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Alunos: Erickson Braun, Kauê Paniz e Leocir Reiss

Resumo relativo a: introdução, capítulos 1, 3, 7 e 8 e conclusão do livro:

SAARNIVAARA, Uuras. Luther Discovers the Gospel. St. Louis: Concordia Publishing
House, 2005.

Introdução

Na busca de Lutero por um caminho que lhe desse paz com Deus e garantia de salvação, ele
tinha de encontrar uma solução para a grande questão de vida ou morte no relacionamento pessoal
do homem para com Deus: Como o homem, apartado (separado) de Deus por seus pecados e culpa,
poderia se tornar aceitável a Ele e entrar numa comunhão viva e pessoal com Ele?

Para o autor, essa questão se divide, na verdade, em duas subquestões: 1 - Como ele poderia
encontrar paz para sua consciência por meio do perdão dos pecados? 2 - Como ele poderia ser
justificado ou se tornar justo à vista de Deus que é Santo? E o autor defende que Lutero enfrentou
estes dois aspectos em momentos diferentes de sua vida, em duas “crises”, tendo encontrado em
cada crise a solução para uma das perguntas.

Para entender a dificuldade de Lutero, o autor ressalta que é preciso ver que foram oferecidos
a ele três entendimentos do caminho para a justiça. O primeiro foi o pensamento popular de que
Deus concede seu favor àqueles que fizeram o seu melhor para obedecer à Lei. É a visão ativa da
justificação: Deus recompensa as boas obras e pune as más. O segundo foi o ensino oficial da
Igreja Romana de que o homem é justificado ao ser curado da sua doença do pecado de modo que
ele se torna capaz de amar a Deus e a seu próximo e de cumprir a Lei. Nele a justificação é um
processo gradual, sendo passivo e ativo, uma cooperação entre a graça divina e os esforços do
homem. E o terceiro é aquele ensinado na Bíblia, enfatizado por Paulo, de que o homem é
justificado por meio da fé somente, pela redenção que há em Cristo Jesus. Claro, por meio desta
fé que é viva, Cristo habita no coração do homem, fazendo dele nova criatura e ele então produz
boas obras em amor e obediência, constrangido pelo amor de Cristo. Mas estas boas obras são
somente o fruto e não o fundamento da justificação. É uma justificação completamente passiva: o
homem recebe o presente imerecido do perdão dos pecados e é visto como justo graças à justiça
de Cristo que é imputada a ele, sem nenhum fundamento no homem.

O autor aponta que até recentemente (anos 40) os pesquisadores eram unânimes em dizer
que a doutrina da justificação de Lutero era deste terceiro tipo. Mas um renomado estudioso, Karl
Holl, tentou provar que o ensino de Lutero é, na verdade, o ensino Romano, apenas numa forma
mais melhorada e purificada.
Neste livro o autor assume, então, dois objetivos: 1 - averiguar o conteúdo do ensino maduro
de Lutero sobre a justificação e 2 - traçar e datar o caminho que Lutero percorreu até a redescoberta
do Evangelho. E já que Lutero mesmo afirma que Agostinho, Staupitz e as Escrituras o ajudaram
e guiaram neste processo, o livro trata de investigar então estas três influências sobre ele.

O conceito de Salvação do pecador de Agostinho e sua relação com o ensino maduro de Lutero

O autor afirma que os escritos de Agostinho que influenciaram Lutero enquanto buscava
pela verdade foram principalmente aqueles contra o Pelagianismo e o Semi-Pelagianismo. Nestes
escritos, Agostinho defende o seguinte conceito de salvação: a queda do homem corrompeu sua
natureza de modo que não ele não busca mais o bem em Deus, mas nas coisas criadas. Então o
homem não tem mais livre arbítrio em assuntos espirituais, mas seu espírito está sujeito à carne.
A Lei de Deus, que lhe exige obediência espontânea, a qual ele é incapaz de possuir, revela então
a ele sua fraqueza, pecaminosidade e a doença em sua vontade. Aí, quando o homem ouve o
Evangelho, uma fome e sede de salvação são criadas nele. Ele passa a suplicar por perdão e pela
graça renovadora que permitirá que ele ame a Deus e ao próximo. Essa graça lhe é dada no Batismo
e é restaurada àqueles que caíram da graça batismal pelo arrependimento (conversão). Com essa
graça, sua natureza e vontade doentes são curadas e habilitadas a buscar o bem em Deus e a
obedecer seus mandamentos. Para isso, o Espírito de Deus age recriando o coração do homem de
modo a libertar sua vontade e inspirar nele um desejo e um amor pelo bem que há em Deus. Assim
a natureza é reparada pela graça e o Espírito imprime a Lei de Deus no coração dos crentes.

O ponto de Agostinho é que todo amor anseia por algo. Se direcionado para baixo, para as
coisas criadas, é um amor pecaminoso, carnal, cupiditas, a concupiscência. Se direcionado para
cima, buscando o bem em Deus, é um amor Cristão, real, caritos, a caridade. Antes da queda, o
homem possuía o caritos, mas depois seus desejos e esforços se voltaram ao mundo criado,
tornando-se em cupiditas. Enquanto essa concupiscência mantém sua influência no homem, ele é
pecaminoso e iníquo. Já quando a caridade controla seu coração, ele é justo e reto. O homem em
pecado, portanto, é culpado perante Deus não tanto por sua culpa, mas pela doença de sua natureza.
A principal tarefa da graça de Deus é então curar sua natureza. Essa cura ou reparação é que
Agostinho chama de regeneração, vivificação, renovação ou justificação. Para ele, a justificação é
o homem ser tornado justo em sua vontade e comportamento, é a graça divina e o Espírito o
capacitando a ter a atitude correta em direção a Deus e a querer e ser capaz de fazer boas obras.

Agostinho cita muito a Paulo quanto à justificação e à “justiça de Deus”, mas sempre
interpreta essas expressões como se significassem essa justiça restauradora ou a cura da natureza
humana. Para Agostinho, “a justiça de Deus [que] se manifesta no Evangelho” (Rm 1.17) é aquela
com a qual ele dota (ou equipa) o homem quando o justifica. Ser “justificado gratuitamente por
Sua graça” (Rm 3.24) é entendido como a ação da graça que cura a enfermidade da vontade e
habilita o homem a cumprir a Lei. Gratuitamente significa apenas que não há mérito antecedente,
já que a graça é concedida não porque o homem fez boas obras, mas justamente para que seja
capaz de fazê-las, para que possa cumprir a Lei.

O entendimento de Agostinho é que “a ajuda divina torna possível que alcancemos a justiça
diante de Deus”, implicando que a justiça não é algo que se recebe completo, mas antes é um
processo gradual de se tornar justo no qual a vontade renovada do homem coopera com a graça de
Deus. O homem deve constantemente desejar e suplicar por justiça ou justificação e que Deus
possa lhe conceder forças para voltar as costas para o mundo e cumprir a Lei em amor e obediência.

