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Finalmente, o muito aclamado

e esperado romance da autora de


«Um bom homem é difícil de encontrar»
Sem dúvida a maior
escritora ameJ!cana do século xx
New York Review of Books
SANGUE SÁBIO
Flannery O'Connor
Sangue sábio

Tradução do inglês
Nuno Batalha


dcavalo
eterro
Sangue sábio /wise blood

Autor: Flannery O'Connor


©1949, 1952, 1962 Flannery O'Connor; ©renovado 1977, 1980, 1990

Regina Cline O'Connor. Todos os direitos reservados.

Tradução: Nuno Batalha

Revisão: Alice Araújo

Capa: Miss Sushie


Paginação: Gabinete Gráfico Cavalo de Ferro

1.' edição, Fevereiro de 2007


Impressão e Acabamento: Gráfica Manuel Barbosa Et Filhos, Lda.
Depósito Legal: 252 667/07
ISBN: 978-989-623-039-5

Todos os direitos para publicação


em língua portuguesa reservados por:

e Cavalo de Ferro Editores, Lda.


Travessa dos Fiéis de Deus, 113
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sem a autorização prévia e por escrito do editor,
com excepção de excertos breves
usados para apresentação e critica da obra.
PREFÁCIO DA AUTORA
À SEGUN DA EDIÇÃO (1962)

«Sangue sábio» fez dez anos e continua vivo. As minhas capaci­


dades criticas não me permitem determinar mais que isto e
sinto-me grata por poder dizê-lo. O livro foi escrito com zelo e,
se possível, deve ser lido também com atenção zelo. É um
romance cómico sobre um cristão malgré lui e, como tal, é muito
sério, porque todos os romances cómicos que valem alguma
coisa são sobre assuntos de vida e morte. «Sangue sábio» foi
redigido por uma autora propositadamente inocente de teoria,
mas uma autora com preocupações claras. Que a crença em
Cristo, para alguns, assunto de vida e morte, tem constituído
uma pedra na calçada na qual tropeçam os leitores que teriam
preferido considerá-la um assunto de somenos importância. Para
esses, a integridade de Hazel Moses reside na sua vigorosa ten­
tativa de se livrar daquela figura maltrapilha que se move de
árvore em árvore no fundo da sua mente. Para a autora, a inte­
gridade de Hazel reside na sua incapacidade de o fazer. A inte­
gridade de uma pessoa encontrar-se-á sempre naquilo que não
consegue fazer? Penso que, em geral, sim, porque o livre-arbí­
trio não significa um só arbítrio, mas vários, que se confrontam
no mesmo individuo. A liberdade não pode ser concebida sim­
ples. É um mistério, um mistério que a um romance, mesmo um
romance cómico, apenas pode ser pedido que aprofunde.
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CAPÍTULO 1

Hazel Motes ia sentado no sentido da marcha do comboio,


no assento de riço verde, olhando ora para a janela, como
se quisesse saltar dali para fora, ora para a ponta do corre­
dor, no outro extremo da carruagem. O comboio precipi­
tava-se em frente, por entre copas de árvores que desaba­
vam de tempos a tempos, exibindo o sol muito vermelho na
orla dos bosques mais longínquos. Mais perto, os campos
arados encurvavam-se e desvaneciam-se e os poucos porcos
que fuçavam os sulcos pareciam enormes pedras manchadas.
A senhora Wally Bee Hitchcock, que estava sentada de frente
para Motes no mesmo compartimento, disse que, para ela,
esta tardinha assim era a hora mais bonita do dia e pergun­
tou-lhe se ele também não achava. Era uma mulher gorda,
com colarinhos e punhos cor-de-rosa e pernas em forma de
pêra, que se penduravam oblíquas do assento sem chegar ao
chão.
Ele olhou-a por um segundo e, sem responder, inclinou-se
para a frente e fitou novamente o fundo da carruagem. Ela
voltou-se para observar o que havia lá atrás, mas nada viu
além de uma criança espreitando por entre um dos compar­
timentos e o moço de fretes abrindo o armário onde se guar­
davam os lençóis.
8 o'CONNOR

«Imagino que você esteja a caminho de casa», disse ela,


voltando-se novamente para ele. Aos olhos dela, ele não apa­
rentava muito mais de vinte anos, mas trazia no colo um cha­
péu negro rígido e de aba larga, como o que um pregador
rural idoso usaria. O fato dele era de um azul coruscante e a
etiqueta com o preço ainda estava agrafada à manga.
Ele não lhe respondeu nem moveu o olhar do ponto que
estava a fitar, fosse ele qual fosse. O saco que tinha aos pés
era uma mala cilíndrica do exército, de tecido grosso, e ela
decidiu que ele, estivera na tropa e tinha sido dispensado, e
agora estava de regresso a casa. Ela quis aproximar-se o sufi­
ciente para conseguir ver quanto lhe tinha custado o fato,
mas em vez disso deu por si olhando de soslaio para os olhos
dele, quase tentando ver dentro deles. Tinham a cor de cas­
cas de noz e estavam encovados em órbitas fundas. O con­
torno do crânio debaixo da pele era óbvio e insistente.
Por fim, a senhora Hitchcock sentiu-se enfadada e desviou
a custo a atenção para longe dos olhos dele, esforçando a
vista para ler a etiqueta do preço. O fato custara-lhe onze
dólares e noventa e oito cêntimos. Ela achou que isso o iden­
tificava e olhou-lhe novamente o rosto, como se agora esti­
vesse fortalecida contra ele. O rapaz tinha um nariz como um
bico de picanço e uma longa prega vertical de ambos os lados
da boca. O cabelo dele parecia ter sido permanentemente
achatado pelo chapéu pesado, mas foram os olhos que atraí­
ram a atenção dela durante mais tempo. Eram tão fundos que
lhe pareciam quase passagens para outro local e ela inclinou­
-se para a frente, a meio caminho entre o espaço que sepa­
rava os dois assentos, tentando vislumbrar dentro deles. De
repente, ele voltou-se para a janela e, quase com a mesma
rapidez, regressou novamente ao ponto onde há pouco havia
fixado o olhar.
Quem ele olhava era o moço de fretes. Quando ele entrara
no comboio, o moço estava de pé entre duas carruagens
- um homem de estatura compacta com uma cabeça careca,
redonda e amarela. Haze detivera-se e os olhos do empregado
SANGUE SÁBIO 9

haviam-se virado na sua direcção e afastado logo de seguida,


indicando-lhe em que carruagem deveria entrar. Quando ele
se deixou ficar parado, o homem disse «Para a esquerda !», em
tom irritado, «para a esquerda». E Haze lá foi.
«Ah», disse a senhora Hitchcock, «não há lugar como a
nossa casa.»
Ele deitou-lhe um olhar rápido e viu-lhe o rosto achatado,
avermelhado debaixo de uma cobertura de cabelo cor de
raposa. Ela tinha entrado há duas estações. Ele nunca a vira
antes disso.
«Tenho de ir falar com o moço de fretes», disse ele. Levantou­
-se e encaminhou-se para o fundo da carruagem, onde o empre­
gado tinha começado a compor um beliche. Haze deteve-se ao
lado dele e inclinou-se sobre o braço de um assento, mas o moço
de fretes não o olhou. Estava ocupado a afastar uma parede
amovível de um compartimento.
«Quanto tempo demora a fazer uma cama?»
«Sete minutos», respondeu o empregado, sem o olhar.
Haze sentou-se no braço do assento. Disse: «Eu sou de
Eastrod.11
«Isso n'é nesta linha», disse o empregado. «'Cê 'tá no com­
boio errado.»
«Vou prà cidade», respondeu Haze. «0 qu'eu disse é que
cresci em Eastrod.»
O empregado não disse nada.
«Eastrod», repetiu Haze, mais alto.
O empregado baixou o estore com um puxão.
«Quer que lh'arranje o beliche agora, ou 'tá aí especado
pra quê?», perguntou-lhe.
«Eastrod», insistiu Haze. «Perto de Melsy.»
O empregado deu um puxão numa metade do assento e
rebateu-o. «Eu sou de Chicago», disse. Rebateu a outra metade
do assento. Quando se debruçou, a parte de trás do pescoço er­
gueu-se em três inchaços.
«Pois sim, deves ser mesmo», disse Haze, olhando-o de
lado.
10 O'CONNOR

«Tá c'os pés no meio do corredor. Alguém há-de querer


passar», disse o empregado, voltando-se de repente e passando
por ele bruscamente.
Haze levantou-se e deteve-se durante uns segundos. Parecia
que estava preso por uma corda amarrada a meio das costas e
atada ao tecto do comboio. Ficou a observar o empregado,
movendo-se pelo corredor abaixo num cambaleio rigorosamente
controlado e desaparecendo no outro extremo da carruagem. Ele
conhecia-o, sabia que era um dos Parrums, um preto de Eastrod.
Voltou ao seu compartimento e encolheu-se numa postura des­
leixada, apoiando um pé num cano que passava debaixo da
janela. Eastrod enchia-lhe a cabeça e depois espraiava-se lá para
fora e enchia o espaço que se estendia desde o comboio até aos
campos vazios e crepusculares. Haze viu as duas casas e a
estrada cor de ferrugem, as poucas barracas de pretos e o celeiro
e a cavalariça com o cartaz vermelho e branco, já a descolar-se
da parede, anunciando tabaco de mascar.
«Então você vai a caminho de casa?», perguntou a senhora
Hitchcock.
Ele olhou-a com ar amargo e agarrou o chapéu negro pela
aba.
«Nã, nã vou», respondeu, com a cortante voz aguda e nasal
do. Tennessee.
A senhora Hitchcock disse que ela também não. Contou­
-lhe que antes de casar tinha sido eleita Miss Weatherman e
que estava a caminho da Florida para visitar a filha casada,
Sarah Lucile. Disse que parecia que até agora nunca tinha tido
tempo para fazer uma viagem tão comprida. Da maneira como
as coisas acontecem, sempre uma atrás da outra, parecia que
o tempo passava tão depressa que nem dava para a gente
saber se estamos novos ou velhos.
Ele pensou consigo que podia dizer-lhe que estava velha,
se ela perguntasse. Depois de algum tempo, deixou de a escu­
tar. O moço de fretes voltou a percorrer o corredor e passou
por ele sem o olhar. A senhora Hitchcock perdeu o fio à
meada da sua tagarelice.
SANGUE SÁBIO 1 1

«Então você há-de estar a caminho d'ir visitar alguém?»,


perguntou.
«Vou pra Taulkinham11, respondeu ele, calcando-se contra
o assento e olhando pela j anela .. «Nã conheço lá ninguém,
mas vou lá fazer umas coisas. Vou lá fazer 'mas coisas que
nunca fiz antes», disse ele, lançando-lhe um olhar oblíquo e
torcendo ligeiramente a boca.
Ela referiu que conhecia um Albert Sparks que era de
Taulkinham. Disse que ele era cunhado da cunhada dela e que...
«Eu nã sou de Taulkinham», disse ele. «Eu disse que vou pra
lá, mai' nada.» A senhora Hitchcock recomeçou então a falar,
mas ele interrompeu-a e disse: «Aquele moço de fretes cresceu
no mesmo sítio qu'eu cresci, mas diz qu'é de Chicago.»
A senhora Hitchcock disse que conhecia um homem que
vivia em Chi...
«Tanto faz ir pra um sítio ou pra outro», afirmou ele. « É só
o que eu sei.»
A senhora Hitchcock disse que, bem, como o tempo voa !
Afirmou que já não via os filhos d a irmã h á cinco anos e que
não sabia se os reconhecia se os visse. Eles eram três, o Roy,
o Bubber e o John Wesley. O John Wesley tinha seis anos e
escrevera-lhe uma carta, querida Tianita. Eles chamavam-lhe
Tianita, e ao marido Tionito ...
«Na volta, 'cê acha que foi redimida», disse ele.
A senhora Hitchcock repuxou o colarinho da camisa.
«Na volta, 'cê acha que foi redimida», repetiu ele.
Ela corou. Depois de um instante disse que sim, a vida era
uma inspiração, e depois comentou que estava com fome e se
ele não queria ir até ao restaurante. Ele pôs o sombrio cha­
péu negro na cabeça e seguiu-a para fora da carruagem.
A carruagem-restaurante estava cheia e as pessoas espe­
ravam para entrar. Ele e a senhora Hitchcock aguardavam na
fila durante meia hora, oscilando no estreito corredor e esma­
gando-se de vez em quando contra a parede para deixar pas­
sar um gotejo de gente. A senhora Hitchock conversou com
a senhora que tinha ao seu lado. Hazel Motes olhou para a
12 ü'CONNOR

parede. A senhora Hitchcock contou à mulher que o marido


da irmã trabalhava para a Companhia Municipal das Águas
em Toolafalls, Alabama, e a senhora falou-lhe de uma prima
que tinha cancro da garganta. Por fim, chegaram quase até à
entrada do restaurante e conseguiram espreitar para dentro.
Havia um empregado acenando para indicar lugares às pes­
soas e entregando menus. Era um homem branco com cabelo
preto oleoso e um fato com um aspecto também negro e
oleoso. Movia-se como um corvo, precipitando-se de mesa
em mesa. Fez sinal a duas pessoas e a linha avançou, de modo
que Haze, a senhora Hitchcock e a senhora com quem ela
conversava se aprontaram para entrar a seguir. Passado um
minuto, mais duas pessoas saíram da carruagem. O empre­
gado fez sinal e a senhora Hitchcock e a outra mulher entra­
ram, Haze seguindo-as. O homem deteve-o e disse «Só duas
pessoas», e empurrou-o de volta à porta.
O rosto de Haze tingiu-se de um vermelho feroz. Tentou
pôr-se atrás da pessoa seguinte e depois furar a fila para vol­
tar para a carruagem de onde tinha vindo, mas havia dema­
siada gente aglomerada no caminho. Por isso, teve de ficar ali
de pé enquanto toda a gente em volta o mirava. Durante
algum tempo, ninguém saiu. Por fim, uma mulher no extremo
oposto da carruagem levantou-se e o empregado agitou a
mão. Haze hesitou e viu a mão agitar-se novamente. Depois,
lá cambaleou pelo corredor acima, caindo sobre duas mesas
pelo caminho e molhando a mão no café de algum passageiro.
O empregado sentou-o junto a três mulheres relativamente
jovens, vestidas como papagaios.
As mãos delas estavam pousadas sobre a mesa, as pontas
como lanças vermelhas. Ele sentou-se e limpou a mão à toa­
lha da mesa. Não tirou o chapéu. As mulheres já tinham aca­
bado de comer e estavam a fumar. Pararam de falar quando
ele se sentou. Ele apontou para o primeiro prato do menu e o
empregado, de pé, erguendo-se acima dele, disse: «Escreve
num papel, rapaz», e piscou o olho a uma das mulheres. Ela
fez um barulho com o nariz. Haze anotou o pedido e o empre-
SANGUE SÁBIO 13

gado levou-o consigo. Depois, deixou-se ficar sentado, olhando


em frente, mal humorado e intenso, fitando o pescoço da
mulher que tinha à sua frente. De vez em quando, a mão que
segurava o cigarro passava em frente do pescoço, desapare­
cia da vista dele e depois aparecia novamente, de volta ao
tampo da mesa. Após um segundo, uma linha recta de fumo
atingia-o no rosto. Depois de lhe ter sido soprado fumo três
ou quatro vezes, ele olhou a mulher. Ela tinha uma expressão
petulante, como uma galinhola, e pequenos olhos apontados
directamente contra ele.
«Se tu fostes redimida», disse ele, «eu não quero ser.»
Depois, voltou o rosto para a janela. Vislumbrou o seu pálido
reflexo, com o espaço escuro e vazio lá fora lamprjando por
entre os traços do seu rosto. Uma carroça passou a correr, cor­
tando o espaço vazio em dois, e uma das mulheres riu.
«Achas que eu acredito em Jesus?», disse ele, inclinando­
-se na direcção dela e falando quase como se estivesse sem
fôlego. «Pois, eu cá não acreditava nem s'Ele existisse. Nem
qu'Ele 'tivesse aqui neste comboio.»
«E quem disse que tinha de acreditar?», perguntou ela,
numa venenosa voz da costa leste.
Ele recuou.
O empregado trouxe-lhe o jantar. Haze começou a comer,
lentamente, a princípio, depois mais rapidamente, enquanto as
mulheres se concentravam na observação dos músculos que
lhe sobressaíam do maxilar enquanto mastigava. Ele estava a
comer qualquer coisa às manchas, com ovos e fígados. De­
pressa acabou a refeição, bebeu o café e tirou o dinheiro do
bolso. O empregado viu-o mas não aparecia para fazer a conta.
De cada vez que passava pela mesa, piscava o olho às mulhe­
res e fitava Haze. A senhora Hitchcock e a outra senhora já
tinham acabado a refeição e saído. Por fim, o homem veio e fez
a conta. Haze meteu-lhe o dinheiro na mão e empurrou-o para
o lado para sair da carru agem.
Durante uns instantes, deixou-se ficar de pé entre duas
carruagens, onde o ar era mais ou menos fresco, e enrolou
14 O'CONNOR

um cigarro. Depois, o moço de fretes passou entre as duas


carruagens.
«Ei, tu, Parrum11, chamou ele.
O homem não parou.
Haze seguiu-o pela carruagem dentro. Os beliches já
tinham sido todos compostos. O homem na estação em Melsy
tinha-lhe vendido um beliche porque lhe dissera que, nos
assentos mais baratos, ele teria de ir sentado a noite toda. Por
isso, vendera-lhe um beliche de cima. Haze foi até à cama,
puxou o saco para baixo, foi até ao lavabo e preparou-se para
a noite. Estava com a barriga demasiado cheia e com pressa
de se meter no beliche e deitar-se. Decidiu que ia ficar ali dei­
tado a olhar pela janela e a ver como o campo passa por um
comboio à noite. Um aviso dizia para chamar o moço de fre­
tes, para que ele ajudasse o passageiro a subir para os beli­
ches superiores. Haze voltou a pôr o saco em cima da cama
e saiu para procurar o empregado. Não o encontrou numa
extremidade do comboio e por isso meteu em direcção à outra.
Passando por uma esquina, esbarrou contra qualquer coisa
pesada e cor-de-rosa, que arfou e resmungou: «Desastrado !»
Era a senhora Hitchcock, numa capa cor-de-rosa, com o
cabelo em nós à volta da cabeça. Ela olhou-o com olhos semi­
cerrados, quase fechados. Os rolos emolduravam-lhe o rosto
como negros cogumelos venenosos. Ela tentou passar por ele
e ele tentou abrir caminho, mas ambos se moviam para o
mesmo lado a cada tentativa. O rosto dela tingiu-se de roxo,
com excepção de pequenas marcas brancas na testa que não
se inflamavam. Ela retesou-se, parou e disse: «Mas qual é o
seu problema?»
Ele esgueirou-se, passou por ela e meteu pelo corredor
abaixo a toda a pressa, indo esbarrar no moço de fretes, que
caiu para trás.
«Tens de me ajudar a subir pro beliche, Parrum», disse ele.
O empregado levantou-se e cambaleou pelo corredor fora.
Passado um minuto, regressou cambaleando novamente, o
rosto de pedra, com o escadote na mão. Haze observou-o
SANGUE SÁBIO 1 5

enquanto ele colocava o escadote em posição, depois come­


çou a subir. A meio caminho, voltou-se e disse: «Lembro-me
de ti. O teu pai era um preto chamado Cash Parrum. E tam'ém
agora nã podes voltar p'ra lá, nem tu nem ninguém, nem que
quisessem.»
«Eu sou de Chicago», disse o moço de fretes em tom irri­
tado. «Não me chamo Parrum.»
«0 Cash 'tá morto», disse Haze. «Apanhou cólera dum
porco.»
A boca do empregado entortou-se para baixo num trejeito
e ele disse:
«0 meu pai trabalhava nos caminhos-de-ferro.»
Haze riu. O moço agitou o escadote de repente, com uma
arrancada do braço que levou o rapaz a ter de agarrar o
cobertor da cama para não cair. Depois, deitou-se de barriga
para baixo durante uns· minutos sem se mexer. Passado um
pouco, voltou-se, encontrou a luz e olhou em volta. Não
havia janela. Ele estava fechado naquela coisa, apenas com
um pequeno espaço acima da cortina. O tecto do beliche era
baixo e curvo. Haze deixou-se ficar deitado e notou que o
tecto curvo parecia não estar completamente tapado. Era
como se estivesse a fechar-se. O rapaz ficou assim durante
um bocado, sem se mexer. Tinha na garganta algo que pare­
cia uma esponja com sabor a ovo e não queria virar-se de
lado, com medo que ela se movesse. Ele queria a luz desli­
gada e esticou o. braço para cima sem se voltar, tacteou em
busca do interruptor, premiu-o e a escuridão abateu-se sobre
ele. Logo depois, diluiu-se um pouco com a parca luz do cor­
redor que se escoava por aquele pedaço de espaço não tapado.
Haze queria tudo escuro, não queria o negrume diluído.
Escutou os passos do moço de fretes pelo corredor abaixo,
suaves sobre a alcatifa, avançando em passo certo, roçando
pelas cortinas verdes e desvanecendo-se do outro lado, longe
do ouvido. E mais tarde, quando já quase dormia, Haze escu­
tou-os novamente, de regresso. A cortina dele estremeceu e os
passos desvaneceram-se.
16 o'CONNOR

Na sua sonolência, Haze achou que o sítio onde estava


deitado era como um caixão. O primeiro caixão que Haze vira
com alguém lá dentro fora o do seu avô. Tinham-no deixado
aberto com um pau de lenha a segurar a tampa, na noite em
que deixaram o caixão em casa com o velho lá dentro, e Haze
observara à distância, pensando : ele nã vai deixar qu'o
fechem lá dentro. Quando chegar a altura, ele há-de meter o
cotovelo na abertura. O avô dele tinha sido um pregador iti­
nerante, um homem reprovador que percorrera três condados
com Jesus escondido na sua cabeça como um ferrão. Quando
chegou a altura de o enterrar, fecharam a tampa do caixão e
ele não mexeu um músculo.
Em tempos, Haze tinha tido dois irmãos mais novos. Um
morreu ainda bebé e foi posto num caixão pequenino. O outro
caiu em frente de uma máquina de ceifar quando tinha sete
anos. O caixão dele era mais ou menos do tamanho de um cai­
xão normal e quando o fecharam, Haze correu para ele e
abriu-o novamente. Disseram que foi por ele estar de coração
partido por se separar assim do irmão, mas não foi. Foi por­
que ele pensara, e se fosse ele lá dentro e eles lhe fechassem a
tampa na cara?
Agora tinha adormecido e sonhava que estava outra vez no
enterro do pai. Viu-o sentado, curvado sobre as mãos e os joe­
lhos dentro do caixão, a ser levado para o cemitério naquela
posição.
«S'eu ficar de ventas no ar», Haze ouviu o velho dizer,
«ninguém vai conseguir fechar nada em cima de mim.» Mas
quando levaram o caixão para junto da cova, os carregado­
res deixaram-no cair lá em baixo com um baque e o pai
espalmou-se contra o fundo do caixão, como toda a gente.
O comboio sacolejou e, agitando-o, despertou-o um pouco e
Haze pensou, nessa altura devia haver umas vinte e cinco pes­
soas em Eastrod, e três Motes. Agora já não havia lá Motes,
nem Ashfields, já não havia Blasengames, Feys, Jacksons ... ou
Parrums - já nem os pretos queriam nada com aquela terra.
Descrevendo uma curva na estrada, Haze avistou no escuro a
SANGUE SÁBIO 17

loj a entaipada e o celeiro inclinado e a casa mais pequena já


meio levada pelo tempo, o alpendre desaparecido e a entrada
já sem chão.
Não era nada assim quando ele tinha dezoito anos e dei­
xara a terra. Nessa altura ainda lá havia dez pessoas e ele
nem sequer reparara que o sítio tinha ficado mais pequeno
desde os tempos do pai dele. Haze deixara Eastrod aos
dezoito anos porque o exército o chamara. A princípio, pen­
sou que o melhor era dar um tiro no pé e não ir. Ele ia ser
pregador, como o avô, e um pregador pode sempre passar
sem um pé. O poder do pregador está no pescoço, na língua,
no braço. O avô dele percorrera três condados num Ford. Um
sábado por mês, ia até Eastrod, como se chegasse mesmo a
tempo de os salvar a todos do Inferno, e ainda nem tinha a
porta do carro aberta e j á ele bramia. As pessoas juntavam­
-se à volta do seu Ford porque ele parecia desafiá-las a fazer
isso mesmo. Ele trepava para a capota do carro e pregava ali
em cima, e às vezes subia até ao tejadilho e bradava às pes­
soas lá em baixo. Eles eram como pedras !, bramia ele. Mas
Jesus morrera para os redimir! Jesus tinha tanta fome de
almas que morrera uma morte por todos, mas podia bem ter
morrido uma morte por cada alma ! Mas eles percebiam isso?
Será que entendiam que, por cada alma de pedra, Jesus teria
morrido dez milhões de mortes, teria tido os braços e as per­
nas estendidos na cruz e pregados dez milhões de vezes por
cada um deles? (O velho apontava então para o neto, Haze.
Sentia por ele um especial desrespeito porque o seu próprio
rosto estava replicado quase exactamente no rosto da criança
e parecia troçar de si.) Será que eles percebiam que até por
aquele rapaz, aquele rapaz mau, pecador e desassisado que ali
estava de braços caídos a cerrar e a abrir as mãos suj as, Jesus
teria morrido dez milhões de mortes só para não deixar que
o rapaz perdesse a alma? Jesus teria perseguido o rapaz pelas
águas do pecado fora ! E duvidavam eles que Jesus fosse
capaz de andar sobre as águas do pecado? Aquele rapaz tinha
sido redimido e Jesus não o abandonaria nunca. Jesus nunca
18 O'CONNOR

o deixaria esquecer que estava redimido. O que é que o peca­


dor achava que tinha a ganhar? No fim, estaria entregue a
Jesus !
O rapaz não precisava de escutar aquilo. Já tinha dentro
de si uma instintiva convicção, negra e profunda, de que a
forma de evitar Jesus era evitar o pecado. Quando chegou aos
doze anos, já ele sabia que viria a ser pregador. Mais tarde,
Haze viu Jesus movendo-se de árvore em árvore nos confins
da sua mente, uma figura bruta e esfarrapada acenando-lhe
para que desse meia volta e o seguisse para dentro da escu­
ridão, onde não conseguiria ver bem onde punha os pés, onde
poderia pôr-se a caminhar sobre água sem o saber e de
repente perceber e afogar-se. Onde ele queria ficar era em
Eastrod, com os dois olhos abertos e as mãos sempre ocupa­
das com coisas familiares, os pés no caminho que já conhe­
cia e a língua não demasiado solta. Quando fez dezoito anos
e o exército o chamou, ele viu a guerra como um truque para
o levar a cair em tentação, e teria dado um tiro no pé, não
fosse ter suficiente confiança em si próprio para saber que
regressaria dentro de meses, inadulterado. Haze tinha uma
forte confiança no seu poder de resistir ao mal. Era algo,
como o rosto, que herdara do avô. Achou que se o governo
não o tivesse deixado em paz passados quatro meses, viria
embora na mesma. Pensara, nessa altura, aos dezoito anos,
que lhes daria precisamente quatro meses do seu tempo.
Esteve fora quatro anos. Nunca veio a casa, nem sequer para
uma visita.
As únicas coisas de Eastrod que levou consigo para o exér­
cito foram uma Bíblia negra e uns óculos de aros de prata que
haviam pertencido à mãe. Haze andara numa escola rural
onde lhe ensinaram a ler e a escrever mas em que aprendeu
também que era mais sensato não o fazer. A Bíblia era o
único livro que lia. Não a lia muitas vezes, mas sempre que
abria o livro, lia-o com os óculos da mãe. Os óculos cansa­
vam-lhe a vista, pelo que, passado pouco tempo, ele era obri­
gado a parar. A qualquer pessoa no exército que o convidasse
SANGUE SÁBIO 1 9

a pecar, Haze tencionava dizer que era de Eastrod, Tennessee,


e que fazia tenções de voltar para lá e por lá ficar, que ia pre­
gar o evangelho e que não deixaria que nem o governo nem
nenhum sítio estrangeiro para onde o mandassem lhe des­
graçassem a alma.
Passadas algumas semanas no quartel, onde ele tinha
alguns amigos (na verdade, não eram seus amigos, mas ele
tinha de viver com eles), Haze recebeu por fim a oportuni­
dade por que esperava: o convite. Então, tirou os óculos da
mãe do bolso e pô-los. E disse-lhes que não ia com eles nem
por um milhão de dólares e uma cama de penas para se dei­
tar. Disse-lhes que vinha de Eastrod, Tennessee, e que não ia
desgraçar a alma nem pelo governo nem por nenhum sítio
estrangeiro que ... mas a voz quebrou-se-lhe e ele não acabou
a frase. Limitou-se a fixá-los, tentando endurecer o tosto. Os
amigos disseram-lhe que ninguém queria saber da porca da
alma dele para nada, a não ser o padre, e ele lá conseguiu
ripostar que padre nenhum às ordens de papa nenhum lhe ia
pôr as mãos na alma. Eles disseram que ele não tinha alma e
saíram para ir ao bordel.
Haze demorou muito tempo a acreditar neles porque que­
ria acreditar neles. Tudo o que ele queria era acreditar neles
e livrar-se daquilo de uma vez por todas, e viu aqui a opor­
tunidade de se ver livre daquilo sem adulteração, de se con­
verter a nada, em vez de ao mal. O exército enviou-o para o
outro lado do mundo e esqueceu-o. Ele foi ferido e eles lem­
braram-se dele durante tempo suficiente para lhe tirar o esti­
lhaço do peito - eles bem disseram que o tinham tirado, mas
nunca lho mostraram, e ele ainda o sentia lá dentro, enferru­
jado e envenenando-o. Depois, mandaram-no para outro
deserto e esqueceram-no novamente. Ele teve todo o tempo
do mundo para estudar a sua alma e se assegurar de que ela
não existia. Quando se convenceu completamente, viu que
esta era uma coisa que sempre soubera. A infelicidade que
sentia eram saudades de casa, não tinha nada a ver com
Jesus. Quando o exército finalmente o deixou ir, Haze foi,
20 O'CONNOR

achando, feliz, que continuava inadulterado. Tudo o que ele


queria era regressar a Eastrod, Tennessee. A Bíblia negra e os
óculos da mãe continuavam no fundo do saco. Agora, Haze
já não lia livro nenhum, mas guardava ainda a Bíblia porque
a tinha trazido de casa. Guardava os óculos para o caso de a
vista algum dia se lhe turvar.
Assim que o exército o libertou, dois dias antes, numa
cidade a cerca de quatrocentos e cinquenta quilómetros a
norte do sítio onde ele queria estar, Haze dirigiu-se imediata­
mente à estação de comboios e comprou um bilhete para
Melsy, a estação mais próxima de Eastrod. Depois, já que
tinha de esperar quatro horas pelo comboio, foi até uma
escura loja de artigos vários perto da estação. Era uma loja
estreita, com cheiro a cartão, que ficava cada vez mais escura
quanto mais nela se entrava. Haze foi mesmo até ao fundo,
onde lhe venderam um fato azul e um chapéu negro. Pediu
que lhe pusessem o uniforme do exército num saco de papel
e meteu-o num caixote do lixo a um canto. Uma vez lá fora,
à luz do Sol, o fato novo cobriu-se de um azul coruscante e
as linhas do chapéu pareceram retesar-se severamente.
Às cinco da tarde estava em Melsy, onde apanhou boleia
de uma carrinha com sementes de algodão, que o levou a mais
de metade da distância que o separava de Eastrod. O resto do
caminho foi percorrido a pé e Haze chegou ao destino às nove
da noite, logo depois de escurecer. A casa estava escura como
a noite e aberta ao negrume, e apesar de ele ter reparado que
a vedação em volta estava meio caída e que ervas daninhas
cresciam por todo o chão do alpendre, não percebeu de ime­
diato que a casa era apenas uma concha vazia, que já não
havia ali nada para além do esqueleto de uma casa. Haze tor­
ceu um envelope, acendeu-o com um fósforo e percorreu todas
as divisões vazias no andar de cima e no de baixo. Quando o
envelope se consumiu, ele acendeu outro e percorreu as divi­
sões todas outra vez. Nessa noite, dormiu no chão da cozinha
e uma tábua caiu do tecto em cima da cabeça dele e cortou­
-lhe o rosto.
SANGUE SÁBIO 2 1

Não havia nada em casa além da cómoda na cozinha.


A mãe dele dormira sempre na cozinha e era ali que ela guar­
dava a sua cómoda de nogueira. Pagara trinta dólares por ela
e nunca mais comprara nada caro para si. Quem quer que
fosse que tivesse levado tudo o resto, havia deixado aquela
cómoda. Haze abriu as gavetas todas. Na primeira, havia dois
cabos de cordel e as outras estavam vazias.· Ele achou sur­
preendente que ninguém tivesse ido lá roubar um armário
daqueles. Tirou então o cordel, atou-o em volta das pernas da
cómoda, passou-o por debaixo das tábuas do chão e deixou
um recado em cada uma das gavetas : ESTE ALMÁRIO PERTENCE
A HAZEL MOTES. NÃO O ROUBES, SENÃO EU DOU-TE CAÇA E MATO-TE.
Na sua sonolência, Haze pensou nessa cómoda e decidiu
que a mãe ficaria mais descansada na sua sepultura sabendo
que a mobília estava bem guardada. Se ela aparecesse a
alguma hora da noite à procura, ela lá estaria. Ele perguntou­
-se se ela andaria à noite e se alguma vez ia até à casa. Ela
entraria com aquela expressão no rosto, sem descanso e pro­
curando, a mesma expressão que ele entrevira pela abertura
do caixão. Ele vira o rosto dela pela ranhura, mesmo quando
eles estavam a fechar a tampa em cima dela. Tinha dezasseis
anos. Ele vira a sombra que pousara sobre o rosto dela e lhe
puxara a boca para baixo, como se ela não estivesse mais
satisfeita morta do que quando foi viva, como se estivesse
prestes a sentar-se de repente, empurrar a tampa com força e
voar dali para fora para ir satisfazer-se. Mas eles fecharam a
tampa. E, se calhar, ela tinha estado prestes a voar para longe,
prestes a saltar dali para fora. Ele viu-a no sono, terrivel,
como um enorme morcego, saltando debaixo da tampa,
voando dali para fora, mas a escuridão estava a cair sobre ela,
encerrando-a sempre ali. Do lado de dentro, ele viu a tampa a
fechar-se, a cair cada vez mais perto, cada vez mais baixa,
cortando a luz e apagando a sala. Ele abriu os olhos e viu-a
fechar-se e saltou para a abertura, entalou a cabeça e os
ombros na ranhura e ficou ali pendurado, tonto, com a luz
fraca do comboio lentamente exibindo a alcatifa lá em baixo.
22 ü ' CONNOR

Ficou ali pendurado, por cima da cortina do beliche, e viu o


moço de fretes na outra ponta da carruagem, uma figura
branca na escuridão, de pé, olhando-o sem se mexer.
«Estou enjoado !», chamou ele. «Nã posso ficar aqui fechado
nesta coisa. Tira-me daqui!»
O moço deixou-se estar de pé, observando-o, e não se mexeu.
«Jesus Cristo», disse Haze. «Ai, Jesus.»
O moço não se mexeu.
«Jesus já se foi há muito tempo», disse ele, numa voz azeda
e triunfante.
CAPÍTULO 2

Haze não chegou à cidade senão às seis da tarde do dia


seguinte. Nessa manhã, ele saíra do comboio durante uma
paragem num entroncamento para apanhar ar e, enquanto
estava a olhar para outro lado, o comboio deslizara para
longe. Haze correra para o alcançar, mas o chapéu voara-lhe
da cabeça e ele tivera de correr na direcção oposta para sal­
var o chapéu. Felizmente, tinha trazido o seu saco do exér­
cito consigo, não fosse alguém roubar alguma coisa lá de
dentro. Teve então de esperar seis horas no entroncamento
até que o comboio certo chegasse.
Quando chegou a Taulkinham, assim que saiu do com­
boio, começou a ver cartazes e luzes. AMENDOINS, WESTERN
UNION, AJAX, TAXI, HOTEL, REBUÇADOS. A maioria eram sinais
luminosos que se moviam para cima e para baixo ou pisca­
vam freneticamente. Haze caminhou muito devagar, carre­
gando o saco cilíndrico pelo pescoço. A cabeça virava-se
para um lado e depois para o outro, olhando primeiro um
sinal e depois outro. Ele percorreu toda a estação e depois
voltou para trás, como se fosse meter-se novamente no com­
boio. O rosto dele estava austero e determinado, debaixo do
pesado chapéu. Quem o observasse nunca adivinharia que ele
não tinha para onde ir. Haze andou pela apinhada sala de
24 ü 'CONNOR

espera duas ou três vezes mas não quis sentar-se nos bancos.
Queria ir para um sítio onde tivesse alguma privacidade.
Por fim, abriu com um empurrão uma porta num dos
extremos da estação, onde um simples cartaz a preto e branco
anunciava wc HOMENS. BRANCOS. Entrou numa divisão estreita
com lavatórios alinhados de um lado e uma fila de compar­
timentos de madeira do outro. As paredes desta divisão
tinham em tempos sido de um amarelo colorido e alegre, mas
agora estavam quase verdes e decoradas com escritos e
vários desenhos retratando pormenorizadamente as partes do
corpo de homens e mulheres. Alguns dos compartimentos das
sanitas tinham portas, e numa delas estava escrita em letras
bem grandes, com o que parecia ser um lápis de cera, a pala­
vra BEM-VINDO, seguida de três pontos de exclamação e um
traço que parecia uma cobra. Haze entrou neste comparti­
mento.
Já estava sentado naquele caixote estreito há bastante
tempo, observando as inscrições nas paredes e na porta,
quando reparou numa que estava à esquerda, por cima do
papel higiénico. Estava escrita numa caligrafia que parecia
embriagada e dizia:

Senhora Leora Watts !


