áreas de floresta densa. de outro lado. ainda. o governo estadual. Durante a demarcação. usada nas demarcações convencionais. Habitadas por 5. Em iniciativa conjunta com a AER-RBR. após chegar acompanhado com uma equipe de policiais militares armados. palmeiras e caça. realizado em Rio Branco em abril de 2001. Este tipo túnel foi preferido à picada de seis metros. do movimento indígena e da CPI-Acre. utilizando mudas de diversas espécies de frutas. padrões gráficos tradicionais usados pelos Kaxinawá em diferentes manifestações artesanais e nas pinturas corporais. ambos ocorridos no ano anterior no âmbito do PPTAL.aldeias Kaxinawá. bem como alternativa pouco adequada. foi posto em prática diversificado leque de ações destinado a dar visibilidade e divulgação à demarcação e aos limites da terra. 2000a). Para tal. o livre trânsito por dentro da picada. 2001). foram confeccionadas 18 placas padrão Funai. algumas das quais são consideradas pelos Kaxinawá como portadoras de fortes espíritos.526 ha. bem como no projeto de acompanhamento e consolidação da demarcação da TI Poyanawa (Iglesias. e discutidas com os técnicos da CPI durante a formatação da proposta da ASKARJ e com as lideranças. nos limites naturais e em ambas as margens do rio Tarauacá. sociais e de vigilância (Aquino & Iglesias. foram abertos "túneis verdes". no âmbito do Plano de Gestão Ambiental Integrada (PGAI). foram realizados sete cursos de capacitação de agentes agroflorestais no Centro de Formação dos Povos da Floresta. foram convidados o Prefeito Municipal. há quinze agentes. que impedem. A sinalização nas picadas foi feita com tinta em árvores grossas. 2000d). palmeiras e palheiras. que reconheceu a categoria de agente agroflorestal indígena. ao longo de um trabalho que durou dez dias e envolveu pouco mais de 50 pessoas. três das quais no seringal Independência. Foi convocado. e continuada durante oficina de capacitação para os agentes agroflorestais promovida pela CPIAcre no seringal Independência logo após o encerramento do trabalho. além de outros três "ajudantes". por sua vez. Ashaninka e Apurinã. No II Encontro das Culturas Indígenas do Acre e Sul do Amazonas. que a CPI-Acre dispõe em Rio Branco. Nas três terras Kaxinawá do Município de Jordão. distribuídas nos túneis. Shawãdawa.400 índios Kaxinawá. aprovou o traçado do limite aberto entre os seringais Altamira e São João.

talvez no Brasil. no período de três meses em que exerceu a suplência da Senadora Marina Silva (PT-Ac). Concorrida reunião foi realizada na sede do Jordão. acontecida em setembro em Durban. coordenado pelo grupo de mulheres indígenas. bem como o material didático "Índios no Acre. Maru. envolvendo órgãos dos governos federal e estadual. autor da emenda parlamentar que originou os recursos utilizados nos trabalhos. camisetas. a publicação "Implantação de tecnologias de manejo agroflorestal em terras indígenas do Acre" (Série Experiência PDA. ligado à UNI. Discriminação Racial. de planejamento e avaliação. por sua vez. 19 Fruto do diálogo estabelecido por Júlio Eduardo com o movimento indígena e com as ongs indigenistas logo após assumir no Senado. Um conjunto amplo de entrevistas. A autodemarcação foi encerrada com uma cerimônia que contou com a presença de lideranças e agentes agroflorestais das três terras. este projeto também contemplou recursos para a organização de assembléia no seringal Boa Vista. bem como junto às autoridades presentes à cerimônia de encerramento. estadual e municipal. produzida em agosto de 2002 pela CPI-Acre a pedido do SubPrograma Projetos Demonstrativos (PDA-PPG7). realizadas junto a lideranças. e organizações indígenas e indigenistas. que aprendeu a usar o vídeo nas oficinas do projeto Vídeo nas Aldeias. e de representantes da AERRBR. Filmagens em vídeo foram feitas por Siã Kaxinawá. bonés e posters. participaram dos trabalhos. de diferentes formas. Outro processo importante ao longo de toda a demarcação foi o registro das atividades realizadas. bem como do I Encontro de Mulheres Lideranças Indígenas da Amazônia. além do Senador Júlio Eduardo. ocupado desde 1997 por famílias Jaminawa que antes perambulavam e mendigavam em Rio Branco e outras cidades do Vale do Alto Acre. como é praxe em suas atividades. mateiros e agentes agroflorestais que. permitiu a alocação de recursos de emenda ao orçamento da União para esta atividade. que louvou a iniciativa e. além da ASKARJ. na África do Sul. Outro ponto que merece destaque foi a complexa articulação institucional que tornou possível a canalização de recursos para a autodemarcação. Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância. o movimento indígena e um público mais amplo18. e publicado pelo Ministério da Educação em final de 2002. 46 . no âmbito do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre"19. Esta origem de recursos orçamentários para a implementação de ações propostas e implementadas diretamente por organizações indígenas constituiu importante novidade no Estado do Acre. como instância preparatória para a III Conferência Mundial contra o Racismo. avalizou o traçado da picada aberta entre seu seringal e o Independência. A execução do Projeto. forró e ayahuasca. os agentes agroflorestais. da mesma forma. ongs. tornou necessária a costura de amplas articulações institucionais. contando. com representantes de vários órgãos dos governos federal. Nº 3). Por outro lado. Nos seringais Independência e Altamira. foram confeccionados materiais de divulgação da demarcação. que têm servido como material para a elaboração de publicações para a divulgação deste processo entre os próprios Kaxinawá. Uma emenda parlamentar apresentada pelo Doutor Júlio Eduardo (PV-Ac) em dezembro de 2000. videomaker com larga experiência em documentários de seu povo e dos seringueiros do Alto Juruá. Os recursos da 18 Por exemplo.Hilário Melo. bem como junto a órgãos governamentais. constitui outra forma de registro. de mariri. coordenado por Vincent Carelli. História e Organização". a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e o Setor de Educação da CPI. do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC) e da SCA/MMA. bem como por Adalberto Domingos. Este teve lugar em Rio Branco em maio de 2001. nos cursos da CPI-Acre. dentre os quais. produzido pelos professores bilíngües. além de reuniões. professor Kaxinawá da TI Alto Rio Purus. registraram em seus diários a produção e o plantio de mudas ao longo das picadas. aconteceram várias festas. Para distribuição entre os Kaxinawá.

foi necessário que. que deveriam atender às normas constantes do "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". sua reticência em apresentar os dados parcialmente produzidos com vistas à elaboração dos mapas e do memorial descritivo. os trabalhos de campo durante o mês de setembro de 2002. novas gestões foram então iniciadas pela ASKARJ e pela AER-RBR. do término da autodemarcação. tendo determinado. através de rastreamento de satélites. sediada em Rio Branco. bem como fornecido e implantado 10 marcos geodésicos. via a SCA.emenda foram repassados para o MMA. que. as peças técnicas foram entregues à SECTMA em dezembro. Através de uma parceria da Secretaria Executiva de Hidrovias e Aerovias com a Secretaria de Ciência. para realizar esta atividade. Ainda em março. Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA). durante viagem ao Estado do Acre no mês de agosto de 2003. Comunicado. bem como os processos inovadores postos em prática pelos Kaxinawá para a materialização dos limites demarcados. 35 marcos de apoio e 7 placas indicativas padrão Funai. o IMAC decidiu pela contratação de uma empresa de agrimensura. que. os recursos para custear essa contratação foram canalizados do Projeto de Desenvolvimento das Populações Indígenas. medido 33 km de linhas secas. 7 marcos testemunha. após analisá-las. a GETEC realizou. O governo estadual entrou também com pequena contrapartida. com recursos oriundos do convênio. que integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre. que. conforme atestam documentos do DEM.. as peças foram repassadas ao DEM/DAF. órgão de governo responsável no estado pela concatenação das ações previstas junto às populações indígenas. depois aceitas. Através da AER-RBR. em março de 2002. exigiu a apresentação dos resultados dos trabalhos de agrimensura. liberando o indigenista Antônio Luiz Batista de Macêdo para acompanhar o deslancho do trabalho. até a quebra de seu equipamento de GPS. apoiou. da Funai. com a realização de uma oficina itinerante no seringal Independência e a compra das mudas plantadas nos limites. que fora fundamental na formatação da parte que no Projeto cabia aos Kaxinawá. retornou-as à empresa com recomendações para ajustes finais. Para a autodemarcação. o trabalho dos agentes agroflorestais. Lourenço Araújo Costa. 