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EMfLIO WILLEMS

CORPO E ALMA
1
l'
DO BRASIL UMA VILA
BRASILEIRA
TRADIÇÂO E TRANSIÇÂO

Direçao do
Prof. Fernando Henrique Cardoso
Prefacio de
NELSON 'vVERNECK SooRÉ
'[
;

IV

Janeiro 1961 ' FUSAO EUROPÉIA DO LIVRO


Rua Marquês d e Itu, 79
Rua Bento Frei tas, 362 - 6. •
SA.o PAULO
tdt •llielllns culturais ligado s a esta ûltima fas e. 0 leitor tomara
ct)Jdu;t~inu ·.n t o dêlcs en~ detalhe, mas convém lembrar, desde logo,
<Jill: HO ha pouco Itmpava conheceu 0 radio, 0 autom6vel e a
l11t'1quina de escrever. Itaipava, assim, é ainda um pouco do
velho Brasil, conservado em museu vivo. Nesse sentido, 0 en-
i-ll !"i o de Willems é de uma riqueza singular, pela meticulosidade
do lcvantamento . E é nesse sentido que o exemplo de Itaipava
ndmite generalizaçoes.
Devo, finalmente, e apenas por um elever de honestidad e INTRODUÇAO
deixar claro que, curioso da mesma ciência em que Emili~
Willems é especialista, -distanciam-me dêle a obediência a métodos
e cri~érios de anali~e diferentes. Nao considerei de modo algum
A

que Isso fosse mot1vo para deixar -de estar presente, com êle à 1 - Par maior que seja a complexidade das mudanças a
porta clêste ensaio, tao rico pelo que apresenta e tao rico p'elo transforma-rem a maneira de viver de um agregado humano, elas
que sugere. Seu .rigor cientifico, sua honestidade no oficio sua se reduzem, no nivel mais abstrato, a um processo fundamental
capacidacle como especialista merecem aclmiraçao. 0 leito;. vai apenas. Que se escolham exemplos em qzwlquer um dos se~ores
conhecer um livro de mestre. de uma dada cultura, a introduçao de novas técnicas agricolas,
digamoo, um .nova mod:o de pro,piciar os deuses, de cumr doen-
ças ou de decidir litigios, os homens envolvidos em semelhantes
NELSON WERNECK SonRÉ
atos ten.dem a dissociar-se e a cindir-se em grupos antagônicos .
Aspectas da vida em comum sôbre os qua.is havia consenso
outrora, agora deixam os homens perplexos, no dilema da duvida,
da indecisiio e da confusiio de quem ja nao sabe camo proceder
em situaçoes que nunca antes suscitaram dificuldade alguma. )
Onde havia um rumo a seguir, agora se percebem dois (ou mais);
ao escolher, o individu.o hesita sob a pressao daqueles que }a se
decidiram a favor ou contra a inovaçiio. À oposiçao de princi-
pios, re gras, normas, 1w "·nive l'' pràpriamente cultural (coma di-
zem os antrop6logos) dorrespondem antagonismos ou con/litas
no "nivel'' social. Na verda.de, nao ha dois niveis diferentes, o
"social" e o "cultural" siio apenas dois aspectas do mesmo fenô-
meno ou, talvez, .duas perspectivas em que se pode col'Ocar o fenô -
meno chamado "desorganizaçiio". Êste têrmo, um tanta ominoso,
vai quase sempre acompa.nhado do adjetivo "social", mas esta
preferênci.a pode fazer-nos esquecer que desorganizaçao, no sen-
tido proposto aqui, é impl"Lcitamente cultural, pois desentendimen-
tos, œntago.nismos ou con/litas giram necessàriamente em tôrno
de um "assunta", guer dizer, uma idéia, nanna, regra, principio
ou formas d e comr<ortamento . É 0 que 0 antrop6logo percebe
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i camo cultura. De outra lado, o conflito niio pode deixar de
a/etar as relaçoes sociais entre as pessoas que dêle participam.
Discorda7U~o, os homens tendem a dissociar-se uns dos outras,
a formar grupos ou instituiçoes dissùle.ntes que se opoem e se
fi
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cumbat.em mùluame-nte. À descontinuidade das regras de compor- rlent.ais . S em ·negar que semelhantes problenws possam cons-
/.a/1/,cnto corresponde a desagregaçâo de agrupamentos sociais. t.iluÙ' aspectas de desorganizaçâo, ncîo é possivel fugir à impress~o
Assùn, a desorganizaç~o é cultural e social a um tempo' A sua de que a tacanharia ùnplicita em limitaçoes dessa natureza, este7a
essência se poele ver, com Thomas e Znaniecki, no "enfraqueci- prejzulicanâo sèriamente o estudo do J:nômeno fnndameontal, a
1/lento da influência que regras sociais existentes exercem sôbre sa.ber o papel (ou a funçâo) do confh to no processo :ultur~l.
os membros do grupo". Sa.be-se que a "sociologia do conflito" nêio avançou mu~to alem
Em ltaipava, a desorganizaçâo cultural ·nâo apresenta tra- do qne Georg Simmel escreveu ha mais d.e n~eio_ século. 0 atraso
ças espetaculares ou alarmantes. Esta, por exemplo, na falta de observado ( e reconhecido) neste ten·eno tao ~mportante parece
consenso entre aquêles que praticam a religiâ·o catolica e os que estar relacionado cam a idéia de ser o conflito algo de tempo-
se desviaram dela aderindo ao protestantismo. A soluçâo de con- rario e des.t rutivo, a perturbar 0 ritmo "normal" das socied'adJes
tinu~d~e cultural se estende a quase toda simbolismo religioso hwnanas. A hipotese de que o aonflito social passa constituir
tradu:W!nal que, para o protestante, significa ape-nœs idolatriœ e uma fôrça po>Sitiva, onipresente e nonnal, no sentido de repre-
superstiçâo. Mas a des,organizaçâo vai muito além da esfera prà- sentar, pelo menas, um dos mecanismos através dos quais se r;o·
priamente religio·sa, pois a nova religiiio envolve o individuo em duzem modificaçoes cultnmis, esta hipotese - ava.nçada por s~m­
wna rêde de proibiçoes e restriçoes conferindo signific.ado dis- mel Thomas e Znaniecki, entre outras - tem suscitado bastante
crepante ao que se define par "prazeres munda.nos" e inibindo int:rêsse verbal sem qz~e éste se tenha convertido em ener!gia im-
formas de associaçâo que implicam a participaçâo em tais "pra- vestigadpra:. ltaipava nâo oferecia oportu.nidade para. verificar
zeres".
a hipotese, e1omo de fato nenhum estudo monogréifico poderia ofe·
Em outras setores da cultura de 1taipava é a oposiçâo entre recé-la, mas desejo frisa.r, de modo ma.is enféitico possiv·el, que a
medicina popular e medicina cientifica, ou a paula.tina substitui- presença c01nprovada de conflitos culturais e sociais cam sez:s
çâo .do sistema de "respeito", na divisâo da propriedade entre efeitos des'Organizadores em ltaipava, nao implicœ a sua auséncw
herdeiros, pela agrimensura. Em todos êsses e muitos outros ca- em qualquer época do passad1o . Creio ser pouco realistica a idéia
sos, ha pela menas divergências de opiniâo quamto ao acêrto, à de um "marco zero", a partir do qual se teriam realizado tôdas
· conveniência ou aplicabilidade de certas re gras, idéias ou .normas; as comoçoes sociais cam efeitos diretos sôbre a situaçêio presente,
às vêzes, grupos ou "partidos" se formam em tôrno de normas substituindo uma existéncia comunitaria, isenta de discordia in-
~p~s~as, surgem anùnosidades, tensoes, antagonismos ou mesmo terna e mudança cultural, por uma jase "critica" de trans/or·
m~n:~zades e-ntre os membros de semelhantes grupos, se bem que maçoes profundas e T(ipidas que estejam rumando para uma exis_-
mu~gad.as par atitudes de tolerância e talvez par uma aversiio téncia social futura ( melhor ou pior, de acôrdo cam as pred~­
generalizada a hostilidades intemperadas. leçoes ideologicas do observador), caracterizada, co mo a vida
0 conceito de desorganizaçiio social, assim coma foi pr'o- social anterior à crise, par uma estrutu,ra "definitiva" e im6vel.
pos~o ..P?r Thomas e Znaniecki, nâo implica os juizos de valor Sem .negar a realidade de jases criticas, de rapida e extensa ~ub­
ouünanamente associados cam o tênno. Afirmar que um agre- versiio de valores tradicionaZ:S, estou inclinado a pensa:r, apowdo
gado hum~no esta_ desorganizado niio equivale a dizer que sua em numerosos estud'Os de recente data, que muda.nça cultural ·niio
mo~a~ esteja em d~ssoluçcïo ou que haj.a sinto1nas de enfermidades
soc~ms clamando parr receitas e terapias. A idéia do patologico
q~e por tanta tempo se ligou ao conceito da .desorganiza.çéiJd so-
cwl, quase soterrou êste campo de estudos sob avalanches de
l~ significa apenas transiçiio de status para contractus, d e " comum-.
dade" para "sociedade" ou de "cultura. de folk" para "civilizaçii~",
cam a possivel implicaçâo de nm retôrno a uma ordem so'Cwl,
isenta de conjlitos e desorganizaçâo camo isento teria sida o
preconceitos e sub jetivisrroos z:nverificaveis. V encera a tendência \
status quo que precedeu a grande crise. Descle que os /~tas ~x~­
para definir desorganizaçâo social estreitamente em têrmos de minados neste volume nâo oferecem ensejo para profecw.s, lLmr-
I.'~Tt?s_ problemas (tais coma a delinqüência, o alcoolismo, a pros- to-me a decl.arar agui qu.e nenhuma das tendências de desenvol-
1/.tiu~:ao, o desemprégo etc.) que assolavam as sociedades loâ- vimento assi.naladas no decon·er do estudo, indica ou sugere que
/()
Tl
llrn dia ltat:pava coma qualquer outra localidade sa~ra da jase Clresistênda daqueles que se apegam à tra.diçiio. Quanta maior
de fl1t{.(!,-,.tlr,:a coma zuna serpente S·ai de sua pele, exibindo o lustra u nûmeno de alternativas de comportamento entre as quais o indi-
dr! tuna ~~slrntura social tôda nova e imaculada. viduo é livre de escolher, tanta maior a individualizaçao.
Urn dos perigos dêste conceito reside na possibilidade de se
aceitar coma. definitiva e irreversivel a seqüência que nurnerosos
:2 .- . 0 r;_rocesso .de desorganizaçâo cultural em si ·nâo apre- estudos, ~ncluindo os de Robert Redfield, parecern sugerir, isto
sen ta uuhc~.çoes relatwas ao rumo e ao conteUdo das mztdanças é, de que a mudança, onde quer que ocorra, procede inevitàvel-
qne se real~zam em determinadas jases hist6ricas da vida de unw mente de urna ordem social mais ou menas coletivista para uma
sociedade. Supondo que ~ma inovύiio acabe por ser incorpo- nova, caracterizada p.or um individualismo cada vez mais acen-
rada ao acervo cultural ex~stente, quais seriam os seus efeito'" sô- tuado. Que o processo encarado assim, adquire wn sabor român-
Ûre a estrutura social? 0 conflito se afigura coma situaçâo tran- tico (pois se ajigura coma "liberaçiio) do individuo de laço.s
s~lona, coma falha temporaria de contrôles sociais, cnjas hesi- sociais inibitivos) parece ser apenas urn dos produtos secundii-
taço~s. e ir:decisoes ja •nao pennitem o usa inequivoco de sançoes rios da reflexao sociol6gica. Na verdade, ·niio hii nada, na l6gica
traiùclonals. M.a:.s, uma vez supera.da, essa jase relativa;mente ou nos fatos, que justifique a inevitabilidade daquela seqüência.
amorfa (limitada, esta clara, aos setores da cultura em que ocorre Muito ao dp.ntrario, tantos sao os casas, no cenario social contern-
a . mw!ança) ten:Ie a ceder a algo qne ultrapassa a mera reorga- porâneo, de restriçêio espontânea ou coercitiva de alternativas de
mzaçao da socledade nos moldes anteriores, o retÔn~<o ao status comportamento a que os membros de determinadas sociedades se
quo. No "nivel" cultural se poele apontar a existência de novi- submetem, que tôda idéia de irreversibilidade precisa de ser aban-
dade.s --:- e;n. 1tai pava sao novas praticas religiosas, médicas, mer- danada. De outra lado, nern tôdas as sociedades "simples", "pri-
c~ntu, Jnridlcas etc. - mas que sucedeu no "nivel" social? A mitivas" on "preletradas" sâo necessàriamente coletivistas. A lite-
/lm de analisar alguns dos efeitos que as inovaçoes tiveram sôbre ratura etnografica abunda em exernplos de sociedades prirnitivas
~ estrutura social de ltaipava, lancei mao .de um conceito que, que opunham ou opoem um minima de restriçoes à açao ou ini-
JU•ntamente com ~ de desorganizaçâo e secularizaçao fôra usado ciativa individual. Nao menas preconcebida é a idéia de que
por Robert Redjleld nos seus estudos em lucatêi: individuali· ao individualismo esteja necessàriamente associada a desorgani-
zaçao. zaçâo social. N â10 parece haver du vida de que, ern jases de en-
Mesmo o exame mais superficial revela a maior especifici- fraquecimento ou colapso temporario de co·ntrôles sociais, a indi-
&:de dos processos .sociais abrangidos p.or êsse têrmo. A afirma- viduo encontre oportunidades unicas para enveredar par carni-
ç~o ~e que um:a.s.ocledacle ou cultura esta desorganizad'a apenas in. nhos ordinàriamente vedados, mas se a des,organizaçao traz con-
du:_a mcom,patlbdidades e antagonismos entre valores e home.ns, mas sigo, ao menas ternporàriamente, consideravel individualismo, êste,
nao s~ reporta aas caracteristicos do sistema socia,l anteri'pr ou por sua vez, nao esta necessàriamente associado à desorga.nizaçâo.
~os~e~w;r ~ essa jase. Todavia, dizer que uma. sociedade se esta Urna sociedade individualista nao deixa de ter estrutura, rneca-
L.ndwzduahzando equivale à asserçêio de que, em época anterior nismos de contrôle e sançoes. Ern outr-os tênnos, formas de com-
as ~nuda~ças, a estrutura social possuia traças "coletivistas". Es- portamento individualista podem ser tao costurneiras camo a seu
tana, pou, numa jase de tramsiçao em que os diversos grupos contrario, o coletivisrno, isto é, ambas as formas padern ser dis-
perdem algo cle sua capaciclade de agir em conjunto, .ou, inversa- tinguidas com'(J elementos estrntnrais sàmente em funçao da pre-
mente, em que o individuo encontra incentivos e ensejos de des- sença de certos mecanismos coercitivos que as definem e circuns-
pr~nd~~·,se de certas dependências grupais e de agir "par conta crevem. Ainda nao se divisaram estruturas duradouras que hou,.
prop':!.a · 0 aspecta mais 6bvio da individualizaçâo de Itaipava vessern abolido completamente tôdas as alternativas de compor·
se ve na transformaçao da tradicional economia de swbsistência tamento . De outra lado, é irnprovavel que a multiplicaçiio de
ern . e~o.nomia _comercial. A individualizaçao também pode ser alternativas perrnissiveis passa chegar a;o ponta de ramper tôda
rlefuuda em tennos de novas alternativas de açao que sz~rgern
1 rlnmnte a fase de desorganizaçiio e acabarn sendo aceitas contra
e qualquer convençao social. Falar de individualizaçiio sàmente
tem sentido a partir de determinadas sitzwçoes hist6ricas ern que

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ccrtos setores do sistema. nonna.tivo faziam coma que o individuo /o·nll~s que aindn se pwtegem contra o mau-olhado, acreditam em
fJudesse agir apenas em funçiio de designios grupais. " cui.w feita" e fazem promessas aas santos.
A i·ndividualizaçiio é relativa ainda num sentido diferente . A mudança cultural .niio encerra necessàriamente a secula-
0 moradl()r de 1taipava pode agora escolher entre wn sistema de ri:::açiio, seja porque a cultura nunca foi "sacra", seja porque ela
trabalho cujas frutos revertem em beneficia da familia extensa lraz no-vas formas de lidar cam o sobrenatural niio menas absor-
de qne é membro, e o trabalho assalariado em ztma localidade venles do que as a.nteriores. Nem tôdas as culturas prirnitivas
distante. À medida em que prefere a ultima alternativa, a familia on simples siiro "sacras". Freqüentemente, constitui motiva de sur·
extensa tende a enfraquecer .e transformar-se, mas niio ha duvida présa para o obser-vador, a pouca importâ.ncia que se liga ao so-
de que encontrara pela /rente limitaçôes do mercado de trabalho, brenatzaal, e a despreocz~paçiio com que os home.n s se dedica.m
assim camo as exigéncias teonol6gicas da divisiio dP trabalho a seus afazeres quotidiano,s sem se incomodar cam o que os séres
inere,ntes à economia industrial. Em outras palavras, a individna- do outra mundo1 possam pensar déles. ltaipava possuiu ou ainda
lizaçiio observada em uma estrutura tradicional resulta em novas possui, até certo ponta, caracteristicas de uma cultura sacra por-
alternativas cuja escolha e.nvolve o individuo em novas processos que foi, coma tmuas comzmidades da América Latina, herd'eira
de coletivizaçâo menas suscetiveis de contrôle do que os de âm- de tradiçôes religiosas medievais, modificaclas por crenças e pra-
bito comu•nal. Adianto esta observaçiio meramente à guisa de ticas indige-nas e talvez a/ricanas, mas sobretudo pelas adaptaçôes
zuna hip6tese a ser verificada futuramente. ou reinterpretaçoes sucessivas por que toda êsse ncervo passau
nas miios de pratica.ntes cuja imaginaçêio estava relativamente
livre dos entraves· da teologia oficial. T iio entremeada de religiêio
3 - Dos trés processos analisados aqui, a secularizaçiio é, e magia esta a cultura de 1taipa.va que mesrno a reorganizaçiio
indubitàvelmente, o mais especifico, pois em contraste cam os paula tina .d a 1greja Cat6lica, no niv el local, nêio pode deixar de
outras dois, v têrmo se refere a regras ou nonnas especificas, exercer influéncias secularizantes. Ai esta uma densa vegetaçiio
substantivas, relacionadas com o sobrenatz~ral, e ao papel que de ritos e crenças, frutos da heresia espontânea e multissecular
elas dese;npenham nos diversos setores da cultura. Afirmar que do povo, cuja erradicaçâo reduziria as esferas sacras da cultura
uma socLedade se esta secularizando equivale a dizer que pela e traria um desencantamento generalizado qzwnto à extensêio e
menas algumas de suas atividades se despre.ndem do ritual reli- intensidade das interferéncias sobrenaturais ,na vida humana.
gioso ou magico que ,outrora. as permeava. A secularizaciio de De outra lado, movimentos religiosos recentes sugerem que
Itaipava se afigura coma um dos muitos aspectas da des~rgani­ êste desencantamento, ge rada tanta par fôrças "mundanas" (a
zaçiio cultural e social. Par exemplo, danças e cantos conside- sabedoria humana) camo pela "ritualismo /rio e dista.nte" das es·
rados sac ros na zona rural de 1taipava, passam par divers ô es pro· truturas eclesiasticas tradicionais, es·ta sendo repelido pelas mas·
fanas entre a populaçiio z~rbana, constituindo assim um casa tipico sas que preferem o espiritismo e, sobretudo, o pentecostalismo,
de descontinuidade de valores tradicionais que divide os homens pois éstes prometem recuperar, mesmo no ambiente das javelas, o
em crentes. e descre.ntes. significado sacra dos eventas que o individuo experimenta em
Quai é a relaçiio entre individzwlizaçiio e secularizaçii,o? 0 contacta com o meio ambiente fisico e social.
hom~": d~ 1tai pava que perdeu a fé nas praticas propiciat6rias Essas observaçôes poderêio servir para que se coloquem o
trad~cwnms, pode escolher entre o credo protestante, o ateismo alcance e a relevância dos trés processos : desorganizaçêio, indi-
professa on simplesmente a indiferença. Em qualquer uma dessas vidualiza.çiïo e secularizaçiio, na. devida perspectiva metodol6gica.
hip6teses, suas atitudes diante do sobrenatural se secularizam, Nâo me iludo quanta às possibilidades que éles oferecem. Certa-
mesmo se escolhe o protestantismo, pois os fatos apresentados no mente, .niio constituem a unica, nem talvez a maneira mais ade-
presente estudo atestam que, no a/ii de livrar-se de "supersti- quada para estudar uma comunidade em mudança. Dar-me-ei par
çôes", os protestantes tendem a reconhecer zww linha de dernar- satisfeito se a reediçâo déste volume, cuja pnblicaçêio data de
r:aç/io definida entre o sagrado e o secular, assinando a êste uma 1947, oontribuir para incentivar a pesquisa monograjica no
t·sftmt de açiio consideràvelmente maior do qu e os niio-protes- Brasil.

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·, .. r

0 recém-chegado fica ordinàriamente em pé, à entrada do gabi-


atender a visitantes de seu proprio nivel social. Essas observa-
çôes nos levaram à suposiçâo de que bouvesse nâo apenas "grau-
dos e o povo que nâo manda em nada", mas possivelmente uma
camada in termediâria. Contudo a fraca ritualizaçao das relaçôes
sociais clificultava a definiçao do estrato intermediârio, cuja po·
siçao somente por meio de pacientes observaçôes do comporta·
mento manifesta pôde ser determinada.
CAPITULO II
A nossa hipotese relativa à existência de uma classe média
se confirmava à medida que conseguiamos familiarizar-nos com as
A ESTRUTURA SOCIAL atitudes assumidas por individuos que presumivelmente perten-
ciam a essa classe. A sua posiçâo econômica ou o cargo que
ocupam lhes confere, com relaçao à classe "inferior", uma supe·
l. As CLASSES SociAIS rioridade que se manifesta em atitudes reciprocas caracteristicas
de relaçôes sociais superordinativas. Bastava observar os contac-
A estratificaçêio social tos rotine:iros entre trabalhaclores braçais, arrendatârios, artifi-
ces, "biscateiros" e aquêles de que dependiam ou eventualmente
Perguntando a um morador de Itaipava sôbre as di- viessem a depender econômicamente: em geral, os dependentes
ferenças sociais na populaçâo local, recebemos esta respos- dispôem-se a receber, passivamente, orclens ou recomendaçôes das
pessoas de que dependem, mesmo se estas ocupam um status que
ta: "Aqui hâ so os graudos e o povo que nâo manda
evidentemente na-o alcança o dos "graudos". Muitas vêzes, dife-
em nada". Outras informaçoes nâo foram muito diferentes. Ver-
renças no vestuârio simbolizam a diferença de status. Por exem-
clade é que em vârias ocasiôes pudemos observar atitudes de res-
plo, os da classe inferior andam quase invariàvelmente descalços,
peito para com os chamados graudos que lhes caracterizavam
ao passo que os outros, mesmo os sitiantes, usam calçados.
bem o status social. Contactas rotineiros entre pessoas do "povo"
e as autoridades locais representavam oportunidades freqüentes Oportunidades para observar que de fato a comunidade reco-
para se ajuizar nâo somente das diferenças de status, mas tam- nhece a existência de um estrato intermediârio, oferecem os ban-
bém dos padrôes que orientavam as atitudes reciprocas. Obser- quetes formais . Os graudos, embora separados por partidos poli-
vaçôes reiteradas feitas no gabinete de trabalho do prefeito mu- ticos, costumam ocupar, nessas ocasiôes, mesas separadas, colo·
nicipal, revelaram três tipos de atitudes reciprocas. Pessoas hâ cadas no melhor lugar do recinto. Os demais convivas sentam-
que entram livremente no gabinete sendo recebidas sem delongas ·se às outras mesas, mas pessoas da classe inferior nunca sao
e sem nenhuma tentativa de guardar uma distância social que convidadas ou, quando hâ ingressos à venda, nâo os adquirem
possa indicar diferenças de classe. Entre êsses individuos figu- porque "nao se sentiriam à vontade". É evidente, portanto, que
ram nâo somente outras autoridades locais, mas também chefes a ordem observada nos proprios banquetes coïncide com a divi·
politicos da roça, por exemplo. Pessoas do "povo" estacionam sâo entre classe superior e classe média.
a certa distância do gabinete ou, às vêzes, se aproximam da Corn relaçao aos "graudos", os da classe média assumem,
porta aberta sem entrar. Conformam-se em esperar pacientemente caracteristicamente, uma atitude critica que muito contrasta com
fora do gabinete e nunca reclamam contra demoras. Todavia, o respeito passivo da classe inferior. Poucas conversas mantive-
nao raro aparecem individuos que o prefeito convida a aproxi- mos com pessoas da classe média que nao incluissem censuras
mar-se, interrompendo conversas iniciadas e, perguntando-lhes o ou elogios dirigidos a autoridades locais ou chefes pollticos e,
JnoLivo de sua vinda, procura solucionar imediatamente o caso. mais de uma vez, faziam ver, nessas criticas, ambiçoes fru stra-
1 .)(/
das ou o desejo de ascender socialmente .

