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Texto de Fundamentos do Evolucionismo: MAUSS, M.

Segunda Parte – O ensaio sobre a


dádiva: Formas e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: ______. Sociologia e
antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003, p. 183 – 210. [Coletânea organizada do texto:
Ensaio Sobre a Dádiva, escrito em 1925]

Introdução: Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir presentes

EPÍGRAFE

Algumas estrofes do Havamál, um velho poema Eda escandinavo, é muito


esclarecedor para ilustrar o nosso trabalho:

39 – Jamais encontrei homem tão generoso e se queres obter um bom resultado,


e tão pródigo em alimentar seus hóspedes
convém misturar tua alma à dele
(…)
que receber em troca lhe fosse desagradável. e trocar presentes…

44 – Mas se tens um outro


de quem desconfias
41 – (…)
(…)
Os que se dão mutuamente presentes convém dizer-lhe belas palavras
(…)
são amigos por mais tempo
e retribuir fraude por mentira.
se as coisas conseguem se encaminhar bem.
145 – Mais vale não rezar (pedir)
do que sacrificar demais (aos deuses):
43 – (…) se tens um amigo em quem confias Um presente dado espera sempre um presente
de volta…

PROGRAMA

Na civilização escandinava, como em várias outras, as trocas e contratos são


estabelecidos através de presentes voluntários, os quais na verdade, são dados e retribuídos
obrigatoriamente. Este trabalho é um fragmento de um estudo mais vasto, cujo foco são os
regimes contratuais e os sistemas de prestações econômicas das sociedades ditas primitivas ou
arcaicas, nas quais existe uma extensa gama de fatos complexos e abrangentes da vida social
dos seus nativos. Esses fenômenos sociais totais (se assim podemos nomeá-los) abarcam, de
uma só vez, as diversas instituições nativas, que atuam nos âmbitos da religião, do direito, da
moral, da política, da família e da economia. Entretanto, em meio a essa multiplicidade de
instituições permeadas pelo fenômeno total da dádiva, iremos focar-nos apenas naquilo que
concerne ao seu caráter aparentemente voluntário, livre e gratuito, o qual, concomitantemente,
expressa-se de modo interessado, obrigatório e caro. Logo, ela assume, quase sempre, uma
postura de presente generoso, mesmo quando torna-se evidente para nós o fato disso ser um
formalismo, ou melhor, uma mentira social, velando a verdadeira obrigatoriedade dos
interesses econômicos, os quais manifestam-se por trás da troca. Três importantes questões
torna-se crucias a nossa pesquisa nesse momento: Primeiro, entender qual o fundamento
jurídico que fundamenta a retribuição do presente nas sociedades “primitivas”; Segundo,
descobrir qual a força social existente no presente capaz de tornar obrigatório a sua
retribuição e; enfim, questionar-nos-emos sobre o fato do Direito Real, ainda hoje, estar
influenciado pelas decisões do nosso Direito Pessoal (lê-se interesse pessoais).
Nesse sentido, podemos atingir um duplo objetivo: Primeiramente, adquiriremos mais
conhecimento sobre a natureza e o fundamento das sociedades que nos antecederam; em
seguida, observaremos a expressão do mercado antes mesmo do seu próprio advento (do
engendro da Mercadoria, da Moeda, ou seja, das instituições de compra e venda helênicas),
em outras palavras, mergulharemos em reflexões acerca de relações sociais de trocas muitos
distintas das nossas. Portando, tendo em vista o fato dessas formas econômicas e morais
“primitivas” existirem atualmente, mas de forma subjacente, em nossa sociedade, podemos
afirmar que o seu estudo pode ajudar-nos a refletir sobre a crise econômica, na qual estamos
afundados1. No final das contas, nosso ensaio propõem um olhar diferente para as velhas
questões que inquietam a humanidade há muito tempo.

