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Os métodos alternativos de resolução de conflitos, negociação, conciliação, mediação e arbitragem, são meios

complementares à jurisdição e não são adequados para todos os litígios.

O atual momento pelo qual passa o Poder Judiciário brasileiro, evidenciado pelos diversos fóruns, seminários,
simpósios, programas de incentivo à conciliação etc., há muito demonstra o esgotamento pelo qual passa nosso
sistema jurisdicional, revelando-nos a insuficiência, ineficácia e, por vezes, a insatisfação gerada pela atuação
jurisdicional do magistrado, como modelo tradicionalmente adotado para a resolução de conflitos em uma
sociedade.

Com vistas nesse cenário que nos apoiamos nos Métodos Alternativos de Resolução de Conflitos (MARCs), como
modelos aliados ao Poder Público, especialmente o Judiciário, e aptos a ampliar o acesso à justiça, de forma mais
humana, equânime, legítima, e capaz de produzir desfechos idôneos a gerar efetiva satisfação para todas as partes
em um litígio, concluindo-se, destarte, que os MARCs são, teleologicamente, expressão do acesso à
justiça enquanto direito fundamental previsto na Constituição Federal e, portanto, merecedores de aprimoramento
em homenagem ao princípio da máxima efetividade dos direitos fundamentais.

Convém conhecermos a evolução histórica dos Métodos Alternativos de Resolução de Conflitos.

O instituto da arbitragem é um dos mais antigos que se tem notícia na história do Direito, havendo registros
comprobatórios de sua origem bem antes do surgimento dos legisladores e do Estado – Juiz.

No início das civilizações, o homem utilizava seus instintos mais primitivos para resolver conflitos, prodominando a
chamada “justiça com as próprias mãos”. Nesta época, as instituições eram, ainda, bastante tênues, carecendo de
organização e autoridade para solucionar controvérsias.

Posteriormente, para que pudesse viver em sociedade, o homem teve que “abrir mão” de tais instintos, passando a
outorgar ao chefe ou à pessoa mais idosa da comunidade, poderes para solucionar conflitos através da sabedoria,
bem senso e, também, dos costumes. Daí temos a continuidade da Justiça Privada, só que não mais realizada
diretamente pelo ofendido, mas pelo terceiro especialmente designado para solucionar as controvérsias. Somente
em momento histórico bastante posterior é que a Justiça Pública seria oferecida pelo Estado.

Desta forma, sabendo-se que a Justiça Privada antecedeu a Estatal, vamos inicialmente encontrar as raízes do Juízo
Arbitral no Direito Romano, com a criação de um quadro composto por membros idôneos e com certa
representatividade dentro da sociedade, que tinham como objetivo dirimir extrajudicialmente conflitos decorrentes
de negócios jurídicos realizados entre os cidadãos.

Entretanto, conforme foi o Estado Romano se publicizando, o chamado “arbitramento” da época foi cedendo lugar
para o juízo estatal, surgindo o julgamento realizado pelo Imperador, na figura de um pretor.

Já a partir do século XII, encontramos na Idade Média diversos casos de Arbitragem entre cavaleiros, barões e
proprietários feudais, além de ser o período em que surgiu a Arbitragem comercial, na medida em que os
comerciantes preferiam ter seus litígios resolvidos por árbitros que eles mesmos escolhiam, muito mais rápidos e
efeicientes em suas decisões que os Tribunais da época.

Em 1789, com a revolução francesa, teve a Arbitragem o seu apogeu, consolidando-se em decorrência da
consagração dos Direitos do Homem, passando a ser obrigatória para solucionar várias questões. Posteriormente, a
França substituiu esta forma de Arbitragem forçada pela facultativa.

No período em o Brasil era colônia de Portugal, a solução amigável dos conflitos esteve presente nas Ordenações
Filipinas (Livro 3º, T. 20, § 1º).

No Brasil, a Constituição do Império de 1824, já dispunha acerca o juiz de paz, reconciliação, mediação e do Juízo
Arbitral, nos seus arts. 160 e 161.

Através das Leis Orgânicas de 1831 e 1837, a utilização do Instituto passou a ser obrigatória para matérias relativas a
seguro e locação comercial, abrangendo todos os conflitos de natureza mercantil com o advento do Código
Comercial de 1850, desaparecendo, porém, em 1866. Na área trabalhista, foram criados mecanismos para solucionar
conflitos mediante Mediação e Arbitragem em 1907, abolida, entretanto, em 1932, pois o Estado considerou-a um
contra senso ao direito pátrio.

Em 1916, o Código Civil previu a possibilidade das partes submeterem suas controvérsias a um Tribunal Arbitral em
seus artigos 1.037 e seguintes. A Constituição de 1934 também previu o Instituto, que foi prontamente revogado
pela Constituição de 1937.

A Constituição de 1988, art. 114, §§ 1º e 2º, prevê a possibilidade de entidades sindicais elegerem árbitros para
mediar suas questões.

Superados os obstáculos à utilização da Arbitragem, em 1996, foi publicada a Lei nº 9.307, a chamada Lei de
Arbitragem, que trouxe à realidade um projeto iniciado há muito tempo.

Em 2015, entrou em vigência a Lei de Mediação (Lei nº 13.140/2015), para dispor sobre a mediação entre
particulares como meio de solução de controvérsias e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da
administração pública. Nesse mesmo ano, a Lei de Arbitragem (Lei nº 9.307/1996) sofreu atualização por meio da Lei
nº 13.129/2015, para ampliar o âmbito de aplicação da arbitragem e dispor sobre a escolha dos árbitros quando as
partes recorrem a órgão arbitral, a interrupção da prescrição pela instituição da arbitragem, a concessão de tutelas
cautelares e de urgência nos casos de arbitragem, a carta arbitral e a sentença arbitral.

Podemos concluir que os Métodos Alternativos de Resolução de Conflitos são instrumentos de pacificação social,
garantidos constitucionalmente, na medida em que permite o acesso à justiça é um direito fundamental consagrado
em nossa Carta Maior, devendo ser aplicados a sua máxima efetividade no plano fático.

O status de direito fundamental do acesso à justiça remete à discussão acerca da máxima efetividade dos Métodos
Alternativos de Resolução de Conflitos, no que tange à sua eficácia processual no ordenamento jurídico pátrio. Para
isso, faz-se necessário o fomento a algumas reformas processuais com o intuito de fortalecer estes meios
alternativos, otimizar as políticas públicas até então existentes, bem como racionalizar a utilização dessas vias, com
intuito de dirimir os litígios de forma mais humana e eficaz.

CONFLITOS DE INTERESSE

Interesse é a satisfação das necessidades humanas corporificadas nos bens materiais.

Os conflitos de interesses surgem com a possibilidade de que mais de uma pessoa eleja um determinado bem
para a satisfação de suas necessidades e considerando que não haja bens disponíveis para todos.

Moacyr Amaral dos Santos entende que “existe conflito de interesses quando a intensidade do interesse de uma
pessoa por determinado bem se opõe à intensidade do interesse de outra pessoa pelo mesmo bem, donde a atitude
de uma tende à exclusão de outra quanto a este”.

Os conflitos dão origem a litígios, que se encontram nos:


- relacionamentos em geral
- família
- emprego
- vida social
- lazer

Ao longo da vida humana aumentam os conflitos em quantidade e complexidade.

Elementos dos conflitos:


- diversificação de aspirações de indivíduos e grupos
- aumento de complexidade dos afazeres
- conscientização das pessoas em relação a seus direitos
- surgimento de tecnologias que despertam para novas possibilidades
- mensagens veiculadas pelos meios de comunicação, incentivando as mudanças
- oposição à estagnação.
Causa de conflitos - Mudanças. As mudanças afetam o relacionamento entre pessoas e conduzem ao conflito.

Exemplos de mudanças: fusão de empresas, troca de chefia, casamento, falecimento, divórcio, nova etapa de vida,
etc.

Mudança – definição: acontece quando algo ou alguém intervém em um sistema (que pode ser desde um indivíduo
até uma sociedade completa) e, nele, provoca algum tipo de transformação ou perspectiva de que ela aconteça.

Natureza do conflito:
- bens: patrimônio, direitos, haveres pessoais.
- princípios, valores e crenças de qualquer natureza, inclusive políticas, religiosas, científicas, etc.
- poder (nas diferentes acepções).
- relacionamentos interpessoais.

Percepção da mudança: origina-se na mente de pessoas e repercute nas mentes de outras. Não se pode
controlar mentes, mas é possível controlar os processos por meio dos quais as pessoas tomam contato com as
proposições de mudanças. Gerenciam-se os inevitáveis conflitos administrando as mudanças, para que os envolvidos
assimilem suas consequências de maneira harmoniosa e pacífica.

Fatores que influenciam os conflitos:

- expectativa em relação à mudança: as expectativas sofrem influência da percepção de risco ou sofrimento,


real ou imaginário, originada de experiências anteriores, crenças inadequadas, esquemas rígidos de pensamentos,
relatos de pessoas significativas e informações obtivas nos meios de divulgação. Esse fenômeno aumenta a violência
potencial do conflito e a dificuldade de resolvê-lo.

- expectativas associadas aos relacionamentos: todo relacionamento respeita um contrato psicológico,


baseado nas expectativas tácitas e inconscientes de cada pessoa a respeito dos comportamentos das demais. Esse
contrato pode existir entre duas pessoas ou pode ser coletivo. O contrato psicológico, embora não explícito, exerce
grande influência no comportamento das pessoas. As mudanças fazem com que ele seja um pacto dinâmico em
constante renegociação. As expectativas mudam com o tempo, idade, estado civil.

- resistência à mudança: pode ser desejada por uns e rejeitada por outros, provocada por terceiros, de forma
inegociável, ou originar-se no próprio sistema.

- consequências para a estabilidade do sistema: a reação à mudança também vem da suspeita quanto à
eficácia, diretamente associada às consequências (reais ou percebidas) para a estabilidade do sistema. Os envolvidos
buscarão preservar valores, princípios, crenças, comportamentos e hábitos, com o intuito, talvez inconsciente, de
evitar uma transformação fatal para sua continuidade.

- aderência à realidade: no conflito com bases reais as partes percebem diferenças de interesses. O conflito sem
bases reais origina-se de falhas de comunicação, de mau entendimento das questões envolvidas (os interesses
podem, nem mesmo, conflitar).

- diferenças de personalidades: há pessoas inconciliáveis, que dificultam qualquer relacionamento satisfatório.


Mas, há situações em que o convívio é obrigatório por razões sociais, profissionais ou outras. O conflito permanece
latente pronto para aflorar.

- efeitos da mudança sobre os valores: valor é a ideia aceita pela pessoa e que orienta sua ação. O valor possui
fundamento emocional e encontra-se associado à visão de mundo da pessoa. Aprendidos desde a infância, os
valores fazem parte dos critérios de decisão dos indivíduos. Compreendem mensagens do tipo: obedecer às leis,
respeitar os mais velhos, fazer o vem, vencer a qualquer custo, etc.

- modificações na estrutura de poder: para Max Weber poder é a “possibilidade de impor a própria vontade à
conduta de outras pessoas”. No tocante à mediação, poder é a capacidade de exercer influência (não significa
imposição da vontade do mediador). Pode-se classificar poder em diferentes tipos: poder físico, poder da
sexualidade, poder econômico, poder da informação. Os poderes podem ser empregados de maneira combinada.
Um ou outro prevalece por motivos situacionais e possibilidades das pessoas que os exercem e daquelas que
recebem seus efeitos. Mudanças na estrutura de poder provocam conflitos e conduzem a situações complexas,
porque afetam o equilíbrio (ou o desequilíbrio) existente, podendo a mudança reduzir poder de um dos indivíduos
envolvidos ou de todos, acentua a diferença de poder, favorecendo o mais forte.

Custo dos conflitos:


- financeiros
- emocionais

Gastos materiais e emocionais ocorridos no passado são importantes no litígio, na tentativa de recuperar os
investimentos que não voltam mais.

Conteúdos do conflito:
- conteúdo manifesto ou posição: mãe ou pai que luta pela posse de um filho (posição); empregado que luta
por maior salário (posição).
- conteúdo real ou interesse: mãe ou pai que luta pela posse de um filho pode estar interessado no bem estar
da criança (interesse); empregado que luta por melhor salário, pretende manter seu poder aquisitivo (interesse).

Os conflitos sociais são fenômeno da própria vida em sociedade. As sociedades coexistem com os conflitos e
descobrem técnicas de solução que, teoricamente, podem ser reunidas em três fundamentos, a autodefesa, a
autocomposição e heterocomposição.

MÉTODOS ALTERNATIVOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

Sistema de composição de conflitos:


- autotutela ou autodefesa
- autocomposição: negociação, conciliação, mediação
- heterocomposição: jurisdição e arbitragem.

1) Autodefesa ou autotutela

A autodefesa, também chamada de autotutela, indica o ato pelo qual alguém faz a defesa própria, por si mesmo.
Supõe defesa pessoal, isto é, as próprias partes procedem à defesa de seus interesses.

Autodefesa consiste na solução direta entre os litigantes pela imposição de um sobre o outro, isto é, impondo à
outra parte um sacrifício não consentido por esta. Há o concurso de duas notas: a ausência de juiz distinto das partes
e a imposição da decisão por uma das partes à outra.

São notórias as deficiências dessa técnica, cuja solução provém de uma das partes interessadas, que é unilateral e
imposta. Portanto, evoca a violência, e a sua generalização importa na quebra da ordem e na vitória do mais forte e
não do titular do direito. Assim, os ordenamentos jurídicos a proíbem, autorizando-a apenas excepcionalmente.

A autodefesa pode ser autorizada pelo legislador, tolerada ou proibida. Exemplos de autodefesa:

a) autodefesa autorizada no direito penal são a legítima defesa e o estado de necessidade, que são meios
excludentes da ilicitude do ato (CP, art. 23).

b) autodefesa tolerada pelo legislador é o duelo em alguns países.

c) autodefesa proibida é o exercício arbitrário das próprias razões para a solução de conflitos entre as partes
envolvidas.

d) autodefesa no direito do trabalho são as manifestações de greve (muitas vezes a greve não é forma de solução,
mas meio de pressão), locaute (“lock-out”), o “exercício do poder disciplinar do empregador”, a autotutela sindical,
etc.
2) Autocomposição

Autocomposição consiste na solução direta entre os litigantes através de acordo firmado entre eles, isto é, o conflito
é solucionado por ato das próprias partes, sem emprego de violência, sem a intervenção de um terceiro, mediante
ajuste de vontades. Na autocomposição, um dos litigantes consente no sacrifício do próprio interesse, daí a sua
classificação em unilateral e bilateral. A renúncia é um exemplo da unilateral e a transação da bilateral, quando cada
uma das partes faz concessões recíprocas. Pode dar-se à margem do processo, sendo, nesse caso, extraprocessual,
ou no próprio processo, caso em que é intraprocessual, como a conciliação.

a) Negociação

Importante método que antecede todos os outros de resolução de conflitos. É o procedimento no qual as partes
desenvolvem uma série de reuniões para discutir as pretensões apresentadas umas às outras. É uma forma
consensual de por fim a um conflito.

b) Conciliação

Conciliação é autocomposição. As partes chegam a um acordo pela aceitação da proposta de uma delas, pela
convergência e acerto das duas propostas ou pela aceitação da proposta do juiz.

Há vários tipos de conciliação, extrajudicial e judicial. Extrajudicial quando realizada fora da Justiça, quando ainda
não há processo judicial em andamento perante o Poder Judiciário.

Poderá ser judicial, quando já se encontra em andamento processo judicial perante o Poder Judiciário. A conciliação
das partes é possível em todo momento e fase processual. Neste caso, a conciliação depende da homologação
judicial do acordo, que tem natureza irrecorrível. E, se não cumprida, pode ser executada diretamente.

c) Mediação

É a composição do conflito com a participação de um terceiro, suprapartes, o mediador, escolhido pelas partes, e
que tem a função de ouvi-las, intermediar a negociação, subsidiar as partes de informação e formular sugestões de
propostas conciliatórias, para decisão das partes. As partes não são obrigadas a aceitar as propostas. O mediador
nada decide, apenas interfere para aproximar as vontades divergentes dos litigantes. Geralmente, a mediação é
extrajudicial, mas também pode ser judicial. A nova Lei de Mediação n. 13.140/2015.

3) Heterocomposição

Heterocomposição consiste na solução do conflito por uma fonte suprapartes, que decide com força obrigatória
sobre os litigantes, que são submetidos à decisão. A decisão não é das partes, mas de uma pessoa ou órgão acima
delas.

Há mais de um tipo de heterocomposição.

a) Jurisdição ou Tutela

Jurisdição é uma forma heterocompositiva de solução dos conflitos através de decisão da Justiça do Trabalho.

O fim principal da jurisdição é a satisfação do interesse público do Estado na realização do direito e a composição
dos litígios pelas pessoas ou órgãos investidos, pela lei, desses poderes.