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nete. De acôrdo com a categoria das pessoas com que esta tra. politicos ou "atuaçao" politica. Dos trinta, nove sao funcionii-
tando, o mesmo funcioniirio interrompe ou nao a audiência para rios publicos. Econômicamente, tod os os 30 sao tidos como reme-
Todavia, para consolidar essas observaçôes, necessiiria nm' diados, mas nenhum poderia ser classificado como abastado, em·
parecia a realizaçao de um trabalho suplementar. Os fatôres co· bora naturalmente haja entre êles diferenças consideriiveis de
mumente considerados responsiiveis pela estratificaçao de socie· nivel econômico.
clades em classes, como riqueza, profissao, religiao, antiguidade A aniilise dêsses dados é mais dificil do que pode parecer
de familia, côr, educaçao e diferenças "culturais", foram utili· à primeira vista. Nao hii, em caso algum, fator preponderante
zados num sentido meramente hipotético, pois tratava-se natural- que aponte alguma uniformidade nos critérios de classificaçao.
mente de descobrir quais os critérios que a propria comunidadé 0 quadro A apresenta os fatôres principais que poderiam ter
adotara para atribuir a seus membros niveis sociais diferentes. contribuido para a inclusao das 30 pessoas na classe su peri or:
Partindo dai, realizamos um trabalho de entrevista que visava situaçao econômica, familia, naturalidade, nacionalidade, profis·
confirmar ou infirmar as observaçôes anteriores sôbre a estra- sao e papel politico. A atividade dêsses individuos em associa·
tificaçao da comunidade local. Aplicamos uma série de quesitos çôes religiosas, recreativas, educacionais, caritativas etc. nao foi
a pessoas que supunhamos pertencessem a niveis sociais dife· levada em consideraçao porque o desenvolvimento dessas esfe·
rentes, a fim de saber os status que se atribuiam mùtuamente e ras é fraco demais para justificar-lhes o prestigio adquirido. lm·
a si pr6prias. Embora nao se pudesse afastar a possibilidade de pressionante é o elevado numero de combinaçôes diversas no
uma subdivisao, os resultados obtidos pelas entrevistas foram de quadro A. Poucas combinaçôes se repetem e o numero de repe-
molde a confirmar as observaçôes diretas feitas anteriorment€. tiçôes nao admite nenhuma conclusao quanto ao predominio de
A primeira parte dêsse trabalho era dedicada à classe supe· certos crité:rios. Comum a todos os cas os é a situacao econômica:
rior. Declaraçôes contradit6rias procuramos esclarecer por meio na classe superior nao hii pessoas cuja situaçao e~onom1ca possa
de novas interrogaçôes. Caso persistissem as duvidas, o indivi- ser qualificada cl'lmo preciiria. Ressalta aind.a outro ca:racteris-
duo era eliminado do quadro dos "graudos". De modo aniilogo tico que nos poderii servir de ponto de apoio: a ausência com·
procedemos corn a classe intermediaria. Talvez nao seja desne- pleta de certas profissôes de reduzida cotaçao na sociedade local.
cessiirio dizer que os casos duvidosos ou residuais jii constituiam Nenhum individuo é lavrador dependente, trabalhador braçal,
nucleos iniciais das classes intermediiiria e inferior. artifice, operiirio especializado, funcioniirio ou empregado subal-
terno. Entre os "graudos" de Itaipava hii sete fazendeiros, mas
Tencionamos classificar, dessa maneira, os 321 chefes de
nenhum sitiante. Tôdas as profissôes existentes no quadro A
familia ou moradores urbanos independentes cuja lista nos havia
representam posiçôes de mando ou possibilidades de exercer in-
si do fornecida pela Prefeitura de Itaipava ( 1).
fluência sôbre um numero variiivel de individuos dependentes:
devedores, fornecedores, agregados, empregados. Talvez seja ai
que se deva procurar a diferença de cotaçao entre fazendeiros e
A classe superior
sitiantes, pois os ultimos nao dispôem senao de reduzido numero
de agregados e, fr eqüentemente, o sitio é trabalhado apenas pela
Verificamos que dos 321, trinta ou 9,35% fazem par·
familia.
te da classe superior. Quinze representam nomes tra-
dicionais ligados à historia local, quinze sao pessoas vindas de 0 caso mais simples representam as autoridades locais. Pre-
fora, entre êles cinco estrangeiros ou brasileiros naturalizados e feito, juiz, delegado de policia, promotor publico, diretor do gru-
dois filhos de estrangeiros. Dez sao chefes politicos, vinte nao po escolar e vigiirio sao incluidos na classe superior, pela natu-
ocupam cargo nenhum nos partidos, mas 13 dêles têm interêsses reza do cargo que os investe de autoridade funcional. 0 pres-
tigio que se associa a certas profissôes liberais exp~ica o status
dos dois advogados do foro, do médico e, talvez, do dentista.
(1) Trate. -~e de um censo municipal feito para prop6sitol!l de ra.ciona.tnen-
Mais dificil era a avaliaçao do status dos farmacêuticos e tabe-
to de gêneras. liaes. A dois farmacêuticos se atribui, espontâneamente, o status

:w 39
QUADRO A firmou . Ambos os tabeliâes, por exemplo, pertencem a familias
"tradicionais". Um dos farm acêuticos a que se atribui uma das
Classe superior de Itaipava posiçoes mais elevadas na comunidade, é de ori gem estrangeira .
.. .. - 0 mesmo se verifica corn relaçâo a dois comerciantes, ambos de
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origem siria. É muito duvidoso que o fato de pertencer a uma
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ceu isolada durante muito tempo. Apesar do êxodo incessante,


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grande numero de troncos antigos continua até hoje. Poucas
familias "novas" entraram e possivelmente foi a falta de con·
1 x x x 1 ~ trastes sociais e culturais que evitou a valorizaçâo das familias
2
3
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1 2
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x 1 !
"antigas". Atualmente, as familias antigas perfazem grande par·
te da populaçâo local e nâo ha novas que lhes possam servir de
5 x x x x "pana de fundo". Em outras comunidades, o tradicionalismo de
6 x x x x 1 :
7 x x x x 4 familia associa-se ao latifûndio senhorial (2). Todavia, em Itai·
8 x x x x x 5
9 x x x x 4 pava niio ha nem havia latifundia cafeeiro ou açucareiro. A alti·
10 x x x x 4
11 x x x x 4 tude niio permitiu que se cultivasse café em escala apreciavel e
12 x x x x 4 a lavoura nunca se elevou muito acima do nivel de subsistência.
13 x x x x 4
14 x x x x x 5 Assim niio se acumularam grandes fortunas e as correntes imigra·
15 x x x x 4
16 x x x 3 t6rias nunca alcançaram ltaipava. Niio admira que, nessas con-
17 x x x x 4
18 x x x x 4 diçôes, as familias tradicionais estacionassem em um nive! cuja
19 x x x x 4 simplicidade nâo se compara ao esplendor atingido pela "aristo·
20 x x x x 4
21 x x x x 4 cracia" rural do Vale do Paraiba. Embora a consciência de anti·
22 x x x x x 5
23 x x x x 4 guidade continue viva e de vez em quan<l.o se ouçam referências
24 x x x x 4 à importância que tal ou qual familia teve no passado, niio se
25 x x x x 4
26 x x x x 4 observam atualmente atitudes de "orgulho" ou de exclusivismo ,
27 x x x x 4
28 ., x x x 4 associadas ao desprêzo do forasteiro ou do homem de origem
29 x x 3
30 x x x 3 ignorada. Ao contrario, a experiência de que a cotaçiio social
do forasteiro ( estrangeiro ou "brasileiro de fora") é inversa·
mente proporcional a seu numero, é valida também em ltai·
pava : poucos sâo os forasteiros; porém a ascensiio so cial de
de ':graudos", n_iio porém ao terceira, sem que fôsse possivel, a
quase todos êles nâo encontrou, ao que parece, obstaculos sérios.
começo, descobnr a raziio dessa avaliaçiio divergente. 0 mesmo
Cinco dessas familias imigradas foram incluidas na elite local.
se pode dizer dos dois tabeliiies aos quais se atribuem status
0 homem que dirigiu a politica de ltaipava durante cinqüenta
diferentes. Investigaçôes mais acuradas revelaram diferencas ana·
logas na c otaçâo social de comerciantes, capitalistas e f~zendei­
ros. A situaçiio econômica em nada contribuia para explicar es· (2) Nesse sentido , a sociedade de Tietê represe nta um ex emplo carn c -
teristico . U1na numerosa camada de e x -escravos e agregaclos co n.5titu l a
sas diferenças, pois era evidente a inferioridade econômica de base da pirâmide social sôbre a qual se realçam as fa n1lli ns trn dt cion ats .
alguns d êsses individuos quando comparados corn outras da classe "aristocrâticas" . Aos imigrantes italianos, cujas descendentes perfa :r.e m h o je
mais do que a m e t ade de tôda a p o pulaçâo, se atr !buia um st a.tus setne -
médi~. ?bservaçôes feitas em outras comunidades sugeriram que lhante a os clos ex-escravos. ..Italiano er a lixo aqui" , assc gu rnvn -nos um mo-
radar antigo. A asce nsao social dos italo-bras ile iros começou sàmente e m
n anl:lgmdade e o papel hist6rico da familia poderiam fornecer 1928 e, embora a situaçao tenha mud ado por compl e ta, o pre concetto e o
c lerncntos de explicaçiio. Mas também essa hip6tese nâo se con· exclusivismo de nâo poucas famili as "tradicionais " continuan1 até ho je.

41
u nos, er a baiano de côr. 0 a tu al prefeito nâo é itaipavense e o Parece··nos que essa analise justifica a conclusâo de que o
se u predecessor era de origem francesa. Um dos atuais chefes status supeTior é condicionado, nos casas em aprêç?, pela a~so­
poliLicos é sirio. Outra sirio e um farmacêutico de origem ita· ciaçao da atividade politica à profissiio de comerc1ante, caplta-
liana exercem consideravel influência nas campanhas eleito- lista ou fazendeiro.
rais. A ascensâo social do forasteiro é um fenômeno cuja fre· Re:::ta saber, no entanto, por que outras pessoas da comuni-
qüência esta em desproporçao obvia corn 0 numero de advenas. dade que exercem as mesmas profis&ôes nao procuram elevar o
Quanta às familias tradicionais, nao seria possivel considerar seu status pela participaçao na politica local. . As can;p~nhas
desproporcionalmente elevada a sua representaçao na classe supe· eleitorais corn suas solicitaçôes oferecem oportumdades face1s de
ri or (50%). Antes ao contrario: uma an alise dos nomes de alu- participaçao politica, sobretudo aos varejistas :e fazendeiros c~m
nos do grupo escolar demom;tra.ria que mais de 50% sâo porta- numerosos arrendatiirios e meeiros. Poder-se-1a pensar tambem
dores de nomes tradicionais. que relaçôes politicas fàcilmente levam à ampliaçâo ou solidif~­
Persiste, pois, o problema de composiçao da classe superior. caçâo das relaçôes comerciais. Observaçoes reite:adas nos e~sl·
Nem o status econômico, nem a antiguidade de familia, nem tam- naram que a participaçiio na politica local se ahgura a mmtos
pouco a profissiio siio fatôres que, isoladamente ou combinados, como arma de dois gumes. Moradores ha que apontam exemplos
explicam a inclusâo de certo numero de pessoas na classe supe· do passado: pessoas que enriqueceram pela ~olitica. ~as gerai-
rior. Esclarecido esta apenas o caso das autoridades locais, dos mente se lhes associa o estigma da desonest1dade. Sao lembra-
advogados e do médico, cujo status decorre diretamente do pres- dos c;m10 "ladrôes que começaram pobres e acabaTam. :icos~'·
tigio atribuido ao cargo ou à profissâo, independentemente de Os negociantes de Itaipava também sabem que a part1c1paçao
outras fatôres que porventura estej am associados àqueles. politica limita as possibilidades comerciais. Diante do ~antago­
nismo que separa os partidos, o "politico" niio pode ahmen_tar
A fim de compreender o status dos demais individuos é a esperança de conservar ou "conquistar" fre~eses d_o. part1do
precisa atentar para a relaçâo que existe, em todos os casas repre· contrario. Acresce a ameaça latente das revoluçoes pohhcas corn
sentados no quadro A, entre as profissôes de comerciante, capi- suas reminiscências ainda frescas de 1932. Foi nesta ocasiâo que
talista, fazendeiro, e as duas colunas atinentes às atividades po· alguns dos comerciantes locais politicamente :'comp~ometidos" v~­
liticas. Vê-se que sete comerciantes e capitalistas sao, ao mesmo ram suas lojas saqueadas. Essa ameaça contmua v1va na memo·
tempo, "chefes politicos". Trés outras sao "politicos" ou, em ria de muitos que acham pouco sedutora a idéia de "começar de
ouros têrmos, estâo interessados no desenvolvimento da poli- novo". De outra lado, ao comerciante novo, vindo de fora, a
tica local a ponto de prestar o seu concurso pessoa! a um dos politica poele afigurar-se coma trampolim bastante promissor. 0
partidos politicos, trazendo-lhe eleitores da pr6pria familia ou passado e mesmo 0 presente oferecem alguns exemplos dessa ca-
f:reguesia. Talvez nao sej a mero acaso sete individu os (entre tegoria.
clez) pertencerem a familias an ti gas, pois familia antiga significa,
Todavia, os depoimentos colhidos nâo deixaram ~uvida de
quase sempre, parentela grande e, portanto, um numero elevado
que, em gera!, o interêsse econômico é m6vel demas1adamente
de eleitores.
fraco para explicar a participaçâo politica de ~lguns. É cerJ:_o,
Entre os sete fazencleiros residentes na cidade, três exeroem no entanto, que é poderoso a ponto de determmar a abstenç,ao
profissôes liberais e nao se lhes pode aplicar, portanto, a ana- politica de outras. Parece que as atividades politicas conte~n
lise que estamos tentando. Dos quatro restantes, o numero 11 é elementos de auto-satisfaçao suficientemente fortes para atrau
poli ti co e membro de uma famllia tradicional; o nlimero 14 é precisamente aquelas pessoas que lhe.'i sabem apreciar as_ quali-
chefe politico e "capitalista" a mn tempo. Verificamos que essa dades inerentes de jôgo, ou, para repetir algumas expresso es re-
ùltima situaçâo condicionou um prestigio excepcional, tanta mais gistradas que gostam "d e mtngas
· · " , d e " go 1pes cl'~- ~u rJJiêsa".' ". dr
que o mesmo individuo pertence a mna clas familias mais anti- aTdis", e "manhas". Alguns preferem sofrer preJUIZO economJCO
gn5 c Tumificadas. 0 numero 18 é politico e membro de uma fa- e suportar as censuras da familia, a "larga: .da ~o litica". f:s tes
lllil.i a lracli cional; o m esmo se da corn o numero 24. "estâo viciaclos com a politica" ou a " poht1ca e cachaça para

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As desigualdades econômicas na classe média siio maiores
êles". Semelhantes observaçëies siio bastante expressivas para in- do que na classe superior, mas niio ha indjviduos reconhecida-
dicar algumas das qualidades pessoais do "politico". Muitos indi- mente pobres. Mesmo os arrendatarios, sitiantes, empr_e~ados e
viduos da classe média niio possuem essas qualidades e os cargos rnercadores de aves ou cereais dispëiem de algum pecuho, pro-
que poderiam conquistar niio lhes parecem compensadores em priedade im6vel ou ordenado suficientemente ~lto para equiparar
um mumc1p10 cuja renda anual nunca ultrapassou 150.000 0
seu estilo de :vida às condiçëies e expectatlvas de sua classe.
cruzeiros (até 1944). Ja assinalamos, no entanto, a existência, na classe média, de. al-
Niio existem, porém, linhas de demarcaçiio rigidas entre as gumas pessoas consideràvelmente mais abastadas do que mmtas
classes. A prova esta nos individuos ja mencionados que alguns da classe superior.
quiseram incluir na classe superior, ao passo que outros prefe- Profissao, riqueza relativa e interêsses politic?s de nao pou-
riam atribuir-lhes uma posiçiio mais baixa. Incluimo-los na clas- cos componentes dessa classe, fazem corn que a hnha de demar-
se média, mas dependera somente de sua atuaçiio politica se futu- caçâo, corn relaçao à classe superior, na~ possa ser traçad~ ~o~
ramente deverao ser incluidos na classe superior. exatidiio. Um estudo mais acurado levana talvez a uma diVISao
dêsse estrato em classe média "superior" e classe média "infe-
A classe média
rior". Em todo caso, as diferenças de nivel observadas na classe
N un ca ouvimos, nas nossas entrevistas, a men or referência média sao mais acentuadas do que aquelas que se percebem na
expressa à classe média. Somente pela observaçao do compor- classe inferior ou superior.
tamento dos moradores de ltaipava chegamos, como ja foi dito, Dos 93 individuos que compëiem o estrato intermediario, 38
à conclusao de que existia realmente um estrato intermediario. ou 30,10% sao portadores de nomes tradicionais (contra 50%
Êste se compëie de todos os moradores que estao em situa- na classe superior).
çao econômica mais ou men os desafogada; que assumem, nas
suas relaçëies corn autoridades locais, uma atitude de relativa de-
:senvoltura e cri ti ca; que vendem serviços ou utilidades de cota· A classe inferior
çao social relativamente elevada; que, graças a sua educaçao, po-
dem participar de atividades recreativas que exigem o dominio A camada inferior da sociedade de Itaipava caracte-
de certas regras da etiquêta urbana; cuja pos1çao econômico- riza-se, principalmente, pela ausência completa de um ope·
-profissional representa um "potencial politico" altamente apre- rariado industrial. Nao existe estabelecimento fabril no
ciado pelos partidos. municipio fato êsse que contribui para dar à classe inferior uma
93 individuos ou 28,97% dos 231 moradores classificados feiçao ac~ntuadamente rural. Entre os 198 c~efes. de fami~as e
pertencem à classe média. Ha entre êles 41 comerciantes ou pessoas independentes que compëiem a cl_asse mfenor da c1dade,
"capitalistas", 16 si ti antes, 12 funcionarios de categoria média; ha 62 lavradores (arrendatarios e meenos), 42 trabalhadores
10 artifices, 7 fazendeiros, 3 empregados, 2 arrendatarios, 1 fun- braçais, 41 artifices e opw1rios especializados, 1_2 ~u~cionarios
cionario de categoria mais elevada e 1 individuo que exerce pro- subalternos, 12 empregados, 5 negociantes e 24• 1ll01VIdUOS naO
fissao liberal. Para caracterizar a classe média é preciso dizer classificados. Essas 198 pessoas representam 61,68% dos mora-
que dos 93 individuos somente 17 nao têm posiçao politica defi- dores citadinos classificados. Os componentes da classe inferior
nida. A existência de 5 mulheres e 1 estrangeiro entre os 17 apo- siio considerados pobres. Nenhum dêles dispëie de r~cursos ou
liticos diminui mais ainda o significado dêsse nillnero. De 76 propriedade em escala ponderavel. Embor~ alguns deles, como
pessoas da classe média sabe-se que sao adeptos do Partido Re- certos empregados e artifices, vendam serv1ços bastante apr?c.ia-
publicano Paulista ou Partido Constitucionalista (3) e que, pro- dos pela sociedade local, êles nao conseguiram acumu_lar_ pecuhos
vàvelmente, continuarao leais aos velhos partidos. que os pusessem a salvo das oscilaçëies da v!da ~co~onuca local.
Essa depend ência lhes da uma posiçao de mfenondade que se
(3) Embora a campanha eleltoral de 1945 j a tivesse sido iniciada na èpo- nota nas atitudes que assumem em contacto com membros de ou-
ca cm que êsses dados foram colhidos, as denominaçôes partidàrias, anterio-

i ~""" a 1937, continuavam sendo usa das.


45

1
meeiro 0 milho ou feijao colhido. Usualmente compra a parte
l.r11 ~ clu " !:ics son<us. Muito dos artifices e operanos especializa. 0

du 11 di slin g ucm-se dos trabalhadores braçais apenas por uma espe·


que couhe ao meeiro, mas freqi.ient~mente ê~te lhe deve grande
t'inli;-:açiio de importância restrita. É o caso dos numerosos pe· parte da "meia", pois suas necess1dades nao se resume~. em
casa e comida e o patrao lhe adiantou despesas com vestuano e
dreiros, por exemplo, que em gerai nâo podem viver exclusiva-
IIJCnte de seu oficio numa cidacle onde se constr6i muito pouco. "extraordinàrios".
De mais a mais, suas habilidades técnicas nao se elevam muito Entre os sitiantes médios e pequenos nao é raro o meeiro
acirna do que é considerado rudimentar nessa profissao. clesposar a filha do patrao. Muitas vêzes, o trato abrange o con-
Muito mais do que 50% da classe inferior compôem-se, por- sentimento tacito de ambos quanto ao casamento, embora talvez
tanto, de trabalhadores braçais ocupados, na sua grande maio· o meeiro nem conheça sua futura mulher.
ria, no amanho da terra. Èles dependem, corn pouquissimas ex- Tanto arrendatario (4) como meeiro podem ser, ao mesmo
ceçôes, no exercicio de seu oficio ou atividade, de outros meru- tempo, "camaradas", sobretudo no periodo que m~deia en:re a
bras da mesma comunidade. Deixando de lado alguns poucos colheita do feijao e a do milho, quando o tempo e apr_ove1tado
funcionarios e empregados subalternos, poele-se dizer que as re- para reparos gerais na fazenda e nas cêrcas, para a hmpa de
laçôes econômicas que os associam a patrôes, empregadores ou pastos e o consêrto de caminhos. Nem sem~re o ~agregad~ en·
proprietarios, sâo relaçôes intracomunais, pois é desconhecido contra serviço na pr6pria fazenda, sendo mmtas vezes obngado
o absentismo em ltaipava. 0 numero elevado de arrendatarios a procura-lo em fazendas ou sitios vizinhos.
e meeiros torna necessario, no entanto, uma caracterizaçao su· Camo nao existe soluçao de continuidade entre "cidade" e
cinta das condiçôes sociais em que êsses homens vivem e tra· "roça" e as tendências de urbanizaçâo na~ a_nularam certos_caracte·
balham. risticos rurais da comunidade, as cond1çoes em que v1vem os
Meeiro e arrenclatario nao se acham em pé de igualdade arrendatarios e meeiros residentes na cidade, nao se distinguem
corn quem lhes "da a meia" ou terras "de arrenda". Sao rela- das condiçôes de vida daqueles que residem longe da sede do
çôes subordinativas de patrao corn agregado, sendo êste o têrmo municipio.
que substitui geralmente o de arrendatario. Êste mora na fazen· As relaçôes entre pessoas de classes sociais divers?s, disti_n-
da, tem casa de pau-a-pique, onde mora corn a familia. Paga guem·se geralmente pela ausência de traços que em mmtas soc1~·
exclusivamente em espécie: 10 cargueiros de milho por alqueire clades caracterizam a distância social entre senhores e subord1·
plantado e dois alqueires de feij ao por um alqueire de plan ti o. nad os patrôes e empregados, no bres e plebeus: a "arrogância"
É tal o grau de dependência que o arrendatario se transforma '
e o "orgulho" de um la do, e a "humilda cl e." e o ". s~VI"l"ISIDO " de
geralmente em "camarada" assumindo obrigaçôes relativas às la- outro lado. Na maioria das situaçôes da vida rotmeua, a classe
vouras do "patrao". Os cuidados que dispensa às roças do pa· média confunde-se de tal maneira corn a classe superior que seria
trao trazem, nao raro, prejuizo às pr6prias lavouras, dada a dificil discerni-las apenas pelas atitudes de seus mem~ros. Pes·
impossibilidade de cuidar simultâneamente de ambas. Acresce soas da classe inferior sao tratadas corn brandura e nao adotam
que nao poucos patrôes mostram, segundo fomos informados, nenhuma forma de comportamento que pudesse ser in_terpretada
"pouco respeito pelo direito dos agregados soltando o gado que coma servil:ismo. A atitude de pessoas de status mais elevado
lhes in vade os milharais". É digno de nota que êsses fatos rara- têm muitas vêzes um quê de paternalismo a que corresponde,
mente produzem conflitos, revolta ou abandono entre os agrega- do lado da classe inferior, um padrao de "respeito", acrescido
dos. Êstes sâo considerados "miseraveis" e "pobres", mas "bons" de rece10 , mêdo ou desconfiança quando o individuo corn que
e incapazes de reaçôes violentas. Ouvimos diversas vêzes que
"muitos agregados sao tao pobres que nao possuem sequer roupa (4) De uns cinco ou sete anos a esta part~, importante muctançn sc
e dinheiro para sair da zona". assinalou no tradicional sistema de arrenda. Surg1u o arrendatârio inctcp?n-
dente de terras e pastagens. Corn êle o trato nâo é "de bôca", mas cscnto.
0 meeiro é geralmente solteiro, recebendo casa, comida e ~le paga em dinheiro e mantém relaç5es estr~t~mer:te coordenatlvns corn o
rendeiro. A introduçâo dêsse ti po de arrendatano hga-se _à entrada de mi-
sementes do patrao. Êste lhe indica o terreno a ser cultivado neiros e à difusao da pecuària, pois as terras a rrendadas sao gernlmente pns-
e o mantém até "amontoar o milho" na roça. Depois reparte corn tagens.

