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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

SUSANA SANTANA COSTA

Necropolítica e os desafios para a intervenção psi

CAMPOS DOS GOYTACAZES


2019
O período da ditadura militar no Brasil produziu modos de controle e normalização que nos
atravessam até hoje. Quando se pergunta nos dia de hoje se as pessoas viveram alguma ação da
ditadura, muitas respondem que não. Por isso se faz necessário discutir os efeitos da ditadura,
principalmente as práticas psicológicas no contexto da ditadura que é que nós interessa neste
trabalho.

Na década de cinquenta o Brasil vivia uma situação de crise econômica, com uma economia
muito dependente, desigualdades, disparidades na distribuição de renda e altos índices de
desemprego. Em meados dos anos sessenta, o governo propunham ações que melhorasse as
condições dos trabalhadores, neste momento, as classes privilegiadas se viram ameaçadas e
reagiram implantando uma forma autoritária de governo. Neste contexto surge a Ideologia de
segurança do Estado, segundo a qual havia o perigo de acontecer uma revolução comunista e a
partir daí, todas as pessoas consideradas subversivas passaram a ser perseguidas, exilados,
torturadas e mortas.

A ditadura civil-militar brasileira implantou um modo social de funcionar baseado no


capitalismo e dessa forma instaurou uma bioplítica dos corpos. Por biopolítica entendemos um
modo de organizar a sociedade onde os indivíduos são tratados como corpos dóceis, disciplinados e
gerenciados para a produção de mercadorias. Na época de ascensão do capitalismo, entre os séculos
XVI e XX, a ação foi de assimilar massas humanas no interior das fábricas, quando as técnicas
evoluíram e máquinas passaram a fazer o trabalho, a ação foi de expulsar massa humanas, jogá-las
para o desemprego, empurrá-las para a periferia ou para as prisões.

Na atual fase do capitalismo, alguma coisa acontece na ordem do sistema que faz com que
agora as massas humanas sejam dispensáveis, vivemos um momento de crise do capitalismo e
agora não se trata mais de assimilação nem de expulsão mas se trata de se desfazer das massas que
agora não são mais úteis para o sistema. Em termos de política isso significa a passagem de uma
Biopolítica para uma necropolítica, não mais voltada para a produção de vida, mais uma política
voltada para a aniquilação em massa.

O desafio para psicologia é buscar potencializar as intervenções que fortaleçam e priorizem


o respeito aos direitos humanos, que na época da ditadura foram desrespeitados e atuar frente aos
problemas sociais de maneira oposta ao que os psicólogos fizeram na ditadura. Se no período de
ditadura os psicólogos construíram psicologia asséptica e pretensamente neutra como meio de
legitimar a profissão, agora é preciso construir uma psicologia que dê voz e respeite as diferenças,
tendo consciência de que a subjetividade está associada a relação entre as pessoas e o seu meio em
uma dada época histórica.

No filme "Patch Adams O Amor é Contagioso", vemos uma forma de intervir junto aos
pacientes que é possível como enfrentamento para superar os problemas decorrentes de um modo
de se fazer medicina capturado pelo capitalismo e pelo tecnicismo. O filme conta a história de
Patch Adams, que se internou num Hospital Psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio. Sua
relação com os outros pacientes, despertou nele a vontade de ajudar outras pessoas. Então ele saiu
do hospital para estudar medicina. Ainda no primeiro ano ele ia visitar os pacientes no hospital,
desobedecendo as ordens do reitor, que tentou proibi-lo de concluir o curso, mas por ser o melhor
aluno da turma e contando com o apoio dos pacientes que ele ajudou, conseguiu provar que seus
métodos são eficazes. A grande mensagem deste filme é nos fazer olhar o próximo como ser
humano que é, desperta a importância do relacionamento entre profissionais da saúde e pacientes e
os psicólogos devem estar atentos a esta questão.

Referências Bibliográficas

Cardoso Hilário, Leomir. (2016). DA BIOPOLÍTICA À NECROPOLÍTICA: VARIAÇÕES


FOUCAULTIANAS NA PERIFERIA DO CAPITALISMO. Sapere Aude. 7. 194. 10.5752/P.2177-
6342.2016v7n13p194.

Patch Adams – O Amor é Contagioso. Direção: Tom Shadyac. Produção: Mike Farrel, Barry Kemp,
Marvin Minoff e Charles Newirth. Interprétes; Robin Willians, Daniel London, Monica Potter,
PhiSCARPARO, Helena Beatriz Kochenborger; TORRES, Samantha; ECKER, Daniel Dall'Igna.

SCARPARO, Helena Beatriz Kochenborger; TORRES, Samantha; ECKER, Daniel Dall'Igna.


Psicologia e ditadura civil-militar: reflexões sobre práticas psicológicas frente às violências de
estado. Rev. Epos, Rio de Janeiro , v. 5, n. 1, p. 57-78, jun. 2014 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2178-
700X2014000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 30 abr. 2019.