MÉTODO SEGUIDO

Seguimos um método de comparação preciso, isto é, restringimos um tema e um lugar


a serem estudados, em nosso caso: A temática refere-se ao estudo do Direito dos povos da
Polinésia2, Melanésia, e daqueles que habitam o Noroeste Norte Americano. Nós apenas
trabalhamos com os documentos e informações originalmente nativos, os quais possam
expressar com fidelidade a consciência3 de suas sociedades. Dessa forma, acabamos
rejeitando toda e qualquer comparação constante, as quais mesclam diversas instituições,
perdendo assim a cor local4.
1
Mauss está se referindo a Crise de 1929, cujo emblema foi a quebra da bolsa de Nova Iorque, a qual afetou o
mundo inteiro de inúmeras formas distintas, transcendendo as influências de segunda ordem, ou melhor
meramente financeiras.
2
A região da Polinésia e da Melanésia situa-se no noroeste da Oceania.
3
A reflexão sobre as consciências coletivas é um aspecto marcante do pensamento sociológico francês.
4
Imaginamos que Mauss pretendeu elaborar uma forma de pensar crítico ao método comparativo (tão aclamado
pela antropologia evolucionista do século XIX). No entanto, indiretamente, a sua pesquisa, bem como, toda a
antropologia que orbita sobre o pensamento dele e do seu tio Èmile Durkheim, culminaram em uma espécie de
evolucionismo lógico. Isso significa levar a cabo uma espécie de pesquisa das sociedades ditas simples, com
PRESTAÇÃO, DÁDIVA E POTLATCH

O termo Economia natural5 não se aplica, em nenhum sentido, tanto às sociedades


antigas quanto às mais recentes. Além disso, os polinésios (os nossos sujeitos de pesquisa)
também não manifestam-se por meio de trocas de bens materiais, em função de valores de uso
ou de troca6. Ao invés disso, constituem uma coletividade, a qual estabelece entre si relações
de troca e de contrato, ou seja, são pessoas morais (clãs, tribos, família, etc) que intercambiam
amabilidades, banquetes, ritos, serviços, mulheres, crianças entre outros. Tais características
são capazes de distinguir os polinésios de qualquer classificação, a qual rotule-os como
praticantes de uma suposta economia do estado de natureza. Acima de tudo, o intercambio
entres os polinésios apresentam um caráter emblemático e paradoxal, tendo em vista que,
expressa-se como se fosse fundamentado no arbítrio voluntário, no entanto, torna-se eminente
a sua qualidade de obrigatoriedade, a tal ponto de gerar guerra pública caso a retribuição seja
não seja realizada. Em resumo, podemos denominar esse fenômeno como: sistema de
prestações totais. Esse tipo de prestação é típico nas tribos australianas e norte-americanas,
sob as quais seus ritos, casamentos, arranjo militar e religioso, entre outros acontecimentos da
vida nativa são organizados a partir da divisão da tribo em duas partes complementares (lê-se
fratrias). É possível chamar as prestações totais de: Potlatch (que na língua dos nativos de
Vancover no Alasca significa nutrir ou consumir), ou seja, são as grandes festas, banquetes
feiras e mercados realizados durante o inverno (tal como, define o costume das ricas tribos da
costa rochosa norte-americanas). Durante o potlatch, os clãs, as sociedades secretas, os
casamentos, as seções xamânicas entre outras práticas sociais nativas, acabam sendo
combinadas aos ritos de prestações jurídicas, econômicas e de divisão de cargos políticos.
Entretanto, vale ressaltar que a essência dos rituais de presentear ser justamente o seu caráter
de rivalidade e de antagonismo, o qual pode chegar a gerar batalhas e até a morte. Além disso,
não podemos esquecer do fato das riquezas acumuladas por toda a tibo serem destruídas
completamente, em função de fortalecer o prestígio do chefe local, em detrimento a imagem

intuito de extrair as supostas as noções e instituições fundadoras da vida moderna.