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se estabelecem contactas, representa uma parcela do poder po·
litico. Parece digna de nota que o "respeito" impoe restriçoes
no comportamento, interditando, até certo ponta, a manifesta· 2. VrzrNHANÇA E MuTIRÂo
çao espontânea de juizos e de emoçoes. Na casa do médico, por
exemplo, ha, expostos nas paredes do corredor da entrada, alguns Formas de cooperaçiio vicinal
quadros cômicos que provocam a hilaridade, sobretudo de pes·
soas .d a classe inferior. Mas o respeito pelo local e seus mora· Ha uma série de atividades seculares e sacras, cuj a rea·
dores nâo lhes permite uma expansâo livre de sua hilaridade lizaçâo depende de cooperaçao vicinal. Ao lado de serviços
que se manifesta .apenas por meio de risadas abafadas e meio ocasionais que vizinhos imediatos se prestam rnùtuarnente,
disfarçadas. As atitudes que a classe inferior assume para com figuram acontecirnentos que afetam, mais profundamente, a
as autoridades, revelam uma boa dose de mêdo e desconfiança vida de individuos e familias e que, usualmente, exigem a
que integra o padrâo de respeito e talvez explique as atitudes assistência de um numero restrito de vizinhos. Casamentos e
restritivas. As autoridades representam, aos olhos da classe infe· partos, doenças e vel6rios, rezas, novenas e festas em gerai re~­
rior, um poder que emana das suas ligaçoes com poderes mais nem os mor·adores do bairro. Além dêsses acontecimentos, atr·
arnplos, incompreendidos e talvez incompreensiveis a uma classe nentes a relaçoes sociais entre membros da mesma familia ou
social que depende, muito mais do que as outras, de valores de familias diversas, existem outras, de carater ciclico, liga·
peculiares a uma cultura isolada e meramente local. Terernos dos ao cont1rôle do meio fisico. Aî figuram, par exemplo, ativi·
ainda oportunidade de analisar o sentimento de mêdo e descon· clades relacionadas cam a lavoura: a limpa e relimpa das roças
fiança que inspiram aos membros de classe inferior, contacto.s e pastagens, a construçâo e conservaçâo de caminhos e o barrea·
cam o "govêrno" e pessoas que o representem. "Govêrno" sig· mento da casa.
nifica-lhe um poder misterioso, maléfico e, par issa, temivel, de Os padroes de cooperaçâo vicinal sàlidamente arraigados na
cujo contacta se deve fugir. Dai, por exemplo, o pavor que têm cultura local de Itaipava obedecem, como alhures, às regras da
da convocaçâo para o serviço militar e da açâo policial. "0 reciprocidade social ( 5) . É du pla a expectativa de reciprocidade
maior valentâo se toma cordeiro quando vê um soldado da po· que se encontra à base da cooperaçâo vicinal. Em primeiro lu·
licia, afirmava-nos o delegado local. gar, os vizinhos prestam-se auxilio em casa de doença ou morte,
Determinadas condiçoes econômicas que serâo analisadas mas esperam também ser convidados para as festas domésticas
mais adiante, agem atualmente no sentido de solapar aos poucos que porventura venharn a realizar-se. Em segundo lugar, os mo-
radores acodem ao chamado dos vizinhos quando se trata de
os padrôes de paternalismo e respeito, reduzindo também o
limpar um milharal ou barrear uma casa, mas na expectativa
"mêdo" das autoridades. Na zona rural ja sâo freqüentes as refe·
tacita de que os vizinhos atendam corn a mesma solicitude.
rências a agregados "revoltados" que acusam os fazendeiros "àe
lhes tirar o ultimo trapo". Na cidade, os operarios, na terrni· No primeiro caso a retribuiçâo dos serviços prestados é
nologia de uma pessoa da classe superior, "estiio rnuito fidalgos". adiada (na terminologia de Thurnwald), pois entre os eventas
"tristes" e "alegres", os que exigem "sacrificios" e os outras
Corn êles "é precisa falar corn rnuito jeito, porque deixarn o tra·
que oferecem "regalias", medeiam intervalos consideraveis.
balbo por qualquer coisinha. Ha muita falta de braços e em
qualquer lugar arranjam serviço". Quanta ao mutirao (6) nâo se lhe notou ain~a a dupla _for·
ma de reciprocidade que o caracteriza: as comr_d~s e bebrd~s
:f:sses fatos podem ser interpretados coma indices de uma que 0 "dono do mutirao" oferece aas que o auxrham na reah-
consciência de classe em status nascendi, que provàvelmente leva·
ra a transformaçôes incisivas nas atuais relaçoes entre as classes
(5) Veja o estudo fundamental de Richard Thurnwald, "Gegenseltigkeit
sociais e, sobretudo, a uma reestruturaçâo <las pr6prias classes. im Aufbau und Funktionieren der Gesellungen und deren Institutionen", in
Reine und an!~ewandte Soziologie, Leipzig, 1936.
(6) Mutir~io, adjut6rio e juntamento sâo usados camo sinônimos na re-
giâo de !taipa va.

48 49
4
:t.llt.::ïo do trabalho coletivo, representam uma forma de recipro· Precedeu o mutirâo a mediçao das tarefas pelo "medidor".
c:idade inslantânea, ao passo que a retribuiçao dos serviços vici- A cacia individuo atribuiu-se uma tarefa que tinha a medida ha-
llllis C<'Jnslitui outTo exemplo de reciprocidade adiada. bituai de quatorze braças quadradas. Às sete boras todos esta·
Na cultura rural de Itaipava, o mutiriio é a forma basica de vam trabalhando, cada um na sua tarefa. Todavia, os individuos
cooperaçâo vicinal. Nao exagero na afirmaçao de que, sem essa que acabavam sua tarefa passavam a auxiliar os vizinhos mais
inslituiçao, a organizaçao social deixaria de existir na sua pre- proximos, de modo que pelas dez e meia havia três grupos de
sente forma. As lavouras basicas, milho e feijao, necessitam de trabalhadores além dos outros que continuavam isolados. Ao
duas limpas. Os sitiantes raramente dispoem de agregados em meio-dia interromperam o trabalho para almoçar e, à uma e
nùmeTO suficiente para a realizaçâo dêsses trabalhos. A exten- meia, todos se reuniram para terminar, em conjunto, a relimpa
sao dos milharais também nao permite que sejam carpidos pela do milharal. 0 trabalho todo estava concluido às quatro e meia.
propria familia. Dai o mutirao ser aceito por quase todos os Observamos varios dos grupos enquanto trabalhavam e no·
moradores rurais. Nos bairros, os lavradores costumam atender tarnos que todos manej av am a enxada ràpidamente e com a habi-
ao chamado dos vizinhos, esperando que êstes lhes reh·ibuam o tua! eficiência. Nao percebemos nenhuma diferença entre o mu-
serviço na proxima ocasiao. Excetuam-se apenas os inimigos pes- tirao e o trabalho rotineiro feito por cada um nas proprias ter-
soais, mas as inimizades, contanto que sejam numèricamente re- ras. Pelo contrario, parecia haver uma certa emulaçao. lndivi-
duzidas, nao impedem o fun cionamento da instituiçao. Sitiantes duos com fama de bons trabalhadores esforçavam-se visivelmente
e fazendeiros que dispoem de mao-de-obra, preferem mandar por terminar sua tarefa a fim de "empanar" os outros, como diziam.
agregados, mas êstes participam de tôdas as fases do mutiTao em Notava-se-lhes o prestigio que associavam ao trabalhador rapido
igualdade de condiçôes com os demais trabalhadores. Nao se e eficiente. 0 dono do mutirao nao "inspecionava" mas executa-
estabelece nenhuma distância social entre proprietarios e agrega· va sua tarefa como os demais. Quem nâo o conhecesse, dificil-
dos. A todos cabe a mesma tarefa e durante as refeiçoes e fol- mente o teria identificado como dirigente da emprêsa.
ganças todos se misturam indistintamente. As refeiçoes tomaram-se em casa do Sr. Nicolau. Antes de
Ha duas maneiTas de organizar o mutirâo. Segundo a corn· se iniciar o mutirao, todos receberam o habituai café com fari-
binaçâo feita, os homens formam uma ùnica fila e avançam tra- nha de milho. Almôço e jantar consistiam em arroz, feijao e
balhando lado a lado até alcançarem o fim da roça. Considera-se canjinha com carne de porco . A comida era farta e hem prepa-
mais eficiente o mutiriio par tare/a. Tivemos ensejo de assistir rada. Apos as refeiçoes todos tomaram caninha, mn gole apenas
a um mutirao por tarefa no dia 20 de janeiro de 194.5, no hairro depois do almôço, quantidades maiores depois do jantar. Em
do Guandu. 0 sitiante havia feito o convite com um mês de ante· gerai, o proprio mutirao é acompanhado de cantos alegres. Os
cedência. 36 homens atenderam ao chamado, nùmero êsse consi- "cantadores", em grupos de dois ou individualmente, "folgam"
derado pequeno pelo "dono" do mutirao. Tratava-se apenas de suas modas, desafiando-se e respondendo de pontos diversos da
uma relimpa de milharal, e êsse trabalho podia ser executado roça em que se realiza o mutirâo. Ao mutirao do dia 20 de ja-
pelos que vieTam, numa ùnica joruada. "Nos outros mutiroes neiro faltava essa nota alegre. Semanas antes um filho do
vêm a té 90 e mais pessoas", explicou-nos com certo orgulho o Sr. Nicolau e outro morador do bairro, vizinho e participe de
Sr. Nicolau. Percebia-se que no nûmero de participes se refletia mutiroes, haviam falecido. Teria sido considerada "falta de res-
o prestigio do dono. "Desta vez vieram so pessoas das redon· peito" a realizaçao das costumeiras folganças, sobretudo as mo-
dezas, os vizinhos." Esta explicaçao revelava um conceito de das de viol as e o baile à noite que constituem a esperada com-
vizinhança um tanto inesperado , pois descobrimos entre os par- pensaçao do esfôrço feito durante o dia.
ticipantes do mutirao nâo poucos que moravam a uma légua ou Alias, a preparaçao das comidas para algumas dezenas de
mais de distância. Parece que a rarefaçao demografica alaTga trabalhadores exige uma espécie de mutirâo doméstico de mu-
o conceito de vizinhança a ponto de abranger até moradores de lheres. Em casa do Sr. Nicolau algumas vizinhas começaram a
hainos vizinhos. lidar, cedo de manha, corn grandes tachos em que cozinhavam,
.')()
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no lerrei ro , sôbre fogos abertos, o arroz, o feijiio e a carne. A va mutiroes na sua fazenda. Achava que "nao fazem o serviço di-
(·lus larnbém cabia a distribuiçiio das comidas e a lavagem das reito" e por issa prefere "pagar camaradas". Acrescentou, no
lou ças no almôço e no jantar. Mas nenhuma das mulheres to- entanto, que niio convidava mais os vizinhos para o mutiriio "por
mava as refeiçoes em companhia dos homens. Também nao ha- causa das bebedeiras". Mas o velho Campos é metodista e con-
via mesa posta para êstes, mas, fiéis à pr6pria tradiçiio familiar, dena as bebidas alco6licas, principalmente a cachaça. Todos os
procuravam os lugares mais diversos, sem a menor formalidade membros da familia estiio convencidos de que "é pecado beber"
ou etiquêta de mesa. Acocorados alguns, de pé outros, sentados e afirmam abster-se do alcool. 0 velho condena particularmente
em bancos, mesas ou na ombreira da porta, ingeriam, servindo-se
os mutiroes convocados para "barrear casa" , pois camo todos,
de colheres ou garfos, grandes quantidades de comida. Ocupa-
nessa ocasi.'io, têm que lidar corn barro e agua, julgam salutar
vam todos os cômodos da casa, corn exceçiio dos quartas, e al-
o consu~o de consideraveis quantidades de caninha, durante e
guns grupos ficavam no terreiro durante as refeiçoes.
ap6s o trabalho.
Contnàriamente ao que sucede em outras regioes do Brasil,
pül!Cas duvidas ouvimos acêrca da eficiência do mutiriio. 0 ve- Verificamos que todos os protestantes de Itaipava siio consi-
lho Homero, um dos maiores fazendeiros de Itaipava, realiza mu- derados abstêmios. Embora a abstençiio de bebidas alco6licas
tiroes na sua propriedade, sobretudo para a limpa das pastagens. niio tenha levado ao desaparecimento do mutiriio nos bairros
Confirmou o que ja ouviramos de outras fontes, que o êxodo metodistas de Itaipava, o desprêzo que o velho Campos mani-
cada vez mais freqüente de agregados estava dando maior alento festava corn relaçiio ao mutiriio parecia tao estreitamente rela-
aos mutiroes. cionado às suas convicçoes religiosas que niio julgavamos des-
cabida a hip6tese de ser mera racionalizaçiio a sua afirmaçiio
A maior freqüência dos mutuoes e a assiduidade corn que
sôbre a "ineficiência" do mutiriio. Rodeado de muitos vizinhos
os moradores acodem ao chamado vicinal, representam uma ten-
tativa da comunidade para resolver dificuldades que lhe amea- cat6licos ao lado de metodistas, niio podia, camo em bairros de
populaça'o exclusivamente protestante, evitar o consuma de alcool
çam as pr6prias raizes .da existência. A experiência mostra que
o uso generalizado de miio-de-obra assalariada poele levar à de- nos mutiroes. A atitude do velho Campos e a de muitos outras
protestantes mostra;
sintegraçiio do mutiriio como instituiçiio social, mas os dois
sistemas de trabalho niio siio incompativeis, coma se vê no exem- l A associaçiio intima de elementos religiosos e econô-
plo de Itaipava. Um fazendeiro coma o velho Homero niio aco- micos no contexto da cultura local.
de pessoalmente ao mutiriio, mas, coma muitos outros, manda
alguns de seus empregados. Essa "substituiçiio" é considerada 2 - A influência dessa associaçiio sôbre a estrutura social,
normal e prova que ambos os padroes foram integrados na cultu- no sentido de alterar relaçoes vicinais basicas.
ra local. Niio ha duvida de que êsse fato da uma fôrça de resis- 3 - A desobediência a uma norma de comportamento tido
tência à estrutura social de Itaipava que outras sociedades rurais, coma fundamental para a cooperaçiio vicinal. Nesse sentido · a
baseadas exclusivamente no braço assalariado, niio possuem. atitude poele ser interpretada como indicio de desorganizaçiio
social.
Sintomas de desorganizaçiio do mut~riio 4 - A substituiçiio do regime tradicional de trabalho cole-
Niio faltam , porém, sintomas que tendem a desorganizar o tivo e a troca de serviços entre os moradores do bairro, pelo
mutiriio, implicando, ao mesmo tempo, numa individualizaçiio do trabalho assalariado. Nesse sentido, a mudança que a atitude do
regime de trabalho. Alguns dos nossos entrevistados discordavam fazendeiro acarretou pode ser interpretada coma individuali-
quanta à eficiência do mutÏJ;ao. 0 velho Olimpio de Campos, dono zaçiio.
de oitenta alqueires e afamado como "curioso" (7) , niio convoca-
Mais obvia, no entanto, a tendência para a desin tegraçiio do
(7) "Curioso" o povo chama a quem revela esp!rito inventivo e habl- mutirâo se tornou numa outra esfera. Pelo Codigo Municipal
lida de excepcionais.
de Itaipava, de 1893, tôdas as estradas municipais e vicinais
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moradores habituados à convocaçâo do mutuao pelas inspetores,
eram construidas e conservadas "de mâo comum" pelos mora-
dependiam repentinamente da inici~tiva pr6p:_ia. Per.n:aneciam
dores do ,b airro ou "vizinhos". Todo individuo que trabalhasse
na expectativa e, como o terreno ac1clentado nao per~rnt1a o en:-
"por suas mâ:os e1n serviço de roça" era obrigado a comparecer prêgo de veiculos de rodas, a conservaçâo dos can_nnhos ~arh­
aos mutiroes convocados pelos "inspetores de distrito de estradas culares raramente impunha trabalhos de monta. Ass1m exphca-se
e caminhos". Os fazendeiros deviam concorrer "corn um quarto
que os mutiroes "de estrada" se. tornavam cad~ ve~ ma,~s raros,
de seus trabalhadores nâo domiciliados". constituindo. atualmente, acontec1mentos excepc10nms. Os mo-
0 C6digo de Posturas do Municipio de Itaipava de 1929, radores preferem quebrar uma perna a conservar em born estado
substituiu o mutirâo obrigat6rio pela "taxa de viaçâo" de 15 os sens caminhos", nos di zia uma autoridade local. Essa frase,
mil-réis, "imposta a cada homem valido maior de 21 anos, resi- mas sobretudo os fatos, atestam o grau de individualizaçâo que
dente nas propriedades agricolas, quer sej a proprietario, arren- se observa nessa esfera, pois pràticamente toclo trabalho c~le­
datario, agregado ou camarada". tivo outrora executado em beneficia do bairro ou parte dele,
Corn o dinheiro arrecadado, a Câmara Municipal contratava dei~ou de ser realizado de maneira organizada.
trabalhadores para a conservaçâo das estradas municipais. Ha- As tendências de desorganizaçâo e individualizaçâo que aca-
via, contudo, a possibilidade de "remissâo" da taxa e, nessa bamos de apontar e que se distinguem, com . mai or nitidez ain da,
hip6tese, a taxa era substituida por dois dias de serviço de oito na violaçào do respeito (9) - base do s1stema de _terr~s em
horas cada um. 0 c6digo marcava os meses de abril e maio r.-omztm - nâo representam ainda uma quebra da sohdanedade
para a reconstruçâo e conservaçâo das estradas municipais. Os vicinal, embora a estejam enfraquecendo, como most_r~ o exe~­
trabalhos eram executados pelos "contribuintes que preferiam plo do bairro da Apariçâo (10) . Conflitos entr: _vlZlnhos s~o
fazer a remissâo da taxa pelo trabalho" e pelos trabalhadores geralmente acomodados pelos inspetores ~e quar~e~rao . Èstes sao
"contratados e pagos corn as quantias arrecadadas pela taxa de escolhidos entre os moradores locais ma1s prest1g10sos e nomea-
viaçâo" . A penas a construçâo das estradas particulares ficava dos por proposta do subdelegado e prefeito. A ,êl_es se c~~fia a
entregue a os proprietarios e interessados ( 8) . acomodaçâo dos conflitos corriqueiros. 0 preshg10 que P des-
0 c6digo de 1893 deu forma juridica a uma instituiçâo so· frutam co mo proprietarios e "homens de respeito", associado ao
cial que ja era tradiçâo e continuava intacta até 1929. 0 uso apoio moral que podem esperar do delegado . de policia, faz corn
de veiculos a motor, util ao desenvolvimento econômico do mu- que suas decisoes sejam geraln:ente reco~~ec1da:. As desavenças
nicipio, tornava necessaria a construçâo das estradas de acôrdo mais freqüentes ligam-se a que1madas e a mvasao das roças pelo
corn determinadas exigências técnicas. Foi surgindo, aos poucos, gado do vizinho.
um pequeno operariado municipal especializado em trabalhos Uma queimada feita sem o necessario cuidado prejudicou
dêsse gênero . Ao mesmo tempo, a articulaçâo administrativa, cada dez vizinhos cujas matas e invernadas se incencliaram. 0 autor
vez mais estreita, entre o govêrno municipal e os governos esta- da queimada recusou-se a pagar indenizaçâo, alegan~o, que seus
dual e federal, impunha obrigaçoes cada vez maiores e mais defi- haveres nao eram suficientes para compensar o preJUIZo. Ape-
nidas às câmaras municipais. Entre essas obrigaçoes figuravam sar da recusa nao houve processo e os vizinhos implicados fize-
a construçâo e conservaçâo de estradas que passaram a ser absor- ram um ajuste toleravel para todos, graças à _mediaçâo do ins-
vidas pela burocracia comunal. petor local. Êste e outras fatos mostram _a ca~ac1dade que a comu-
nidade desenvolveu em acomodar confhtos mternos.
0 c6digo de 1929 determinava que a "construçâo e conser-
vaçâo de estradas particulares ficavam entregues aos proprietarios Tivemos ensejo de observar ainda outra forma de coopera-
e interessados", mas nâo estabelecia nenhum modus faciendi. Os çâo vicinal. Um agregado tinha sarado de uma moléstia que o

(8) Atualmente a "taxa de viaçâo" continua sendo arrecadada sob a (9) Veja o capltulo sobre Sexo e Fam!lia.
dcnominaçâo de ''taxa de conservaçâo de estradas de rodagem" (22 mil !10) Veja a "'dcnùncia" , pag. 73.
cruzeiros em 1945) .

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ohrigara a ficar de cama durante quarenta dias. Para solver as frouxa em comparaçâo corn os "tempos antigos", a comunidade
<lividas que o tratamento dispendioso exigira, fêz promessa de continua impondo uma moral sexual que podera parecer austera
r calizar uma festa em homenagem a Sâo Benedito, com leilâo, quando posta em confronta corn os padrôes observados em Gu~­
moçambique e dança de Sâo Gonçalo . 0 resultado do leilâo re- pira ou Paracauba. A funçâo conservadora das regras morais
verteria em beneficia do convalescente. A festa realizou-se no de Itaipava é obvia, considerando-se que elas tendem:
dia 19 de julho de 1945, no terreiro da casa. Apareceram cêrca 1 - A afastar da comunidade as môças "mal faladas" às
de 130 pessoas do bairro trazendo carne de porco, queijo, pastéis, quais se atribuem deslizes sexuais. Geralmente, elas sâo "expul-
biscoitos, bebidas e frutas. 0 numero elevado de participantes sas" pela familia que age como "mâo forte" da comunidade. Sob
e a quantiDade de prendas oferecidas evidenciaram nâo somente a pressao da opiniao publica, poucas môças "caidas" se man-
a eficacia dêsse "ajutorio" vicinal, mas sobretudo o fato de se têm na cidade. Tôdas elas pertencem à classe inferior e algumas
tratar de um padrâo de "assistência social" sancionado pela comu- entre elas sâo consideradas "do corte", o que na giria local
nidade e praticado, segundo fomos informados, em ocasioes se- significa "dadas a aventuras amorosas em troca de presentes
melhantes.
ou dinheiro".
3. SEXO E FAMÎLIA 2 - A impedir que se estabeleça uma prostituiçao organi-
zada. As poucas meretrizes existentes, além de "clandestinas",
Pa.droes de aproximaçiio dos sexos e a escolha do cônjuge sao "desclassificadas"' quer dizer' abaixo do nivel ti do co mo
aceitavel pelos "rapazes de familia".
A aproximaçâo dos sexos obedece a uma série de regras que 3 - A perpetuar o status superior do home~, perdoand_o·
estabelecem restriçoes quanta ao circula de pessoas aceitaveis, -lhe os mesmos deslizes que invariàvelmente levam a condenaçao
à maneira de entabular relaçoes, ao local e à bora considerados das môças. Contanto que os escândalos de "defloramento" nao
proprios. A cidade é tâo pequena que constitui, pràticamente, se repitam, os homens se reabilitam, depois de ~lgum tempo,
um unico grupo de vizinhos. Todos se conhecem embora às vê- sendo readmitidos, como mostram alguns casos ocorndos na classe
zes se evitem por inimizade polîtica; mas entre os j ovens, depois superior, mesmo nos circulos de mais rigorosos principios morais.
de decorridos sete anos sem campanha eleitoral, pouco ou ne-
nhum rancor existe. 0 conhecimento reciproco que vern dos Um tanto diferente é a aproximaçao dos sexos na zona ru-
tempos do Grupo Escolar e dos folguedos infantis, facilita a ral. Os rap azes da roça sâo considerados "acanhados" pelos da
aproximaçâo. "No meu tempo", nos contou uma velha, "o namô- cidade. Tivemos ensejo de observar que a segregaçao dos sexos
ro se fazia por sinais, troca de flôres e por assobios". Agora, o na zona rural é mais acentuada do que na cidade. Mesmo em
passeio à noite da ensej o para troc ar olhares que normalmente festas. mulheres e homens conservam-se em grupos separados.
conduzem a conversas. Se nâo ha oposiçâo paterna, os namo- Rapa~es em idade de namorar exibem-se medindo su~s fôrças em
rados passeiam juntos, mas somente até as nove boras, nâo po· lutas improvisadas. Procuram assim requestar, coletivamente, as
dendo afastar-se do quadrilatero formado pelas ruas que incluem môças que se rnantêm afastadas olhando e rindo entre cochich_os.
o centro, pois "môça que desce outra rua, fica falada". Ocasio- Verificamos que êsse requestos coletivos se repetem corn relatlva
nalmente, vêem-se casais de namorados de mâos dadas ou senta- freqüência, dificultando aproximaçôes i~dividua~s. Toda:ia, estas
dos num banquinho junto à calçada. Os velhos escandalizam-se ocorrern, embora muitas pessoas da c1dade nao acreditem que
corn êsses "agarramentos", mas, em gerai, a opiniâo publica ja haja "casa:mentos por amor" na. roça. Nu~ca, poré:m, o _ra~az
perdeu a velha intransigência. dirige o pedido de casamento duetamente a moça . A etiqueta
Outrora, tais atitudes teriam sido inconcebiveis, pois o na- requer que faça um pedido formai ern forma de ca.rta end~r~­
môro das môças somente era tolerado dentro de casa, em pre· çada ao pai da môça. 0 padrao é ~xplici~o a po~,to de ex1g\~
sença dos membros da familia que nunca deixavam a sos os "papel de flôres", pois pa pel cornu rn e cons1deraclo pouco casa
noivos. Em qualquer visita que fizessem , as môças iam gerai- e a carta ficaria sem resposta. Depois de accito, o rapaz estube~
mente acompanhadas por um irmâo. Ainda que um tanto mais Ieee contac.to direto corn o futuro sogro. Parece curioso êsse

