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Encontro: O CONCEITO DE ENFRENTAMENTO E A SUA

Revista de Psicologia RELEVÂNCIA NA PRÁTICA DA PSICONCOLOGIA


Vol. 13, Nº. 19, Ano 2010

Carolina de Mello Nascimento RESUMO


Seiffert Nunes
Faculdade Anhanguera Campinas O conceito de coping ou comportamento de enfrentamento tem sido
unidade 3 objeto de estudo das diferentes áreas do conhecimento, como a
carolina.nascimento@aedu.br sociologia, biologia e psicologia. Os estudos da Psicologia sobre o tema
têm sido importante no sentido de compreender a adaptação do
indivíduo nas diferentes fases do desenvolvimento e nas situações
consideradas estressantes, como por exemplo, uma doença grave. Este
artigo tem como objetivo apresentar uma revisão bibliográfica sobre o
conceito de coping/enfrentamento para a Psicologia e a relação deste
conceito com a Psiconcologia. Esta é a área entre a Psicologia e a
Oncologia que segue princípios da Medicina Psicossomática, da
Psicologia Comportamental e da Psicologia da Saúde para promover
assistência ao paciente oncológico, aos familiares e aos profissionais de
saúde envolvidos nas diferentes etapas do tratamento da doença e em
sua reabilitação.

Palavras-Chave: comportamento de enfrentamento; Psiconcologia; estresse.

ABSTRACT

The concept of coping behavior has been studied in different areas of


knowledge, for example sociology, biology and psychology. Studies of
Psychology about this theme have been important to understand
adaptation of individuals in different phases of development and
situations of stress, as severe diseases. This article presents a
bibliography review about the concept of coping behavior to
Psychology and the relation of this concept with Psychoncology. This is
an area between Psychology and Oncology that follows principles of
Psychosomatic Medicine, Behavior Analysis and Health Psychology in
order to promote assistance for oncology patients, their families and
health professionals involved in different steps in treatment of disease
and rehabilitation.

Keywords: coping behavior; Psychoncology; stress.

Anhanguera Educacional Ltda.


Correspondência/Contato
Alameda Maria Tereza, 2000
Valinhos, São Paulo
CEP 13.278-181
rc.ipade@aesapar.com
Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Artigo Original
Recebido em: 30/10/2009
Avaliado em: 28/3/2011
Publicação: 18 de outubro de 2011 91
92 O conceito de enfrentamento e a sua relevância na prática da Psiconcologia

1. INTRODUÇÃO

O conceito de enfrentamento tem sido estudado por diferentes áreas do conhecimento. A


Sociologia, por exemplo, o define como as formas pelas quais a ordem social se adapta às
crises. A Biologia define o conceito baseando-se na idéia de adaptação do organismo a
agentes nocivos. Já para a Psicologia, o termo tem sido importante no sentido de entender
a adaptação do indivíduo a diferentes fases do desenvolvimento e a situações
consideradas estressantes, como por exemplo, uma doença, a perda de alguém
importante, perda de emprego, entre outras.

O objetivo deste artigo é apresentar a definição do conceito de enfrentamento


segundo diferentes autores e a importância deste conceito para a atuação de profissionais
da psiconcologia.

Na literatura psicológica, o termo enfrentamento recebe inúmeras definições.


Lipowisk (1970) o definiu considerando a ação do indivíduo frente a situações de doenças
graves. Desta forma, enfrentamento envolvia todas as atividades cognitivas e motoras que
uma pessoa doente usa para preservar sua integridade física e psíquica.

Mechanic (1976) afirma ser um processo durante o qual o indivíduo utiliza


comportamentos que demonstram a capacidade para resolver problemas advindos das
exigências da vida. Estes comportamentos representam as habilidades, as técnicas e
conhecimentos adquiridos com a experiência.