Buckley Road, n. 60
º

A cama mais quente da cidade ! Irmão

Passado um instante, Haze tirou um lápis do bolso e ano­


tou a morada nas costas de um envelope.
Na ma, apanhou um táxi amarelo e disse ao condutor
onde queria ir. O motorista era um homem pequeno, com um
grande boné de cabedal na cabeça e a ponta de um charuto
a sair-lhe do meio da boca. Já tinham avançado alguns quar­
teirões quando Haze notou que o taxista o olhava de soslaio
pelo espelho retrovisor.
«'Cê nã é amigo dela, ou é?», perguntou.
«Nunca a vi na vida.»
SANGUE SÁBIO 25

«Ünd'é qu'ouviu falar dela? Ela normalmente nã tem pre­


gadores pra lhe fazer companhia.» Falava sem mudar a posi­
ção do charuto. Era capaz de falar só com os cantos da boca.
«Nã sou pregador nenhum», respondeu Haze franzindo o
sobrolho. «Só vi o nome dela na retrete.»
«Mas parece», comentou o motorista. «Esse chapéu parece
de pregador.»
«Mas nã é11, ripostou Haze, inclinando-se para a frente e
agarrando as costas do banco da frente. «É só um chapéu.11
O carrou parou em frente a uma pequena casa de um só
andar entre uma bomba de gasolina e uma parcela de terreno
baldio. Haze apeou-se e pagou a corrida pela janela.
« É que n'é só o chapéu», insistiu o taxista. «É assim um ar
na sua cara, nã sei bem onde.11
«Escute», disse Haze, inclinando o chapéu sobre um dos
olhos, «nã sou pregador nenhum».
«'Tou percebendo», disse o taxista. «N'há cá gente perfeita
nesta terra de Nosso Senhor, nem os pregadores nem mai'
ninguém. E a gente pode dizer melhor ós outros com'o pecado
é terrivel s'a gente soubermos por exp'riência própria.»
Haze meteu a cabeça pela janela, batendo com o chapéu e
endireitando-o acidentalmente. Parecia também ter endirei­
tado o rosto, porque ficou absolutamente sem expressão. «Es­
cute», disse ele. «Meta 'ma coisa na cabeça: eu não acredito
em nada.»
O taxista tirou a beata do charuto da boca.
«Nem em coisa nenhuma, mesmo?», perguntou, deixando
a boca aberta depois de fazer a pergunta.
«E nã tenho qu'andar a repetir pra ninguém», disse Haze.
O taxista fechou a boca e, passado um segundo, voltou a
meter a ponta do charuto aos lábios.
«É o mal de vocês pregadores», disse ele. «Agora 'té se acham
bons de mais pra acreditar nalguma coisa.» E arrancou, com
uma expressão de nojo e de superioridade moral.
Haze voltou-se e olhou para a casa em que estava prestes
a entrar. Era pouco mais do que uma barraca mas tinha uma
26 ü 'CONNOR

luz calorosa numa das janelas dianteiras. Haze subiu ao


alpendre, espreitou por uma conveniente racha aberta no
estore e deu por si olhando directamente para um grande joe­
lho branco. Passado algum tempo, afastou-se da racha e ten­
tou abrir a porta da frente. Esta não estava trancada e ele
transpô-la para entrar num pequeno vestíbulo escuro com
duas portas de cada lado. A porta à esquerda estava entrea­
berta e deixava escoar um pequeno fio de luz. Haze inclinou­
-se na direcção da luz e olhou pela frincha.
A senhora Watts estava sentada sozinha numa cama
branca de ferro, cortando as unhas dos pés com uma tesoura
grande. Era uma mulher corpulenta, com cabelo muito ama­
relo e pele branca que reluzia com um qualquer creme gor­
duroso. Tinha vestida uma camisa de noite cor-de-rosa, que
serviria melhor a uma mulher de figura mais pequena.
Haze fez um barulho com a maçaneta e ela levantou o
olhar e observou-o, de pé atrás da frincha. O seu olhar era
ousado, forte e penetrante. Passado um minuto, desviou os
olhos dele e recomeçou a cortar as unhas. Ele entrou e dei­
xou-se ficar de pé, olhando em volta. Não havia grande coisa
no quarto além da cama, uma cómoda e uma cadeira de
baloiço cheia de roupa suja. Haze foi até à cómoda e mexeu
numa lima de unhas e depois num frasco de geleia vazio
enquanto olhava para o espelho amarelecido, observando a
senhora Watts, ligeiramente distorcida, sorrindo-lhe. Os sen­
tidos dele estavam agitados até ao limite, Ele voltou-se rapi­
damente, foi até à cama dela e sentou-se no extremo oposto.
Depois, inspirou profundamente por uma narina e começou a
passar a mão cuidadosamente pelo lençol.
A ponta cor-de-rosa da língua da senhora Watts apareceu
discreta e humedeceu o lábio inferior. Ela parecia tão con­
tente por o ver como se ele fosse um velho amigo, mas não
disse nada.
Ele pegou-lhe no pé, que era pesado mas não estava frio,
moveu-o uns centímetros para o lado e manteve a mão sobre
ele.
SANGUE SÁBIO 27

A boca da senhora Watts abriu-se num sorriso rasgado


que lhe revelou os dentes. Eram pequenos, pontiagudos e
manchados de verde e havia um grande espaço entre cada um
deles. Ela estendeu a mão e agarrou o braço de Haze acima
do cotovelo.
«Andas à caça d'alguma coisa?», ronronou ela.
Se ela não o tivesse agarrado com tanta firmeza, ele pode­
ria ter saltado pela janela. Involuntariamente, os lábios dele
formaram as palavras «Sim, 'nha senhora», mas ele não emi­
tiu nenhum som.
«'Tás preocupado com alguma coisa?», perguntou a senhora
Watts, puxando o corpo rígido dele um pouco mais perto.
«Olhe», disse ele, esforçando-se para manter a voz sob con­
trolo, «eu vim prà coisa do costume.»
A boca da senhora Watts arrendondou-se, como se ela esti­
vesse perplexa ante este desperdício de palavras. «Ora, faz como
em tua casa», limitou-se a dizer.
Olharam-se então fixamente durante quase um minuto e
nenhum deles se mexeu. Depois, ele afirmou, num tom de voz
mais agudo do que a sua voz usual :
«0 qu'eu quero qu'a senhora saiba é qu'eu nã sou nenhum
raio de nenhum pregador.»
A senhora Watts olhou-o fixamente apenas com um
ligeiro sorriso. Depois, pôs a outra mão debaixo do rosto dele
e acariciou-o de forma maternal.
«Tudo bem, filho», disse ela. «Aqui a mamã nã se rala que
nã sejas pregador.»
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CAPÍTULO 3

Na sua segunda noite em Taulkinham, Hazel Motes deambu­


lou pela baixa da cidade, passando perto das montras das
loj as mas sem as olhar. O céu negro estava como que pregado
sobre longos veios de prata que pareciam andaimes, e em
cada profundeza por detrás dele, milhares de estrelas pare­
ciam mover-se muito lentamente, como se estivessem ocupa­
das com um vasto trabalho de construção que envolvia toda
a ordem do universo e que demoraria todo o tempo do mundo
a acabar. Mas ninguém prestava atenção ao céu. As lojas em
Taulkinham ficavam abertas às quintas- feiras à noite, para
que as pessoas tivessem mais uma oportunidade para ver o
que havia à venda. A sombra de Haze estava ora atrás de si,
ora à sua frente, de vez em quando quebrada pelas sombras
de outras pessoas, mas quando aparecia sozinha, estendida
atrás dele, era uma sombra magra e nervosa caminhando às
arrecuas. O pescoço dele estava esticado para a frente, como
se ele estivesse tentando cheirar qualquer coisa que estava
constantemente a ser afastada do seu alcance. A luz faiscante
das montras das lojas fazia com que o seu fato parecesse
roxo.
Passado um bocado, ele deteve-se perto de um homem de
rosto magro, que tinha montado uma mesa desdobrável em
30 ü 'CONNOR

frente a uma loj a e estava a demonstrár um descascador de


batatas. O homem envergava um pequeno chapéu de lona e
uma camisa estampada com grupos de faisões, codornizes e
perus de pernas para o ar. Falava projectando a voz abaixo
dos ruídos da rua, de modo que alcançava todos os ouvidos
distintamente, como numa conversa privada. Algumas pes­
soas juntaram-se em seu redor. Em cima da mesa desmontá­
vel havia dois baldes, um vazio e o outro cheio de batatas.
Entre os dois baldes, uma pirâmide de caixas de cartão ver­
des e, no topo da pilha, um descascador aberto para demons­
tração. O homem estava de pé, de frente para este altar, apon­
tando por cima dele a várias pessoas.
«E atão tu?», disse ele, apontando para um rapaz borbu­
lhoso de cabelo húmido. «Nã vais deixar fugir um destes, ou
vais?» E meteu uma batata num dos lados da máquina aberta.
O aparelho era uma caixa de latão quadrada com uma mani­
vela vermelha, e, ao rodá-la, a batata entrou na caixa e, pas­
sado um segundo, saiu pelo outro lado, branca. «Nã vais dei­
xar fugir um destes !», repetiu.
O rapaz soltou uma gargalhada de espanto e olhou para
as outras pessoas reunidas em volta. Tinha cabelo amarelo e
um rosto de raposa.
«Com'é que te chamas?», perguntou o homem do descas­
cador.
«Chamo-m' Enoch Emery», disse o rapaz, fungando.
«Rapaz c'um nome bonito assim devia ter 'ma coisa des­
tas», disse o homem, revirando os olhos, tentando aquecer o
resto da assistência. Ninguém se riu, à excepção do rapaz.
E então, um homem que estava de pé em frente a Hazel Motes
riu, não um riso agradável mas uma gargalhada fria e afiada.
Era um homem alto e cadavérico, vestido com um fato e cha­
péu negros. Tinha também óculos escuros e as bochechas
estavam riscadas com linhas que pareciam ter-lhe sido pinta­
das no rosto mas esbatidas com o tempo. Davam-lhe a expres­
são de um macaco sorridente. Assim que soltou a sua garga­
lhada, começou a avançar de modo deliberado, chocalhando
SANGUE SÁBIO 3 1

uma caneca d e latão numa mão e, com a outra, tacteando o


caminho à sua frente com uma cana branca. Imediatamente
atrás de si vinha uma criança, distribuindo panfletos. Esta
envergava um vestido negro e um boné preto de lã puxado
sobre a testa, com duas madeixas de cabelo castanho de fora,
emoldurando-lhe o rosto oblongo e de nariz curto e ossudo.
O vendedor de descascadores irritou-se ao verificar que as pes­
soas olhavam este par, em vez de o olhar a si.
«E que tal você, você aí», disse ele, apontando para Haze.
«Você nunc' há-d' encontrar uma pechincha destas em loja
nenhuma.»
Haze estava a olhar o cego e a rapariga.
«Ei !11, exclamou Enoch Emery, estendendo um braço por
detrás de uma mulher e dando um soco no braço de Haze.
«Ele 'tá falando contigo ! 'Tá falando contigo !» Enoch teve de
lhe dar outro soco antes que Haze olhasse para o vendedor.
«Atã nã quer levar um destes p'ra casa p'rá patroa?», per­
guntou o vendedor.
«Nã tenho», murmurou Haze olhando novamente para o
cego.
«Ora, há-des ter uma querida mãezinha, então.»
«Não.»
«Homessa !», exclamou o homem, com a mão em concha
voltada para as pessoas, «aqui o rapaz precisa dum destes
descascadores só pra lhe fazer companhia.»
Enoch Emery achou tanta piada que se curvou para a
frente e bateu no joelho com a mão, mas Hazel Motes pare­
ceu nem sequer ter ouvido.
«Ora, pois eu vou dar de graça uma meia dúzia de batatas
descascadinhas ó primeiro que comprar uma destas maravi­
lhas», anunciou o homem. «Quem é que vai ser o primeiro?
É só dólar e meio por uma máquina qu'havia de vos custar
três dólares em qualquer loja!»
Enoch Emery começou a remexer os bolsos.
«Hão-de benzer o dia em que pararam aqui», ia dizendo o
homem. «Isto é dia que nunca mais hão-d'esquecer. Cada um
32 o'CONNOR

de vocês que comprar uma destas máquinas aqui nunca mais


há-d'esquecer o dia !»
O cego continuava lentamente caminhando em frente,
repetindo uma ladainha de murmúrios confusos : «Ajudai um
pregador ceguinho. Se não se penitenciam, ó menos dispen­
sem um tostão, qu'eu dou-lhe tão bom uso como vocês.
Ajudem um pregador ceguinho desempregado. Nã preferem
qu'eu ande a pedir em vez d'andar a pregar? Vá lá, se não se
penitenciam, ó menos dêem um tostão.»
Não havia muita gente ali reunida, mas os poucos que por
lá estavam começaram a dispersar. Quando o vendedor repa­
rou, inclinou-se, lançando olhares ferozes por cima da mesa
desdobrável.
«Ei, tu !», bradou ele ao cego. «Qu'é qu'achas qu'andas a
fazer? Achas qu'és o quê, a afastar as pessoas daqui?» O cego
não lhe prestou atenção. Continuou a chocalhar a caneca e
a criança a distribuir os panfletos. O cego passou por Enoch
e veio na direcção de Haze, batendo-lhe com a cana na
perna. Haze debruçou-se para a frente e viu que as linhas
que ele tinha no rosto não haviam sido pintadas. Eram cica­
trizes.
«Qu'é qu'achas qu'isto é, demónios?», berrou o vendedor.
«Eu é que juntei esta gente toda, achas qu'é só chegar e apro­
veitar?»
A rapariga estendeu um dos panfletos a flaze e ele agar­
rou,..o . As palavras impressas no lado de fora diziam: «Jesus
chama-te.»
«Ü qu'eu gostava de saber é quem é que julgas que és,
miserável !», ia bradando o vendedor. A rapariga recuou até
ao sítio onde ele estava e deu-lhe um folheto. Ele mirou o
papel durante um instante com o lábio soerguido e depois
precipitou-se sobre a mesa desdobrável, virando o balde de
batatas de pernas para o ar.
«Estes malditos fanáticos», berrou, olhando furioso em
volta, tentando encontrar o cego. Mais gente começou a jun­
tar-se, na esperança de assistir a alguma bulha. «Estes maldi-
SANGUE SÁBIO 33

tos estrangeiros comunas !», berrava o vendedor. «Eu é que


juntei esta gente toda !» E deteve-se, apercebendo-se de que já
tinha, de facto, uma pequena multidão. «Pronto, pronto,
minha gente», disse ele, «Um de cada vez, há que chegue pra
toda a gente, n'é preciso empurrar. Meia dúzia de batatas des­
cascadas pro primeiro que vier aqui comprar.» Endireitou-se
novamente atrás da mesa desdobrável, calmo, e começou a
erguer as caixas de cartão no ar. «É só chegar aqui, há que
chegue pra todos», disse. «N'é preciso vir ao molho.»
Haze não chegou a abrir o seu folheto. Olhou só para a
folha de rosto e rasgou-o ao meio. Depois, juntou as duas
metades e rasgou mais uma vez. E continuou sempre jun­
tando os bocados e rasgando novamente até ter uma mão
cheia de papelinhos. Por fim, virou a mão ao contrário e dei­
xou que os papelinhos salpicassem o chão. Quando olhou
para cima, viu a filha do cego a menos de um metro de dis­
tância, observando-o. Tinha a boca aberta e os olhos cintila­
vam na direcção dele como duas lascas de vidro verde. Trazia
um tosco saco de lona branca ao ombro. Haze lançou-lhe um
trejeito reprovador e começou a esfregar as mãos sujas nas
calças.
«Eu vi-te», disse ela. Depois, caminhou rapidamente para
junto do cego, que estava ao lado da mesa desmontável, virou
a cabeça e mirou Haze de longe. A maioria das pessoas já tinha
debandado.
O vendedor de descascadores inclinou-se sobre a mesa e
disse «Ei !», ao cego, «Pra aprenderes. A tentar roubar-me a
.
clientela!»
«'Esculpe», interrompeu Enoch Emery, «eu só tenh'aqui um
dólar e dezasseis, mas ... »
«Ah !», continuou o vendedor, «acho qu'assim, qu'aprendes
qu'isto comigo nã é só chegar e andar. Vendi oito descasca­
dores, pois ... »
«Dê-m'um deles», disse a filha do cego apontando para os
descascadores.
«Hã ... », fez ele.
34 ü ' CONNOR

A rapariga estava a desatar um lenço. Do canto atado do


lenço tirou duas moedas de cinquenta cêntimos. «Dê-m'um
deles», repetiu, estendendo o dinheiro.
O homem deitou um olhar às moedas com a boca curvada
para um canto.
« É dólar e meio, 'nha amiga», respondeu.
Ela recolheu o dinheiro num ápice e lançou imediata­
mente um olhar intenso a Hazel Motes, como se ele tivesse
feito algum ruído para a arreliar. O cego já estava seguindo
caminho. A rapariga deteve-se mais um instante, olhando
Haze, e por fim voltou-se e seguiu o cego. Haze estremeceu.
«Escute», disse Enoch Emery, «eu só tenh'um dólar e dezas­
seis cêntimos, mas quero uma dessas ... »
«Fica c'o dinheiro», ripostou o homem, tirando o balde de
cima da mesa. «A gente aqui nã faz desconto.»
Haze vislumbrava ainda o cego descendo a rua, já a
alguma distância. Deixou-se ficar de pé, olhando-o, pondo e
tirando as mãos de dentro dos bolsos, como se estivesse a ten­
tar andar para a frente e para trás ao mesmo tempo. Depois,
repentinamente, meteu dois dólares na mão do vendedor,
arrebatou uma caixa de cima da mesa e desatou a correr pela
rua abaixo. Passado um segundo, já tinha Enoch Emery ofe­
gando junto ao seu cotovelo.
«Homessa, deves ter um monte de massa», comentou ele.
Haze viu a criança alcançar o cego e lev:á-lo pelo coto­
velo. Estavam um quarteirão mais à frente. Haze abrandou
um pouco o passo e reparou em Enoch Emery ao seu lado.
Enoch envergava um fato branco amarelado e uma camisa
branca desbotada de cor-de-rosa e tinha um laço cor de ervi­
lha. Sorria. Parecia um simpático cão de caça ligeiramente
sarnento.
«'Tás na cidade há quanto tempo ?11, perguntou ele.
«Dois dias», murmurou Haze.
«Eu 'tou cá há dois meses», continuou Enoch. «Trabalho
prà câm'ra. Tu trabalhas onde?»
«Nã trabalho», disse Haze.
SANGUE SÁBIO 35

«lss'é qu'é uma pena», respondeu Enoch. «Eu trabalho prà


câm'ra.» Saltitou uma vez para alinhar o passo com Haze e
disse: «Eu só tenho dezoito anos, nã tou aqui nem há dois
meses e já trabalho prà câm'ra.»
«Ainda bem», disse Haze. E puxou o chapéu mais para
baixo, do lado em que Enoch caminhava, e estugou ainda
mais o passo. O cego lá à frente começou a fazer vénias, em
jeito de troça, para a esquerda e para a direita.
«Nã ouvi bem o teu nome há bocado», disse Enoch.
Haze disse o seu nome.
«'Té parece qu'andas atrás daqueles campónios ali», comen­
tou Enoch. «Metes-te muito nessas conversas de Jesus?»
«Não», respondeu Haze.
«Nã, eu também não, nem por isso», concordou Enoch. «Eu
cá andei n'Academia Religiosa de Rodemill p'ra Rapazes por
quatro semanas. Foi lá uma senhora que me comprou ó meu
pai que me mandou pra lá. Er'uma dessas mulheres da assis­
tência social. Jesus Cristo ! Quatro semanas e eu pensei que
m'iam fazer beato e doido.»
Haze caminhou até ao fim do quarteirão e Enoch manteve­
-se junto ao cotovelo dele, ofegando e conversando. Quando
Haze irrompeu numa arrancada para atravessar a rua, Enoch
gritou:
«Atã nã vês ali a luz ! 'quela luz diz qu'a gente que temos
qu'esperar!»
Um polícia soprou um apito e um carro fez soar a buzina
e travou a fundo. Haze continuou atravessando a rua de olhos
fixos no cego, que já ia a meio do quarteirão. O polícia con­
tinuou soprando o apito, atravessou a rua na direcção de Haze
e deteve-o. Tinha um rosto magro e olhos ovais amarelados.
«Você nã sabe pra que serve aquela coisa ali pendurada?»,
perguntou, apontado para o semáforo pendurado sobre o cru­
zamento.
«Nã vi», respondeu Haze.
O polícia mirou-o sem dizer nada. Algumas pessoas deti­
veram-se. O polícia rebolou-lhes o olhos. «Na volta, pensas-
36 ü ' CONNOR

tes que a luz vermelha qu'era pros brancos e que a verde


qu'era pros pretos», disse ele.
«Pois, foi isso qu'eu pensei», respondeu Haze. «Tire-m'a mão
de cima.»
O polícia tirou a mão e pô-la na anca. Depois, recuou um
passo e disse: «Pois então diz ós teus amigos todos como são
estas luzes. O vermelho é pra parar, o verde é pr'andar
- homens, mulheres, pretos, brancos, tudo anda à mesma
luz. Diz lá ós teus amigos, qu'é pra quando eles vierem à
cidade saberem.»
As pessoas riram.
«Eu tomo conta dele», interpôs Enoch, apertando-se para
passar entre Haze e o polícia. « É qu'ele nã chegou senão há
dois dias. Eu tomo conta dele.»
«E tu 'tás cá há quanto tempo ?'11 , perguntou o polícia.
«Eu nasci aqui e fui cá criado», disse Enoch. «Est'aqui é a
minha terra. 'Teja descansado qu'eu tomo conta dele. Ei,
espera !», bradou a Haze. «'Pera por mim!'ll Enoch empurrou a
multidão para fora do caminho e alcançou-o. «A bem ver, acho
que te safei ali.»
«Agradeçoy;, respondeu Haze.
«Ah, nã foi nada», disse Enoch. «E que tal s'a gente fôsse­
mos ó Walgreen beber um sumo? 'Inda nã há discotecas aber­
tas a esta hora.'11
«Não gosto de cafetarias», ripostou Haze. «Adeus.»
«Tudo bem», respondeu Enoch. «Atão acho que vou con­
tigo pra te fazer companhia mais um bocado.» Olhou para o
cego e para a criança lá à frente e disse: «Eu cá é que nã gos­
tava nada de m'enredar com campónios nenhuns a esta hora
da noite. Inda pra mais esta gente qu'anda a pregar Jesus. Eu
·
cá já tive a minha conta deles. Aquela senhora d'assistência
que me levou do meu pai nã fazia mai' nada senão rezar.
O meu pai e eu, a gente mudávamos sempre de casa, íamos
atrás da serração onde a gente trabalhávamos, e vai um
Verão e eles montam o estaminé à saida de Boonville, e então
aparece-nos lá esta mulher.» Enoch agarrou o casaco de Haze.
SANGUE SÁBIO 37

«A única coisa ruim qu'eu tenho a dizer de Taulkinham é


qu'há gente a mais na rua», murmurou, em tom de confidên­
cia. «Parece que só o qu'eles querem é deitar a gente abaixo.
Bem, e então ela aparece e eu acho qu'ela qu'engraçou
comigo. Eu tinha doze anos e sabia cantar bem uns hinos
qu'aprendi dum preto. E então cá aparece ela, engraçando-se
comigo, e lá s'arranja co'meu pai pra me levar pra viver com
ela. Vivia numa casa de tijolo, mas era só Jesus de manhã, à
tarde e à noite.» Um homem baixo perdido num sobretudo
desbotado deu-lhe um encontrão. «Porqu'é que nã vês por
ond'andas?», rugiu Enoch.
O homenzinho parou, ergueu um braço num gesto feroz e
um terrível olhar de cão raivoso tomou-lhe conta do rosto.
«Com quem é que 'tás a falar?», rosnou.
«Vês», continuou Enoch, saltitando novamente para alcan­
çar Haze, «eles só o que querem é deitar a gente abaixo. Nunca
'tive num sítio ond'as pessoas fossem assim tão ruins. Até com
aquela mulher. Eu fiquei lá naquela casa dela por dois meses»,
prosseguiu ele, «e vai daí, chega o Outono, ela manda-me prà
Academia Religiosa de Rodemill pra Rapazes e eu a pensar
qu'aquilo é qu'ia ser um alívio. Esta mulher nã era pêra doce.
Nã era velha - acho qu'havia de ter aí uns quarenta anos
- mas olha qu'era feia com'ós trovões. Andava sempre c'uns
óculos castanhos e o cabelo era tã fino que parecia molho de
carne a escorrer-lhe da cabeça. E eu a pensar qu'aquilo é qu'ia
ser um alívio a sério, ir lá prá 'quela Academia. Eu já uma vez
tinha fugido dela e ela mandou-me buscar e vai-se a ver e ela
tinha papéis sobre mim e podia mandar-me p'rá cadeia s'eu nã
ficasse com ela, vai daí que fiquei bem contente d'ir lá prà
Academia. Já alguma vez 'tivestes numa academia?»
Haze pareceu não ter ouvido a pergunta.
«Pois bem, te digo que nã foi alívio nenhum», disse Enoch.
«Ai, Jesus Cristo, alívio é qu'aquilo nã foi ! Ó fim de quatro
semanas fugi, e diabos danem a mulher s'ela nã me foi logo
buscar e não me levou outra vez lá prà casa dela. Mas no fim
eu livrei-me.» Esperou um minuto. «Queres saber como?»
38 ü 'CONNOR

Passado um segundo, continuou.


«Preguei um susto dos diabos àquela mulher, foi como foi.
Matutei e matutei. Cheguei até a rezar. Disse assim: "Jesus,
mostra-me o caminho pra sair daqui sem matar esta mulher e
sem me mandarem prà cadeia", e diabos me danem s'Ele nã
fez isso mesmo. Uma manhã levantei-me mesmo pela cedinha
e fui pro quarto dela sem calças e puxei-lhe os lençóis pra
baixo e dei-lh'um ataque de coração. Depois voltei lá pro meu
pai e nunca mais vi nem rasto dessa mulher.»
«Ü teu queixo só s'arrasta», observou ele, mirando o perfil
do rosto de Haze. «Nunca te ris. Nã m'admirava nada que fos­
ses um homem muito rico.»
Haze virou e meteu por uma rua lateral. O cego e a rapa­
riga estavam na esquina, um quarteirão mais à frente.
«Bem, assim afinal a gente não tarda apanhamos-os», disse
Enoch. «Conheces muita gente por aqui?»
«Não», respondeu Haze.
«E também nã vais conhecer. Este sítio aqui é do pior qu'
há pra fazer amigos. Eu 'tou cá pra dois meses e nã conheço
ninguém. Parece que só o qu'eles querem fazer é · deitar a
gente abaixo. 'Tou cá a pensar comigo que tu há-des ter um
monte de dinheiro», comentou Enoch. «Eu cá nã tenh'um tos­
tão. Em tendo, sei eu bem o que fazia co' ele.» O cego e a filha
pararam na esquina e atravessaram para o lado esquerdo da
rua. «'Tamos a apanhá-los», disse ele. «Se nã temos cuidado,
inda vamos parar nalgum ajuntamento a cantar hinos co' ela
e co' pai dela.»
No cimo do quarteirão seguinte havia um grande edifício
com colunas e uma cúpula. O cego e a rapariga caminhavam
na sua direcção. Havia carros parados em todos os lugares de
estacionamento em volta do edifício, bem como do outro
lado da rua e pelas ruas em redor.
«Aquilo n'é cinema nenhum», disse Enoch.
O cego e a rapariga começaram a subir os degraus do edi­
fício. Os degraus eram da largura da fachada e tinham, em
cada lado, leões sentados em pedestais.
SANGUE SÁBIO 39

«Tam'ém n'é nenhuma igreja», continuou Enoch.


Haze deteve-se junto dos degraus. Parecia que estava a
tentar decidir que expressão pôr no rosto. Puxou o chapéu
negro para a frente, num ângulo inclinado, e encaminhou-se
na direcção dos outros dois, que se tinham sentado a um
canto, perto de um dos leões. Haze foi para junto do cego sem
dizer nada e deixou-se ficar de pé, inclinado para a frente,
diante dele, como se estivesse tentando vislumbrar através
dos óculos escuros. A criança olhou-o fixamente.
Os lábios do cego apertaram-se ligeiramente.
«0 seu hálito cheira a pecado», disse ele.
Haze recuou.
«Pra qu'é que me seguiu?»
«Não o segui», ripostou Haze.
«Ela disse que você qu'andava a seguir-nos», disse o cego,
apontando o polegar na direcção da filha.
«Não o segui», repetiu Haze. Sentiu a caixa do descasca­
dor de batatas na sua mão e olhou para a rapariga. O boné de
lã dela fazia uma linha recta sobre a testa. Ela esboçou repen­
tinamente um sorriso largo e depois, logo a seguir, voltou a
compor a expressão, como se tivesse cheirado qualquer coisa
má. «Não o segui pra parte nenhuma», disse Haze. «Segui-a a
ela.» E estendeu-lhe o descascador.
A princípio, ela parecia prestes a agarrar a caixa, mas não
o fez.
«Nã quero cá essa coisa», disse ela. «0 qu' é que julgas qu'
eu quero co' isso? Fica co'ele. Nã é meu. Nã o quero !»
«Aceita», disse o cego. «Met'isso no saco e vê se te calas
antes qu'eu te dê um estalo.»
Haze voltou a empurrar o descascador contra ela.
«Não o aceito», murmurou ela.
«Pega nisso como te disse», interpôs o cego. «Ele nã te seguiu
coisa nenhuma.»
Ela pegou no descascador e largou-o dentro do saco onde
tinha os panfletos.
«Nã é meU», disse ela. «Eu fico com ele, mas nã é meu.»
40 O'CONNOR

«Eu segui-a pra lhe dizer qu'eu cá nã m'afecto com olhinhos


com'ós qu'ela me mandou lá atrás», disse Haze olhando para o
cego.
«Qu'estória é essa?», bradou ela. «Nã te mandei olhinhos
nenhuns. Só te vi a rasgar aquele panfleto. Ele rasgou-o em
bocadinhos pequeninos», disse ela, empurrando o ombro do
cego. «Ele rasgou-o e largou-o plo chão como sal e depois lim­
pou as mãos às calças.»
«Ele seguiu-me a mim», afirmou o cego. «A ti ninguém
t'havia de seguir. Eu oiço na voz dele qu'ele anseia por Jesus.»
«Jesus», murmurou Haze. «Meu Jesus !» Sentou-se ao lado
da perna da rapariga e pôs a mão no degrau, junto ao pé dela.
Ela tinha ténis calçados e meias pretas de algodão.
« Ó pra ele a praguejar», disse ela em voz baixa. «Ele nã te
seguiu coisa nenhuma, papá.»
O cego soltou a sua gargalhada afiada.
«Escuta, rapaz», disse ele, «não consegues fugir de Jesus.
Jesus é um facto.»
«De Jesus sei eu muita coisa», intrometeu-se Enoch. «Eu
andei aqui na Academia Religiosa de Rodemill p'ra Rapazes,
qu'uma mulher me mandou p'ra lá. Em querendo saber alguma
coisa sobre Jesus é só perguntar-me.» Enoch tinha montado o
dorso do leão e ficou lá sentado, de lado, pernas cruzadas.
«Já tenho muito caminho debaixo dos pés», disse Haze,
«desde a última vez qu'acreditei nalguma coisa. Vim desde o
outro lado do mundo.»
«Eu também», disse Enoch Emery.
«Nã viestes de tão longe que nã me seguisses agora»,
observou o cego. De repente, ele estendeu os braços e as mãos
dele cobriram o rosto de Haze. Durante um segundo, Haze
não se mexeu nem emitiu nenhum som. Depois, afastou as
mãos bruscamente.
«Pare lá co' isso», disse, numa voz apagada. «'Cê nã sabe
nada sobre mim.»
«Ü meu pai é igualzinho a Jesus», comentou Enoch, sen­
tado sobre o leão. «Tem cabelo 'té ós ombros. A única difrença
SANGUE SÁBIO 41

é qu'ele tem uma cicatriz no queixo. A minha mãe nunca vi


eu quem é.»
«Algum pregador marcou-te bem marcado», disse o cego
com uma espécie de riso escaminho. «Seguistes-me até aqui
p'ra eu te tirar essa marca ou p'ra te fazer uma nova?»
«Olha lá, nã há nada p'rá tua dor senão Jesus», disse a
criança repentinamente. E bateu levemente no ombro de
Haze. Ele deixou-se ficar ali sentado, com o chapéu negro
inclinado sobre o rosto. «Ouve», disse ela em tom mais alto,
«houve uma vez um homem e uma mulher que mataram um
bebezinho. Era filho dela, mas era feio e ela nunca lhe deu
amor. Esta criança tinha Jesus em si, mas a mulher nã tinha
nada senão uma carinha laroca e um homem com qu'ela
vivia em pecado. Ela mandou o bebé embora mas ele voltou
e ela mandou-o embora outra vez e ele voltou outra vez e
sempre qu'ela o mandava embora, ele voltava pra dond'ela e
esse homem 'tavam vivendo em pecado. Eles enforcaram-no
c'uma meia de seda e penduraram-no na chaminé. Mas depois
disso ela nunca mais teve paz. Tud'o qu'ela via era essa
criança. Jesus pôs a criança bonita pr'atormentá-la. Ela já nã
se podia deitar na cama co'aquele homem que nã visse o
bebé, olhando pra ela pla chaminé, a brilhar atrás do tijolo a
mei' da noite.»
«Jesus», murmurou Haze.
«Ela nã tinha nada pra lá duma carinha laroca», disse a
rapariga num tom de voz alto e urgente. «Isso nã chega p'ra
nada. Ah, pois não.»
dá os oiço a arrastar os pés lá dentro», disse o cego. «Tira
os panfletos do saco. Nã tarda já 'tão cá fora.»
«Isso só nã chega», repetiu ela.
«Ü qu'é qu'a gente vamos fazer?», perguntou Enoch. «Ü qu'é
qu'há ali dentro deste edifício?»
«É um espectáculo a acabar», respondeu o cego. «A minha
congregação.»
A rapariga tirou os panfletos do saco e deu-lhe dois molhos
atados com um cordel.
42 O'CONNOR

«Tu e o outro rapaz vão prà outro lado e dêem-nos às pes­


soas», disse ele à filha. «E eu e o que me seguiu ficamos aqui.»
«Ele nã tem nada qu'andar a mexer neles», disse ela. «Só
o qu'ele quer é rasgá-los em bocadinhos.»
«Vai como te disse», repetiu o cego.
Ela deteve-se um instante, carrancuda. Depois disse «Atã
vem lá, s'é pra vires», a Enoch Emery e ele saltou de cima do
leão e seguiu-a até ao outro lado da escadaria.
Haze esquivou-se para o degrau de baixo, mas a mão do
cego estendeu-se numa arrancada e prendeu-lhe o braço com
força. E, num sussurro, disse: «Penitencia-te ! Vai 'té ó cimo
das escadas e renuncia ós teus pecados e dá estes panfletos
às pessoas !» E enfiou um molho de folhetos na mão de Haze.
Haze deu um esticão com o braço, mas isso só serviu para
puxar o cego para mais perto.
«Oiça lá», disse ele, «eu 'tou tão limpo como você.»
«Fornicação, blasfémia e que mais?», perguntou o cego.
«Isso são só palavras», ripostou Haze. «S'eu 'tava em pe-
cado, já 'tava em pecado antes até de pecar. Eu nã sofri
mudança nenhuma.» Estava tentando soltar os dedos do cego
do seu braço, mas este apertava-os cada vez com mais força.
«Eu nã acredito em pecado», disse Haze. «Tire-m'a mão de
cima.»
«Jesus ama-te», disse o cego, numa voz monótona e leve­
mente escaminha. «Jesus ama-te, Jesus ama-te... »
«Só o qu'interessa é que Jesus nã existe», disse Haze, liber­
tando o braço com um puxão.
«Vai 'té ó cimo das escadas e distribui estes panfletos e ... »
«Eu levo-os é pr'ali e atiro-os pràs arbustos !11, bradou Haze.
«'Cê fique aí sentado a ver, se conseguir.»
«Consigo ver mais que tu!11, exclamou o cego, rindo. «Tu
tens olhos e nã vês, ouvidos e nã ouves, mas mai' cedo ou mais
tarde, há-des veu
«Atão fique pra ver, se conseguir!», disse Haze, e começou
a subir os degraus a correr. Uma multidão de gente estava a
sair pelas portas do auditório e alguns já vinham a meio da
SANGUE SÁBIO 43

escadaria. Haze passou por eles correndo, empurrando-os


com cotovelos de fora, como asas aguçadas, e quando che­
gou ao cimo, uma nova onda de gente empurrou-o nova­
mente para baixo, quase até ao sítio onde tinha começado.
Haze debateu-se para caminhar contra eles, até que alguém
gritou «Abram alas para este idiota !», e as pessoas começaram
a afastar-se do caminho. Haze correu até ao cimo, afastou as
pessoas da sua frente para se chegar para um dos lados e dei­
xou-se ficar ali de pé, ofegante e de olhar incandescente.
«Eu nunca o segui coisa nenhuma !», exclamou alto. «Eu nã
ia seguir um tolo cego destes. Meu Jesus !» Haze encostou-se
ao edifício, segurando o molho de panfletos pelo cordel. Um
homem gordo deteve-se perto dele para acender um charuto
e Haze deu-lhe um leve empurrão no ombro. «Olhe lá p'ra
baixo», disse ele. «'Tá a ver aquele cego lá em baixo? Ele anda
a dar panfletos e a pedir. Jesus ! Havia de o ver, ele anda c'uma
criancinha feia vestida com roupa de mulher, e ela também
anda a dar panfletos. Meu Jesus Cristo !»
«Há sempre um fanático ou outro», comentou o gordo, con­
tinuando o seu caminho.
«Meu Jesus», disse Haze. E inclinou-se para a frente, perto
de uma senhora idosa com cabelo azul e um colar de contas
de madeira vermelhas. «Ü melhor é ir p'ró outro lado, 'nha
senhora», disse ele. «'Tá ali em baixo um tolo a distribuir pan­
fletos.» A multidão atrás da senhora empurrou-a para a
frente, mas ela ainda o mirou durante um instante com dois
olhos como pulgas brilhantes. Ele tentou alcançá-la no meio
da multidão, mas ela já estava demasiado longe, pelo que ele
recuou para onde tinha estado de pé, encostado à parede. «Ai,
meu Jesus Cristo Crucificado !», exclamou ele. «Quero dizer­
-vos uma coisa, minha gente. Na volta, vocês pensam que nã
'tão limpos porque nã acreditam. Mas vocês 'tão limpos sim
senhora, deixem que lhes diga. Todos vocês 'tão limpos e dei­
xem-me dizer-lhes porquê, e se julgam qu'é por causa de
Jesus Cristo Crucificado, 'tão enganados. Eu nã digo qu'ele
que nã tenha sido crucificado, mas digo que nã foi por vocês.
44 O ' CONNOR

Escutem-me bem, eu também sou pregador e eu prego-vos a


verdade.»
A multidão movia-se com rapidez. Era como um grande
emaranhado de linhas grossas, e os fios soltos começavam
agora a desaparecer pelas ruas escuras.
«Acham qu'eu que nã sei o qu'existe e o que não?», bradou
ele. «Nã tenho olhos na cara? Acham qu'eu que sou cego?
Oiçam», chamou ele. «Eu vou pregar uma igreja nova: a igreja
da verdade sem Jesus Cristo Crucificado. Nã vos vai custar nada
juntar-vos à minha igreja. Ainda nã 'tá começada, mas vai 'tar.»
As poucas pessoas que ainda restavam olharam-no de
relance uma ou duas vezes. Havia panfletos espalhados pelo
chão, no passeio e na rua lá em baixo. O cego estava sentado
no último degrau. Enoch Eme:ry estava do outro lado, de pé
sobre a cabeça do leão, tentando equilibrar-se, e a rapariga
estava de pé perto dele, observando Haze. «Eu nã preciso de
Jesus», disse Haze. «Eu haveria de querer Jesus p'ra quê? Tenho
a Leora Watts.»
Depois, desceu as escadas em silêncio até ao cego e parou.
Deteve-se por ali um segundo e o cego riu. Haze afastou-se e
começou a atravessar a rua. Já estava no outro lado quando a
voz soltou um grito agudo atrás dele. Haze voltou-se e viu o
cego de pé no meio da rua, gritando : «Hawks, Hawks, o meu
nome é Asa Hawks, p'ra quando me tentares seguir outra vez !»
Um carro teve de guinar para o lado para não o atropelar.
«Penitencia-te !», bradou ele, e depois riu e correu em frente
durante um bocado, fingindo que ia perseguir Haze e agarrá-lo.
Haze baixou a cabeça, enterrando-a entre os ombros enco­
lhidos, e seguiu caminho rapidamente. Não voltou a olhar para
trás até escutar o som de passos seguindo-o.
«Agora qu'a gente nos livrámos deles», disse Enoch Eme:ry
ofegante, «que tal s'a gente fôssemos algum lado divertirmo­
-nos?»
«Ouve», disse Haze bruscamente, «eu tenho as minhas coi­
sas p'ra fazer. Já 'tive mais tempo contigo qu'ó que queria.»
E começou a andar muito depressa.
SANGUE SÁBIO 45

Enoch foi saltitando para acompanhar o passo.


«Eu 'tou cá há dois meses», disse ele, «e nã conheço cá nin­
guém. As pessoas aqui nã são simpáticas. Eu tenh'um quarto
e nunca lá tenho ninguém senão eu. Foi o meu pai que me
disse qu'eu que tinha que vir. Eu nunca ia vir p'ra cá, mas ele
obrigou-me. Acho que já te vi algures antes. Por acaso nã és
de Stockwell, não?»
«Não.»
«Melsy?»
«Não.»
«Uma vez, a serração assentou lá arraiais», comentou Enoch.
«Par'ceu-me qu'a tua cara que nã m'era estranha.»
Continuaram a caminhar sem dizer nada até voltarem à
rua principal. Estava quase deserta.
«Adeus», disse Haze.
«Eu tam'ém vou pra esse lado», respondeu Enoch com voz
melancólica. À esquerda havia um cinema onde o letreiro
luminoso estava a ser mudado. «Se nã nos tivéssemos pren­
dido lá co'aqueles campónios podíamos ter ido ver um
filme», murmurou ele. Continuou marchando atrás do coto­
velo de Haze, falando num meio sussurro, meio gemido.
Uma vez, agarrou-lhe a manga do casaco para o atrasar e
Haze afastou-o com um puxão. «Foi o meu pai que me man­
dou vir», disse ele numa voz quebrada. Haze olhou-o e repa­
rou que ele estava a chorar, o rosto fissurado, molhado e tin­
gido de um tom meio roxo, meio rosa. «Eu só tenho dezoito
anos», chorou ele, «e ele obrigou-m'a vir e eu nã conheço cá
ninguém e ninguém aqui quer ter nada a ver com mais nin­
guém. A gente daqui nã é simpática. Ele abalou c'uma
mulher e mandou-me vir pra aqui, mas ela nã vai ficar muito
tempo, ele há-de lhe dar tanta porrada até ela ficar presa a
uma cadeira. Tu és a primeira cara conhecida qu'eu vejo em
dois meses. Já te vi nalgum lado. Eu sei que já te vi nalgum
lado.»
Haze olhou fixamente em frente, o rosto rigido, e Enoch
continuou o seu sussurro choramingado. Passaram por uma
46 o'CONNOR

igreja, um hotel e uma loja de antiguidades e viraram para a


rua da senhora Watts.
«Se queres uma mulher, nã tens d'andar atrás de nenhuma
miúda com a cara daquela que tu destes o descascadon>, disse
Enoch. «Ouvi dezer qu'há uma casa onde a gente nos podía­
mos divertir um bocado. Eu p'rá semana pagava-te.»
«Olha», disse Haze, «eu vou p'ra onde vou: a duas portas
daqui. Eu tenho uma mulher. Tenho uma mulher, 'tás a ver?
E é p'ra lá que vou. P'rá visitar. Nã preciso d'ir contigo.»
«Eu p'rá semana pagava-te», repetiu Enoch. «Eu trabalho
p'ró j ardim zoológico. Eu guardo lá um portão e pagam-me
todas as semanas.»
«Afasta-te de mim», ripostou Haze.
«As pessoas aqui nã são simpáticas. Tu n'és daqui, mas
tam'ém nã és simpático.»
Haze não lhe respondeu. Continuou a caminhar com o
pescoço encolhido no meio dos ombros, como se tivesse frio.
«Tu tam'ém nã conheces ninguém», continuou Enoch. «Nã
tens mulher nenhuma nem nada p'ra fazer. Eu soube logo que
te vi que tu nã tinhas nada nem ninguém senão Jesus. Eu vi­
-te e soube logo.»
«É aqui qu'eu vou entran>, disse Haze. E virou-lhe as cos­
tas e dirigiu-se à porta sem olhar para trás.
Enoch parou.
«Pois sim», exclamou, «ah, pois !» E passou a manga do casaco
debaixo do nariz para parar de fungar. «Pois sim», exclamou
novamente, «Vai lá pr'onde queres ir, mas olha só aqui.» Bateu
às pressas com a mão no bolso, correu até Haze, agarrou-lhe a
manga do casaco e agitou a caixa do descascador em frente dele.
«Ela deu-me. Ela deu-m'o descascador a mim e tu nã és tido nem
achado. E ela disse-me onde viviam e pediu-me pràs visitar e pra
te levar. Não tu levares-m'a mim mas eu levar-t'a ti. E eras tu
qu'ias a segui-los.» Os olhos dele faiscaram por entre as lágrimas
e o seu rosto estendeu-se num sorriso torto e maldoso. «Tu andm'
pr'aí como se tivesses sangue mais esperto que toda a gente»
disse ele, «mas nã tens ! Quem o tem sou eu. Não tu. Eu!»
SANGUE SÁBIO 47

Haze não disse nada. Deixou-se ficar parado uns instan­


tes, pequeno no meio dos degraus, e depois ergueu o braço e
atirou o molho de panfletos que segurava. O molho bateu no
peito de Enoch e abriu-lhe a boca. Ele ficou a olhar de boca
aberta para o sítio onde os panfletos o haviam atingido e por
fim voltou-se e avançou pela rua fora a passos largos. Haze
entrou em casa.
Como a noite anterior tinha sido a primeira vez que ele
dormira com uma mulher, Haze não tinha sido muito bem
sucedido com a senhora Watts. Quando acabou, era como
qualquer coisa inerte que o mar tivesse atirado para cima
dela, e ela fez comentários obscenos sobre ele, que ele foi
recordando de vez em quando ao longo do dia. Agora, estava
nervoso ante a ideia de ir ter com ela novamente. Não sabia
o que ela diria quando ele abrisse a porta e ela o visse ali.
Quando abriu a porta e ela o viu ali, disse apenas : «Ah, ah.»
O chapéu negro assentava-lhe direito na cabeça. Ele entrou
com ele posto e tirou-o quando bateu na lâmpada que estava
pendurada no meio do tecto. A senhora Watts estava na cama,
pondo gordura na cara. Ela apoiou o queixo sobre a mão e
mirou-o. Ele caminhou pelo quarto, examinando isto e aquilo.
A garganta dele secou e o coração começou a apertá-lo, como
um gorila agarrando as barras da sua jaula. Haze sentou-se na
borda da cama dela com o chapéu na mão.
O sorriso da senhora Watts era curvo e afiado como a
lâmina de uma gadanha. Era óbvio que ela estava tão bem
adaptada que já nem precisava de pensar. Os olhos dela engo­
liam tudo de uma vez, como areia movediça.
«Esse chapéu d'andar à cata de Jesus !», disse ela. E sentou­
-se na cama, baixou a camisa de noite até às pernas e tirou-a.
Depois, pegou no chapéu dele, pô-lo na cabeça e ficou sen­
tada com as mãos nas ancas, velando os olhos de forma
cómica. Haze fitou-a por um minuto, depois emitiu três
pequenos ruídos que eram gargalhadas. De um salto, alcan­
çou o cordão eléctrico para desligar a lâmpada e despiu-se
às escuras.
48 o ' CONNOR

Uma vez, quando era pequeno, o pai dele levou-o a uma


feira que passou por Melsy. Erguida a um canto, havia uma
tenda em que a entrada era um pouco mais cara. Um homem
magro e seco com voz de cometa estava a apregoá-la, mas
sem explicar o que havia dentro. Dizia que era tão SENsacional
que ia custar trinta e cinco cêntimos a qualquer homem que
quisesse ver, e era tão Exclusivo que só entravam quinze de
cada vez. O pai dele mandou-o para uma tenda onde havia
dois macacos a dançar e encaminhou-se para esta outra
tenda, movendo-se perto das paredes das outras tendas. Haze
deixou os macacos e seguiu-o, mas não tinha trinta e cinco
cêntimos para entrar. Perguntou então ao pregoeiro o que
havia lá dentro.
�<Põe-t'andani, respondeu o homem. «Aqui nã há estalinhos
nem há macacos.»
«Já os vi», disse ele.
«Inda bem», respondeu o homem. «Põe-t'andar.»
«Tenho quinze cêntimos», insistiu Haze. «Porqu'é que nã me
deixa entrar e eu podia ver metade?» É alguma coisa sobre uma
casa de banho exterior, estava ele a pensar. É um grupo de
homens numa retrete. Depois pensou, se calhar é um homem e
uma mulher numa retrete. Ela não ia querer que eu entrasse.
«Tenho quinze cêntimos», repetiu.
«Já 'tá quase a acabar», disse o homem, abanando o chapéu
de palha como um leque, para se refrescar. «Vai lá à tua vida.»
«Atão só vale os quinze cêntimos», insistiu Haze.
«Põe-t'andani, repetiu o homem.
«É um preto?», perguntou Haze. «'Tão a fazer alguma coisa
a algum preto ?11
O homem, na sua plataforma, debruçou-se para baixo e o
seu rosto engelhado dardejou um olhar cortante.
«Aonde é que foste buscar ess'ideia?», perguntou.
«Nã sei», respondeu Haze.
«Quantos anos tens?», perguntou o homem.
«Doze», respondeu Haze. Tinha dez.
«Dá-m'esses quinze cêntimos», disse o homem, «e entra lá.»
SANGUE SÁBIO 49

Haze depôs o dinheiro na plataforma e esgueirou-se para


dentro antes que o espectáculo acabasse. Passou pela aber­
tura da tenda e lá dentro viu outra tenda ; entrou nessa tam­
bém. A princípio, só conseguiu ver as costas dos homens.
Depois, subiu a um banco e espreitou por cima das cabeças
deles. Eles estavam a olhar para baixo, para um buraco onde
estava deitada qualquer coisa branca, contorcendo-se um
pouco, dentro de uma grande caixa forrada a pano negro.
Durante um segundo, Haze julgou tratar-se de um animal
esfolado, mas logo viu que era uma mulher. Era gorda e tinha
um rosto igual a uma mulher vulgar, a não ser pelo grande
sinal que tinha no canto do lábio, que se mexia quando ela
sorria, e outro de lado, nas costas.
«S'houvesse uma daquelas em cada caixão», disse o pai
dele, lá à frente, «um homem até ia gostar de bater a bota mai'
cedo.»
Haze reconheceu a voz sem sequer olhar. Desceu então do
banco, esgueirou-se para fora da tenda e rastejou pelo lado
da tenda exterior porque não queria passar novamente pelo
pregoeiro. Depois, subiu para a parte de trás de uma carrinha
e sentou-se a um canto. Lá fora, a feira emitia uma forte
zoada metálica.
Quando ele chegou a casa, a mãe estava sentada no quin­
tal, frente à selha de lavar a roupa, olhando-o. Ela vestia-se
sempre de negro e os vestidos dela eram mais compridos do
que os das outras mulheres. Ela estava de pé, recta, olhando­
-o. Ele pôs-se atrás de uma árvore para sair da vista dela, mas
passado uns minutos sentiu-a olhando-o através da árvore.
E vislumbrou o buraco e o caixão novamente e uma mulher
magra dentro dele, que era demasiado comprida para ele.
A cabeça dela estava espetada para cima numa ponta e os
joelhos estavam levantados para que ela coubesse. Tinha um
rosto em forma de cruz e o cabelo muito preso junto à cabeça.
Haze ficou de pé, espalmado contra a árvore, à espera. Ela
deixou a selha e veio ter com ele com um pau na mão. Disse­
-lhe: «Ü qu'é que vistes?»
50 O'CONNOR

«Ü qu'é que vistes?», disse ela.