A jurisdição ou tutela é a forma de solucionar os conflitos por meio da interveniência do Estado, gerando o processo
judicial. O Estado diz o direito no caso concreto submetido ao judiciário, impondo às partes a solução do litígio.

b) Arbitragem (Lei n. 9.307/96, com alteração da Lei n. 13.129/2015)

Arbitragem é um mecanismo heterônomo de solução dos conflitos de trabalho. É uma forma de decisão extrajudicial
dos conflitos. Na arbitragem quem julga não é um juiz investido de jurisdição pelo Estado, mas um árbitro escolhido
pelas partes, que profere uma decisão chamada sentença arbitral (Lei n. 9.307/96, art. 3º). Difere da decisão judicial
pelos fundamentos, porque o laudo arbitral não aponta, obrigatoriamente, fundamentos jurídicos. Podem ser
econômicos, de bom senso ou de conveniência no caso concreto. O árbitro não está investido do poder jurisdicional,
porque sua autoridade para decidir é atribuída pela vontade dos particulares cujos interesses são apreciados.

O árbitro deve ser pessoa capaz, terceiro escolhido pelas partes, que deve atuar de forma imparcial na solução do
conflito e também ser de confiança das partes, que decidirá de modo obrigatório para as partes, tratando-se de
decisão que impede o acesso ao juízo natural, para questionar seu mérito, porquanto opção das partes. Pode ser
formado um Juízo Arbitral, composta por um árbitro, ou um Tribunal Arbitral, composta por mais de um árbitro,
sempre em número ímpar, mas todos escolhidos pelas partes.

Arbitragem tem natureza jurídica de justiça privada, pois o árbitro não é funcionário do Estado, nem está investido
por este de jurisdição, como acontece com o juiz. É uma forma de heterocomposição, pois não são as próprias partes
que resolvem o conflito, como ocorre na autocomposição, mas um terceiro é chamado para decidir o litígio.

Módulo 3 – Negociação: Origem, Conceituação e Fundamentos Históricos da Negociação. Mudança de Paradigma.


Princípios da Negociação. Atitudes do Negociador. Aplicabilidade da Negociação. Procedimento de Negociação.

NEGOCIAÇÃO

Histórico

Negociação é termo nascido no latim que vem de “negocium”, palavra formada da junção de dois termos distintos,
“Nec” e “ocium” cujo significado é atividade difícil e trabalhosa, mas no nosso português tem o significado de acordo
ou entendimento bi ou multilateral.

Negociação existe desde os tempos em que o homem passou a viver em sociedade, eis que negócios e negociações
fazem parte da rotina humana, da infância à velhice.

Um dos primeiros relatos que envolve a prática de negociação está descrito na mitologia judaico-cristã
na alegoria de Esaú e Jacó. O relato ilustra aspectos fundamentais da negociação: o propósito, os interesses, a
oportunidade, a persuasão, a troca e a ética.

A Negociação ocorre em todos os momentos de nossas vidas e faz parte das maiorias de nossas decisões como, por
exemplo: ao colocar o nome em um recém nascido, a cor do carro novo, a festa de casamento, dentre outros
aspectos, como também, o advogado negociando com o juiz ou com seu cliente, o empregado negociando a data de
suas férias dentre muitas situações do nosso dia a dia. Trata-se de um processo no qual as partes em disputa tentam
alcançar uma decisão conjunta. Sendo assim temos diversas formas de se negociar algo, podendo essa negociação
ser flexível ou inflexível, onde na flexível os negociadores evitam qualquer tipo de conflito, já na inflexível ambos
encaram qualquer tipo de situação para ter êxito na sua vontade.

Logo, a negociação pode ser praticada tanto para resolver questões pessoais, como para questões profissionais, em
ambientes políticos, comerciais, diplomáticos, institucionais, gerenciais, jurídicos, trabalhistas, de libertação de
reféns, entre outros. Diante dessa grande diversidade de contextos, existem muitas definições e formas diferentes
de abordar o assunto.

Definição de Negociação: cuidar dos negócios.

Para Humberto Dalla Bernardina Pinho a negociação é um processo bilateral de resolução de impasses ou de
controvérsias, no qual existe o objetivo de alcançar um acordo conjunto, através de concessões mútuas. Envolve a
comunicação, o processo de tomada de decisão (sob pressão) e a resolução extrajudicial de uma controvérsia.

Negociação é um processo em que duas ou mais partes, com interesses comuns e antagônicos, se reúnem para
confrontar e discutir propostas explícitas com o objetivo de alcançar um acordo.

A negociação é utilizada para lidar com situações de conflito. As perdas e os ganhos de cada parte são colocados na
mesa e constituem as cartas com as quais a negociação se desenvolve, com objetivos claramente definidos.
Negociação é uma via alternativa pura para dirimir controvérsias, destacando-se na solução de litígios de natureza
comercial em razão de evitar incertezas e os custos de um processo judicial, bem como preservar o relacionamento
das partes envolvidas de maneira discreta e sigilosa. É, normalmente, a primeira forma de compor litígios, e caso não
seja bem sucedida, é possível partir para outra forma alternativa ou até mesmo para a jurisdição tradicional.

A negociação foi desenvolvida pela Universidade de Harvard nos EUA, chamado de “Método de Harvard”, que se
baseiam nos seguintes princípios:

- separar as pessoas do problema;

- concentrar-se nos interesses e não nas posições;

- criar várias possibilidades antes de decidir;

- insistir em um resultado objetivo, independente de vontades;

- lembrar que na negociação não há opositores ou adversários, e sim participantes.

Modernamente, compreende-se que negociar não é discutir, é conversar com um objetivo em mente.

Na moderna negociação, não se deve fazer:

- Manipular não corresponde a negociar, pois consiste em um indivíduo convencer outra pessoa de que está certo,
quando sabe que está errado.

- Agir com agressividade, pois requer determinação e preparação.

Desvantagem na negociação direta:

- quando um dos dois lados possui maior poder (físico, econômico, emocional), terá facilidade para exercê-lo a seu
favor e, com isso, conquistar as cartas que mais lhe interessam; praticada sem a devida técnica, ela acentua as
diferenças a favor do mais forte.

- nada obsta que uma parte atue com malícia e perversidade e se valha desse comportamento para auferir
vantagens; isso pode acontecer em todos os métodos, porém, como na negociação não há influência de terceiros, a
conduta má é ainda mais beneficiada. Todavia, a técnica de negociação possui diversos métodos para se descobrir,
esvaziar e usar essa má fé contra seu próprio autor.

- um dos lados pode ter grande experiência em negociar e aproveitar-se da ingenuidade ou despreparo do outro. É
comum empresas de grande porte terem ou contratarem negociadores profissionais, com o objetivo de construir
acordos vantajosos para elas na negociação de dívidas e compromissos assumidos com outras empresas, clientes e
colaboradores.

- diferenças de personalidade contribuem para pender a negociação para um lado ou outro. Quando uma das partes
apresenta timidez, dificuldade para se expressar; e a outra se mostra agressiva, independente, bem falante, a mesa
de negociação se desequilibra.

Tipos de Negociação:

Existem três tipos básicos de negociação: distributivas, integrativas e criativas.

As negociações distributivas envolvem apenas uma questão, normalmente relacionada a valores. Como exemplo de
sua aplicação pode-se citar a compra ou venda de um carro, em que a única questão a ser negociada é o valor do
automóvel. Normalmente essa negociação é conduzida em um ambiente competitivo. Cada parte apresenta uma
abertura e planeja-se para não ultrapassar determinado valor limite. Por definição, é sempre ganha-perde.
As negociações integrativas envolvem diversas questões. Como exemplo de aplicação pode-se citar a mesma
compra ou venda de um carro, mas ao invés de negociar apenas o valor do automóvel, negocia-se também o prazo
de pagamento, a inclusão de certos acessórios, a data de entrega, etc. Essa negociação pode ser conduzida tanto em
um ambiente competitivo como colaborativo. No ambiente competitivo torna-se mais difícil para as partes
alcançarem um bom resultado, devido à omissão ou distorção de informações ou a manobras para adquirir poder de
influência. No ambiente colaborativo, em que ambas as partes são mais transparentes na divulgação de seus
interesses, limites e prioridades, são criadas as condições ideais para uma solução ganha-ganha.

Na negociação criativa cada parte revela seus interesses, a partir dos quais busca soluções que sejam capazes de
atender a maior quantidade possível de interesses envolvidos. Essa negociação é ideal para encontrar soluções
conciliadoras para problemas complexos. Deve ser conduzida em um ambiente colaborativo e emprega largamente
os princípios de negociação apresentados por William Ury: foque nas pessoas, não nos problemas; diferencie
posições de interesses, etc.

Em negociações complexas, como as conduzidas em projetos ou contratos de grande porte, é comum que o
negociador necessite utilizar as técnicas necessárias para conduzir os três tipos de negociação, simultaneamente.

Principais elementos presentes para uma Negociação:

Abertura - primeiro valor apresentado por uma das partes, em uma negociação distributiva.

Valor limite - valor mínimo (para vendedores) ou máximo (para compradores) que não deve ser ultrapassado, em
uma negociação distributiva.

Posições - soluções pré-concebidas para se obter um determinado resultado, defendidas em uma negociação, como
dinheiro, prazos, condições e garantias.

Interesses - motivos que sustentam as posições adotadas por um negociador, formados pelos desejos,
preocupações, crenças conscientes, temores e aspirações.

MACNA - Melhor Alternativa em Caso de Não Acordo - Termo derivado do inglês BATNA (“Best alternative to a
negotiated agreement”). Trata-se de uma alternativa (fora da mesa) caso a negociação entre num impasse e não se
concretize nenhum acordo.

Concessão - ato ou efeito de ceder algo de sua opinião ou direito à outra parte. Na negociação distributiva as
concessões ocorrem por meio da redução nos valores negociados. Na negociação integrativa as concessões ocorrem
por meio da troca.

Negociador

O negociador capacitado, de posse de todas as técnicas de negociação, consegue equilibrar as diferenças e


minimizar as desvantagens.

Sem qualquer dúvida, a negociação é o melhor dos métodos para a solução de conflitos, pois é através dela que as
partes chegam a uma solução satisfatória, por meio da autocomposição, sem qualquer participação de terceiros no
conflito instaurado, ao contrário da mediação e da arbitragem onde as soluções sempre dependem da intervenção
obrigatória de terceiros.

Importante destacar que, na negociação, ao contrário da arbitragem e da mediação, as partes chegam a uma
solução satisfatória sem, contudo, haver a participação de estranhos na relação problemática.

Deve, portanto, ser o método privilegiado para fins de solução de litígios de natureza trabalhista e sindical, tal qual
ocorre na celebração dos Acordos e Contratos Coletivos de Trabalho, obtidos mediante negociação direta entre as
partes envolvidas.
Na negociação as partes chegam a uma solução satisfatória sem qualquer participação de terceiros, ao contrário da
mediação e arbitragem, onde as soluções sempre dependem da intervenção obrigatória de terceiros.

Dez habilidades necessárias a um negociador:

Ser um bom ouvinte: Quando se escuta atentamente e sem interrupções, você está aberto a entender a mensagem
da outra pessoa e conseguir informações que poderão ser de valia no processo. Na medida em que você ouve
atentamente e sem interrupções habilita-se para decodificar a mensagem do outro lado e obter informações que
poderão ser úteis ao processo.

Desenvolver um espírito negocial: Grandes negociadores têm ciência que é possível que tudo pode ser negociado,
mas para isto o ambiente precisa ser declaradamente de negociação. A agressividade deve ceder lugar ao consenso
no processo, para que se possa alcançar o objetivo planejado. É primordial ter em mente que por mais difícil que
pareça um acordo, sempre haverá a possibilidade de alternativas.

Planejar: Quando se participa de um evento sujeito a negociação, faz-se necessário despender parte do tempo a
estudar e entender as variáveis que possam vir a interferir na mesma. Muitas vezes é necessário pré-negociar
internamente recursos, prazos, especificações, metas, condições de pagamento, etc.

Portanto, deve-se ir a uma reunião de negociação com todo o dever de casa diligentemente realizado. Isto lhe dará
muita segurança no processo.

Mirar alto: Uma vez buscados com legitimidade, os objetivos deverão buscar sempre o ponto máximo, pois ao lutar
por mais em uma negociação pode-se obter mais. Por exemplo, se pode vender por 1000 e o mercado paga 1200,
esta será a faixa inicial! Na outra ponta, se pode pagar à vista, mas for interessante fazê-lo em 60 dias busque
inicialmente esta alternativa!

Ser paciente: Um dos principais erros do negociador brasileiro é a impaciência, quase todas às vezes oriundas de
metas irrealistas ou necessidade de logo fechar o acordo. Pode-se até fechar com um resultado, diga-se de
passagem, razoável, mas poderia torná-lo ótimo se não fosse à impaciência que na realidade atropela o processo e
elimina possibilidades de mais ganho. Estando com um bom planejamento pode-se torna o processo mais produtivo
sem necessitar ser refém da impaciência. Às vezes uma reunião de negociação que se estendeu por uma ou duas
horas além do previsto pode trazer excelente compensação.

Visar à satisfação: Negociação é uma estrada de mão dupla. Tanto um quanto o outro negociador deverão estar
legitimamente comprometidos na busca de um resultado altamente satisfatório. Mas, não terá sido negociação de
fato se somente um lado alcançar seus objetivos e o outro ficar com a sensação de perda ou frustração. Por isto, é
preciso visar à satisfação do processo como um todo e lutar para obter o máximo possível. O outro lado certamente
fará o mesmo e aí tem-se um resultado otimizado para ambos os lados, com satisfação de todos e sem frustrações
de ambas as partes.

Ter cuidado com a primeira oferta: Se planeja-se bem, se identifica-se com a zona de possível acordo e suas
alternativas, se é paciente e ouve durante o processo o grau de autoconfiança será elevado e a primeira oferta do
outro lado será apenas um balizador para sua argumentação buscando obter concessões.

Ser ético: No ambiente em que se viver a todo o momento surgem arranhões à ética: na política, na justiça e nos
negócios. A realidade mostra que agir eticamente nas negociações traz inúmeras vantagens. A maior delas tem a ver
com quem está negociando, agindo com correção e exigindo respeito torna-se conhecido como um negociador
confiável com o qual pode-se travar os mais duros embates na certeza de lisura e resultados concretos.

Trocar concessões: Negociar é, sobretudo, trocar concessões de um lado para o outro em busca da conclusão de um
acordo. É primordial ter concessões estudadas na fase de planejamento e procurar incluí-las no rol das alternativas
para fechamento do negócio.

Ser empático: Ter em mente que o processo de negociação é um evento fortemente alicerçado na dimensão
humana: são pessoas que o fazem evoluir para um acordo. Pessoas que possuem crescentes aspirações pessoais e
profissionais, que carregam uma série de influências e desejam obter o melhor resultado possível, então é mais que
fundamental ver o outro lado como um parceiro, sendo compreensivo quanto a possíveis dificuldades pessoais.
Dando este toque humano ao processo estará fazendo algo mais por uma conclusão satisfatória.

Elementos fundamentais da Negociação:

Legitimidade: É o pressuposto básico e realista de possibilidade, alcance e realização do objetivo, assim como das
possíveis alternativas para sua consolidação. Metas exageradas ou acanhadas são um dos complicadores da
legitimidade. É preciso ser realista, estudar o ambiente intra e extra da negociação ajustando-as ao factível, ao
possível de ser alcançado dentro de ações buscando um alcance realista dos resultados.

Informação: O moderno negociador, seja de que área for, é um profissional que administra o máximo de informação
possível, tanto de dentro quanto de fora, utilizando-a para o balizamento e exploração de sua posição no evento.
Melhor negocia quem melhor gerencia a informação obtida e disponibilizada sobre o motivo do encontro. Não deve-
se dar sequência a um processo negocial sem que toda a informação esteja sob seu efetivo controle.

Tempo: Quem administra convenientemente o elemento tempo praticamente está no comando do evento.
Estabelecer uma agenda de negociação com o “oponente” é o primeiro passo e poderá facilitar muito ao controle
temporal. Esta agenda deverá especificar não somente os itens a serem discutidos como também o responsável por
cada um deles e a duração prevista de cada discussão. Por outro lado não se deve ir para uma negociação sem que
tenha tido tempo para criteriosa preparação e planejamento. Negociações derivadas de urgências ou imprevistos
são, na verdade, uma restrição ao tempo e comprometem os resultados.

Poder: Quando se negocia, por exemplo, em nome da Corporação X o outro lado o verá não como “fulano”, mas,
sobretudo como a Corporação X. Isto demanda a necessidade de estabelecer-se nitidamente a amplitude do poder
para conduzir o processo e decidir no que for necessário até a obtenção do melhor acordo. Portanto, verifique e
estabeleça seu poder antes da negociação e pré-negocie internamente os seus limites fixando claramente sua
amplitude. Pode ser que a partir de determinadas situações a palavra final seja de um gerente, coordenador ou
diretor. Se isto for o caso esta pessoa estará como co-partícipe do processo em “stdand-by” (sobreaviso) para ser
acionada, se necessário.

