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Universidade Federal de Ouro Preto

Gabriel Conselheiro Antunes Campos

A Diplomacia da Independência: Conceitos e Linguagem Política nas


Negociações pelo Reconhecimento da Independência do Brasil, 1821-
1826

Mariana
Dezembro de 2016

1
Universidade Federal de Ouro Preto

Gabriel Conselheiro Antunes Campos

A Diplomacia da Independência: Conceitos e Linguagem Política nas


Negociações pelo Reconhecimento da Independência do Brasil, 1821-
1826

Dissertação apresentada como requisito


parcial para obtenção do grau de Mestre pelo
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal de Ouro Preto. Linha 2
Poder, Espaço e Sociedade.

Orientadora: Profa. Dra. Luisa Rauter Pereira

Mariana
Dezembro de 2016

2
Universidade Federal de Ouro Preto

Gabriel Conselheiro Antunes Campos

A Diplomacia da Independência: Conceitos e Linguagem Política nas


Negociações pelo Reconhecimento da Independência do Brasil, 1821-
1826

Dissertação apresentada como requisito


parcial para obtenção do grau de Mestre pelo
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal de Ouro Preto. Linha 2
Poder, Espaço e Sociedade.
Orientadora: Profa. Dra. Luisa Rauter Pereira

Data de aprovação:

Banca examinadora

_______________________________________________
Prof. Dra. Luisa Rauter Pereira
_______________________________________________
Prof. Dr. Valdei Lopes de Araújo
________________________________________________
Prof. Dr. Christian Edward Cyril Lynch

3
FICHA CATALOGRÁFICA

CONSELHEIRO CAMPOS, GABRIEL.

A diplomacia da Independência: Conceitos e Linguagem Política nas Negociações pelo


Reconhecimento da Independência do Brasil. 1821-1826 – Mariana, 2016.

92 páginas

Área de concentração: Poder, Espaço e Sociedade

Orientadora: Profa. Dra. Luisa Rauter Pereira

Dissertação – Universidade Federal de Ouro Preto

Diplomacia. Independência. Republicanismo. Monarquia. Política Externa.

4
SUMÁRIO

LISTA DE ILUSTRAÇÕES 6
RESUMO 7
ABSTRACT 8
INTRODUÇÃO 9
O Congresso de Viena 19
Capítulo 1. Os diplomatas do exterior 25
1.1 Em Londres, pelo Império: Felizberto Caldeira Brant Pontes em Londres 25
1.2 A República de Dom Pedro I. Silvestre Rebello em Washington 34
1.3 A recusa de Metternich. Telles da Silva na Áustria 49
1.4 O reconhecimento da independência entre Estados Unidos, Inglaterra e Áustria – O discurso
constitucional 60

Capítulo 2. Entre História dos Conceitos e História Digital 68


2.1 Estados Unidos 70
2.2 Áustria 77
2.3 Inglaterra 83
Considerações Finais – Possibilidades de uma linguagem diplomática 87

Referências bibliográficas 90

5
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

FIGURA 1 – Estados Unidos 72


FIGURA 2 – Áustria 78
FIGURA 3 – Inglaterra 83

6
RESUMO

O tema deste trabalho é o processo de negociação do reconhecimento da independência


do Brasil, nos Estados Unidos, na Áustria e na Inglaterra, entre 1821 e 1826. As fontes
investigadas compõem cinco volumes da publicação “Archivo Diplomática da Independência”,
editados em 1920, a qual coletou e organizou cartas trocadas entre ministros do estrangeiro e o
Imperador D. Pedro I e os plenipotenciários que representavam o Brasil nos respectivos países.
Analisamos as correspondências do ponto de vista da história dos conceitos e tentamos delimitar
as principais linguagens políticas presentes nos argumentos dos diplomatas. Buscamos
identificar, também, a presença de uma linguagem especificamente diplomática, utilizada no
transcorrer das negociações. A hipótese destacada é de que a linguagem diplomática é formada
pelo domínio e uso retórico das diversas linguagens políticas disponíveis no espaço do
interlocutor.
Palavras-chave: Diplomacia. Independência. Republicanismo. Monarquia. Política Externa.

7
ABSTRACT

The theme of this dissertation is the negotiation process for the recognition of brazilian
Independence, in the United States, Austria and England, between 1821 and 1826. The primary
sources studied were the five volumes comprising the “Archivo Diplomático da Independência”,
a compilation of published letters organized in 1920 that compiled letters exchanged between
Brazilian diplomats and foreign ministers between 1821 and 1826. We analyzed the
correspondence from the point of view of conceptual history and attempted to address the main
political languages present in the diplomat’s arguments for Independence. We also attempted to
identify the presence of a diplomatic language, specifically, used during the negotiations. Our
hypothesis is that a diplomatic language emerges between the rhetorical uses of the many
political languages that coexist in the modern political sphere.
Keywords: Diplomacy. Independence. Republicanism. Monarchy. Foreign Policy.

8
INTRODUÇÃO

Esta pesquisa busca contribuir para sanar uma lacuna historiográfica acerca da diplomacia
brasileira, especificamente sobre o período da independência do Brasil. Muitos autores tratam do
tema da política externa Imperial como um contraste à subsequente política da República, ou da
era Vargas, e o interpreta sob a ótica da dependência com alguma potência externa 1 . A
interpretação da História diplomática do Brasil, sob o ponto de vista da dependência às potencias
externas, talvez tenha obtido mais sucesso, tanto em discursos políticos mais corriqueiros quanto
no âmbito acadêmico, do que em qualquer outro campo da historiografia, a despeito (ou talvez
por consequência) de a área apresentar uma razoável lacuna de pesquisa. Embora muitas
pesquisas tangenciem temas de grande conexão com a diplomacia, raramente esta é abordada
como um elemento próprio, digno de pesquisa documental. Sérgio Buarque de Holanda comenta
a biografia de Felizberto Caldeira Brant Pontes, diplomata que, no período da independência, foi
alocado em Londres, e mais tarde tornou-se senador e Marquês de Barbacena. Contudo, o foco é
demonstrar a formação da elite imperial como um todo, e não o desempenho de suas funções
específicas. Hildebrando Accioly, autor clássico da área de relações internacionais, direito
internacional público e história da política externa brasileira, aborda o tema da diplomacia da
independência do ponto de vista da formação da jurisprudência do direito internacional público, e
a inserção do Brasil neste. Suas considerações históricas sobre o período são sínteses de histórias
econômicas, e o autor não produz análises sobre o período de negociação do reconhecimento da
independência do Brasil. Seria como se a jovem nação ainda não oferecesse nada de relevante no
campo. Dessa forma, o seu estudo seria sem importância.
O objeto desta pesquisa é, portanto, a linguagem política mobilizada nas estratégias
discursivas por diplomatas que negociavam o reconhecimento da independência do Brasil, nos
Estados Unidos, na Inglaterra, na Áustria e em contato, em determinados momentos, com

1
Na obra de Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno “História da política exterior do Brasil”, a diplomacia da
independência aparece apenas como um desdobramento débil de uma relação de dominação das potências europeias
para com o Brasil. Os capítulos que tratam dela são intitulados: “O enquadramento brasileiro no sistema
internacional do capitalismo industrial sob a condição de dependente”; “O espaço das relações periféricas”; e “Um
balanço negativo e pedagógico”. Outros pesquisadores da área fornecem análises semelhantes, mas ligadas aos
problemas da sociologia, com frequência pautadas pela teoria da dependência.

9
enviados Russos e Prussianos. A hipótese central é que, articulando conceitos como "soberania",
"republicanismo", "Monarquia" e "independência", esses agentes estabeleceram uma linguagem
política própria da diplomacia, uma espécie de metalinguagem capaz de acessar diversos outros
tipos de linguagens políticas disponíveis, e formular discursos que organizassem pautas a partir
delas. Esta linguagem foi forjada a partir de tradições diplomáticas, e linguagens políticas, do
antigo regime português, mas foi definitivamente alterada a partir das novas demandas do espaço
de experiência ocidental, como a secessão dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e o
Congresso de Viena.
A independência do Brasil foi largamente estudada por diversos autores das últimas
décadas, mas o tema da diplomacia parece ser relegado à historiografia do século XIX, que, nas
disputas pelas memórias, e identidades nacionais, alçava os diplomatas ao posto de “feitores” da
independência, e, ora incriminando-os, ora enaltecendo-os, mantinha-os próximos dos temas dos
grandes homens e grandes feitos. É o caso de Pandiá Calógeras, cuja extensa obra historiográfica
incluía os cinco volumes da “História da Política Externa do Império”, em que se observa uma
longa “recuperação da reputação” de Felizberto Caldeira Brant Pontes, alvo de extensivas críticas
de corrupção de contemporâneos pela sua atuação na negociação de empréstimos brasileiros na
Inglaterra logo após a independência do Brasil. Com a decadência da temática da política
observada no século passado, também o estudo da diplomacia permaneceu largamente fora dos
livros de história. Mesmo importantes trabalhos recentes na área da História política têm deixado
de lado a diplomacia, como é o caso do trabalho Iara Lis Carvalho Souza, “Pátria Coroada”, que
embora estude esferas do poder monárquico constitucional durante a independência, como o
conselho de estado, ou o senado, não trata da diplomacia. A obra de Lúcia Maria Bastos Pereira
das Neves, “Corcundas e constitucionais”, analisa, com muita intensidade, os debates ocorridos
em torno da independência, mas não trata dos diplomatas que também participaram deles. Vemos
que, embora haja um ressurgimento da questão do político na historiografia recente, com
refinados procedimentos teórico-metodológicos, estes trabalhos ainda têm se atido a temas
clássicos da política Imperial, como o conselho de estado, os ministérios, o senado e as elites
imperiais. Para esse ressurgimento, a formação de uma esfera de soberania nacional se
desenvolve a partir da relação de instâncias de poder e o povo (ou a ausência desta relação). A
formação da soberania perante o palco internacional parece ser pouco interessante. Acreditamos,
no entanto, que a necessidade de legitimar a existência de Estado, governo e soberania em uma
10
esfera internacional guiou, e até transformou, os debates internos na formação da constituição e
dos espaços de poder.
Propomos nesta pesquisa, portanto, estudar a linguagem da diplomacia não como
julgamento das diversas personalidades que a compunha, mas sim como os seus escritos refletem
e conformam os múltiplos espaços de poder, legitimidade e soberania política no ocidente do
século XIX. A tarefa implica refletir sobre poder e política, legitimidade e soberania, no delicado
período de formação dos diversos estados nacionais nas Américas.
As fontes utilizadas para este trabalho se encontram no Arquivo do Itamaraty, que está, há
quase uma década, fechado para reformas. A solução para continuar a pesquisa foi encontrada na
utilização do compêndio “Archivo Diplomático da Independência”, publicado em primeiro de
agosto de 1922. Trata-se de uma compilação de cartas trocadas entre os diversos agentes
diplomáticos e os sucessivos ministros dos negócios estrangeiros, entre 1820 e 1828. Por ser uma
compilação de documentos feita em 1922, em razão da comemoração dos cem anos de
independência do Brasil, a obra apresenta, evidentemente, escolhas caras aos critérios destes
homens da segunda década do século vinte. Estas escolhas geram restrições evidentes ao
pesquisador atual, como o espaço histórico de referência nas cartas selecionadas, quase todo
voltado ao Atlântico Norte. Embora, em diversos momentos, os agentes apareçam em
comunicação com territórios na África, na Ásia, ou no leste europeu, a obra impõe ao
pesquisador o palco de alguns países da Europa, como a Áustria, França, Inglaterra, Estados
Germânicos e a península Ibérica, e apenas duas regiões nas Américas, os Estados Unidos e a
Bacia do Prata.
A clivagem nada tem de natural. Os sujeitos se remetem, com frequência, a áreas fora
desses países citados, no entanto a obra não traz as suas comunicações, cartas etc. A importante
relação da diplomacia Brasileira para com territórios Africanos ficará, infelizmente, fora do
escopo de análise desta pesquisa, assim como de diversos países sul-americanos, como o Chile, a
Colômbia e o Peru. A obra é também limitadora do tempo. O principal marco temporal das
comunicações entre os agentes do Estado são a nomeação destes sujeitos e o reconhecimento
formal das nações em que eles atuam, ou seja, a documentação reunida diz respeito apenas ao
período do qual a missão foi estabelecida. Evitaremos aceitar essas imposições da obra ao
recorrer a outros corpos documentais, que complexificam a correspondência e possibilitam uma
análise conjunta dos discursos mobilizados no período. No caso da Inglaterra e o representante
11
brasileiro lá alocado, Felizberto Caldeira Brant Pontes, recorremos ao Arquivo do Museu
Imperial, em Petrópolis, onde se encontra grande quantidade de correspondência pessoal trocada
entre o Imperador e Brant Pontes. No caso dos Estados Unidos, utilizamos também o diário de
John Quincy Adams, que detalhadamente relata os encontros e o processo de negociação tido
com o agente brasileiro Silvestre Rebello. Estudaremos também a correspondência de Manoel
Rodrigues Gameiro Pessoa, natural da Bahia que atuou como secretário da comitiva portuguesa
no Congresso de Viena, e sua atuação em Paris; Francisco Corrêa Vidigal, o então Monsenhor da
Capela Imperial, e conselheiro de Estado, foi enviado a Roma para negociar junto à Santa Sé; à
Espanha foi enviado Duarte da Ponte Ribeiro, filho do cirurgião-mor da casa real, egresso ao
Brasil junto à comitiva que acompanhou a família real em 1808; finalmente, em Viena, recaía a
Antonio Telles da Silva Caminha e Menezes, nobre português e amigo de Dom Pedro I, a difícil
tarefa de negociar o reconhecimento da Independência com um dos principais articuladores da
Santa Aliança, o Chanceller Austríaco Phillipp Von Neumann, além do príncipe Metternich. Aqui
recorreremos também às atas dos diversos congressos organizados entre a Áustria, a Prússia e a
Rússia.
Ao intercalar outras fontes com o “Archivo Diplomático da Independência”, tentamos não
apenas complementar a documentação, mas buscar também não nos limitar, no espaço e no
tempo, às escolhas dos editores do Archivo Diplomático da Independência. Assim, a proposta
geral desta dissertação é complexificar e questionar a linguagem política que está sendo
mobilizada naquele momento, ao mostrar a recorrência de determinados conceitos na
correspondência diplomática durante as negociações pelo reconhecimento da independência do
Brasil. Partimos do pressuposto de que a formação de linguagens políticas são partes integrantes
de uma determinada experiência histórica, sendo assim passíveis de estudo e de interpretação.
Para J. G. A. Pocock, não se trata de estudar ideias ou mentalidades políticas, pois para dotar
pensamento de historicidade, é necessário que ele seja concretizado em ação, tenha um caráter
performático e seja passível de transformação. O conceito de linguagem aqui diz respeito às
subdivisões naturais de qualquer sistema linguístico, como a retórica, as diferentes formas de
falar de política, estilos e, principalmente, conceitos. Sua preocupação principal é com o que é
“dito” e o seu contexto. Este tipo de história é altamente textual, questionando o que é escrito,
impresso e respondido, e é o estudo de personagens que são também autores. Ela também não se
preocupa com a gramática textual, a estrutura do texto em si, e sim com o caráter “afetivo e
12
efetivo” da fala.
Neste sentido, as formulações de Reinhart Koselleck acerca da História dos Conceitos são
essenciais para a metodologia desta pesquisa. No capítulo cinco do livro “Futuro Passado”,
Reinhart Kosseleck (2006) discute a complexa relação entre história dos conceitos e a história
social: “Sem conceitos comuns não pode haver uma sociedade e, sobretudo não pode haver
unidade de ação política. Por outro lado, os conceitos fundamentam-se em sistemas político-
sociais que são, de longe, mais complexos do que faz supor sua compreensão como comunidades
linguísticas organizadas sob determinados conceitos-chave”. O historiador ressalta a
impossibilidade da redução da história dos conceitos a uma vertente da história social, e vice-
versa, no entanto explora a possibilidade de elos em comum.
A história dos conceitos constitui um método especializado de estudo de determinadas
fontes que apresentam com frequência termos de relevância ou disputa social. Um exemplo é o
emprego da palavra “republicano” e suas diversas derivações: o plenipotenciário, em Londres,
Felizberto Caldeira Brant Pontes usa a palavra, quase sempre, para desqualificar regimes vizinhos
recém independentes, ou para criticar oposicionistas, como se a própria palavra carregasse a
crítica que pretende elaborar. Para ele, republicano expressa, ao mesmo tempo, sentidos como
demagogia, anarquia, corrupção e loucura. Em nenhum momento, a palavra aparece significando
termos como liberdade e representatividade. Na sua argumentação, a Inglaterra deveria
reconhecer, com muito mais facilidade, uma monarquia do que uma república. Esta conclusão o
leva a tecer um discurso específico para a interpretação dos eventos que ocasionaram a
independência do Brasil, e a criar uma estratégia discursiva específica que responde a isso. Se
quisermos compreender que estratégia é essa, se obteve ou não êxito, e como ela influenciou a
formação da esfera política daquele momento, primeiro devemos compreender que “república”,
“monarquia”, “reino”, “império” e “soberania” possuem significados distintos dependendo do
autor. Trata-se, portanto, de buscar compreender quais são os aglomerados de sentidos
pertencentes a cada uma dessas palavras, que faz com que os autores cheguem à conclusão de que
uma monarquia deveria ser prontamente reconhecida.
A comparação entre os diversos discursos torna-se de vital importância, em um segundo
momento da pesquisa, tanto para compreender as diferenças quanto para compreender as
unidades de sentido que os autores estavam tentando mobilizar, buscaremos organizá-los a partir
das linguagens políticas disponíveis na modernidade. Se na Inglaterra o conceito de
13
“republicano” buscava um determinado efeito, nos Estados Unidos, sua mobilização visava o
exato oposto. Silvestre Rebello tentava, a toda oportunidade, demonstrar o caráter republicano do
“povo” e das instituições do Brasil. Ao comparar a maneira como ambos conceitos são
mobilizados, podemos afirmar que eles visavam representar um conceito de cidadania que
essencialmente restringia a cidadania a um determinado grupo de pessoas.
Se a diplomacia do período da independência do Brasil não tem sido alvo frequente de
pesquisas históricas, o mesmo não pode ser dito sobre o tema da independência política do
Império do Brasil, pesquisado desde o século XIX. A complexidade do tema possibilitou diversas
abordagens. Já na primeira década pós-independência, constatou-se a necessidade de dotar a nova
nação de sentido histórico, assim como de legitimidade, e as primeiras obras, como a de José da
Silva Lisboa 2 , apresentavam uma interpretação que valorizava a continuidade entre a
independência e o passado colonial. Este tipo de interpretação mantém sua força durante o século
XIX sendo respaldada por obras clássicas, como as de Adolfo Varnhagen3. Tais interpretações
valorizavam os aspectos “civilizadores” da ação de Portugal sobre o território brasileiro, e
defendiam que a manutenção da monarquia sob a liderança de um legítimo herdeiro da casa de
Bragança garantia a não ruptura com estes elementos “civilizatórios”. Sobretudo essas
interpretações fundavam a noção de continuidade entre o território colonial e a nação imperial,
em uma relação de direta continuidade. Desta maneira, a nação “fundada” em 1822 seria
decorrente da direta continuidade entre o espaço colonial e o desenvolvimento do Estado
Imperial.
No início do século XX, na esteira das comemorações do centenário da Independência,
diversos textos, em especial os ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - IHGB,
buscavam incorporar uma identidade comum americana à história do Brasil, que não deveria ser
pautada meramente pela herança europeia4. Neste sentido, foi proposto pelo IHGB um Congresso
Internacional de História da América, em que se procurava um “denominador comum” das
diversas identidades americanas. Publicada mais tarde, em 1927, a obra de Tobias Monteiro,
História do Império: a elaboração da independência, concretizava esta abordagem.
Já nos anos de 1930, novas abordagens apareceram. Historiadores, como Caio Prado Jr. e

2
“Introdução à história dos principais sucessos políticos do império do Brasil”, 1825.
3
“História geral do Brasil antes de sua separação e independência de Portugal” e “História da Independência do
Brasil”.
4
NEVES; BASTOS, 2009.
14
Sérgio Buarque de Holanda, apresentavam em seus escritos novas matrizes metodológicas,
distintas das de Varnhagen, pautadas por uma análise socioeconômica da sociedade colonial. Caio
Prado Jr., ao se aproximar de uma corrente interpretativa ligada ao marxismo, que destacava a
importância das abordagens econômico-sociais, enfatizava os elementos de ruptura que o
processo de independência do Brasil trazia, mas deixava claro que a independência não
acarretava na formação simultânea de um novo estado e, sobretudo, nação. Sérgio Buarque de
Holanda demonstrava, no artigo “A Herança colonial – sua desagregação”, que não
necessariamente havia uma conexão entre emancipação política e a formação da nacionalidade,
uma vez que a elite formada em Coimbra não pensava na ruptura do ponto de vista da diferença
entre duas nações:
Para os [portugueses reinóis], e nem todos são obrigatoriamente absolutistas, o 7 de setembro
vai constituir simples episódio de uma guerra civil de portugueses, iniciada em 1820 com a
revolução liberal portuguesa, e onde se vêem envolvidos os brasileiros apenas em sua condição
de portugueses do aquém-mar. O adversário comum está, agora, claramente nas Cortes de
Lisboa ou, quando menos, em alguns homens ou algumas das resoluções das mesmas Cortes, e
neste caso toda arma terá seu préstimo. Não lhes ocorre, não deve ter ocorrido sequer ao
Príncipe D. Pedro que, precipitando a separação do Brasil, vão forjar uma perigosa arma de dois
gumes (HOLANDA, 2010a, grifos nossos).

Na década de 70 do século passado, a crescente produção historiográfica, ligada aos então


recém-implementados programas de pós-graduação, trouxeram novas perspectivas e abordagens.
Fernando Novais enfatizava uma perspectiva de análise da dinâmica entre colônia e metrópole no
circuito da acumulação primitiva do capital. As independências ocorridas no território americano
passariam a constituir o resultado de uma crise dos finais do século XVIII, do “colonialismo
mercantilista”.5
Neste mesmo contexto, o projeto 1822: Dimensões6, organizado por Carlos Guilherme
Mota, apresenta diversas interpretações acerca da independência, expoentes deste contexto do
crescimento dos programas de pós-graduação. Traz, de forma inovadora, as perspectivas da

5
“Superada a rivalidade com a França, pôde a Grã-Bretanha, de um lado, reforçar seu próprio exclusivo
metropolitano, doutra parte, acentuar a penetração comercial nas colônias ibéricas, seja via metrópoles, seja pelo
contrabando. Quanto mais se avançava neste processo, menos a potência hegemônica podia suportar o comércio
“independente” de suas colônias americanas; e cada vez mais o contrabando com as colônias ibéricas vai se tornando
insuficiente para o escoamento de sua produção fabril. Neste quadro de tensões, neste complexo emaranhado de
múltiplos interesses, o equilíbrio se torna evidentemente precário, e se rompe com a colônia dos Estados Unidos... As
inovações políticas envolvidas na forma republicana que assumiam o novo estado ainda mais acentuavam o seu
significado, marcando o início da crise não só do Sistema Colonia,l mas de todo o Antigo Regime”. (NOVAES 1989
p. 116).
6
DIAS, 1972.
15
independência do ponto de vista das diversas províncias e regiões, ele mesmo apresenta um artigo
sobre “O processo de Independência no Nordeste”. O caráter multifacetado do livro instigava
novas reflexões sobre o significado de 1822. Novos problemas ganham espaço, como a
necessidade de recuperar a história do evento 1822 de um ponto de vista atlântico, ou seja
analisar também o “lado português”. Nele destaca-se o artigo de Maria Odila Silva Dias – “A
interiorização da metrópole”. Neste artigo, a historiadora ressalta a continuidade do processo de
transição entre colônia e império, mas aponta que a independência possibilitou, desde 1808, a
reinterpretação do passado colonial, do ponto de vista das elites coloniais e metropolitanas unidas
sob o medo comum da anarquia democrática ou da revolta escrava generalizada. A historiadora
afirma:
A vinda da Corte com o enraizamento do Estado português no Centro-Sul daria início à
transformação da colônia em metrópole interiorizada. Seria esta a única solução aceitável para
as classes dominantes em meio à insegurança que lhes inspiravam as contradições da sociedade
colonial, agravadas pelas agitações do constitucionalismo português e pela fermentação mais
generalizada no mundo inteiro na época, que a Santa Aliança e a ideologia da contra-revolução
na Europa não chegavam a dominar (DIAS, 1972).