A fé, que tem fome e sede de justiça, então progride por meio da renovação diária do homem
interior. Mas o homem nunca se torna absolutamente justo nessa vida, embora esteja sempre
avançando em direção a meta da justiça, que é a renovação perfeita. E já que a justificação é um
processo gradual de cura e o crente é mais pecador que justo, Agostinho ressalta que é essencial
que ele se mantenha humilde, confesse seus pecados e se acuse e se condene, pois “o pecado não
pode permanecer sem punição [...] Ele deve ser punido ou pelo homem ou por Deus, que julga”.
Por isso, “é do feitio da graça que ninguém conte sua própria justiça como algo. Pois essa justiça
é de Deus, dada a nós por Ele para que seja nossa”. “Independentemente da justiça que tem, o
crente não deve presumir que a tem de si mesmo [...] e deve continuar a ter fome e sede de justiça
nAquele que é o pão da vida”.

Quando Agostinho diz que um cristão é “ao mesmo tempo justo e pecador” (simul iustus et
peccator), ele quer dizer que o amor (caritas) não tem domínio completo em seu coração e vida.
Ele é chamado de justo porque a justiça foi iniciada nele, mas ele ainda é uma mistura de bem e
mal, espiritualidade e carnalidade, amor e concupiscência. Sua justiça aumenta ou busca aumentar
diariamente rumo à perfeição que alcançará na vida futura, mas nessa vida o crente é justificado
apenas em parte. Ele é justo até certo ponto e é pecador até certo ponto.

Além disso, enquanto está sendo purificado, Deus perdoa os pecados que permanecem no
crente e não imputa a ele sua culpa. O cristão tem, portanto, uma graça dupla: 1 – justificação ou
renovação e 2 – perdão de pecados. O pecado “permanece em atividade, mas finda sua culpa. Não
que ela deixe de existir, mas não é imputada”. Uma vez que nossa justiça é ínfima, Agostinho
reconhece que a maior porção da salvação é a remissão de pecados e não o aperfeiçoamento das
virtudes, mas coloca sua ênfase sempre no segundo ponto.
Mesmo assim, Agostinho ressalta que o homem é salvo somente pela graça. A redenção é
somente por graça imerecida e a condenação somente por julgamento merecido. Antes da fundação
do mundo Deus decidiu salvar alguns da “massa de perdição” que é a humanidade e deixar outros
receberem sua justa condenação. Este foi Seu decreto eterno de predestinação.

Em suma, portanto, o pecado do homem consiste em seu amor por e confiança em coisas
terrenas e sua salvação e justiça consistem em que ele volte a buscar sua alegria em Deus e nas
coisas do céu. Logo, a preocupação principal em sua conversão não seria encontrar um Deus
misericordioso por meio da remissão de pecados, mas receber de Deus uma nova vontade e o poder
de sujeitar sua concupiscência e buscar as coisas do céu.

Lutero maduro sobre a Justificação e Agostinho

Repare agora o contraste com os conceitos que Lutero tem de justificação e santificação:

1. O homem é justificado completamente por causa de Cristo. Cristo conquistou e preparou


para ele a justiça que Deus lhe dá - redenção da maldição da Lei, perdão de pecados, justificação.

2. O homem é justificado pela imputação dessa justiça e perdão alcançados por Cristo em
benefício do pecador. A justiça passiva que o crente recebe como um dom gratuito por meio da
imputação de Deus é sinônimo de perdão de pecados. Essa absolvição de culpa o torna aceitável a
Deus e inculpável diante dele.

3. O homem é justificado quando recebe pela fé esse perdão proveniente da justiça imputada
e assim se apropria dele. A fé não justifica porque é uma nova qualidade no homem, mas porque
se agarra à promessa da graça e confia somente na misericórdia de Deus.

4. A justificação não é um processo gradual, mas um ato instantâneo de Deus no qual Ele
declara o pecador livre de sua culpa. O pecador se apropria de uma só vez do perdão completo e
da justiça completa de Cristo. A partir daquele momento ele é completamente justo, isto é, sem
culpa diante de Deus. “A promessa do Evangelho inclui tudo em si: justificação, salvação, herança
e bênção. E a fé se apropria dela de uma só vez, não aos poucos”. A fundação e conteúdo da
justificação é a obra consumada de Cristo, a propiciação em favor de toda a humanidade para
perdão dos pecados, reconciliação. E a imputação e fé são a maneira como a graça se torna uma
posse pessoal do pecador.

5. Deus, de fato, não apenas perdoa os pecados e considera o pecador justo, mas também o
renova e o torna justo em seu coração e vida. Essa renovação, porém, é a segunda parte da obra de
salvação de Deus. Em alguns momentos Lutero a chama de “segunda justificação” ou “dom”, ao
passo que a justificação pela fé ele chama de “primeira justificação” ou “graça”. Enquanto a
“graça” é dada completa e instantaneamente, o “dom”, ou a renovação do Espírito, é dado
gradualmente. Pela “graça [...] somos considerados completa e perfeitamente justos diante de
Deus, pois esta graça não é dividida em partes, como são os dons, mas nos leva [de uma vez] ao
favor de Deus por causa de Cristo”. Já “os dons e o Espírito aumentam em nós a cada dia e ainda
não são perfeitos, de modo que permanece em nós a concupiscência e o pecado”.

Lutero tratou do problema envolvendo a relação entre a justificação e a renovação (ou


santificação) numa série de debates acadêmicos em Wittenberg entre 1536 e 43. Ele definiu esta
relação da seguinte maneira: “primeiro, [...] a fé purifica [completamente] por meio da remissão
dos pecados (que é imputado a nós); (então) o Espírito Santo purifica por Seu efeito (que age em
nós)”. Nesses debates, uma das questões levantadas foi se o efeito renovador do Espírito Santo e
a nova obediência pertencem à justificação junto com a imputação. E Lutero asseverou que “a
justificação é a remissão de pecados, que só tem a ver com a fé. A obediência não está envolvida
nisso de modo algum, porque Paulo recebeu perdão de pecados antes de sua obediência. [...] Essa
justiça parcial da obediência não justifica”. Uma vez que a completa renovação do homem só se
realizará na eternidade e essa justiça é apenas iniciada nesta vida, o homem deve pôr sua confiança
no perdão dos pecados e na justiça imputada apenas.

6. A correta distinção entre Lei e Evangelho está ligada inseparavelmente com a doutrina da
justificação. Lutero enfatizou fortemente o ensino Paulino de que a única função espiritual da Lei
é criar a convicção do pecado no coração humano e assim prepará-lo para a recepção da graça do
Evangelho. Já o Evangelho não exige nenhuma obra do homem. Por meio dele, Deus pronuncia
Sua graciosa imputação, Sua sentença de absolvição. O cumprimento da Lei por meio do amor a
Deus e ao próximo não pertence, portanto, à justificação.

