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“Marco

Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.


– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – Pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco, –
mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta: –
Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: – Sem pedras não há arco. “
ITALO CALVINO, As Cidades Invisíveis

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao CIAUD, na pessoa do seu Presidente Professor Doutor


Fernando Moreira da Silva, o apoio que viabilizou a publicação deste
livro.


INTRODUÇÃO

A questão da autenticidade equaciona princípios e valores que têm


vindo a ser preteridos na arquitetura, nas intervenções urbanas e, por
extensão, no território.
Para obviar este processo de deterioração, têm vindo a ser produzidas
um conjunto de diretrizes patrimoniais cada vez mais abrangentes, no
sentido de salvaguardar os conjuntos urbanos de carácter histórico.
Contudo, a sua aplicabilidade tem sido reduzida, decorrendo apenas de
planos de salvaguarda, de normativas que protegem zonas históricas da
cidade, mas não decorre duma ação inerente à prática quotidiana.
Princípios de conflitualidade ideológica, posicionamentos teóricos
divergentes, falta de discernimento cultural nas ações práticas e
sobretudo falta de sensibilidade, têm vindo a criar condições que
degradam a urbe e o território, perante o silêncio da crítica e a
permissividade institucional.
Os aspetos patrimoniais têm sido menorizados em nome duma
“liberdade criativa” que mistura aculturação com respostas desajustadas
do seu tempo e lugar. Contudo, a coisa pública envolve conhecimento e
cultura. A cidade é o lugar onde se exerce a cidadania e a identidade,
sendo determinante da construção da memória coletiva.
Os princípios que tentaram disciplinar a forma urbana, tiveram uma
referência especial no Renascimento. Foram também desenvolvidos
naturalmente na arquitetura de acompanhamento nas cidades e
assentamentos humanos durante séculos e sempre que as maneiras de
construir e saber-fazer exprimiram o espírito da época. A arquitetura era
um legado cultural transmitido de geração em geração.
No século XIX, as teorias sobre a forma urbana envolveram uma leitura
estética sobre a boa forma da cidade. De Camillo Sitte ao movimento
City Beautiful, estes princípios tiveram uma expressão referencial no
urbanismo mundial em cidades como em Nova Dehli, Camberra ou
Chicago, tendo deixado uma referência no Porto na Avenida dos Aliados.
A crítica à cidade bela foi uma ação ideológica contra a burguesia. A
destruição dos valores estéticos e fenomenológicos estava de acordo
com a revolução das ideias que também destruíam a arte e valorizavam
ações de rutura: as vanguardas artísticas.
Mas para além das ideologias e das especulações teóricas, a
especulação urbana ia também destruindo as cidades, as vilas, as
aldeias e o território. Foi um processo que contaminou décadas de
intervenções em Portugal à revelia de qualquer tipo de plano. Imensas
zonas clandestinas de cariz social e especulativo proliferaram por todo o
país, em especial nas áreas metropolitanas e na orla marítima.
Na zona de Lisboa, gerou-se uma conurbação à revelia de todo o tipo
de teorias urbanas e do território. Na península de Setúbal
desenvolveram-se áreas clandestinas superiores a Lisboa –
posteriormente urbanizadas –, prolongando-se pelos Concelhos de
Sintra, Oeiras e Cascais, onde proliferam assentamentos informais e
zonas problemáticas que criam perturbantes desterritorializações e
problemas sociais.
A cidade bela também deve ser justa e útil. É o lugar onde se exerce o
civismo e o comércio que são fatores de agregação cultural. Neste
sentido, o Plano de Bolonha retomou em 1969 e 1973 o processo
pioneiro de recuperação da cidade histórica conciliando ideologia,
património e vida comunitária. A extensão das áreas de proteção
patrimonial tem vindo a ser alargadas. Partindo da proteção dos
edifícios, envolvem zonas da cidade, e destas para toda a cidade
estendendo-se ao território. São etapas sucessivas de aprofundamento
da qualidade da paisagem humanizada, tentando repor a lógica das
intervenções disciplinadoras.
Mas a questão não decorre apenas das qualidades espaciais, visuais e
ambientais. São também o corolário de princípios urbanos
disciplinadores que envolvem a participação das populações na vida da
cidade e que têm expressão no espaço público. As ações construtivas
devem agir em todas as escalas no domínio material e imaterial, repondo
o sentido agregador do património cultural.
É dentro destes princípios que se formulou a presente edição reunindo
textos de quatro autores sobre a condição urbana contemporânea, em
especial no contexto português, sobre as suas cidades, os seus bairros,
as suas ruas estruturantes, muitas vezes ditas “direitas”. Enunciam-se
questões que exigem campos de resposta que referenciam estratégias
eficazes de reflexão, crítica e intervenção no sentido de qualificar e
resgatar a autenticidade urbana.


Capítulo 1

VALOR, ESTRUTURA E ESTRATÉGIA

Rui Barreiros Duarte


1
Tudo está relacionado, e é a construção de SISTEMAS DE
RELAÇÕES profundas que engendra o conhecimento. Confrontamo-nos
sempre com sistemas da complexidade, princípios opostos,
complementares, diferentes, processos de diferenciação e acasos
felizes. Contudo, há dois níveis de entendimento que devem ser
equacionados: o primeiro consiste em identificar a estrutura, a forma e o
conteúdo dos aglomerados urbanos; o outro diz respeito ao modo de
articular as qualidades espaciais e ambientais gestálticas,
fenomenológicas e semiológicas para delas se extrair o valor e o
significado. Assim, podem-se identificar as falsas questões, a
dissonância e a deterioração da autenticidade, e incentivar a qualidade
das intervenções arquitectónicas e urbanas.

2
Ao se DESMONTAREM e REMONTAREM os sistemas para fazer
emergir o significado, extraem-se articulações onde se inscreve a
narrativa e os conteúdos depositados ao longo do tempo, cuja coerência
interna organiza as valências do real, da cultura e da identidade.

3
É no domínio dos conceitos que diferenciamos o que parece
semelhante. Por exemplo, é necessário diferenciar o que se considera
GENUÍNO e o que é AUTÊNTICO. Assim, quando nos referimos ao
genuíno, significamos objetos, materiais, edifícios, ambientes que não
sofreram alterações nas diferentes épocas. É como se fosse uma obra
de arte, princípio invocado por Ruskin:

“Para Ruskin, a restauração era a mais completa e bárbara destruição que
poderia estar sujeito um edifício. Considerava impossível restituir o que foi belo
e grandioso arquitetonicamente, pois a alma dada ao prédio por seu “primeiro
construtor” jamais poderia ser devolvida. É veemente afirmando que outra
época daria ao monumento outra alma, outro enfoque, outra cara,
transformando o objeto em uma nova edificação.”1

Imagem 1.1: Rua em Figueira de Castelo Rodrigo. Relações de profundidade


de campo, temporalidade e ponto de vista sobre o edifício que surge em escorço após a
transição definida pelo arco em ruína.
Foi também o princípio invocado por Camillo Sitte quando referia a
cidade como obra de arte. Mas a cidade não é uma obra de arte,
modifica-se ao longo do tempo.
Viollet-le-Duc argumentava uma teoria contrária a Ruskin, e valorizava
o restauro dos edifícios. A cidade exprime um processo que se
desenvolve ao longo do tempo, é moldada pelas circunstâncias, pela
economia e pela política, pela estética e pela construtividade, pelo
kunstwollen (espírito da época) como referia Alois Riegl.
Somos assim confrontados com os princípios estáticos dos
tradicionalistas radicais como Ruskin,2 e com princípios dinâmicos que
admitem a reposição do que foi genuíno perseguindo a autenticidade
como Viollet-le-Duc.
Enquanto o debate dos contrários polarizava as teorias que lidavam
com o passado patrimonial, no horizonte perfilavam-se ecletismos e
interpretações pessoais. A História ia perdendo autenticidade
relativamente ao sentido de representação duma época, e abria-se o
campo discursivo para os historicismos e para uma história fragmentária.
A diacronia prevalecente depois do século XVIII, identificava os valores
de cada época induzindo a sua representação e autenticidade. É no
sentido de criar uma identidade entre estes dois princípios que se
exercem as ações do poder, criando um imaginário que deve ser para si
o mais conveniente.
Assim, quando nos referimos à autenticidade, remetemo-nos para as
qualidades físicas, ambientais e logísticas dos espaços e dos objetos,
para os valores de uso e de troca presentes na cidade. Neste caso na
cidade histórica depositária da tradição, com uma cultura traduzida no
civismo, identidade e comércio.
Neste âmbito, cada edifício sendo o resultado de princípios e valores,
exige que haja procedimentos que o relacionem adequadamente com o
contexto.
De acordo com esta fundamentação, teorizaram-se diver-sos tipos de
contextualismos que tiveram significativa expressão nos anos 70.
Através das ações de vários arquitetos, escolas e teorias, procurava-se
reatualizar a identidade europeia.O plano de Bolonha e a crise petrolífera
de 1973 foram fatores determinantes que dinamizaram este tipo de
pensamento nas intervenções urbanas teóricas e práticas.

“Segundo Ruskin, o processo causava a perda de grande parte do
significado documental das edificações históricas afetando sua
autenticidade, seus valores evocativos e poéticos.”3

A cidade é um sistema de sistemas. Tem uma estrutura profunda,
decorre dum processo e duma narrativa que configura o conjunto de
relações. São funções compostas que se vão moldando com o tempo e
a memória coletiva.
Mas há processos de rejeição, sistemas dissonantes e destruição de
valores. É necessário saber acrescentar autenticidade com a marca do
tempo criando identidade. Foi o que aconteceu ao longo dos séculos na
construção dos aglomerados urbanos e da paisagem humanizada.
É uma afirmação cultural que se reflete hoje na vivência quotidiana, na
morfologia urbana, no carácter e tipologia dos edifícios, nos processos
construtivos e nas suas materialidades, geometrias, euritmias4, mas
também nos signos de que são portadores e no caráter da
representação pública e privada.


Imagem 1.2: Sortelha configura os arquivos da memória no granito,
no tempo e no lugar.


A configuração física apresenta registos de diferentes épocas. Por
vezes, um palimpsesto de intervenções regista histórias e a História dos
edifícios e lugares, sendo necessário entender a importância de todos os
indicadores para saber preservar e agir, tornar mais adequadas e
autênticas as intervenções. Somos assim confrontados com a
possibilidade de existirem achados arqueológicos, sinais que se devem
preservar, ruínas a integrar, intervenções pictóricas e elementos
arquitectónicos de valor único e irrepetível, materialidades, técnicas
construtivas e revestimentos a recuperar. É também necessário avaliar a
importância da ilusão e da expressão; das linhas e da mancha; das
retas, curvas e linhas quebradas; da fluidez do espaço, temporalidade e
aberturas; das tensões do percurso e suas dinâmicas; da construção de
ambientes e atmosferas, da poética urbana com os seus valores
plásticos dados pelos cromatismos e texturas.
É preciso considerar o visível com as relações físicas entre os
elementos que definem o espaço kantiano, mas também o invisível e
todos os sistemas de relações fenomenológicas.

4
Como contraponto ao pitoresco, há o perigo de se poder resvalar para
o típico e para o característico dando abertura ao mau gosto e ao kitsch.

“O conceito de pitoresco é utilizado por Ruskin como uma forma de
qualificar uma obra arquitetônica de reconhecido valor histórico e
cultural. A beleza acrescentada pelo tempo confere às edificações um
perfil peculiar e “estilo” característico. Seus elementos únicos captam a
atenção do espectador como se fossem, por exemplo, as linhas puras
do Clássico ou o efeito de luz e sombra do Gótico.” 5

São conceitos que se devem equacionar pois a falta de sensibilidade,
de cultura urbana e arquitectónica resultam em intervenções de rutura
cultural.
Sem existirem metodologias de investigação adequadas que definam
as ações de intervenção, sem se considerar a importância da narrativa e
das qualidades fenomenológicas na legislação, criam-se espaços
preenchidos pelo vazio do valor. Na prática gera-se um reducionismo
quando apenas se consideram aspetos quantitativos e nunca
qualitativos.


Imagem 1.3: Penafiel, descaracterização urbana e rutura
com a qualidade visual da cidade histórica.


E assim se vão destruindo valores culturais patrimoniais e a
autenticidade dos lugares através de intervenções avulsas que
introduzem para além da perversão das linguagens, o falsamente
verdadeiro e o verdadeiramente falso.A dissonância inculta e acrítica
conjugada com a permissividade institucional destrói os valores
patrimoniais.
Hoje, o conceito de PATRIMÓNIO envolve conjuntos edificados, a sua
envolvente e o património imaterial. Mas o conceito de imaterial – assim
como o de património histórico –, remete-nos para os enunciados de
Ruskin, conceitos dos quais foi pioneiro.
Qualquer intervenção urbana deve considerar os sistemas de relações
que se estabelecem entre os edifícios, destes com os lugares, com os
contextos e com as pessoas. Os edifícios devem ter carácter, serem
belos e harmoniosos, fazer parte integrante duma arquitetura de
acompanhamento, explicitar a sua tipologia e qualificar a morfologia
urbana, serem portadores de significado. Devem equacionar as
qualidades ambientais, espaciais, a tectónica e as funcionalidades que
tornam os lugares únicos e irrepetíveis.
Imagem 1.4: Monsaraz, equilíbrio temporal da estrutura urbana
acropolizada e relação visual com o território.


Estes princípios envolvem também o campo de visão estática e
dinâmica. Equacionados em várias escalas, devem atender ao princípio
das vistas sobre a cidade e sobre a envolvente, princípio que nos remete
para a dupla relação que decorre da ambivalência das relações interior-
exterior.
A preocupação com as vistas fez parte das leis zenonianas e dos
planos de urbanização – como o de Lisboa –, que não permitia
intervenções urbanas que retirassem o direito à vista dos edifícios pré-
existentes. É um princípio que também se aplica em Curitiba. Mas uma
coisa são as vistas e outra é a qualidade das vistas.
Quando um conjunto edificado com identidade própria é visto a partir
do troço da muralha que se desenvolve na linha de festo como é por
exemplo Óbidos, é necessário ter em consideração o modo como o
exterior entra visualmente no núcleo urbano. Assim, não deve existir um
conjunto contínuo indiferenciado, devendo-se garantir a qualidade da
cinestesia e o controlo da totalidade do ambiente visual para que não se
destrua o carácter e qualidade do conjunto.
A rua e as suas perspetivas, os sistemas de relações visuais que se
estabelecem com a arquitetura e a paisagem, são fatores que
necessitam de ser aferidos nas suas diversas valências qualitativas para
que não se destrua a qualidade dos conjuntos edificados pela
implantação de elementos dissonantes e incaracterísticos.
Também a REVERSIBILIDADE dos pontos de vista deve garantir que a
imagem do novo não entre em conflito com a qualidade do conjunto
edificado. Para além da sua forma, dimensão e posicionamento, os
elementos novos devem ser absorvidos pelo conjunto e conjugar-se com
a envolvente. As linguagens e materialidades utilizadas com os seus
ritmos, cores e texturas impõem-se muito rapidamente podendo criar
dissonâncias no conjunto. Tudo está relacionado, a visão é múltipla e a
cidade cinestésica.
As intervenções contemporâneas podem destruir a autenticidade dos
lugares que não decorrem dum processo homogéneo de construção.
Não havendo um sistema codificado de regras harmonizadoras do
conjunto, tudo fica dependente da qualidade e sensibilidade de quem
projeta. Contudo, há questões essenciais que residem nas interligações
entre tudo.
A perda da qualidade da imagem urbana e arquitectónica só existe por
permissividade, por falta de critérios qualitativos de intervenção e de
sensibilidade. Para que se preserve a autenticidade dos conjuntos
existem critérios estabelecidos nas normas internacionais e em
legislações nacionais. Contudo, estes aspetos são remetidos para a
subjetividade, apesar das normativas internacionais acerca da
preservação dos conjuntos edificados desde a Cata de Veneza de 1964
até à Carta de La Valetta de 2011.

5
A temática da presente investigação incide na autenticidade dos
lugares – com maior incidência nas Ruas Direitas –, na sua morfologia e
carácter dos edifícios, nas tipologias em presença e no significado e
qualidades do espaço urbano. Também os edifícios de exceção, os
pequenos detalhes e a materialidade dos lugares são fatores essenciais
que participam na qualidade do conjunto sobre os quais incide um
enfoque crítico. São diferentes escalas de intervenção que se cruzam na
conjugação do mesmo domínio da autenticidade.
Como dizia Mies, “Deus está nos pormenores”. Mas outros também o
disseram antes. Na Idade Média, os pormenores das catedrais mesmo
que não fossem vistos por ninguém não mereciam menor importância
pelo pedreiro pois eram vistos pelos olhos de Deus. Nada estava oculto.
Este princípio de rigor é essencial para que nada seja menorizado tendo
em consideração todos os pontos de vista, diferentes escalas e
distâncias de apreciação. Há sistemas integrados que têm de ser
referenciados para além das materialidades.
Também é necessário considerar a ritualização dos percursos, a
temporalidade que eles envolvem, a importância dos pontos de vista,
das cotas de apreciação, a simbólica, significado e as materialidades
inerentes. São diferentes aspetos que envolvem a sacralização para
além das qualidades gestálticas, fenomenológicas e semiológicas.
Em Óbidos, na porta nascente da vila, há um altar que se encontra
num pequeno espaço de ritualização e transição.O eco enfatiza as
palavras convidando a uma pausa e à oração. Contudo, a rua alcatroada
que atravessa este espaço não equaciona esta dimensão espacial e
desvirtua o princípio cultural.
Um pavimento adequado conferiria ao espaço o estatuto que ele exige,
tal como acontece com o pavimento existente no espaço fronteiro ao
edifício da Câmara Municipal de Lisboa.

6
A reflexão, a normativa e a monitorização são fatores determinantes
para a implementação de um sistema de responsabilização onde todos
possam participar com inteligência, sentido cívico, cultural e comunitário.
Este princípio que privilegia o civismo e identidade é atuante no Reino
Unido onde as leis conferem à comunidade poder decisório sobre as
intervenções urbanas mesmo que sejam relativas à alteração da cor dos
edifícios.
A aplicação deste princípio inviabilizou o projeto de Daniel Libeskind
para a ampliação do Victoria e Albert Museum. Sendo High Kensington a
área mais tradicionalista de Londres, a comunidade opôs-se à
construção do seu projeto de rutura com o contexto vencedor dum
concurso.

7
Em Portugal, as leis de influência francesa remetem o controlo de
questões deste tipo para a sociedade e o poder de decisão para as
instituições. Não são necessariamente aplicados os critérios de cultura
urbana e arquitectónica nacionais nem europeus.
Assim, a aculturação e o gratuito saem reforçadas pela falta de critérios
de valor e autenticidade, destruindo-se progressivamente a coerência
dos núcleos urbanos, rurais, bem como a vivência desses conjuntos.
Destrói-se também a capacidade de gerar dinâmicas urbanas,
económicas e sociais.

“... sinto-me aviltado com paisagens urbanas que exprimem tristeza e mal-
estar. As construções embora sólidas e tecnicamente eficientes, denotam tal
estupidez e miopia, falta de perspetivas e de generosidade que fazem lembrar
com saudade as culturas mais pobres...”.6

O turismo pode funcionar igualmente como uma dinâmica que ajuda a
adulterar ou destruir o carácter dos lugares e da arquitetura pelo
alindamento de intervenções desajustadas e pelo tipo de simulacro que
se introduz, pelo aparato do espetáculo. As distorções que se ocasionam
na vida urbana, quando em excesso, destroem a identidade dos lugares
apesar do autêntico e do genuíno serem fatores essenciais para o
turismo cultural.
A autenticidade também envolve a fixação dos utilizadores ancestrais –
ou pelo menos dos seus valores e modo de vida –, o tipo de estrutura da
propriedade, devendo as dinâmicas de captação contemplar o sentido
vivencial identitário dos lugares. Este foi o princípio que presidiu ao
Plano de Bolonha de 1969 implementado em 1973, e que esteve na
génese da preocupação europeia com as cidades históricas.
As Cartas Internacionais sobre o património têm vindo a reforçar esta
vertente, sendo a mais recente a CARTA DE LA VALETA (2011) onde se
refere:

“O CIVVIH (ICOMOS-Comitê Internacional de Cidades e Povoações
Históricas) atualizou os seus enfoques e considerações contidos na
Carta de Washington (1987) e a Recomendação de Nairobi (1976),
baseadas no corpus dos seus textos de referência. O CIVVIH definiu
os objetivos, pareceres e instrumentos necessários; para isso tomou
em consideração a evolução significativa das definições e
metodologias em matéria de salvaguarda e gestão das populações e
áreas urbanas históricas. As modificações expressam: uma maior
consideração do património histórico no contexto territorial e não
simplesmente entendido como a delimitação de um conjunto ou setor
urbano.; uns valores imateriais, como a continuidade no tempo e a
identidade; os usos tradicionais; o papel do espaço público como lugar
de interação social e outros fatores socioeconómicos, como a
integração social, e ambientais. Questões como a paisagem
considerada como referência territorial comum ou a conceptualização
da paisagem urbana como um todo, com os seus aspetos topográficos
históricos e perfis (skylines), adquiriram uma grande importância. Outra
mudança relevante, no caso das cidades de crescimento rápido,
corresponde aos grandes desenvolvimentos urbanos, já que estes
podem alterar ajudam os parcelamentos tradicionais que ajudam a
definir a morfologia urbana histórica.” 7

8
Complementando a vertente científica, a fenomenologia cria uma
LÓGICA SENSÍVEL. Inscreve os sentidos e os fenómenos que
estabelecem a relação do sujeito com as coisas, a relação sensível dos
objetos entre si, e acentua a necessidade da consciência da produção
de sentido. No sistema urbano nada existe apenas em si mesmo. Tudo
se articula em complexos contextos relacionais que conferem sentido,
significado e diferentes tipos de apropriação aos lugares e aos sítios. As
análises que se fazem correspondem um pensamento estático feito
duma forma sistemática suspendendo os sistemas de relações com o
mundo das coisas e das ideias. Apresentam-se factos, mas é necessário
haver interpretações profundas dos sistemas em presença.


