Ocupando e comprando para construir o território

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estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre

Marcelo Piedrafita Iglesias

GT POVOS INDÍGENAS Tema: "INICIATIVAS E ESTRATÉGIAS INDÍGENAS" (coordenado pelos Prof. Dr. João Pacheco de Oliveira e John Manuel Monteiro)

XXVII ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 21 a 25 de outubro de 2003 Caxambu, Minas Gerais

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Ocupando e comprando para construir o território: estratégias Kaxinawá para o reconhecimento e a regularização de duas novas terras indígenas no Município de Jordão, Estado do Acre
Marcelo Piedrafita Iglesias1 Introdução Há hoje três terras indígenas (TIs) reconhecidas pelo governo federal para o povo Kaxinawá2 no Município de Jordão, no Estado do Acre3. Incidem nestas terras dez seringais nativos, distribuídos de forma contígua ao longo do rio Jordão e do alto rio Tarauacá, com extensão total de 107.482 ha. Esta situação difere daquela vigente em 1991, quando, após quatorze anos da sua primeira identificação pela Funai, encerrava-se o processo de regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão, situada à época no Município de Tarauacá. Neste texto serão analisados os principais processos de redefinição territorial e de reorganização política e econômica protagonizados pelos Kaxinawá do Município de Jordão desde início dos anos 1990. Para tal, serão focadas diversas mobilizações das famílias e lideranças Kaxinawá, bem como da Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ), para a conquista, a garantia, o uso produtivo e a regularização de quatro novos seringais, incorporados ao território a partir de 1990, que envolveram, em diferentes contextos, órgãos de governo, instituições e grupos de atores das arenas local, estadual, regional, nacional e internacional. Serão também explicitadas as inter-relações e determinações mútuas que existiram entre estas mobilizações e as deliberações oriundas de diferentes órgãos e instâncias do Estado brasileiro pelos quais trafegou (e continua a trafegar) o processo de regularização administrativa das duas terras indígenas Kaxinawá através da quais essa ampliação territorial foi oficialmente reconhecida. Essas mobilizações, bem como a participação dos Kaxinawá no campo intersocietário atualmente configurado no Município de Jordão, serão contextualizadas no bojo de outras transformações territoriais, políticas e econômicas que ganharam força como resultado da profunda crise instalada na economia da borracha nos anos 1990, da criação desse município em 1993, da constituição do aparato administrativo do poder público municipal, do realinhamento das forças políticas, tradicionais e emergentes, na sociedade

Doutorando em Antropologia Social no PPGAS-Museu Nacional-UFRJ; Pesquisador do Laboratório de Pesquisas em Cultura, Etnicidade e Desenvolvimento (LACED/MN/UFRJ). E-mail: marcelo@piedrafita.eti.br ¹ Os Kaxinawá (gente do morcego) se autodenominam Huni Kui (gente verdadeira) e falam o hãtxa kui (língua verdadeira), da família Pano. Pouco mais de 4.000, os Kaxinawá estão distribuídos em doze terras indígenas no Estado do Acre, nos rios Breu, Jordão, Tarauacá, Murú, Humaitá, Envira e Purus. Em final de 2000, havia 17 aldeias Kaxinawá no alto rio Purus, em território peruano. A maior população indígena do Acre, os Kaxinawá hoje constituem 43% dos índios do estado. Do total dos Kaxinawá, cerca de 70% habitam dez terras indígenas na bacia do rio Tarauacá. ² A TI Kaxinawá do Rio Jordão foi identificada em 1977, reidentificada em 1982, aprovada pelo Grupo Interministerial criado pelo Decreto Nº 88.118/83 e delimitada em 1984, demarcada fisicamente no ano seguinte, registrada em Cartório de Imóveis e no Serviço de Patrimônio da União em 1988 e homologada pelo Presidente da República em 1991, com área de 87.293 ha. As TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kaxinawá do Seringal Independência foram identificadas em março de 1994 pelo GT PP 1.204/93. A primeira tem extensão de 8.726 ha, foi delimitada em 1998, fisicamente demarcada e desintrusada em 2000, homologada em 2001 e registrada na Secretaria de Patrimônio da União e no cartório de Tarauacá em início do ano seguinte. A segunda tem 11.463 ha e é composta pelos seringais Independência e Altamira, comprados pela Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ) em 1993-94.

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jordaniense a partir da configuração de um campo político-partidário que reflete interesses locais e extralocais, da criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá, do surgimento de instâncias de representação política dos seringueiros e agricultores (o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Associação da Reserva Extrativista), de conflitos envolvendo grupos de "índios isolados" nas cabeceiras dos rios Tarauacá e Jordão, da regularização pela Funai para esses índios da TI Alto Tarauacá, limítrofe à TI Kaxinawá do Rio Jordão, assim como de várias políticas e programas dos governos federal, estadual e municipal na área de jurisdição do município. Um breve sobrevôo histórico Até 1977, ano em que a Funai identificou a TI Kaxinawá do Rio Jordão, os Kaxinawá controlavam e concebiam o pequeno seringal Fortaleza como seu território, encravado no meio de outros dez seringais nativos, distribuídos em ambas margens desse rio, à época movimentados por gerentes e patrões ligados a um mesmo arrendatário. Era na sede do Fortaleza e em suas cinco colocações, que somavam 27 estradas de seringa, onde 144 Kaxinawá, distribuídos em 19 casas, viviam e trabalhavam sob a chefia de Sueiro Sales Cerqueira. O restante dos Kaxinawá, 239 pessoas, estava disperso em 38 casas nos seringais Revisão, Transual, Sorocaba, Bom Jardim e Bonfim (Aquino, 1977). O Fortaleza passara ao controle de Sueiro na segunda metade dos anos 1940, após a morte de sua madrinha de fogueira, a piauiense Marcolina do Forno. Os Kaxinawá já trabalhavam neste seringal para Marcolina, viúva de Joaquim Rogério, fazia pelo menos duas décadas, antes chefiados pelo pai de Sueiro, Chico Curumim, que, por sua vez, trabalhara com Felizardo Cerqueira, famoso mateiro cearense, que nas décadas de 1900-20 teve contribuição decisiva para a incorporação dos Kaxinawá à empresa seringalista nos rios Tarauacá e Jordão (Aquino, 1977; Aquino & Iglesias, 1994; Iglesias, 1992, 1996). Através do barracão do Fortaleza, Sueiro permaneceu, por três décadas, atrelado a redes de aviamento atualizadas por sucessivos proprietários e arrendatários dos seringais do rio Jordão, bem como por comerciantes e regatões sediados na Vila Jordão, junto aos quais trocava mercadorias por borracha, couros, peles de fantasia, criações domésticas e gêneros agrícolas produzidos pelos seus parentes e fregueses Kaxinawá. A posse do Fortaleza, e depois do seringal Sorocaba, chefiado por Nicolau Sales, irmão de Sueiro, foi importante para que as famílias Kaxinawá que ali moravam lograssem uma coesão que, diferente do que acontecia em outros seringais controlados por patrões brancos, em muito contribuiu para a manutenção, em uma situação histórica adversa, de importantes formas de sua organização social e cultural. Antes da chegada da Funai, a construção dessa noção particular de território, centrada no Fortaleza, o "seringal de caboclo", e no Sorocaba, era condicionada, portanto, por correlações de forças inerentes a um padrão de dominação que os Kaxinawá viviam fazia três décadas nos seringais do rio Jordão, parte de uma situação histórica mais longa, por eles categorizada como "o tempo do cativeiro", instaurada com a implantação da empresa seringalista na região e os primeiros contatos, ainda na década de 1900, marcados pelas "correrias" patrocinadas pelos caucheiros peruanos, exploradores de seringais e por sucessivos patrões.

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A quase secular existência do seringal enquanto matriz de organização espacial, econômica e política no rio Jordão veio condicionar as propostas formuladas pelos Kaxinawá em diferentes contextos institucionalizados de demandas e redefinições territoriais. Inauguradas com a identificação de sua terra pela Funai em 1977, estas propostas ganharam diferentes formas nas décadas seguintes, em conjunturas diversas, relacionadas com à situação econômica e política na região do Alto Tarauacá, com sucessivas mudanças nos procedimentos de regularização das terras indígenas no país, com as formas próprias pelas quais o órgão indigenista ganhou configuração e interveio em nível local e com programas do governo federal, alguns em conjunto com a cooperação internacional, que favoreceram o avanço do reconhecimento das terras indígenas no Estado do Acre. Essa projeção territorial particular, tendo o seringal como matriz, embasou também os processos de mobilização e de reorganização política, econômica e cultural protagonizados pelos Kaxinawá na gradual construção de uma nova situação histórica, por eles denominada “o tempo dos direitos”. As mobilizações empreendidas, de meados dos anos 1970 até fins dos 1980, para a desnaturalização da identidade genérica de "caboclo", a demarcação e o reconhecimento local de sua terra indígena, a estruturação de sua cooperativa, a retirada dos patrões e seringueiros brancos, o uso produtivo dos seis seringais de sua terra, a abolição do pagamento da renda das estradas de seringa, a abertura de espaços para a comercialização mais autônoma da borracha e a compra das mercadorias necessárias ao abastecimento das cantinas nos seringais, a capacitação de professores bilíngües e agentes de saúde e a participação no movimento indígena regional, resultaram em rupturas e reordenamentos na situação histórica que predominara no rio Jordão durante décadas e, portanto, nas relações até então travadas com os patrões, comerciantes e demais grupos da sociedade que gravitavam ao redor da Vila Jordão e da cidade de Tarauacá (Aquino, 1977, 1991; Iglesias, 1992, 1993, 1996; Aquino & Iglesias, 1994). Novos territórios Kaxinawá Em 1988, as lideranças Kaxinawá fundaram e legalizaram a ASKARJ, canal de representação política através da qual continuaram participando das várias instâncias do movimento indígena no Acre e têm se relacionado diretamente com órgãos governamentais, ongs, agências da cooperação internacional e empresas. Têm, assim, estabelecido parcerias institucionais e implementado programas que vêm viabilizando a capacitação continuada de professores bilíngües, agentes de saúde e agentes agroflorestais, bem como a canalização de recursos para "projetos", voltados para o fortalecimento institucional da associação, a manutenção e diversificação do extrativismo e do artesanato, a abertura de novas alternativas econômicas e a gestão e vigilância de seu território. Entre 1990-94, os Kaxinawá iniciaram a redefinição dos limites do território que controlavam efetivamente fazia uma década, circunscrito aos seis seringais da TI Kaxinawá do Rio Jordão, cujo processo de regularização encerrou-se em 1991. Através de mobilizações locais, bem como da representação política exercida por lideranças e pela ASKARJ, ocuparam e passaram a controlar mais quatro seringais, 22.450 ha, limítrofes à terra regularizada.

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Em 1990, grupos familiares Kaxinawá ocuparam os seringais Nova Empresa e São Joaquim, no baixo curso do rio Jordão, que fazia anos se encontravam “sem patrão”. Com recursos do Projeto de Implantação da Reserva Extrativista do Alto Juruá e Desenvolvimento Comunitário das Áreas Indígenas Circunvizinhas, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 1990-92, as lideranças Kaxinawá instalaram o "Astro Luminoso", sede central da cooperativa, no Nova Empresa e estabeleceram acordos comerciais e de uso das colocações e estradas de seringa com as poucas famílias de seringueiros brancos que ali habitavam. Essas iniciativas gradualmente construíram no Município de Jordão um consenso entre autoridades, proprietários, comerciantes, patrões e seringueiros a respeito dos legítimos direitos dos Kaxinawá sobre os dois seringais recém ocupados (Iglesias, 1993, 1996). O Nova Empresa e o São Joaquim somam dez colocações e 55 estradas de seringa. Além de ocupar boa parte das colocações que estavam “vadiando”, famílias Kaxinawá abriram novos locais de moradia em ambas as margens do rio. Em final de 1991, o grupo familiar extenso do cacique Getúlio Sales Tenê mudouse para o Nova Empresa. Nos anos de 1992-93, marcando o ocaso do Astro Luminoso, foi em sua casa que funcionou uma nova sede centralizada da cooperativa, parcialmente financiada com recursos levantados pela ASKARJ junto à World Wildlife Fund (WWF-US) para a implementação do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. Nesta mesma época, várias outras famílias Kaxinawá chegaram ao Nova Empresa e São Joaquim, parte das quais chefiadas por velhos aposentados, que passaram a se beneficiar da maior proximidade da sede do Município de Jordão para mensalmente receberem seus vencimentos do INSS. Em 1993-94, a ASKARJ comprou os seringais Independência e Altamira, situados no alto rio Tarauacá, a quatro horas de subida de barco da sede do Município de Jordão, que fazem fundos com o Boa Esperança e o São Joaquim, seringais localizados nas duas terras Kaxinawá na margem direita do baixo curso do rio Jordão. Os seringais comprados têm 11.463 ha, 13 colocações e 48 estradas, e são fartos em igarapés, lagos, praias, peixes e caça. Sua ocupação foi iniciada em fins de 1993, com a chegada de oito famílias extensas, em torno de 60 pessoas. Outras chegaram nos anos seguintes, algumas vindas dos seringais recém ocupados no baixo Jordão. Nas sedes do Independência e Altamira, assim como em outros locais nas margens do rio Tarauacá, construíram casas, plantaram roçados de terra firme e de praia, começaram a cortar seringa e a criar animais domésticos. Em março de 1994, a população Kaxinawá nestes dois seringais era de 97 pessoas (Aquino, 1995), tendo aumentado para 138 quatro anos e meio depois, segundo levantamento realizado pelos professores bilíngües sob encomenda da ASKARJ. Em documento enviado em novembro de 1993 ao Departamento de Identificação e Delimitação, da Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai, a ASKARJ reivindicou a inclusão dos seringais Nova Empresa, São Joaquim, Independência e Altamira nos trabalhos de identificação que seriam realizados no primeiro semestre do ano seguinte pelo Grupo Técnico (GT) PP 1.204/93, no âmbito de convênio firmado pelo órgão indigenista, a Embaixada da Suíça e a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre). Em abril de 1994, logo após a passagem deste GT pelo rio Jordão, os missionários, um casal de americanos e outro de brasileiros, das Novas Tribos do Brasil abandonaram definitivamente o Nova Empresa,

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em setembro de 2002. nos níveis estadual e municipal. que normatizaram novo procedimento administrativo de regularização das terras indígenas no Brasil. Estudos formulados pela SECTMA em 1991 informavam que apenas 0. em 1991. com a sede da missão situada logo abaixo do igarapé Bonfim. Até há pouco. mas sua extensão.775 e da Portaria Nº 14. ainda. nº 5 de 10 de outubro de 2002. 6 . federal e estadual). área que consta na Resolução da Presidência do IBGE. usados para fundamentar a criação do Município. além de outras duas no Município de Tarauacá: Kaxinawá da Praia do Carapanã (Iglesias.000 ha. algumas com partes incidentes nos Municípios de Feijó e Marechal 4 Este fato permite pensar que não só as terras indígenas estão sujeitas a alterações ao longo do tempo. Para tentar sanear esta dúvida. todavia. reitero.069. 1995). 1996) e Kaxinawá do Seringal Independência (Aquino. foram emancipados dez novos municípios no Estado do Acre. Através da Lei 1.500 ha. em janeiro de 1996.034 foram alterados pela Lei nº 1.034. Nos anos de 1995-96. do IBGE. limite intermunicipal estabelecido em sua lei de criação. publicada no Diário Oficial da União de 11/10/20024. indicavam uma área de 559. tem área plotada no mapa bastante superior àquela com a qual foi criado. não havia. a 9 de janeiro de 2003. os antropólogos desse GT apresentaram ao DEID/DAF propostas para a delimitação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. em hectares.876 ha. O mapa que serviu de base para este novo cálculo. 1996). Dados divulgados pela Comissão Especial para Criação de Novos Municípios e pela Secretaria de Estado de Ciência. que a extensão municipal é de 542. À época. mas conservaram a extensão municipal em 669.onde haviam permanecido por onze anos. Após onze anos de sua lei de criação. A Diretoria informou. paradoxalmente. de 1996. o reconhecimento oficial dos processos de ampliação territorial protagonizados pelos Kaxinawá no Jordão a partir de 1990. o Município de Jordão. que os limites municipais estabelecidos pela Lei nº 1. de 28 de abril de 1992. 28% de sua extensão correspondiam a terras indígenas.500 ha. limite da TI Kaxinawá do Rio Jordão (Iglesias. em função de ações e atos administrativos oriundas de diferentes órgãos de governo (nesta caso. num novo marco jurídico instaurado pela promulgação. 1996). apontaram uma extensão de 669. sua instalação ocorreu em 1 de janeiro de 1993. é a menor das três antes previstas. O Município de Jordão e outras dimensões territoriais Em 1992. Após a primeira eleição municipal realizada em outubro desse ano. a saber: Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. realizei. 1995) e Kampa do Seringal Primavera (Aquino.2% da área do município fora alterada por ação antrópica. Teve início. do Decreto Nº 1. Dados do IBGE. incorporou um trecho de floresta situado além dos divisores de água dos rios Tarauacá e Envira. após a realização de plebiscitos de consulta às populações locais. em diferentes etapas de regularização. Tecnologia e Meio Ambiente do Estado do Acre (SECTMA). consenso nos dados oficiais a respeito da real extensão do Município de Jordão. ato legal que. Os dados produzidos pelo Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Acre em 1999 refletem esta dúvida: mantiveram os limites previstos na lei. permanece desconhecido pelos governos municipal e estadual. foi criado o Município de Jordão. consulta à Diretoria de Geociências. de 9 de dezembro de 1992. desmembrado do Município de Tarauacá. assim. Informou.

arrendatários e comerciantes. em parte sobreposta às TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. levando-se em conta a extensão total de 542. com intenção de ampliar a sede municipal. houve significativas mudanças na propriedade de importantes seringais na região do alto Tarauacá. desde então. declarada em abril de 2001. Na primeira metade dos anos 1990. os divisores de águas dos rios Murú e Jaminauá e.976 3. em 1993. após a criação em fins dos anos 1970 da TI Kaxinawá do Rio Jordão. as herdeiras de Munir Bissat colocaram à venda dois importantes seringais no alto rio Tarauacá. com as possibilidades abertas pela participação de seus membros na política partidária e na administração pública municipais. contribuíram para marcar a decadência de uma das duas tradicionais famílias locais. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. como proprietários de terras. Também parte do patrimônio da União.0 16. pela família Melo. O Iracema foi adquirido. Por outro lado. mas permaneceram à margem dos cargos políticos e administrativos a partir de 1996.293 8. sem destinação claramente definida.926 ha e sua maior parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo.470 200.Thaumaturgo. 8 A extensão total da Resex é de 151. 164/91”. ainda.6 36. vieram a alterar significativamente a proporção da extensão municipal ocupada por terras indígenas.600 ha e sua outra parte fica no Município de Feijó. os Farias. a Prefeitura Municipal adquiriu o seringal São João. registrada no Cartório de Imóveis de Tarauacá. mas se alteraria. A extensão total desta TI é de 28.750 14.1 20.7 2.650 ha. foi arrecadada.2%. DEID/DAF. em novembro de 1993.9 Fontes: Anexos do “OF/SECTMA/Nº.6 0. Junto com os processos de ampliação protagonizados pelos Kaxinawá. a outra tradicional proprietária de seringais nessa região e dona da principal casa comercial da sede do Jordão.470 ha. O São João extrema com o perímetro urbano do município. Conforme pode ser visto no quadro abaixo. com área de 139. 7 . na segunda metade dos anos 1990. com a compra dos dois seringais no alto rio Tarauacá e a regularização da terra indígena no baixo rio Jordão. a proporção ocupada atualmente por terras indígenas é de 43.517 3.7 0. com área registrada de 3.6 2.876 87.1 1.6 18.199 ha e o sua outra parte incide no Município de Tarauacá.726 11.876 ha para o Município de Jordão.439 % 100. a redefinição da extensão da TI Alto Tarauacá destinada aos índios isolados. de 17 de dezembro de 1991. a Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. a terra Jordão-Envira. Das mesmas herdeiras de Bissat. as terras Kaxinawá no alto Tarauacá e no baixo Jordão. 7 A extensão total desta TI é de 31. incidindo nos Municípios de Jordão e Feijó. cujos membros lograram se eleger em 1992 para a Prefeitura e a Presidência da Câmara dos Vereadores locais na primeira eleição após a criação do Município. As mobilizações dos Kaxinawá para a ampliação de seu território. a segunda mudança de monta na estrutura fundiária nesta região.242 100. CNPT-Ibama 5 6 A extensão total desta TI é de 142. processo que se consolidaria. Município de Jordão TI Kaxinawá do Rio Jordão TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão TI Kaxinawá do Seringal Independência TI Alto Tarauacá 5 TI Jamináwa Arara do Rio Bagé 6 TI Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu 7 Reserva Extrativista do Alto Tarauacá8 Seringal São João (Prefeitura Municipal) Área Municipal Restante Extensão (ha) 542.463 112. estas transferências representaram.277 ha e sua outra parte está situada no Município de Marechal Thaumaturgo. Em início dos anos 1990.