5
Essa ideia parte do pressuposto da existência de uma separação entre natureza e cultura. Contudo, essa reflexão
foi superada, ou seja, ingressou em um âmbito muito mais sincero e científico, a partir do momento que os
antropólogos Claude Lévi-Strauss e Clifford Geertz compreenderam Natureza e Cultura como antinomias
complementares.
6
Tal como expressa-se a economia ocidental.
dos demais chefes participantes do potlatch. Portanto, nós podemos definir esse ritual como
uma espécie de sistema agonístico7 de prestações totais.
Primeiramente, observamos exemplos do potlatch nas populações do noroeste norte-
americano, na Melanésia e na Polinésia. Porém, é possível enxergar essa prática das trocas
rivalizadas em muitos grupos da África e da América Latina, bem como, entre nós mesmos
(lê-se os países ocidentais), por exemplo, nas festas de fim de ano, as quais rivalizam entre si
e, no final das constas, sempre sentimo-nos coagidos a retribuir os convites que recebemos 8.
Tais regras e costumes constituidoras do potlatch estão contidos na economia e no direito
nativo, no entanto, a mais fascinante das regras, sem dúvida, é a tendência de retribuição do
presente e, isso é muito eminente nos povos polinésios, portanto paremos de perder tempo
com prelúdios e comecemos a estudá-la.

I. As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia)


1. Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa)

Inicialmente não observamos a presença do potlatch nas populações da Polinésia. Em


Samoa, por exemplo, existiam trocas durante o casamento, mas nada que se aproximava de
prestações totais, pois, o elemento da rivalidade entre os chefes tribais e a destruição em
massa da riqueza em função de prestígio estavam ausentes, exatamente o oposto do que
acontecia na Melanésia. Entretanto, não podemos negligenciar o fato das relações de
intercâmbio entre os polinésios transcenderem os limites da instituição do casamento,
abarcando também: o nascimento, a circuncisão, as doenças, a puberdade da moça e os ritos
funerários, entre outros. Além do mais, a essência do potlatch era evidente na Polinésia, isto é:
a honra e o prestígio contidos no mana proveniente da riqueza, mas que ao mesmo tempo
obriga a retribuir a dádiva, em função do temor de perder o mana. Turner9 afirmou-nos que,
durante um casamento, após as famílias trocarem entre si oloas e os tongas (Presentes rituais
especifica e respectivamente masculinos e femininos) não tornavam-se mais ricas, no entanto,

7
Parte da ginástica relativa aos combates dos atletas. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível
em: <http://www.priberam.pt/dlpo/agon%c3%adstica> Consultado em 27-04-2014.

8
As festas feitas no ocidente geralmente competem entre si, no que se refere ao critério de grandeza e o luxo.
Aliás, geralmente quando somos convidados para alguma festa acabamos sendo obrigados; ou a levar um bom
presente; ou a fazer uma festa a altura daquela na qual estávamos presentes, bem como, convidar aqueles que
anteriormente foram nossos anfitriões.
9
Dr. George Turner foi um dos primeiros missionários a ir em missão para Samoa em 1840. Ao publicar o seu
primeiro grande estudo (a respeito dos nativos de Samoa somados as suas notas sobre Polinésia) acabou
transformando-se em uma autoridade mundial sobre este assunto. Ele também escreveu extensivamente no
dialeto de Samoa. George Turner. Disponível: <http://www.internationalstory.gla.ac.uk/person/?
id=WH17196>Ultimo acesso 28 de Abril de 2014.
evidentemente sentiam-se muito mais honradas. Contudo, quando há uma troca de mulheres 10,
os filhos geralmente são entregues pelo homem para a família da sua esposa, na qual a sua
irmã e o seu cunhado (tio materno) serão os responsáveis por criar a criança. Nesse sentido,
ela acaba sendo considerada uma espécie de tonga, tendo em vista o fato de constituir um elo
entre a família do homem com a família da esposa.
Refletindo agora sobre as noções: Tonda e Oloa, podemos entender os primeiros como
uma espécie de objetos e permanentes, por exemplos, as esteiras herdadas no casamento e que
as jovens tanto adoram. São ainda compreendidos como bens especificamente femininos, os
quais possuem a função de talismã imóveis, cuja função essencial é fomentar a reciprocidade
entre as famílias. Já os segundos são bens intercambiáveis, portanto móveis e
caracteristicamente masculinos. Todavia, caso reflitamos a fundo sobre este assunto,
chegaremos à conclusão de que, para os Maoris, Taitianos, Tongans, Mangarevans, entre
outras populações, a ideia de tonga expressa todos os bens (lê-se tanto materiais, como
imateriais) possíveis de serem trocados e de exigir retribuição, tais como: tesouros, brasões,
talismãs, esteiras, ídolos sagrados; bem como, tradições, cultos, ritos ou fórmulas mágicas.