Estes quatro elementos são como estacas que se fixam a uma base sólida: a ética corporativa. É fundamental que se
tenha e exija credibilidade, respeito e total coerência em procedimentos de negociação. Tendo estes quatro
elementos fundamentais e a ética sob seu efetivo controle estará instrumentalizado para buscar os melhores
resultados possíveis no processo das negociações.

Considerações finais

A necessidade de negociação está presente constantemente no ambiente familiar, no trânsito, no trabalho e até
mesmo em eventos sociais torna-se cada vez mais necessária. A negociação está presente no dia-a-dia, o que torna o
desenvolvimento da capacidade negocial absolutamente essencial para todas as esferas de nossas vidas,
principalmente no campo profissional.

Assim, todo profissional que se preze deve por obrigação buscar o desenvolvimento desta técnica, não só para se
tornar uma pessoa desenvolvida, como também para saber utilizar isto a seu favor e a favor da organização do qual
faça parte.

O caminho da negociação na construção de relacionamentos é cada vez mais notório, não se fala mais em analisar
propostas, fala-se em negociar isto e aquilo com alguém. A arte de negociar é um caminho que não tem mais volta,
ser intransigente não leva ninguém mais a canto nenhum com exceção de para trás.

Os grandes negociadores do mundo souberam usar estas técnicas a favor de si mesmos, de suas empresas e seus
países, visando o crescimento e aperfeiçoamento, juntamente com a satisfação de ambas as partes envolvidas em
toda ou qualquer negociação.

De forma geral, sempre é tempo de começar a aprender a negociar e se não começou ainda, é melhor começar a
correr, pois se não vai ficar para trás, ao fim de uma negociação de que não viu que aconteceu.
Módulo 4 – Conciliação: Origem, Conceituação e Fundamentos Históricos da Conciliação. Mudança
de Paradigma. Princípios da Conciliação. Atitudes do Conciliador. Aplicabilidade da Conciliação.
Procedimento de Conciliação.

CONCILIAÇÃO

1 – Introdução Resolução 125/2010 do CNJ


A conciliação e a mediação são instrumentos efetivos de pacificação social, solução e prevenção de litígios, e sua
apropriada disciplina em programas já implementados no país tem reduzido a excessiva judicialização dos conflitos
de interesses, a quantidade de recursos e de execução de sentenças.

A organização dos serviços de conciliação, mediação e outros métodos consensuais de solução de conflitos deve
servir de princípio e base para a criação de Juízos de resolução alternativa de conflitos, verdadeiros órgãos judiciais
especializados na matéria.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) delibera, através de seu Pleno, a Resolução nº 125, de 29 de novembro de
2010, que dispõe sobre a Política Judiciária de tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder
Judiciário.

Esta política pública de tratamento adequado de conflitos está fundamentado nos seguintes princípios
constitucionais:
Princípio do acesso à Justiça e pacificação social
Princípio da dignidade da pessoa humana

Aos órgãos judiciários incumbe oferecer, além da solução adjudicada, outros mecanismos de solução de
controvérsias por via consensual, como a conciliação e mediação.

Dentre outras, o CNJ tem como principais funções a organização de programas de incentivo à autocomposição de
litígios e à pacificação social por meio da conciliação e da mediação, promover o estímulo à conciliação nas
demandas que envolvam matérias sedimentadas pela jurisprudência e promover a mudança de mentalidade.

Este programa será constituído por órgãos do Poder Judiciário e através de parcerias com entidades públicas e
privadas, inclusive universidades e instituições de ensino, pela criação de disciplinas que propiciem o surgimento da
cultura da solução pacífica dos conflitos.

Os Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) são unidades do Poder Judiciário responsáveis
pela realização das sessões de conciliação e mediação pré-processuais, que estejam a cargo de conciliadores e
mediadores, bem como pelo atendimento e orientação ao cidadão. Deverão ser instalados nos locais onde exista
mais de um Juízo, Juizado ou Vara com pelo menos uma das competências, como cível, fazendária, de família ou dos
Juizados Especiais Cíveis e Fazendários.
Atuam nos Cejuscs:
Na administração e supervisão do serviço de conciliadores e mediadores:
Um juiz coordenador
Um juiz adjunto, se necessário
Servidores
Na conciliação e mediação:
Conciliadores (certificado do Curso de capacitação, treinamento e aperfeiçoamento)
Mediadores (certificado do Curso de capacitação)
Outros especialistas em métodos consensuais de solução de conflitos

Em cada unidade dos Cejuscs haverá:


Setor de solução de conflitos pré-processual
Setor de solução de conflitos processual
Setor de cidadania

O Setor de solução de conflitos pré-processual pode recepcionar casos que versem sobre direitos disponíveis em
matéria:
Cível
Família
Previdenciária
Competência dos Juizados Especiais

Os casos no Setor de solução de conflitos pré-processual acima mencionado tem início pela provocação do
interessado através da apresentação de sua reclamação por e-mail ou pessoalmente no setor, solicita
o agendamento de sessão para tentativa de acordo. Logo após, é emitida a carta convite à parte contrária, através
de qualquer meio idôneo de comunicação, informando a data, hora e local da sessão de conciliação ou mediação.

Obtido acordo na sessão, este será homologado judicialmente por sentença. O termo de acordo será arquivado em
meio digital e os documentos devolvidos aos interessados.

Não obtido acordo, os interessados serão orientados para buscar a solução do conflito nos Juizados Especiais ou na
Justiça Comum.

Descumprido o acordo, o interessado munido com o termo, poderá ajuizar ação de execução de título judicial.

O Setor de solução de conflitos processual receberá processos já distribuídos e despachados pelos magistrados, que
indicarão o método de solução de conflitos a ser seguido, retornando sempre ao órgão de origem, após a sessão,
obtido ou não o acordo, para extinção do processo ou prosseguimento dos trâmites processuais normais.

O Setor de cidadania prestará serviços de:


Informação
Orientação jurídica
Emissão de documentos
Serviços psicológicos
Assistência social, etc.

2 – Centros Judiciários de Solução Consensual de Conflitos (NCPC, arts. 165 e ss.)

Os tribunais têm por incumbência criar os Centros Judiciários de Solução Consensual de Conflitos (Cejuscs), com
composição e organização, observadas as normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sem exclusão de outras
formas de conciliação e mediação extrajudiciais vinculadas a órgãos institucionais ou realizadas por intermédio de
profissionais independentes, que poderão ser regulamentadas por lei específica.

Os Cejuscs realizarão sessões e audiências de conciliação e mediação, com o objetivo de desenvolver programas de
auxílio, orientação e autocomposição.

Atuação do Conciliador:

atuar em casos que não houver vínculo anterior entre as partes


sugerir soluções para o litígio
vedado qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para conciliação das partes

Atuação do Mediador:

atuar preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes
auxiliar a compreensão das questões pelos interessados (conflitantes), para que eles próprios cheguem a solução
consensual de benefícios mútuos.

O conciliador na conciliação proporciona uma boa oportunidade para as partes conflitantes tentarem se compor
amigavelmente, podendo até sugerir proposta conciliatória; enquanto que na mediação, o mediador além de
proporcionar o encontro das partes conflitantes, também as subsidia com informações adicionais sobre o objeto
conflitante, as orienta no que for necessário.

Princípios que regem a conciliação e mediação:


independência
imparcialidade
autonomia da vontade (inclusive quanto à definição de regras procedimentais)
confidencialidade (a todas as informações produzidas no procedimento)
oralidade
informalidade
decisão informada

Conciliadores, mediadores e câmaras privativas de conciliação e mediação poderão se inscrever em cadastro


nacional e em cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal, que manterá registro dos profissionais
habilitados, com indicação da área de atuação.

Requisitos para atuação como conciliador e mediador, e características:

Certificado de capacitação emitido por curso de capacitação realizado por entidade credenciada, conforme
parâmetro definido pelo CNJ e pelo Ministério da Justiça.

Inscrição de conciliadores e mediadores no cadastro nacional e no cadastro de tribunal de justiça ou de tribunal


regional federal.

Registro poderá ser efetivado por concurso público, caso opte o tribunal por quadro próprio de conciliadores e
mediadores.

Se advogados, estão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que desempenhem suas funções (NCPC, art.
167, § 5º).

Remuneração prevista em tabela fixada pelo tribunal.

Conciliação e mediação podem ser realizadas como trabalho voluntário (sem remuneração, gratuito).

Conciliador e mediador ficam impedidos por 1 ano, contado do término da última sessão em que atuaram, de
assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes (NCPC, art. 172).

Credenciamento das câmaras privativas de conciliação e mediação, por meio de avaliação de sua atuação pelo
tribunal.

Procedimento:

As partes podem escolher, de comum acordo, o conciliador, o mediador ou a câmara privada de conciliação e de
mediação.

O conciliador ou o mediador poderá ou não estar cadastrado no Tribunal.

Inexistindo acordo quanto à escolha do conciliador ou mediador, haverá distribuição entre aqueles cadastrados no
registro do tribunal.

Sempre que recomendável, haverá a designação de mais de um mediador ou conciliador.

Os tribunais determinarão o percentual de sessões não remuneradas que deverão ser suportadas pelas câmaras
privadas de conciliação e mediação, para atender processos beneficiários da gratuidade da justiça, como
contrapartida de seu credenciamento.

Conciliador e mediador poderão estar impedidos ou suspeitos.

No caso de impedimento, o conciliador ou mediador deve comunicar, por meio eletrônico, e devolver os autos ao
juiz do processo ou ao coordenador do Centro, devendo ser realizada nova distribuição (NCPC, art. 170).
Se o impedimento for apurado quando já iniciado o procedimento, a atividade será interrompida, lavrando-se ata
com relatório do ocorrido e solicitação de distribuição para novo conciliador ou mediador (NCPC, art. 170, § único).

No caso de impossibilidade temporário do exercício da função, o conciliador ou mediador deve informar o fato por
meio eletrônico, para que durante o período haja novas distribuições (NCPC, art. 171).

Exclusão do cadastro de conciliadores e mediadores (NCPC, art. 173 e ss):

Agir com dolo ou culpa na condução da conciliação ou mediação sob sua responsabilidade ou violar qualquer dos
deveres: independência, imparcialidade, autonomia da vontade (inclusive quanto à definição de regras
procedimentais), confidencialidade (a todas as informações produzidas no procedimento), oralidade, informalidade
e decisão informada.

Atuar em procedimento de mediação ou conciliação, apesar de impedido ou suspeito.

Os casos serão apurados em processo administrativo.

O juiz do processo ou o juiz coordenador do Centro que verificar atuação inadequada do mediador ou conciliador,
poderá afastá-lo de suas atividades por 180 dias, por decisão fundamentada, informando o tribunal para a
instauração do respectivo processo administrativo.

A União, Estados, o DF e os Minicípios criarão câmaras de mediação e conciliação, com atribuições relacionadas à
solução consensual de conflitos no âmbito administrativo, como:

Dirimir conflitos envolvendo órgãos e entidades da administração pública.

Avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de conciliação, no âmbito da administração
pública.

Promover a celebração de termo de ajustamento de conduta, quando couber.

A Lei nº 13.140/2015 dispõe sobre a mediação, como meio de solução de controvérsias, entre particulares e também
sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública.

3 - Conciliação

A conciliação ou mediação ativa tem como objetivo o acordo, sendo o conciliador o agente capaz de conduzir a
conversa entre os conflitantes acerca dos direitos e deveres legais das partes. Pode-se observar que há um prestígio
da autocomposição no ordenamento jurídico pátrio como forma de resolução de conflitos. Para Keith Rosenn, isto se
justificaria em razão do brasileiro agir com sentimentalismo, ou seja, ele aceita e tolera solidariamente as
debilidades humanas. Por esta razão, o autor entende que a conciliação é um "jeito" em nossa cultura jurídica.

Todavia, tal argumento deve ser revisto, na medida em que a conciliação figura como um efetivo instrumento de
pacificação social, como ocorre, por exemplo, na "Semana da Conciliação" promovida pelo Conselho Nacional de
Justiça. As críticas do referido autor devem ser levadas em consideração, no que tange à forma como a conciliação
está sendo empregada pelos juristas e demais operadores do Direito. Isto significa dizer, que para a conciliação não
se tornar uma forma de "jeito" de resolver os litígios, é necessária a criação de estruturas capazes de garantir a
efetividade dos direitos com celeridade e técnica.

2.1 – O que é conciliação?

É um meio alternativo de resolução de conflitos em que as partes confiam a uma terceira pessoa (neutra), o
conciliador, a função de aproximá-las e orientá-las na construção de um acordo. O conciliador é uma pessoa da
sociedade que atua, de forma voluntária e após treinamento específico, como facilitador do acordo entre os
envolvidos, criando um contexto propício ao entendimento mútuo, à aproximação de interesses e à harmonização
das relações.
2.2 - E conciliação judicial?

A conciliação é judicial quando se dá em conflitos já ajuizados, nos quais pode atuar como conciliador o próprio juiz
do processo ou conciliador treinado e nomeado.

A conciliação é posta no sistema processual civil (NCPC) como uma das duas formas nele previstas para a resolução
dos conflitos que são levados à apreciação do Judiciário. A outra, é a forma impositiva, via sentença/acórdão.

A conciliação é a forma preferida de resolução de conflitos no nosso sistema processual porque ela é a melhor das
duas: é mais rápida, mas barata, mais eficaz e pacífica. E nela não há risco de injustiça, na medida em que são as
próprias partes que, conciliadas, mediadas e auxiliadas pelo juiz/conciliador, encontram a solução para o conflito de
interesses. Nela não há perdedor.

Nos Juizados Especiais, a conciliação é um dos seus fundamentos. Todas as causas iniciam pela conciliação (Lei
9.099/95).

A Conciliação é um método de solução de conflitos em que as partes resolvem a controvérsia por meio de um
acordo, através da ajuda de uma terceira pessoa imparcial, o conciliador.

Apesar de não possuir uma lei específica, a conciliação está prevista na legislação brasileira, em vários ramos do
direito, como no direito processual do trabalho, direito processual civil.

No âmbito do Direito Processual do Trabalho, Carlos Henrique Bezerra Leite dispõe que o princípio da conciliação,
apesar de ter sido suprimido do art. 114 da Constituição Federal pela Emenda Constitucional nº 45, continua sendo
amplamente previsto no plano infraconstitucional, como ocorre nos arts. 625-A, 764, 831, 846, 847 850, 852-E, 862 e
863 da CLT. Tamanha é a importância da conciliação, que uma vez não observada nos procedimentos ordinário e
sumaríssimo, poderá haver nulidade absoluta dos atos posteriores, sob a justificativa de que a mesma trata de
matéria de ordem pública.

O Novo Código de Processo Civil (NCPC), no Capítulo V, do Título I, do Livro I “Parte Especial”, artigos 334 e
seguintes, disciplina a conciliação e à mediação judiciais, e atribui ao mediador e conciliador o status de auxiliares de
justiça. Para reger a atuação e conduta dos operadores destas vias alternativas, devem ser observados os princípios
da independência, neutralidade, autonomia da vontade, confidencialidade, oralidade e informalidade. Ademais, há
uma inovação normativa no que diz respeito à pretensão de profissionalizar os operadores das vias alternativas de
resolução de litígios, como por exemplo, a remuneração, cadastro de registro, e cursos de formação de mediadores
e conciliadores.

O NCPC dispõe sobre a audiência de conciliação ou de mediação, na qual as partes devem estar acompanhadas de
seus advogados ou defensores públicos. O art. 334 dispõe que, se a petição inicial preencher os requisitos essenciais
e não for o caso de improcedência do pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com
antecedência mínima de 30 dias, devendo ser citado o réu com pelo menos 20 dias de antecedência. Os §§ 2º e 4º
do art. 334 dispõem que poderão ocorrer mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo
exceder a 2 meses da data de realização da primeira sessão, exceto se houver desinteresse das partes na
composição amigável ou não se o objeto do conflito não admitir a autocomposição. O § 6º dispõe que se houver
litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manisfestado por todos os litisconsortes. O § 8º
dispõe que o não comparecimento injustificado das partes (autor ou réu) à audiência de conciliação é considerado
ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até 2% da vantagem econômica pretendida
ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. Dispõe o § 11º que a autocomposição obtida será
reduzida a termo e homologada por sentença.

A conciliação está prevista, ainda, nos arts. 2, 20 e 26 da Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais (Lei 9.099/95).
Ademais, a referida lei prevê a possibilidade da transação penal, conforme previsão do art. 76 da Lei 9.099/95.