000 índios.400. à Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema. 2001a. que em novembro de 2000. decretada em 1998 com 173. com 21. Nas últimas duas décadas. extremam como a Floresta Nacional do Macauã. O Parque é limítrofe às TIs Mamoadate e Alto Rio Purus. 8 . e à Floresta Nacional São Francisco. com a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. com 750. 22% da superfície do estado.087. por sua vez. seringueiros e agricultores.794 ha. por fim. Estas 23 terras contíguas. e ocupado por pouco mais de 11. que ambos mosaicos de terras indígenas e unidades de conservação. por sua vez. A criação do Parque Estadual do Chandless consolidará um corredor contínuo de 33 áreas reservadas pelos governos federal e estadual. a Estação Ecológica Rio Acre e os Projetos de Assentamento Extrativista Santa Quitéria e Remanso formam um corredor contínuo de 1.041 1.815 11. deve levar em conta. 1999. distribuídas por oito municípios. ampliou-se para 62. Iglesias. No Vale do Juruá outro mosaico é constituído por 19 terras indígenas. castanheiros.380.532.438 4.385 843. regional e estadual. do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PP-G7).160 976.193 2. com área de 695 mil ha. ganharam configuração no Estado do Acre dois mosaicos de terras contínuas reservadas pelo governo federal com variadas destinações.514 4. que encontram-se hoje em diferentes etapas de seus respectivos processos de regularização (Aquino & Iglesias.500 seringueiros. Por fim.435 8.500 86. Vales AcrePurus Terras Reservadas Terras Indígenas Reserva Extrativista Estação Ecológica Projetos de Assentamento Extrativista Subtotal Terras Indígenas Reservas Extrativistas Parque Nacional Subtotal Total Quantidade 2 1 1 2 6 19 3 1 23 29 Municípios 2 7 1 3 7 6 3 5 8 15 Extensão (há) 392. distribuído por sete municípios.574.283 ha (40% do território acreano). agricultores e índios. destinado à conservação integral da biodiversidade.570 77. 10% da superfície do estado. regional. as TIs Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate. à pesquisa científica e ao ecoturismo.475 ha.532.470. que. A inserção das terras Kaxinawá e do Município de Jordão numa dimensão territorial mais ampla. a Reserva Extrativista Chico Mendes. ainda. com extensão total de 6. contíguas à TI Alto Rio Purus e à Floresta Nacional do Macauã9. ao longo de toda a fronteira internacional do Acre com o Peru.642 Alto Juruá Estes dois mosaicos de terras reservadas nos Vales do Acre-Purus e do Alto Juruá são.414 População 699 9.933. 9 Está hoje em processo final de criação em parte destas terras arrecadadas o Parque Estadual do Chandless. No Vale do Acre-Purus. três reservas extrativistas e o Parque Nacional da Serra do Divisor. reconhecidos pelo governo federal no Estado do Acre integram o Corredor Ecológico Oeste-Amazônico. e são ocupadas por pouco mais de 15.É importante destacar.4% a proporção das terras da jurisdição do Município de Jordão reservadas pelo governo federal com distintas finalidades.600 ha.978 1.978 ha.012 3.758 ha. 2001b).748 1.500 15.000 1.128 26. cabe contextualizar a inserção territorial do Município de Jordão numa dimensão mais ampla. de uso direto e de proteção integral. abrangem 3. ligados por terras arrecadadas pela União. no âmbito do “Projeto Corredores Ecológicos”.

2001a. com extensão total de 962. ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas proximidades. os Ashaninka.000 142. os seringueiros acreanos e os índios isolados. Em março de 1998. Pereira Neto. Neste mesmo ano. 1987. a proposta de criação das TIs Xinane e Alto Tarauacá.277 962. em 1987. ver Iglesias. no alto rio Tarauacá.000 232. pois até então acreditava-se que os isolados viviam no Alto Juruá peruano e entravam nos altos rios no Acre apenas durante o verão. Município Terra Indígena Jaminauá/Envira Kampa e Isolados do Rio Envira Feijó Kaxinawá do Rio Humaitá Kulina do Rio Envira Xinane Alto Tarauacá Kaxinawá do Rio Jordão Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu 8 Povo Madijá (Kulina) Ashaninka Ashaninka Isolados Kaxinawá Madijá (Kulina) Isolados Isolados Kaxinawá Kaxinawá Ashaninka Pop 40 52 230 ? 255 235 ? ? 920 365 60 2. Ashaninka e seringueiros.157 Extensão (há) 82.293 31.712 ha. Na última década. Tarauacá e Jordão. 1996.712 Situação Jurídica Declarada/ Demarcada Regularizada Regularizada Regularizada A identificar Declarada Regularizada Homologada Jordão Marechal Taumaturgo Totais = 3 Devido ao acirramento nos cabeceiras dos rios Jordão. sobre a expansão mais recente dos territórios dos isolados e suas conseqüências para os atuais padrões de ocupação das terras Kaxinawá e a configuração territorial do Município de Jordão. Pelo número de malocas. os sertanistas estimaram que ali vivam entre 600 e mil índios. da Funai.383 84.600 87. 9 . em gabinete. constituem territórios de moradia e perambulação de populações de índios ainda sem contato sistemático. e José Carlos dos Reis Meirelles sobrevoaram o alto rio Tarauacá e comprovaram a existência de malocas entre os rios Envira. o Departamento de Índios Isolados (DEII). a crise na economia da borracha e a desarticulação das cooperativas indígenas e dos últimos barracões dos patrões seringalistas levaram a um quase total esvaziamento dos seringais mais às cabeceiras dos rios e das colocações de centro na floresta. a morte de três pessoas pelos isolados motivou migrações de dezenas de famílias de seringueiros para a sede do Município de Jordão. Saques às casas dos Kaxinawá. 2001b. "caboclos brabos" e "arredios". fato que suscitou surpresa. quase um século de existência da empresa seringalista e após a criação das terras indígenas nessa região10. Chefe do DEII. Tarauacá e Envira dos conflitos entre os Kaxinawá.364 175. ambas foram interditadas para "fins de estudos e definição". denominados na região de "índios brabos". talvez a maior população de isolados na Amazônia brasileira. os grupos de índios isolados aproveitaram esta conjuntura para ampliar seus territórios de habitação e uso de recursos naturais. ver Aquino. Nos rios Envira. seringais próximos e a cidade de Tarauacá. assim como conflitos armados. oito terras indígenas contíguas já reconhecidas pelo governo federal. com mortes de ambos os lados.a) Os índios isolados e a TI Alto Tarauacá No Vale do Alto Juruá acreano. Sidney Possuelo. 1999. 10 Sobre as relações dos brancos e dos Kaxinawá com os "isolados" ao longo do século XX e após a criação da TI Kaxinawá do Rio Jordão. elaborou. continuaram freqüentes. como durante o "tempo das correrias". Aquino & Iglesias. Humaitá e Tarauacá. Entre 1996-98.795 127. 1996.

Parentes do índio assassinado revidaram. a Presidência da Funai. o relatório de identificação e delimitação (Pereira Neto.500 ha. a Portaria nº 369. todavia. pouco dias antes da visita do Prefeito do Jordão à Funai. A 20 abril de 2001. de 18 de abril de 2000. Aprovado pelo Despacho Nº 18. declarou a TI Alto Tarauacá. da família Melo. 2000b. Auton Farias. O Prefeito Municipal de Jordão. Dézio Oliveira e Francisco Sampaio da Silva. coordenado pelo antropólogo Antônio Pereira Neto. que encontrou um grupo de três índios e matou um. Auton Farias.600 ha. 11 10 . com requintes de crueldade.000 ha. Turiano Farias. segundo declarou à época o superintendente da PF no Acre. faz limites com as TIs Kampa e Isolados do Rio Envira e Kaxinawá do Rio Humaitá e seringais do alto rio Murú. 2000c. determinou sua demarcação física. que incluiu sua castração e enterro em cova rasa. Conflitos entre isolados e famílias de seringueiros. no Município de Feijó. o que acabou não acontecendo. à imprensa de Rio Branco. A respeito desta diligência e seus desdobramentos no Município de Jordão. por exemplo. flechando a escola do seringal Seretama e obrigando os últimos moradores a abandonarem suas casas e colocações11. à época vereador. Na ocasião.600 ha. Em início junho de 2000. assinada pelo Ministro da Justiça. recebeu cópia desses documentos em visita feita à Administração Executiva Regional da Funai em Rio Branco (AER-RBR) em junho de 2000. 1999) teve seu resumo (Pereira Neto & Aquino. a 5 de abril de 2001. a TI Kaxinawá do Rio Jordão e o seringal Iracema. a 21 de maio de 1998. com 142. no âmbito do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL/ PPG7). em Rio Branco. publicou portaria de “restrição ao direito de ingresso. foi assinado. e comprovada a existência das malocas. por ocultação de cadáver e. e com a fronteira internacional Brasil-Peru. moradores da sede municipal. com o objetivo de fortalecer as ações da Frente de Proteção Etno-Ambiental Rio Envira e proteger os A Polícia Federal insatrou processo criminal para apurar o assassinato do índio na TI Alto Tarauacá e diligência foi realizada pela PF e a Funai em agosto de 2000. ainda. 2000) publicado no Diário Oficial da União de 20 de abril e no Diário Oficial do Estado do Acre de 15 de junho. realizou os trabalhos de identificação e delimitação da TI Alto Tarauacá. do Presidente da Funai. entre a Presidência da Funai. sem que a Funai realizasse estudos para sua identificação e delimitação. foram levantadas benfeitorias de boa-fé de 53 famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. O processo estava pronto para ser encaminhado à Justiça Federal em novembro de 2001. Ney Ferreira de Sousa. por co-autoria e ocultação de cadáver.A TI Alto Tarauacá permaneceu interditada de 1987 a 1998. por homicídio. Após mais de um ano e meio de negociações. Com extensão proposta de 142. no seringal Oriente. com extensão de 52. chefiou uma expedição de caçadores. continuaram ocorrendo com freqüência no Alto Tarauacá. sobrinho do atual prefeito do Jordão e à época vereador. 2002b. que ampliou a extensão da terra indígena para 132. locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros" do órgão. seu sobrinho. Dados os conflitos com as famílias que viviam nos seringais do alto rio Tarauacá. e abriu a possibilidade da indenização das benfeitorias de boa-fé das famílias de seringueiros e agricultores acreanos cadastradas pelo grupo técnico Funai/Incra três anos antes. Francisco Alves de Morais Filho (Chico do Maranhoto). ver Iglesias. como parte do ritual de regularização de terras indígenas no Brasil. dos limites propostos para esta terra indígena. A ação pedia a condenação de cinco indiciados: José Lourenço da Silva (Trubado). Em junho de 1998. por eventuais interessados. no Município de Jordão. grupo técnico da Funai-Incra. o Convênio Nº 001/2001. abrindo prazo de 90 dias para contestação. de posse permanente dos índios isolados. Governo do Estado do Acre e Prefeitura Municipal de Feijó.

prevista no âmbito do PPTAL para o segundo semestre de 2001. faixa de proteção ambiental com 5. Com duração de dois anos. Alto Tarauacá e Xinane. oportunidades de trabalho e inclusive espaço para criar as cabeças de gado que alguns poucos trouxeram do seringal. em outubro. no âmbito da Concorrência Nº 3/2001. publicada na edição de Natal do ano 2000. bem como dos conflitos armados entre índios e seringueiros. mas. tendo em vista a falta de moradias. tendo o governo estadual prometido honrar seus compromissos ao longo de 2002.101. criando a Zona Reservada Alto Purus. a indenização das benfeitorias dos ocupantes não-índios acabou não sendo realizada nesse ano. o então Presidente Alberto Fujimori assinou o Decreto Supremo Nº 030/2000AG. pouco antes da demarcação. acompanhado de técnicos da Funai e do Ministério do Meio Ambiente e de uma equipe da Revista Época. Prevista para acontecer em 2001. na TI Alto Tarauacá. 2001a. era objetivo do convênio que a Funai tivesse condições efetivas para estabelecer presença permanente também no alto rio Tarauacá. não foi iniciada qualquer ação da Frente no Município de Jordão e os poucos recursos liberados acabaram empregados na manutenção da reduzida equipe da sede da Frente na TI Kampa e Isolados do Rio Envira. as peças técnicas ainda não foram analisadas tecnicamente. Por esta razão. o convênio previa a estruturação de um posto de vigilância na foz do Rio D'Ouro. este trecho de 11 . bem como a contratação de pessoal e compra de material e equipamentos para as duas bases da Frente. Entregues no segundo semestre desse ano ao Departamento de Demarcação. A liberação de parte dos recursos para o início da execução do convênio acabou não acontecendo no segundo semestre de 2001. foi licitada a 12 de setembro. sem que houvesse qualquer acompanhamento de funcionários da Funai. impedindo o final do procedimento demarcatório e a homologação dessa terra indígena. antes da demarcação física. onde estava configurada grave crise social. A existência de índios isolados no Município de Jordão introduz. mesmo com recursos alocados para este fim e depois de Comissão de Sindicância da Funai ter. Para tal. elaborado e publicado no Diário Oficial da União parecer atestando a boa fé das benfeitorias de 52 famílias. por outro lado.945 ha. A 7 de julho de 2000. a atuação da Frente não visava promover o contato com os grupos de isolados. Contígua à fronteira internacional com o Brasil.índios isolados que vivem nas TIs Kampa e Isolados do Envira. sim. situada nos Departamentos de Ucayali e Madre de Dios. a necessidade de pensar esta situação à luz da fronteira internacional Brasil-Peru e das ações que o governo peruano e a organizações indígenas que atuam nesse país têm tomado para a criação de "zona reservadas" e "reservas territoriais" destinadas a essas populações indígenas "isoladas" (Iglesias. tendo sido declarada vencedora a empresa Engetop Topografia Ltda. A demarcação teve início na segunda quinzena de fevereiro de 2002. Seguindo a atual orientação do DEII. que logrou fazer a primeira foto de um índio nessa região. em Brasília. A demarcação física desta terra. quando a quase totalidade já se encontrava morando na sede do município. O governador Jorge Viana tomou esta decisão após visitar as instalações da Frente e sobrevoar as malocas. o que tampouco aconteceu. para impedir a continuidade das invasões nesta parte do território dos índios isolados por madeireiros e caçadores advindos da sede do Município de Jordão e de seus arredores. garantir-lhes a exclusividade no uso dos recursos naturais dos territórios que habitam naquelas terras indígenas. como previsto. Estas começaram a ser indenizadas em janeiro de 2002. 2001b).

vendera em 1987 essas propriedade a José Alves Pereira Neto. Kaxinawá do Rio Jordão e Kampa e Isolados do Rio Envira. em território peruano. têm sido invadidas por madeireiros. uma área de 506 mil ha. Em fevereiro de 1992.florestas se estende. extremando com o Município de Jordão. no Município de Senador Guiomard. anos depois. no conjunto dos seringais incidentes na Reserva Extrativista do Alto Juruá. coincidindo com os limites das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e do Baixo Rio Jordão. abrangendo partes dos Municípios de Jordão e Tarauacá. fora da Reserva do Alto Juruá. no trecho que coincide com os limites sul das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. reconhece a necessidade da tomada de medidas para proteger o direito ao livre trânsito e aos "usos tradicionais" das populações indígenas "en aislamiento voluntario" que têm "territórios ancestrais" nessa região. Reivindicações feitas desde 1988 pelo Conselho Nacional dos Seringueiros e pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais de Tarauacá 12 . Boa Vista. contígua ao lado oeste do Município de Jordão.724. Ambas foram propostas e sustentadas tecnicamente pela organização indígena Asociación Interétnica de Desarrollo de la Amazonia Peruana (AIDESEP). na nomeação de depositário particular para os imóveis. conforme. Em janeiro de 20002. Em início de 1996.263 ha. ex-senador biônico pela Arena e maior proprietário de seringais no Município de Tarauacá na década de 1970. estão situados no Município de Jordão. fazendo referência à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. portanto. deixou de honrar dívidas oriundas de financiamentos feitos junto ao Banco do Brasil para a implantação da Álcool Brasileiro S. nos limites norte das TIs Kaxinawá do Rio Jordão e Alto Tarauacá. Cabe lembrar que esses dois seringais se encontravam ocupados pelos Kaxinawá desde final de 1990 e que o Nova Empresa fora desapropriado pelo Ibama em janeiro de 1992. foi lavrado no Cartório de Tarauacá auto de penhora e depósito incidindo sobre ambos seringais. empresário paulista que. o Decreto Supremo 001-2002-AG reduziu a extensão da Zona Reservada Alto Purus para 2. nas bacias do rio Jordão e do alto rio Tarauacá. extremando com o Município de Jordão. todavia. passou a tramitar no CNPT-Ibama processo para a criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. entre as cabeceiras do rios Acre e Amônia. os seringais Nova Empresa. bem como palco de enfrentamentos violentos entre índios isolados e moradores locais.A (Alcobrás). já à época. A Zona Reservada é destinada à conservação da biodiversidade. Seu decreto de criação. esta ultima situada nas cabeceiras dos rios Yurua e Huacapahtea. Por não terem reconhecimento respaldo na legislação federal do país vizinho. atestavam seu mapa e seu memorial descritivo e rezava o consenso entre a população e lideranças dessa Reserva e as autoridades de Jordão e Marechal Thaumaturgo. Altevir Leal. Esses quatro seringais. resultando. com as TIs Alto Tarauacá. A Zona Reservada Alto Purus veio a incluir duas Reservas Territoriales destinadas a populações de índios isolados no Departamento de Ucayali: Alto Purus e Murunahua. todavia. Massapê e Duas Nações foram desapropriados pelo Ibama. O dono do Nova Empresa e do São Joaquim. traficantes e missionários. ainda. no Município de Marechal Thaumaturgo. b) A Reserva Extrativista do Alto Tarauacá Em janeiro de 1992. em cumprimento a carta precatória em que figurava como credor o Banco do Brasil e como devedores a Alcobrás e outros. mas manteve a área limítrofe à fronteira internacional coincidente com o Município de Jordão e Feijó. e criadas por Resolución Directoral Regional em 1997.

distribuídas em 133 colocações de sete seringais situados na margem esquerda do baixo rio Jordão e do rio Tarauacá. Cruzeiro do Vale.843. Duas Nações e Massapê. A intensificação das atividades agrícolas de terra firme e da criação de pequenos animais domésticos foi a estratégia buscada pela maioria das famílias para tentar garantir sua subsistência e vender excedentes junto a pequenos comerciantes do Jordão e a marreteiros de Tarauacá. É na área dos fundos destas reservas e terras indígenas que emanam alguns dos principais afluentes da margem direita do alto rio Juruá e da margem esquerda do rio Tarauacá. Valparaíso. Tabocal. 181 famílias. os moradores deixaram de pagar renda das estradas de seringa e passaram a se considerar donos de suas colocações. Tiveram prosseguimento nos meses de dezembro/97 e janeiro/98. Esta região é de extrema importância para a preservação da rica biodiversidade existente no Alto Juruá. a inclusão na área da Reserva dos seringais Alagoas (abrangendo Restauração. Na circunvizinhança desta Reserva há hoje quatro terras indígenas. através do Decreto Nº 8. e Riozinho da Liberdade. Houve um aumento significativo da densidade da ocupação na margem do rio Tarauacá e o progressivo abandono das colocações de centro. para a maioria das famílias. 1998a). Essas reivindicações. a partir de 1997. Nesta nova conjuntura. criara a Reserva Florestal do Território do Acre. que acabou formalizada em outubro (Iglesias. A população de seringueiros e agricultores que ali vivia em início de 1998 era de 1. Ouro Preto e Nazaré). pela Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá (ASAREAT) pleiteavam. apesar de ser retomada. em parte coincidente com a atual área da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. Os trabalhos preliminares para a criação da reserva extrativista foram iniciados pelo CNPT-Ibama em setembro e outubro de 1996 (Iglesias. em processo de criação.080 pessoas. decretada em 1990. quando. em pedaços ou mangas das estradas. quando havia preço e mercado para a borracha. abrindo campos e ampliando as pastagens nos arredores 13 . legitimavam a ocupação e a pretensão dos Kaxinawá de verem os seringais Nova Empresa e São Joaquim reconhecidos como terra indígena. Hermes da Fonseca. São Salvador e Primavera. já desapropriados. a 8 de novembro de 2000.e. Esta relevância já fora reconhecida pelo governo em início do século passado. o Presidente da República.199 ha. como resultado do abandono pelo governo federal das políticas de preços e garantia de mercado para a borracha do seringal nativo. por decreto presidencial. portanto. com extensão de 151. Grupos familiares com maiores recursos deram início a pequenas criações de gado. com a ida de nova equipe com a incumbência de elaborar proposta para fundamentar a criação da reserva. e outras duas reservas extrativistas: Alto Juruá. atividade central na combinação de atividades produtivas implementadas ao longo do ciclo anual. a saber: Tejo. A forte desarticulação da atividade gumífera no alto Tarauacá teve como resultado intensas migrações de dezenas de famílias de seringueiros para as sedes dos Municípios de Jordão e Tarauacá e suas proximidades. O corte da seringa deixou de ser. todas regularizadas. Os últimos patrões abandonaram os seringais da reserva. além do Boa Vista. Bagé. Processos semelhantes aos constatados nas terras indígenas Kaxinawá ocorreram na área da Reserva Extrativista ao longo dos anos 1990. Riozinho da Liberdade. 1997). A Reserva foi criada. Oriente e parte do Primavera. Gregório. deixando de atualizar as redes de aviamento através dos quais os seringueiros vendiam sua produção de borracha e compravam as mercadorias necessárias à vida na floresta. de 26 de julho de 1911.