2. O espírito da coisa dada (Maori)

Tal como já discutimos, os tongas, segundo o direito e a religião Maori, estão


estritamente ligados a pessoa, ao clã e ao solo, por meio de uma poderosa força mágica,
religiosa e espiritual: o mana. Os provérbios antigos alertam o perigo da obliteração das
pessoas que se negam a retribuir as dádivas. O grande Hertz 11 constatou o fato da existência
da reciprocidade nas trocas realizadas entre os maoris haviam, principalmente no que se refere
ao intercâmbio dos peixes pelas aves. Entretanto, aquilo que chamou mais nossa atenção foi a
sua descoberta do fenômeno do espírito Hau (lê-se espírito das coisas, das florestas e dos
animais) contido na troca. Tamati Ranaipiri, um dos melhores informantes maoris de Elsdon
Best12, esclarece-nos a situação:

10
Ou seja, quando um homem sede a sua irmã para um amigo, o qual também sede a irmã para ele.
11
Hertz era um estudante na École Normale Supérieure, na qual ele ingressa no curso de filosofia em 1904,
terminando em primeiro lugar na sua classe. Depois de um breve período de estudo em Inglaterra, no Museu
Britânico, ele retornou à França, onde iniciou seu trabalho de doutorado com Émile Durkheim e Marcel Mauss .
Sua especialidade era a sociologia da religião. Um membro importante da revista Année Sociologique, ele é
conhecido por seu papel no início Uma contribuição para o estudo da representação coletiva da morte, que
influenciou Edward Evan Evans-Pritchard e que muitos consideram ser um precursor do pensamento de Claude
Lévi-Strauss. Robert Hertz. Disponível: <http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Hertz> Ultimo acesso 28 de Abril
de 2014.]
12
Elsdon Best foi um etnógrafo que fez importantes contribuições para o estudo da Maori da Nova Zelândia.
Elsdon Best. Disponível: < http://en.wikipedia.org/wiki/Elsdon_Best> Ultimo acesso 28 de Abril de 2014.
“Vou lhes falar do hau… O hau não é o vento que sopra. De modo
nenhum. Suponha que você possua um artigo determinado (taonga) e
que me dê esse artigo; você me dá sem preço fixado. Não fazemos
negociações a esse respeito. Ora, dou esse artigo a uma terceira pessoa
que, depois de transcorrido um certo tempo, decide retribuir alguma
coisa em pagamento (utu), ela me dá de presente alguma coisa
(taonga). Ora, esse taonga que ela me dá é o espírito (hau) do taonga
que recebi de você e que dei a ela. Os taonga que recebi pelos taonga
(vindos de você), é preciso que eu os devolva. Não seria justo (tika) de
minha parte guardar esses taonga para mim, fossem eles desejáveis
(rawe) ou desagradáveis (kino). Devo dá-los de volta, pois são um hau
do taonga que você me deu. Se eu conservasse esse segundo taonga,
poderia advir-me um mal, seriamente, até mesmo a morte. Assim é o
hau…” (MAUSS, 2003. p. 198).