Em consonância com este entendimento, o Conselho Nacional de Justiça, órgão responsável pelo controle da
atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário, editou a Resolução nº 125 para instituir Política Pública de
Tratamento Adequado de Conflitos de interesses no âmbito do Judiciário. A referida resolução visa estimular, apoiar
e difundir a sistematização e o aprimoramento das práticas de pacificação social, destacando-se a conciliação e a
mediação. Além disso, pretende vincular os órgãos judiciários para criação de Centros Judiciários de Solução de
Conflitos e Cidadania, Núcleos Permanentes de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos e Juízos de Resolução
Alternativos de Conflitos. Para isso, estabelece conteúdo programático mínimo para cursos de capacitação de
conciliadores e mediadores, conforme anexo I da resolução. Destaca-se, ainda, o anexo III da referida norma, que
versa acerca do Código de Ética de Conciliadores e Mediadores Judicias, dispondo acerca de princípios que norteiam
a prática e conduta dos operadores destes meios de pacificação social.

2.3 - Quais as características da Conciliação?

Este método tem por principal característica a celeridade, ocorrendo geralmente em uma única reunião. Ressalte-se,
também, que na Conciliação inexiste entre as partes relacionamento significativo no passado ou contínuo no futuro.

2.4 - Qual a função do Conciliador?

A função do Conciliador é de aproximar e propiciar as partes na construção de um acordo.

2.5 - A Conciliação tem alguma relação com a via judicial?

Sim, a Conciliação guarda uma estreita relação com a via judicial, haja vista que por diversas vezes possui previsão
nos diplomas legais do ordenamento pátrio. Exemplo é o artigo 846, da CLT que dispõe: "Aberta a audiência, o juiz
ou o presidente proporá a conciliação".

3 – Técnicas de Conciliação

A técnica de conciliação é um conjunto de procedimentos e estratégias que otimizam a realização da


audiência/sessão de conciliação, no sentido de torná-la produtiva. Visa contribuir para o alcance dos objetivos
propostos de forma mais ágil e eficiente.

Conhecer as técnicas de conciliação e o uso correto das mesmas possibilita o conciliador ter mais facilidade, firmeza,
segurança ao conduzir a audiência/sessão de conciliação. Naturalmente, apenas a prática irá assegurar
o domínio delas.

3.1 - Preparação para audiência/sessão de conciliação

3.1.1 - Momento Prévio

Para promover uma atmosfera de respeito entre as pessoas envolvidas na audiência/sessão de conciliação e
contribuir para que a reunião seja bem sucedida, é importante que o conciliador chegue ao local da conciliação antes
do horário da audiência/sessão, a fim de se preparar adequadamente, concentrando-se e imbuindo-se do
sentimento de sua função.

Rever as técnicas, estratégias e ferramentas que deseja empregar durante a sessão, assim como a organização
prévia do ambiente (mobiliário/material), colabora para que as pessoas se sintam bem acolhidas.

O conciliador deve centrar-se no caso em questão buscando conhecer de antemão a natureza do conflito, o que o
auxilia a ter mais segurança na condução da conciliação, podendo, se necessário, esclarecer possíveis dúvidas com
juízes, coordenadores e conciliadores-orientadores.

3.1.2 - Como proceder anteriormente à chegada dos participantes

Antes dos envolvidos chegarem, o conciliador deverá:

1. Preparar o local no qual será realizada a conciliação: mesa, iluminação, temperatura ambiente, privacidade, água,
café, local de espera, materiais de escritório, entre outros.

2. TÉCNICA:
1. Conhecimento prático
2. Conjunto de métodos e pormenores práticos essenciais à execução perfeita de uma arte ou profissão.
3. Revisar todas as anotações feitas sobre o caso e, se possível, memorizar o nome das partes. Quando for possível
saber o nome das partes somente durante a Conciliação; anotá-los pode ser de utilidade.
4. Caso haja mais de um conciliador, é fundamental que se preparem quanto ao modo como cada um deverá atuar.
É interessante que eles dividam, entre si, as informações a serem apresentadas às pessoas e estabeleçam que um
realizará toda a apresentação e o outro completará os demais aspectos. De qualquer modo, uma divisão igualitária é
recomendável, pois evitará o direcionamento do diálogo para apenas um dos conciliadores, e também permitirá
uma melhor percepção, pelas partes, da harmonia do trabalho por eles realizado.

3.1.3 - Posicionamento das partes à mesa durante a conciliação

Alguns preparativos no local da audiência/sessão de conciliação e na organização do trabalho podem auxiliar no


êxito da conciliação. Portanto, uma verificação prévia das condições físicas da sala de conciliação e conhecimento do
conflito a ser trabalhado são itens indispensáveis para o alcance desse êxito.

Na audiência/sessão de conciliação, todos devem se sentir fisicamente confortáveis, concentrados e seguros, dentro
de um ambiente que garanta a privacidade das partes.

A disposição dos assentos e a forma como serão ocupados durante a audiência/sessão de conciliação transmite
muito mais informações do que se possa imaginar. Trata-se de uma forma de linguagem não verbal que deve ser
bem analisada, a fim de que se possa perceber o que os envolvidos podem esperar da conciliação e como irão se
comportar nesse ambiente. A disposição física dos presentes deverá se dar conforme o número de pessoas e o grau
de animosidade entre elas.

O posicionamento do conciliador em relação às partes também é de grande importância, já que a qualidade,


imparcialidade, aptidão e liderança podem ser transmitidas, em muito, por esses aspectos. Dessa maneira, ele deve
se posicionar com igual distanciamento em relação às partes. Quanto à liderança, seu posicionamento deve se dar
de modo a conseguir administrar e controlar todo o desenvolvimento da audiência/sessão de conciliação.

No caso de uma audiência/sessão de conciliação ser conduzida por mais de um conciliador é importante que se
sentem próximos um do outro, para facilitar a comunicação entre eles.

3.1.4 - Como receber as pessoas

O conciliador deve recepcionar as pessoas, procurando estabelecer um ambiente de cordialidade e acolhimento.


Deve, também, cumprimentar cada uma delas para que se sintam calmas e confortáveis. Contudo, não deve
conversar em demasia para manter certo grau de objetividade.

3.2 - Abertura

A abertura da audiência/sessão de conciliação deve ser realizada de forma clara e objetiva, esclarecendo às pessoas
sobre a proposta e a dinâmica da conciliação.

É o momento onde se explica como a conciliação se desenvolve, quais as regras que deverão ser seguidas, sempre
no intuito de deixar as pessoas confortáveis e seguras quanto ao desenvolvimento da conciliação.

O conciliador deve ter o cuidado de não direcionar mais atenção a uma das pessoas do que à outra, conversando -
por exemplo - ou se portando mais amigavelmente com uma delas. Caso isso venha a ocorrer, uma das partes,
provavelmente, terá a impressão de que o conciliador está sendo parcial.

É muito importante apresentar algumas palavras de encorajamento, por isso, é interessante que o conciliador elogie
o esforço de cada uma das partes de tentar resolver seu conflito ou dificuldade, utilizando a conciliação. Ao mesmo
tempo, ele deve cientificar as partes de que, nos processos conciliatórios, em situações semelhantes à que elas estão
vivenciando, têm-se logrado êxitos bastante expressivos, uma vez que, além de se solucionar o problema específico,
também possibilita uma oportunidade para que as partes saiam satisfeitas com o processo, e até consigam manter
um relacionamento posterior satisfatório.
É na fase de abertura que o conciliador estabelece sua presença e sua autoridade como condutor da
audiência/sessão de conciliação, devendo se apresentar como um auxiliar e facilitador da comunicação entre as
partes. Seu objetivo – desde já deve ser explicitado – não é induzir ninguém a um acordo que não seja satisfatório.
Pelo contrário, o que se deseja é que as partes, em conjunto, cheguem a um acordo que as faça se sentirem
contentes com o resultado. Ao mesmo tempo, o conciliador deve deixar claro que buscará fazer com que elas
consigam explicitar suas metas e interesses e, desse modo, possam, construtivamente, criar e encontrar suas
próprias soluções.

Para tanto, o conciliador deve portar-se de forma a despertar nas partes o sentimento de confiança em sua pessoa e
imparcialidade, sendo útil desse modo, que ao conversar, olhe para cada um dos presentes de modo equilibrado e
calmo. É importante dizer aos envolvidos que o conciliador não é juiz e, por isso, não irá proferir julgamento algum
em favor de uma ou outra pessoa envolvida no conflito. Ademais, deve ele frisar a sua imparcialidade e confiança no
sucesso da conciliação que está em curso. Um exemplo de como se expressar: “Devo lembrá-los que não sou juiz e,
portanto, não irei prolatar nenhuma decisão em favor de uma ou outra parte. Minha atuação será imparcial, sempre
no intuito de auxiliá-los a terem uma negociação eficiente.”

O conciliador, portanto, deve agir como um educador no processo de conciliação e como condutor das regras que
deverão ser empregadas durante a conciliação.

Cabe ao conciliador explicar de forma objetiva como a audiência/sessão se desenvolverá, enfatizando, logo no início,
que cada um dos participantes terá a sua vez para se expressar. Durante a audiência/sessão, o conciliador disciplina
o diálogo cuidando para que um não interrompa o outro e diligenciando para que as pessoas tenham a oportunidade
de falar e ouvir umas às outras, sempre de forma cordata e organizada.

Desde já, deve o conciliador combinar sobre a participação do advogado quando este estiver presente, uma vez que
o engajamento de todos é fundamental para a construção do acordo.

É conveniente também que o conciliador faça uma previsão da duração da audiência/sessão de conciliação, com
base em sua experiência ou na política institucional do Tribunal. Todavia, é importante ter em mente que cada caso
tem suas particularidades e, que pode levar a uma reorganização do planejamento dos trabalhos. Naturalmente,
tratando-se de conciliação, há também a questão da pauta, pois, uma audiência/sessão que se atrasa, afeta todas as
demais daquele conciliador.

Para um adequado desenvolvimento das técnicas autocompositivas, sugere-se que o tempo mínimo planejado para
cada conciliação seja de 30 a 45 minutos. Isto porque, em conciliações realizadas em menos de 15 minutos, o
conciliador somente tem tempo para se apresentar, ouvir resumidamente os envolvidos e apresentar uma proposta
de solução - que se considera, como indicado anteriormente, uma forma excessivamente precária de se conduzir
uma conciliação.

Na fase de abertura - etapa fundamental do processo de conciliação – tem-se o propósito de deixar os participantes
da audiência/sessão cientes da dinâmica de trabalho, de estabelecer um tom ameno para o debate das questões por
elas suscitadas, de fazer com que o conciliador ganhe a confiança das pessoas e, desde já, explicite as expectativas
quanto ao resultado do processo que se está a iniciar.

3.3. Exposição dos fatos pelos participantes

Após a abertura o conciliador propõe às pessoas envolvidas no conflito que exponham o motivo que as levaram a
procurar ajuda junto aos órgãos que promovem a conciliação.

Esse é o momento da escuta pelo conciliador dos fatos ocorridos de acordo com o ponto de vista de cada um dos
envolvidos.

Nessa fase, é comum as pessoas relatarem passagens de suas vidas que não estão diretamente relacionadas ao
problema, fugindo, assim, do assunto que as levou até a conciliação.
O conciliador, de maneira calma e serena, porém firme, deve restringir a conversa para evitar a exposição da vida
dessas pessoas e objetivar a reunião de conciliação.

Ele disciplina o diálogo, cuidando para que uma parte não interrompa a outra e diligenciando para que as pessoas
tenham a oportunidade de falar e de ouvir umas às outras, sempre de forma respeitosa e organizada. Durante a
exposição, porém, se necessário, deve relembrar, às partes, as regras a serem cumpridas ao longo da conciliação.

3.4. Identificação e esclarecimento das questões, interesses e sentimentos

Um aspecto importante no processo da conciliação, consiste em conhecer os fatos e informações importantes sobre
o problema, procurando identificar o que realmente as pessoas pretendem resolver.

A escuta atenciosa das partes é a chave para conhecer seus reais interesses e o meio de chegar a acordos onde esses
interesses sejam respeitados. O conciliador deve estar disponível para ouvir as pessoas com atenção, disciplinando-
se para não fazer julgamentos enquanto o outro fala.

Deve evitar ainda, interromper o pensamento do outro, não se precipitando


para concluir ou direcionar a discussão.

3.5. Negociação

A negociação é um processo de comunicação que tem por objetivo a construção de soluções para o conflito. Ela é
realizada pelas partes com a ajuda do conciliador que, neste sentido, participa da negociação com a função de
facilitar o diálogo, coordenar a discussão, organizar as propostas apresentadas e elaborar a síntese das propostas
apresentadas.

Na negociação o conciliador estimula as partes a conversarem de forma objetiva sobre as alternativas para a
redução dos seus conflitos, o que proporciona soluções participativas e responsáveis, fazendo com que os
envolvidos se comprometam com a resolução de suas questões.

Embora esteja presente onde há conflito, a negociação, para ser bem sucedida utiliza técnicas próprias e específicas
que ajudam a criar um clima de acordo onde a ética e o respeito ao outro sejam a tônica e que os INTERESSES das
partes possam ser atendidas sem prejuízo de nenhuma delas.

São técnicas da negociação:

• IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA
Um ponto importante ao se deparar com uma questão de conciliação, consiste em identificar claramente qual é o
seu objetivo, ou seja, ter clareza do que se pretende resolver. Trata-se de buscar todos os fatos e informações
relevantes sobre o problema. Uma vez identificados, será possível descrever a situação problemática de maneira
clara, distinguindo as informações importantes das irrelevantes, separando os fatos verdadeiros das suposições e
interpretações não comprovadas.

• REFORMULAÇÃO
Dar uma nova formulação ao problema, mudando a perspectiva conceitual ou emocional em relação à forma como é
vivenciado pelas partes. Muda-se o significado atribuído à situação e não aos fatos ocorridos.

• CONOTAÇÃO POSITIVA DO CONFLITO


Transformar fatos acusatórios em temas positivos e de interesse comum, ressaltando especialmente as
características e qualidades positivas das pessoas.

• FOCO NOS CONFLITOS E NÃO NAS PESSOAS


Frequentemente, as partes envolvidas num conflito sentem-se adversárias, envolvendo-se em questões pessoais que
não deveriam ser objeto da negociação naquele momento. Quando isso acontece, as emoções se sobrepõem,
aumentando as dificuldades para solucionar o problema.

• CONCENTRAR-SE NOS INTERESSES


Os interesses são os desejos e as preocupações das partes, e que na maioria das vezes aparecem numa negociação
encobertos por posições iniciais rígidas. Isso dificulta sobremaneira uma negociação, à medida que não proporciona
flexibilidade aos negociadores e a todo o processo da conciliação, além de, em muitos casos, poder inclusive
encobrir efetivamente o que se pretende atingir, ou seja, os interesses básicos que estão por trás da negociação.

As posições são sempre claras. Os interesses nem sempre são expressos ou coerentes. Uma maneira de descobri-los
é perguntando: O que você pretende? Por que almeja?

• ENCONTRAR CRITÉRIOS OBJETIVOS


Outra ferramenta importante refere-se a encontrar critérios objetivos para a solução do problema. A busca do
melhor acordo possível deve passar pela mais vasta gama de soluções, sempre com a preocupação de procurar
interesses comuns que conciliem, de maneira criativa, os interesses divergentes das partes. Porém como escolher a
melhor opção dentro do amplo leque que frequentemente se consegue montar? Nesse sentido, é importante que o
acordo reflita algum padrão justo, razoável e que seja consenso entre as partes envolvidas. Pode-se, por exemplo,
tomar como referência o valor de mercado, uma opinião especializada ou uma lei.

Assim, ao discutir as soluções, nenhum dos lados precisa ceder ao outro. Ambos devem, isto sim, acatar uma solução
justa, baseada em critérios previamente discutidos e aceitos.

Para resolver interesses conflitantes, as pessoas devem acordar no que


seja, no mínimo, justo para ambas.

• BUSCA DE OPÇÕES DE GANHOS MÚTUOS


Normalmente, as partes envolvidas numa negociação acreditam existir uma única alternativa para a solução do
problema, e caminham nessa direção. Isso se deve a alguns fatores: acomodação, ausência de criatividade para
buscar outras opções, falta do hábito de buscar diferentes soluções. Sendo assim, quanto mais forem estimuladas a
criarem alternativas de ganhos mútuos, mais facilmente chegarão a um acordo.

O conciliador deve estar sempre atento à forma de comunicação estabelecida entre as partes, pois esta pode
favorecer ou dificultar o desenvolvimento de uma negociação satisfatória entre elas. Atitudes como julgamento
prematuro, busca de uma resposta única, preocupação exclusiva com os próprios interesses podem inibir a criação
de opções alternativas para a solução do conflito.

3.6. Síntese da sessão de conciliação

Uma vez que as partes tenham expressado sua visão do conflito, apresentado suas propostas, enfim, negociado as
soluções, o conciliador, após perguntar se elas têm algo mais a acrescentar, fará um resumo do que escutou. Assim,
ele resgata os pontos comuns entre as partes e aponta as possibilidades de acordo que surgiram.

Nessa fase, pode acontecer que o conflito apresentado passe a exigir conhecimentos técnicos quanto à legalidade. É
função do conciliador, nessa situação, prestar esclarecimentos às pessoas naquilo que tiver conhecimento.

Quando não possuir o conhecimento exigido deve buscar assessoramento com o juiz e/ou coordenador.