O artigo levantava questões acerca dos processos de tomadas de decisão. Tornava-se


necessário compreender melhor o “mecanismo inerente às classes dominantes no Brasil
colonial”, que possibilitava a continuidade das instituições na transição da colônia ao império.
Estes estudos, segundo Maria Odila Dias, poderiam lançar luz sobre este processo que denomina
de interiorização da metrópole, que resultava no “fato que a semente da ‘nacionalidade’ nada teria
de revolucionária: a monarquia, a continuidade da ordem existente eram as grandes preocupações
dos homens que forjaram a transição para o império” (DIAS, 1972). Renovava-se, assim, o
estudo das elites políticas no império, não implicando suas decisões como fatos políticos
concretizados, mas como a confluência de interesses coletivos e individuais possibilitava a
construção de estratégias políticas, e ultimamente na formação de um estado civil, estável e
aristocrático e apoiado em alicerces escravocratas.
As pesquisas mais recentes têm se debruçado nas questões que surgiram desde esse
período de intensificação da pesquisa universitária. Estudos comparativos, como o de João Paulo
Garrido Pimenta, buscam integrar os estudos da independência nas Américas e o contexto
atlântico. Nota-se a continuidade dessa historiografia pautada por Caio Prado Jr. e Sérgio
Buarque de Holanda, que ainda influencia tantos trabalhos: “Da mesma forma que na América
hispânica o fim dos antigos laços antecede a organização definitiva dos novos Estados, na
16
portuguesa a ruptura com a metrópole, declarada oficialmente em 1822, não significou a
consolidação de um novo Estado, tampouco a fundação de uma nova nação” (PIMENTA, 2006).
Outras abordagens recentes que têm sido consolidadas são os estudos do vocabulário
político, da linguagem político-historiográfica e da história da historiografia. A obra de Lúcia
Maria Bastos Pereira das Neves “Corcundas e constitucionais” faz o colossal rastreamento dos
jornais e panfletos políticos nos dois lados do Atlântico, entre os anos de 1820 e 1822. Buscava,
por meio do estudo aprofundado da imprensa naquele período, ressaltar o mal-entendido entre o
projeto liberal das Cortes de Lisboa de reerguer Portugal do abatimento que se encontrava desde
a invasão napoleônica e a má percepção que as elites locais tinham das decisões das Cortes. O
mapeamento da imprensa do período deu condições para estabilizar conceitos, e identificar
grupos políticos ligados aos seus usos.
Finalmente é importante notar a acentuada contribuição de alguns membros do Núcleo de
Estudos em Historiografia e Modernidade - NEHM, do departamento de História da Universidade
Federal de Ouro Preto para este debate. Preocupados com elementos ligados à escrita da História
moderna, e da própria modernidade como categoria histórica, alguns de seus membros
desenvolveram pesquisas importantes para a compreensão de como membros desta elite imperial
percebiam fenômenos, tais como o tempo, a história e os conceitos políticos disponíveis a sua
época. É o caso do trabalho de Valdei Lopes de Araujo, que, ao inventariar as diversas formas que
os membros desta elite imperial percebiam a “experiência do tempo”, demonstra como esta
dimensão da vida humana está intimamente ligada à produção de conceitos político-sociais, como
regeneração e restauração, que visavam atribuir sentido ao mundo em que viviam. Alguns
trabalhos recentes produzidos no âmbito do NEHM aprofundaram a compreensão de como
membros da elite letrada no século XIX percebiam o seu tempo, por intermédio do estudo de
obras historiográficas. É o caso da dissertação de Thamara de Oliveira Rodrigues intitulada “A
Independência de Portugal: História, progresso e decadência na obra de Francisco Solano
Constâncio (1808-1840)”, e de André Ramos “Robert Southey e a Experiência da História de
Portugal: Conceitos, Linguagens, e Narrativas Cosmopolitas (1795-1829)”.
Valdei Lopes de Araújo e João Paulo G. Pimenta, ao analisarem as transformações do
conceito de “História” no mundo luso-brasileiro entre o século XVIII e XIX, demonstram a
dimensão simultânea do conceito como produto e produtor de transformação histórica:
O projeto de independência do Brasil como separação política total de Portugal resultou de uma

17
rápida radicalização nas ideias articuladas de ‘emancipação’ e ‘autonomia’, de modo a
atingirem outra, de criação de um novo Estado e de uma nova esfera de soberania. Ao seu cabo,
ainda que não desaparecessem totalmente sonhos de uma reunificação, os intelectuais e homens
públicos envolvidos nesse projeto se veriam diante da necessidade de dar conta de uma
experiência de ruptura revolucionária – em seu sentido moderno – que sua formação anterior
procurava evitar (ARAÚJO, 2009).

A aproximação teórica procedente das consequências de um campo filosófico abalado


pelo giro linguístico, aliada a uma rejeição sistemática da teoria da dependência, que organizou
diversas pesquisas históricas no Brasil, na segunda metade do século XX, possibilitou o
desbravamento de novas abordagens. A preocupação com a formação de conceitos, no âmbito da
“história das ideias”, possibilitou superar discussões que vigoraram durante décadas na
historiografia brasileira acerca do “lugar” das ideias, tão cara à teoria da dependência. Esta matriz
de pensamento – da percepção que estudiosos tinham da posição “periférica” do Brasil, e sua
subsequente “subordinação” às ideias do centro (primeiro europeu, posteriormente norte-
americano) – traduzia o que considerava a inserção do país no capitalismo global em condição de
inferioridade, para o plano do pensamento político. Christian Edward Cyril Lynch, em recente
artigo 7 , elucida este movimento ao apontar as diferenças entre o emprego de termos, como
“teoria” e “pensamento”, quando se aborda a história da produção acadêmica brasileira. O autor
chama a atenção para que, nas décadas subsequentes aos movimentos de independência nas
Américas, surgiu a necessidade de criar distinções claras entre o pensamento do “centro”,
“universal e original”, e o que seria a periferia, “bárbaro, copiado ou deformado”. Tal esforço
teórico estaria intimamente ligado à compreensão do tipo de historicidade produzida nos centros
europeus: orientados pela perspectiva de um futuro de valores metafísicos normatizados e
partilhados, de solidariedade universal, paz, e recursos supérfluos, caberia a cada nação e seu
conjunto de cidadania “caminhar” a estes ideais. Assim, países do centro estabeleciam o padrão a
ser seguido, uma vez que era o referencial de civilização e civilidade. Não surpreendentemente,
conforme autores nacionais inventariavam a produção intelectual à relação entre centro e
periferia, concretizava-se: ao centro caberia o papel de difusor de filosofias, suas luzes, ancoradas
na historicidade do seu povo (antigo, de cultura consolidada e adiantada), emanavam à periferia,
a quem caberia adaptar essas abordagens no pensamento local.
Esse movimento se torna mais evidente quando tratamos da diplomacia, que, espremida
entre interpretações de um lado que a sua realização era consequência do jogo de forças de atores
7
LYNCH, 2013. Disponível em: <https://goo.gl/kW4ygp>.
18
nacionais e, de outro lado, de que era mera consequência de movimentos dos países do “centro”,
perdia possibilidades de autonomia enquanto campo de pesquisa. Não se trata de desenvolver
mais um campo de especialidades, mas de chamar atenção para a necessidade de abordar fontes
específicas da diplomacia para tratar do tema, que com frequência dão margem a interpretações
que contradizem essas teorias, como buscaremos evidenciar.
Este breve balanço historiográfico visa demonstrar como os estudos sobre o período de
independência do Brasil deixaram o aspecto da diplomacia na independência marginalizado,
mesmo tendo um papel preponderante tanto na sua realização quanto para a formação de
instituições políticas, que costumam ser vistas apenas do ponto de vista do jogo de forças
internas. A historiografia tende a tratar o processo de independência como uma realização interna
à unidade do Império Ultramarino Português, às vezes até como um processo interno à
territorialidade brasileira. No contexto de restauração de diversas monarquias europeias após a
Revolução Francesa e o Congresso de Viena, a noção de legitimidade política e soberania
perpassava, necessariamente, pelo processo de reconhecimento externo da governança interna de
uma Nação, processo este intacto até hoje. Um dos principais pontos levantados nas discussões
sobre o reconhecimento da independência é justamente um argumento diplomático de que o
Brasil havia sido elevado à condição de Reino Unido em 1815 e reconhecido por todas as nações
no Congresso de Viena. A historiografia sobre o período tende a observar a Independência do
Brasil como um desdobramento de forças internas ou da relação direta com Portugal. Vemos, no
entanto, que o processo de independência passou por um extenso período de negociações pelo seu
reconhecimento no exterior, e as mais diversas demandas para o seu reconhecimento demonstram
que este processo não se deu pela autodeterminação dos povos, mas antes exigiu um extenso
período de negociação e legitimação externa, um processo de convencimento do outro. Seria
conveniente, portanto, fazer uma breve explanação sobre o Congresso de Viena, para, em um
segundo momento, relacioná-lo ao discurso político da independência.

O Congresso de Viena

A derrota de Napoleão, em Maio de 1814, levou os “Grandes Poderes”, Áustria, Prússia,


Rússia e Inglaterra, a iniciarem as discussões de paz no final do verão europeu de 1814. Foram
convidados plenipotenciários de diversos territórios Europeus, com fins de discutir não apenas

19
questões relativas ao encaminhamento da paz, mas também milhares de temas pendentes no
cenário europeu. A agenda incluía desde os direitos de navegação nos rios europeus ao fim do
tráfico negreiro no atlântico. Entretanto, a parte mais densa das discussões passava
necessariamente pelo reordenamento do mapa europeu. Era necessário discutir as fusões,
desagregações e novos limites na Escandinávia; o desmembramento e divisão territorial de
Polônia, cujo intenso debate quase recolocou as nações em guerra; buscava recolocar a dinastia
Bourbon no trono Espanhol, Francês e Napolitano; e a necessidade de conferir um novo
ordenamento político-jurídico à confederação germânica, uma vez que o Sacro-Império Romano
já não dava conta das diversas identidades e representações políticas daquele espaço.
No meio de todas essas infindáveis discussões, Napoleão conseguiu fugir de sua prisão
em Elba e reocupou o trono Francês durante mais cem dias, forçando os aliados e se unirem mais
uma vez para, finalmente, derrotá-lo no dia de 18 de junho em Waterloo. A nova investida
Napoleônica ao trono aumentou ainda mais a vontade dos participantes do congresso de
implementar sistemas de prevenção de guerras e de criar as bases para uma paz duradoura. Foi
brevemente cogitado inclusive o desmembramento da França, como ocorrera com a Polônia. Por
traz de todas essas discussões, permanecia a necessidade de pensar um novo sistema político para
a Europa, que pudesse evitar guerra generalizada no continente. A Santa Aliança, fortemente
incentivada pelo Tzar Russo Alexandre I, visava a criação de um sistema de paz permanente 8. A
solução proposta pela Santa Aliança buscava substituir os blocos regionais de equilíbrio de poder,
antes liderados pela França bubônica e a Áustria Hasburga, por um único bloco regido por ciclos
intensos de conferências multi-laterais, o chamado “sistema de congressos”, que durou entre
1815-18229.
O século XVIII europeu observou um equilíbrio de poder estabelecido por diversas
guerras pontuais que giravam entre duas alianças principais lideradas pela França de um lado e a
Áustria de outro 10 . As guerras Napoleônicas quebraram esse sistema, destruindo alianças
regionais e estabelecendo uma zona de hegemonia. Essas guerras destruíram instituições
políticas, como o Sacro-Império Romano, que reunia os diversos principados germânicos sob

8
GHERVAS, S. A Peace for the Strong. History Today, Vol. 64, Issue 9.
9
GHERVAS, S.; ARMITAGE, D. The Power of Peace: Why 1814 might matter more than 1914. E-international
Relations, 2014.
10
GHERVAS, Stella “Réinventer la tradition: Alexandre Stourdza et l'Europe de la Sainte-Alliance”. Honoré
Champion, 2008.
20
uma instituição, dilacerou a Polônia e acabou com as tentativas de unificação da Itália. O
congresso visava reestabelecer ordem à Europa por meio da criação de uma hegemonia duradoura
no concerto europeu. Assim, boa parte da Polônia foi anexada à Rússia, e a Finlândia foi
sancionada como território Russo. A Saxonia, antes parte dos mais de 300 principados do Sacro-
Império Romano, se tornou território da Prússia junto ao que sobrou da Polônia. À Áustria, foi
incorporado o norte da Itália, incluindo Veneza. Foram criados diversos “Estados Tampões”, com
apoio Inglês, para isolar a França do resto do continente ao leste, como ao norte os Países Baixos,
a regulamentação da constituição Suíça; e ao sul a junção da Savoya com Nice, Genoa e a
Sardenha, criando o Reino do Piemonte e Sardenha. Mais do que restaurar antigos reinos do
período anterior à revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, o delineamento destes Estados
visava criar zonas de influência de uma esfera política que girasse em torno da Rússia, Prússia e a
Áustria, na chamada “Santa Aliança pelo amor cristão”.
A estratégia Inglesa era a de manter distância cautelosa dos conflitos militares no
continente. Como em Utrecht, em 1713, o gabinete Inglês, agora liderado pelo Visconde de
Castlereagh, propunha o plano de isolamento da França pelos “Estados Tampões” 11
. Ao
Castlereagh, interessava não um modelo de hegemonia continental, mas a manutenção de
“equilíbrio de poder” que inevitavelmente levava a períodos de guerra que enfraqueciam os
países continentais. Interessava também uma ordem europeia que favorecesse seus interesses no
comércio ultramarino, o que levou o congresso a sancionar a ocupação Inglesa de colônias como
a do Cabo no sul da África, Tobago no Caribe e o Ceilão, atual Sri Lanka. Outros territórios
foram devolvidos à Holanda, como Martinique. Castlereagh montou um eficaz sistema
diplomático que mantinha constantes relações com o resto da Europa continental, já era preferível
garantir seus interesses por intermédio de negociatas, explorando as constantes relações
tumultuosas no continente, e, de fato, a Inglaterra foi o país mais atuante neste modelo de
congressos.
A Áustria também buscava manter um sistema de “equilíbrio de poder”, embora de uma
maneira mais escondida, e por motivos defensivos. Em 1813, quando o exército Russo bem
sucedido marchava sob Berlin, se unir à coalização contra a França se tornava a única maneira de
se proteger contra os poderosos avanços da Rússia. A aliança com a Rússia logo se tornou um
estorvo, com questões relativas à partição da Polônia e à anexação prussiana da saxônia,

11
JARRETT, 2015. Disponível em: <https://goo.gl/pXwidz>.
21
colocando Rússia e Áustria em crescente tensão. O Príncipe Klemens von Metternich atuava no
sentido de desestabilizar as forças internas da coalização, para conseguir se sobrepor no momento
das negociações, e tentar, minimamente, conter a Rússia12.
Já a Rússia fazia o maior esforço por uma política de paz duradoura, baseada em uma
hegemonia política formada pela Rússia, pela Áustria, pela Prússia e pela Inglaterra. Na França, a
formação da Santa Aliança foi vista como um retrocesso aos princípios políticos estabelecidos
durante a revolução, e a interpretação de que ela era um retorno ao Antigo Regime dura até hoje.
O Visconde de Castlereagh comentava o documento que a firmava, com fortes referências cristãs,
como um “pedaço de misticismo sublime, uma bobagem”, embora, ao mesmo tempo,
recomendasse a Inglaterra a assiná-lo. Contudo, nem este documento, nem a aliança em si, devem
ser analisados como um retrocesso ao Antigo Regime, pelo contrário, ele configura uma
concepção política tipicamente moderna para a Europa. Nele os três principais aliados, Rússia,
Áustria e Prússia, deixariam de lado suas respectivas religiões ortodoxa, católica e protestante,
para consolidar uma forma política que colocava valores cristãos como orientador genérico para
um fim mundano: a consolidação e manutenção da paz e da hegemonia dos três poderes sob a
Europa.
Não se pode, portanto, ser interpretado como um retorno a princípios religiosos na
política, mas sim como um passo significativo à laicização, efetivamente retirando do Papa
qualquer tentativa de intermediação entre os poderes. A Aliança tanto significava um passo em
direção à laicização que a Rússia exploraria à questão da “Europa Cristã” conforme lhe fosse
conveniente, como fica claro nas idas e vindas com o Sultão Muçulmano, ora amigo, ora inimigo,
do Império Otomano. Havia ainda a clara inspiração da Santa Aliança em uma ideia iluminista, a
de paz perpétua, que aparecia primeiramente no abade Francês Saint-Pierre, em que ele critica
que o tratado de Utretch de 1713 não criava condições para a paz, já que o modelo de “equilíbrio
de poder” montava apenas um cessar-fogo armado. Sua proposta, no entanto, exigia a simples
coexistência pacífica na forma de uma federação, com corpo político e exército regular único, sob
o preceito de valores cristãos comuns. Embora a Santa Aliança nunca tivesse passado de uma
declaração de intenções, a transformação conceitual da identidade religiosa retida por cada
Estado para uma aliança solta entre Estados com valores semelhantes é significativa tanto para
compreender a formação da Santa Aliança quanto para compreender o posicionamento da Europa

12
Ibidem, p. 7.
22
perante as revoluções americanas.
Neste contexto, a política externa Portuguesa estava em uma posição fragilizada. Era,
logisticamente, mais complicado enviar instruções e se comunicar com os representantes
portugueses uma vez que a sede do Império encontrava-se do outro lado do Atlântico. Portugal,
assim como a Espanha, permaneceu de fora do Tratado de Chaumont de primeiro de março de
1814, em que a Inglaterra, a Áustria, a Rússia e a Prússia se comprometiam, entre outras coisas,
no restabelecimento dos reis Burbônicos. Parte da Estratégia Portuguesa de obter maior
relevância nas negociações subsequentes foi a de elevar o território do Brasil à condição de Reino
Unido, ato que depois se tornaria fundamental nos argumentos para o reconhecimento da
Independência do Brasil.
Portugal defendia três pautas principais no congresso:
 A Guiana Francesa – como consequência das guerras napoleônicas, Portugal havia
ocupado a Guiana Francesa, e buscava no congresso mantê-la. O Tratado de Paris,
negociado logo depois do Tratado de Chaumont, e assinado em maio de 1814, previa a
restauração da unidade territorial da França aos limites pré-revolução Francesa, o que
implicava a devolução da Guiana Francesa à França.
 Tráfico de Escravos no Atlântico – A Inglaterra buscava tornar o tráfico de escravos em
uma questão de direito internacional público e não de direito civil interno. A partir da
diferenciação entre “tráfico” e “escravidão” pôde-se, consequentemente, negociar para a
proibição do tráfico atlântico. O tratado de Paris instituía a capacidade da marinha Inglesa
de abordar e fiscalizar qualquer navio no Atlântico, que na prática já ocorria e era um dos
estopins da guerra de 1812 com os Estados Unidos.
 Questão de Olivença – O território de Olivença havia sido ocupado por tropas franco-
espanholas em 1801, e era alvo de contestação desde então. No Congresso, Portugal
negociava para a sua reincorporação ao território Português. Os membros signatários
reconheceram as demandas de Portugal na Ata Final, sob o artigo 105, em que Olivença
era devolvida a Portugal. Embora o delegado espanhol Pedro Labrador houvesse se
recusado a assinar a ata final por este motivo, o conde Espanhol finalmente assinou, em
nome do Rei da Espanha, a Ata Final do Congresso de Viena em 17 de maio de 1817,
efetivamente devolvendo o território.

23
Antes mesmo da declaração de Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, Dom
Pedro I e José Bonifácio já cogitavam nomear algum representante do Brasil na corte inglesa,
para representar os interesses do Príncipe na Europa diretamente. Não se tratava ainda de
demonstrar o Brasil enquanto entidade política separada de Portugal, mas dada a condição de
“cativeiro”, a qual se encontrava Dom João VI, em Lisboa, era a única maneira de garantir que os
interesses da Monarquia seriam transmitidos. Dom Pedro reconhecia a posição do Brasil como a
de um território autônomo, cujas últimas instâncias de poder, como tribunais, casas legislativas e
poder executivo, poderiam ser exercidas a despeito das decisões de Lisboa. No período da
independência, porém, com frequência, o discurso da legitimidade soberana do Brasil se
confundia com a legitimidade dos Bragança em governar. Assim, Dom Pedro I nomeava seus
representantes no exterior como “Agentes Plenipotenciários do Imperador Dom Pedro I”. Seria
interessante registrar aqui algumas diferenças de nomenclatura entre as diversas categorias de
representação no exterior.
A nomenclatura “diplomata” aparece, formalmente, escrita ou expressa por representantes
de outras nações, apenas uma vez reconhecida a soberania de um País. Todavia, é importante
delimitar a diferença entre um detentor de uma “carta de plenos poderes”, uma espécie de
procuração, e um diplomata. A “carta de plenos poderes” se remetia a capacidade de uma pessoa
de representar outra, no caso de um agente representar Dom Pedro I. O único a ter recebido tal
carta foi Felizberto Caldeira Brant Pontes, pois, quando foi nomeado, o Brasil ainda não havia
sido declarado como independente, e, portanto, Brant Pontes representava o Príncipe Regente
diretamente. Portanto, embora os termos “agente plenipotenciário”, “agente de plenos poderes”,
“diplomata”, “representante de estado” e “charge d'affairs” sejam utilizados de forma
intercambiáveis, há pequenas diferenças entre seus significados, apesar de, muitas vezes, os
próprios autores, informalmente, se valiam desses títulos sem muita ponderação. Diante das
cortes, dos secretários e dos representantes de Estado, no entanto, o emprego era rigoroso, e
geralmente onde o Brasil não era ainda reconhecido como independente, os atores nunca eram
chamados de “Diplomata” ou “representante de Estado”, sempre como “agente plenipotenciário”
ou “de plenos poderes”. A diferença aqui é simples: reconhecer, até hoje, um diplomata é
reconhecer o poder investido nele de representar uma nação, e logo a própria existência dela.
Já o termo cônsul, se remetia a um representante de uma territorialidade, não
necessariamente um Estado, que não detinha poder deliberativo. Um cônsul não poderia assinar
24
tratados ou tomar decisões executivas. Sua função era apenas a de incentivar relações culturais,
políticas e comerciais em outro território. Assim muitas nações europeias e americanas
mantinham consulados no Rio de Janeiro no período da independência, enquanto seus diplomatas
estavam em Portugal. É o caso de Condy Raguet, cônsul estadunidense no Brasil entre 1821-
1825.

CAPÍTULO 1 – OS DIPLOMATAS NO EXTERIOR

1.1 Em Londres, pelo Império: Felizberto Caldeira Brant Pontes em Londres

Antes mesmo da declaração de Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, Dom


Pedro I e José Bonifácio já cogitavam nomear algum representante do Brasil na corte inglesa.
Não se tratava ainda de demonstrar o Brasil enquanto entidade política separada de Portugal, mas
dada a condição de “cativeiro”, a qual se encontrava Dom João VI, em Lisboa, era a única
maneira de garantir que os interesses da Monarquia seriam transmitidos. Dom Pedro reconhecia a
posição do Brasil como a de um território autônomo, cujas últimas instâncias de poder, como
tribunais, casas legislativas e poder executivo, poderiam ser exercidas a despeito das decisões de
Lisboa. No período da independência, porém, com frequência, o discurso da legitimidade
soberana do Brasil se confundia com a legitimidade soberana dos herdeiros da casa dinástica de
Bragança. Assim, Dom Pedro I nomeava seus representantes no exterior como “Agentes
Plenipotenciários do Imperador Dom Pedro I”.
Em carta13 de 12 de agosto de 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva nomeou Felizberto
Caldeira Brant Pontes para o desempenho das funções de encarregado de negócios da corte de
Londres. Trata-se de uma carta de instruções, cujo padrão fora cunhado e regulamentado desde o
princípio da época moderna pelas relações de uma política diplomática entre as cidades-estado
italianas no século XIII14. Este padrão de relacionamento a nível internacional foi se tornando,
cada vez mais, complexo, regulamentado e reforçado por diversas convenções durante a época
moderna, a partir de uma política de diplomacia instituída entre os Estados absolutistas. No início
do século XIX, com a era dos congressos, originada pela reformulação do mapa europeu, após o

13
GARCIA, 2008.
14
HOMEM, 2010.
25
fim do império napoleônico (dentre eles o congresso de Viena), as relações diplomáticas e seus
encarregados passaram a ter como função a reafirmação, a nível internacional, da soberania de
novas nações que surgiam a partir do reordenamento da Europa. Estas discussões, por sua vez,
geravam um debate sobre as novas nações americanas que surgiram com o fim dos impérios
ibéricos entre fins do século XVIII e início do XIX.
As relações políticas entre as nações no século XIX deixavam de ser uma extensão da
vontade real, e adquiriam, cada vez mais, um caráter público, em um mundo que demandava
trocas de informações mais rápidas e mais complexas em seu conteúdo, exigindo, assim, tomadas
de decisão in loco, e, portanto, maior autonomia dos enviados diplomáticos, requerendo que os
agentes representassem o próprio estado. Desse modo, Felizberto Caldeira Brant Pontes
(posteriormente Marques De Barbacena), pôde ser visto como um importante representante
dessas novas relações diplomáticas no início da primeira metade do século XIX, como um
encarregado dos Negócios Estrangeiros, junto à Majestade Britânica, cujos objetivos são
norteados, pela carta-recomendação de José Bonifácio, a partir de dezoito pontos. Entretanto,
antes de analisá-la, propriamente, convém uma breve descrição biográfica de Felizberto Caldeira
Brant Pontes.
Nascido em 19 de Setembro de 1772, na província de Minas Gerais, Brant Pontes herdou
de seu avô paterno a enorme riqueza advinda do contrato dos diamantes e de ouro da região de
Diamantina. Tal riqueza deu-lhe acesso ao colégio dos nobres, e, posteriormente, à academia da
marinha, em Lisboa, destacando-se em ambos. Aos 19 anos, mesmo obtendo reconhecimento na
marinha, decidiu transferir-se para o exército, onde serviu durante dois anos em Angola, como
major de estado-maior e ajudante de ordens do governador (D. Miguel Antonio de Mello). De
volta a Lisboa, logo se vê na posição de retornar a Salvador, como parte da corte transferida em
1808, fugindo das forças Napoleônicas, permanecendo, porém, na capital Baiana ao invés de
seguir para o Rio de Janeiro, com o resto da comitiva da corte. Lá é nomeado brigadeiro e
inspetor das tropas da Bahia. Neste período, estabeleceu também uma fábrica de armas, no
arsenal da Bahia, e abriu, com seus recursos, uma estrada. Importou, também, a primeira máquina
a vapor para moer cana, assim como o primeiro barco a vapor.
Avesso a qualquer manifestação democrática ou republicana, e aterrorizado pela noção de
participação política popular (por mais restrito que este conceito possa ser nas primeiras décadas
do século 19), auxilia, em 1817, o Conde dos Arcos na violenta repressão da revolução
26
pernambucana. Em 1821, quando instigado pelos promotores da adesão da Bahia às Cortes de
Lisboa a juntar-se as suas causas, nega-lhes e é preso. Quase chega a ser executado, mas os
motins na Bahia, em fevereiro de 1821, deram-lhe brecha para fugir, e, embarcado em uma
fragata Inglesa, vai para Rio de Janeiro, e depois para Londres.
O futuro Marques de Barbacena sempre foi um grande admirador da cultura e das
instituições Inglesas. Discípulo do ministro progressista de D. João VI, o Conde de Linhares,
Brant Pontes favorecia uma organização constitucional mais moderada, parecida com a Inglesa.
Sempre que tinha oportunidade, aconselhava José Bonifácio e o Imperador Dom Pedro I a adotar
sistemas, assinar tratados, acatar decisões Inglesas. Assim, em carta “secretíssima”, de primeiro
de maio de 1822, sugeria a José Bonifácio o estabelecimento de uma união pessoal entre Brasil e
Portugal, como na época acontecia na união entre Suécia e Noruega ou Grã-Bretanha e Hanover.
Dizia também, na mesma carta, não ser difícil implementar uma constituição moldada na
americana, afirmando ser necessário apenas “meter-lhe palavras e fórmulas monárquicas”. Tendo
na constituição americana a essência de uma carta constitucional estável, bastaria dotar-lhe de
uma roupagem monárquica. Relatou, finalmente, que a união entre os dois reinos não deveria ser
rompida, mas que seria uma “falta de vergonha” continuar tratar com as cortes, “traidoras e
democráticas”. Em carta de 9 de fevereiro de 1825, Brant Pontes indicava tanto sua associação ao
projeto monárquico quanto sua admiração do sistema Inglês, e como conceituava palavras como
república, Rei e Império:
O Rei aqui tem uma constituição, que não ousa infringir, mas não se chama "constitucional". Os
comuns notam os tributos, e fiscalizam todas as despesas, mas o Tesouro, Exército e Marinha,
não se chamam Nacionais, tudo é Real, porque o Rei é a Nação personificada. Aqui também há
Pares e Deputados, mas não se chamam "Augustos". Todos são iguais diante da lei, mas
ninguém ouse sair da sua hierarquia, ou emparelhar com o Superior. Nós somos Imperialistas,
mas quase todos os atos são Republicanos, até o expediente das secretarias conserva os
formulários democráticos introduzidos pelas pestíferas cortes de Lisboa. Pouco a pouco convém
corrigir tais abusos antes que tomem raízes. 15