«Ü qu'é que vistes?», disse ela, usando sempre o mesmo
tom de voz. Depois, bateu-lhe nas pernas com o pau, mas ele
era como que parte da árvore. «Jesus morreu p'ra te redimil"ll ,
disse ela.
«Nunca lhe pedi isso», murmurou ele.
Ela não lhe bateu novamente, mas ficou a olhá-lo de boca
fechada, e ele esqueceu a culpa da tenda pela culpa sem
morada e sem nome que havia dentro de si. Passado um
minuto, ela atirou fora o pau e voltou para a selha da roupa,
ainda de boca fechada.
No dia seguinte, ele levou os sapatos para o bosque, em
segredo. Nunca os usava a não ser em missas e no Inverno.
Tirou-os então da caixa e encheu-lhes o fundo de pedrinhas.
Depois calçou-os, apertou-os muito e andou com eles pelos
bosques durante o que ele sabia ser uma milha, até chegar ao
ribeiro. Depois sentou-se, tirou os sapatos e aliviou os pés na
areia molhada. E pensou, isso deve chegar para O satisfazer.
Não aconteceu nada. Se tivesse caído uma pedra, ele teria
interpretado isso como um sinal. Passado um bocado, tirou os
pés da areia e deixou-os secar, e em seguida calçou nova­
mente os sapatos com as pedras ainda dentro e caminhou
mais meia milha de volta a casa antes de se descalçar.
CAPÍTULO 4

Haze saiu da cama da senhora Watts de manhã cedo, antes de


os primeiros raios de luz iluminarem o quarto. Quando acor­
dou, o braço dela estava largado em cima dele. Ele soergueu­
-se, levantou-o de cima de si e depô-lo cuidadosamente ao
lado dela, mas não a olhou. Tinha a cabeça ocupada com um
único pensamento : ia comprar um carro. Quando acordou, já
o pensamento estava completamente desenvolvido na sua
cabeça e ele agora não era capaz de pensar noutra coisa.
Nunca antes pensara em comprar um carro. Nunca sequer
quisera um. Só tinha conduzido um pouco uma única vez na
sua vida e nem sequer tinha carta de condução. Tinha apenas
cinquenta dólares, mas achou que conseguiria comprar um
carro com esse dinheiro. Furtivamente, esgueirou-se então
para fora da cama sem acordar a senhora Watts e vestiu-se
silenciosamente. Às seis e meia já ele estava no centro da
cidade, à procura de vendedores de carros usados.
Havia stands de carros usados espalhados pela cidade, por
entre os quarteirões de velhos edifícios que separavam o cen­
tro da cidade dos terrenos vazios dos caminhos-de-ferro.
Haze vagueou por alguns deles antes de abrirem. Pelo aspecto
exterior do stand, Haze conseguia perceber se ele teria à
venda um carro que custasse cinquenta dólares. Quando as
52 O'CONNOR

lojas começaram a abrir, ele passou pelos stands rapidamente


sem prestar atenção a qualquer pessoa que tentasse mostrar­
-lhe o estoque. O chapéu negro assentava-lhe na cabeça com
uma expressão cuidadosa, fixa, e o rosto dele tinha um
aspecto frágil, como se tivesse sido quebrado e os pedaços
tivessem sido colados uns aos outros, ou como uma arma que
ninguém sabe se está carregada.
O dia estava húmido e ofuscante. O céu parecia um pedaço
de fina prata polida com um sol escuro e carrancudo a um
canto. Às dez horas, Haze tinha seleccionado os melhores
stands e estava já a caminhar perto dos terrenos do caminho­
-de-ferro. Até ali, os terrenos estavam cheios de carros usa­
dos que custavam mais de cinquenta dólares. Por fim, Haze
encontrou um stand entalado entre dois armazéns abandona­
dos. Um cartaz pendurado sobre a entrada dizia: •O SLADE TEM
O MELHOR.•
Havia um caminho de gravilha que descia pelo meio do par­
que e ao fundo, encostada a um dos lados, uma barraca metá­
lica com a palavra «escritório» pintada na porta. O resto do ter­
reno estava cheio de carros velhos e máquinas avariadas. Um
rapaz branco estava sentado em cima de uma lata de gasolina
à frente do escritório. Tinha ar de quem estava ali para manter
as pessoas afastadas. Usava uma gabardina negra e tinha o
rosto parcialmente escondido por um boné de cabedal. Tinha
um cigarro pendurado no canto da boca, com dois centímetros
de cinza na ponta.
Haze encaminhou-se para o fundo do terreno, onde avis­
tou um carro em particular.
«Ei !», gritou o rapaz. «Isto nã é só chegar e entrar pr'aqui
adentro. Eu é que mostro o que tenho pra mostrar.» Mas Haze
não lhe prestou atenção e continuou até ao fundo do terreno,
onde tinha visto o carro. O rapaz seguiu-o, enchendo o peito
e praguejando. O carro que Haze vira estava na última fila.
Era uma máquina alta, cor de ratazana, com pneus grandes e
estreitos e faróis protuberantes. Quando se acercou do veí­
culo, Haze reparou que uma das portas estava presa com uma
SANGUE SÁBIO 53

corda e que o carro tinha uma j anela oval atrás. Era este o
carro que ele ia comprar.
«Deixa-me falar c'o Slade», disse ele.
«Qu'é que queres com ele?», perguntou o rapaz em tom
irritadiço. Ele tinha uma boca larga e quando falava usava
apenas um dos cantos.
«Quero falar com ele por causa deste carro», disse Haze.
«Eu sou ele», respondeu o rapaz. O rosto dele debaixo do
boné era como o de uma esguia águia. O rapaz sentou-se no
degrau de acesso à porta de um carro que estava parado do
outro lado do caminho de gravilha e continuou a praguejar.
Haze andou em volta do carro. Depois espreitou pela janela
para ver o interior. Por dentro, o carro tinha uma monótona
cor poeirenta esverdeada. Faltava-lhe o banco traseiro mas
havia uma tábua estendida sobre a armação do assento, para
as pessoas se sentarem. As duas janelas laterais traseiras
tinham duas cortinas verdes com franjas. Haze espreitou pelas
janelas da frente e viu o rapaz sentado no degrau do carro do
outro lado do caminho de gravilha. Tinha uma perna das cal­
ças puxada para cima e estava a coçar o tornozelo, que
sobressaía protuberante de dentro de um bolbo amarelo de
peúga. Continuava a praguejar, a voz brotando do fundo da
garganta, como se estivesse a tentar puxar um escarro. Os
dois vidros das j anelas faziam-no parecer amarelado e dis­
torciam-lhe os contornos. Haze contornou rapidamente o
carro e apareceu à frente.
«Quanto custa?», perguntou.
«Jesus Cristo, meu pai !», exclamou o rapaz. «Jesus Cristo
crucificado !»
«Quanto custa?», rosnou Haze, empalidecendo um pouco.
«Quant'é que achas que vale?», perguntou o rapaz. «Dá'í
uma estimativa.»
«Nã vale o que m'ia custar pro levar daqui. Eu cá nã o qu'­
ria.»
O rapaz dedicou toda a sua atenção ao tornozelo, onde
tinha uma crosta. Haze olhou para cima e viu um homem que
54 o' coNNOR

se aproximava, caminhando entre dois carros do lado do


rapaz. À medida que se aproximava, Haze reparou que ele
era exactamente igual ao rapaz, só que um bom bocado mais
alto, e trazia na cabeça um chapéu de feltro castanho man­
chado pelo suor. Vinha caminhando entre duas filas de car­
ros, mesmo nas costas do rapaz. Quando chegou mesmo
atrás dele, deteve-se e esperou um segundo. Depois, ordenou,
numa espécie de rugido controlado : «Tira-m'esse cu de cima
desse carro !»
O rapaz rosnou e desapareceu, amarinhando por entre dois
carros.
O homem deixou-se ficar de pé, olhando Haze.
«Qu'é que quer?», perguntou.
«Este carro aqui», respondeu Haze.
«Setenta e cinco dólares», disse o homem.
Em ambos os lados do terreno havia dois edifícios antigos
avermelhados, com j anelas negras e vazias, e atrás um ter­
ceiro edifício sem janelas.
«Agradecido», disse Haze, e voltou as costas, encaminhan­
do-se para o escritório. Quando chegou à entrada, olhou de
relance para trás e viu o homem a pouco mais de um metro
atrás de si.
«Podemos discutir um bocadinho», disse ele.
Haze seguiu-o novamente até junto do carro.
«Um carro destes 'cê nã encontra todos dias», disse o
homem. Sentou-se então no degrau do carro onde o rapaz
estivera há pouco. Haze não viu o rapaz, mas ele estava por
lá, sentado numa capota, dois carros mais à frente. Estava
encolhido, como se estivesse gelado, mas o rosto dele tinha
uma expressão azeda e composta. «Pneus novos», disse o
homem.
«Eram novos quando o carro foi feito», respondeu Haze.
«Eram melhores máquinas, as que se faziam ' qui há uns
anos», disse o homem. «Agora já nã se fazem carros que pres­
tem.»
«Quant'é que quer por ele?», perguntou Haze novamente.
SANGUE SÁBIO 55

O homem perdeu o olhar na distância, pensando. Passado


um pouco, disse: «Acho que podia deixá-lo levá-lo por ses­
sent' e cinco.»
Haze inclinou-se sobre o carro e começou a fazer um ci­
garro, mas não conseguiu enrolá-lo bem. Entornava constan­
temente o tabaco, e depois as mortalhas.
«Bem, quant'é que 'cê quer pagar por ele?», perguntou o
homem. «Eu cá nã trocava nem um Chrysler por um Essex
destes. Este carro aqui nã foi feito por um bando de pretos.
«Os pretos agora 'tão todos a viver em Detroit, a montar
carros», disse ele, só para fazer conversa. «Eu 'tive lá uns tem­
pos e vi. Vim p'ra casa.»
«Eu nã pagava mais de trinta dólares por ele», disse Haze.
«Eles têm lá um preto», continuou o homem, «qu'é quase
tão claro como você e eu.» O homem tirou o chapéu e passou
o dedo pela mancha de suor do lado de dentro. Tinha na cabeça
um pouco de cabelo cor de cenoura.
«Vamos dar uma volta com ele», sugeriu. «Ou você quer
pôr-se debaixo do carro p'ra dar uma vista de olhos?»
«Não», respondeu Haze.
O homem lançou-lhe um meio olhar. «'Cê paga ao sair»,
disse, descontraído. «Se nã encontrar o que procura num, temos
aqui outros plo mesmo preço que 'cê pode ficar co' eles.»
Dois carros mais à frente, o rapaz recomeçou a praguejar.
Era como uma tosse convulsiva. Haze voltou-se de repente e
deu um pequeno pontapé no pneu da frente. «Já lhe disse
qu'os pneus que nã rebentam», disse o homem.
«Quanto?», perguntou Haze.
«Bem, acho que podia ficar por cinquenta dólares», ofere­
ceu o homem.
Antes de Haze comprar o carro, o homem pôs gasolina no
depósito e conduziu-o por alguns quarteirões, para provar
que funcionava. O rapaz ia sentado, curvado sobre si próprio
sobre a tábua de madeira no banco de trás, praguej ando.
«Este rapaz nã é certo, esta coisa dele praguejar assim11,
comentou o homem. «Nã lhe ligue.» O carro avançava com um
56 ü 'CONNOR

constante grunhido agudo. O homem travou a fundo para


demonstrar como os travões funcionavam bem e o rapaz foi
atirado para fora da tábua, esbarrando contra as cabeças deles.
«Rai's ta partam!», rugiu o vendedor, «pára d'andar aí ós pulos
e senta-me esse cu na tábua.» O rapaz não disse nada. Nem
sequer praguejou. Haze olhou para trás e viu que o rapaz estava
encolhido sobre si mesmo, com a gabardina negra vestida e o
boné de cabedal puxado quase até aos olhos. A única diferença
é que agora a cinza tinha-lhe caído da ponta do cigarro.
Haze acabou por comprar o carro por quarenta dólares e
pagou vinte litros de gasolina à parte. O homem mandou o
rapaz ao escritório para ir buscar uma lata de vinte litros para
encher o depósito. O rapaz voltou praguejando e acartando a
lata amarela, quase dobrado ao meio.
«Dá cá», disse Haze. «Eu mesmo encho.» Estava com imensa
pressa para sair dali com o carro. O rapaz puxou a lata para
fora do alcance de Haze e endireitou-se. A lata estava apenas
meia cheia, mas ele inclinou-a sobre o depósito durante o
tempo que demoraria a despejar vagarosamente os vinte litros.
E durante todo esse tempo, ia repetindo :
«Ai, rai's partam, Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo.»
«Porqu'é qu'ele nã se cala?», perguntou Haze repentina­
mente. «Pra qu'é qu'ele 'tá sempre a falar assim?»
«Eu nunca sei que bicho lhe mordeU», respondeu o homem,
encolhendo os ombros.
Quando o carro ficou pronto, o homem e o rapaz puseram­
-se de lado para ver Haze sair dali. Ele não queria que nin­
guém o observasse, porque não conduzia havia já quatro ou
cinco anos. O homem e o rapaz não disseram nada enquanto
ele tentou pôr o carro a trabalhar. Limitaram-se a ficar ali de
pé, fitando-o.
«Eu queria este carro mais pra ser uma casa pra mim»,
disse Haze ao homem. «Nã tenho nenhum sítio onde ficar.»
«'Cê ainda nã destravou o travão de mão», disse o homem.
Haze soltou o travão e o carro precipitou-se para trás por­
que o vendedor tinha-o deixado em marcha-à-ré. No segundo
SANGUE SÁBIO 57

seguinte, Haze conseguiu conduzir o carro para a frente e


saiu do terreno aos ziguezagues, deixando para trás o homem
e o rapaz, que o observavam ainda. Continuou então em frente,
sem pensar em nada e transpirando. Durante muito tempo,
deixou-se ficar sempre na mesma rua. Estava com dificuldade
em manter o carro na estrada. Atravessou os terrenos do
caminho-de-ferro ao longo de oitocentos metros e depois
passou por armazéns. Quando tentou abrandar o carro, ele
parou por completo e Haze teve de o ligar novamente. Depois,
passou por longos blocos de casas cinzentas e, em seguida,
blocos de casas amarelas um pouco melhores. Começou a
chuviscar e ele ligou os limpa pára-brisas, que fizeram grande
estrépito, como dois idiotas aplaudindo na igreja. Depois
disso, Haze passou por blocos de casas brancas, cada uma
com um rosto de cão feio sentado num quadrado de relva.
Por fim, passou por cima de um viaduto e encontrou a estrada
nacional.
Começou então a conduzir muito depressa.
A estrada estava pej ada de farrapos de bombas de gaso­
lina, parques de caravanas e restaurantes de beira de estrada.
Passado um pouco, havia extensões em que barrancos ver­
melhos se afundavam de ambos os lados da estrada e atrás
deles havia mantas de terreno abotoadas pelos cartazes que
identificavam a estrada 666. O céu derramava água sobre
toda a paisagem e, passado pouco tempo, começou a verter
para dentro do carro. A cabeça do primeiro de uma fila de
porcos apareceu, focinho no ar, por cima da valeta e ele teve
de parar bruscamente, pneus chiando, e ficar a ver o rabo do
último porco abanando-se ao desaparecer na valeta do outro
lado. Depois, arrancou novamente e continuou. Haze tinha a
sensação de que tudo o que via agora era um fiapo de alguma
coisa vaga e desconcertada que lhe tinha acontecido e que ele
esquecera. Uma carrinha preta apareceu de uma estrada late­
ral e pôs-se à frente dele. Na parte de trás, trazia atadas uma
cama de ferro, uma mesa e uma cadeira, e por cima delas uma
grade cheia de galinhas castanhas. A carrinha avançava muito
58 ü 'CONNOR

devagar, com um ruído ribombante, e ia no meio da estrada.


Haze começou a bater na buzina e premiu-a três vezes antes
de perceber que ela não emitia qualquer som. A grade estava
de tal modo atafulhada de galinhas molhadas que as que
estavam viradas para Haze tinham as cabeças de fora. A car­
rinha não tinha meio de acelerar e ele viu-se obrigado a con­
duzir muito lentamente. Os campos estendiam-se encharcados
de ambos os lados da estrada, até esbarrarem em pinheiros
rasteiras.
A estrada descreveu uma curva e desceu uma encosta. Um
imponente dique apareceu num dos lados, com pinheiros em
volta, em frente a uma grande rocha redonda e cinzenta que
sobressaía da face do barranco do outro lado da estrada.
Letras brancas pintadas na rocha diziam: •AI DO BLASFEMO
E FORNICADOR ! IRÁ o INFERNO ENGOLIR-TE?• A carrinha abrandou
ainda mais, como se o condutor estivesse a ler o letreiro, e
Haze esmurrou mais uma vez a buzina vazia e continuou
esmurrando-a e batendo-lhe, mas ela não produziu qualquer
som. A carrinha, entretanto, continuou, sacolejando as tristes
galinhas castanhas ao longo da encosta da colina seguinte.
O carro de Haze parou e os olhos dele viraram-se para as
palavras escritas no fundo da rocha. Diziam, em letras mais
pequenas: «Jesus é Salvador.»
Haze ficou ali sentado, olhando o letreiro, e não ouviu a
buzina. Tinha atrás de si um camião-cisterna comprido como
uma carruagem de comboio. No instante seguinte, já tinha
um rosto vermelho e quadrado assomando à janela do seu
carro. O rosto observou a parte de trás do pescoço e o chapéu
de Haze durante um minuto e depois uma mão estendeu-se e
pousou no ombro dele.
«Qu'é que 'tás fazendo aqui parado no mei' da estrada?»,
perguntou o camionista.
Haze voltou o seu rosto frágil e plácido para ele.
«Tire-m'a mão de cima», respondeu. «'Tou a ler ali o letreiro.»
O rosto e a mão do camionista permaneceram exactamente
na mesma, como se ele não ouvisse muito bem.
SANGUE SÁBIO 59

«Nã há pessoa nenhuma, fornicador nenhum, que não


fosse qualquer coisa pior antes», declarou Haze. «Ü pecado nã
é esse, nem é a blasfémia. O pecado veio antes disso tudo.»
O rosto do camionista permaneceu exactamente na mesma.
«Jesus é um truque que se preg'ós pretos», disse Haze.
O camionista pôs ambas as mãos no vidro da j anela e
agarrou-o. Parecia que tencionava levantar todo o carro.
«Vê é se me tiras esta merda desta banheira do mei' da
estrada», respondeu.
«Eu nã tenho que fugir de coisa nenhuma porqu'eu cá nã
acredito em nada», continuou Haze. Ele e o camionista olha­
ram-se durante um minuto. A expressão de Haze era a mais
distante. Estava nesse momento a congeminar um outro plano
na sua cabeça. «Em que direcção fic'ó jardim zoológico?», per­
guntou.
« É dando meia volta pro outro lado», respondeu o camio­
nista. «Fugistes agora de lá, foi?»
«Tenho qu'ir ver um rapaz que lá trabalha», disse Haze.
Ligou então o carro novamente e deixou o camionista ali de
pé, em frente às letras pintadas na rocha.
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CAPÍTULO 5

Nessa manhã, assim que acordou, Enoch Emeiy soube que a pes­
soa a quem poderia mostrar aquela coisa viria nesse dia. Sabia
por graça do seu sangue. O sangue dele era sábio, como o do pai.
Às duas da tarde, Enoch cumprimentou o guarda do por­
tão que chegou para o segundo turno.
«Tu 'tás nem mais nem menos que quinze minutos atra­
sado», disse ele irritado. «Mas eu fiquei à mesma. Podia ter­
-m'ido embora, mas fiquei.» Trazia vestido um uniforme verde
com atilhos amarelos no pescoço e mangas e uma faixa ama­
rela na parte de fora de cada perna. O guarda do segundo
turno, um rapaz com um rosto protuberante da textura do
xisto e um palito ao canto da boca, envergava o mesmo. O por­
tão que eles guardavam era feito de barras de ferro e o arco de
cimento que o sustentava estava feito à semelhança de duas
árvores, ramos curvados para formar o topo, onde letras retor­
cidas diziam: «Parque Florestal da Cidade». O guarda do segundo
turno encostou-se a um dos troncos da árvore artificial e come­
çou a espetar o palito entre os dentes.
«Todos dias», queixou-se Enoch. «Parece que todos dias eu
perc'uns bons quinze minutos pr'aqui à tua espera.»
Todos os dias, quando acabava o turno, Enoch entrava
no parque e todos os dias depois de entrar fazia as mesmas
62 ü 'CONNOR

coisas. Primeiro, ia até à piscina. Enoch tinha medo da água,


mas se havia lá mulheres, ele gostava de se sentar no declive
acima da piscina e ficar a olhá-las. Havia uma mulher que
vinha todas as segundas-feiras e que envergava um fato de
banho que tinha uma racha nas ancas. A princípio, ele achou
que ela não tinha reparado e, em vez de a observar aberta­
mente na encosta, escondera-se no meio de uns arbustos,
rindo à socapa para si próprio, observando-a do seu escon­
derijo. Nessa altura, não havia mais ninguém na piscina - as
multidões nunca chegavam antes das quatro da tarde - para
a avisar das rachas no fato de banho. A mulher chapinhara
na água e depois tinha-se deitado à borda da piscina, onde
dormira quase uma hora, sempre sem suspeitar que havia
alguém nos arbustos a observá-la. Depois, noutro dia, em que
ele ficou por ali até um pouco mais tarde, viu três outras
mulheres, todas com a mesma racha nos fatos de banho, a
piscina cheia de gente e ninguém lhes dando a mínima
importância. Era assim a cidade: surpreendendo-o constante­
mente. Quando lhe apetecia, Enoch visitava uma rameira,
mas chocava-se sempre com a leviandade que via aberta­
mente na rua. Ele rastej ava para o meio dos arbustos movido
por um sentimento de decoro. Muitas vezes, as mulheres
puxavam as alças dos fatos de banho para fora dos ombros e
estendiam-se assim.
O parque era o coração da cidade. Ele tinha vindo até à
cidade e - com a sabedoria que tinha no sangue - estabele­
cera-se no coração dela. Todos os dias, Enoch observava o
coração da cidade. Todos os dias. E sentia-se tão aturdido,
pasmado e assoberbado que só de pensar nisso transpirava.
Havia algo no centro do parque que ele tinha descoberto. Era
um mistério, apesar de estar ali numa montra de vidro à vista
de toda a gente, com um cartão escrito à máquina que expli­
cava tudo. Mas havia algo que o cartão não podia dizer, e o
que o cartão não dizia estava dentro dele, uma sabedoria ter­
rível sem palavras, uma sabedoria terrível como um nervo
imenso crescendo dentro de si. Ele não podia mostrar aquele
SANGUE SÁBIO 63

mistério a qualquer pessoa, mas tinha de o mostrar a alguém.


A pessoa a quem teria de o mostrar era especial. Essa pessoa
não podia ser da cidade, mas Enoch não sabia porquê. Ele
sabia que reconheceria essa pessoa quando a visse e sabia
que teria de a ver em breve, senão o nervo que crescia den­
tro de si ficaria tão grande que Enoch se veria forçado a rou­
bar um carro ou a assaltar um banco ou a saltar de um beco
escuro para cima de uma mulher. Durante toda a manhã, o
seu sangue dissera-lhe que essa pessoa viria nesse dia.
Enoch deixou então o guarda do segundo turno e aproxi­
mou-se da piscina por meio de um caminho discreto que cir­
cundava as traseiras do balneário feminino, conduzindo a
uma pequena clareira, de onde era possível avistar toda a pis­
cina de uma vez. Não havia lá ninguém. A água estava imó­
vel e verde como vidro, mas ele viu a mulher com os dois
rapazes, vinda do outro lado e encaminhando-se para o bal­
neário. Ela vinha sempre em dias alternados, trazendo as
duas crianças. Costumava entrar na água com eles e nadar de
um lado ao outro, e depois deitava-se ao sol, ao lado da pis­
cina. Tinha um fato de banho branco manchado que lhe
assentava como uma saca e Enoch já a observara com prazer
em várias ocasiões. Afastando-se da clareira, ele subiu um
pequeno declive até um emaranhado de arbustos de abélia.
Debaixo deles, havia um belo túnel e Enoch rastejou por ele
até chegar a uma secção um pouco mais larga, onde costu­
mava sentar-se. Aí, o rapaz acomodou-se e ajustou os ramos
dos arbustos para conseguir ver bem por entre eles. No meio
dos arbustos, o rosto dele ficava sempre muito vermelho.
Qualquer pessoa que apartasse os ramos da abélia naquele pre­
ciso local pensaria ter visto um demónio e cairia pelo declive
até à piscina. A mulher e os dois rapazes entraram no balneá­
rio.
Enoch nunca avançava imediatamente para o centro
secreto e obscuro do parque. Esse era o clímax da sua tarde. As
outras coisas que fazia eram um crescendo até esse momento.
Quando deixava os arbustos, Enoch encaminhava-se para
64 o ' coNNOR

a Geladinha, uma venda de carrochos quentes com a forma


de uma garrafa de laranjada e gelo azul pintado no topo.
Aqui, ele bebia um batido de chocolate e fazia alguns comen­
tários sugestivos à empregada, que acreditava estar secreta­
mente apaixonada por si. Depois disso, ia ver os animais. Estes
estavam numa longa fila de jaulas de aço, como a cadeia de
Alcatraz dos filmes. As jaulas tinham aquecedores eléctricos
no Inverno e ar condicionado no Verão e havia seis homens
contratados para servir os animais e para lhes dar bifes sucu­
lentos a comer. Os animais não faziam mais nada senão pas­
sar os dias deitados a um canto. Enoch observava-os todos os
dias, cheio de espanto e de ódio. Depois ia até lá.
Os dois rapazinhos saíram a correr do balneário e mergu­
lharam na água. Ao mesmo tempo, um ruído, como algo a ser
raspado, ouviu-se no caminho de acesso do outro lado da
piscina. A cabeça de Enoch espetou-se para fora dos arbustos
e viu passar um carro alto, cor de ratazana, que, pelo som,
parecia estar a arrastar o motor pelo chão, atrás de si. O carro
passou e Enoch escutou o estertor para lá da curva no cami­
nho e mais longe ainda. Pôs-se então cuidadosamente à es­
cuta, tentando perceber se o carro ia parar. O ruído esbateu­
-se, mas logo voltou a aumentar gradualmente de tom e o
carro passou novamente. Desta vez, Enoch reparou que só
havia uma pessoa lá dentro, um homem. O som do carro mor­
reu outra vez e depois voltou a subir de volume. O carro pas­
sou então uma terceira vez e parou quase directamente em
frente a Enoch, do outro lado da piscina. O homem do carro
olhou para fora da janela, fitando o declive relvado e a água
onde os dois rapazes chapinhavam e gritavam. A cabeça de
Enoch estava tão saída de dentro dos arbustos quanto possí­
vel e o rapaz semicerrava os olhos, tentando ver à distância.
A porta do carro do lado do condutor estava atada com uma
corda. O homem saiu pelo outro lado e caminhou para a
frente da viatura, descendo depois o declive até à piscina.
A seguir, deixou-se ficar por ali um minuto, como se estivesse
à procura de alguém e, por fim, sentou-se na relva, rígido.
SANGUE SÁBIO 65

Trazia um fato azul e um chapéu negro e estava sentado com


os joelhos puxados para cima.
«Ora, macacos me mordam», disse Enoch. «Macacos me
mordam.»
Começou imediatamente a rastejar para fora dos arbustos,
o coração a bater tão depressa que parecia uma daquelas
motas nas feiras que os homens conduzem à volta das pare­
des de um poço. Ele até se lembrava do nome do homem:
senhor Hazel Motes. Passado um segundo, apareceu de gatas
no fim do emaranhado de abélias e olhou para o outro lado
da piscina. A figura azul ainda estava ali sentada na mesma
posição. Tinha o ar de quem estava detido ali, como que por
uma mão invisível, como se, se a mão lhe saísse de cima, a
figura fosse saltar até ao outro lado da piscina de um só pulo,
sem que a expressão no seu rosto se alterasse minimamente.
A mulher saiu do balneário e foi até à prancha de mergu­
lho. Estendeu os braços para o lado e começou a saltitar, pro­
duzindo o característico som da tábua de saltos a dobrar-se.
Depois, repentinamente, rodopiou para trás e desapareceu
debaixo da água. A cabeça do senhor Hazel Motes virou-se
muito lentamente, seguindo-a no fundo da piscina.
Enoch levantou-se e percorreu o caminho que circundava
as traseiras do balneário. Sub-repticiamente, apareceu do
outro lado e começou a caminhar na direcção de Haze, man­
tendo-se sempre no cimo do declive, caminhando suavemente
sobre a relva junto ao passeio, sem fazer barulho. Quando se
viu directamente atrás de Haze, sentou-se na borda do pas­
seio. Se os braços dele tivessem três metros de comprimento,
Enoch teria conseguido pôr as mãos nos ombros de Haze. Ali
sentado, o rapaz ficou a estudá-lo em silêncio.
A mulher estava a subir para fora da piscina, içando-se
sobre uma das bordas. Primeiro, emergiu o rosto dela, com­
prido e cadavérico, com uma touca de natação que parecia
uma ligadura puxada quase até aos olhos, dentes aguçados
sobressaindo de dentro da boca. Depois, ergueu-se sobre as
mãos até um pé e uma perna compridos aparecerem detrás
66 o'CONNOR

dela, e depois a outra perna do outro lado. E, num instante,


ela estava fora da água, agachada na borda da piscina, ofe­
gante. Levantou-se então com movimentos soltos e abanou­
-se, batendo com os pés na água que escorrera do seu corpo.
Agora, estava de frente para eles e sorria. Enoch conseguia
vislumbrar parte do rosto de Haze observando a mulher. Ele
não sorriu em resposta, mas manteve o olhar sobre ela,
enquanto ela caminhava levemente até um canto iluminado
pelo sol, quase directamente abaixo do local onde os dois
homens estavam sentados. Enoch teve de se aproximar um
pouco para ver.
A mulher sentou-se ao sol e tirou a touca de natação.
O cabelo dela era curto e acachapado e pintado de todas as
cores, de uma profunda cor de ferrugem a um amarelo-esver­
deado. Ela abanou a cabeça e levantou o olhar para fitar
Hazel Motes novamente, sorrindo por entre os dentes pontia­
gudos. Depois, estendeu-se ao sol levantando os joelhos e
pousando a coluna sobre o cimento. Os dois rapazinhos na
outra ponta da água estavam a bater com a cabeça um do
outro contra a borda da piscina. A mulher acomodou-se até
ter as costas espalmadas contra o cimento e depois levantou
os braços e puxou as alças do fato de banho para fora dos
ombros.
«Ai, bom Jesus !», sussurrou Enoch. E antes que conseguisse
tirar os olhos da mulher, já Hazel Motes se tinha levantado de
um salto e estava quase de volta ao carro. A mulher estava
agora sentada com a frente do fato de banho meio para baixo,
e Enoch estava a olhar em ambas as direcções ao mesmo
tempo.
Por fim, arrancou a custo a atenção para longe da mulher
e levantou-se de um salto, seguindo Hazel Motes.
«'Pera por mim!», chamou, agitando os braços em frente do
carro, que já chocalhava ruidosamente, pronto para arrancar.
Hazel Motes desligou o motor. O rosto dele por detrás do pára­
-brisas tinha uma expressão azeda, semelhante a uma rã. Parecia
ter um grito encerrado dentro de si. Parecia uma dessas portas
SANGUE SÁBIO 67

de armários dos filmes de mafiosos, onde alguém está lá dentro


atrás da porta, atado a uma cadeira e com um pano na boca.
«Ora, ora», disse Enoch. «Ora vejam só se nã é o Hazel Motes.
Como vai isso, Hazel?11
«0 guarda disse que tu que 'tavas na piscina», disse Hazel
Motes. «Ele disse que tu que t'escondias nos arbustos pra ver
nadar as pessoas.»
Enoch corou.
«Semp'e apreciei a natação», respondeu, metendo o pes­
coço ainda mais dentro da janela. «'Tavas à minha procura?»,
exclamou.
«Aquele cego», disse Haze, «aquele cego chamado Hawks...
A filha dele disse-te adond'eles viviam?»
Enoch pareceu não ter ouvido.
«Viestes cá de propósito pra me ver?», perguntou.
«0 Asa Hawks. A filha dele deu-t'o descascador. Ela disse­
-te adonde viviam?»
Enoch tirou lentamente a cabeça de dentro do carro. Depois,
abriu a porta e entrou para o lado de Haze. Durante um minuto,
limitou-se a olhá-lo, molhando os lábios. Depois, sussurrou:
«Tenho que te mostrar 'ma coisa.11
«Eu ando à procura dessa gente», continuou Haze. «Tenho
que ver esse homem. Ela disse-te adonde viviam?»
«Tenho que te mostrar esta coisa», repetiu Enoch. «Tenho
que ta mostrar hoje, aqui, esta tarde. Tem que ser.11 Agarrou
com força o braço de Haze e este afastou-o com um puxão.
«Ela disse-te adonde viviam?», perguntou novamente.
Enoch continuou molhando os lábios. Estavam pálidos, à
excepção de uma bolha, que estava roxa.
«Claro», respondeu. «Atão ela nã me convidou pra ir lá vê­
-la e pra levar a minha gaita de beiços? Tenho que te mostrar
aqui 'ma coisa e depois digo-te.11
«Que coisa?», murmurou Haze.
«' Qui esta coisa qu'eu tenho que te mostrar», respondeu
Enoch. «Segue semp'a direito qu'eu digo-te ond'é que paras o
carro.»
68 o' coNNOR

«Nã quero ver nada teu», ripostou Haze Motes. «Quero essa
morada.»
Enoch não olhou Hazel Motes. Em vez disso, ficou a olhar
pela janela.
«Nã me vou conseguir lembrar se nã vieres comigo», disse
ele. Passado um instante, o carro arrancou. O sangue de Enoch
pulsava depressa. Ele sabia que tinha de ir à Geladinha e ao
jardim zoológico antes de ir lá, e anteviu uma luta esforçada
com Hazel Motes para o convencer. Mas Enoch tinha absolu­
tamente de o levar até lá, nem que precisasse de lhe bater na
cabeça com uma pedra e levá-lo às costas até ao mistério.
O cérebro de Enoch estava dividido em duas partes. A parte
que comunicava com o sangue tecia os pensamentos e os cál­
culos mas nunca dizia nada em palavras. A outra estava atu­
lhada de todo o tipo de palavras e de frases. Enquanto a pri­
meira parte congeminava uma forma de conduzir Hazel Motes
através da Geladinha e do jardim zoológico, a segunda per­
guntava-lhe :
«'Dé qu'arranjastes este belo carro? Devias de pintar-lhe uns
emblemas da parte de fora, tipo "Entra aqui, ó boneca". Eu 'ma
vez vi um co'isso escrito, e doutra vez outro que dizia ... »
O rosto de Hazel Motes podia bem ter sido esculpido na
face de uma rocha.
«Ü meu pai em tempos tev'um Ford amarelo que ganhou
numa rifa», murmurou Enoch. «Tinh'uma capota d'abrir e
dois ailerons e uma cauda de esquilo pra enfeitar que já vinha
co'ele. Ele depois trocou-o. Pára aqui ! Pára aqui !», bradou ele.
Estavam já a passar a Geladinha.
«Onde está?», perguntou Hazel Motes, assim que entraram
no pequeno café. Estavam numa sala escura com um balcão
ao fundo e bancos castanhos, como cogumelos, em frente ao
balcão. Na parede do outro lado da porta havia um grande
cartaz a anunciar gelado, com a imagem de uma vaca vestida
de dona de casa.
«Nã 'tá aqui», respondeu Enoch. «Temos de parar aqui no
caminho e trincar qualquer coisa. Queres o quê?»
SANGUE SÁBIO 69

«Nada», disse Haze. E deixou-se ficar de pé, rígido, no meio


da sala, de mãos nos bolsos.
«Atão senta-te», disse Enoch. «Eu tenho de tomar uma bebi­
dazita.»
Algo se agitou atrás do balcão e uma mulher com cabelo
curto como um homem levantou-se de uma cadeira onde
estava sentada a ler o j ornal e aproximou-se, deitando um
olhar azedo a Enoch. Tinha vestido um uniforme que em tem­
pos fora branco, coberto de manchas castanhas.
«Queres o quê?11, disse ela em voz alta, inclinando-se sobre
o ouvido dele. Tinha um rosto de homem e grandes braços
musculosos.
«Quer'um batido de chocolate, 'nha linda11, respondeu Enoch
suavemente. «E quero com muito gelado.»
Ela voltou-lhe ferozmente as costas e dardejou um olhar
a Haze.
«Ele diz que nã quer nada senão ficar ali sentado ólhar pra
ti um 'cadinho», disse Enoch. «Ele nã tem fome de nada senão
de te ver.11
Haze olhou para a mulher com uma expressão dura e ela
virou-lhe as costas e preparou o batido. Ele sentou-se no último
banco da fila e começou a estalar os nós dos dedos.
Enoch observou-o cuidadosamente.
«'Tá-me cá par'cendo que tu que mudastes um b ocadito»,
disse, passados uns minutos.
Haze levantou-se.
«Dá-m'a morada daquela gente. Já», ordenou.
A ideia ocorreu a Enoch num ápice: a polícia. O rosto dele
imbuiu-se repentinamente de um conhecimento secreto.
«'Tou cá achando que hoje já nã 'tás tã de nariz pra cima
como 'tavas ontem à noite», comentou. «'Tou cá pensando que
na volta», disse, «já nã tens tanta razão pra isso hoje com'á
que tinhas ontem.11 Roubou foi aquele carro, pensou ele.
Hazel Motes voltou a sentar-se.
«Foi pra quê que te levantastes tã depressa lá em baixo na
piscina?», perguntou Enoch. A mulher voltou-se para ele nova-
70 ü ' CONNOR

mente com o batido na mão. «Mas 'tá bem de ver», continuou


ele cruelmente, «qu'eu cá nã ia ter nada a ver c'uma matrona
feia com'aquela.»
A mulher largou com força o batido em cima do balcão à
frente dele.
«Quinze cêntimos», rugiu.
«Vales muito mais que isso, 'nha linda», gracejou Enoch, e
riu à socapa, começando a sorver o batido pela palhinha.
A mulher avançou a passos largos para junto de Haze.
«Pra qu'é que você m'entra aqui c'um sacana daqueles?»,
bradou ela. «Um bom rapaz, assim calado como você, a vir­
-me pr'aqui c'um sacana daqueles. 'Cê havia era de tomar mais
atenção às companhias com quem anda metido.» O nome dela
era Maude e ela bebia uísque o dia inteiro, de um jarro de sumo
de fruta que tinha debaixo do balcão. «Jesus Cristo», exclamou
ela, passando a mão debaixo do nariz. Sentou-se então numa
cadeira direita em frente de Haze, mas olhando Enoch, e cru­
zou os braços sobre o peito. «Todos dias», disse ela a Haze,
fitando Enoch, «todos dias este sacana aparece-me cá na loja.»
Enoch estava a pensar nos animais. Em seguida, eles
tinham de ir ver os animais. Ele odiava-os. Só de pensar neles,
o seu rosto tingia-se de um roxo achocolatado, como se o
batido lhe estivesse a subir à cabeça.
«Tu és bom rapaz», continuou ela. «Dá pra ver, tens um
nariz limpo. Pois vê lá s'ele continua limpo, nã te metas com
sacanas com'aquele além. Eu cá conheço um rapaz limpo
quando o vejo.» Estava gritando a Enoch, mas este observava
Hazel Motes. Era como se algo dentro de Hazel Motes esti­
vesse a ganhar corda, apesar de o seu aspecto exterior per­
manecer impassível. Ele parecia premido dentro daquele fato
azul, como se, dentro do fato, aquela coisa que estava a
ganhar corda fosse ficando cada vez mais apertada. O sangue
de Enoch disse-lhe que se despachasse e ele começou a sugar
o batido pela palhinha numa corrida.
«Pois sim», continuou ela, «n'há nada melhor qu'um rapaz
limpo. Deus é testemunha. E eu conheço um rapaz limpo
SANGUE SÁBIO 7 1

quand'o vejo e conheço um sacana quand'o vejo e há um


monte de diferença e aquele sacana cheio de pus 'li a chupar
naquela palhinha é um sacana filho da mãe e tu qu'és rapaz
limpo bem podias ver a quem é qu'andas a fazer companhia.
Eu conheço um rapaz limpo quand'o vejo.»
Enoch fez guinchar o fundo do copo com a palhinha.
Depois, tirou quinze cêntimos do bolso, deixou-os sobre o
balcão e levantou-se. Mas Hazel Motes já se tinha levantado.
Estava debruçado sobre o b alcão, na direcção da mulher. Ela
não o viu de imediato porque estava fitando Enoch. Ele
debruçou-se até ao outro lado do balcão, apoiado nas mãos,
até o rosto dele estar apenas a alguns centímetros do dela. Ela
voltou-se então e fitou-o.
«Vamos lá», disse Enoch, «nã temos cá tempo pr'andar per-
dendo co'ela. Tenho que te mostrar esta coisa agora, tenho ... »
«Eu sou limpo», declarou Haze.
Só quando repetiu as palavras é que Enoch as entendeu.
«Eu sou limpo», disse Haze novamente, sem qualquer
expressão no rosto ou na voz, limitando-se a fitar a mulher
como se olhasse uma parede. «Se Jesus existisse, eu não seria
limpo.»
Ela fitou-o, sobressaltada e depois irada.
«Pra qu'é qu'achas qu'eu quero saber disso !», bradou ela. «Pra
qu'é qu'eu havia de m'amofinar co'que és ou deixas de ser?»
«Vem dai», resmungou Enoch, «vem lá senão nã te digo
onde mora aquela gente.» E agarrou o braço de Haze e puxou­
-o para longe do balcão, em direcção à porta.
«Sacana !», gritou a mulher. «Achas qu'eu que quero saber
de ti ou de qualquer de vocês, seus nojentos?»
Hazel Motes abriu a porta com um empurrão e saiu. Meteu­
-se novamente no carro e Enoch entrou atrás dele.
«Prontos», disse Enoch, «agora segue semp'e em frente por
esta estrada fora.»
«Qu'é que tu queres pra me dizer a morada?», perguntou
Haze. «Eu nã vou ficar aqui. Tenho qu'ir. Nã posso ficar pra'qui
mais tempo.»
72 ü ' CONNOR

Enoch estremeceu. Começou a molhar os lábios.