Já na renovação, ou “segunda justiça”, a relação do crente com a Lei é diferente. “A


exigência da Lei cessa em Cristo por meio da remissão de pecados e da divina imputação, quando
acreditamos naquele que cumpriu a Lei”. Mas a Lei é também escrita no coração do crente pelo
Espírito, de modo que ele é renovado, ou transformado, tanto interior quanto exteriormente em
conformidade com a Lei. “Deus nos dá o Espírito Santo a fim de que possamos começar aqui a
cumprir a Lei”. O Espírito cria no crente a atitude correta em direção a Deus e ao próximo,
santificando de acordo com a primeira e segunda tábuas da Lei. Porém, essa renovação só será
completada na vida por vir, onde “seremos como Cristo, que cumpriu a Lei”. Assim, esse
cumprimento da Lei no crente, para Lutero, pertence aos frutos da fé justificadora, à santificação,
e não à justificação.
Justificação e renovação devem ser claramente distinguidas, porém não separadas uma da
outra. Deus nunca justifica o homem sem renová-lo e nunca o renova sem justificá-lo. A
justificação, ou o perdão, vem em primeiro plano. Mas a fé implica: uma nova atitude em direção
a Deus, verdadeiro conhecimento de Deus, confiança em sua bondade e misericórdia, e vontade
de obedecê-lo. É impossível crer na graça de Deus e tomar posse do perdão dos pecados pela fé, a
menos que Deus dê ao homem Seu Espírito e efetue essa mudança nele.

Uma comparação dos ensinos de Agostinho e Lutero sobre a justificação deixa claro que
eles interpretavam o termo de forma bem diferente. Agostinho entende por justificação a
renovação ou transformação gradual do homem à imagem de Deus. Lutero entende como o perdão
de pecados, a imputação da justiça de Cristo. Por outro lado, ambos entendem que: a salvação do
homem consiste em dois dons de Deus, perdão e renovação; que a renovação do homem é obra do
Espírito, recebido por meio da fé; que a graça divina e a não imputação dos pecados suprem aquilo
que falta na justiça de vida do homem. À primeira vista, é uma diferença de terminologia:

Para Agostinho: Justificação = renovação; não-imputação de pecados é o seu complemento.

Para Lutero: Justificação = não-imputação de pecados e imputação da justiça de Cristo; a


renovação é seu fruto ou segunda obra de Deus.

Mas a exegese moderna demonstra também que Agostinho estava errado em sua exposição.
Em latim, iustificare = iustum facere, fazer justo, o que enganou Agostinho. Por seu conhecimento
inadequado de Grego, ele falhou em perceber que dikaióo significa declarar justo ou absolver.

Analisando ponto a ponto: a conversão para Agostinho é uma “mudança de paladar”, é o


homem passar a buscar sua alegria em Deus, pela renovação de sua vontade, produzida pelo
Espírito de Deus somente. Quando o chamado divino cria nele tal mudança, sua primeira tarefa é
confessar sua corrupção e fraqueza e pedir que Deus renove seu coração e vontade.

Para Lutero, a conversão é a apropriação do perdão de pecados. Quando a Lei traz ao homem
a convicção de seus pecados, sua culpa lhe pesa, porque está sob a ira de Deus. Ele sente
necessidade então de pedir por perdão e misericórdia e deve aceitar a promessa do Evangelho de
perdão de pecados em Cristo. Ao se apropriar dessa graça, ele já está justificado e tem paz com
Deus. Como um fruto natural e necessário de sua fé, ele começa então a viver uma vida de
obediência a Deus, amando a Deus e ao próximo como Deus o ama. Agostinho vê o perdão de
pecados como um grande e necessário dom de Deus, mas não pensa na conversão como uma
apropriação desse perdão.
Agostinho acredita que o homem é justificado ao cumprir a Lei por meio do poder que recebe
de Deus. Lutero ensina que o homem primeiro deve ser justificado e possuir pela fé o cumprimento
completo da Lei alcançado por Cristo. Só aí é possível para ele esforçar-se em cumprir a Lei em
amor e obediência. Logo, o entendimento que eles tem da Lei e do Evangelho é completamente
diferente. De acordo com Agostinho, a Lei dirige o homem a Cristo pois procura encontrar nele o
poder para cumprir a Lei em amor e obediência. Para Lutero, a Lei dirige o homem a Cristo pois
quer receber dele um perfeito cumprimento já realizado. Cumprir a Lei em amor segue apenas
depois como fruto dessa fé.

Consequentemente, a natureza e caráter da fé e vida cristã tem uma interpretação diferente


nos dois sistemas. Em Agostinho, justificação é uma realização futura. O cristão deve empenhar-
se nisso continuamente, sempre se mantendo em humildade, acusando a si mesmo, suplicando por
misericórdia e esforçando-se a se conformar à Lei de Deus. Em Lutero, justificação e a posse da
justiça (de Cristo) é uma realidade presente. Nenhum esforço humano é necessário para obtê-la, já
que é recebida em sua completude pela fé promessa do Evangelho. Apenas na santificação é
necessário empenhar-se continuamente.

Segue que o pesar pela presença do pecado e da falta de justiça é característica da fé


agostiniana, enquanto que a alegria pela salvação e pela perfeita justiça de Cristo tem o lugar
central na fé luterana. Ambos reconhecem a necessidade de contínua humildade e consciência do
pecado, mas na fé agostiniana, a presença do pecado equivale a falta de justiça, enquanto na fé
luterana o pecado, apesar de nos criar tentações e dúvidas, não causa, ou não deve causar, dúvida
quando à justiça completa e suficiente de Cristo.

Por fim, ambos concordam com a necessidade de uma luta incessante contra o pecado e uma
mortificação diária da carne, e Lutero leva essa “boa luta da fé” tão a sério quanto Agostinho,
porém para Lutero, ser livre da aflição dessa necessidade de avaliar seu crescimento em santidade
é essencial para que avance nessa luta.

Enfim, Agostinho pertencia a fé católica e, embora o Igreja Romana tenha modificado sua
doutrina da justificação em diversos pontos, ela ainda é basicamente agostiniana. Os católicos
ainda concordam com Agostinho que a justificação é a renovação do homem pela graça que os
habilita a tornarem-se justos ao fazerem boas obras em amor. Por mais que haja similaridades entre
Agostinho e Lutero, é preciso notar que há um profundo abismo entre seus ensinos sobre a
justificação e não se trata de uma mudança de ênfase apenas. Falar do conceito luterano de
justificação não é apenas falar de justificação pela graça por meio da fé por causa de Cristo e da
não-imputação de pecados. Essas frases também casam com a visão agostiniana. Temos de falar
no conceito da natureza e conteúdo da justificação, o que os difere de fato.