De acordo com White (1974/1985) comportamento de enfrentamento (termo


traduzido do original em inglês coping) é a adaptação a condições muito difíceis, como
por exemplo, situações de mudanças drásticas, de problemas que exigem uma
variabilidade de comportamentos e provocam estados emocionais desconfortáveis.
Weisman e Worden (1976, 1977) destacam que comportamentos de enfrentamento são as
ações de uma pessoa diante de um problema percebido na tentativa de adquirir alívio,
gratificação e tranqüilidade.

Por fim, Lazarus e Folkman (1984), definem o termo como as ações e estratégias
cognitivas e comportamentais utilizadas frente a situações estressantes, podendo ser
demandas internas ou externas que ultrapassam o repertório do indivíduo ocasionando
desequilíbrio emocional, pessoal e social. A maioria dos estudos sobre coping utiliza o
modelo de enfrentamento e estresse proposto por estes autores.

Analisando as diversas teorias sobre enfrentamento é possível identificar


concordâncias nos seguintes quesitos: o enfrentamento está relacionado a uma variedade
de respostas frente a situações difíceis; estas situações são caracterizadas com base na

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vivência do indivíduo e em reações emocionais presentes; o indivíduo se comporta de


forma a controlar ou reduzir os efeitos físicos, sociais e emocionais conseqüentes de tal
situação (GIMENES, 2000).

As respostas de enfrentamento frente a situações estressantes deverão ocorrer,


portanto, no sentido de extinguir ou alterar as condições de risco tendo como resultado a
adaptação psicossocial do indivíduo e consequentemente uma melhora na qualidade de
vida e um funcionamento psicológico equilibrado. Este resultado é obtido quando um
novo significado é atribuído para a experiência através da neutralização do caráter
problemático, do controle das reações emocionais conseqüentes e da retomada de papéis
anteriormente exercidos e que foram abandonados devido à circunstância.

2. A NATUREZA DO ENFRENTAMENTO: ESTILO X PROCESSO

Na literatura psicológica identificam-se dois períodos de pesquisa e definição do conceito


de enfrentamento. O primeiro pertence aos pesquisadores do ego que definiram
enfrentamento como o uso dos mecanismos de defesa para lidar com os conflitos
(VALLIANT, 1994). O segundo grupo surgiu após a década de 60 enfatizando os
comportamentos de enfrentamento e propondo a avaliação dos determinantes cognitivos
e situacionais. Dessa forma, enfrentamento passou a ser definido como um processo que
envolve a relação entre a pessoa e o ambiente. Os principais representantes deste grupo
foram os pesquisadores Lazarus e Folkman (1984).

De acordo com as duas correntes citadas acima os comportamentos de


enfrentamento podem ser subdivididos considerando a abordagem teórica. A primeira
corrente enfatiza o enfrentamento como uma característica da personalidade e representa
principalmente os teóricos de referencial psicanalítico. A segunda considera o
enfrentamento como um processo dinâmico, ou seja, um conjunto de esforços utilizados
perante situações estressantes as quais mudam durante o tempo (GIMENES, 2000).

Os trabalhos de alguns teóricos demonstram claramente como o enfrentamento é


entendido dentro de uma concepção psicanalítica, ou seja, nesta abordagem é estabelecida
uma hierarquia de estilos de respostas consideradas saudáveis e não saudáveis. O
enfrentamento seria o estilo mais saudável, com comportamentos flexíveis e adaptados à
realidade. Já os mecanismos de defesa seriam considerados uma “falha do eu”, uma
regressão e talvez, uma forma de adaptação psicótica (ANTONIAZZI; DELL'AGLIO;
BANDEIRA, 1998).

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Analisando o enfrentamento como estilo, é possível perceber que a relação


“enfrentamento - implicações adaptativas” é uma relação causal. Dessa maneira, algumas
respostas seriam eficientes e o indivíduo, um “bom enfrentador”, enquanto outras
respostas seriam ineficientes e o indivíduo um “mau enfrentador”. A estratégia de
enfrentamento ou o uso de mecanismos de defesa dependeria das características da
personalidade (ANTONIAZZI; DELL'AGLIO; BANDEIRA, 1998).