56 57
r
i

costume à vista de analfahetismo que predomina na zona rural, vistas realizadas corn pessoas de vanas classes sociais, verifi-
mas é justamente êsse fato que nos fornece a explicaçiio mais camos que a comunidade responsabiliza sobretudo o pai, da esp~­
plausivel do valor atrihuido ao pedido escrito. Niio ha duvida sa no caso de ser "infeliz" o matrimônio. Intimeras vezes ouvl·
de que noivo e sogro têm que recorrer ao auxilio de terceiros mos "que o pai da Fulana ou Beltrana dera a filha a m~u. ma~i­
que saibam redigir e ler uma carta, mas em qualquer hip6tese do" . 0 fa t o de se "dar" a filha reflete o grau de part1c1paçao
o documenta escrito valoriza o processo todo como tamhém as e contrôle que a comunidade espera dos pais, pelo menos. corn
pessoas envolvidas nêle. relaçâo às filhas. É à luz dessa expectativa que deve ser mter-
A julgar por depoimentos de velhos, a escolha do noivo ca- pretada a relutância corn que nâo poucas miies consentem ??
hia outrora aos pais. Contou-nos uma senhora idosa que seu casamento da filha. Uma informante casada relatou a hoshh-
avô fôra a Itaipava para aceitar o pedido de um rapaz que qui- dade corn que a pr6pria mâe rece~ia pedidos d.e casa~en;o de
sera casar-se corn uma de suas filhas. Por quaisquer cir~uns­ rapazes desejosos de contrair nupclaS corn as fllhas.. Nao :e-
tâncias de que j a nâo se lemhrava, o av ô acahou aceitando o nho filha para casar" era a resposta aspera, e s6 depo1s d~ mmta
pedido de outro rapaz, contra a expectativa da filha. Esta se hesitaçâo aceitava o pedido. Dona Carmela, _senhora _ 1dosa e
conformou, pois, comentou a velha, "vocês pensam que naquêle cabeça de uma das familias mais antigas de lta1pa~a, nao o~ulta
tempo havi a êste desrespeito de agora?" Um meio de evitar sua aversiio a eventuais casamentos de suas quatro f1~has so~;euas.
unioes que nâo fôssem satis.fat6rias do ponto de vista paterno, Estimula-lhes a "solteirice" dando mostras de rece10 de er:tre-
foi o casamento prematuro. As pessoas mais velhas ain!la lem- gar" as filhas a alguém que "nâo preste". As ~ôças niio se o~oe~
'hram um exemplo ocorrido em 1895, mais ou menos, quando ao casamento, mas acham dificil encontrar um ho;n mando ·
um rapaz de treze anos foi casado corn uma menina de onze. Nâo se Jhes notava sinal de rebeldia contra o controle materno.
Ainda no principio dêste século era comum os pais fazerem ar- Existem restriçoes matrimoniais relacionadas corn côr. Ge-
ranj os matrimoniais à reve lia dos filhos, ohrigando-os depois a ralmente ouve-se que "brancos devem casar ~om branc?s e pre-
sujeitar-se à escolha feita. Atualmente é improvavel um pai que- tos corn pretos". Corn referência à populaçao rural,_ e comum
rer casar a filha sem consultar-lhe a vontade. Ao contrario, ouvir a afirmaçâo de que "negra viuva pr?cura u~1~-se a ho:
em gerai estas dâo o primeiro passo pedindo aos pais que apro- mem branco mesmo que seja velho ou enfermo, reJeitando. a;e
vem a escolha pr6pria. Na cidade, o pedido de casamento é pre- pretos mais jovens e hem colocados". ~erda~e é que a opos1çao
cedido por uma fase de namôro geralmente tolerado e vigiado a casamentos mistos é menor na classe mfeno~ e entre_ ?s mora-
pelos pais. dores da roça. Mesmo assim, os casamentos mter-_rac1a1S. r~pre·
Afirma-se freqüentemente que hoje em dia nâo ha oposiçâo sentam a minoria das unioes que figuram no Reg1stro C1v1l de
paterna à escolha dos filhos. Nesse particular nâo notamos dife- Itaipava.
renças de classe. As familias "tradicionais" nâo se fecham a CASAMENTOS REALIZADOS ENTRE 1929 e 1944
casamentos com forasteiros, nâo se percehem atitudes de "orgu-
I -- Casamento intra-raciais:
lho" familiar, mas o fato de nâo haver muita oportunidade de 1 - Ambes os cônjuges brancos
749
11
conhecer fo.r asteiros torna comuns casamentos intracomunais, 2 - Ambos os cônjuges pretos 80
3 - Ambos os cônjuges pardos
geralmente entre membros de familias ja aparentadas. Na opi-
840
niâo do povo, algumas familias "tradicionais" costumam casar Total
s6 entre si. Nâo ha nenhuma prova, no entanto, de que essas 11 -- Casamehtos lnter-raciais: :J
1 - Homem branco corn mulher preta
51
tendências hom6gamas resultem de atitudes exclusivistas, pois em 2 - Homem branco corn mulher parda
1
3 - Homem prêto corn mulher branca
gerai o bornem " de fora" é preferido pelas môças. Associam-lhe 4 - Homem prêto corn mulher parda 11
U!l
a idéia de "hom partido", correspondendo assim ao desejo pa· 5 - Homem pardo corn mulher branca
1
6 - Homem pardo corn mulher preta
terno de que se deve "melhorar quando se escolhe alguém".
liS~
Total
A despeito da r elativa liherdade de escolha, o consenso pa- III - N iio declara dos .
24
terno continua desempenhando um pape! de relêvo. Nas entre- 1.029
Total

58 59
1'
f Vê-se que, sôbre um total de 1.029 casamentos registrados,
1!40 ou 81,1% se contrairam entre pessoas consideradas racial-
apenas pelo casamento chamado civil sâo ilegitimos e niio podem
receber o sacramento".
mente homogêneas e somente 165 ou 16% ocorreram entre indi-
A atitude de reserva ou de desconfiança que o homem da
viduos racialmente diversos. Casamentos entre pretos e 'b rancos
roça manifesta ante o poder estatal e seus representantes aparece
siio raros, pois, apenas 7 casos foram registrados. Se ha real·
também corn relaçâo ao casamento civil. De acôrdo corn o depoi·
mente um processo de branqueamento na populaçâo local êste mento de um juiz de paz, s6 uma "vantagem" do casamento ci-
s~ da pelas unioes de pardos corn pretos e brancos, pois a ~aio­ vil esta .sendo compreendida. É que o casado pode fugir ao ser·
na dos casamentos mistos é representada por aquêles que se viço militar. Assim explica-se que, na época da convocaçâo, muitos
deram entre brancos e pardos. 103 casamentos inter-raciais, per· j ovens se casam apressadamente para evitar o alistamento . Esta
fazendo 62,4% dessas unioes, se realizaram entre homens mesti· crescendo, no entanto, o numero de casais que apos o nascimento
ços ?u pretos e mulheres mais claras, fato êsse que talvez possa de dois ou mais filhos legalizam matrimônios "para garantir os
ser mterpretado como tendência, embora fraca, para a hiperga- filhos" ( 12).
mia masculin a (11) .
Na comunidade urbana rarissimos sâo os casos de ama5Ïa·
Entre os sirios de Itaipava nota-se uma tendência acentuada mento. Outrora, porém, ·e ram freqüentes, mesmo na classe supe·
para casamentos mistos, principalmente na segunda geraçâo. Al- rior. Verificamos que, ha 40 anos atras, seis pessoas da "elite
gumas vêzes tivemos ensejo de ouvir expressoes que evidencia- local" viviam ama&iadas sem que "alguém ligasse para êsse fato".
vam a antipatia que descendentes de sirios nutrem pelos casamen- Nâo sofre duvida que o padrâo atual é hem diverso, pois a rea·
tos corn sirios. Nem sempre, porém, os pais compartilham dêsses çâo da opiniâo publica traria conseqüências extremamente inde-
sentimentos, chegando alguns a opor-se enèrgicamente ao casa· sejaveis aos transgressores da norma social.
mento corn "brasileiros".
Diferente é a situaçâo na roça onde os amasiamentos sao
freqüentes, sobretudo entre os agregados.
Sançiio legal do casamemo Relaçoes sexuais pré-nupciais "corn môça de familia" sâo
relativamente raras. Quando sucedem na classe alta ou . média,
Na cidade, poucos sâo os casamentos que nâo sejam os pais procuram imediatamente legalizar a uniâo pelo casamento.
civis e religiosos a um tempo, mas na zona rural 0 ca- Na roça predomina a crença de que "môça que perd eu a virgin-
samento se limita geralmente à cerimônia religio&a. No mês dade vira r~ula-sem -cabeça depois da morte". Esta sançao sobre·
de março de 1944, por exemplo, houve 19 casamentos natural, associada à vigilância dos pais, age como poderoso fator
religioso& e apenas dois civis. Percebe-se nitidamente a exis- preventivo contra "abusos", mas nâo impede que, pelo meno_s
tência de dois padroes diversos de "legitimidade", um valido entre os agregados, o matrimônio tome, freqüentemente, uma fei·
no âmbito da civilizaçiio urbana de que Itaipava representa uma çâo pouco estavel, como veremos adiante.
au;o~tra, ~ ?utro, predominando na cultura rural. É pela ceri- Para a cerimônia religiosa muitos vêm da roça à cidade,
n:~ma rehgwsa que se legitimiza a uniâo matrimonial, na opi· principalmente quando se trata de familia de sitiantes. Pousam
mao do povo da roça. Alguns moradores, geralmente funcio- em casa de parentes ou amigos e dela dirigem·se à igreja em
nanos, i?sistem em que a Igreja contribui, indiretamente, para procissâo.
desacreditar o casamento civil difundindo a idéia de que "nâo A cerimônia realizada no dia 8 de janeiro de 1945 assis·
vale" e que "para efeito de batizado os filhos dos pais casados tiram 44 pessoas, das quais 26 homens e 18 mulheres. Os noivos
, ·,.-,. ·· : ·· r -F~

(12) Mui.tas vèzes alega-se o custo do casamento clvll como um dos prtn-
. (11) Se esta hip6tese fôr conflrmada por inve•tigaçoes po•teriores, te- cipais obstâculos ao incrementa das uniôes legalizadas. Pôsto que muitas
Jinmos _ a qut um resu1ta do contrario aos que fora rn colhidos até agora pois vêzes êsse ar gun1ento proceda, nao se deve esquecer que o cosamento re-
l~crnlmcntc .~ a ~ul,~ er que t~nde a casa r-se corn homens de statu s 'racial ligioso depende també m do p a gamento de uma esp6rtula. Em Itaipava, o
c.o corn~ sup~rl~r pe.la s<;>c1eda de. V eja , p. e. , Dona ld Pierson, "Ra a e
O q{n nlz~ ç<~o Soc1a ! , Socwlogw, vol. VU, n.o 3, J9q5, pag. 153. ç custo do casamento civil in1porta em 80 cruzeiros, a esp6rtu1a dada ao padre
é de 60 cru:zeiros.

61
erum brancos, entre os homens havia um prêto, 12 mulatos e
lB brancos; das mulheres duas eram mulatas, seis brancas e 0 A organizaçâo da familia
resto caboclas claras. Vinham todos em cotejo formando fila
de dois, à frente os noivos e logo atnis os padrinhos. A noiva Êsses fatos evidenciam a influência do princ1p10 consan-
usava vestido branco corn véu branco, o noivo terno comum de güîneo na organizaçiio da familia itaipavense. Apesar da com-
brim.. Noivos e padrinhos entraram pela frente da igreja, os petiçiio cada vez mais intensa do princîpio conjugal, niio regis-
demaJs pela porta lateral. Os homens estacionaram na nave lon- tramas nenhum caso de conflito, talvez porque ambos os côn-
ge do local da cerimônia, as mulheres mais à frente. Ent;ou 0 juges continuem emocionalmente presos a sua familia respec·
padre e todos foram chamados para perto da sacristia. Homens tiva e, talvez, porque as familias de ambos siio geralmente apa-
e mulheres permaneciam segregados, estas à direita e os homens rentadas, havendo, portanto, coincidência de parentesco consan-
à esquerda. Terminada a cerimônia, todos se dirigiram à casa güîneo e parentesco por afinidade.
dond: haviam partido para tomar alguma bebida, aguardente, As tendências patriarcais da comunidade ongmaram um pa-
cerve]a e guarana. Foi-nos dado observar que a noiva se dirigia draa de "recato" que limita a esfera de influência da mulher
aos presentes para receber os cumprimentos. Alias êsse costume casada ao Jar. Quando o marido recebe h6spedes, ela raramente
é considerado rustico e freqüentemente ridiculariz~do pelos mo- aparece e nas refeiçoes ela serve os convidados sem tomar lugar
radores urbanos. à mesa. Somente em festas de certa importância, a dona da casa
A recepçâo que os noivos da roça dâo na cidade te1mina figura à mesa, mas sempre em companhia de outras mulheres.
Percebe-se, no entanto, que êsse padrao esta sendo aos poucos
~àpidamente: Mas é comum continuar a festa na roça corn café,
modificado por mulheres da classe superior vindas de fora. Mes-
]antar e bali:. No cas? descrito, o casai ia residir na proprie-
mo quando o marido recebe visitas masculinas, as senhoras apa·
dade dos pms da esposa, mas em gerai nâo existe nenhuma
recem, sao apresentadas e participam da conversa, às vêzes corn
tendência que ?udesse. ser interpretada como matrilocal ou patri·
grande vivacidade, explicavel pela "monotonia do meio", como
lo~a_l. Se o pm do no1vo tem mais terra, vâo residir la, do con- elas dizem, raramente interrompida pelo aparecimento de foras-
:rar~o preferem a propriedade dos pais da noiva. l!:sse arranjo teiros do mesmo nivel social.
e feJto antes do casamento pelas familias interessadas. Às vêzes
o casai vai residir corn os pais de um ou de outro, porém é mai~ Observamos que as mulheres da roça gozam de maior auto-
nomia do que as da cidade.· Estas se vêem confinadas, em gerai,
comum a residência separada em terras cedidas pelo pai ou
sogro. ao âmbito doméstico. Aquelas, no entanto, podem dedicar-se a
atividades econômicas que lhes asseguram um grau de indepen-
Na cidade é comum os filhos casados morarem corn os pais dência relativamente elevado. As mulheres de sitiantes e fazen•
ou so~~os. Ger~lmente,_ as casas sâo amplas a ponto de compor- deiros criam aves e suînos, fazem farinha de milho no pilâo e
tar vanos casals. 0 fliho de D. Carmela, por exemplo, reside vendem o produto de seu trabalho. Dessa maneira, muitas con·
em casa do sogro. Ao amanhecer, porém, vai à casa da mâe onde seguem acumular um peciilio que o marido "respeita". Pergun-
toma banho e depois o café. Habitualmente o casai almoça sepa- tada, por um entrevistado nosso, se tinha juntado algum "dinhei-
rado, cada quai "em casa da mâe". rinho", uma senhora de meia idade respondeu que sim, mas que
havia "empatado tudo num negocinho". Êsses "negocinhos" con-
As mâ~s, sobretudo quando viuvas, apreciam que as filhas sistem em empréstimos a juros ou às vêzes mesmo em pequenas
casadas res1dam corn elas. A princîpio, o casai novo prefere transaçoes comerciais de carater especulativo. Muscates que per-
montar casa pr6pria, porém mais dia menos dia acaba morando correm os sitios, freqüentemente sao convidados, pelos donos,
n~ casa em que um dos dois passou a maior parte da vida. Toda- a entrar e perguntar à mulher se quer comprar alguma coisa,
VJa, ,rr:esm~. :esid~nc!as separadas nâo impedem que haja um pois nessus transaçoes o marido nao costuma interferir.
convJVlO d1ano e mtJmo devido, principalmente, à pouca distân-
cia que separa as casas. A procriaçiio é ainda considerada o fim precîpuo do matri-
mônio. A tradiçâo, provàvelmente idêntica à de muitas outras
62
63
i
f com unic.lud es brasilcirns, exige qut "se deve ter tantos filhos membros. Contudo, essa tend ência parece ter sida mais acen-
q lill li lus Deus der" e "que se nao se pu desse tê-los, nao se tuada no passado do que no presente, pois os entrevistados se
teria" . 0 emprêgo de meios anticoncepcionais e abortivos nilo é referiam, quase sempre, a casas ocorridos na geraçâo passada.
cumum, mas notamos que, mesmo na roça, ha muita curiosidade Muitas vêzes, a propria espôsa aceitava os filhos naturais do
d_e m?es de ~1eia idade que ou~iram falar de meios anticoncep- marido para cria-los camo se fô ssem seus. Na conversa, os entre-
etonms e deseJ a~ conhecê-los. N ao perdem ensej o de perguntar a vistados nâo traiam o menor constrangimento ao referir-se a
mul_heres forasteuas de que presumem que saibam algo a respeito. pessoas da propria familia. Assim, uma senhora mencionava os
Ass1m, mna mulher de côr vinda de Minas, mae de nove filhos, filhos naturais do proprio pai em presença da mae que acrescen-
clcsejava saber 0 que deveria fazer para nao ter mais filhos. tou: "Mas eu nâo criei êles" co mo se corn issa mostrasse grande
Diss.eram-lhe que os "médicos da cidade ensinavam camo fazer" alti vez.
e que "as enfermeiras sabiam também". Estava convencida de
Um fazendeiro remediado apresentou-nos uma mocinha, fi-
que algumas velhas da regiao conheciam chas "que nao deixam
ter mais filhos", mas "que nao querem ensinar, porque acham lha natural de um filho falecido corn uma mulata. Explicou o
que é pecado. Que se deve ter tantos quantos Deus manda". A casa sem a menor inibiçao, notando-se que na familia nao se
entrevistada revelava bastante mêdo de uma passive! "vingança" fazia a menor diferença entre essa mocinha e as demais filhas
de Deus e dos santos. Interrogada sôbre se o marido nao se e netas.
incomodaria se empregasse m eios anticoncepcionais, ela respon- Ouvimos também ter sida comum outrora entre as familias
dia que "êle até estaria de acôrdo, mas também nao conhecia o r emediadas aeeitar e criar crianças abandonadas. Muitas vêzes
segrêdo". davam-lhes nome e posiçao social, constituindo-os herdeiros de
. Nâo foi êste o umco casa observado, de modo que parece ben s.
JUsta a conclusâo de que a iniciativa, nesse particular, parte mais A funçao dêsses padroes de tolerância que, de modo algum,
da mulher do que do homem. A introduçao, na cultura local, for am completamente abandonados é obvia: preservando de me-
de meios anticoncepcionais depende, sobretudo, da possibilidade nosprêzo crianças naturais e seus pais, evitando-lhes as sançoes
de difusao de técnicas conhecidas na civilizaçâo urbana. Em- que em gerai a sociedade aplica a individuos de origem espu-
bora nâo faite receptividade e a mudança de atitudes ja tenha
ria ou desconhecida, a comunidade evita que se transformem em
começado, a comunidade nâo reage senâo através da "curiosi-
focos de desorganizaçao social.
dade" de alguns de seus membros. Vê-se também que a mudan-
ça de atitude nao se opera sem conflito com o padrâo tradicio- Na escolha dos padrinhos, os avos gozam de preferência.
nal que continua poderoso pela ameaça de sançoes sobrena- Quando na o se escolhe um parente, o compadrio obedece a inte-
turais. rêsses ou amizade. Geralmente, o marido escolhe o padrinho
0 conceito de legitimidade dos filhos segue o da legitimi- e a espôsa a madrinha, mas o pedido feito a uma pessoa casada
dade d? matri~ônio. Basta casar-se "no religioso" para o filho nao implica a escolha do outra cônjuge. Freqüentemente, pa-
se~ batizado. Este fato é decisivo, sobretudo quando nâo ha pro- drinho e madrinha sâo pessoas solteiras. Relaçoes compadrescas
pnedade capaz de justificar "por interêsse" o casamento civil e envolvem "muito respeito" reciproco. "Compadre nâo pode an-
a legitimaçâo dos filhos. Assim explica-se que, em 1934, 45% dar corn comadre. Quando junta assim casai de compadre, vira
de todos os nascimentos ocorridos em Itaipava foram ilegitimos, mula-sem-cabeça." Diziam-nos que, às vêzes, quando uma mu·
no senti do do Codigo Civil (13). lher casada se vê perseguida por um rapaz solteiro, convida-o
Filhos naturais nâo sao objeto de escarnio e raramente a para ser padrinho do filho. Êle nao pode deixar de aceitar e
familia do pai lhes nega o amparo concedido a seus proprios acabam ass:im os requestos amorosos. Seria a melhor maneira
de alijar-se da "perseguiçâo". Todavia, o povo lembra casos
em que a descoberta de relaçoes ilicitas entre a mulh cr c o com-
(13) A. de Almeida Junior, "A Ilegiti m idade no E s t ado de Sao Paulo",
Rev1sta do Arquivo Mtvnicipal, n.o 62, Sao Paulo, 1939, pâg. 155. padre, pela mari·do, "nâo tem dada briga".

64 5 65
N 1io é raro o compadrio "encobrir" o parentesco. Muitos A moral sexual de Itaipava se caracteriza por uma relativa
individuos principalmente na roça referem-se ao compadre sem austericlade quando comparada corn a do liloral ou das maiores
[n wr mençao de que se trata do proprio irmao. Nao dizem "meu cidades do Yale do Paraiba. Nunca ouvimos mexericos que
inniio" porém "meu compaclre", usando êste têrmo também em visassem casas de infidelidade conjugal atribuida a mulheres ca-
lugar do nome proprio quando se lhe dirigem diretamente. Pa- saclas ela cidade. 0 paclrao de recato e a vigilância exercida
rece, no entanto, que o compaclrio nao envolve muita interfe- pela familia e vizinhança obriga os homens casa?os dese)osos
de "aventuras amorosas" a procura-las em comumdades dlstan-
rência na educaçao dos afilhados. Pela menas nao nos foi dada
tes. 0 povo esta consciente do paclrâo moral proprio e costuma
observar casas concretos. Em casa de morte do afilhado, é o
confronta-lo corn o de certas comunidades vizinhas. Observaçoes
paclrinho ou a madrinha que se incumbe de "fazer o entêrro".
de menosprêzo sâo dirigidas, sobretudo, contra os moradores de
A despeito ela sançao sobrenatural que paira sôbre uniêies Paracaûba. "Paracaubano so presta pra fazer filho e beber ca-
entre compadre e comaclre e apesar de serem acerbamente cen- chaça", observou um tropeiro que semanalmente desce a Para-
suradas pela opiniao publica, apontam-se três casamentos entre caùba, "cada pelado dêsses tem dez a doze filhos e duas ou três
inclividuos compaclrados. A atitude de abstençao se estende tam- rn ulheres".
bém aos filhos do compadre com os quais nao é considerado Corn êsse padrao de austericlade relativa contrasta o padrao
i' licita contrair nupcias . moral dos agregados. Sâo corriqueiras as referências a "casais
Alias, a comunidade parece ser mais tolerante corn relaçao que se largam". Bailes realizados na roça levam, às vêzes, à sepa-
a casamentos entre certos parentes. Consente, por exemplo, em raçao de easais, passando cacla um a viver, maritalmente, corn
casamentos corn a irma da espôsa falecida . Êstes éasamentos sao outra pessoa. Particularmente curiosa é uma observaçao reite-
freqüentes na comuniclade local porque, na opiniao do povo, re- rada por diversos entrevistados, que a infidelidade da mulher e
presentam uma maneira de evitar duas sogras. Embora nao se o abandono do lar raramente originam conflitos. A unica rea-
trate de uma obrigaçao do viuvo, mas de mera escolha prefe- çao seria, às vêzes, uma queixa que o marido abandonado faria
rencial, o fato pode ser interpertado camo tendência para o so- ao compadr e. A aparente ausência de ciumes e a falta de reaçêies
rorato. violentas talvez provem a r elativa fraqueza de relaçêies afetivas
Geralmente, o viuvo contrai segundas nupcias corn uma môça entre os ca.sados.
solteira. Êsses casamentos soem ocorrer pouco tempo depois da Separaçao de casais ou abandono do lar por um ou outro
morte da primeira mulher. Antigamente, viuvos idosos davam cônjuge sao fatos raros nas familias da cidade. Atualmente apon-
preferência a môças muito j avens. Desde que as môças corne- tam-se dois cas os a penas nas classes média e superior. Jamais
çaram a ser ouvidas por ocasiao dos arr an j os matrimoniais, tais ouvimos, em nossas entrevistas, qualquer observaçao que pudesse
casas se tornaram mais raros. ser interpretada como tentativa de justificar a separaçao de
Casamentos entre tios e sobrinhos eram censurados pela opi- cas ms.
niao pûblica, mesmo antes de serem proibidos por lei. Atual- A educaçâü dos filhos é feita, na zona rural, quase exclusi-
rnente aponta-se um linico casa de um individuo a .viver amigado vamente pela participaçâo da criança na vida dos adultos. Ta-
corn a prôpria sobrinha. dos os fatôres do meio doméstico e vicinal contribuem para
Casas de incesto sao rarissimos, em contraste sobretudo corn transformar a criança, o mais depressa passive!, em adulto.
o litoral onde parecem ser freqüentes em algumas regiêies e ta le- Na roça, uma criança de seis ou sete anos ja colabora corn
radas pela opiniao publica (14). Em ltaipava apontam-se três os adultos acompanhando-os à r oça e imitando-lhes tôdas as téc-
casas, mas êstes incestuosos sao tidos coma "tarados" e irres- nicas de trabalho. A "hombridade" do menino é avaliacla pela
ponsaveis. capacidade de trabalho, portanto, pela desenvolvimento fisico. É