«Tenho que te mostrar», disse com voz rouca. «Nã posso
mostrar a mai' ninguém senão a ti. Recebi um sinal qu'eras
tu quando te vi chegar de carro à piscina. Toda a manhã
soube que vinha vir alguém e depois, quando te vi nas pis­
cina, recebi esse sinal.»
«Quero cá eu saber dos teus sinais !», ripostou Haze.
«Eu vou todos dias vê-lo», disse Enoch. «Vou todos dias,
mas nunca pude levar mai' ninguém comigo. Tinha qu'espe­
rar plo sinal. Assim qu'o vires, eu dou-te a morada lá daquela
gente. Mas tens de ver», instou. «Quando o vires, vai aconte­
cer alguma coisa.»
«Não vai acontecer nada», respondeu Haze.
Voltou a ligar o carro e Enoch debruçou-se para a frente
no assento.
«Üs bichos», murmurou ele. «Temos de passar por eles pri­
meiro. Nã vai demorar muito. Nã demora nem um minuto.»
O rapaz viu os animais esperando por ele de olhar maléfico,
prontos para o atrasar irreversivelmente. Ele pensou, e se a polí­
ciajá estiver ali aos gritos, com sirenas e carros-patrulha, e pren­
derem Hazel Motes mesmo antes de ele lhe mostrar o mistério?
«Tenho que ver aquela gente», disse Haze.
«Pára aqui ! Pára aqui !», bradou Enoch.
Havia ali à esquerda uma grande fila de jaulas de aço e,
atrás das grades, figuras negras sentadas ou andando de um
lado para o outro.
«Sai, sai», pediu Enoch. «Isto nã vai demorar nem um mi-
nuto.»
Haze apeou-se. Depois parou.
«Tenho mesmo que ver aquela gente», disse ele.
«'Tá bem, 'tá bem, vem lá», resmungou Enoch.
«Nã acredito que saibas qual é a morada.»
«Sei sim ! Sei sim!», bradou Enoch. «Começa por um três,
agora vem lá!» E puxou Haze na direcção das jaulas. Na pri­
meira, estavam sentados dois ursos negros, de frente um para
o outro como duas matronas tomando chá, os rostos educados
SANGUE SÁBIO 73

e ensimesmados. «Nã fazem mai' nada o dia todo senão ficar


ali sentados tresandando», comentou Enoch. «Um homem vem
e lav'as jaulas todas as manhãs c'uma mangueira, mas o fedor
é o mesmo que s'ele nã mexesse em nada.» Enoch passou por
mais duas jaulas de ursos sem os olhar e deteve-se na jaula
seguinte, onde dois lobos de olhos amarelos focinhavam os
cantos do chão de cimento. «Hienas», afirmou Enoch. «Hienas
nã me servem cá pra nada.» Inclinou-se um pouco mais pró­
ximo e cuspiu para dentro da jaula, atingindo um dos lobos na
pata. O bicho desviou-se para um lado, lançando-lhe um olhar
maléfico e enviesado. Durante um segundo, o rapaz esqueceu
Hazel Motes. Depois, olhou para trás rapidamente para se cer­
tificar de que ele ainda lá estava. Haze estava mesmo atrás
dele. Não olhava para os animais. A pensar lá na polícia, pen­
sou Enoch. E disse: «Anda lá, nã temos tempo pra ver estes
macacos todos que vêm a seguir.» Normalmente, Enoch deti­
nha-se em cada jaula para fazer um comentário obsceno alto
para si próprio, mas nesse dia os animais eram apenas uma
formalidade que ele tinha de cumprir. Assim, passou apressado
pelas jaulas dos macacos, olhando para trás duas ou três vezes
para se certificar de que Hazel Motes o seguia. Na última jaula
de macacos, Enoch parou, como se não conseguisse evitá-lo.
«Olha só pr'aquele gorila», disse ele, lançando olhares de
ódio. O animal estava de costas para ele, cinzento, à excepção
das pequenas nádegas cor-de-rosa. «Se eu tivess'um cu daque­
les», disse ele com uma indignação modesta, «sentava-m'em
cima dele. Nã me punha a mostrá-l'a toda a gente que vem
aqui ó parque. Vem lá, nã temos de ficar aqui a olhar pra estes
pássaros que vêm a seguir.» E correu pelas jaulas de aves até
chegar ao fim do jardim zoológico. «Agora nã precisamos do
carro», disse ele, caminhando sempre em frente, «vamos só
passar aquela colina ali defronte, pra lá das árvores.»
Haze parara em frente da última jaula de aves.
«Ai, Jesus !», gemeu Enoch. E parou, agitando os braços
freneticamente e gritando : «Vem lá!» Mas Haze não se mexeu
de frente da jaula que estava fitando.
74 ü 'CONNOR

Enoch correu até ele e agarrou-o pelo braço, mas Haze


afastou-o com um empurrão e continuou olhando a j aula.
Estava vazia. Enoch fitou-o.
«Está vazia!», bradou. «Pra qu'é que 'tás pr'aí olhando uma
jaula vazia? Vem mas é daí !» Deixou-se ficar ali de pé, roxo e
transpirando. «Está vazia!», repetiu. Mas logo depois reparou
que não estava vazia. Ali a um canto, no chão da jaula, estava
um olho. O olho estava no meio de algo que parecia um esfre­
gão deposto em cima de um trapo velho. O rapaz piscou os
olhos perto da rede e viu que o pedaço de esfregão era uma
coruja com um olho aberto. O olho fitava Hazel Motes direc­
tamente. «Iss'é só 'ma coruja velha», gemeu Enoch. «Já as vis­
tes antes.»
«Eu SOU limpo», disse Haze ao olho. Disse-o exactamente
da mesma forma que o dissera à mulher do café. O olho fechou­
-se suavemente e a coruja virou o rosto para a parede.
Ai que ele foi e matou alguém, pensou Enoch.
«Oh, santo Deus, vem lá daí !», resmungou ele. «Tenho que te
mostrar esta coisa agora mesmo.» Enoch puxou-o dali mas, a
menos de um metro da jaula, Haze parou novamente, olhando
para qualquer coisa na distância. A vista de Enoch era muito
fraca. O rapaz esforçou o olhar e, a custo, vislumbrou uma
figura lá em baixo na estrada, atrás deles. Havia duas figuras
mais pequenas saltitando de ambos os lados da primeira.
Hazel Motes voltou-se então para ele de repente e disse:
«Atão ond'é que está essa coisa? Vamos lá ver isso duma vez
e despachar isso. Vá lá.»
«Atão n'é aí mesmo qu'eu tou tentando levar-te?», disse
Enoch, sentindo a transpiração secar sobre si e picando-lhe a
pele. Estava com pele de galinha por toda a parte, até no
escalpe. «Temos d'atravessar a estrada e ir por esta colina
abaixo. Temos d'ir a pé», disse ele.
«Porquê?», murmurou Haze.
«Nã sei», respondeu Enoch. Ele sabia que algo estava pres­
tes a acontecer-lhe. O sangue dele parou de pulsar. Durant{
todo aquele tempo, o sangue batera dentro de si como um
SANGUE SÁBIO 75

tambor, mas agora tinha parado. Ele e Hazel Motes começa­


ram a descer a colina. Era um declive íngreme, cheio de árvo­
res pintadas de branco desde a raiz até um metro de altura,
como se as árvores tivessem calçado peúgas brancas. Enoch
agarrou o braço de Hazel Motes. «Ist'aqui fica mais húmido à
medida qu'a gente desce», disse ele, olhando vagamente em
volta. Hazel Motes soltou-se com um puxão. Um segundo
depois, Enoch voltou a agarrar-lhe o braço e deteve-o, apon­
tando para baixo, por entre as árvores. «Mevsevem», disse ele.
Aquela palavra estranha causava-lhe arrepios. Era a primeira
vez que a proferia em voz alta. Um pedaço de um edifício
cinzento deixava-se entrever por entre as árvores, no sítio
que ele apontava. À medida que eles desceram a encosta, o
edifício foi-se avolumando. Depois, assim que eles deixaram
o bosque e começaram a percorrer o caminho de gravilha, ele
pareceu encolher-se repentinamente. Era um edifício redondo
da cor da fuligem. Tinha colunas na fachada e, entre cada
coluna, havia uma mulher de pedra sem olhos que segurava
um vaso na cabeça. Acima das colunas, uma faixa de betão
com as letras M v s E v M talhadas. Enoch teve medo de pro­
nunciar a palavra novamente.
«Temos de subir os degraus e passar a porta da frente»,
sussurrou ele. Havia dez degraus até à entrada. A porta era
larga e negra. Enoch empurrou-a cuidadosamente e meteu a
cabeça pela frincha. Um minuto depois, tirou-a novamente e
disse: «Tudo bem, entra e vem devagarinho. Nã quer'acordar
ali ' quele guarda. Ele nã é muito simpático comigo.»
Entraram então num átrio escuro, carregado com o odor
de linóleo e creosoto, e mais outro cheiro para além destes
dois. O terceiro era mais subtil, Enoch não conseguia identi­
ficá-lo como nada que ele tivesse alguma vez cheirado antes.
Não havia nada no átrio à excepção de duas umas e um
velho adormecido numa cadeira de costas altas, encostada à
parede. Este envergava o mesmo uniforme que Enoch e pare­
cia uma aranha ressequida ali pregada. Enoch olhou para
Hazel Motes para ver se ele também conseguia sentir aquele
76 o' coNNOR

terceiro odor. Parecia que sim. O sangue de Enoch recomeçou


a pulsar forte, incitando-o a continuar. Ele agarrou o braço
de Haze e avançou em bicos de pés pelo átrio, até a outra
porta negra, do outro lado. Aí chegado, entreabriu-a e meteu
a cabeça pela fresta. Um segundo depois, recuou novamente
e dobrou um dedo, num gesto para que Haze o seguisse.
Entraram então noutra sala igual ao átrio anterior mas dis­
posta transversalmente.
«Está 'li naquela primeira porta», explicou Enoch em voz
baixa. E, transpondo-a, os dois entraram numa sala escura
cheia de escaparates de vidro. Os escaparates cobriam as pare­
des e, no meio da sala, depostas no chão, estavam três vitri­
nas em forma de caixão. Os escaparates nas paredes estavam
cheios de aves empoleiradas em paus envernizados, olhando
para baixo com expressões ásperas e secas.
«Vem daí», sussurrou Enoch. E passou por duas das virtri­
nas no chão, em direcção à terceira. Foi até ao lado oposto
dessa vitrina e parou, olhando para baixo, o pescoço espetado
para a frente e as mãos apertadas juntas. Hazel Motes veio
para junto dele.
Durante um momento, ficaram ali os dois de pé, Enoch
rígido, Hazel Motes ligeiramente curvado para a frente. Dentro
da vrítrina estavam três tigelas, uma fila de armas rombas e
um homem. Era o homem que Enoch fitava. Tinha cerca de
um metro de comprimento. Estava nu e tinha uma cor amare­
lada e seca, os olhos quase fechados, como se um gigante
bloco de aço estivesse caindo sobre ele.
«Olha pr'aquele cartaz», disse Enoch, num sussurro de
igrej a, apontando para um cartão dactilografado deposto aos
pés do homem. «Diz qu'em tempos ele foi tão alto como eu e
tu. Foram uns árabes que lhe fizeram isto em seis meses.11
E voltou a cabeça prudentemente para ver Hazel Motes.
Tudo o que sabia dizer era que os olhos de Hazel estavam
postos no homem encolhido. Ele debruçou-se para a frente,
de modo que o seu rosto ficou reflectido na parte de cima do
vidro da vitrina. O reflexo era pálido e os olhos pareciam dois
SANGUE SÁBIO 77

limpos buracos de balas. Enoch esperou, rígido. Ouviu passos


na outra sala. Ai, Jesus, Jesus Cristo, ele que se despache e
faça lá o que vai fazer! A mulher e os dois rapazes aparece­
ram à porta. Trazia-os aos dois pela mão e vinha sorrindo.
Hazel Motes ainda não tinha levantado o olhar do homem
diminuído nem por um segundo. A mulher veio na direcção
deles, parou do outro lado da vitrina e olhou lá para dentro.
O reflexo do rosto dela apareceu sorrindo no vidro, por cima
do rosto de Hazel Motes.
A mulher soltou um risinho e pôs dois dedos em frente dos
dentes. Os rostos dos dois rapazes eram como dois tachos
colocados de ambos os lados dela para apanhar os sorrisos
que escorriam dela. Quando Haze viu o rosto da mulher no
vidro, o pescoço dele encolheu-se com um puxão e ele fez um
ruído. Um ruído que podia bem ter vindo do homem dentro
da vitrina. Aliás, num segundo, já Enoch sabia que tinha sido
isso mesmo.
«Espera !», berrou, e correu para fora da sala, seguindo Hazel
Motes.
Só o ultrapassou a meio da colina, onde o agarrou pelo
braço e o obrigou a voltar-se. Depois, ficou ali parado, repen­
tinamente enfraquecido e leve como um balão, embasbacado.
Hazel Motes agarrou-o pelos ombros e abanou-o.
«Qual é a morada?», gritou ele. «Dá-m'essa morada!»
Mesmo que Enoch tivesse a certeza do endereço, não teria
sido capaz de se lembrar dele naquele momento. Aliás, ele não
conseguia sequer manter-se de pé. Assim que Hazel Motes o
largou, Enoch caiu de costas e aterrou em cima de uma das
árvores de peúgas brancas. Depois, rebolou e deixou-se ficar
estendido no chão com uma expressão exaltada. Pensou que
estava a flutuar. Muito lá ao longe, vislumbrou a figura azul
saltando e apanhando uma pedra e viu aquele rosto feroz
ensombrar-se e a pedra cortando o ar na sua direcção. Enoch
fechou os olhos com força e a pedra bateu-lhe na testa.
Quando recobrou os sentidos, Hazel Motes tinha desapa­
recido. Enoch deixou-se ficar deitado um minuto. Levou os
78 ü ' CONNOR

dedos à testa e depois pô-los em frente dos olhos. Estavam


manchados de vermelho. Enoch voltou a cabeça e viu uma
gota de sangue no chão e, ao olhá-la, pareceu-lhe que ela se
alargou, como uma pequena nascente. Finalmente, sentou-se
direito, a pele gelada, pousou um dedo sobre a gota e, muito
tenuamente, escutou o sangue batendo, esse seu sangue secreto,
no centro da cidade.
E então percebeu que aquilo que era esperado de si, fosse
isso o que fosse, estava apenas no início.
CAPÍTULO 6

Nessa noite, Haze vagueou de carro pelas ruas até encontrar


novamente o cego e a rapariga. Estavam parados numa esquina
à espera que o semáforo mudasse. Haze foi conduzindo o Essex
a alguma distância deles, percorrendo cerca de quatro quartei­
rões da rua principal, e depois virou atrás deles para uma rua
lateral, seguiu-os até uma zona escura perto dos baldibs do
caminho-de-ferro e viu-os subir ao alpendre de uma casa de
dois andares que parecia um caixote. Quando o cego abriu a
porta, uma frecha de luz caiu sobre ele e Haze esticou o pes­
coço para o olhar melhor. A criança voltou a cabeça lenta­
mente, como se estivesse assente num parafuso, e viu o carro
passar. O rosto dele estava tão próximo do vidro que parecia
um rosto de papel ali colado. Haze reparou no número da casa
e num cartaz que dizia •ALUGAM-SE QUARTOS.•
Em seguida, voltou para a cidade e estacionou o Essex em
frente a um cinema, onde poderia apanhar a torrente de pes­
soas à saída do filme. As luzes no cartaz luminoso eram tão
brilhantes que a lua, deslizando lá em cima, seguida de uma
pequena procissão de nuvens, parecia pálida e insignificante.
Haze apeou-se do Essex e subiu para a capota.
Um homenzinho magro, com um longo lábio superior,
estava à janela da bilheteira, comprando bilhetes para três
mulheres anafadas que estavam atrás dele.
80 o ' coNNOR

«Tam'ém tenho que comprar uns refrescos aqui às meni­


nas», disse ele à mulher da bilheteira. «Nã posso deixá-las
passar fome comigo aqui.»
«Ele não é um prato?», berrou uma das mulheres. «Co'ele
é só rir!»
Três rapazes com casacos volumosos de cetim vermelho
saíram do átrio do edifício. Haze levantou os braços.
«0 sangue que vocês acham que vos redimiu, ond'é que
vos tocou?», bradou ele.
As mulheres voltaram-se todas ao mesmo tempo e fita­
ram-no.
«Um chico-esperto», comentou o homenzinho magro, lan­
çando um olhar austero, como se alguém estivesse prestes a
insultá-lo.
Os três rapazes acercaram-se, acotovelando-se.
Haze esperou um segundo e depois bradou novamente.
«0 sangue que vocês acham que vos redimiu, ond'é que
vos tocou?»
«Este vem pr'agitar a gente», disse o homenzinho. «S'há
coisa qu'eu não suporto é um agitador.»
«A qu'igreja pertences, tu aí, ó rapaz?», perguntou Haze,
apontando para o rapaz mais alto de casaco de cetim vermelho.
O rapaz soltou uma gargalhadinha.
«Tu, então», disse Haze, impaciente, apontando para o
rapaz seguinte. «A qu'igreja pertences?»
«À Igreja de Cristo», respondeu o rapaz com voz de falsete
para esconder a verdade.
«Igreja de Cristo !», repetiu Haze. «Pois eu prego a Igreja
sem Cristo. Sou membro e pregador dessa igreja, ond'os cegos
nã vêem, os coxos nã andam e o que 'tá morto, morto fica.
Perguntem-me sobr'essa igreja e eu digo-vos qu'é a igreja
qu'o sangue de Jesus nã conspurca com a redenção.»
« É pregador», disse uma das mulheres. «Vamos embora.»
«Oiçam, minha gente, eu vou levar a verdade comigo pra
onde quer que vá», clamou Haze. «E vou pregá-la a qualquer
pessoa qu'a queira ouvir, seja lá onde for. Vou pregar que
SANGUE SÁBIO 8 1

nunca houve Expulsão nenhuma do Paraíso porque nunca


houve donde ser expulso, nem nunca houve Redenção por­
que nã houve Expulsão, e nem houve Julgamento porque nã
havia as duas primeiras. Só o qu'int'ressa é que Jesus er'um
mentiroso.»
O homenzinho juntou as suas raparigas e levou-as rapida­
mente para dentro do cinema. Os três rapazes foram-se embora,
mas outras pessoas saíram e Haze começou do início e disse
outra vez a mesma coisa. Essas pessoas foram embora e outras
vieram e ele repetiu tudo uma terceira vez. Depois, esses foram­
-se embora e mais ninguém saiu. Não havia lá ninguém à
excepção da mulher na bilheteira, que tinha estado todo esse
tempo a lançar-lhe olhares zangados. Mas ele não reparou.
A mulher usava óculos com contas nas hastes e tinha o cabelo
branco arranjado em salsichas à volta da cabeça. Irritada, meteu
a boca num buraco no vidro e gritou:
«Oiça lá, se você nã tem uma igreja ond'ir pregar, não
m'ande aqui a pregar à porta deste cinema.»
«A minha igreja é a Igreja sem Cristo, dona», respondeu ele.
«Se nã há Cristo, nã há razão nenhuma pra ter um sítio fixo
pra fazer isto.»
«Oiça lá, ó você me sai da frente aqui do cinema ó eu chamo
a polícia.»
«Cinemas é o que nã falta», disse ele, descendo da capota
para entrar novamente no Essex e arrancar.
Nessa noite, Haze pregou em frente de três outros cinemas
antes de ir para casa da senhora Watts.
Na manhã seguinte, ele voltou à casa onde o cego e a filha
tinham ido na noite anterior. Era uma casa amarela de madeira,
a segunda num quarteirão de casas de madeira todas iguais. Ele
subiu os degraus até à porta da frente e tocou à campainha.
Passados uns minutos, uma mulher veio abrir, de esfregona em
punho. Ele disse que queria alugar um quarto.
«Qu'é que 'cê faz na vida?», perguntou ela. Era uma
mulher alta e ossuda, parecida com a esfregona que tinha na
mão.
82 o'cONNOR

Ele disse que era pregador.


A mulher mirou-o de alto a baixo e depois olhou por cima
do ombro dele, para o carro.
«De que igreja?», quis saber.
Ele disse que da Igreja sem Cristo.
«Protestante?», perguntou ela, desconfiada. «Ou alguma
estrangeirice?»
Ele disse que não, senhora, que era Protestante.
Passado um minuto, ela disse : «'Tá certo, pode dar uma
vista d'olhos», e ele seguiu-a, entrando num vestíbulo com
paredes rebocadas a branco e subindo umas escadas a um
canto. A mulher abriu uma porta que dava para um quarto
nas traseiras e que era pouco maior do que o carro de Haze,
com uma enxerga, uma cómoda, uma mesa e uma cadeira. Na
parede, dois pregos para pendurar roupa.
«Três dólares por semana adiantados», disse ela. Havia
uma janela e outra porta na parede em frente. Haze abriu a
segunda porta, pensando tratar-se de um armário, mas ela
dava para uma queda de uns bons nove metros, com vista
para um quintal traseiro, estreito e despoj ado, onde era reco­
lhido o lixo. Na ombreira da porta estava pregada uma tábua
ao nível dos joelhos para impedir que alguém caísse. ,
«Um homem chamado Hawks vive aqui, nã vive?», per­
guntou Haze rapidamente.
«Lá em baixo, no quarto da frente», respondeu ela, «ele e
a filha.» Também ela estava a olhar lá para baixo, para o
vazio para lá da porta. <<Dantes havia aí uma escada de incên­
dio», disse ela. «Mas não sei o que foi feito dela.»
Ele pagou-lhe três dólares e, assim que ela lhe saiu do
caminho, desceu as escadas e bateu à porta dos Hawks.
A filha do cego abriu uma fresta e ficou ali de pé, olhando­
-o. Imediatamente, pareceu ter de equilibrar o rosto, para que
a expressão fosse a mesma em ambas as faces.
«É aquele rapaz, papá», disse ela em tom baixo. «Ü qu'anda
semp'a seguir-me.» A rapariga segurou a porta perto da
cabeça, para que ele não conseguisse espreitar para dentro.
SANGUE SÁBIO 83

O cego veio até à porta, mas não a abriu nem mais uma nesga.
A expressão dele não era a mesma de há duas noites. Era
azeda e antipática e ele não falou, limitou-se a ficar ali de pé.
Haze pensara no que tinha para dizer antes de sair do seu
quarto.
«Eu vivo aqui», disse ele. «Pensei que s'a sua filha me qu'ria
deitar tanto o olho, mais valia eu fazer-lh'o mesmo também.»
Mas não estava a olhar para a rapariga, estava fitando os
óculos negros e a� curiosas cicatrizes que começavam algu­
res atrás dos óculos e escorriam pelas bochechas do cego.
«Ü qu'eu te deitei na outra noite», disse ela, «foi um olhar
d'indignação plo que te vi fazer. Quem me deitou o olho fos­
tes tu. Havias de o ver, papá», disse ela. «Olhou-me de cim'a­
baixo.»
«Comecei uma igrej a minha», anunciou Haze. «A Igreja
sem Cristo. Ando a pregar na rua.»
«Nã me consegues deixar em paz, pois não?», disse Hawks.
A voz dele estava monocórdica, nada como soara da outra
vez. «Nã te pedi que viesses cá nem te 'tou a pedir que fiques»,
disse ele.
Haze esperara um acolhimento secreto mas afável. Ficou
à espera, tentando pensar em algo para dizer.
«Que espécie de pregador é você?», ouviu-se a si próprio
murmurar, «para nem sequer ver se consegue salvar a minha
alma?»
O cego fechou-lhe a porta na cara. Haze ficou ali um se­
gundo, de frente para a porta vazia, e depois passou a manga
do casaco pela boca e saiu para a rua.
Lá dentro, Hawks tirou os óculos escuros e, espreitando
por um buraco no estore, ficou a observar Haze entrando no
carro e seguindo caminho. O olho que ele levou ao buraco era
ligeiramente mais redondo e mais pequeno do que o outro, mas
era óbvio que ele conseguia ver de ambos os olhos. A criança
ficou espreitando por uma fresta mais abaixo.
«Porqu'é que nã gostas dele, papá?», perguntou ela. « É por
causa qu'ele anda atrás de mim?»
84 o'coNNOR

«S'ele andasse mesmo atrás de ti, era o que chegava pra


eu lh'apertar a mão.»
«Eu gosto dos olhos dele», observou ela. «Eles parece que
nã vêem aquilo que 'tão a olhar, mas continuam a olhar à
mesma.»
O quarto deles era do mesmo tamanho que o de Haze mas
tinha duas enxergas, um fogão a óleo, uma bacia e uma arca
que eles usavam como mesa. Hawks sentou-se numa das
enxergas e levou um cigarro à boca. «Rai's partam o taradi­
nho por Jesus», murmurou ele.
«Olha, vê só o que tu eras dantes», disse ela. «Vê o que ten­
tastes fazer. Mas isso passou-te e também lh'há-de passar a ele.»
ccNã o quero cá a rondar», disse. «Ele põe-me nervoso.»
«Ouve cá», disse ela, sentando-se na enxerga com ele, «tu
ajudas-m'a ficar com ele e depois vais à tua vida e fazes o
que quiseres e eu posso viver com ele.»
«Ele nem sabe que tu qu'existes», replicou Hawks.
«Mesmo que nã saiba», insistiu ela, «nã faz mal. É assim
qu'eu o consigo mais fácil. Eu quero-o e tu devias ajudar, e
depois podias ir à tua vida, conforme queres.»
Ele deitou-se no colchão e acabou o cigarro. O rosto dele
estava pensativo e perverso. Ali deitado, soltou uma única gar­
galhada, mas logo a seguir o rosto voltou a comprimir-se-lhe.
«Ora, isso até pode ser muito bom», referiu ele, passado um
bocado. «Pode vir a ser o óleo da barba de Aarão.»
«Ouve bem», disse ela, «istp era como sopa no mel ! Eu 'tou
mesmo doida por ele. Nunca vi um rapaz qu'eu gostasse tanto
do ar dele. Nã corras co'ele. Conta-lhe como te cegastes por
Jesus e mostra-lhe aquele recorte que tu tens.»
«Ah, sim, o recorte», proferiu ele.
Haze saíra de carro para pensar e acabara de decidir que ia
seduzir a filha de Hawks. Achou que quando o pregador cego
visse a filha assim desgraçada perceberia que ele estava a sério
quando dizia que pregava a Igreja sem Cristo. Além disso, havia
outra razão : ele não queria voltar para a senhora Watts. Na
noite anterior, já depois de ele estar a dormir, ela levantara-se
SANGUE SÁBIO 85

e cortara-lhe o chapéu numa forma obscena. Ele achava que


devia ter uma mulher, não pelo prazer que ela dava, mas para
provar que não acreditava em pecado, uma vez que praticava
aquilo a que se chamava pecado. Mas da senhora Watts já
tinha tido que chegasse. Agora, queria alguém a quem pudesse
·
ensinar alguma coisa, e presumiu, sem mais, que a filha do
cego, por ser tão desengraçada, seria também inocente.
Antes de regressar ao quarto, passou por uma loj a e com­
prou um chapéu novo. Queria um que fosse o completo
oposto do antigo. Desta vez, venderam-lhe um chapéu branco
panamá com uma faixa vermelha, verde e amarela em volta.
O homem disse que aqueles eram o últimff grito, especial­
mente se ele estivesse de abalada para a Florida.
«Nã 'tou nada de partida prà Florida», respondeu ele. «Este
chapéu é o contrário do qu'eu tinha antes, mai'nada.»
«Pode usá-lo onde quiser», disse o homem. « É novo.»
«Eu sei», retorquiu Haze. Depois de sair para a rua, arran­
cou a faixa vermelha, verde e amarela do chapéu, endireitou
a mossa no topo e dobrou a aba para baixo. Quando o pôs
na cabeça novamente, parecia tão sombrio como o chapéu
antigo.
Só ao fim da tarde é que Haze regressou à porta dos
Hawks, quando achou que eles estariam a jantar. A porta
abriu-se quase de imediato e a cabeça da criança apareceu na
fresta. Ele empurrou a porta para fora das mãos dela e entrou
no quarto sem a olhar directamente. Hawks estava sentado
em cima da arca. Os restos do jantar estavam pousados à sua
frente, mas ele não estava a comer. Mal tivera tempo para
colocar novamente os óculos escuros.
«Se Jesus cura os cegos, porqu'é que não lhe pedes pra te
curar a ti?», perguntou Haze. Tinha preparado esta frase no
seu quarto.
«Ele cegou Paulo», respondeu Hawks.
Haze sentou-se na borda de uma das enxergas, olhou à
sua volta e depois fitou Hawks novamente. Em seguida, cru­
zou e descruzou as pernas e por fim cruzou-as novamente.
86 o'coNNOR

«Ond'é qu'arranjastes essas cicatrizes?», perguntou.


'O falso cego debruçou-se para a frente e sorriu.
«'Inda te podes salvar se fizeres penitência», disse ele. «Eu
não te posso salvar, mas tu podes salvar-te a ti mesmo.»
«Isso é o qu'eu já fiz», respondeu Haze. «Sem a penitência.
Todas as noites ando a pregar com'é que fiz, lá no ... »
«Olha para isto», interrompeu Hawks. Tirou do bolso um
recorte amarelo de um j ornal e estendeu-lho. A boca torceu­
-se-lhe no meio do sorriso. «Foi assim que ganhei as cicatri­
zes», murmurou. A criança, à porta, fez-lhe sinal para que
sorrisse e não se mostrasse azedo. Enquanto esperava que
Haze acabasse de ler, o sorriso voltou-lhe lentamente ao
rosto.
o título do recorte dizia •EVANGELISTA PROMETE CEGAR-SE•.
O resto do artigo dizia que Asa Hawks, um evangelista da
Livre Igrej a de Cristo, prometera cegar-se para justificar a sua
crença de que Jesus Cristo o redimira. Afirmava também que
o faria numa cerimónia no sábado à noite às oito horas, no
quarto de Outubro. A data do artigo era de há mais de dez
anos. Por cima do título estava uma fotografia de Hawks, um
homem de cerca de trinta anos, com uma boca fina, sem cica­
trizes, e com um olho um pouco mais pequeno e redondo do
que o outro. A boca tinha uma expressão que poderia deno­
tar santidade ou calculismo , mas os olhos tinham um aspecto
selvagem que sugeria terror.
Haze ficou sentado, fitando o recorte mesmo depois de o
ter lido. Leu-o três vezes. Depois, tirou o chapéu da cabeça e
voltou a pô-lo, e levantou-se e deixou-se ficar olhando em
volta no quarto, como se estivesse a tentar lembrar-se onde
ficava a porta.
«Ele cegou-se com cal», disse a rapariga, «e houve cente­
nas de convertidos. Uma pessoa que se cega assim pra se jus­
tificar deve ser capaz de nos · salvar... Ou mesmo uma outra
pessoa do mesmo sangue», acrescentou ela, inspirada.
«Ninguém que tenh'um bom carro precisa de se justificar»,
murmurou Haze. Depois, lançou-lhe um trejeito carrancudo e
SANGUE SÁBIO 87

irrompeu porta fora. No entanto, assim que a porta se fechou


atrás de si, ele lembrou-se de uma coisa e voltou a abri-la,
para dar à rapariga um pedaço de papel dobrado várias vezes
na forma de uma pequena bola. Entregue o papel, ele apres­
sou-se a sair para o carro.
Hawks tirou o bilhete à filha e abriu-o. Dizia: •LINDA, NUNCA
VI NINGUÉM TÃO BOM COMO TIJ FOI POR ISSO QUE VIM•. Ela leu-o por
cima do braço dele, corando de agrado.
«Agora já tens prova escrita, papá» disse ela.
«Aquele sacana foi-se co' meu recorte», murmurou ele.
«Atão e depois, nã tens outro?», perguntou ela, com um
meio sorriso.
«Cala-m'essa boca», ripostou ele, atirando-se para cima do
colchão. O outro recorte era o que dizia: •EVANGELISTA PERDE
A CORAGEM.•

«Eu posso ir lá buscá-lo para ti», ofereceu ela, de pé junto


à porta, para que pudesse fugir se o inco modasse demasiado.
Mas ele voltara-se para a parede, como se fosse dormir.
Há dez anos, num encontro religioso, Hawks tencionara
cegar-se, e estavam lá duzentas pessoas ou mais, esperando que
ele o fizesse. Ele pregara durante uma hora sobre a cegueira de
Paulo, ganhando coragem aos poucos, até se ver cegado por um
relâmpago divino, e então, ainda com a coragem necessária,
mergulhara as mãos num balde de cal molhada e passara-as
pelo rosto. Mas não conseguira deixar que a cal lhe entrasse
para os olhos. Até ai, tinha estado possuído por todos os demó­
nios necessários para o fazer, mas nesse preciso instante, eles
desapareceram todos e ele viu-se ali de pé, tal-qual era. Ima­
ginou Jesus, Que os expulsara, ali de pé também, acenando­
-lhe para o chamar. Mas então, fugiu a correr da tenda pelo
beco fora e desapareceu.
«Prontos, pai», disse ela. «Eu vou sair um bocadinho pra te
deixar em paz.» ,
Haze levara o carro imediatamente até à oficina mais pró­
xima, onde um homem com caracóis negros e um rosto curto
e sem expressão veio à rua para o atender. Ele disse ao homem
88 O'CONNOR

que queria que ele pusesse a buzina a funcionar e que tapasse


as fugas no depósito da gasolina, e queria o motor de arran­
que a funcionar melhor e os limpa pára-brisas apertados.
O homem levantou a capota, lançou um olhar rápido ao
motor e depois fechou-a outra vez. Em seguida, andou um
pouco em volta do carro, parando para se encostar a ele aqui
e ali e batendo-lhe num ponto ou noutro. Haze perguntou­
-lhe quanto tempo demoraria a pô-lo em boas condições.
«Isso n'é possível», respondeu o homem.
«Este é um bom carro», disse Haze. «Soube assim qu'o vi
qu'este era o carro pra mim, e desde qu'o tenho, tenho tido
sempre um lugar adonde posso estar e onde posso sempre
pôr-m'a milhas.»
«Você era pra ir a algum lado nisto?», perguntou o homem.
«Sim, a outra oficina», respondeu Haze. E, num ápice, meteu­
-se no carro e arrancou. Na outra oficina aonde ele foi havia um
homem que disse ser capaz de pôr o carro em condições até à
manhã do dia seguinte, porque o carro era tão bom, logo para
começar, tão bem montado e com tão boas peças, e porque,
acrescentou, ele era o melhor mecânico da cidade e trabalhava
na oficina mais bem equipada. Haze deixou então o carro com
ele, certo de que estava entregue a mãos honestas.
CAPÍTULO 7

Na tarde seguinte, depois de ir buscar o carro, Haze levou-o


até ao campo para ver como se comportava na estrada aberta.
O céu estava coberto de um azul apenas um pouco mais claro
do que o fato dele, e limpo, com apenas uma nuvem flu­
tuando, uma grande nuvem branca ofuscante, com caracóis e
uma barba. Haze guiara cerca de uma milha fora da cidade
quando ouviu alguém pigarreando atrás de si. Abrandando,
olhou para trás a viu a filha de Hawks levantando-se do chão
e sentando-se na tábua que estava estendida sobre a armação
do banco traseiro.
«'Tive aqui o tempo todo», disse ela, «e tu nunca destes por
nada.» Tinha um molho de dentes-de-leão no cabelo e uma
boca larga e vermelha no rosto pálido.
«Pra qu'é qu'andas a esconder-te no meu carro?», pergun­
tou ele, irado. «Tenho coisas que fazer. Nã tenho tempo pra
parvoíces.» Mas logo a seguir controlou o tom de voz e esticou
os lábios, como num sorriso, lembrando-se que ia seduzi-la.
«Pois, 'tá bem», disse. «É bom ver-te.»
Ela levantou uma perna magra por cima do assento da frente
e depois içou o resto do corpo. Usava longas meias pretas.
«Naquele bilhete, querias dizer "boa, tipo bonita de ver"
ou .só "boazinha"?», perguntou ela.
90 ü ' CONNOR

«Os dois», respondeu ele, rígido.