3 - A Descoberta de Lutero na Torre: o próprio testemunho de Lutero


No prefácio a edição de Wittenberg de 1545, Lutero escreveu ao tratar sobre a sua batalha,
a qual começou com a publicação das 95 teses em 31/10/1517: “E aqui você vê no meu próprio
caso como é difícil ficar livre de erros, os quais foram estabelecidos, constantemente usados,
tornaram-se uma segunda natureza... Neste período, eu já tinha lido e ensinado as Escrituras
Sagradas por sete anos com grande diligência, tanto em particular como em público. Eu sabia a
maior parte da Escritura de cor, mais ainda, eu já tinha experimentado os primeiros frutos do
conhecimento e da fé em Cristo, a saber, que nós somos justificados não por obras, mas pela fé em
Cristo (primitias cognitionis et fidei Christi hauseram, scilicet, non operibus, sed fide Christi nos
iustos et salvos fieri). Finalmente – e disso que falo agora – eu já defendia publicamente a opinião
de que o Papa não é a cabeça da igreja por direito divino...”
Depois, Lutero continua escrevendo sobre as suas negociações com Karl von Miltitz (Jan,
1519), sua disputa com Johann Eck in Leipzig (final de junho e início de julho de 1519) e a
miserável morte de Tetzel no mesmo ano.
Então, Lutero diz que passou a expor o saltério, confiante de que, depois do tratado
acadêmico sobre a epístola aos Romanos, Gálatas e Hebreus, ele estaria mais treinado. Ele comenta
que tinha um ardente desejo de entender a carta aos Romanos, mas a frase “a Justiça de Deus é
revelada nisso” o incomodava, ele odiava as palavras “Justiça de Deus”, pois o haviam ensinado
que essa era uma justiça ativa que punia os pecadores. Ele continua dizendo que, como monge, ele
vivia uma vida irrepreensível, mas sempre se sentia um pecador diante de Deus e, assim, acontecia
uma batalha dentro da consciência dele, mas Lutero queria entender a mente do apóstolo para
conseguir entender o significado dessas palavras.
“Dia e noite eu meditava sobre estas palavras: ‘a justiça de Deus é revelada nisto: o justo
viverá por fé’. E, finalmente, Deus teve piedade de mim, e eu comecei a entender a Justiça de Deus
que é um dom de Deus pelo qual o homem justo vive, a saber, a fé, e essa sentença: a justiça de
Deus é revelada no Evangelho, é passiva, indicando que a misericórdia de Deus nos justifica pela
fé, como está escrito: ‘o justo viverá por fé’”.
Neste momento Lutero se sentiu como se tivesse renascido e entrasse no paraíso. Assim, a
expressão que ele tanto odiava, agora passou a ser uma palavra agradável e amorosa. E Lutero diz:
“Essa passagem de Paulo se tornou o verdadeiro portão para o Paraíso. Depois disso, eu li o tratado
de Agostinho sobre o Espírito e a Letra, e, ao contrário da minha expectativa, eu descobri uma
interpretação similar da justiça de Deus: que com ela nós somos dotados quando Deus nos justifica.
Embora, até agora, isso era imperfeitamente explicado, pois ele não expôs claramente tudo sobre
a imputação, mas, mesmo assim, parecia ensinar a justiça de Deus pela qual nós somos
justificados”.
As conversas à mesa também contêm importantes relatos sobre a sua descoberta do
verdadeiro sentido de Rm 1.17.
Mas para não se tornar repetitivo, vou apenas mencionar que Lutero fala basicamente a
mesma coisa, que as palavras justo e justiça de Deus atacavam a consciência dele, mas quando ele
estava meditando na torre Deus foi gracioso com ele e ele entendeu que a justiça não é nosso
mérito, mas é misericórdia de Deus. Assim, Lutero diz: “através dessas palavras, o Espírito Santo
me iluminou na torre”.
Lutero também diz: “Graças a Deus, quando eu entendi a questão e aprendi que a justiça de
Deus significa a justiça pela qual ele nos justifica, a justiça outorgada como um dom gratuito em
Jesus Cristo, a gramática tornou-se clara e os Salmos mais a meu gosto”.
Mas, mais significativo que isso é a história de Lutero, na qual ele relata o mesmo evento
de um diferente ponto de vista. Lutero diz que: “passou a distinguir entre a Lei e o Evangelho. Até
agora, me faltava uma distinção apropriada entre Lei e Evangelho. Eu considerava ambos iguais,
e Cristo diferenciava de Moisés apenas em tempo e perfeição. Foi assim quando eu descobri a
diferença entre a Lei e o Evangelho, que são duas coisas separadas, e eu passei a ver claramente”.
A partir destes testemunhos de Lutero, nos deparamos com a pergunta a respeito da data
desta descoberta. Muitos teólogos modernos tentaram solucionar o problema, porém não ocorreu
nenhum esforço sério para verificar o sentido e o conteúdo desta descoberta da torre, assim todas
as tentativas eram defeituosas desde o início. Só para entenderem, era comum assumir que para
Lutero era uma questão simples de se a “Justiça de Deus” era Sua justiça retributiva, a qual
considera os méritos dos homens, ou Sua graça, pela qual Ele faz justo o homem que é pecador.
O problema é que não é tão simples, o cristianismo católico contém elementos que,
aparentemente, concordam com a concepção evangélica que Lutero descobriu. Por isso, é
necessário distinguir estes elementos daqueles que são novos e característicos da visão evangélica
de Lutero.
Nossa primeira questão é de determinar como a passagem de Rm 1.17 era explicada antes
da descoberta de Lutero.
É um fato estabelecido que os professores da Igreja interpretavam esta sentença de Paulo,
não como a Justiça “ativa” de Deus pela qual ele punia os pecadores e injustos, mas, como
Agostinho a explicava: a graça a qual Deus concede e pela qual ele faz o homem justo.
Outro influente exegeta era Ambrósio, que explicava essa passagem desta maneira: Deus
misericordiosamente recebe aqueles que vão até Ele procurando refúgio, porque Ele é justo em
manter as Suas promessas.
Deste modo, a exegese predominante combinou essas duas interpretações de uma maneira
ou outra.
Assim, nós seguramente podemos assumir que Lutero já era desde cedo familiarizado com
esta interpretação. Ele apresenta a visão agostiniana em todos seus escritos que datam do início do
seu período de vida.
Então o pesquisador deve presumir que Lutero se enganou quando fez a sua descoberta?
Bem, na realidade, o autor nos diz que nós acreditamos que a chave para a correta interpretação
da descoberta da torre é o fato de que Lutero já era familiarizado com a explicação de Rm 1.17 de
que a “Justiça de Deus” significa a Justiça pela qual Deus faz o homem justo.
Como Lutero diz no seu testemunho de 1545 que ele já tinha há muito tempo esse
conhecimento (insight) evangélico da justificação. O detalhe é que ele não concordava com a
concepção de que a justificação era um processo de cura gradual com a não-imputação de pecados
como suplemento. Assim, Lutero diz que o homem é justo, na visão de Deus, porque Cristo