Imagem 1.5: Praça Jogo da Bola (antigo campo de bola)
ou Praça da República, Ericeira.


Quem não consegue ver a diferença de vibração dos materiais debaixo
da luz, o valor dos cromatismos e cambiantes tonais da arquitetura, os
valores das sombras e da luz, as qualidades plásticas das relações entre
os materiais, a importância dos pormenores, não consegue intervir com
qualidade. Não são só aspetos sensíveis, mas a capacidade técnica de
referenciar rebocos, pedras, azulejos, madeiras, texturas, a poética da
materialidade e a sua história para se poder preservar.
Depois das análises dos ritmos das fachadas e da harmonia dos
edifícios, tudo pode ser subvertido se forem alteradas as frentes dos
lotes, a estrutura da propriedade. Por vezes pensa-se agarrar o
presente, mas deixa-se escapar a sua essência. O presente está em
devir mas está articulado com o passado. É esta a sua razão de ser e
dos fundamentos que se deslocam com o tempo.
Assim, podemos referir Foucault quando em A Arqueologia do Saber
refere a deslocação da raiz do fundamento do seu registo fixista
enfatizando as transformações, pois estas contêm em si um duplo
registo: o da sua própria fundação e o da renovação dos fundamentos.
Desde sempre se lançou a confusão alimentada pelo
DESCONHECIMENTO implantado no lugar do conhecimento. Os falsos
conceitos e ações impróprias implantados na praxis quotidiana vão
destruindo os lugares à revelia das boas práticas com razões que a
razão nem quer conhecer. Em todas as escalas e em todas as
circunstâncias e lugares é necessário salvaguardar os aspetos culturais
do conjunto.

9
Por isso, as FUNDAMENTAÇÕES são essenciais. É o caso dos
registos arqueológicos, é o caso da “arqueologia do saber” de Foucault.
Procuramos pedras que nos contem histórias para conhecermos a nossa
identidade e dar um sentido ao futuro. As pedras questionam-nos.
Sabemos que tudo é importante, mas há que ponderar a importância
das coisas e fazer emergir as relações essenciais. Esse determinante
conceptual cria o sentido do belo, do justo e do útil.
É assim que deveria ser a cidade. Mas a questão é: a cidade é justa
para quem? Qual o sentido da beleza se ela não está ao serviço de um
ideal?
A questão para ter um sentido operativo deve autonomizar o que é
científico, não pode deixar que a realidade se dilua numa pseudociência
ou ideologia. É essencial que os estabelecimentos humanos se
inscrevam no território com autenticidade.

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Outra coisa são as REGRAS que apenas referem parâmetros
quantitativos e nunca qualitativos. É um princípio da DISSOCIAÇÃO que
contém um reducionismo e subverte o espírito das regras. É assim o
universo dos índices: de ocupação do solo e de construção. O universo
dos números implanta-se no lugar das qualidades espaciais e
ambientais, dos enquadramentos visuais.
A narrativa que se constrói – cidade em quarteirões, cidade-jardim,
megaestrutura, edifícios matriciais –, são etapas do pensamento
arquitectónico e urbano que subverteu a noção de rua. Ela desapareceu
na cidade-jardim; passou a ser interiorizada e sobre-elevada com Le
Corbusier nas unidades de Habitação; foi equiparada a galerias nos
edifícios de habitação social; foi identificada com os corredores internos
nas megaestruturas como em Cumbernauld Town Center.
Daí até aos pragmáticos Centros Comerciais feitos sob a lógica do
sucesso comercial foi um pequeno passo. Um exemplo que explicita este
princípio está expresso no Centro Comercial Colombo em Lisboa, onde
os corredores circulares têm o nome de ruas.
Passou-se do espaço público para o espaço coletivo (espaço privado
de uso público); passou-se também a viajar no tempo e não no espaço
(a centralidade dos Centros Comerciais foi a alternativa à viagem no
espaço ao centro da cidade); recorreu-se a espaços distribuidores
estreitos (simulacros de ruas) para ampliar as possibilidades de venda
dos produtos, onde os consumidores podem ziguezaguear num intenso
afã consumista; substituiu-se a palavra cidadão por consumidor; os
comportamentos são normalizados; as brincadeiras das crianças não
podem existir fora do Play Center das máquinas para uma maior emoção
mecânica no “maravilhoso mundo novo” do consumismo. Foi tudo
pensado pragmaticamente para faturar.
O princípio que preside a este universo é exportado dos USA onde as
pessoas nos subúrbios têm várias hipóteses: ou estão a cuidar da relva;
ou vão ao shopping; ou estão a ver televisão e a beber cerveja; ou estão
a colaborar num serviço comunitário. Andar na rua nos subúrbios perde
sentido. Andar na rua é perder tempo, “time is gold”. Os subúrbios são
dimensionados para o automóvel viabilizando deslocações rápidas e
eficazes com estacionamentos bem dimensionados e disponíveis.
Com a perda do simbólico gerou-se o antídoto: proliferam sistemas de
violência, desterritorializações, degradação e insegurança. Destruiu-se a
vivência urbana e espartilhou-se a vida sob a égide dos zonamentos e,
posteriormente, dos condomínios.

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Assim, o que se oferece a partir do Cristal Palace é um espaço
contentor onde não há moscas nem insetos inconvenientes, nem odores
nem fumos. Não há o terrível vento que despenteia o cabelo, o
pavimento não tem imprecisões nem buracos onde alguém pode cair e
aleijar-se.
A temperatura ambiente é programada, agradável e não há estações
do ano a não ser nos saldos e promoções de épocas. Está tudo
disponível nas montras. Elas contam outras histórias: o tempo dos
desejos das facilidades do cartão de crédito, da felicidade plastificada e
um sorriso sponsorizado.
O poder pertence aos que controlam os sonhos. Criam-se universos de
sonho: o “american dream”, a Disneylândia e Hollywood.
Exportam-se programas televisivos com muita violência e sexo,
estigmas de sociedades esquizofrénicas com heróis da tela e de coisa
nenhuma que também dão vida a um anúncio.
Vivemos na era do simulacro e do vazio, tornamo-nos espectadores da
vida e batemos palmas. Somos consumidores, adoramos promoções e
saldos.
Estes princípios, informados por um sistema económico implacável
está por detrás das ações urbanísticas que acentuam a acessibilidade e
o tempo, em detrimento do uso do espaço e dos valores de uso e de
troca.
As “urbanizações de praceta” substituíram a vivência comunitária. Está
tudo em conformidade com os índices de construção e de ocupação do
solo. Está tudo de acordo com o descalabro do “urbanismo” vigente.
Complementarmente, incorporam-se as margens e as marginalidades.
Só a génese é ilegal.
Falta visão e estratégia, modelos de intervenção que articulem os
valores da sociedade em mudança com os costumes e o território.
Quando se confundem os conceitos, quando eles não existem ou não se
aprofunda o que é essencial, resultam resoluções avulsas que vão
destruindo a razão de ser da cidade e a vida comunitária.

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Movemo-nos em SISTEMAS DE REPRESENTAÇÃO de várias
realidades. Mas para além das coisas vemos o seu valor, conteúdo ou
significado? Devemos saber qual é o sentido, pois quem não vê não
sabe e destrói.
Pode-se cumprir a Lei que também não vê, não olha nem repara. É
cega. Quem vê, cria um negócio rentável, um sistema da vida onde as
pessoas não se querem preocupar mas apenas divertir. Essa pseudo-
utopia trás a promessa do consumo e alimenta sonhos padronizados.
Estamos perante sistemas que tudo definem à partida e outros que
permitem graus de liberdade para que as coisas aconteçam de acordo
com um determinado sistema de ordem cultural. É assim a vida: há
padrões e referências que são invariantes como os arquétipos.
Os arquétipos e o inconsciente de Jung estruturaram a génese da
cultura. Movemo-nos em mundos de símbolos, mas também de signos,
de sensações e de relações posicionais.

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Essas relações quando profundas criam dinamismo interno, têm a ver
com a autenticidade. Permite-nos ver para além dos sistemas estáticos,
olhar o que articula o tempo presente com o seu passado e o seu devir.
Uma das falhas graves do urbanismo decorre da falta duma VISÃO
INTEGRADA sobre as coisas, as pessoas e as ideias, sobre o mundo
dos fenómenos, a perda das grandes narrativas. Quando nos movemos
no restrito universo do quantificável, dos índices (de construção ou de
ocupação do solo) não se equacionam valores vivenciais nem as
dinâmicas urbanas como os fluxos que estão implícitos.
Assim, podemos dizer que uma ponte não é só a obra de arte que
vemos. É importante referenciar os fluxos que por lá passam com
diferentes origens e destinos, com horas de ponta e intensidades
variáveis. Alteram-se os destinos e as fontes e alteram-se os fluxos.
É como a História: alteram-se as fontes, os métodos e os autores e a
verdade passa a ser outra. Por isso ela é reescrita. E também as
qualidades das cidades. Em nome do que é importante, do que fornece
uma coesão genuína perante a mudança dos tempos, falamos de
autenticidade, de valor e de representação.



Imagem 1.6: Sardoal. Praça da República e pelourinho, uma réplica de Raul Lino.


14
Apresentamos como exemplo, dois discursos antagónicos de
aproximações à mesma realidade por arquitetos e pelas razões que
invocam: uma é fenomenológica e outra simbólica. A representação do
poder político faz com que tudo mude na dimensão sensível.
1 – Gordon Cullen, na introdução do seu livro Paisagem Urbana refere
a sua experiência no local, em Nova Delhi, dizendo que “um dos mais
belos efeitos urbanísticos” resulta da estrutura posicional do “estou aqui”
e “estou ali” referenciando como exemplar a lomba do percurso entre a
Central Vista e o Rashtrapathi Bhawan. “Uma sequência extraordinária,
conquanto tenha sido objeto de certa controvérsia” 8 entre Lutyens e Baker,
arquitetos-planeadores da cidade.
2 – Peter Hall, no seu livro Cidades do Amanhã refere a mesma
questão nos seguintes termos:

“Ao prejudicar a vista do Secretariado e do palácio do vice-rei, a
lombada que se forma na grande via processional causou um
rompimento fatal entre Lutyens e Baker e quase abalou o Império.” 9

Não há contradição. Apenas diferentes sistemas posicionais perante a
mesma realidade que geram ruturas. O poder sai ofendido pela
deficiente manifestação da hegemonia axial da ordem urbana, mas o
cidadão enriquece o seu percurso com a descoberta de ângulos de vista,
com as qualidades ambientais que qualificam a temporalidade do
deslocamento.

15
Excetuando as cidades cuja localização decorre de necessidades de
defesa do território ou de representação do poder político, o COMÉRCIO
é a razão de ser e o fator que confere valor de uso e de troca à cidade.
O comércio é um dos componentes da cultura e o fator determinante do
aparecimento da maior parte das cidades portuguesas. Apesar da
multiplicidade de configurações que as cidades apresentam, há sempre
uma adequabilidade cultural e funcional que cria as melhores condições
para que o comércio se possa desenvolver.

16
Em termos metodológicos identificam-se e separam-se os aspetos
FORMAIS, ESTRUTURAIS e CULTURAIS mas as sínteses estabelecem
relações entre eles. Em Portugal não há Ruas Direitas com arcadas
como existe fragmentariamente na Rua do Torgal em Santiago de
Compostela. Apesar desta cidade ter soluções arquitetónicas idênticas
às de Guimarães, não existem arcadas nas ruas nem na Praça do
Torgal. As arcadas existem dominantemente no Largo da Oliveira, e num
vazado térreo com arcos na transição entre praças.


Imagem 1.7 – Évora, arcadas na Praça do Giraldo.


Também as arcadas na Praça do Giraldo em Évora correspondem a
um desenvolvimento da rua, sendo sempre um signo do comércio e do
poder. Este princípio é enunciado na toponímia em Lisboa: a Praça do
Comércio, também designada por Terreiro do Paço.

17
A ESTRUTURA VISUAL dos aglomerados urbanos e rurais reflete o
ordenamento do conjunto edificado. O Genius Loci é um enunciado
ancestral dos romanos, citado por Norbert-Schultz e reposto pela Carta
de Quebec (Canadá) em 2008.
Assim, é essencial enunciar as qualidades que estão subjacentes aos
lugares e que se refletem na dimensão cultural em termos físicos e
funcionais, e as condições de existência que ao longo do tempo
articulam as Ruas Direitas com a malha urbana. Embora haja uma
identidade cultural nos processos de fazer comércio, a evolução da
forma de comercializar reflete-se na especialização especialmente
depois dos anos 60. As relações personalizadas que se estabeleciam
entre os comerciantes e o público são substituídas por um pragmatismo
funcional vazio de rituais e de relações simbólicas, o oposto das feiras
ou dos casbah do norte de África. Falta acupunctura urbana.
Assim, a apresentação dos produtos em quantidade e duma forma
mais ou menos caótica não significa uma desorganização funcional, mas
é um fator decisivo para despoletar a pesquisa visual do comprador para
que demore na sua apreciação, para que seja possível criar uma relação
de negócios e sugerir outros produtos.
É a estrutura do labirinto.

18
Nas Ruas Direitas era quase um invariante existir uma loja chamada “O
Barateiro” que vendia de tudo um pouco, onde a exposição dos produtos
saturava todos os espaços. Este tipo de apresentação e de comércio era
também extensivo ao comércio de retalho, quinquilharias, antiguidades,
drogarias, mercearias e lugares de fruta. Eram locais de encontro, de
uso e de troca. Agora foram substituídas pelas “lojas do chinês”,
havendo na Rua Direita de Viseu várias lojas chinesas.


imagem 1.8: Buarcos, e os sinais dos tempos. Da emblemática da caravela dos Descobrimentos
à loja chinesa da Globalização.


A avaliação do MODO DE EXPOR deve partir de princípios e
estratégias culturais específicas e não serem regradas contranatura.
Christopher Alexander chamou-lhe Pattern Language. Assim, identificam-
se um conjunto de qualidades físicas e sociais, funcionalidades e
práticas quotidianas que criam identidade, constituindo e criando uma
acupunctura urbana.10

19
A investigação sistematiza e desdobra diversos pontos de vista
analíticos sobre o tema e equaciona os valores em presença na urbe
que contribuem para a sua vitalidade e para a dinâmica da zona onde se
insere. É sempre necessário considerar a importância do tempo como
fator cultural. Determina diferentes tipos de apropriação coletiva que se
repercutem na autenticidade de ocupação e vivência dos espaços
criando fatores de socialização.
Os rossios são historicamente pontos de encontro às portas da cidade
onde se faz o encontro com o mundo rural, que traz para a cidade os
seus produtos hortícolas, produtos alimentares e gado.


Imagem 1.9: O Rossio de Lisboa enuncia a memória coletiva
da praça cujo nome é Praça D. Pedro IV.


O nome Rossio ao sul do Tejo em Santarém expressa o lugar onde os
alentejanos comercializavam o seu gado trazido para as proximidades
da cidade.
Progressivamente integrados na malha urbana, redesenhados, nunca
perderam essa função de local de encontro embora a sua índole tivesse
sido alterada.
Em Lisboa, quando se desenvolveu a cidade, o comércio do Rossio
dividiu-se em dois tipos: o gado e os produtos alimentares foram para o
Parque Mayer enquanto que o comércio a retalho e as quinquilharias se
estabeleceram na Feira da Ladra onde ainda hoje se comercializam.
Com o maior desenvolvimento das áreas centrais da cidade, o gado
deslocou-se para o Campo Pequeno, tendo passado transitoriamente
pelo Campo Grande para se fixar posteriormente em Odivelas.
De alguma maneira enunciam-se os princípios de Homer Hoyt sobre o
desenvolvimento das cidades por sectores. Nesta perspetiva podemos
também assinalar o Intendente que corresponde à entrada de saloios11
na cidade para comercializar os seus produtos hortícolas.
Assim, encontramos em Lisboa um conjunto de três praças
especializadas em comércio para além da Praça do Comércio: o Rossio,
de acordo com o que já foi referido; a Praça da Figueira, onde existia um
mercado de ferro onde se comercializavam os produtos agrícolas; o
Martim Moniz – na continuidade do Intendente –, onde o comércio é feito
por indianos e outras etnias, havendo já no século XVI referências a
Lisboa como sendo terra de “muitas e desvairadas gentes”. 12

“No século XVI, a Rua Nova dos Mercadores era uma pequena babel.
Nos seus edifícios, moravam italianos, flamengos, andaluzes,
portugueses. Enquanto isso, naquela rua da Baixa de Lisboa, cristãos--
novos, judeus estrangeiros, escravos vindos de 20 nações africanas,
escravos árabes passeavam-se, muitos faziam trocas comerciais.É
esta a realidade trazida à superfície no livro recentemente editado no
Reino Unido The global city. On the streets of the renaissance
Lisbon (A Cidade Global – Nas Ruas da Lisboa Renascentista), editado
pelas historiadoras Annemarie Jordan Gschwend, do Centro de
História d’Aquém e d’Além-Mar, a trabalhar na Suíça, e Kate Lowe, da
Universidade Queen Mary de Londres.
A obra tem como ponto de partida dois quadros descobertos em 2009,
numa mansão inglesa, em Oxfordshire, datados entre a década de
1570 e 1620 por Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe. Foram
pintados por um artista holandês anónimo. Nas duas pinturas, estamos
perante mais de uma centena de figuras humanas, que conversam,
montam a cavalo, numa rua com uma fileira de edifícios em segundo
plano. Há homens, mulheres, negros, brancos, cavalos, movimento e
vestimentas apropriadas ao Outono ou ao Inverno.
Quando viram os quadros – que se pensa serem duas telas cortadas a
partir de uma única pintura –, as historiadoras rapidamente
determinaram que estavam perante a Rua Nova dos Mercadores, em
Lisboa. É a partir desta malha visual que o livro é construído, indo
buscar documentação oficial, testemunhos da época e objectos que
sobreviveram até hoje para falar sobre a cidade global que Lisboa era
no século XVI, as suas gentes, a sua cultura material em capítulos
escritos por investigadores diferentes.
“É uma vista estranha, que nos mostra uma rua da qual nós realmente
não conhecemos nada. Lisboa foi perdida em 1755. Foi como se
tivesse caído uma bomba nuclear”, diz Annemarie Jordan Gschwend
ao PÚBLICO, no início de Dezembro, quando esteve em Lisboa na
apresentação do livro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
“Para mim, o que é interessante é a vida na rua. Lisboa tinha uma
grande população negra. E o quadro não mostra apenas a população
negra, mostra também os estrangeiros que ajudaram Lisboa a tornar-
se a grande cidade comercial que era no século XVI. Os quadros
também mostram animais. Há um cão que está a abocanhar uma ave.
E é um peru. É uma ave que veio da América e que os portugueses
tornaram numa ave global, levando-a para a Índia e para outras partes
do mundo.”
Esta é apenas uma das imagens simbólicas encontradas entre os
pormenores das pinturas. Para um especialista, há muita informação
nos quadros sobre aquela cidade agora distante de nós, quando
Portugal tinha um império construído durante os Descobrimentos, e um
comércio único vindo do Oriente, de África e da América, passava
obrigatoriamente por Lisboa. As interacções comerciais, a escravatura,
o percurso dos produtos dentro da cidade para o rio Tejo, as relações
entre portugueses e estrangeiros ou a arquitectura da rua são questões
que podem começar a ser descortinadas a partir do que se vê
naquelas duas telas, que funcionam como um díptico.
‘Os quadros são espantosos, mas também enigmáticos’, disse
Henrique Leitão, historiador de ciência e Prémio Pessoa 2014, que fez
a apresentação do livro no MNAA. ‘São completamente diferentes de
todas as outras representações de Lisboa que dispomos, que, com
pouquíssimas excepções, são vistas distantes e panorâmicas, a partir
de um ponto de vista afastado.’
Mas os quadros da Rua Nova dos Mercadores não. ‘Tal como o quadro
do Chafariz d’el Rey [de autor anónimo, datado entre 1570 e 1580,
exposto no Centro Cultural de Belém], as pinturas representam uma
cena viva e intensa que arrasta irreprimivelmente o observador para
dentro dela. É impossível olhar para estes quadros sem que
imediatamente se forme na mente uma torrente imensa de perguntas’,
prosseguiu, enunciando-as: ‘Que rua é esta? Que cidade é esta? Que
casas são estas? Mas, acima de tudo, quem é esta gente? E o que é
que eles estão a fazer?’ ” 13