«Chamo-me Sabbath», disse ela. 11Sabbath Lily Hawks.
A minha mãe deu-m'esse nome logo qu'eu nasci por causa
qu'eu nasci no sábado e depois voltou-se na cama e morreu e
eu nunca a vi.»
«Mmm», disse Haze. O queixou dele apertou-se e ele entrin­
cheirou-se atrás dele e continuou a conduzir. Não estava com
vontade de ter companhia. A sensação de prazer no carro e
naquela tarde estava estragada.
«Ele e ela nã eram casados», continuou ela, «e isso faz de
mim bastarda, mas eu nã tenho cá culpa. Foi o qu'ele me fez
a mim, nã fui eu que fiz a mim própria.»
«Bastarda?», murmurou ele. Não percebia como é que um
pregador que se cegara por Jesus podia ter tido uma filha
bastarda. Haze virou a cabeça e olhou-a com interesse pela
primeira vez.
Ela acenou com a cabeça e os cantos da boca voltearam­
-se para cima.
«Uma bastarda a sério», afirmou ela, tocando-lhe no coto­
velo. «E sabes que mais? Uma bastarda nã pode entrar nunca
no reino dos céus !», disse ela.
Haze ia conduzindo o carro em direcção à valeta, distraído
a olhar para ela.
«Mas com' é que podes ser.. », começou ele, e vendo o fosso
vermelho à sua frente, guinou o carro de novo para o meio
da estrada.
«Tu lês jornais?», perguntou ela.
11Não11, respondeu ele.
«Pois há lá 'ma mulher nos j ornais que se chama Mary
Brittle e que diz à gente o que fazer quand'a gente nã sabe­
mos. Eu escrevi-lh'uma carta e perguntei-lh'o que fazer.»
«Mas como podes ser bastarda s'ele se cegou ... », começou
ele novamente.
«E digo-lh'eu assim: "Cara Mary, eu sou bastarda e um
bastardo nã pode entrar no reino dos céus, como todos sabe­
mos, mas eu tenho esta personalidade que faz qu'os rapazes
SANGUE SÁBIO 9 1

andem atrás de mim. Acha qu'eu que devia andar na marme­


lada ou não? Com'eu assim com'assim nã vou poder entrar
no reino dos céus, nã vej o que diferença é que faz."»
«Mas ouve cá», insistiu Haze, «se ele se cegou, com'é que... »
«E depois ela respondeu à minha carta no jornal. Diz ela:
"Cara Sabbath, uns pequenos namoros são aceitáveis, se bem
que eu penso que o seu verdadeiro problema é um problema
de adaptação ao mundo moderno. Talvez você devesse ree­
xaminar os seus valores religiosos para ver se eles satisfazem
as suas necessidades na Vida. Uma experiência religiosa pode
ser um acrescento maravilhoso à sua vida, desde que ela seja
posta na devida perspectiva e você não permita que ela a
domine. Leia livros sobre Cultura Ética."»
«Mas tu nã podes ser bastarda», continuou Haze, empali­
decendo. «Deves 'tar enganada. O teu pai cegou-se.»
«E eu depois escrevi-lh'outra carta», disse ela, coçando o
tornozelo dele com a ponta do ténis dela e sorrindo. «Digo­
-lh' eu: "Cara Mary, o qu'eu quero mesmo saber é se devo ir
até ó fim co's rapazes ou não. Esse é qu'é o meu problema,
que de resto, 'tou bem adaptada ao mundo moderno."»
«0 teu pai cegou-se», repetiu Haze.
«Ele nem sempre foi tão bom com'é agora», disse ela.
«Mary nunca respondeu à segunda carta.»
«Quer dizer qu'ele quand'era novo nã acreditava, mas
depois passou a acreditar?», perguntou ele. « É isso que que­
res dizer ou não é?» E, com um pontapé bruto, ele afastou o
pé dela para longe do seu.
« É isso», respondeu ela. Depois, encolheu-se um pouco.
«Pára lá d'apalpar a minha perna co'a tua», disse.
A nuvem branca ofuscante estava um pouco à frente
deles, movendo-se para a esquerda.
«Porqu'é que nã viras além naquela estrada de terra?»,
sugeriu ela.
A estrada bifurcava-se para uma via de terra batida e
Haze virou e meteu por ela. O caminho era cheio de colinas
e sombra e permitia avistar bem a paisagem de ambos os
92 O ' CONNOR

lados. Um dos lados estava coberto de densos arbustos de


madressilva, o outro estava descoberto e estendia-se para
baixo, oferecendo um panorama vasto da cidade. Agora, a
nuvem branca estava directamente acima deles.
«Com'é qu'ele começou a acreditar?», perguntou Haze.
«0 qu'é que fez dele um pregador por Jesus?»
«Gosto bem duma estrada de terra», comentou ela. «Es­
pecialmente quand'é assim ós altos e baixos como esta aqui.
Porqu'é qu'a gente nã sai do carro e nos sentamos debaixo
duma árvore pra nos conhecermos melhor?»
Passadas umas centenas de metros, Haze parou o carro e
eles apearam-se.
«Ele era um homem muito maldoso antes de começar a
acreditar?», perguntou. «Ou era só meio maldoso?»
«Era mau 'té ó tutano», respondeu ela, passando por debaixo
da vedação de arame farpado na berma da estrada. Uma vez do
outro lado, sentou-se e começou a tirar os sapatos e as meias.
«Com'eu gosto d'andar num campo é descalça», declarou com
prazer.
«Ouve cá», murmurou Haze, «eu tenho que voltar prà
cidade. Nã tenho cá tempo pra ficar de passeio em campo
nenhum.» Mas, mesmo assim, passou por debaixo da vedação
e, já no outro lado, disse: «Bem, imagino qu'antes d'ele acre­
ditar, ele nã acreditava em coisa nenhuma.»
«Vamos 'té àquela colina ali sentar-nos debaixo das árvo­
res», sugeriu ela.
Os dois subiram a colina e desceram do outro lado, a rapa­
riga um pouco à frente de Haze. Ele percebeu que sentar-se
com ela debaixo de uma árvore poderia ajudar a seduzi-la,
mas não estava com pressa alguma de começar, por causa da
inocência dela. Achou que era um trabalho demasiado difícil
para se fazer numa tarde. Ela sentou-se debaixo de um
pinheiro frondoso e bateu com a mão no chão a seu lado,
para que ele se sentasse, mas ele foi sentar-se a metro e meio
de distância, em cima de uma pedra. Depois, descansou o
queixo sobre os joelhos e fitou em frente.
SANGUE SÁBIO 93

«Eu posso salvar-te», disse ela. «Tenh'uma igreja cá no nieu


coração onde Jesus é Rei.»·
Ele debruçou-se na direcção dela, lançando-lhe um olhar
irado.
«Eu acredito num tipo novo de jesus», declarou ele. «Um
que nã pode andar a desperdiçar o sangue dele pra redimir as
pessoas co'ele porque ele é todo homem e nã tem Deus
nenhum dentro dele. A minha igrej a é a Igrej a sem Cristo !11
Ela aproximou-se dele.
«Uma bastarda pode salvar-se nessa tua igreja?», pergun­
tou.
«Na Igreja sem Cristo nã há bastardos», respondeu ele.
«Toda a gente é igual. Um bastardo nã ia ser diferente de mais
ninguém.»
«Ainda bem», disse ela.
Ele olhou-a irritado, porque havia já algo na mente dele
que o contradizia, algo que lhe dizia que um bastardo não se
salvava e que só havia uma verdade (que Jesus era um men­
tiroso) e que o caso dela não tinha remédio. Ela abriu o cola­
rinho da blusa e estendeu-se de costas no chão.
«Os meus pés são tão brancos, nã são?», perguntou ela,
erguendo-os ligeiramente.
Haze não olhou para os pés dela. Essa voz na sua cabeça
dizia-lhe que a verdade não se contradizia e que um bastardo
não se podia salvar na Igreja sem Cristo. Mas ele decidiu
esquecer, decidiu que não era importante.
«Uma vez, havia 'ma criança», contou ela, virando-se
sobre a barriga, «que ninguém qu'ria saber s'ela se morria ou
se vivia. Os parentes dela mandavam-na duma casa prà outra
e depois, no fim, mandaram-na prà avó, qu'era uma velha
muito ruim e não suportava ter a criança ó pé porque a mais
pequena coisa boa fazia-a andar ós gritos. E ficava cheia de
comichões e inchava. Até os olhos dela faziam comichão e
inchavam e ela nã podia fazer nada senão largar a correr pia
rua pra cima e pra baixo, àbanar as mãos e a rogar pragas, e
'inda era pior quando esta criança lá 'tava, e por isso ela dei-
94 o ' CONNOR

xava a criança trancada numa gaiola de galinhas. E a criança


viu a avó no fogo dos infernos, toda inchada àrder e contou­
-lhe tudo o que tinha visto e a velha inchou tanto que no fim
foi 'té ó poço e pôs a corda ó pescoço e largou o balde e par­
tiu o pescoço.»
«Eras capaz d'adivinhar qu'eu que tenho quinze anos?», per­
guntou ela.
«Na Igreja sem Cristo a pal'vra "bastardo" nem ia fazer sen­
tido», disse Haze.
«Porqu'é que nã te deitas e descansas?», sugeriu ela.
Haze afastou-se um pouco e deifou-se. Depois, pôs o cha­
péu em cima do rosto e cruzou os braços sobre o peito. Ela
pôs-se de gatas, gatinhou até junto dele e espreitou por cima
do chapéu. Depois, levantou-o como uma tampa e olhou-o
nos olhos. Estavam olhando directamente para cima, fitando
o céu.
«A mim nã faz dif rença nenhuma», disse ela suavemente,
«se gostas de mim muito ou pouco.»
A custo, ele forçou o olhar a fitar o pescoço dela. Aos pou­
cos, ela foi baixando a cabeça até as pontas dos narizes quase
se tocarem. Ainda assim, ele continuava sem a olhar.
«'Tou-t'a ver», disse ela em tom brincalhão.
«Sai-me daqui !», exclamou ele, saltando violentamente.
Ela levantou-se desajeitada e correu para trás da árvore.
Haze pôs novamente o chapéu na cabeça e levantou-se, aba­
lado. Queria voltar para o carro. De repente, percebeu que o
carro tinha ficado parado numa estrada erma, destrancado, e
que a primeira pessoa que passasse havia de o levar.
«'Tou-t'a. ver», ouviu-se uma voz atrás da árvore.
Ele afastou-se a passos largos na direcção oposta, em
direcção ao carro. A expressão rtjubilante do rosto que esprei­
tou po r detrás da árvore apagou-se.
Haze entrou no carro e, com movimentos automáticos,
tentou arrancar. Mas o carro apenas produziu um ruído,
como água perdida num cano qualquer. Uma sensação de
pânico tomou conta dele e ele começou a bater com força na
SANGUE SÁBIO 95

ignição. No painel, havia dois instrumentos com agulhas que


apontavam freneticamente, primeiro numa direcção, depois
noutra, mas estes eram aparelhos que funcionavam num sis­
tema separado, independente do resto do carro. Haze não
conseguia perceber se lhe tinha acabado a gasolina ou não.
Sabbath Hawks apareceu correndo até à vedação. Num ápice,
deitou-se no chão e rebolou por baixo do arame farpado, e
depois ficou de pé junto à janela do carro, olhando para den­
tro. Ele voltou o rosto para ela ferozmente e exclamou :
«Qu'é que fizestes ó meu carro?» Depois, saiu e começou
a andar pela estrada fora, sem esperar que ela respondesse.
Passado um segundo, ela seguiu-o, mantendo alguma dis­
tância.
No entroncamento da estrada principal com o caminho de
terra havia uma loja com uma bomba de gasolina. Ficava a
cerca de setecentos metros de distância. Haze foi caminhando
em passo rápido e constante até a alcançar. O sítio tinha um
aspecto deserto, mas passados alguns minutos apareceu um
homem, do meio do arvoredo nas traseiras, e Haze explicou­
-lhe o que queria. Enquanto o homem tirava a carrinha da
garagem para os levar de volta ao Essex, Sabbath Hawks
alcançou a loja e foi para perto de uma jaula com cerca de
dois metros de altura que havia ao lado da barraca. Haze só
reparou na jaula quando a rapariga lá chegou perto. Obser­
vando, ele viu que havia algo vivo lá dentro e aproximou-se
então o suficiente para ler um cartaz que dizia : •DOIS INIMIGOS
MORTAIS. VENHA VER. GRÁTIS.»
Dentro da jaula estava um urso negro com cerca de um
metro e vinte de comprimento e muito magro, deitado no
chão da jaula. O dorso dele estava manchado de excrementos
de pássaro que lhe tinham sido largados por um pequeno fal­
cão que estava sentado num poleiro na parte de cima da
mesma jaula. A maior parte da cauda do falcão tinha sido
arrancada. O urso só tinha um olho.
«Vem pra cá, se nã queres ficar pra trás», disse Haze,
áspero, agarrando a rapariga por um braço. O homem já tinha
96 ü 'CONNOR

a carrinha pronta e os três voltaram então para junto do carro.


Pelo caminho, Haze falou ao homem sobre a Igreja sem Cristo,
explicando os seus princípios e declarando que na sua igreja
não havia bastardos. O homem não comentou. Quando saíram
da carrinha, junto do Essex, o homem meteu uma lata de
gasolina no depósito e Haze entrou no carro e tentou fazê-lo
arrancar mas sem sucesso. O homem abriu a capota e exami­
nou o motor durante um tempo. O homem só tinha um braço.
Tinha dois dentes cor de areia e dois olhos azuis, como que de
lousa, pensativos. Ainda não dissera mais de duas palavras.
Ficou examinando o motor durante muito tempo, enquanto
Haze esperava de pé ao lado dele, mas não tocou em nada.
Passado um bocado, fechou a capota e assoou o nariz.
«Qual é o problema ali?», perguntou Haze com voz agi­
tada. « É um bom carro, nã é?»
O homem não lhe respondeu. Sentou-se no chão e escor­
regou para debaixo do carro. Usava botas altas e meias cin­
zentas e demorou-se muito tempo debaixo do carro. Haze
pôs-se de gatas no chão e olhou para baixo para ver o que
ele estava a fazer, mas ele não estava a fazer nada. Estava
simplesmente ali deitado, olhando para cima, como se esti­
vesse contemplando, o seu único braço dobrado em cima do
peito. Passado um bocado, o homem esgueirou-se para fora e
limpou a cara e o pescoço com um pedaço <;1.e flanela que tra­
zia no bolso.
«Oiça cá», disse Haze, «este carro é bom. Basta dar-m'um
empurrão, é só o que basta. Este carro leva-m'a toda a parte
ond'eu queira ir.»
O homem não disse nada, mas voltou a meter-se na carri­
nha e Haze e Sabbath Hawks entraram no Essex e ele empur­
rou-os. Depois de umas centenas de metros, o Essex começou
a tossir, a ofegar e a agitar-se. Haze meteu a cabeça para fora
da janela e fez sinal à carrinha para que se pusesse ao seu lado.
«Ah !», exclamou. «Eu nã lhe disse? Este carro leva-m'a
toda a parte ond'eu queira ir. Até pode parar aqui e ali, mas
nunca pára pra sempre. Quant'é que lhe devo?»
SANGUE SÁBIO 97

«Nada», respondeu o homem. «Nadinha.»


«Mas a gasolina», disse Haze. «Quant'é que lhe devo pela
gasolina?»
«Nada», respondeu o homem com a mesma expressão parada.
«Nadinha.»
«Então está bem, agradecido», disse Haze, e arrancou. «Nã
preciso de favores nenhuns dele», resmungou.
«É um belo carro», comentou Sabbath Hawks. «Anda macio
como mel.»
«E nã foi montado por nenhum bando de pretos ou de
estrangeiros ou de manetas», disse Haze. «Foi feito por gente
que tinh'ós olhos abertos e sabia o que 'tava a fazer.»
Quando chegaram ao fim da via de terra e se viram perante
a estrada asfaltada, a carrinha parou novamente ao lado deles
e, com os dois carros parados lado a lado, Haze e o homem
dos olhos de lousa olharam um para o outro por entre as jane­
las dos veículos.
«Eu bem lhe disse qu'este carro me levava pra tod'à parte
adond'eu quero ir», disse Haze com azedume.
«Há algumas coisas», respondeu o homem, «que dão pra
levar alguma gente a alguns sítios.» E virou o carro para a
estrada principal.
Haze continuou a conduzir. A nuvem branca ofuscante
transformara-se num pássaro com longas asas finas e estava
desaparecendo na direcção oposta.
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CAPÍTULO 8

Enoch Emery sabia agora que a sua vida nunca mais seria a
mesma, porque a coisa que estava prestes a acontecer-lhe já
tinha começado a acontecer. Ele sempre soubera que algo
aconteceria, mas nunca soubera o quê. Se fosse muito dado a
pensamentos, poderia ter pensado que aquela era a altura
para justificar o sangue do seu pai, mas ele não tinha esses
raciocínios abrangentes, pensava somente no que fazer em
seguida. Por vezes, nem pensava, imaginava simplesmente
cenários. E então, em pouco tempo, dava por si fazendo isto
ou aquilo, como um pássaro dá por si fazendo um ninho
quando não tinha planeado fazê-lo.
O que ia acontecer-lhe tinha começado a acontecer quando
mostrara a Hazel Motes o que estava dentro da vitrina.
Aquele era um mistério que ultrapassava o seu entendimento,
mas ele sabia que o que se esperava de si era qualquer coisa
terrível. O sangue dele era mais sensível do que qualquer
outra parte de si. Ele espalhava avisos de perdição por todo o
seu corpo, à excepção talvez do cérebro, e o resultado disso
era que a língua, que sobressaía da boca frequentemente para
apalpar a bolha no lábio, sabia mais do que ele.
A primeira coisa fora do normal que deu por si a fazer foi
poupar o salário. Estava a poupá-lo todo, à excepção daquele
100 o ' coNNOR

que a senhoria vinha receber todas as semanas e do que ele


gastava a comprar algo para comer. Depois, para sua sur­
presa, reparou que não andava a comer muito e que estava a
poupar também esse dinheiro. Enoch tinha uma predilecção
por supermercados. Era seu costume passar uma hora ou duas
num supermercado todas as tardes, depois de deixar o par­
que, passeando por entre as filas de comida enlatada e lendo
as histórias nas caixas de cereais. Recentemente, tinha-se
vistO compelido a pegar numa coisa ou outra que não fizesse
demasiado volume nos bolsos, e começou a pensar se não
seria por isso que andava a poupar tanto dinheiro em comida.
Podia bem ser, mas Enoch suspeitava que esse hábito de pou­
par dinheiro estava de aiguma forma relacionado com qual­
quer coisa mais vasta. Ele sempre tivera propensão para rou­
·
bar, mas nunca poupara dinheiro nenhum.
Ao mesmo tempo, o rapaz começou a arrumar o quarto.
Era um pequeno quarto verde, ou fora verde em tempos, no
sótão de uma casa antiga onde se alugavam quartos. Esta
residência tinha um aspecto e uma aura de espaço mumifi­
cado, mas nunca ocorrera a Enoch abrilhantar a divisão (cor­
respondente à cabeça da múmia) em que vivia. Mas então,
deu simplesmente por si a fazer isso mesmo.
Em primeiro lugar, tirou o tapete do chão e pendurou-o à
janela, o que foi um erro porque, quando quis puxar o tapete
outra vez para dentro, já só sobravam um ou dois longos fia­
pos com umas costuras agarradas . . Enoch supôs então que o
tapete devia ser muito velho e decidiu tratar o resto da mobí­
lia com mais cuidado. Continuando, lavou a armação da
cama com água e sabão e descobriu que, debaixo da segunda
camada de sujidade, a cama era de um ouro puro, e isto afec­
tou-o tanto que ele se lançou a lavar a cadeira. Era uma
cadeira baixa e redonda com pernas bojudas, que faziam crer
que a cadeira estava agachada. O ouro começou a aparecer
com o primeiro toque de água, mas logo desapareceu com o
segundo. Com a continuação da lavagem, a cadeira largou
por fim a sua posição agachada e sentou-se direita, como se
SANGUE SÁBIO 101

fosse o fim de longos anos de luta interior. Enoch não soube


dizer se essa luta era em seu favor ou contra si. Aliás, teve
vontade de partir a cadeira em pedaços, mas acabou por
deixá-la ficar, exactamente na mesma posição em que ela se
sentara, porque ele não era um rapaz intempestivo que cor­
resse riscos com o significado das coisas. Pelo menos, não
por enquanto. Por enquanto, o que ele não sabia é que im­
portava.
A única outra peça de mobiliário que havia no quarto era
um lavatório, construído em três partes e assente em pés de
galo com quinze centímetros de altura. As pernas tinham pés
com garras e cada uma delas estava cravada em volta de uma
pequena bala de canhão. A parte de baixo era um armário
que parecia um tabernáculo, onde se guardava o jarro da
água. Enoch não tinha um jarro para o lavatório, mas tinha
uma certa reverência pela finalidade das coisas e, como não
tinha o objecto certo para pôr ali dentro, deixara o armário
vazio. Directamente por cima deste recanto para o tesouro
havia uma laje de mármore cinzenta, e erguendo-se por
detrás dela, um entrançado de ripas de madeira com corações,
rolos e flores, que se estendia para os lados, formando uma
asa de águia curvada em cada lado e contendo ao meio,
mesmo ao nível do rosto de Enoch quando ele se punha de
pé diante do lavatório, um pequeno espelho oval. A moldura
de madeira estendia-se novamente por cima do espelho e ter­
minava numa peça cimeira enfeitada com cornos e uma
coroa, assim provando que o artista não perdera a fé no seu
trabalho.
Para Enoch, esta peça de mobiliário sempre fora o centro
do quarto, e aquela que mais o ligava àquilo que ele desco­
nhecia. Mais de uma vez após um grande jantar, o rapaz
sonhou em destrancar o armário, entrar lá para dentro e
depois conduzir determinados ritos e mistérios, de que só
tinha uma vaga ideia na manhã seguinte, quando acordava.
Ao limpar, o lavatório foi a primeira peça em que pensou,
mas tal como era usual em si, decidiu começar pela coisa
1 02 o'CONNOR

menos importante e ir trabalhando em direcção ao centro,


onde estava guardado o significado das coisas. Por isso, antes
de se dedicar ao lavatório, Enoch tratou das imagens que
tinha penduradas nas paredes do quarto.
Havia três imagens, uma delas pertencente à senhoria (que
era quase completamente cega mas que se movimentava
guiada por um apurado sentido do olfacto), e as outras duas
dele. O quadro da senhoria era um pequeno retrato castanho
de um alce de pé num pequeno lago. O (!r de superioridade
no rosto deste animal era tão insuportável para Enoch que, se
ele não tivesse tanto medo do bicho, já teria feito qualquer
coisa há muito tempo. Mas, assim sendo, o rapaz não podia
fazer nada naquele quarto que aquele rosto presunçoso não
observasse com aquela expressão, não chocada, porque não
era possível esperar nada melhor, nem divertida, porque nada
era engraçado. Mesmo que tivesse procurado por toda a
parte, Enoch nunca teria encontrado um companheiro de
quarto que o irritasse mais. Azedo, o rapaz repetia constan­
temente uma torrente interior de comentários, muito pouco
elogiosos para o alce, mas era mais prudente quando se atre­
via a dizer qualquer coisa em voz alta. O alce estava metido
numa pesada moldura castanha com desenhos de folhas nas
bordas, e essa moldura aumentava-lhe a gravidade e a expres­
são insolente. Enoch percebeu que chegara finalmente a altura
em que era necessário fazer qualquer coisa. Ele não sabia o
que estava prestes a acontecer no seu quarto, mas quando
isso acontecesse, ele não queria sentir que era o alce quem
estava a comandar. A resposta ocorreu-lhe já toda pronta :
dotado de uma repentina intuição, Enoch percebeu que tirar­
-lhe a moldura seria como tirar-lhe a roupa (apesar de ele não
envergar roupa alguma), e nisso teve razão, porque, assim
que o fez, o alce ficou com um aspecto tão diminuído que
nada mais restava a Enoch senão rir à socapa e olhar para o
bicho pelo canto do olho.
Depois deste sucesso, o rapaz dedicou a sua atenção aos
outros dois quadros. Estes eram calendários antigos que lhe
SANGUE SÁBIO 103

tinham sido enviados pela Agência Funerária de Hilltop e


pela Companhia de Pneus Borracha Americana. Um deles
mostrava um rapazinho com um par de pantufas azuis, ajoe­
lhado ao pé da cama, dizendo : «E Deus abençoe o papá»,
enquanto a lua espreitava pela janela. Este era o quadro pre­
ferido de Enoch e estava pendurado directamente por cima da
sua cama. O outro trazia a imagem de uma senhora enver­
gando um pneu de borracha e estava pendurado directamente
em frente do alce, na parede oposta. Esse, Enoch deixou onde
estava, certo de que o alce estava só a fingir não o ver. Assim
que acabou de tratar dos quadros, Enoch saiu e comprou cor­
tinados de chita, uma garrafa de tinta dourada e um pincel
com o dinheiro todo que poupara.
Isto para ele foi uma desilusão, porque o rapaz esperara
que esse dinheiro fosse para comprar roupa nova, e agora,
aqui estava ele, vendo-o todo gasto num conjunto de corti­
nas novas. Quanto à tinta dourada, ele só percebeu para que
serviria quando chegou a casa. Ao chegar a casa, Enoch sen­
tou-se em frente do armário feito para o j arro do lavatório,
abriu-o e pintou o interior com a tinta dourada. E então per­
cebeu que aquele armário era para ser usado para qualquer
coisa.
Enoch nunca insistia com o sangue para que ele lhe expli­
casse fosse o que fosse antes de estar pronto para isso. Ele
não era o tipo de rapaz que agarra a primeira possibilidade e
sai correndo, propondo esta ou aquela absurdez. Num grande
assunto como este, Enoch estava sempre disposto a aguardar
uma certeza, e assim, também aguardou por esta, seguro de
que pelo menos dentro de dias saberia. E então, durante cerca
de uma semana, o seu sangue esteve ocupado todos os dias
com secretas conversações consigo próprio, parando apenas
de vez em quando para gritar uma ordem qualquer a Enoch.
Na segunda-feira seguinte, ao acordar, Enoch teve a cer­
teza de que aquele era o dia em que ele saberia mais. O san­
gue dele arremetia pelas veias como uma mulher que limpa
febrilmente a casa depois de os convidados chegarem, e
104 ü ' CONNOR

Enoch sentia-se áspero e rebelde. Quando percebeu que aquele


era o dia, decidiu ficar na cama. Ele .não queria ter de justifi­
car o sangue do pai, não queria ter de estar sempre a fazer coi­
sas que outra coisa qualquer queria que ele fizesse, coisas que
ele nem sequer sabia o que eram e que eram sempre perigosas.
Mas, naturalmente, o sangue dele não ia tolerar atitudes
como esta. Às nove e meia já Enoch estava no jardim zooló­
gico, apenas meia hora depois da hora do costume. Durante
toda a manhã, não pensou uma vez no portão que suposta­
mente guardava. A mente estava constantemente a perseguir
o sangue, tentando alcançá-lo, como um rapaz com uma
esfregona e um balde, limpando algo aqui e ensopando algo
ali sem um segundo de descanso. Assim que o guarda do
segundo turno chegou, Enoch foi para a cidade.
A cidade era o último lugar onde ele queria estar, porque ali
qualquer coisa podia acontecer. Durante todo o tempo que a
mente passara perseguindo o sangue, ela ia sempre pensando
que, assim que largasse o serviço, ele ia esgueirar-se para casa
e meter-se na cama.
Quando chegou ao centro da cidade, Enoch estava exausto
e teve de se inclinar contra a montra de uma drogaria para
repousar um pouco. O suor arrastava-se pelas costas dele
abaixo e fazia-lhe comichão, de maneira que, passados pou­
cos minutos, parecia estar lentamente a atravessar a janela
por força dos músculos, contra um pano de fundo de relógios
despertadores, autoclismos, rebuçados, pensos higiénicos,
esferográficas e lanternas de bolso, dispostas em todas as
cores, em torres com o dobro da sua altura. Parecia estar len­
tamente a percorrer o espaço que o separava de um rumor
que vinha do centro de um pequeno nicho que formava a
entrada da loj a. Ali, estava montada uma máquina amarela e
azul, de vidro e aço, cuspindo pipocas para dentro de um cal­
deirão de manteiga e sal. Enoch aproximou-se, já com a car­
teira de fora, contando o dinheiro. A carteira dele era uma
longa bolsa de couro cinzenta, atada no cimo com um cor­
del. Era uma bolsa que ele roubara ao pai e que agora acari-
SANGUE SÁBIO 105

nhava como um tesouro porque era a única coisa que ele


tinha agora em que o seu paizinho tinha posto a mão (para
além de si próprio). Enoch tirou duas moedas de cinco cênti­
mos e deu-as a um rapaz pastoso de avental branco que
estava ali para operar a máquina. O rapaz meteu as mãos nas
entranhas do aparelho e encheu um saco de papel branco
com o milho, sempre sem tirar os olhos do porta-moedas de
Enoch. Em qualquer outro dia, Enoch teria tentado fazer ami­
zade com este rapaz, mas naquele dia estava demasiado ocu­
pado para sequer reparar nele. Em vez disso, pegou no saco
e começou a meter o porta-moedas de volta ao bolso de onde
o tinha tirado. Os olhos do rapaz seguiram-no até mesmo à
borda do bolso.
«Essa coisa parec'uma bexiga de porco», observou ele, in­
vejoso.
«Agora tenh' d'ir andando», murmurou Enoch, apressando­
-se a entrar na loja. Lá dentro, andou absorto até ao fundo da
loja e depois voltou novamente à entrada, percorrendo o outro
corredor, como se quisesse mostrar a qualquer pessoa que
andasse à sua procura que ele estava ali. Deteve-se frente à
máquina de refrigerantes para ver se deveria sentar-se e comer
qualquer coisa. O canto dos refrigerantes era de linóleo rosa
e verde, a imitar mármore, e atrás da máquina estava uma
empregada ruiva num uniforme cor de lima e avental rosa.
Tinha olhos verdes pintados de rosa, que se assemelhavam à
fotografia atrás dela que anunciava a Surpresa Lima-Cereja, o
refresco do dia, que estava a dez cêntimos. Enquanto Enoch
estudava a informação afixada por cima da cabeça dela, ela
confrontou-o. Passado um minuto, pousou o peito no balcão
e emoldurou-o com os braços cruzados, à espera. Enoch não
conseguia perceber qual das várias mistelas era a que ele devia
tomar, até que ela acabou com a indecisão, metendo um braço
debaixo do balcão e trazendo para cima uma Surpresa Lima­
Cereja.
«Está boa», disse ela. «Fui eu que a fiz esta manhã, logo a
seguir ao pequeno-almoço.»
106 ü'CONNOR

«Hoje vai acontecer-m'uma coisa», disse Enoch.


«Já disse qu'o sumo 'tá bom», disse ela. «Eu fize-o hoje de
manhã.»
«Eu vi isso logo de manhã quando acordei», continuou ele,
com a expressão de um visionário.
«Meu Deus !», suspirou ela, arrancando o sumo de debaixo do
queixo dele. Depois voltou costas e começou a tilintar vários
instrumentos. Passado um segundo, largou outro copo de sumo
em frente dele, exactamente igual ao anterior, mas fresco.
11Agora tenh' d'ir andando», disse Enoch, apressando-se a
sair. Quando ele passou pela máqu�na das pipocas, um olhar
prendeu-se-lhe ao bolso, mas ele não parou. Nã quer' fazer
isto, ia ele repetindo para si próprio. Sej'ó que for, nã quer'
fazer isto. Vou pra casa. Vai ser qualquer coisa qu'eu nã vou
qu'rer fazer. Vai ser qualquer coisa qu'eu nã tenho nada
qu'andar fazendo. E pensou em como tinha tido de gastar
todo o seu dinheiro em cortinados e em tinta dourada quando
podia ter comprado uma camisa e um laço fosforescente. Vai
ser qualquer coisa contra a lei, disse ele. É sempre qualquer
coisa ilegal. Nã vou fazer nada disso, disse ele, e parou. Tinha
parado em frente a um cinema onde havia uma ilustração
enorme de um monstro empurrando uma jovem mulher para
dentro de um incinerador.
Nã me vou meter em nenhum filme destes, disse ele, lan­
çando um olhar nervoso ao cartaz. Vou é pra casa. Nã vou
ficar pr'aqui à espera em cinema nenhum. Nã tenho dinheiro
pra comprar bilhete, disse ele, tirando o porta-moedas do
bolso novamente. Nem sequer vou contar aqui estes trocos.
Aqui só tenho quarenta e três cêntimos, disse ele, isso nã
chega. Um cartaz anunciava que o preço para adultos era qua­
renta e cinco cêntimos, trinta e cinco para o balcão. Vou agora
cá sentar-me no balcão, disse ele, comprando um bilhete de
trinta e cinco cêntimos.
Nã vou entrar, disse ele.
Duas portas abriram-se de par em par e ele viu-se des­
cendo um longo átrio vermelho, percorrendo depois um túnel
SANGUE SÁBIO 107

escuro e por fim um outro túnel, mais alto e ainda mais escuro.
Poucos minutos depois estava numa parte elevada do bucho,
às apalpadelas, como Jonas, em busca de um assento. «Nã vou
nem olhar pr'aquilo», disse ele furiosamente. Ele não gostava
de filmes nenhuns senão dos musicais a cores.
O primeiro filme era sobre um cientista chamado O Olho,
que fazia operações por controlo remoto. Uma pessoa acor­
dava de manhã e descobria um corte comprido no peito, na
cabeça ou no estômago, e qualquer coisa sem a qual não
podemos viver tinha sido retirada. Enoch enterrou o chapéu
e puxou os joelhos para cima, em frente ao rosto. Só os olhos
fitavam o ecrã. Esse filme durou uma hora.
O segundo filme era sobre a vida na colónia penal da Ilha
do Diabo. Passado um bocado, Enoch teve de cravar os dedos
em redor dos braços da cadeira, para evitar cair por cima da
balaustrada que tinha à sua frente.
O terceiro filme chamava-se «Lonnie Volta para Casa». Era
sobre um babuíno chamado Lonnie, que salvava crianças
bonitinhas de dentro de orfanatos em chamas. Enoch ia tor­
cendo para que o Lonnie morresse queimado, mas ele parecia
nem sequer ficar com calor. No fim, uma rapariguinha bonita
deu-lhe uma medalha. Isso para Enoch era insuportável. Num
ímpeto, mergulhou pelo corredor abaixo, avançou aos trope­
ções pelos dois túneis, correu para fora do átrio vermelho e
saiu para a rua. Assim que o ar lhe bafejou o rosto, perdeu as
forças e soçobrou.
Quando recuperou o ânimo, deu por si sentado contra a
parede do cinema. Agora, já não pensava em escapar-se ao
seu dever. Já era noite e Enoch sentia que esse conhecimento
ao qual não conseguia escapar estava quase a alcançá-lo. A sua
resignação era agora perfeita. Assim, deixou-se ficar encos­
tado à parede durante cerca de vinte minutos e por fim levan­
tou-se e começou a descer a rua, como que guiado por uma
melodia silenciosa, ou por um desses apitos que só os cães
conseguem ouvir. Ao fim de dois quarteirões, Enoch parou
novamente, a atenção concentrada no outro lado da rua. Ali,
108 O ' CONNOR

de frente para ele, debaixo de um poste de iluminação,


estava estacionado um carro cor de ratazana, e em cima da
capota uma figura escura com um sombrio chapéu branco na
cabeça. Os braços desse vulto moviam-se para cima e para
baixo e ele tinha mãos magras e gesticuladoras, quase tão
pálidas como o chapéu.
«Hazel Motes !», murmurou Enoch entredentes, e o coração
dele começou a martelar no peito, de um lado para o outro,
como um frenético sino de igreja.
Havia algumas pessoas de pé no passeio perto do carro.
Enoch não sabia que Hazel Motes tinha começado a Igrej a
sem Cristo e que andava a pregar n a ru a todas a s noites. Não
o via desde aquele dia no parque, em que lhe mostrara o
homem engelhado na vitrina.
«Se vocês tivessem sido redimidos», bradava Hazel Motes,
«iam preocupar-se com a redenção. Mas ninguém quer saber.
Olhem para dentro de vocês e vejam lá se não preferiam não
ter sido, se tivessem sido redimidos. Para os redimidos nunca
há paz», gritou ele, «e eu prego a paz. Eu prego a Igreja sem
Cristo, a igreja em paz e satisfeita !»
Duas ou três das pessoas que haviam parado perto do
carro começaram a andar para o outro lado.
«Vão-s'embora, vão !», exclamou Hazel Motes. «Peguem
nas pernas e vão-s'embora ! Vocês nã querem saber da ver­
dade. Oiçam», disse ele, apontando o dedo às restantes pes­
soas, «a verdade nã vos importa. Se Jesus vos tivesse redi­
mido, que difrença vos fazia? Vocês nã haviam de fazer nada
por causa disso. As vossas caras nã iam mudar nem duma
maneira nem doutra, e se havia três cruzes no monte e Ele
pendurado na do meio, essa não havia de significar nada
mais pra vocês e eu do que as outras duas. Oiçam cá. O que
vocês precisam é d'alguma coisa que tom'o lugar de Jesus,
alguma coisa que fale verdade. A Igreja sem Cristo nã tem
nenhum Jesus mas precisa dum ! Precisa dum jesus novo !
Precisa dum que seja todo homem, sem sangue pra desperdi­
çar, e precisa dum que nã se pareça com outro homem nenhum,
SANGUE SÁBIO 109

qu'é pra vocês olharem bem pra ele. Dêem-m' um jesus assim,
minha gente ! Dêem-m'um jesus assim novo e verão até aon­
d'é qu'a Igreja sem Cristo há-de conseguir ir!»
Uma das pessoas que o ouvia foi-se embora, pelo que fica­
ram apenas duas. Enoch estava de pé no meio da rua, para­
lisado.
«Mostrem-m'onde 'tá esse novo jesus», exclamou Hazel
Motes, «e eu hei-d'instalá-lo na Igreja sem Cristo e depois
vocês hão-de ver a verdade ! Depois hão-de perceber duma
vez por todas que nã foram redimidos coisa nenhuma. Dêem­
-m'esse novo jesus, algum de vocês, pra podermos ser todos
salvos ao olhar pra ele !»
Enoch começou a gritar sem emitir qualquer som, e gritou
assim durante um minuto inteiro, enquanto Hazel Motes pros­
seguia.
«Olhem pra mim !», exclamou Hazel Motes com uma falha
na garganta, «e hão-de ver um homem em paz ! Em paz por­
qu'o meu sangue me libertou. Aconselhem-se co'vosso san­
gue e venham prà Igreja sem Cristo e talvez alguém nos traga
um jesus novo e a gente sêjamos todos salvos ao contemplá­
-lo !»
Um som ininteligível foi cuspido da garganta de Enoch.
O rapaz tentou berrar, mas o sangue dele reteve-o. Por isso,
sussurrou:
«Olha, eu tenho-o ! Quer dizer, poss'ir buscá-lo ! Tu sabes !
Ele ! Ele, aquele que te mostrei. Tu próprio j á o vistes !»
O sangue dele lembrou-lhe de que a última vez que vira
Haze Motes fora quando ele o derrubara com uma pedrada na
cabeça. E ele ainda nem sequer sabia como iria roubar o
homem de dentro da vitrina. A única coisa que sabia é que
tinha no seu quarto um nicho preparado para o guardar até
que Haze estivesse pronto para o receber. O sangue dele suge­
riu-lhe que deixasse que a oferta fosse uma surpresa para
Haze Motes. Enoch começou a recuar. Recuou até ao outro
lado da rua, percorrendo uma parte do passeio e saindo para
o meio da outra rua, até um táxi ter de travar a fundo para
1 1 0 ü 'CONNOR

não o atropelar. O taxista pôs a cabeça de fora e perguntou­


-lhe como é que ele se arranj ava para andar tão bem pelas
ruas, se Deus o fizera com duas costas coladas uma à outra,
em vez de umas costas e uma parte da frente.
Enoch estava demasiado ocupado com pensamentos para
pensar nisso.
«Agora tenh' d'ir andando», murmurou ele, antes de pros­
seguir em passo apressado.
CAPÍTULO 9

Hawks mantinha a porta trancada e sempre que Haze ia lá


bater, o que acontecia duas ou três vezes por dia, o ex-evan­
gelista mandava a filha ir recebê-lo lá fora e trancava a porta
atrás dela. Enfurecia-o ter Haze constantemente rondando
pela casa, sempre a lembrar-se de desculpas para entrar no
seu quarto e olhar-lhe o rosto. Para além disso, Hawks pas­
sava muito tempo bêbado e não queria ser descoberto nesse
estado.
Haze não conseguia compreender por que motivo o prega­
dor não o recebia nem agia como deve um pregador agir
quando se vê na presença do que ele julga ser uma alma per­
dida. Por isso, estava constantemente a tentar entrar nova­
mente no quarto. Mas a única janela que ele poderia alcançar
estava sempre trancada e o estore puxado para baixo. Haze
queria ver, se conseguisse, por detrás dos óculos escuros.
Sempre que ia bater à porta, a rapariga saía cá para fora e
o ferrolho era trancado do lado de dentro. E depois, Haze não
conseguia livrar-se dela. Ela seguia-o até ao carro e entrava lá
para dentro e estragava-lhe os passeios, ou então seguia-o até
ao quarto e ficava lá sentada. Ele abandonou a ideia de a
seduzir e tentou proteger-se. Ainda não estava naquela casa
há uma semana quando ela apareceu no seu quarto uma noite,
1 1 2 ü 'CONNOR

já depois de ele se deitar. Apareceu segurando uma vela acesé


dentro de um frasco e envergando uma camisa de noite d(
mulher que lhe pendia larga dos ombros magros e se arras­
tava no chão atrás de si. Haze não acordou senão quando elé
já estava quase à beira da sua cama, mas assim que desper­
tou levantou-se de um salto, saindo de baixo do cobertor t
pondo-se de pé no meio do quarto.
«Queres o quê?», perguntou.
Ela não disse nada e o sorriso alargou-se ainda mais, à lm
da vela. Ele ficou de pé, olhando-a ameaçadoramente durantt
um instante, e depois pegou na cadeira e ergueu-a no ar
como se fosse abatê-la sobre a rapariga. Ela tardou-se apenm
unia fracção de segundo. A porta do quarto dele não trancava
e por isso ele prendeu a cadeira debaixo da maçaneta ante5
de voltar para' a cama.
«Ouve», disse ela quando voltou para o seu quarto. «Nada
funciona. Ele ia bater-me co'a cadeira.»
«Eu vou-me daqui pra fora dentro de uns dias», respondeu
Hawks. «É bom qu'arranjes maneira que funcione, se quiseres
comer depois d'eu m'ir embora.» Estava bêbado mas falava a
sério.
Nada estava a correr como Haze esperara. Ele passava todas
as noites a pregar, mas a congregação da Igreja sem Cristo
continuava limitada a uma só pessoa: ele próprio. Ele quisera
ganhar rapidamente um grande séquito, para impressionar o
cego com os seus poderes, mas ninguém o seguira. Houvera
um único, uma espécie de seguidor, mas isso fora um engano.
Era um rapaz de cerca de dezasseis anos que quisera alguém
para ir com ele a um bordel, porque nunca tinha ido a nenhum
antes. Ele sabia onde ficava o sítio mas não queria ir sem a
companhia de alguém mais experiente, e quando ouviu Haze,
deixou-se ficar na rua até ele parar de pregar e por fim pediu­
-lhe para ir. Mas foi tudo um engano, porque já depois de
terem ido, quando saíram e Haze lhe pediu para ser membro da
Igreja sem Cristo, ou mais do que isso, um discípulo, um após­
tolo, o rapaz disse que lamentava, mas que não podia ser mem-
SANGUE SÁBIO 1 1 3

bro dessa igreja porque era católico não praticante. Depois,


disse que aquilo que tinham acabado de fazer era um pecado
mortal e que, se eles morressem sem se arrependerem, iam
sofrer o castigo eterno e nunca veriam Deus. Haze não se
divertira tanto no bordel como o rapaz, nem de longe, e aca­
bara por desperdiçar metade da noite. Em resposta, berrou-lhe
que o pecado e o julgamento eram coisas que não existiam,
mas o rapaz limitou-se a abanar a cabeça e a perguntar-lhe se
ele queria voltar ao bordel na noite seguinte.
Se Haze acreditasse na oração, teria rezado por um discí­
pulo, mas, assim sendo, tudo o que podia fazer era preocupar­
-se. E então, duas noites depois do rapaz, o discípulo apareceu.
Nessa noite, ele pregou à saída de quatro cinemas dife­
rentes, e de cada vez que olhava para cima via o mesmo rosto
redondo sorrindo-lhe. O homem era anafado e tinha cabelo
louro encaracolado, cortado com patilhas espampanantes.
Envergava um fato negro com uma tira cor de prata e um
chàpéu de aba larga equilibrado na nuca. Nos pés, trazia
sapatos pontiagudos e apertados, sem meias. Parecia um ex -
-pregador transformado em cowboy, ou um ex-cowboy trans­
formado em cangalheiro. Não era atraente mas, debaixo do
sorriso, tinha um ar honesto que lhe assentava no rosto como
uma dentadura falsa.
Cada vez que Haze o olhava, o homem piscava-lhe o olho.
No último cinema onde Haze pregou escutavam-no, para
além desse homem, três outras pessoas.
«Vocês querem saber da verdade?», perguntou ele. «A única
maneira de chegar à verdade é através da blasfémia, mas será
que vocês querem saber? Será que vão tomar atenção ó qu'eu
'tou a dizer ou vão-s' embora como toda a gente?»
Escutavam-no dois homens e uma mulher com um bebé
com cara de gato estendido sobre o ombro. Esta olhava Haze
como se ele estivesse numa barraca de feira.
«Bem, vamos lá», disse ela. «Este já deu o que tinha a dar.
Temos d'ir andando.» E voltou costas, os dois homens seguindo­
-a.
1 14 ü ' CONNOR

«Ah, pois, virem costas e vão !», exclamou Haze. «Mas lem­
brem-se qu'a verdade nã 'tá à vossa espera em cada esquina.»
O homem que o tinha estado a seguir levantou rapida­
mente um braço, puxou pela perna das calças de Haze e pis­
cou-lhe o olho.
«Eh, voltem cá, gente», chamou ele. «Deixem-me que vos
cont' a minha história.»
A mulher voltou-se novamente e ele sorriu-lhe como se
estivesse impressionado pela beleza dela desde o momento
em que a viu. Ela tinha um rosto quadrado e vermelho e o
cabelo dela estava bem arranjado.
«Ah, quem me dera ter 'qui a m'nha viola», disse o homem,
«qu'eu nã sei porquê consigo é dezer coisas bonitas com
música melhor que sem. E quand'a gente 'tá falando de
Jesus, é precis' alguma música, n'é verdade, amigos?» Ele
olhou os dois homens como se estivesse apelando ao bom
julgamento que estava impresso nos rostos deles. Eles tra­
ziam chapéus de feltro castanhos e fatos negros da cidade,
e pareciam um par de irmãos. «Escutem-me, meus amigos»,
disse o discípulo, confiante, «'qui há dois meses, antes d'eu
conhecer 'qui o Profeta, quem ólhasse pra mim nem julgava
qu'eu qu'era o mêm'homem. Eu nã tinha um amigo neste
mundo. Sabem vocês o que é nã ter um amigo neste mun­
do ?11
«Nã é pior que ter um que te ponh'uma faca nas costelas
quand'a gente 'tamos de cara virada», disse o homem mais
velho quase sem abrir os lábios.
«Amigo, falas bem quando dizes isso», declarou o homem.
«Tiveramos tempo e eu pedia-te pra repetires isso pra todá
gente ouvir com'eu ouvi.» Os filmes tinham acabado e cada
vez mais pessoas iam-se aproximando. «Amigos», chamou o
homem, «eu sei que vocês que 'tão todos int'ressados aqui no
Profeta», apontando para Haze, em cima da capota do carro,
«e se me derem tempo, eu vou-vos contar o qu'é qu'ele e as
ideias dele fizeram por mim. Nã s'acotovelem, qu'eu posso
ficar aqui noite toda a dezer-vos, se for preciso tanto tempo.»
SANGUE SÁBIO 1 15