Em situações de muita dificuldade das pessoas para buscarem uma alternativa que satisfaça aos interesses de ambas
num acordo, o conciliador deve ser o mais claro e didático possível: apontar os diferentes interesses das pessoas,
proceder ao levantamento e análise dos problemas e das opções que cada uma delas apresenta. Desta forma, terão
oportunidade de raciocinarem sobre possibilidades de acordo que levem em consideração a realidade presente e
futura, bem como a viabilidade da concretização dos objetivos da audiência/sessão conciliatória.

3.7. Composição do acordo

Todas as alternativas levantadas para a solução do problema devem ser consideradas, cabendo ao conciliador
indicar outras que lhe ocorrerem, mas sempre com imparcialidade. Quanto mais opções existirem para atender aos
interesses dos envolvidos numa conciliação, maiores serão as chances de se chegar a um acordo.
O conciliador deve sempre estar atento para que os acordos obtidos sejam realistas, devendo satisfazer ao máximo
as partes e prevenir questionamentos futuros, a fim de que sejam o mais duradouros possível.

Após a síntese dos pontos comuns encontrados, cabe ao conciliador fazer um resumo do acordo de forma
compreensível para as partes, o que as auxiliará na escolha de soluções que atendam aos critérios da realidade: um
acordo que seja imparcial, sensato, eficiente e que aprimore o relacionamento entre as pessoas envolvidas na
conciliação.

3.8. Encerramento e lavratura de termo

Finalizada a composição do acordo, o conciliador deverá registrá-lo em formulário específico (ata/termo de acordo),
numa linguagem clara contendo as condições e especificações tal como elas foram acordadas. É importante fazer a
leitura para os envolvidos na conciliação do que foi registrado, visando pleno conhecimento e dirimindo dúvidas com
relação à sua composição final.

Este momento também é propício para orientá-las sobre outras questões (quando for o caso: conta bancária,
mandado de averbação, encaminhamentos, etc.), para que finalizem os trabalhos de conciliação esclarecidos e
acolhidos em suas necessidades.

Módulo 5 – Mediação: Origem, Conceituação e Fundamentos Históricos da Mediação. Mudança de Paradigma.


Princípios da Mediação.

MEDIAÇÃO (Lei nº 13.140/2015)

1 – Mediação

Para Fredie Didier Júnior, a mediação é uma técnica não-estatal de solução de conflitos, pela qual um terceiro se
coloca entre os contendores e tenta conduzi-los à solução autocomposta.

A Lei nº 13.140/2015 conceitua mediação, como meio de solução de controvérsias entre particulares e sobre a
autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública, dispondo que mediação é a atividade técnica
exercida por terceito imparcial sem poder decisório, que, escolhido ou aceito pelas partes, as auxilia e estimula a
identificar ou desenvolver soluções consensuais para a controvérsia.

O mediador é um profissional qualificado que tenta fazer com que os próprios litigantes descubram as causas do
problema e tentem removê-las. Trata-se de técnica para catalisar a autocomposição.

A mediação diferencia-se da negociação pelo simples fato da presença do terceiro mediador, eis que este terá como
função de auxiliar as partes para resolver o conflito.

Daniel Amorim Assumpção Neves assevera que a postura do terceiro é que diferencia a conciliação da mediação, eis
que na primeira há o oferecimento de alternativas de sacrifício mútuo entre as partes, enquanto na segunda, o
mediador estabelece um diálogo entre os envolvidos, de forma que os mesmos possam resolver o conflito, sem
necessariamente abdicar de parcela de direito.

Ao distinguir a mediação da conciliação, pode-se dizer que a mediação é atividade privada, mesmo que processual e
visa resolver abrangentemente o conflito entre as partes, enquanto a conciliação contenta-se em solucionar o litígio
conforme as posições apresentadas pelos envolvidos.

Via de regra, a mediação é utilizada antes da adjudicação, ou seja, ela possui um procedimento extrajudicial e pode
ser adotada até como forma de prevenção.

Por fim, o autor conclui que as vias alternativas têm o intuito de complementar e não disputar com a adjudicação,
sendo a mediação mais adequada para tratar de relacionamentos interpessoais continuados (aqueles que vão
subsistir independentemente da vontade das partes), como os casos de direito de família, vizinhos e associados.
Nenhuma área de conflito reflete melhor as vantagens e desvantagens da negociação de acordos, feitos através da
mediação, do que a familiar. Conflitos de família ocorrem entre pais e filhos adolescentes, ou entre cônjuges em
separação, sobre guarda de filho, ou propriedade, e são configurados por questões especialíssimas e extremamente
interligadas. Por isso vêm desafiando as decisões judiciais, pelo retorno sem fim de seus processos, às salas dos
tribunais. As famílias, geralmente, operam de acordo com suas “próprias” leis e são rebeldes à imposição de padrões
de terceiros. Quando são pressionadas, tomam a justiça em suas próprias mãos e ignoram decisões, sejam
profissionais ou judiciais (...).

A conciliação e a mediação pode ser judicial ou extrajudicial e as partes podem estar assistidas por advogados ou
defensores públicos.

2 – Diferença entre conciliação e mediação

Conciliação Mediação
Somente há a presença das partes (contendores), sem
Há a presença das partes com vínculo anterior. O terceiro,
vínculo anterior. O conciliador tem por função ser um
mediador, tem função de auxiliar as partes para resolver o
facilitador, isto é, facilitar o diálogo entre as partes,
conflito.
apresenta proposta e soluções para o litígio.
O mediador se coloca entre os contendores e tenta
Existência de terceiro com atuação direta.
conduzi-los à solução autocomposta.
O mediador estabelece um diálogo entre os envolvidos, de
Há o oferecimento de alternativas de sacrifício mútuo
forma que os mesmos possam resolver o conflito, sem
entre as partes.
necessariamente abdicar de parcela de direito.

3 – Princípios fundamentais e garantias que regem conciliação e mediação:

Confidencialidade: sigilo sobre as informações obtidas na sessão de conciliação, salvo autorização expressa das
partes, violação à ordem pública ou às leis vigentes. Não pode o conciliador ser testemunha do caso, nem atuar
como advogado.

Competência: ser pessoa capaz, ter qualificação para a atuação judicial como conciliador e capacitação por curso.
Para atuar como mediador também deve ter graduação há pelo menos 2 anos em curso de ensino superior de
instituição reconhecida pelo Ministério da Educação e que tenha obtido capacitação em escola ou instituição de
formação de mediadores, reconhecida pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados
(ENFAM) ou pelos tribunais, observados os requisitos mínimos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
em conjunto com o Ministério da Justiça (Lei 13.140/2015, art. 11).

Isonomia entre as partes: tratamento igual, com as mesmas oportunidades de diálogo e exposição, e de obtenção
de auxílio.

Oralidade: obrigatória a presença e a participação efetiva das partes conflitantes.

Imparcialidade: ausência de favoritismo, preferência ou preconceito, compreendendo a realidade dos envolvidos no


conflito.

Neutralidade: manter equidistância das partes, respeitando seus pontos de vista, com atribuição de igual valor a
cada um deles.

Independência e autonomia: atuação com liberdade, sem pressão interna ou externa, sendo permitido recusar,
suspender ou interromper a sessão se ausentes as condições para o bom desenvolvimento da sessão.

Informalidade: não há formas solenas para o seu desenvolvimento.

Busca do consenso e boa fé: objetiva o acordo das partes, sempre regido pela boa fé das mesmas.

Respeito à ordem pública e às leis: zelar para que o acordo entre as partes não viole a ordem pública, nem contrarie
as leis.
4 – Regras que regem o procedimento de conciliação e mediação:

Estas regras são normas de conduta a serem observadas pelos conciliadores/mediadores para seu bom
desenvolvimento, permitindo que haja o engajamento dos envolvidos, com vistas à pacificação e ao
comprometimento com eventual acordo obtido:

Informação: dever de esclarecer os envolvidos sobre o método de trabalho a ser empregado, apresentando-o de
forma completa, clara e precisa, informando sobre os princípios deontológicos, as regras de conduta e as etapas do
processo.

Autonomia da vontade: dever de respeitar os diferentes pontos de vista dos envolvidos, assegurando-lhes que
cheguem a uma decisão voluntária e não coercitiva, com liberdade para tomar as próprias decisões durante ou ao
final do processo, podendo inclusive interrompê-lo a qualquer momento.

Ausência de obrigação de resultado: dever de não forçar um acordo e de não tomar decisões pelos envolvidos,
podendo, quando muito, no caso da conciliação, criar opções, que podem ou não ser acolhidas por eles.

Desvinculação da profissão de origem: dever de esclarecer aos envolvidos que atua desvinculado de sua profissão
de origem, informando que, caso seja necessária orientação ou aconselhamento afetos a qualquer área do
conhecimento poderá ser convocado para a sessão o profissional respectivo, desde que com o consentimento de
todos.

Teste de realidade: dever de assegurar que os envolvidos, ao chegarem a um acordo, compreendem perfeitamente
suas disposições, que devem ser exequíveis, gerando o comprometimento com seu cumprimento.

5 – Responsabilidades e sanções do conciliador e mediador:

Para exercer as funções de conciliador e mediador perante o Poder Judiciário devem estar capacitados e cadastrados
pelos tribunais, que regulamentam o processo de inclusão e exclusão destes.

Conciliador e mediador devem exercer sua função com lisura, respeitando os princípios e regras acima, assinando
termo de compromisso e submetendo-se às orientações do juiz coordenador da unidade a que está vinculado.

Conciliador e mediador são impedidos e suspeitos pelos mesmos motivos dos juízes, conforme disposto no NCPC,
arts. 144 e 145, devendo quando constatados, estes motivos serem informados aos envolvidos, com a interrupção
da sessão e sua substituição (NCPC, art. 170 e §§).

Em caso de impossibilidade temporária do exercício da função, o conciliador e mediador deverá informar com
antecedência ao responsável para que seja providenciada sua substituição na condução das sessões (NCPC, art. 171).

Os conciliadores e mediadores judiciais, se advogados, cadastrados nos Centros Judiciários de Solução Consensual de
Conflitos (Cejuscs) estarão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que desempenhem suas funções (NCPC,
art. 167, § 5º).

A Lei 13.140/2015 regulamenta a mediação entre particulares como meio de solução de controvérsias e sobre a
autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública.

O conciliador e mediador fica absolutamente impedido de prestar serviços profissionais de qualquer natureza pelo
prazo de 1 ano aos envolvidos em processo de conciliação e mediação sob sua condução, contado do término da
última audiência em que atuou (NCPC, art. 172; Lei 13.140/2015, art. 6º).

O mediador não pode atuar como árbitro nem funcionar como testemunha em processos judiciais ou arbitrais
pertinentes a conflito em que tenha atuado como mediador (Lei 13.140/2015, art. 7º).

O descumprimento dos princípios e regras estabelecidos, bem como a condenação definitiva em processo criminal,
resultará na exclusão do conciliador e mediador do respectivo cadastro e no impedimento para atuar nesta função
em qualquer outro órgão do Poder Judiciário nacional. O mediador e todos que assessorarem no procedimento de
mediação, quando no exercício de suas funções ou em razão delas, são equiparados a servidor público, para os
efeitos da legislação penal (Lei 13.140/2015, art. 8º).

Qualquer pessoa que venha a ter conhecimento de conduta inadequada por parte do conciliador e mediador poderá
representar ao Juiz Coordenador a fim de que sejam adotadas as providências cabíveis.

Módulo 6 – Mediação: Atitudes do Mediador. Aplicabilidade da Mediação. Procedimento de Mediação.

MEDIAÇÃO (Lei nº 13.140/2015)

1 – Quem é o mediador e qual o objeto da mediação?

Mediador é um gestor de conflitos, que promove o equilíbrio entre os litigantes, para propiciar condições ao mais
fraco de enfrentar as opressões do mais poderoso.

Possui grande senso de equidade, que lhe propicia deslocar-se com habilidade entre as imposições da ética, da
moral, da justiça e do bem estar dos envolvidos, em um movimento em que mescla arte, filosofia e técnica.

O mediador respeita a dignidade e o sofrimento do próximo e tem prazer de servir e atuar com excelência. Isto só é
possível pelo seu autoconhecimento, que lhe proporciona controle sobre as próprias emoções.

Pode ser objeto de mediação o conflito que verse sobre direitos disponíveis ou sobre direitos indisponíveis que
admitam transação (Lei 13.140/2015, art. 3º). O consenso das partes envolvendo direitos indisponíveis, mas
transigíveis, deve ser homologado em juízo, exigida a oitiva do Ministério Público (Lei 13.140/2015, art. 3º, § 2º).

2 – Perfil do mediador:

Idade: os litigantes podem sentir-se mais à vontade com mediadores de idade similar, descontraídas, em sintonia de
linguagem, vivência e experiência de relacionamento interpessoal.

Formação superior: a escolaridade de nível superior representa maior garantia na interpretação com precisão da
linguagem falada e escrita, na elaboração de metáforas e analogias úteis para estabelecer a comunicação eficaz e
fazer a “ponte” entre os mediandos.

Competência interpessoal: demonstrada pela maneira objetiva, segura, persistente e eficaz com que o mediador
administra os comportamentos, mesmo quando tratam-se de emoções negativas (mágoa, desprezo, raiva).

Domínio da língua portuguesa: propicia a compreensão da linguagem escrita e falada, agilidade da leitura e
entendimento de documentos, competência para redigir os acordos, facilidade para expor as próprias ideias e criar
uma distinção entre sua própria pessoa.

Conhecimento mínimo de direito: é conveniente, não obrigatório, para permitir avaliar a inexistência de decisões
versando sobre bens ou direitos indisponíveis ou objetos ilícitos e se os efeitos legais decorrentes da decisão das
partes serão factíveis.

Conhecimentos e competências a respeito de mediação e suas técnicas: constituem conhecimentos e


competências indispensáveis.

Sintonia cultural: competência para imergir no universo do conflito e contatar com a realidade dos mediandos.

Imagem pública: credibilidade do mediador deve ser inatacável.

Resistência física: capacidade de permanecer alerta na atuação em várias sessões consecutivas durante o período
exigido.
Resistência ao estresse emocional: o mediador poderá tornar-se alvo de pessoas perversas, de mau caráter, mal
intencionadas, e não poderá deixar-se afetar ao constatar sofrimento e danos recebidos por uma das pessoas.

Paciência: deve perseverar na metodologia e resistir à vontade de decidir pelos mediandos e/ou praticar justiça.

Autoconfiança: incentivador e aberto a diálogo, mantém o olhar firme, a fala pausada e direta, estimula o
questionamento, demonstra equilíbrio e ponderação, combina ousadia e prudência e reconhece os próprios erros,
aperfeiçoa-se continuamente.

Imparcialidade: aplicam-se as mesmas hipóteses legais de impedimento e suspeição do juiz (Lei 13.140/2015, art.
5º; NCPC, arts. 144 e 145).

3 - Objetivos do mediador:

Apaziguar: atenuar a confrontação para possibilitar o início e a manutenção da comunicação entre os mediandos.

Estabelecer a comunicação: que deve ser objetiva, prática e conclusiva, voltada para os aspectos substanciais das
questões, e que conduza à compreensão do problema e formulação de alternativas.

Estabelecer a cooperação: obter dos mediandos a disposição para a recepção e análise, construtiva, das novas ideias
e tentativas de solução, e assim, promover a harmonia futura e cumprimento do acordo ( o que significa
restabelecer a amizade, reatar laços, etc.).

Equilibrar a mesa de negociação: equilíbrio refere-se à neutralidade, imparcialidade e equidistância do mediador


das partes.

4 – Postura do mediador:

Liderança: o mediador lidera combinando carisma e perícia, transmitindo aos mediandos:

Sentimentos de confiança;
Honestidade;
Serenidade e harmonia;
Espírito de cooperação;
Respeito por si mesmo e pelo outro;
Não violência.

Agente de transformação: deve utilizar a técnica de perguntar para esclarecer e fazer com que os mediandos
compreendam o que ocorre e como está sendo feito na sessão, bem como desenvolvam a capacidade de multiplicar
os conhecimentos adquiridos no processo para futuros e inevitáveis conflitos da vida.

Facilitador do processo:

Atua na comunicação e ajuda as partes a se expressar;


Evita o mal entendido, clarifica os problemas e as alternativas de solução;
Explora o problema e amplia o contexto;
Serve de agente da realidade;
Presta-se a ser “bode expiatório” em momentos de angústia e exacerbação de emoções;
Identifica bloqueios e remove obstáculos.

5 – Funções do mediador:

Acolher: recepção boa das partes no local e assegura o funcionamento de todos os itens e serviços de apoio
disponíveis (condições de conforto, acústica, climatização, etc.).

Organizar: todas as providências para a realização de anotações e registros necessários, dispor de facilidades
operacionais, coletar as informações acerca do caso e outras afins.
Informar e esclarecer: comunicar de forma clara, objetiva, precisa e correta os procedimentos e objetivos da
mediação, certificando-se de que todos compreenderam o que foi transmitido.