7 pontos geodésicos. A AER-RBR deu apoio institucional aos trabalhos. pela AER-RBR. a CPI-Acre. 7 marcos azimutes. Face à impossibilidade de formalizar as peças técnicas com os dados já disponíveis. assinou convênio com Conselho Nacional dos Seringueiros e o IMAC. para que este disponibilizasse novos recursos para a finalização dos trabalhos topográficos. necessários à produção do mapa e do memorial descritivo que seriam entregues à Funai em Brasília para tentar reiniciar o processo de reconhecimento desses seringais como terra indígena. órgão responsável pela prestação de contas dos recursos recebidos através do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre". Após a realização dos cálculos. o DEM/DAF. realizou a medição das picadas e a determinação dos pontos geodésicos nas clareiras e limites. Após quase um semestre de demora. financiado pelo BNDES. A não conclusão dos trabalhos de campo pelo técnico da Funai. desta vez junto ao IMAC. necessários à confecção dos mapas e memoriais descritivos definitivos. suscitaram impasse para que o Departamento considerasse válida a autodemarcação. Seguindo as determinações previstas no "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". com novo acompanhamento das lideranças locais. processamentos e a elaboração do memorial descritivo e do mapa. o atual Chefe da 47 . GETEC Topografia Ltda. confeccionando as placas indicativas e recrutando o técnico em agrimensura da Funai de Manaus.

desde início dos anos 1990. que levou em mãos. no atual contexto. que serviram de modelo para outros povos indígenas no Acre e no sul do Amazonas. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um importante passo da mobilização do povo Kaxinawá do Município de Jordão para a consolidação e garantia de seu atual território. Em muitos destes momentos. que a ASKARJ. Manoel Francisco Colombo. com a ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. Alguns destes processos ganharam forma com a criação da cooperativa. Setembro de 2003 48 . o movimento indígena. os poderes locais.0001/73. uma vez aprovados os trabalhos. o Chefe do DEM. etapa necessária ao envio de uma equipe para fiscalizar in loco os trabalhos realizados por essa empresa nos seringais Independência e Altamira. Nos últimos 25 anos. o Governo estadual e o PPTAL possam encontrar em breve alternativas adequadas e também inovadoras para assegurar a plena regularização destes dois últimos seringais como terra indígena. Os documentos. a fundação da ASKARJ e. É de esperar. Rio de Janeiro. este envolvimento das famílias. a Funai. no Brasil. Por outro lado. órgãos governamentais. esses seringais virão ser reconhecidos como "terra de domínio indígena" ou como "área reservada". em nível local e através de diálogos e negociações com famílias de seringueiros. os Kaxinawá apresentaram e implementaram soluções inovadoras e de sucesso para a regularização de suas terras. ongs de apoio e a cooperação internacional. e a compra dos seringais Independência e do Altamira. das lideranças e da ASKARJ assumiu diferenciadas formas. porque não dizer. categoria prevista no Capítulo III da Lei 6. desde as primeiras mobilizações para o reconhecimento oficial e a regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão. fosse pessoalmente à sede da empresa para ali ficar sabendo que as peças haviam sido entregues fazia tempo à SECTMA. a formação de professores bilíngües e agentes de saúde. está hoje em discussão na DAF se. foram então entregues ao DEM. ainda não conseguiu liberar um técnico para analisar a adequação dos ajustes feitos pela GETEC nas peças técnicas. no presente e no novo milênio que acaba de começar. Devido ao alegado acúmulo de atribuições com as demarcações em curso no âmbito do PPTAL. e. Terri Valle de Aquino. de forma que os Kaxinawá tenham condições concretas para garantir seu atual território e melhores condições de vida.Coordenação Geral de Identificação e Delimitação (CGID/DAF). hoje regularizados como a TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão.