COMENTÁRIO CRÍTICO

Esta extensa citação apresentada sem cortes, reflete os aspetos
enunciados sobre a construção da realidade. Como referimos,
confrontamo-nos com três determinantes da construção da História: o
AUTOR, as FONTES e o MÉTODO.
1 – A “construção” histórica da Rua Nova dos Mercadores radica em
pressupostos fantasiosos não testados, como a imagem imaginária do
rinoceronte de Durer, a fotografia do monstro de Loch Ness.
2 – O autor é anónimo, não se sabe se alguma vez esteve em Lisboa,
não existe credibilidade na matéria de que se fala para que se possa
inferir um juízo científico. As fontes partem duma fantasia.
3 – As imagens saem da imaginação, fundamentam um imaginário que
cria mundos possíveis onde a realidade e o inconsciente coletivo se
misturam.
4 – Perante a ignorância dos factos, o modo como são construídos
traduzem um sistema de representação fantasioso como tantos outros
que construíram a emblemática dos nossos monumentos nacionais
segundo as intervenções de restauro dos anos 40 em Portugal.
O desenvolvimento do comércio através do rio e do porto de Lisboa
favoreceu o estabelecimento de uma frente de chegada, armazenamento
e distribuição de produtos na frente ribeirinha.
Numa outra vertente com impacto comercial, podemos referir o modo
de agrupamento por ruas especializadas que existia na Idade Média com
expressão na toponímia: Rua dos Douradores, Rua dos Ferreiros, Rua
dos Correeiros entre muitas outras. São ruas que confluíam em largos,
espaços de alargamento sem um desenho geométrico onde o encontro
se processava naturalmente, onde as populações interagiam como no
Largo do Chafariz de Dentro em Alfama.
Há ainda outra vertente que é importante realçar: depois da construção
da Baixa Pombalina, as relações entre a malha urbana e a cidade
adjacente repercute-se no seu sentido funcional, manifestando princípios
de diferenciação.
Existem três níveis de funcionalidade na malha urbana pombalina
situada entre o Terreiro do Paço e o Rossio.
1 – O primeiro nível corresponde à Praça institucional onde existem os
Ministérios. O segundo nível, corresponde à malha adjacente onde se
encontram as instituições bancárias; no terceiro nível é a zona que se
desenvolve até ao Rossio. 14
2 – A hierarquia também desce de poente para nascente referenciada
pelos nomes de Rua do Ouro e Rua da Prata.
3 – As ruas transversais apresentam igualmente uma funcionalidade de
menor impacto económico existindo retrosarias e comércio de bairro.
Percorrem-se todas as escalas.
A estratificação cultural nos aglomerados urbanos está interligada com
a simbólica e a memória coletiva que é parte integrante da cultura da
cidade. É um aspeto que se manifesta também em termos de
desenvolvimento urbano que é necessário entender como processo de
desenho, articulação fundiária e cultural.
Apesar das ruturas com a malha pré-existente, adaptou-se sempre que
possível o desenho das transições, linhas de força e funcionalidade.
Assim, podemos encontrar paralelamente à Avenida da Liberdade a Rua
de Santa Marta que é parte dum eixo que vai desde o Rossio até S.
Sebastião da Pedreira.
Mesmo em Nova Iorque, a Broadway corresponde a uma reminiscência
do caminho inicial, ou Wall Street que resultava do lugar onde existiam
as paredes do forte.
A ligação entre toponímia e funcionalidade é sempre muito forte e
culturalmente determinante, pois radica na memória coletiva. Quase
ninguém designa o Rossio como Praça D. Pedro IV nem chama ao
Areeiro Praça Dr. Sá Carneiro.


RUA DIREITA

Rua Direita significa rua direta, é a que vai das portas da cidade para o
centro e, dada a sua importância estratégica, sempre foi uma rua
comercial. Costuma-se dizer que a rua direita é torta, mas este facto
decorre da sua construção ao longo do tempo sem ser planeada. Assim,
vai-se construindo sequencialmente, de acordo com a topografia,
repondo caminhos de pé posto com adequabilidade, construindo o
sentido do lugar. Há assim uma dissociação entre uma rua
geometricamente reta e planeada e a tortuosidade que lhe confere
atributos e qualidades gestálticas e fenomenológicas que é necessário
saber ler.


Imagem 1.10: Malha urbana de Penafiel com Rua Direita estruturante.


Rua Direita é uma estrutura linear existente em várias cidades
portuguesas, sendo estruturante como é o caso de Penafiel. Existe
também nas cidades de influência portuguesa com características
próprias, sendo importante preservar o seu sentido ou memória,
constituindo o comércio, segundo Eagleton, uma das componentes da
cultura.
Por estarmos numa época de profundas mudanças e se pretender ter
uma visão dinâmica, é necessário analisar o processo urbano onde se
inscreve a Rua Direita, quais as suas qualidades, o seu sentido territorial
e funcional, o modo como contribui para o civismo e identidade. É aqui
que se devem articular princípios e métodos, criar estratégias para se
articular a vivência urbana com as dinâmicas económicas locais.
Estamos em presença não só de um eixo comercial com
características de lojas de bairro e outras com cariz de maior
centralidade que, progressivamente, têm vindo a substituir as anteriores
funções, mas de uma estrutura do casco urbano histórico que tem
ramificações em diversas zonas de influência conferindo significado ao
conjunto.
O comércio de bairro tem uma centralidade compatível com a
comunidade onde se insere, privilegia produtos alimentares e pequenos
negócios, todos contribuindo para a criação duma acupunctura urbana. A
mercearia, o café, o lugar da fruta, o cabeleireiro, são locais de encontro.
É um princípio também explorado nos filmes portugueses antigos como
o Pátio das Cantigas.
A questão que interessa refletir é sobre a construção de UNIDADES
MÍNIMAS SIGNIFICANTES que constituem agregados comunitários, que
geram encontros e dinâmicas urbanas. O bairro corresponde a uma
dessas unidades, mas nunca o quarteirão. Contudo, um conjunto de
quarteirões pode ser significante sempre que constituam uma unidade
cultural territorial. Por isso ainda hoje os bairros funcionam como
comunidades com o seu comércio local. As zonas de hierarquia superior
encontram-se nos limites, agregando várias unidades deste tipo.
A Rua Direita, é uma estrutura axial que contempla o conceito de
Ordem Urbana, pois tem um princípio, meio e fim significantes. É um
fator de agregação do casco antigo das cidades que potencia dinâmicas
de vários tipos de grandeza incluindo diferentes funções, usos,
atividades e acontecimentos.
Veja-se a importância da Feira Medieval ou a feira do chocolate em
Óbidos, ou das festas populares em Alfama entre muitas outras. Através
das relações com a malha urbana e da sua localização central, a cidade
histórica adjacente à Rua Direita pode ser uma alternativa à centralidade
dos centros comerciais. Estes correspondem a uma época onde se viaja
no tempo e não no espaço.

RUA DIREITA – PORTALEGRE

Imagem 1.11: Desenho de Portalegre com a silhueta da Sé


como ponto de referência.


Apresenta-se a seguir um extrato pp.8 e 9 do “Tratado da Cidade de
Portalegre e de suas antiguidades, e curiosidades de Diogo Pereira
Sotto Maior indigno capellçao em a Cabcta See da ditta cidade Dirigido A
Dom Rodrigo da Cunha Bispo de Portalegre, & agora dado à luz pela
primeira vez com hum prefácio ao leitor, por Luis Keil conservador do
Museu Nacional de Arte Antiga, de Lisboa.
Este Tratado foi impresso em Elvas nas Officinas de Antonio Jose
Torres de Carvalho, & á sua custa impresso, anno 1919”.

Imagem 1.12: Planta da zona histórica de Portalegre. Muralhas do Castelo de Portalegre /
Fortificações de Portalegre, s.d.. SIPA DES. 00000729.


1. VALOR
Podemos caracterizar o valor da Rua Direita enquanto entidade formal,
funcional e urbana, elemento estruturante da malha da cidade histórica.
As relações formais decorrem das relações entre cheios e vazios, das
características tipológicas, das materialidades, símbolos e signos.
São fatores que se conjugam com a estrutura dos vazios que é o
elemento articulador do conjunto e indissociável dele.


2. FORMA – IDENTIDADE FORMAL
Como identidade formal, referem-se aspetos relacionados entre si
respeitantes à sua configuração, materialidade e legibilidade.
São vertentes profundamente articuladas com as regiões onde existem
e refletem os padrões culturais que lhe imprimem características
diferenciadas que é necessário identificar. Há que respeitar e criticar os
palimpsestos e as modificações sempre que referenciam um saber
acrescentar valor privilegiando os atributos de identidade.
Pavimento: decorrentes das regiões onde as ruas se encontram, os
pavimentos variam de materialidade e padrões. Pavimentos de pedra
nas regiões graníticas, dão lugar a pavimentos em calçada portuguesa
em regiões litorais. Outros configuram empedrados tradicionais, mas há
que articular as texturas com o uso: evitar a trepidação e criar um fácil
pisoteio evitando que se escorregue.
A geometria do pavimento deve também evitar empoçamentos
decorrentes do deficiente controlo de cotas ou assentamentos ao longo
do tempo.
Em geral, as superfícies pavimentadas devem ter inclinações suaves
para que o escoamento das águas se faça facilmente de modo a evitar a
retenção de águas e o empoçamento. Sempre que haja uma zona
propensa a enxurradas, dever--se-ão considerar as cotas de cheias para
evitar que elas se repitam.
A acropolização é um valor significante do sistema de representação,
existindo escadas de acesso por adaptação ao trainel da rua ou para dar
ênfase à entrada.


Imagem 1.13: Escadas de acesso às igrejas: Rua Direita de Penafiel
articulando-se com o trainel da rua e em Óbidos criando um pódio.


Skyline: a silhueta decorre de diversos tempos de intervenção, das
características topográficas e dos edifícios e do seu significado,
altimetria e da configuração dos lotes. Exprime dominantemente
sistemas de representação institucional política e religiosa.
Alçados / sequências: a configuração dos lotes tem implicações no ritmo
dos alçados podendo conferir maior vibração ao conjunto quando estes
são estreitos como no Porto.
Largura da ruas: constitui um fator determinante para o encontro. Ruas
demasiado largas diminuem a probabilidade de se estabelecerem
relações entre os dois lados das ruas.
Outra questão essencial decorre da sua orientação que envolve a
projeção das sombras e a insolação, bem como a afetação pelos ventos.
Um caso paradigmático são as ruas da Trafaria: as que são
perpendiculares ao rio Tejo são varridas pelo vento tornando-as
impróprias para funcionarem como lugares de encontro.
Nas ruas do casco histórico das cidades os cheios são preponderantes
em relação aos vazios e as ruas são estreitas.
As relações de proximidade potenciam o encontro, mas há que evitar
as barreiras arquitectónicas. Na Rua do Carmo, a criação de barreiras à
circulação impediu o acesso dos bombeiros durante o incêndio do
Chiado. Também o estacionamento automóvel e outros objetos não
devem impedir ou entrar em conflito com a circulação fluida de pessoas,
de carros de bombeiros, ambulâncias, cargas e descargas e lixos.
Uma variável importante é a sua caracterização de modo a favorecer o
encontro, mas também é de assinalar as variações dos limites, os
alinhamentos e aberturas.
Linearidade: pode exprimir-se por um sistema geométrico linear,
quebrado, com curvas ou variável entre diversos parâmetros. Qualquer
das hipóteses diferencia as condições fenomenológicas e ambientais, a
sua fruição.
Temporalidade: sendo decorrente das qualidades espaciais das ruas,
depende sobretudo do impacto das camadas de atenção que pode ser
arquitectónica, decorrente das montras, do tipo de funções existentes, de
encontros, das circunstâncias que podem propiciar pausas. Um conceito
próximo ao que Christopher Alexander designou como “unidade de
cidade”, uma estrutura neo-barroca de acontecimentos que decorrem
uns dos outros em cadeia.
Articulações: constituem sistemas de relações espaciais e físicas que
conjugam os edifícios entre si ou aprofundam as possibilidades de
vivência das ruas.
Estímulos visuais internos: referem-se a qualidades dos objetos que
chamam a atenção. Podem ser de índole patrimonial, arquitectónica ou
urbana, de design, decorrente da sua funcionalidade ou da
comunicação.
Estímulos visuais externos: constituem sistemas de relações fortes,
aberturas e pontos de referências que projetam o espaço contido para
outros territórios abertos, ou focalizam arquiteturas significantes.
Pormenores: constituem elementos visuais específicos que criam
identidade. A temporalidade do percurso pedonal permite que estes
registos adquiram maior relevância criando uma legibilidade adequada
para quem se desloca a pé fornecendo uma visão sequencial.
Elementos da Arquitetura / Urbanismo / Design: estes elementos nunca
devem entrar em conflito ou suplantar a legibilidade do conjunto
permitindo ler a unidade morfológica num primeiro nível, a articulação da
arquitetura com o contexto num segundo nível e os pormenores
arquitectónicos num terceiro nível.
Elementos de arquitetura relevantes, são os que criam pontuações na
imagem sequencial. Por vezes podem adquirir substancial protagonismo
referenciando histórias e épocas.
Legibilidade / Clarificação: A legibilidade corresponde a uma articulação
dinâmica entre as partes constituintes dum todo em que cada unidade ou
elemento contribui para a formação harmoniosa do conjunto a várias
escalas de aproximação.
Os Pontos de Referência constituem uma das cinco categorias
analíticas descritas por Kevin Lynch (nós, quarteirões, percursos, pontos
de referência e limites). São elementos estruturantes da imagem da
cidade, polarizam o seu skyline ou ajudam a articular troços de percurso
em termos fenomenológicos ou semiológicos.
Podemos encontrar três tipos de vazio: por subtração de matéria; por
angústia e por ausência, sendo o vazio o lugar posicional semiológico a
ser ocupado (casa vazia).
Na cidade histórica há uma proeminência dos cheios em relação aos
vazios apresentando a cidade moderna uma situação inversa. Contudo,
falamos sempre das relações entre cheios e vazios, constituindo estes a
3ª tipologia tal como foi teorizado por Aldo Rossi.

Arquitetura
A arquitetura da Rua Direita tal como a cidade histórica é constituída
dominantemente por processos de adição ao longo do tempo,
dominantemente por uma arquitetura anónima de acompanhamento.
As exceções à regra correspondem a edifícios paradigmáticos: igrejas,
edifícios nobres e institucionais. Estes, quando surgem em épocas mais
recentes, são em geral dissonantes com a estrutura visual da rua como
acontece na Rua Direita de Penafiel.



Imagem 1.14: Expressivo pormenor de fachada na Rua Direita de Penafiel.
Edifício histórico emblemático.


Outros edifícios com programas de exceção podem estar integrados na
malha urbana e ter um desenvolvimento em profundidade como é o caso
do Museu Municipal de Penafiel.
Em termos de tipologias, processos construtivos e materialidades, os
invariantes expressam-se através de coberturas, materiais da fachada,
tipos de vãos, aberturas para a rua, iluminação, semiologia gráfica /
toldos, balanços, elementos arquitetónicos significantes, elementos
históricos referenciais, sinais particulares, descontinuidades e limites /
permeabilidades.
São elementos que foram sendo acrescentados ao longo dos séculos,
dando características aos edifícios da região com materiais e signos que
representam as épocas de construção.


Legibilidade
A legibilidade é conferida por um conjunto de fatores e elementos
significativos que podemos enunciar e caracterizar: pontuações,
temporalidade, profundidade de campo, sequências / ritmo,
dissonâncias, pontos de referência, limites, convite, aprazibilidade,
mistério e cooperação.

Funcionalidade
A funcionalidade é o fator mutável com o tempo. Tem dependido do
impacto do desenvolvimento urbano ou das crises económicas, das
mudanças de época e de proprietários. Para determinar o processo de
desenvolvimento durante o tempo, é necessário determinar vários
fatores: caracterização do existente, pesquisa histórica / inquéritos, tipo
de exposição / / relação com o público, função por piso / loja duplex,
funcionamento dia / noite e com chuva.

Função
As funções da rua direita possuem duas vertentes: ou têm
características de comércio de bairro, podendo aglutinar funções com
alguma raridade, ou têm excecionalidade, sendo compatíveis com uma
deslocação propositada.
Comércio (áreas de influência / público(s): tradicional, de bairro,
central, de exceção.

Estrutura – identidade funcional
A estrutura da rua Direita assenta dominantemente no percurso
pedonal. Este é o mais compatível com o tipo de comércio. A sua
funcionalidade tem-se mantido basicamente a mesma com variações
que decorrem das dinâmicas da modernidade, mas nem sempre são
feitas da melhor maneira.
Esta estrutura é apoiada por infraestruturas que é necessário garantir:
cargas e descargas, circulação de bombeiros, ambulâncias e recolha de
lixos.
Contudo, as características das ruas comerciais têm um valor
acrescentado de uso e de troca, privilegiam a interação social e o
exercício do civismo.
Complementarmente, existe uma disponibilidade para a realização de
acontecimentos que têm carácter cultural temporário ou decorrem de
iniciativas de dinamizar tematicamente zonas da cidade.


3. INFRAESTRUTURAS
Como condição a integrar nas características das ruas. Como foi
referido, há que ter em especial atenção as drenagens, de modo a que o
escoamento das águas das chuvas se faça duma forma rápida e segura,
evitando situações de turbulência e arrastamento.
Também a iluminação das ruas deve atender à poupança de energia,
compatibilizando a cultura com o design e os índices de iluminação e as
condições da Carta de Taxco.


4. ESTRATÉGIA – Identidade urbana
A Rua Direita não é apenas um somatório de espaços e edifícios, de
pormenores e sequências visuais, de funcionalidades que se
estabeleceram ao longo do tempo.
O sistema de relações que articula estes princípios com a memória
coletiva é que lhe confere identidade, a razão de ser.
O autêntico articula o seu tempo e lugar com a adequabilidade do que
foi acrescentado em diversas épocas. Todas elas contribuíram para que
o espaço da rua seja o que é num processo de fazer e desfazer, mas
sobretudo de saber acrescentar.
As cidades históricas foram sendo feitas ao longo do tempo, têm
cicatrizes das vicissitudes porque passaram. Todas as épocas se
conjugam num palimpsesto que nos conta memórias, trazem ritos que
conferem sentido ao tempo e sacralidade aos lugares.


5. AUTENTICIDADE
A autenticidade a que nos referimos, pode ser caracterizada a partir de
invariantes gestálticos, fenomenológicos e semiológicos que conferem
qualidade e identidade física, ambiental e social à cidade.
Também a noção de tempo permite identificar as diferentes épocas e
tipologias em presença, trazendo o contributo de cada uma para a
estética urbana. Assim, a arquitetura de acompanhamento é depositária
não só de processos construtivos comuns a uma determinada cultura,
mas de uma condição de existência bem articulada com o lugar.
Assim, a Carta de Nara (1994) quanto à autenticidade refere nos seus
pontos 10 e 13:

“10. A autenticidade (...) afirmada na Carta de Veneza, aparece como o
factor essencial de qualificação respeitante aos valores. A
compreensão da autenticidade desempenha um papel essencial em
todos os estudos científicos sobre o património cultural, no
planeamento da conservação e do restauro, bem como no âmbito dos
procedimentos de inscrição usados pela Convenção do Património
Mundial e de outros inventários do património cultural.
13. Dependendo da natureza do património cultural, do seu contexto
cultural, e da sua evolução através do tempo, os julgamentos de
autenticidade podem estar ligados ao valor de uma grande variedade
de fontes de informação. Entre os aspectos destas fontes, podem estar
incluídos a forma e o desenho, os materiais e a substância, o uso e a
função, as tradições e as técnicas, a localização e o enquadramento, o
espírito e o sentimento, bem como outros factores internos e externos.”

Estão de fora as subversões traduzidas por aculturações, fatores kitsch
e acrescentos que adulteram a coerência visual da cidade, bem como a
utilização de fatores quantitativos (índices de construção e de afetação
do solo) que têm adulterado a estrutura imagética da cidade. Numa
época de profundas transformações, é necessário compatibilizar o tempo
e o lugar conjugando diacronicamente as qualidades das intervenções
no domínio do saber-fazer em termos técnicos, ambientais e sociais. É
de realçar que em termos de densificação urbana os resultados que se
obtêm com malhas densas com poucos pisos são idênticas à densidade
que se obtém com edifícios em altura uma vez que são necessárias
zonas livres de permeio.


IDENTIDADE / PLANO DE BOLONHA

A reflexão sobre a cidade histórica teve uma atenção especial desde a
crise energética de 1973, levando a que se acabasse na Europa com as
políticas das cidades novas. Ciente da sua identidade cultural, a Europa
refletiu sobre o património construído tendo sido o Plano de Bolonha o
primeiro exemplo de aplicação destes princípios de identidade.
As intervenções nas cidades históricas feitas a partir do Plano de
Bolonha passaram a ter em consideração a importância da morfologia e
tipologia arquitectónica constituindo um sistema coerente que pode
absorver novos programas. Os edifícios históricos de grande dimensão
serão destinados a programas de índole social. Os espaços públicos
deverão ser reabilitados de modo a catalizar funções tradicionais, novos
usos e acontecimentos.
Contrariamente à ideologia modernista que fazia tábua rasa do
passado, passou-se a considerar os fatores contextuais como decisivos
nas intervenções nas comunidades. Neste domínio há exemplos de
acupunctura urbana com a criação de comércio e similares da indústria
hoteleira que funcionam como polarizadores de vivência coletiva.