cumpriu a Lei para ele e, portanto, Deus imputa as “boas obras” de Cristo para ele como sendo sua
Justiça. E a renovação é um fruto da fé justificadora.
Infelizmente, o autor nos diz que muitos estudiosos de sua época defendiam que a descoberta
da torre, era a descoberta de uma interpretação muito comum a quase todos os professores, a saber,
aquela interpretação agostiniana-católica de que Deus justifica o pecador criando uma nova
vontade nele e, assim, ele é capaz de cumprir a Lei. Mas esse posicionamento a respeito de Lutero
não passa do resultado de uma pesquisa não científica. Somente uma interpretação é possível,
Lutero pretende dizer que nessa “experiência da torre”, ele descobriu a ideia central da justificação.
Assim, ele adquiriu as ferramentas para interpretar as Escrituras de uma maneira evangélica.
Como já mencionamos antes nos escritos do próprio Lutero, ele diz: “Então eu comecei a
entender a justiça de Deus como sendo aquela pela qual o homem justo vive através do dom de
Deus, a saber, pela fé, e que essa sentença ‘a justiça de Deus é revelada através do Evangelho’ é
passiva. Desse modo, o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: "o justo viverá
por fé".
Assim, esse dom de Deus e a Justiça passiva, significam, na boca do Lutero velho, a doada,
imputada justiça de Cristo, a qual ele tanto fala no seu comentário aos Gálatas e isso também fica
evidente numa conversa à mesa quando ele declara que a justiça a qual Paulo fala em Rm 1.17:
“não é nosso mérito, mas misericórdia de Deus ... pela qual nós somos justificados e salvos através
de Cristo”. Isto é “essa justiça pela qual Ele nos Justifica por meio da justiça dada a nós como um
dom gratuito em Jesus Cristo,” “e a misericórdia de Deus, pela qual ele mesmo nos justifica dando
a sua graça para nós”.
Assim, percebe-se que a descoberta da torre abriu os olhos de Lutero para a correta distinção
entre Lei e Evangelho. Novamente, alguns pesquisadores tentam dizer que essa citação se refere a
visão agostiniana, mas não é possível dizer isso, pois ela foi escrita depois que Lutero já
considerava a posição agostiniana falsa. Lutero ainda escreveu sobre Agostinho como mencionado
antes: “Embora... ele não expôs claramente tudo a respeito da imputação, ele, no entanto, parece
ensinar a Justiça de Deus pela qual nós somos justificados”. Portanto, de acordo com essas
palavras, o ponto crucial da descoberta de Lutero foi a doutrina da imputação de Justiça. Segundo
Lutero, era isso que faltava de clareza no ensinamento de Agostinho. Agora Lutero via essa
doutrina à luz das Escrituras: que nós somos justificados pela Justiça imputada de Cristo.
Assim, a partir disso, Lutero se sentiu muito alegre, sentia-se como se tivesse entrado no
paraíso e podia descansar confiante no trabalho terminado e na Justiça de Cristo. O que não ocorria
antes quando Lutero estava preso ao pensamento agostiniano-católico, que o levava a uma “justiça
ativa” diante de Deus.
Portanto, a luz de tudo o que foi dito, antes da descoberta da torre não faltava nada para
Lutero exceto um entendimento da verdadeira distinção entre Lei e Evangelho, e as palavras de
Paulo em Rm. 1.17 foram a chave para tal entendimento. Assim, a experiência da torre não foi o
início, mas o relativo fim do seu desenvolvimento que abriu para ele o conhecimento evangélico
da justificação.
Resumindo o capítulo:
1 - A “Experiência da Torre” foi a descoberta da ideia central da reforma, a qual Deus
justifica o pecador graciosamente imputando, ou avaliando, os méritos de Cristo para ele como
sua justiça. Justificação não é uma mudança no homem, mas a graciosa declaração de Deus, pela
qual Ele pronuncia justo o pecador que, por si próprio, não é justo.
2 – Por outro ponto de vista, a descoberta foi a distinção “luterana” entre Lei e Evangelho.
3 – A “Experiência da Torre” não foi a conversão de Lutero. Ela foi a última descoberta
exegética-religiosa do caminho evangélico da salvação. Dizemos exegético-religioso, pois, ao
mesmo tempo, que se descobriu a verdadeira interpretação das Escrituras, isso foi uma resposta
para um profundo anseio espiritual pessoal, que resultou na obtenção de uma mais profunda certeza
da salvação ou justificação.
7 – O conceito de Lutero sobre Justificação entre 1517 e 1518
Após as preleções de Romanos, Lutero lecionou sobre Gálatas (até março de 1517) e sobre
Hebreus (de março de 1517 até março de 1518). Suas preleções de Gálatas não trouxeram nada de
novo quanto à justificação, como também nas de Hebreus ele demonstrou ter as mesmas visões já
expressadas. Seu entendimento de justificação então era o seguinte: “Cristãos são justos, santos e
livres do pecado, não porque o sejam, mas porque começaram a ser e se tornarão assim por meio
de constante crescimento”.
Alguns meses antes da publicação das 95 testes, mais ou menos quando começou suas
preleções sobre Hebreus, Lutero publicou seu primeiro livro: a explicação dos “Sete Salmos
Penitenciais”, que viria a se tornar um dos meios de transmitir o pensamento religioso de Lutero
entre o povo alemão no despontar da Reforma. Mas neste livro vemos os mesmos entendimento
de uma graça renovadora que significa um processo gradual de purificação. Quanto à justiça, ele
a define como dom gracioso de Deus que não depende de mérito humano, mas tem e mente uma
justificação vinda da graça renovadora: “Aquele que Tu não justificas não se tornará justo por
meio de suas obras”.
Nesse período, portanto, Lutero ainda entendia a justificação como uma renovação e
purificação gradual do pecado e não como a imputação da justiça de Cristo. Contudo, o período
marca também um importante desenvolvimento no pensamento teológico de Lutero. Entre 1516-
17, ele rejeitou a teoria Católica-Agostiniana dos quatro sentidos da Escritura e passou a interpretá-
la de acordo com seu sentido literal.
No final de Abril de 1518, os Agostinianos Alemães realizaram uma convenção em
Heidelberg e Lutero preparou um certo número de teses para os debates desta convenção. Estas
teses também revelam um pouco do conceito de justificação de Lutero a esta altura. O principal
interesse de Lutero nesses debates era destruir toda forma de justiça e confiança baseada nas obras,
para que o homem possa entender que a salvação é somente pela graça. Seus pensamentos ali
harmonizam com sua doutrina final de salvação. Porém, Lutero continua entendendo a justificação
como uma renovação. A graça efetua no homem o espírito disposto que a Lei exige. Esses debates
revelam um Lutero que conhece ainda apenas a segunda parte da obra de Deus: a renovação pelo
“dom da graça” e o perdão como seu complemento. Para Saarnivaara, o conceito de justificação
de Lutero na primavera de 1518, portanto, ainda é o agostiniano.