já em curso. inclusive nos seringais da reserva.de suas casas. Em 1999. especialmente cedro e mogno. Em função do agravamento da crise da borracha. comerciantes. como fruto das mobilizações de parte dos moradores. contudo. entre 1997-98. através do Banco da Amazônia S. diminuíram posteriormente. organizou. incentivadas por regatões e levadas a cabo por moradores da cidade de Tarauacá e do Jordão. não dispunham de meios para a compra de arame farpado e o cercamento dos campos. Em janeiro de 2000. Dada a proximidade das colocações recém abertas na margem do rio. Na maioria dos casos. vendeu cerca de nove toneladas de borracha a duas empresas. as estratégias produtivas postas em prática pelos grupos familiares ganharam cada vez maior relação com as alternativas de comércio e a demanda por serviços na cidade. recebeu recursos do Programa Amazônia Solidária e constituiu um capital de giro inicial. tendo comercializado. dando condições para seu enraizamento e a construção de maior capacidade gerencial. de maneira a alargar sua representatividade e 14 . quase vinte. da ASAREAT e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Com a intermediação do Conselho Nacional dos Seringueiros. a Associação logrou acessar os primeiros recursos de programas governamentais. em especial daquelas do seringal Alagoas e arredores. importante desafio atual da ASAREAT continua sendo o de capitanear processos continuados de informação e discussão em todos os seringais do Alto Tarauacá. causados por invasões de criações domésticas (porcos e gado) nos roçados de terra firme e de praia.A. (BASA). Além da representação política dos moradores e do apoio à produção e comercialização da borracha. em 2000. tornaram-se comuns os conflitos e “questões” entre vizinhos. que procuravam novas alternativas de inserção na economia local. junto com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o Tribunal de Justiça do Acre. Com a criação da ASAREAT e sua legalização. A partir de 1999. uma edição do Projeto Cidadão. na sede do Município de Jordão. no tradicional Novenário de São Sebastião. Em 2001. com o objetivo de fortalecer a Associação. como parte do Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia. Em março desse ano. com a aquisição de dois barcos motorizados e dois aparelhos de radiofonia. com o qual manteve abastecidos com mercadorias básicas alguns entrepostos de compra da borracha produzida pelas famílias da Reserva e de seringais vizinhos. o que dificultou um maior aproveitamento de praias. políticos e proprietários de seringais empreenderam retiradas ilegais e predatórias de madeira de lei. barrancos e terras firmes em ambas as margens do rio Tarauacá. brancos e Kaxinawá. e financiar a produção de borracha de algumas famílias. deu início ao cadastramento de moradores da Reserva para viabilizar a obtenção de recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex). Assinou convênio com o governo estadual para fortalecer os sistemas de transporte e de comunicação. Nos seringais mais próximos à sede do Jordão. que resultou na documentação de muitos chefes de família. assim como pelos próprios moradores. teve início um gradual processo de organização das famílias de seringueiros e agricultores que moram nos seringais incidentes na Reserva. Ganharam monta também as caçadas e pescarias com fins comerciais. mais conhecida como Lei Chico Mendes. comuns até pouco tempo. no âmbito do Programa de Subvenção Econômica aos Seringueiros Produtores de Borracha Natural Bruta. Contou também com recursos do subsídio estadual. especialmente no sistema de diária para a Prefeitura e comerciantes locais. Estas atividades predatórias. aprovou projeto junto à Secretaria de Coordenação da Amazônia/MMA.

287 Kaxinawá nas três terras. composta por 249 famílias.se legitimar como instrumento de organização local. cujas malocas ficam situadas no Brasil e no Peru. confronto armado no Novo Segredo. À época. O uso das cabeceiras do rio Jordão pelos Kaxinawá tem sido gradualmente restrito desde meados dos anos 1980. Os roubos dos “brabos”. resultou na morte de um isolado. distribuídos em três terras indígenas. criado em 1998. os Kaxinawá constituíam pouco mais de um terço da população total do município. nos anos 1990. A população Kaxinawá mais que triplicou nos últimos 25 anos. Nos anos seguintes. Os Kaxinawá têm sido impossibilitados de aproveitar ricos recursos naturais do Novo Segredo. como os Kaxinawá se referem aos isolados em português. os diretores dessa instância de representação dos seringueiros e agricultores da Reserva. com vistas à eleição de representantes dos "povos da floresta" para a Câmara dos Vereadores local e ao delineamento de projetos que venham a resultar no reconhecimento de suas respectivas terras e em benefícios concretos para os moradores da reserva e das terras indígenas.482 ha contínuos de florestas e abrangem 20% da área total do Município de Jordão. contra as 55 que ali moravam em final de 1998. Por outro lado. Em fins de 1998. área de florestas que constitui cerca de 30% da extensão da TI Kaxinawá do Rio Jordão e abriga grande número de colocações e estradas de seringa desocupadas e fartos territórios de caça e de pesca. a família extensa dos Sereno abandonou este seringal.015 Kaxinawá distribuídos em oito seringais do rio Jordão. índios isolados. conforme exige a legislação. na elaboração coletiva dos Planos de Uso e de Desenvolvimento da reserva. que viviam em 14 aldeias e 171 casas. 15 . no médio curso do rio. provocaram intensas migrações dos Kaxinawá rumo ao baixo curso do rio Jordão. representantes da ASKARJ e vereadores indígenas. têm procurado firmar estratégias comuns com as lideranças Kaxinawá. a partir de 1998. interessadas em ter maior fartura de caça e retomar a produção de borracha através da produção de lâminas de couro vegetal. bem como avançar. às vezes em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jordão. com a vinda de famílias da aldeia Independência. Com a retirada dos patrões e seringueiros brancos. após duas incursões dos "isolados" no Bondoso. resultante do processo de reconhecimento oficial da terra indígena. transporte e comunicação. que servirão para a regulamentação das formas de uso e preservação dos recursos naturais e para definição de programas voltados ao desenvolvimento à melhoria das condições de educação. o Novo Segredo chegou a ser habitado por 125 pessoas. que só tornou a ser povoado em início de 2000. Recenseamento feito pela ASKARJ em início de 1992 revelou a existência de 1. saúde. por exemplo. como estes índios são denominados em hãtxa kui. os professores bilíngües realizaram novo censo. têm extensão de 107. Em 1988. que indicou uma população de 1. os isolados chegaram a saquear casas dos seringais Bondoso e Belo Monte. seringal mais às cabeceiras do rio Jordão. Em meados da década de 1980. e o medo de possíveis enfrentamentos e de conviver com sua presença nas proximidades das casas. passaram a saquear casas de famílias Kaxinawá. Neste mesmo ano. Ocupação e uso do novo território Kaxinawá Os dez seringais atualmente habitados e ocupados produtivamente pelos Kaxinawá. distribuídas em dez seringais. dois Kaxinawá foram baleados pelos “Jaminawa”. como represália. Com o progressivo esvaziamento do alto rio Jordão.

econômicas e territoriais destas famílias extensas nas novas aldeias.A. Bondoso. as "freguesias". Boa Esperança. O estilhaçamento do antigo sistema de poder político centrado em torno das "lideranças" e das cantinas. Em final de 1998. afinidade e vizinhança. contando também com financiamentos do Banco da Amazônia S. que viviam e produziam borracha nos seringais das três terras indígenas. quase três dezenas de famílias se mudaram para os seringais Alto do Bode. em ritmo lento. onde não foi totalmente abandonada. resultaram num intenso processo de rearranjo das alianças familiares. a partir de 1993. no rio Tarauacá. estes quatro seringais abrigavam 589 índios. levou ao comprometimento da cobertura florestal e da proteção natural das margens. 16 . que chegaram a um total de 25 neste ano. Se somados às famílias que neste mesma época moravam nos seringais Independência e Altamira. no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo (Prodex). A concentração das aldeias ao longo do rio Jordão tem resultando no uso mais intensivo dos trechos de florestas e capoeiras situadas em suas margens. dificultando a navegabilidade dos rios e privando as caças e peixes de fontes naturais de alimentação. e redundou na desarticulação da cooperativa e no redimensionamento do poder das "lideranças". com o esvaziamento das colocações de centro e o desmonte das antigas sedes. Três Fazendas e Independência. que antes acumulavam o cargo de "cantineiros" e centralizavam redes de aviamento em relação às demais famílias extensas. em certas aldeias. Em várias aldeias. e do sistema de poder político a ela associado. principais fontes de proteína animal na dieta cotidiana. em trechos de florestas bem mais escassos de peixes e caças grandes. somado aos fluxos migratórios rumo ao baixo curso do rio Jordão. na forma de lâminas de couro vegetal. antes usadas para a moradia e o corte da seringa. a produção de borracha. associado a renovadas estratégias políticas. a produção continua. com 892 índios. à época quase 60% dos Kaxinawá. e preferiu se concentrar nas margens do rio Jordão. foram abertas onze novas aldeias. através de parceria comercial assinada pela ASKARJ com a empresa Couro Vegetal da Amazônia S. No quadro configurado com o aprofundamento da crise da economia da borracha. mais fartas em caça. além de outras dez que se reagruparam em torno e nas proximidades das antigas sedes dos seringais. Esta crise combinou. esta cifra alcançava os 80%. Em apenas três aldeias. a desestruturação da cooperativa. Em 1992. assumiu peso bastante reduzido no conjunto de estratégias produtivas das famílias extensas. ligadas por laços de parentesco. em seu baixo curso.Nos anos 1990. A partir de 1994. com uma situação marcada pela ausência de canalização pela ASKARJ de recursos externos advindos de "projetos". a grande maioria das famílias extensas Kaxinawá optou por abandonar as colocações nos centros da floresta. Nova Empresa e São Joaquim. também próximos à sede do município.A. Desde então. Principal atividade voltada para comércio durante quase setenta anos. Um dos principais foi a profunda crise na economia da borracha desde meados dos anos 1980. Outros fatores contribuíram decisivamente para os intensos processos de reordenamento territorial e de redistribuição populacional dos Kaxinawá na última década. em 1996. esta proporção já alcançava os 70%. Resultou ainda. no baixo curso do rio Jordão. junto com a progressiva desnaturalização da matriz espacial do seringal. mais próximo à sede do Município de Jordão. numa relativa escassez de espécies florestais usadas na construção de casas e canoas e na confecção de outros instrumentos de uso cotidiano. resultou no surgimento de novas "aldeias". principalmente em seu baixo curso. formadas por números variáveis de famílias extensas.

por sua vez. é que muitas famílias Kaxinawá tem procurado garantir sua subsistência e encontrar alternativas para se inserir na restrita economia do Município de Jordão. apenas três mantinham residência fixa no Nova Empresa e São Joaquim. distribuídos por cinco colocações e uma "colônia" situadas nos dois seringais da terra indígena. mas moravam com suas famílias extensas na margem esquerda do rio Jordão. no seringal Boa Vista. a caça. conciliada com os plantios nos terreiros. atividade que colocou dificuldades adicionais aos plantios nas praias. resultou numa série de negociações e conflitos entre famílias Kaxinawá e esses moradores. junto com o preenchimento dos Laudos de Vistoria e Avaliação de Benfeitorias. assim. Embaixada da Suíça e CPI-Acre. desde novembro de 1993. em especial ao cultivo do amendoim. preferiu intensificar a diversificada agricultura de terra firme e de praia. seis famílias de seringueiros e agricultores. ocorrida de março a setembro de 2000. apontou 29 ocupantes. com suas lojas sortidas de mercadorias. Através desta nova combinação das atividades produtivas realizadas ao longo do ciclo anual. e agentes de saúde). De 1994 a 2000. onde cortavam seringa. que em muito tem permitido que esses "patrões" estejam enricando. inclusive pequenos rebanhos bovinos. à época já desapropriado pelo Ibama. 17 . solteiros. permitindo a compra de gêneros básicos necessários à subsistência de redes extensas de parentes. São freqüentes as queixas quanto à falta de mercado para a produção agrícola e as criações domésticas. as famílias Kaxinawá se mobilizavam para ocupar os seringais Nova Empresa e São Joaquim. Foi registrada no Cartório de Imóveis do Município de Tarauacá em 2 de janeiro de 2002 e na Secretaria de Patrimônio da União a 14 de março. fora. Alegando que apenas aguardavam a indenização para abandonarem suas colocações. portanto. aliada à criação de animais domésticos. aos baixos preços pagos por esses produtos e aos altos preços das mercadorias nos comércios da sede municipal. da terra identificada. e principalmente da indenização das benfeitorias. onde as redes comerciais são controladas por poucos comerciantes e marreteiros. estaduais e municipais. quando da assinatura do convênio Funai. O censo feito em março de 1994 pelos membros do GT de identificação. colônias e pomares.A maior parte das famílias extensas. A chegada de várias famílias Kaxinawá implicou na necessidade de estabelecer novos acordos com os "ocupantes não índios" que ali viviam enquanto não chegava a indenização de suas benfeitorias. envolvendo os proventos do INSS dos velhos aposentados. a pesca e a coleta. são hoje as principais fontes de renda de considerável parte das famílias Kaxinawá. Limites e Conflitos com os "ocupantes não índios" no baixo rio Jordão O processo de regularização da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão se estendeu por oito anos e cinco meses. Dessas famílias. Os demais ocupantes. o então Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto homologando sua demarcação física. A 30 de abril de 2001. ocupavam periodicamente outras duas colocações de centro no São Joaquim. O decreto de homologação foi publicado no Diário Oficial da União a 2 de maio de 2001. A comercialização das criações domésticas e de produtos agrícolas. os moradores continuaram ocupando estradas de seringa e cultivando as melhores terras firmes do seringal São Joaquim. no âmbito do PPTAL. e principalmente o recebimento das aposentadorias e salários de funcionários públicos (professores. como à restauração de formas de endividamento com os comerciantes no Jordão. plantavam e caçavam. A demora no avanço do processo de regularização. enquanto os trâmites administrativos se desenrolavam na burocracia da Funai.

ao abrir possibilidades efetivas para o usufruto exclusivo dos recursos naturais pelas famílias Kaxinawá e o engendramento de novos acordos com os moradores vizinhos do seringal Boa Vista. as lideranças Kaxinawá do alto Tarauacá e do baixo Jordão. encaminharia carta à Funai e ao Ibama cobrando providências. chegando a invadir colocações localizadas nas águas do alto Tarauacá. Por outro lado. muitas vezes interessados em vender carne de caça. o principal criador do Boa Vista. em muitos casos. e geravam freqüentes reclamações das famílias Kaxinawá da aldeia São Joaquim. fresco e salgado. mas. na sede municipal. Comunicou-lhe. bem como outras famílias do seringal Boa Vista. Como resultado destes conflitos e queixas. A partir de 1998. o peixe era vendido. não subiam o rio. Estas queixas se estendiam também às freqüentes invasões feitas pelo gado. durante os meses do verão. A demarcação física e seu "acompanhamento" A demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. o que não ocorreu. matando e espantando as caças. Apesar dos vários avisos feitos pelos chefes de família Kaxinawá. 18 . ainda. Francisco Alves de Moraes (Maranhoto). outra “questão” envolvia as pescarias. argumentando que eram esporádicas e usavam pouco tingui. porque moradores da sede municipal e do seringal São João colocavam mangas na foz do rio. Turiano Farias. Os Kaxinawá defendiam essas pescarias como parte de sua tradição. se queixaram ao então Vice-Prefeito do Jordão. os ocupantes insistiam em caçar com cachorro nas matas dos fundos do seringal São Joaquim. Todos no baixo Jordão. mobilizaram-se com maior sucesso para empatar a entrada de caçadores nestas duas terras. estes moradores também subiam o rio Jordão para mariscar de tarrafa e de mergulho nas cachoeiras. acabou por cercou seu campo com arame. No baixo Jordão. A criação de gado feita em dois campos não cercados no seringal Boa Vista impossibilitava o aproveitamento das poucas praias boas existentes no baixo curso do rio. 1998a. bastante reduzidas. inclusive no seringal Independência e Altamira. brancos e índios. que. Em fins de 1997. e a indenização das benfeitorias dos ocupantes não índios. antigo proprietário do seringal Boa Vista. Este solicitou ao vereador Kaxinawá Noberto Sales Tenê que aconselhasse seus parentes a interromper essas pescarias. 2002b). reclamavam das pescarias coletivas com tingui feitas pelas famílias Kaxinawá nos poços e tronqueiras ali existentes. ocorrida de março a setembro de 2000. que prejudicavam a durabilidade da macaxeira e dos demais legumes e frutíferas (Iglesias. que passou a ter grande demanda devido ao crescente processo de urbanização. diziam que se viam obrigados a usar esta alternativa para pescar. em agosto. Os ocupantes. Parte destas pescarias era para subsistência. sem comprometer o estoque de peixes no baixo Jordão. com apoio dos agentes agroflorestais. em seus roçados de terra firme e de praia. 2000d. desenharam novo cenário nessa situação de conflito vigente nos seis anos anteriores.obrigando os Kaxinawá a plantar seus roçados em terrenos alagadiços e de igapós. se queixavam de que as piracemas. Além disso. caso as denúncias prosseguissem. visto que os moradores do Boa Vista e da sede do município invadiam as matas da terra indígena. Isto também continuou sendo feito por moradores da sede do Município de Jordão. evitando novas invasões nos roçados dos Kaxinawá. poços e tronqueiras. de propriedade da ASKARJ.