1 (14) Umas dessas regiôes é a praia do Sono, no municlpio de Paracaùba.


considerado "homem" quando se revela capaz de "tirar urna
tarefa" ou "meia tarefa" conforme a natureza do serv1ço. Nesta

67

1
i
época, que coïncide corn a puberdade, o rapaz pede a faca, sim-
holo material da "hombridade". A entrega da faca equivale a trando reeeptividad e sobretudo nas classes média e superior.
um rito de passagem; é a iniciaçao de meninos que nunca tive· As crianças dessas classes podem entregar-se aos folguedos ade-
ram outro ideal senao o de adotar os habitos que a sociedade quados à idade. Aprendem jogos na escola e praticam-nos na
associa ao bornem adulto. 0 pais nao fazem nada que possa rua, pois nao ha distâncias que lhes dificultem a associaçâo.
retardar a realizaça o <l êsse desejo. É aspecto comum um pai dar Através da escola sao postos em contacto com a literatw·a cha-
fogo a um filho de oito ou dez anos para acender o cigarro de macla infantil, cujos efeitos começam a se fazer sentir na men-
palha. Geralmente, nao se acredita que alimentos ou bebidas talidade das crianças de Itaipava. Acresce a aprendizagem de
consumidos por adultos possam ser prejudiciais ao desenvolvi- esportes estimulados igualmente pela escola e, mais ainda, pelo
mento fisico da cri an ça. As ma es costumam dar feij ao corn tor- radio. Influências de companheiros viajados ou internados em
resmo a crianças de poucos meses de idade, e o consumo <le escolas distantes completam êEse quadro que esta longe de repre·
cachaça nao é raro entre menores de pouca idade. Raramente sentar uma cultura infantil plenamente desenv olvida, mas sufi·
os p ais se queixam de filhos rebeldes, acham facil conserva-los ciente para criar distâncias culturais entre as crianças da cidade
no "hom caminho", mas quando a familia nâo dispôe de pro· e as do meio rural. A escola e os grupos de folguedos compe-
priedade, dificil se torna evitar a dispersâo dos filho s. Corn a tem, em escala crescente, com o meio doméstico, produzindo, aos
" mobili<lade espacial da populaçao (padrao aceito ha muito) e poucos, mudanças de concepçôes tradicionais de origem rural,
as distâncias consideraveis entre os bairros, as familias de agre- principalmente no que diz r espeito à higiene e a muitos valores
gados e pequenos sitiantes se desintegram fàcilmente. Em tais representat:ivos do meio social mais amplo.
condiçôes nao admira que muitos pais acusem os filhos e sobri- A situaçao dos filh os torna-se critica quando alcançam a
nhos de tê-los abandonado na velhice. ida de de escolher uma profissao. Ja fris amos a impossibilidade
A sociedade urbana apresenta um aspecto um tanto diverso. de distribuir o excedente demografico pelos campos de atividade
0 trabalho infantil esta limitado à classe inferior. Meninos entre· intracomunais. Para muitos o êxodo torna-se inevitavel e os
garn leite ou vendem hortaliças a domicilio, limpam quintais ou remanescentes dependem de pais e outros parentes dos quais
se encarregam de reca·d os ou outros serviços ocasionais. As me- herdam, geralmente, a propriedade e a profissao. 0 êxodo nao
ninas empregam-se em casas de familia como domésticas ou aju- pode deixar de produzir um enfraquecimento dos vinculos fami·
dam às maes na lavagem da roupa. É significativo que muitas liais e a permanência em Itaipava conduz, na maioria dos casos,
vêzes nao se "descobre" trabalho adequado para crianças. Mui- a uma posiçao de dependência que ja nao se afigura como dese-
to cedo estas se habiluam a viver pelas ruas subtraindo-se à vigi- j avel a muitos j ovens. Ha, portanto, du as tendências diametral-
lância paterna. tsse fato explica a diferença de atitude para mente opostas, nas relaçôes entre pais e filhos: uma centripeta
corn a escola: na roça muitos pais consideram a escola como agindo como fôrça de atraçao e absorçao individual e outra,
inutilidade, mas na cidade recorrem à escola para "prender a centrifuga e dispersiva, atenuada apenas pelo retôrno intermitente
criança porque a mae nao pode mais corn ela". Querem ma- dos membros de familias residentes fora de Itaipava. Festas e
tricular o filho antes de êle haver atingido à idad e minima exi- enterros reunem, freqüentemente, dezenas de parentes que deixa-
gida por lei. Nao sao raros os pais que autorizam os profes- ram ha muito a comunidade. Nao sao raros os que, ap6s anos
sôres a "surrar" os filhos em caso de rebeldia, fato êsse que de residência em Sao Paulo ou outros centros urbanos, voltam
parece incompativel corn a aversâo que os pais geralmente têm a Itaipava para ai fixar r esidência definitiva.
às interferências educaci onais de outrem.
0 êxodo nao se limita ao sexo masculino. Intimeras silo
A escola publica afigura-se como principal canal de infil-
as mô ças que se retiram de Itaipava para trabalhar em h\hrir;as
traçâo e difusao de element os da cultura juvenil ( 15), en con·
de Loreto, Taubaté, Guapira e Sao Paulo. Outras viio estmlnr,
(15) Para o conceito de cultura juvenil veja T alcott P arsons , "Age and formam-se em escolas normais e aceitam cargos qne as afastam,
Sex in the Social Structure of the Unite d States" , Ame1:-k an SocioZogîcaL Re- às vêzes definitivamente, de Itaipava. Mesmo entre as rr.manes-
view, vol. 7, n.o 5, outubr o de 1942, pags . 606 e segs .
cen tes esta-se acentuando a tendência para exerr.cr uma atividadc
68
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que lhes dê uma relativa autonomia econômica ou as subtraia, Cornu motivo da separaçao as maes alegam que "as meninas
por algumas horas do dia, ao convivio da familia. Numa das precisam dos cuidados da mae e nao podem ficar em pensao".
familias mais antigas, por exemplo, duas filhas solteiras sao
Nao seria possivel elucidar a estrutura da familia de !tai-
funcionarias publicas e outra é professôra da escola isolada, dis-
pava sem fazer mençao de dois fatos de certa relevância: a auto-
tante da cidade. Muitas môças solteiras sao costureiras e duas
ridade do irmiio. mais velho sôbre os demais irmâos e a dos
lojas possuem vendedoras. É inegavel que essa tendência cornu,
avos sôbre os ·netos. A familia de D. Carmela oferece um exem-
principalmente, o êxodo de mulheres solteiras, contribui para a
plo da primeira categoria, pois ela compartilha a direçao da
individualizaçâo (16) crescente da familia, pois os seus mem-
familia corn o filho mais velho. "Cornu poderia ter me arran-
brus masculinos e femininos, deixam de agir coletivamente cornu
jado sèzinha corn quatro môças?" D. Carmela tentou explicar
partes de um todo e passam a exercer, individualmente, ativi-
a posiçao do filho mais velho. Nao lhe parece suficiente sua
dades especializadas. A freqüência do êxodo pode ser avaliada
pelo quadro seguinte que se .r efere a nove familias tomadas ao autoridade de mae, nao tanto para se fazer respeitada pelas fi-
acaso, e tôdas ·elas pertencentes, corn uma exceçao apenas, a lhas, mas principalmente para lhes assegurar o respeito da comu-
estirpes "tradicionais" de Itaipava. Vê-se que uma média gerai nidade e a desforra por eventuais agravos que lhes poderiam
de 25,9% de seus membrus esta residindo fora de Itaipava. prejudicar o status de môças solteiras. As atitudes do filho mais
velho corn relaçao à mae e às irmas revelam que se integrou no
papel de chefe de familia, contribuindo êsse fato, sem duvida
NUmero de Percentagem alguma, para que nao se casasse.
1'-Jllmero de NUmero total componentes de
Familia geraçOes de componentes
consideradas co1nponentes
residindo fora
residindo fora D. Filomena, viuva idosa e membru de uma das familias
de Itaipava
de Itaipava mais antigas de Itaipava, queixava-se de que o respeito pelo ir-
............... 274 13~ 50,7 mao mais velho estivesse diminuindo. Achava que seus filhos
~
··· ········· ·· · 4 72 1~ 26,4 deviam respeitar o filho mais velho que lhes substitui o pai.
:l
4
·· · ······· ···· · " lU
Acrescentou que tinha uma filha mais velha do que aquêle filho.
.···· · ··· · ···· · · J 2U 20,U
. . . . . . . . . . ..
4
5 6 4:{!1 63 14,4
Dela nao exigia tanto respeito pelo irmao, mas afirmava zan-
.,
6 ............. . .
··· .· ....
·····..···
59 11 18,6
gar-se corn o desrespeito dos demais filhos. Ela mesma, caso
. ...·· .·
172 34 1~.7
8 ... 134 36 26,8
~ .......... 4 41 lU 24,4 tenha algo de sério a resolver, costuma consultar a irma mais
Total 1.217 316 25.~
velha, most:rando assim que a transmissao da autoridade paterna
nao esta necessàriamente ligada ao sexo e que, na hip6tese de
nao haver "filho homem", a filha mais velha é investida de
N as familias "tradicionais" ma es ou outros parentes acom- poderes equivalentes.
panham, muitas vêzes, as filhas que saem para estudar. É o que
verificamos corn relaçao a uma filha de D. Carmela. Ela alugou As nossas observaçoes revelaram a existência de um con-
uma casa em Guapira passando a residir ai em companhia da sensu gerai quanto às interferências dos av6s na educaçao dos
filha, enquanto o marido continua em Itaipava. 0 mesmo ocor· netos. Dada a convivência estreita de três geraçoes sob o mesmo
reu corn outra senhora da classe superior. Também ela deixou teto, a questao das relaçoes entre av6s e netos nao podia deixar
o marido e a casa aos cuidados da filha mais velha a fim de de surgir. Os pais nao se opoem a que os av6s exerçam influên-
morar corn a filha mais nova em Guapira. S6 depuis de se ter cia sôbre os netos. A distância de duas geraçoes, no entanto,
verificado o casamento desta filha, a mae voltou para Itaipava. e as mudanças que se fazem sentir na cultura local, produzem
choques freqüentes entre av6 5 e netos, pois êstes ja nao aceitam
os padroes de respeito e obediência de outrora. Nesses conflitos,
. . (16 ) Para o ~onceito de individualizaçâo empregaclo no presente estudo, os pais interferem para apaziguar os ânimos e manter o equilibrio
\·eJa Robert Redf1eld, The F o lk CultuTe of Yucatan, Chicago, 1941, pàg. 355
e passint. necessario à paz doméstica.

70 71
moda de viola (17) que caracteriza a situaçâo em um dos bair·
ros rurais mais antigos de Itaipava.
0 sistema de terras em comum

Na roça, os filhos de sitiantes e fazendeiros trabalham para a DENüNCIA


familia paterna até o casamento. Mas começaram a surgir tendên· 0 pobre do lavrador
Nosso Bairro da Apariçao
cias de relativa autonomia filial. Nao é raro o pai dar uma vaca que trabalha no pesado
tôda a vida foi gabado;
leiteira ao filho . Êste começa a fazer e vender queijo por conta é um bairro pequenino Com a falta do terreno
pr6pria, acumulando aos poucos um pecûlio que em alguns casas tem um grande povoado. cada vez mais sacrificado
Nao tem nenhum fazendeiro a, pouca lavoura que faz
atinge a algumas dezenas de milhares de cruzeiros. Ao filho casa· é pisapé de burro e gado.
do o pai "ajuda", cedendo-lhe um "lugar" nas terras de sua pro· mas cada um tem um bocado.
Todos sao proprietarios Pareo sarto o ano inteiro
priedade. A maneira de dividir as propriedades caracteriza a pro· ninguém mora de agregado. retira depois de cevado.
pria estrutura da familia rural. Predomina um sistema que a po·
pulaçao cham a terra em comum e que consiste no seguin te: o pai Os antigos m01·adores A gente vai avisa
viviam todos aliado; êles banca revoltado
avalia a propriedade em dinheiro e divide essa soma ficticia em prejuizo êles nao paga
partes iguais entre os filhos de ambos os sexos. A cada quinhao era um povo unido
deixa um pobre isolado;
e todos combinado.
correspO'ndem x alqueires nao medidos e cujas limites sao defini- Mas tinha bons conselheiro briga a gente num pode
dos "mais ou menos" por um acôrdo oral. Geralmente, os herdei- o causa é séria e compricado;
homens considerado; a gente vai para justïça
ros nao têm noçao exata da extensao de sua propriedade e enga- a convivência do povo e tem que ser processado.
nos que importam em cinco, dez ou mais alqueires (conforme a até hoje é falado.
extensao total da propriedade do testante) nao sao raros. Em se· Vou participar ao Prefeito,
De um certo tempo pra ca
guida os herdeiros "avançam" cada quai na parte que supoem vou comunica ao Delegado
esta tu do demudado; vou fala com o Juiz,
seja sua. É precisa, contudo, que haja uma norma reco· anarquia sôbre anarquia vo~1 ajusta um advogado
nhecida por todos e capaz de contê-los ao alcançarem as supostas nao tem nin.guém respeitado. pra manda uma vistoria;
divisas da propriedade. Essa norrna é conhecida sob o nome Os homens que têm dinheiro isto tem q1ie ser aprovado
tao ficando entusiasmado, que os chefe criador
de respeito. É o respeito que garante a posse da terra de modo nao respeitam nem as leis
a nao prejudicar os co-herdeiros. 0 individuo "respeitador" precisa ser fiscalizado.
do Govêrno do Estado.
"para" muito antes de haver atingido a divisa.
Os terreno é em comum Benedito Alves da Silva
0 sistema do respeito funcionou desde tempos imemona1s e nao tem ninguém separado; quem fala isto expricado,
em gerai continua funcionando satisfatoriamente na opiniao do tem quatro alqueire fecha oito sustenta no pé da letra
povo. Todavia, estao-se multiplicando os casas de "desrespeito" inda avança pra toda o lado. se algum dia fôr chamado;
Fazem cêrca de dois fio que a minha palavra vale
à propriedade alheia, em forma de litigios judiciais. Cada vez igt:al a um pape! registrado.
disse que tem pasto fechado ,
mais numerosos sao os casas de herdeiros acusados de avança- os terreno de cultura Vale no Rio vale em Sao Paulo
rem na propriedade de irmaos ou outros parentes. Apontam-se tà tudo em capim melado. no Brasil e todos Estado.
pessoas que, ap6s anos de ausência, encontram suas terras par·
cialmente ocupadas e cultivadas por irmâos, primas, sobrinhos,
·- d a festa no dia 14 de jnnairo
cunhados etc. Freqüentemente, solicita-se a interferência do juiz (17) 0 texto fo i tomado _po r ocastao . ~ u~ iro ~orridor cn1 Aparlç~\0.
que é chamado para garantir a passe ou reintegrar o individuo de 1945. 0 autor ela moda e u!n ~onheci~a~ ~ol~ao' sÔ funçbc.s rccrcGtiV:l:ï,
É precise acrescentar que o~ V!oleiros exe: ce . .- . bllca Todos os
na passe de suas terras. Nao sofre dûvida que a diminuiçao das m serven:1 tan1bém de mews de expressao da opmtao pu · .
ac~~tecime~tos ocorridos na comunidade constituen1 objeto cle moci<1s de vt~l~,
propriedades pela divisao crescente e, sobretudo, a sua valori- sao narra dos, ridicu1arizados, censura dos ou Iasti n1;:~dos . pcl?s vtolcirosi 1 ~~
tos em versos e cantados, sofrem um processo d_e. rltua~tz.a.çn o quccvif~nd~n~t'Ic
zaçao rapida nos ûltimos anos estimulam a violaçao da norma n-:.ais itnpressionantes, difundindo-lhes os comentanos critH.OS c ·•
tradicional do respeito . A "denuncia" que fazemos seguir é uma sejmn esquecidos ràpidamente.

73
72
Vê-se que, aos dois motivos mencionados, a moda acrescenta
um terceiro: a intensificaçâo das atividades pastoris que exigem Parentelas e nomes de familia
grandes extensoes de terra e estimulam o "avanço" em terra
alheia. Como os bairros rurais mais antigos, também a cidade é in-
tegrada por familias aparentadas em sua maioria. De 199 alunos
Tratando-se de um bairro antigo cujos moradores, na gran- do Grupo Escolar de Itaipava, 133 ou 66,83%. pertencem a 48
de maioria, sâo aparentados entre si, a violaçâo do respeito se "fraternidades" (20). Na ocasiâo em que reahz~m~s, trabalhos
esta tornando uma fonte de desorganizaçâo nâo s6 da familia, de Antropologia Fîsica, medimos um total de 296 mchv1duos. Ve-
mas da pr6pria comunidade local. De outro lado aparece a ten- rificamos que 127 ou 42,9<fo er am portadore~ .de ap~nas 17.. nome:
dência de prevenir ou acomodar conflitos que fàcilmente surgem considerados tradicionais. 0 nome de fam1ha mais frequente_ e
de tais litigios. "Brigii a gente num pode" é expressâo que ouvi- representado 33 vêzes, mn outro 27 vêzes. Levando em conta nao
mos muitas vêzes dos nossos entrevistados. É uma frase confir- s6 0 fato de se tratar de familias extremamente numerosas, m~s
mada pelo insignificante numero de crimes ocasionados por ainda 0 parentesco existente entre elas, chega-se a UJ?a noçao
disputas de terras. aproximada da complexidade das relaçôes que as assoc1am.
Se o respeito decerto traduz um sentimento de solidarie- A pouca extensâo da cidade nao poele ~ei~ar de contribuir
dade em que o interêsse (18) particular de cada membro da para que relaçôes vicinais e de parentesco co.mci~am, sendo. rela-
familia ou parentela permanece subordinado aos interêsses da tivamente dificil ajuizar-se do grau de sohdar_:edade motiv~da
familia ou grupo de parentes como todo, a invasâo de terras exclusivamente pelo parentesco. Geralmente, nao ~e. nota dde-
alheias é, sem duvida, um sintoma de individualizaçâo e desor- rença nas relaçôes entre par·e ntes mais remo~os e v_:z1~hos. Mas
ganizaçao social. A individualizaçâo manifesta-se nâo apenas por ocasiâo de acontecimentos de grande ImportanCia para a
pelo fato de a atuaçâo coletiva da familia estar cedendo à açâo comunidade. a morte de um de seus membros, por exemplo, as
particular de seus membros semi-independentes, mas pelo anta- familias ap~rentadas, embora remotamente ape~a_s, "guardam res-
gonismo evidente entre açao individual e interêsse familiar. E a peito", abst endo-se de ouvir radio OU de aSSIStH a festas, m.O~·
desorganizaçao se faz sentir através de um "decréscimo da in- trando assim uma solidariedade que ultrapassa a de m_eros VIZI·
fluência das regras sociais de comportamento existentes sôbre os
nhos.
membros individuais do grupo" (19). No nosso caso a regra
social que esta sendo desobedecida, é o respeito. Tudo indica Digna de mençâo é uma diferença ~~e se n~t~ q~anto. à
que os fatôres responsiiveis pela violaçâo da norma tradicional conservaçâo do nome da famîlia. Nas fam1has tradicionais, pnn-
continuarâo agindo agravando a desorganizaçâo até que o prin- cipalmente da cidade, o apêgo ao nome é muito acentuad?; Atual-
cipio atual venha a ser substituido pela mediçâo exata das ter- mente encontram-se ainda quase todos os nomes que la apare-
ras. Alias, alguns fazendeiros j ii man dar am dividir suas terras ceram nos documentos do século XVIII, como tivemos ensejo de
por agrimensores. Assim, o velho Homero que repartiu seus verificar nos arquivos da Câmara Municipal. _0 ~pêgo ao, nome
182 alqueires entre seus sete filhos e três filhas. Mandou fazer corresponde realmente à consciência da contmmdade e a m~­
uma planta em que foram traçadas as divisas exatas de cada m6ria que se tem dos antepassados, tanto que os ~embros, ma1s
quinhâo. "Se nâo fizesse isto, cada um iria roçar em viirios idosos dessas familias, geralmente, sabem reconstr':u sua. arvore
lugares ao mesmo tempo de modo que nâo se formariam pro- geneal6gica, pelo menos de quatro ou cinco geraçoes. Dif,er~nte
priedades contiguas." Alguns dos filhos casados jii ocuparam é no entanto a atitude de muitas familias das classes med1a e
sua parte usufruindo-a até que sobrevenha a morte do pai. i~ferior. Pou,ca importância ligam à perpetuaçâo de um cleter-
minado nome de familia. Substituem.no arbitràriamente ou mo·
(18)Para o conceilo de interêsse, ve.ia Ralph Linton, The Study of
Man, Nova !orque, 1936, pâgs. 422 e segs. (20) "Fraternidade" no sentido da Antropologia Fi sica : sé rie de incti-
(19)W. I. Thomas e F. Znaniecki. The Polish Peasant in Europe and
America, Nova !orque, 1918, vol. IV, pàg. 23. viduos descendentes do 1nesmo pai e da n1esma müe.

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74
dificurn-no por acréscimos que sao quase sempre apelidos dados
4.. Ass 0 c IA ç6 E s
pelo povo. A legislaçao atual dificulta essas modificaçoes, mas,
até lui pouco tempo, era comum um pai registrar o filh o sob
1
outro nome que o dêle. Aponta-se, por exemplo, o caso de um Partidos politicos
'
morador chamado Pereira Campos que registrou um filho seu
sob o nome de Rodrigues Alves. Tao grande era a influência
dos apelidos que seus portadores acabaram adotando-os e trans- ! A visao retrospectiva que os cidadaos mais idosos de Itaipa-
va têm da polîtica local, abrange três periodos distintos. Ao pri-
milindo-os aos descendentes. Os filhos de um morador alcunha-
de caça-ratos levaram o nome Cacinha incorporado ao nome de
j meiro êles proprios costumam chamar "o tempo da politica
brava" em que "se mandava matar". Dêsse primeiro perio-
familia. Outra pessoa da classe superior, coronel da guarda na- do existem apenas reminiscências meio apagadas que se ligam
cional, era leitor assiduo das obras de Ponson du Terrail. Tan- às lutas entre liberais e conservadores, no fim da fase imperial.
to contava aos vizinhos e parentes sôbre as aventuras de Rocam- 0 segundo periodo é completamente dominado pela figura de um
bole que lhe puseram êsse nome como apelido. Mas o apelido homem a que qualquer morador se refere em têrmos de reverên-
"pegou" e atualmente pode ser vista na Lipide do tfunulo de cia e gratidao. Clemente Pedroso, médico, natural de um dos
seu portador, no cemitério de Itaipava. Estados do Norte, chegou em 1877 a Itaipava a fim de curar-se
de uma afecçao pulmonar, segundo se acredita geralmente. Dois
Na classe inferior é freqüente o uso do prenome materno, fatos caracterizam sobretudo a ca.rreira politica dêsse homem:
mormente quando se trata de filhos naturais. Assim existem, êle era forasteiro e homem de côr. Mas nem a côr, nem o fato
por exemplo, um Augusto Rita (Augusto, filho de Rita), Paulo de nao pertencer a uma das familias poderosas do local impediu
Catarina (Paulo, filho de Catarina) e Theodora Riqueta (Theo- que alcançasse um prestigio excepcional na comunidade, pres-
dora, filho da Riqueta) etc. Algumas vêzes, êsses individuos tigio êsse que lhe .as::.egurou, por meio século quase, a posiçao
incorporaram êsses apelidos ao verdadeiro nome. de "chefe politico". Em 1886, Clemente Pedroso foi eleito presi-
Se é que essa diferença de atitude diante do nome tem aigu- dente da Câmara Municipal, em 1892 deputado federal e em
ma relaçao corn a estrutura da familia, somente esta nos parece 1913 senador.
cabivel: na classe superior existe algum sentimento de solida- 0 seu pape! nao se limitava à politica. Era o iinico médico
riedade corn os membros falecidos da familia, a classe inferior de tôda a regiao e a maneira de exercer .a profissao contribuiu
caracteriza-se pela ausência dêsse sentimento. Essa interpretacao para da.r-lhe um prestigio descomunal. Mantinha clinica gratuita
é confirmada pelo culto dos mortos encontrado nas classes .su- para os pobres, granjeando, aos poucos, a reputaçao de benfeitor
perior e média, e na ausência dêsse culto· na classe inferior, como e conselheiro da comunidacle. Poucas pessoas tomavam uma de-
em gerai entre os moradores rurais. cisao importante sem antes pedir conselho ao Dr. Clemente Pe-
clroso. Laços de compadrio e amizade pessoal o ligavarn a cen-
0 cemitério de Itaipava, que esta sendo usado desde 1850,
tenas de familias em todos os recantos do municipio. Esta forma
reflete hem essa diferença. Ha duas categorias de tiimulos com
de prestigio, baseado na reputaçao de honradez e caridade, lhe
poucos casos intermediarios: alguns tiimulos ri cos dos quais mui-
assegurava um eleitorado numeroso e leal com que fàcilmenle
tos fazem lembrar pequenos mausoléus e os demais, visiveis como
vencia quase tôdas as eleiçoes locais.
lugar de entêrro apenas devido às placas de ferro colocadas pela
administraçao do cemitério. A iiltima categoria representa urna 0 status. de Clemente Pedroso determinava a estabilidnde
maioria de talvez 80% de todos os tiimulos. Nenhum sinal, cruz da posiçâo do Partido Republicano e a monopolizaçao dos prin-
de madeira, lapide, coroa ou ramalhete de flôres se encontra cipais cargos por membros de certas familias ligadas ao partido
nesses tiimulos, revelando assim a ausência de um culto dos mor- dominante. A oligarquia local era constituida por três familias
tos comum na civilizaçao urbana. aparentadas entre si: os Beirao de Moura, os Caiado e os Fr a-
dique. Ricardo Beirao de Moura manteve-se na prcfcitura inter-