DECLARAÇÃO DE QUÉBEC
Sobre a preservação do “Spiritu loci” Assumido em Québec, Canadá,
em 4 de outubro de 2008
(...)

“REPENSANDO O ESPÍRITO DO LUGAR
1. Reconhecendo que o espírito do lugar é composto por elementos
tangíveis (sítios, edifícios, paisagens, rotas, objetos) bem como de
intangíveis (memórias, narrativas, documentos escritos, festivais,
comemorações, rituais, conhecimento tradicional, valores, texturas,
cores, odores, etc.) e que todos dão uma contribuição importante para
formar o lugar e lhe conferir um espírito, declaramos que o patrimônio
cultural intangível confere um significado mais rico e mais completo ao
patrimônio como um todo, e deve ser considerado em toda e qualquer
legislação referente ao patrimônio cultural e em todos os projetos de
conservação e restauro para monumentos sítios, paisagens, rotas e
acervos de objetos.
2. Considerando que o espírito do lugar é complexo e multiforme,
exigimos que os governos e outros interessados convoquem a perícia
de equipes de pesquisa multidisciplinar e especialistas com tradição
para melhor compreender, preservar e transmitir este espírito do lugar.
3.Como o espírito do lugar é um processo em permanente
reconstrução, que corresponde à necessidade por mudança e
continuação das comunidades, nós afirmamos que pode variar ao
longo do tempo e de uma cultura para outra, em conformidade com
suas práticas de memória, e que um lugar pode ter vários espíritos e
pode ser compartilhado por grupos diferentes.” 15 (...)


Referências bibliográficas
BOTTA, Mario – Ética do Construir, Lisboa, Edições 70, Lda., 1998.
Cartas sobre Património: Nara (1994); Cracóvia (2000); Quebec (2008);
La Valeta (2011).
CULLEN, Gordon – Paisagem Urbana, Lisboa, Edições 70, Lda., 1996.
FERREIRA, Nicolau – A quinta Avenida do século XVI ficava em Lisboa, In:
Público 10.12.1015 (acesso em 23.01.2016).
FOUCAULT, Michel – Arqueologia do Saber, Coimbra, Edições Almedina
S.A., 2005.
GSCHWEND, Annemarie Jordan, LOWE, K. J. P. – THE GLOBAL CITY,
On the Streets of Renaissance Lisbon, Paul Holberton Publishing, 2016.
HALL, Peter – Cidades do Amanhã, São Paulo, Editora Perspectiva S.A.,
2002, (1ª edição ampliada – 1ª reimpressão).
LERNER, Jaime – Acupunctura Urbana, Rio de Janeiro, Editora Record,
2003.
OLIVEIRA, Rogério Pinto Dias – Conservação, restauração e intervenção em
arquiteturas patrimoniais. Monografia de conclusão do curso de pós-
graduação em Arquitetura e Património Arquitetônico no Brasil, Porto
Alegre, Pontifícia Universidade Católica RS, 2007.
SOTTO MAIOR, Diogo Pereira -Tratado da Cidade de Portalegre e de suas
antiguidades, e curiosidades, impresso em Elvas nas Officinas de Antonio
Jose Torres de Carvalho, 1919.


1 OLIVEIRA, Rogério Pinto Dias – Conservação, restauração e intervenção em arqui-teturas
patrimoniais. Monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Arquitetura e Património
Arquitetônico no Brasil, Porto Alegre, Pontifícia Uni-versidade Católica RS, 2007, pp. 11-16.
2 Ruskin nas+poca, um acérrimo defensor do “ruinismo”.
3 Ibidem.
4 Um dos seis princípios da beleza de Vitrúvio que são: ordem, disposição, euritmia, simetria
decoro e distribuição.
5 Ibidem.
6 BOTTA, Mario – Ética do Construir, Lisboa, Edições 70, Lda., 1998, p. 138.
7 Extrato da Carta de La Valetta de 2011.
8 CULLEN, Gordon – Paisagem Urbana, Lisboa, EDIÇÕES 70, Lda., 1996, p. 12.
9 HALL, Peter – Cidades do Amanhã, São Paulo, Editora Perspectiva S.A., 2002, (1ª edição
ampliada – 1ª reimpressão), pp. 220- 226.
10 LERNER, Jaime – Acupunctura Urbana, Rio de Janeiro, Editora Record, 2003.
11 Saloio, é uma palavra de origem árabe que significa o que não é da cidade, não tendo
qualquer tipo de sentido pejorativo.
12 Desvairado: todo aquele que agia segundo padrões diferentes dos do observador.
13 FERREIRA, Nicolau – “A quinta Avenida do século XVI ficava em Lisboa”, In: Público 10.12.1015
(acesso em 23.01.2016).
14 É de referir que estava previsto na evolução de Lisboa relocalizar os Ministérios no Centro
Direcional de Benfica com acessibilidade pela 2ª Circular e os bancos na 1ª Circular (eixo
Avenida Gulbenkian / Avenida de Berna) onde se localiza a Caixa Geral de Depósitos, estando
previsto localizar o Banco de Portugal na Praça de Espanha antes da entrada de Portugal para o
Euro.
15
http://www.icomos.org/quebec2008/quebec_declaration/pdf/GA16_Quebec_Declaration_Final_PT.pdf
Capítulo 2

QUALIDADES VISUAIS, AMBIENTAIS E
PATRIMONIAIS

Rui Barreiros Duarte

ESTRUTURA URBANA
Nas estruturas urbanas históricas, pelas relações que estabelecem
com a chegada à cidade e com o centro urbano, as Ruas Direitas
constituem a espinha dorsal duma malha que funciona em rede.
O surgimento natural destes sistemas de interações estabiliza no
tempo a condição urbana e a vitalidade das cidades.
Numa leitura espacial da rua, sistematizou-se a informação de
pesquisa a partir de leituras espaciais, sensíveis e de sinais, tempo e
características, pormenores arquitectónicos e urbanos, funcionalidade e
outras situações existentes como sistemas de apoio complementar como
o design e acontecimentos.
1 – GESTALTISMO: constitui uma visão organizacional dos elementos
entre si que lhe conferem características de posicionamento entre si e
profundidade de campo.
2 – FENOMENOLOGIA: envolve o conjunto de sensações que a rua
proporciona, e que se podem sistematizar em três níveis: ambiente,
espaços e pormenores.
3 – SEMIOLOGIA: refere o conjunto de signos e sinais que a rua
possui, o que permite criar leituras de relações entre situações que estão
ligadas entre si através da rede de leituras que as pessoas fazem.

Imagem 2.1: Mourão: legibilidade do conjunto edificado e espaços públicos; importância das
coberturas como elementos que criam um conjunto equilibrado; articulação acropólica definindo
um lugar.


Imagem 2.2: Vista de aproximação ao Sardoal. Articulação com a topografia
e silhueta dominada pela igreja.



ESTRUTURA VISUAL
A estrutura visual das ruas organiza a memória coletiva, o mapa
mental, os sistemas de relações entre todos os componentes que
definem e pontuam o espaço e lhe dão sentido. Teóricos e analistas
urbanos têm-se debruçado sobre esta matéria, havendo duas
referências diferenciadas – Robert Venturi com o livro Learning from Las
Vegas e Gordon Cullen com o livro Townscape – referenciam
respetivamente a apreensão pelo automobilista e pelo peão das
qualidades visuais das cidades.
Também Kevin Lynch nas suas categorizações expressas na Imagem
da Cidade referencia os percursos, os quarteirões, os nós, os limites e
os pontos de referência como invariantes constitutivos do mapa mental
do cidadão. Rob Krier, no seu livro Morfologia Urbana, sistematiza
através de exercícios didáticos dos seus alunos, relações morfológicas
dos edifícios com as ruas e nas esquinas.
Em Portugal, não existe nenhum estudo que referencie as qualidades
urbanas – gestálticas, fenomenológicas e semiológicas –, a partir do
percurso a pé do transeunte, onde se envolvem qualidades ambientais e
pormenores, a temporalização e ritualizações que dão sentido e
significado à urbe.
O estado da questão refere apenas visões disciplinares sectoriais que
equacionam as barreiras arquitectónicas, a mobilidade, aspetos
patrimoniais de recuperação, pavimentações, sistemas de iluminação
LED e coberturas de ruas em alturas de acontecimentos. As soluções
podem ter um inegável valor sectorial e estratégico, mas não
equacionam uma visão global acerca dos cenários de enquadramento
das questões da arquitetura urbana enunciando princípios que conferem
qualidade, princípios de intervenção dum saber-fazer integrados e
sistemas de monitorização.
Assim, é necessário sistematizar o campo alargado de variáveis de
análise das ruas de modo a se poder apreender mais profundamente as
características do território onde nos movemos. Para isso, podemos
sistematizar as categorizações que se apresentam como visões
complementares do mesmo sistema que revelam qualidades a
apreender e defeitos a corrigir.
Nesta perspetiva, referenciamos os seguintes critérios de análise
referentes ao urbanismo e à arquitetura:

URBANISMO: Legibilidade, Pontuações, Temporalidade, Profundidade
de campo, Sequências / ritmo, Dissonâncias, Pontos de referência,
Limites, Convite, Aprazibilidade, Mistério, Cooperação, Pavimento.

ARQUITETURA: Coberturas, Materiais da Fachada / Cor, Tipo de vãos,
Aberturas / Rua, Iluminação, Semiologia gráfica / Toldos, Balanços,
Elementos arquitectónicos significantes, Elementos históricos
referenciais, Sinais particulares, Descontinuidades, Limites /
Permeabilidade.
RUA DIREITA DE VISEU

Imagem 2.3: Rua Direita, Viseu. Aberturas, transições, sugestões e limites.



RUA DIREITA DE ÓBIDOS

Imagem 2.4: Temporalidade no percurso da rua. Sequências visuais criando identidade na estrutura urbana.

Uma das qualidades das Ruas Direitas é a temporalização dos
percursos. O seu nome significa Rua Direta, a que vai das portas da
cidade ao centro, sendo a rua comercial por excelência. Muitas são as
ruas com estas características, mas há uma identidade em cada uma
delas que as torna únicas.Os ambientes que possuem remetem-nos
para uma intemporalidade sedimentada pela cultura. A escala dada pela
sua largura a altura dos edifícios que lhe definem os limites, é
determinante para dinamizar as relações com o público privilegiando as
duas fachadas da rua. O pavimento define o caráter da rua funcionando
também como elo de união, e possuindo no caso em questão um lajedo
central que permite um pisoteio sem grandes vibrações dadas pelos
paralelos de granito.A vibração da arquitetura de acompanhamento
articula a qualidade e por vezes a excepcionalidade dos edifícios com as
aberturas espaciais que possui. Mas o prazer está no percurso, no que
se vai revelando em termos espaciais, ambientais, culturais e
comerciais. Os acontecimentos que se geram, as pausas que propõe.
Nos silêncios e na vibrações ambientais, nas sombras e na procura do
sol, debaixo das qualidades dos brancos e das plantas com flores, dos
cheiros dos produtos, a experiência fenomenológica é pessoal e
intransmissível.

RUA DIREITA DE CASCAIS

Imagem 2.5: Expressão variável da Rua Direita que se vai descaracterizando, quando sujeita à
pressão urbana.


“Trabalhar o Património (...) trata ainda e cada vez mais de resolver os
momentos de descontinuidade e de desequilíbrio – do já ausente.” 16

RUA DIREITA DE CHAVES

Imagem 2.6: Rua Direita, Chaves: a sinuosidade da rua confere mistério


ao percurso e ao mesmo tempo convida a descobrir o que se passa mais adiante. A volumetria
dos edifícios, as características tipológicas e as materialidades envolventes situam o lugar e
questionam o tempo.


A Carta de Cracóvia (2000) é extensiva aos conjuntos urbanos. Saber
acrescentar é o fator cultural determinante de qualquer ação
arquitectónica e esta é indissociável do lugar/ /contexto onde se
inscreve. Assim, o fator cultural preside a qualquer tipo de intervenções
em zonas históricas não sendo de valorizar o individualismo apesar de,
em situações particulares poder introduzir uma emblemática regradora,
situação que não pode ser vista como regra mas como meditação
pontual em contexto específico.


ELEMENTOS ARQUITETÓNICOS
Referimos os elementos visuais significantes, geradores de sentido e
que conferem caráter aos edifícios. Os elementos estruturantes da forma
ou que lhe inserem sinais e símbolos, objetos, referências e remates,
pontuações que enfatizam transições, explicitam legibilidades e
enunciam um estatuto social e institucional, enunciam critérios de valor.
Esses elementos conferem leituras sígnicas sobre a nobreza do
edificado, do seu tempo e adequabilidade na inserção urbana. Também
fazem a conjugação das três artes e são marcos genuínos de épocas.
Referenciam autenticidade e memórias, constroem lugares e são marcos
do tempo, de épocas.

Gárgulas: São elementos arquitectónicos de grande relevância e
expressão arquitectónica, tinham a função de lançarem a água para fora
dos edifícios aos quais também se associavam fatores simbólicos
especialmente no gótico. São característicos da arquitetura de algumas
regiões como Viana do Castelo onde as gárgulas marcam expressivos
ritmos fálicos nas cimalhas dos edifícios.
Imagem 2.7:Penafiel: Expressão das gárgulas na arquitetura.
Inserção no pormenor dos edifícios


Cunhais: São elementos arquitectónicos salientes que rematam
lateralmente as fachadas e definem verticalmente transições entre
planos. Geralmente executados em pedra ou reboco, possuem
expressões diferenciadas consoante os estilos, a arquitetura popular, e
são apropriados pela linguagem tectónica de arquitetos
contemporâneos.

Imagem 2.8: Cunhais de edifícios com expressões decorativas variáveis


e a ênfase tectónica do granito (Curitiba, Ericeira, Vizela)


Beirados: Conferem remate às fachadas e expressão ao balanço da
cobertura. A sua expressão variável conforme as zonas do país, decorre
do tipo de telhas utilizadas, do balanço e conjuga-se com a moldura
donde emergem. Nas transições de fachadas utilizam-se geralmente
telhas de voltejo.
Imagem 2.9: Vizela: Vibração da luz e sombra no beirado do edifício.

Varandas: Sendo balanços da fachada, permitem o acesso ao exterior e
dão uma expressão ao conjunto realçada pela sombras na fachada ou
pela sombras projetadas das guardas.

Imagem 2.10: Vizela: expressão das varandas na fachada, sombras da guarda e pavimento exterior.


Vãos: São as aberturas do espaço arquitectónicos para que haja
entrada de luz. Cumprem também uma função de transição (portas e
janelas) com as variáveis que lhe estão associadas. Muitas das fachadas
dos edifícios são ocupadas com vãos e as suas molduras e sacadas.

Sacada: abertura do espaço interno para o exterior através duma porta.
O pequeno balanço sobre a fachada permite uma zona de relação física
com o exterior.

Guardas: As proteções das sacadas e varandas são muitas das vezes
constituídas por elementos metálicos com desenhos de vários tipos que
lhe conferem grande plasticidade.
Imagem 2.11: Penafiel: Pormenores de trabalho em ferro de duas sacadas

Os vãos de sacada constituem uma relação ambiental com a rua ou o
espaço urbano permitindo que os habitantes saiam para o exterior do
edifício num pequeno espaço confinado permitindo estabelecer contacto
com os vizinhos ou com acontecimentos.
É uma maneira subtil de trazer mais luz às habitações e ao mesmo
tempo conferir identidade e caráter aos edifícios.Os padrões dos
desenhos das serralharias – que muitas vezes se repetem –, articulam-
se com outros diferentes na mesma rua exprimindo a arte do ferro com
desenhos de época.
A expressão das sombras nas portadas de madeira e nos vidros
desdobram as texturas, às quais se adiciona a projeção nas cortinas. As
sombras ondulam na sua projeção nos tecidos e nas madeiras
sobrepondo-se um conjunto de layers que desmultiplicam os padrões em
variações que são sempre aleatórias, mas de acordo com um referente.
As sombras dos elementos em madeira constituem um desenho que
agarra a luz e confere construtividade e escala aos pormenores.
As diferentes incidências ao longo do dia e as aberturas ou fechos das
portadas e vãos, introduzem outro tipo de variáveis a um elemento único.

Janelas: sendo elementos determinantes da expressão das fachadas, as
suas dimensões, materialidade, desenho, configuração, obscurecimento
e ritmo determinam as relações de luz--sombra e a exprimem a
linguagem da arquitetura.

Portas: idêntico valor se atribui às portas que com as janelas constituem
o que designa como vãos. As questões dos tapamentos e relações com
as sacadas e varandas é um fator determinante do desenho e do
carácter dos edifícios.

Imagem 2.12: Vizela: Vibração do desenho rendilhado da guarda da varanda.


Imagem 2.13: Vizela: sequência e articulação visual de guardas de ferro.


Tapamentos (interiores / exteriores):

Portadas: correspondem a uma utilização tradicional no obscurecimento
e proteção das habitações. Utilizadas no interior ou no exterior dos vão
dos edifícios consoante o carácter e desenho do edificado.

Persianas: não sendo um sistema genuíno de aplicação nos edifícios, a
sua utilização corresponde a uma maior facilidade de ventilação e de
obscurecimento. Contudo, distorcem a expressão das fachadas entrando
em conflito com as relações luz-sombra e introduzindo caixas de
enrolamento salientes nas fachadas.

Pedras trabalhadas e arte do ferro


Imagem 2.14: Pormenor de pedra trabalhada na Rua Direita de Penafiel.
Remate de um portão em Vizela.


Os pormenores adquirem maior legibilidade quando são vistos pelo
transeunte a pé, debaixo do sol, a uma distância conveniente, com boa
exposição e enquadramento e conveniente dimensão.
Em geral decorrem da pormenorização arquitectónica, acentuam
transições, são sistemas de representação. Todos eles contêm princípios
passíveis de constituírem analogias, um pensamento por imagens que
se desenvolveu com maior incidência a partir do século XX, pois até aí
privilegiava-se o mimetismo, e a transposição de elementos conjugados
livremente geraram os ecletismos.

Brasões / emblemática

Imagem 2.15: Referências emblemáticas nas fachadas da arquitetura


(Rua Direita de Penafiel e Vizela).


Metais: Definem elementos arquitectónicos na arquitetura
especialmente nas guardas das varandas, gradeamentos e portões, nos
remates das coberturas da arquitetura e nos lanternins que conferem
expressão significativa aos telhados de cidades como o Porto.

Imagem 2.16: Vizela: pormenor do desenho do portão de ferro do século XIX


na Rua Dr. Abílio Torres.


MATERIAIS
Os materiais definem as qualidades da visão dos edifícios ou do
contexto, mas mais importante são as relações que eles estabelecem
entre si; importantes são também as relações que estabelecem com a
luz e a sombra o que lhes dá expressão; ou com a chuva que lhes
confere outras tonalidades, revela pormenores; e também a cor e a
qualidade das superfícies, a textura; estas, podem estar de acordo com
as características culturais da materialidade ou serem estranhas.



Imagem 2.17: Vizela, Revestimento degradado duma fachada em telha.


Outra coisa é o comportamento dos materiais ao longo do tempo:
sujidade e degradação, as marcas de envelhecimento e o tipo de
envelhecimento. Nunca deve ser precoce, não deve resultar de má
aplicabilidade, de mau comportamento aos agentes atmosféricos e
poluentes e entre si. Há que saber quem faz a monitorização.

5.1 – Argamassas: revestindo a maioria dos edifícios antigos de
Portugal, ainda hoje corresponde a cerca de 52% dos revestimentos dos
edifícios antigos apresentando uma boa performance. O uso de cal
aérea e dolomítica com traços apropriados, tipos de areias adequados e
boa aplicação, são o material que melhor resiste à ação do tempo.

5.2 – Azulejos: este material quando usado da forma tradicional com
uma boa chacota, tem um efeito protetor durável. A sua produção
industrial, altera as suas propriedades diminuindo a capacidade de
fixação e pelo uso de ligantes à base de cimento.
O revestimento total ou parcial da fachada pode assumir diversos tipos
de manifestações: plano, em volume, com padrão, cor, motivo. Há
também que avaliar a situação existente quanto à fixação e estado de
conservação, partidos.


Imagem 2.18. Rua Direita, Penafiel.
Revestimento da fachada a azulejo e toponímia.


Pedra: A pedra caracteriza a arquitetura popular do norte e centro do
país. Dominantemente de granito ou na região do xisto, a pedra dá
expressão construtiva à arquitetura popular e erudita. Mesmo quando
rebocados ou revestidos a azulejos, os edifícios apresentam a pedra
acentuando os cunhais e os elementos arquitectónicos significantes.

Imagem 2.19: Edifícios com pedra e em pedra na rua Direita de Penafiel




Estereotomia: de expressão variável, as pedras, e a expressão das
juntas constituem elementos tectónicos que caracterizam etapas da
construção e modos de construir.

5.4 – Outros: Elementos cerâmicos e azulejares, em ferro ou em
madeira, definem as variáveis dominantes dos materiais da arquitetura
para além dos acabamentos em argamassas e elementos em cimento.
É também necessário ter em consideração os sinais e a informação
gráfica e fixação de iluminação na sua relação com a arquitetura.