as TIs Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. e os Postos Indígenas nas sedes dos municípios. A primeira reunião na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão foi realizada no dia 13 de março de 2000. de abril de 1999 a junho de 2000. Lima. agentes de saúde. Na primeira etapa. uma no início e outra no fim da demarcação. a participação indígena foi discutida com lideranças e chefes de família em reuniões nas aldeias. assinado pelo PPTAL e a Associação Agro-Extrativista Poyanawa do Barão e Ipiranga (AAPBI). com intermediação do PNUD.. Cachoeira. um por equipe da empresa. No caso Poyanawa. no Município de Marechal Thaumaturgo. 2000a. para que acompanhassem as demarcações.Em 2000. A licitação destas demarcações aconteceu em setembro de 1999. assessoria antropológica e instrumentalização com informações e recursos financeiros. no Município de Mâncio Lima. a TI Poyanawa. não caracterizando. na aldeia Nova Empresa. Além dos representantes indígenas indicados. professores. Kaxinawá da Praia do Carapanã e Kampa do Igarapé Primavera. agentes agroflorestais. Na etapa de "preparação das demarcações". dividida em três blocos: no Bloco I.777 ha. no Bloco III. 12 Esta instrumentalização. acompanhei as primeiras reuniões nas terras indígenas a serem demarcadas pela Asserplan (Iglesias. em Feijó. garantissem a correta materialização e a sinalização dos limites e gerassem subsídios para futuras ações de vigilância de suas terras. foi declarada vencedora para os serviços dos Blocos I e III e a Pórtico Engenharia Ltda. Em quatro outras terras. Estavam presentes 32 Kaxinawá. pelo Contrato de Prestação de Serviços Nº 99/025. consultor ad-hoc contratado pelo PPTAL. a TI Kulina do Igarapé do Pau. de Manaus. no Município de Tarauacá. A Asserplan-Engenharia e Consultoria Ltda. 13 Em 1999. e de mim. através do Edital de Tomada de Preços FUNAI/CEL/Nº01/99. a parceria esteve formalizada. 2002a). e no Bloco VI. Está prevista. Via a AER-RBR. com extensão total de 192. das aldeias Nova Empresa. vista como etapa crucial para potencializar e qualificar a participação indígena. além do responsável técnico da Asserplan. e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. A empresa pode propor na assembléia a contratação de mão de obra indígena. O custo dos representantes indígenas corre por conta da empresa. um total de cinco meses de campo. 2000a. que atuarão em convênio com o PPTAL e contarão com recursos próprios para este fim". entre fevereiro e abril.. contratado como consultor ad hoc do PPTAL de janeiro a dezembro de 2000. o PPTAL procurou motivar a "participação indígena" no acompanhamento destas seis demarcações. na casa do cacique Getúlio Sales Tenê. Torre da Lua. o PPTAL viabilizou a instrumentalização das comunidades Kaxinawá e Ashaninka. para acompanhar a demarcação e fazer a interlocução junto aos representantes desta. ocasiões vistas como indispensáveis para garantir a participação indígena. o PPTAL viabilizou a demarcação de seis terras indígenas em cinco municípios do Alto Juruá acreano. Morada Nova. fiscalizassem os trabalhos da Asserplan. todavia. São Joaquim. foi introduzida no edital de licitação das demarcações cláusula obrigando a empresa a realizar duas "assembléias" na aldeia principal da terra indígena. o PPTAL repassou recursos financeiros para a aquisição de materiais de consumo a serem usados pelas comunidades no acompanhamento das demarcações. de Rio Branco. 2002). foi viabilizada pela assessoria deste antropólogo. Luiz Takao Arashiro. para implementação do projeto "Acompanhamento e Consolidação da Demarcação Física da TI Poyanawa" (Iglesias. 2000d. remuneração. 2002a) Com apoio institucional e logístico. quando foram realizadas duas viagens às cinco terras. do Bloco VI (Iglesias. aposentados e outros chefes de família. na primeira assembléia. Bambu. o edital estipula que "os trabalhos de demarcação poderão a qualquer momento ser acompanhados e vistoriados por equipes indígenas. feitas por essas duas empresas de agrimensura contratadas pela Funai12. Esta atividade coincidiu com a realização da "primeira reunião" nestas cinco terras. que a comunidade indique seus representantes. lideranças. etapa que o edital passou a exigir das empresas de engenharia antes da chegada dos topógrafos e suas turmas de peões13. 19 .

na ata que resultou dessa reunião. para corrigir este erro. E ameaçava não completar os serviços no baixo rio Jordão caso o valor do termo aditivo ao contrato não superasse esse limite legal14. Antes de minha viagem ao Acre. a equipe poderia abrir a picada não prevista do outro lado do rio. da Prefeitura. a Funai afirmava que a legislação não permitia a regularização. já em Rio Branco. tanto no trecho com o seringal São João. na hora de pagar o serviço topográfico para a completa demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Na hora de reconhecer esses dois seringais como terra indígena. O principal foco de discussão esteve centrado no erro cometido pelo Departamento de Demarcação (DED/ DAF) na elaboração do edital de tomada de preços e. pois não tinham certeza se a Funai um dia os reconheceria e demarcaria como terra indígena. feita no âmbito do Projeto Reservas Extrativistas. e depois à Asserplan. parte também deste bloco. ao invés de tornar a abrir este trecho. as lideranças presentes fizeram questão de incluir que o PPTAL destinasse os recursos necessários à completa demarcação de sua terra. e a DAF e o PPTAL acabaram consentindo. O representante da empresa chegou a cogitar que. O edital não previu a abertura de qualquer picada na margem direita do baixo rio Jordão. na divisão de águas entre os rios Tarauacá e Jordão. alegando que a picada da Reserva invadira parte dos fundos de sua terra e cortara colocações e estradas de seringa. nos limites da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão com o seringal São João. acabou por deliberar que um termo aditivo com um acréscimo de 25% sobre o preço inicial. A empresa defendia que o acréscimo de 25% sobre o valor original. a completa demarcação de sua terra. durante a demarcação da Reserva Extrativista do Alto Juruá. em 1996 e 1997. nesta "primeira reunião". onde a invasão de caçadores era constante e a materialização do limite com o seringal da Prefeitura era desejado. Para tal. mas não no limite com o seringal Independência. além de outro cometido pelo DED na licitação da TI Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. pela Procuradoria Jurídica da Funai. os Kaxinawá exigiram. pois este trecho seria contígua a outra terra indígena. o entendimento do DED neste momento foi de que era necessária a abertura de picada somente no limite da terra indígena com o seringal São João. num primeiro momento. a abertura de nova picada nas terras da divisão da margem esquerda do baixo Jordão. já materializado pela Pórtico em 1998. todavia. portanto. o DED. E exigiram também a demarcação de todo o limite da terra da divisão na margem direita. à Coordenação Técnica do PPTAL e à Cooperação Técnica Alemã (GTZ). A empresa. não seria suficiente para cobrir os custos com os serviços extras a serem realizados nos rios Jordão e Breu. Mas. e com os seringais Independência e Altamira. E levantaram a possibilidade. na contratação dos serviços da demarcação. pleiteava a assinatura de um termo aditivo ao contrato e o acréscimo do valor estipulado para o serviço. 2002a). Após reconhecer o erro. caso isto não 14 A ironia nesta proposta inicial do DED era que a reivindicação dos Kaxinawá para a criação e regularização da TI Kaxinawá do Seringal Independência tinha sido obstaculizada por dois pareceres elaborados. 2000d. reivindicaram. ainda em Brasília. também do PP-G7.Os entendimentos entre o responsável técnico da empresa e os Kaxinawá não foram simples. primeiro. Os Kaxinawá. Surpresos com estes detalhes de ordem legal. Além destas demandas. 20 . como com os seringais Independência e Altamira. teto máximo estabelecido na legislação. que defendia a impossibilidade do órgão reconhecer como terra indígena os seringais comprados pela ASKARJ. por sua vez. o DED cogitou. que não era necessário a abrir a parte da picada que faz limite com seringal Independência. eu já percebera este erro e comunicara-o ao DED/DAF. não concordaram com esta proposta. Somente em abril. da ASKARJ. portanto. seria suficiente para realizar os dois trechos não orçados (Iglesias. teto máximo estabelecido por lei para a modificação de serviços licitados. após realizar os cálculos dos serviços extras que deveriam ser efetuados em função de erros cometidos por seus técnicos na licitação das TIs Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão.

colocados os marcos testemunhas e assentadas sete placas indicativas. em certos trechos. Foram abertas duas clareiras. em certos trechos. enquanto realizava esse mesmo serviço em outras terras que estavam sendo simultaneamente demarcadas pela empresa. um meloso e um cozinheiro). e dois guias e um carregador. em rápidas passagens. Ali. os Kaxinawá tornaram a constatar que a picada aberta dois anos antes. Lima. A equipe da Asserplan. no manual de normas técnicas para demarcações e no contrato assinado com a Funai. serviço previsto na licitação. penetrara na terra indígena em trechos extensos. com distâncias que. Na margem direita foi que se configurou o desentendimento mais sério entre o Getúlio e o topógrafo Dacildo (que um mês antes tivera a demarcação da TI Poyanawa. 2000a. a picada foi traçada com três metros de largura. mas não ao seringal Independência. acumulando-o com a coordenação da equipe indígena de acompanhamento. O operador de GPS se fez presente depois. os chefes de família Kaxinawá decidiram acompanhar os serviços antes de acessar os recursos destinados pelo PPTAL para este fim. Visto que a demarcação começou pouco mais de uma semana após a primeira reunião. Conforme decidido na primeira reunião. fazendo as medições e abrindo as picadas na mata bruta. passando pelas clareiras e picadas previamente abertas pela equipe da empresa e registrando os pontos para a posterior elaboração do memorial descritivo. paralisada pelos índios em função de divergências entre o memorial descritivo e os reais limites da terra indígena [Iglesias.acontecesse. no limite adjacente à Reserva Extrativista do Alto Juruá. variaram entre dez e vinte metros do lombo da terra. Durante todo o trabalho. Assim como já fizera na primeira reunião 21 . entrando com a mão de obra e a alimentação. parte das estradas de seringa da colocação Centro do Meio. Os trabalhadores da empresa seguiam atrás. todavia. Na margem esquerda do rio Jordão. sem a presença do operador de satélite e sem rastrear de ante mão todos os pontos geodésicos. empicando o traçado da terra da divisão. 2002]). como técnico da mesma empresa participara da demarcação da TI Kaxinawá do Rio Jordão em 1985). que coordenava. além de já pouco visível. inclusive. A discussão começara. rolando. junto com seu filho mais velho. que defendia a abertura da picada ao longo das linhas da divisão. no início do trabalho e remontava ao erro cometido pelo DED na licitação e às conversas tidas com o representante da Asserplan na primeira reunião. Cinco Kaxinawá foram contratados pelo topógrafo para integrar a equipe da empresa: um terçadeiro e um carregador de bateria. de forma a preservar os limites tradicionais entre os seringais das diferentes bacias hidrográficas (Jordão-Tejo. ficando a cargo da empresa disponibilizar o topógrafo e um operador de motoserra. na direita) e a garantir a integridade das colocações estradas de seringa em ambos lados da picada. iniciou os trabalhos no baixo rio Jordão a 21 de março. durante toda a demarcação. Getúlio e Joselino foram à frente da equipe da empresa. chefiada pelo topógrafo Dacildo de Menezes da Silva (que. visto se tratar de limite entre uma terra indígena e uma unidade de conservação. o cacique Getúlio Sales Tenê desempenhou o papel de representante oficial da comunidade junto à única equipe da empresa. a picada foi feita linhas retas. em duas oportunidades. na margem esquerda e Jordão-Tarauacá. O topógrafo informou a Getúlio que recebera ordens da empresa para demarcar apenas o limite adjacente ao seringal São João. na demarcação da Reserva. da própria comunidade completar o serviço restante. e composta por outros sete membros (dois operadores de motoserra. Contra o desejo de Getúlio. um terçadeiro. dois "balizas". Joselino Sales Banê.

No limite entre a terra indígena e o seringal São João. de observações realizadas num sobrevôo. Diante destas incongruências que apontei. O topógrafo concordou e a picada começou a ser aberta. Getúlio não concordou. portanto. A partir de então. Francisco Colombo. e o relatório da fiscalização. Esta reunião aconteceu na sede do Município de Jordão a 10 de agosto. pois todo o perímetro da terra deveria ficar totalmente demarcado. a demarcação poderia ser concluída. Na minha passagem por Brasília. confeccionado sobre dados repassadas pela Asserplan. homens e mulheres. até a cabeceira do igarapé João Ferro. em 1985. agentes agroflorestais. assentados os marcos de testemunha e colocada uma placa indicativa. sem que o fiscal ali tivesse pisado ou conversado com as lideranças Kaxinawá que haviam feito o acompanhamento. como demandavam os Kaxinawá. Neste momento. da TI Kaxinawá do Rio Jordão. incumbiu-me. mas o mapa anexo. que não haviam ficado prontos à época do início dos trabalhos. com o resultado já materializado da demarcação. para dirimir as dúvidas se o traçado exigido por Getúlio implicara em prejuízos para os moradores do Independência e para saber se estavam de acordo. professores. onde foram aberta uma clareira. por sinal. as picadas foram abertas com seis metros de largura. portanto. era melhor nem começarem. Getúlio conseguiu convencer o topógrafo que a picada. argumentou. agora com três metros de largura. ao invés de prosseguir no rumo do último ponto plotado no memorial descritivo da delimitação. Dacildo anunciou que não prosseguiria. agentes de saúde. nova exigência das demarcações no âmbito do PPTAL. a dissensão cresceu. resultado. assentados os marcos testemunha e colocadas duas placas indicativas. das três terras Kaxinawá do Município de Jordão. de realizar uma reunião com as comunidades Kaxinawá do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. caso a Funai e a Asserplan assim decidissem. conforme estabelece a legislação. elaborado pelo Departamento com base nas informações do fiscal. aproveitando minha ida à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão durante a segunda etapa da consultoria ao PPTAL. ou não. diferentemente. na confluência dos igarapés Batista e João ferro. Contou com a presença de cerca de 50 lideranças. o Chefe do DED. Neste ponto. conforme havia sido solicitado pela própria Asserplan. O topógrafo alegou que. insistindo que tinha alcançado as cabeceiras do igarapé Batista. Dacildo pareceu se conformar e a obra foi iniciada também na margem direita do rio Jordão. foram abertas duas clareias. no limite com o seringal Independência. indicava que a picada chegara apenas à cabeceira do igarapé João Ferro. para encostar no limite demarcado. feita por técnico da Funai. O relatório da fiscalização dava ciência que a demarcação alcançara as cabeceiras do igarapé Batista. bem como chefes de famílias. recebi do DED o relatório de fiscalização técnica da demarcação. Getúlio tornou a argumentar que se assim fosse. Faltava. por ocasião do retorno da empresa para colocação dos marcos geodésicos de fibra de vidro. de maneira a incluir todos os igarapés que colocam suas águas na margem direita do rio. em fins de junho. conforme as reivindicações dos Kaxinawá. bem como um croqui dos serviços realizados pela Asserplan. que haviam descido à sede municipal a 22 . de forma que todas as águas do baixo rio Jordão e as áreas mais ricas em caça estivessem incluídas. mas não teve jeito: a demarcação foi paralisada. Percebi incongruências entre o mapa. deveria ser levada até as cabeceiras do igarapé Batista. ao longo da terra da divisão. a abertura e medição da picada no trecho entre as cabeceiras destes dois igarapés.com o representante da Asserplan.

700 para 8. reafirmou a decisão tomada na primeira reunião com a empresa. As mobilizações e o acompanhamento atento das lideranças Kaxinawá permitiram. fez com que este limite coincidisse com a da terra indígena já regularizada e materializou corretamente os limites dos seringais do baixo rio Jordão com os seringais 23 . de forma conjunta. aproveitando o retorno da empresa para a colocação dos marcos de fibra de vidro. assim. Esta nova mobilização dos Kaxinawá resultou na ampliação desta terra de 7. garantiu a inclusão de todos os igarapés e das áreas de caça nela existentes. realizar esta empreitada. em campo. e que a demarcação física de seus limites fosse viabilizada no âmbito do PPTAL. a 13 de março. uma nova equipe da Asserplan se fez presente ao rio Jordão. feitas as alterações decorrentes da recente demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Por solicitação do Chefe do DED. que os seringais Independência e Altamira.726 ha. que poderiam ter visto sua terra demarcada em desacordo com seus anseios. As decisões tomadas nesta reunião tornaram a ser discutidas em visitas que realizei logo à continuação às aldeias do baixo rio Jordão e dos seringais Independência e Altamira. por fim. de propriedade da ASKARJ. seis meses após o início da demarcação. evitando problemas que talvez levassem meses para serem resolvidos em intrincados trâmites burocráticos. corrigir erros cometidos pela Funai na licitação e na contratação da demarcação. até encontrar o limite já demarcado da TI Kaxinawá do Rio Jordão. qualquer possibilidade de conflitos entre as comunidades Kaxinawá ou destas com o Hilário Melo. fosse realizada a demarcação do trecho da linha do divisor entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. de forma que ficasse correta e definitivamente fechado todo o perímetro da terra indígena. A ata que resultou desta reunião. Em setembro de 2000. para encerrar a demarcação. bem como as áreas mais ricas em caça. O documento cobrou que a Funai tomasse providências para que. de maneira a incluir todos os igarapés cujas águas colocam no rio Jordão. as lideranças reivindicaram. assinada por 33 lideranças Kaxinawá. Resultados 2000 e Propostas para 2001". Para tal. GTZ e principalmente das comunidades locais. exprefeito e proprietário desse seringal adjacente. para colocar os marcos geodésicos nas clareiras previamente abertas e concluir a abertura e a sinalização da picada entre as cabeceiras dos igarapés João Ferro e Batista. se colocou à disposição da equipe da empresa para. críticas dos doadores e frustrações da Funai. Aproveitando esta reunião. Foi esclarecido que este traçado da demarcação não causaria qualquer intrusão nos fundos do seringal Independência ou do seringal Iracema. para ser entregue ao DED e ao PPTAL. PPTAL. não havendo. de que todo o perímetro da terra indígena deveria ser demarcado. em ambas as margens do rio Jordão. a comunidade do baixo rio Jordão. em minha passagem por Rio Branco. conforme os limites estipulados no relatório de identificação e delimitação entregue ao DEID/DAF em novembro de 1995. fizera reunião na Asserplan para expor a representantes da empresa as reivindicações dos Kaxinawá e deixar cópia da ata da reunião recém realizada no Jordão. como exigiam os Kaxinawá desde a primeira reunião. liderada por Getúlio Sales. Reiterou que. Este documento foi entregue por mim ao DED e ao PPTAL em final de agosto. a picada deveria seguir até as cabeceiras do igarapé Batista.convite do governo do estado para participarem do Fórum "Orçamento Participativo-Jordão. novos desembolsos de recursos. fossem reconhecidos e regularizados como terra indígena.

que há seis anos aguardavam que a Funai indenizasse suas benfeitorias. em junho.Independência e Altamira. por uma comissão pagadora da Funai em agosto de 2000. em que invariavelmente batiam na tecla de que. Ao invés de ressaltar os benefícios trazidos por sua administração ou apresentar seus planos para um novo mandato. “os caboclos tomariam conta de todo o município”. De um lado. 2000b. onde nos reunimos com o Administrador Antônio Pereira Neto e Vânia Albano Lucena. criteriosa divulgação do início das demarcações fora feita junto à famílias de ocupantes nas TIs Kaxinawá da Praia do Carapanã. as criações domésticas seriam mortas. ao longo de toda a campanha. que pleiteava a reeleição. nas quais Siã Kaxinawá. colocar farta lenha na fogueira do preconceito latente entre boa parte da população branca do município. 2002b). o seringal da Prefeitura. os roçados invadidos e mulheres desrespeitadas. logrando com surpreendente eficácia. com chances de sucesso. os prazos da desocupação e o usufruto exclusivo pelos índios dos recursos de suas terras (Iglesias. Turiano Farias e seu vice. Foram mostrados documentos e as portarias declaratórias das terras e debatido o "Plano de Indenização e Remoção de Não-Índios em Terras Indígenas". discutimos com essas famílias de seringueiros e agricultores novos cenários e acordos que deveriam ganhar forma com a demarcação. na preparação e avaliação da demarcação física de seis terras indígenas no Vale do Juruá. ao cargo de Prefeito pela segunda vez (Iglesias. elaborado pelo Departamento Fundiário (DEF/ DAF) em 1999. Com as lideranças Kaxinawá e Ashaninka. Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Conversamos sobre o assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá e a diligência que a Funai e a PF estavam prestes a realizar na sede municipal e nessa terra indígena. achamos importante contextualizar com dados locais o momento em que estas atividades estariam sendo realizadas. bem como com as Reservas Extrativistas do Alto Juruá e do Alto Tarauacá. pois. a 23 de agosto. o militar Fernando Amim de Moura. caso Siã fosse eleito. Usavam como exemplos a recente demarcação das TIs Kampa do Igarapé Primavera e Kaxinawá do Baixo Rio 24 . ocorreu em um clima carregado no município. Estes alertas eram cruciais. junto com Siã Kaxinawá. uma turma de caçadores. nas duas etapas de minha consultoria ao PPTAL. realizamos visita à sede da AER-RBR. de 31 de julho. estava em pleno andamento tensa campanha para as eleições municipais de outubro. assassinara um índio isolado no seringal Oriente. a indenização. que a diligência poderia trazer para os interesses dos Kaxinawá e o resultado da campanha política em pleno curso. Afirmavam que Siã colocaria uma família Kaxinawá no terreiro de cada família de brancos. Siã aproveitou para alertar sobre desdobramentos. o discurso do candidato à prefeito pelo PPB. concorria. então Presidente da ASKARJ. na TI Alto Tarauacá. sobrinho do Prefeito Turiano Farias. No primeiro semestre de 2000. chefiada pelo vereador Auton Farias (PPB). positivos e negativos. vinham promovendo vários comícios e festas nos seringais. De retorno do Município de Jordão. assumira tom monocórdico. coordenadora da comissão pagadora instituída pela Portaria 753/PRES. 2000c e 2001a). De outro. A indenização dos ocupantes e a desintrusão da terra indígena A indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. fato que ganhara ampla repercussão na imprensa de Rio Branco. Apesar de ambos reconhecermos que a indenização e a diligência não deveriam em nenhum momento estarem condicionadas pela dinâmica da política partidária municipal.