7(i 77
ruptnm enlc, graças, sobretudo, a sua amizade corn Clemente Pe- los e as familias Beirao de Moura e Caiado se afastaram dêle.
el ru so, dur ante 22 anos. A familia Caiado controlava as cole- Po.r algum tempo o coronel Ricardo voltou à prefeitura, mas a
torias e os Fradiques a secretaria da Câmara e a subprefeitura primeira eleiçao municipal fêz surgir à tona as mudanças dos
de Campos de Itaipava. Nessa época, a estrutura politica era anos anteriores. Corn a morte de Clemente Pedroso, ocorrida
nitidamente patrimonialista ( 21) . Arraigado nos traços do feu- em 1936, 0 velho grupo esta va definitivamente desfeito. J a nao
dalismo transplantados do Velho Mundo e, mais ainda, na escra- existia o monopolio das três familias antigas. Impotentes, estas
vocracia e relativa fraqueza da classe média, o patrimonialismo ti ver am que, assis tir à remoçao de varios parentes de cargos que
encontrava condiçôes propicias a sua perpetuaçao nas condiçôes ocupavam " tradicionalmente". Varios dos principais membros des-
oligarquicas da politica local. Pode-se admitir que a conserva- sas familias, entre êles o coronel Ricardo, acabaram deixando
çao de uma pessoa, por exemplo, no pôsto de prefeito municipal ltaipava.
durante mais de vinte anos e sem que a "oposiçao" disponha de
Corn o desaparecimento da oligarquia que dominou o muni-
meios para controlar-lhe a gestao, contribui para que o detento.r
cipio durante trinta anos, a comunidade esta acéfala. Nao faltam,
se considere "dono" do cargo, e a linha divis6ria entre esfera
po.rém, pessoas e grupos corn aspiraçôes à liderança politica. Os
publica e esfera privada, se existiu em tempos anteriores, tende
anos entre 1934 e 1937 caracterizam-se pela exacerbaçao das
a apagar-se cada vez mais. Em tais condiçôes, a extensao do
lutas politicas entre o Partido Republicano e o Partido Consti-
poder nao se limita à esfera publica, mas tende a considerar a
propriedade priva da e o campo profissional particular, se postos tucionalista. Nessa época, os competidores transformam-se em
a serviço de pessoas nao "leais" ao potentado local (segundo a adversarios que se hostilizam e se segregam. Nao ocorrem vio-
formula genuinamente patrimonialista), como esfera de contrôle lências, mas as armas precisam garantir a liberdade das eleiçôes
e possivel intervençao. Significativo nesse sentido é um fato que mumc1pais. Familias outrora ligadas por amizade e parentesco
se conta do prefeito Rica.rdo Beirao de Moura. Havia êle arren- nao se falam mais. As festas sao freqüentadas apenas por adep-
dado uma chacara de sua propriedade a um "forasteiro", vindo de tos de um dos dois partidos. Acompanham-se os funerais so-
um municipio vizinho. Um dia, o prefeito mandou um empregado mente se o defunto pertencia ao proprio partido, e na missa
apanhar uma cesta de figos na chacara arrendada. 0 arrenda- dominical os dois partidos ocupam lados diversos. Atualmente,
tario entregou os figos e, dias depois, apresentou a conta ao o povo lembra êsses anos corn mostras de indisfarçavel desagrado
prefeito. Enfurecido corn o procedimento do chacareiro, o coro- culpando "a politica" de haver provocado a desuniao da comu-
nel Beirao de Moura ameaçou-o de "expulsao", pois julgava-se nidade que antes era "muito unida".
corn direito às frutas da chacara arrendada. Dai em diante mul- Todavia, a queda da oligarquia pouco afetou o status do
tiplicaram-se os atritos e o "forasteiro" (brasileiro, alias) cedeu Partido Republicano. Apesar da sua derrota nas eleiçôes esta-
à pressao e deixou Itaipava. duais, êle continuava vitorioso na esfera municipal: o primeiro
A revoluçao de 1930 trouxe alteraçôes profundas à estrutura prefeito eleito pelo povo, depois de 1930, pertencia ao P. R. P.
politica de ltaipava. 0 prestigio do velho Clemente sofreu aba- Poder-se-ia dizer que a mudança foi meramente pessoa!, mas tal
afirmaçao careceria de base, pois Clemente Pedroso nao foi subs-
tituido por outro chefe politico. Nao havia ninguém cujo p res-
(21) Tipo de organizaçâo politica em que as relaçëes subordinativas sao
determinadas por dependência econômica e sentimentos tradicionais de leal- tigio se comparasse ao do velho lider. A estrutura intern a d o
dade e respeito que os governados revelam corn relaçao aos governantes.
Êstes disp6em dos recursos materiais, que lhes faculta m o exercicio do po- partido dominante alterou-se, nao somente pelo afastamento de
der camo se fôssem propriedade pessoa!. No Estado patrimonialista as re- algumas das principais familias da comunidade, mas sobretudo
laçôes polfticas sâo senhoriais, mas limitadas pelas imposiç6es da lei de re-
ciprocidade. Esta consiste na pre sta çâo de serviços dos governados aas go- por uma situaçao de equilibrio entre os pretendentes à sucessao
vernantes, e na prote çào qu e êstes oferecem aas "sllditos" . A origem do
regime patrimonialista deve ser procurada na descentralizaçâo do patriar- de Clemente Pedroso. Nenhum dêles era suficientemente for te
calismo doméstico d a famlli a -grande. Para o estudo do patrimonialismo para dominar os demais e o proprio partido. Ao contniri o, n
veja Max Weber, Wirtschatt und Gesel!schaft (Tübingen, 1926), vol. II, pags.
660 e segs. Também Emilio Willems, "Burocra cia e p a trimonia lismo , exem- posiçao relat ivamente fraca de cada um dêles fazi a corn que Lodos
plo de um conflito cultura l na organizaçâ:o politico-administrativa do Bra-
sil'", Administraçâo Pub!ica. ano 3. n.o 3. setembro de 1945. procurassem, continuamente, o apoio dos demais. Ês te apoio, no

78 79
rr ..------- ...... · ·
~-

( ~ nlanlo , equivnlia a mna espec1e de contrôle sôbre os que exer- através de todos os canais que normalmente se apresentam ao
cium um cargo. A ausência de um chefe corn grande prestigio membro de uma comunidade como a de Itaipava.
"junl:o ao govêrno" (companivel ao prestigio de Clemente Pe-
0 Partido Republicano sempre foi e continua sendo o par-
d rosu), a gia também co mo estimulo sôbre o parti do oposicio-
tido da classe superior. Sènnente seis dos trinta membros des-
ni sta que se valia de tôdas as supostas ou reais fraquezas dos
sa classe fazem parte do partido oposicionista e entre os
.funcionarios situacionistas para lhes mover campanha e exigir,
membros do Partido Republicano figuram, corn uma unica ex-
ami li. de, das autoridades estaduais 0 seu afastamento.
ceçâo, as autoridades locais. Essa distribuiçâo explica a pr.edo-
Esta é a situaçâo que tem perdurado até agora . Da reestru- minância do P. R. P. confirmada mais uma vez pela ultima elei-
turaçâo do partido resul tou uma espécie de liderança plu.ralista çâo (2 de dezembro de 1945) em que êsse partido, embora
corn chances igualmente distribuidas entre os diversos individuos sob denominaçâo diferente, obteve cêrca de 75 % de todos os
pretendentes a cargos cujo provimento esta condicionado à "po- votos.
litica".
A estabilidade da constelaçâo partidaria resistiu a oito anos
É inegavel que tai situaçâo, aliada a certas "inovaçoes admi- de ditadura. Como alhures, também em Itaipava essa fase fêz
nistrativas", conducentes a uma reduçâo da autonomia munici- desaparecer ou atenuar muitas inimizades. Embora persistissem
pal, diminuiu consideràvelmente as tendências patrimonialistas. i a reserva e desconfiança entre os antigos adversarios, rapazes e
t
À vista disso parece razoavel concluirmos que as mudanças nâo môças das familias mais atingidas pelas lutas partidarias "j a con-
foram apenas pessoais, mas sobretudo estruturais. versavam animadamente nos bail es" . J a se "retomavam as velhas
Nos juizos depreciativos que os dois partidos externam, um amizades" quando, em 1945, as atividades partidarias foram reen-
cetadas. Durante os oito anos de ditadura nâo se deixava de
corn relaçâo ao outro, encontra-se comumente a acusaçâo de que
falar em P. C. e P. R. P. A maioria de seus membros conti-
a facçâo adversaria esta sendo manejada por "elementos de fora"
nuava prêsa aos velhos compromissos, e embora a politica local
ou "estrangeiros sem expressâo no nosso meio". Verdade é que
nâo recomeçasse exatamente no ponto em que ela fôra parali-
em ambos os partidos ha "estrangeiros", tomando êste têrmo no 1 sada em 1937 (pois alguns morreram, outros envelheceram ou
senti do em que vulgarmente é empregado : pessoas nascidas fora sairam de Itaipava e uma nova geraçâo esta va aparecendo), nâo
do Brasil. Assim, um individuo nascido na Italia, outra vindo podia haver duvida da sobrevivência dos antigos quadros parti-
da F.rança corn vinte e poucos anos de idade e dois comerciantes darios. Nenhuma das novas denominaçoes de partido "pegou"
de origem siria participam da politica em posiçâo de destaque. em Itaipava.. Embora conhecendo a mudança, os politicos locais
Objetivamente encarada, esta participaçâo nâo é "interferência 1 continuavam falando em P. C. e P. R. P. Recomeçou a luta corn
de estrangeiros na politica local", mas a conseqüência direta de tôdas as tendências de desintegraçâo e segregaçâo, atingindo nas
mn a assimilaçâo completa ( em alguns ca sos) e quase completa vésperas da eleiçâo um grau de exacerbaçâo igual ao do tempo
( em outros) mas em todo caso suficiente para mn a identificaçâo anterior a 1937.
integral dos interêsses corn os da vida local. Um dêles, o brasi-
As denominaçoes dos partidos fazem supor a existência de
leiro naturalizado, foi eleito prefeito, continuando atualmente a
uma ligaçâo estreita corn a politica estadual e, por intermédio
desempenhar um pape! de importância no Partido Republicano.
desta, corn a politica nacional. Esta vinculaçâo, no entanto, é
Um dos dois sirios é chefe de fato da oposiçâo, gozando de um
meramente formai. P.roblemas politicos que ultrapassam o âm·
prestigio extraordinario, sobretudo ent.re os moradores da roça.
bito municipal, podem constituir assunto de conversa, mas nunca
0 outro comerciante sirio é membro do diret6rio do P. R. P. e
motivos de açâo politica. Esta é determinada exclusivamenle por
"cabo eleitoral" de grande influência.
interêsses loc ais. "Tôda luta politica gira em tôrno da prefei tura",
A ascensâo social dos poucos estrangeiros nâo se fêz exclu- declarou-nos um velho chefe local. "Nâo nos interessa qu cm
sivamente pelos partidos politicos como ja foi dito em paginas seja o candidato à presidência da Republica, nao nos interessa
i anteriores, mas seu status atual é reflexo de uma ascensâo !enta que êste OU aquêle ganhe as eJei çoes presiclcnciais j 0 q U t: 1105

l no 1 6
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r q tu :rr:nws ~ ev itar que aquela gente (a oposiçâo) se instale na os intermediarios entre os situacionistas locais e as autoridades
1 prdeitura", foram as palavras textuais de outro politico local,
IH>Jnt :nt Lastante informado que nâo deixava passar um dia se-
do Estado. Recorre-se, amiude, à mediaçâo do chefe de Gua-
pira e as "vantagens" conseguidas dessa maneira padern bene-
IJUt:r sem ler o Correio Paulistano e ouvir as noticias do ficiar o que a comunidade considera os seus interêsses. Assim,
rùd .io. A campanha eleitoral de 1945 forneceu mais um exem- o p.restigio dos Alba contribui indiretamente para consolidar o
plo dessa limitaçâo dos interêsses politicos, pois na primeira fase prestigio dos situacionistas locais e perpetuar a predominância
ela campanha os dois partidos chegaram a apoiar o mesmo can- do Partido Republicano local.
didato à presidência da Republica. Depois houve um trabalho É verdade que as lutas politicas exercem efeitos desintegran-
de coordenaçâo corn o P. S. D. e a U. D. N. e os dois grupos
tes sôbre a comunidade, tanta mais que ambos os grupos pro-
tomaram o rumo impôsto pela organizaçâo partidaria.
curam, constantemente, apoio fora da comunidade pa.r a combater
Ao lado dessa ligaçâo fonnal corn a politica nacional existe os "advers<irios". Toda via, as tendências de desintegraçâo e se-
uma outra, real, que associa os interêsses do partido dominante gregaçâo sâo compensadas de du as maneiras:
à politica de um chefe "regional" de Guapira. A subordinaçâo
de Itaipava a Guapira nâo é, pois, apenas ecol6gica e econômica, l - E.mbora a injuria e calunia sejam recursos corriquei-
mas também politica. Na divisâo tradicional do Vale do Paraiba ros na luta politica, os contendores nao usam de violências.
em "zonas" dominadas por "chef es" ( 22), Itaipava é conside- 2 - Nem todos os membros da comunidade tomam parte
rado "feudo" da familia Alba de Guapira. Êste vinculo é vital ativa na politica. Muitos sâo apenas "simpatizantes" dêste ou
para Itaipava, pois tâo reduzida é sua significaçâo eleito.ral, que daquele partido, mas respeitados por todos por sua tolerância.
1 precisa de um homem de "grande prestigio" para a defesa de
seus interêsses junto ao govêrno do Estado. Acresce a inexis-
Grande é também o numero dos indiferentes e êstes e suas fami-
lias têm urna funçao acomodaticia de inegavel importância. As
tência de uma personalidade da posiçâo de Clemente Pedroso
suas casas estâo abertas a pessoas de ambos os partidos. Êles
para torna.r mais importante a relaçâo corn os Alba. Ao mesmo
se vangloriam de "ter amigos no P. R. P. e no P. C.". As suas
tempo, o prestigio local do P. R. P. depende da obtençâo de van-
moradias representam terreno neutra em que os inimigos apren-
tagens a que a comunidade julga ter direito. "Pleitear" uma
dem moderaçao e mantêm contactas indiretos. Os indiferentes
Santa Casa, um empréstimo ou uma .e strada de rodagem repre-
constituem elos "intermediarios" numa corrente que de outra
senta sempre um "teste" para a qualidade dos dirigentes muni-
maneira nâ:o resistiria à tensâo das campanhas eleitorais.
cipais e êstes procuram o necessario apoio na influência dos
Alba.
Como em tôdas as comunidades, os partidos politicos exer- lgrejas e a.ssociaçôes religiosas
cem a funçâo primordial de peneirar os lideres locais, através
A organizaçao paroquial cat6lica. - A part1c1paçao efetiva
de complicados processos de competiçâo, conflito e acomodaçao.
dos fiéis nas atividades religiosas, de acô.rdo com a disciplina
Outra funçâo vital dos partidos é a de controlar os individuos,
eclesiastica da Igrej a Cat6lica, exige condiçôes pessoais e mate-
mormente os do partido- oposto, que ocupem cargos publicos na
riais que raramente existem nas regiôes rurais do Brasil. As pa-
administraçâo comunal. Além do mais, através dos partidos os
r6quias nao devem cobrir mna area muito extensa a ponto de
j ovens aprendem os padrôes politicos da cultura local.
to.rnar inteJrmitentes ou raros os contactas com o sacerdote que
0 "enfeudamento" do P. R. P. local aos Alba exerce, ao é o intermediario indispenséwel entre a divindade e os fiéis, pois
que parece, duas funçôes de inegavel importância. Os Alba sâo é o sacerdote que celebra o culto e administra os sacramentos.
É precisa que as par6quias estejam realmente providas e qu e haja
(22) Os resultados da e!eiçao presidencial de 1945 revelaram a deca. um templo em que o povo passa assistir às sagraclas ce.rimônias.
dência dêsse sistema de "zoneamento" e a instituiçâo de "chefes" que con- Além do mais, é imprescindivel a existência de nssociaçôes rcli-
trolam "sua" regHio "par cima" das autoridades constituidas, prestando con-
tas diretamente ao che:fe do govêrno estadual. giosas que integrem a Igreja na comunidacle exercendo um con-

B2 83
trôle eficiente sôbre os seus membros e transmitindo-lhes os va- tribuem talvez para explicar certa reserva ou mesmo descon·
Jores religiosos considerados indispensaveis a sua vida espiritual fiança que muitos moradores locais revelam com relaçao ao clero
e à perpetuaçao da propria Igreja. em gerai.
Quaisquer condiçôes que nao permitam a realizaçao dessas Intimeras vêzes percebemos nas nossas entrevistas que a po-
formas de associaçao sao consideradas insatisfatorias e indese- pulaçao local estabelece uma diferença entre "religiao" e "pa-
javeis. De fato , o municîpio de Itaipava é atualmente uma umca cire" ou entre "padre" e "igrej a". D. Carmela, membro de uma
P'aroquia dirigida por um sacerdote apenas, domiciliado na ci- das famîlias mais antigas e mais respeitadas de Itaipava, criti-
clade. A zona rural esta dividida em mais de vinte "capelas", cava um padre por haver eliminado uma das suas filhas do
muitas das quais ficam a quarenta e mais quilômetros de dis- côro da igreja. "0 padre nao pode expulsar ninguém da igre-
tância. Paroquias da extensao e densidade demografica de !tai- ja, observou ela. A igreja é do pava. Nos podemos expulsar
pava costumam ter, no Brasil meridional, dois ou três padres o padre, mas o padre nao pode expulsar ninguém. Minha filha
que dividem seu trabalho entre a sede e as diversas capelas. ajuda-o a ganhar dinheiro."
Vê-se, portanto, que as condiçôes locais sao mais desfavoraveis
Como a igreja, também as festas religiosas "sao do povo".
à Igrej a Catolica do que aquelas que padern ser consideradas
0 povo defende a tradiçiio contra a propria Igrej a e seus repre-
comuns, nesta parte do paîs. Na maioria dos distritos rurais
sentantes. 0 padre que tenciona modificar a tradiçao das festas
os contactas com o sacerdote sao raros ou mesmo rarîssimos.
é mal vista e suas intençôes sao consideradas interesseiras. A
Associaçôes religiosas com vida que corresponda aproximada-
tentativa de reduzir os aspectas das festas tidos como exagera-
mente às exigências da Igrej a, somente padern desenvolver-se na
damente "profanas" ou "pagaos" encontrou a resistência pas-
cidade. Na zona rural e~istem dois templos que rea lm ente me-
siva dos moradores locais, sobretudo do povo da roça, incapaz
recem êsse nome ( considerando as conotaçôes que entre nos
co mo é de separar aspectas "prof anos" e "religiosos". A Igrej a
usualmente se associam àquela palavra) : a igreja de Campos de cedeu e em 1945 a Festa do Divino foi comemorada, pela pri-
Itaipava e a capela de Sao ] osé, no bairro da Boa Vista. Na meira vez, depois de seis anos, de acôrdo com a tradiçao.
propria cidade houve uma reduçao consideravel do equipamento
material e pessoa! quando se compara a situaçao atual à do século Apesar dessa tensao entre povo e vigario, a vida religiosa
passado. Havia naquele tempo as seguintes igrejas: N. S. da ligada ao culto e ao dogma esta-se reconstituindo aos poucos.
Conceiçao (atual matriz), N. S. do Rosario dos Pretos, N. S. "Nao ha ateus em Itaipava. Todos sao crentes embora haja
da Lapa e N. S. dos Remédias. As duas ultimas foram demo- homens que nao aceitam os sacramentos da confissao e co-
lidas e a igreja de N. S. do Rosario, construîda em 1793, esta munhao."
fechada. A propria matriz ( edificada em 1731) é tao am pla Existem nove associaçôes religiosas e, coma alhures, elas
que os fiéis presentes à missa dominical mal lhe ocupam a me- obedecem ao princîpio de divisao dos paroquianos em grupos
tade do espaça disponîvel. unissexuais e bissexuais, em grupos de idade, em casados e sol-
Vista como associaçao de fiéis, a organizaçao paroquial é teiros, e em algumas é visîvel a estratificaçiio da populaçao em
relativamente frouxa. Na prop.ria cidade, a populaçao niio se classes soeiais. A combinaçao de varios dêsses critérios carac-
' - teriza pràticamente tôdas as associaçôes religiosas de Itaipava.
atribui muita "religiosidade" culpando geralmente os padres que
A Cruzada Eucarîstica é uma associaçao infantil bissexual. A
precederam 0 atual vigario, sobretudo 0 ultimo, "homem hom,
Pia Uniao das Filhas de Maria é unissexual e abrange somentc
mas estragado pelo meio". "No tempo dêle o povo ja nao pra-
mulheres solteiras, quase tôdas jovens. A Congregaçiio Mari ana
ticava religiao, nao confessava, nem comungava" e "nao havia
de S. Luîs Gonzaga é masculina e constituîda por j ovens soltei-
nem cinco pessoas assis tin do à rn issa". 0 casamento do padre
ros. 0 Apostolado da Oraçao do Sagrado Coraçao de J esus e
com uma môça da sociedade local constituiu novo choque para a Irmand~tde de Nossa Senhora das Dores siio associaçôes femi·
os fiéis. Esta e outras ocorrências associadas pela opiniao local ninas formadas, principalmente, por mulheres adultas e, na gran-
a certos vigarios e à pouca estabilidade de quase todos êles, con· de maioria, casadas. Ha duas associaçôes masculinas compostas,

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fT
i
1

1 qunse exclusivamente, de homens adultos e casados: a Irman·


clade do Santissimo Sacramento e a Irmandade de Sao Bene·
nfunero suficiente para "sair" à festa de Sao José, em 1945.
0 prôprio rei é "abusante" e falta aos compromissos. 0 mestre
dito. Nestas cluas associaçoes aparece o principio da estratifi. esta promovendo a sua substituiçao desempenhando a um tempo
caçao em classes sociais. A Irmandade do Santissimo Sacramento o papel de diretor, organizador e ensaiador.
rüio sènnente reune muitos nomes "tradicionais" cujos portado- Fato é que, localmente pelo menos, a lgreja Catôlica procura
res pertencem à classe superior ou média, mas estabelece tam- controlar as companhias de moçambique, usando-as como ba-
bém, nos seus estatutos, a condiçao de "idoneidade econômica luarte da tradiçao contra certas influências rotuladas no pul-
que permita socorrer aos encargos de irmao".
pito como "modernismo". 0 "modernismo" nada mais é senao
A maioria dos membros da Irmandade de Sao Benedito per· a existência e difusao de certos elementos da civilizaçao urbana
tence à classe inferior. Esta associaçao que é antiga {23) difun- que encontraram um ponto de apoio e foco de irradiaçao no
diu-se em quase tôda a iirea do municipio. Muitos de seus mem· unico clube de Itaipava. Para compensar a difusao de certos
bros fazem parte de companhias de moçambique chamado tam- padroes recrea ti vos {bailes, sobretudo), uma companhia de mo·
bém "dança de Sao Benedito". Essa associaçao entre a liman- çambique foi convidada pelo vigiirio para dançar na festa de
clade e as companhias de moçambique exige algumas observa· Sao Paulo, em 1945. Os moçambiqueiros hospedaram-se na casa
çoes suplementar-es. paroquial e exibiram-se, durante dois dias, nas ruas de Itaipava.
Os moçambiques foram introduzidos em Itaipava ha 15 anos É precisa dizer, que nessa e em outras ocasioes, o moçambique
mais ou menos, difundindo-se primeiro na zona rural e, depois, atraiu o povo muito mais do que as diversoes oferecidas pelo
na cidade onde atualmente existe uma companhia. 0 moçambi- clube.
queiro local assume a obrigaçao de associar-se à Irmandade de Nas associaçoes femininas, a divisao em classes socrars pa·
Sao Benedito, pois do contrario nao poderia "sair de moçamhi· rece menos acentuada, embora a Irmandade de Nossa Soohora
que". A admissao à lrmandade exige um juramento religioso e, das Dores seja mais pronunciadamente uma agremiaçao da classe
depois de prestado êsse compromisso, o moçambiqueiro "nao pode superior e média do que o Apostolado da Oraçao, jii pelo fato
falhar" as suas obrigaçoes de irmao e membro de uma compa· de uma parte das sôcias da ultima residir na roça.
nhia. Além do juramento religioso, o moçambiqueiro presta um
compromisso pessoal ao rei e aos mestres da sua companhia, acei· A ûnica associaçao religiosa bissexual para adultos é a
tando sua chefia e prometendo cumprimento fiel de suas ordens Associaçao de Sao José que abrange 275 membros de tôdas as
relativas aos ensaios e às saidas da companhia. classes sociais.