8 - Luther’s “Tower Experience” at the End of the Year 1518


1 Sermão sobre a Justiça Tripla
1.1 Introdução:
Foi, provavelmente, no final de 1518 que Lutero publicou seu “Sermão sobre a Justiça
Tripla” (Sermo de triplici iustitia), onde ele distingue três formas de pecado e,
correspondentemente, três tipos de justiça.
1.2 O primeiro tipo de pecado e justiça:
É o pecado e justiça de acordo com as leis civis. Com sua motivação em medo de punição
e amor ao prazer, não é justiça cristã, mas justiça de judeus e gentios.
1.3 O segundo tipo de pecado e justiça:
O autor usa algumas citações de Lutero para argumentar:
“O segundo pecado é essencial, inato, original, alheio, sobre o qual o Salmo 51 diz: ‘Eu
nasci na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe.’
“A justiça que corresponde a isso é, de uma maneira similar, inata, essencial, original,
alheia – a qual é a justiça de Cristo; Romanos 5: ‘Por meio do ato de justiça de um só para todos
os homens, para justificação da vida, e através da obediência de um, muitos serão feitos justos.’
“Ela se torna nossa através da fé. Romanos 1: ‘Os justos viverão por fé,’ e Romanos 10:
‘Com o coração o homem crê na justiça.’ É o que o evangelho devidamente proclama. Não é a
justiça da lei, mas a justiça da graça.
O autor ainda diz que Lutero cita o apóstolo Paulo ensinando em Romanos 5 que Adão é
uma figura do messias que viria; e que da mesma maneira que Adão fez todos os que nasceram
dele culpados pelo pecado que ele cometeu, assim também Cristo torna justos e salva, por sua
própria justiça, todos os que nasceram dEle. Portanto, da mesma forma que o pecado de Adão é
alheio para seus descendentes, assim também a justiça de Cristo é alheia para os nascidos dEle.
Como somos condenados por causa de um pecado alheio, também podemos ser salvos por causa
de uma justiça alheia.
1.4 O terceiro tipo de pecado e justiça:
“O terceiro é o pecado real, o qual é fruto do pecado original. Estes são os pecados
propriamente ditos, a saber, todas as obras que realizamos, mesmo as obras de justiça que
realizamos anteriormente à fé...”. “A justiça que corresponde a isto é a justiça real, fluindo da fé e
da justiça essencial...”
Resumo comparativo de cada pecado e justiça correspondente:
1. O pecado original, essencial, inato e alheio é 1. Justiça original, essencial, inata é recebida
recebido no nascimento natural, sem nossa no nascer de novo, sem nossa própria
própria atividade. atividade.
2. Por seu único pecado, Adão tornou todos seus 2. Por sua própria justiça, Cristo, o segundo
descendentes culpados e deu a eles o que ele Adão, tornou justos e salvos todos os que são
teve. nascidos dele, sem seus próprios méritos.
3. Nós somos condenados por causa de um 3. Nós somos salvos por causa de uma justiça
pecado alheio. alheia.
4. O pecado essencial, herdado de Adão, nunca 4. A justiça essencial, herdada de Cristo, é
cessa, causando uma culpa contínua. eterna, nunca cessa, porque Cristo é eterno.
5. O pecado original é de fora e, portanto, 5. A justiça “original” é de fora e, portanto,
“alienígena”, isto é, o pecado de Adão imputado “alienígena”, isto é, a justiça de Cristo a nós
a nós. imputada.
6. O pecado original é nosso “lote”, nossa 6. A justiça de Cristo é o nosso novo “lote”,
“propriedade” do mal e a vergonha eterna. nosso novo capital abençoado e glória eterna.
7. O pecado real é fruto do pecado original, o 7. A justiça real da vida e das obras é fruto da
qual é sua fonte. justiça original ou essencial, a qual é a sua
fonte.
8. Ações más não causam o pecado original, 8. Boas ações não causam a justiça original,
nem podem destruí-lo as boas obras. O pecado nem podem as más obras destruí-la. A justiça
original é anterior e independente de todas as original é anterior e independente de todas as
obras. Ele permanece enquanto a incredulidade obras. Permanece enquanto a fé em Cristo
permanece, o que torna todas as ações permanecer, cuja justiça dá o seu valor às
pecaminosas e desencadeia o valor das boas boas obras e apaga obras malignas.
obras, independentemente do seu valor externo.
Saarnivaara menciona que a concepção de justificação estabelecida por Lutero neste
sermão está em perfeita harmonia com a doutrina da Reforma. Não mais compatível com a visão
agostiniana Lutero ensina que o homem é justificado através da eterna justiça de Cristo e não
através de uma renovação ou tornando-se justo através de obras da graça (“working of grace”?).
A ênfase é colocada na obra de Cristo para os pecadores. Nele, os crentes possuem uma justiça
adequada. A justiça “real” da vida e das obras é fruto da justificação pela fé.
Nesse momento Lutero baseia-se inteiramente na justiça de Cristo. Possui um tom
completamente novo em sua vida, um tom de confiança e coragem. Ele está hábil a acreditar
confiantemente que a graça é realmente sua e que ele já está justificado diante de Deus através do
mérito de Cristo.

2. Sermão sobre a Justiça Dupla

2.1 Introdução:
Pouco tempo depois do sermão acima mencionado, Lutero publicou o seu “Sermão sobre
a Justiça Dupla”, contendo uma expressão ainda mais clara sobre sua nova visão, onde menciona:
“A justiça dos cristãos” é dupla, assim como o pecado dos homens é duplo.

2.2 A Justiça Alheia

“A primeira é a alheia... por ela, Cristo é justo e nos justifica por meio da fé, 1 Co 1: ‘Mas
vocês são dele, em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça,
santificação e redenção.’... Esta justiça é concedida aos homens no batismo e cada vez que se
arrependem verdadeiramente, para que o homem possa gloriar em Cristo e dizer: ‘Tudo que Cristo
realizou por sua obra e sua Palavra, todas as bênçãos do seu sofrimento e morte são minhas, como
se eu as tivesse realizado, vivido, agido, falado, sofrido e morrido.

Assim, Lutero explica que o Salmo 30 (“Em ti, ó Senhor, eu confio; nunca serei
envergonhado; entregue-me na sua justiça.”) é entendido de modo que o salmista não diz “em
minha”, mas “em tua”, na justiça de Cristo. Assim sendo, o apóstolo ousa dizer em Efésios 3: “Que
Cristo possa habitar em seus corações através da fé.”