A carta de Intenções de 12 de agosto expressa a complexidade da tarefa política


empreendida e demonstra a estratégia discursiva que Bonifácio utiliza para dar conta deste
cenário delicado. Valida também a delicada relação temporal mobilizada: ser, ao mesmo tempo,
continuidade e ruptura. A carta é organizada em 18 pontos, iniciada por um parágrafo que nomeia
Felisberto Caldeira Brant Pontes “para o desempenho das funções de Encarregado de Negócios

15
Maço 52 – Doc. 2428, Museu Imperial.
27
na Corte de Londres”. A hipótese desta análise é de que a carta é redigida para construir um
argumento de legitimidade da independência do Brasil do ponto de vista da continuidade do
sistema Europeu, e não de sua ruptura. Reivindicava o passado como fonte de autoridade, ao
contrário da noção democrática de revolução, sem, no entanto, abrir mão da noção temporal de
progresso, que colocaria o Brasil como palco da possibilidade de renovação ou regeneração. Seus
argumentos principais buscavam legitimar a fórmula política da monarquia como uma tradição a
ser mantida, que daria a estabilidade do passado a instituições em um processo de “rápida”
transformação. Esta interpretação ia de encontro às cortes de Lisboa, e o movimento vintista, que
questionava e reformulava as noções de legitimidade política então em vigor.
O terceiro ponto da carta já inaugura o argumento principal para dotar as ações dos
representantes do Brasil de legitimidade. Argumentava que as Cortes de Lisboa não tinham
legitimidade por terem o Rei de Portugal, Dom João IV, sob “coação e cativeiro”, e que, portanto,
ele seria incapaz de tomar decisões. A constituição elaborada pelas Cortes de Lisboa seria,
portanto, nula de legitimidade, e apenas seu sucessor, Dom Pedro, detinha a legitimidade de
governar, emanada da tradição monárquica europeia. Ora, se Dom Pedro encontrava-se no Brasil
e proclamava a sua independência, na visão de José Bonifácio, isso deveria ser o suficiente para a
aceitação das demais cortes europeias da “justa causa do Brasil”:
Assim que for recebido como Encarregado de Negócios do Brasil, como é de esperar, exporá
com energia e clareza os motivos justos que teve o Brasil: 1) De não reconhecer mais a
autoridade do Congresso de Lisboa. 2) De querer uma Assembleia Geral Constituinte
Legislativa, dentro do seu próprio território, que tenha as mesmas atribuições das de Lisboa. 3)
De considerar Sua Majestade El-Rei o Sr. D. João IV em estado de coação e cativeiro, sendo
por isso indispensável que S. A. R. Tente salvá-lo deste afrontoso estado de péssimo exemplo às
dinastias reinantes. 4) Da necessidade de corresponder-se S.A.R. diretamente com as Cortes
estrangeiras. Insistirá particularmente sobre o ponto da coação e cativeiro em que se acha El-
Rei em Lisboa, o que só bastava para que S.A.R. e o Brasil não devessem obedecer aos
decretos daquele Congresso, não obstante aparecerem eles revestidos da sanção d’El-Rei, a
qual por ser forçada é nula por direito (GARCIA, 2008, grifos nossos).

José Bonifácio evoca, em seu argumento, a legitimidade reabilitada com o fim do regime
Napoleônico, que buscava o estado político europeu Pré-Revolução Francesa ao citar o
“afrontoso estado de péssimo exemplo às dinastias reinantes”. É evidente, para Bonifácio, que a
capacidade de governar, ou reinar, não emana puramente do povo, qualquer que seja este
conceito, tal como constituições liberais diriam 16 . Argumenta neste sentido ao citar a

16
A declaração de independência norte-americana é contrastante ao argumento utilizado por Bonifácio:
“Consideramos estas verdades sagradas e incontestáveis; que todos os homens são criados iguais e
28
“necessidade de corresponder-se S.A.R diretamente com as Cortes estrangeiras”, ou seja, a
necessidade de D. Pedro de manter uma relação direta, própria com as cortes europeias,
independentemente das Cortes de Lisboa. Este ponto decorria do argumento central de Bonifácio
de que por estar sob coação e cativeiro “só bastava para que S.A.R. e o Brasil não devessem
obedecer aos decretos daquele Congresso. Não obstante, eles aparecerem revestidos da sanção
d’El-Rei, a qual por ser forçada é nula por direito”. Bonifácio segue com esta linha de raciocínio
e no quarto ponto reitera:
Mostrará, outrossim, que S.A.R. para conservar a realeza no Brasil e os decretos da augusta
casa de Bragança devia, como fez, anuir aos votos gerais dos brasileiros, que reclamavam a
integridade do seu País e a sua independência política, como Reino irmão, e tão livre como o de
Portugal, exigindo para estes fins a conservação de S.A.R., aclamando-o logo depois seu
Defensor Perpétuo (ADI, Tomo I, p. 7).

Embora exista, em seu discurso, um conceito de representatividade, já que são os


“brasileiros” que “reclamavam a integridade do seu País e sua independência política”, ela
deveria ser exercida por intermédio da “conservação de S.A.R.”, aclamado defensor perpétuo.
Nos pontos 5 e 6, Bonifácio descreve os direitos dos quais decorrem a autoridade legitimada de
D. Pedro, ao afirmar que a ele compete ser “Chefe Supremo do Poder Executivo”, de poder,
portanto “travar relações políticas com as nações estrangeiras, que comerciam com este País”. A
Felisberto Caldeira Brant Pontes caberia reivindicar assim “o reconhecimento de Independência
política deste Reino do Brasil e da absoluta regência de S.A.R. enquanto Sua Majestade se achar
no afrontoso estado de cativeiro a que o reduziu o partido faccioso das Cortes de Lisboa”.
Nos primeiros pontos, José Bonifácio argumenta, do modo de vista geral, os motivos dos
quais qualquer Estado deveria reconhecer a proclamação de independência do Brasil. Já no
sétimo ponto, ele discursa especificamente sobre a Inglaterra:
Para que este reconhecimento se consiga, além dos princípios de direito público universal que o
abonam, fará ver com toda a desteridade que os próprios interesses do Governo britânico instam
por aquele reconhecimento, pois com ele: 1) Se paralisam os projetos dos facciosos de Lisboa,
que de tão perigoso exemplo podem ser aos Governos legítimos das mais nações. 2)
Desempenha a Inglaterra o dever de antiga e fiel aliada da Casa de Bragança e procede
coerente com seus princípios liberais; e reconhecendo a Independência do Brasil, satisfaz ao
dever que implicitamente contraíra quando em outro tempo reconhecera solenemente a
categoria de Reino a que este País fora então elevado. 3) Utiliza no seu comércio, que de
certo padeceria se duvidasse reconhecer a Independência do Brasil, visto que este Reino (à

independentes, e que, dessa criação igual, eles derivam direitos inerentes e inalienáveis, dentre os quais estão a
preservação da vida e da liberdade e a busca da felicidade; que, para assegurar esses direitos, governos são
instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados” (THOMAS, 2011,
grifos nossos).
29
semelhança de Columbia, que aliás não tem tantos direitos e recursos) está resolvido a fechar
seus portos a qualquer potência que não quiser reconhecer nele o mesmo direito que têm todos
os povos de se constituírem em Estados independentes, quando a sua prosperidade e o seu
decoro o exigem. Além disto, fará ver o Ministério britânico que se os Governos independentes
das ex-províncias americanas espanholas têm sido por tais reconhecidas e até mesmo de algum
modo em Inglaterra, onde já se permitiu a entrada das duas bandeiras, com maior justiça deve
ser considerado o Brasil, que há muito tempo deixou de ser Colônia e foi elevado à categoria de
Reino pelo seu legítimo Monarca, e como tal foi reconhecido pelas altas potências da Europa
(ADI, Tomo I, p. 8).

Bonifácio mobiliza aqui o tempo como argumento de legitimidade ao exigir da Inglaterra


que desempenhe o dever de antiga e fiel aliada da Casa de Bragança. O tempo cria deveres, e
exige coerências e permanências, como a necessidade de satisfazer “ao dever que implicitamente
contraíra quando em outro tempo reconhecera solenemente a categoria de Reino a que este País
fora então elevado”. O dever implícito do reconhecimento estava atrelado à decisão de outrora,
que o tempo, neste argumento, enquanto um sujeito, ainda exercia. O passado é mobilizado como
fonte de autoridade.
Do argumento geral de que as Cortes de Lisboa são ilegítimas, pois mantêm D. João VI
em cativeiro, e que, portanto, D. Pedro é a autoridade reinante, Bonifácio deriva seus argumentos
para o reconhecimento específico da Inglaterra. A ilegitimidade das ações das cortes era
interpretada como um perigo para uma Europa que ainda vivia os tumultos do passado recente da
Revolução Francesa e o “despotismo” Napoleônico que persistia e causava grande temor. A
aceitação deste despotismo poderia resultar em, como diria Brant Pontes, na carta para Bonifácio
em 2 de abril de 1822: “Guerra civil, anarquia, desunião de Portugal, caos, enfim todos quantos
males afligem a triste humanidade, exceto peste e terremoto que não existem no Brasil”17. Se
quisessem estancar uma possível onda de revoltas semelhantes, argumentava Bonifácio, deveriam
prontamente reconhecer a soberania de D. Pedro, herdeiro legítimo da casa de Bragança, uma vez
que D. João VI encontrava-se impossibilitado de governar. Ao comparar o Brasil às demais ex-
colônias espanholas, o patriarca reivindica coerência da Inglaterra, que tendia ao reconhecimento
das ex-colônias espanholas, argumentando ainda que o Brasil detinha maiores direitos (por ter
“deixado de ser colônia e elevado à categoria de Reino pelo seu legítimo Monarca”) reconhecidos
anteriormente pela Inglaterra. Seria incoerente, perante o “direito público universal”, ter
reconhecido a elevação a Reino pelo “legítimo Monarca” e, posteriormente, não reconhecer a
independência, também por um “legítimo Monarca”. Detinha também maiores recursos que as

17
Archivo Diplomático da Independência, p. 161.
30
ex-colônias espanholas. Sendo assim, de maior relevância o reconhecimento do Brasil para evitar
um eventual bloqueio comercial a quem se recusasse a fazê-lo.
No nono ponto, Bonifácio tenta afastar o conceito de revolução até então utilizado para as
demais ex-colônias europeias no continente e aproximar o Brasil de uma continuidade, e não
ruptura:
Deverá mais desenganar aquele Governo sobre o caráter que vulgarmente se dá na Europa à
nossa revolução. Mostrará, pois, que nós queremos Independência, mas não separação absoluta
de Portugal; pelo contrario S.A.R. tem protestado em todas as ocasiões, e ultimamente no seu
Manifesto às potências, que deseja manter toda a Grande Família Portuguesa, reunida
politicamente debaixo de um só Chefe, que ora é o Sr. D. João VI, o qual, porém, se acha
privado da sua autoridade, e oprimido pela facção dominadora das Cortes, todavia bem que
estes sejam os princípios verdadeiros do Gabinete de S.A.R. poderá usar a este respeito da
linguagem e insinuações que julgar mais próprias ao andamento dos negócios, servindo-lhe
neste ponto de guia os sentimentos do Governo inglês de que tirará partido (ADI, Tomo I, p. 9).

Bonifácio indica que esta elite visava, preferencialmente, à manutenção da unidade entre
Brasil e Portugal, e esta seria uma questão importante para a possível “regeneração política” vista
como uma solução para os problemas dos quais padecia Portugal. Bonifácio, no entanto, tinha a
difícil tarefa de elaborar um discurso político que fosse coerente à aparente ambiguidade entre
declarar independência sem apresentar um conceito de soberania, em que o povo detinha o poder,
uma vez que as Cortes de Lisboa buscavam se legitimar justamente com este conceito de
soberania. A solução monárquica parece dar sentido a seus argumentos: de que adiantaria o povo
exercer a soberania se ela fosse minada pelo despotismo e a anarquia? Por isso aparece, de forma
recorrente, nesses argumentos, a figura do “usurpador”, “déspota” ou “espertalhão” na espreita,
esperando para manipular e oprimir a “nação”, e, com tanta frequência, identificáveis nos líderes
das Américas espanholas. A necessidade de estabilidade e ordem colocam a monarquia como
garantidora da liberdade possível, na forma da personificação da unidade territorial, da lei e
estabilidade na figura do Monarca. Para estes argumentos, a figura do Tempo, entendido como a
tradição, exerce um papel definitivo, a de garantidor de antigas alianças, de autoridade, e de
mantenedor dos deveres e obrigações contraídos no passado.
Em princípios de 1822, Felizberto Caldeira Brant Pontes se encontrava em Londres.
Conhecia bem o seu valor na delicada circunstância em que o Brasil se encontrava. Dizia a José
Bonifácio, em carta de 1o de maio de 1822, que seria “difícil achar quem como eu dedicando-se
inteiramente ao Brasil tenha, ao mesmo tempo, na Europa, tantas relações e amizades com
Militares, Banqueiros e Maquinistas, que são as três classes de que ora precisamos”. Avisava
31
Bonifácio do risco que corriam as tropas portuguesas em Montevidéu de subir e ocupar o “Rio
Grande ou Santha Catherina”, e que poderiam chegar a “execração de lembrar o levantamento
dos negros”. Mesmo não visando à proclamação de independência do Brasil, ou aclamação de
Pedro I como soberano do Brasil, pois isso seria “desobediente ao seu pai, e privando-o da
herança de Portugal”, Brant Pontes indica uma série de medidas a serem tomadas, que, se
seguidas, poderiam “ter a glória de fundar um novo Império, e mudará a triste sorte de seu Pai, e
de Portugal”.
Eram os cinco pontos:
1. Chamar Deputados de todas as províncias do Brasil. 2. Declarar a ElRey em estado de
coacção violenta, e as Cortes em manifesta usurpação de Direitos. Em consequência do
que se torna nulo quanto elas hão feito, e cessa toda comunicação política, posto que a
comercial continue, até que outras cortes legitimamente eleitas reponhão S.M.F. No
gozo pleno da autoridade que lhe compete como rei constitucional da nação portuguesa.
3. Abrir correspondência com os soberanos da Europa dorante o cativeiro de seu pai. 4.
Mandar retirar os Deputados do Brasil que se achão em Lisboa, porque vencidos sempre
em votos dão involuntariamente sanção às injustiças decretadas contra sua Patria. 5.
Declarar que não podendo a administração de um Reino tão considerável ser regulada
em outro tão infinitamente pequeno e distante, haverá no Brasil um parlamento, sem que
por isso se entenda desunida a Monarquia. O exemplo da Suécia e Noruega e da Grã
Bretanha e Hanover provam completamente estes princípios (ADI, Tomo I, p. 160).

A preocupação com a “triste sorte” em que se encontrava a monarquia Portuguesa, e a


subsequente associação a Portugal18 como um todo, revela a incorporação moderna da noção de
ascensão e declínio, uma vez que a solução para a “triste sorte” seria a adoção de suas medidas
que poderiam “fundar um novo império”. Brant Pontes tece, em seus argumentos, a noção
progressista de temporalidade, de um passado decadente, um presente fugaz e um futuro melhor
associado ao “novo”. O “novo Império” seria fundamentado no liberalismo moderado ao
reivindicar a necessidade de “chamar deputados de todo o Brasil; mandar retirar os Deputados do
Brasil que se acham em Lisboa, porque vencidos sempre em votos dão involuntariamente sanção
às injustiças decretadas contra sua Pátria”. Em jogo, estava a necessidade de representatividade
legítima, cuja fonte era, por um lado, a constituição, contudo, por outro, o Rei. Assim, estando o
rei considerado sob “cativeiro” as ações das cortes de Lisboa só poderiam ser consideradas nulas:
“Declarar a ElRey em estado de coação violenta, e as Cortes em manifesta usurpação de Direitos.
Em consequência do que se torna nulo quanto elas hão feito, e cessa toda comunicação política,
posto que a comercial continue, até que outras cortes legitimamente eleitas reponham S.M.F”.

18
Manifesta em muitos outros homens públicos também, mais notadamente José Bonifácio; Ver ARAÚJO, 2016.
32
A linguagem política utilizada parecia articular a noção moderna de tempo ao ideário da
monarquia parlamentarista, constitucional. Este discurso não abdicava do apelo sedutor do
conceito moderno de progresso, mas apropriava-se dele ao seu modo. Parte dessa apropriação era
a significação do conceito de soberania, que, na década de 1820, precisava ser, ao mesmo tempo,
ampliado e restringido. Ampliado para não ser despótico, e reduzido para não ser demagógico.
Em uma curiosa carta a José Bonifácio, de 7 de Junho de 1822, Brant Pontes reproduz um
diálogo que teve com Lord Beresford19. Preocupado com a possibilidade de o povo no Brasil
estar apoiando Dom Pedro I apenas como forma de garantir o reconhecimento da Independência,
para logo adiante o depor, Beresford reafirmava a posição neutra da coroa Britânica, pelo menos
até ter garantias políticas mais sólidas. Mas quais eram os riscos? Brant Pontes explica:
Não duvido que nas cidades marítimas, onde existe maior número de negociantes Portugueses,
abunde mais, ou menos de furiosos Democratas, nem isso admira, porque neste mesmo país há
gente pobre, e das ocupações ordinárias da sociedade são radicais... Do que há de fazer todo
Brasil ninguém pode responder, mas que da Bahia para o Sul todos estão firmes em obedecer a
S.A.R. Uma vez que não se faça absoluto, é a opinião dos meus amigos...

O apelo final de Brant Pontes para Beresford demonstra ainda mais o que estava em jogo:
Milorde, estou persuadido que S.A.R. há de aproveitar este, ou qualquer expediente para salvar
o Brazil da guerra civil, e dar a Nação uma constituição regular fundada nas solidas bases da
propriedade... (com o ataque à) Pernambuco, não só algumas províncias serão derrotadas, mas
o comércio Inglês prejudicado. Não poderia este último pretexto dar motivo para retardar a
expedição por meio de alguma representação, que aliás não comprometesse a Inglaterra?
.
O conceito de soberania, defendido por Brant Pontes, enquadrava-se, por um lado, na
rejeição aos “furiosos democratas”, que poderiam dar brecha à “gente pobre” e de “ocupações
ordinárias” e seus radicalismos; mas, por outro, a rejeição ao governo absoluto, muitas vezes,
conceituado como despótico. O risco da deflagração de uma guerra civil e da dissolução da
unidade territorial estava intimamente ligado à “anarquia, desunião de Portugal, caos, enfim todos
quantos males afligem a triste humanidade, exceto peste e terremoto que não existem no Brasil”.
E, neste apelo final ao Lorde Beresford, Brant Pontes revela a sua preocupação maior: uma
“constituição regular fundada nas sólidas bases da propriedade”.
Este equilíbrio moderado, espelhando as instituições inglesas, visava pôr o estado à frente
das possíveis transformações socioeconômicas, sem mexer nas questões fundiárias ou abalar o

19
William Beresford, primeiro Visconde de Beresford, foi militar servindo no exército Inglês e Português. Foi
indicado para a ocupação da Ilha da Madeira e responsável pelo treinamento das tropas lá alocadas em 1809. Brant
Pontes cumpre sua função de articulador político em Londres, ao se aproximar de Beresford, que em 1821 havia sido
apontado para o “Privy Council”, o conselho mais próximo da majestade Britânica.
33
conceito de propriedade, que ainda abrangia a posse de um por outro. Contudo, se, na península
ibérica, a possibilidade do absolutismo ainda permanecia enquanto tradição, na América, o
absolutismo era associado ao regime colonial, à centralidade das decisões sem a participação das
elites locais, como Brant Pontes afirmava: “não podendo a administração de um Reino tão
considerável ser regulada em outro tão infinitamente pequeno e distante”. Os argumentos criados
para a legitimação da independência impossibilitava a tradição do absolutismo como formulação
política, e, ao mesmo tempo, isolava a possibilidade de uma ampla participação popular das
formulações políticas em vigor.
A emergência da modernidade implicou que o tempo se transformaria em um “agente
absoluto de mudança” 20 . As consequências seriam que nenhum indivíduo, nenhum grupo e
nenhum momento ‘histórico’ teriam condições de ser vistos como uma repetição de seus
antecessores, criando assim uma diferenciação entre passado, presente e futuro, já que nenhum
momento pode se manter como igual ao outro. As articulações políticas emergentes no início do
século XIX convergiriam para a ampliação do “horizonte de expectativa”, mesmo distanciando os
espaços de experiência, os Liberais moderados, espelhados nas instituições constitucionais
inglesas, mantiveram a herança da tradição monárquica muito próxima do seu ideário político.
Em contraposição ao movimento vintista, e às cortes de Lisboa, estes moderados buscavam, na
monarquia, a fonte de estabilidade e soberania, e no tempo a autoridade fundadora das
instituições possíveis.
Conceitos como “Soberania”, “democracia”, “liberdade” e “constitucional” foram sendo
significados no meio termo entre o despotismo e a demagogia. Nem despóticos, pois, sabiam que
não haveria volta ao tempo, as revoluções ocorridas na Europa e as independências nas Américas
impediriam a sua reabilitação; nem demagogia, pois, os riscos dos “pobres radicais” no poder
eram altos demais, e, em última instância, criavam um circulo vicioso: a anarquia de muitos
gerariam despotismo de um. A solução da monarquia constitucional era defendida como a
mediação da liberdade possível, uma liberdade moderada, que possibilitasse um acesso maior da
elite letrada às instâncias de poder, sem ampliar o conceito de liberdade a ponto de questionar a
instituição da escravidão ou ampliar o acesso à terra.