mostramos preocupação com a decisão de fazer coincidir. haviam resultado no assassinato de três brancos (não se sabe quantos índios isolados) e em intensa migração das famílias de seringueiros e agricultores para a sede municipal e seringais próximos. ainda. 25 . e por dois agentes da Superintendência da Polícia Federal no Acre: José de Brito Lira Júnior e Marcelo Ferreira Fonseca. estiveram marcadas por seu envolvimento na diligência. por conta do rio seco. mas não pelo cacique Getúlio Sales Tenê. segundo alegaram os integrantes da comissão pagadora. Adauto Peres. nos quatro anos anteriores. o técnico em indigenismo Lacy Ferreira Lessa e o Chefe do Posto Indígena Tarauacá. as atividades de indenização com as da diligência. integrantes da comissão pagadora. Além de uma reunião. no Município de Jordão. foi realizada a indenização na TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. na TI Alto Tarauacá. Na sede do Município de Jordão. Procuravam. Vânia Albano de Lucena. a obrigatoriedade de pagar em mãos as indenizações nas TIs Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Kampa do Igarapé Primavera. e a "perseguição" que estava em curso pelo governo federal contra os " brancos" nos Municípios de Jordão e Tarauacá. feita pelas equipes da Funai e da PF. Turiano e seu vice deixavam subentendida a ligação dos Kaxinawá e da candidatura de Siã com os conflitos armados nos seringais da TI Alto Tarauacá. Pouco depois. a 26 de agosto. Por outro lado. semear desinformações sobre a veracidade da pretensão da Funai de criar esta terra indígena e da indenização dos ocupantes ali cadastrados pelo grupo técnico Funai-Incra em 1998.491.Jordão. e as reações dos ocupantes e das autoridades de Tarauacá e Jordão à demarcação das três terras indígenas nesses municípios. as atividades dos membros da Funai. que tornaram ao Oriente. de onde os ocupantes teriam de sair após a indenização de suas benfeitorias. candidato à reeleição e sobrinho do Prefeito. Apesar de reconhecermos a urgente necessidade da Funai tomar providências para a condenação dos culpados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. Esta preocupação tinha razão de ser pelo clima pesado no ambiente político local. chegou ao Jordão um helicóptero da Força Aérea Brasileira trazendo um delegado e um escrivão da PF e dois peritos do Instituto Médico Legal. na qual foi comunicado que seria realizada a indenização dos ocupantes da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. cuja casa não foi alcançada. aconteceram de 26 de agosto a 6 de setembro. onde o corpo foi desenterrado e levado a Cruzeiro do Sul. inclusive às que já haviam se retirado da terra indígena. Neste interim. que. e a diligência para a apuração da morte do índio isolado. ao seringal Oriente e ao local onde foi encontrado o corpo do índio assassinado.63 às seis famílias. com viagem prevista para o seringal Oriente. e a viagem. prazo extremamente exíguo quando levados em conta os deslocamentos necessários para chegar às terras indígenas. acompanhada por lideranças Kaxinawá da aldeia São Joaquim. de 27 a 30. e se mudado para a sede do Jordão e a cidade de Tarauacá. A comissão pagadora esteve composta por três servidores da AER-RBR: a Chefe do Setor de Atividades Produtivas. o envolvimento do vereador Auton Dourado de Farias. Foi pago um total de R$ 20. castrado e enterrado em cova rasa. com a presença de várias autoridades e cerca de 50 moradores do Jordão. viagem esta que foi acompanhada pela coordenadora da comissão pagadora. Os trabalhos de campo nos Municípios de Jordão e Tarauacá. as demais atividades estiveram diretamente relacionados aos objetivos da diligência: a coleta de depoimentos dos suspeitos e testemunhas. na Câmara de Vereadores. como mandante do crime.

prazo após o qual as benfeitorias indenizadas ficariam para a população Kaxinawá. é legítimo afirmar que mais “votos dos brancos” não foram dados a Siã Kaxinawá. Repetiu. Ficou claro. e isto foi motivo de grande alegria para as famílias e lideranças Ashaninka e Kaxinawá. da forma como foi levada a cabo pela Funai. pois voltaria a estes locais para matar os cachorros e prender os chefes de família. usar de respeito ao se relacionar com os brancos durante os trabalhos de indenização.207. apenas zelar pela tranqüilidade destas atividades. As negociações e os acordos foram fruto de tensas discussões entre as lideranças e os ocupantes. recebera denúncias a respeito de caçadas ilegais e invasões na terra indígena. foi realizada logo à continuação. logrou-se. "de Brito". ao chegar em suas casas. Mas. acompanharam as atividades da comissão. em várias ocasiões. Mesmo com percalços. dentre os quais. Segundo previsto. esta ação. Para essas famílias. José de Brito Lira Júnior. e se encarregaram de amplamente divulgar na vizinhança e na sede do município no dia da votação. portanto. como reação de várias famílias de moradores dos seringais e do município à violência que marcou a indenização na TI Kampa do Igarapé Primavera. em Rio Branco. vista como personalização da Funai e do governo federal. cabendo aos agentes da PF. as lideranças Kaxinawá e os membros da comissão. Os depoimentos de vários ocupantes desta terra indígena foram unânimes em apontar a truculência e o desrespeito que marcaram as ações do agente da PF. neste episódio. que não esquecessem seu nome. a conclusão de mais uma importante etapa da regularização dessas duas terras. felizmente. bem depois do levantamento de 1994. no caso da PF e a Funai receberem qualquer reclamação por parte das lideranças Ashaninka. Em várias oportunidades.Houve. que teve lugar poucos dias depois. a respectiva indenização e a assinatura do recibo de quitação. Discussões mais ásperas aconteceram apenas com o ocupante Francisco da Silva Silveira (Chagas Brás) a respeito do reduzido valor de sua indenização e de um motor de farinhada que ganhara da Prefeitura em 2000. a situação que viveram. mediadas pelos membros da comissão. os contatos e a costura de acordos. criterioso trabalho junto a cada chefe de família. veio a confirmar as ameaças de “perseguição” e invasão por parte dos índios pregadas pelo candidato do PPB e seu vice durante toda a campanha. com a explicação dos objetivos da viagem. com as demarcações. A costura dos acordos em relação a estes prazos foi tema de intensas discussões entre os ocupantes. Com relação à eleição no Município de Jordão. num total de R$ 24. o que. foi uma grande revolta dos ocupantes e vizinhos da terra indígena Ashaninka.21. que formalizou o recebimento do dinheiro e a data acordada para a desocupação do imóvel. Turiano Luiz e Armando Manoel. a indenização dos ocupantes e sua desintrusão. o abuso da autoridade por parte do agente da PF e uma clara inversão dos papéis e atribuições que caberiam aos membros da comissão pagadora. e que a coordenadora acreditava deveria também ficar para os índios. segundo a coordenadora da comissão. Duas lideranças Ashaninka. acabou não acontecendo. candidato da Frente Popular do Jordão. 26 . A indenização das seis famílias ocupantes na TI Kampa do Igarapé Primavera. supostamente capacitados para tal. De Brito chegou a dar um tiro de revólver para o chão no terreiro da casa de uma das famílias. o agente teria afirmado que. prejudicou outro desfecho possível para as eleições municipais no Município de Jordão. O resultado mais evidente da truculência que marcou esta passagem da comissão pagadora. é obrigação dos funcionários da Funai. já que foram.

de um depósito de água e de uma usina geradora de energia. A Vila fora demarcada nos moldes do Decreto N° 209. lavanderia (sem água). além de algumas casas comerciais. almoxarifado. esta inaugurada apenas em 2000. juiz de paz e oficiais do Corpo da Guarda. Com a criação do Departamento do Alto Tarauacá. de 12 de dezembro do ano anterior. em 1913. 1998a. Iglesias. dentre os quais. como entreposto comercial de apoio à atividade gumífera na região do alto Tarauacá. A Ata da Sessão de Instalação da Vila Jordão explicita que “posteriormente será adquirido maiores áreas de terras. delegacia. a administração do primeiro prefeito eleito. com mil metros quadrados. que ganharam maior número com a chegada de comerciantes de origem árabe nos anos 1920-30. com a construção de calçadas. o que aconteceu só em 1993. 1999). principalmente os que deveriam prestar serviços de atendimento à população. com outros grupos de atores e instituições. posto de saúde.processo pelo qual os Kaxinawá também procuravam construir novas modalidades de cultura e atuação política. quando a Prefeitura Municipal comprou o seringal São João. foi de início precário. Ali começaram a funcionar uma escola. Com a instalação da Vila Jordão. em 1957. e algumas das perspectivas que se configuram para os próximos anos. Neste período. caso necessite para o desenvolvimento da Vila”(sic). Em certos períodos. material de trabalho e profissionais capacitados e bem remunerados. cantina escolar. A partir de 1993. por falta de espaços físicos. O censo do IBGE em 1996 indicou as seguintes: escola estadual. A Vila Jordão foi oficialmente instalada. ainda. Hilário de Holanda Melo. casa do gerador e olaria. Os Kaxinawá e "o Jordão" Outra dimensão crucial para compreender o atual momento vivido pelos Kaxinawá. Apesar das diferentes conjunturas configuradas na economia gumífera na região. Este processo incluiu também a constituição de um conjunto de repartições públicas da administração municipal. Em 1905. Desde início do século passado. Manaus e Belém. houve um Sub-Prefeito na Vila. hospital (em construção). é o campo intersocietário constituído na sede do Município de Jordão. famílias extensas. 1997. um posto fiscal e uma guarnição. a foz do rio Jordão serviu. foi o comércio de borracha e de mercadorias que movimentou os seringais e as casas comerciais do Jordão por décadas. associação e povo etnicamente diferenciado. Prefeitura Municipal. recursos financeiros. ali instalou a sede da Oitava Circunscrição de Paz. casa do motor. escola. Câmara dos Vereadores. um delegado e um escrivão de polícia. nos arredores do perímetro urbano da sede do município recém criado e instalado. por sua localização estratégica. Thaumaturgo de Azevedo. creche. deu início à urbanização da sede do município. das redes elétrica e hidráulica e. como indivíduos. arena de múltiplas formas de relacionamento dos Kaxinawá. peladeira de arroz. esta passou a ser distrito do Município de Tarauacá. a Foz do Jordão passou. a Vila contou os serviços de profissionais de diferentes ofícios e funcionários públicos. contudo. mantendo-as articulada às redes de aviamento de casas comerciais de Tarauacá. a ser denominada Villa Jordão. 27 . O funcionamento de muitos órgãos públicos. o Prefeito do Departamento do Alto Juruá. cargo ocupado por membros das principais famílias de seringalistas e comerciantes locais. bem como aprofundar a cidadania e direitos arduamente conquistados nas duas décadas anteriores. do governo e da sociedade civil local (Aquino & Iglesias.

além de 38 unidades não residenciais. a católica e a Assembléia de Deus. bem como a um maior rigor nos levantamentos realizados pelos recenseadores contratados pelo IBGE. outras poucas famílias Kaxinawá se mudaram para a sede do Jordão. uma padaria e um lanche. indicaram uma população de 4. os aposentados Kaxinawá injetam ali hoje cerca de 17 mil reais todos os meses. dada a crise instalada na economia da região. a Prefeitura deu à "rua" defronte a este bairro o nome de Sueiro Sales. O aumento da população no período seguinte devese. prédios públicos.261 Kaxinawá que habitavam nas três terras indígenas. a Prefeitura doou um terreno nas adjacências da sede municipal. da qual 86% permaneciam na área rural. estes recursos representaram pouco mais de 14% do total do Fundo de Participação do Município e 7% das transferências constitucionais (FPM e Fundef) recebidos pela Prefeitura. duas igrejas. Tomando como base os dados do censo de 1980. Este acentuado decréscimo teve como razão principal o êxodo de famílias de seringueiros para a cidade e seringais de Tarauacá. outras 16 em construção pela Prefeitura. à maior visibilidade que muitas famílias ganharam ao se instalarem na sede municipal e na beira dos principais rios. grande quantidade de famílias extensas Kaxinawá desce à sede do município. No Novenário de São Sebastião. participam de festas. mas não há por ora qualquer tendência indicando que este processo ganhará maior monta num futuro próximo.Dados do Escritório Estadual do IBGE. 37 vagas. chegou a 548 cinco anos depois e a 863 em 2000. Levando em conta que a imensa maioria é aposentada pelo INSS. Em 2000.213 pessoas no Município de Jordão. onde grupos familiares chefiados por aposentados construíram mais de quarenta casas para seu uso e de suas famílias nos períodos de permanência na cidade. costumam participar da procissão e das desobrigas feitas pelo padre alemão da Paróquia de São José. À época. em meu entender. ocasiões em que fazem suas compras nos comércios locais. o censo demográfico do IBGE estimou a população do município em 4. Nos anos 1990. todavia. 23 de uso ocasional.973. Nas datas de recebimento das aposentadorias. portanto. em janeiro. dentre as quais. 26 pessoas. A população da área urbana. Ao longo de 2000. Os mais de 70 aposentados Kaxinawá contribuem significativamente para a oxigenação da economia local. a desarticulação das relações de aviamento nos barracões dos seringais e uma maior sujeição dos seringueiros junto aos regatões. oficina de motores. Em final de 1998. com a falta de preço e mercado para a borracha. e no seu "bairro". a população total do Jordão decresceu 16% até o ano de 1991 e 38% até 1996. A Prefeitura proibiu. num sítio comprado pelo então vereador Kaxinawá Noberto Sales. que os Kaxinawá ali plantassem. Em 1994. em final de 1991.454 pessoas. seis casas de comércio. de 28 . ganhando salário mínimo por mês (poucos são "Soldados da Borracha"). atualizam formas de sociabilidade próprias. por exemplo. das quais 81% vivendo na zona rural. Dados do censo de 1996 do IBGE indicaram uma população de 3. As famílias Kaxinawá têm hoje relevante papel na vida econômica do município. após terem saído dos centros. Levantamento do censo na área urbana do município em 1996 revelou a existência de 123 casas de residência. das quais 98% viviam na "zona rural". Em 1999. constatou-se uma constante e intensa migração rumo à sede do Jordão e a seringais e colônias próximos. 127 pessoas em 1991. habitavam na sede do município. eram 1. uma serraria. apenas cinco famílias indígenas. Mais recentemente. cerca de 30% da população total do município. em homenagem ao velho chefe Kaxinawá falecido dois anos antes.

Por outro lado. coqueluche e malária. Há hoje seis professores formados em nível médio. em setembro de 2001. que realizaram sua formação em cursos da CPI-Acre. que causaram várias mortes nos últimos anos. dentre os quais acesso à documentação. surgido muitos casos de febre tifóide e salmonelose. e realizadas na sede municipal ou em alguma aldeia nas terras indígenas. rubéola. As periódicas descidas "ao município" constituem hoje o principal momento para o encontro de parentes e famílias que habitam nas várias aldeias das três terras indígenas. catapora. o descompromisso das autoridades em relação aos agentes de saúde indígenas. oito Kaxinawá foram contratados como professores desde 1993. na esperança de serem contratados. agentes de saúde e agentes agroflorestais. A sede do município tornou-se local para acessar outras formas de benefícios individuais e familiares. entre os Kaxinawá e os brancos. convênio com a União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas (UNI) para repassar recursos à Prefeitura (hoje na ordem de 30 mil mensais) com a perspectiva da implantação de serviços diferenciados para a população indígena. do Setor de Educação da CPI-Acre. Afora estes momentos. outros trabalham ainda sem salário. tem. freqüentadas especialmente pelas lideranças. mesmo urgentes. com seu abastecimento de material e merenda escolar para os alunos. Dada a precariedade dos cursos de formação promovidos pela secretaria municipal de educação. reconhecidos pela Secretaria de Estado de Educação. que somavam 180 crianças em final de 1998. além dos três contratados pelo estado. de abastecimento de água e da coleta de lixo na sede municipal. 106 de hepatites. foram notificados 508 casos de malária. Importante mobilização dos professores tem sido no sentido de conseguir contratação e a construção de escolas nas terras indígenas. Estas medidas. além dos casos crônicos de hepatites. vários dos professores municipais passaram a partir de fins dos anos 1990 a freqüentar os cursos de formação da CPI-Acre em Rio Branco. Apenas em 1991. Outros 150 crianças Kaxinawá estudavam na rede de seis escolas estaduais. 1998b. 42 de rubéola e 91 de sarampo no Município. a falta de médicos e profissionais capacitados para entender as concepções indígenas de saúde e doença. em função das precárias condições da rede de saneamento básico. 1998c). levando-as para as aldeias quando para ali retornam (Iglesias.Tarauacá. fazer valer outros direitos reconhecidos em legislação e procurar acessar recursos de ações e programas promovidos por secretarias do governo municipal. que contraem estas doenças durante suas visitas e durante os períodos de maior concentração na sede urbana (em especial nas eleições. inclusive entre os Kaxinawá. 654 de febre tifóide. Estes somaram-se a outros seis professores da rede estadual que desde 1983 fazem sua formação nos cursos oferecidos anualmente pelo Projeto "Uma Experiência de Autoria dos Índios do Acre". No âmbito do programa de Distritos Sanitários Especiais Indígenas. professores. realizadas no auge da estação seca dos rios). Com a implantação do sistema educacional municipal. a discriminação sofrida pelos pacientes índios que procuram atendimento no posto no Jordão e o aparecimento de freqüentes surtos de sarampo. e as exigências de qualificação introduzidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. pouco alteraram a situação. a constituição de uma equipe permanente de saúde e o trabalho em parceria com os agentes indígenas de saúde em formação pela UNI. ocasiões privilegiadas são as esporádicas reuniões promovidas pela ASKARJ. 29 . dada a precariedade dos serviços municipais de prevenção e atendimento. a Fundação Nacional de Saúde estabeleceu.

de um ginásio e de um escritório de representação. serviços básicos e fontes de emprego e. a Prefeitura tem centralizado os recursos de convênios com o governo estadual e outras agências federais em obras na sede municipal. Até o presente. que permitissem a efetiva participação destes grupos. com mil metros de extensão em terra batida. Estas são medidas de fundamental importância para vitalizar a economia do Município de Jordão e adequar seu desenvolvimento à sua vocação histórica e às potencialidades ali existentes. a Prefeitura Municipal de Jordão não aventou a possibilidade de envolver outros setores da sociedade local para a elaboração de um plano de desenvolvimento adequado às potencialidades e especificidades do município. nos seringais. É fundamental que essas famílias possam atualizar formas tradicionais de ocupação territorial. com tímidas ações na ampliação e calçamento de ruas e na extensão da rede de distribuição de água encanada. O plano de desenvolvimento para o município deve favorecer condições para que as famílias de seringueiros e agricultores possam permanecer vivendo na floresta. As atividades produtivas dos grupos familiares em suas colocações. apesar de ter acontecido de forma sistemática todos os meses. Viabilizou também a construção nos fundos do perímetro urbano de uma nova pista de pouso. do governo federal. planejamento ou execução. ainda não acabada. na maioria das vezes por práticos. este com salário previsto de R$ 5. professores e agentes de saúde Kaxinawá.5 mil. O governo do estado apoiou a implementação de alguns ações locais de saúde e em 1998 iniciou uma série de obras na sede municipal. antes de abandonarem seus cargos alegando falta de condições de trabalho. acabou composta por dois enfermeiros e um auxiliar. com base nas colocações. para substituir a velha pista de grama. e estratégias econômicas que permitam subsistência farta e alternativas reais de comercialização. do Plano de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (PDLIS) do Município de Jordão. O governo estadual procurou tomar esta iniciativa por ocasião da elaboração. Apesar de terem envolvido autoridades e representantes de diferentes grupos de interesse. dois enfermeiros e um médico. É importante. dois meses depois. ainda. e em especial dos índios e seringueiros. além de garantir sua subsistência e melhores condições de saúde e de vida. e da discussão dos orçamentos participativos. estas ações pontuais não tiveram continuidade ou engendraram planos e ações de médio prazo. alegando a falta de apoio por parte das autoridades municipais. com previsão de asfaltamento. ameaçou largar o cargo.O modelo de repasse de recursos à Prefeitura para o atendimento à população indígena. urbana e da floresta. em fins de 1999. UNI e Prefeitura. Assim como com os da saúde para os índios. 30 . combinadas com o uso e preservação dos recursos naturais da floresta. na cidade. em sua definição. por falta de candidatos às vagas. podem resultar numa oferta significativa de alimentos para venda na sede do município. ao invés de incentivá-las a migrar para a sede municipal ou seus arredores. de 600 metros. O atendimento aos Kaxinawá voltou a ser realizado no posto de saúde do município. Apesar de aberto concurso para a contratação dois odontológos. construída em 1977 com a participação de mão de obra Kaxinawá. a equipe do convênio Funasa. em 2000-2001. de médico contratado pela Secretaria de Estado de Saúde para atender toda a população. com construção da escola estadual. que concentraram suas atividades na sede municipal e não procuraram envolver agentes de saúde indígenas. não tem surtido os efeitos esperados. inclusive a ASKARJ. até a chegada. em abril de 2003. que sejam garantidos. em parceria com a Comunidade Ativa. profissional que. lideranças. pois têm ficado sob administração do Prefeito.

