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O Amor Infinito de Pedro e Inês, de Luís Rosa

Neste livro, um tema e um autor de que gosto particularmente.


A minha predileção pelo romance histórico fez-me conhecer Luís Rosa, o
autor deste livro, logo quando publicou o seu primeiro romance, O
Claustro do Silêncio.
A história dos amores de Pedro e Inês é somente a mais bela história de
amor da cultura portuguesa, matéria-prima para as mais diversas leituras
artísticas. Se há "vidas que o são para sempre. Mesmo depois de mortas",
a vida deste amor é uma delas, daí o aproveitamento artístico de que tem
sido alvo. 'Seu nome ficou na história como símbolo do amor', canta José
Cid (Balada para D. Inês (José Cid, Festival RTP da Canção, 1968).
E é o amor, ou a sua desmesura, que é apontado como o causador de
todos os sucessos desta história: "O amor é essa turvação da alma, belo
e desmedido, que faz o seu caminho por cima de tudo o que se inventa";
"Amaram-se. Daquela maneira que a gente não sabe dizer."; "Não lhe
façam leis nem conveniências, pois o amor nunca caberá na quadrícula
rectilínea duma regra, nem na pequenez de uma conveniência". Também
Camões culpara o amor pela morte de Inês de Castro:

«Tu só, tu, puro Amor, com força crua,/Que os corações humanos tanto
obriga,/Deste causa à molesta morte sua,/Como se fora pérfida
inimiga./Se dizem, fero Amor, que a sede tua/Nem com lágrimas tristes
se mitiga,/É porque queres, áspero e tirano,/Tuas aras banhar em sangue
humano.» (Camões, Os Lusíadas, III, 119).

A linguagem doce, filosófica e até um pouco onírica é bruscamente


substituída pela frieza no momento em que se narra a execução de D.
Inês, combinando a crueza da expressão com a brutalidade dos atos
apresentados:

"Conselheiros, fidalgos e oficiais de justiça subiram em turbamulta as


escadas do paço. Vários homens agarraram Inês, que inutilmente
esbracejava.
Alguém deu ordem ao algoz para que a degolasse. Depressa, para que o
pensamento não pensasse mais, nem houvesse razões para adiamentos.
Afastaram-lhe os filhos em choro. E quando o algoz avançou, a bela
mulher ainda fez um esforço de leoa cercada, para lhe cravar as mãos na
veste do ofício medonho. Inútil. Outros lhe prenderam as mãos atrás das
costas e a fizeram vergar sobre o cepo.
O carrasco deu um golpe apenas, eficaz e certo, de quem sabia do ofício.
Como ponto final do auto ficcionado de cruenta realidade.
Fez-se silêncio brusco. Aqueles que se não suportaram a si próprios
fugiram espavoridos."

Não podemos deixar de referir, para terminar, o rigor histórico que


caracteriza a escrita de Luís Rosa e que é bem notório neste romance.
Prova disso são as referências: ao relacionamento de D. Pedro com o seu
pai, D. Afonso IV; à sede de vingança que levou D. Pedro a perseguir e
castigar de forma violenta os responsáveis pela morte de D. Inês; aos
detalhes dos túmulos do casal; à trasladação e coroação daquela que
"despois de morta foi Rainha". Foi também por respeito ao rigor histórico
que Luís Rosa resistiu à tentação de inserir no seu livro a cena lúgubre
com que, vulgarmente, se culmina a história de Pedro e Inês e à qual não
resistiram os realizadores destes dois filmes, tão distantes um do outro
no tempo:
Inês de Castro, de Leitão de Barros (1944)
La Reine Morte, de Pierre Boutron-Montherlant (2009)
“o amor infinito de pedro e inês”, Luis Rosa

OCTOBER 23, 2015 ~ ELYONSOMNIARE

ROSA, Luis – o amor infinito de pedro e inês, Barcarena, Presença, 2009

Sinopse: No novo romance de Luis Rosa não é só o tema que nos deleita,
pela sua força inspiradora ao narrar uma das mais trágicas paixões que a
nossa memória colectiva jamais esqueceu. É também a vibração da escrita
de Luis Rosa que nos faz seguir página a página, numa leitura sem quebras,
dando-nos o testemunho de um escritor que sabe contar como poucos. Luis
Rosa tem esse dom de transmitir as emoções, dando-lhes uma força e
comunicabilidade que dir-se-ia estabelecer uma relação de cumplicidade
entre autor e leitor. É como se a história estivesse a ser revivida por quem
escreve e quem lê. E tudo isto sem esquecer o rigor histórico posto na
investigação dos personagens, do ambiente e sobretudo da intriga que
culmina na tragédia que se abateu sobre o amor infinito de Pedro e Inês.

Opinião: Mais do que o romance de Pedro e Inês, o livro revolve em torno


de D. Pedro. O “episódio” de Inês apenas se destaca pelo embate que deteve
na vida e acções deste.

A história é contada com uma narrativa bela, simples e agradável de ler,


sem, contudo, se entrar em grandes pormenores: quem espera um
romance histórico que esmiúça o enredo contado, desengane-se. Por vezes
senti que nos limitávamos a roçar a ponta do iceberg, e, curiosamente, isso
não me desagradou. É, simplesmente, o estilo do livro.

A facilidade de leitura e a pequenez da história – que sim, é curta, mas não


por isso menos rica – levam a que a que se leia bastante rápido, deixando
uma sensação de agrado. Contudo, também me parece que a minha
memória sobre o mesmo será efémera, pois apesar de todos os pontos
positivos mencionados, falta-lhe um certo “quê” que o faça destacar-se