As críticas a esta conceituação foram propostas principalmente por Lazarus e


Folkman (1984). Segundo os pesquisadores, a definição do termo enfrentamento como um
estilo relacionado às características da personalidade traz implícita uma noção de
hierarquia, portanto, não há uma avaliação das exigências e possibilidades envolvidas na
situação. Atribuem-se valores positivos ou negativos aos processos internos e de defesa
sem se ter conhecimento dos resultados adaptativos resultantes de diferentes formas de
enfrentamento.

Porém, a definição de enfrentamento como um processo dinâmico pressupõe que


os comportamentos de enfrentamento se modificam durante o tempo a depender da fase
ou da situação estressante. Portanto, não há uma hierarquia de respostas de
enfrentamento sem a avaliação de recursos emocionais, sociais e materiais do indivíduo
que estão disponíveis para lidar com a situação (GIMENES, 1996; LAZARUS, 1993).

Além disso, o modelo de Lazarus e Folkman (1984) define quatro pontos


principais sobre o processo: a situação estressora resulta da interação entre o indivíduo e
ambiente; o objetivo das ações cognitivas e comportamentais é administrar a situação
estressora, ou seja, vivenciá-la de forma a causar menor dano pessoal, emocional e social
possível; a situação deve ser identificada, descrita, analisada e representada
cognitivamente; deve haver uma mobilização de esforços cognitivos e comportamentais
para minimizar os conflitos internos ou externos que surgiram como conquência do
evento estressor.

De acordo com Lazarus (1966), as estratégias de enfrentamento devem ser


analisadas independente de seus resultados, ou seja, qualquer ação para combater ou
administrar o estressor é uma estratégia de coping, independentemente de seu sucesso.
Dessa maneira, estas estratégias não podem ser avaliadas como adaptativas ou mal
adaptativas. O que deve ser avaliado é a natureza do estressor, a disponibilidade de
recurso de enfrentamento e o resultado do esforço de enfrentamento.

Segundo Compas (1987), todas as respostas de enfrentamento são importantes,


mas a sua eficácia é caracterizada por mudança e flexibilidade. Portanto, novos estressores
exigem uma avaliação e um novo conjunto de ações.

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3. AS RESPOSTAS DE ENFRENTAMENTO

Na literatura, diferentes categorias de enfrentamento foram atribuídas às estratégias de


enfrentamento. Segundo Lazarus (1984), estas se subdividem em dois grupos, segundo a
sua função que exercem: o coping focalizado na emoção e o coping focalizado no problema.
O primeiro refere-se ao esforço para reduzir as sensações físicas desagradáveis e
resultantes de uma situação estressora. Por exemplo, na perda de uma pessoa querida ou
uma doença grave, situação nas quais a pessoa pode sentir taquicardia, falta de ar, dores
de cabeça. Já as estratégias de coping focalizadas no problema caracterizam-se pelo esforço
em modificar a situação causadora do estresse. Neste caso, a ação de enfrentamento pode
ser dirigida para uma fonte interna de estresse – incluindo uma reestruturação cognitiva -
ou para uma fonte externa, utilizando estratégias como a negociação para sanar um
conflito interpessoal ou pedir ajuda de outras pessoas.

De acordo com os mesmos autores, o uso das estratégias de coping acima citadas
envolve uma avaliação do evento estressor e, em geral, são utilizadas concomitantemente
durante os episódios estressantes. Por exemplo, uma mulher que recebeu um diagnóstico
de câncer de mama e simultaneamente realiza exames médicos, resolve detalhes sobre a
internação hospitalar e cirurgia e procura realizar algumas atividades para se distrair e
não “pensar” nas conseqüências da cirurgia. Nesta situação algumas estratégias são
utilizadas para a intervenção em relação ao câncer (problema) e outras para amenizar o
estado emocional da paciente.