Em 1992. com professores capacitados e bem remunerados. bem como legitimando suas negociações para a obtenção. junto a quem a cooperativa e alguns chefes das principais famílias extensas Kaxinawá lograram abrir canais para vender sua borracha e comprar mercadorias. por ocasião das primeiras mobilizações para o reconhecimento da terra indígena e a estruturação da cooperativa. Quatro anos depois. Melo era importante comerciante da Vila Jordão. Isto. viram na política oportunidade de redimensionar a matéria prima de sua ascendência local. sustentara seguidos conflitos com os Kaxinawá em fins dos anos 1970. permitem perspectivas de relacionamento das populações locais com diferentes órgãos do governo federal. merenda escolar e material didático. Em final de 1998. Os candidatos praticamente dividiram por igual os votos dos eleitores brancos. bem como da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. vistas como entraves ao desenvolvimento econômico do município. nos projetos políticos e nos procedimentos cotidianos dos membros das tradicionais famílias de comerciantes e políticos locais. bem como uma eficiente rede de transporte pública para deslocamento de passageiros e doentes e para o escoamento e a comercialização das produções no Jordão e em Tarauacá. Neste sentido. Por temor de partilharem os espaços institucionais e políticos que controlam há muitos anos. A proporção dos votos indígenas é hoje de aproximadamente 20% dos total dos votos. partidário. A existência das terras indígenas Kaxinawá. irmão de Turiano. mas decidiram o pleito a favor de Melo. logo após o plebiscito realizado para deliberar sobre a criação do município. Os Kaxinawá tiveram papel importante na estruturação de diretórios locais do Partido 31 . nas terras indígenas. apoiando suas mobilizações e reivindicações. face à crise já configurada na economia da borracha. Nesta época. pelo PMDB. através de suas próprias formas de organização e representação política. na segunda eleição desde a criação do município. porque o ex-arrendatário dos seringais do rio Jordão. na reserva extrativista e demais seringais do município. 333 Kaxinawá tinham título de eleitor. e Turiano Farias. Carlos Farias. A política local e os "tempos da política" A criação do Município de Jordão levou à configuração de um novo campo político. financeiros e técnicos. Mas. pelo PFL. tinham ocorrido novidades no quadro político local. preferindo apregoar contra o reconhecimento das novas terras indígenas. tendo sido já maior nos dois primeiros pleitos.oportunidades de estudo para as crianças. da ASAREAT e do Sindicato local. no qual os Kaxinawá tem participado cada vez mais ativamente (Iglesias. estadual e federal dessem condições para o fortalecimento da ASKARJ. estes optaram por dificultar os processos de fortalecimento político das organizações dos Kaxinawá e seringueiros. é crucial que os governos municipal. de educação e de saúde. que. de recursos. em parte. atendimento básico de saúde. 2000b. 2000c). as primeiras eleições no novo município colocaram frente à frente representantes das duas principais famílias de comerciantes e seringalistas do município: Hilário Melo. a criação da Reserva Extrativista e a atuação das associações e do sindicato. em função da dificuldade de acesso à documentação enfrentada à época pelos seringueiros brancos. 1998a. esta é uma visão bastante diferente daquela ainda arraigada na mentalidade. que permitam a implementação de ações econômicas. Os Kaxinawá não lançaram candidatos próprios. junto a órgãos dos governos federal e estadual e outras agências.

fatores que contribuíram para agravar a crise na economia e no comércio local. com óbvias melhorias nos serviços públicos de educação e saúde. Havia amplo descontentamento com o atraso dos salários dos servidores públicos. Os Kaxinawá. que viabilizou a implantação inicial do município. como resultado da desconfiança e preconceito suscitados pela candidatura de Siã. dos quais apenas um era Kaxinawá. apesar da falta de experiência política e parlamentar. ex-prefeito de Tarauacá. O prefeito não estabeleceu residência fixa no município. estes partidos constituíram uma terceira força na política local. as principais queixas das famílias de seringueiros e agricultores estavam centradas na ausência de serviços básicos. Na Câmara. devido ao atraso dos salários dos professores e das merendeiras e. Siã obteve 277 votos. Pontualidade no pagamento dos servidores e vagas de trabalho na diária passaram a ser direitos apenas dos correligionários.Verde e do Partidos dos Trabalhadores. O destino do recursos era decidido na Representação do Município de Jordão. vinham também se deteriorando. ponto alto da administração anterior. enfrentaram. Noberto Sales Tenê. Os partidos tradicionais tornaram a polarizar suas candidaturas: o PFL lançou Sebastião Aragão. principalmente de saúde. nos seringais e terras indígenas. inclusive com ameaças e agressões físicas contra aqueles que ousaram fazer-lhe oposição. com Turiano Farias como vice pelo PPB. e lançaram as candidaturas de Siã a prefeito e de meia dúzia de vereadores. visto pela maior parte dos brancos como “o caboclo” e “o candidato dos caboclos”. então vice-prefeito. o prefeito 32 . Os Kaxinawá fizeram novamente valer seu peso eleitoral. que teve Siã Kaxinawá. a Frente Popular do Jordão. Apesar da honesta administração tocada por Melo. votação que permitiu “puxar” outros três candidatos da legenda da Frente: dois do PT e um do PCdoB. algo em torno de 30% do total do eleitorado. merenda e fardas. cerrada oposição do bloco de sustentação do prefeito. Tendo ficado em terceiro lugar. a reboque de decisões do Tribunal de Contas do Estado e da Justiça Federal por processos judiciais que resultaram de desvio de recursos públicos em sua administração anterior em Tarauacá. pelo PV. o vice-prefeito Turiano Farias transformou a Prefeitura em feudo familiar e de seus correligionários políticos. Júnior foi cassado em agosto de 1998. que consumia boa parte do orçamento. Os primeiros anos do novo governo foram marcados por denúncias de favorecimento político. todavia. A Frente perdeu a prefeitura. Junto com o PCdoB. dois do PFL e um do PMDB. o PMDB saiu vitorioso das urnas. Nos seringais. procuraram desempenhar uma série de trabalhos em benefício das camadas mais necessitadas da população. com 217 votos. canalizando cerca de 60 votos entre os brancos. e o PMDB. os quatro vereadores da Frente. montada na cidade de Tarauacá. todavia. com a forte diminuição das oportunidades de trabalho para os diaristas e a falta de compromisso da Prefeitura com o pagamento dos aposentados na sede municipal. como presidente até 2001. A câmara ficou composta ainda por dois vereadores do PPB. Após assumir. à falta de material escolar. As mesmas queixas persistiram nos seringais e na cidade. elegeram o vereador mais votado. Os serviços prestados nas escolas públicas. que passaram a formar o bloco de sustentação do prefeito. corrupção e tentativas de cooptação de vereadores da oposição. Em 1997-98. ainda. o Presidente da ASKARJ. na sede municipal. Por não contar com os dois terços necessários em certas votações. Esperidião Menezes Júnior.

A Frente lançou uma chapa com quinze candidatos: quatro índios e onze brancos. em nível estadual. do PFL. visto que o PFL e o PPB. foi uma resposta a esse desafio. Logo após a cassação do prefeito Júnior. em decisões tomadas coletivamente. contudo. passos importantes nesta direção tinham sido dados. do PPB. Um único candidato Kaxinawá.e seu bloco tentaram. do PV. O slogan da nova campanha. Os Kaxinawá. o que conseguiram em final de 1998. A “direita” também teve processo complicado para a definição de seu único candidato. Turiano Farias. sob as orientações dos dirigentes do partido em Tarauacá. Os Kaxinawá não concordaram e fizeram prevalecer sua posição. tiveram ampla repercussão na imprensa de Rio Branco e exigiram a intervenção das direções estaduais de ambos partidos. Atendendo às diretrizes do gabinete do governador e das direções estaduais do PT e PCdoB. que não via resultados concretos de sua atuação parlamentar. os partidos reeditaram e registraram a Frente Popular do Jordão para as eleições municipais de 2000. A campanha de Siã concentrou-se entre a população branca do município. se coligaram. algo que não ocorrera em 1996. que levaram a nova ruptura na bancada que prevalecera nos dois anos anteriores. passou a receber críticas de seu povo. a Frente logrou conquistar a presidência da Câmara para os anos de 1999-2000. Mas. ainda. nos seringais do médio e alto Tarauacá e na sede municipal. As discordâncias entre as lideranças locais desses partidos sobre a convocação e o resultado da eleição culminaram com a invasão da sede do sindicato pelos filiados ao PCdoB. Esta iniciativa foi contestada pela nova direção do partido no município. formada em grande parte por moradores da sede municipal e da Reserva Extrativista. Sua candidatura contou desde o início com o total apoio das lideranças e do povo Kaxinawá. essa direção queria o lançamento de apenas dois índios candidatos. de forma a ampliar aqueles obtidos quatro anos antes. Prevaleceram. De novo. “Em defesa dos povos da floresta”. a um isolamento do vereador Kaxinawá Noberto Sales. professor municipal. A escolha da chapa majoritária tornou a evidenciar o racha e a candidatura de um vice-prefeito do PCdoB acabou abortada. A chapa lançada foi a mesma das eleições de 1996. que. no Movimento Democrático Acreano (MDA). antes presidido pelo PCdoB. o que desagradou seu desafeto político. lançaram quatro nomes a vereador pelo PT. o ex-prefeito Hilário Melo. Mesmo sabedora da importância do voto indígena para a eleição de uma bancada numerosa. a adesão de um dos vereadores da Frente. para garantir que parte dos votos dos Kaxinawá servisse para puxar outros candidatos brancos. foi convidado pelo prefeito e lançou sua candidatura a vereador pelo PMDB. Esta quebra ficou patente em 1999. desejosas de reeditar a Frente nas próximas eleições municipais. tendo a frente as lideranças das várias aldeias. inclsuive alguns dos quadros de sua Associação. Elias Paulino. seu principal desafio era canalizar os votos de boa parte dos eleitores brancos. projetos pessoais dos representantes do PT e PCdoB. com o 33 . Esta ruptura levou. ambos do PT. candidato imbatível na preferência popular após quatro anos da administração PMDB-PPB. adversários nas eleições municipais anteriores. quando da eleição para a escolha da nova diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais no Jordão. por sua vez. devido a desavenças surgidas em torno de sua gestão à frente da ASKARJ. em várias oportunidades. com os nomes de Siã Kaxinawá a prefeito e Francisco Rufo Figueira da Silva a vice. não abriu de concorrer à reeleição. com a filiação ao PMDB de um dos vereadores eleitos pelo PT.

da senadora Marina Silva e do deputado federal Nilson Mourão. e não se elegeu. de seu grupo familiar extenso. teve 22 votos. Um avanço importante nesta eleição foi a crescente mobilização das famílias extensas Kaxinawá. O candidato do PPB foi reeleito. Os cinco candidatos a vereador montaram espaços próprios para receber e alimentar seus eleitores. Três vereadores Kaxinawá lograram se eleger pelo PT. 57% do total dos votos válidos no município. Um dos vereadores eleitos em 1992. iniciativas que haviam contado com uma efetiva participação de Siã. da grande maioria dos servidores públicos lotados no Jordão e de várias famílias que ao votarem externaram reação à truculência da PF e da Funai na indenização das benfeitorias dos ocupantes das terras indígenas Kaxinawá e Ashaninka. a terceira e a oitava melhores votações: Sivaldo Barbosa Sereno. que aproveitou os votos da Frente Popular. Além dos três Kaxinawá. ficando com 20 votos. também Kaxinawá. a Câmara ficou composta por três vereadores do PMDB. o kupixawa construído no bairro Kaxinawá foi palco de reuniões diárias. procurando. concentraram suas campanhas nas aldeias das três terras indígenas. Virgulino Rodrigues Sales e João Sales da Rosa. que prometeram atuar como bancada unida. ficando com a primeira. que demonstraram grande crescimento de sua aceitação pelos brancos e descontentamento de muitos com os rumos tomados pelo governo municipal nos anos anteriores. somados. que perdera as eleições de 1996. Dado que. um do PPB e um PCdoB. todos novatos na política. em reuniões e festas.078 votos. capitalizou votos de tradicionais eleitores dos partidos de direita. que desceram em peso à sede municipal. nas quais foram discutidas estratégias para os dias finais da campanha e o dia da votação. um dos acusados pelo assassinato do índio isolado na TI Alto Tarauacá. Durante uma semana. que concorreu pelo PMDB. os que não queriam votar no "candidato dos caboclos". para apresentar propostas de trabalho. por sua vez. mobilizar suas redes familiares extensas. lideranças e representantes das famílias extensas. Mas. o trabalho dos três novos vereadores indígenas do partido. não tem sido simples na busca de trazer benefícios concretos para seu povo e as famílias extensas que os apoiaram. com a presença de Siã. um deles para o terceiro mandato. os cinco Kaxinawá candidatos a vereador tiveram um total de 380 votos. A campanha da Frente contou com o apoio do governo do estado e de representantes de sua base de sustentação no congresso. Siã obteve 818 votos. a fundação da ASAREAT. mas também passou a compor o bloco de sustentação do prefeito.início do processo de criação da Reserva Extrativista. todos do PT. Elias Paulino. por sua vez. Auton Farias. e a consolidação do PT no município. pois constituem o bloco de oposição ao prefeito. 34 . O primeiro suplente da Frente é Francisco Sabino. os candidatos. pode se calcular que cerca de 438 votos foram dados à candidatura de Siã por eleitores brancos. com 1. Houve alto índice de renovação na Câmara: apenas dois vereadores se reelegeram. através de visitas ao município do governador Jorge Viana. não se reelegeu. tecer acordos de apoio e planejar estratégias para o dia da votação. no seringal Alagoas. ocorrida poucas semanas antes. Sivaldo Barbosa Sereno foi eleito Presidente da Câmara para o biênio 2001-02. voltou à Câmara. Turiano Farias. Os Kaxinawá candidatos a vereador. um do PFL. Estes votos vieram principalmente dos seringais da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. tio de sua esposa.

Em abril. teve lugar a sexta assembléia geral da ASKARJ. ongs. ao negociar. José Ribamar Coelho de Moura e sua esposa Jamila Amin de Moura a 2 de junho de 1993. que contou com 107 participantes das várias aldeias. mediante o pagamento de Cr$ 150 milhões. agências humanitárias internacionais e a própria prefeitura municipal. ainda. Foram então compradas a metade e mais 5 partes da outra metade desses seringais. a US$ 35 . Autodemarcação dos seringais Independência e Altamira Na parte final deste texto. como parte dos processos de consolidação da ampliação territorial iniciada na primeira metade dos anos 1990 e de busca de reconhecimento oficial como terra indígena. Ainda nesse ano. através de transação de compra e venda. empresas. definida para os meses de agosto e setembro daquele ano. me parece no Brasil. tocado pela Secretaria de Coordenação da Amazônia. os Kaxinawá passaram a procurar meios para fortalecer a ASKARJ. Foi escolhida uma nova diretoria da ASKARJ e definida pauta a ser priorizada para o fortalecimento institucional da ASKARJ. recorrências constatadas ao compará-lo com outros momentos da conquista e garantia das duas terras indígenas já regularizadas no rio Jordão. Serão apontados aspectos originais deste processo. pelo povo que representa jurídica e politicamente. centradas na continuidade da produção de lâminas de couro vegetal e do adensamento agroflorestal dos terreiros e roçados. Em 2001 foi concluída a nova sede da Associação na sede municipal. para o planejamento dos trabalhos a serem realizados pelas lideranças e pelos agentes agroflorestais durante a autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. que coincidiu com o fechamento daquela que desde 1994 funcionava na cidade de Tarauacá. que foi financiado pelo Programa de Apoio ao Agroextrativismo da Amazônia. na retomada da produção de pranchas de borracha e no incremento da quantidade e qualidade da produção de artesanato tradicionalmente feito pelas mulheres. a melhoria dos programas de educação e saúde e a busca de novas alternativas econômicas. do Ministério do Meio Ambiente. à época. Os seringais Independência e Altamira foram adquiridos pela ASKARJ de seus antigos proprietários. a ASKARJ delineou o projeto Retomada da Produção Tradicional de Borracha. de subsistência e comercialização. bem como subsídios que esta situação apresenta quando se discute hoje novas alternativas para a regularização de terras indígenas no Brasil. com órgãos dos governos federal e estadual.Feita a avaliação dos resultados da eleição. e mais Cr$ 12. é novidade. como alternativa para a incorporação de uma nova extensão de terras contígua ao território já controlado. registrada em cartório. projetos e recursos para tentar garantir a vigilância e o uso sustentado desse território. feita no 2º Cartório de Notas da Comarca de Rio Branco. A assembléia serviu. promovida pelos Kaxinawá e a ASKARJ entre junho e setembro de 2001.5 milhões referentes à taxa de lavratura de escrituras públicas. pretendo tecer uma série de análises e comentários sobre a recente demarcação dos seringais Independência e Altamira. a aquisição de imóveis por uma associação indígena. Conjunturas e possibilidades De início. na forma de terra indígenas reconhecidas pelo governo federal. bem como a internalização de novos recursos e benefícios para as aldeias das três terras indígenas. Estas transações importaram num montante equivalente.

em início do ano. que acabaram gerando sobreposições das ações de diferentes órgãos do governo federal sobre o seringal Nova Empresa. da herdeira Raimunda de Andrade Pessoa. a venda de importantes seringais no alto Tarauacá. Assim. alegando que a direção da instituição temia as repercussões que poderiam advir. foi também efetivada com outra parte de recursos do Prêmio Reebok. ficou por fim definido que igual montante de recursos. equivalentes a US$ 1. com ênfase na estruturação da sede da ASKARJ recém comprada na cidade de Tarauacá. do tipo "ong estrangeira usa associação indígena para comprar terras na Amazônia". 1995). a ASKARJ comprou. José Ribamar Coelho de Moura. A 23 de maio de 1994. A ASKARJ.7.300. intensas negociações das lideranças locais e dos representantes da ASKARJ junto às famílias de seringueiros e agricultores que ali moravam.150. no baixo rio Jordão. Os recursos para a compra dos seringais Independência e Altamira. advieram do Programa de Desenvolvimento Sustentado da Área Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. Capitalizando um momento favorável da ASKARJ. todavia. em reconhecimento por sua luta em prol dos direitos territoriais e políticos dos índios e seringueiros do Alto Juruá. a ASKARJ recebeu a oferta de venda feita pelo então proprietário. O caráter inovador da estratégia implementada pelas lideranças e a ASKARJ para viabilizar a ampliação do território controlado pelos Kaxinawá ganha realce também ao levar-se em conta que essas compras foram levadas a cabo pouco tempo após a conclusão da regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão e da ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. reivindicado pelos Kaxinawá como parte de seu novo território. financiado com outros fins pela ong World Wildlife Fund (WWF-USA). ao comprar outros seringais de proprietários em dificuldades financeiras e sem intenções de voltar a morar na floresta ou de se envolver no comércio de borracha e mercadorias. De outro lado. oriundos do Prêmio. Presidente da Associação. Após uma série de negociações. Ambas estratégias demandaram. além de sua implementação pelas famílias Kaxinawá. Por outro lado. A primeira reação do representante da WWF responsável pelo projeto foi fortemente negativa. isto ocorreu numa conjuntura em que outras redefinições territoriais importantes começavam a se concretizar em nível local. a compra do seringal São João pela Prefeitura Municipal e a incorporação de outros seringais ao patrimônio do governo federal. em 1994. denominada “Colônia Altamira”. ofereceu reembolsar o dinheiro investido. com a criação do Município de Jordão. filha do proprietário anterior do seringal (Aquino. as lideranças Kaxinawá resolveram. Esta não chegou a ser consultada quando. a última sexta parte da metade dos seringais. que dispunha de recursos de projetos. aos proprietários dos seringais vizinhos e às 36 . e numa conjuntura em que tornava-se cada vez mais claro o aprofundamento da crise na economia da borracha. fazendo uso de parte dos recursos do Prêmio Reebok de Direitos Humanos. através de desapropriações promovidas pelo Ibama e da penhora executada pelo Banco do Brasil. comerciante e patrão com o qual o velho chefe Sueiro Cerqueira Sales trabalhara nas décadas de 1950-70. resolveram aproveitar uma oportunidade única. a fonte dos recursos utilizados para viabilizar esta aquisição constituiu outro fator de inovação. primeiro. se antecipar. por Cr$ 2 milhões. seria reinvestido nos objetivos originais do projeto. ganho em 1993 por Siã Kaxinawá. A compra da Colônia Altamira. em junho de 1993. ao ocupar seringais que se encontravam sem patrão e ao propor acordos comerciais aos seringueiros que à época não contavam com qualquer assistência de seus antigos patrões.