1.2 A República de Dom Pedro I. Silvestre Rebello em Washington

20
GUMBRECHT, 1998.
34
No momento em que Dom Pedro I declarou a independência do Brasil, encontrava-se, nos
Estados Unidos da América, o diplomata português Joaquim Barroso Pereira, antes responsável
por negociar junto aos interesses portugueses. Pereira, no entanto, sempre se demonstrou
abertamente hostil ao Dom Pedro I e à independência do Brasil como um todo, e logo se tornou
necessário indicar alguém minimamente favorável ao Império. Assim, em 15 de Janeiro de
182321 , Dom Pedro I nomeou Antonio Gonçalves da Cruz para o cargo de Cônsul Geral do
Império do Brasil nos EUA. Gonçalves da Cruz já se encontrava em Washington no momento de
sua nomeação. Embora tivesse obtido a cópia do decreto de 15 de Janeiro de 1823, que tinha sido
encaminhada a ele no mesmo dia, Gonçalves da Cruz nunca recebeu a sua carta-patente,
documento que o indicava como plenipotenciário do Império, e suas ações detinham um caráter
informal perante o governo norte-americano por isso.
O caráter informal de Gonçalves da Cruz gerava um impasse para o governo Imperial:
Barroso Pereira, o diplomata português, continuava cobrando os emolumentos consulares 22 de
navios saindo dos Estados Unidos em direção ao Brasil, e, em alguns casos, negando a dar-lhes a
devida documentação para ingresso nos portos Brasileiros. Para evitar que estes
constrangimentos permanecessem nas relações entre o Império do Brasil e os EUA, José
Bonifácio (primeiro ministro das relações exteriores) havia dispensado a necessidade de tais
documentos, efetivamente abrindo os portos brasileiros para mercadores advindos dos Estados
Unidos. Iniciava-se, assim, de ambos os lados, uma relação estável pautada pelo comércio
marítimo, de grande interesse a ambos os lados.
Em 1821, o presidente estadunidense James Monroe, havia nomeado Condy Raguet como
cônsul, já que o Brasil era apenas uma região do Império Ultramarino Português, para estreitar os
laços entre ambos os territórios. Condy Raguet era um membro do partido Federalista nos EUA,
que defendia abrangência maior ao poder executivo federal, especialmente na área fiscal e
bancária do Estado. O partido Federalista se contrapunha aos Democratas-Republicanos, que,
liderados por Thomas Jefferson, se opunham ao projeto de Alexander Hamilton de um Banco
Federal, com moeda única, pois acreditavam que reduziria o poder regional dos estados. De fato,
a tensão entre os dois projetos distintos, de federalistas e regionalistas apenas aumentaria, e

21
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 5.
22
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 66.
35
eventualmente levaria à Guerra Civil em 1861. Condy Raguet estava firmemente ligado ao
projeto federalista, defendendo a capacidade do Estado em controlar a política fiscal e monetária.
Antes de 1819, defendia a capacidade do governo federal de imprimir moeda, vender títulos e
terras públicas para contrapor fiscalmente os gastos do governo. Em 1819, porém, dado a crise
financeira resultada da alta especulação que essas políticas geraram, converteu-se a não
interferência do Estado na economia, e com menos regulações dos bancos. Publicou duas obras
sobre o assunto: “The principals of free trade” e “On currency and Banking”. No Brasil Imperial,
Condy Raguet demonstrava-se impaciente com as políticas adotadas pela Coroa e a maneira
como Dom Pedro I intervinha diretamente em diversas questões de Estado.
O cônsul estadunidense havia pedido a José Bonifácio para comparecer às “Cerimônias
da Sagração” de Dom Pedro I como Imperador. Com o objetivo de equiparar Raguet aos
ministros reconhecidos da Europa, embora fosse apenas um cônsul, Bonifácio o colocou na
tribuna destinada ao corpo diplomático da Capela Imperial, visando reciprocidade, e, portanto,
um longo reconhecimento da independência por parte dos Estados Unidos. Dois dias depois, a
Gazeta do Rio de Janeiro destacava que “Tendo o cônsul dos Estados Unidos d'America pedido
antecipadamente a S.M.I permissão para assistir a tão fausta e solene cerimônia... permitiu a
S.M.I. Por especial honra que pudessem assistir na tribuna do corpo diplomático” 23 . Condy
Raguet demonstrou não gostar de ter sido colocado como o único que pediu tal permissão, e se
fossem, de fato, equiparadas as representações europeias com a Norte-Americana, tal destaque
não seria relevante. Essa rusga, aparentemente menor, ressalta tanto a falta de disposição de
Raguet de dialogar com o governo Brasileiro quanto ilustra as suspeitas do governo dos Estados
Unidos de que o Brasil tinha uma predileção pela Europa, e poderia firmar-se, nas Américas, um
governo contrário aos interesses do continente americano. Indicava o clima de conspiração,
presente nos EUA, que a casa de Bragança tinha com as forças europeias.
Havia, portanto, algumas questões pendentes entre os países, que poderiam atrasar o
reconhecimento da independência do Brasil, a despeito da política externa geral dos
estadunidenses de reconhecer a independência de países ex-colônias de poderes europeus. Uma
questão central que girava em torno do pronto reconhecimento era se, de fato, o Brasil tornar-se-
ia independente de Portugal, ou se as ações do Príncipe Regente não eram uma maneira de
contornar e enfraquecer as cortes, para, ultimamente, juntar o império ultramarino sob seu nome

23
Gazeta do Povo, 3 de Dezembro de 1822. Disponível em: <https://goo.gl/E69M2k>.
36
novamente. Aos Estados Unidos interessava também a manutenção da relação comercial com a
região do Prata, e a presença de grande contingente da frota naval brasileira na região levava os
estadunidenses a temer por uma em volta da desestabilização da região. O medo maior era de ter
uma força essencialmente europeia em terras americanas exercendo qualquer tipo de
imperialismo. Em maio de 1823, voltando a bordo da fragata “congress”24, o Ministro norte-
americano, em Buenos Aires, Cesar A. Rodney, fez uma parada no Rio De Janeiro, o que foi
interpretado pela chancelaria brasileira como uma necessidade de obter informação sobre a
política brasileira para a região. Condy Raguet não confiava nas instituições brasileiras, muito
menos na figura de Dom Pedro I, e se esforçava para adiar o reconhecimento da independência.
Em julho de 1823, aconteceu um novo incidente nas relações EUA-Brasil, quando o navio
americano Panther foi apreendido pela marinha brasileira, sob suspeita de que se tratava de um
navio corsário. Toda sua carga foi apreendida e o seu capitão, William Austin, foi preso. Condy
Raguet tentou negociar junto ao governo a imediata soltura do capitão e do navio, o que foi
solenemente ignorado por parte do governo Imperial. Condy Raguet exigiu suas credenciais25,
alegando que o governo Brasileiro agia de má-fé. Esta relação turbulenta, embora tenha causado
alarme em alguns momentos, não necessariamente refletia a opinião do governo estadunidense
em relação ao Brasil. Pouco tempo após o reconhecimento do Brasil pelos EUA e a nomeação de
Condy Raguet como Ministro americano no Brasil, o presidente recém-empossado John Adams
exige a volta de Condy Raguet, uma vez que sua disposição temperamental quase levou os dois
países “a verdadeira condição de guerra”. Condy Raguet nunca mais seria nomeado como
diplomata, e dedicou-se então à atividade bancária na Filadélfia. Entretanto, sua atuação no
período demonstra outro lado do discurso político estadunidense referente ao reconhecimento da
independência: não era consensual, estando disponível também um discurso de suspeita das ações
de Dom Pedro e de questionamento dos motivos da independência.
Em Washington, Gonçalves da Cruz, em Janeiro de 182426, ainda não havia ido buscar sua
carta patente na Secretaria de Estado, alegando que não sabia ser essa a tradição necessária para
os que fossem empossados como ministros plenipotenciários no exterior. Contudo, atendendo aos
pedidos do ministro dos negócios estrangeiros, Carneiro de Campos 27 , Gonçalves da Cruz

24
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 8.
25
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 9.
26
Ibidem, p. 74.
27
José Joaquim Carneiro de Campos, o Marquês de Caravela, sucede José Bonifácio no ministério e permanece
37
remetia informações dos acontecimentos políticos dos Estados Unidos, México e Colômbia, bem
como o procedimento do Ministro de Portugal nos EUA. Cabe destacar a informação de que os
EUA estavam cientes da Santa Aliança, e que havia um sentimento geral de que ela buscava
recolonizar territórios americanos, gerando a resposta americana de armar e fortificar a costa
Atlântica bem como formar uma “confederação com todas as referidas Nações, projetada por este
governo”28.
Gonçalves da Cruz se remetia ao sétimo discurso anual proferido pelo presidente dos
Estados Unidos, o qual informava ao congresso o “estado da união”. Neste discurso, o presidente
James Monroe demonstrou ao congresso os últimos acordos com a Inglaterra, ainda terminando
as negociações do tratado de Ghent, que se arrastavam desde o fim da guerra de 1812 com a
Inglaterra, sobre a delimitação das fronteiras ao norte do país com o atual Canadá. Informava
também sobre as relações com a Rússia e a Espanha sobre questões territoriais. Monroe afirmava,
enfim, que teria como princípio que “onde os direitos e interesses dos Estados Unidos estiverem
envolvidos, que os continentes Americanos, pela sua condição livre e independente que
assumiram e mantêm, são, daqui em diante, não consideráveis como sujeitos de futura
recolonização por quaisquer poder Europeu” 29
. O discurso seria citado repetidamente por
diversos presidentes Norte-Americanos, até ser cunhado como a “doutrina Monroe”.
Gonçalvez da Cruz nunca buscou a sua carta-patente, e também não se esforçou para ser
reconhecido como um agente plenipotenciário do Império. Sua atuação se circunscrevia a enviar
notícias dos Estados Unidos, sondar a opinião de alguns agentes políticos e jornalistas, mas nunca
buscou efetivar o caráter oficial de sua missão. Tornava-se, cada vez mais, urgente nomear algum
agente que se dispusesse a representar oficialmente os interesses do Império. A falta de vontade
de Gonçalvez da Cruz de atuar como ministro plenipotenciário levantava ainda mais as suspeitas
de que o grupo político, em torno da criação do Império, não buscava, de fato, a independência, e
atrasava deliberadamente os trâmites oficiais. José Silvestre Rebello foi então nomeado, em 21 de
Janeiro de 1824, como agente plenipotenciário do Império do Brasil para os Estados Unidos.
A proposta do reconhecimento da independência do Brasil pelos Estados Unidos era
teoricamente bem recebida, ao se encaixar na política externa geral norte-americana que tendia a
reconhecer ex-colônias europeias recém-independentes. Havia, no entanto, o entrave de alguns

ministro de 16 de julho de 1823 até 10 de novembro de 1823.


28
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 75.
29
MONROE, 1823. Disponível em: <https://goo.gl/FRq9uD>.
38
problemas conceituais: primeiro, sobre a condição monárquica do país, frequentemente associada
ao despotismo, podendo culminar em uma relação imperialista na bacia do Prata, gerando guerra
e atrapalhando o crescente comércio estadunidense com a região. Segundo, da própria capacidade
do Império em manter as diversas regiões sob um único Estado, incorrendo o risco de apoiar um
Estado falido, e perder prioridade diplomática com eventuais novas nações que se formassem.
Finalmente, sobre as intenções de Dom Pedro I, e o grupo político que girava em torno dele, de
formar de fato um governo independente da Europa.
A despeito dos eventuais problemas surgidos neste contexto, Rebello conseguiu o
reconhecimento formal do país Norte-Americano em breves 56 dias, e o seu sucesso pôde ser
atribuído à eficaz mobilização de uma linguagem política capaz de convencer seus interlocutores
de que o reconhecimento da independência, por parte dos Norte-Americanos, era de melhor
interesse a todos envolvidos. Parte estrutural dessa linguagem foram conceitos, como
“republicanismo” e “monarquia”, que, ao serem elaborados no quadro do liberalismo da
restauração, sendo legitimado pela aversão tanto à demagogia quanto à anarquia, foram capazes
de serem empregados de forma a dotar a independência do Brasil de legitimidade, demonstrando
tanto a união sob um único e forte Estado quanto o caráter constitucional, e não despótico da
governança deste Estado. Veremos que a aproximação conceitual entre “Monarquia” e
“República”, por meio do caráter do “Povo” que compõe ambas as governanças, foi de
fundamental importância nesta operação.
A matriz da estratégia discursiva para o reconhecimento da independência do Brasil, em
Washington, foi elaborada por Luiz José de Carvalho e Mello30, e entregue para ser executada por
Jose Silvestre Rebello. A carta de instruções servia como uma matriz discursiva que possibilitava
ao agente a execução de uma estratégia central na sua missão. Portanto, para compreender a
atuação de Silvestre Rebello, em Washington, deveríamos analisar, primeiramente, a sua carta de
instruções, essencial para desvendar como procedeu para o fim do reconhecimento da
independência nos Estados Unidos. A carta é dividida em 21 pontos, explica os argumentos que
devem ser apresentados para o fim do reconhecimento. Nos primeiros pontos, exige-se que
Silvestre Rebello seja reconhecido como “Chargé d'affairs” e aceito em todas as instâncias de
representação do governo Estadunidense como encarregado de negócios do Brasil, estabelecendo

Luiz José de Carvalho e Mello, visconde da cachoeira, foi ministro entre 14 de novembro de 1823 e 4 de outubro
30

de 1825, após o breve ministério ínterim de Francisco Vilela Barbosa, Marquês de Paranaguá, que durou 4 dias.
39
assim o paralelo de reciprocidade já mantido com Condy Raguet, o enviado dos Estados Unidos
ao Brasil. Este tratamento, e o princípio da reciprocidade, já seriam indicativos do processo de
reconhecimento, pois identificar, em Rebello, a representatividade do Brasil significaria
reconhecer a própria existência do Brasil enquanto Estado soberano, capaz de nomear seus
próprios representantes.
No quinto ponto, Carvalho e Mello demonstra a necessidade de os Estados Unidos
reconhecerem a independência do Brasil do ponto de vista militar: frente à constante ameaça de
interferência e ingerência europeia em assuntos dos novos Estados Americanos, dever-se-ia criar
uma “barreira às injustas tentativas da velha e ambiciosa Europa”. O argumento não parecia
deslocado, em sessão no congresso de 2 de dezembro de 1823, o presidente dos Estados Unidos
James Monroe iniciava uma série de discursos que incentivava o estabelecimento de alianças
ofensivas e defensivas contra as ingerências de potências europeias nas Américas. Assim
Carvalho e Mello indicava explorar essa possibilidade para o pronto reconhecimento do país
Norte-Americano:
É, pois, manifesto pelo que fica dito que este reconhecimento é do próprio interesse dos Estados
Unidos, por ser conveniente ao Sistema Político da America, que haja mais uma Potência
Independente e poderosa, conveniência que se faz ainda mais palpável quando se considerar o
quanto convém opor a influência da Grã Bretanha, antiga rival dos Estados Unidos, e em geral,
a influência Europeia, um Estado de grandeza e força tal qual seria o Brasil e os Estados Unidos
ligados entre si, afim de que para o futuro não prevaleça a Política Europeia à Americana (ADI
Tomo V, p.10).

A separação entre “política americana” e política “europeia” fazia parte da necessidade


constante de demarcar diferenças entre o Brasil e a Europa, na tentativa de dissipar as
preocupações correntes de que o Brasil se tornaria um braço europeu em terras americanas. O
parágrafo é finalizado com a citação de que ele também ganharia o comércio dos Estados Unidos,
dado o entusiasmo que geraria no Brasil pelo pronto reconhecimento. Entretanto, a apropriação
do discurso de defesa dos interesses americanos será tema também do décimo quinto ponto da
carta, em que o ministro pede que Rebello sonde quanto à disposição dos Estados Unidos de
firmarem alianças “defensivas e ofensivas”. Carvalho e Mello inseria o Brasil dentro do “Sistema
Político Americano”, e já demonstrava a Rebello a necessidade de desconstruir o discurso de um
Brasil Imperial voltado para a Europa, que poderia ser uma ameaça à política externa construída

40
pelo Presidente James Monroe. No oitavo ponto da carta, Carvalho e Mello trata exatamente
desta questão ao comentar a “incerteza da consolidação do Império”:
O aumento do espírito público cada vez mais exaltado a prol da independência, a sucessiva
reunião de todas as Províncias, o entusiasmo crescente dos Povos pelo seu Imperador e
Defensor Perpétuo e a resolução fixa e jurada do mesmo Augusto Senhor em manter o governo
Representativo a ponto de ter apresentado ele mesmo uma constituição ao seu povo bem
análoga às que regem os Estados Unidos Settemptrional, a qual está próxima de ser jurada sem
oposição de província alguma... Neste ponto insistirá V. M. Mais particularmente, pois, muito
importa dissipar quaesquer desconfianças e ciumes que esse governo terá pela forma
Monárquica que temos abraçado; pois estes só devem basear-se no caráter dos povos
respectivos, sem menoscabo das instituições de cada um (ADI, Tomo V, p.12).

O conceito de povo adotado aqui é particularmente interessante. O discurso da


legitimização da independência do Brasil mobiliza o conceito de “povo” separadamente das
instituições que regem a governança desse povo, e, ao fazer isso, é capaz de argumentar como um
Imperador hereditário é escolhido de uma maneira republicana. O povo exercia o seu poder no
ato de aclamação de Dom Pedro I como o seu “Defensor Perpétuo”. A separação, no plano do
discurso, é fundamental, pois é uma das tentativas de legitimar o processo de ruptura com o
Império Português, mantendo instituições conservadoras e aristocráticas. Essencialmente
Carvalho e Mello argumenta que o povo brasileiro e o americano possuem o mesmo caráter,
exigem instâncias de representação análogas, mas que as instituições adotadas para fazer a
intermediação entre “povo” e Estado podem ser distintas contanto que não resultem em uma
tirania. Ademais, esse discurso tinha como pano de fundo um sentimento de contraposição entre
América e Europa, novo e velho, que aparecia, ora abertamente, ora sorrateiramente, em muitos
diálogos entre os representantes de ambos Estados, que dotava de sentido este “caráter”
americano. É, portanto, nesse conceito de “povo” que a equação de como preservar a autoridade
de uma casa monárquica europeia e, ao mesmo tempo, legitimar a independência do país
americano iria se equilibrar.
Há ainda, na carta de instruções, uma importante constatação. No décimo ponto da carta,
ao se remeter ao fato de os Estados Unidos tratarem do tráfico dos escravos no Império, tráfico
considerado pelos EUA como pirataria, Carvalho e Mello denuncia diretamente a instituição da
escravidão como sendo “heterogênea aos princípios constituintes de um governo representativo”,
pois S. M. I. Era “assaz Liberal, e Generoso, para deixar de reconhecer quanto este tráfico é
41
desumano”. Este tópico será recuperado adiante, quando discutirmos sobre algumas temáticas
que compõem o conceito de republicanismo e monarquia.
Para além da carta de instruções, há ainda a correspondência diplomática em que o Sr.
Rebello descreve como fora recebido na Filadélfia e em Washington, as reuniões que manteve
com John Quincy Adams e o Presidente James Monroe. Antes de analisá-las, convém, porém,
fazer uma breve descrição de quem era o plenipotenciário escolhido para a missão em
Washington.
José Silvestre Rebello nasceu em Portugal no fim do século XVIII e mudou-se para o
Brasil ainda jovem, instalando-se como comerciante na praça do Rio de Janeiro. Após o decreto
das cortes de Lisboa exigindo o regresso de Dom Pedro I, e que suprimia os tribunais no Brasil,
Silvestre Rebello funda, com outros membros da elite presente no Brasil, como o conde de
Palma, uma associação literária denominada “Philotechnica”, cujo principal desdobramento é a
publicação dos “Anais fluminenses de ciências, artes e literatura”. A introdução anônima,
possivelmente de José Bonifácio, continha temáticas recorrentes ligadas à esfera de autonomia do
Brasil, ao recomendar medidas para a “Nação” e associá-la ao nascimento31, ao novo e ao jovem.
Rebello ocupou ainda o cargo de Juiz Comissário da Comissão Mista Anglo-Brasileira, cujos
objetivos estavam ligados às questões pendentes relativas ao apresamento de navios utilizados no
tráfico de escravos. Ele exercia ainda este cargo quando foi nomeado, em 31 de janeiro de 1824,
por Carvalho e Mello, como encarregado de negócios de Dom Pedro I em Washington.
O plenipotenciário Silvestre Rebello se tornara incumbido pela carta de instruções,
assinada por Carvalho e Mello, de três principais responsabilidades: promover o reconhecimento
“solene e formal”32 da independência do Brasil; sondar quanto à formação de alianças defensivas
e ofensivas contra poderes europeus; e a aquisição de embarcações e fragatas militares.
Ao relatar sua primeira reunião com o então Secretário de Estado, John Quincy Adams,
em 9 de abril de 1824, o plenipotenciário Sr. Rebello abria o diálogo, dizendo que “entre nós e
elles essencialmente só existia a diferença de que o seu primeiro Magistrado era eletivo e se
chamava Presidente, ao mesmo tempo que o Nosso era hereditário, e se chamava Imperador”33,
mantendo a linha discursiva de que o povo era o mesmo, e que apenas as instituições eram

31
Annaes Fluminenses, p.10.
32
Archivo diplomático da independência, Tomo. V, p.11.
33
Ibidem, p 80.

42
diferentes.
Este argumento da proximidade entre o Brasil e os Estados Unidos seria mobilizado
constantemente durante as negociações com o Secretário Adams, e seria utilizado novamente
quando Adams apresentasse os primeiros entraves ao reconhecimento da independência do
Brasil. John Adams afirmava que obtinha conhecimento “pelas gazetas” de que o Brasil havia
criado um governo imperial, mas que precisava de um relatório formal, explicando o “passado
recente” que levou a esta tomada de decisão. Pedia também uma ata da declaração de
independência, outra da criação do Império e da formação da constituição. A resposta de Rebello
tentava legitimar a criação do governo brasileiro perante um secretário eletivo de um país
republicano:
O Nosso Governo está estabelecido, e fundado na representação popular; temos Corpo
Legislativo dividido em duas Camaras; Administração de Justiço independente; é verdade que o
Chefe do Poder Executivo é hereditário, e se chama Imperador, mas assim o quis o povo, que
tem lá o mesmo direito que aqui teve o povo de querer o seu eletivo, e que se chamasse
Presidente. S. M. o Imperador é o primeiro Republicano do Brazil, e aqui para nós talvez o
único que lá há (ADI, Tomo V, p.91).

A fórmula recorrente dos argumentos pela legitimidade e reconhecimento da


independência do Brasil, em Washington, parecia ser a de apresentar os representantes do Estado,
e o próprio povo o qual eles “representavam” como essencialmente republicanos, e apenas
algumas instituições, por “vontade do povo”, retinham o caráter monárquico. Se a única diferença
do primeiro magistrado de um país para o outro é que um era eleito, enquanto o outro,
hereditário, era apenas porque “assim o povo quis”, movido “pelo primeiro de todos os direitos: o
direito de conservação própria”.
Para fins de explicar ao Secretário de Estado John Adams os motivos que levaram o Brasil
a declarar independência, Rebello escrevia uma longa carta em Inglês, em 20 de abril de 1824.
Nela, além de dar uma breve descrição da história recente e dos eventos que levaram a
culminação da declaração de independência, Rebello sistematizava e elaborava todos os
argumentos iniciados na Carta de Instruções de Carvelho e Mello. Para ele, o Brasil deixava de
ser colônia em 28 de janeiro de 1808, quando Dom João sexto havia aberto os portos brasileiros
ao comércio estrangeiro. Esta determinação seria reforçada em 16 de dezembro de 1815, pela lei
que elevava a categoria do Brasil à condição de reino unido. Porém, contava Rebello, nove meses
antes do retorno de Dom João a Portugal, um grupo de militares:
não se vendo mais como os mestres das propriedades, das riquezas e do sangue dos Brasileiros,

43
e querendo retomar um monopólio perdido, criaram uma revolução, que embora proclamasse a
corrupção, e os abusos do governo como causas da insurreição, tinham como verdadeiro objeto
o regresso da corte a Portugal e o monopólio político e mercantil do Brazil (ADI, Tomo V,
P.91).

Rebello então traduzia o “Manifesto às Nações Amigas” de Dom Pedro I como uma
explicação para as subsequentes ações que o príncipe e o povo foram “forçados” a tomar. A
tradução do “Manifesto” foi completamente editada. Em diversos momentos em que o original é
mais detalhado, Rebello o substitui com reticências. Em outras partes, muda as palavras. Mais
notadamente quando, no segundo parágrafo, lê-se: “O indígena bravio e o colono europeu foram
obrigados a trilhar a mesma estrada da miséria e a escravidão” foi alterado para “O indígena
bravio e o colono europeu foram obrigados a trilhar a mesma estrada da miséria e a
dependência”. A mudança aqui pode ter ocorrido para evitar a discussão sobre a escravidão, um
dos temas sensíveis que colocava a política externa Brasileira, com frequência, em situações
constrangedoras. Entretanto, em alguns momentos, a carta é simplesmente mudada, de maneira
que é impossível encontrar, no texto, alguma reminiscência do original. É o caso do paragrafo em
que se lê:
Foi então que o povo Brasileiro me implorou para não ir. Que um governo central deveria ser
mantido em seu País; e que a nova administração deveria ser popular, consistindo de um
Conselho de Estado apontado por pessoas de diversas províncias. Minha anuência a tão justas
demandas foram instantâneas, e felizes. Saía das minhas próprias idéias, o enquadramento de
um governo fundado em poder popular (ADI, Tomo V, P.92 grifos, e traduções, nossos).

E também:
Me encontrando então em um ato especial da Providência Divina no centro de um país rico e
populoso, cercado de Conselheiros escolhidos pelo povo, com todos os direitos que a natureza
dá a todos indivíduos, como o direito de repelir a violência pela força, eu, com o conselho do
poder popular, e na presença, e sob proteção do todo poderoso Deus, declaro, e proclamo o
Brasil como uma nação livre e independente, com um governo estabelecido em todos os seus
atos como um governo independente e soberano (ADI, Tomo V, P.92 grifos, e traduções,
nossos).

O conceito de “poder popular” não aparece uma só vez no texto original assinado por
Dom Pedro I. A palavra “popular” é sequer utilizada. O texto parece ter sido reescrito para basear
os argumentos mobilizados pela carta de instruções de Carvalho e Mello. Primeiro porque reforça
a noção de proximidade entre os povos, ao argumentar que o Brasil também adotava um regime
de governança, baseado nos critérios de um “poder popular”, tal como a constituição Norte-
Americana previa. O critério de “poder popular” estava calcado na escolha “popular” de Dom
Pedro I como um defensor perpétuo. Segundo, reforçava a ideia de que Dom Pedro I era
44
essencialmente um republicano que, por forças maiores (do risco de desagregação territorial, da
possibilidade de perda de parte do território do Pará para a França, da junção da Bahia ao projeto
das Cortes de Lisboa) ligadas ao risco de “anarquia”, aceitou ser nomeado como Imperador.
A apresentação de Dom Pedro I e as instituições Brasileiras como essencialmente
republicanas parece ter obtido uma recepção favorável no âmbito da secretaria de Estado
estadunidense. Na ocasião em que Rebello primeiro se apresentou para John Adams, foi feito um
breve relato falado das circunstâncias que levaram o Brasil a declarar independência. De fato, em
seu diário datado de 7 de abril de 1824, John Adams, Secretário de Estado dos Estados Unidos,
afirmava que: “ao que parece o Imperador é mais inclinado ao republicanismo que os seus
próprios súditos”34. Alguns dias depois, John Adams relatava que “Chamei o presidente... e o
informei da conversa que mantive com o Sr. Rebello, e observei que no evento do seu
reconhecimento e recepção, que seria de interesse nomear o Sr. Raguet, ou qualquer outra pessoa,
como Charge d'affairs no Rio de Janeiro, pois a atuação informal do Sr. Raguet poderia ser depois
questionável...”. O ato de reconhecer Silvestre Rebello como Ministro plenipotenciário do Brasil
nos EUA oficialmente era um passo significativo para o reconhecimento da independência do
Brasil. O ato de reciprocidade, cogitado aqui, reforça a aparente vontade do pronto
reconhecimento da independência.
Na mesma série de documentos em que Rebello encaminha para John Adams o
“Manifesto às Nações Amigas”, o próprio agente do Império lista os motivos da independência, e
talvez mais importante para a nossa análise, o fundamento da legitimidade e soberania do Brasil.
“Deve ser considerado aqui”, afirmava Rebello, “que as Leis na Monarquia Portuguesa emanam
sempre do Trono, e que petições nunca foram feitas por assembleia geral, exceto em vilas e
cidades. A reunião de velhas cortes já foi esquecida”35. Parte da estratégia da legitimação da
independência era a deslegitimação das Cortes de Lisboa e da sua autoridade. Vemos aqui
Rebello desqualificar o ato de reunião em Cortes, que integrava a tradição do conceito de
soberania em Portugal, da crítica à tirania e a possibilidade de rebelião centrada em torno dos
“homens bons” como os que se reuniam em câmaras municipais36. Rebello buscava desqualificar
as ações das cortes ao afirmar que esta tradição não era mais utilizada, já havia sido “esquecida”.
Uma vez estabelecido o argumento central da proximidade entre os povos por meio do
34
Disponível em: <https://goo.gl/3BPP4I>.
35
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 95.
36
PEREIRA, L. R. Iberoconceptos, Vol. II, p. 61.
45
caráter popular que fizeram da sua governança, e desqualificando as Cortes de Lisboa, Rebello
prosseguia a explorar o precedente diplomático que os EUA possuíam ao reconhecer a
independência das ex-colônias Espanholas. Para tanto, citava o relatório da comissão de Relações
Exteriores do Senado dos EUA, de 19 de março de 1822, em que era afirmado o direito dos
povos da América Espanhola de dissolver os laços políticos que mantinham entre si – e com a
Espanha – “pelo que as leis da natureza, e as leis divinas lhes conferem”. O relatório dizia ainda
que “negar o direito do Estado de transformar as instituições políticas, tal como o fez a Espanha,
e negar o direito do povo da América Espanhola à sua independência... seria virtualmente negar o
nosso próprio (direito de independência)”. Rebello mobilizava o relatório concluíndo ainda que
os direitos de declarar independência do Brasil eram ainda mais bem fundamentados do que o
processo de independência dos países da América Espanhola, pois era não só fundado na
“factualidade da existência de uma Nação Independente”, mas por também estar calcada no
“direito do princípio universal da justiça, no ato de auto-preservação37”.
O fato de ter sido elevado a Reino Unido, e de ter sediado toda a estrutura de governança
do império português, e a alegada arbitrariedade das cortes em reduzir estas estâncias já
estabelecidas, era um eixo importante das negociações. Ao recorrer ao mesmo relatório o qual
relata que: “a justificativa do reconhecimento da soberania de uma nação à outra não depende da
justiça, e sim no estabelecimento – de fato – de um Estado”, Rebello argumentava que o Brasil
possuía, nestes conformes, de fato, um Estado:
O Brasil possui governo de fato estabelecido. A administração da justiça é independente, a
liberdade dos três poderes é regulada por lei, julgamentos possuem júri. Há um exército bem
pago e abastecido; uma marinha que expeliu do Brasil toda tropa portuguesa... o tesouro
possui dinheiro, e até pagou antigos credores. O corpo civil é remunerado todo mês
regularmente. E finalmente o Império do Brasil é solidamente estabelecido na Pessoa da sua
Majestade Imperial Pedro Primeiro, Emperador Constitucional, Defensor Perpétuo, como
Deus há prometido, da sua dinastia, dos direitos políticos, dos direitos religiosos, do Povo
Brasileiro e do Império, por todo o Tempo, como há prescrito a Providência Divina 38.