Tendo em mente o relato do informante maori, podemos observar a essência do seu


sistema de Direito, ou seja, o fato de todas as propriedades consideradas por eles como
pessoais possuem um hau (lê-se um poder espiritual). Nesse sentido, suponhamos que um
nativo A presenteie o nativo B com um taonga. Posteriormente, o nativo B realiza uma doação
a um terceiro, e; geralmente acabará imediatamente recebendo de volta outro presente, o qual
é entendido por todos os maoris como proveniente do hau da sua dádiva13. Outra noção a
respeito das dádivas maoris, a qual precisa estar nítida em nossa discussão é o fato dos artigos
presenteados nunca permanecem imóveis, mesmo quando são abandonados ou roubados ainda
exercem influência sobre os seus doadores. No exemplo do ladrão (aquele que se nega a
retribuir os taongas recebidos) torna-se eminente a força do hau, cuja existência na vivência
nativa causa senão a sua morte (lê-se a morte psicológica 14), ao menos obriga-o à retribuição.
Assim, o hau acaba acompanhando todas as pessoas envolvidas no sistema de trocas até que
retorne ao seu local de origem: “No fundo, é o hau que quer voltar ao lugar de seu
nascimento, ao santuário da floresta e do clã e ao proprietário” (MAUSS, 2003. p. 199). Além
disso, não podemos esquecer que a conexão entre hau e taonga expressa-se de forma que os
objetos trocados sejam compreendidos pelos nativos como uma espécie de indivíduo,
13
Portanto, a dádiva é o presente com algo a mais (lê-se alguma coisa além de meras relações comerciais), traz
consigo uma característica da alma do próprio doador, no caso dos Maoris é o espírito Hau, e no nosso caso,
pode ser a disposição de estar sempre preparado para retribuir a proposta irrecusável realizada pelo personagem
da obra máxima de Coppola: Don Corleone.
14
Fenômeno no qual todos da aldeia acreditam na morte da pessoa (inclusive ela mesma) de causas mágicas, por
exemplo, devido à vingança do espírito hau por meio de feitiçaria. Logo, o corpo do indivíduo desencadeia uma
série de reações que levam a sua morte, de fato, bem como, a sua mente havia projetado.
chegando ao ponto de receberem nomes específicos. Em suma, todas as características que
envolvem a expressão do hau entre os maoris, atua com intuito de associar os seus
interlocutores em um sistema de trocas rituais, até que todas as dádivas sejam corretamente
retribuídas, ou seja, de forma equivalente ou superior ao recebido. Assim sendo, a forma da
retribuição acaba sendo diversificada, abarcando desde o trabalho, os banquetes, as festas, os
presentes, entre outros.
Finalmente, podemos levar a cabo uma última reflexão sobre os sistemas de troca
polinésios, os quais fundamentam-se em duas grandes tendências importantíssimas: Em
primeiro lugar, podemos destacar o fato do direito Maori estar embasado na procura do
estabelecimento de vínculos de almas, haja vista que, os objetos intercambiados guardam em
si mesmos uma parte da alma de algum nativo. Em segundo lugar, todas as trocas realizadas
entre os maoris assumem a forma de potlatch, porque fazem parte de um esquema complexo e
amplo de trocas, cuja retribuição torna-se obrigatória (lê-se sistema agonístico de prestações
totais), devido ao fato dos objetos trocados levarem consigo um fragmento da substância (lê-
se alma) do doador, uma força espiritual e religiosa tão forte para os maoris, que sua
conservação não somente era considerada perigosa como muitas vezes mortal. Por fim, a
dádiva nunca poderia manter-se estática e geralmente adquiria não somente uma existência
individual, bem como, expressava uma vontade própria de retornar, como afirmava Hertz, a
seu “local de origem”.