Na visão daqueles mesmos críticos. à propriedade dos seringais e ao seu uso pelos Kaxinawá. no futuro. que não configuravam uma terra tradicionalmente ocupada. atendendo a uma recomendação do DEID/DAF. buscar alternativas para o reconhecimento e a regularização destes como terra indígena. Segundo. ao garantir sua demarcação física e indenizar as benfeitorias de boa fé das dez famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam. Primeiro. Conforme diziam os Kaxinawá. a Presidência do órgão. bem coletivo dos Kaxinawá. que os seringais haviam sido comprados pela ASKARJ de seus legítimos proprietários. a adequação desta estratégia foi posta em questionamento por muitos. todavia. assim como os recursos investidos na compra. pois desobrigaria a ASKARJ a anualmente arcar com custos relativos ao pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR). ao assentar as bases para um relacionamento mais harmônico entre índios e brancos e ao livrar a ASKARJ de anualmente pagar o ITR à Receita Federal. à época. esta era providência indispensável a um correto eqüacionamento dessa questão com os moradores brancos e à futura garantia e vigilância desta terra. ao assegurar aos Kaxinawá o usufruto exclusivo dos recursos naturais. neste caso específico. através da Funai. Terceiro. No caso dos seringais Independência e Altamira. com sua incorporação ao patrimônio da União e sua retirada do mercado de terras. ser objeto de nova transação imobiliária. como estipulado pela Constituição Federal e pelo Decreto 1. determinou que o GT PP 1. em especial funcionários da Funai em Brasília e Rio Branco. Na visão das lideranças. dado. em tese com todas as benfeitorias ali existentes. O imbróglio jurídico Outro conjunto relevante de questões está relacionado aos posicionamentos jurídicos assumidos por diferentes instâncias da Funai face a esta inovadora demanda apresentada pela ASKARJ. Isto poderia causar de ordem legal à Associação. que resultaram numa gradual legitimação de ambas as ações protagonizadas pelos Kaxinawá durante a redefinição de seu território anterior. junto à Funai. Por que da regularização como terra indígena? Iniciado o processo de ampliação territorial. da ASKARJ e de seus assessores foi de que a regularização desses seringais pela Funai como terra indígena. colocando riscos reais. a demarcação física da terra e a indenização das benfeitorias dos antigos moradores. que não disporia de receita própria para fazer frente a esta obrigação.autoridades do Município de Jordão. Em final de 1993. com o argumento que. a ASKARJ procurou prontamente fazer gestões para. com a ocupação dos seringais ocupados e comprados. a visão das lideranças. não constituiriam. seriam "desperdiçados". eles poderiam ser vendidos. que em breve faria várias 37 .204/93.775/96. pois obrigaria ao governo federal. obrigações do governo federal. pois este procedimento legal impediria que os seringais pudessem. as quais tinham sido cadastradas quando dos trabalhos de identificação realizados pela Funai e o Incra em março de 1994. do mesmo jeito que esses seringais foram comprados. a cumprir suas atribuições legais após seu reconhecimento como terra indígena. a médio prazo. uma vez ocorrido o reconhecimento oficial dos seringais como terra indígena. toda a originalidade da iniciativa. por um lado. ao transferir-se um patrimônio particular da ASKARJ. Diferentemente. atendendo a uma demanda feita pela ASSKARJ. por outro. era desejável por diversas razões. para o patrimônio da União. e.

portanto. solicitando que se manifestasse a respeito do reconhecimento dominial dessa terra. consultar Rios. Este registro. o DEID/DAF encaminhou o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral da Funai. Esta proposta do GT gerou diferentes entendimentos dentro da Funai. Através deste ato. 2002 e Mendes. Em duas oportunidades. Para atender a reivindicação da ASKARJ. deveria explicitar que o imóvel ficava destinado à posse permanente da comunidade Kaxinawá.identificações de terras indígenas no Estado do Acre. 2001. 15 A este respeito. que. também se deslocasse aos seringais Independência e Nova Empresa para "realizar levantamento da ocupação indígena". após uma década e meia de tramitação. devido à estranheza que inicialmente causou à nova direção do Departamento. Ao propor esta solução. hoje. que instituíra novo procedimento para a regularização das terras indígenas no país. quando. como previsto nos Artigos 17 e 32 da Lei 6. seis meses após a promulgação do Decreto 1. justificando a adequação de regularização dessa terra indígena. as lideranças e as famílias Kaxinawá para a ampliação de seu território anterior. relativa ao reconhecimento dos seringais Independência e Altamira como terra indígena. Em relação à indenização das benfeitorias dos ocupantes. a seguir. o Processo Funai/BSB/2325/96 acabou sendo protocolado apenas em julho de 1996. o relatório de identificação e delimitação recomendou sua regularização como "terra de domínio indígena". antropólogo Walter Coutinho Jr. preservando. mas. a chefia do DEID sugeriu ao GT que propusesse a criação de duas novas terras indígenas no Município de Jordão. esta solicitação foi formalizada em memorando do então coordenador de Delimitação e Análise do DEID. em 1994..001/73 (Estatuto do Índio). configurada pelos diferentes processos de ampliação territorial recém protagonizados pelos Kaxinawá e pela demanda formalizada pela ASKARJ. o DEID confrontou. 38 . a Presidência da Funai reconheceu uma situação de fato. o memorando defendia que fosse ouvida a Procuradoria Geral do órgão. não podendo ser objeto de arrendamento ou qualquer outro ato legal que pudesse restringir o usufruto exclusivo dos recursos naturais pela comunidade e o seu pleno exercício da posse. visto que. cuja regularização fora concluída em 1991. Cabe apontar que o relatório da TI Kaxinawá do Seringal Independência foi apresentado ao DEID em novembro de 1995. a seu ver. colocaram em rota de colisão o DEID/DAF e a Procuradoria Geral a respeito do encaminhamento mais adequado para a demanda da ASKARJ e a forma proposta no relatório de identificação para atendê-la. com adequação. Já na fase de elaboração dos relatórios de identificação e delimitação. § 6. com sua demarcação e registro em cartório como terra de domínio indígena. em 1996 e 1997. a proposta inicialmente defendida pela ASKARJ. Vale a pena retomar brevemente essas diferentes visões. em junho de 1996. que era a de legitimar esta expansão através da redefinição dos limites da TI Kaxinawá do Rio Jordão. no entender do Coordenador. a especificidade de cada um destes processos inovadores postos em prática pela ASKARJ.775/96. Na primeira. assim. da Constituição previa este tipo de ato apenas em casos de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. o artigo 231. são discutidas novas alternativas para o reconhecimento e a regularização de terras indígenas no país15. 2001.

que devolveu o processo à DAF. seria necessária a realização de estudos de cunho antropológico. ainda que indígena. da ASKARJ e. a inalienabilidade do imóvel.O Parecer nº 012/96 da Procuradoria Geral da Funai. da comunidade Kaxinawá. conforme previsto na Constituição e na legislação infraconstitucional. dando-lhe o mesmo tratamento a estas destinado. Milton Cintra de Paula. portanto. o disposto no artigo 231 da Constituição federal não se aplicaria ao caso. entendeu que. Walter Coutinho Jr. em termos legais. um possível ato administrativo de reconhecimento da terra indígena. pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. e por outras disposições expressas tanto na Constituição Federal como no art. o domínio se constituíra pelo próprio título de aquisição do seringal. incorporando-a ao patrimônio da União. assinado pelo Coordenador de Assuntos Fundiários. O que não poderia se fazer. de outros atos legais para tornar-se de pleno direito. 39 . Em seu sumário despacho. sem que fosse ferido o título de domínio indígena do qual a ASKARJ já era detentora. já pleno. dispor sobre a coisa alheia. solicitando nova análise. propriedade de pessoa jurídica de direito privado. tornando nulo o título de propriedade. mesmo que o este viesse a ser reconhecido exclusivamente como terra de domínio da Associação. caso o objetivo final fosse evitar o eventual arrendamento da terra ou sua futura venda por diretores da Associação. 32 do Estatuto do Índio. Por outro lado. Na Informação nº278/PG/97. uma sociedade civil. não asseguraria a proteção desta terra. a Procuradora acrescentou que. Ana Maria de Carvalho Moreira. Lêda Bandeira. Apenas neste caso. Milton Cintra de Paula. Neste novo memorando. Em junho de 1997. tornou a enviar o processo da TI Kaxinawá do Seringal Independência à Procuradoria Geral. era. Para isto. por extensão. contudo. prescindindo. sendo a terra de propriedade de uma associação. Este parecer contou com a aprovação da Procuradora Geral da Funai. este coloca que não vislumbrava alternativa para assegurar esta proteção. para efeito de proteção. violentar ou transfigurar esse título de propriedade por interferência indébita. Em seu entender. ou seja. que deliberou pela devolução do processo à DAF. o então Diretor Substituto de Assuntos Fundiários. nos moldes estabelecidos pela Constituição e o Decreto 1. ou seja. ao declarar a terra como de domínio indígena. a 19 de agosto. Com base em seu parecer anterior.775/96. sem validade. tendo em visto que os estatutos da ASKARJ poderiam ser alterados em outra situação após aquela em que se faria constar a impossibilidade do arrendamento ou da alienação do imóvel. considerou "írrito". a União poderia assumir todos os encargos da demarcação. encaminhada à Procuradora Geral Interina. devidamente registrado em cartório em nome da ASKARJ. sem outra recomendação para seu posterior encaminhamento. após assim deliberado pelo voto de seus associados. o mais indicado seria fazer constar estas proibições no estatuto da ASKARJ. considerando que a proposta feita no Parecer nº 012/96. ou seja. contra os interesses da comunidade. Esta Informação foi aprovada pela Procuradora Geral Interina. para que essa terra passasse a gozar dos mesmos direitos conferidos às de ocupação tradicional indígena. tornou a afirmar que o ato administrativo de reconhecimento da terra de domínio indígena não teria efeito jurídico nenhum e nem incluiria os seringais comprados dentre as terras indígenas de domínio da União. que dessem base à proposta de criação de uma terra indígena.. demarcação física dos limites e indenização das benfeitorias de boa fé dos ocupantes não índios. solicitava a sugestão de dispositivo jurídico que viesse a garantir.

logo antes. nenhuma providência neste sentido acabou sendo tomada pela DAF. desde 1996. Desde então. as listagens de terras indígenas produzidas pela DAF e a lista de terras prioritárias para regularização com recursos do PPTAL16. especialista em assuntos indígenas. ato que não foi tomado até hoje no caso da TI Kaxinawá do Seringal Independência. a TI Kaxinawá do Seringal Independência. do Banco Mundial. da lista de terras prioritárias para identificação no âmbito do Projeto. um conjunto de discussões visando encontrar meios que. onde eles foram anteriormente registrados. após receber ofício assinado por Judith Lisansky. o antropólogo do DEID/DAF. Por isto. por parte da ASKARJ e das lideranças Kaxinawá. e de várias gestões das lideranças Kaxinawá junto à AER-RBR. mesmo quando a TI Kaxinawá do Seringal Independência integrava. quando. que orientasse a Associação na realização destes trâmites. 40 . que o projeto original da autodemarcação. Roque de Barros Laraia. Esta posição passou a constar de documentos resultantes de assembléias e reuniões promovidas pela ASKARJ. cabendo à nossa comunidade indígena o usufruto exclusivo de suas riquezas naturais e todas as utilidades neles existentes". este tema foi retomado.O fato é que conjunto de documentos elaborado pela Procuradoria Geral da Funai em 1996-97 acabaram por obstaculizar o início do processo de regularização dos dois seringais como terra indígena. em nome do nosso povo. que coordenara os trabalhos de campo realizados pelo GT PP 1. À época. a Informação Nº 020/DEID/99.204/93 e redigira o relatório de identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. portanto. respeitando a legislação do país. Neste novo registro. dentre as quais. ou de qualquer ato jurídico que restrinja o pleno exercício da mencionada posse. Para tentar encaminhar esta posição. para fundamentar a assinatura do convênio. em novembro de 1999. por fim. deverá constar que esses dois imóveis destinam-se à posse permanente da comunidade Kaxinawá de Jordão e não poderão ser objeto de arrendamento. abrissem novas alternativas para lograr o reconhecimento oficial e a regularização destes seringais como terra indígena. ou averbação ao registro anterior. É interessante notar. do início do recente processo de autodemarcação. A exclusão destas da listagem do PPTAL foi à época justificada pela representante do Banco Mundial por não haver informação disponível para permitir a operacionalização de seus planos de regularização. a ASKARJ solicita apoio da assessoria jurídica da Funai para "realizar uma nova matrícula dos seringais Independência e Altamira nos Cartórios de Registro de Imóveis de Rio Branco e Tarauacá. bem como a transferência da propriedade destes da ASKARJ para o povo Kaxinawá do Município de Jordão. A 20 de junho de 2001. redigido pela ASKARJ e a CPI-Acre. Nesta carta.325/96 fosse encaminhado à AER-RBR para que o Administrador prestasse assessoria jurídica à ASKARJ para registrar em cartório esta transferência da propriedade dos seringais para o povo Kaxinawá do Jordão. assinada pelo Presidente da ASKARJ. sugerindo que o processo Nº 22. Terri Valle de Aquino. A falta de qualquer manifestação por parte da Funai nos dois anos seguintes motivou. estas terras deveriam permanecer fora do lista de prioridades até o momento em que a Funai providenciasse à Coordenação do PPTAL informações adicionais que justificassem sua reinclusão. explicitando a impossibilidade da alienação futura destes seringais. em carta enviada ao Administrador da AER-RBR. vistos como alternativa que pudesse fazer avançar o reconhecimento e regularização dos 16 Esta última situação mudou apenas em final de 1999. a Coordenação do PPTAL retirou dez terras indígenas. encaminhou ao Diretor da DAF. passou a ser contemplado o registro em cartório da alteração dos estatutos da ASKARJ. previa a aplicação de parte dos recursos na contratação da consultoria de advogado.

de preferência sem a intervenção do Estado. para viabilizar sua reprodução física. Neste tipo de aquisição. em função de crescimento demográfico acelerado. ou mesmo por algum particular interessado em contribuir com os projetos indígenas de futuro. com a boa vontade da Funai em disponibilizar a assessoria solicitada em mais de uma ocasião. sem engendrar conflitos com os demais grupos de atores da sociedade envolvente. para além dos procedimentos oficiais já vigentes. direito previsto a qualquer cidadão na Constituição Federal. o Procurador Regional da República. sem qualquer embaraço" (ibid. Novas alternativas para regularização de terras indígenas no Brasil? A recuperação desta questão de ordem jurídica. o essencial nesta compra de terras pelos próprios índios. têm necessidade de ampliar seus territórios. inclusive à ampliação protagonizada pelos Kaxinawá com a compra dos seringais Independência e Altamira. será beneficiada com a doação ou qualquer outra forma de transferência de domínio" (ibid). ou de pressões econômicas surgidas desde o reconhecimento oficial de suas terras. parece também adequar-se com precisão ao caso de várias populações na Amazônia. Se essa situação aparece no texto mais referenciada àquela vivida hoje por muitas populações indígenas nas regiões Nordeste. mais uma vez. quem compra a terra. Segundo Rios. Sudeste e Sul. é a compra de propriedades pelas próprias comunidades ou organizações indígenas. dando-se prioridade às ações de campo e contando. diminuindo-se o custo político e financeiro do procedimento de demarcação de terras indígenas" (ibid. este parece ser o mesmo objetivo da ASKARJ quando. social e cultural. Em auspicioso artigo publicado na Revista Brasil Indígena. pg. mas sim "garantir a destinação do imóvel adquirido à posse permanente da comunidade indígena que. Ora. a aquisição direta deve ser seguida da "transferência de domínio sobre as terras em questão para a comunidade beneficiada ou para a União Federal.seringais como terra indígena. De acordo com o Procurador. em diversas oportunidades. Segundo Rios. é "garantir que as novas demandas ou pressões econômicas ou sociais possam ser resolvidas. uma das alternativas para viabilizar que essas comunidades tenham acesso a novas terras contíguas às já reconhecidas oficialmente. de forma a garantir seu crescimento populacional e sua reprodução econômica. em forma de propriedade reservada. bem como dos contornos particulares que assumiu no caso dos seringais comprados pela ASKARJ. ou a fonte dos recursos utilizados. de forma pacífica. reflete sobre formas de aquisição de terras indígenas. segundo Rios. o essencial não é. destinada a assegurar a posse permanente dos índios à referida terra e ao usufruto exclusivo dessas terras pela comunidade indígena beneficiada. em Brasília. em junho de 2001. ao final. Aurélio Virgílio Veiga Rios. Rios (2001) reflete sobre o caso de comunidades indígenas que. Devido a cortes no montante dos recursos originalmente destinados ao projeto. formalizou que desejava transferir a propriedade dos seringais Independência e do Altamira para o povo Kaxinawá do 41 . mesmo com terras já reconhecidas pela Funai. 26). em função das modificações pelas quais passou sua inserção no Município de Jordão nos últimos dez anos e as formas de aproveitamento do território que controlavam anteriormente. esta atividade acabou não sendo realizada. pg. da Funai. 27). não previsto quando do início da regularização. que podem vir a abrir novas alternativas jurídicas para a regularização de terras para os índios. Em seu artigo. parece bastante útil e atual neste momento.

Parte da argumentação da Procuradoria Geral da Funai deixava implícita que. sua não regularização como terra indígena. Segundo informações do Presidente da ASKARJ. apesar destes seringais serem já de domínio da ASKARJ e. e. com base nas demandas das lideranças Kaxinawá e da ASKARJ. Outro ponto a ser atentado é que. transformando-os em terra indígena. Pelo fato de ser uma propriedade particular. ao longo de sete anos. como forma de obrigar a Funai a realizar sua demarcação e a indenização dos ocupantes não índios que ali viviam. tendo em vista tratarem-se de terras ocupadas por uma população indígena. num segundo momento à União. não haveria praticamente nenhum custo atualmente para a União reconhecer e regularizar estes seringais como terra indígena. comunidade que ela legitimamente representa. é importante apontar que modificações significativas aconteceram em nível local desde 1995. ou seriam obrigados a desocupá-los. a Associação devia à Receita Federal. por absoluta falta de recursos próprios para arcar com esta obrigação. algo em torno de quatro mil reais. estando hoje os seringais unicamente ocupados e utilizados pela comunidade indígena. poderia no futuro vir a colocar obstáculos de ordem legal para este mesmo domínio. caso a União. foi se dando aos poucos. em início de 2002. pois comprada e inserida no mercado de terras. fico a me perguntar? Teriam os Kaxinawá direito de permanecer nesses seringais. por não se tratarem de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. podendo inclusive vir a ser reconhecida e regularizada pelo procedimento administrativo usual vigente no país. de forma pacífica. quando o Relatório de Identificação da TI Kaxinawá do Seringal Independência. A (auto)demarcação dos limites desses seringais acabou sendo realizada pelo próprios Kaxinawá. sobre ela incide o pagamento de ITR. ou seja. O que aconteceria então. com recursos de outras fontes. portanto. mesmo que estas não sejam parte do patrimônio da União? Estas são algumas questões que permanecem hoje. dentre outras coisas. incorporadas ao patrimônio da União e que a ASKARJ venha a ser considerada como inadimplente e impossibilitada de acessar recursos oficiais e de programas tocados pelo governo federal. conforme prevê a Constituição Federal e o Decreto 1.775/96. Por outro lado.Município de Jordão. ironicamente. numa decisão extrema. Em outra direção. para as quais a ASKARJ e as lideranças 42 . é possível afirmar que estes dois seringais também constituem hoje. em 1994. decorridos quase oito anos de sua compra. em caso afirmativo. solicitar da Receita que não mais fosse cobrado o imposto. mesmo quando isto implicaria em abrir mão do domínio legalmente constituído sobre esses imóveis. decidisse incorporá-los a seu patrimônio e dar-lhes outra destinação? Com a mera transferência da propriedade dos seringais da ASKARJ para o povo Kaxinawá. propôs a regularização dos seringais como terra indígena. parte do patrimônio da União. A retirada dos ocupantes não índios que ali viviam antes da passagem do GT da Funai. a União não poderia assumir o ônus da execução destas atividades. conforme alertou a segunda informação da própria Procuradoria Geral da Funai. por isso. quem passaria a ser o responsável legal desta propriedade perante a Receita? Este ato isentaria as famílias Kaxinawá que ali vivem de pagar anualmente o ITR? Caberia à Funai e ao Incra. O progressivo acúmulo deste débito poderá futuramente acarretar que estas propriedades sejam. da demarcação física e da indenização de benfeitorias de ocupantes não índios. comprados em seu nome e registrados em cartório. uma terra de ocupação tradicional indígena. da comunidade Kaxinawá. Descartada a necessidade.