O argumento final para o pronto reconhecimento da independência do Brasil, e correlato à


carta de instruções de Carvalho e Mello, era a mobilização do sétimo discurso do State of the
Union que o presidente James Monroe havia dado ao Senado, em que rechaçava tentativas de
recolonização das Américas. Neste sentido, Silvestre Rebello tentava associar a Inglaterra e a
França a políticas recolonizadoras, ou pelo menos de forçarem suas influências no Brasil.

37
Archivo Diplomático da Independência, Tomo V, p. 101.
38
Ibidem, p. 99.
46
Rebello afirmava, portanto, que seria de conforme com a política externa Estadunidense de
impedir tais tentativas de influência, e de que reconhecer a independência do Brasil seria
formar “o primeiro elo em uma corrente, que os Americanos devem estender desta região até o
cabo Horn. Esta corrente será forjada assim que os Estados Unidos reconhecerem a
independência do Brasil, e o Império estabelecido por Pedro Primeiro, e a sua dinastia”.

Os três argumentos centrais mobilizados por Rebello eram, portanto:


 o da proximidade entre o caráter do povo Brasileiro e o Estadunidense, advindo da
mesma visão de mundo essencialmente americano e “popular”. Da proximidade das
instituições Brasileiras e as dos EUA, ambas tendo a sua soberania fundada no
conceito fluido e impreciso de “poder do povo”;
 da legitimidade do governo já estabelecido em governar. A história recente da elevação
a reino unido, do estabelecimento de órgãos de última instância e da diferença
civilizacional entre o Brasil e Portugal: Brasil era o novo, o mais forte com maior
potencial, não poderia ser submetido a uma civilização retrógada, e “infinitamente
menor”. As ações das Cortes eram ilegítimas, estavam ancoradas em um passado “já
esquecido”; e
 da coerência para com a política externa Estadunidense já praticada, de ter reconhecido
a independência de ex-colônias espanholas. Essa política externa era consensual, pois
havia sido recomendada pela comissão de política externa do senado estadunidense, e
sancionada pelo presidente James Monroe no sétimo discurso do State of the Union. O
Brasil deveria forjar uma aliança com os Estados Unidos para manter a política da
“América para americanos”.

Passado quase um mês, Silvestre Rebello é convocado, em 26 de Maio de 1824, para


apresentar seus argumentos pelo reconhecimento da independência do Brasil perante o
presidente James Monroe. Este inicia o diálogo, afirmando que não era uma questão de
reconhecer ou não a soberania de uma nação americana, mas sim de reconhecer ou não a
capacidade do Império de ser uma Nação. Monroe argumentava que o Brasil não havia
governo de fato, pois não possuía uma constituição. Dizia ainda que o governo imperial não
era um consenso e que a província de Pernambuco estava sob levante contra o Império,

47
apresentando como prova uma cópia de declaração de bloqueio emitida pelo governo imperial
no Rio de Janeiro, devidamente oficializada. Por último, argumentava que o Império não era
reconhecido como um ente separado de Portugal, dado que oficiais da marinha francesa, de
passagem pelos EUA, se referiam a Dom Pedro I como “Príncipe Regente”, e não
“Imperador”.
Rebello contra-argumentava cada um dos pontos levantados pelo Presidente Monroe. Suas
respostas ao questionamento de Monroe revelam mais alguns aspectos fundamentais para a
compreensão desta linguagem política, mobilizada durante toda a negociação. Primeiro o
fundamento no precedente. A diplomacia no século XIX se mostrava distante das negociações
particulares de gabinetes ligadas à autoridade real. As ações políticas se deslocavam ao espaço
público, por mais que o conceito de público fosse impreciso e fluído. Assim, o argumento
pautado pelo precedente se ampliava não apenas como exemplo específico das partes em
questão, mas como um modelo de comportamento a ser aplicado em situações semelhantes
diante do espaço público. Rebello capitaliza este argumento ao citar que, embora o Brasil não
tivesse uma constituição, o México, a Bacia do Prata e o Chile também não possuíam. O Peru,
segundo o adida diplomático, sequer poderia ser considerado um país, haja vista que ainda
permanecia ocupado por tropas Espanholas.
Quanto à rebelião de Pernambuco, Silvestre Rebello a desqualificava, afirmando que se
tratava de uma questão pessoal. O Imperador teria nomeado outra pessoa como governador e o
atual governador ressentiu-se. Contudo, o argumento principal para refutar a legitimidade da
província de Pernambuco estava ancorado na História: “suponhamos que uma ou outra
província do Brasil se subleva, não foi a Inglaterra sempre uma Nação para as outras, mesmo
nas questões entre as casas de York e Lancastre?” Diante das sucessivas respostas de Rebello a
cada um dos pontos levantados, Monroe fez o questionamento do qual julgava: “entre todos o
mais forte, e que seriamente deve nos embaraçar de reconhecer o Brasil como Independente.
Comunica-se-nos de lá que o seu Príncipe Regente se empenha em reunir o Brasil a Portugal
outra vez, e bem se vê que faríamos mal papel em reconhecer uma Nação que não há de
durar”. O representante do Império evoca, mais uma vez, a ideia de uma junção de forças
americanas, para compor o seu argumento final:
Suponhamos, contudo, que havia este tal projeto; eis aí uma razão a mais para que este
Governo reconheça sem perda de tempo a Independência do Brazil; isto feito fica habilitado
a enviar um carater Diplomático, a qual se deveria empregar em embaraçar a tal sonhada

48
reunião, porque nada há mais oposto aos interesses deste País. A América deve ser
independente da Europa eis aqui o verdadeiro, e principal alvo do Governo dos Estados
Unidos; logo deve quanto antes reconhecer o Brasil, e o seu Governo, e este reconhecimento
habilitará este governo com um argumento a mais contra a sonhada reunião.
O reconhecimento daria musculatura política aos Estados Unidos para impedir uma
eventual união entre Brasil e Portugal, mais uma vez, evitando a interferência de Países
Europeus em terras Americanas. Após o diálogo, Silvestre Rebello foi convidado a um jantar
com John Quincy Adams, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, junto a toda
representação diplomática externa oficial. Depois do jantar, Silvestre Rebello foi novamente
apresentado ao presidente, desta vez, porém, como “Encarregado de Negócios do Império do
Brasil”, formalizando o reconhecimento da independência do Brasil em 26 de maio de 1824,
uma negociação que durou 56 dias.

1.3 A recusa de Metternich. Telles da Silva na Áustria

Antônio Telles da Silva Caminha e Menezes nasceu em Torres-Vedras, Portugal, em 22 de


setembro de 1790. Era descendente de duas famílias nobres: do lado materno, neto do Marques
de Lavradio, e do lado paterno, dos Marqueses de Penalva. Quando as tropas de Junot obrigaram
a corte a atravessar o atlântico, em 1808, Telles da Silva tinha 17 anos e sua família veio junta à
realeza. Adentrou rapidamente ao serviço de Dom Pedro I, tornando-se seu camareiro por
profissão, e amigo por intimidade. Antes de ser confiado em missão secreta à Áustria, para
negociar o reconhecimento da independência do Brasil, em 1822, Telles da Silva já era
Comendador da Ordem de Cristo e Gentilhomem da Câmara Imperial.
Como vimos, em 1822, ao marechal Felizberto Caldeira Brant Pontes já havia sido
confiada a missão de obter, do governo Inglês, “o reconhecimento da Independência Política do
Reino do Brasil, e da absoluta Regência de S.A.R. enquanto Sua Majestade encontrar-se no
afrontoso estado de cativeiro”. A função de Telles da Silva era encontrar-se secretamente com
Brant Pontes, partindo do Rio De Janeiro incógnito 39 . Em Londres, deveria tomar parte dos
principais acontecimentos da sociedade cortesã, em grande medida de maneira sigilosa. Deveria,
também, encontrar-se com figuras expressivas da diplomacia austríaca e, eventualmente, ir a
Viena pessoalmente. Uma vez em Viena, deveria desempenhar suas funções em caráter privado, e

39
Archivo Diplomático da Independência, Vol. IV, p. 6.
49
publicamente ser apenas “um nobre que viaja”40.
Como fizemos com os outros dois enviados analisados nesta pesquisa, focaremos na carta
de instruções enviada de José Bonifácio a Telles da Silva. Trata-se de um procedimento
recorrente nas epistoles diplomáticas, um dos elementos comuns que buscava padronizar o
discurso diplomático a partir de argumentos coesos, e objetivos finais semelhantes.
Diferentemente dos dois outros enviados, em que o caráter público de suas ações e exigências são
determinados – ao Silvestre Rabello, o caráter público dos encontros com senadores e o próprio
presidente dos EUA é ordenado, além de sua devida publicação em jornais e gazetas – Telles da
Silva deveria atuar de maneira secreta. Bonifácio pede, em diversos momentos, que “haja todo o
segredo e reserva” 41em sua missão, afim de “assegurar o bom êxito da sua missão”. De fato, para
o bom êxito da missão, o caráter secreto parece ser fundamental: sua ida a Paris é vedada “em
caso algum”, em conferências deveria cuidar de evitar “notas por escrito” e nunca se obrigar
definitivamente a nada.
A compreensão da diplomacia do início do século XIX perpassa pela diferença entre o
caráter público e privado das atuações e a própria escolha dos agentes. O caráter secreto de Telles
da Silva pode ser compreendido como uma medida cautelar, um distanciamento calculado para
ressaltar a importância da aproximação com o gabinete Inglês. Mas sugerimos uma interpretação
alternativa: Telles da Silva é um nobre. Foi enviado para tratar de assuntos de soberania real em
um país cuja força motriz da política externa era a recuperação do conceito de legitimidade, que
estava posto em risco após as guerras Napoleônicas. Sob essa égide, formou-se a Santa Aliança.
José Bonifácio enviava Telles da Silva em caráter secreto, pois a própria forma de atuação
evocava a maneira como a diplomacia deveria ser efetuada por Estados cujo exercício do poder
encontrava-se nas mãos soberanas do herdeiro real. Quem melhor para saber os anseios, conhecer
com afinco suas opiniões e ser, em essência, a própria extensão da vontade de Dom Pedro I do
que o seu camareiro?
A primeira preocupação de Bonifácio é chamar atenção para a estabilidade e segurança da
qual goza a família Imperial no Brasil. O secretário diz:
Exigirá audiência particular de suas majestades o Imperador e Imperatriz d’Austria, e sendo-lhe
concedida fará um relatório discreto e prudente do estado do Brasil, da segurança de que goza a
família Imperial do Brasil, da esperança, ou antes certeza de que a sua Dignidade será
respeitada, e mesmo aumentada pela Assembleia Constituinte Brasiliense (ADI, Tomo IV, P.7

40
Ibidem, p. 7.
41
Ibidem, p. 6.
50
grifos nossos).

Às portas fechadas, Bonifácio evocava a diplomacia de gabinete, efetuada por um nobre


viajante, íntimo do Rei, para relatar a segurança e dignidade da Coroa. O papel da Assembleia
aparece, mais uma vez, de maneira ambígua. Nos Estados Unidos, era a extensão da vontade do
eternamente disputado conceito de “povo”. Povo este que “elegia” seu “presidente” por
aclamação. Em Londres, a assembleia do Brasil seria porta-voz, termômetro, da vontade do povo,
e teria caráter consultivo perante o exercício do poder do Soberano. Qual seria o seu papel diante
da corte Austríaca? Aqui Bonifácio não esconde o cinismo de quem sabe que não há retorno ao
ideal absolutista:
Tudo se pode e deve esperar da Assembleia Constituinte Brasiliense, que nela os amigos da
ordem compõe a parte principal, que da sua parte estão as luzes, talentos, riquezas, e influência
sobre o Povo. Que a doutrina da Soberania Nacional, bem que se não possa atacar de frente,
ficará em silêncio, quanto for possível, como mera questão doutrinal e ociosa. Que se
estabelecerão duas Câmaras na Legislatura. Que o Imperador terá o veto absoluto. Que o
conselho Privado será de sua Nomeação e amovível. Enfim que o Imperador terá todas as
atribuições, que exija o bom desempenho das Suas Funções como Chefe de Execução. Dará a
entender a possibilidade de um casamento da princesa herdeira com um Arquiduque (ADI,
Tomo IV, P.8 grifos nossos).

A doutrina da soberania nacional é referência à progressiva substituição do poder real pelo


poder nacional, fundamentado não pela herança de casas que conquistaram e protegeram
territórios, mas sim pelo conjunto volúvel da vontade do Povo, tão reconhecido por Bonifácio
que foi capitalizado como sempre o fez ao citar o Rei, o Soberano, o Imperador.
Mais uma vez, o que fazer em relação às ex-colônias espanholas aparecia nas instruções
que Bonifácio enviava a algum plenipotenciário. Evidencia-se que Bonifácio acredita que algo
deveria ser feito. Contudo, o que seria dependia muito do interlocutor. Se nos Estados Unidos as
ex-colônias eram tratadas como estratégicas em uma política de relações americanas, e na
Inglaterra eram evocadas pelo precedente de seu reconhecimento enquanto países, perante o
Império Áustro-Húngaro tratava-se de convertê-las em monarquias:
Outrossim desenvolverá o projeto de converter pouco a pouco em monarquias as repúblicas
formadas das colônias espanholas, e o ardor com que o Brasil promoverá um arquiduque a este
Trono (ADI, Tomo IV, P.7 grifos nossos).

Aqui Bonifácio alinhava a estratégia da diplomacia Brasileira para com Viena: buscava
aproximar conceitos fundamentais, como fizera antes em outros lugares, adaptando-os à realidade
local. Em Viena, o Brasil era o Império que conseguiria converter repúblicas em monarquias para
a Santa Aliança, como nos EUA fora a “República por aclamação”, e na Inglaterra, um
51
parlamentarismo bem estruturado e constitucional. Bonifácio encerra a carta de instruções da
maneira geral como terminava outras semelhantes, proclamava apoio à imigração de “homens
industriosos do norte” assim como concedendo “culto livre” a eles. Pedia também que Telles da
Silva reforçasse a autorização do Major Schaeffer, que era alguém de confiança e não um espião.
Solicitava também que se relacionasse com algumas pessoas o Barão de Stumer e Frederico
Gentz. Este último, um conhecido publicista prussiano, entrava na estratégia geral de manter
publicistas pagos para escrever a favor do Brasil, estratégia já adotada no mesmo período nos
EUA, e engrenada em Londres, com menor sucesso.
A partir destas instruções, Antônio Telles da Silva encaminhou-se para Londres, onde
travou notável embate com o Barão de Newmann, representante austríaco em Londres. Telles da
Silva observava atentamente a formação da Santa Aliança. Após a ascensão de Lord Canning, no
gabinete inglês, substituindo Castlereagh, a política externa vienense enrijeceu, frente ao medo de
uma nova onda liberal. Enquanto Castlereagh mantinha princípios mais conservadores em pauta
no gabinete, Canning era considerado muito mais liberal, e o medo era de que houvesse uma
mudança na política externa inglesa no sentido de isolar os membros da Santa Aliança para
ocupar um novo lugar de destaque, apelando aos partidários do liberalismo. Os representantes da
Santa Aliança tratavam, portanto, quaisquer membros de movimentos liberalizantes, como uma
independência costuma ser, de forma áspera. Telles da Silva não ficou alheio a isso:
Eu conheço os homens pela cara, e apesar de tomar Tabaco chega-me o cheiro das coisas a
muitas léguas de distância e daqui profetizo a Vossa Excelência o seguinte: a corte da Áustria e
todas as cortes santas ou da santa aliança não tendo interesses diretos comerciais ou políticos
com o Brasil como a Inglaterra e talvez mesmo a França, que não podem tapar a boca aos seus
comerciantes e manufatureiros hão de persistir em não reconhecer a Independência do Brasil e a
Soberania na Pessoa do Imperador nosso Augusto Amo em quanto seu pai reinar. O tempo
mostrará e justificará ou reprovará a minha asserção. Eu parto para Viena como já disse (ADI,
Tomo IV, P.51).

Telles da Silva saía de Londres sem muitas pretensões após tratamento frio das
autoridades Vienenses na corte de Londres. Nesta carta, redigida logo antes de partir para Viena,
vemos como alguns dos principais conceitos são mobilizados em prol da negociação. A primeira
asserção de Telles da Silva é de que, não havendo interesse comercial direto pelo Brasil, Viena
não reconheceria a independência do Brasil, principalmente por não haver “comerciantes e
manufatureiros” que não pudessem ser calados, o que segue a linha argumentativa de outros
plenipotenciários de que benefícios comerciais poderiam ajudar a causa, ou a ausência deles

52
atravancar. Há também a preocupação de que, enquanto Dom João VI viver, países mais ligados à
Santa Aliança dificilmente reconheceriam a legitimidade de Dom Pedro I enquanto soberano.
Umas das principais discussões sobre a Soberania de Dom Pedro I era em torno dos
títulos que ele recebera. Em diálogo com o Barão de Newmann, um dos maiores opositores à
independência do Brasil, a conversa sobre a independência do Brasil vinha se delineando em
torno da legitimidade do ato de independência. Newmann argumentava que Dom Pedro I
declarava, em seu manifesto, que assumiria as tais medidas da independência “enquanto seu pai
encontrava-se em estado de cativeiro”, mas que tais condições “cessaram”. Para Telles Da Silva,
a situação “ridícula” a qual uma “pequena facção” forçou o Brasil a adentrar, de querer recolocar
“grilhões” de colônia, juntou os “ânimos dos Brasileiros contra as injúrias que diariamente
recebiam de Portugal”. Após tal “unificação” do sentimento do “povo”, estaria impossível
regressar ao estado anterior da nação. Todavia, para além da construção retórica de cada
argumento, ocorria uma sutil guerra conceitual entre os dois. Newmann se referia a Dom Pedro I
apenas como “Príncipe Regente”, enquanto Telles da Silva o chamava de “Sua Majestade
Imperial”. Não conseguindo proceder na argumentação após o questionamento que Newmann faz
da autoridade de Dom Pedro I, Telles se vê obrigado a explicar a origem do título:
A declaração unanime e expontânea e tão legal como é o direito da própria defesa resultou
necessáriamente o oferecimento da corôa e do Título de Imperador, que não alterando nem
ofendendo o direito das outras coroas somente serve para assegurar ao Imperador uma
influência de graduação correspondente a influência real e effetiva que há de ter sobre
Monarquias que se formarem no continente americano (ADI, Tomo IV, p. 53).

É interessante perceber que aqui Telles da Silva empunhava o conceito de Imperador que
se remetia à maneira que o título era utilizado no Império Áustro-Húngaro: como quem exercia
influência sob diversas outras monarquias. Nos Estados Unidos, vimos que o título Imperador era
mobilizado como uma aclamação parlamentar-representativa, semelhante a Bolívar ou Napoleão.
Vemos que um padrão da linguagem diplomática é o esforço contínuo de traduzir conceitos,
adaptar argumentações e a própria linguagem ao padrão local. O esforço de tradução não se
resume à linguagem étnica, do português ao francês, mas torna-se imperativo transformar
conceitos altamente disputados em formas linguísticas palatáveis a ambos os lados. A linguagem
diplomática desenvolvia-se no sentido de encontrar o equilíbrio entre o esforço argumentativo e o
que pode ser dito.
Todavia, perante as sucessivas negativas do Barão de Newmann, ora dizendo que Telles
da Silva não faria “nada de exitoso em Viena”, ora conclamando-o a “regressar à sua terra”, e até
53
mesmo questionando a lealdade que Telles da Silva poderia ter, uma vez que era Português, tinha
família inteira em Portugal e suas únicas terras ficavam em Portugal, o enviado foi obrigado a
revelar um dos motivos de sua atuação:
Devia lembrar-me que tenho de responder de minhas ações não só perante um soberano
clemente e meu amo, mas perante o congresso dos representantes da minha nação e sobretudo
perante o rigoroso e inflexível tribunal da opinião pública de todos os meus patrícios os quais se
me achassem culpado me votariam a um eterno ódio e execração (ADI, Tomo IV, p. 53).

O inflexível tribunal da opinião púbica já não possibilitava a retomada de alguma tradição


absolutista por parte do governo do Brasil. O entendimento de congresso aqui é fundamental:
trata-se da junção de representantes de similar estatura, seus “patrícios”. Após longa conversa
com o barão, Telles foi finalmente convidado a conversar com o príncipe de Metternich, que, com
termos mais ponderados, confirmava a tendência da diplomacia de Viena: o princípio da
Legitimidade não seria rompido. Enquanto Dom João VI estivesse vivo, Dom Pedro I não
poderia ser aclamado rei em algum outro lugar. Na argumentação de Metternich, a independência
“por ora, de fato, precisa ser revestida de direito”, direito pela legitimidade.
Telles da Silva partiu de Londres, em 9 de julho, em direção a Viena. Para evitar o
caminho por Paris, conforme ditado pelas suas instruções, foi pela Bélgica, passando pela
Alemanha e chegou a Viena em 24 de julho. Assim que chegou, pediu audiência com Metternich,
buscando evitar contatos desnecessários com o corpo diplomático do Império Áustro-Húngaro,
com quem já havia tido atritos em Londres. Metternich remeteu-lhe um bilhete secretíssimo
escrito à mão, aceitando uma audiência no dia 26, ao meio dia. Ao receber, o plenipotenciário do
Brasil Metternich adotava tom mais duro do que previamente. Fez uma longa explanação,
explorando as “incoerências” da diplomacia de Dom Pedro I. Alegava estranhar que Gameiro
Pessoa (representante brasileiro em Paris) havia sido enviado ao congresso de Verona em caráter
oficial, depois que o Major Schaeffer (plenipotenciário nos estados germânicos, sediado em
Hamburgo) enviava cartas em caráter não oficial, e depois que havia requisitado uma audiência
com o Imperador Francisco I em caráter oficial, negada. Agora, exclamava Metternich, Telles da
Silva apresentava-se como um encarregado de negócios familiares, mas para tratar de assuntos da
independência do Brasil. Metternich terminava exigindo: “eu estou disposto a concorrer pela
minha parte com o sincero empenho e boa vontade, mas torno a dizer-vos, é preciso que falemos
com a maior franqueza”.
O príncipe seguiu então a longa linha de argumentação, fundamental para
54
compreendermos como os conceitos de soberania, monarquia e república formaram o processo de
reconhecimento da independência do Brasil no exterior:
Quero supor que para isso (a independência) há razões muito fortes. Porém o Brasil, em vez de
constituir-se em uma Monarquia, admite e adota princípios sumamente perigosos: a convocação
de uma Assembleia, que se chama Constituinte e Legislativa, é de graves consequências pelas
pretensões extraordinárias a que dá lugar fundada na ideia revolucionária da Soberania da
Nação. Suponhamos que por ser um país novo precisa de leis fundamentais e adaptadas às
novas circunstâncias e aos novos interesses e necessidades da Nação, mas essas leis devem vir
do Soberano para o povo, e não do povo para o Soberano (ADI, Tomo IV, P.62, grifos nossos).

Mais uma vez, vemos como a soberania da nação está associada a um campo oposto à
soberania do que por legitimidade, exercida pelo Monarca. Embora a Áustria fosse regulada
também por uma constituição, a diferença ressaltada era que ela fora elaborada diretamente pelo
soberano e colocada em prática. Convocar uma assembleia constituinte seria perigoso, dado as
suas pretensões “extraordinárias”. O risco de abrir ao “povo” por mais que, como já vimos
“povo” aqui significa o conjunto de iguais, patrícios, abria a possibilidade de uma constituição
com alcance para além da norma, liberal demais.
Como sabemos, não apenas Dom Pedro I, mas a tradição política brasileira como um
todo, em sua duração também extraordinária, terá dificuldades constantes em aderir a uma
constituição elaborada pelo “povo”, mesmo em seu conceito mais limitado, restrito e elitista, aqui
referido. Não nos é estranho que, no século XXI, ainda reconhecemos a duração da frase “As leis
devem vir do Soberano para o povo” como mote da elite política do país. A naturalidade com que
a frase é expressa, no século XIX, não apenas vigora, mas é fundacional na intermediação do
espaço público do país.
Metternich continua sua exposição, assustado com os discursos professados na câmara,
por Dom Pedro I:
Acabo de ler o discurso do Imperador na abertura da assembleia e confesso-vos que fiquei
admirado de algumas coisas que ali vi, e creio que o mesmo sucederá com S.M.I. (Francisco I)
a quem enviei. Disse-me mais, o Barão de Mareschal que lhe tinha referido uma circunstância
que eu talvez ignorasse e era, que o Imperador no dia da aberturada assembleia, passando com a
coroa até o salão, onde estava reunido os deputados, que quando ali chegara a tirara. Ah
Monsieur Telles. Le Souverain qui une fois a mis la Couronne sur la tête ne la doit ôter jamais!
(ADI, Tomo IV, p. 64).