Administrar as participações: obter a efetiva participação de cada mediando, com pleno respeito à integridade física
e emocional. Deve proporcionar idêntica oportunidade de manifestação.

Ampliar a compreensão do problema: aprofundar e ampliar as ideias que cercam os problemas.

Estabelecer a sintonia emocional: esta aproxima mediador e mediandos, para possibilitar:

Identificar aspectos emocionais de cada mediando;


Permanecer atento ao fato que gera emoções de ambos os lados;
Reconhecer a existência de emoções que devem ser explicitadas e ter sua legitimidade reconhecida;
Liberar as partes da carga psíquica das emoções reprimidas (capital emocional negativo), proporcionando às pessoas
a oportunidade de empenhar maior energia (capital emocional positivo) no problema.

Desenvolver soluções de forma cooperada: procedimentos destinados a:

Revelar os interesses de cada parte;


Criar opções compreendidas e aceitas por elas;
Desenvolver nos mediandos novas aptidões para lidar com os problemas;
Estabelecer comunicação efetiva em torno das opções identificadas e obtenção de acordo.

Favorecer acordos satisfatórios: o sucesso da mediação mede-se pelo desenvolvimento dos mediandos.

6 – Etapas da mediação

Escuta ativa: compreensão do conteúdo global da comunicação e o significado das palavras e expressões
empregadas pelos mediandos.

Identificação dos conteúdos não verbais da comunicação: são os utentes da língua: tom de voz, altura, velocidade,
sinais corporais, movimento do corpo, das mãos e da face, e manifestações somáticas (rubor e sudorese, etc.).

Ordenação dos pensamentos: o mediador ordena os pensamentos antes de falar e consegue que os mediandos
também o façam. Por exemplo – uma coisa de cada vez: “quem leva a criança para escola”, “horário de visita” e
“valor da pensão”.

Orientação da fala das partes: conduzir as partes a falar apenas a respeito de si mesmas, concentrando-se nos seus
próprios sentimentos, sem procurar adivinhar ou inferir o que a outra parte pensa a respeito do que quer que seja.

Manutenção do roteiro previsto: os mediadores devem conduzir a manutenção dos roteiro através da boa
administração do diálogo entre as partes.

Insistência em argumentos lógicos: o mediador deve estar atento às generalizações, deduções e inferências, que
originam inúmeros mal entendidos.

Gratuidade: assegurada aos necessitados.

7 – Procedimentos - Sessão de mediação (Lei 13.140/2015, arts. 14 e ss):

Abertura: atividades preliminares e acolhimento dos mediandos.

As atividades preliminares são realizadas sem a presença dos mediandos e consiste na obtenção de conhecimentos
relacionados com o caso e a preparação do local onde será realizada a sessão.
O acolhimento, após os cumprimentos do mediador e dos participantes, aquele conduz estes à sala de mediação,
efetua a distribuição dos mesmos nos lugares, certifica-se de que todos se conhecem e não há necessidade de
apresentações, firma contrato psicológico (participantes se comprometem a envidar esforços para o bom
andamento dos trabalhos e acatar as orientações do mediador), esclarece os objetivos da mediação e a leitura de
informações.

Início dos trabalhos:

No início da primeira reunião de mediação, o mediador destaca a dinâmica da sessão e alerta as partes acerca das
regras de confidencialidade aplicáveis ao procedimento.

A requerimento das partes e com a anuência das mesmas poderão ser admitidos outros mediadores para
funcionarem no mesmo procedimento, devido a complexidade do conflito

Entendimento a respeito da reclamação apresentada, através da exposição de motivos pelas partes, o que possibilita
compreender a diferença entre as posições.

É cabível mesmo que em curso processo arbitral ou judicial, mediante suspensão do processo arbitral ou judicial,
respectivo. É irrecorrível a decisão que suspende o processo nos termos requeridos de comum acordo pelas partes.
A suspensão não obsta a concessão de medidas de urgência pelo juiz ou pelo árbitro.

Enquanto transcorrer o procedimento de mediação, fica suspenso o prazo prescricional (Lei 13.140/2015, art. 17, §
ú).

Narrativa: as partes narram suas histórias. São objetivos específicos das narrativas:

Alinhar as percepções: fazer com que todos enxerguem a história do problema da mesma maneira.

Treinar os mediandos para ouvir o outro: deve acontecer antes dos conflitos se instalar.

Conhecer detalhes da história do conflito: devem ser úteis para identificar os interesses e construir opções para o
acordo.

Narrativa dos mediandos: o que aconteceu, como aconteceu, quem fez e para quem, quando foi feito, por quê,
onde, em que ambiente ou lugar os fatos se sucederam, os valores envolvidos, e se já tentaram resolver o conflito de
outras formas.

Redesenho das narrativas: realiza uma análise dos acontecimentos, separa as diferentes causas apontadas, clarifica
os fatos, detalha percepções suas e dos mediandos e explica os conteúdos essenciais.

Convocação de perito: poderá ser necessária a convocação de perito em função da narrativa e da análise da
documentação, para auxiliar nos trabalhos. As partes devem concordar com a convocação de perito, a ser indicado
pela Câmara de Mediação ou pelos próprios mediandos, em comum acordo. Eles mesmos farão a aceitação ou
consideração de laudos desses profissionais. O laudo será realizado mediante análise de documentos fornecidos pelo
mediador ao perito.

Levantamento de dados e informações: das partes e perito, se necessário. O mediador pode reunir-se com as
partes, em conjunto ou separadamente, bem como solicitar das partes as informações que entender necessárias
para facilitar o entendimento entre aquelas (Lei 13.140/2015, art. 19).

Identificação de opções:

Mediador separa posições de interesse, aumenta o conhecimento de cada um a respeito dos interesses próprios e
do outro.

Mediador estimula os mediandos ao pensamento criativo, do qual se constrói a lista de opções.


Avaliação e escolha da melhor opção: o mediador conduz os mediandos a uma análise criteriosa das opções, em que
se consideram os seus efeitos e o grau de satisfação que cada uma lhes proporcionará. Minimiza o capital emocional
negativo e maximiza o positivo.

Negociação/conciliação: escolha da opção mais adequada entre os mediandos, com ou sem apoio de advogados. O
mediador deve cuidar:

Orientar e supervisionar: sem interferir diretamente no resultado da negociação.

Equilibrar a negociação: o mediador pode intervir para equilibrar, se suspeitar que a negociação conduz ou pode
conduzir ao desequilíbrio.

Negociação com a presença de advogado:

Mediação entre pessoas físicas não se admite prepostos.

Mediação de conflitos em que pelo menos uma das partes é pessoa jurídica se fará representar por profissional
devidamente qualificado para tanto, comprovando essa condição por documento.

Normalmente, as partes fazem-se acompanhar de advogados. Os advogados negociam entre si e depois orientam
seus clientes-mediandos. A sessão pode ser interrompida para negociação, se necessitar, em outro ambiente.

Celebração do acordo: resultado do acordo decorre da elaboração de lista de necessidades de cada parte, que as
comparam, visando que fiquem claras as responsabilidades e compromissos mútuos a assumir para que o acordo
funcione e seja cumprido.

Encerramento:

Redação do acordo, as partes, mediador e advogados, se houver, devem assiná-lo, ou lavratura do temo final,
quando não se justificarem novos esforços para a obtenção de consenso.

Os acordos podem ser total ou parcial.

O documento de acordo constitui título executivo extrajudicial e quando homologado judicialmente, constitui título
executivo judicial (Lei 13.140/2015, art. 20, §único).

No caso de descumprimento deste, o acordo deve ser executado perante o Poder Judiciário, através da propositura
da ação executória, fundamentada no acordo escrito.

8 – Mediação Extrajudicial – Procedimentos:

Início: por meio de convite e deverá conter o escopo proposto para negociação, data e o local da primeira reunião.

Resposta: convite deve ser respondido no prazo de até 30 dias da data do recebimento, sob pena de considerar
rejeitado.

Previsão contratual de mediação: deve conter prazo mínimo e máximo para a 1ª reunião, local da 1ª reunião,
critérios de escolha do mediador ou equipe de mediadores, penalidade em caso de não comparecimento da parte
convidade à 1ª reunião.

Não há previsão contratual completa de mediação - observância dos seguintes critérios:

Prazo mínimo de 10 dias úteis e prazo máximo de 3 meses, contados do recebimento do convite, para a realização
da 1ª reunião;

Local adequado a reunião que possa envolver informações confidenciais;


Lista com 5 mediadores capacitados para a escolha pela parte convidada. Caso a parte convidada não se manifeste,
considerar-se-á aceito o 1º da lista;

O não comparecimento da parte convidada à 1ª reunião de mediação acarretará a assunção por parte desta de 50%
das custas e honorários sucumbenciais caso venha a ser vencedora em procedimento arbitral ou judicial posterior.

9 – Mediação Judicial – Procedimento:

Realizados nos Centros judiciários de solução consensual de conflitos (Cejuscs): criados pelos tribunais, que
realizarão sessões e audiências de conciliação e mediação, pré-processual e processuais, e pelo desenvolvimento de
programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição.

Mediadores não estão sujeitos à prévia aceitação das partes.

Partes deverão ser assistidas por advogados ou defensores públicos.

Partes que comprovarem insuficiência de recursos: concessão de benefício da assistência pela defensoria pública.

Petição inicial deve preencher os requisitos essenciais, se não o pedido não deve ser caso de improcedência
liminar: juiz designa audiência de mediação.

Conclusão do procedimento de mediação: até 60 dias, contados da 1ª sessão, salvo se as partes de comum acordo
requererem sua prorrogação.

Acordo: homologado por sentença pelo juiz, lavrado termo final da mediação e arquivamento do processo.

Solucionado o conflito pela mediação antes da citação do réu: não são devidas custas judiciais finais.

10 – Autocomposição de conflito em que for parte pessoa jurídica de direito público

Câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos: criadas pela União, Estados, DF e Municípios, no
âmbito dos respectivos órgãos da Advocacia Pública, com competência para:

Dirimir conflitos entre órgãos e entidades da administração pública.

Avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de composição, no caso de controvérsias
entre particulares e pessoa jurídica de direito público.

Promover, quando couber, a celebração de termo de ajustamento de conduta.

Composição e funcionamento das câmaras: estabelecido em regulamento de cada ente federado.

A submissão do conflito às câmaras é facultativa e cabível somente nos casos previstos em regulamento.

Acordo: reduzido a termo e constituirá título executivo extrajudicial.

Enquanto não criadas as câmaras: conflitos podem ser dirimidos nos termos do procedimento de mediação.

Instauração de procedimento administrativo para resolução consensual de conflito no âmbito administração pública,
por meio de emissão de juízo de admissibilidade, suspende a prescrição, que retroage à data da formalização do
pedido de resolução consensual do conflito.

11 – Conflitos envolvendo a Administração Pública Federal Direta e suas Autarquias e Fundações

Transação por adesão: controvérsias jurídicas que envolvam a administração pública federal direta, suas autarquias
e fundações, fundadas em:
Autorização do advogado-geral da União, com base na jurisprudência pacífica do STF ou de tribunais superiores, ou

Parecer do advogado-geral da União, aprovado pelo Presidente da República.

Resolução administrativa: definição dos requisitos e condições da transação por adesão.

Pedido de adesão: formulado pelo interessado deve juntar prova de atendimento aos requisitos e às condições
dispostas na resolução administrativa.

Efeitos gerais da resolução administrativa: aplicada aos casos idênticos, tempestivamente habilitados mediante
pedido de adesão, ainda que solucione parte da controvérsia.

Efeitos da adesão: renúncia do interessado ao direito sobre o qual se fundamenta a ação ou o recurso,
eventualmente pendentes, de natureza administrativa ou judicial, quanto aos objetos da resolução administrativa.

Composição extrajudicial de conflitos: resolução de controvérsia entre

Órgãos ou entidades de direito público da administração pública federal;

Órgãos ou entidades de direito público da administração pública federal e Estados, DF e Municípios, suas autarquias
e fundações púlbicas, bem como empresas públicas e sociedades de economia mista federais.

Módulo 7 – Arbitragem: Origem, Conceituação e Fundamentos Históricos da Arbitragem. Mudança de Paradigma.


Princípios da Arbitragem.

ARBITRAGEM
(Lei nº 9.307/1996, alterada pela Lei nº 13.129/2015)

1 – Definição de Arbitragem

Arbitragem é uma técnica que visa a solucionar questões de interesse de duas ou mais pessoas, físicas ou jurídicas,
sobre as quais elas possam dispor livremente em termos de transação e renúncia, por decisão de uma ou mais
pessoas – o árbitro ou os árbitros -, quais têm poderes para assim decidir pelas partes por delegação expressa destes
resultantes de convenção privada, sem estar investidos dessas funções de Estado, para dirimir litígios relativos a
direitos patrimoniais disponíveis.

Carlos Alberto Carmona define arbitragem como “meio alternativo de solução de controvérsias através da
intervenção de uma ou mais pessoas que recebem seus poderes de uma convenção privada, decidindo com base
nela, sem intervenção estatal, sendo a decisão destinada a assumir a mesma eficácia da sentença judicial – é
colocada à disposição de quem quer que seja, para solução de conflitos relativos a direitos patrimoniais acerca dos
quais os litigantes possam dispor” (Carmona, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo – Um comentário à Lei nº
9.307/96. 3ª edição, ver. atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 2009, p. 31).

Qualquer pessoa, física ou jurídica, e ente da administração pública direta e indireta, pode se utilizar da arbitragem
para solucionar conflitos referente a bem disponível (direitos patrimoniais disponíveis).

A arbitragem traz bons exemplos de justiça, sigilo, celeridade e economia para as partes.

A arbitragem é um juízo fundado na confiança que as partes depositam no(s) árbitro(s) por elas indicado(s), pelo
que, ao nomeá-lo(s), devem certificar-se se haverá aceitação, mormente se não forem indicados substitutos.

Um dos princípios basilares da arbitragem é a confiança das partes no(s) árbitro(s).

A critério da arbitragem definido pelas partes: regras de direito a ser aplicada na arbitragem podem ser escolhidas
pelas partes, desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública; ou regras de equidade a ser
aplicada na arbitragem convenciadas pelas partes, desde que baseadas nos princípios gerais de direito, nos usos e
costumes e nas regras internacionais de comércio.
A arbitragem que envolva a administração pública será sempre de direito e respeitará o princípio da publicadade.

1.1 - Definição de cláusula arbitral ou cláusula compromissória

Cláusula arbitral ou cláusula compromissória é convenção através da qual as partes em um


contrato comprometem-se a submeter à arbitragem a solução de um litígio eventualmente derivado do contrato
(Lei 9.307/96, arts. 4º e 8º).

Nasce no momento inicial do negócio principal, como medida preventiva dos interessados, com a intenção de
assegurar e garantir as partes de um eventual desentendimento. Deve ser estipulada por escrito (pressuposto de
validade da cláusula), no mesmo contrato principal ou como seu anexo (em documento apartado).

Nos contratos de adesão, a cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa de instituir a
arbitragem ou concordar, expressamente, com a sua instituição, desde que por escrito em documento anexo ou em
negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula.

Esta é autônoma em relação ao contrato, de modo que mesmo ocorrendo nulidade ou outros vícios não implicam,
necessariamente, nulidade da cláusula compromissória.

A cláusula arbitral pode constar na contestação apresentada pelo réu, requerendo a extinção da ação sem resolução
de mérito (NCPC, art. 337, X).

No entanto, é um contrato preliminar que, mesmo existindo, não impede as partes de buscar solução na Justiça
Comum (Lei 9.307/96, art. 6º, § único).

1.2 - Definição de compromisso arbitral

O compromisso arbitral é contrato ou cláusula em contrato, cujo conteúdo é a obrigação recíproca de resolver
controvérsia mediante arbitragem, ou seja, é convenção bilateral pela qual as partes renunciam à jurisdição estatal
e se obrigam a se submeter à decisão de árbitros por elas indicados, ou ainda o instrumento de que se valem os
interessados para, de comum acordo, atribuírem a terceiro (denominado árbitro) a solução de pendências entre elas
existentes.

Logo, o compromisso arbitral é um contrato em que as partes se obrigam a remeter a controvérsia surgida entre elas
no julgamento de árbitros. Pressupõe, portanto, contrato perfeito e acabado, sem que as partes tenham previsto o
modo pelo qual solucionarão as discórdias futuras.

O compromisso é específico para a solução de certa pendência, mediante árbitros regularmente escolhidos.

Compromisso arbitral pode ser de duas espécies:

Judicial: referindo-se à controvérsia já ajuizada perante a justiça ordinária, celebrando-se, então, por termo nos
autos, perante o juízo ou tribunal por onde correr a demanda. Tal termo será assinado pelas próprias partes ou por
mandatário com poderes especiais (Lei 9.307/96, art. 9º, § 1º; CC, arts. 851 e 661, § 2º; NCPC, art. 105). Feito o
compromisso, cessarão as funções do juiz togado, pois os árbitros decidirão.