Considerando a análise das respostas de enfrentamento segundo a função, Perrez


e Reicherts (1992, citados por GIMENES, 2000) sugeriram outras três categorias:
enfrentamento orientado para a situação, enfrentamento orientado para a representação
(ações realizadas para alterar a representação cognitiva da situação que pode implicar em
busca ou supressão de informações) e enfrentamento orientado para a avaliação, no qual
se enfatiza as metas e avaliações.

Martin (1995, citado por GIMENES, 2000) também propôs outra forma de
classificação considerando o método utilizado pela pessoa para lidar com a situação. Dois
grupos são sugeridos: aproximativo e evitativo. O primeiro engloba as estratégias de
confrontação do problema e das emoções resultantes. O segundo grupo caracteriza-se
pelas estratégias cognitivas e comportamentais com intuito de se esquivar dos problemas
e das emoções negativas.

Segundo Gimenes (2000), outra classificação possível para as respostas de coping


seria considerar os processos utilizados. Assim, teríamos dois grupos: enfrentamento

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comportamental e enfrentamento cognitivo. O primeiro define ações praticadas para


alterar a situação estressante, por exemplo, através da “solução de problemas”, ou seja, a
busca de informações sobre o problema, a avaliação das alternativas e a decisão por uma
conduta de ação a fim de eliminá-lo. Já as estratégias de enfrentamento cognitivas são
aquelas em que a pessoa tenta lidar com os problemas através de processos cognitivos
através das seguintes estratégias: a. minimização, quando a pessoa acredita não valer a
pena se preocupar com o problema ou que este se resolverá em pouco tempo; b. a
distração, ou seja, centrar a atenção nos aspectos positivos da situação ou em outros
acontecimentos; c. comparação social ou comparação seletiva com intuito de certificar-se
de que a dificuldade poderia ser pior; d. reestruturação ou uma nova interpretação da
situação como não tão estressante; e. ênfase na eficiência, o reconhecendo êxitos
anteriores; f. considerações sobre as conseqüências, refletindo sobre as conseqüências
positivas e negativas da realização de uma conduta não desejada.

É possível observar uma ampla classificação das estratégias de enfrentamento


descritas na literatura e estas não se limitam apenas àquelas descritas até então. Cohen e
Lazarus (1979, citados por COHEN, 1995) sugeriram uma classificação das estratégias de
enfrentamento em cinco grupos gerais. O grupo da “busca de informação”, que engloba o
conjunto de elementos sobre o evento estressante para a resolução do problema ou para a
regulação das emoções dele decorrentes. O segundo são as “ações diretas”, ou seja, as
providências tomadas para suportar ou combater o evento estressante. Já a terceira
classificação proposta, “inibição de ação”, representa a contenção de ações ou atitudes que
podem ser inadequadas. A próxima categoria, “esforços intrapsíquicos” envolve
processos como esquiva ou intelectualização em relação a uma situação estressante
particular que ocorrem principalmente com objetivo de regular as emoções. Por fim, o
quinto grupo denominado “voltar-se para os outros”, isto é, buscar recursos externos
(apoio emocional, físico, financeiro etc.) que ajudem no enfrentamento do problema.

Todas as estratégias descritas acima exigem um repertório de respostas pessoais.


Além disso, a seleção das estratégias a serem utilizadas depende, geralmente, da natureza
do evento, dos recursos disponíveis e dos fatores pessoais. Por exemplo, para a
compreensão de como os pacientes oncológicos selecionam suas estratégias de
enfrentamentos torna-se necessário, em linhas gerais, entender os fatos relacionados à
doença, tais como, tipo de estadiamento, tratamento de prognóstico da doença, assim
como, fatores pessoais que caracterizam o paciente, como por exemplo, suas habilidades,
seus recursos pessoais e emocionais disponíveis, suas crenças religiosas, seus valores, sua
percepção assim como informações pessoais do paciente e da família. Além disso, é
necessário considerar o contexto sociocultural no qual o paciente está inserido, isto é,

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analisar quais as atitudes da comunidade e, de modo geral, as atitudes e os


comportamentos da equipe de saúde que trata o paciente (GIMENES; QUEIROZ;
SHAYER, 1992).