3. Outros temas: a obrigação de dar, a obrigação de receber

Para compreendermos verdadeiramente o fenômeno do potlatch, é crucial explorarmos


o sentido nativo para as tendências de dar, receber e retribuir. Inspirados por esse intuito,
podemos destacar a tendência dos povos polinésios em nunca negar (lê-se sempre receber)
hospitalidades, intercambiar presentes e trocar mulheres. Por exemplo, em um ritual de
hospitalidade maori realiza-se um convite “voluntariamente obrigatório” (não pode ser
recusado, mas também não deve ser solicitado), que produz uma situação onde manifesta-se a
necessidade do convidado dirigir-se a um tipo de casa de recepção (diferente segundo as
castas) e o seu anfitrião, por sua vez, precisa então preparar-lhe uma refeição. Depois, ao
partir o visitante recebe de presente alguns mantimentos para a viagem. Entretanto, dar é tão
crucial quanto receber: “Não menos importante é a obrigação de dar (…) Recusar dar,
negligenciar convidar, assim como recusar receber, equivale a declarar guerra; é recusar a
aliança e a comunhão” (MAUSS, 2003. p. 201 – 202). Dessa forma, a essência da
reciprocidade contida na troca, acaba fundamentando-se na ideia da existência de um elo
espiritual de ligação entre donatário e o doador, tal como, já discutimos ao analisarmos o
fenômeno das crianças taongas, em Samoa. Por fim, a instituição social de maior destaque
entre os nativos, sem dúvida, são as prestações totais, as quais envolvem noções interconexas
dos direitos e deveres de dar e receber, durante as trocas rituais de mulheres, filhos, alimentos,
talismãs, serviços, entre outros. Contudo, embora pareça prevalecer uma grande confusão na
formatação do Direitos e da Moral Polinésia, na realidade: “(...) essa mistura íntima de
direitos e deveres simétricos e contrários deixa de parecer contraditória se pensarmos que há,
antes de tudo, mistura de vínculos espirituais entre as coisas, que de certo modo são alma, e os
indivíduos e grupos que se tratam de certo modo como coisas” (MAUSS, 2003. p. 202).

4. Observação – O presente dado aos homens e o presente dado aos deuses

Procurando levar a cabo uma última reflexão sobre a dádiva podemos debruçar-nos
sobre o fenômeno da oferta de presentes aos deuses e à natureza. Vejamos, por exemplo, o
fenômeno do potlatch entre os esquimós do Alaska. Essa população engendrou uma relação
de reciprocidade durante as trocas é estendida dos homens para as almas dos mortos (os quais
chegam a participarem do ritual) e para a natureza. A dádiva constituída em função dos
deuses, do espíritos dos mortos, dos animais e da natureza, são realizadas visando criar uma
situação, na qual essas entidades sejam generosas com os nativos. Faz-se necessário ressaltar
o fato dessas festas geralmente transcenderem os limites da aldeia, bem como, são
denominadas (segundo a termologia inglesa) de Asking Festival ou Inviting Festival. Não
podemos esquecer de mencionar um dos ritos mais emblemáticos desse festival, que consiste
em tentar fazer uma tribo rival rir. Assim, aquela tribo cujos membros conseguiram fazer as
demais tribos rirem, podem então, exigir dos derrotados tudo aquilo que desejarem.
Geralmente os povos participantes dessa festa são: os Chukchee, os Korvaks e os esquimós
asiáticos, dos quais estamos falando até agora. Dentro do festival existe um momento
específico: A Thanksgiving Ceremonies, ou melhor, a grande festa de ação de graças, onde as
dádivas são realizadas em toda a sua expressão de prestação total. Além do mais, tudo que
sobrar desse momento de intercâmbio recíproco entre os homens é ofertado ao mar, com
intuito de receber em troca a prosperidade para realizar o potlatch no ano seguinte novamente.
Esses exemplos são capazes de ilustrar o potlatch realizado entre homens e deuses, ou entre
eles e a natureza ou entre os nativos e os espírito dos mortos. Isso acontece devido ao fato das
oferendas serem feitas em forma de Sacrifício15, o que demonstra a tendência dos homens
serem apenas uma representação vontade destas entidades, pois, elas são as verdadeiras
proprietárias dos bens do mundo, portanto, é demasiado perigoso não trocar com eles (lê-se
acumular a riqueza socialmente produzida).
Em resumo, a destruição sacrificial tem o intuito de estabelecer um comércio com os
deuses através de doações sacrificais (lê-se os potlatchs), que possuem também uma eminente
necessidade de retribuição. Esse fenômeno possui um embasamento em tradições muito
antigas (até mesmos anteriores ao próprio costume do potlatch), as quais determinam o
intercambio como uma atitude fundamentalmente divina: “(…) acredita-se que é dos deuses
que se deve comprar, e que os deuses sabem dar o preço das coisas” (MAUSS, 2003. p. 206).
Os Toradja das ilhas Celebes, sempre intercambiam com os espíritos dos mortos, pois, estes
são considerados os verdadeiros proprietários, ou seja, aqueles para quem é preciso pedir
permissão para, por exemplo: cortar lenha, adquirir sua propriedade, preparar a terra para o
cultivo entre outras atividades do cotidiano dos nativos. Malinowski em sua observação
participante nas ilhas Trobriand, presenciou algo muito parecido com isso, durante as destas
dos milamila, isto é, uma espécie de potlatch, no qual os vaugu’a16 são ofertados aos mortos
sob uma espécie de altar muito parecida com a do chefe da aldeia. Isso tudo é realizado com o
intuito da retribuição dessas divindades, em forma de proteção contra os maus espíritos e os
homens conjuradores de maldições. Sendo assim: “Percebe-se como é possível iniciar aqui
uma teoria e uma história do sacrifício-contrato. Este supõe instituições do tipo das que
descrevemos, e, inversamente, as realiza em grau supremo, pois os deuses que dão e
retribuem estão aí para dar uma coisa grande em troca de uma pequena” (MAUSS, 2003. p.
207 – 208).
Façamos um breve hiato e refletimos sobre a questão da esmola. Entre os Haossa do
Sudão, quando o trigo Guiné está maduro e, concomitantemente, ao momento da colheita
acontece um surto de febres, os nativos acreditam que a distribuição desse trigo as pessoas
mais pobres, possa evitar assim a proliferação e ferocidade da doença. Também é um fato
consensual a tendência de alimentar-se as crianças, para assim acalmar e agradar os mortos.
Faz-se necessário ressaltar que este costume é provavelmente de origem muçulmana. Em

