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TÚMULO ABERTO, MAS NÃO VAZIO, CHEIO DE SINAIS

1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de
Revelação) Jesus na Cruz, decifrando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda-se a meto-
nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início). Particularmente ao longo da
Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs
(proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei
Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja-se aqui demoradamente
Romanos 3,24-25), tomando posse da sua Igreja-Esposa para o efeito redimida na «água e
no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25-27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus
com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a
«caminhada» quaresmal, a qual – vê-se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido.
É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos
16,25-26; 1 Coríntios 2,7-10; Efésios 3,3-11; Colossenses 1,26-27). E só Deus pode dar
tanto a conhecer (veja-se agora o texto espantoso de Efésios 3,14-21). É quanto Deus
operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará, a alegria grande da
Páscoa), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É
o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Atos 20,7; 1
Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Atos
2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça
do Senhor, em que a Igreja-Esposa, redimida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse
com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do altar, do ambão, do
batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge
continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

2. O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João


20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito
grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentava-se
sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio:
está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita
com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as
faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os
sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e
inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os
sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.

3. O texto imenso de João 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes
percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou
ainda não:

4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal
(verbo grego blépô) que até causa aflição a pedra retirada (êrménos) para sempre e por
Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô.
De facto, até dói e aflige que se veja o inefável como quem vê uma coisa qualquer, cegos
como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por
Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de
aírô) pelos homens do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a
Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia:
«Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João
20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da
Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV
Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira,
e nada entende ou dá bom resultado. A oposição luz – trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro
texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os
homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na
cegueira, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto,
exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que
anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos, que nada pescam de noite
(João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na
noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no
meio dos guardas (João 18,17-18).

5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e o «discípulo amado».
Anote-se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madalena vai
ao túmulo, e vê (blépô) a pedra (da morte) retirada. 2) O outro discípulo, «o discípulo
amado», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e vê (blépô) as
faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o discípulo amado», mas
SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM
Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim:
ficou ali estacionado no pátio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em
vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João
18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim!
Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR
alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com
idades (Pedro mais idoso, o «discípulo amado» mais jovem!) – que Pedro tem agora de
SEGUIR o «discípulo amado», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda
que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda
hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai
à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

6. Pedro, que corria juntamente com o «discípulo amado», mas SEGUINDO-O, entra no
túmulo que o «discípulo amado» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande
sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e vê (theôréô: um ver que dá que pensar e
que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário
que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo
ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a
Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por
isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa
de Deus… Com a indicação preciosa de que o véu foi cuidadosamente retirado do seu Rosto,
a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado:
vendo-o a Ele, vê-se o Pai (cf. João 14,9).

7. «O discípulo amado» entrou, viu com um olhar histórico (tempo aoristo) de quem vê por
dentro a identidade (verbo grego ideîn), e acreditou (v. 8). É o olhar de quem vê o inefável,
verdadeiro clímax do relato: anote-se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e
de fora para dentro: «o discípulo amado» viu na história a identidade dos «sinais»: toda a
Economia divina realizada! O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa
sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-
XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que
simultaneamente ilumina e esconde.

8. Resumindo: a narrativa de João 20 abre com a Madalena, que vai de manhã cedo, ainda
escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) a pedra retirada
(êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos,
particípio perfeito passivo de aírô. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante
dos olhos o inefável. Mas cega como está pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão
do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô)
o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Não é de admirar, dado
que a Madalena anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite,
não vê a Luz.

9. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique
perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou
de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e vê, agora também (como
Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco
(cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena:
«Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor,
da tristeza. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de
João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (João 19,38), daquele Rei por mãos
humanas retirado (João 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do
túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não
sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de João 20,1. É ainda à procura
de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de
posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na
verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não
sei onde o puseram» (João 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se
agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

10. Voltando-se para o jardim, vê, outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um
homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa
espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela
continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena,
retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela,
adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena,
deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu
ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena
começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de
paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é
elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João
20,15).

11. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que
a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o
intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo
morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico»
(hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela: «Maria!» (João 20,16). A
locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para João 19,13 e 17. Equivocada
como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem
ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente!
Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E
finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos»
(João 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (João 20,18). Nova
mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o
verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui
termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

É o amor, ainda que imperfeito,


É o amor, ainda que com defeito,

É o amor que faz correr a Madalena.

É o amor, ainda que imperfeito,

É o amor, ainda que com defeito,

É o amor que faz chorar a Madalena.

Mas tu sabes, meu irmão da páscoa plena,

Tu sabes que há outro amor em cena,

E é esse amor que faz amar a Madalena.

12. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais
venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-138) soterrou e paganizou,
estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e,
no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os
cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa
Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou
demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares
cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no
dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que
guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e
o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a
seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a
veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração
ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias
da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana
foi danificada por diversas invasões e ocupações. A actual Basílica do Santo Sepulcro, que os
ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam
«Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui
estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de
«condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-
ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal,
mas também o drama da separação.

13. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos
dão testemunho do que viram. Foi-lhes dado ver exatamente para dar testemunho. Viram e
testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na
Cruz, a sua Ressurreição Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que
também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se
cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A
base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5-6; 61,1; Ezequiel 34,16;
Daniel 9,24. Ver depois João 20,19-23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento)
apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade
entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as
«Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar,
transborda delas.

14. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é
vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por
isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coisas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do
alto» (v. 2), exortação que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao
alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está
em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus
nas alturas!».

15. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua
linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o
termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos +
Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo
Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Coríntios 5,7 e Lucas 22,15,
esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha)
comer convosco». Em 1 Coríntios 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós,
cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê
habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são
gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa
não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; não é oferecido ao Senhor (só o
que é oferecido ao Senhor é sacrifício); é convivialmente comido em família. Sacrifício da
Páscoa era a ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos
de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Êxodo 29,38-42 e Números 28,3-8, e
que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Só depois deste sacrifício quotidiano,
se procedia, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito,
sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este
sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Deuteronómio 16,2). De notar também que o Novo
Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso
indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Coríntios 5,6-8
mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo
reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

Atravessamos ainda o país da Páscoa,

Os pátios dos sacerdotes e de Pilatos

Ficaram para trás,

Para trás ficou também o canto do galo,

Os gritos dos guardas e das multidões,

A febre das traições.

O que se ouve agora é o anúncio do Anjo,

A alegria das mulheres,


A Plenitude da Vida a transbordar

Das páginas da Escritura Santa e da Cruz de Jesus,

O rumor do Amor,

De um Amor novo e subversivo,

Que vence óbitos e ódios,

Raivas e violências,

A raiz de um mundo novo a germinar

Daquela noite de Luz

E a entregar Jesus

A quem o queira receber.

Veem-se mulheres e homens a correr,

Belos e leves,

Sobre os montes,

Sem qualquer bagagem a estorvar,

Sem nada a entorpecer,

Como quem acaba agora de nascer.

Move-os apenas a Notícia do Ressuscitado,

A Carícia que acaba de chegar,

E que é preciso levar

À pressa a todo o lado.

Vem, Senhor Jesus Ressuscitado,

Fica Connosco,

Vai connosco,
Que precisamos de ter o coração habitado

E incendiado.

António Couto