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MATERIAIS CERÂMICOS

e VÍTREOS : caracterização
e impactos ambientais

Licenciatura em Ciências da Arte e do Património


UNIVERSIDADE
de LISBOA Práticas Laboratoriais de Diagnóstico e Teoria do
[FBAUL] Restauro I (3ª aula, 4 de Novembro de 2011)

[ Tópicos 1.6 e 3.1 do Programa da disciplina ]

Maria Ondina Figueiredo


CENIMAT/ I3N, Dept. Ciência dos Materiais,
Univ. Nova de Lisboa (FCT-UNL) • • •
Laboratório Nacional de Energia
e Geologia, I.P. IN
Programa a desenvolver em 2011 ao longo de 3 aulas
1. Materiais em Arquitectura
1.1 Breves noções de Geologia, Petrologia e Mineralogia.
Geologia de Portugal.
1.2 Principais tipos de rochas e suas aplicações em Arquitectura:
mármores e calcários, granitos, basaltos, arenitos.
1.3 Pedras e argamassas em Arquitectura ao longo do tempo.
1.4 Noções gerais sobre ligantes hidráulicos e argamassas.
1.5 Taipa (adobe) e as técnicas construtivas na Bacia do Mediterrâneo.
1.6 Materiais cerâmicos e vítreos; terracota; revestimentos azulejares.
2. Técnicas de caracterização de materiais
2.1 Microscopia óptica e microscopia electrónica.
2.2 Técnicas laboratoriais baseadas em feixes de fotões: difracção
e espectrometria de fluorescência de raios X.
3. Degradação de materiais
3.1 Impactos ambientais e biogénicos sobre materiais da Arquitectura
3.2 Noções gerais sobre consolidação e restauro de materiais
degradados; compatibilidade de materiais e produtos
ARGILAS: as principais matérias primas cerâmicas
T
T
Os minerais constituintes das “argilas” são filossilicatos - i.e., silicatos e
silico-aluminatos nos quais os iões Si4+ e Al3+ formam tetraedros [M t O4]
que partilham 3 vértices
e dão lugar a camadas
segundo um arranjo de
simetria hexagonal
A estas camadas tetraédricas - designadas por T - interligam-se catiões bi- e/ou trivalentes (Mg2+, Fe2+
Al3+, Fe3+) formando octaedros [M o O6] que partilham arestas e dão lugar às camadas octaédricas ( O ),
respectivamente tri- e di-octaédricas
Di-oct. (compactas). Os octaedros incorporam
dois ou mais iões [OH]‒ (hidroxilos).
Os minerais das argilas resultam da
(OH)
combinação destas camadas estruturais
O em diversas proporções.
Tri-oct.

Os termos aluminosos - que são matéria-prima de porcelanas e de


faianças - apresentam uma proporção de 1:1 (T-O): as caulinites. OH Al
Os termos 2:1 apresentam constituição química mais complexa, O
incorporando catiões alcalinos (designadamente K+) entre os folhetos Si
T-O-T (ilites) e catiões solvatados (montmorilonites/esmectites)
ou mesmo camadas octaédricas interfoliares como nas clorites.
A água
nas pastas
cerâmicas

Modificado de:
H. KIRSCH (1968)
Applied Mineralogy
for Engineers,
Technologists and
Students. Science
Paperbacks, Chapman
& Hall, USA

A plasticidade da pasta é
afectada pela forma laminar/foliar
das partículas de argila, pela
reduzida dimensão destas
partículas, frequentemente
nanométricas, e pela interacção
eléctrica entre a água e estas
partículas coloidais da pasta
CAULINITE MONTMORILONITE/ESMECTITE

T T

O O

Ligações de hidrogénio (OH - O)

T Estrutura cristalina
dos principais
minerais das argilas
ILITE
Processo de cozedura ~100 oC Perda de água adsorvida
200 oC Perda de água interfoliar (contração)
da pasta para produção
300 oC Oxidação de impurezas orgânicas
de materiais cerâmicos ~350 oC Perda de água estrutural (grupos OH)
- a estrutura cristalina das argilas sofre colapso -
550 oC Transformação caulinite→meta-caulinite
Exemplos de equações 573 oC Transformação α→β do quartzo
químicas dos processos
>600 ºC Formação de novas fases cerâmicas
de formação de novas fases

Gehlenite
K Al2 (Si3 Al) O10 (OH)2 + 6 Ca C O3 = 3 Ca2 Si Al2 O7 + 6 C O2 + 2 H2O + K2 O + 3 Si O2
illite calcite gehlenite Libertados para a atmosfera Incorporados noutras fases

Wollastonite Diópsido
Si O2 + Ca C O3 = Ca Si O3 + C O2 2 Si O2 + Ca Mg (C O3)2 = Ca Mg Si2 O3 + 2 C O2
quartzo calcite wollastonite quartzo dolomite diópsido

Propriedades dos materiais cerâmicos:


1. Porosidade 2. Dureza 3. Resistência mecânica 4. Refractoridade térmica
Os principais tipos de Argilas + Quartzo
Temperatura
+ Feldspatos + Água
materiais cerâmicos de cozedura
= Pasta
(designação e constituição química) cozedura
cerâmica
Gehlenite, C2AS
Ca2(Al,Fe,Mg)2SiO7
(solução sólida)

Anortite,
CAS2
Materiais usados
em Arquitectura
CaAl2Si2O8
também um mineral e na Herança
Monumental

De: E.M. LEVIN, H.F. McMURDIE, F.P.