Lutero ainda explica que essa justiça alheia é derramada sobre nós sem as nossas obras,
ou seja, sem nossa participação, unicamente através da graça; e que é contra o pecado original,
este que é tanto alheio quanto inato, entrando em nós sem as nossas obras, apenas através do
nascimento.

2.2 A Justiça Própria

Ainda ensina no sermão que a segunda justiça é a nossa própria. Não de forma como se
nós a realizássemos sozinhos, mas que nós cooperamos com essa primeira justiça alheia. Citando
a continuação do parágrafo: “Esta é a boa conduta em boas obras, primeiro na mortificação da
carne e na crucificação dos desejos malignos... segundo, também, no amor para com nosso
próximo, e, terceiro, em humildade e temor a Deus...” (o ser humano apenas pode realizar essa
mortificação da carne e crucificação dos desejos malignos por causa, primeiro, da ação do Espírito
Santo, em que Cristo nos imputa a justiça dele)

Lutero cita que “Essa justiça é obra da primeira justiça, é fruto e efeito...”

E ainda: “Este é o Evangelho e o exemplo de Cristo.”

3. Distinção dos Tipos de Justiça:


Saarnivaara menciona que os pensamentos principais do primeiro sermão estão repetidos
aqui, mas a distinção entre a justiça da fé e a justiça da vida estão mais claramente expressos.
Ele destaca que vários pontos principais merecem atenção especial:

1. Cristo e sua obra da manjedoura até o calvário é a justiça dos crentes. Todos os pecados
são apagados em um instante através dessa justiça infinita. Como uma justiça infinita é a posse
dos homens completamente e imediatamente através da fé.

2. A segunda justiça é a renovação do homem através de um processo gradual de


progresso e crescimento. Segue a primeira justiça como seu fruto e efeito. Essa renovação em
conformidade com a imagem de Cristo não é resultado de um momento. A mortificação da carne
é gradual, e os frutos do novo homem espiritual aumentam pela obra de Cristo nele.

3. Nos dois sermões Lutero faz referência ao Salmo 31.2 e Rm 1.17. Ele dá atenção
especial em seu último sermão ao Salmo 31.2. “É, portanto”, diz ele, “que para entendermos o
Salmo 30.” Essas palavras parecem indicar que Lutero agora descobriu o correto entendimento
dessa passagem. Usando palavras praticamente idênticas a estas no seu Prefácio de 1545 ele
explica que essa “Justiça de Deus” é a justiça de Cristo. É concedida ao pecador através da fé em
Cristo. – É muitas vezes chamado nos Salmos de obra do Senhor, misericórdia de Deus, poder,
verdade e justiça. Lutero afirma expressamente que essa justiça, obra, misericórdia e verdade de
Deus não é a “segunda” justiça ou a renovação gradual do homem, no coração e vida, na imagem
de Cristo. É a “primeira” ou a justiça “alheia” que é concedida aos pecadores completa e
imediatamente. Isso significa que a culpa do pecado é apagada através do perdão dos pecados. A
justiça de Cristo, apreendida pela fé, cobre todos os pecados. Assim o homem torna-se de Cristo,
e Cristo dele. Ele é um filho de Deus e herdeiro da vida eterna.

A segunda justiça é a remoção gradual da corrupção pelo poder de Cristo e seu


Espírito. O homem não é justificado diante de Deus por sua renovação, e ele não se torna filho de
Deus, mas já sendo de Cristo, ele segue a Cristo e é gradualmente conformado à imagem de Cristo.

4. Os dois sermões sãos caracterizados por um forte tom de segurança e alegria de


salvação, que os distingue de suas preleções e escritos anteriores – embora isso não estivesse
completamente ausente também nesses escritos.

Na época em que Lutero publicou esses sermões, ele estava, também, entrando no seu
segundo curso de preleções sobre os Salmos. Ele iniciou suas preleções reais no início de 1519.
No entanto, ele deve ter começado sua preparação logo após ter terminado suas preleções sobre
Hebreus (27 de março de 1518). Uma vez que a extensa explicação dos primeiros cinco salmos foi
impressa, em 22 de março de 1519, ele deve ter começado a trabalhar neles até o final do verão de
1518.

Lutero fala muito pouco sobre justiça nos Salmos 1-22, porque não teve oportunidade de
debruçar-se sobre o assunto em grande medida. Das suas poucas afirmações sobre justificação, as
mais importante são encontradas na sua explanação do Salmo 5.9: “Conduza-me, ó Senhor, em
sua justiça, por causa dos meus inimigos.” Na primeira edição dessas preleções, publicada em 22
de março de 1519, Lutero comenta como segue resumidamente:

A justiça de Deus deve ser entendida não de acordo com a opinião popular, de que Deus
é justo e assim julga os ímpios, mas como Santo Agostinho em seu tratado, “On the Spirit and the
Letter”, que Deus é justo e, assim, justifica o homem, ou seja, por essa misericórdia ou graça
justificadora, somos considerados justos diante de Deus. Lutero cita Paulo em Rm 3 para
exemplificar: “Mas, agora, sem lei, a justiça de Deus se manifestou, sendo testemunhada pela Lei
e pelos Profetas.” É chamado tanto de a justiça de Deus quanto de a nossa justiça, porque é
concedido a nós por sua graça, da mesma maneira que é a obra de Deus, que opera em nós, a
Palavra de Deus que nos é falada, a virtude de Deus que é forjada em nós por ele, e assim por
diante.

Saarnivara menciona que a concepção de justificação contidas nestas afirmações de


Lutero estão completamente de acordo com a doutrina do evangelho; a justiça de Deus, ou de
Cristo, é concedida ao homem pecador como presente gratuito, e assim ele é reconhecido ou
imputado justo diante de Deus.

O livreto de Lutero intitulado de “Fourteen Consolations for Them Who Labor and Are
Heavy Laden”, no último capítulo, se encontra a “música das músicas” sobre justificação e
salvação, de acordo com Saarnivara, que faz seis citações e que são expressas a seguir:

“Aqui não há nada do mal, pois Cristo, ressuscitado dentre os mortos, não morre mais; A
morte não tem mais domínio sobre ele... mas o que é que Ele forjou através de Sua ressurreição?
Ele destruiu o pecado e levou a justiça à luz, aboliu a morte e restaurou a vida, conquistou o inferno
e nos concedeu a glória eterna.”

“Todas essas são essas bênçãos inestimavelmente preciosas que a mente do homem ousa
apenas acreditar que lhe foram dadas, como foi com Jacó, que, como está relatado em Gênesis 45,
quando soube que seu filho José era governante no Egito, foi como um despertar de um sono
profundo.”