Na ordem hi eriirquica dos cargos seguem-se rei, general, Resta mencionar a lrmandade de Sao Vicente de Paula que
capitao-mestre e contramestre das companhias de moçambique. se propoe fins caritativos. Envia de vez em quando um menino
Cada quai tem seu papel determinado, mas geralmente as pes- para angariar donativos e corn o r esultado contribui para o sus·
soas que ocupam êsses lugares, agem como se tivessem autoridade tento de algumas familias pobres da cidade.
equivalente, pelo menos tôda vez que estao em jôgo os inte· Nao é fiicil ajuizar-se das funçoes exercidas pelas associa·
rêsses da companhia. Algumas dessas companhias estao em crise çoes religiosas de ltaipava. 0 observador é impressionado pelo
ou desagregaçao, t o.rn ando-se cada vez mais raras suas "saidas". contraste entre as funçoes atribuidas e as funçoes realmente de-
A da cidade, por exemplo, n iio conseguiu reunir membros em sempenhadas. De modo gerai, às associaçoes religiosas cabe inte·
gnir a Igreja, coma instituiçao, na vida da comunidade. Pelo
contrôle que as associaçoes se propoem exercer sôhre os seus
(23) Encontramos uma mençiio da Irmandade de Siio Benedito num
docum enta do ano d e 1852 . 0 mesmo docu1nento traz referências às Irman - membros e sôbre os fiéis em ger al, a lgrej a espera pôr em pni-
d ades do S. S . Sacramento e de N . S. das Dores. (Documentas qu e acom- tica certos principios ou impor obediência a determinadas nor-
p anham o discurso corn que o Ilustrissimo e Excelen tissimo Senhor D. José
Thomâs Nabuco d'Araûjo, Presidente da Pro vfncia de Sâo Paulo, abriu a mas como, por exemplo, o exercicio da caridade, eombate a
Assembléia Legislativa Provincial no dia J. o de 1naio de 1852. Sâo P au lo ,
rasz, pag. 9.! " seitas" e instituiçoes consideradas incompativeis corn os prin-

86 87
c1p10s cat6licos (maçon aria, Rotary Club), respeito ao ma tri· solteiras de uma familia "tradicional" nenhuma é filha de Ma-
mônio-sacramento, observância de pniticas religiosas como a con· ria. "Tôdas nos gostamos de dançar e assistimos aos bailes do
fissao, comunhâo e a oraçao em geral. Evidentemente, existe Clube", declarou uma delas. Prosseguiu contando que muitas
uma divisâo do trabalho entre as diversas associaçôes, procuran· môças freqüentaram o baile de Natal realizado pelo Clube. À
do cada quai controlar um determinado setor dirigindo-se, ao meia-noite foram à "missa do galo" e depois voltaram ao Clube
mesmo tempo, a um grupo limitado de paroquianos. A que pon· onde dançaram "até as 4 horas da madrugada". Fora de uma
to a lgreja consegue realmente articular·se corn a comunidade, "severa censura" do padre nada lhes aconteceu.
representa uma questao que dificilmente comporta uma resposta
:Ë.sses fatos revelam a aceitaçâo que certos elementos cultu-
generalizante. Algumas associaçôes sao recentes como, por exem· rais, condenados pela lgreja e a Pia Uniao, têm em muitas fami-
plo, a lrmandade do Santissimo Sacramento, fundada em 1944,
lias da cidade. Ressalta, pois, uma quebra de certos padrêies
ou a Cruzada Eucaristica. Outras sao mais antigas, mas é suma-
tradicionais de comportamento adotados ainda por uns e rejei-
mente duvidoso, pelo menos em alguns casos, que tenham exis-
tados por outros. Embora a desorganizaçâo social decorrente
tência real além da execuçâo de certas formalidades como elei-
dessa quebra de homogeneidade nâo houvesse produzido sinto·
çao de diretoria e arrecadaçâo de- taxas. Também os aspectas
mas mais graves, ela foi suficiente para dividir a geraçâo nova
quantitativos merecem alguma atençâo . Tomemos as duas asso-
e, indiretamente, também os adultos, em dois campos opostos no
ciaçôes basicas dentro da organizaçâo paroquial: a Congrega-
que se refere ao ajustamento de certos interêsses às normas esta·
çao Mariana e a Pia Uniao das Filhas de Maria. Basicas por·
belecidas pela lgrej a. Assim parece justificada a conclusao a
que elas cuidam da transmissao de valores religiosos funda·
que chegarnos : a Pia Uniâo exerce sua funçao de associaçao
mentais para a comunidade. É nelas que a geraçao nova aprende
religiosa apenas com relaçao a uma parte limitada da comuni-
a ajustar seus interêsses e suas aspiraçoes aos padrôes religiosos.
dade. É justamente essa limitaçâo, no entanto, que implica uma
Pelo menos é êste o objetivo que as duas associaçôes se pro-
funçao derivada, a de manter segregada uma parte da comuni·
pôem. A Cong.regaçâo Mariana conta atualmente 27 s6cios dos
dade, pela resistência oferecida à introduçao de elementos cultu-
quais doze a quinze freqüentam as reunioes semanais. :Ë.stes
rais considerados nocivos. É 6bvio que o Clube exerce, de fato, a
numeros sao reduzidos em uma comunidade que monta a mais
mesma funçao segregadora.
de 1.500 membros. A Pia Uniao tem 41 s6cias, numero igual-
mente pouco representativo. A praxe de anotar as faltas à missa Quanto à Congregaçâo Mariana, o reduzido numero de jo-
dominical permite certas conclusôes quanto ao zêlo religioso dos vens filiados a ela e a pouca importância que a sociedade mas-
me-mbros da Pia Uniâo; durante um determinado tempo, as 41 culina em gerai atribui à pratica de deveres religiosos precei-
jovens tiveram 245 comparecimentos e 260 faltas. É de notar tuados pela lgrej a, limitam sua funçâo integradora ain da mais
que, corn exceçâo de três membros, todos deram certo numero do que a da Pia Uniao.
de faltas.
À vista dêsses dados, parece duvidoso que as duas associa· A organizaçiio metodista. - 0 protestantismo foi introdu-
çôes desempenhem realmente a funçao que se propêiem: inte- ziclo em ltaipava no fim do século passado. Ninguém nos soube
grar a lg.reja na vida da comunidade. A duvida parece justi- inclicar a data exata, mas eram unânimes em afirmar que haviam
ficada quando se leva em conta que a luta contra o "modernismo" clecorrido "entre 50 e 60 anos desde entao". A nova religiao per-
tende cada vez mais a dividir a comunidade urbana em dois cam· maneceu limitada a duas areas do rnunicipio: o Jeric6 e o Cume,
pos opostos caracterizados pela adoçâo ou rejeiçâo de detenni- mas alguns mora.dores evangélicos encontram-se em outras
nados valores culturais. Aos membros da Pia Uniâo é vedada a bairros.
participaçâo nos bailes do Clube ou mesmo a entrada na sede. As A lgreja Metodista do Jeric6 conta 200 mcmbtos, mas nu
que freqiientam mn baile sao "ameaçadas de expulsao". Como a regiao tôda resiclem cêrca de 300 familias protestantes. A cscola
comunidade nâo usa sançêies para obrigar as jovens a fazerem dominical mantida pela comunidacle é freqüenlada por 1S5 nlu-
parte da Pia Uniâo "s6 entra quem quer". Das cinco filhas nos. A comunidade metodista do Cume é bem menor, mas foi

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l inutil o nosso esfôrço em precisar o numero de crentes. A escola
municipal cujo prédio serve de capela evangélica, registra uma
matricula de 40 crianças, quase tôdas evangélicas. No "culto"
/
versas. No Cume, um ou outro catolico "freqüenta o culto evan·
gélico".
As duas paroquias metodistas impressionam pela coesao de
realizado em 1 9 de julho de 1945, por um pregador vindo de
Sao Paulo, estiveram presentes 60 pessoas. Provàvelmente, a seus membros e pela obediência a certos padrôes de comporta-
comunidade do Cume nao representa mais de 60 ou 70 familias, mento impostos pela lgrej a. Os vendeiros protestantes nao ven-
numero êsse insuficiente para manter um ministro proprio. 0 dem alcool e nao se re aliz am bail es. No J erico, ' 1fora das ter-
~ini~t~o. do ~;rico ,~ostuma ir uma vez por mês ao Cume para ras ha uma venda onde ha pinga e jogatina, mas os protestantes
ar durgrr o culto e pregar o evangelho. Ambas as comuni- nao vao Iii". Apesar dêsse alto grau de integraçao das congre-
dades contribuem para o sustento do unico ministro da regiao. gaçôes, desenvolveu-se o culto doméstico, no Cume mais do que
no Jerico. À noite os membros de algumas familias reunem-se
Nao se conseguiu implantar o protestantismo na cidade, cm-
em tôrno da mesa para orar e cantar hinos em comum. Êste
bora atualmente haja alguns moradores protestantes, todos êles,
aspecto de uma familia tôda reunida em tôrno de uma mesa nao
como uma exceçao apenas, pessoas da classe inferior. As tenta-
ti_vas de fundar uma comunidade urbana encontraram a reaçao é comum na sociedade rural de ltaipava, pois mesmo em casa
vwlenta da populaçao catolica. Um dos fazendeiros do Cume, de sitiantes e fazendeiros remediados, nem as refeiçôes exercem
ho~:m, de sessenta anos aproximadamente, lembra três "perse-
êsse efeito associativo sôbre a familia. É verdade que todos almo·
gmçoes que os protestantes sofreram em ltaipava. A primeira çam e jantam ao mesmo tempo, mas cada quai procura um lugar
ocorreu ha perto de 35 anos e estève provàvelmente ligada à diferente: êste no umbral da porta, aquêle de cocoras no meio
?rimeira fase da difusao, pois o ministro Bevilacqua "tentou da cozinha, um terceiro agachado na plataforma do fogao, al-
rmplantar o evangelho, mas foi repelido corn pedradas". Em 1934 guns em pé e outros sentados em bancos, desprezando o ensejo
houve nova tentativa de evangelizaçao na cidade. "Somente a de sociabilidade que as refeiçôes oferecem ao grupo doméstico.
intervençao do delegado impediu que os evangélicos fôssem lin- Nao é so o trabalho que retine os protestantes, mas também as
chado~·". A terceira perseguiçao se cleu por ocasiao do Congresso
refeiçôes e sobretudo o culto doméstico e, nao raro, a obriga-
Eucanstrco de 1940. Também nessa ocasiao o ministro protes- çao que muitos pais sentem em alfabetizar os filhos quando niio
ha escola para desempenhar essa tarefa. A leitura da Biblia
tante estava tentando fundar uma comunidade urbana. A "casa
é essencial ao protestante, e dai o zêlo de instruir os filhos nas
de culto" dos metodistas foi apedrejada e o ministro corn difi-
primeiras letras. No bairro do Monjolo vimos um quadro-negro
culdade escapou à agressao da multidao. Evidentemente, tôdas
as perseguiçôes estiveram associadas a periodos de proselitismo numa casa de fazenda. 0 fazendeiro, por nao haver escola pro-
e:angélico, explicando êsse fato talvez a "culpa" que os cato- xima, reunia os dois filhos menores em idade escolar para lhes
hcos atribuem aos "ministros protestantes de fora". Os meto· transmitir conhecimentos rudimentares de leitura e escrita.
distas por sua vez acusam os padres catolicos de haverem "ins- Nao admira, pois, que os protestantes "se acham diferentes
tigado o povo". dos demais". No seu proprio conceito "o protestante nao da
trabalho, nao aborrece ninguém, nao briga e é muito zelaso".
Na roça, a introduçao e difusao do protestantismo se pro-
Dada a imensa importância que a religiao (nem sempre a "Igre-
cessaram, ao que conseguimos apurar, sem conflitos e violências,
ja") exerce na vida da saciedade local, a separaçaa do povo
talvez por se tratar, particularmente no caso do Jerico de um
b_a~rro distante, isolado e men os controlado pela lg;ej a Ca- em catolicos e protestantes é a fôrça segregadora mais natavel
aa lado da politica partidaria. É obvia que a base da acamo-
tohca.
daçao existente é a a·b stençaa de atitudes proseliticas. Nenhuma
Atualmenle, na zona rural os metodistas "vivem em paz" parte deixa de considerar a outra co mo ameaça latente: o cat6-
corn os catolicos. Nao verificamos sinais de proselitismo. Che- lico julga o pratestantismo coma fôrça estranha que invadiu a
gou-.s~ a um estado de reciproca tolerância e respeito, mesmo nas seara propria e precisaria de ser extirpado. Apesar de cxternar
farmhas em que ha membros que compartilham de religiôes di- atitudes de tolerância e de respeito à pessoa, o protestante des-

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:;
f

preza no intima a "ignorância" do cat6lico, seu culto aos san- informaçâo do livra, teve o cuidado de compara-la corn suas
tos, temendo ao mesmo tempo novas perseguiçoes. pr6prias experiências.
Na cidade, os poucos protestantes pertencem à classe infe-
rïor. Apenas um membro da classe superior é metodista. Nao 0 Clube
vai longe o tempo em que êle pregava na igrejinha do Cume
exercendo ocasionalmente as funçoes de ministro. Essas ocasioes, À classe superior da comunidade local pertencem pessoas
no entanto, foram-se tornando cada vez mais raras e atualmente vindas "de fora" e entre elas figuram principalmente as "auto-
os proprios paroquianos o consideram "um crente que esfriou", ridades" estaduais. Essas pessoas trouxeram padrôes de socia-
que "trocou Cristo pelas posiçoes terrenas". Na cidade, a classe bilidade reereativa que desejavam implantar ou difundir no meio
local, quer para tornar o meio menas "acanhado" ou "mono·
superior é cat6lica e freqüenta a missa "chique", às 10 horas.
lono", quer para conquistar simpatias e consolidar o seu pres·
Os protestantes sao "olhados de lado". No Cume e no J eric6
tigio entre as familias mais "progressistas" da terra. Providas
no entanto, a situaçao é diferente: ai os protestantes formam
de experiências mais amplas, adquiridas em centras urbanos maio-
a classe superior de fazendeiros e sitiantes remediados e os cat6- res, nao poucos nativos da classe superior apoiavam as tendências
licos sao agregados.
para difundir, no meio local, padroes de recreaçao que lhes eram
Embo.ra a Igreja Cat6lica tenha uma pos1çao dominante, ela familiares mas que nao podiam vingar sem o concurso de "ele-
representa, sobretudo no meio rural, uma fôrça puramente local mento de fora". Acresce que o desejo de dispor de meios recrea-
s~m nenhuma articulaçao corn a sociedade mais ampla. Contrà- tivos considerados "urbanos" ou "civilizados" se enquadrava na
namente talvez ao que o insulamento das comunidades metodis- ideologia do "progressa" local.
~as faz esperar, o protestantismo exerce uma funçao visivelmente Verdade é que tais tendências nao eram novas. Os atuais
mtegradora. Nas escolas mantidas pelas metodistas os alunas dirigentes do clube apontam très tentativas, verificadas no pas-
nao sao apenas instruidos nas primeiras letras, m~s adquirem sada, para fundar um centra recreativo. Tôdas elas falharam
realmente o habita da lei tura. E a Igrej a os provê de lei tura. "por causa da politica". Foi a politica que "matou os clubes de
No Cume, por exemplo, aparecem as seguintes revistas 0 Expo- Itaipava", declarou um dos membros de maior "projeçao social".
sitor Cristiio (semanario), Revista dos Ptofessôres da Escala Do- Desde a constituiçao do atual clube procura-se cuidadosamente
m~nical, V oz Missionaria (para senhoras), Bem-Te-Vi (para afastar dêle "a politica". Mais do que êsses cuidados, foi provà-
cnanças) e Cruz de Malta (para jovens). No Jeric6 o nfunero velmente a ausência de campanhas eleitorais, entre 1937 e 1945,
~e. assinantes do jornal metodista aumentou de 18 para 30, nos que favoreeeu a constituiçao de um centro recreativo. Dada a
~lhmos ~nos. Embora religiosa, essa imprensa contém uma parte estrutura politica da classe superior, 0 clube nao podia deixar
mformativa capaz de despertar a curiosidade do povo da roça. de ser dirigido por membros ou simpatizantes do P. R. P. que
É facil, pois, distinguir os protestantes entre os moradores rurais. de fato !he constituem o grupo predominante. Membros da opo-
t!:}es se traem pela maior desenvoltura na conversa e pelo inte- siçao que se sentem "oprimidos" ou "perseguidos" pela situa·
resse que mostram por assuntos e acontecimentos completamente cionismo , jamais participaram das atividades do clube, e dois che-
al_h~ios ao horizonte da cultura local. Em algumas casas evan- f es oposicionistas deixaram de ser s6cios.
g~~Ica~ e~contramos livras que nao esperavamos ver numa re- Atualmente, o clube conta 109 membros, divididos em très
giao _tao Is.olada. 0 velho Morais, morador do Cume, o primeiro categorias de acôrdo corn a mensalidade que pagam: 20, 10 e 5
e mais a~hgo_ p_rotestante do bairro, consul tou em nossa presença cruzeiros. Oito membros pagam 20 cruzeiros, 17 pagam 10 e 84
uma enciclopedia portuguêsa do século passado. Eu fizera uma figuram no roi dos s6cios corn a taxa de 5 cruzeiros. Quuse lo·
pergunta sôbre veneno ofidico e como nenhum dos presentes dos os que contribuem corn 20 cruzeiros, fazem parle da classe
soubesse dar a resposta adequada , o velho recorreu à enciclo- superior. Entre os que pagam cinco cruzeiros encontram-se si-
pédia que &abia manejar corn fa cilidade, mas, an tes de aceitar a liantes e fazendeiros que "ocasionalmente apareccm quando estiio

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na cidade". A atual diretoria quer atrair "todos os bons elemen- Embora se trate de um "clube de familias", as suas ativi-
tos da cidade e da roça", procurando evitar tendências exclusi- dades sâo encaradas corn desconfiança ou hostilidade pelas !gre-
vistas. De fato, a lista dos socios contém nomes de individuos jas locais e seus crentes mais ortodoxos. A moral evangélica
considerados "humildes", mas tais individuos nâo freqüentam a condena severamente jôgo e dança e no juizo da Igreja Catolica,
sede social porque ai "nâo se sentiriam à vontade". sobretudo os bailes sâo condenaveis. Aos membros da Pia Uniao
das Filhas de Maria a entrada na sede é vedada e quando o
0 clube aceita "pessoas de vida regrada". Como insistis-
clube quis realizar um baile infantil, na festa de Sao J oâo, em
semos na definiçâo da expressâo "vida regrada", obtivemos a
1945, o vigârio protestou enèrgicamente do proprio pulpito proi·
resposta de que o "homem de vida regrada nâo deve estar ama-
bindo à criançada que freqüentasse o baile. Êste nâo se realizou
siado quando casado e nâo eleve ser um ébrio habituai". Nada
e tivemos ensejo de observar que a atitude do padre foi rece-
se exige quanto à religiosidade ou honestidade em assuntos eco·
bida, por muitos, corn real surprêsa, pois nao haviam contado
nômicos. Parece-nos, no entanto, que a omissiio dessa ultima
corn a possibilidade de condenaçao tao severa de um diverti-
exigência se explica pelo fato de serem rarissimos os casos de
mento ti do geralmente co mo "inocente".
desonestidade comercial na populaçiio local, a ponto de se consi-
derar desnecessaria qualquer referência expressa a essa eventua- Conseguimos apurar cinco funçoes que o clube atualmente
lidade. exerce:
0 clube nao aceita pessoas de côr. Interrogados sôbre o l Prover mews de recreaçâo para os seus membros.
porquê dessa exclusao, varios socios influentes apressaram-se em
declarar que "pessoalmente nada tinham contra o prêto. Êles 2 B.eafirmar o status social de limitado grupo de pes-
siio como nos, mas a sociedade os repudia. As môças nâo querem soas da classe superior.
dançar corn êles". Fato é, no entanto, que o filho de criaçiio de 3 - Servir de canal de ascensâo a individuos desejosos de
uma familia "tradicional", homem de côr (mulato escuro) é elevar o seu status social. Tivemos ocasiao de observar casos
socio do clube, mas nao freqüenta os bailes (24). malogrados ou "em andamento". De fato, o clube é uma peneira
Os divertimentos oferecidos pelo clube consistem em jogos, social, mas nao hâ sançoes contra os membros da comunidade
bailes e raras representaçoes cinematogrâficas. Nao hâ jôgo "pe· que nâo fazem parte de seu quadro.
sado" que, embora comum em muitos pequenos centras urbanos, 4 - B.eafirmar a ideologia do "progressa local" importan-
costuma provocar oposiçâo e despertar reservas corn relaçiio aos te para a integraçâo da comunidade e a auto-estima de seus mem·
"viciados pela jogatina". Atualmente, os dirigentes do clube in- bros. A existência do clube afigura-se-lhes como prova de que
sistem em atrair "famîlias". Estas, no entanto, aparecem so em
ocasioes excepcionais, num baile ou "cinema" oferecido, às vê- terra, trajados de cartola e casaca, carregarem o esquife. Um sapateiro
zes, por um individuo da classe superior possuidor de uma mâ- prêto, original de Sâo Luis do Paraitinga, veterano da guerra do Paraguai,
e comendador da Ordem da Rosa (condecoraçâ.o ganha nessa campanha),
quina portâtil de proj eçiio. A se de do clube, deserta dur ante amarrou o lenço no esquife manifestando assim o prop6sito de participar d a
o dia, é freqüentada, à noite, por um pequeno grupo de homens cerimônia ern. lugar de destaque. Outra comendador, branco e mernbro de
uma das farrlilias mais antigas de Itaipava, recusou-se a carregar o csquife
que se reunem para jogar bilhar ou truque. Às vêzes, 0 numero em companh:ia do homem de côr. l!:ste, que vinha na farda de tourier , n
de freqüentadores sobe a quinze ou vinte, mas geralmente nâo comenda no peito, foi intimado a retirar-se . Nâ.o se conformou, no e ntanto ,
e de espada na mâc desafiou o comendador. Para evitar derramamento de
mais do que oito a ciez pessoas, quase sempre as mesmas, se sangue, os demais participantes intervieram segurando o comendador braneo
encontram reunidas depois do j antar. e o prêto pô de participar da procissâo carregando o esquife.
Todavia, o senso de equilibrio e a capacidade acomodatlva do comun!-
dade revelavam-se por ocasiâo da festa de N. S. do Rosârio que otunJm cntc
jà nâo se eomemora. Os principais personagens dessa f e stn (rel , r alnhu ,
(24) Ao passa que na zona rural nao existe pràticamente "linha de juiz da vara, juiz do ramalhete, juîza da vara, juiza do rmnnlhctc , nHormJ
côr", as atitudes da populaçâo urban a estâo impregnadas de prevençâo con- da bandeira e capitfio de mastro) eram todos pessoas de cOr. No ·bunqu r:.tc,
tra _o. prêto. Mes~o antes de existir o atual clube, os pretos nâo podiam êsses persona.gens e os demais membros da Irm.ancLadc crarn. ~wrvici,o~; nx el1L-
P~r~1c1par ~os b_a1les de brancos. Um morador antigo contou-nos um epi- sivamente por individuos brancos. A funçfio dessa lnvcrsfio de pnpéls p a-
s_:>dio ocorndo a1nda no tempo do império, par ocasüio da procissao de en- rece ter sido a de neutralizar a eventual tensao que normntme ntc ac
terra na Sexta-feira Santa. Era costume naquele tempo os "grandes" da acumula entre grupos antagônicos.

94 95
... :.,., .