15
O sacrífico aqui é entendido como a troca dos bens sagrados ou comuns produzidos pelo grupo, os quais
devem ser destruídos em honra as entidades sagradas (deuses, espírito dos mortos e a própria natureza), o qual
em troca proporcionará, geralmente, um ano tão próspero quanto esse foi.
16
Um dos objetos mais cobiçados entre os trobriandeses, mas também, atua como um dos talismãs de troca ritual
durante o Kula.
essência, a esmola é compreendida; por um lado, como uma espécie de noção moral da
dádiva, ou melhor, de fortuna17 e; por outro lado é entendida em seu aspecto sacrificial.
Portanto, a dádiva acaba metamorfoseada em justiça, pois, em vez de destruir (lê-se
desperdiçar) as riquezas com oferendas à divindade, faz-se algo muito mais útil e virtuoso
doando-as aos pobres e às crianças.
Por fim, embora a instituição acabada do Potlatch, não esteja presente entre as
populações polinésias, é possível constatar em sua expressão, aqueles os pressupostos
essências desse tido de relação social de troca, haja vista que, a troca-dádiva é uma lei entre
eles. Contudo, seria um grande equívoco científico pressupor o fenômeno da dádiva como
uma instituição estritamente contida no Direito Maori, tendo em vista que: “ Pelo menos quanto
à obrigação de retribuir, podemos mostrar que ela tem uma extensão bem diferente… e provaremos
que essa interpretação vale para vários outros grupos de sociedades” (MAUSS, 2003. p. 210).

17
Essa concepção moral acerca da dádiva é bem ilustrada pela história dos dois chefes Betsimisarakas, de
Madagascar. Um deles era muito generoso e distribuía quase tudo que possuía, o outro, ao contrário guardava
todas as suas conquistas para si. No final das contas, os deuses fizeram o primeiro prosperar e destruíram o
avarento.

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