COBERTURAS
As coberturas constituem um sistema homogéneo que em Portugal é
muito visível nas cidades com a sua cinestesia constituindo a 5ª fachada
dos edifícios. São parte integrante da sua imagem e dão expressão à
fachada pelas transições que fazem através dos beirados e remates,
através da expressão das sombras que projetam, das transições que se
podem explorar com as coberturas.
Há também uma estética dos beirados, dos tipos de telha, da
expressão que estes projetam sobre as ruas rematando os edifícios, do
modo como se resolve a saída das águas da chuva evitando que escorra
pelas paredes criando uma degradação precoce. Este tipo de soluções
que envolvem os remates da arquitetura, conjugam cimalhas de pedra
ou rebocos de expressão variável ajudando a definir o caráter dos
edifícios.


Imagem 2.20: Vizela, telhas cerâmicas com vidrado no antigo Hotel Cruzeiro do Sul. Expressão
do balanço sobre a fachada, e na esquina com telhas de voltejo.


Beirados, muretes, cimalhas, marcam limites ou deixam fluir o infinito.
Há sempre transições e as suas qualidades são essenciais para se
colocar em questão o problema das transições e da expressão
arquitectónica, da luz e das sombras, a funcionalidade de retirar a água
da fachada dos edifícios.
Tipo de cobertura – As coberturas em telha apresentam vários tipos de
soluções, revestindo mesmo as paredes laterais das trapeiras. É de
acentuar a importância das cores, e das matizes que apresentam. Por
vezes introduzem situações desajustadas quando são pretas e
confrontadas com as coberturas dum contexto urbano tradicional. A
adequabilidade das soluções deve também incorporar soluções
inovadoras como é o caso do zinco ou outras soluções adequadas.

Guardas de proteção nos telhados – Hoje, a legislação para segurança
dos bombeiros, exige que se introduzam nos telhados guardas de
proteção para que não haja quedas. É uma resolução que altera o
caráter dos telhados antigos interferindo com a autenticidade dos
edifícios.


Referências bibliográficas
AAVV – A Intervenção no Património Práticas de Conservação e de
Reabilitação, Porto, Faculdade de Engenharia do Porto / DGEMN, 2003.
Cartas sobre Património: Nara (1994); Cracóvia (2000); Quebec (2008);
La Valeta (2011).
CULLEN, Gordon – Paisagem Urbana, EDIÇÕES 70, Lda., Lisboa, 1996.
GEHL, Jan – La humanización del ESPACIO URBANO, Editorial Reverté. S.
A., Barcelona, 2006



16 AAVV, A Intervenção no Património Práticas de Conservação e de Reabilitação, Porto, Faculdade de
Engenharia do Porto / DGEMN, 2003, p. 114.
Capítulo 3

FUNCIONALIDADE, DIMENSIONAMENTO
E EXPRESSÃO

Margarida Louro


1. A acessibilidade, ponto de encontro e troca
A questão que se pretende analisar com o tema funcionalidade,
dimensionamento e expressão com incidência nas ruas estruturantes
(muitas vezes ditas ruas direitas), é a vivência dos espaços urbanos
contemporâneos e o modo como estas ruas assumem o estatuto
privilegiado de troca e de comércio dentro dos tecidos urbanos.
Entendendo a forma como a sua evolução se tem manifestado ao longo
dos tempos.
Assim, o objetivo será a partir dessa predisposição natural de lugar
acessível, central, salubre, vivenciado, estabelecer termos de revisão,
face aos paradigmas atuais que reinventam os conceitos de troca,
comércio, consumo, vivência, habitabilidade e sociabilidade dos
lugares... O foco será enquadrar esses novos registos como forma de
encontrar respostas e soluções de pertinente aplicabilidade atual, em
termos de dimensionamento e expressão urbana. Construir diretrizes
para soluções que reenquadrem esses lugares a partir da condição
morfológica das ruas estruturantes como forma de sustentar a
autenticidade desses espaços em termos de regeneração e requalificação
urbana, são os contributos essenciais da abordagem e em síntese de
todo o sentido desta reflexão.
Nesta lógica, uma das primeiras questões que se coloca será
reenquadrar este estatuto vocacional para a centralidade social da troca,
do comércio, a partir da questão da centralidade e da acessibilidade,
retomando a rua direita como estrutura do acesso privilegiado entre
lugares. A rua direita como condição de ligação entre polos, inicialmente
associada às portas da cidade, evidencia a predisposição para o
fenómeno comercial como trajeto de ligação do centro aos arrabaldes.
Hoje essa situação ainda se revê em alguns contextos subdesenvolvidos
onde as grandes vias de ligação aos centros urbanos são os locais
privilegiados para a troca comercial.17 Assim como se projeta sobre a
inerente condição de cruzamento, praça, ponto de convergência e
encontro de grandes afluências urbanas, como acontece por contraste
nas grandes urbes.18
Outro aspeto diretamente ligado a esta vocação é o facto da rua direita
constituir um polo de atratividade comercial quer de estruturas efémeras
como feiras, mercados, quer como foi assumindo nos traçados mais
sedimentados, no espaço para a localização dos mercados
abastecedores locais, das maiores e principais lojas, do comércio mais
especializado ao qual corresponderam os edifícios mais prestigiados,
com as rendas mais altas, etc...


Imagem 3.1: Estrada de Viana, Luanda, 2008

Imagem 3.2: Shibuya Crossing, Tóquio, 2015

Este estatuto de centro comercial e de serviços acabou ao longo dos
tempos por promover um significativo esvaziamento da condição
habitacional promovendo a pendularidade de usos e vivências.
A ocupação por grandes estruturas comerciais e empresariais (bancos,
serviços, empresas), despromoveu a rua direita como lugar pleno de vida
e vivência.
Atualmente a falência comercial local levou para estas ruas uma
ocupação por comércio decadente e obsoleto com usos de oportunidade
(lojas chinesas, venda e compra de ouro, lojas de transação de divisas,
etc...).
Os esforços atuais focam-se em resgatar usos ocupacionais mais
abrangentes e sustentáveis que reintroduzam a habitação como uso
permanente de forma a sustentar novas formas de comércio e ocupação
urbana. As revisões às políticas de arrendamento para fins
habitacionais,19 as políticas e ações de modernização do comércio local
e tradicional começam a ser indicadores embora ténues nesse sentido
de atualização destas tipologias urbanas no contexto urbano atual, numa
tentativa de reenquadrar esta vocação principal e aglutinadora de novos
sentidos e vivências.


2. A vocação comercial do mercado à loja on-line
O comércio ou a estratégia comercial assume-se assim como
fundamento urbano da cidade. Desde as origens, o sentido da cidade
surge associado à função útil do comércio subjacente ao cruzamento de
rotas, de caminhos que surgiram como geradores de aglomerados e
deram mais tarde lugar às cidades.O comércio é assim causa e efeito do
encontro, da acessibilidade dos lugares. Nesse sentido, o retorno à
escala urbana e a valorização do plano de rua tradicional assumem-se
como pontos de vista primordiais, no sentido de reinventar novas
políticas urbanas.
A par com esta intenção de reabilitação da rua suportada na sua
predefinida e forte vocação comercial, emerge um aspeto primordial que
é efetivamente a redefinição da condição de consumo e, de certo modo,
do seu balizamento conceptual.
Se na génese da palavra consumo subjaz o gasto da necessidade de
sobrevivência associada aos bens de consumo primordiais e básicos,
hoje a palavra é mais conotada com supérfluos, excessos e
“congestões”, como definia Jean Baudrillard nas suas pertinentes
abordagens sobre a condição do consumo atual. Neste sentido
promovem-se várias ações de protesto e sensibilização, nas quais se
destaca o DMsC (Dia Mundial sem Compras) criado pelo artista Ted
Dave e organizado pela primeira vez em 1992, no Canadá.
Posteriormente tomou a dimensão de evento que ocorre em vários
países no último sábado de novembro onde os participantes se
comprometem em não comprar nada durante 24 horas como um ato de
demonstração do poder das pessoas ante sua condição de
consumidores.
E é efetivamente neste panorama de extremos que o consumo se
elege como conceito reinventado como exploração da centralidade das
ruas estruturantes e da evolução das suas vivências ocupacionais: do
mercado à loja on-line, assume-se hoje como o grande paradigma atual.
Se outrora a relação comercial da rua com os utentes se assumia pela
proximidade, pela relação pessoal entre comerciante e consumidor, hoje
essa relação dissipou-se. Passamos progressivamente de uma estrutura
de proximidades associada ao comércio de rua, para uma estrutura
massificada do centro comercial, das grandes superfícies, para uma
estratégia anónima de compra e venda on-line, sem intervenientes:
agora o comprador é anónimo, o vendedor é anónimo, sem espaço (loja)
e sem contexto (rua/cidade). No fundo a disseminação do consumo
assume-se na atual condição pelos extremos: o global versus o regional
e público versus o privado. O comércio e o consumo a ele associado
perderam paradigmas de fixação. Compramos em todo lado, com o
acesso ao nosso computador, e nos sítios mais imprevistos, espaços
que contrariamente à sua funcional vocação se convertem em espaços
comerciais: as bombas de gasolina, os healths clubs, as estações de
correios, os hospitais, etc...

Imagem 3.3: NO SHOP – instalação provisória para comemoração do dia internacional sem compras
(Studio Mattheus, fotografia de David Spero), Londres, 1997


E estas revisões conceptuais associadas ao consumo e à forma de
consumir, trazem consigo inerentes revisões espaciais. A noção de
“espaço público” é efetivamente revista face a estes novos paradigmas
de apropriação. Referindo Habermas, o espaço público atual foi
substituído pelos jornais e pela televisão. Se outrora o espaço público se
assumia como o espaço da vivência urbana, como espaço social que
complementava a rua ou o edifício comercial, passou com as novas
tipologias comerciais a ser um espaço anónimo de passagem que hoje
se confronta em algumas situações com tentativas de qualificação e
personalização.
São exemplos da primeira condição o Passeio Público no início da
Avenida da Liberdade ou os Armazéns Grandella, com as suas futuristas
escadas rolantes que na altura ligavam a Rua do Carmo à Rua do Ouro.
Além da passagem funcional, eram espaços vivenciais de convívio e de
passeio. Hoje esses espaços físicos balizam-se entre espaços funcionais
de passagem/acesso com algumas tentativas de domestização como
acontece em alguns centros comerciais onde zonas com mesas, sofás,
candeeiros, revistas, recriam ambientes familiares e acolhedores
promovendo espaços personalizados de maior permanência.
Estes contextos críticos de enquadramento da condição da rua como
paradigma comercial, têm de ser vistos com o surgimento de novas
tipologias comerciais que influenciaram e negligenciaram em muitos
aspetos essa vocação. Falamos obviamente dos centros comerciais,
tipologia que surge no início dos anos 70 em Lisboa e que
definitivamente marcou a tendência evolutiva e o estatuto das ruas
comerciais na configuração e qualificação urbana posterior. Se numa
primeira fase o centro comercial convive e tira partido da própria
condição da rua, localizando-se em artérias estratégias e configurando--
se dentro da cidade, rapidamente ganha o estatuto de centro comercial
na periferia sendo posteriormente inserido noutros contextos de atração
como por exemplo em zonas naturais, como são exemplo o Freeport de
Alcochete ou até mesmo em parques de atração como acontece com a
gigante estrutura comercial Val d’Europe nos arredores da Disneyland de
Paris.
O conceito de centro foi substituído pelo conceito de centralidade, o
que significa que já não se viaja no espaço, mas sim no tempo. O que
interessa não é a distância, entre ponto de partida e de chegada, mas o
tempo que se demora a chegar ao destino.
O contexto debate-se com uma multiplicidade de abordagens,
assistindo-se a uma massificação global assinalada pela proliferação
alargada de lojas, marcas, franchisings, e também ao resgate do
particular, do genuíno, do único, do regional como estratégia de atração
e qualificação dos lugares. A par desta dicotomia, emerge a condição
omnipresente da net, dos sites virtuais, onde comércio e consumo
sobressaem em novos paradigmas de apropriação.
Nesta revisão a relação comércio/cidade estabelece-se como a
condição omnipresente, onde o comércio se assume como uma
extensão pública da cidade. Vejamos de forma breve a condição de
Lisboa e a sua evolução desde a abertura do primeiro centro comercial
nas avenidas novas, o Apollo 70, até às inúmeras incursões que
marcaram o fim do século XX e início do século XXI, com a abertura de
inúmeras tipologias como o Centro Comercial do Chiado, o Vasco da
Gama, o Alvaláxia XXI, etc... São aspetos que para além da revisão de
centralidades, vivências e apropriações, expuserem a redefinição da
imagem das ruas da cidade, promovendo o abandono e posteriores
apropriações por comércios de oportunidade, as lojas chinesas que no
início da década de 2000 marcaram a imagem de todo o território urbano
nacional, hoje resgatadas na tendência de restabelecer o original, o
autêntico e o bairrista.
A evolução urbana comercial de Lisboa entre 1970 e os nossos dias,
trazem mais de 40 anos de evolução e transformação. Caracterizaram-
se numa primeira fase pelo aparecimento da galeria comercial associada
à rua, ao plano urbano (anos 70/80). Seguidamente há o aparecimento
de tipologias comerciais mais autónomas, onde o icónico centro
comercial das Amoreiras em meados dos anos 80 é o paradigma dessa
condição. Sobressaía na altura o contraste com a Baixa (então principal
centro atrativo e comercial de Lisboa) a par com esta nova estrutura,
desviante e descentralizada que de certo modo destronou a decadente
Baixa. Os anos 90, trazem uma nova tipologia, mais periférica e ainda
mais descontextualizada: o hipermercado que surge associado a grande
centros habitacionais (exemplo: Telheiras) ou associado a grandes vias
de comunicação com fortes acessibilidade viárias (Amadora, IC19,
etc...). Associado a esta evolução das tipologias comerciais dese-nhou-
se a evolução do próprio espaço público. Se na galeria comercial, o
acesso era direcionado ao espaço rua geralmente com uma entrada ou
um ou mais atravessamentos direcionados, no centro comercial a
entrada é feita por uma ou mais portas com estatutos geralmente
hierarquizados (porta principal, praça, etc...); no hipermercado ou mega
centro comercial a entrada/acesso está geralmente associada a uma
estação de metro/comboio que geralmente tem saída/chegada dentro do
próprio espaço. É neste panorama que surge finalmente o paradigma do
comércio on line – the big box, onde se anula o acesso, a entrada, a porta,
e se acede por uma omnipresença virtual. No fundo, desde o mercado à
loja on line a condição do consumo e das estratégias comerciais a ele
associadas emergiram sempre como elementos estruturantes do
espaço. Sendo efetivamente pelo resgate dessas diferenças e oposições
que se refaz hoje a condição da cidade e se promove no fundo o
estatuto das ruas como elementos estruturantes do espaço das cidades.


3. Resgates de autentiCidade: novas funcionalidades,
dimensionamento e expressão
E é neste contexto de caracterização, onde o grande impacto decorre
das redefinições, da paridade de diferenças, de contrastes, que a
condição omnipresente da cidade espetáculo, se exprime mais
profundamente. Como definia a historiadora urbana Christine Boyer, é
uma cidade onde não existem pontos fixos de referência, mas sim
partes, bits, fragmentos que são chamados a intervir no todo. E é assim
que se propõe uma abordagem de propostas de resgates de
autentiCidade, assentes nas novas funcionalidades, dimensionamento e
expressão das ruas e dos centros urbanos em que estas se inserem.
Assim podemos considerar como ações positivas:

Imagem 3.4: Mercado de Algés, Oeiras, 2015



Imagem 3.5: Rua Cândido dos Reis (antiga rua direita), Almada, 2015


Imagem 3.6: Ourivesaria TOUS no Chiado, Lisboa, 2015


Imagem 3.7: Livraria do Mercado Biológico, Óbidos, 2015


A estratégia de recuperação dos mercados tradicionais, outrora centros
nevrálgicos da morfologia urbana que se assumem hoje como
tendências contemporâneas que proliferam de norte a sul do país, pois
imprimem novas lógicas funcionais, maioritariamente associadas à
restauração. A par com os usos originais de mercado aumentam em
muito a afluência de populações e imprimem dinâmicas de reabilitação
envolvente.20
Esta tendência inaugurou-se com a reabilitação do mercado de Campo
de Ourique em 2013, mas outros lhe seguiram como o mercado da
Ribeira em Lisboa, em Cascais, no Porto (atual mercado do Bom
Sucesso e Ferreira Borges) e mais recentemente em Oeiras, com o
mercado de Algés (inaugurado em julho de 2015). Neste último a
intervenção teve como base a reabilitação da tipologia de mercado
(seguindo a estratégia original), mantendo usos de bancas de vendas de
produtos que muitas vezes são usados como ingredientes nos novos
pontos de restauração, geralmente sofisticados, de cozinha gourmet ou
contemporânea. Associado a esta reabilitação funcional, em muito se
promoveu o equipamento, reabilitando os usos existentes, mas
sobretudo imprimindo nova atratividade ao centro de Algés, pela
reabilitação do espaço urbano. Há a pedonalização de parte da via,
criação de esplanadas, mas sobretudo a dinamização do novo espaço
edificado através de associação de outros usos, como promoção de
espetáculos, concertos, etc... A estratégia recolocou o lugar num
patamar atrativo tanto em termos de população da zona, como exterior.
E embora Algés não tenha a atração turística de outros mercados, como
Ribeira, Cascais ou Porto, polarizou novas vivências e lógicas de
centralidade. Pouco a pouco o tecido envolvente regenerou-se, surgem
novos comércios, mais qualificados, atrativos e sofisticados. O resgate
da autentiCidade insurge-se assim pela refuncionalização (introduzindo
novos usos: restauração, novas estratégias: espetáculos, divulgações
nos media), pelo redimensionamento das vias pedonais envolventes e
finalmente pela expressão contemporânea, que efetivamente sem perder
a alma e carisma existente promove estratégias de requalificação
significativas
Seguindo a mesma linha de intervenção urbana que pautou a
envolvente do mercado de Algés através das ações de pedonalização
das vias destaca-se outro exemplo significativo de resgate de
autentiCidade, a reabilitação da rua Cândido dos Reis (antiga rua direita)
em Cacilhas, Almada.
A rua Cândido dos Reis, começa no largo de Cacilhas, onde chegam
os barcos cacilheiros que ligam Lisboa a Almada, preconizando desde
tempos a porta de entrada na cidade. Este estatuto conferiu-lhe no início
do século XX o caráter de rua movimentada de comércio, tascas e
tabernas. No entanto, com os tempos, foi perdendo a vivacidade e nos
últimos anos a antiga rua direita, ostentava desânimo, comércio obsoleto
e degradado. A estratégia de revitalização, iniciou-se há alguns anos,
quando a Câmara Municipal de Almada tomou a polémica decisão de a
pedonalizar. Pouco a pouco, vencendo os ceticismos de alguns e
encorajada pela vontade de mudança de outros, as funções comerciais
existentes começaram a adaptar--se à mudança, modernizando-se
adaptando-se a novos usos. Antigas leitarias que dão lugar a
hambuguerias gourmets, novas geladarias artesanais, lojas de antigas
conservas recuperadas, bares, casas de chá, etc... Tudo converge numa
estratégia de requalificação que pauta um novo lugar atrativo tanto a
nível interno (para a população local), como externo. A Rua Cândido dos
Reis, é efetivamente hoje uma referência na margem sul do Tejo,
considerada talvez a rua mais cool de Almada e arredores.

Outro aspeto que matiza a condição contemporânea dos paradoxos,
dos opostos é a relação regional/global. Neste sentido sobressai a
internacional tendência das lojas franchising globais que caracterizam
diversos ambientes urbanos, que proliferam pelos espaços urbanos das
cidades e das ruas, com a mesma imagem, os mesmos produtos e os
mesmos ambientes (por vezes olfativos até). É neste contexto de
padronização que sobressai um exemplo de exceção: a lindíssima loja
da cadeia de ourivesaria catalã TOUS, implementada na antiga loja da
Ourivesaria Aliança rua do Carmo no Chiado. Considerada uma das
mais bonitas lojas da cadeia a estratégia teve como principal premissa
recuperar o icónico espaço. Neste sentido, recuperam-se as molduras de
gesso do interior, os frescos do pintor Artur Alves Cardoso, mas
sobretudo a fachada.
Datada de 1914, ostenta ainda hoje o lettering da antiga ourivesaria.
Uma estratégia peculiar de rasgos de autenCidade que sobressai
sobretudo pelo enquadramento urbano envolvente.
O Chiado, e também mais recentemente a Baixa, em especial a Praça
do Comércio, reanimaram após anos de estagnação e abandono. Aos
poucos a cidade histórica emergiu da apatia e insurge-se hoje com
movimentada afluência, exagerada até para alguns, com excesso de
turistas, mas fruto de novas tendências que procuram a atratividade dos
lugares como estratégias de sustentabilidade urbana. O Chiado assumiu
um ponto primordial nessa estratégia, e se sem dúvida a presença do
centro comercial é ponto seguro nesta atratividade, foram as
reabilitações envolventes de usos, eventos, espaços públicos
(esplanadas) que resgataram progressivamente a zona e a colocam num
dos pontos mais atrativos em termos turísticos de Portugal.