2001-"Agentes agroflorestais indígenas do Estado do Acre: reconhecimento e compromisso".001/73)."A incessante 'produção' da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão: reconhecimento e regularização pelo Estado brasileiro e processos de mobilização do grupo para a conquista e o uso de seu território".204/93). laudo biológico e situação fundiária da área indicada para a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá .“Relatório de Identificação da Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão . Território. 1996."Kaxinawá: de seringueiro caboclo a peão acreano". 1996. agosto. mimeo.204/93 . Amigos da Terra-Amazônia Brasileira (org). mimeo. setembro/outubro."O Astro Luminoso: Associação indígena e mobilização étnica entre os Kaxinawá do rio Jordão". Brasília. mimeo. 9 pg."Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre: populações e terras indígenas". 1996. 17 de junho. mimeo. 2 vol. localizada no Município de Jordão/AC.“Relatório de Identificação da Área Indígena Kaxinawá da Praia do Carapanã . mimeo. Rio de Janeiro/ Rio Branco. 2000.Estado do Acre”. (GT PP 1. N° 90. Rio de Janeiro/Brasília. março. Ano III. Rio Branco. Rio Branco.Estado do Acre”. 1991 . Rio de Janeiro. Nº 24. (GT PP 1. Rio Branco. Página 20 (Coluna Papo de Índio). 4 vol. de 26/5/98). Marcelo Piedrafita 1992."Projeto Kaxinawá: uma estratégia de luta pela terra". mimeo. mimeo. 1993. Marcelo Piedrafita 1994. 1998. Seção I. Ano IV. Gráfica Kenê Hiwê/CPI-Acre. 7 pg. 12 pg. São Paulo.“Resumo do Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão”. 1999. Maio-Julho. (GT PP 1. como Terra de Domínio Indígena.“O cólera e os índios de Tarauacá e Jordão”. abril. pg. 29-38. N° 796. Brasília. Rio Branco.Bibliografia AQUINO. 10-11. julho. Terri Valle de & IGLESIAS. XIII. N° 447. Revista do Migrante.“Índios brabos atacam na fronteira do Acre com Peru”. 1995.Convênio Funai/Embaixada da Suíça/Comissão Pró-Índio do Acre). 29 de novembro. Vol."Recomendações ao Governo da Floresta: populações e terras indígenas no Acre"."Relatório de Identificação da Terra Indígena Kampa do Igarapé Primavera . mimeo. julho. (Texto ao GT 'Política Indigenista' do XV Encontro Nacional da Anpocs). mimeo. Rio Branco.“Município de Jordão: atualidade e futuro”. (GT PP 1. 3 vol.) IGLESIAS. (DOU de 14/5/98. Cruzeiro do Sul. 4547. 1987. novembro. 1995. 16-19 e DOE do Acre. 10-11. 29 pg. pg. pg.Municípios de Jordão e Tarauacá .“Os Kaxinawá e os brabos: territórios e deslocamentos populacionais nas fronteiras do Acre com o Peru”. agosto. Rio Branco.Estado do Acre". 31 pg. Travessia.Estado do Acre”. 1997. novembro. mimeo. AQUINO.Município de Tarauacá .“Relatório dos trabalhos realizados durante a vistoria CNPT-IBAMA para a eleição da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá”. pg. (Texto ao GT 'Política Indigenista' da XVI Reunião Anual da Anpocs). mimeo. mimeo. 49 .204/93). 48 pg. 1997. Rio Branco. (Republicado em Debate sobre políticas públicas para Amazônia na imprensa brasileira. 175 pg. Rio de Janeiro."Informação nº 020/DEID/99" (Assunto: Identificação da Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência. (Dissertação de Mestrado ao PPGAS/Museu Nacional/UFRJ). São Paulo. pg. 2 vol.Kaxinawá do Rio Jordão: História. 2 vols. 1998a. em conformidade com a Lei 6. Jornal Página 20. 26 de novembro. Gazeta do Acre (Papo de Índio). janeiro-abril. 1998b.Município de Tarauacá . mimeo. 1999. Rio Branco. mimeo. Jornal Página 20 (Papo de Índio). janeiro. Rio Branco. Terri Valle de 1977.Município de Jordão . junho. (Dissertação de mestrado ao PPGAS da Universidade de Brasília). Brasília. Rio Branco.204/93).“Relatório de Identificação da Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência”. Economia e Desenvolvimento Sustentado. 21 de setembro.“Levantamento sócio-econômico.

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