Lutero menciona que em 1 Co 1, Paulo diz que, apesar de pecador, ele é atraído pela
justiça de Cristo, que lhe foi dada. Diz que mereceu a condenação, mas que foi libertado pela
redenção de Cristo. Assim, um cristão, se ele crê, pode se vangloriar dos méritos de Cristo, e suas
bênçãos (de Cristo), como se ele mesmo tivesse cumprido todos eles (os méritos).

“Assim sendo, como é impossível que Cristo com sua justiça não agrade a Deus, então
também é impossível que nós não o agrademos através da nossa fé, que se apega a sua justiça. Daí
resulta que um cristão é inteiramente sem pecado. E mesmo que ele tenha pecados, eles não o
podem prejudicar, mas são perdoados por causa da inesgotável justiça de Cristo, que engole todo
o pecado e em que nossa fé se baseia.”

“Esta imagem seria suficiente em si mesma para nos encher com tanto conforto que não
somente tornaria desnecessário lamentar nossos males, como também deveria ser possível nos
gloriarmos em meio as nossas tribulações. Na verdade, dificilmente sentiríamos os males, por
causa da alegria que temos em Cristo.”
Alguns dos pensamentos expressados acima por Lutero, desejamos observar com ênfase
especial.
Algo grande e decisivo aconteceu na vida espiritual de Lutero e em sua compreensão da
justificação. Isso é bastante evidente. O outono ou o início do inverno de 1518 o levaram a uma
nova fase em seu desenvolvimento, à posse da visão da Reforma sobre a justificação. O período
agostiniano de sua peregrinação foi passado. A justificação, em seu sentido primário, já não era
um processo de tornar-se justo. Em vez disso, foi a apropriação imediata da justiça de Cristo.
Verdade, Lutero nunca entregou a visão de que o homem nunca deixa de ser um pecador, que os
restos do pecado podem ser removidos apenas gradualmente, e que, por causa de Cristo, Deus não
imputa esse pecado que permanece como culpa; Mas tudo isso que ele agora viu como parte da
santificação e não da justificação.

Nosso estudo sobre os relatos de Lutero sobre seu desenvolvimento espiritual e teológico
revelou que foi a concepção de justificação da Reforma que Lutero descobriu na torre do
mosteiro de Wittenberg e não a visão agostiniano-católica, que ele conhecia há muito tempo.
Outras investigações tornaram evidente que essa visão evangélica aparece pela primeira vez nos
escritos de Lutero durante o outono e inverno de 1518-19. A única conclusão possível é que a data
desta descoberta em seu prefácio de 1545 está correta.

O autor realizou algumas observações comparando escritos de Lutero a partir do outono e


inverno de 1518-19 com escritos de 1545 para confirmar a ideia de que Lutero já possuía, em
1518-19, a mesma visão sobre justificação e santificação que ele possuía em 1545. São várias
observações históricas que ele realiza e que serão disponibilizadas em um arquivo.

Conclusão
Quando Lutero entrou no mosteiro, ele sofreu duas grandes crises. A primeira foi sua
conversão, ou quando ele começou a ter uma fé pessoal na remissão de pecados em Cristo. O
problema que ele tinha com isso era a questão de como obter a certeza do perdão de Deus, ou seja,
como estar certo de que Deus verdadeiramente perdoou os pecados quando a absolvição era
proclamada. Através dos conselhos de Staupitz, Lutero ganhou o certo entendimento nas questões
de arrependimento, absolvição e predestinação. E assim, a “luz do evangelho começou a brilhar
no seu coração”, e ele “comeu os primeiros frutos da fé e do conhecimento de Cristo”, como Lutero
relata.

Embora, Lutero possuía a fé salvadora em 1512, a sua concepção de justificação não estava
completa. Então, o autor chama o período do outono de 1512 até o verão de 1518 de o “período
crepuscular da reforma”. Os primeiros raios do sol da graça e justiça já estavam iluminando o céu
na vida espiritual de Lutero, mas a verdadeira aurora ainda não tinha tomado o lugar. A luz
completa do conhecimento evangélico da justificação ainda não tinha alcançado a sua alma.

A segunda grande crise, a verdadeira aurora, no desenvolvimento de Lutero, foi a sua


experiência da torre, que ocorreu no final do ano de 1518. E ela resultou, ou consiste, da descoberta
do evangelho ou o conhecimento da reforma a respeito da justificação. Desse modo, vimos que há
dois grupos de documentos históricos que nos dão evidências dessa mudança: o prefácio de Lutero
às suas obras de 1545, as declarações encontradas nas “conversas à mesa”; e o segundo grupo são
as preleções e os escritos dele. Todos estes documentos, testificam que a descoberta ocorreu no
final de 1518, e este ano marca o início da reforma no seu sentido mais profundo, com o seu lema
da justificação pela graciosa imputação de Deus apropriada através da fé.

Entretanto, a descoberta da torre não significou que Lutero jogou todos as suas visões fora,
pois muitas de suas concepções pré-reformatórias, eram perfeitamente Escriturísticas. A diferença
básica entre as doutrinas pré-reformatórias e sua doutrina da reforma sobre a salvação é encontrada
na concepção da natureza e essência da justificação. Assim, a justificação pela fé não é um
processo gradual de renovação ou de se tornar justo, mas é a justiça de Cristo outorgada pela
imputação de Deus ao ser humano, Deus justifica o pecador perdoando os seus pecados e o
considerando inocente e sem culpa pela obra expiatória de Cristo. O fundamento da justificação e
o objeto da fé do crente está no que Cristo fez para ele. Então, na conversão o homem recebe o
Espírito Santo, o qual faz morada no coração dele e, assim, renovando o seu coração e a sua vida.

Lutero não se tornou um reformador por causa da sua conversão, ou pela sua fé pessoal em
Cristo, nem meramente por causa da sua experiência religiosa. Mas ele se tornou um reformador
por descobrir o verdadeiro sentido da Palavra escrita de Deus, particularmente na Palavra a respeito
da justificação. É verdade que sua descoberta da torre também foi uma profunda experiência
religiosa, pela qual ele encontrou paz, até então desconhecida. Mas, o que ele sentiu e
experimentou, não foi o ponto central ou principal. Este ponto foi a descoberta Escriturística do
caminho da salvação, especialmente da justificação.

A descoberta de Lutero traz dois princípios da Reforma: que a Escritura é a Palavra revelada
e inspirada de Deus, sendo o único padrão e norma da fé e da vida Cristã; e que o pecador é
justificado somente pela graça através da fé em Cristo. E essa descoberta, ou redescoberta, é o que
os apóstolos de Cristo proclamavam, mas que acabou sendo escondido pelos entendimentos
errados e doutrinas falsas.

Por fim, o autor diz que há uma grande diferença nos primeiros escritos de Lutero se
comparado com os escritos posteriores. Assim é importante fazer a distinção entre o Lutero novo
e o Lutero velho, e os escritos próprios da Reforma ou verdadeiramente Luteranos são aqueles que
foram escritos após 1518.