Extrajudicial: se ainda não existir demanda ajuizada. Não havendo causa ajuizada, celebrar-se-á compromisso
arbitral por escritura pública ou particular, assinada pelas partes e por duas testemunhas (Lei 9.307/96, art. 9º, § 2º;
CC, art. 851).

Os requisitos obrigatórios e facultativos do compromisso arbitral estão respectivamente dispostos nos arts. 10 e
11, da Lei nº 9.307/96.

A extinção do compromisso arbitral (Lei 9.307/96, art. 12):


Escusa de qualquer dos árbitros, antes de aceitar a nomeação, desde que as partes tenham declarado,
expressamente, não aceitar substituto.

Falecendo ou ficando impossibilitado de dar seu voto algum dos árbitros, desde que as partes declarem,
expressamente, não aceitar substituto.

Tendo expirado o prazo para apresentação da sentença arbitral.

1.3 - Diferença entre cláusula arbitral e compromisso arbitral

Cláusula Arbitral Compromisso Arbitral


Refere-se a litígio futuro e incerto. Refere-se a litígio atual e concreto.
Medida preventiva, em que as partes simplesmente Tem força vinculativa, obrigatória entre as partes, faz com
prometem efetuar um contrato de compromisso se surgir que as partes se comprometam a submeter certa
desentendimento a ser resolvido. pendência à decisão de árbitros.

2 – Histórico

A arbitragem é uma das primeiras formas de resolução de conflitos entre as pessoas sem o recurso da força e
violência. É uma das mais antigas formas de resolução de controvérsias do mundo.

Nos primórdios do Direito Romano, um pacto pelo qual os interessados se obrigavam a confiar o julgamento da lide
a um terceiro, que era o árbitro. Mas, a decisão por este proferida não tinha força obrigatória (não fazia lei entre as
partes), de forma que o lesado não possuía meios para exigir a execução forçada do pactuado. As partes
estabeleciam no pacto, uma sanção patrimonial, a ser aplicada em caso de inadimplemento obrigacional.

Na era Justiniano a estipulação dessa pena tornou-se desnecessária, pois a decisão do árbitro passou a ser
obrigatória para as partes, desde que a tivesse assinado ou não tivessem dela recorrido por 10 dias.

Era uma forma de justiça privada, em que a execução do direito se realizava sem a intervenção do Estado.

Na antiguidade e na Idade Média, a arbitragem representava um caminho certo para evitar-se uma confrontação
bélica, isso na esfera do Direito Internacional Público.

Platão escreveu sobre os juízes eleitos como se fosse a forma mais justa de decisão.

No Brasil, a arbitragem é regulada desde os tempos da colonização portuguesa, sendo que a Constituição Imperial de
1824 previa Juízo Arbitral (art. 160).

O Código Comercial de 1850, ainda vigente, estabelecia no seu art. 294, em caráter obrigatório, que o juízo arbitral
eram decididas as causas entre os sócios e sociedades comerciais, durante a existência da sociedade ou companhia,
sua liquidação ou partilha.

O Regulamento nº 737/1850 exigia o Juízo Arbitral para a solução das causas comerciais (art. 411).

Em 1866, a Lei nº 1.350, revogou os dispositivos que privilegiavam a solução arbitral, criando um verdadeiro desuso
sobre a aludida instituição.

Em 1923, o Brasil ratificou o Protocolo de Genebra (Decreto nº 21.187/1932), reconhecendo validade aos
compromissos e cláusulas compromissórias, pelos quais os Estados (ou partes) se obrigam, contratualmente, em
matéria comercial ou outra suscetível de ser resolvida mediante arbitragem, a submeter suas divergências ao juízo
de árbitros, ainda que a arbitragem se verifique em um país de jurisdição diferente.

O Brasil também faz parte da Convenção Interamericana sobre Arbitragem Comercial Internacional, assinada no
Panamá em 1975, ratificada e promulgada no mesmo ano da lei reguladora da matéria.
Os CPCs de 1939, 1973 e 2015 adotaram a possibilidade de solução de litígios pelo juízo arbitral, sendo que a
sentença arbitral proferida no Brasil (sentença interna ou nacional), não mais necessita de homologação judicial
(homologação pelo juiz), para ser reconhecida e executada, em caso de descumprimento perante o Poder Judiciário.
Tanto que anteriormente chamava-se laudo arbitral e, posteriormente, com a exclusão da homologação, passou a
chamar sentença arbitral, reconhecida como título executivo judicial.

Atualmente, a Lei nº 9.307/96 dispõe sobre a arbitragem, que foi alterada recentemente pela Lei nº 13.129/2015.

Em julho de 2002, o Brasil ratificou (Decreto nº 4.311) a Convenção para o Reconhecimento e Execução de
Sentenças Arbitrais Estrangeiras firmada em Nova York (1958), que reconhece a sentença arbitral estrangeira e a
execução das decisões arbitrais proferidas em países estrangeiros, sem a necessidade de homologação judicial pelo
Judiciário do país de origem (país que proferiu a sentença arbitral estrangeira) e que decisões proferidas no Brasil
sejam executadas no exterior. Assim, como também não necessita as sentenças arbitrais proferidas no Brasil em
países estrangeiros.

No entanto, há necessidade da sentença arbitral estrangeira, para ser reconhecida e executada no Brasil, ser objeto
de Ação de Homologação Judicial no Superior Tribunal de Justiça (STJ), também como necessita as sentenças
judiciais estrangeiras (Lei nº 9.307/96, art. 35, alterada pela Lei nº 13.129/2015; NCPC, art. 483 e seguintes).

Não é possível arbitragem quando envolver bens indisponíveis ou inalienáveis, como direito de família.

3 – Natureza Jurídica da Arbitragem

Existem três correntes que debatem sobre a natureza jurídica da arbitragem:

A clássica entende que a arbitragem tem natureza jurídica contratual, estruturada na teoria contratualista, por
resultar de vontade entre as partes (Chiovenda).

Há ideias mais modernas que defendem a ampliação do conceito de jurisdição, de forma a encampar também a
atividade dos árbitros. A tese da jurisdicionalidade da arbitragem é a corrente dominante.

E, há outra corrente, que tenta conciliar as duas outras.

Logo, é inquestionável que a arbitragem tem uma origem contratual, mas que desenvolve-se com a garantia do
devido processo e termina com ato que tende a assumir a mesma função da sentença judicial. O posionamento
dominante é do legislador que adotou a tese da jurisdicionalidade da arbitragem, conferindo força de título
executivo judicial à sentença arbitral (NCPC, art. 515, VII).

4 – Princípios básicos do procedimento arbitral

Os princípios básicos que regem o procedimento arbitral são:

Princípio do devido processo legal


Princípio da autonomia de vontade: fica a critério das partes a disciplina procedimental da arbitragem.
Princípio do contraditório
Princípio da igualdade das partes
Princípio da imparcialidade do árbitro e do seu convencimento racional

As partes podem adotar o procedimento arbitral que bem entenderem desde que respeitem os princípios acima
citados. Se nada dispuserem sobre o procedimento a ser adotado e se não se reportarem a regras de algum órgão
institucional, caberá ao árbitro ou ao tribunal arbitral ditar as normas a serem seguidas, sempre atendidos os
referidos princípios.

5 – Classificação da Arbitragem

A arbitragem pode ser classificada:


Arbitragem facultativa e obrigatória;
Arbitragem formal e informal;
Arbitragem de direito e de equidade;
Arbitragem “ad hoc” e institucional;
Arbitragem na esfera privada e pública.

5.1 – Arbitragem facultativa e obrigatória

No Brasil somente admite-se arbitragem facultativa ou voluntária, livremente escolhida pelas partes.

A arbitragem obrigatória imposta pela lei às partes, viola nossa Constituição Federal, principalmente o princípio da
garantia do acesso ao Poder Judiciário para apreciação de lesão ou ameaça de direito (CF, art. 5º, XXXV).

5.2 – Arbitragem formal e informal

Pode ser a arbitragem formal quando estruturada na teoria contratualista, que lhe impõe obediência ao princípio da
função social do contrato, sendo disciplinada por algumas regras previstas em lei, para produzir efeitos jurisdicionais.

Exemplos de regras da arbitragem:

Regras sobre sua instituição, que deve obedecer à forma escrita.


Regras sobre seu objeto, que deve ser constituído por direitos patrimoniais disponíveis.
Regras sobre seu procedimento, o qual deve observar algumas garantias do devido processo legal.

A arbitragem informal é aquela que não observa as prescrições impostas pelas normas. Esta tem uma forma livre.

A arbitragem informal não tem garantia de coisa julgada e não tem valor de título executivo a sentença condenatória
do árbitro.

5.3 – Arbitragem de direito e de equidade

Aqui observa-se o critério a que os árbitros podem recorrer para decidir o conflito.

Na arbitragem de direito o árbitro está obrigado a resolver a disputa aplicando as normas de direito positivo e
utilizando a lógica tradicional.

Na arbitragem de equidade o árbitro pode decidir segundo seu entendimento de justiça, dadas as circunstâncias de
cada caso, ou seja, aplicando regras por ele formuladas.

A equidade é um dos meios supletivos das lacunas no direito. Quando ao solucionar um caso, o árbitro não encontra
normas que lhe sejam aplicáveis ou que esteja assim compactuado no compromisso arbitral, não podendo subsumir
o fato a nenhum preceito, porque há falta de conhecimento sobre um “status” jurídico de certo comportamento,
devido a um defeito do sistema que pode consistir numa ausência de norma, na presença de disposição legal injusta
ou em desuso, estamos diante do problema das lacunas.

Logo, na arbitragem de equidade o árbitro pode decidir segundo seu entendimento de justiça, intuição, emoção,
sempre em conjunto com os costumes, princípio geral de direito e atendendo aos fins sociais a que a lei se dirige e às
exigências do bem comum, utilizando-se ainda da lógica do razoável.

5.4 – Arbitragem “ad hoc” e institucional

Esta classificação está relacionada à organização do árbitro.

Na arbitragem “ad hoc” as partes estabelecem as regras para a arbitragem, respeitadas as disposições de ordem
imperativa contidas na lei. Portanto, as partes regem, via contrato, as regras que o árbitro utilizará para resolver os
conflitos, mas também com observância à legislação em vigor.
A arbitragem institucional é aquela estruturada por instituição específica, como tribunais e cortes arbitrais
devidamente registradas e constituídas.

5.5 – Arbitragem interna e internacional

Há dois entendimentos quanto à esta classificação.

Para aqueles se baseiam para conceituar, tendo em vista o sistema jurídico utilizado na arbitragem, entendem que a
arbitragem interna ou nacional utiliza a legislação nacional para proferir a sentença arbitral. E, arbitragem
internacional é aquela em que se baseia na legislação estrangeira, também para o proferimento da sentença arbitral.

Já para os que se baseiam no local onde é proferida a sentença arbitral, entendem que a arbitragem nacional é
aquela em que a decisão arbitral é proferida no Brasil, enquanto que a arbitragem internacional, entendem ser
aquela cuja sentença arbitral foi proferida no estrangeiro.

5.6 – Arbitragem na esfera privada e pública

Na arbitragem da esfera privada do direito, temos alguns exemplos:

Arbitragem na esfera do Direito Comercial

Recentemente o Direito Comercial foi alterado pela Lei nº 10.303/2001, chamada reforma da Lei das Sociedades
Anônimas, que acrescentou ao art. 109 o § 3º, o qual regulamenta que o estatuto da sociedade pode estabelecer
que as divergências entre os acionistas e a companhia, ou entre os acionistas controladores e os acionistas
minoritários, poderão ser solucionados mediante arbitramento, nos termos em que se especificar.

A cláusula compromissória constante do estatuto social deve ser explícita quanto às partes e às relações societárias
entre elas e sobre os limites da competência arbitral.

Arbitragem solucionando conflitos na internet

A internet é um conjunto de redes livres que contém recursos de um “campus”, integrando pessoas físicas, escolas,
universidades, escritórios, empresas, ONGs etc., constituindo-se em uma cidade eletrônica e possibilitando que se
carregue um arquivo ou se envie uma mensagem, acionando a operação internacional de computadores
interligados. É uma rede de teleconferência onde milhares de usuários se comunicam em diferentes países, munidos
de apenas um microcomputador, linha telefônica e modem, ou, ainda, pode-se considerar esta comunidade
internacional como o conjunto de meios de transmissão e comutação, roteadores, equipamentos e protocolos
necessários à comunicação entre computadores, bem como o “software” e os dados contidos nesses computadores.

Uma das questões que envolve o uso dessa rede é o DNS (“Domain Name System”), conhecido como Sistema de
Nome de Domínio. O domínio seria o nome de cada “website”, por exemplo: www.unip.br é o domínio da
Universidade Paulista na Internet. Os nomes de domínio possuem uma estrutura dividida em três elementos: www.
(seria o primeiro) o nome do domínio (o segundo) e o caráter comercial, com, adv, net e org. (o último).

Há nomes comerciais muito famosos como Coca-Cola, Nike, Globo etc., o valor comercial de alguns nomes de
domínio faz com que pessoas registrem esses domínios em seus nomes.

Não há no Brasil legislação específica sobre a matéria, nem tratados internacionais sobre o assunto, portanto o uso
dos princípios gerais do direito tem servido de base à solução dos casos mais simples.

A ICANN (“Internet Corporation for Assigned Names and Numbers”) é um organismo não governamental e sem fins
lucrativos, que tem por finalidade gerenciar os aspectos políticos e técnicos do DNS. Possui as seguintes funções:

Registro de nome de domínio;


Alocação de IP (número de identificação do computador para possibilitar o fluxo de informações pela Internet);
Gerenciamento de roteadores; e
Coordenação de registro dos nomes de domínio.
Visando preencher lacunas na legislação vigente sobre a matéria, com como oferecer alternativa mais rápida e
menos onerosa para a resolução dos conflitos que envolvem nomes de domínio, a ICANN adotou a UDRP (Diretriz
Uniforme para Resolução de Disputas), que estabelece mecanismos de proteção aos nomes de domínio.

A ICANN somente aceita o procedimento arbitral para a resolução de litígio envolvendo o nome de domínio. Logo,
nesta área, o Poder Judiciário é uma exceção à regra.

Arbitragem no Mercado de Capitais - BOVESPA

Com o objetivo de melhorar a prestação de informações aos investidores e difundir o mercado acionário, a BOVESPA
instituiu sua própria Câmara de Arbitragem do Mercado, para dirimir conflitos societários, propiciando uma maior
confiança dos investidores na empresa, haja vista a transparência da administração.

As empresas podem aderir ao regulamento da Câmara de Arbitragem do Mercado, com procedimento para dirimir e
solucionar controvérsias em matérias relativas à Lei das S.A., aos Estatutos Sociais das companhias, às normas
editadas pelo Conselho Monetário Nacional, pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de Valores Mobiliários
(VCM), dos regulamentos da BOVESPA e das demais normas aplicáveis ao funcionamento do mercado de capitais em
geral.

Os participantes da Câmara de Arbitragem do Mercado são aqueles que concordaram com o regulamento e
assinaram o termo de anuência, que implica à vinculação obrigatória à cláusula compromissória e obrigação de
firmar o compromisso arbitral. Os participantes da Câmara são:

BOVESPA
Cias. Abertas de novo mercado
Controladores de Cias.
Administradores
Membros do Conselho Fiscal
Investidores
Acionistas

A arbitragem no mercado oferece inúmeras vantagens, tais como:

Celeridade do procedimento arbitral: agilizar a solução dos conflitos societários e, consequentemente, dar maior
fluidez ao próprio mercado de capitais, com o rápido proferimento da decisão;

Autonomia privada das partes: estas escolhem o seu árbitro (juiz), optando por aquele que lhe inspire maior
confiança e mais especializado no litígio;

Sistema reservado de solução de conflitos: sigilo na forma de composição dos conflitos, uma vez que o
procedimento transcorre somente na presença das partes e dos árbitros.

A Lei das Sociedades Anônimas dispõe que o estatuto social pode estabelecer que as divergências entre os acionistas
e a companhia, ou entre os acionistas controladores e os acionistas minoritários, poderão ser solucionados mediante
arbitragem (Lei 10.303/2001, art. 109, § 3º).

A cláusula arbitral constante do estatuto social deve ser explícita quanto às partes e às relações societárias entre elas
e sobre os limites da competência arbitral.

Este dispositivo aplica-se às sociedades limitadas.

Arbitragem na prática desportiva

No direito desportivo são inúmeras as vantagens da arbitragem para dirimir conflitos, no entanto no Brasil a Justiça
Desportiva é dotada de competência constitucional, o leva o intérprete a entender que o constituinte buscou dar
prevalência a essa instância desportiva.
Normalmente, os objetos dos contratos desportivos são de direito da personalidade, que é direito indisponível. As
controvérsias mais comuns são:

Direito de imagem e arena


Direito trabalhista
Direito de transmissão
Direito de transferências nacionais e internacionais

Internacionalmente, reconhece-se a arbitragem para solucionar questões sobre relações desportivas, visto que além
da conclusão rápida, eficiente e eficaz, também preservam as partes envolvidas no litígio e se objeto.