Para além dos discursos, liberais demais ao ver do príncipe austríaco, a performance
política de entrar na assembleia sem a Coroa dizia tudo. Seria, enfim, três principais problemas.
Primeiro, a questão diplomática da legitimidade, ou seja, da linha de sucessão do trono, em que a
Áustria não considerava que Dom Pedro I estava respeitando, acreditando que, uma vez que Dom
55
João VI não estivesse mais em cativeiro, não haveria mais necessidade de o príncipe regente
manter uma guerra. O segundo seria do título adotado, de Imperial, que era interpretado como
uma mudança no seu modo de uso, de um título que significava a influência sob outras casas
monárquicas para o seu uso como uma usurpação republicana, “a la Napoleão”. Finalmente havia
o “problema” do sistema político do Brasil, fundamentado em conceitos revolucionários, ao seu
ver.
Telles da Silva era confrontado com as aparentes incongruências do discurso de Dom
Pedro I diante das ações que o levaram a declarar a independência do país. O Príncipe Metternich
arguia o plenipotenciário sobre a “inconsequência” de declarar, formalmente, em agosto de 1822,
que não visava à separação de Portugal e não almejava um título de “Soberano”, mas queria
aceitá-lo já em outubro do mesmo ano. Todavia, mais uma vez, o cerne da questão da
independência do país recaía muito mais na forma da adoção do governo, do que para Metternich
dizia muito sobre as intenções e a política externa adotada por Dom Pedro I.
É importante notar a maneira como o desempenho da diplomacia era realizado, pelo
menos do ponto de vista da narrativa construída pelo plenipotenciário de Dom Pedro. Telles da
Silva descreve que foi chamado a um encontro onde seria servido almoço, e, a partir deste, foi
convidado por Metternich em um salão reservado a discutir o tema. Após transcorrer algum
tempo entre discussões, tentativas de legitimação das ações de Dom Pedro, refutações e ceticismo
por parte do príncipe austríaco, este convoca o embaixador de Alexandre I, da Rússia a adentrar o
salão. Inicialmente, descreve o plenipotenciário brasileiro, o representante russo não se expressa.
Mas progressivamente começa a intercalar argumentos junto a Metternich, com o qual – sabemos
– já estava muito bem alinhado. Este tipo de diplomacia, “longe das gazetas”, diferia do que
Silvestre Rebello encontrou nos Estados Unidos, e, em certa medida, até na Inglaterra. Enquanto
John Adams tudo recordava e descrevia para a posteridade em seus diários, e comparava com o
que estava sendo veiculado nas gazetas e jornais, Metternich temia a possibilidade da
interferência da opinião pública a toda instante.
Telles da Silva tentava, ainda, demonstrar a importância da opinião pública para a
formação do governo. O argumento central era de que a maneira como o Estado havia sido
deixado a partir da volta de Dom João VI para Portugal enfraquecia tentativas de centralizar o
poder em torno de princípios monarquistas. Concessões republicanas precisavam ser feitas para
garantir a unidade do Estado. A experiência no Brasil era constantemente comparada a eventos
56
que transcorriam na Europa, na tentativa de aproximar ambos os espaços de experiência, e criar
expectativas semelhantes a serem cumpridas por ambos os lados. Ele argumentava:
O estabelecimento de um governo representativo no Brasil era ponto que se deveria considerar
de absoluta necessidade, e por consequência inquestionável. Por quanto ponderada as
circunstâncias que se tinha ficado aquele país quando Sua Majestade Fidelíssima o deixou; as
dificuldades de toda a espécie que o Imperador teve de vencer para livrar as tropas portuguesas
revolucionárias, e da anarquia suscitada pelos facciosos animados e favorecidos pelos
demagogos das cortes de Lisboa... para conseguir o tão essencial objeto de salvar a realeza não
se podia pretender que o Imperador, colocado em semelhante posição, houvesse de fazer mais
do que os soberanos da Alemanha, que sem estarem na mesma circunstância de apuros adotarão
aquela forma, e o rei da França, mesmo apoiado pela imensa força dos exércitos aliados, e até
mesmo Sua Majestade Fidelíssima restabelecida na plenitude de todos direitos Magestáticos,
prometendo à nação portuguesa essa forma de governo (ADI, Tomo IV, p. 68).

Para Telles da Silva, o exercício da soberania por uma casa real estava diretamente
associado ao exercício do poder cedido pela população: ter acesso à ampla força militar, controlar
meios de produção econômica e ter a opinião pública a seu lado. A “demagogia” difundida por
“demagogos” das cortes de Lisboa dividia esta opinião pública com “facciosos animados” para
produzir “anarquia”. Não obtendo forte presença na opinião pública, com uma produção
econômica em ruínas e forças militares enfraquecidas, era natural que o enfraquecimento da
centralidade do poder cederia espaço a mecanismos republicanos de poder a seu ver. Nos Estados
Unidos, a base argumentativa de Silvestre Rebello também recaía sobre a ontologia metafísica do
poder (de onde ele vem, como é institucionalizado), contudo, perante Metternich iniciativas
republicanas, eram legitimadas por um pragmatismo existencial: ou se fazia concessões, ou
revoltas e insurgências populares iriam consumir o Estado, e a casa real de Bragança que o
incorporava.
Telles da Silva se reportava a uma linguagem política que não enxergava no soberano a
instância de representatividade maior do poder, como Metternich, em que o poder “Emana dele e
vai ao povo, e não do povo ao soberano”. Este era o cerne da contenda para o reconhecimento da
independência do Brasil pela casa de Habsburgo: Telles da Silva não era capaz de dar explicações
para os diversos atos simbólicos e a maneira como a constituição vinha se organizando por Dom
Pedro I. As bases de construção de governo e Estado propostas e defendidas nestes congressos
eram opostas ao que a Santa Aliança de Metternich e Alexandre I propunha.
A intromissão do diplomata russo, Mr Tatischef, na reunião reforçava as discrepâncias na
matriz discursiva de ambos os lados. Convidado a adentrar a reunião por Metternich, o
representante de Alexandre I se limitou a repetir argumentos já utilizados por Meternich: o

57
princípio do desligamento de uma parte do império português era uma destituição do poder da
Soberania real de Dom João VI, que só poderia ser autorizada por ele. Isto havia sido efetuado
sem a consulta prévia de S.M.I, quando este não somente vivia, mas se encontrava restituído de
suas atribuições e prerrogativas eram consideradas um ultraje. Tatischef dizia:
Julgamos pela impropriedade do reconhecimento da Independência do Brasil sem que esse ato
emane de El Rey Fidelíssimo, considerado de Direito Legítimo Soberano de toda Monarchia
Portuguesa, de que o Brasil até agora faz uma parte (ADI, Tomo IV, p. 68).

A discussão encaminhou-se para o fim conforme Telles da Silva argumentava que, uma vez
declarado separado, não haveria volta para o Brasil, enquanto Estado soberano. Argumentava,
porém, que era de fundamental importância que o reconhecimento dos “Aliados Soberanos”, a
Santa Aliança, da independência do Brasil solidificaria a presença de monarquias no novo
Mundo, e isso poderia impedir a ascensão de novas pretensões republicanas no continente.
Embora relutantes, ambos concordaram, mas convieram que o ponto fundamental ainda não
havia sido discutido: o princípio da legitimidade havia sido ferido e não poderia ser prescindido
segundo ambos. Tatischef pergunta então a Telles da Silva se o Imperador estava disposto a
renunciar seus direitos à Coroa de Portugal, caso Dom João VI cedesse o Brasil. Telles da Silva
responde que não estaria autorizado a dar respostas formais sobre a questão. Ficaram, portanto,
três questões pendentes após este encontro:
 O reconhecimento da independência do Brasil só poderia ser formalizado uma vez que
Dom João VI concedesse que o Brasil não mais fizesse parte dos Estados Portugueses.
 Dom Pedro I precisaria renunciar seus direitos à Coroa de Portugal.
 O governo precisaria estabelecer-se em bases mais conservadoras que as apresentadas
neste momento.

Nos dias seguintes, conferências menores ocorreram sem demais grandes decisões e
acontecimentos. Enquanto as três questões não fossem sanadas, principalmente em um encontro
direto entre os membros da Santa Aliança com Dom João VI, o assunto deixaria de ser discutido.
Destacamos, apenas, o teor de uma das reuniões, em que Metternich questiona Telles da Silva
sobre o envolvimento de Dom Pedro I com a “odiosa42” maçonaria. Segundo o plenipotenciário
brasileiro, o Imperador havia se envolvido com a ordem para se infiltrar nela e mudar a opinião

42
ADI, Tomo IV, p. 74.
58
dela sobre algumas questões. Metternich, ao que relate Telles da Silva, não se convenceu, e
alegou que era um péssimo exemplo e de perigosas consequências. Mais um indicativo de que a
monarquia que se implementava no Brasil estava longe de ser absolutista, Metternich observava,
no discurso de Telles da Silva, os “péssimos” exemplos de “perigosas consequências” a
implementação de uma monarquia constitucional, com instituições e formações profundamente
enraizadas nos moldes do liberalismo incipiente.
Em carta de 10 de Janeiro de 182443, Telles da Silva expunha o grau de deterioração das
relações com o Príncipe Metternich. Embora tenha saído confiante da última sessão de conversas
sobre o reconhecimento da independência do Brasil, alguns eventos levaram a um súbito
afastamento e da disposição da Coroa Habsburga de eventualmente reconhecer a pauta brasileira.
Primeiro, em um encontro em Czernowitz, na Polônia, no início de janeiro de 1824, os
imperadores Francisco I, da Áustria, e Alexandre I, da Rússia, consolidaram as posições de que o
Brasil não teria direito à representatividade separada das instâncias portuguesas nos diversos
congressos europeus nesta “era dos congressos”, pós-napoleão.
Em reunião, explicando o que se passou na cidade polonesa, Telles da Silva descreveu um
Metternich irritado, com pouca paciência e muito menos polido do que já havia lidado. Sem
muitas introduções ou “conversas menores”, Metternich expunha que estava impaciente com a
“pouca segurança que apresentava o Governo do Brasil, sujeito a reiteradas alterações na
dissidência de opiniões das Províncias do Norte”44. Mostrava-se mais impaciente ainda diante de
um projeto de constituições “que apareceu nas folhas públicas” e que as “Potencias Aliadas”
consideravam mais perigosa que uma “carta puramente democrática”. Telles da Silva alega que
apenas o respondeu com o que já havia dito, e para demais argumentos, precisaria regressar ao
Rio de Janeiro. O episódio relatado provavelmente referia-se ao caminhar da constituição antes
da chamada “noite da agonia”, em 12 de novembro de 1823, em que Dom Pedro I forçadamente
interrompe a redação da noite, para em março concluí-la às portas fechadas.
De qualquer maneira, a irritabilidade de Metternich transparecia na deterioração das relações,
culminando na exclusão de representantes brasileiros em diversos congressos. A medida exigia
que o Brasil fosse representado por uma conciliação entre os países e a formação de uma
comissão mista para representá-los nos congressos, mas na prática simplesmente impedia o Brasil

43
ADI, Tomo IV, p.81.
44
ADI, Tomo IV, p. 82.
59
de ser representado. O plenipotenciário brasileiro em nada argumentou, apenas perguntando
quando poderia de se esperar que o Brasil fosse reconhecido. Metternich foi curto e grosso:
“ponha esta constituição na linha monárquica, e em seguida reconhecemos”45.
A partir desta última discussão, Telles da Silva relata a frieza a qual passava a ser tratada nas
próximas cartas. Deixava de ser recebido em cortes, os bilhetes que escrevia pedindo para reunir-
se com outros membros da corte eram ignorados, e mesmo cartas oficiais e formais pedindo
audiência eram ignoradas. Metternich e Francisco I mantiveram uma postura neutra em relação à
independência do Brasil durante os anos de 1824 e 1825, sempre voltando à questão da
Legitimidade. Se, por um lado, não reconhecia a independência do país; por outro, concordava
com a política Inglesa de que era necessário reconciliar Brasil e Portugal, “membros da mesma
família”. Foi só após o reconhecimento do Brasil enquanto país por Portugal, em novembro de
1825, que a Áustria também cede e declara o seu reconhecimento, um mês depois, em 13 de
dezembro de 1825. Este ato, paralelo às negociações da Inglaterra, consolidou a posição da
comunidade internacional, enxergando Brasil enquanto Estado Soberano e independente.

1.4 O reconhecimento da independência entre Estados Unidos, Inglaterra e Áustria – O discurso


constitucional

Diante da necessidade de legitimar a independência do Brasil no exterior, Felizberto


Caldeira Brant Pontes propunha uma simples solução: “basta pegar a declaração norte-americana,
e meter-lhe termos monárquicos”. A interpretação da historiografia brasileira da frase divide-se
entre compreendê-la ora como uma repetição simplória e que, em certa medida, denunciava o ato
como um ato de submissão colonialista, e ora como um ato cínico, de quem acreditava que o ato
não passava de uma farsa para desempenhar as plenas vontades do recém nomeado Imperador.
Oferecemos uma terceira explanação: Brant Pontes reconhecia, na república americana,
uma aceitável interpretação do modelo de exercício de soberania que vigorou na Inglaterra após a
revolução gloriosa de 1688. Para compreender este modelo, precisaríamos nos reportar à
discussão acerca dos conceitos de soberania, povo e governo, presente em trabalhos como os de
J.G.A. Pocock, Quentin Skinner, e, mais recentemente, Luisa Rauter Pereira e Christian Edward

45
ADI, Tomo IV, p. 83.
60
Cyril Lynch.
Christian Edward Cyril Lynch descreve, em sua tese de doutorado, O Momento
Monárquico46(2007), três tipos de linguagens políticas que concorriam na Inglaterra do início do
século XVIII: a do direito divino, a do contrato originário e a da antiga constituição. A primeira,
do direito divino, era principalmente mobilizada por tories, partidários que surgiram em oposição
à proposta whig da “lei de exclusão” que retirava James, o duque de York, irmão de Carlos II, da
linha de sucessão ao trono Inglês, por ser Católico. O partido Tory temia, segundo Lynch 47, o
democratismo do sistema após a revolução gloriosa de 1688, mas, já em cerca de 1740, o partido
perdeu força, dado a estabilidade garantida pós-1688. A segunda linguagem reportava-se à teoria
Lockeana de poder. Embora suas teses da noção de um governo formado por uma autoridade
consentida pelo respeito dos direitos naturais de seus governados fossem consideradas
demasiadas radicais no período, com poucas adesões na Inglaterra, elas vieram a se tornar
bastantes influentes nas treze colônias inglesas do novo mundo. Mas a teoria com mais vigor e
capilaridade social era a do constitucionalismo, mobilizada pelos whigs em oposição aos Stuarts e
seus reis católicos. Uma vez bem-sucedida a “lei de exclusão” e a fuga da dinastia Stuart,
membros do partido whig temiam o avanço de reformas republicanas, e passaram a fundamentar
o poder a partir de uma constituição que moderasse o poder em um equilíbrio entre três
instâncias: o poder monárquico, uma câmara alta de nobres e uma câmara baixa da plebe.
Argumentavam que os usos e costumes da constituição, jurados pelos conquistadores normandos,
criava um sistema estável formado por precedentes estabelecidos em cortes.
No novo mundo, a dinastia Stuart havia implementado um estilo de governo semelhante
ao existente na Nova Espanha, com uma figura centralizadora dispensando justiça em nome do
rei, no chamado “Domínio da Nova Inglaterra”, espaço delimitado entre o rio Delaware ao sul ao
cabo Elizabeth ao norte, comportando as colônias entre Nova Iorque e um pedaço do atual Maine.
O governador Sir Edmund Andros era altamente impopular principalmente pelas manobras
políticas que adotara, a primeira delas estabelecia que leis prévias fossem sustentadas para todo o
domínio, e como Massachusetts não tinha leis prévias sobre imposto, uma nova seria redigida e
aplicada a todo o domínio. A lei, considerada opressiva, gerou confrontos entre os habitantes e o
governador, que então proibiu encontros em praça pública. Assim, quando a notícia de que a

46
LYNCH, 2007.
47
Ibidem, p. 33.
61
dinastia Stuart havia sido deposta chegou aos portos de Boston, a cidadania local tratou de logo
prender o governador Andros e seus coletores de imposto, e reverteram ao mecanismo de
pequenas governanças locais, e inspirados pela noção de constitucionalismo trataram de criar
novas cartas para suas respectivas colônias, que eram verdadeiras constituições. As tentativas
sucessivas de centralizar e aproximar as leis das treze colônias com a conformidade do que era
seguido na Inglaterra foi, durante todo o século XVIII, a principal fonte de contenda entre
colonos e as instituições inglesas48. Tanto na Inglaterra quanto na Nova Inglaterra, remontar ao
constitucionalismo foi uma solução adequada frente à crise Stuart.
A solução começa a se desgastar em meados do século XVIII, no entanto, pelas críticas ao
gabinete whig de Sir Robert Walpole. Segundo Christian Edward Cyril Lynch, as políticas do
gabinete, como a manutenção de um exército profissional, o clientelismo parlamentar promovido
pelo patronato de ministros sob o parlamento, e a expansão da dívida pública, entravam em
confronto com “as premissas éticas do discurso republicano clássico”49, e abria uma brecha para a
interpretação de que se a tentativa do partido whig era de retomar às origens da constituição, essa
teria sido corrompida pelo comércio e pelas finanças. A solução do partido tory era a de uma
revolução: uma volta às origens que fosse capaz de romper com as estruturas corrompidas por
anos de gabinete whig. Tal força poderia ser exercida apenas por poderes excepcionais
concedidos a um Príncipe, que seria capaz de retirar da esfera pública os corruptos e inserir
apenas os bons-homens “alheios às paixões”50. Argumentavam, essencialmente, que a corrupção
do sistema constitucional geraria facções que ocupava o poder com os fins de se perpetuar nele.
O rei deveria manter-se para além dos partidos, e ouvir diretamente o povo, em detrimento das
vontades partidárias.
Para Cyril Lynch, ainda, são nos autores que esboçaram argumentos em defesa do
gabinete de Walpole, e as reações a eles, que emergiram discursos ligados à inevitabilidade dos
novos valores relacionados ao comércio, à usura e o espaço urbano. Autores como Bernard de
Mandeville e David Hume defendiam que o caráter passional da conduta pública poderia ser
utilizado para “civilizar os costumes e garantir liberdades”, uma vez lançado ao espaço público,

48
Para uma compreensão mais profunda da formação da Nova Inglaterra ver: STANWOOD, Owen – “The Empire
Reformed: English America in the Age of the Glorious Revolution”; LOVEJOY, David – “The Glorious Revolution
in America”; e, talvez mais pertinente a este trabalho, BURKE, Martin J. – “The Conundrum of Class: public
discourse on the social order in America”.
49
LYNCH, 2007, p. 34.
50
LYNCH, 2007, p. 35.
62
as constantes contraposições dos valores privados se aniquilariam mutuamente, e poderiam dar
lugar a uma esfera onde prevalecia o verdadeiro interesse público. Assim, o homem político
deveria deixar suas paixões partidárias de lado em nome de instituições garantidoras de paz e
estabilidade. O caráter imutável de uma constituição originária, fundada na tradição de um
“acordo” pós-conquista normanda, passava a ser substituído por uma constituição que fosse capaz
de conciliar os valores tradicionais com as diversas mudanças sofridas na esfera pública. O
discurso destes autores abria espaço para uma proposição fundacional da modernidade, a noção
processual, progressiva da história, do caráter transformador do tempo, que passaria a se tornar
um agente – talvez ainda não absoluto – de mudanças51. Trata-se, enfim, da temporalização do
espaço político.
A constituição passava a ser um acordo político essencialmente temporalizado, e o
conceito de soberania, do qual ela se reportava, estava, cada vez mais, subdividido entre diversas
instâncias de poder equilibradas entre si. O modelo Inglês tonava-se um verdadeiro modelo de
atuação para a redação de cartas constitucionais que visavam contornar o absolutismo. Nos
espaços do Novo Mundo, a ausência de linhagens monárquicas, e, consequentemente, do
princípio fundamental de legitimidade, fazia da carta inglesa ainda mais paradigmática. De fato, a
segunda constituição dos Estados Unidos – formada após os malfadados e fracos “artigos de uma
confederação perpétua” – é composta a partir de conceitos fundacionais da carta inglesa:
equilibrada entre um governo misto com casas de diferentes níveis de representação, relacionadas
entre si por mecanismos de “freios e contrapesos” ou “cheques e equilíbrios”. Se na Inglaterra as
instâncias que precisavam ser mantidas em equilíbrio eram a nobreza, o povo, o rei e a tradição,
nos Estados Unidos, a ausência de uma nobreza fundiária – que se mantinha em esferas da
administração pública, mas com pouquíssimo prestígio e muitos riscos – e de linhas monárquicas
eliminavam suas respectivas representações, mas demandas do novo mundo também criavam
problemas específicos.
A fraqueza dos “artigos da confederação” e as estruturas construídas para lidar com a
guerra revolucionária exigiam uma centralização capaz de garantir o exercício da diplomacia, da
manutenção de um exército e marinha profissionais, de moeda única e controle inflacionário
centralizado. Logo, nos Estados Unidos, o modelo passava a ser adaptado para equilibrar
instâncias locais de poder, com instâncias federativas do poder, com a representatividade do