Haze deixou-se estar onde estava, imóvel, com a cabeça


ligeiramente inclinada em frente, como se não tivesse certeza
do que estava a ouvir.
«Amigos», continuou o homem. «Deixem-me que m'apre­
sente. Chamo-me Onnie Jay Holy e 'tou-vos a dizer pra vocês
poderem confirmar e ver qu'o que vos conto nã é mentira
nenhuma. Eu sou pregador e nã m'importo que todá gente
saiba, mas nã quero que vocês qu'acreditem em nada que nã
sintam no coração. Vocês 'í atrás qu'acabaram de chegar,
venham vindo pr'aqui prà frente, qu'é pra poderem ouvir
bem», disse ele. «Eu n'ando cá vendendo nada, eu 'tou dando
coisas de graça!»
Um número considerável de pessoas detivera-se por ali.
«Amigos», continuou ele, «'qui há dois meses quem ólhasse
pra mim nem julgava qu'eu qu'era o mêm'homem. Eu nã tinha
um amigo neste mundo. 'Cês sabem o que é nã ter um amigo
neste mundo?»
Uma voz alta disse: «Nã é pior que ter um que te ponh'uma... »
«Ah, amigos», continuou Onnie Jay Holy, «nã ter um
amigo neste mundo é a cousa mai' ruim e mai' solitária que
pode acontecer a um homem ou uma mulher! E foi assim que
foi comigo. Eu 'tava pronto pra m'enforcar ou pra perder
completamente o siso. Nem a minha qu'rida mãe gostava de
mim, e nã era por causa qu'eu nã tinha doçura dentro de
mim, era por causa qu'eu nunca soube como mostrar essa
doçura natural que tenho dentro de mim. Todá gente que vem
ó mundo», declarou ele, esticando os braços para os lados,
«nasce doce e chei' d'amor. Uma criancinha ama todá gente,
amigos, e a natureza dela é a doçura. Até qu'acontece alguma
coisa. Acontece alguma coisa, amigos, e eu nã careço de dizer
isso a gente como vocês que sabe pensar pla sua cabeça.
À medida que vai crescend'a criancinha, a doçura dela já nã
se mostra tanto, as ralações e os problemas começam a nublar
a criança e a doçura dela vira-se pra dentro. E depois ela fica
é sozinha e triste e doente, amigos. E põe-s'a dizer: "Pra onde
foi a minha doçura?, qu'é feito dos amigos que gostavam de
1 1 6 ü 'CONNOR

mim?", e durant'o tempo todo, essa rosa pisada qu'é a doçura


da gente 'tá lá dentro, nã perdeu nem uma pétala, mas cá por
fora é só uma solidão triste. Uma pessoa 'té pod' acabar por
qu'rer tirar a sua vida, ou a vossa ou a minha, ou então deses­
perar completamente, amigos.» O homem falava num tom
nasalado e triste, mas sorria durante todo o tempo, para que
todos soubessem que ele tinha passado por tudo aquilo e
superado as dificuldades. «E er'assim qu'era comigo, 'nha
gente. Eu sei do que falo», declarou ele, cruzando os braços à
sua frente. «Mas durante todo o tempo qu'eu 'tive quase a
enforcar-me ou a desatinar completamente, eu continuava
doce por dentro, como todá gente, e só do qu'eu precisava era
d'alguma coisa que trouxesse tudo pra fora. Só do qu'eu pre­
cisava era dum'ajudinha, meus amigos.
«E foi então que conheci 'qui este Profeta», declarou ele,
apontando para Haze, de pé sobre a capota do carro. «Passou­
-s'isto há dois meses, 'nha gente, qu'eu ouvi dezer qu'ele
qu'andava aí pra m'ajudar, qu'ele qu'andava pregando a
Igreja de Cristo sem Cristo, a igreja qu'ia arranjar um jesus
novo pra m'ajudar a trazer a m'nha natureza doce ó de cima,
onde todá gente pudesse apreciar. Passou-s'isto há dois
meses, amigos, e agora quem ólhasse pra mim nem acreditava
qu'eu que sou o mêm'homem. Eu adoro-vos a vocês todos,
boa gente, e quero que vocês qu'o oiçam a ele e a mim e se
juntem à noss'igreja, a Santa Igreja de Cristo sem Cristo, a
nov' igreja co' jesus novo, e depois tam'ém vocês vão ser aju­
dados com'eu fui.»
Haze inclinou-se para a frente.
«Este homem não fala a verdade», disse ele. «Nunca lhe
pus a vista em cima antes de hoje. Há dois meses nem sequer
andava a pregar esta igreja e o nome dela nã é Santa Igreja
de Cristo sem Cristo !»
O homem ignorou-o e as pessoas também. Havia umas dez
ou doze pessoas reunidas em volta.
«Amigos !», continuou Onnie Jay Holy, «fico bem contente
que vocês estejam ólhando pra mim agora e nã há dois meses,
SANGUE SÁBIO 1 1 7

porque nessa altura eu nã podia testemunhar plo bem desta


igreja nova e deste Profet' aqui. Ah, se tivess' aqui 'nha viola
é que podia dezer isto tudo melhor, mas assim vou ter de.
fazer o melhor que puder sozinho.» O homem tinha um sor­
riso cativante e era evidente que ele não se julgava melhor do
que qualquer outra pessoa, apesar de o ser.
«Agora, amigos, -quero só dar-vos algumas razões porqu'é
que vocês podem confiar nesta igrej a11, declarou ele. «Em pri­
meiro lugar, amigos, podem confiar nela, qu'ela nã tem nada
d'estrangeiro ligad'a ela. E 'cês nã têm qu'acreditar em nada
que nã compreendem e que nã acham bem. Se nã compreen­
dem é porque nã é verdade, e é tão simples com'isso. Nã há
cá nada na manga, amigos.11
Haze debruçou-se para a frente.
«A blasfémia é qu'é o caminho prà verdade», exclamou
ele, «e nã há outra maneira, quer vocês compreendam ou
não !»
«Agora, amigos», disse Onnie Jay, «quero dezer-vos uma
segunda razão pra vocês acreditarem nesta igreja com todá
confiança. É qu'ela é baseada na Bíblia. Sim senhor! É baseada
na vossa própria interp'tação da Bíblia, meus amigos. Vocês
podem 'tar em casa e interp'tar a Bíblia conforme sentirem no
vosso coração qu'ela que deve ser interp'tada. É isso mesmo»,
disse ele, «tal como Jesus teria feito. Ah, quem me dera ter 'qui
a 'nha viola», queixou-se.
«Este homem é um mentiroso», interpôs Haze. «Eu nunca
lhe pus a vista em cima antes desta noite. Nunca ... »
«Isso j á devem ser razões que cheguem», continuou Onnie
Jay Holy, «mas 'inda vos vou dar outra, só pra provar que
posso. Esta igrej a é moderna ! Quando vocês 'tão nesta igreja,
podem 'tar descansados que nada nem ninguém 'tá à vossa
frente, que ninguém sabe nada que vocês nã saibam, as car­
tas 'tão todas na mesa, amigos, e eu nã vos minto !11
Debaixo do chapéu, o rosto de Haze começou a adquirir
uma expressão feroz. No momento em que ia abrir nova­
mente a boca, Onnie Jay Holy apontou com espanto para o
1 1 8 ü 'CONNOR

bebé de gorro azul que estava esparramado, mole, sobre o


ombro da mulher.
«Pois ali mesmo, ali 'tá um bebezinho», disse ele, «uma
pequena trouxa de doçura indefesa. Ah, mas eu sei que vocês,
boa gente, nã vão deixar qu'aquela coisinha boa vá come­
çando a esconder a sua doçura pra dentro à medida que
cresce, quando pode andar co' ela por fora pra fazer amigos
e ter amor. É por isso qu'eu quero que vocês todos se juntem
à Santa Igreja de Cristo sem Cristo. Custa-vos um dólar, mas
o que é um dólar? Umas moeditas ! Nã é grande preço pra sol­
tar esse botão de rosa de doçura dentro de vocês !»
«Escutem», gritou Haze. «Nã vos custa dinheiro nenhum saber
a verdade! Nã é com dinheiro nenhum que vocês vão sabê-la!»
«Vocês ouviram o que diz o Profeta, amigos», exclamou Onnie
Jay Holy, «um dólar nã é dinheiro nenhum pra pagar. Nã há
dinheiro nenhum que seja de mais pr'aprender a verdade! Agora,
quero que cada um de vocês, que vão aproveitar a bondade desta
igreja, qu'assinem aqui neste papel que trago no bolso e que me
dêem o vosso dólar pessoalmente, qu'é pr'eu vos apertar a mão !»
Haze desceu da capota do carro, entrou e ligou a ignição
com fúria.
«Ei, espera ! Espera !», gritou Onnie Jay Holy, «qu'eu 'inda
nã recolhi o nome aqui dos nossos amigos!»
O Essex tinha tendência para desenvolver um tique ao cair
da noite. Ao arrancar, geralmente avançava quinze centíme­
tros e depois recuava dez. Agora, quando Haze tentou arran­
car, o carro fez exactamente isso uma série de vezes, muito
depressa. Se isso não tivesse acontecido, Haze teria calcado o
acelerador e desaparecido. Mas assim, teve de cravar os dedos
em volta do voltante para evitar ser atirado contra o pára­
-brisas e depois contra o assento. Passados alguns segundos,
o carro parou os avanços e rec;uos, deslizou cerca de seis
metros e recomeçou novamente.
O rosto de Onnie Jay Holy traía uma grande tensão e ele
pôs uma mão na face, como se a única forma de manter o
sorriso fosse segurá-lo no rosto.
SANGUE SÁBIO 1 1 9

«Tenho d'ir andando, amigos», disse apressado, «mas vou .


'tar aqui mesmo amanhã à noite. Agora tenho d'apanhar ali
o Profeta» E começou a correr no momento em que o Essex
começou a deslizar novamente. Onnie Jay Holy não teria
alcançado o carro, não fosse ele ter parado outra vez antes de
avançar sequer três metros. Onnie Jay Holy saltou para cima
do degrau do carro, abriu a porta e deixou-se cair para den­
tro, ofegando, ao lado de Haze.
«Amigo», disse ele, «acabámos de perder dez dólares. Pra quê
qu'é essa pressa toda?» Pelo rosto, via-se que ele estava com
dores genuínas, apesar de olhar Haze com um sorriso que lhe
revelava todos os dentes de cima e a coroa dos de baixo.
Haze virou o rosto e olhou-o a tempo de ver esse sorriso,
antes de ele ser atirado contra o pára-brisas. Depois disso, o
Essex começou a rolar com suavidade. Onnie Jay tirou um
lenço cor de alfazema do bolso e segurou-o em frente à boca
durante algum tempo. Quando o retirou, tinha novamente o
sorriso no rosto.
«Amigo», disse ele, «tu e eu temos que nos juntar nesta coisa.
Eu, assim que te vi abrir a boca, pensei cá comigo, "Or'aqui 'tá
um homem com grandes ideias."»
Haze continuou olhando em frente.
Onnie Jay inspirou fundo.
«Üra, quand'eu te vi, sabes quem é que me fizestes lem­
brar?», perguntou. Depois de um minuto de espera, continuou,
em tom suave: «Jesus Cristo e Abraham Lincoln, meu.amigo.»
O rosto de Haze viu-se repentinamente inundado de raiva.
A expressão que tinha estampada estava obliterada.
«Tu nã és verdadeiro», rosnou ele num tom de voz quase
inaudível.
«Amigo, com'é que me podes dezer 'ma coisa dessas?»,
replicou Onnie Jay. «Ora, eu 'tive na rádio três anos c'um pro­
grama que dava exp'riências religiosas verdadeiras pra todá
família. Nunca ouvistes? Chamava-s'o Conforto da Al�a, um
quarto d'hora de Magia, Melodia e Meditação. Eu sou prega­
dor a sério, amigo.»
1 20 O'CONNOR

Haze parou o carro.


«Sai-me daqui», disse.
«Atão, amigo !», exclamou Onnie Jay. «Nã devias dezer
essas coisas ! 'Tou-te dezendo a verdade verdadinha que sou
pregador a sério e estrela da rádio.»
«Sai-me daqui11, repetiu Haze, esticando-se para o lado
para lhe abrir a porta do carro.
«Nunca pensei que tu que fosses tratar assim um amigo»,
comentou Onnie Jay. «Eu só queria era perguntar-te sobr'esse
novo jesus.»
«Sai», ordenou Haze, e começou a empurrá-lo na direcção
da porta. Conseguiu então empurrá-lo até à beira do assento
e, por fim, com um último encontrão, Onnie Jay caiu pela
porta aberta, para o meio da estrada.
«Nunca pensei qu'um amigo que me fosse tratar assim»,
queixou-se ele. Haze afastou a perna dele do degrau do carro
com um pontapé e fechou a porta novamente. Depois, calcou
o acelerador, mas nada aconteceu para além de um ruído
arrancado lá de baixo, parecido com um som de alguém gar­
garejando sem água. Onnie Jay levantou-se do chão e pôs-se
de pé junto à j anela. «Se me dessesses ó menos onde 'tá esse
novo jesus que 'tavas a falar», começou ele.
Haze calcou o acelerador uma série de vezes, mas sem
efeito.
«Carrega no botão cfo motor d'arranque», aconselhou Onnie
Jay, pondo-se novamente em cima do degrau.
«Nã tem», rosnou Haze.
«Na volta 'tá afogado», sugeriu Onnie Jay. «Enquant'a gente
espera, podemos falar dessa Santa Igreja de Cristo sem Cristo.»
«A minha igreja é a Igreja sem Cristo», ripostou Haze.
«E de ti já nã quero ver nem a sombra.»
«Nã importa quandos Cristas a gente acrescent'ó nome
s'isso nã acrescenta nada ó significado, mê'amigo», disse
Onnie Jay em tom magoado. «Havias de me dar ouvidos,
qu'eu nã sou nenhum amador. Eu sou um artista. Se queres
ir àlgum lado nisto da religião, tens de adoçar a coisa. Tu 'té
SANGUE SÁBIO 121

tens boas ideias, mas precisas assim dum artista pra trabalhar
a coisa contigo.»
Haze calcou o acelerador e depois o pedal do motor de
arranque, e mais uma vez o pedal de �rranque e o acelerador.
Em vão. A rua estava praticamente deserta.
«Eu e tu podíamos meter-nos atrás dele e empurrá-lo prà
berma», sugeriu Onnie Jay.
«Nã te pedi ajuda», respondeu Haze.
«Sabes, amigo, muito gostav'eu de ver esse novo jesus»,
comentou Onnie Jay. «Nunc'óvi uma ideia que tivesse mais
que lhe dissesse que essa. Só do qu'ela precisa é dum pouco
de promoção.»
Haze tentou arrancar o carro puxando todo o seu peso para
a frente, sobre o volante, mas não resultou. Por isso, saiu do
carro e começou a empurrá-o por trás em direcção à berma.
Onnie Jay pôs-se atrás dele e ajudou, metendo todo o seu peso.
«Até eu a modos que já tive essa ideia do novo jesus»,
comentou ele. «'Tou cá pensando que realmente, um jesus novo
era assim mais actual. Ond'é qu'o guardas, amigo?», pergun­
tou. «Ele é alguém que tu vês todos dias? Eu bem que gostava
do conhecer e ouvir algumas das ideias dele.»
Juntos empurraram o carro até um lugar de estaciona­
mento. Não havia forma de o trancar e Haze receava que, se
o deixasse ali fora a noite toda, tão longe do sítio onde vivia,
talvez alguém conseguisse roubá-lo. Não tinha alternativa
senão dormir lá dentro. Por isso, meteu-se na parte de trás e
começou a baixar as cortinas. Mas Onnie Jay continuava com
a cabeça metida pela porta da frente.
«Nã precisas de ter cá medo que s'eu vir esse novo jesus que
te deixe de fora do negócio ou assim», disse ele. «Ah, amigo, é
só porque ia ser muit'importante pra mim, assim pra bem do
meu espírito.»
Haze retirou a tábua de cima da armação do assento para
arranjar espaço suficiente para estender a sua pequena enxerga.
Ele trazia sempre consigo uma almofada e um cobertor do exér­
cito na parte de trás do carro, e tinha também um fogão portá-
1 2 2 o'CONNOR

til a álcool e uma cafeteira numa prateleira que tinha debaixo


da janela oval.
«Amigo, eu 'té ficava contente de te pagar um tanto pra
me deixares vê-lo», sugeriu Onnie Jay.
«Ouve», respondeu Haze, «tu sai-me mas é daqui. Já nã te
posso nem ver. Nã há jesus novo nenhum. Isso é só uma maneira
de dizer uma coisa.»
O sorriso quase deslizou para fora do rosto de Onnie Jay.
«Qu'é que queres dezer co' isso?», perguntou ele.
«Que nã há pessoa nem coisa nenhuma que seja esse jesus
novo», respondeu Haze. «Era só uma maneira de dizer uma
coisa.» E pôs a mão na porta para começar a fechá-la, apesar de
Onnie Jay ainda ter a cabeça lá metida. «Esse jesus não existe!»,
gritou ele.
«Ess'é qu'é o problema com vocês int'lectuais», resmungou
Onnie Jay, «nunca têrµ nada pra mostrar que prov'aquilo
qu'andam por aí dezendo.»
«Tira mas é a cabeça da porta do meu carro, Holy!», excla­
mou Haze.
•Chamo-me Hoover Shoats», rugiu o homem com a cabeça
na porta. «Soube logo 'sim que te vi que tu que nã passavas
dum intrujão.»
Haze abriu a porta o suficiente para poder fechá-la com
estrondo. Hoover Shoats conseguiu tirar a cabeça a tempo,
mas não o polegar. Assim que a porta fechou, soltou-se um
uivo capaz de amansar quase qualquer coração. Haze abriu a
porta, soltou o polegar e fechou-a outra vez com força logo
de seguida. Depois, baixou as cortinas das j anelas da frente e
deitou-se na parte de trás do carro, em cima do cobertor do
exército, escutando Hoover Shoats lá fora, saltitando pelo
passeio e uivando. Quando os uivos finalmente se desvanece­
ram, Haze ouviu meia dúzia de passos na direcção do carro e
depois uma voz exaltada e sem fôlego rosnando do outro lado
da lata:
«Tu põe-t'a pau, amigo. Vou dar cabo do teu negócio.
Tam'ém posso muito bem arranj ar o meu próprio jesus, e pro-
SANGUE SÁBIO 123

fetas também os arranjo por três tostões, 'tás-m'óvir? Tás­


-m'óvir, amigo?», disse a voz rouca.
Haze não respondeu.
«Ah, pois, e amanhã à noite quem vai andar por aí pre­
gando vou ser eu. Tu 'tás precisando é dum pouco de com­
petição. Tás-m'óvir, amigo?»
Haze levantou-se, inclinou-se sobre o assento da frente e
deu dois murros na buzina do carro, que soltou um som como
o riso de uma cabra e morreu com um sussurro parecido com
o de um serrote. Hoover Shoats deu um salto para trás, como
se tivesse sido atingido por uma carga de electricidade.
«Tudo bem, amigo», concedeu ele, recuando uns quatro
metros e tremendo. «Tu espera pra ver. Ainda nos vamos vol­
tar a ver os dois.» E, voltando as costas, começou a percorrer
a rua silenciosa.
Haze permaneceu no carro por cerca de uma hora e teve
uma má experiência. Sonhou que não estava morto mas
enterrado. E não estava à espera do Julgamento porque não
havia Julgamento nenhum, estava à espera de coisa nenhuma.
Vários olhos espreitavam pela janela oval para ver a situação
em que ele estava, alguns olhando com considerável reve­
rência, como o rapaz do j ardim zoológico, outros só para ver
o que havia para ver. Três mulheres com sacos de papel olha­
ram-no com ar crítico, como se ele fosse algo (uma posta de
peixe) que elas estivessem a pensar comprar, mas passado um
minuto seguiram caminho. Um homem com um chapéu de
lona espreitou também e levou o polegar ao nariz e agitou os
dedos. Depois, uma mulher com dois rapazinhos de cada lado
parou e espreitou também, sorrindo. Passado um segundo, ela
empurrou os rapazes para fora de vista e fez-lhe sinal de que
ia entrar para lhe fazer companhia durante um bocado. Só
que não conseguiu passar pelo vidro e, por fim, desistiu e
desapareceu. E durante todo este tempo, Haze estava deter­
minado a sair dali, mas como nem valia a pena tentar, ele não
fez qualquer movimento, nem para um lado nem para o
outro. Esteve o tempo todo à espera que Hawks lhe apare-
1 24 o'CONNOR

cesse à janela oval com uma chave inglesa, mas o cego não
apareceu.
Por fim, Haze abanou a cabeça para se ver livre do sonho
e acordou. Achou que já seria manhã, mas era apenas meia­
-noite. Aturdido, Haze deslizou para o banco da frente, ligou
suavemente a ignição e o Essex arrancou calmamente, como
se não tivesse tido avaria nenhuma. Haze voltou então para
casa e entrou em silêncio. Contudo, em vez de subir para o seu
quarto, deixou-se ficar à entrada, fitando a porta do cego.
Depois, foi até ela, encostou o ouvido à fechadura e ouviu o
som de alguém ressonando. Cuidadosamente, rodou a maça­
neta, mas a porta não abriu.
Pela primeira vez, ocorreu-lhe a ideia de forçar a fechadura.
Haze apalpou os bolsos em busca de uma ferramenta e encon­
trou um pequeno pedaço de arame que usava por vezes como
palito. Só podia contar com a ténue luz do vestíbulo, mas essa
era suficiente, pelo que se ajoelhou junto à fechadura e inseriu
o arame cuidadosamente, tentando não fazer barulho.
Passado um bocado, depois de ele tentar cinco ou seis posi�
ções diferentes, ouviu-se um ligeiro clique na fechadura. Haze
levantou-se, tremendo, e abriu a porta. A respiração dele apres­
sou-se e o coração palpitou como se ele tivesse acabado de pal­
milhar uma enorme distância em passo de corrida. A princípio,
deteve-se à entrada do quarto até os olhos se acostumarem à
escuridão. Em seguida, deslizou lentamente até à cama de ferro e
ficou ali de pé. Hawks estava atravessado sobre o colchão, a
cabeça pendurada na borda da cama. Haze agachou-se a seu
lado, acendeu um fósforo perto do rosto dele e ele abriu os olhos.
Enquanto a luz do fósforo durou, os dois pares de olhos fitaram­
-se. A expressão de Haze pareceu abrir-se para um enorme vazio.
Logo depois, reflectiu qualquer coisa e fechou-se outra vez.
«Agora já podes sair», ordenou Hawks, num tom de voz
curto e grosso. «Agora já me podes deixar em paz.» E atirou
um braço contra o rosto que tinha sobre si, sem o atingir.
O rosto que o observava recuou, impávido debaixo do cha­
péu branco, e desapareceu num segundo.
CAPÍTULO 1 0

Na noite seguinte, Haze estacionou o Essex em frente do


Cinema Odeon, subiu para a capota e começou a pregar.
«Deixem-me que lhes diga o que eu e esta igreja representa­
mos !», clamou ele, da capota do carro. «Parem um minuto pra
ouvir a verdade, porque pode ser que nunca mais a oiçam.»
E ficou ali de pé, o pescoço esticado para a frente, erguendo um
braço num vago movimento arqueado. Duas mulheres e um
rapaz pararam.
«Eu prego que há vários tipos de verdade. A vossa verdade
e a dos outros, mas atrás de todas elas há só uma verdade, e
essa é que a verdade nã existe», exclamou ele. «Nã há verdade
nenhuma atrás dessas verdades todas, e é isso que eu e esta
igreja pregamos ! O sítio donde vocês vieram já se foi, o sítio
adonde pensam que vão nunc'existiu e o sítio adonde 'tão
agora nã vale nada a não ser que vocês consigam fugir dele.
Atão ond'é qu' há um sítio prà gente estar? Em lugar nenhum!
«Nã há nada fora da gente que nos possa dar um lugar»,
disse ele. uNã vale a pena olhar pro céu porqu'ele nã se vai
abrir nem nos vai mostrar nenhum sítio atrás das nuvens.
Nem vale a pena andar à cata dum buraco no chão que nos
deixe ver qualquer coisa que estej a para lá disso. Nã podemos
ir nem prà frente nem pra trás, nem pro tempo dos nossos
1 2 6 o'CONNOR

pais nem pro dos nossos filhos, se os tivermos. Todo o espaço


qu'existe 'tá dentro de nós, agora mesmo. Se houve alguma
Expulsão do Paraíso, procurem aí, se houve Redenção , pro­
curem aí, e se 'tão à espera dalgum Julgamento, procurem aí,
porque todas três coisas vão ter d'acontecer no vosso tempo
e no vosso corpo, e onde no tempo e no corpo é qu'isso pode
existir?
«Onde, no vosso tempo e no vosso corpo, é que Jesus vos
redimiu?», bradou ele. «Mostrem-m'onde, qu'eu nã vejo o
sítio. Se houve um sítio onde Jesus vos redimiu, seria esse o
lugar ond'a gente devíamos estar, mas quem é que consegue
encontrar esse sítio?»
Um outro fio de gente saiu do Odeon e duas pessoas para­
ram para o olhar.
«Quem é essa coisa que diz qu'é a vossa consciência?»,
bradou ele, olhando em volta com ar constrito, como se con­
seguisse cheirar a pessoa exacta que pensava assim. «A vossa
consciência é um truque», declarou ele, «ela nã existe, mesmo
que vocês pensem que sim, e se vocês pensam que sim, o
melhor é deitá-la cá pra fora e dar-lhe caça e matá-la, por­
qu'ela nã é nada mais qu'a vossa cara no espelho ou a vossa
sombra atrás de vocês.»
Haze estava pregando com tanta concentração que não
reparou num carro alto cor de ratazana que já passara três
vezes em volta do quarteirão, enquanto os dois homens den­
tro dele procuravam um lugar para estacionar. Nem reparou
quando ele encostou ao passeio, dois carros mais à frente,
num espaço que um outro carro acabara de vagar, nem víu
Hoover Shoats e um homem num fato azul faiscante e chapéu
branco apeando-se do carro. Mas poucos segundos depois, a
cabeça de Haze voltou-se nessa direcção e ele viu finalmente
o homem de fato azul coruscante e chapéu branco de pé na
capota do carro. Haze foi de tal modo tomado de surpresa pelo
ar magro e descamado que ele tinha naquela ilusão que parou
de pregar. Nunca na vida se imaginara com aquele aspecto.
O homem que via tinha o peito cavo e mantinha o pescoço
SANGUE SÁBIO 1 27

espetado para a frente e os braços caídos ao lado do tronco, e


manteve-se ali de pé, atento, como se estivesse à espera de
algum sinal que tivesse medo de não apanhar.
Hoover Shoats estava a andar de um lado para o outro
pelo passeio, soltando acordes com a sua guitarra.
«Amigos», chamou ele, «quer'apresentar-vos aqui ó Verda­
deiro Profeta e quer'que vocês todos oiçam as palavras dele
porqu'eu acho qu'elas que vos vão fazer felizes como me fize­
ram a mim !»
Se Haze tivesse reparado em Hoover, poderia ter ficado
impressionado com o ar de felicidade que ele tinha no rosto, mas
a atenção dele estava concentrada no homem que estava de pé
na capota do carro . Haze deslizou até ao chão e aproximou-se,
sempre sem tirar os olhos daquela lúgubre figura. Hoover Shoats
ergueu a mão com dois dedos espetados e o homem gritou de
repente, numa voz aguda, nasalada e melodiosa:
«Os danados 'tão a redimir-se e o novo jesus 'tá a chegar!
Fiquem à espera deste milagre ! Entreguem-s'à salvação aqui
na Santa Igreja de Cristo sem Cristo !»
E, depois disto, o homem repetiu o apelo outra vez no
mesmíssimo tom de voz, mas mais rápido. Depois começou a
tossir. Tinha uma ruidosa tosse convulsiva que começava
algures nas profundezas do peito e terminava com um longo
estertor. No fim, o homem cuspiu uma massa líquida de expec­
toração branca.
Haze estava de pé ao lado de uma senhora gorda que, pas­
sado um minuto, voltou a cabeça, fitou-o, e depois voltou a
cabeça novamente e fitou o Verdadeiro Profeta. Por fim, aco­
tovelou-o e sorriu-lhe.
«Tu e ele sã gémeos?», perguntou.
«Se você nã lhe der caça e a matar, ela dá-lhe caça a si e
quem a mata é ela», respondeu Haze.
«Quê? Quem?», perguntou ela.
Ele voltou-lhe as costas e ela fitou-o, enquanto ele se metia
novamente no carro e saía dali para fora. Depois, ela tocou
no cotovelo de um homem que estava ao seu lado.
1 28 ü 'CONNOR

« É doido», comentou ela. «Nunca vi gémeos nenhuns que


dessem caça um ó outro.»
Quando Haze regressou ao seu quarto, Sabbath Hawks
estava na sua cama. Ela foi empurrada para um canto, onde
se sentou com um braço em volta dos joelhos e uma mão
segurando o lençol, como se fizesse tenções de nunca o lar­
gar. O rosto dela estava melancólico e apreensivo. Haze sen­
tou-se na cama mas mal a olhou.
«Nem que me batas co'a mesa», disse ela. «Nã me vou
embora. Nã tenho sítio nenhum pra ir. Ele fugiu e deixou-m'
aqui e fostes tu qu'o fizestes fugir. Eu 'tava a ver ontem à noite
e bem te vi entrar e acender aquele fósfro na cara dele. Eu
pensava que toda a gente ia perceber o qu'é qu'ele era há muito
tempo sem precisar d'acender fósfro nenhum. Ele é só um
vigarista. E nem sequer é grande vigarista, é só um vigarista
dos reles, e quando se cansa disso, anda plas ruas a pedir.»
Haze debruçou-se para baixo e começou a desatar os sapa­
tos. Eram velhos sapatos do exército que ele pintara de negro
para tirar o governo deles. Haze desatou os atacadores, tirou
os pés dé dentro dos sapatos e deixou-se ficar ali sentado,
olhando para baixo, enquanto ela o observava cautelosa.
«Atão, vais-me bater ou nã vais?», perguntou ela. «S'é pra
me bater, vai e bate-me já, porqu'embora é qu'eu nã vou. Nã
tenho pr'onde ir.» Mas ele não parecia prestes a bater em nada.
Parecia que ia ficar ali sentado até morrer. «Escuta», disse ela
com uma rápida mudança de tom, «assim que te pus a vista em
cima, eu disse assim pra mim: é aquilo qu'eu tenho que ter,
deixem-me provar um pouco dele ! Eu disse, olha só pr'áqueles
olhos castanhos e perd'a cabeça, rapariga! Aquele ar inocente
nã esconde nada, ele é ruindade pura até ó tutano, tão sujo
como eu. A única difrença é qu'eu gosto de ser assim e ele
não. Sim senhor!», disse ela. «Eu gosto de ser assim, e posso-t'
ensinar a gostar também: Nã queres aprender a gostar?»
Ele voltou a cabeça ligeiramente e, mesmo por cima do
seu ombro, viu um rosto magro e desengraçado com olhos
verdes brilhantes e um sorriso.
SANGUE SÁBIO 129

«Sim&, balbuciou ele sem qualquer mudança de expressão


no rosto de pedra, «quero.>1 E então, levantou-se, tirou o casaco,
as calças e as cuecas e depô-las em cima da .cadeira. Em
seguida, apagou a luz, sentou-se novamente na enxerga e
tirou as meias. Os pés dele eram grandes e brancos e húmi­
dos contra o chão e ele ficou ali sentado, olhando as duas
formas brancas que eles formavam.
«Atão ! Despacha-te !&, exclamou ela, derrubando as costas
dele com o joelho.
Haze desabotoou a camisa, despiu-a, limpou o rosto com
ela e atirou-a para o chão. Depois, deslizou as pernas para
debaixo do cobertor e ficou ali sentado, como se estivesse à
espera de se lembrar de mais alguma coisa.
Ela tinha a respiração muito acelerada.
«Tira o chapéu, rei dos selvagens&, disse ela com voz rouca.
A mão dela apareceu-lhe atrás da cabeça, arrancou-lhe o cha­
péu e atirou-o, voando pelo quarto, no escuro.
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,�l��:i;:·.:.��1,���,%)lij \f,�&�?.�fi�r<l�f!;
CAPÍTULO 1 1

Na manhã seguinte, uma pessoa envergando uma longa


gabardina negra, com um chapéu claro puxado baixo por
cima do rosto e a aba dobrada para baixo, para se juntar à
gola puxada para cima, caminhava rapidamente por certas
ruas pouco movimentadas, mantendo-se colada às paredes
dos edifícios. Trazia consigo algo do tamanho de um bebé,
embrulhado em jornais, e trazia também um guarda-chuva
escuro, porque o céu estava coberto de um cinzento rude e
imprevisível, como o dorso de uma velha cabra. O homem
tinha um par de óculos escuros e uma barba negra que um
observador atento teria notado não se tratar de uma barba
natural mas sim de um tufo artificial preso ao chapéu por
alfinetes de ama dos dois lados. À medida que caminhava, o
chap�u-de-chuva escorregava-lhe constantemente de debaixo
do braço e enredava-se-lhe entre as pernas, como se estivesse
a tentar impedi-lo de chegar fosse onde fosse.
O homem ainda não percorrera meio quarteirão quando
pesadas gotas baças começaram a salpicar o passeio e se
ouviu um rugido feroz no céu atrás dele. Então, ele começou
a correr, segurando o embrulho num braço e o guarda-chuva
com o outro. Passado um segundo, a tempestade ultrapassou­
-o e ele abrigou-se entre duas montras, debaixo da entrada
1 3 2 ü 'CONNOR

de uma loja forrada a azulejos azuis e brancos. Aí chegado,


o homem baixou ligeiramente os óculos escuros. Os olhos
pálidos que espreitaram por cima da armação eram os de
Enoch Emery. Ele estava a caminho do quarto de Hazel
Motes.
Enoch nunca tinha estado no quarto de Hazel Motes, mas
o instinto que o guiava estava muito seguro de si. O que tinha
no embrulho era a coisa que mostrara a Hazel no museu. Ele
roubara-a no dia anterior.
Enoch escurecera o rosto e as mãos com graxa castanha
de modo a ser confundido com um negro, caso fosse apa­
nhado em flagrante. Em seguida, esgueirara-se para dentro
do museu enquanto o guarda dormia e partira a vitrina com
uma chave inglesa que pedira emprestada à senhoria. Depois,
tremendo e transpirando, Enoch erguera o homem encolhido
de dentro da vitrina, enfiara-o num saco de papel e esguei­
rara-se novamente para a rua, passando pelo guarda, que
continuava a dormir. Assim que saiu do museu, apercebeu­
-se de que, uma vez que ninguém o vira para ficar a pensar
que tinha sido um negro, ele seria o primeiro suspeito e teria
de se disfarçar. Era por isso que andava agora com a barba e
os óculos escuros.
Quando voltara ao seu quarto, Enoch tirara o novo jesus
de dentro do saco e, quase sem se atrever a olhá-lo, depusera­
-o no armário dourado. Depois, sentara-se à beira da cama, à
espera. Estava à espera que algo acontecesse, não sabia o quê.
Sabia simplesmente que algo ia acontecer e todo o seu sis­
tema estava à espera disso. Enoch achou que seria um dos
momentos supremos da sua vida mas, fora isso, não fazia a
mais vaga ideia do que seria. Imaginou-se, depois de tudo
acabado, um homem completamente novo com uma perso­
nalidade ainda melhor do que a que tinha agora. Ficou ali
sentado durante quinze minutos e nada aconteceu.
Então, deixou-se ficar sentado por mais cinco minutos.
Por fim, percebeu que teria de ser ele a dar o primeiro
passo. Levantou-se, então, e foi em bicos de pés até ao armá-
SANGUE SÁBIO 1 3 3

rio, onde se agachou em frente à porta. Num segundo, abriu


uma nesga e espreitou. Passado um momento, alargou essa
nesga, muito lentamente, e meteu a cabeça dentro do armário.
Decorreu algum tempo.
Directamente atrás de si, só era possível ver-lhe as solas
dos sapatos e os fundilhos das calças. O quarto estava mer­
gulhado em absoluto silêncio. Nem a rua produzia ruídos.
Parecia que todo o Universo tinha parado, nem sequer uma
pulga saltitava. E então, sem qualquer aviso, um estridente
ruído líquido soltou-se de dentro do armário e ouviu-se um
baque de um osso rachando-se contra um pedaço de madeira.
Enoch cambaleou para trás, agarrando a cabeça e o rosto.
Depois, ficou sentado no chão durante uns minutos com uma
expressão de choque que lhe dominava todo o corpo. A prin­
cípio, Enoch pensara que tinha sido o homem engelhado que
espirrara, mas passado um segundo apercebeu-se do estado
do seu próprio nariz. Limpou-o então à manga do casaco e
ficou ali sentado no chão durante mais algum tempo. A sua
expressão deixava entrever que um conhecimento desagradá­
vel e profundo estava lentamente a abater-se sobre si. Passado
um minuto, ele fechara a porta do armário com um pontapé,
encerrando-a na cara do novo jesus, e por fim levantou-se e
começara a comer uma barra de chocolate muito depressa.
E comera-a como se tivesse algo contra ela.
Na manhã seguinte, já eram dez horas quando se levan­
tou - era o seu dia de folga - e só saíra do quarto quase ao
meio-dia, para partir em busca de Hazel Motes. Enoch ainda
se lembrava do endereço que Sabbath Hawks lhe dera e era
para aí que o instinto o guiava. Enoch sentia-se extrema­
mente melancólico e desagradado por ter de passar o seu dia
de folga desta forma, ainda para mais com o tempo tão desa­
gradável, mas ele queria livrar-se depressa do novo jesus,
para que, se a polícia tivesse de prender alguém por causa do
roubo, que prendesse Hazel Motes em seu lugar. Aliás, Enoch
nem conseguia de todo compreender por que se dispusera a
arriscar a pele por um anão morto, meio preto e mirrado, que
1 34 ü ' CONNOR

nunca tinha feito nada senão deixar-se embalsamar e ser


exposto, fedorento, num museu para o resto da vida. Era algo
que escapava à sua compreensão. Enoch ia muito taciturno.
Para ele, por enquanto, um jesus era tão mau como o outro.
Enoch levara o chapéu-de-chuva da senhoria emprestado
e agora, ali de pé à entrada da loj a, tentando abri-lo, desco­
briu que ele era pelo menos tão velho como a dona. Quando
finalmente conseguiu abri-lo, Enoch voltou a pôr os óculos
escuros em frente aos olhos e meteu-se novamente debaixo
da enxurrada.
O chapéu-de-chuva era um velho utensílio que a senhoria
tinha deixado de usar havia quinze anos (aliás, foi só por isso
que ela o emprestou), e assim que a chuva bateu no topo do
chapéu, este abateu-se sobre Enoch com um guincho e cra­
vou um aro na parte de trás do pescoço dele. Enoch correu
um pouco com o guarda-chuva por cima da cabeça e depois
recuou até à entrada de outra loj a e tirou-o de cima de si. Em
seguida, para voltar a abri-lo, viu-se obrigado a pousar a
ponta no chão e a empurrar os aros com o pé até se abrirem.
Por fim, saiu correndo mais uma vez, com o braço levantado,
segurando o guarda-chuva perto dos aros para o manter
aberto. Caminhando nesta posição, a pega do chapéu-de­
-chuva, que estava talhada com a forma da cabeça de um fox-
-terrier, socava-o de vez em quando no estômago. Mas Enoch
continuou assim durante mais uns metros, até que, na parte
pe trás do guarda-chuva, a seda se desprendeu dos aros e dei­
xou que a tempestade lhe escorresse pelo colarinho abaixo.
E, então, Enoch esgueirou-se para debaixo do sinal luminoso
de um cinema. Era sábado e havia várias crianças de pé, mais
ou menos mantendo uma fila indiana em frente da bilheteira.
Enoch não gostava muito de crianças mas elas pareciam
sempre gostar de olhar para ele. A fila voltou-se e vinte ou
trinta olhos começaram a observá-lo com um interesse cres­
cente. O guarda-chuva tinha sido torcido numa posição dis­
forme, meio para cima e meio para baixo, e a parte que
estava levantada estava prestes a cair novamente e a despe-
SANGUE SÁBIO 1 3 5

jar mais água debaixo do colarinho dele. Quando isso aconte­


ceu, as crianças riram e deram pulos de alegria. Enoch lançou­
-lhes um olhar maldoso, voltou-lhes as costas e baixou os
óculos escuros. De costas voltadas, ele deu por si de frente a
um cartaz a quatro cores com uma fotografia à escala de um
gorila. Por cima da cabeça do gorila, escrito em letras verme­
lhas, lia-se: •GONGA! O Gigante Rei da Selva e Grande Estrela!
AQlTI EM PESSOA! ! !» Ao nível do joelho do gorila, mais letras
diziam: «Gonga aparecerá em pessoa em frente a este cinema
ao meio-dia. HOJE ! Um bilhete grátis para os dez primeiros que
tiverem coragem para se aproximar e lhe apertar a mão !»
Era costume Enoch estar ocupado a pensar noutra coisa
quando o Destino chegava e estendia a perna para lhe dar um
pontapé. Quando ele tinha quatro anos, o pai trouxera-lhe
uma caixa de latão da penitenciária. Era cor de laranja e
tinha imagens de rebuçados de coco na parte de fora e letras
verdes que diziam •UMA SURPRESA DE PARTIR o COCO !• Quando
Enoch a abrira, uma mola de aço saltara de repente e partira­
-lhe as pontas dos dois dentes da frente. A vida dele estava
tão cheia de tantos acontecimentos destes que seria de pen­
sar que ele teria ficado mais sensível aos seus momentos de
perigo. Enoch ficou ali de pé e leu o cartaz duas vezes, com
muito cuidado. Para ele, a oportunidade de insultar um gorila
famoso estava a ser-lhe dada pela mão da Providência. De
repente, Enoch recuperou toda a sua reverência pelo novo
jesus e viu que estava a ser recompensado, depois de tudo o
que fizera, com o supremo momento que esperava há tanto
tempo.
Enoch voltou-se para a fila e perguntou à primeira criança
que horas eram. A criança respondeu que era meio-dia e dez
e que o Gonga já estava dez minutos atrasado. Outra criança
disse que talvez a chuva o tivesse atrasado. Outra disse que
não, não a chuva, era o realizador dele que estava a vir de
avião de Hollywood. Enoch rangeu os dentes. A primeira
criança disse que se ele queria apertar a mão à estrela de
cinema tinha de se pôr na fila como toda a gente e esperar a
1 3 6 ü 'CONNOR

sua vez. Enoch meteu-se na fila. Uma criança perguntou-lhe


que idade tinha. Outra comentou que os dentes dele eram
estranhos. Ele ignorou-os a todos o melhor que pôde e come­
çou a endireitar o chapéu-de-chuva.
Poucos minutos depois, uma carrinha preta virou a esquina
e subiu lentamente a rua, debaixo da chuva torrencial. Enoch
meteu o guarda-chuva debaixo do braço e começou a semi­
cerrar os olhos debaixo dos óculos, para ver melhor. À medida
que a carrinha se aproximou, um fonógrafo começou a tocar
«Tarará Bum Di Ai», mas o som da música era quase afogado
pela chuva. Na parte de fora da carrinha havia uma enorme
ilustras ão de uma loira, anunciando um outro filme qualquer
que não o do gorila.
As crianças mantiveram a fila cuidadosamente enquanto a
carrinha estacionava em frente ao cinema. A porta da carga era
como a porta de uma carrinha da polícia, com grades no meio,
mas o gorila não estava lá. Dois homens de gabardina saíram da
cabina à frente, praguejando, e correram até às traseiras e abri­
ram a porta. Um deles meteu a cabeça lá dentro e disse:
«Pronto, tocá despachar, vá !»
O outro abanou o polegar na direcção das crianças e disse:
«Metam-se pra trás, vá, metam-se pra trás.»
Uma voz no disco que tocava dentro da carrinha anunciou:
«Aqui está Gonga, amigos, o Furioso Gonga, que é uma
Grande Estrela ! Uma salva de palmas para o Gonga, amigos !»
Na torrente da chuva, a voz era pouco mais do que um
murmúrio.
O homem que estava à espera à porta da carrinha meteu
a cabeça lá dentro novamente.
«Atão, sais duma vez ou quê?», disse.
Ouviu-se um vago baque algures dentro da carrinha . Pas­
sado um segundo, um braço escuro e peludo esticou-se para
fora, apenas o suficiente para a chuva lhe tocar, e logo recolheu
outra vez.
«Rai's partam !», exclamou o homem que estava debaixo
do reclame luminoso do cinema. E então, tirou a gabardina e
SANGUE SÁBIO 137

atirou-a ao homem que estava à porta, que o atirou para den­


tro da carrinha. Dois ou três minutos depois, o gorila apare­
ceu finalmente à porta, com a gabardina abotoada até ao
queixo e o colarinho virado para cima. Trazia uma corrente
de ferro pendurada ao pescoço, que o homem agarrou e usou
para o puxar para o chão. Depois, homem e gorila vieram
juntos até à entrada do cinema. Uma mulher com ar mater­
nal estava atrás do vidro da bilheteira, preparando os bilhe­
tes grátis para as primeiras dez crianças que tivessem cora­
gem de se aproximar e apertar a mão ao gorila.
O gorila ignorou as crianças por completo e seguiu o
homem até ao outro lado da entrada, onde uma plataforma
se erguia cerca de trinta centímetros acima do chão. O gorila
subiu para a plataforma, virou-se para as crianças e começou
a rugir. Os rugidos dele não eram propriamente altos, mas
eram venenosos. Pareciam arrancados a um coração negro.
Enoch estava aterrorizado e, se não estivesse rodeado pelas
crianças, teria fugido.
«Quem vai ser o primeiro?11, perguntou o homem. «Venham
lá, venham lá, quem vai ser o primeiro? É um bilhete grátis
pro primeiro miúdo que s'aproximar.11
Ninguém no grupo das crianças se mexeu. O homem lan­
çou-lhes um olhar reprovador.
«Qu'é que se passa, miúdos?», ladrou ele. «Nã têm espinha?
Ele nã vos faz mal enquanto eu o tiver aqui pla corrente.11
E apertou a corrente com mais força, fazendo-a tilintar, para
mostrar que a tinha bem segura.
Passado um minuto, uma rapariguinha destacou-se do
grupo. Tinha longos caracóis como serradura e um feroz rosto
triangular. Aproximou-se até cerca de um metro da estrela de
cinema.
«Vá lá, vá lá», disse o homem, abanando a corrente. «Tocá
despachar.11
O gorila estendeu o braço e deu um aperto rápido à mão dela.
Por esta altura, já outra rapariguinha estava pronta, e depois dois
rapazes. A fila voltou a formar-se e começou a avançar.
1 3 8 O'CONNOR