que então coordenava um survey exploratório promovido pela Funai na região. na qual foi declarada vencedora a empresa Serviços Técnicos de Agrimensura e Geodésia Ltda. após a passagem da Funai. mais uma vez. foram feitas seguidas tentativas de consegui-la. em distintos contextos de sua história recente. a mobilizações protagonizadas pelos Kaxinawá em outros momentos importantes da conquista e da regularização de suas outras duas terras. que incluía as colocações Dispensa. patrões e comerciantes da Vila Jordão e Tarauacá. em muitos momentos. por um lado. pois a picada ameaçava deixar de fora várias colocações. a demarcação foi paralisada definitivamente pelas lideranças Kaxinawá que acompanhavam a equipe da empresa. por falta de recursos próprios para contratar uma assessoria jurídica adequada. que Sueiro recebera de sua madrinha e controlava fazia cerca de três décadas. esta autodemarcação constituiu um processo inovador. para coroar este processo. Na margem esquerda do rio Jordão. Constâncias Serão tecidos agora alguns comentários sobre aspectos mais sociais e políticos do processo de autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. liderados por Getúlio. com variadas formas. perante as autoridades e os demais grupos da sociedade de Jordão. que os puseram em prática. falta ainda. torna-se claro que processos de autodemarcação e de ativa participação em demarcações não constituem novidade para os Kaxinawá. em Brasília e em Rio Branco. Em 1980. respostas precisas. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um passo tomado pelos Kaxinawá no sentido de materializar os limites de uma terra que legalmente e de fato já lhes pertence. A demarcação do Fortaleza aconteceu com recursos dos próprios Kaxinawá. que. após a primeira passagem do antropólogo Terri Valle de Aquino pelo rio Jordão. Pouco após seu início. ela deve ser referenciada. para o qual facilitaram e desoneraram o quanto puderam as obrigações que acreditavam caber ao governo federal neste processo. chefiados por Sueiro Cerqueira Sales e seu filho Getúlio Sales Tenê. Em 1975. seu reconhecimento como terra indígena. onde haviam identificado grande quantidade de seringas virgens e lugar que acabou se tornando moradia da família extensa de Getúlio de 1983 a 1991. estradas de 43 . elencando algumas constâncias em relação a outros momentos de mobilização empreendidos pelos Kaxinawá para a conquista de suas terras nos últimos 25 anos. Papagaio e Duas Nações. demarcaram o seringal Fortaleza. Mas. junto à qual. com grande importância para a garantia dos atuais limites de seu território. Esta autodemarcação foi feita como resposta às pressões dos proprietários dos seringais vizinhos. e dado o descompromisso demonstrado pela Funai. a Funai abriu licitação pública nacional para a demarcação física da TI Kaxinawá do Rio Jordão.parecem não ter. enfrentaram ameaças dos patrões e de seringueiros brancos quando resolveram incluir um trecho de florestas situado nas cabeceiras do igarapé Jardim. seguindo as terras do divisão que separam as águas deste rio das bacias dos rios Tarauacá e Tejo. e garantir seu usufruto exclusivo sobre os recursos naturais ali existentes. por outro. os Kaxinawá. vislumbraram a chance real de uma ação do governo para reconhecer uma terra indígena no rio Jordão. os Kaxinawá. Nesse movimento. Se. (SETAG). evitando a continuidade das invasões patrocinadas por caçadores e pescadores. na visão da ASKARJ e dos Kaxinawá do Município de Jordão. marcar este fato publicamente. Foram tirados piques nos limites em ambas margens do rio Jordão.

e para a cooperação internacional. no Acre e no Brasil. 1991. foi novamente um dos pontos altos. dinheiro este que foi reinvestido no movimento comercial da cooperativa (Aquino. assinada por Gerson da Silva Alves. com a medição e sinalização das picadas. conforme os limites estabelecidos na nova portaria declaratória publicada quatro meses antes. além de agentes agroflorestais de todas as aldeias das três terras do Município de Jordão. Ali. Somente após o término desta empreitada. que acabar de ser demarcada. Getúlio e Siã foram à Brasília. Iglesias. Tejo e Breu. Na autodemarcação. para iniciar a demarcação. que conciliou o trabalho de dois velhos mateiros. as lideranças preferiram não ver sua terra demarcada de maneira que em implicaria em prejuízos permanentes à integridade de seu território. como reconhecimento por seu trabalho. com as atividades de 17 agentes agroflorestais indígenas. que ganhara licitação pública nacional aberta pela Funai no âmbito do Plano de Proteção ao Meio Ambiente e às Comunidades Indígenas (PMACI). novo ator social nas 44 . No rio Jordão. devido a erros na base cartográfica do Radam e nas coordenadas geográficas e no mapa do memorial descritivo elaborados pela Funai. chegou no rio Jordão. com exceção do trecho adjacente à TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. cansados de exigirem a demarcação de sua terra. roçados.seringa. piques de caça e outros importantes recursos naturais. os Kaxinawá organizaram turmas em cada um dos seis seringais e abriram piques em todos os limites da terra indígena. que oferecem subsídios de valor para os movimentos indígenas. comunicaram ao Ministério da Reforma Agrária e ao Presidente da Funai que iniciariam a demarcação de sua terra por conta própria. Conseguiram autorização. 1996. ao mobilizar. a intensa participação dos Kaxinawá. ao longo das terras da divisão com os rios Tarauacá. levando-se em conta o arranjo institucional que a viabilizou. Em 1985. 1992. 5% foram devolvidos pela Asserplan às lideranças Kaxinawá. a fonte dos recursos financeiros e a intensa participação indígena em sua execução. e cumpriu as exigências técnicas inerentes à obra de engenharia. responsáveis pela abertura inicial dos piques ao longo do perímetro desses dois seringais. foi que a Asserplan. 1994). fazendo uso de recursos levantados com a venda de parte da produção de borracha da cooperativa. à época respondendo pela Presidência da Funai. Aquino & Iglesias. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira incluiu uma série de ações inovadoras. órgãos governamentais e ongs de apoio. durante o planejamento e a execução. Nesta ocasião. serão destacadas novidades que caracterizaram a recente autodemarcação dos seringais Independência e Altamira. lideranças e chefes de família locais. custeada com recursos da própria cooperativa. ao apontar alternativas que podem resultar no barateamento do custo das demarcações e permitir redirecionar parte dos recursos para garantir maiores investimentos no fortalecimento institucional das organizações e das comunidades e em seus projetos coletivos de gestão e vigilância territorial. Do Senado ao seringal. e de volta à Funai em Brasília A título de conclusão. Do valor total da demarcação.

que reconheceu a categoria de agente agroflorestal indígena. prescindindo da derrubada das grandes árvores. em nível local e face à população urbana e às autoridades do município. nos limites naturais e em ambas as margens do rio Tarauacá. além de quatro oficinas itinerantes em terras indígenas. Durante a demarcação.526 ha. Desde 1996. ganharam inspiração naquelas realizadas no acompanhamento da demarcação da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (Iglesias. Em iniciativa conjunta com a AER-RBR. ricas em frutos. Nas três terras Kaxinawá do Município de Jordão. o dono do Iracema. foram confeccionadas 18 placas padrão Funai. Katukina. que a CPI-Acre dispõe em Rio Branco. do movimento indígena e da CPI-Acre. foram realizados sete cursos de capacitação de agentes agroflorestais no Centro de Formação dos Povos da Floresta. Yawanawá. foi posto em prática diversificado leque de ações destinado a dar visibilidade e divulgação à demarcação e aos limites da terra. após chegar acompanhado com uma equipe de policiais militares armados. Manchineri. usada nas demarcações convencionais. que. 2000d). Recursos do Projeto Demonstrativo (PD/A). bem como alternativa pouco adequada. estas terras têm extensão agregada de 1. por baixo da mata. 2000a). Este tipo túnel foi preferido à picada de seis metros. e continuada durante oficina de capacitação para os agentes agroflorestais promovida pela CPIAcre no seringal Independência logo após o encerramento do trabalho. há quinze agentes. têm sido direcionados para apoiar este projeto inovador de gestão ambiental em terras indígenas da Amazônia brasileira. Como resultado da combinação destes conhecimentos. utilizando mudas de diversas espécies de frutas. atendendo antiga demanda dos próprios agentes. Outras atividades mobilizadas na autodemarcação. de propriedade da Prefeitura. nas linhas da divisão. agentes agroflorestais e demais chefes de família Kaxinawá durante o planejamento dos trabalhos locais. o livre trânsito por dentro da picada. percebida pelos Kaxinawá como fonte de destruição indesejada em áreas de floresta densa. compromisso de assegurar recursos orçamentários para garantir a continuidade da formação dos agentes e de encontrar mecanismos legais para viabilizar a remuneração dos seus serviços ambientais. A sinalização nas picadas foi feita com tinta em árvores grossas. que impedem. face ao processo de rápido crescimento de matos com espinho. palmeiras e caça. Turiano Farias. aprovou o traçado do limite aberto entre os seringais Altamira e São João. Ashaninka e Apurinã. realizado durante a demarcação. distribuídas nos túneis. Há hoje 56 agentes agroflorestais em atuação em 15 terras indígenas do Acre e do Sul do Amazonas. por sua vez. Foi convocado. o governo estadual. de outro lado. Nesta declaração. realizado em Rio Branco em abril de 2001. ainda. cuja formação têm sido realizada pelo Setor de Agricultura e Meio Ambiente da CPI-Acre nos últimos seis anos17. além de outros três "ajudantes". 2001). Outra forma de perenização dos túneis abertos foi o plantio de "marcos verdes". bem como no projeto de acompanhamento e consolidação da demarcação da TI Poyanawa (Iglesias. foram convidados o Prefeito Municipal. sociais e de vigilância (Aquino & Iglesias.327. foram abertos "túneis verdes". ambos ocorridos no ano anterior no âmbito do PPTAL. Para tal. Habitadas por 5. ainda. três das quais no seringal Independência. da SCA/MMA e do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC). ao longo de um trabalho que durou dez dias e envolveu pouco mais de 50 pessoas. e discutidas com os técnicos da CPI durante a formatação da proposta da ASKARJ e com as lideranças. no âmbito do Plano de Gestão Ambiental Integrada (PGAI). algumas das quais são consideradas pelos Kaxinawá como portadoras de fortes espíritos.aldeias Kaxinawá. No II Encontro das Culturas Indígenas do Acre e Sul do Amazonas. com desenhos de kenê. o governo assumiu. Shawãdawa.400 índios Kaxinawá. 17 45 . padrões gráficos tradicionais usados pelos Kaxinawá em diferentes manifestações artesanais e nas pinturas corporais. a CPI-Acre e a UNI assinaram declaração de compromisso. em pouco o tempo. palmeiras e palheiras. caminhos bem roçados com três metros de largura.

tornou necessária a costura de amplas articulações institucionais. realizadas junto a lideranças. participaram dos trabalhos. Os recursos da 18 Por exemplo. produzida em agosto de 2002 pela CPI-Acre a pedido do SubPrograma Projetos Demonstrativos (PDA-PPG7). Filmagens em vídeo foram feitas por Siã Kaxinawá. bem como por Adalberto Domingos. da mesma forma. dentre os quais. além da ASKARJ. Concorrida reunião foi realizada na sede do Jordão. 19 Fruto do diálogo estabelecido por Júlio Eduardo com o movimento indígena e com as ongs indigenistas logo após assumir no Senado. Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância. Outro ponto que merece destaque foi a complexa articulação institucional que tornou possível a canalização de recursos para a autodemarcação. os agentes agroflorestais. este projeto também contemplou recursos para a organização de assembléia no seringal Boa Vista. permitiu a alocação de recursos de emenda ao orçamento da União para esta atividade. contando. constitui outra forma de registro. que louvou a iniciativa e. do Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC) e da SCA/MMA. como instância preparatória para a III Conferência Mundial contra o Racismo. a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e o Setor de Educação da CPI. com representantes de vários órgãos dos governos federal. e de representantes da AERRBR. foram confeccionados materiais de divulgação da demarcação. bem como junto a órgãos governamentais. bem como o material didático "Índios no Acre. como é praxe em suas atividades. por sua vez. Este teve lugar em Rio Branco em maio de 2001. acontecida em setembro em Durban. de planejamento e avaliação. autor da emenda parlamentar que originou os recursos utilizados nos trabalhos. bonés e posters. nos cursos da CPI-Acre. coordenado pelo grupo de mulheres indígenas. Uma emenda parlamentar apresentada pelo Doutor Júlio Eduardo (PV-Ac) em dezembro de 2000. talvez no Brasil. e publicado pelo Ministério da Educação em final de 2002. História e Organização". A execução do Projeto. Um conjunto amplo de entrevistas. professor Kaxinawá da TI Alto Rio Purus. ongs. no âmbito do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre"19. de mariri. camisetas. ligado à UNI. Por outro lado. no período de três meses em que exerceu a suplência da Senadora Marina Silva (PT-Ac). o movimento indígena e um público mais amplo18. Maru. Outro processo importante ao longo de toda a demarcação foi o registro das atividades realizadas. Nos seringais Independência e Altamira. Para distribuição entre os Kaxinawá. na África do Sul. mateiros e agentes agroflorestais que. estadual e municipal. ocupado desde 1997 por famílias Jaminawa que antes perambulavam e mendigavam em Rio Branco e outras cidades do Vale do Alto Acre. coordenado por Vincent Carelli. A autodemarcação foi encerrada com uma cerimônia que contou com a presença de lideranças e agentes agroflorestais das três terras. avalizou o traçado da picada aberta entre seu seringal e o Independência. além de reuniões. além do Senador Júlio Eduardo. de diferentes formas. aconteceram várias festas. bem como junto às autoridades presentes à cerimônia de encerramento. produzido pelos professores bilíngües.Hilário Melo. forró e ayahuasca. bem como do I Encontro de Mulheres Lideranças Indígenas da Amazônia. registraram em seus diários a produção e o plantio de mudas ao longo das picadas. Nº 3). a publicação "Implantação de tecnologias de manejo agroflorestal em terras indígenas do Acre" (Série Experiência PDA. que têm servido como material para a elaboração de publicações para a divulgação deste processo entre os próprios Kaxinawá. que aprendeu a usar o vídeo nas oficinas do projeto Vídeo nas Aldeias. 46 . Discriminação Racial. envolvendo órgãos dos governos federal e estadual. Esta origem de recursos orçamentários para a implementação de ações propostas e implementadas diretamente por organizações indígenas constituiu importante novidade no Estado do Acre. videomaker com larga experiência em documentários de seu povo e dos seringueiros do Alto Juruá. e organizações indígenas e indigenistas.

Comunicado. Seguindo as determinações previstas no "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". O governo estadual entrou também com pequena contrapartida. via a SCA. Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA). os trabalhos de campo durante o mês de setembro de 2002. pela AER-RBR. que. as peças foram repassadas ao DEM/DAF. 35 marcos de apoio e 7 placas indicativas padrão Funai. necessários à produção do mapa e do memorial descritivo que seriam entregues à Funai em Brasília para tentar reiniciar o processo de reconhecimento desses seringais como terra indígena. que integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre. que deveriam atender às normas constantes do "Manual de Normas Técnicas para Demarcação de Terras Indígenas". Face à impossibilidade de formalizar as peças técnicas com os dados já disponíveis.. financiado pelo BNDES. foi necessário que. retornou-as à empresa com recomendações para ajustes finais. que. processamentos e a elaboração do memorial descritivo e do mapa. medido 33 km de linhas secas. liberando o indigenista Antônio Luiz Batista de Macêdo para acompanhar o deslancho do trabalho. com a realização de uma oficina itinerante no seringal Independência e a compra das mudas plantadas nos limites. órgão de governo responsável no estado pela concatenação das ações previstas junto às populações indígenas. com novo acompanhamento das lideranças locais. para que este disponibilizasse novos recursos para a finalização dos trabalhos topográficos. Após quase um semestre de demora. Para a autodemarcação. assinou convênio com Conselho Nacional dos Seringueiros e o IMAC.emenda foram repassados para o MMA. novas gestões foram então iniciadas pela ASKARJ e pela AER-RBR. Através da AER-RBR. exigiu a apresentação dos resultados dos trabalhos de agrimensura. apoiou. Através de uma parceria da Secretaria Executiva de Hidrovias e Aerovias com a Secretaria de Ciência. A AER-RBR deu apoio institucional aos trabalhos. a CPI-Acre. bem como os processos inovadores postos em prática pelos Kaxinawá para a materialização dos limites demarcados. bem como fornecido e implantado 10 marcos geodésicos. desta vez junto ao IMAC. 7 pontos geodésicos. o DEM/DAF. o trabalho dos agentes agroflorestais. as peças técnicas foram entregues à SECTMA em dezembro. A não conclusão dos trabalhos de campo pelo técnico da Funai. Lourenço Araújo Costa. sediada em Rio Branco. Após a realização dos cálculos. Ainda em março. o atual Chefe da 47 . os recursos para custear essa contratação foram canalizados do Projeto de Desenvolvimento das Populações Indígenas. 7 marcos testemunha. durante viagem ao Estado do Acre no mês de agosto de 2003. confeccionando as placas indicativas e recrutando o técnico em agrimensura da Funai de Manaus. suscitaram impasse para que o Departamento considerasse válida a autodemarcação. com recursos oriundos do convênio. 7 marcos azimutes. depois aceitas. a GETEC realizou. para realizar esta atividade. após analisá-las. até a quebra de seu equipamento de GPS. necessários à confecção dos mapas e memoriais descritivos definitivos. tendo determinado. através de rastreamento de satélites. sua reticência em apresentar os dados parcialmente produzidos com vistas à elaboração dos mapas e do memorial descritivo. órgão responsável pela prestação de contas dos recursos recebidos através do "Projeto Gestão Ambiental em Terras Indígenas do Estado do Acre". conforme atestam documentos do DEM. que. o IMAC decidiu pela contratação de uma empresa de agrimensura. em março de 2002. que fora fundamental na formatação da parte que no Projeto cabia aos Kaxinawá. da Funai. do término da autodemarcação. realizou a medição das picadas e a determinação dos pontos geodésicos nas clareiras e limites. GETEC Topografia Ltda.

uma vez aprovados os trabalhos. de forma que os Kaxinawá tenham condições concretas para garantir seu atual território e melhores condições de vida. o movimento indígena.0001/73. a formação de professores bilíngües e agentes de saúde. a fundação da ASKARJ e. etapa necessária ao envio de uma equipe para fiscalizar in loco os trabalhos realizados por essa empresa nos seringais Independência e Altamira. que a ASKARJ. os poderes locais. no Brasil. e. foram então entregues ao DEM. Alguns destes processos ganharam forma com a criação da cooperativa. das lideranças e da ASKARJ assumiu diferenciadas formas. Devido ao alegado acúmulo de atribuições com as demarcações em curso no âmbito do PPTAL. desde as primeiras mobilizações para o reconhecimento oficial e a regularização da TI Kaxinawá do Rio Jordão. porque não dizer. hoje regularizados como a TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão.Coordenação Geral de Identificação e Delimitação (CGID/DAF). está hoje em discussão na DAF se. ainda não conseguiu liberar um técnico para analisar a adequação dos ajustes feitos pela GETEC nas peças técnicas. o Governo estadual e o PPTAL possam encontrar em breve alternativas adequadas e também inovadoras para assegurar a plena regularização destes dois últimos seringais como terra indígena. no presente e no novo milênio que acaba de começar. fosse pessoalmente à sede da empresa para ali ficar sabendo que as peças haviam sido entregues fazia tempo à SECTMA. em nível local e através de diálogos e negociações com famílias de seringueiros. esses seringais virão ser reconhecidos como "terra de domínio indígena" ou como "área reservada". o Chefe do DEM. Por outro lado. os Kaxinawá apresentaram e implementaram soluções inovadoras e de sucesso para a regularização de suas terras. Os documentos. Em muitos destes momentos. É de esperar. este envolvimento das famílias. ongs de apoio e a cooperação internacional. A autodemarcação dos seringais Independência e Altamira constituiu mais um importante passo da mobilização do povo Kaxinawá do Município de Jordão para a consolidação e garantia de seu atual território. e a compra dos seringais Independência e do Altamira. que levou em mãos. Nos últimos 25 anos. que serviram de modelo para outros povos indígenas no Acre e no sul do Amazonas. Terri Valle de Aquino. a Funai. no atual contexto. com a ocupação dos seringais Nova Empresa e São Joaquim. órgãos governamentais. Rio de Janeiro. categoria prevista no Capítulo III da Lei 6. Manoel Francisco Colombo. Setembro de 2003 48 . desde início dos anos 1990.

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