Finalmente um exemplo de confronto de usos: a Livraria do Mercado
Biológico de Óbidos. Este espaço comercial, situado na Rua Direita em
Óbidos, ocupa o antigo Refeitório da Câmara, que também foi quartel
dos Bombeiros. Aberto já alguns anos, este espaço convergiu numa
estratégia de requalificação deste centro urbano, tornando-o um lugar
atrativo em termos locais e externos.
Efetivamente Óbidos através de diversas atividades lúdicas e
performativas (Festival do Chocolate, Vila Natal, Vila Literária),21
assumiu no contexto nacional um destaque ímpar em termos turísticos. A
proximidade a Lisboa, facilitou esse protagonismo e se muitos discutem
o genuíno e a eventual autenticidade desses pressupostos, é certo que a
vila se destaca cada vez mais pela criatividade urbana e funcional. Este
espaço comercial para além de recuperar um antigo edifício dinamiza a
vivência da rua, através de uma estratégia comercial que conjuga usos
díspares: as frutas e hortícolas convivem com os livros de forma peculiar
ao qual se associa ainda um pequeno espaço de degustação biológica.
Estas lógicas de redefinição funcional estiverem inclusive na base do
projeto Vila Literária que promoveu a abertura de onze livrarias em sítios
improváveis, como entre os quais uma antiga igreja, uma antiga adega,
uma escola desativada e inclusive um mercado biológico... Esta ações
deram a Óbidos o estatuto de “cidade criativa da literatura” pela Unesco
em dezembro de 2015. A distinção vem obviamente atrair gente, mais
turismo, situação que é vista com bons olhos pela autarquia que cria
disponibilidade para novos investidores. Este exemplo preconiza no
fundo a condição contemporânea da cidade marca como estabelecia
Marcelo Dachevsky. A marca urbana surge hoje como uma estratégia
fundamental no estatuto das cidades, aumentando a competitividade em
termos globais, onde ações de várias ordens, de grandeza e diversidade
convergem no sentido de pôr novos “lugares no mapa”, o que promove
uma certa festivalização das políticas urbanas. A cidade emerge como
um produto, uma intenção concreta de satisfazer determinado desejo. E
nesta lógica, o pressuposto basilar aristotélico: O fim útil da cidade é
proporcionar felicidade, insurge-se como condição omnipresente,
reiterando o consumo como estratégia fundamental de requalificação
urbana, dando resposta às necessidades básicas, justificando usos
supérfluos e resgatando autenCidades.
É efetivamente sobre esta lógica que se enumeram os casos
enunciados pelas ações determinadas, resultados atingidos e projeções
planeadas... Funcionalidade, dimensão e expressão, assumem-se assim
nesta redefinição do espaço urbano das suas ruas estruturantes, das
antigas ruas direitas, como pressupostos de intervenção refletindo
lógicas de boas práticas que podem serem ampliadas, projetadas e
aplicadas a outros contextos...

Referências bibliográficas
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La Città Postmoderna. Magia e Paure della Metropoli Contemporanea, Roma,
Bari, Gius. Laterza & Figli Spa, 1997).
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Alianza Editorial, 2004 (trad. de Les Noveuaux Principes de l ́Urbanisme –
La fin des villes n ́est pas à l ́ordre du jour, Paris, Éditions de l ́Aube,
2001).
BAUDRILLARD, Jean – A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70,
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BOYER, M. Christine – The City of Collective Memory – Its Historical
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MIT Press, 1994.
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LOURO, Margarida – WWW.CIUDAD.CONSUMO; El impacto de las redes
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689-2538-1; DL: B-34311--2005).
MUNTAÑOLA THORNBERG, Josep – La Arquitectura como Lugar,
Quaderns d’Arquitectura, Barcelona, Edicions UPC, 1996.



17 O exemplo da estrada de Viana em Luanda/Angola.
18 Referência ao cruzamento mais movimentado do mundo: o Shibuya Crossing em Tóquio no
Japão, onde passam diariamente cerca de 3 milhões de pessoas.
19 Referencia à Lei nº 31/2012, que procede à revisão do regime jurídico do arrendamento
urbano, introduzindo várias medidas destinadas a dinamizar o mercado do arrendamento.
20 Estimam-se que existem em Portugal cerca de 510 mercados municipais, muito deles
classificados como património nacional ou municipal.
21 Referência à primeira edição do Festival Internacional de Literatura – Fólio, que se realizou
em Óbidos em outubro de 2015.
Capítulo 4

TEXTURAS, PAVIMENTOS E CHÃO

Francisco Oliveira

Um Chão de (autenti)Cidade, pavimentos
e outros complementos...

No contexto de uma reflexão sobre a temática das cidades, o plano
horizontal pode aferir novas formas de ver e ler os elementos identitários
que articulam a materialidade dos cheios com os vazios.
Pensar a arquitetura do espaço público urbano será refletir sobre o
Chão da cidade, entendendo o papel deste na formação do que
poderemos chamar uma impressão digital urbana.22 Uma marca da sua
identidade e da sua Autenticidade.
Este contributo, enquadrado pela temática do espaço público urbano é
balizado pelo entendimento da realidade urbana construída, como
suporte à formação de novas formas de apreensão e de crítica, onde, os
pavimentos, se podem afirmar como síntese constitutiva de
caracterização e de Autenticidade nas cidades.
A Autenticidade, é o valor de algo que nos dá garantia de ser o que
parece, ou se diz que é. Assim, este valor também se expressa pela
valoração do plano horizontal da cidade, o seu desenho, a sua
materialidade, no modo como se estabelecem correlações entre os
diversos elementos que o constituem e as múltiplas funções que se lhe
associam, enquanto fatores determinantes da construção e
caracterização das nossas cidades. Em concreto, as nossas ruas
“diretas” ou direitas, por muito tortas que sejam, carregam a expressão
deste valor primordial de caracterização dos lugares.
Como pressuposto de partida, estabelece-se a ideia de que o Chão da
autenticidade se pode afirmar como o ponto de amarração para uma
metáfora de reposicionamento conceptual que atua como princípio
estruturador da urbanidade, das eficácias estética e ética dos lugares
urbanos. No fundo, enquanto matriz material, fundada sobre uma rede
de coesão cívica e identitária.
Fixa-se aqui a ideia de que o Chão das nossas cidades emerge de
processos marcados por uma dualidade gerada entre sistemas formais e
informais de crescimento urbano. As estruturas lineares de espaço
público assumem-se como preponderantes na construção do sistema
espacial das cidades onde as ruas direitas desde sempre se afirmaram
como espinha dorsal de muitos dos nossos sistemas urbanos.
Aprender a ver, ler e interpretar o Chão das cidades enquanto projeto
de autenticidade, enquanto ato de arquitetura, marca de forma
consciente a identidade dos lugares e das cidades através da subtileza
dos seus detalhes e por via das suas singularidades.
As cidades resultam da ação do homem que cria, ao longo dos tempos,
uma relação com os lugares e uma permanente transformação
adaptando-se aos condicionalismos e às exigências de cada época.
Todas elas necessitam de readaptar as suas estruturas e infraestruturas,
as suas formas e usos, às exigências das sociedades. Neste sentido, a
fusão entre fatores temporais e espaciais moldados pela vivência dos
homens, resulta na concretização de um conjunto de situações,
passíveis de nomeação, que se revelam únicos e que, naturalmente, dão
autenticidade aos contextos urbanos.
Falamos de marcas, de rastos, de testemunhos e de mensagens, que
podem ser diariamente interpretadas e descodificadas. As leituras e
interpretação destas marcas de singularidade urbana, impõe-se como
identificadoras das matrizes culturais que sustentam os valores dos
modelos de intervenção na cidade, uma afirmação de identidade e
reforço da sua autenticidade.

Imagem 4.1: Pavimentos diversos, Portugal, 2008

Nestes casos elucida-se o modo como emerge a ideia de
autenticidade, associada ao espaço cultural, à singularidade da
experiência, do toque... do sentir o espaço público urbano, apreendendo
os pavimentos enquanto pele, enquanto estrutura tangível, de enorme
relevância para a expressão da essência de um lugar. Refira-se que não
é por acaso que este sentir se revela tão evidente no contexto das
nossas cidades, pois a ancestral tradição de trabalhar o Chão faz destas
peles um inspirado recetáculo de provocações sensoriais.
Deste modo,

“entender o espaço público enquanto entidade autónoma, passível de
se enroscar entre a arquitetura e o urbanismo, permite assumir a sua
existência enquanto ser, fundamentando a consagração do vazio
enquanto o cheio que nos preenche as ideias e constrói em nós, a
singularidade dos seus argumentos”.23

Saber ler e interpretar as macro e as micro singularidades24 do espaço
público das cidades, permitem-nos estabelecer a ponte entre as escalas
de leitura e reconhecimento, associando a ideia de impressão digital,
enquanto fator de distinção e identidade dos lugares. As minúcias, os
detalhes, assumem o seu papel preponderante na relação percetiva da
realidade, fundamentando o fenómeno percetivo associado à vivência
dos lugares. As texturas, os padrões os materiais, os códigos e os
fundamentos funcionais das infraestruturas, conjugam-se num todo
integrado, conferindo autenticidade ao espaço urbano.
As ruas direitas, enquanto sistemas lineares complexos de relações
espaciais, formais e funcionais, carregam uma matriz genética, um
código organizacional, com o qual imprimem as marcas de
territorialidade fundadoras da sua Autenticidade enquanto elementos de
interligação entre os habitantes e a cidade, enquanto elementos
organizadores do seu Chão.

Imagem 4.2: Marcas de autenticidade, Pompeia, 2015




São infindáveis os territórios do banal que consubstanciam o cheio do
espaço vazio de muitas das nossas cidades. Assumem-se como
determinantes na construção de um sistema de relações entre lugares, e
é pelas qualidades do pisoteio, do caminhar por e entre esses lugares,
que se constituem muitos dos laços da urbanidade que os sustentam.


Pavimentos pisados – micro singularidades espaciais e a formação
do plano horizontal da cidade
O pavimento é o suporte físico do tráfego urbano e como tal tem que
ser pensado enquanto sistema resistente. É por meio deste que se
transmitem as cargas ao terreno e às infraestruturas. Da sua
implementação ressaltam aspetos determinantes para a estrutura
simbólica, visual, orientadora, funcional e organizativa do espaço
público.
Falar dos pavimentos, implica sempre falar sobre a experiência de
pisar os mesmos, do modo de caminhar/deslocar sobre estes. A
arquitetura faz-se sentir-se pelo poder que tem de fazer existir um
espaço, de o modificar, de o tornar único e singular. É à sua
singularidade que a arquitetura deve aquilo que a torna de tão difícil
definição. O modo de apreender a arquitetura da cidade estabelece-se
de forma dinâmica e um dos modos mais belos de desfrutar a envolvente
urbana é por via do trajeto pisado a pé. Assim, a relação física do sentir
o Chão, é o processo primordial, o momento onde de modo cenográfico
corremos o filme da cidade, estabelecendo planos, enquadramentos e
duração das cenas.
A noção de que uma visão cinética da cidade nos aponta muitas pistas
para o entendimento da sua estrutura, reforça a ideia do trajeto/caminho-
pisado como cordão de enlace de toda a lógica de apropriação da
cidade, apontando um destino, colocando o tempo como um elo
sequencial. Introduzindo-se a ideia de viagem, de memória e de
descoberta.
Um lugar abre-se sobre um outro lugar e a arquitetura é responsável
por fazer a concertação entre estes. A deslocação é assim o jogo dos
lugares entre os lugares, é a nossa dispersão vital.
A noção de percorrer o espaço nasce de uma necessidade primordial
para encontrar alimentos e informações essenciais para a sobrevivência.
No entanto, uma vez satisfeitas estas necessidades primárias, o ato de
andar converteu-se numa ação simbólica que permite ao homem habitar
no mundo. Ao modificar os significados do espaço atravessado, o
caminho converte-se numa ação estética construindo uma ordem sobre
cujas bases se edifica a arquitetura dos objetos que a habitam. Andar é
uma arte que contém na sua essência a arquitetura e a paisagem. A
partir deste simples conceito, estabeleceram-se as mais importantes
relações entre o homem e o território.25
Pelo ato de andar somos capazes de descrever e modificar o espaço
da cidade, precisamente pela nossa capacidade criativa intrínseca de ler
e escrever em simultâneo o espaço. A cidade apresenta-se assim como
um território do estar, totalmente atravessada pelos múltiplos territórios
do andar. Esta mistura de cultura, sensibilidade, capacidade de olhar e
de ver, alimenta o imaginário de uma cidade, apontando as justificações
para os caminhos já percorridos e para aqueles que ainda falta percorrer.
A limitação dos trajetos faz-se, por via do campo visual do caminhante,
pelo tipo de obstáculos, das orientações da luz, das cores
predominantes, pelas texturas presentes, pelas árvores e suas sombras,
pelos declives, etc. Encaminhando os peregrinos pelos trilhos da cidade.
O resultado é sem dúvida um testemunho de sentimentos e um
manifesto pessoal de interpretação urbana.
A experiência multissensorial proporcionada pelo caminhar na cidade,
tem um fator revelador da sua eficácia no instante em que se toca o
pavimento. Esta expressão da nossa existência material, sublima a
importância da superfície em que se toca, pondo em evidência a
importância dos pavimentos enquanto materialização desse contacto. O
solo da cidade, enquanto entidade composta, abarca um conjunto de
características físicas, morfológicas, geológicas e construtivas que, na
sua pele, na superfície de contacto, se revelam plasticamente como
lugar de reinvenção criativa.


Imagem 4.3: Dizer o Chão, Lisboa, 2008


Os pavimentos resultam, muitas vezes, como elos de conexão
simbólica do Chão da cidade, pois consagram, pelo seu desenho e
materialidade, estruturas continuadas de espaço significante, cuja
expressão plástica possibilita a consagração dos territórios do andar,
enquanto registos mnemónicos da cidade.
Os caminhos percorridos, na cidade que se descobre, consagram a
legitimidade das opções tomadas no sentido de entender as lógicas de
desenho presentes nos pavimentos, denotando as hierarquias
simbólicas e espaciais da cidade, que formam as suas macro e micro
singularidades.
As ruas direitas configuram-se enquanto territórios de descoberta onde
por um olhar rasteiro, guiado pelo vibrar dos seus pavimentos, somos
levados à procura dos sinais da organização espacial e sistémica das
cidades, possibilitando a descoberta do continuum do seu espaço
sequencial e da experimentação arquitetónica da cidade.
A cidade enquanto diagrama de lugares públicos, consagra a ideia de
sistema26 estruturado em torno de um conceito espacial. Ou seja, de um
propósito existencial associado ao ato de caminhar, de percorrer, de ligar
os espaços entre si por meio da deslocação entre, e através deles, só
assim se efetivando o seu desígnio.

Imagem 4.4: Escadaria do Convento de Santa Teresa, Rio de Janeiro, 2012



O conceito de “serial vision” desenvolvido por Gordon Cullen,27
consagrou a arte de manipular os níveis de diferenciação, de movimento,
posição e conteúdo presentes ao longo de um trajeto, constituindo-se
estes como ingredientes fundadores dos modelos de construção de
imagem urbana, assumindo a ideia de que o todo urbano é muito mais
do que a simples soma das suas partes.
Imagem 4.5: Chão gasto, Génova, 2015


Falar dos pavimentos sem refletir sobre a estrutura física e dimensional
que os suporta, corre o risco de se tornar inconsequente. Neste sentido
apresenta-se como incontornável proceder a uma reflexão sobre o
modelo de estrutura pedonal a implementar nos eixos cívicos
fundamentais dos lugares, atendendo ao objetivo de consolidação da
sua identidade em função da construção de uma autenticidade dos
lugares.
Um pavimento é muito mais do que uma camada superficial. Tal como
a nossa pele, também ele se constitui por camadas e cada uma delas
desempenha uma função especifica e complementar, em função de uma
eficácia global, que passa por complexas relações de causa e efeito,
com uma grande multiplicidade de vetores.
A camada superficial do chão das cidades, surge materializada pelo
que poderemos designar por camada de desgaste ou de contacto. A
constituição desta, depende muito das camadas que a precedem e das
funções e ações que nesta se pretende ver desempenhadas.
A materialidade visível do chão da cidade tem como função primeira
suportar e distribuir as cargas sobre esta exercidas às camadas de
fundação: base e sub-base do sistema de pavimento. Em função da
combinação e rigidez das camadas que o constituem, os pavimentos
podem ser agrupados em três grandes famílias: pavimentos flexíveis,
pavimentos rígidos e pavimentos semirrígidos.
Revestido pelos pavimentos, o subsolo das cidades integra, em regra,
grande parte das infraestruturas que viabilizam a vida urbana e que são
fundamentais para a eficácia do sistema como um todo, incluindo toda a
estrutura edificada. Desde logo, ao chão das cidades, exige-se que saiba
gerir sabiamente a estrutura hidrológica superficial, mantendo os
pavimentos transitáveis, como, já a coberto do olhar, garanta nas suas
camadas dérmica e hipodérmica a integração das redes de esgotos,
eletricidade, telecomunicações, gás e água potável.

Imagem 4.6: Drenar o chão, Nova Iorque, 2011




A drenagem e encaminhamento das águas pluviais que caem e
escorrem sobre as superfícies urbanas, é uma das mais importantes
tarefas a cumprir pelo chão das cidades. Os níveis de permeabilidade
dos pavimentos são determinantes para a gestão de caudais à superfície
e para o equilíbrio hídrico dos terrenos. O problema da contaminação
dos solos e sistemas hídricos subterrâneos, causado pelo arrastamento
e lavagem de contaminantes presentes essencialmente nas superfícies
rodoviárias, exige um especial cuidado na sua gestão especialmente nos
casos em que exista uma coexistência entre estes e os espaços de
circulação pedonal, onde a gestão da permeabilidade dos solos deve ser
assegurada por infraestruturas de recolha e encaminhamento para
tratamento das águas, que garantam o respeito pela proteção e
salvaguarda do amb
iente.
Imagem 4.7: Vendo o céu olhando o chão, Nova Iorque, 2011.


A transfiguração de um piso lavado pela chuva permite igualmente a
abertura do espaço a dimensões surpreendentes de leitura, onde a
limpidez do chão, sobressaltado pelos reflexos da luz, nos permite ver o
céu olhando para o chão.
As redes de infraestruturas no subsolo carecem de controlo e
manutenção, e o acesso a estas é necessariamente realizado através
dos pavimentos. Deste modo estes integram um conjunto de elementos
que muitas vezes não são deviamente integrados no desenho da
superfície e que se revelam enquanto pontos dissonantes e de
fragilidade construtiva, onde frequentemente se iniciam processos de
degradação e distorção visual do espaço.
Nos processos de readaptação das estruturas urbanas torna-se
evidente que alterações no tipo de tráfego por exemplo, podem impor
transformações nos tipos de pavimentos de modo a adequar aos
requisitos impostos, gerando variações que podem ser aproveitadas
para criar desenhos e padrões no chão gerando oportunidades criativas
que podem e devem ser incentivadas.
A tradicional segregação espacial entre o trafego pedonal e o
rodoviário e as tendências atuais de prevalência e prioridade à
circulação pedonal nos centros das cidades, origina novos espaços de
coexistência funcional onde os pavimentos têm um papel preponderante
na mediação funcional e estética destes lugares. O desenho e
materialidade destes chãos permite modelar subtilmente as superfícies
pisáveis de modo a garantir um ambiente seguro e confortável para o
pisoteio e em simultâneo contemplar uma circulação rodoviária
controlada, compatível e segura para os que a pé coexistem nesses
espaços.
Estas situações mistas, cada vez mais recorrentes, impelem a uma
forte consciencialização construtiva, onde o dimensionamento dos
materiais de desgaste e das respetivas camadas de suporte e
distribuição de cargas ao solo, são determinantes para a durabilidade e
manutenção dos espaços pois devemos ter em consideração que as
solicitações físicas causadas pelos rodados dos veículos, mesmo que
eventuais e esporádicas, deverão ser a matriz de referencia aquando da
escolha modelação e configuração das opções técnicas de execução
dos pavimentos em causa, mesmo que orientados para o peão.

Imagem 4.8: Coexistência, Durango, 2012




O papel de um pavimento, enquanto elemento mediador entre o sujeito
e o espaço abarca, como já referido, um conjunto de dimensões sobre
as quais devemos refletir em particular.
Para lá do caracter organizativo e agregador já amplamente explanado,
o potencial visual de um pavimento, a sua expressão plástica e
materialidade, permite a sua elevação a objeto de arte urbana,
assumindo-se enquanto objeto estruturante do ambiente urbano e
incontornável fator de distinção e autenticidade dos lugares. Este
desígnio surge muitas vezes relacionado com uma determinação
intencional de melhoramento de determinado espaço, aproximando-o
dos cidadãos, potenciando o seu sentido de deslocação ou de
permanência, ou, em muitos casos, incorporando elementos de exceção
de elevado valor estético ou simbólico que pela sua presença lhe
conferem um sentido de único e irrepetível.
A estes valores teremos de acrescentar a capacidade de incorporar
informação, onde o pavimento é assumido como transmissor, interagindo
com aqueles que o pisam através da transmissão de informação de
interesse imediato. Esta dimensão implica a interpretação de sinais e
signos diversos, com ou sem mediação, que permitem acrescentar
dimensões extraordinárias a um meio por tradição banal e
desinteressante.