1 Itaipava realmenle "progride", embora nao haja nenhuma ten- no momento, abrindo mao "da diferença em favor da coope-
èlência para exaltar êsse "progressa". rativa".
5.- Ao _lado desta funçao integrante, o clube exerce outra, É obvio que o padrao de "imediatismo" dos lavradores exer-
de efelt~s desmtegrantes, pois conduz à segregraçao relativa dos ce o efeito de alterar a funçao da cooperativa que, idealiter,
qu~ ac~1t~m padro es recrea ti vos "modern os", daqueles que se beneficiaria os socios corn os lucros obtidos pela colocaçao direta
opoem a mtroduçao dêsses padréies. dos produt:os disponiveis. Dessa maneira, os lavradores conse-
guiriam lucros que levariam, corn o tempo, a uma modificaçao
A cooperativa da estrutura econômica. Atualmente, no entanto, a cooperativa
esta rnuito longe de exercer essa funçao . A escassez de capital
à Uma das poucas construçéies novas de Itaipava, logo a coloca numa situaçao de visivel inferioridade corn relaçao à
~entrad~ da cidade, ostenta os letreiros da umca coope- maior parte dos "atravessadores" locais. De fato, os estimulos
rahva existente. Atualmente, esta reune cêrca de 300 lavra- para que os lavradores "cornpreendam as vantagens" da coope-
dores e_ um capial de 61 mil cruzeiros dos quais 49 mil rativa, sao extremamente fracas, pois conseguem vender, corn a
for~rr:_ I~Iteg;ad_os. Os fautores da cooperativa, apoiados na maior facilidade, as suas colheitas a preços que lhes parecem
~ss_1stenc1a. tecmca d~ Departamento de Assistência ao Coopera- compensadores. E rnuitos socios da cooperativa vendern sua sa-
hvismo, VIsavam, acuna de tudo, beneficiar os lavradores evi- fra de milho ou fei j ao, tôda ou em parte, nao à cooperativa,
tanqo os intern;e?iarios ("atravessadores") e vender a produçao mas a negociantes locais. Portanto, para que aceitar transaçéies
agncola dos soc1os diretamente a centras urbanos mais distan - a prazo quando se pode obter na cidade ou, nao raro, nos pro-
tes que :pag~s.se~ os preços correntes nos grandes mercados. "A prios sitios (onde "atravessadores" chegam corn grande fre-
cooperativa Ja Ia muito hem até a embrulhada do ano passado" qüência) preços que ultrapassam a propria expectativa? Nos
(1944): declarou-nos uma das pessoas mais interessadas no de- homens adultos corn mais de trinta anos continua viva a lem-
senvolvimento da cooperativa e -do "progressa" local. A "em- brança dos tempos em que os produtos "nao valiam nada",
br~lhad~' foi um defi~it de quase trinta mil cruzeiros cujo em- quando se devia transportar a mercadoria a Guapira, "no lombo
prego nao se consegmu esclarecer satisfatoriamente aos socios. de burro", oferecendo-a a negociantes que pouco se interessavam
pela sua aquisiçao e par fim pagavam "uma miséria" que "mal
t 0 casa suscitou muito mexerico e suspeitas dirigidas contra 0
clava para pagar as despesas da viagem". Vê-se que a propria
i gerente que foi o~rigado a deixar o cargo. Corn grande difi-
!
1
culdade a cooperativa sobreviveu à onda de desconfiança e retrai-
mento que se seguiu à descoberta do deficit.
situaçao se afigura sumamente desfavoravel a uma mudança da
atitude "imediatista" dos lavradores, mudança essa indispensa-
vel para que o padrao "cooperativismo" possa ser integrado na
~ A maior dificuldade com que os dirigentes da cooperativa cultura local.
!
lutavam em 1945_, era a f~lta de capital para adiantar 0 paga-
men:o dos fornec1mentos feltos pelos lavradores associados. Des- Apesar de tantas limitaçéies, nao parece dificil divisar uma
c?nfiados, êstes so aceitam negocias corn pagamento à vista. Ou- funçao integrante da cooperativa, pois ela contribuiu para elimi-
Vlmos constantemente queixas sôbre o "imediatismo" dos lavra- nar interêsses competitivos entre os seus associados oferecendo
dores que "nao queriam esperar até que a cooperativa vendesse a todos oportunidades iguais dentro de limites bastante estreilos.
os produtos a bons preços". Evidentemente, os socios nao eram
"_bons comerciantes", pois nao aceitavam o padrao que se pode- As cliques
na chamar "especulativo" e que consiste em armazenar o
prod~to e aguardar preços favoraveis. Preferiam 0 pagamento Em tôdas as comunidades observa-se mn Lipo de gru-
1med1ato a u~. lucro maior e mediato. Trabalhados pela propa- po que aparece espontâneamente, reune seus memhros de
ganda dos d1ngentes da cooperativa, alguns lavradores deram a modo mais "informai" possivel e serve aas o!Jj clivos nwi~
entender que se contentariam com o preço que se pudesse obter variados: as cliques. Uma an alise acurada mo~lra que as
:1 97

j
1
cliques, à guisa das massas e multidoes, representam, freqüen·
temente, formas de atualizaçao de grupos sociais mais amplos e l - As cliques satisfazem o desejo de uma sociabilidade,
solidamente constituidos. Membros de um clube esportivo ou isenta de certas regras convencionais que impoem a o,b servância
partido polîtico que se reunem, à noite, num ponto determinado de uma etiquêta considerada, nao ra.ro, incômoda.
da cidade para conversar sôbre esporte ou polîtica, "trocando 2 - As cliques satisfazem a necessidade de circulaçao ra-
idéias", fazendo crîtica e "tecendo" pianos, constituem cliques pida de idéias relacionadas corn os interêsses da comunidade.
através das quais se realiza boa parte da vida do clube ou do l:':sta nao possui outros 6rgaos de difusao capazes de exercer
partido. É o que se pode afirmar, por exemplo, das cliques lo· essa funçao corn a mesma eficiência.
cais em que se "conversa sôbre polltica". Nessas conversaçoes 3 - Numa comunidade em que predominam os contactas
realizam-se "sondagens" de grupos ou indivîduos dissidentes ou primârios, as cliques exercem uma forma de contrôle social que
suspeitos de dissidência, reduzem-se ambiçoes pessoais a seus "jus- atinge todos os seus membros de maneira direta. As "mas lin-
tos têrmos", preparam-se "golpes", vinganças, "traiçoes" e camba- guas" dos "venenosos" que todos temem, operam principalmente
lachos. Os mexericos e a "ma lîngua" dos "venenosos" consti· através das cliques e apoiadas no consenso delas t25). É prin·
tuem, por si s6, sançoes temidas e aplicadas corn freqüência. "Falar cipalmente êste consenso que torna pràticamente impossîvel quai.
mal da vida alheia" é uma das principais ocupaçoes de quase quer defesa contra "mâs !inguas" dando assim maior eficiência
tôdas as cliques locais. a sua técnica de contrôle.
Mesmo na hip6tese de servirem de instrumenta de açao a
grupos maiores, as cliques nunca se limitam a um objetivo ape· 6bvio é que, na hip6tese de constituîrem uma forma de vida
nas. As 17 cliques que conseguimos localizar em Itaipava, giram dos partidos politicos, as cliques assumem pelo menos algumas
em tôrno dos seguin tes interêsses: das funçoes atribuidas aos proprios partidos. É o caso de pelo
menos duas cliques politicas de Itaipava. Boa parte da funçao
peneiradora, os partidos exercem através de suas cliques.
Politica;
pornografia; Em Itaipava ha cinco cliques constituidas por membros das
mexencos ("falar mal") ; classes superior e média. Em sete cliques predominam pes-
lavoura; soas da classe inferior e as cinco restantes sao "mistas", servindo
esporte; a pessoas de classes diversas que nelas encontram ensejo para
ouvir râdio; contactas espontâneos que nao acarretem maiores conseqüências
para o seu status. 0 aspecto "democratico" que a sociedade lo·
j ôgo proibido;
cal apresenta deve-se, sobretudo, ao fato de pelo menos dez das
diversoes suspeitas;
dezessete cliques reunirem pessoas de classes diversas, que con·
desastres. versam entre si como se fôssem socialmente iguais. Essa aproxi·
maçao de individuos de classes diferentes pode ser interpretada
As combinaçoes tipicas de interêsses sao: politica +nego· como funç(io integradora que grande parte das cliques exerce
cios+mexericos, ou bebedeiras+neg6cios+pornografia. Todavia, corn relaçâo ao sistema de classes sociais existente.
hâ comhinaçoes mais variadas ainda e tôdas elas mostram a fei·
çao aparentemente multifuncional e lâbil das cliques. Em tôdas
elas observamos uma tendência para ventilar, ao lado dos inte· (25) É verdade que todos os grupos humanos exercem funçôes de con-
trôle sôbre os seus membros e nâo haveria, portanto, necessidade de frisar
rêsses prediletos, os acontecimentos "do dia", um desastre tai· êsse fato. Todavia, as cliques nâo "respeitam" limitaç6es que outras gru-
vez, ou a chegada de uma pessoa "de fora". A multiplicidade pos se impôe~m. Essa ausência de restriçôes e, freqüentemente sua rc1at1va
irresponsabiliclade (caracteristicos aprovados par se us lnembros) ex pl icnm a
de funçoes pode ser reduzida, pelo que vemos, a três funda- tendência para a mexerico, para "falar mal", atingindo a todos e n tuda.
Parece-nos que essa forma de contrôle diferencia a clique de todos os de-
mentais: mais tipos d1~ associaçâo humana.

98 99
Outras associaçoes desenrola boa parte da sociabilidade recreativa, da vida econô-
mica e politica da comunidade.
Existem .duas bandas de mus1ca e um clube de futebol, mas Ha, porém, uma série de fatôres de integraçilo que até agora
estas associaçôes pouca influência exercem sôbre a vida da comu-
nâo foram abordados e cuja importância rivaliza corn os que
nidade. Contràriamente ao que sucede em muitas localidades, o acabamos de mencionar.
futebol nâo conseguiu despertar o interêsse do povo. Embora
algumas pessoas se referissem a jogos realizados no passado, nun- Ao examinar a estrutura social mais ampla que se estende
ca logramos presenciar um treino ou jôgo no campo local. para além dos confins da cidade, o observador é impressionado
pela ausência .de .antagonismo, tâo corriqueiro alhures, entre po-
pulaçâo rural e populaçâo urbana. Grande parte dos moradores
A comzmùlade da cidade nâo somente tira o seu sustento cliretamente da zona
rural, mas continua praticando a lavoura. Quase tôdas as fami-
Resta-nos analisar as fôrças que, a despeito de tanta dife- lias-grandes residentes na "sede" têm .r amificaçôes na zona rural,
renciaçâo interna, conservam a unidade da estrutura local fazen- formando, nilo raro, parentelas grandes em varios bairros simul-
da corn que os seus individuos e grupos integrantes se considerem tâneamente. Mas o que da à comunidade urbana um cunho rus-
comunidade e possam agir como um todo. tico é, acima de tudo, uma certa "simplicidade" de costumes,
Em primeiro luga.r parece necessario frisar que a maioria explicavel pela isolamento secular e a inexistência de fontes de
dos grupos analisados em separado, compensa a funçâo diferen- renda que permitissem a acumulaçâo de grandes fortunas. Essas
ciadora por uma funçâo nitidamente integradora. Vimos que o afirmaçôes nâo significam que nilo haja nenhuma tendência para
mutirâo - forma de cooperaçâo vicinal - renne sitiantes de a introduçil.o de elementos mais "refinados" da civilizaçilo ur-
niveis diferentes e agregados, agindo como ponte de ligaçâo entre bana. Certos padrôes recreativos, o habito de ler jornais diarios,
classes rurais .diversas. Da mesma forma, cada um dos partidos constituem elementos que apontam tendências de urbanizaçâo,
politicos integra elementos de tôdas as classes sociais, nâo obs- estimuladas, alias, pelas familias vindas "de fora" e os viajantes
tante haver uma concentraçâo de pessoas da classe superior no e veranistas que às vêzes criticam o estilo de vida local, achando
Partido Republicano. que êstes "pr·ecisam de um banho de civilizaçilo".
Mais ampla é a funçâo integrante das Igrejas. Na Igreja De outro lado nilo faltam, na zona rural, exemplos de se-
Cat6lica os fiéis participam das atividades religiosas sem dis- gregaçao quase completa: mor adores que raramente ou nunca
tinçâo de classe social ou partido politico. Embora relativamente vilo à cidade subtraindo-se inteiramente a suas influências.
frouxa como associaçâo paroquial de grande extensâo geogra- Todavia, êsses exemplos representam exceçôes, e as tendên-
fica, a Igrej a é, assim mesmo, um fa tor de integraçâo para a cias opostas, visando uma urbanizaçilo mais intensa, nilo conse-
comunida.de urbana. Fora disso, é s6 nas grandes festas religio- guiram destruir, até hoje, a tradicional rusticidade dos mora-
sas (Sexta-feira Santa e Divino Espirito Santo) que a Igreja dores urbanos.
Cat6lica age como fôrça de integraçâo social. É nessas ocasiôes A ausência do antagonismo cidade-roça prende-se intima-
que as emoçôes coletivas dos fiéis reunidos alcançam um consi- mente a certos caracteristicos da organizaçao econômica. Ja fri-
deravel grau de intensidade. Dentro da sua area geognifica me-
samos que tôdas as ativida.des econômicas localizadas na comuni-
nor e restrita a grupos comparativamente pequenos, a Igreja Me-
dade urbana estao em relaçilo de interdependência corn ativida-
todista exerce, como ja vimos, essa funçâo de maneira mais
des agricolas e pastoris. Essa interdependência criou uma solida-
intensiva do que a Igreja Cat6lica.
riedade de interêsses inexistente em comunidades industrializa-
A funçâo integrante de algumas cliques j a foi posta em das. Seria exagêro afirmar que os limites geogridicos dessa soli-
relêvo. É preciso nâo subestima-la, pois é nas cliques que se dariedade coincidem com as divisas do municipio. Como centro
de dominância ecol6gica, a cidade de Itaipava pouco influi sôbre
100
101
alguns distritos periféricos e mesmo Campos de Itaipava esta liciais cu j a interferência quase constante exerce efeitos de conci·
mais ligada a outra cidade do Vale do Paraîba do que à sede liaçâo e, portanto, de integraçao muito freqüentes.
municipal. Ao isolamento e às distâncias devem ser atri,b uîdas Conseguimos registrar uma série de atitudes e opiniêies pos·
essas limitaçoes, mas o isolamento e as distâncias forjaram tam- siveis de serem interpretadas como manifestaçoes de uma soli-
bém a solidariedade de interêsses econômicos da comunidade dariedade comunal.
local corn r elaçao a comunas vizinhas. Muitos moradores gostam de lembrar fatos historicos rela-
É obvio o papel do govêrno municipal como fator de inte- cionados corn a cidade, referindo-se qu ase sempre à época de
graçâo de grupos e interêsses opostos ou competidores. A admi- esplendor, quando Itaipava se achava à Leira de uma das grandes
nistraçâo de serviços publicos como, por exemplo, a conserva- estradas imperiais. Mostram corn orgulho o sobradao onde o
çâo e construçâo de estradas, fornece a base material para man- Duque de Caxias pernoitou numa viagem de Paracauba ao inte-
ter ou aumentar a freqüência dos contactos entre os moradores rior. Citam nomes de "moradores ilustres", geralmente de fami-
lias antigas, e nunca se esquecem de Clemente Pedroso e de sua
da area ecologicamente dominada pela sede municipal. Em 1945
"atuaçao na politica nacional". Da historia mais recente fre-
houve ensej o pa<ra verificar o pa pel integrador do govêrno mu-
qüentemente lembrado é o "heroi de Itaipava", Paulo Virgini.p,
nicipal. 0 racionamento de sai, açucar, gasolina e outros pro-
cujo nome foi dado a uma das ruas centrais da cidade. Hâ
dutos escassos alargou, consideràvelmente, a esfera de contrôle
poucos moradores da cidade ou roça que nao conhecem a "his-
da prefeitura local. Surgiram dificuldades de transporte de mer-
toria do martirio e da morte" de Paulo Virginio, "caboclo va-
cadorias racionadas, pois a prefeitura nâo possuîa veîculos moto- lente", que morreu pela causa constitucional, na revoluçao de
rizados e os poucos proprietârios de caminhêies, quase todos co- 1932. Contam que um pelotao de tropas governamentais aprisio-
merciantes, davam preferência a mercadorias isentas das restri- nou o lavrador Paulo Virginio exigindo-lhe que indicasse o cami-
çêies do racionamento . Um dia, o prefeito convocou os proprie- nho de ltapaiva. Paulo Virginio recusou-se a fazer "papel de
tarios de caminhêies, explicou-lhes que a populaçâo estava na traidor" suportando as torturas que os soldados lhe infligiram
iminência de fi car sem sal e açucar e intimou-os a realizar ime- e, por fim , preferiu a morte à traiçao. Os mais afamados violei-
diatamente o transporte das mercadorias racionais. Caso nâo se ros de Itaipava costumam cantar a historia do heroi Paulo Vir-
efetuasse êsse transp"ürte, suspenderia o recebimento de quotas de ginio. Eis o t exto, composto por Nicolau Sobrinho Filho, lavra-
gasolina. Na re"uniâo ouviram-se express ô es co mo "interêsses do dor e violeiro:
povo" que estariam "acima dos interêsses particulares".
Analogo à situaçao do govêrno municipal, o poder judicia- . MODA DE VIOLA S6BRE 0 HEROI DE ITAIPAVA,
rio age como fator de integraçao pela distribuiçao de justiça. A DA REVOLUÇAO DE 1932, PAULO VIRG1NIO
reciprocidade como base de funcionamento de todos os grupos
humanos, deseja ver compensado o agravo, quaisquer que sejam
Vou eu ·c onta de um caso .No Bairro do .T aboâo
a forma ou· as formas de compensaçao realmente adotadas ( com- que isto foi acontecido onde êle era residido
posiçao, expiaçao, puniçao, vingança etc.) . Sen do insignificante daquele tempo da Revolta tiraro êle da casa dêle
a criminalidade, a importância d o poder judiciario é limi- nâo vi ninguém resolvido. êle saiu distraido.
tada (26). Simples queixas sâo r esolvidas pelas autoridades po-
Houve muito desprêzo de Trouxero pro Rio Abaixo
[familia êle veio muito iludido
ficou muito coraçâo sentido na casa do senhor Laurindo
sôbre a morte de Paulo onde êle foi recebido.
[Virginio Que s6 de falâ é doido.
(26) Até 1937, o poder legislativo municipal que resolvia e decretav3.
"leis municipais'' tinha :funç6es integradoras de nao pouca relevancia.
que s6 no fa lâ é doido.

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Isto era bem cedinho Levaro perto de uma ponte Tem um grande mumc1p1o De certo tempo pra câ
o sol nao tinha batido onde êle foi falecido lem muitas léguas quadrado, Itaipava tâ sendo mais
pusero êle na âgua fria fizero êle fazê a sepurtura; tem muitos trabalhadô [movimentado,
logo que o dia tinha jâ êle estava distraido t:rabaia no pesado. rumnento é uma beleza,
[amanhecido. depois da sepurtura feita Tem muito eriadô. estâ tôda iluminada.
Tiraro êle da âgua fria recramô seu pedido. cria porco, burro e gado. Temo o padre Sepetimio
pusero na âgua fervido. A produçi'io de Itaipava é que é um born coraçao aliado;
Mandô chama seu Benedito [grande tâ na frente da religiao.
Geada tava no campo [Maria que dâ muito resultado. corn um bonito livro sagrado.
que nem um sal moido; que era seu amigo garantido Na chegada daqui pra lâ Estâ ensinando a dotrina
se nao fôsse a Revolta e fêz a recramaçao tem um bonito Cruzeiro explica bem explicado
êsse homem nao tinha morrido. do que tinha acontecido, [fincado. os meus irmaos da cidade,
mandara êle vira as costa religiao precisa ser
Ë o sinal de nossa terra
Seus fio inda tinha pai dero 18 tiro do ouvido. tôda a vida hâ de sê [freqüentado.
sua mulher tinha marido 5 sordado e um tenente Também tem o salao do Crube
[alembrado. muito bem aperparado.
coitada dessa familia aquela crasse de bandido.
Tem um Grupo na saida Tem o campo do Gouveia
quanta ela nao foi sofrido Pra quem pensa e considera muito bem eolocado
sôbre as farta de seu pai veja que trecho doido. aonde treina o quadro,
onde ensina as criançacta tem uma banda de musga
para os seus filhinho querido. cresce tudo bem educado. os instrumenta aniquelado
Tem uma matriz importante marcha certa na linha
primeiro que foi afundado . o dia que toca o seu dobrado.
Também tem duas igreja Tem muitas casa comerciante
É preciso acrescentar que os violeiros representam 6rgaos que agora vai sê falado, também tem os fiscâ
da opiniao publica da populaçao rural, sobretudo das classes mé- do Rosario e S. Vicente de secos e molhado
dia e inferior. Quem desejar estudar a maneira pela quai os mo- que fica pra outro lado que tudo é fiscalizado
radores da roça encaram e interpretam homens, instituiçêies e é auxiliadô dos pobre si sai fora da lei
que tem seu cartao tirado. negociante tâ murtado.
acontecimentos, nao pode deixar de registrar e analisar os textos
cantados aos arpejos da viola. Também tem o radio falante
Temo Juiz e Promotor que deixa uma voz aumentado.
A recordaçao dêsses fatos hist6ricos prova que existe uma também temo born Delegado. Também tem a jardineira
Temo cart6r:io, as coletorias tem o seu horârio marcacto
consciência comum do passado de cujas feitos os moradores con- também temo advogado tem o rel6gio na tôrre
tinuam participando e que constituem, através do tempo, um ponta também temo born prefeito que o povo fica admirado
de gravitaçao de sentimentos coletivos. que é um homem delicado. da pancada no sino
0 progressa tâ progredindo quando é hora compretado.
Os violeiros cantam também a Itaipava presente, apreciando tâ sendo bem diministrado. Viva a cidade de Itaipava
suas instituiçêies e seus homens eminentes. A "descriçao" se- Na frente da Medicina terra que eu fui nascido
guinte, colhida por ocasiao de uma festa, mostra de que maneira tem um bom doutô formado. e fui criado,
Edmauro e o Sarvadô também viva o nosso Brasir
a comunidade se representa a si pr6pria, através das modinhas
também tem seu Duardo. que é o nosso pais amado.
de seus violeiros mais aplaudidos. Também êste texto é de An-
tônio Nicolau Sobrinho:

Importantes fatôres de integraçao sao as festas religiosas,


DESCRIÇAO DE ITAIPAVA principalmente as que atraem grande numero dos moradores mais
distantes lembrando-lhes que sao partes de uma comunidade maior
Da nossa cidade de Itaipava Na beira dêste sertao do que aquela formada apenas pelos moradores de scu bairro.
Tenho a descriçao tirado. da estrada de ferro arretirado As cerimônias finais da Semana Santa reunem de quatro a cinco
:E'J uma cidade pequena ela é a princesa de S. Paulo mil pessoas na cidade. De significaçâo social ainda mai or é a
que é um grande povoado. Capital de nosso Estado. Festa do Divino. Muitos meses antes da festa prôpri a mente dita,

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105
a folia começa a percorrer a zona rural angariando os donativos -nos uma das autoridades locais. 0 velho Cardoso Friais desen-
para a festa. 0 grupo de folioes é um elo de ligaçao entre os volveu uma teoria pr6pria para explicar a imigraçâo de mineiros
bairros mais afastados. Na ultima fase de preparativos, os fo- e o perigo dessa imigraçao. Segundo essa teoria, os mineiros
lioes raramente viajam sozinhos. Numerosos moradores do bair- entram todos corn o prop6sito de formar "quistos raciais" na
ro onde a folia pediu o ultimo pouso, acompanham a bandeira regiao de Itaipava e nos municipios que se limitam corn o Es-
do Divino pelo menos ao pouso seguinte. Nao é raro formar-se tado do Rio. Uma vez suficientemente fortes, exigiriam que tôda
um grupo de algumas dezenas de cavaleiros em tôrno da ban- aquela regiao, inclusive Itaipava, fôsse anexada ao Estado de
deira. 0 "pedido de pouso" é uma festa de grande significaçao Minas Gerais que assim ·-conseguiria "acesso ao mar". 0 .velho
social e religiosa. 0 j antar e o bai le subseqüente reunem a fami- Cardoso Friais é uma das poucas pessoas em Itaipava que costu-
lia do hospedeiro, as familias vizinhas, os folioes e todo o seu mavam acompanhar os acontecimentos da guerra através do radio.
séquito. A ocasiao associa, portanto, parentes, e vizinhos corn É assim que se explica a estranha transferência de um fato de
moradores do mesmo bairro e de bairros vizinhos e todos êstes politica internacional ao âmbito regional.
corn os folioes que vêm de longe e representam o festeiro, a Até agora, as atitudes contrarias à "imigraçao mineira" nao
lgreja e, pelo menos, indiretamente, o Divino Espirito Santo, se transformaram em "açâo defensiva", porém mesmo assim pa-
cujo simbolo material expoem à veneraçao dos devotos. A pro- dern ser consideradas expressâo de solidariedade comunal e pre-
pria festa, enfim, movimenta a regiao tôda. Durante uma sema- vençao contra o forasteiro.
na, muitos milhares de moradores rurais vao à cidade a fim de
participar das cerimônias religiosas e diversoes "profanas". A
Festa do Divino desempenha uma série de funçoes integrantes
que serao estudadas num dos capitulas seguintes.
Ao lado da Semana Santa e da Festa do Divino é principal-
mente a Festa de Sao José que retine, no bairro da Boa Vista,
grande parte -dos moradores rurais e urbanos.
Sintomas de coesao comunal sao, também, as atitudes que
os moradores costumam assumir corn relaçao a certos forasteiros
e comunidades vizinhas. A subordinaçao econômica e politica a
Guapira exige uma atitude compensat6ria, geralmente de hosti-
lidade ou agressao. Muitos gostam de referir-se ao "papel para-
sitario" de Guapira onde "nao se produz nada" e que "vive às
expensas de ltaipava". Alguns se ressentem do desenvolvimento
de Campos do J ordâo, classificando o elima de Itaipava como
sendo "muito mais sêco e muito superior" ao daquela estância
climatérica. Baseado nas qualidades geograficas de Itaipava e
na existência de uma "agua mineral de grandes efeitos curati-
vos", um grupo politicamente influente pleiteava, em 1945, a ins-
tituiçao da "prefeitura sanitaria".
0 forasteiro comum em Itaipava é o mineiro. 0 povo da
roça o acolhe corn agrado porque é "trabalhador e honesto".
Todavia, a populaçâo urbana considera o mineiro como elemento
prejudicial ou mesmo como "fator de decadência", pois êle "trans-
forma a lavoura em pastagens e despovoa o municipio". "Se de-
pendesse de mim, eu proibiria a entrada de mineiros", declarou-

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