51
GUMBRECHT, 1998. p. 15.
63
povo, e da tradição fundadora. A segunda constituição norte-americana previa, portanto, a
formação de um Senado, que representaria os interesses locais dos entes federados, uma câmara
baixa representativa do “povo” e um poder executivo semelhante às prerrogativas reais, eleito a
cada quatro anos. A constituição previa ainda a formação de uma “Corte Suprema”, garantidora, e
revisora dos usos e costumes que deveriam organizar o mundo político. Tanto a Corte Suprema
quanto a Constituição formavam instâncias interdependentes e essencialmente temporalizadas do
exercício do poder, uma vez que a capacidade de alterá-las, por meio da vontade do “povo” (dois
terços da câmara baixa) e dos entes federados (dois terços do senado) ainda dependeria do crivo
dos usos e costumes fundadores dos valores representados na constituição em si, pela corte
suprema.
Se retornarmos ao questionamento que inicia esta seção, veremos que não é de todo
distante ver que, para os diplomatas brasileiros atuando nos Estados Unidos e na Inglaterra, a
carta americana se encaixava, adaptada às necessidades locais, no paradigma Inglês, que era o
que homens, como Felizberto Caldeira Brant Pontes, buscavam implementar no Brasil. Daí a
noção fundamental dos conceitos de “equilíbrio” e “moderação” mobilizados a todo tempo pelo
Marquês de Barbacena. Frente aos riscos oferecidos pela abertura da temporalização na política, a
carta Inglesa, ao modo de ver do plenipotenciário, conseguia manter a tradição fundadora do
princípio da legitimidade monárquica, sem abrir mão de – moderadamente – adaptar instituições
às transformações éticas e sociais advindas de novos contextos produzidos por mudanças de
orientações do espaço público. Uma constituição moderada evitaria os excessos tanto do
absolutismo quanto dos “furiosos democratas de ocupações vis”, e tornar-se-ia mediadora da
autoridade do passado, do tempo tradicional monárquico para com um mundo em
transformações, agora inalienável à realidade da “revolução” promovida no espaço brasileiro. Por
isso, a revolução americana representava, antes de uma ruptura radical com a ordem
constitucional inglesa, uma possibilidade de continuidade de alguns de seus valores, adaptados à
realidade local. Logo, a “adaptação” da declaração de independência dos EUA aos termos
monárquicos não representava nem um ato de cinismo nem uma tentativa de se inserir em uma
nova ordem política: era, fundamentalmente, uma adaptação ao paradigma discursivo Inglês, em
um modelo já testado no espaço de tradição do novo mundo.
Silvestre Rabello, nos Estados Unidos, argumentava pela aproximação da formação de
ambas as esferas públicas também. Segundo o plenipotenciário, as instituições de governo eram
64
essencialmente iguais: parlamento formado por duas câmaras legislativas, poder executivo e
distribuição independente de justiça. A única diferença seria a forma como o executivo era
montado: se lá era eleito de quatro em quatro anos, aqui era hereditário e denominava-se
“Imperador” ao invés de presidente. Contudo, a discussão não girava em torno de republicanismo
oposto à monarquia, necessariamente, e sim de qual era o alinhamento do Brasil frente às
políticas europeias para o continente. Perante John Adams, Rebello elegia as tradições que
vigorariam, e negava as que não interessavam ser resgatadas no espaço do novo mundo. O
conceito de soberania aparecia aqui ligado, essencialmente, à legitimidade da monarquia
portuguesa, e dissociado das “antigas e esquecidas” cortes, negando assim qualquer lastro de
legitimidade das ações das cortes de Lisboa.
O próprio conceito de “Monarquia”, em si, não era uma frente de contenda, contanto que
ele se encaixasse com o paradigma inglês de monarquia constitucional. Em um argumento final,
explicando a formação do Estado no Brasil, Rebello informava que “O Brasil possui governo de
fato estabelecido. A administração da justiça é independente, a liberdade dos três poderes é
regulada por lei, julgamentos possuem júri. Há um exército bem pago e abastecido; uma marinha
que expeliu do Brasil toda tropa portuguesa, o tesouro possui dinheiro, e até pagou antigos
credores. O corpo civil é remunerado todo mês regularmente”, mas o equilíbrio buscado estava
precisamente na frase que acompanhava a descrição da formação destas instituições: “E
finalmente o Império do Brasil é solidamente estabelecido na Pessoa da sua Majestade Imperial
Pedro Primeiro, Imperador Constitucional, Defensor Perpétuo, como Deus há prometido, da sua
dinastia, dos direitos políticos, dos direitos religiosos, do Povo Brasileiro e do Império, por todo
o Tempo, como há prescrito a Providência Divina”. A linha tênue era traçada a partir da
necessidade de conciliar a tradição formativa da monarquia portuguesa, em sua dimensão
temporal, com instituições capazes de promover a “liberdade possível”.
É importante ressaltar que os principais interlocutores dos diplomatas brasileiros, nos
Estados Unidos, não se opunham necessariamente à forma monárquica de governo. John Adams,
como outros homens de estado nas Américas, lamentava não haver a opção monárquica para os
Estados Unidos, que havia tentando nomear George Washington como Rei. Destituída da força da
tradição uma casa monárquica recém-formada por princípios que visavam, unicamente, à
formação de um novo Estado, ela estava fadada a se “corromper” por princípios partidários, e
facciosos. Daí a importância fundamental da Suprema Corte como guardiã das tradições, e a
65
origem temporal de sua jurisdição e poder. As primeiras grandes decisões da corte estabeleciam
os limites do poder da corte, e solidificava sua jurisdição, acima das dimensões dos entes
federados: em Chisholm vs Georgia, a corte definia que poderia ouvir casos de processos contra
estados, decisão ratificada em 1795, enquanto em Marbury vs Madison, ela definia que poderia
reverter casos que julgasse ir contrário à constituição. Entre 1801 e 1835, período que a corte foi
presidida por John Marshall, diversos casos foram julgados em prol de decisões federalistas, que
variavam desde comércio interestadual à execução de obras que abrangiam diversos estados.
Argumentamos, portanto, que, nos Estados Unidos, a dimensão da tradição como elemento de
estabilidade e coesão social não havia sido eliminada, mas absorvida por outro poder, cuja
indicação de membros gera contenda entre partidos até hoje.
No teatro da Europa continental, a força da tradição monárquica, na sua entonação
absolutista, havia esmagado as forças políticas durante o século XVIII na maioria dos Estados.
Após as guerras Napoleônicas e a sua derrota, Metternich, Alexandre I e Francisco I atuam no
sentido de criar um novo consenso político pautado no resgate do princípio de legitimidade no
exercício da soberania. Telles da Silva inicia sua jornada na Áustria, relativamente otimista,
crendo que o reconhecimento seria rápido, uma vez que Dom Pedro I – em teoria – observava os
princípios de legitimidade exigidos por Metternich. Todavia, conforme as cortes de Lisboa vão
perdendo força e Dom João VI recupera suas atribuições, fica, cada vez mais, difícil sustentar que
Dom Pedro I não estaria cometendo um ato revolucionário de ruptura com as tradições da
monarquia portuguesa. As notícias da constituição, prestes a ser aprovada entre 1823 e 1824,
reforçavam a tese de que o Brasil se aproximava muito mais do campo discursivo Inglês que o da
Europa continental. Embora Metternich buscasse uma solução de conciliação entre Brasil e
Portugal, a frieza com que trata Telles da Silva – praticamente exigindo que a constituição fosse
posta “em termos monárquicos” – indicava que nenhuma ação seria tomada antes da anuência de
Portugal em si.
Ao comparar as estratégias discursivas utilizadas para o reconhecimento da independência
do Brasil nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Áustria, observamos a grande discrepância nos
conceitos de “república” e “monarquia”, dependendo do país e do agente que tratava das
negociações. Tal discrepância, no entanto, não pode ser atribuída apenas às inclinações políticas
pessoais do negociante, uma vez que, como vemos, a matriz argumentativa partia da carta de
instruções, o que conferia algum grau de conexão entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros,
66
que formulava a política externa, e os agentes que a executava. Enquanto, na Inglaterra, a
monarquia era defendida como um princípio organizador da sociedade, nos Estados Unidos, ela
era defendida como uma exigência do próprio povo, que exercia a sua soberania por intermédio
do ato de “aclamação”.
Em ambos os casos, no entanto, a monarquia era defendida como uma tradição que
valeria a pena manter. Em um mundo percebido como em constante e rápida transformação, o
conceito de monarquia aparece como um porto seguro, ainda capaz de unificar os povos em torno
da figura paternalista do Imperador, e a sua capacidade de representar a própria nação. Desta
maneira, a “aclamação” de Dom Pedro I como “Defensor Perpétuo” é defendida como um ato
essencialmente republicano, e só faz sentido se observado do ponto de vista de que o Imperador é
a nação personificada, sem interesses próprios. É, aliás, a contraposição feita à figura do
demagogo, que usurpa o poder em “benefício próprio”. Tanto nos Estados Unidos quanto na
Inglaterra é reconhecido que a Soberania emana essencialmente do povo, mas deve ser exercida
com cautela, por meio de um sistema de intermediários, uma vez que os riscos e as consequências
da “anarquia” se sobrepõem aos eventuais ganhos da atuação direta dos “pobres radicais”.
O exercício da Soberania, por parte do Imperador, não poderia ser, no entanto, irrestrito.
Se a sua capacidade de dar sentido e unidade à nação permanecia como um valor a ser mantido,
tornava-se necessário conter eventuais excessos de poder, atrelando o seu poder a uma
constituição. Se na Europa a tradição do absolutismo era um processo político em aberto, no
espaço americano, o seu exercício se tornava impossível, dado que remetia à “exploração
colonial” e a impossibilidade das elites locais de se fazerem ouvidas. Os argumentos centrais pelo
reconhecimento da Independência do Brasil giravam, portanto, em torno de legitimar um
processo político de ruptura que buscava evitar tanto excessos do absolutismo quanto eventuais
excessos do exercício do poder popular, formando assim uma linguagem política moderada.

67
CAPÍTULO 2. ENTRE HISTÓRIA DIGITAL E HISTÓRIA DOS CONCEITOS

Historiadores, atualmente, estão diante de um grande dilema ético. Diversos autores


começaram a argumentar que, embora estejamos inundados por História, talvez como nunca
antes, a maneira como a narrativa historiográfica de delineou no século XX. Já no início do XXI,
parece ter aberto fissuras cada vez mais palpáveis entre o que as pessoas sentem e se identificam
na historicidade e a historiografia produzida no meio acadêmico. Em um exemplo recente, o
historiador Berber Bevernage aponta, em “History, Memory and State-Sponsored Violence”52,
para o fato de que a narrativa histórica contemporânea tendeu a produzir distanciamentos
históricos dos eventos do passado, as suas permanências, e o povo do qual ela afeta, e, em muitos
casos, se alinhou às narrativas do Estado, que, por sua vez, precisava garantir distanciamentos de
atrocidades cometidas em seu nome. De fato, a História e a sua narrativa desempenharam o papel
de instrumento de poder desde a sua concepção, e está intimamente ligada à origem e
estruturação organizada do poder, estabelecendo sistemas políticos ou religiosos, concebendo
tradições e ritos, e, com frequência, legitimando ações de violência no âmbito do Estado e de
governo.
Uma das premissas deste trabalho é a tentativa, talvez muito incipiente e experimental, de
lidar com essa fissura, ao fundir a narrativa historiográfica com ferramentas digitais que
acrescentem à análise da história e aproxime a academia de métodos mais intuitivos e sensoriais,
em uma tentativa de extrapolar o contexto da leitura textual. Parte do problema, argumentamos,
é que, embora a sociedade, de uma maneira geral, tenha observado, nas últimas décadas, a
ascensão de diversos tipos de mídia e maneiras de lidar com discursos e produções históricas,

52
BEVERNAGE, 2012.
68
historiadores têm se atido – com certa teimosia – ao tradicional texto acadêmico como única
forma de expor as interpretações historiográficas que produzem.
É, portanto, um objetivo deste capítulo lidar com um objeto tradicionalmente histórico –
linguagem conceitual de diplomatas brasileiros atuando no exterior – da perspectiva de novas
ferramentas digitais à disposição. A análise de conceitos e linguagens tem sido, largamente, uma
empreitada essencialmente pautada pela leitura hermenêutica de textos escritos. Projetos de larga-
escala, como o Iberoconceptos, focaram na produção de dicionários subdivididos por conceitos
mobilizados em um determinado espaço e tempo, mas acreditamos que uma análise do ponto de
vista de novas metodologias digitais pode ampliar perspectivas comparativas entre autores, tanto
em amplos espaços quanto em durações mais longas. Embora, nesta seção, focaremos nos três
diplomatas já citados – Felizberto Caldeira Brant Pontes, na Inglaterra, Silvestre Rabello, nos
Estados Unidos e Telles da Silva, na Áustria – nos intervalos entre 1821 e 1825, acreditamos que
as metodologias inicialmente poderiam ser discutidas para análises de períodos temporais mais
extensos e com maior diversidade autoral.
Há, no entanto, algumas questões éticas, teóricas e metodológicas que devem ser
discutidas inicialmente. Primeiro, a ascensão de softwares de big-data e programas analíticos
mais refinados, combinados aos potentes softwares de reconhecimento de caracteres óticos
(Optical Character Recognition, ou OCR) podem até provocar profundamente como os
historiadores pensam sobre e produzem narrativas historiográficas. Eles não substituem, no
entanto, a tradição hermenêutica construída e debatida durante séculos de historiografia para a
leitura de fontes primárias, mas devem, antes, ser vistas como mais uma ferramenta que auxilia o
seu exercício. A alfabetização digital da historiografia parece estar submetida, por um lado, à boa
recepção a qual historiadores têm tido de alguns aspectos do processo de digitalização que a
sociedade vive; e, por outro, a um profundo ceticismo de seus possíveis ganhos reais.
Parte da historiografia recente tem abraçado novas ferramentas digitais, como a
digitalização de fundos e arquivos, a facilidade de acesso à bibliografia e o intercâmbio quase
instantâneo de ideias que a internet possibilita, resultando, entre outras coisas, no aumento
exponencial de periódicos on-line, assim como a disposição e acesso a fontes. Por outro lado, o
historiador está, quase majoritariamente, em uma posição passiva em relação ao desenvolvimento
dessas ferramentas. Observa o seu desenvolvimento com distância, e incorpora, quando
conveniente, alguns de seus avanços. Falta, entretanto, participar do processo de criação de
69
algumas destas ferramentas. Chamamos atenção para que, sem uma participação mais ativa,
historiadores estão, cada vez mais, distantes da epistemologia destes recursos, mas se vendo
obrigados a aderir a sua utilização, quase sempre desenvolvidos no âmbito de uma lógica que não
é a sua, com demandas muito particulares e alheias à historiografia.
Talvez a ambivalência das duas posturas se deve ao argumento levantado por Anaclet
Pons de que falta uma “discussão contínua sobre história digital”. Em recente artigo publicado
por Pedro Silveira, na revista Antíteses, o historiador resgata a discussão de Anaclet Pons para
questionar as origens desta dualidade. Para ela, “todos nos digitalizamos de maneira informal, de
modo que escrevemos com processadores de texto, nos comunicamos por correio eletrônico,
consultamos informações nos sites de busca etc”. Ainda assim, “tratamos este mundo como se
fosse apenas ‘um apêndice, uma curiosidade, uma distração, algo supérfluo’, que pouco ou nada
tem a ver com nosso ‘verdadeiro trabalho’”.
Contudo, para além deste debate inicial sobre a discrepância entre a produção de novas
tecnologias auxiliares e o seu uso no meio acadêmico, entre um público cada vez mais nascido no
ambiente digital, e uma produção historiográfica enrijecida em moldes demasiado tradicionais, há
ainda uma discussão mais ampla sobre o exercício da historiografia em uma era de abundância.
Roy Rosenzweig vem discutindo precisamente esta questão desde a década de 90. Para ele,
historiadores precisam:
…estar simultaneamente pensando em como pesquisar, escrever, e ensinar em um mundo de
abundância histórica nunca antes visto, e em como evitar escassez documental. (...) O
“Sistema” para preservar o passado que evoluiu durante séculos está em crise, e historiadores
precisam participar na construção de um novo sistema para o próximo século.

Rosenzweig se refere ao excesso da ampliação de fontes disponíveis, mas também da


cultura de produção excessiva de informação observada com a ascensão da internet. Frente a um
mundo que produz e disponibiliza informações – voluntariamente ou não – de maneira constante,
como produzir interpretações históricas relevantes a partir de dados, que muitas vezes até por
serem excessivos, são negligenciáveis ou negligenciados? Esta é uma questão permanente para o
historiador que precisa discutir uma prática para o próximo século, mas acreditamos que a
questão extrapola as circunstâncias da história digital especificamente, para a historiografia como
um todo, na medida em que o público, o qual o historiador busca dialogar, está cada vez mais
submerso neste mundo digital. Encontrar formas mais didáticas e intuitivas de expor dados pode
ser uma ponte com um determinado público leitor.

70
2.1 Estados Unidos

As imagens que serão utilizadas para as seguintes análises foram formadas a partir de uma
série de programas – gratuitos e modificáveis (open source) – e a partir do texto original dos
volumes do Archivo Diplomático da Independência. Não pretendemos aqui estabelecer um
parâmetro de rigidez desta metodologia, nem pressupomos que este é o único caminho possível.
Muitas vezes o processo foi baseado em tentativa e erro, buscando programas que preenchessem
critérios relativamente difíceis de serem cumpridos na internet simultaneamente, como
gratuidade, transparência em suas modificações (DevLog) e possibilidade de modificação. Dada
estas considerações. Em primeiro momento digitalizamos cerca de quinhentas páginas de
documentação. A partir daí utilizamos o programa de Optical Character Recognition “FreeOCR”
para transformar as imagens em texto com certa precisão. Adotamos o critério de precisão de que
entre mil palavras testadas e acompanhadas, apenas 23 foram marcadas com imprecisões que
impossibilitavam a sua compreensão, uma margem de erro de 2,3%. Uma vez traduzido de
imagem para texto transpomos o texto agrupado ao contador de palavras “Hermetic Word
Frequency Counter” para desvendar quantas vezes cada palavra foi citada no transcorrer do texto.
Ao fim, utilizamos o processador de dados (voltados para o textual) “Iramuteq” para separar,
agrupar e quantificar palavras, de maneira a poder produzir a seguinte imagem, em que o
tamanho de cada palavra corresponde à frequência com que é expressa no texto:

71
Figura 1 – Estados Unidos. Elaborada pelo autor.

Em primeiro plano, observamos a presença de conceitos ligados ao exercício do poder do


ponto de vista das relações internacionais. Além do destaque para o nome de ambos os países,
Brasil e Estados Unidos, Governo e Estado, também foram muito mencionados, assim como o
nome da capital de ambos os países: Washington e Rio de Janeiro. É de se esperar que, para o
funcionamento diplomático, os principais conceitos girem em torno da separação e diferenciação
entre Estados e suas identidades, assim como a sua burocracia e estamentos funcionais. Assim,
“cônsul”, “oficio”, “tratado”, “correspondência”, “encarregado” compõem elementos básicos de
uma linguagem diplomática de relacionamento em nível internacional. Este tipo de linguagem
ocupa um lugar central nos principais termos empregados e é a base para discussões políticas
mais profundas.
Quando Silvestre Rabello chega aos Estados Unidos, as primeiras etapas de sua
representação diplomática estavam relacionadas ao estabelecimento deste tipo de linguagem,
antes de dar prosseguimento à política externa desenhada por José Bonifácio. A entrega da “carta
patente” está essencialmente conectada com a instância fática da linguagem: estabelecer um canal
pelo qual o processo de negociação deve percorrer em termos previamente acordados. O canal
fático aqui referido não deixa de carregar em si um imenso peso político, o próprio ato mútuo de
72
estabelecimento de relações formais indica a tomada de decisões políticas. Por isso a importância
de atos que podem até parecer simbólicos, como o de aceitação da carta patente ou de
reconhecimento do plenipotenciário como um Embaixador. O reconhecimento do Embaixador é
essencialmente um ato de reconhecimento da independência do país, uma vez que estaria se
reconhecendo a capacidade de um Estado ser representado, e, consequentemente, da sua própria
existência. O princípio de reciprocidade diplomática é mantido a partir da criação do canal de
comunicação e início de relações formais diante de outras nações.

Povo / People

Como vimos anteriormente, nos Estados Unidos, a negociação em torno da independência


mobilizou uma retórica em volta da mudança do conceito de república, de forma a aproximá-lo
do conceito de Monarquia. Subjacente e centralmente a esta operação linguística, estava o
conceito de “Povo”, responsável pelo ato de aclamação do Imperador (como um presidente
vitalício, em uma eleição única) e pela formação de um congresso, representativo e em seu nome.
É, portanto, fundamental resgatar uma história do conceito de povo, para compreender como ele
se relaciona com a linguagem mobilizada em torno do reconhecimento da independência do
Brasil.
No Brasil, a formação do conceito de povo estava intimamente relacionada à experiência
Portuguesa do termo. Predominava no espaço do Império Colonial Português, no século XVIII, a
concepção “corporativista” do conceito, herdada da formação social medieval, onde os diversos
estamentos se relacionavam entre si por intermédio de uma hierarquia fundada em uma ordem
universal imutável, cujas partes equivaleriam à formação de um corpo, sendo o Rei a cabeça
deste corpo. No espaço colonial, os portugueses do além-mar eram considerados povo na medida
em que eram súditos ou vassalos do Rei, organizados em corporações. Mantinham para com o
Rei deveres, direitos e obediência. Luisa Rauter Pereira chama atenção 53, no entanto, que este
conceito permanecia restrito ao âmbito da cidadania abastada, o conjunto de homens brancos,
“bons”, proprietários ou de negócios que detinham acesso aos instrumentos de representação
corporativa e intermédio real no espaço da colônia.
Entretanto, o século XVII observou também a ascensão de diversas novas categorias e

53
IBEROCONCEPTOS, p. 1152.
73
representações corporativas, forçando a incorporação de novos significados ao conceito. Uma
distinção feita entre “plebe” e “limpos” foi necessária para distinguir os considerados “indignos
por condição social”54, tipo de ocupação ou origem do sangue, das novas categorias emergentes
dignas de participação social.
A linguagem do jus naturalismo, no final do século XVIII, introduz na colônia uma
concepção de povo com direitos naturais e inerentes. A partir das conjurações em Minas Gerais
(1789), Rio de Janeiro (1794) e Bahia (1798), as críticas em torno do despotismo metropolitano
renovam e atribuem novos sentidos ao conceito de Povo, também pelo influxo da linguagem
revolucionária francesa e norte-americana. As concepções de liberdade, igualdade e soberania dos
povos se somavam à tradição “pactista” ibérica oriunda da segunda escolástica, que conferia ao
povo a origem do poder real, alargando assim o conceito que passava não a significar as diversas
ordens e representatividades que compunham a sociedade, mas, sim, uma cidadania alargada em
uma “nova dimensão e orientação” para o futuro55. É importante notar que as transformações no
conceito não são nem consensual nem imediata. Com a vinda da corte, em 1808, as províncias
passam a enxergar o Rio de Janeiro como viam Lisboa: o centro de uma metrópole e origem de
certo despotismo. Assim, a revolta Pernambucana, em 1817, contra a imposição de um
governador indicado pela Coroa aglutinava, em uma só vez, o jus naturalismo iluminista ao pacto
formado por súditos e vassalos para legitimar a origem da revolta: ao “povo” pernambucano
recaíam os privilégios e direitos por ter expulsado os holandeses, e, no entanto, a Casa de
Bragança rompia este contrato. Luisa Rauter Pereira ressalta ainda o caráter profundamente
conservador do movimento, visando à manutenção de um sistema de distinção entre as “classes
nobres coloniais”, a plebe, e os escravos.
É a partir da revolução constitucional de 1820, em Lisboa, que se inicia um processo de
profunda transformação no conceito. Fez-se necessário a atualização do “pacto” entre Rei e Povo,
de maneira que resultou na concepção de um povo “cidadão”, cuja soberania calcava o poder do
Rei. A presença do povo enquanto força política, muitas vezes violenta, na tomada de ruas e
praças em centros urbanos, aterrorizava as elites locais. Entre a revolução, em 1820, em Portugal
e o período de independência, em 1822, no Brasil, as diversas manifestações e irrupções
populares que marcaram o espaço público levaram membros da elite a questionar esta

54
IBEROCONCEPTOS, p. 1152.
55
Ibidem, p. 1153.
74
conceituação. Fazia-se necessário restringir e delimitar quem iria participar do espaço público,
quem estaria apto a ser representado e quem deveria ser excluído para limitar possíveis
“anarquias”.
Silvestre Rabello, nos Estados Unidos, mobilizava “povo” nesta acepção restritiva, que ia
também ao encontro ao que se observava nos Estados Unidos. Semelhantemente à Argentina56 e à
Colômbia57, a discussão em torno do conceito implicava a participação do povo em instâncias
locais e federativas e a sua capacidade de representação. Embora tanto na Colômbia quanto na
Argentina e nos Estados Unidos observa-se uma tendência contrária às monarquias, não era de
todo contraditório que uma Monarquia fosse capaz de produzir representatividade do povo,
sobretudo da limitação deste conceito que excluiria o “populacho”. De fato, pensadores como
Quentin Skinner já apontaram para a necessidade de separar republicanismo como forma de
governo de republicanismo como princípio fundamental de civilidade. Em “Liberty before
Liberalism” (SKINNER, 2000), o autor apresenta que filósofos modernos, como Hobbes,
definiam não haver diferenças conceituais entre obediência a um poder monárquico ou
obediência a uma república popular. A definição partia do princípio de que sujeitos, embora não
livres da obediência da lei, eram livres para realizar aqueles atos não censurados pela lei, e isso
era verdade de qualquer regime. O ataque à soberania real tornava-se uma redução do escopo de
atuação do Estado em si. Silvestre Rebello procurava mobilizar o conceito de republicanismo
enquanto participação cívica, contrapondo os argumentos de soberania popular à redução do
poder legítimo do Estado em manter valores cívicos fundamentais. A possibilidade de diálogo
entre ambos os países estava calcada neste tipo de atuação: Rebello argumentava que a forma
monárquica era capaz de assegurar paz e unidade, requisitos necessários para o afloramento de
valores cívicos.
A constituição federalista ratificada, em 1788, pelo congresso dos Estados Unidos não
determinava os direitos eleitorais da população, deixava a questão em aberto para cada estado
decidir. Uma vez que os níveis de representação entre os estados na federação estivessem
equiparados com dois senadores, representando o ente federativo e um número variável, por
tamanho da população, de deputados na câmara baixa, estavam estabelecidos, caberia a cada
estado decidir como esta representação se daria. Embora este distanciamento entre instâncias

56
IBEROCONCEPTOS, p. 1143.
57
IBEROCONCEPTOS, p. 1180.
75
federativas e estaduais permitisse que líderes federais se gabassem de formar governos “do povo
e para o povo”, na prática, a restrição à cidadania não era muito diferente do que se observava no
Brasil, na Argentina ou na Colômbia. Alguns estados permitiam que mulheres solteiras, não
divorciadas, votassem – as casadas já eram representadas por seus maridos. Alguns permitiam
que negros e ex-escravos votassem. Mas, consensualmente, todos estados exigiam que eleitores
possuíssem propriedade para votar.
É neste contexto que Rebello utiliza o conceito “people” com tanta frequência, sobretudo
para aproximar o Brasil dos Estados Unidos. É de fundamental importância notar que a palavra
“povo” é citada com bem menos frequência do que a palavra “people”. É um caso no qual a
linguagem étnica reflete a linguagem conceitual: em inglês e com interlocutores norte-americanos
a palavra “people” é utilizada para descrever o processo de independência com muito mais
frequência do que imaginável nas correspondências oficiais entre o plenipotenciário e os
sucessivos ministros do estrangeiro. Parte deste uso do termo advinha de orientações de José
Bonifácio, cuja carta patente dizia ao diplomata para explicar que a aclamação era uma decisão
do povo, e que Dom Pedro I “mesmo apresentou uma Constituição ao seu Povo, bem análoga à
que rege os Estados Unidos Setemptrionais”. Só em uma carta de Dom Pedro I para o presidente
James Monroe o termo é citado mais de dez vezes, entre elas para explicitar que “os direitos do
povo foram violados, quando não foram considerados um Reino, ou pelo menos em igual
representação”58.
O esforço de apresentar Dom Pedro I como alguém que, fundamentalmente, representava
o seu povo refletia a concepção de que a soberania era exercida em nome do povo. Rebello tinha
o entendimento de que aproximar Dom Pedro I a outros líderes “cultuados e adorados” nos
Estados Unidos, como Napoleão Bonaparte e Símon Bolívar, ambos “líderes também vitalícios”,
faria mostrar que o tipo de representação vigente no Brasil mais se assemelhava aos demais
países do continente do que da Europa. Uma das maiores preocupações de James Monroe, e de
diversos federalistas, como John Quincy Adams, era a possibilidade de intervencionismo da
Europa em assuntos americanos. O uso extensivo do conceito de povo por Rebello demonstra a
estratégia de apresentar o Brasil como uma nação com origens e interesses semelhantes aos dos
Estados Unidos.
A citação de diversos países, no transcorrer da correspondência diplomática, também

58
ADI, V. 5, p. 58.
76
parece indicar uma necessidade de se aproximar com a política que viria a ser chamada de
“Doutrina Monroe”. “Columbia”, “México”, “Buenos Ayres” e “América” parecem indicar que
havia uma verdadeira preocupação em aproximar a política externa brasileira para com a
americana, demonstrando apreensão diplomática e alinhamento também com os demais países do
continente, e a utilização do conceito de “povo” se enquadra dentro desta política. A aproximação
se dava também ao exigir igual tratamento da política externa estadunidense, que havia sido
dispensada aos demais países citados: o reconhecimento americano da independência de outros
países havia sido imediato.