Imagem 4.9: Rota do Modernismo, Barcelona, 2007


Esta capacidade de comunicação pode assumir múltiplas expressões,
desde a capacidade para diferenciar usos e variações de usos, assinalar
obstáculos e prioridades, nomes de estabelecimentos e números de
porta, direções, rotas especiais, e mais recentemente QR Codes, com o
respetivo complemento informativo em smartphones e equipamentos
afins.


Imagem 4.10: QR code, Lisboa, 2015


O nível mais subtil de incorporação de informação num pavimento,
define a sua dimensão simbólica. Neste caso a capacidade de transmitir
é empossada de um valor superior, de modo a evocar algo que
transcende o mero momento e que remete para algum tipo de memória
ou ritualização de um espaço, de um lugar ou de um caminho. Estas
mensagens inscritas no chão e pelo chão, por vezes enigmáticas e não
figurativas, não são impeditivas da sua complementaridade com outros
meios de informação, muitas vezes associados a peças de mobiliário
urbano, painéis, letreiros etc. que permitam, aos menos atentos,
interpretar os valores consagrados nesses lugares e por esses sinais.

Imagem 4.11: Ondas de chão, Rio de Janeiro, 2012




A natureza orientadora do pavimento, induz o caminhante a otimizar
escolhas e determinar funções, na medida em que, ao estimular uma
determinada tipologia de espaço urbano se está a criar as condições
para que se proceda com maior adequação à sua utilização, seja ela de
permanecia ou de circulação.
Neste contexto, calçada portuguesa é sem dúvida uma
microsingularidade urbana incontornável enquanto minúcia digital na
derme das nossas cidades. A luz tornada argumento, no sentido em que
modela os territórios de fronteira entre o ver e o sentir, onde a presença
do claro e do escuro, sugere a existência de mundos paralelos e
complementares, onde as zonas em sombra e penumbra carregam o
espaço do mistério próprio da imaginação, dando forma e energia ao
espaço iluminado.
Imagem 4.12: Chão de Lisboa, Lisboa, 2007


Esta arte do claro/escuro encontra em muitas das nossas cidades, um
palco magistral para o seu exercício. Por um lado, a alvura dos seus
materiais permite uma exalação lumínica multidirecional, possibilitando,
não só a capacidade de receber as sombras como a faculdade as emitir
por via da reflexão das suas superfícies polidas pelo uso. Por outro lado,
o trabalho criativo nos pavimentos em pedra, pixelizados a preto e a
branco, constitui-se como tela preferencial para a criatividade artística,
revelando uma superfície surpreendentemente plástica, onde a
matização dos contrastes permite marcar territórios, definir trajetos, aferir
direções.
Na sua origem a arte da calçada portuguesa caracteriza-se por ser um
tipo de pavimento composto por pedras mais ou menos regulares, que
tira partido plástico dos diferentes tipos de pedra natural de uma região,
sendo as mais correntes o calcário vidraço azul-escuro ou basalto e
calcário vidraço branco, permitindo criar formas, padrões e desenhos
diversos que, tendo em conta a escala e vocação dos lugares, são
adaptados por forma a garantir a sua integridade e legibilidade.
O primeiro registo conhecido de aplicação da Calçada Portuguesa
artística surge em 1842 no Castelo de S. Jorge e zonas envolventes por
iniciativa e desenho do então Governador de Armas28. Depois desta
iniciativa, a Câmara Municipal de Lisboa deu o seu apoio e concedeu as
verbas necessárias para que se procedesse à pavimentação do principal
local público da capital, a placa central do Rossio. Posteriormente, um
conjunto de intervenções nas ruas, praças e largos vão mudar a face da
cidade. As intervenções no Largo de Camões, no Chiado, no Príncipe
Real, na Praças do Município e no Cais do Sodré, assinalam uma
segunda fase desta nova forma de arte urbana. Com a abertura da
Avenida da Liberdade em 1879 os novos pavimentos chegam à Praça do
Marques de Pombal no raiar do século XX, oferecendo à cidade um chão
ímpar que, ainda hoje, marca a imagem de Lisboa.
A partir do séc. XX, com o advento da democratização do automóvel,
os passeios reforçaram o seu papel na circulação pedonal e o processo
de pavimentação prossegui e intensificou-se, proliferando um cem
número de variantes geométricas, florões, caravelas, rosetas e ondas. O
fenómeno estendeu-se por todo o país, com as devidas adaptações nos
materiais, tendo atravessado o atlântico e chegado aos mais remotos
lugares do mundo.


Imagem 4.13: Copacabana, Rio de Janeiro, 2012


Durante a segunda metade do séc. XX, a Calçada Portuguesa foi um
meio de expressão muito utilizado por arquitetos, designers e artistas
plásticos num variadíssimo conjunto de obras e intervenções pelo chão
das nossas cidades.
O mais recente exemplo do recurso à Calçada Portuguesa enquanto
argumento de modelação e transformação do espaço público urbano
deu-se no recinto e espaços envolventes da Exposição Mundial de 1998
– EXPO’98 em Lisboa. Aí podemos encontrar uma grande variedade
aplicações, explorando ao máximo o potencial expressivo deste tipo de
pavimento, contribuindo para a identidade espacial deste lugar, sendo
uma marca de água da sua autenticidade.
De facto, é nos detalhes que a cidade se revela enquanto arquitetura.
As propriedades instrumentais e relacionais que emergem de
materialidades conjugadas por ordenações maiores, promove o valor da
nossa calçada, onde se expressa a intencionalidade de um certo sentido
de ordem carregado de sentidos.
Tornar o Chão da cidade um lugar simbólico, elevando-a ao estatuto de
monumento,29 constituísse como um fascinante paradoxo
epistemológico, pela fusão conceptual entre valores espaciais, materiais
éticos e estéticos.
Falar de uma organização simbólica, da cidade como estrutura
ordenada, de primordial importância, é falar da já referida memória
semântica dos lugares, da capacidade daqueles que habitam a cidade
têm de construir uma cidade análoga, fundada nessa delicada invenção
que é a memória de um povo.
Nas ruas direitas, como em qualquer outro espaço estrutural de uma
cidade, a observação atenta dos sinais impressos no seu chão, permite-
nos fazer uma surpreendente viagem ao âmago da estrutura imagética
desses lugares, onde a presença do tempo, da sua passagem,
testemunha a construção de uma identidade.
O plano horizontal da cidade, entendido na perspetiva tridimensional do
mesmo, reúne os ingredientes necessários para a construção de um
modelo de apreensão do espaço urbano suscetível de se assumir como
distintivo e revelador da já referida impressão digital urbana.
Para uma compreensão da autenticidade das ruas direitas, para um
registo das suas minúcias. Haverá que reservar uma especial atenção à
“planta baixa” do seu espaço público. A singularidade dos seus sistemas
espaciais, possibilitará a identificação de subunidades espaciais, as
minutiae da sua impressão digital.


Subunidades espácio/funcionais
Para além do pavimento, o plano horizontal da cidade incorpora um
conjunto importante de componentes complementares fundamentais
para a consubstanciação funcional do espaço e que neste contexto
devem ser valorizados enquanto minúcias de autenticidade.
O espaço público, no que respeita às suas estruturas pavimentadas,
incorpora um conjunto de subunidades espácio//funcionais e construtivas
que, de acordo com o modo como se relacionam vão determinar a
hierarquia do espaço, o nível de prioridade de tráfego e os modelos de
circulação no mesmo.30
Como já se referiu, os percursos pedonais devem formar uma rede
contínua, ordenada e devem abranger toda a área urbana, assegurando
a segurança e a liberdade dos pedestres e não permitindo que a
mobilidade do automóvel se sobreponha à mobilidade do peão.
Na arquitetura do chão das cidades é necessário adequar a escala dos
percursos pedonais aos tipos de servi-ços, funcionalidades e vivências
da envolvente. O peão é um protagonista flexível pois tem uma grande
liberdade de movimentos, mas é igualmente o elemento mais frágil que
circula no espaço urbano. O espaço do peão enquanto estrutura
primordial do chão da cidade, tem de garantir uma justa e correta
acessibilidade a todos os cidadãos, proporcionando zonas de lazer,
convívio e conversação, permitindo uma boa orientação espacial e
oferecendo segurança e conforto.31
Os caminhos do peão, sempre que possível, deverão estar divididos
em quatro zonas ou corredores funcionais, com uma inclinação
transversal máxima de 2%, que deste modo poderão ser utilizados de
diferentes maneiras permitindo uma gestão mais eficaz do espaço da
cidade.
O Corredor de circulação – é uma zona destinada ao trânsito pedonal,
deve estar livre de qualquer tipo de obstáculos e o seu desenho deve ser
o mais legível possível.A sua largura mínima é de 1,5m em zonas de
pouco fluxo de e de 2m nas zonas com muita atividade pedonal. Esta
faixa deverá ter no seu pavimento uma guia em material táctil para
facilitar a orientação dos invisuais e deverá ser tratada de modo
especialmente orientado para o conforto e segurança na circulação.
O Corredor de serviço – é uma zona vinculada ao aceso às edificações
e ao comércio sendo uma faixa de transição e de permanência,
marcando o acesso ao interior dos edifícios, deverá ter cerca de 0,5m
em zonas habitacionais, 1,0m de largura mínima em áreas de pouca
atividade comercial e poderá ir até 3m em percursos de grande atividade
comercial (em zonas com esplanadas esta largura pode ser maior).
O Corredor de equipamentos – é uma zona onde devem ser
implantados os equipamentos urbanos. Esta faixa destina-se à
colocação de candeeiros, papeleiras, sinalização, etc. Deve ser disposta
próximo da rodovia para servir também as pessoas que entram e saem
dos veículos estacionados (faixa de transição entre o passeio e a
rodovia).A largura mínima é de 1,0m, mas esta pode variar consoante o
mobiliário urbano nesta implantado (parquímetro, publicidade, paragem
de autocarros...) Em passeios muito largos pode existir mais do que um
corredor de equipamentos. É também sob este corredor que se devem
instalar as infraestruturas urbanas e onde serão colocadas as respetivas
tampas e caixas de visita. O mobiliário urbano que tenha uma ligação
direta com as pessoas (bebedouros, marcos correio, papeleiras...)
deverá ser colocado a uma distancia mínima de 0,5m do limite do
passeio. Em vias locais (mais estreitas) este corredor fun-cional poderá
ser suprimido.
O Corredor de separação – é uma zona separadora entre usos do
espaço pedonal. Pode ser um corredor verde, arborizado que serve para
separar os corredores descritos anteriormente ou para separar a zona
pedonal da rodovia e pode ser utilizado como área de estar com
assentos para os peões. Apenas pode ser utilizado em ruas largas e
com muita atividade pedonal.
Entre nós, as ruas direitas, são por natureza estruturas onde se afirma
a prioridade à circulação de peões e são vias que por terem um grande
tráfego pedonal tendencialmente se reservam para uso exclusivo dos
peões e atividades relacionadas. Este tipo de ruas devem ser
(re)estruturadas para uma escala pedonal, com equipamentos e espaços
orientados para a prioridade ao trafego a pé.
Estas ruas, em muitas casos, podem também assumir um carater
misto, onde a prioridade ao trafego pedonal coexiste com uma circulação
controlada de veículos e bicicletas, compartilhando o espaço com o
peão. Estas vias podem ser projetadas com pavimentação especial, uma
variedade de equipamentos, arborização, bancos, e bolsas de
estacionamento na rua, para criar um ambiente seguro que encoraje o
uso recreativo e de socialização. Podem ser espaços de grande
vitalidade urbana, e devem ser potenciadas em zonas com carências de
espaço publico livre.
Os passeios são as faixas das ruas e praças, destinadas ao uso
pedonal, normalmente elevadas em relação às vias, como forma de
diferenciar e segregar tráfegos, protegendo o peão e resguardando-o
dos caudais pluviais superficiais. Afirmam-se igualmente enquanto
espaços de transição entre a rua e os edifícios e por consequência são
determinantes na estrutura dos espaços das cidades.
Para que o espaço público possa ser um local seguro, funcional e
agradável é necessário recorrer à implantação e instalação de um
conjunto de constituintes e infraestruturas urbanas que têm um
importante impacto físico e estético no chão das cidades.
De entre esses constituintes deve destacar-se:

Os lancis enquanto fazedores da demarcação dos planos funcionais do
chão da cidade, linhas de fronteira estruturadoras do desenho urbano.
São elementos resistentes que demarcam e rematam diferentes
pavimentos, assumindo ao mesmo tempo uma função de proteção entre
tráfegos distintos. Os lancis são componentes fundamentais de remate e
separação das vias e dos passeios, permitindo a retenção lateral das
camadas inferiores dos pavimentos, atuando como “muro de suporte”,
permitindo assim as transições de cota estruturantes das secções das
vias e destacando as combinações entre os diferentes materiais do chão
da cidade. O seu posicionamento e desenho será determinante para o
nível de segregação do espaço, contribuindo para dissuadir os
condutores dos veículos a não galgarem para o passeio.
Esta difícil tarefa de segregação funcional, constitui-se enquanto uma
das mais relevantes missões de um lancil.A justa combinação de cotas,
conjugada com fatores de conforto e de circulação pedonal
desaconselham o recurso a lancis que consagrem um desnível superior
a 0,12m, contudo, este desnivelamento entre planos, se não for
devidamente resguardado por acessórios de proteção, pode não
constitui barreira eficaz à transposição pelos rodados dos veículos o que,
infelizmente, conduz às situações inadequadas de invasão do espaço do
peão por parte dos veículos, indevidamente estacionados em cima dos
passeios e à consequente degradação estrutural destes por via do
impacto sucessivo de rodados.

As escadas e as rampas servem para proporcionar o acesso a
diferentes cotas do espaço urbano. São como transfigurações dos
passeios, onde, por via de uma inclinação longitudinal particularmente
elevada, acima de 5%, há que recorrer a rampas ou em casos mais
gravosos, a escadas. Lisboa é a cidade das rampas e escadinhas, mas
por todo o país há múltiplas situações onde o espaço pedonal se
corporiza em troços de particular beleza, onde a dificuldade de vencer os
acentuados desníveis de ruas pousadas sobre colinas, surge
compensada pela surpresa gerada pelas sequências de planos e
perspetivas sobre um chão inclinado que por vezes se quer tornar
parede.

Os canais de drenagem os sumidouros e as sarjetas são componentes
incontornáveis do chão das cidades. Estes permitem um rápido
encaminhamento e escoamento das águas pluviais, servindo enquanto
elementos de composição e desenho do espaço público. Tal como os
lancis, aos quais muitas vezes vêm associados, os canais e drenagem
coincidem com linhas primordiais do espaço público, concordando com
as zonas baixas, de convergência dos planos de modelação do chão,
para onde programadamente convergem as águas das chuvas.
Materializadas de diversos modos, estas estruturas lineares são muitas
vezes complementadas com componentes pontuais de drenagem,
sumidouros ou sarjetas que, em conjunto, formam a face visível da
infraestrutura de drenagem de aguas pluviais das cidades.

As tampas dão acesso às camaras de visita das infraestruturas
subterrâneas (recolha e abastecimento de água, eletricidade, esgotos,
comunicações, gás). São um dos aspetos mais complexos de gerir em
termos da sua integração no desenho dos pavimentos. Muitas vezes
condicionadas pela localização subterrânea das infraestruturas, as
tampas modelam, com diversas materialidades, a sua presença no chão
da cidade. Mais ou menos integradas no desenho do pavimento, podem
ser potenciadas como parte integrante de uma estratégia de modelação
do chão, desde que devidamente compreendidas e coordenadas. São
geralmente desconsideradas aquando do projeto, normalmente
remetidas para uma inevitabilidade infraestrutural, mas hoje, em face da
consciencialização crescente para o projeto do espaço publico, são mais
um ingrediente de coordenação arquitetónica.
A fechar este capítulo, reforça-se a ideia de que os pavimentos são um
importante vetor de autenticidade dos nossos lugares urbanos. O nosso
chão, em muitos casos, pode, e deve ser, considerado património
cultural, e elevado ao patamar de monumento artístico com significado
civilizacional. Os pavimentos urbanos são símbolos de pertença e
espelhos de autenticidade das nossas terras. A consciencialização de
que o projeto do plano horizontal, enquadrado pela memória dos lugares,
se pode assumir enquanto suporte para uma estratégia de urbanidade
consequente, consolidando os espaços cívicos, valorizando e
promovendo a identidade dos lugares, coordenando as dimensões
horizontal e vertical do espaço urbano, Faz deste um desígnio
incontornável aquando da procura de uma autenticidade.
Os Sistemas de espaços públicos, assumem-se como
macrosingularidades estruturantes de um sistema urbano mais vasto, ao
qual se impõem limites espaciais, determinados pela consagração de
percursos urbanos entre os lugares significantes das cidades. A metáfora
táctil da cidade, permite-nos entender o Chão da cidade enquanto a
porção do espaço público urbano que é tocada pelo corpo, participada,
sentida e consequentemente alterada por este.
As minúcias das marcas do contacto entre os sujeitos e as cidades,
estabelecem o real sentido para o conceito de microsingularidade,
enquanto elemento distintivo de um lugar urbano, enquanto marca da
sua autenticidade, sendo os pavimentos a sua pele, a sua âncora de
identidade.

Referências bibliográficas
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22 OLIVEIRA, Francisco, O Chão da Cidade: permanecia e transformação, Revista Proyecto,
progresso, arquitectura, Publicaciones de la Universidad de Sevilha 2011, pp. 138-151.
23 OLIVEIRA, Francisco – O CHÃO DA CIDADE – O PLANO ESQUECIDO – A Arquitectura do
Chão e a Formação de uma Impressão Digital Urbana, o caso de Lisboa. Tese de Doutoramento
em Arquitectura, Lisboa, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, Outubro
2008.
24 VIGIL, Gustavo Munizaga, Diseño Urbano – Teoria y Metodo, Mexico, Alfaomega Grupo
Editor, 2000.
25 CARERI, Francesco, El andar como Prática Estética – Walking as an Esthetic Practice,
Barcelona, Editorial Gustavo Gili, S.A., 2002.
26 PALLASMAA, Juhani, Los Ojos de la Piel – La arquitectura e los sentidos, Barcelona, Editorial
Gustavo Gili, SL, 2006 (trad. de The Eyes of the Skin – Architecture and the Senses, Chichester,
Wiley -Academy, 2005).
27 CULLEN, Gordon (1971).
28 CABRERA, Ana; NUNES, Marília, Olhar o Chão - Ein Blick auf den Boden Portugiesische
Steinpflaster – Regarder le sol – A glance at Portuguese Mosaic Pavement, Lisboa, Imprensa
Nacional - Casa da Moeda, 1998.
29 Salienta-se a este propósito, a proposta da candidatura da “Calçada Portuguesa” a Património
da Humanidade, aprovada em dezembro de 2016, pela Câmara Municipal de Lisboa
30 CANDEIRA, José A. López, Tratamiento del Espacio Exterior, Madrid, Editorial Munilla--Lería,
2002.
31 SERRA, Josep Ma., Manual d'Elements Urbans - Mobiliari i Microarquitectura, Barcelona,
Editorial Gustavo Gili, S.A., 1996.
Capítulo 5

SINALÉTICA E MOBILIÁRIO URBANO

Margarida Gamito

1. Introdução
A cidade é feita de pessoas e para as pessoas. Assim, torna-se
essencial analisar a sua vivência e o modo como os seus componentes
contribuem para o conforto e bem-estar dos seus habitantes.
A população portuguesa é constituída por uma grande variedade de
pessoas entre as quais se conta uma grande percentagem de idosos e
deficientes físicos, sejam essas deficiências motores ou visuais. Embora
não se possa resolver inteiramente o problema dos grandes deficientes,
existe uma aproximação ao projeto arquitetural e ao design do mobiliário
urbano que tende a incluir a maioria da população, seja ela portadora ou
não de algum grau de deficiência.
Considerando o conceito da Rua Direita com as suas especificações e
a sua integração no aglomerado populacional, não poderemos ignorar
determinados elementos que, embora não pertencendo à arquitetura,
são essenciais ao conforto de todos os habitantes e visitantes. Estes
elementos fazem parte de dois conjuntos diversificados ̶ a sinalética, ou
sinalização, e o mobiliário urbano que se interligam na medida em que
podem ser conjuntos móveis, não alicerçados, e na sua mútua
contribuição para a identificação e orientação de todos aqueles que
circulam pelas ruas de qualquer povoação.


2. Sinalética
O estudo da sinalética tem sido abordado por numerosos especialistas,
entre os quais Joan Costa e Per Mollerup, dos quais citamos as
seguintes definições:

“Sinalética é a parte da comunicação visual que estuda as relações funcionais
entre os sinais de orientação no espaço e os comportamentos dos indivíduos.
Ao mesmo tempo, é a técnica que organiza e regula estas relações”. (Costa
1987;9)
“Signs are graphic means to an end. Their purpose is to help wayfinding and
understanding by conveying messages that would otherwise not be told. Real
signs are not alone. Sometimes sign information can be given by non-graphic
‘signs’ that force wayfinders to do as they are told. At other times, unofficial
graphic signs substitute for official graphic signs”. (Mollerup 2005;13)32

Assim, a Sinalética engloba todo os sistemas de sinalização, sejam
eles de orientação, de informação ou de identificação que contribuem
para a melhor compreensão de um espaço, pelos seus utentes.
Excluindo a sinalização de trânsito que é definida a nível nacional e
que, com ligeiras variações, é quase idêntica em todas as partes do
mundo, podemos subdividir a sinalética em Sinalização de Orientação,
Sinalização de Informação e Sinalização de Identificação.
A Sinalização de Orientação indica o que se vai encontrar em
determinada direção e inclui todas as tabuletas direcionais, painéis com
nomes e setas que encontramos habitualmente nos cruzamentos e
inícios de itinerários.
A Sinalização de Informação, como o seu nome indica, informa-nos sobre
tudo o que se encontra em determinado local ou itinerário, englobando
os mapas “você está aqui”, normas de utilização de locais, etc.