Arbitragem na Recuperação Judicial de Empresas

A Lei 11.101/2005 estabelece um novo sistema jurídico para a solução de crise econônic0-financeira de empresários
ou de sociedades empresárias que se encontrarem em estado de insolvência ou em estado de iliquidez.

Na assembleia de credores, o presidente desta poderá propor que seja instrumentalizado o compromisso arbitral a
fim de solucionar determinados litígios, cujo objeto é o direito patrimonial disponível, com a ajuda da arbitragem.

Na arbitragem da esfera pública do direito, temos alguns exemplos:

As novas leis que instituíram as Parcerias Público-Privadas (PPPs - Lei 11.079/2004) e a Reforma do Judiciário
(introduzida pela EC 45/1998) disciplinam o instituto da arbitragem, porém não detalharam o procedimento arbitral,
que deverá respeitar a Lei de Arbitragem (Lei 9.307/96).

A Lei das PPPs, art. 11, III dispõe sobre o emprego dos mecanismos privados de resolução de disputas, inclusive a
arbitragem, a ser realizada no Brasil e em língua portuguesa, nos termos da Lei 9.307/1996, para dirimir conflitos
decorrentes ou relacionados ao contrato.

Possível arbitragem em questões em que a administração pública seja parte, desde que seja a controvérsia sobre
direitos disponíveis.

6 – Obrigatoriedade da atuação do advogado na arbitragem

A atuação do advogado é obrigatória em toda e qualquer atividade que envolva administração da justiça (CF, art.
133).

A Lei de Arbitragem também dispõe que as partes poderão (não há obrigatoriedade) postular por intermédio de
advogado, respeitada, sempre, a faculdade de designar quem as represente ou assista no procedimento arbitral (Lei
9.307/96, art. 21, §3º).

Logo, como a arbitragem sempre privilegia a mais ampla e plena vontade das partes, por ser estruturada pela
autonomia da vontade das partes.

Os advogados podem atuar de várias formas na arbitragem, como advogado da parte:

Na contratação da convenção de arbitragem: cláusula compromissória e compromisso arbitral.


Na defesa dos interesses do seu cliente no juízo arbitral.
Como assessor (não representante da parte).
Como assessor do órgão arbitral institucional ou do tribunal arbitral.
Como árbitro.
Patrocinando os interesses do cliente em eventual ação ordinária de nulidade do laudo arbitral ou execução do
laudo arbitral.
Patrocinando os interesses do cliente em medidas coercitivas judiciais que sejam propostas pela parte (antes da
instauração do tribunal arbitral) ou requeridas pelo próprio tribunal arbitral.
Homologação do laudo arbitral, no caso de arbitragem internacional perante o STJ.
Módulo 8 – Arbitragem: Atitudes do Árbitro. Aplicabilidade da Arbitragem. Procedimento de Arbitragem. Análise
da Lei nº 9.307/1996.

ARBITRAGEM
(Lei nº 9.307/1996, alterada pela Lei nº 13.129/2015)

1 – Quem é o árbitro?

Árbitro é (Lei 9.307/96, art. 13):

Pessoa física e capaz.


Pessoa de confiança das partes e escolhido por estas, para resolver conflito que envolva direito disponível.

As partes poderão escolher mais de um árbitro, sempre em número ímpar, inclusive, suplentes. A nomeação de
árbitros em número par autoriza estes a nomear um terceiro.

Note-se que os modos de nomeação obedecem ao princípio geral da vontade das partes, princípio este que consiste
no poder de estipular livremente, como melhor lhes convier, mediante acordo de vontades, a disciplina de seus
interesses, suscitando efeitos tutelados pela ordem jurídica, envolvendo, além da liberdade de nomeação, a
liberdade de nomeação ou não, limitadas pelas normas de ordem pública, pelos bons costumes e pela revisão judicia
dos contratos.

Não podem ser árbitros:

Magistrados.
Membros do Ministério Público.
Procuradores do Estado.
Funcionários públicos.
Serventuários.
Insolventes.
Pessoas que tenham com as partes, ou com o litígio que lhes for submetido, alguma das relações que caracterizam
os casos de impedimento ou suspeição de juízes (NCPC, arts. 144 e 145).

A partir da nomeação nasce para os árbitros o poder de decidir a controvérsia entre as partes e demais deveres,
direitos e responsabilidades que lhes incumbem.

O árbitro deverá proceder com:

imparcialidade,
independência,
competência,
diligência e
discrição.

A obrigação fundamental do árbitro é de proferir a sentença arbitral no prazo estipulado pelas partes, cumprindo
assim sua missão e fazendo jus aos honorários contratados (ou a serem fixados judicialmente na falta de prévia
avença). Não existe a obrigação de proferir uma sentença de ótima qualidade.

Assim, eventuais erros na decisão (“errores in judicando”) não comportarão responsabilização dos árbitros. Terão as
partes, em tal caso, escolhido mal os julgadores. Os árbitros não respondem pela má qualidade da sentença arbitral
ou mesmo equívoco na decisão.

Quanto aos erros cometidos em matéria procedimental (“errores in procedendo”) e que acarretem a anulação da
sentença arbitral, os árbitros respondem civilmente, adstrita às hipóteses de dolo ou culpa. Exemplo: proferida
sentença arbitral fora do prazo convencionado pelas partes, o árbitro será responsabilizado pelo prejuízo causado às
partes.
Quanto à responsabilidade criminal, o árbitro está equiparado a funcionários públicos, fortalecendo a confiabilidade
oferecida pelo juízo arbitral, garantindo aos usuários deste meio alternativo de solução de controvérsias uma
decisão isenta de deturpação (Lei 9.307/96, art. 17).

2 – Instituição e procedimento do Juízo Arbitral

Dá-se por instituído o juízo arbitral tão logo seja aceita pelo árbitro (ou pelos árbitros) a função para a qual foram
escolhidos. A aceitação não depende de ato formal do árbitro, entendendo-se que aceitou o encargo se desde logo
tomou providências para o prosseguimento do procedimento (recebimento de manifestação das partes, expedição
de notificações, convocação das partes para audiência, etc.).

A instituição da arbitragem interrompe a prescrição, retroagindo à data do requerimento de sua instauração, ainda
que extinta por ausência de jurisdição (Lei 9.307/96, art. 19, § 2º, parágrafo incluído pela Lei nº 13.129/2015).

Se o órgão arbitral for composto por mais de um árbitro, assumirá a presidência do colegiado aquele que for
designado pela maioria. Não havendo consenso, assumirá a presidência o árbitro mais idoso. A função de presidente
do tribunal arbitral assume importância vital na hipótese de não haver consenso majoritário na decisão final. Se não
se formar a maioria (todos os votos divergentes), prevalecerá o voto do presidente (Lei 9.307/96, art. 24, § 1º).

A arbitragem obedecerá ao procedimento estabelecido pelas partes na convenção de arbitragem, que poderá se
reportar às regras de um órgão arbitral institucional ou entidade especializada (Lei 9.307/96, art. 21). Sempre
respeitando aos princípios do contraditório, igualdade das partes, imparcialidade do árbitro e de seu livre
convencimento (Lei 9.307/96, art. 21, §2º).

A instrução processual será livremente disciplinada, respeitadas as regras estabelecidas na Lei 9.307/96, art. 22.

Antes de instituída a arbitragem, as partes poderão recorrer ao Poder Judiciário para a concessão de medida
cautelar ou de urgência (Lei 9.307/96, Capítulo IV-A incluído pela Lei nº 13.129/2015, art. 22-A).

Cessa eficácia da medida cautelar ou de urgência se a parte interessada não requerer a instituição da arbitragem no
prazo de 30 dias, contados da data de efetivação da respectiva decisão (Lei 9.307/96, Capítulo IV-A incluído pela Lei
nº 13.129/2015, art. 22-A, § único).

Instituída a arbitragem, caberá aos árbitros manter, modificar ou revogar a medida cautelar ou de urgência
concedida pelo Poder Judiciário (Lei 9.307/96, Capítulo IV-A incluído pela Lei nº 13.129/2015, art. 22-B).

Estando já instituída a arbitragem, a medida cautelar ou de urgência será requerida diretamente aos árbitros (Lei
9.307/96, Capítulo IV-A incluído pela Lei nº 13.129/2015, art. 22-B, § único).

A carta arbitral expedida pelo árbitro ou pelo tribunal arbitral tem por objetivo solicitar que o órgão jurisdicional
pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência, de ato solicitado (Lei 9.307/96, Capítulo IV-B
incluído pela Lei nº 13.129/2015, art. 22-C; NCPC, arts. 237, IV, e 260, § 3º).

3 – Sentença Arbitral

A Lei 9.307/96 adota sentença arbitral, para se referir ao ato arbitral que põe fim ao conflito, abandonando a
terminologia laudo arbitral.

A sentença arbitral será proferida em documento escrito no prazo estipulado pelas partes. Se nada for
convencionado pelas partes, o prazo para apresentação da sentença arbitral é de 6 meses, contados da instituição
da arbitragem ou da substituição do árbitro. As partes e os árbitros, de comum acordo, poderão prorrogar o prazo
para proferir a sentença final (Lei 9.307/96, art. 23, §2º, incluído pela Lei nº 13.129/2015).

É possível proferir sentenças parciais (Lei 9.307/96, art. 23, §1º, incluído pela Lei nº 13.129/2015).
Requisitos obrigatórios da sentença arbitral: A sentença arbitral conterá os três elementos da sentença judicial, e
mais um elemento, próprio deste tido de decisão, que são (Lei 9.307/96, art. 26):

Relatório: onde consta a qualificação das partes, resumo do objeto da arbitragem e todos os fatos relevantes
ocorridos.

Motivação: constam esclarecidos os fundamentos da decisão.

Dispositivo: onde os árbitros estabelecem o preceito, resolvendo as questões que lhes foram submetidas.

Data e lugar em que a sentença foi proferida, visando aferir a nacionalidade da sentença arbitral.

A sentença arbitral decidirá sobre a responsabilidade das partes acerca das custas e despesas com a arbitragem,
bem como sobre verba decorrente de litigância de má-fé, se for o caso, respeitadas as disposições da convenção de
arbitragem, se houver (Lei 9.307/96, art. 27).

A sentença arbitral põe fim à arbitragem, devendo o árbitro ou o presidente do tribunal arbitral enviar cópia da
decisão às partes, via postal ou outro meio de comunicação, mediante comprovação de recebimento ou entregando
diretamente às partes, mediante recibo (Lei 9.307/96, art. 29).

No prazo de 5 dias, a contar do recebimento da notificação ou da ciência pessoal da sentença arbitral, a parte
interessada, mediante comunicação à outra parte, poderá solicitar ao árbitro ou ao tribunal arbitral que (Lei
9.307/96, art. 30, alterado pela Lei nº 13.129/2015):

Corrija qualquer erro material da sentença arbitral;

Esclareça obscuridade, dúvida ou contradição da sentença arbitral, ou se pronuncie sobre ponto omitido a respeito
do qual devia manifestar-se a decisão (correponde a embargos de declaração).

Da sentença arbitral não cabe recurso. Mas, nada impede que as partes estabeleçam que a sentença arbitral possa
ser submetida a reexame por outro órgão arbitral ou por outros árbitros, ou ainda que, na hipótese de não ser a
decisão unânime, possa o vencido interpor recurso semelhante aos embargos infringentes previstos no CPC, fazendo
integrar o tribunal arbitral por outros membros, escolhidos da forma estabelecida pelos contendores. Tais recursos
são internos, nunca dirigidos a órgãos da justiça estatal.

Cabe ressaltar que, os recursos de sentença arbitral são de todo inconvenientes e não utilizados corriqueiramente
em países onde a arbitragem vem florescendo.

A atividade do árbitro poderá ser meramente homologatória quando as partes chegarem a um acordo e quiserem
fazer consigná-la expressamente em sentença (Lei 9.307/96, art. 28). O interesse das partes será, em caso de
transação, o de obter título que permita a execução forçada, uma vez que a sentença arbitral é título executivo
judicial (NCPC, art. 515, VII).

4 – Embargos de Declaração

Caso a sentença arbitral apresente contradição, omissão ou obscuridade que necessite elucidação pode constar no
procedimento arbitral a previsão de cabimento de embargos de declaração. Este recurso também é cabível para
correção de erro material (o árbitro de ofício poderá corrigi-lo) e para provocar a manifestação do árbitro sobre
ponto omitido a respeito do qual deveria ter-se manifestado.

As partes terão o prazo de 5 (cinco) dias, a contar da notificação ou ciência da sentença arbitral, para interposição de
embargos de declaração.

Interposto tal recurso, a outra parte é comunicada apenas para que tenha ciência de que a atividade do árbitro ainda
prosseguirá.
Em 10 (dez) dias o árbitro deve apresentar a decisão, aditando a sentença arbitral, mesmo que seja para acrescentar
que os embargos foram rejeitados, e notificando as partes.

5 – Jurisdicionalidade da Arbitragem

O legislador adotou a tese da jurisdicionalidade da arbitragem, ao determinar que a decisão final do árbitro
produzirá os mesmos efeitos da sentença judicial proferida pela Poder Judiciário, constituindo a sentença
condenatória título executivo judicial, embora não oriunda do Poder Judiciário (Lei 9.307/96, art. 31).

A sentença arbitral não precisa passar pelo controle prévio dos órgãos do Estado para receber a oficialização que lhe
era outorgada pela sentença homologatória.

6 – Nulidade da Sentença Arbitral

Casos de nulidade da sentença arbitral (Lei 9.307/96, art. 32, alterado pela Lei nº 13.129/2015):

Nulidade da convenção de arbitragem.


Emenda procedida por quem não podia ser árbitro.
Não contiver os requisitos obrigatórios da sentença arbitral.
Sentença proferida fora dos limites da convenção de arbitragem.
Comprovação de proferimento da sentença com prevaricação (crime: satisfação do interesse pessoal), concussão
(crime: exigir vantagem indevida para si ou para outrem, direta ou indiratemente) ou corrupção passiva.
Sentença proferida fora do prazo.
Quando desrespeitados os princípios do art. 21, § 2º (princípios do contraditório, igualdade das partes,
imparcialidade do árbitro e de seu livre convencimento).

A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a decretação da nulidade da sentença
arbitral, parcial ou final, ou também por meio de impugnação, que deverá ser arguida no prazo de até 90 (noventa)
dias, a contar do recebimento da notificação da sentença arbitral, parcial ou final, ou da decisão de esclarecimentos
(Lei 9.307/96, art. 33 e §§ 1º e 3º, alterado pela Lei nº 13.129/2015).

A sentença que julgar procedente o pedido declarará a nulidade da sentença arbitral e determinará, se for o caso,
que o árbitro ou o tribunal profira nova sentença arbitral (Lei 9.307/96, art. 33 e § 2º, alterado pela Lei nº
13.129/2015).

A parte interessada poderá ingressar em juízo para requerer a prolação de sentença arbitral complementar, se o
árbitro não decidir todos os pedidos submetidos à arbitragem (Lei 9.307/96, art. 33 e § 4º, incluído pela Lei nº
13.129/2015).

Não cabe ação rescisória de sentença arbitral.

7 – Reconhecimento e execução das sentenças arbitrais estrangeiras

A sentença arbitral estrangeira é aquela proferida fora do território nacional.

Para ser reconhecida e executada no Brasil, a sentença arbitral estrangeira deverá ser homologada pelo Superior
Tribunal de Justiça (STJ), aplicando-se os procedimento disposto no NCPC (Lei 9.307/96, art. 35, alterado pela Lei nº
13.129/2015; NCPC, arts. 483 e seguintes).

Hipóteses de denegação da homologação para o reconhecimento ou execução de sentença arbitral estrangeira (Lei
9.307/96, art. 38):

As partes na convenção de arbitragem eram incapazes.

A convenção de arbitragem não era válida segundo a lei à qual as partes a submeteram, ou, na falta de indicação, em
virtude da lei do país onde a sentença arbitral foi proferida.
Não foi notificado da designação do árbitro ou do procedimento de arbitragem, ou tenha sido violado o princípio do
contraditório, impossibilitando a ampla defesa.

A sentença arbitral foi proferida fora dos limites da convenção de arbitragem, e não foi possível separar a parte
excedente daquela submetida à arbitragem.

A instituição da arbitragem não está de acordo com o compromisso arbitral ou cláusula compromissória.

A sentença arbitral não se tenha, ainda, tomado obrigatória para as partes, tenha sido anulada, ou, ainda, tenha sido
suspensa por órgão judicial do país onde a sentença arbitral for proferida.

A homologação para o reconhecimento ou a execução da sentença arbitral estrangeira também será denegada se o
Superior Tribunal de Justiça (STJ) constatar que (Lei 9.307/96, art. 39, alterado pela Lei nº 13.129/2015):

Segundo a lei brasileira, o objeto do litígio não é suscetível de ser resolvido por arbitragem;

A decisão ofende a ordem pública nacional.