2.2 Áustria

77
Figura 2 – Áustria. Elaborada pelo autor.

A nuvem dos principais termos utilizados na correspondência diplomática enviada da


Áustria para o Brasil apresenta um claro contraste da observada nos Estados Unidos. Primeiro, e
talvez mais importante, o conceito “Povo” é citado menos de 10 vezes no transcorrer de mais de
cem páginas de documentação, e, portanto, sequer figurou na nuvem. Há ainda uma diferença
mais sutil: embora haja também a presença de termos que indiquem presença de uma linguagem
diplomática, por meio do uso de palavras, como “oficio”, “expedida”, “governo”, além de
“Brasil” e “Vienna”, a nuvem é principalmente ocupada por conceitos que remetem à tradição
monárquica. Isto pode ser considerado um indício do que observamos anteriormente: na Áustria
de Metternich e Francisco I o exercício da diplomacia se realizava a portas fechadas, por
membros das elites imperiais, cujas representatividades eram asseguradas não pelo exercício do
poder concedido pelo Estado, mas, antes, pela força da tradição que os garantiam como o próprio
Estado personificado. Assim a palavra “Príncipe”, tanto para se referir ao Dom Pedro I quanto ao
Klemens von Metternich, é um dos termos mais utilizados na correspondência enviada.

Monarquia: Príncipe, Império e o princípio de legitimidade

78
O conceito de “Monarquia” em si não figurou com muita frequência, citado menos de 10
vezes no transcorrer de cem páginas. De fato, Telles da Silva preocupava-se imensamente em
utilizar o termo “Império” sempre que possível, evitando a citação do conceito de “Monarquia”.
O motivo está relacionado ao princípio de legitimidade, ao qual Telles da Silva se referia
constantemente: o Monarca reconhecido pela Áustria era Dom João VI, e qualquer tentativa de
atribuir a Dom Pedro a linha sucessória de uma monarquia da casa de Bragança cairia em maus
olhares perante a política externa de Metternich. Os acontecimentos no Brasil também levaram
Dom Pedro I a assumir o trono na condição de Imperador, e não monarca. O título, no entanto, foi
visto como um aceno ao “liberalismo” republicano, mais associado às discussões em torno da
constituição.
Telles da Silva concentrava seus esforços discursivos em apresentar um Império regido
por princípios da tradição monárquica, mesmo que este não fora o nome formalmente adotado,
citando que se tratava de uma concessão principalmente às províncias mais longínquas do Norte,
cujas elites reconheciam, no Rio de Janeiro, a possibilidade de uma nova metrópole, em que o
risco era tornar-se, também, despótica. O título não representaria o caráter do governo, enquanto
concessão servia apenas para “acalmar” os ânimos aguçados. Telles da Silva debruçava-se na
elaboração da constituição para provar seu ponto: tratava-se de um documento que garantiria a D.
Pedro o livre exercício da soberania monárquica. A discussão em torno da constituição era, em si,
uma denúncia de liberalismo 59 aos olhos de Metternich, para quem cartas constitucionais
deveriam ser evitadas ou “vir do Soberano ao povo, e não do povo ao Soberano”.
No fundo, a discussão girava em torno da rejeição da “via inglesa” por parte da Áustria.
Embora ambos os países concordassem que uma solução entre Brasil e Portugal precisava ser
adiantada, o país americano se tornou palco de mais uma queda de braços entre as duas nações na
“era dos congressos”. Para a Áustria da Santa Aliança, qualquer solução precisava obedecer ao
princípio de legitimidade, ganho às duras custas em guerra contra Napoleão, sob a égide havia
sido edificada a Europa pós-guerras-napoleônicas. Não só a independência do Brasil impedia a
restauração do território Português, como a adoção de uma constituição nos padrões ingleses
indicava a tendência do novo país em se alinhar contrários aos interesses da Santa Aliança. O
princípio de legitimidade estava, por sua vez, relacionado à continuidade, ou restauração, onde

59
IBEROCONCEPTOS, p. 747.
79
possível, das casas monárquicas anteriores às invasões napoleônicas. O argumento inicial de
Telles da Silva recaía sob o pretexto de que Dom João VI se encontrava em condição de cativeiro,
e, portanto, não estaria em pleno controle de suas faculdades no exercício do poder, e, nesse caso,
Dom Pedro I tomava as decisões necessárias para lidar com as “facciosas” Cortes. O uso
recorrente do termo “Faccioso” para referir-se às cortes era alusão ao princípio de que os partidos
que disputavam o poder durante o vintismo haviam se degenerado em facções, enquanto Dom
Pedro I apresentava uma constituição que recuperava a dimensão suprapartidária do poder
exercido pela realeza.
O argumento torna-se cada vez mais difícil de ser sustentado: a notícia de que Dom João
VI estaria em seus “plenos poderes” à frente da casa de Bragança, assim como notícias prévias da
constituição do Brasil que começavam a circular na Europa continental no começo de 1824
(notícias do fechamento da assembleia por Dom Pedro ainda não repercutiam até então) não
agradavam Metternich, que as considerava demasiadas liberais. Assim, para reforçar os
argumentos lançados até então, Telles da Silva mobilizava uma linguagem que fazia referência às
instituições monárquicas constantemente. Buscava equiparar Dom Pedro I e Metternich ao citá-
los ambos como Príncipes, herdeiros das tradições de suas respectivas “augustas” casas. A
estratégia não foi eficaz, e a Áustria reconheceu a independência do Brasil apenas após o
reconhecimento Português, detendo-se firmemente no princípio de que Dom Pedro I não tinha
legitimidade, uma vez que era um poder concorrente, e, portanto, desobediente ao seu pai.
Contra esta acusação Telles da Silva buscava afirmar que o príncipe da casa de Bragança
era leal, outro termo frequentemente utilizado, sobretudo a partir de 1824, tanto aos princípios
delineados por Metternich, quanto ao seu pai, mas que o processo de independência do Brasil
tornava-se irreversível. Ser leal à augusta casa de Bragança era a única postura possível, uma vez
consolidado o processo de independência. Telles da Silva argumentava que um pronto
reconhecimento da Áustria poderia influenciar as forças políticas locais, e fortalecer o discurso da
soberania monárquica no Brasil, podendo, eventualmente, colocar o Brasil em posição análoga à
Áustria na Europa continental, como guardião de valores monárquicos poderia, inclusive,
influenciar as repúblicas do continente a aderir ao sistema de monarquia.

Tempo: a função do passado


80
A presença do tempo enquanto autoridade estava presente nos discursos de diversos
plenipotenciários negociando o reconhecimento da independência do país no exterior. Todavia, na
Áustria, a dimensão do tempo teve papel preponderante nas negociações. Quase todos os
representantes de Estado no exterior exigiram, dos diplomatas brasileiros, uma “breve
constatação” dos eventos que levaram à independência do Brasil. Na Áustria, a narrativa
detalhada buscava explicitar os sucessivos eventos que levaram o processo de independência a se
tornar irreversível. A vinda da corte, em 1808, a abertura dos portos, a implementação da casa da
suplicação no Brasil, a elevação a reino unido em 1815 e a rápida sucessão de eventos após a
volta de Dom João VI a Lisboa faziam parte de uma narrativa em que o Tempo adquiria uma
autonomia própria, e tornava a marcha em torno da independência em um processo irreversível.
Para as elites brasileiras, já em 1822, o projeto de um império luso-brasileiro não parecia
deter a força que tinha antes da revolução do Porto. Neste sentido, a própria imagem histórica de
um Brasil unificado a Portugal deixava de fazer sentido, e a narrativa de Telles da Silva
enfatizava pontos de contenda, mais do que a continuidade histórica entre Brasil e Portugal. Até
1824, os argumentos de Telles da Silva diante de Metternich buscavam resgatar a tradição da
monárquica, e apresentar Dom Pedro como um legítimo sucessor dela. A partir de 1824, essa
explanação torna-se inviável, principalmente pelo triunfo de revoltas conservadoras em Portugal,
como a vilafrancada, apoiada pela Santa Aliança, que ignoraria a constituição considerada
demasiada liberal, em contrapartida de uma reorganização absolutista em torno do soberano Dom
João VI.
Desde o congresso de Verona, em 1822, e a formação de uma temerária aliança entre
Inglaterra, Países Baixos, Áustria e França, havia se decidido garantir um mandato de intervenção
na Espanha para conter o liberalismo espanhol, a “febre amarela”, instalando um “cordão
sanitário” nos Pirineus, na forma de um exército de observação francês. Contudo, já em janeiro
de 1823, a Santa Aliança havia concordado com uma intervenção direta em nome de Fernando
VII da Espanha para restaurar o trono absolutista em seu nome. Realistas franceses, como o então
ministro do exterior francês François-René Chateaubriand, regozijaram na intervenção, no
indicativo de que a Santa Aliança permanecia como uma força extraordinária na Europa
Continental e no regresso absolutista que parecia estar se fortalecendo no continente.
Em Portugal, a Santa Aliança buscava, a partir da vilafrancada, fortalecer o nome de Dom
81
Miguel e de Carlotta Joaquina, frente à aceitação de Dom João VI de termos mais liberais da
constituição. A revolta foi relativamente difusa, uma vez que Dom João apoia Dom Miguel,
encabeça o próprio movimento, indo pessoalmente à Vila Franca e voltando, a Lisboa, vitorioso.
Fortalecidos, portanto, a partir do Congresso de Verona, da restauração do absolutismo na
Espanha e da guinada absolutista em Portugal, em 1824, as sucessivas reuniões da Santa Aliança
pareciam afastar cada vez mais a possibilidade de reconhecimento da independência do Brasil,
sobretudo pela cláusula de legitimidade, uma vez que Dom João VI não apenas não se encontrava
em cativeiro, como argumentava representantes Brasileiros até finais de 1823, como aderia a um
movimento absolutista apoiado pela Santa Aliança.
Telles da Silva, encontrando-se impossibilitado de arguir pelo reconhecimento da
independência do Brasil, do ponto de vista da continuidade da legitimidade monárquica, apela à
força do tempo, dos sucessivos eventos que, desde 1808, encaminhavam o Brasil para a
independência. Em maio de 1824, o plenipotenciário Brasileiro disse: “o Governo do Brasil pelos
recentes acontecimentos de que tínhamos notícias ia adquirindo uma grande força, que lhe
permitia ir adiante, mas com a prudência de não retroceder nos princípios monárquicos”60. Os
recentes acontecimentos, argumentava, fortaleceria a causa da independência, e Dom Pedro I
avançava sobre elas com a “prudência” da monarquia. O tema central e recorrente nesta
argumentação que fazia menção ao passado, à narrativa da história, era de que diante da força dos
eventos, da aceleração do tempo e da modernidade, fortalecer Dom Pedro I e a monarquia
permitiria frear as consequências mais devastadoras, e equilibrar o mundo político que deveria
ainda ser conduzido por um monarca.
Metternich, no entanto, não aceitaria este argumento, e continuava a expor a lógica do
absolutismo, senão para o Brasil, pelo menos na linha sucessória de Portugal. Em resposta ao
argumento de Telles da Silva, Metternich rebate: “Compreendo muito bem que o Brasil quer ser
independente, mas a mim não agrada saber que ele quer, no tempo que solicita os bons ofícios do
Soberano, estabelecer uma chamada monarquia, que republicanizou que jacobinizou, e até
mesmo que democratizou o gabinete do Soberano!61 ”. Para Metternich, o tempo exigia a boa
atuação dos soberanos, e a constituição que chegara a ele apresentava a figura de um soberano

60
ADI, Tomo IV, p. 100.
61
ADI, Tomo IV, p. 100: “je conçois trés bien que le brésil veuille être Independant, mais je ne sçais pas pouquoi il
veut, dans le temps qu'il demand les bons offices des Souverains, établir une soidisante monarchie, qui republicanise,
qui jacobinise, et qui democratiquise même dans le cabinet de Souverain” Tradução e grifo nossos.
82
prostrado diante da “mais democrática assembleia”. Diante do impasse, o príncipe Austríaco
passa a argumentar que a monarquia era exercida pela casa de Bragança sob ambos os territórios,
e que havia duas questões separadas: a questão da Coroa e a questão da dinastia.
Para ele, era até aceitável discutir se a administração do território brasileiro deveria ser
feita separada da de Portugal, mas era inconcebível romper, como alega que Dom Pedro I fazia da
dinastia sucessória de Bragança, em Portugal, dos direitos sobre o Brasil. Na prática, Metternich
buscava garantir a Dom Miguel a sucessão do trono português e a dinastia continuada por Dom
Miguel o exercício da soberania no Brasil, ao discorrer que, ao mesmo tempo em que Dom Pedro
I queria governar o Brasil como uma entidade distinta de Portugal, ele deveria abdicar ao trono
Português, e manter o território sob a linha de sucessão dos Bragança. Perante a exigência de
abdicação do trono Português, Telles da Silva diz que não pôde responder por Dom Pedro I, e o
impasse perdura até o reconhecimento da independência do Brasil por Portugal.

2.3 Inglaterra

83
Figura 3 – Inglaterra. Elaborada pelo autor.

A nuvem dos principais termos utilizados na correspondência diplomática enviada da


Inglaterra para o Brasil parece, à primeira vista, continuar a tendência já observada nos outros
dois países citados, onde o nome dos principais atores e dos locais de interlocução eram usados
no canal de comunicação aberto entre as duas nações. Chama a atenção, porém, da presença mais
frequente dos diplomatas propriamente ditos à frente das questões: na Inglaterra, George
Canning, e no Brasil, Felizberto Caldeira Brant Pontes e José Bonifácio. Uma comparação, talvez
prematura, poderia indicar que, enquanto nos Estados Unidos as respectivas nações eram
personificadas e seus representantes atuavam em seu nome, e, na Áustria, os respectivos
príncipes eram a própria nação personificada, na Inglaterra, encontramos uma espécie de meio
termo, onde a instância da diplomacia era efetuada por intermédio da burocracia e dos gabinetes
ligados ao Estado. De qualquer maneira, os termos já observados nas outras nuvens, relacionados
ao exercício da diplomacia, também são constatados aqui: “estado”, “ordens”, “correspondência”,
“paquete”, “Instruções”, “ofício”, entre outros.
A ausência do termo “Legitimidade”, embora esperado, é indicativo de que, na Inglaterra,
a questão sucessória da dinastia de Bragança tinha pouca influência no assunto como um todo. A
baixa frequência de “Escravidão” deve-se ao fato de que o assunto não era discutido antes do
84
reconhecimento da independência do Brasil, e como indicado na carta de instruções de Bonifácio
a Brant Pontes, deveria ser evitado a todo custo. A nuvem reforça o que já observamos
anteriormente: a Inglaterra era favorável ao reconhecimento da independência do Brasil, contanto
que seus direitos comerciais no país fossem mantidos – ou ampliados.

Comércio e negócios – A linguagem do Humanismo Comercial

“Os domínios da Europa terminam no Atlântico. Os da Inglaterra, começam62”. A frase de


George Canning, ministro do Foreign Office Inglês entre 1822 e 1827, exemplifica a política
externa Inglesa no período, o principal contraponto à atuação da Santa Aliança. Canning já havia
servido no Foreign Office na condição de diplomata inglês em Portugal entre 1814-1816, e
posicionava-se favorável aos diversos movimentos de independência das ex-colônias espanholas
na América. Apoiava, ainda, o reconhecimento da independência do Brasil, mas com as devidas
cautelas para não causar demais ruídos com um dos mais fiéis aliados da Inglaterra, Portugal. O
discurso de Canning era oposto ao que Metternich argumentava diante de Telles da Silva.
Canning acreditava que, para a manutenção de paz duradoura na Europa, era necessário que cada
país se desenvolvesse separadamente, sem intervenções externas, e o pleno desenvolvimento de
cada potencialidade levaria a um equilíbrio de poder na Europa.
Canning acreditava que o papel da Inglaterra era o de ser um grande entreposto comercial
para o mundo, e, como tal, um bastião civilizatório e exemplar a todas as nações. Essa articulação
se dava, principalmente, devido à linguagem do Humanismo Comercial, como aponta J. G. A.
Pocock. Segundo o autor, este tipo de linguagem era elaborado a partir da articulação entre as
discussões acerca da virtude republicana e a linguagem da jurisprudência, que buscava
transformar o comércio em uma atividade edificante e civilizatória. Como vimos anteriormente,
parte da discussão sobre a elaboração da constituição na Inglaterra, e do debate entre Tories e
Whigs, era a de que o comércio havia corrompido a ética republicana, que precisava elevar-se a
partir da centralização do poder em um Monarca, capaz de interpelar as forças partidárias,
facciosas, e restabelecer um governo voltado para o conceito de “povo” mobilizado segundo este
argumento. George Canning era um Tory moderado: era a favor de “emancipação católica”, ou
seja, da participação de católicos na vida pública inglesa, mas era, principalmente, um forte

62
TEMPERLEY, p. 342.
85
proponente do livre comércio. Por um lado, isso denotava que o discurso tory, que foi capaz de
formar gabinetes entre 1783 e 1834, encontrava-se em decadência, os ideais de anti-catolicismo e
deposição dos Reis Stuart já não vigoravam frente às urgências do mundo político pós-revolução
americana e francesa. Isso levaria ao rompimento do partido em 1827, e quando Canning torna-se
primeiro ministro, no mesmo ano, ele convida alguns partidários Whigs a formar um único
gabinete de governo.
O discurso de Canning buscava unir categorias intrínsecas à linguagem do Humanismo
Comercial, como virtude e comércio63, pois acreditava que o comércio seria capaz de enaltecer as
virtudes, melhorar as relações entre os países e criar relações sólidas e de paz duradoura. Isso
pressupunha um grau de livre atuação de cada país e reforçava seus argumentos contrários ao
intervencionismo. Neste sentido Canning é abertamente favorável à postura do presidente James
Monroe: de não intervir nas américas. No Brasil, Canning era favorável ao reconhecimento da
independência se devidamente acompanhado das atualizações nos tratados de comércio vigentes
desde que a corte portuguesa por aqui se instaurou. Entretanto, via-se na complicada situação de
mediar o conflito entre Portugal e Brasil, era preciso acalmar os ânimos de ambos os lados, e
postergar qualquer decisão definitiva ao máximo. A linguagem ligada ao comércio era mobilizada
para mediar ambas as relações. Os plenipotenciários brasileiros compreenderam a utilização de
tais conceitos, e conseguiram apropriar-se deles de tal modo a aprofundar os seus argumentos a
partir deles.
De fato, os tratados de comércio assinados pela Grã-Bretanha, não só com Portugal, mas
também com a Espanha, são de suma importância na argumentação de Felizberto Caldeira Brant
Pontes, e são citados com frequência. Canning argumentava que os sucessivos tratados
comerciais com Portugal, desde o século XVII, faziam referência ao Brasil enquanto espaço
colonial português, portanto, a criação de novos tratados com uma nação que ocupasse esse lugar
nulificaria os tratados vigentes em Portugal. A isso Brant Pontes argumentava:
Donde se segue que se estes tratados pudessem ser aplicáveis ao presente caso, não só se veria
com assombro a livre e briosa Nação Britânica servir de instrumento à tirania protegendo o duro
e caprichoso jugo do monopólio, e de recolonização, mas até pelos mesmo princípios se deveria
concluir que os antigos tratados de comércio que desde dezoito de agosto de mil seiscentos e
quatro tem sido celebrados entre a Grã-Bretanha e Espanha deviam também servir para
obrigarem aquela Potência, não só de desistir da empresa de auxiliar, como tem feito, a
separação das ex-colônias Espanholas, visto que eram parte integrante daquela Monarquia, mas

63
POCOCK, 2003.
86
até opor-se decididamente a semelhante separação64.

O monopólio comercial era visto como uma forma de recolonização, sobretudo, um


instrumento de tirania, e deveria ser aplicado às colônias que ainda não obtiveram um grau de
“amadurecimento” ao ponto de conseguir encaminhar o seu próprio processo civilizatório. Ele
diz:
O que por própria experiência conhece bem a Grã-Bretanha, que tendo reconhecendo
solenemente a independência de suas colônias da América Setentrional, parece ter sancionado o
princípio de poderem reclamar elas a sua independência, quando tem chegado aquele preciso
estado de virilidade e civilização e não lhes é possível suportarem a tutela da Mãe Pátria: vendo
que por conseguinte o Brasil, bem como a América Espanhola, a ficar em uma posição que não
enquadra de modo algum ao ajustado nos antigos Tratados, por oferecer, torno a repetir, um
novo e superveniente caso que não pode ser medido por convenções anteriores 65.

Assim, os tratados antigos que Canning reivindicava para explicar o porquê de ainda
não ter reconhecido a independência do Brasil, eram vistos por Brant Pontes como inapropriados
às circunstâncias atuais, em que o Brasil já detinha um grau de “virilidade” e “civilização”
necessários, como as ex-treze-colônias britânicas nas américas, onde a “tutela” da “mãe-pátria”
fazia-se desnecessária. O argumento era coerente com a atuação de Canning até então, mas, por
sua vez, precisava negociar a aceitação da independência do Brasil em Portugal, e utilizava os
antigos tratados como forma de postergar tal aceitação.

64
ADI, V. I, p. 66.
65
Ibidem, p. 67.
87
Considerações Finais – Possibilidades de uma linguagem diplomática

Buscamos rastrear os debates em torno das negociações pelo reconhecimento da


independência do Brasil no exterior, enfatizando como cada diplomata mobilizou um tipo
específico de linguagem política em relação ao seu interlocutor. Nos Estados Unidos, Silvestre
Rebello buscou o convencimento por meio da articulação da linguagem do republicanismo
cívico, aproximando os países não pela forma de governo, mas por valores cívicos fundamentais
partilhados. Já na Áustria de Metternich, Telles da Silva precisava se esquivar do problema
parlamentar, e buscava, com menos sucesso que seus colegas, legitimar a independência do Brasil
por intermédio de uma linguagem monárquica que fosse capaz de ressignificar um ato de ruptura
revolucionária como um ato de preservação de tradições e, acima de tudo, do princípio da
legitimidade dinástica. Já na Inglaterra, Felizberto Caldeira Brant Pontes empunhava o
humanismo comercial para associar a independência do Brasil à possibilidade de livre comércio,
(com a Inglaterra), antes impossibilitado pelos grilhões do colonialismo português.
Não é de particular interesse a essa pesquisa buscar um campo de autonomia para a
diplomacia enquanto objeto histórico necessariamente. Antes, procuramos evidenciar como
sujeitos históricos mobilizaram – e foram mobilizados – por linguagens políticas que implicaram
a formação de novas tradições políticas e de um espaço público. A compreensão da diplomacia
enquanto espaço de atuação política, portanto, remete-se à capacidade que os diplomatas em
função tinham de compreender as diversas linguagens políticas disponíveis em seu tempo e
expressá-las de acordo com o interlocutor em questão. Talvez o exercício de uma linguagem
diplomática não seja necessariamente a utilização de uma linguagem política, mas o exercício de
um reconhecimento de historicidade: a identificação da multiplicidade e contraposições de
diversas línguas possíveis no ato de interlocução.
Não é de se estranhar, portanto, que, em vários momentos, esses atores autores negavam a
sua capacidade para a diplomacia. Enxergavam na capacidade de identificar e utilizar múltiplas
linguagens políticas como um ato de manipulação e enganação, dos quais não julgavam ser
capazes de realizar com aptidão. Daí, também, a preocupação recorrente com a “verdadeira
exposição dos fatos”.66 As constantes reclamações de Brant Pontes, pedindo para voltar ao Brasil,

66
A expressão é de uso recorrente quando se iniciava a explicação dos eventos ocorridos no Brasil, ou de decisões
recentes do governo e do Imperador. Pode ser localizada em, por exemplo: ADI, Tomo V, p. 90; 103.
88
tinham, dentre os motivos, a sua declarada ineficiência para o trabalho, afirmava:
Nos meus ofícios, e cartas, de Maio, e junho, pedi a vossa excelência que nomeasse, ou
mandasse pessoas completamente autorizadas... para a defesa e independência do Brasil, mas
vossa excelência julgou-me capaz de muito mais, e nisso enganou-se. Estou disposto a perder a
minha vida pelo Brasil. E pelo seu Augusto Defensor, e Regente, mas de modo algum posso ir
contra a minha consciência. Estou inteiramente convencido da minha incapacidade para a
carreira diplomática.

Por um lado, Brant Pontes buscava regressar ao Brasil para cuidar de seus negócios
pessoais, como as fazendas na Bahia. Contudo, a incapacidade para a atuação diplomática era um
tema recorrente, e era associada à incapacidade de “mentir”. Telles da Silva, em Vienna, faz
afirmações semelhantes quando confrontado por Metternich sobre os movimentos de Dom Pedro
I: “O único passo errado que meu amo deu foi fazer-me diplomático contra a disposição da
natureza que não me fez dissimulado; e eu falo e falarei sempre com a mesma linguagem e a
todos”. Por mais que o argumento buscava criar um elo de confiança entre ambos os atores,
negando a sua capacidade de eludir o interlocutor, o autor afirmava que se valer de diversos tipos
de linguagens era um ato de dissimulação.
O esforço retórico de enfatizar uma única e verdadeira versão dos fatos percorridos não
encontrava paralelos nas cartas-patentes enviadas a cada emissário no exterior, que admitiam a
possibilidade de recorrer a múltiplos argumentos, orientados a partir de uma política externa
elaborada primeiramente por José Bonifácio, e seguida por José Joaquim Carneiro de Campos e
Luís José de Carvalho e Melo. Trata-se de uma possibilidade que se ramifica a partir do estudo
das diversas linguagens em jogo em torno da independência do Brasil.
Não pretendemos esgotar o potencial da temática nesta dissertação, há ainda diversas
contribuições possíveis. Uma futura pesquisa poderia preocupar-se com uma comparação mais
ampla entre os diversos países que receberam emissários do governo imperial no período, como
as Províncias do Rio da Prata, a Espanha, Portugal e a Santa Sé. Buscar compreender como as
relações foram desenvolvidas na Rússia e na Prússia também seria de grande importância.
Ampliar o enfoque temporal, para além do período da independência, requereria a livre utilização
de um corpo documental depositado em um arquivo fundamental: o arquivo do Itamaraty,
infelizmente ainda fechado por reformas.
A comparação das diferentes estratégias políticas utilizadas no reconhecimento da
independência do Brasil nos países estudados aponta para diferenças fundamentais nos diversos
argumentos utilizados. Estes argumentos se inseriam nas principais vertentes da linguagem
89
política moderna: o republicanismo cívico, a linguagem monárquica e o humanismo comercial,
que variavam de acordo com a relação estabelecida entre o diplomata e a autoridade local.

90
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