O gorila manteve o braço estendido e virou a cara para a


chuva com uma expressão entediada. Enoch já dominara o
medo e estava freneticamente à procura de algum comentário
obsceno com que pudesse insultá-lo. Geralmente, ele nunca
tinha problemas com este tipo de composição, mas agora nada
lhe ocorria. O cérebro dele, ambas as partes, estava completa­
mente vazio. Não se co nseguia lembrar sequer dos insultos que
proferia todos os dias.
Por esta altura, já só havia duas crianças à sua frente.
A primeira apertou a mão ao gorila e afastou-se. O coração
de Enoch batia violentamente. A criança à sua frente acabou
o cumprimento e afastou-se, deixando-o de frente ao animal,
que lhe agarrou a mão num gesto automático.
Era a primeira mão que era estendida a Enoch desde que
ele chegara à cidade. Ela era quente e suave.
Durante um segundo, ele ficou ali parado, agarrando-a.
Depois, começou a murmurar: «Chamo-m' Enoch Emery», bal­
buciou. «Eu andei n'Academia Religiosa de Rodemill pra
Rapazes. Trabalho no jardim zoológico. Vi dois dos seus fil­
mes. Só tenho dezoito anos mas já trabalho prà câm'ra. Foi o
meu paizinho que m'obrigou a vir... ». E a voz quebrou-se-lhe.
A estrela debruçou-se ligeiramente para a frente e os olhos
mudaram de expressão : um horrivel par de olhos humanos
apareceu por detrás dos olhos de celulóide.
«Vai pro inferno», rosnou-lhe uma voz amarga dentro do
fato de gorila, baixa mas clara, e a mão dele largou Enoch.
A humilhação de Enoch foi tão aguda e dolorosa que ele
se voltou três vezes antes de perceber em que direcção é que
queria ir. Depois, correu para o meio da chuva tão depressa
quanto pôde.
Quando chegou à casa de Sabbath Hawks estava ensopado
até aos ossos, assim como o embrulho que trazia. Enoch
segurava-o com força, mas tudo o que queria era livrar-se
dele e nunca mais lhe pôr a vista em cima. A senhoria de
Haze estava no alpendre, olhando desconfiada para a tem­
pestade. Foi ela que lhe disse onde era o quarto de Haze e
SANGUE SÁBIO 1 3 9

Enoch entrou e subiu as escadas. A porta estava entreaberta


e ele espreitou para dentro. Haze estava deitado na enxerga,
com um trapo molhado em cima dos olhos. A parte do rosto
que estava à vista estava pálida e torcida num esgar, como se
estivesse a sofrer dores constantes. Sabbath Hawks estava
sentada à mesa em frente à janela, estudando o seu reflexo
num espelho de bolso. Enoch arranhou a parede e ela olhou
para cima, pousou o espelho e avançou em bicos de pés até
ao corredor, fechando a porta atrás de si.
«Ü meu homem hoje 'tá doente e a dormir», disse ela, «por
causa qu'ele ontem nã dormiu nada. Qu'é que queres?»
«Isto é pra ele, nã é pra ti», disse Enoch, passando-lhe o
embrulho molhado. «Um amigo dele deu-mo a mim prà dar a
ele. Nã sei o que é.»
11Eu tomo conta», disse ela. «Escusas de te ralar.»
Enoch tinha uma urgente necessidade de insultar alguém
imediatamente. Era a única coisa capaz de dar aos seus sen­
timentos um mínimo alívio, mesmo que temporário.
«Nunca pensei qu'ele que fosse ter alguma coisa a ver
contigo», comentou ele, lançando-lhe um dos seus olhares
especiais.
«Ele nã conseguia parar d'andar atrás de mim», disse ela.
«Às vezes é assim co'eles. Nã sabes mesmo o qu'é que 'tá aqui
dentro deste embrulho?»
«Línguas de perguntador», respondeu ele. «Dá-lhe mas é o
embrulho, qu'ele há-de saber o que é, e podes dizer-lhe qu'eu
'tau é bem contente por me ver livre disto.» E começou a des­
cer as escadas, voltando-se a meio caminho para lhe deitar
outro olhar especial. «Dá pra perceber porqu'é qu'ele tem que
pôr aquele trapo na frente dos olhos», comentou.
«Tu mete-te é ond'és chamado», retorquiu ela. «Ninguém
te perguntou.»
Assim que ouviu a porta da frente fechar-se com força,
Sabbath virou e revirou o embrulho e começou a examiná-lo.
Olhando de fora, era impossível perceber ó que teria dentro.
Era duro de mais para ser roupa mas mole de mais para ser
140 O'CONNOR

uma máquina. A rapariga abriu um buraco no papel, de um


dos lados, e viu o que parecia ser cinco ervilhas secas em fila,
mas o corredor estava escuro de mais para que se pudesse ver
exactamente o que eram. Assim, decidiu levar o embrulho
para a casa de banho, onde havia boa luz, e abri-lo antes de
o dar a Haze. Se ele estava assim tão doente como dizia, tam­
bém não ia querer aborrecer-se com embrulho nenhum.
Nessa manhã bem cedo, Haze queixara-se de terríveis
dores no peito. Tinha começado a tossir durante a noite
- uma tosse rija e funda; parecia que Haze a inventava à
medida que tossia. Mas ela estava certa de que ele somente
tentava afastá-la, convencendo-a de que tinha uma doença
contagiosa.
Ele não 'tá mesmo doente, disse ela para si própria enquanto
percorria o corredor. Só que ainda não 'tá habituado a mim.
Sabbath entrou na casa de banho, sentou-se na borda de uma
grande banheira verde com pés de ave e rompeu o cordel do
embrulho.
«Mas ele l;tá-de-s'habituar», murmurou ela. E, rasgando o
papel, deixou-o tombar para o chão e ficou ali sentada, com
um olhar de espanto, fitando o objecto que tinha no colo.
Dois dias fora da vitrina não tinham melhorado em nada
o estado do novo jesus. Uma das faces dele tinha sido par­
cialmente amassada e, na outra, uma pálpebra estava rachada
e um pó pálido estava escorrendo lá de dentro. Durante uns
·
minutos, o rosto dela adquiriu uma expressão vazia, como se
não soubesse o que pensar dele, ou como se não pensasse
nada. Sabbath pode bem ter passado uns dez minutos ali sen­
tada sem um único pensamento, detida por fosse o que fosse
que lhe parecia familiar naquele pequeno homem. Ela nunca
conhecera ninguém que - tivesse aquele aspecto, mas nele,
havia um pouco de toda a gente que ela alguma vez conhe­
cera, como se todos eles tivessem sido comprimidos numa só
pessoa, e depois mortos, mirrados e secos.
Sabbath ergueu-o no ar e começou a examiná-lo. Passado
um minuto, as mãos dela acostumaram-se à textura da pele
SANGUE SÁBIO 141

dele. Madeixas do cabelo dele despentearam-se e ela esco­


vou-as novamente para trás, segurando-o na dobra do braço
e olhando para o rosto mirrado. A boca dele tinha ficado tor­
cida para um lado, pelo que havia um fiapo de um leve sor­
riso cobrindo-lhe a expressão aterrorizada. Sabbath começou
a embalá-lo nos seus braços e um reflexo do mesmo vago
sorriso apareceu no rosto dela.
«Ora quem havia d'adivinhar», murmurou ela. «É s bem
giro, nã és?»
A cabeça dele encaixava perfeitamente na cova do ombro
dela.
«Quem é a tua mamã e o teu papá?» De imediato, ocorreu­
-lhe uma resposta e Sabbath soltou um pequeno latido e ficou
ali sentada, sorrindo abertamente, com uma expressão de con­
tentamento nos olhos. «Anda, vamos lá pregar-lh'um susto»,
disse ela, passado um bocado.
Haze acordara sobressaltado quando a porta da rua se
fechou com estrondo nas costas de Enoch Emery. Depois, sen­
tara-se na cama e, vendo que ela não estava no quarto, levan­
tara-se de um pulo e começara a vestir-se. Tinha um único
pensamento na cabeça, que lhe ocorrera, como a decisão de
comprar um carro, assim que acordara e sem dar nenhum
aviso da sua iminente chegada: ele ia mudar-se imediata­
mente para outra cidade qualquer e pregar a Igreja sem Cristo
onde nunca ninguém tivesse ouvido falar dela. Arranjaria aí
outro quarto e outra mulher e faria um novo começo sem
nada que lhe ocupasse a cabeça. A possibilidade de fazer isto
era-lhe dada pela vantagem de ter carro - de ter algo que se
movimentava depressa, em privacidade e em qualquer direc­
ção que ele quisesse. Haze olhou para o Essex pela janela. Alto
e quadrado, lá estava ele estacionado debaixo da chuva tor­
rencial. Haze não reparou na chuva, apenas no carro. Se
alguém lhe tivesse perguntado, ele não teria sido capaz de
afirmar que estava a chover. Cheio de energia, saiu de perto
da j anela e acabou de se vestir. Antes, nessa manhã, quando
acordara pela primeira vez, sentira-se prestes a ser completa-
142 o'CONNOR

mente apanhado pela doença que lhe consumia o peito, que


parecia ter ficado cada vez mais oco durante a noite, boce­
jando debaixo de si. Haze passara a noite toda escutando a
sua tosse como se ela viesse de longe. Passado algum tempo,
sentira-se sugado para um sono lasso e sem forças, mas acor­
dara por fim com este plano e com a energia para o pôr em
prática imediatamente.
Haze apanhou o saco do exército que estava debaixo da
mesa e começou a atafulhá-lo com os seus pertences. Ele não
tinha grande coisa, e um quarto das suas parcas posses já
estava dentro do saco. A mão dele foi arrumando o saco de
modo a nunca ter de tocar na Bíblia, que permanecera como
uma pedra no fundo do saco durante os últimos anos. No
entanto, enquanto procurava arranjar espaço para o seu
segundo par de sapatos, os dedos dele agarraram um pequeno
objecto oblongo e Haze puxou-o para fora. Era a caixa dos
óculos da mãe. Haze já se esquecera de que tinha um par de
óculos. Pô-los então no rosto e a parede que tinha à sua
frente aproximou-se de si e ondulou. Pendurado na porta
estava um pequeno espelho com uma moldura branca e Haze
pôs-se à frente dele e olhou para si próprio. O seu rosto tm:vo
estava obscurecido com o entusiasmo e as linhas na sua pele
eram profundas e torcidas. Os pequenos óculos com aros de
prata davam-lhe um ar de inteligência retorcida, como se
escondessem algum plano desonesto que os olhos nus reve­
lariam. Os dedos dele começaram a estalar nervosamente e
Haze esqueceu o que estava prestes a fazer. Olhando o espe­
lho, viu o rosto da mãe no seu, fitando-o. Nervoso, recuou
rapidamente e levantou a mão para tirar os óculos, mas nesse
momento a porta abriu-se e dois outros rostos apareceram no
seu campo de visão. Um deles disse:
«A partir d'agora chama-me mãezinha.11
O rosto mais pequeno e escuro, que aparecia debaixo do
outro, limitava-se a semicerrar os olhos, como se estivesse a
tentar identificar ao longe um velho amigo que estava pres­
tes a matá-lo.
SANGUE SÁBIO 143

Haze ficou parado, com uma das mãos ainda na armação


dos óculos e a outra parada no ar ao nível do peito. A cabeça
estava espetada para a frente, como se ele tivesse de usar o
rosto inteiro para ver. Haze estava a mais de um metro de dis­
tância deles, mas os dois rostos pareciam estar mesmo debaixo
do seu nariz.
«Pergunt'aí ó teu paizinho adond'é qu'ele ia assim a correr
- inda pra mais doente com'ele 'tá?», disse Sabbath. «Pergunta-
-lhe s'ele se nã nos vai levar à gente co'ele.»
A mão que estava parada no meio do ar esticou-se para a
frente e tentou alcançar o rosto de olhos pequeninos, mas sem
lhe tocar. Então, esticou-se outra vez, lentamente, tocou em
nada e, por fim, arrebatou o pequeno corpo e arremessou-o con­
tra a parede. A cabeça saltou do corpo e o lixo todo que havia
dentro do corpo borrifou o quarto numa pequena nuvem de pó.
«Partistes-se-o !», gritou Sabbath. «E ele era meu !»
Haze arrebanhou a pele do chão, abriu a porta da rua,
onde a senhoria achava que em . tempos tinha havido uma
escada de incêndio, e atirou para a rua o que tinha na mão.
A chuva bateu-lhe na cara e ele deu um salto para trás e
deteve-se, com um ar cauteloso, como se estivesse a preparar­
se para uma pancada forte.
«Nã tinhas qu'o atirar prà rua», berrou ela. «Eu se calhar
consertava-o !»
Ele aproximou-se mais da rua e pendurou-se porta fora,
fitando o dia turvo e cinzento à sua volta. A chuva caía-lhe
sobre o chapéu com salpicos ruidosos, como se estivesse a
cair sobre um telhado de lata.
«Assim que te vi soube logo que tu qu'eras mau e ruim»,
exclamou uma voz furiosa atrás dele. «Eu soube logo que tu
que nunc'ias deixar ninguém ter nada. Eu vi que tu qu'eras
ruim que chegue pr'atirar um bebé contrá parede. Eu logo vi
que tu nunca t'ias divertir nem ias deixar que ninguém se
divertisse porque tu só o que qu'rias era Jesus !»
Ele voltou-se e levantou o braço num gesto feroz, quase
perdendo o equilíbrio perto da porta. Tinha gotas de chuva
144 o'CONNOR

salpicadas nos óculos e no rosto vermelho, e aqui e ali peque­


nas gotas cintilavam, penduradas na aba do chapéu.
«Eu só o que quero é a verdade !», berrou ele. «E o que tu
vês é a verdade, e eu vi-a!»
«Conversa de pregadon>, retorquiu ela. «E pr'onde é qu'ias
assim a fugir?»
«Eu vi a única verdade que existe !», bradou ele.
«Pr'onde é qu'ias assim a fugir?»
«Pra outra cidade qualquer», respondeu ele numa voz alta e
rouca, «pra pregar a verdade. A Igreja sem Cristo ! E tenho um
carro pra me levar lá, e tenho ... » Mas Haze foi interrompido por
um ataque de tosse. Não era grande tosse - soava como um
ténue grito de ajuda, atirado do fundo de um desfiladeiro -,
mas a cor e a expressão esvaíram-se-lhe do rosto até ele ficar
tão recto e vazio como a chuva que caía atrás dele.
«E quand'é qu'eras pra ir?», perguntou ela.
«Logo depois de dormir um pouco», respondeu ele, tirando
os óculos do rosto e atirando-os porta fora.
«Nã vais dormir coisa nenhuma», disse ela.
CAPÍTULO 1 2

Apesar de si próprio, Enoch não conseguia afastar a expecta­


tiva de que o novo jesus ia fazer algo por si, em recompensa
pelo seu trabalho. Esta era a virtude da Esperança, que, em
Enoch, era composta de duas medidas de desconfiança e uma
de luxúria. A Esperança foi trabalhando Enoch durante todo
o resto do dia, depois de ele deixar Sabbath Hawks. O rapaz
tinha apenas uma vaga ideia de como gostaria de ser recom­
pensado, mas ele não era desprovido de ambição : ele queria
vir a ser alguém. Ele queria melhorar a sua condição até ser
a melhor. Queria ser o jovem do futuro, como os dos anún­
cios das seguradoras. Ele queria, um dia, ver uma fila de
gente à espera para lhe apertar a mão.
Durante toda a tarde, Enoch andou nervoso e inquieto
pelo quarto, roendo as unhas e rasgando o que restava da
seda do guarda-chuva da senhoria. Por fim, descamou com­
pletamente o chapéu-de-chuva e partiu as hastes. Restou-lhe
um pau negro com uma ponta aguçada de aço num extremo
e uma cabeça de cão no outro. Poderia ter sido um instru­
mento para alguma refinada forma de tortura que tinha pas­
sado de moda. Enoch andou de um lado para o outro no seu
quarto com ele debaixo do braço e apercebeu-se de que
aquele instrumento o distinguiria de toda a gente no passeio.
146 o'CONNOR

Por volta das sete da noite, ele vestiu o casaco, pegou no


pau e saiu para um pequeno restaurante que havia a dois
quarteirões de distância. Tinha a sensação de estar a caminho
de receber uma grande honra, mas ia muito nervoso, como se
receasse ser obrigado a roubá-la em vez de a receber.
Enoch nunca se lançava a nenhuma empreitada sem comer
primeiro. O restaurante chamava-se Casa de Pasto Paris. Era
um túnel com cerca de dois metros de largura, situado entre
um salão de engraxar sapatos e uma lavandaria. Enoch desli­
zou para dentro do estabelecimento, subiu ao último banco no
balcão e disse que queria um prato de sopa de ervilha e um
batido de chocolate.
A empregada era uma mulher alta com uma grande placa
dentária amarela e cabelo da mesma cor, preso debaixo de
uma rede preta. Nunca tirava uma das mãos da anca e aten­
dia os clientes com a outra. Apesar de Enoch ir àquele res­
taurante todas as noites, nunca aprendera a gostar dele.
Em vez de atender o pedido dele, ela começou a fritar tou­
cinho. Só havia um outro cliente no estabelecimento e esse já
tinha acabado de comer e estava a ler o jornal. Não havia
ninguém para comer aquele toucinho para além dela. Enoch
debruçou-se sobre o balcão e picou-lhe a anca com o pau.
«Oiça cá», disse ele. «Tenho qu'ir. 'Tou com pressa.»
«Atão vai», respondeu ela. O seu maxilar começou a mexer­
-se e ela fitou a frigideira com uma atenção absorta.
«Atão dê-me só uma fatia daquele bolo ali», disse ele,
apontando para uma metade de bolo amarelo e rosa que havia
numa vitrina redonda. «Acho que tenho qualquer coisa p'ra
fazer. Tenho qu'ir andando. Ponha-o ali ó lado dele», pediu
Enoch, indicando o cliente que estava a ler o jornal. E, desli­
zando por cima dos bancos, sentou-se perto dele e começou a
ler as páginas de fora do jornal.
O homem baixou o jornal e olhou-o. Enoch sorriu. O homem
ergueu o jornal novamente.
«Podia emprestar-m'uma parte do jornal que 'cê não 'teja
lendo?», perguntou Enoch.
SANGUE SÁBIO 147

O homem baixou novamente o jornal e fitou-o. Tinha


olhos baços e determinados. Depois, folheando deliberada­
mente o jornal, abanou-o para deixar cair a página da banda
desenhada e estendeu-a a Enoch. Era a secção preferida de
Enoch e ele leu-a toda, como um ofício. Enquanto comia o
bolo que a empregada lhe fizera deslizar pelo balcão fora,
Enoch foi lendo e sentido-se repentinamente imbuído de cari­
nho, coragem e força.
Quando acabou a página, virou a folha e começou a olhar os
anúncios dos filmes que enchiam o verso. O olho dele passou por
três colunas sem se deter. Depois, parou numa caixa que anun­
ciava Gonga, Gigante Rei da Selva, e listava os cinemas em que
ele passaria na sua digressão, bem como as horas em que visi­
taria cada um deles. Daí a trinta minutos, Gonga chegaria ao
Victory, na Rua 57, e essa seria a sua última aparição na cidade.
Se alguém tivesse observado Enoch enquanto lia isto, teria
reparado numa certa transformação no seu semblante. O rosto
dele ainda brilhava com a inspiração que absorvera da banda
desenhada, mas agora estava carregado com algo mais : uma
expressão como que de um despertar.
Por acaso, naquele momento, a empregada virou-se na sua
direcção para ver se ele não tinha fugido.
«Qu'é que tens?», disse ela. «Engoliste algum caroço?»
dá sei o que quero», murmurou Enoch.
«Eu também sei o que quero», respondeu ela com uma expres­
são sombria.
Enoch apalpou em volta em busca do seu pau e depôs os
trocos em cima do b alcão.
«Tenho qu' ir andando.»
«Nã te demores por minha causa», ripostou ela.
«Na volta, já nã me vai voltar a ver», disse ele, «não com'eu
.
sou agora.»
«Qualquer maneira que sej a maneira d'eu não te voltar a
ver quadra-me muito bem», respondeu ela.
Enoch saiu. A noite estava húmida e agradável. As poças
de água brilhavam no passeio e as montras das lojas exalavam
148 ü 'CONNOR

vapor e faiscavam com a tralha que exibiam. Enoch desapa­


receu por uma rua lateral e percorreu apressado os becos mais
escuros da cidade, detendo-se apenas uma vez ou duas no
fim de uma viela para lançar um olhar rápido em ambas as
direcções antes de prosseguir. O Victory era um cinema
pequeno e familiar num quarteirão ali perto. Enoch passou
por uma série de áreas iluminadas, percorrendo em seguida
mais vielas até chegar à zona de escritórios que rodeava o
cinema. E aí abrandou, vislumbrando o edifício a um quar­
teirão de distância, reluzindo no meio da escuridão da rua.
Enoch não atravessou a rua para o lado onde ficava o cinema,
mantendo-se do outro lado e avançando com o olhar fixo na
iluminação reluzente. Quando estava directamente em frente
do cinema, parou e escondeu-se no estreito acesso a uma
escadaria que dividia um edifício.
A carrinha que trazia Gonga estava estacionada do outro
lado da rua e a estrela de cinema estava debaixo do reclame
luminoso, apertando a mão a uma mulher idosa. A mulher
afastou-se e seguiu-se-lhe um senhor com um pólo, que lhe
apertou a mão vigorosamente, como um desportista. Depois
dele, um rapaz de cerca de três anos, que envergava um cha­
péu à cowboy que quase lhe cobria o rosto e que teve de ser
empurrado em frente pela fila. Enoch observou durante algum
tempo, o rosto enchendo-se de inveja. Ao rapazinho seguiu-se
uma senhora de calções e depois dela veio um velho que ten­
tou chamar a atenção sobre si próprio dançando até ao gorila,
em vez de caminhar com passo digno. De repente, Enoch cor­
reu para o outro lado da rua e esgueirou-se silenciosamente
para dentro da porta traseira da carrinha, que estava aberta.
Os apertos de mão duraram até o filme estar prestes a
começar. Em seguidà, a estrela de cinema entrou novamente
na carrinha e as pessoas entraram em fila indiana no cinema.
O condutor e o homem que servia de mestre de cerimónias
entraram na parte dianteira e a carrinha, vibrando, pôs-se em
movimento. Num ápice, atravessou a cidade e continuou estrada
fora, avançando muito depressa.
SANGUE SÁBIO 149

De dentro da carrinha ouviam-se certos baques, diferentes


dos que produziria um gorila normal, mas esses ruídos eram
abafados pelo ronronar do motor e pelo som constante dos
pneus contra a estrada. A noite estava pálida e calma, sem
nada que a agitasse para além do ocasional queixume de uma
coruja, ou o som abafado de um distante comboio de carga.
A carrinha continuou veloz até abrandar para atravessar uma
linha de caminho-de-ferro e, enquanto sacolejava por cima dos
carris, uma figura deslizou para fora da porta traseira, quase
caindo, e coxeou apressadamente na direcção do bosque.
Uma vez a coberto da escuridão de uma mata de pinhei­
ros, ele pousou no chão um pau afiado que trazia na mão e
um embrulho volumoso e meio solto que tinha debaixo do
braço e começou a despir-se. Depois, dobrou cuidadosamente
cada peça de roupa à medida que a despia e colocou-a numa
pilha, em cima da peça que despira antes. Quando já toda a
sua roupa estava amontoada nessa pilha, pegou no pau e
usou-o para cavar um buraco no chão.
A escuridão do matagal era quebrada por esparsos peda­
ços de luar pálido que passavam de vez em quando por cima
desta figura e revelavam tratar-se de Enoch. A sua aparência
natural estava afectada por um corte que sangrava do lábio
até à clavícula e por um inchaço debaixo do olho que lhe
dava um aspecto sombrio de insensibilidade. Mas nada pode­
ria ser mais enganador, porque Enoch estava ardendo com a
mais intensa felicidade.
Rapidamente, continuou a cavar até formar um fosso com
cerca de trinta centímetros de comprimento e trinta de pro­
fundidade. Depois, colocou a pilha de roupa lá dentro e afas­
tou-se um pouco para descansar durante um segundo. Para
ele, enterrar as roupas não simbolizava enterrar a pessoa que
fora antes. Ele sabia simplesmente que não voltaria a preci­
sar delas. Assim que recuperou o fôlego, Enoch empurrou a
terra revolvida para cima do buraco e pisou-a com força para
a assentar. Enquanto fez isto, descobriu que ainda estava de
sapatos calçados, pelo que, quando acabou, os descalçou e os
1 50 ü 'CONNOR

lançou para longe. Depois, apanhou o objecto volumoso e


largo que trazia consigo e abanou-o vigorosamente.
Na luz incerta, podia ver-se uma das suas magras pernas
brancas desaparecer, seguida da outra, e depois um braço e
em seguida o outro. No fim, uma figura negra, mais pesada e
felpuda, substituiu a sua. Durante um instante, a figura teve
duas cabeças, uma clara e uma escura, mas passado um
segundo ele puxou a cabeça escura por cima da outra e cor­
rigiu isso. Depois, atarefou-se em volta de atilhos escondidos
e com o que parecia ser pequenos ajustes da pele e do pêlo.
Durante algum tempo depois disto, a figura deteve-se
quieta e não fez nada. Por fim, começou a rugir e a bater no
peito, saltou para cima e para baixo, atirou os braços para o
ar e espetou a cabeça em frente. De início, os rugidos eram
frágeis e incertos, mas logo foram ganhando volume. Aos
poucos, tomaram-se mais baixos e venenosos, depois mais
volumosos e outra vez baixos e venenosos, até que pararam
de todo. A figura estendeu a mão, agarrou o ar e abanou o
braço vigorosamente. Depois, recolheu o braço, estendeu-o
novamente, agarrou o ar e abanou-se. E repetiu este movi­
mento quatro ou cinco vezes. Em seguida, apanhou o pau
afiado, entalou-o debaixo do braço num ângulo vaidoso e
saiu do bosque em direcção à estrada. Naquele momento, não
havia gorila nenhum no mundo, fosse nas selvas de África ou
na Califórnia ou em Nova Iorque, no apartamento mais fino
do mundo, que estivesse mais feliz do que este, cujo deus o
tinha finalmente recompensado.
Um homem e uma mulher sentados próximos um do
outro, numa pedra mesmo ao pé da estrada, estavam olhando
sobre um amplo vale, vendo a cidade na distância, e não
repararam na figura peluda que se aproximava. As colunas de
fumo e os telhados planos dos prédios formavam uma parede
negra e desigual contra o céu mais claro, e aqui e ali um cam­
panário cortava uma fatia aguçada de uma nuvem. O jovem
virou a cabeça mesmo a tempo de ver o gorila a pouco mais
de um metro de distância, negro e horrendo, com a mão
SANGUE SÁBIO 1 5 1

estendida. Lentamente, tirou o braço de roda da cintura da


mulher e desapareceu silenciosamente para dentro do bosque.
Ela, assim que virou o olhar, fugiu gritando pela estrada fora.
O gorila ficou ali de pé, como que surpreendido, e o braço
caiu-lhe ao lado do tronco. Depois, sentou-se na pedra onde
eles tinham estado e fitou o outro lado do vale, observando a
linha desigual da cidade contra o céu.
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CAPÍTULO 1 3

Na segunda noite em que andou na rua, trabalhando com o


Profeta contratado e a Santa Igreja de Cristo sem Cristo,
Hoover Shoats ganhou quinze dólares e trinta e cinco cêntimos
limpos. O Profeta recebia três dólares por noite pelos seus ser­
viços e pelo uso do carro, que lhe pertencia. Chamava-se
Solace Layfield, tinha tuberculose pulmonar, uma mulher e seis
filhos e ser Profeta era o máximo que ele estava disposto a
fazer. Nunca lhe ocorreu que aquele emprego pudesse ser peri­
goso. Na segunda noite na rua o Profeta não reparou num
carro alto cor de ratazana, parado a meio quarteirão de dis­
tância, com um rosto branco lá dentro que o observava com
uma intensidade que denotava que algo estava prestes a acon­
tecer, independentemente do que se fizesse para o impedir.
O rosto observou-o durante quase uma hora, enquanto ele
actuava de pé sobre a capota, de cada vez que Hoover Shoats
erguia o braço com dois dedos apontados na sua direcção.
Quando acabou o último filme e já não havia mais gente para
atrair, Hoover pagou-lhe e os dois entraram no carro e puse­
ram-se em marcha. Conduziram cerca de dez quarteirões até
ao sítio onde Hoover vivia. O carrro parou e Hoover saltou
para fora, dizendo : «Vemo-nos amanhã à noite, amigo.»
Depois, entrou por uma porta escura e Solace Layfield continuou
1 54 ü ' CONNOR

o seu caminho. Algumas centenas de metros atrás de si, o outro


carro cor de ratazana seguia-o determinadamente. O condutor
era Hazel Motes.
Aos poucos, ambos os carros aumentaram de velocidade
e, alguns minutos depois, estavam a avançar rapidamente
em direcção aos arredores da cidade. O primeiro carro virou
para uma estrada solitária onde os ramos das árvores esta­
vam pesados com musgo e a única luz era irradiada pelos
dois carros como dois pares de antenas rígidas. Gra­
dualmente, Haze encurtou a distância que o separava do
outro carro e, forçando o motor, arremeteu em frente e foi
chocar com a parte de trás do outro carro. Ambos os carros
pararam.
Haze recuou o Essex uns metros, enquanto o outro Pro­
feta saía do carro e se punha no meio da estrada, esforçando
a vista contra o brilho intenso dos faróis de Haze. Passado
um segundo, ele veio até à janela do Essex e espreitou para
dentro. Não se ouvia som algum além dos grilos e das rãs.
«Queres o quê?», perguntou ele em tom nervoso.
Haze não respondeu. Limitou-se a olhá-lo e, um segundo
depois, o queixo do homem caiu e ele pareceu reparar na
semelhança das roupas, e talvez até dos rostos.
«Qu'é que queres?», repetiu, em tom mais agudo. «Nã te fiz
mal nenhum.»
Haze calcou novamente o acelerador e o carro foi dispa­
rado em frente. Desta vez, abalroou o outro carro num ângulo
que o fez resvalar para a berma e capotar para dentro da
valeta.
O homem levantou-se do chão, para onde tinha sido ati­
rado, e correu de novo até à janela do Essex, mantendo-se a
cerça de um metro de distância, olhando para dentro.
«Pra qu'é qu'andas c'um chaço daqueles no meio da es­
trada?», disse Haze.
«0 meu carro nã tem mal nenhum», replié ou o homem.
«Atirastes-o prà berma a modo de quê?11
«Tira esse chapéu», ordenou Haze.
SANGUE SÁBIO 1 55

«Ouve cá11, disse o homem, começando a tossir, «queres o


quê? Nã fiques aí ólhar pra mim. Diz lá o que queres.11
«Tu nã falas verdade», disse Haze. «Pra qu'é que te pões em
cima daquele carro e dizes que nã acreditas no qu'acreditas?11
«Qu'é que tens a ver co'isso?11, arfou o homem, debatendo­
-se com a pieira. «Qu'é que t'int'ressa o qu'eu faço ou deixo
de fazer?»
«Pra qu'é que fazes uma coisa dessas?», insistiu Haze. «Foi
isso que te perguntei.»
«Um homem tem de tomar conta de si11, respondeu o outro
Profeta.
«Tu nã falas verdade», replicou Haze. «Tu acreditas em
Jesus.11
«Qu'é que tens a ver co' isso?11, disse o homem. «Pra qu'é
que fostes atirar o meu carro pra fora da estrada?»
«Tira-m'esse chapéu e esse fato», ordenou Haze.
«Escuta cá11, começou o homem, cceu nã ando cá fazendo
troça de ti. Foi ele que me comprou este fato. O outro qu'eu
tinha deitei-o fora.»
Haze esticou o braço e tirou-lhe o chapéu branco da cabeça
com uma pancada na aba.
«E tira-m'esse fato», repetiu ele.
O homem começou a esgueirar-se devagar, afastando-se
para o meio da estrada.
«Tira-m' esse fato», gritou Haze, começando a dirigir o carro
no seu encalço.
Solace começou a galopar pela estrada fora, tirando o
casaco à medida que avançava.
«Tira tudo !», berrou Haze, com o rosto colado ao pára-brisas.
O Profeta começou a correr a sério. Ao mesmo tempo,
arrancou a camisa do corpo, desapertou o cinto e saltou para
fora das calças. Depois, começou a levar a mão aos pés, como
se fosse também descalçar-se, mas antes que conseguisse
alcançar os sapatos, o Essex derrubou-o e passou-lhe por
cima. Haze avançou ainda uns seis metros e depois parou o
carro e começou a recuar. Em marcha atrás, Haze passou
1 56 ü ' CONNOR

outra vez por cima do corpo e por fim parou e apeou-se.


O Essex estava meio em cima do outro Profeta, como se esti­
vesse orgulhoso por guardar a presa que tinha finalmente
derrubado. Assim estendido no chão, de rosto para babço,
sem chapéu e sem fato, o homem não era tão parecido com
Haze. O corpo dele derramava muito sangue, que formava
uma poça à volta da sua cabeça. Ele estava imóvel, à excep­
ção de um dedo que se movia para cima e para baixo em
frente ao rosto dele, como se estivesse a marcar o tempo.
Haze tocou-lhe no tronco com o pé e ele soltou uma expira­
ção aguda, afectada pela pieira, e logo voltou ao silêncio.
«Há duas coisas qu'eu nã suporto», declarou Haze. «Um
homem que nã fala verdade e um que troça de quem fala. Nunca
te devias ter metido comigo se nã qu'rias o que recebestes.»
O homem estava a tentar dizer qualquer coisa mas só con­
seguia soltar os ruídos agudos da respiração afectada. Haze
agachou-se perto do seu rosto para o ouvir.
uSó dei ralações à minha mãe», disse ele, por entre uma
espécie de gorgolejar na garganta. «Nunca lhe dei descanso.
Roubei 'quele carro. Nunca contei a verdade ó meu pai, nem
dei ó Henry aquilo qu'ele ... Nunca lhe dei...»
«Vê se te calas», disse Haze, inclinando a cabeça mais perto
para ouvir a confissão.
«Contei-lhes ond'era a destilaria dele e deram-me cinco
dólares», ofegou o homem.
«Agora cala-te, vá», repetiu Haze.
«Ai Jesus ... », sussurrou o homem.
«Vê se te calas, como te disse», ordenou Haze.
«Jesus m'ajude», suspirou o homem, por entre a pieira.
Haze deu-lhe uma pancada forte nas costas e ele calou-se.
Inclinou-se para ouvir se ele ainda ia dizer mais qualquer
coisa, mas ele já não respirava. Haze voltou-se e examinou a
parte dianteira do Essex, para ver se tinha ficado danificada.
O pára-choques tinha algumas manchas de sangue, mas mais
nada. Antes de voltar costas e regressar à cidade, Haze lim­
pou o pára-choques com um trapo.
SANGUE SÁBIO 1 57

Na manhã seguinte, bem cedo, levantou-se da parte de


trás do carro e foi até a uma bomba de gasolina para encher
o depósito e fazer uma revisão rápida ao carro antes da sua
viagem. Ainda não voltara ao seu quarto. Passara a noite
estacionado num beco sem dormir, pensando na vida que
estava prestes a iniciar, pregando a Igreja sem Cristo na nova
cidade.
Na bomba de gasolina, um sonolento rapaz branco veio à
rua para o atender e ele disse-lhe que queria o depósito cheio,
o óleo e a água verificados e os pneus calibrados, porque
estava prestes a partir numa grande viagem. O rapaz pergun­
tou-lhe para onde ia e ele respondeu que para outra cidade.
Depois, o rapaz perguntou-lhe se ia percorrer essa distância
toda naquele carro ali e Haze disse que sim, que ia. E deu uma
pancada amigável no peito do rapaz. Disse-lhe que ninguém
que tenha um bom carro precisa de se preocupar com nada e
perguntou ao rapaz se ele entendia isso. O rapaz disse que
sim, que entendia, que ele também achava. Haze apresentou­
-se e disse que era pregador da Igreja sem Cristo e que pre­
gava todas as noites em cima da capota deste mesmo carro.
Explicou que estava de partida para outra cidade para ir pre­
gar. O rapaz encheu-lhe o depósito, verificou a água e o óleo
e testou os pneus, e enquanto ele trabalhava Haze seguia-o
para aqui e para ali, dizendo-lhe em que é que é certo acre­
ditar. Disse-lhe então que não estava certo acreditar em nada
que não pudéssemos ver ou segurar nas mãos ou testar com
os dentes. Disse-lhe que, até há poucos dias, ele acreditava na
blasfémia como caminho para a salvação, mas que nem nisso
podíamos acreditar, porque para isso era preciso acreditar
nalguma coisa para blasfemar. E quanto a Jesus, que se dizia
ter nascido em Belém e ter sido crucificado no Calvário pelos
pecados do homem, disse Haze, Ele era uma noção demasiado
grosseira para uma pessoa sensata andar com ela na cabeça,
e ele pegou no balde de água do rapaz e largou-o com força
sobre o chão de cimento para dar mais força ao que dizia.
E começou a praguejar e a blasfemar contra Jesus num tom
1 58 ü ' CONNOR

de voz calmo e intenso, mas com tanta convicção que o rapaz


parou o trabalho por instantes para o escutar. Quando acabou
de verificar o Essex, o rapaz disse que havia uma fuga no
depósito de gasolina e duas no radiador e que o pneu de trás
provavelmente duraria uns trinta e cinco quilómetros se Haze
fosse devagar.
«Escuta», respondeu Haze, «este carro inda só 'tá a come­
çar a vida. Nem um raio conseguia pará-lo !»
«Nem val'a pena pôr-lh'água», sentenciou o rapaz, «porqu'
o carro não a segura.»
«Põe à mesma», pediu Haze, e deteve-se para observar o
rapaz enquanto ele punha a água. Por fim, comprou-lhe um
mapa das estradas e seguiu caminho, deixando atrás de si
linhas de gotas de água, óleo e gasolina no alcatrão.
Haze conduziu muito depressa até à estrada, mas depois
de avançar alguns quilómetros começou a ficar com a im­
pressão de que não estava a ganhar terreno. Passavam por ele
barracas, bombas de gasolina, terrenos baldios de campismo,
os cartazes da estrada 666 e celeiros abandonados com anún­
cios de tabaco de mascar caindo das paredes ; até um cartaz
que dizia «Jesus morreu por TI», que Haze viu e não leu deli­
beradamente. Haze tinha a sensação de que, na verdade, a
estrada estava a recuar debaixo -do seu carro. Ele sempre sou­
bera que não havia mais campo para onde ir, mas não sabia
que não havia outra cidade.
Ainda não ·avançara mais de oito quilómetros na estra­
da aberta quando ouviu uma sirena atrás de si. Olhando em
volta, avistou um carro da polícia negro aproximando-se.
O carro avançou para o lado dele e o polícia fez-lhe sinal
para que encostasse à berma. O polícia tinha um rosto ver­
melho e prazenteiro e olhos da cor de gelo limpo e crista­
lino.
«Eu nã ia depressa de mais», disse Haze.
«Pois não», concordou o polícia. «Nã ias.»
«Estava do lado certo da estrada.»
«Pois 'tavas, é verdade», respondeu o polícia.
SANGUE SÁBIO 1 59

«Atão o qu'é que me quer?»