Imagem 5.1: Exemplos de sinalização de informação − mapa do Alandroal / Alentejo




Identificação significa estabelecer uma identidade e, necessariamente,
a identidade de um lugar ou de um objeto inclui todas as qualidades que
lhe pertencem e que o diferenciam.
Portanto, a Sinalização de Identificação indica, de modo explicito,
elementos referenciáveis no local em que se encontram. São exemplos
desta sinalização os nomes que se ostentam nas fachadas de edifícios
públicos, assim como todos os pictogramas ou letreiros que se colocam
nas portas para identificar gabinetes, salas de aula, sanitários e que, no
caso dos itinerários turísticos ou de exposições e museus, identificam os
elementos dignos de nota.
Podemos ainda considerar como fazendo parte desta sinalização,
embora com um caráter mais publicitário, os nomes identificativos dos
estabelecimentos comerciais e de outros locais de utilidade pública.


Imagem 5.2: Exemplo de mapas informativos ̶ Mapas da Cidade Velha de Varsóvia.


Considerando o caso da Rua Direita, a necessidade de desenvolver
um sistema de sinalética de orientação dependerá da complexidade de
ramificações existentes. No entanto, e dependendo da quantidade de
elementos de interesse turístico a referenciar, deve existir um sistema de
sinalização de informação e de identificação.

Imagem 5.3: Exemplos de sinalização identificativa no solo.


A sinalização de informação, para este caso, deve compreender
painéis informativos, mapas da totalidade de elementos referenciáveis e
da sua localização. Estes mapas devem ficar situados nos extremos do
percurso, de modo a que os visitantes possam tomar conhecimento de
tudo o que poderão observar no percurso da Rua Direita.
Estes painéis informativos devem incluir texto e imagens (pictogramas)
do que se pretende referenciar, colocados em mapas de localização, de
certo modo semelhantes aos mapas ”você está aqui” mas mais
simplificados. As imagens poderão ser desenhos ou fotografias
facilmente identificáveis e o texto deverá ser constituído por informação
resumida, não pretendendo abranger toda a extensa informação que
poderá estar contida num folheto ou num catálogo turístico. No caso de
se pretender simplificar, ou se os elementos a referenciar não forem de
fácil representação, pode-se recorrer a uma numeração desses
elementos.
Os elementos de Sinalização Identificativa, que serão pontuais e
localizados junto dos elementos referenciados nos painéis informativos,
devem ser visíveis mas não intrusivos e podem estar inscritos no
pavimento para facilitar a não obstrução da via pública, sendo
constituídos por pictogramas, tipografia, ou simplesmente por números
e, se necessário, por setas direcionais.
Toda esta sinalização, seja ela informativa ou identificativa, deverá
obedecer a normas, já sobejamente estabelecidas, que permitam criar
uma identidade própria do local, suficientemente discreta para não se
sobrepor aos elementos que se pretendem referenciar, mas
simultaneamente, mantendo um grau de visibilidade, legibilidade e
qualidade de leitura que não os faça passar despercebidos e,
consequentemente ineficazes.


2.1 Painéis de informação
Os painéis informativos não são uma cópia da realidade. Procuram
informar com uma certa dose de abstração, mostrando algumas coisas,
mas ocultando outras conforme o propósito do painel. Deve-se
considerar que o que é omitido pode ser tão importante como o que está
representado e que é preciso avaliar corretamente o que se pretende
incluir para veicular corretamente a informação.
Todos os utilizadores beneficiam das ações destinadas a melhorar a
leitura por pessoas com deficiências visuais. Um bom design é aquele
que considera a utilização pela globalidade da população e, se não
pudermos resolver os problemas da faixa de população completamente
invisual, poderemos incluir nos destinatários todos aqueles que têm uma
visão relativamente reduzida.
A elaboração de painéis de informação deve necessariamente
obedecer a normas que contribuam para uma otimização da sua
visibilidade, legibilidade e qualidade de leitura.


Imagem 5.4: Colocação de informação a uma altura de visão ideal.
(adaptado de Mollerup, 2005)


Assim, para uma melhor perceção, a elaboração dos painéis deve
obedecer às seguintes normas:

1. A leitura dos painéis melhora se os textos forem curtos e precisos.
2. Os textos devem ser claros, para uma melhor compreensão por
utentes com diversidade de culturas e níveis de instrução.
3. As palavras compridas podem ser muito mais difíceis de ler que as
palavras curtas por pessoas com deficiências visuais ou de instrução,
mesmo em boas condições de leitura.
4. Deve-se considerar sempre um bom contraste cromático e de
luminosidade entra a forma e o fundo em toda a informação.
5. Para um bom acesso à informação, esta deve ser colocada a uma
altura média da visão da maioria das pessoas.


2.2 Sinalização de Identificação em edifícios

Imagem 5.5: Um bom exemplo de texto em acordo com o estilo do edifício


em que está inserido. (adaptado de Mollerup, 2005)


Os edifícios públicos são habitualmente identificados por meio de
lettering e, embora esse lettering faça parte do projeto arquitetónico,
deve obedecer às normas de legibilidade estabelecidas para os outros
casos de sinalização.
No caso das frontarias de edifícios tais como Tribunais, Câmaras
Municipais, Hospitais, Escolas, etc. podemos aceitar que, por uma
questão de prestígio e para uma representação de força, o lettering seja
todo em caixa alta (maiúsculas), não se pondo aqui a necessidade de
uma leitura rápida e tendo em conta que estes edifícios já devem constar
dos diferentes painéis de sinalização de orientação. No entanto, a
escolha do tipo de letra, para uma fácil identificação, deve obedecer às
normas indicadas no parágrafo 2.4, respeitante ao lettering, não sendo
aconselhável a utilização de tipos de letra muito rebuscados que,
embora possam parecer muito artísticos, serão de difícil leitura e podem
interferir com a arquitetura do edifício.
Outros elementos, presentes na rua direita, que não se podem
considerar propriamente como fazendo parte da sinalização
identificativa, mas que devem ser objeto de estudo e possível controle,
são as tabuletas de estabelecimentos comerciais que, na competição por
uma maior evidência, tendem a sobrepor-se aos elementos de fachada
destruindo a harmonia ambiental e arquitetónica. Não se pretendendo
anular um legítimo desejo de publicidade, considera-se que podem ser
criados sistemas de identificação mais harmoniosos que permitam a
individualização de cada estabelecimento, respeitando a tradição
arquitetónica, cromática e cultural da povoação e da região em que se
insere.
Uma possível solução para o gigantismo das tabuletas comerciais e
para o asfixiamento das fachadas, assim como de outras peças que
convenha realçar no percurso de uma Rua Direita. Pode ser a
regulamentação da tipografia aplicada e a dimensão máxima dos painéis
com os nomes dos estabelecimentos comerciais.
Outra solução, seria o desenvolvimento de uma linha gráfica de
símbolos que identificasse cada estabelecimento de uma forma apelativa
e que estivesse de acordo com a tradição cultural da região.

Imagem 5.6: Exemplos positivos de sinalização de estabelecimentos comerciais.




2.3 Sinalização efémera (eventos)
Do mesmo modo, toda decoração realizada para acontecimentos
efémeros, tais como eventos religiosos e culturais deve ser controlada
de modo a não interferir, nem abafar, a informação permanente seja ela
de orientação ou identificação. As normas reguladoras do lettering a
aplicar devem obedecer aos mesmos requisitos do aplicado na
sinalização, embora possam diferir formalmente, para que essas
aplicações não resultem em efeitos dissonantes na harmonia do meio
ambiental.


2.4 Lettering
As letras, palavras e frases que compõem textos devem ser, sempre,
facilmente legíveis e isto é mais necessário na sinalização que nos
textos impressos. Muitas vezes, no caso da sinalização de orientação,
estes textos precisam de ser lidos muito rapidamente e com variações
de distâncias e de orientação de leitura. Mesmo numa sinalização de
informação, as condições de leitura nem sempre são ideais por causa de
deficiências de iluminação e de outros obstáculos que se podem interpor
entre o painel informativo e o leitor.
Dá-se o nome de legibilidade à facilidade de ler um texto, ou um painel.
Os tipos de letra simples são mais fáceis de ler que os complicados ou
muito ornamentados. Assim, os tipos de letra utilizados em sinalização
devem apresentar uma nítida diferenciação entre letras e números.
Embora a economia de espaço possa ser um fator importante na
sinalização, os tipos de letra muito estreitos (condensados) são menos
legíveis que os de largura normal, ou média. Também são menos
legíveis os tipos de letra itálicos ou negros que só devem ser utilizados
em casos especiais como quando se pretende destacar uma palavra.
Salvo em casos especiais, como na identificação de edifícios públicos
importantes, não é aconselhável a utilização de textos em maiúsculas
porque estas são menos diferenciadas e, portanto, menos legíveis que
os textos incluindo letras maiúsculas e minúsculas. Nestes textos tem,
ainda importância a diferenciação das hastes ascendentes e
descendentes, pois uma pequena altura destas hastes faz diminuir a
diferenciação das letras e, consequentemente, a legibilidade. Outro fator
a considerar é a espessura dos elementos constituintes das letras –
hastes, barras, curvas, etc..


Imagem 5.7: Exemplos de tipo de letra aconselhável para painéis de informação.


O tamanho do tipo de letra também é importante e deve depender da
distância a que a sinalização deve ser lida, para tal poderá recorrer-se a
uma regra básica que indica a altura da letra em função da distância de
leitura. Assim, para determinar a altura de uma letra de caixa baixa
(minúscula), como por exemplo um e ou um o, deve-se dividir a distância
de leitura por 300 ou, em casos de iluminação deficiente, por 200.

Distância de leitura em cm
Tamanho da letra minúscula (e, o) =
300 (200)


2.5 Pictogramas
No caso de serem utilizados desenhos – Pictogramas – para
representar os elementos referenciáveis na Rua Direita, deve--se ter em
atenção que estes, embora esquemáticos, devem ser bem legíveis e
compreensíveis para qualquer utilizador, remetendo sem sombra de
dúvida para o objeto que pretende representar. Parecendo um
contrassenso, esses desenhos não devem exagerar na pormenorização,
pois não se podem confundir com imagens fotográficas e um excesso de
pormenores pode conduzirá inevitavelmente a uma maior lentidão de
leitura.
Quando se opta por reproduções fotográficas, deve-se ter cuidado para
que a imagem seja sempre bastante nítida e não induza em confusões
quando houver elementos que se possam parecer com outros também
referenciados.


2.6 Cor
A cor e a variação cromática de uma superfície são instrumentos
fundamentais em quase todas as sinalizações visuais e para isso
contribui o fato de a cor ser vista a maior distância que a forma e textura.
Assim, os contrastes cromáticos e de luminosidade são os meios mais
eficazes de melhorar a visibilidade, sendo os contrastes de luminosidade
os mais eficazes, e devemos sempre considerar a capacidade da cor em
estabelecer diferenciações na criação de contrastes, os quais são
absolutamente necessários para a visibilidade de qualquer sinalização.
Considerando as vantagens da cor na melhoria do campo visual, deve
existir um contraste cromático entre o painel de sinalização e o seu meio
envolvente para que ele chame a atenção e seja facilmente localizado.
É, também, necessário que exista um contraste de forma e fundo
dentro do próprio painel para que o seu conteúdo seja legível, quer este
seja constituído por tipografia, por símbolos ou por uma combinação dos
dois. Estes dois contrastes combinam-se num se num só quando a
informação é aplicada diretamente numa parede, ou noutro fundo sem a
utilização de um painel.
O contraste cromático entre diferentes painéis de sinalização facilita a
diferenciação entre vários tipos de mensagens e pode transmitir o
significado da sinalização, antes de se poder ler o seu conteúdo, como
no caso das diferentes sinalizações rodoviárias.


3. Mobiliário Urbano
The quality of the urban environment can, in part, be determined by the
design of is urban furniture. These elements play an interactive role
between the public space and the users and they influence and are
influenced by the overall environment.
The design of urban furniture requires a holistic and multidisciplinary
approach in order to fulfil the criteria towards sustainable development.
(Águas 2003;II)33+


Imagem 5.8: Relação das possíveis alturas para mobiliário urbano
com os utentes.


Por razões de utilização os espaços públicos e, neste caso as ruas
direitas, contêm elementos necessários à utilização pública, tais como
cestos de lixo, bancos, floreiras, postes de iluminação, paragens de
autocarro, cabines telefónicas, quiosques, pilaretes e frades, etc. Todos
estes elementos não são meramente estéticos, mas devem cumprir uma
função que proporcione conforto, facilidade de utilização, informação,
segurança e proteção que englobe todas as necessidades dos
utilizadores.
Considerando a totalidade da população e, nesse contexto, a
percentagem de pessoas com deficiências visuais, existem alguns
condicionamentos que devem ser respeitados. De acordo com as
prescrições do Royal National Institute for the Blind – RNIB (Real Instituto
Nacional para Cegos) de Inglaterra, os percursos pedestres devem ser
facilmente identificáveis e devem diferenciar-se das paredes adjacentes.
Do mesmo modo, todos os objetos presentes devem destacar-se do
meio envolvente para poderem ser reconhecidos como obstruções.
Todos os elementos de mobiliário urbano ― vedações, pilaretes e
frades, postes de iluminação, caixotes de lixo, bancos, etc. ― devem
estabelecer um forte contraste de cor e luminosidade com o meio
ambiente, porque este é o meio mais eficaz para melhorar a sua
visibilidade. Barker (1995:7-51), considera que um esquema de cor pode
ser significantemente realçado por um bom contraste tonal, de modo a
que estes elementos se possam destacar do meio envolvente e serem
mais facilmente vistos pelas pessoas com deficiências visuais.

3.1 Design
O mobiliário urbano é habitualmente fornecido por fabricantes
especializados e só raramente, em urbanizações de grande vulto, é
objeto de um projeto particular. No entanto, a sua escolha deve estar de
acordo com o local em que irá ser implantado.
Não faz sentido implantar elementos de mobiliário urbano de grandes
dimensões em espaços urbanos reduzidos. Também, o seu design deve
ter em consideração a especificidade do local procurando criar uma
harmonia que respeite a história e as tradições culturais da povoação.


3.2 Colocação
A colocação dos elementos de mobiliário urbano deve obedecer a um
critério que permita a sua utilização sem que eles se transformem em
estorvos à circulação pedonal, nem em obstáculos para a parte da
população com deficiências visuais ou de locomoção. Assim, devem
estar colocados suficientemente próximos para serem utilizados, mas
fora do percurso normalmente utilizado pelas pessoas para que não se
tropece neles.

Imagem 5.9: Exemplo de corredor de utilização para pedestres
− Alandroal / Alentejo.

A colocação dos elementos de mobiliário urbano depende da relação
dimensional entre os passeios e a rua propriamente dita. No caso das
ruas com circulação automóvel, que implicam a existência de passeios,
estes devem ter uma largura suficiente para garantirem a circulação de
peões, numa perspetiva inclusiva que permita também a inclusão de
mobiliário urbano.
A colocação do mobiliário urbano deve ser feita numa linha ou corredor
que diste pelo menos 0,40 m da beira do passeio e deixe um espaço
livre de cerca de 1,40 m para circulação de peões. Quando os passeios
forem demasiado estreitos para permitir a delimitação destes espaços,
os elementos de mobiliário urbano deverão ser colocados junto às
paredes dos edifícios, de modo a não impedir a circulação pedonal.


Imagem 5.10: Colocação de mobiliário urbano em passeios largos e estreitos – Lisboa / Portugal.


Nas vias reservadas exclusivamente à circulação de peões, deve-se
tomar em consideração o possível acesso de veículos de emergência,
tais como ambulâncias e carros de bombeiros, para os quais deverá
sempre haver um corredor.


Imagem 5.11: Exemplos de colocação de pilaretes, com alturas corretas,
à frente, e incorretas, atrás – Lisboa / Portugal.


Tendo em conta a população com deficiências visuais, para além do
contraste cromático e de luminosidade, torna-se necessário estabelecer
que o mobiliário urbano não pode estar a uma altura muito baixa,
considerando-se que os pilaretes, sebes e outros elementos que bordem
os passeios, devem ter uma altura de pelo menos um metro para serem
claramente vistos. Os bancos devem estar colocados fora do corredor de
deslocação e, assim como o restante mobiliário, devem estabelecer um
contraste cromático e de luminosidade com o meio envolvente.


4. Conclusão
Neste capítulo procurou-se chamar a atenção para os elementos
presentes nos aglomerados populacionais e, consequentemente nas
Ruas Direitas, que embora não pertencendo à arquitetura são essenciais
à vivência e conforto da população. Estão nesse caso os elementos de
sinalização e o mobiliário urbano, cujo design e colocação devem
obedecer a normas que permitam o cumprimento das funções a que são
destinados e uma boa utilização dos habitantes. Assim, de um modo
generalizado, procurou-se enumerar as condições a que deve obedecer
um projeto de sinalização e a escolha e colocação do mobiliário urbano.

Referências bibliográficas
ÁGUAS, S. - Urban Furniture Design - A Multidisciplinary Approach to
Design Sustainable Urban Furniture, M.Sc Dissertation, 2003.
MOLLERUP, P. - Wayshowing, Baden, Lars Müller Publishers, 2005.
COSTA, J. - Señalética: De la señalización al diseño de programas,
Barcelona, Ediciones CEAC, AS, 1987.
BARKER, P; BARRICK, J.; WILSON, R. - Building Sight, a handbook of
building and interior design solutions to include the needs of visually impaired
people, London, Royal National Institute for the Blind (RNIB), 1995.

32 Os sinais são meios gráficos com um determinado fim. O seu propósito é ajudar na procura e
compreensão de um caminho, transmitindo mensagens que de outro modo não seriam lidas. Os
verdadeiros sinais não estão isolados. Algumas vezes a sinalização de informação pode ser feita
por ‘sinais’, não gráficos, que forçam as pessoas a atuarem como lhes é indicado. Outras vezes,
sinais gráficos não oficiais substituem os sinais gráficos oficiais”. (tradução livre da autora)
33 A qualidade do ambiente urbano pode, em parte, ser determinada pelo design do seu
mobiliário urbano. Estes elementos têm um papel interativo entre o espaço público e os seus
utilizadores e influenciam e são influenciados pelo ambiente global.
A criação de mobiliário urbano requer uma abordagem holística e multidisciplinar, a fim de
cumprir os critérios para o desenvolvimento sustentável.
CONCLUSÃO

“A unidade do livro, mesmo entendida como feixe de relações, não pode ser
considerada como idêntica. (...) a sua unidade é variável e relativa (...) só se
constrói a partir de um campo complexo de discursos.” 34

Estamos perante diversos enfoques sobre uma complexa realidade que
supera sempre qualquer sistema de análise. Embora estas sejam
importantes para clarificar padrões, sistemas de referência, legibilidades,
métodos construtivos e o estado a questão, os sistemas estáticos são
estabilizadores e são sempre confrontados com fluxos e princípios de
mudança que é endémica aos sistemas.
É aí que reside a autenticidade, na capacidade cultural de conjugar
qualidades físicas, de imagem, funções e vivências numa sociedade em
mudança.
Os diversos capítulos, fornecem diferentes enfoques que se articulam
criando relações que é necessário aprofundar.
O livro apresenta um panorama abrangente sobre as estruturas
urbanas que enunciam qualidades físicas e comerciais. Refere os
valores de uso e de troca, cartas, conceitos e sistemas de
representação. A visão integrada de sistemas que evoluem ao longo do
tempo permite detetar invariantes, padrões e qualidades físicas,
ambientais e culturais que são determinantes em qualquer tipo de
intervenção de modo a evitar os erros de intervenções aculturadas.
34 Michel Foucault, Arqueologia do saber, Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária, 2008, p.
26.

CRÉDITOS / FONTES DE IMAGENS



CAPA
Imagem: desenho de Rui Barreiros Duarte

CAPÍTULO 1
Imagens 1.1 a 1.9, 1.11, 1.13 e.114, desenhos e fotografias de Rui Barreiros Duarte
Imagen 1.10: Google maps (12 de maio de 2013)
Imagem 1.12: SIPA DES. 00000729

CAPÍTULO 2
Imagens 2.1 a 2.20, desenhos e fotografias de Rui Barreiros Duarte

CAPÍTULO 3
Imagens 3.1, 3.2 e 3.4 a 3.7, fotografias de Margarida Louro
Imagem 3.3, fotografia de David Spero

CAPÍTULO 4
Imagens 4.1 a 4.13, fotografias de Francisco Oliveira

CAPÍTULO 5
Imagens 5.1 a 5.11, fotografias de Margarida Gamito