HALL (1956) Phase Diagrams for
Ceramists, Edt. Amer.Ceram.Soc.
Constituição de um objecto cerâmico
(Observação de provetes com microscópio óptico em luz transmitida) Textura e porosidade
da cerâmica
Massa
Plagioclase Quartzo
cerâmica

Engobe
Vidrado

Terracota: peças de Matriz: produtos finos resultantes das


cerâmica arqueológica reacções de cozedura, particularmente das argilas

Difractograma de
uma cerâmica
Fase amorfa: Fases cristalinas:
banda alargada riscas bem definidas
Terracota
É um material cerâmico sem revestimento que
resulta da cozedura a cerca de 900ºC de argila rica
em óxido de ferro (semelhante à matéria prima de
tijolos e telhas). O termo “terracota” sugere a cor
laranja acastanhado deste material cerâmico, que
possui baixa resistência mecânica e porosidade
elevada, carecendo de revestimento vítreo para se
tornar impermeável (verniz, laca).

As mais famosas esculturas em terracota


são as estátuas de guerreiros enterradas
junto ao mausoléu do imperador chinês
Qin Shihuang (259-210 a.C.). A construção
do mausoléu teve início em 246 a.C. e
acredita-se que 700.000 trabalhadores e
artesãos levaram 38 anos para a concluir.
As estátuas foram descobertas em 1974 por
agricultores ao escavarem um poço de
água a leste do monte Lishan, uma
elevação de terra feita por mãos humanas
e que contém a necrópole do primeiro
imperador da dinastia Qin.
REVESTIMENTOS AZULEJARES em ARQUITECTURA

Painéis decorativos
Revestimento e Azulejos “estampados”
decoração de fachadas
(Lisboa, edifícios do sec.XIX)

Azulejos datados,
Bairro da Graça
(vários edifícios,
revestimentos
Azulejos com baixo- azulejares de
relevo confeccionados pela confecção
antiga “Fábrica de Sacavém” idêntica)
AZULEJOS

O corpo cerâmico

Gehlenite
Ca2(Al,Fe,Mg)2SiO7

Espectro de
G, gehlenite; G D Q difracção de
Q, quartzo; raios X
D, diópsido;
(radiação CuKα)
H, hematite;
F, feldspato
Porosidade do
corpo cerâmico

I
O vidrado (u.a.)

Junção vidrado / cerâmica 40 35 30 25 2θº 20


“Estrutura” dos vidrados cerâmicos
Camada de tetraedros [SiO4] Arranjo de tetraedros [SiO4]
(bem ordenados num mineral) e iões Na+ num vidro calco-
sódico (vidrado/glaze)

Camada tetraédrica num vidro

Papel dos catiões

De: H. KIRSCH (1968)


Applied Mineralogy for
Engineers,Technologists
and Students. Science
Paperbacks, Chapman
& Hall, USA.
Impactos do ambiente sobre os revestimentos azulejares

Patologias de azulejos “azuis-e-brancos” (sec. XVIII)

Destacamento do
vidrado por expansão
do corpo cerâmico

Algas
Fractura e destacamento Precipitação de fases de
do vidrado alteração à superfície

Sais
“Craquelé”

Eflorescências
Crescimento de micro-organismos
Alteração e degradação de azulejos

Céramique

Environnement

Temperature

Reproduzido do Módulo 3-3, cap.3 - Impactes sur les céramiques


AZULEJOS: a degradação do vidrado por agentes ambientais

O vidrado
∼ ∼

1 µm

Energy (keV) Imagens e espectros RX obtidos com


1 000 X microscópio electrónico de varrimento
5 000 X

Na Si
Al
M Cl
g A
E (keV) u NaCl KNO3

2 000 X 1 500 X
Espectros de difracção
Selecção de materiais para de raios X (difractogramas,
o restauro de azulejos radiação Cu Kα)
ZIRCÃO
Zr Si O4
Azulejo do sec. XVIII com GL 3653
vidrado “Naples’ yellow” I (a.u.) Produto comercial
para o restauro
30 X de vidrados
Grãos de actuais
quartzo

Vidrado de um
Vidrado azulejo actual:
o zircão é
dominante

Q H? Cr?
100 µm S +
S S Vidrado do sec.
Q XVIII com fase
vítrea (cinza)
Gehlenite
Quartzo

45 40 35 30 25 20 15 10
2θº
S, cassiterite (SnO2); Q, quartz, e Cr, cristobalite (SiO2); H, CaSn(OH)6
Cerâmicos Alteração
de côr Eflores-
Alteração à cências
e vidrados superfície
Crostas
Transformação
e deposição “Patines”

Anamenése
Desinte- Perda de Fractura
& gração coesão Fragmentação
diagnóstico Perda de
Empolamento
adesão Escamação
Deformação Arenização

Observação
Visual Fractura
Terapêutica… “Craquelé”

Selecção de Bactérias
Deterioração
materiais para o estrutural Algas
restauro Fungos
Líquenes
Crescimento
Compatibilidade de micro- Musgos
organismos Plantas
de materiais