«Não gosto da tua cara», disse o polícia. «'Dé que 'tá a tua
carta de condução?»
«Tam'ém nã gosto da tua», ripostou Haze. «E nã tenho carta
nenhuma.»
«Ah, bem», respondeu o polícia com voz aprazível, «tam­
bém nã me parece que tu vás precisar dela.»
«Pois tam'ém nã tenho nem que precise», declarou Haze.
«Ouve cá», começou o polícia, adoptando outro tom, «im-:­
portavas-te de levar o carro até ali ó cimo daquela colina?
Quero que vej as a vista lá de cima, é a vista mai' linda qu'um
homem pode ver.»
Haze encolheu os ombros mas ligou o carro. Não se impor­
tava de lutar com o polícia, se era isso que ele queria. Conduziu
então o carro até ao topo da colina, com o carro da polícia
seguindo-o de perto.
«Agora vir'ó carro prà valeta», ordenou o polícia. «Há-des
ver melhor a vista daí.»
Haze virou o carro para o fosso do outro lado da colina.
«Agora o melhor é saíres do carro», disse o polícia. «Vês
melhor a vista cá de fora.»
Haze saiu do carro e lançou um olhar distraído para a pai­
sagem. A colina abatia-se num fosso de cerca de nove metros
de barro pisado, que ia dar a um pasto parcialmente quei­
mado, onde uma vaca estava de pé ao lado de uma poça.
Mais longe, havia uma barraca pequena com um abutre cur­
vado em cima do telhado.
O polícia pôs-se atrás do Essex e empurrou-o pela riban­
ceira, e a vaca, assustada, galopou pelo campo fora e desapa­
receu no bosque. O abutre abriu asas e voou até a uma árvore
na orla da clareira. O carro aterrou com o tejadilho para baixo,
as três rodas que não se soltaram girando. O motor resvalou
para fora da capota e rebolou mais para baixo ainda, espa­
lhando várias peças em volta.
«Quem nã tem carro tam'ém nã precisa de carta», declarou
o polícia, limpando o pó das mãos às calças.
1 60 O ' CONNOR

Haze ficou parado durante uns minutos, contemplando a


cena. O rosto dele parecia reflectir toda a distância até ao
outro lado da clareira, e mais adiante ainda, toda a distância
que se estendia dos olhos dele até ao céu cinzento e vazio que
se alargava, profundeza atrás de profundeza, até ao espaço.
Os joelhos dele deram de si e Haze sentou-se na borda da
ribanceira com os pés pendurados no vazio:
O polícia deteve-se, fitando-o.
«Queres que te leve 'té onde 'tavas indo?», perguntou.
Passado um minuto, aproximou-se um: pouco mais e per-
guntou: «Pr'onde é qu'ias?»
Inclinando-se com as mãos nos joelhos, repetiu em voz
ansiosa:
«'Tavas indo pr'algum lado?»
«Não», respondeu Haze.
O polícia agachou-se e pôs uma mão no ombro de Haze.
«Atão nã tinhas planeado ir a lado nenhum?», perguntou,
ansioso.
Haze abanou a cabeça. O rosto dele não mudou e não o
virou para encarar o polícia. Parecia estar concentrado no
espaço.
O polícia levantou-se, voltou para o seu carro e ficou de pé
junto à porta, fitando a nuca do chapéu e o ombro de Haze.
Depois disse: «Bem, a gente vê-se», entrou no carro e arrancou.
Passado algum tempo, Haze levantou-se e começou a
caminhar de volta à cidade. Demorou três horas a alcançá-la.
Quando lá chegou, parou numa loja de ferragens e comprou
um balde de lata e um saco de cal, e depois seguiu para a casa
onde vivia carregando estes produtos. Quando chegou, Haze
deteve-se no passeio, abriu o saco da cal e encheu metade do
balde com ela. Depois, foi até uma torneira que havia perto
dos degraus da entrada, encheu o resto do balde com água e
subiu os degraus. A senhoria estava sentada no alpendre,
embalando um gato.
«Qu'é que vai fazer co' isso, senhor Motes?», perguntou ela.
«Vou cegar-me», disse ele, entrando em casa.
SANGUE SÁBIO 1 6 1

A senhoria deixou-se ficar sentada durante mais um tempo.


Não era mulher que sentisse maior violência nesta palavra ou
naquela. Ela dava a cada palavra a mesma neutralidade, para
ela eram todas iguais. Mas ainda assim, em vez de se cegar,
se ela se sentisse assim tão mal matava-se, e não percebia
porque haveria alguém de fazer diferente. Se fosse ela, teria
simplesmente metido a cabeça num forno, ou talvez tomasse
demasiados comprimidos para dormir e pronto. Talvez o
senhor Motes estivesse apenas a ser desagradável, senão que
razão é que uma pessoa pode ter para querer destruir assim a
vista? Uma mulher como ela, que via tão bem, nunca supor­
taria ser cega. Se tivesse de ser cega, então mais valia estar
morta. Ocorreu-lhe então de repente que quando morresse
ficaria também cega. E, assustada, fitou o mundo à sua frente
intensamente, encarando este facto pela primeira vez. E então
recordou a expressão «morte eterna» que os pregadores utili­
zam, mas imediatamente a apagou da sua cabeça, sem nunca
mudar a expressão do rosto mais do que o gato. Ela não era
religiosa nem mórbida e dava graças por isso todos os dias.
Mas, para ela, pessoas que tivessem essas características eram
capazes de tudo, e o senhor Motes tinha-as, caso contrário
não seria pregador. Era bem capaz de pôr cal nos olhos, disso
não tinha ela a mínima dúvida, porque eles eram todos, a
bem da verdade, um bocado tresloucados da cabeça. Que razão
neste mundo é que uma pessoa sã podia ter para nunca mais
querer divertir-se?
Isso é que ela não entendia.
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1171.rM�tn:.:1���'.Ji1'.:$�r .�
;,r;i�
CAPÍTULO 1 4

No entanto, estas coisas continuaram a ocupar-lhe a mente,


porque ele continuou a viver em casa dela depois de se ter
cegado, e todos os dias, ao vê-lo, ela colocava-se a mesma
pergunta. A princípio, ela disse-lhe que ele não podia ficar ali
porque se recusava a usar óculos escuros e ela não gostava de
olhar para o estrago que ele tinha feito às órbitas. Pelo menos,
ela achava que não gostava. Se ela não se afadigasse a pen­
sar noutra coisa sempre que estava perto dele, dava por si
debruçando-se na direcção dele, fitando-lhe o rosto, como se
esperasse vislumbrar qualquer coisa que nunca vira antes. Isso
indispunha-a e dava-lhe a sensação de que ele a estava a tra­
pacear de alguma forma misteriosa. Ele passava grande parte
das tardes sentado no alpendre de casa, mas ficar ali sentada
com ele era como estar sozinha. Ele só falava quando lhe con­
vinha. Se lhe fizesse uma pergunta de manhã, era bem capaz
de só responder à tarde, ou nunca. Ele ofereceu-se para lhe
pagar mais renda, para que ela o deixasse ficar no mesmo
quarto, porque ali já sabia movimentar-se bem. Assim, ela
decidiu deixá-lo ficar, pelo menos até perceber de que forma
é que estava a ser trapaceada.
O pregador recebia dinheiro do governo todos os meses,
por causa de algo que a guerra lhe fizera por dentro, e por
1 64 o ' coNNOR

isso não tinha de trabalhar. A senhoria sempre se impressio­


nara com a capacidade de pagar. Quando ela descobria uma
corrente de riqueza, seguia-a até à origem e, dentro de pouco
tempo, essa riqueza já não se distinguia da sua. Ela sentia que
o dinheiro que pagava em impostos voltava sempre para os
bolsos de todos os inúteis do mundo, que o governo não só
o mandava para pretos estrangeiros e mouros como ainda o
desperdiçava em casa com tolos cegos e com qualquer idiota
que soubesse assinar o nome num cartão. Por isso, sentia-se
justificada por tentar reaver qualquer tostão que conseguisse.
Sentia-se justificada por reaver qualquer coisa a que conse­
guisse deitar a mão, fosse dinheiro ou outra coisa qualquer,
como se em tempos ela tivesse sido dona da terra e a tives­
sem despojado de toda essa riqueza. Ela não era capaz de
olhar para nada constantemente sem começar a desejar essa
coisa, e o que a provocava mais era a ideia de que poderia
haver algo de valor escondido perto de si, algo que ela não
conseguia ver.
Para ela, o cego tinha o aspecto de quem via alguma coisa.
O rosto dele tinha uma expressão peculiar de esforço, como se
estivesse perseguindo qualquer coisa que apenas conseguia
distinguir a custo, na distância. Mesmo quarido estava sen­
tado imóvel numa cadeira, o rosto dele parecia esforçar-se
para alcançar qualquer coisa. E, no entanto, ela sabia que ele
estava completamente cego. Disso ficara sem a mínima
dúvida assim que ele tirou o trapo que usara durante algum
tempo como ligadura. Ela lançara-lhe um longo olhar e isso
bastara para se convencer de que ele fizera realmente o que
dissera que ia fazer. Depois de ele tirar o trapo da cara, os
outros inquilinos passavam por ele devagar no corredor, em
bicos de pés, olhando-o durante o máximo tempo possível,
mas agora já ninguém lhe prestava atenção. Alguns dos inqui­
linos novos nem sequer sabiam que tinha sido ele a cegar-se.
Assim que aquilo aconteceu, aquela rapariga, Sabbath Hawks,
espalhara a noticia pela casa inteira. Ela observara-o quando
ele se cegou e depois correra a todas as portas, gritando pela
SANGUE SÁBIO 165

casa o que ele acabara de fazer, e todos os inquilinos tinham


vindo a correr. Aquela rapariga era uma harpia das piores,
pensava a senhoria. Ela detivera-se uns dias, atormentando-o,
e por fim abalara. Disse que não tinha contado com um cego
a sério, honesto em nome de Jesus, e que tinha saudades do
paizinho. Esse tinha-a abandonado, embarcara num cargueiro
de bananas. A senhoria esperava que ele estivesse no fundo
do mar salgado. Quando partiu, deixara um mês de renda por
pagar. Duas semanas depois, claro, a rapariga estava de volta,
pronta para o atazanar outra vez. Essa era doidinha de todo,
dava para ouvi-la a um quarteirão de distância, berrando e
gritando-lhe, e ele sempre sem abrir a boca.
A senhoria geria uma casa de respeito e disse-lhe isso
mesmo. Disse ao pregador que, enquanto a rapariga vivesse
com ele, ele teria de pagar duas rendas. Disse-lhe que havia
coisas que aceitava e coisas que não. Deixou-o para que
tirasse as suas próprias conclusões sobre o que isso queria
dizer, mas esperou de braços cruzados até que ele as tirasse.
Ele não disse nada. Limitou-se a contar mais três dólares e a
dar-lhos.
«Essa rapariga, senhor Motes», comentou ela, «SÓ 'tá é atrás
do seu dinheiro.»
«Se fosse só isso qu'ela queria, podia ficar com ele», res­
pondeu ele. «Eu até lhe pagava pra ficar longe.»
A ideia de que o dinheiro dos seus impostos seria usado
para sustentar tal ralé era insuportável para a senhoria.
«Não faça isso», disse ela rapidamente. «Ela não tem direito
ao dinheiro.»
No dia seguinte, telefonou à gente da Assistência Social e
tratou de tudo para que a rapariga fosse enviada para um
centro de detenção. Ela reunia os requisitos.
Entretanto, a senhoria estava curiosa para saber quanto é
que ele recebia todos os meses do governo e agora, sem
aquele par de olhos, ela sentiu-se mais à vontade para des­
cobrir. Na próxima vez que viu o envelope do governo na
caixa do correio, abriu-o com vapor e, passados poucos dias,
1 66 ü 'CONNOR

sentiu-se obrigada a aumentar-lhe a renda. Ele tratara com


ela para que lhe servisse também as refeições e, uma vez que
o preço da comida aumentara, ela viu-se também obrigada a
aumentar o preço da pensão completa. Mas, ainda assim, não
conseguia livrar-se da sensação de que estava a ser enga­
nada. Porque teria ele destruído os olhos mas poupado a vida
se não tivesse um plano qualquer, se não tivesse descoberto
uma coisa qualquer que rião teria podido alcançar se não
fosse cego para tudo o resto? Ela estava determinada a des­
cobrir tudo o que pudesse acerca dele.
«Dond'é a sua gente, senhor Motes?ll, perguntou-lhe ela
uma tarde, quando estavam ambos sentados ·no alpendre. «Nã
imagino qu'ainda sejam vivos ... ll
Ela pensou que bem podia ficar imaginando o que qui-:
sesse. Ele não se incomodou a parar de não fazer nada para
lhe responder.
«Ninguém da minha gente também 'tá vivall, disse ela. «Da
família do meu Flood 'tão todos vivos menos ele.li Ela era a
senhora Flood. «E eles vêm todos cá ter quando querem uma
esmolall, continuou ela, «mas o Flood tinha dinheiro. Morreu
num desastre de avião.li
Passado um bocado, ele disse: «A minha gente 'tá toda
morta.li
«Ü Floodll, repetiu ela, «morreu num desastre de avião.li
Aos poucos, a senhoria começou a gostar de se sentar no
alpendre com ele, se bem que nunca conseguisse perceber se ele
sabia que ela estava ali ou não. Mesmo quando ele lhe respon­
dia, ela não percebia se sabia que era ela. Ela mesma. A senhora
Flood, a senhoria. Não outra pessoa qualquer. Sentavam-se os
dois lado a lado, ele apenas sentado, ela balançando-se, durante
metade da tarde, e nem duas palavras eram trocadas entre eles,
apesar de ela, por vezes, falar bastante. Se ela não falasse nem
mantivesse a cabeça a trabalhar, acabava por dar consigo
debruçada para a frente na cadeira, olhando para ele com a
boca não fechada. Qualquer pessoa que a visse do passeio pen­
saria que ela estava a ser cortejada por um cadáver.
SANGUE SÁBIO 1 67

Cuidadosamente, ela ia observando os hábitos dele. Não


comia muito nem parecia incomodar-se com nada que ela lhe
desse. Se ela fosse cega, passaria os dias inteiros com o rádio
ligado, a comer bolo e gelado e a pôr os pés de molho. Mas
ele comia qualquer coisa e nem dava pela diferença. Entre­
tanto, ia ficando cada vez mais �agro, a tosse ia ficando mais
cavernosa e começou a coxear. Durante os primeiros meses
de frio apanhou o vírus, mas apesar disso saía para a rua
todos os dias e passava cerca de metade do dia caminhando.
Levantava-se de manhã cedo e andava pelo quarto - no
andar de baixo ela ouvia-lhe os passos, de um lado para o
outro, para cima e para baixo -, depois saía para a rua e ia
andar antes do pequeno-almoço, e depois do pequeno-almoço
saía novamente e caminhava até ao meio-dia. Ele conhecia
bem os três ou quatro quarteirões em volta da e.a sa e nunca
ia para lá desse espaço. Mas, pelo que ela via, tanto fazia se
ele se mantivesse sempre no mesmo quarteirão. Aliás, podia
ficar sempre no quarto, no mesmo canto, mexendo os pés para
cima e para baixo. Mesmo se estivesse morto, ainda teria
tudo o que retirava da vida, excepto o exercício. Ele podia
bem ser um desses monges, pensou ela, mais valia 'tar a
viver num mosteiro. Ela não compreendia. E não gostava
nada do sentimento de que lhe estavam a atirar poeira para
os olhos. Ela gostava da luz límpida do dia. Gostava de ver
as coisas.
Enquanto o observava, ela não conseguia decidir o que
estaria dentro da cabeça dele e o que estaria por fora. Ela
visualizava a sua própria mente como um quadro eléctrico de
onde controlava as coisas. Mas, para ele, ela só conseguia
imaginar o mundo exterior lá dentro, o mundo inteiro, negro,
na cabeça dele, e a cabeça dele maior do que o mundo, sufi­
cientemente grande para incluir o céu e os planetas e fosse o
que fosse que existia, existira ou viria a existir. Como é que
ele saberia se o tempo estava a andar para trás ou para a
frente, ou se ele caminhava no sentido do tempo? Ela imagi­
nava que seria como estar caminhando num túnel e tudo o
1 68 o ' coNNOR

que se via era um pequeno ponto de luz. Ela tinha de imaginar


esse ponto de luz ; sem ele, era impossível pensar nisto. Ela via­
-o como uma espécie de estrela, como a estrela dos cartões de
Natal. Ela imaginou-o andando para trás até Belém e teve de rir.
A senhoria achou que seria bom se ele tivesse alguma
coisa para fazer com as mãos, alguma coisa que o tirasse de
dentro de si próprio e o ligasse novamente ao mundo real. Ela
estava certa de que ele havia perdido o contacto com o
mundo. Por vezes nem sequer tinha a certeza de que ele sou­
besse que ela existia. Ela sugeriu que arranj asse uma guitarra
e aprendesse a dedilhá-la. Imaginava-os aos dois sentados no
alpendre à noite e ele dedilhando a guitarra. Ela comprara
duas pequenas árvores-da-borracha para que o sítio onde se
sentavam no alpendre ficasse mais resguardado da rua, e
achava que o som dele dedilhando a guitarra atrás da árvore­
-da-borracha lhe tiraria aquela expressão morta. Ela sugeriu,
mas ele nunca respondeu à sugestão.
Depois de pagar o quarto e a comida todos os meses, ele
ainda ficava com um bom terço do cheque do governo, mas,
que ela visse, nunca gastava dinheiro. Ele não fumava nem
bebia uísque nem tinha nada para fazer com todo aquele
dinheiro senão perdê-lo, uma vez que estava sozinho. Ela pen­
sou nos benefícios que ele poderia deixar à sua viúva, se dei­
xasse uma. Ela já vira dinheiro cair-lhe do bolso e ele sem se
ralar de se baixar para o apanhar. Um dia, enquanto limpava
o quarto dele, encontrou quatro notas de um dólar e alguns
trocos no cesto do lixo. Mais ou menos nesse momento, ele
entrou no quarto depois de uma das suas caminhadas.
«Senhor Motes», disse ela. «'Tá aqui um dólar e uns trocos
neste cesto de lixo. Você sabe onde o cesto fica. Com'é que
foi fazer esse erro?»
«Sobrou-me», respondeu ele. «Nã precisava dele.»
Ela deixou-se cair em cima da cadeira.
«Você deita dinheiro fora todos os meses?», perguntou-lhe,
passado um bocado.
«Só quando sobra», replicou ele.
SANGUE SÁBIO 1 69

«Ai, os pobres e necessitados», murmurou ela. «Os pobres


e necessitados. Você nunca pensa nos pobres e necessitados?
Se você não quer o dinheiro pode haver muito quem queira.»
«Pode ficar com ele», disse ele.
«Senhor Motes», respondeu ela em tom frio. «Ainda não
preciso de caridade !»
Ela percebeu então que ele era louco e que devia ficar sob
o controlo de uma pessoa sensata.
A senhoria já tinha passado da meia-idade e estava ana­
fada de mais, mas tinha pernas como um cavalo de corrida e
um nariz que um inquilino descrevera como clássico grego.
Costumava usar o cabelo em cachos, como uvas, por cima da
testa e sobre cada orelha e a meio, atrás. Mas nenhuma des­
tas vantagens lhe servia para atrair a atenção dele. Ela aca­
bou por perceber que a única forma era interessar-se pelo que
lhe interessava a ele.
«Senhor Motes», disse ela certa tarde, quando estavam ambos
,
sentados no alpendre, «porque é que você já não prega? Ser
cego não ia ser empecilho. As pessoas iam gostar de ir ver um
pregador cego. Era qualquer coisa diferente.» Ela estava habi­
tuada a ir falando sem resposta. «Você até podia arranj ar um
desses cães-guia», disse ela, «e você e ele podiam juntar uma
boa multidão. As pessoas vão sempre ver um cão.
«Eu cá pra mim», continuou ela, «não tenho cá nada esse
gosto. Eu cá acredito qu'o que 'tá certo hoje 'tá errado ama­
nhã e que o tempo prà gente se divertir é agora, desde que dei­
xemos qu'os outros façam o mesmo. E, senhor Motes», disse
ela, «estou tão bem não acreditando em Jesus como muitos qu'
acreditam.»
«'Tá melhor», disse éle, inclinando-se para a frente repen­
tinamente. «Se você acreditasse em Jesus não ia estar tão
bem.»
Ele nunca antes a elogiara !
«Ai, senhor Motes !», exclamou ela. «'Tou cá a pensar que
você deve ser um belo pregador! Havia de começar outra vez.
Sempre lhe dava alguma coisa pra fazer. Assim como está,
1 70 ü 'CONNOR

parece que nunca tem nada pra fazer senão andar. Porque é
que não começa a pregar outra vez?»
«Já nã posso pregar mais», murmurou ele.
«Porquê?»
«Nã tenho tempo», disse ele, levantando-se e saindo para a
rua, como se ela o tivesse lembrado de um assunto qualquer ur­
gente. Ele caminhava como se os pés lhe doessem mas tivesse
de continuar.
Algum tempo depois, ela descobriu por que motivo ele
coxeava. Estava ela a limpar-lhe o quarto quando, por acaso,
derrubou o segundo par de sapatos dele. Quando os apanhou,
olhou lá para dentro, como se esperasse encontrar algo que
estivesse lá escondido. O fundo dos sapatos estava coberto de
gravilha e vidro partido e pedaços de pedrinhas aguçadas. Ela
despejou tudo isto para a mão e filtrou a mistura com os
dedos, à procura de algo brilhante que pudesse ter algum
valor, mas depressa percebeu que o que tinha na mão era
somente lixo que qualquer pessoa podia apanhar num beco.
Intrigada, deteve-se com os sapatos dele na mão, até final­
mente os pôr novamente debaixo da enxerga. Passados
alguns dias, ela examinou os sapatos outra vez e viu que
estavam cheios de pedras novas. Para quem é que ele está a
fazer isto?, perguntou elá a si própria. O que é que ele ganha
fazendo isto? De vez em quando, ela sentia uma insinuação
de algo escondido perto de si mas fora do seu alcance.
«Senhor Motes11, disse ela nessa noite, enquanto ele comia
o jantar na cozinha, «pra qu'ê que você anda com pedras nos
sapatos?»
«Para pagafll , respondeu ele em tom rude.
«Pagar o quê?»
«Nã faz difrença pra quê», respondeu ele. «Estou a pagar
e pronto.11
«Mas o que é que tem em troca daquilo que paga?», insis­
tiu ela.
«Meta-se na sua vida11, replicou ele rudemente. «Você nã vê.11
A senhoria continuou a mastigar lentamente.
SANGUE SÁBIO 1 7 1

«Senhor Motes», disse ela com voz rouca, «você acha que
quando estamos mortos, ficamos cegos?»
«Espero que sim11, disse ele, passado um minuto.
«Porquê?», perguntou ela, fitando-o.
Passado um bocado, ele declarou: «Üs olhos podem reter
mais coisas se nã tiverem fundo.»
A senhoria fitou durante muito tempo, sem ver coisa nenhu­
ma.
Aos poucos, começou a prender toda a sua atenção nele,
chegando a negligenciar outras coisas. Começou a segui-lo
nas suas caminhadas, encontrando-o acidentalmente e acom­
panhando-o. Ele não parecia dar-se conta de que ela estava
ali, a não ser ocasionalmente, quando batia na cara, como se
a voz dela o incomodasse como o zumbido dum mosquito.
Ele tinha uma tosse cavernosa e aguda e ela começou a impor­
tuná-lo a propósito da sua saúde.
«Não há ninguém», dizia ela, «pra tomar conta de si senão
eu, senhor Motes. Mais ninguém senão eu se preocupa co's
seus interesses. Se não fosse eu, mais ninguém ia querer saber.»
Ela começou então a fazer-lhe pratos mais saborosos e a
levar-lhos ao quarto. Ele comia o que ela lhe trazia, de ime­
diato e com o rosto torcido, e estendia-lhe o prato de volta
sem lhe agradecer, como se toda a sua atenção estivesse vol­
tada para outro sítio qualquer e aquela fosse uma interrupção
que ele era obrigado a suportar. Certa manhã, ele disse-lhe
abruptamente que ia passar a comer noutro sítio e mencio­
nou o lugar, uma casa de pasto ao virar da esquina, gerida
por um estrangeiro.
«Ah, há-de amaldiçoar o dia !», respondeu ela. «Há-de apa­
nhar uma infecção. Ninguém que tenha juízo come naquele
sítio. É um buraco escuro e nojento. Com sujidade encros­
tada ! Só que você é que não pode ver, senhor Motes.»
«Parvo maluco», murmurou ela depois de ele sair. «Espera
só 'té chegar o Inverno. Onde é que vais comer quando che­
gar o Inverno, quando o primeiro vento te puser o vírus no
peito?»
172 O ' CONNOR

Não teve de esperar muito tempo. Antes do Inverno já


Haze tinha apanhado gripe e durante um tempo ficou dema­
siado fraco para sair de casa, pelo que ela teve novamente a
satisfação de lhe levar as refeições ao quarto. Certa manhã,
ela apareceu mais cedo do que o habitual e encontrou-o a
dormir, com a respiração pesada. A velha camisa com que se
deitava estava aberta à frente e revelava três fios de arame
farpado enrolados à volta do peito. Ela recuou até à porta e
deixou cair o tabuleiro.
«Senhor Motes», disse ela, a voz espessa, «porque é que o
senhor faz estas coisas? Não é natural.»
Ele ergueu-se.
«Para que é esse arame à sua volta? Não é natural», repe-
tiu ela.
Passado um segundo, ele começou a abotoar a camisa.
«É natural», disse ele.
«Bem, não é normal. É como uma dessas histórias de ter­
ror, é dessas coisas que já ninguém faz, como queimar-se em
óleo a ferver, ou ser santo, ou emparedar gatos», comentou
ela. «Não há razão para isso. Já ninguém faz isso.»
«Enquanto eu fizer, é porque ainda se faz», replicou ele.
«Já ninguém faz isso», repetiu ela. «Pra que é que faz uma
coisa dessas?»
«Nã 'tou limpo», disse ele.
Ela ficou de pé, fitando-o, sem se ralar com os pratos que­
brados no chão a seus pés.
«Eu sei», disse ela passado um minuto, «você tem sangue
na camisa e na cama. Devia arranjar uma lavadeira ... »
«Nã é esse tipo de limpeza», declarou ele.
«Só há um tipo de limpeza, senhor Motes», murmurou ela.
Só então olhou para baixo � observou os pratos que partira
por causa dele e a sujidade que teria de limpar, pelo que saiu
do quarto para ir até à despensa e voltar passado um minuto
com a vassoura e a pá. « É mais fácil sangrar que transpirar,
senhor Motes», disse ela, na voz do Supremo Sarcasmo. «Você
deve mesmo acreditar em Jesus, senão não fazia estas parvoíces.
SANGUE SÁBIO 1 7 3

Devia estar a mentir-me quando me disse o nome dessa sua


bela igrej a. Nem me admirava nada que você fosse algum
agente do papa, ou assim, ou andasse metido com qualquer
coisa estranha.»
«Nã tenho nada a tratar consigo», disse ele, deitando-se
novamente e tossindo.
«Pois se não fosse eu, 'cê não ia ter ninguém que tomasse
conta de si», lembrou-lhe ela.
O seu plano inical tinha sido casar-se com ele e mandá­
-lo para uma instituição estadual para loucos, mas aos pou­
cos decidira casar-se com ele e mantê-lo. Observar o rosto
dele tomara-se um hábito. Ela queria penetrar a escuridão
que havia por detrás desse rosto e ver com os seus próprios
olhos o que é que lá havia. Ela tinha a sensação de que já
perdera tempo suficiente e de que precisava de lhe deitar a
mão agora, enquanto ele estava fraco, ou nunca. Ele agora
estava tão fraco com a gripe que vacilava quando andava.
O Inverno já começara e o vento fustigava a casa de todos
os ângulos, produzindo um som como facas aguçadas rodo­
piando no ar.
«Ninguém no seu juízo ia querer andar na rua num dia
destes», disse ela, pondo de repente a cabeça no quarto dele,
a meio da manhã de um dos dias mais frios do ano. «Está a
ouvir aquele vento, senhor Motes? É uma sorte para si ter
este sítio quentinho onde estar e alguém que tome conta de
si.» Ela fez com que a sua voz soasse mais suave do que o
costume. «Nem todos os cegos e doentes têm essa sorte»,
disse ela, «de ter assim alguém que se rale com eles.» Ela
entrou então no quarto e sentou-se na cadeira que havia
perto da porta. Sentou-se à borda, inclinando-se para a
frente com as pernas afastadas e as mãos pousadas sobre os
joelhos. «Deixe-me que lhe diga, senhor Motes», disse ela,
«poucos homens têm a sorte que você tem, mas eu não posso
continuar o dia todo escada acima, escada abaixo. Põe-me
de rastos. Andei a pensar no que a gente podia fazer acerca
disso.»
1 74 ü 'CONNOR

Ele tinha estado deitado imóvel na cama, mas sentou-se


repentinamente, como se estivesse a escutá-la, quase como se
tivesse ficado alarmado com o tom da voz dela.
«Eu sei que você não ia querer abrir mão deste quarto que
aqui tem», continuou ela, esperando pelo efeito das suas pala­
vras. Ele voltou o rosto na sua direcção. Ela percebeu então
que ele estava a prestar atenção. «Eu sei que você gosta de cá
estar e que não ia querer ir embora, e que é um homem
doente e que precisa de alguém que tome conta de si, além
de ser cego», disse ela, sentindo-se de repente ofegante e sen­
tindo o coração a começar a alvoroç ar-se. Ele esticou os bra­
ços até aos pés da cama e começou às apalpadelas, procu­
rando a sua roupa, que estava ali enrolada a um canto.
Apressado, c;omeçou a vestir as peças de roupa por cima da
camisa com que dormia. «Andei a pensar como é que nos
podíamos arranjar para você poder ter uma casa e alguém
que tomasse conta de si e eu não tivesse de andar sempre a
subir as escadas - mas para que é que se está a vestir hoje,
senhor Motes? Você não há-de querer andar na rua com este
tempo? !
«De modos que estive a pensar», continuou ela, obser­
vando-o enquanto ele continuava o que estava a fazer, «e
estou a ver que só há uma coisa que nós podemos fazer os
dois. Casar-nos. Eu numa situação normal não casava nem
por nada, mas era capaz de casar por um homem cego e
doente. Se a gente não se ajudar um ao outro, senhor Motes,
também não vai haver ninguém que nos ajude», declarou ela.
«Ninguém. O mundo é um sítio vazio.»
O fato, que quando foi comprado era de um azul corus­
cante, tinha agora um tom mais suave. O chapéu branco
estava da cor do trigo. Quando não o usava, guardava-o no
chão, junto aos sapatos. Ele agarrou-o e pô-lo na cabeça e
começou a calçar os sapatos, que ainda estavam cheios de
pedras.
«Ninguém devia viver sem um lugar que sej a seu pra
viver», disse ela, «e eu cá estou disposta a dar-lhe um lar aqui
SANGUE SÁBIO 1 75

comigo, um sítio onde você pode ficar para sempre, senhor


Motes, e nunca precisa de se preocupar.»
A bengala dele estava no chão, perto do sítio onde guar­
dava os sapatos. Ele apalpou o chão até a encontrar e depois
levantou-se e começou a caminhar lentamente na direcção
dela.
«Eu tenho um lugar para si no meu coração, senhor Motes»,
disse ela, sentindo o coração estremecer como a gaiola de um
pássaro. Ela não percebia se ele estava caminhando para ela
para a abraçar ou não. Ele passou por ela sem expressão no
rosto e saiu porta fora para o corredor. «Senhor Motes !», excla­
mou ela, voltando-se depressa na cadeira. «Não posso permi­
tir que o senhor cá fique noutra circunstância que não esta.
Eu não posso andar sempre a subir estas escadas. Eu não
quero outra coisa», disse ela, «senão ajudá-lo. Você não tem
ninguém que tome conta de si senão eu ! Não tem ninguém
que se rale se você está vivo ou morto a não ser eu ! Não tem
casa para viver senão a minha !11
Ele andava tacteando o chão com a bengala, à procura do
primeiro degrau.
«Ou será que você andava com planos de arranj ar outra
casa?», perguntou ela, a voz ficando mais aguda. «Talvez esti­
vesse com ideias de ir para outra cidade !11
«Não era praí qu'eu ia», replicou ele. «Não há mais casa
nenhuma, nem há outra cidade.»
«Não há nada, senhor Motes», declarou ela. «E o tempo
continua a andar sempre para a frente. Ele não anda para
trás, e ou você aceita a oferta que eu lhe estou a fazer ou há­
-de dar por si ao frio e no escuro, e aí, até onde acha que vai
conseguir ir?»
Ele foi apalpando cada degrau com a bengala antes de pôr
lá o pé. Quando chegou no fundo das escadas, ela chamou-o
lá de cima.
«Escusa depois de voltar a um sítio a que não dá valor,
senhor Motes. Que não vai encontrar a porta aberta. Pode
voltar, pegar nas suas coisas e ir lá para onde você acha que
1 7 6 ü 'CONNOR

vai.» E durante muito tempo permaneceu ali, no cimo das


escadas. «Ele há-de voltar», murmurou ela. « É só deixar que
o vento lhe corte um bocadinho o pêlo.»

Nessa noite caiu uma chuva ventosa e gelada. Deitada na


cama, acordada à meia-noite, a senhora Flood, a senhoria,
começou a chorar. Ela queria sair a correr para o meio da
chuva e do frio, persegui-lo, encontrá-lo encolhido nalgum
parco abrigo e trazê-lo de volta, dizer-lhe: senhor Motes,
senhor Motes, você pode ficar aqui para sempre, ou então
vamos os dois para onde você quiser, vamos os dois. Ela
vivera uma vida dura, sem dor e sem prazer, e achava que
agora, quando estava a chegar à ultima parte dessa vida,
merecia um amigo. Se ela ia ficar cega depois de morrer,
quem melhor para a conduzir do que um cego? Quem melhor
para conduzir a cega senão um cego, que sabia como era?
Assim que o dia raiou, ela saiu para a chuva e esquadri­
nhou os cinco ou seis quarteirões que ele conhecia bem,
andando de porta em porta perguntando por ele. Mas nin­
guém o vira. Ela regressou então a casa, chamou a polícia,
descreveu-o e pediu que, quando o encontrassem, o levassem
lá para casa para ele lhe pagar a renda. E esperou o dia
inteiro que a polícia o viesse trazer no carro-patrulha, ou que
ele aparecesse pelo seu pé. Mas ele não veio. A chuva e o
vento continuavam e ela pensou que, por aquela altura, já ele
se tinha provavelmente afogado nalguma valeta. Nervosa,
caminhou de um lado para o outro pelo quarto, andando cada
vez mais depressa, pensando nos olhos dele, que não tinham
fundo, e na cegueira da morte.
Dois dias depois, dois jovens polícias que andavam a patru­
lhar a rua de carro encontraram-no deitado num rego de escoa­
mento perto de um estaleiro de obras abandonado. O condutor
parou o carro perto da valeta e ficou olhando-o durante algum
tempo.
«Nã temos andad'à procura dum cego?», perguntou ele.
O outro consultou um bloco de papel.
SANGUE SÁBIO 177

«Um cego c'um fato azul, que nã pagou a renda», respon­


deu ele.
«Pois ele tá'fü, disse o primeiro, apontando para a valeta.
O outro polícia debruçou-se mais e olhou também pela janela.
«0 fato desse nã é azul», comentou.
«É azul sim senhor», respondeu o primeiro. «E nã te ponhas
assim em cima de mim. Sai lá do carro qu'eu já te mostro qu'é
azul.»
Os polícias apearam-se, contornaram o carro e agacha­
ram-se à beira da valeta. Tinham botas novas de cano alto e
o uniforme também era novo. Eram ambos louros com gran­
des patilhas e ambos gordos, mas um deles era muito mais
gordo do que o outro.
«Em tempos pode ter sido azul», admitiu o mais gordo.
«Achas qu'ele 'tá morto?», perguntou o primeiro.
«Pragunta-lhe», respondeu o outro.
«Nã, 'tá nada morto. 'Tá-s'a mexeu
«Na volta 'tá só inconsciente», disse o mais gordo, sacando
do bastão novo. Os dois polícias observaram-no durante uns
segundos. A mão dele movia-se ao longo da borda da valeta,
como se estivesse à procura de algo para agarrar. Num murmú­
rio rouco, ele perguntou-lhes onde estava e se era dia ou noite.
«É dia», disse o mais magro, olhando o céu. «A gente temos
de te levar de volta pra pagares a tua renda.»
«Quero continuar a ir pra onde 'tou a ir», disse o cego.
«Primeiro tens de pagar a renda», respondeu o polícia. «'Té
ó último tostão.»
O outro, percebendo que o cego estava consciente, bateu­
-lhe na cabeça com o bastão novo.
«Nã qu'remos cá chatices com ele», disse. «Pega-lhe nos
pés.»
Ele morreu no carro-patrulha, mas os polícias não repara­
ram e levaram-no para casa da senhoria. Ela mandou-os
colocá-lo na cama dela e, assim que os empurrou para a
saída, trancou a porta da rua, puxou uma cadeira para perto
da cama e sentou-se junto do rosto dele, onde podia falar-lhe.
178 o'CONNOR

«Ah, senhor Motes», disse ela, «vejo que voltou para casa!»
O rosto dele estava austero e tranquilo.
«Eu sabia que havia de voltar», disse ela. «E eu tenho esta­
do à sua espera. E agora já não precisa de pagar mais renda
nenhuma, e pode viver aqui de graça, como preferir, cá em baixo
ou lá em cima. Fique como preferir, comigo aqui para tratar de
si, ou, se quiser ir para algum lado, então vamos os dois.»
Ela nunca lhe vira o rosto tão composto. Agarrou-lhe a
mão e levou-a ao seu coração. A mão estava inerte e seca.
Debaixo da pele do rosto dele via-se bem o contorno da
caveira, e as órbitas, profundas e queimadas, pareciam con­
duzir a um túnel escuro dentro do qual o homem desapare­
cera. Ela inclinou-se mais para o rosto dele, e mais ainda,
olhando bem para dentro dessas órbitas, tentando ver de que
forma é que tinha sido trapaceada ou que coisa era essa que
a tinha enganado, mas não conseguiu ver coisa alguma. Fe­
chando os olhos, vislumbrou o pequeno ponto de luz, mas tão
distante que ela não conseguia sequer mantê-lo firme na sua
cabeça. Sentia-se como se estivesse bloqueada à entrada de
alguma coisa. E ficou ali sentada, fitando-lhe os olhos com os
olhos fechados, até sentir finalmente que tinha chegado ao iní­
cio de algo que ela não conseguia começar. E então viu-o afas­
tando-se, cada vez mais longe, afastando-se mais e mais, dissi­
pando-se na escuridão até ser ele o minúsculo ponto de luz.
ÍNDICE

CAPÍTUL O 1 7

CAPÍTULO 2 • • • • • • • • • • . . • • • • . • • • • • . • • . . . • • • • • . • • . • • • 23

CAPÍTULO 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

CAPÍTULO 4 • • • . • • • • . • . • • . • • • • . . • • • • • . • • • • • . • • • • . • • • 51

CAPÍTULO 5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

CAPÍTULO 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79

CAPÍTULO 7 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 89

CAPÍTULO 8 • • . • • . • • • • • • • • . • . • • • • • . • • • • • • • • • • • • . • . • • 99

CAPÍTULO 9 . • • • • • • • • • • • • • • • • • . • • • • • . • • • • • • • • • • • • • • • 1 11

CAPÍTULO 10 . . • • • • . • • • • . • . • • • • . . • • • . • • • • • . • . • • • . . • • 125

CAPÍTULO 11 131

CAP ÍTULO 12 1 45

CAPÍTUL O 13 1 53

CAPÍTULO 14 1 63
@
dcava l o
eterro
AUTORES CAVALO DE FERRO

Ivo ANDRlé Giorgio MANGAN ELLI


Robert ARLT Va lerie MARTI N
Sayd BAH O D I N E MAJROUH D ragoslav M I HAILOVlé
J. M. BARRIE Czeslaw M I LOSZ
Ta h a r BEN J E LLOUN lves NAM U R
Adolfo BIOY CASARES Flannery O'CO N N O R
Ana B LAN DIANA lstván ÕRKÉNY
G i ova n n i BOCCACCIO Romana PETRI
Jean-Baptiste BOTU L Luigi PI RAN D ELLO
D i n o BUUATI Col l i n de PLANCY
Giova n n i CHIARA Jan POTOCKI
Ca rio COLLO D I Horacio QUI ROGA
Fra ncisco COLOANE Pau l a REGO
Géza CSÁTH Juan RU LFO
M i rcea ELIADE La rs SAABYE CHRISTENSEN
Al a i n ELKAN N Al-Tayyeb SALIH
Cha rles FOU R I E R André SCHWARZ-BART
J. W . GOETHE M a rcel SCHWOB
Stefa n G RABI N SKI H a n-SHAN
Nath a n iel HAWTHOR N E Khushwant S I N G H
M i ljenko J ERGOVlé Wistawa SlYMBO RSKA
Capitão Ch a rles JOHNSON Lev TOLSTOI
Wladimir KAM I N E R M a rk TWAIN
Pa nos KAR N EZIS Alan VI LLI ERS
Agota KRISTO F Horace WALPOLE
Ca rmen LAFO R ET Oscar W I LD E
Selma LAGERLÕF B a n a n a YOSH I M OTO
Vernon LEE Zora n ZIVKOVlé
Jonas UE

Qu ando não encontra r a l g u m l ivro Cava lo de Ferro nas l ivra rias,


sugerimos q u e visite o nosso site: www.cava lodeferro.com
«iet's start a publishing house

to hell with small literature


we want something redblooded

lousy with pure


reeking with stark
and fearlessly obscene

but really clean


get what I mean
let's not spoil it
let's make it serious

something authentic and delirious


you know something genuine like a mark
in a toilet

graced with guts and gutted


with grace•

squeeze your nuts and open your face

[e.e.c:ummings, no thanks, 1935, adaptado por Diogo Madre Deus]

CONSELHO EDITORIAL

Alcinda Pinheiro de Sousa, Alexandre Melo, Ana Hatherly,


César Charrua, Cid Valle Ferreira, Dejan Stankovié,
Eunice Cabral, Eveline Cinthia Nóbrega Fonteles, Louisa Rombouts,
Manuel Folque Antunes, Margarida Periquito, Maria João Branco,
Miguel Gullander, Raul Henriques e Teresa Malafaia.