Neste sentido, os esforços cognitivos e comportamentais são considerados


processos cognitivos que norteiam as ações e os sentimentos do indivíduo diante de
eventos estressantes. Esses processos cognitivos envolvem a chamada avaliação cognitiva.

4. A FUNÇÃO DA AVALIAÇÃO COGNITIVA NO MODELO DE ESTRESSE E


ENFRENTAMENTO

Ao adotar-se o conceito de enfrentamento como um processo dinâmico é importante


ressaltar a importância da mediação cognitiva, ou seja, a avaliação realizada pelo
indivíduo de suas interações com o ambiente.

De acordo com Lazarus (1966), o estresse seria considerado um fenômeno


resultante da interação entre indivíduo e ambiente, portanto, não poderia ser definido
apenas pelas reações fisiológicas e emocionais. As interações consideradas estressantes
seriam determinadas pelo próprio indivíduo como prejudiciais – as conseqüência seriam
danos físicos, materiais, pessoais e emocionais permanentes, temporários e ameaçadores -
mas que poderiam ser superadas através da mobilização de esforços cognitivos e
comportamentais (LAZARUS, 1966; LAZARUS; FOLKMAN, 1984). Para tal superação o
indivíduo necessitaria avaliar cognitivamente seus recursos sociais, materiais e pessoais.

Segundo Gimenes (2000), o processo de avaliação cognitiva pode ser dividido


didaticamente em três períodos: a avaliação primária que envolve o julgamento do
evento, classificando-o como indiferente, satisfatório ou desestabilizador; a avaliação
secundária caracterizada pela análise dos recursos pessoais existentes para enfrentar a
situação (também se deve considerar a avaliação das conseqüências e a tomada de
decisão); e por último, a reavaliação do caráter estressante dos eventos em interação com a
pessoa ou dos recursos de enfrentamento que estão sendo utilizados. A definição do
conjunto dos comportamentos de enfrentamento a serem utilizados frente a uma situação
de estresse ocorre na avaliação secundária e na reavaliação.

5. COMPORTAMENTOS DE ENFRENTAMENTO E A PSICONCOLOGIA

A utilização de repertório de enfrentamento pode ser observada em inúmeras situações


que ameaçam a vida humana. Estas situações são denominadas por pesquisadores da área
de Psicologia como vitimizadores. As doenças, os crimes, os desastres naturais e

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tecnológicos com conseqüências indesejáveis e negativas constituem parte desta classe de


eventos.

Estudos realizados no Brasil e em outros países demonstram que o câncer e suas


modalidades de tratamento são eventos que promovem grande impacto emocional e um
alto índice de estresse.

Segundo Franks (1990), “o câncer representa um conjunto de patologias cuja


característica básica é o desenvolvimento de alterações em processo de divisão celular,
promovendo um crescimento anormal e geralmente mais rápido de células”. Dados do
Instituto Nacional do Câncer (INCA) mostram que esta doença é um problema de saúde
pública, pois corresponde a segunda principal causa de morte por doenças em todo o
mundo, ou seja, seis milhões de óbitos por ano (INCA, 2000).

É importante considerar que o câncer é um evento inesperado e exige dos


pacientes e da família um repertório muitas vezes inexistente para um bom
enfrentamento gerando, se tornando, portanto, uma situação de estresse. A vivência e a
atribuição do significado à doença dependem de inúmeros fatores, como por exemplo, o
momento de vida em que o paciente se encontra, experiências passadas, crenças culturais
e informações obtidas através dos meios de comunicação. A necessidade de adaptação à
nova situação e a busca de meios para enfrentar um diagnóstico e um tratamento envolve
grande mobilização pessoal, social e emocional.

Soma-se a isso, o fato do câncer ser uma doença com um forte estigma social.
Trata-se de uma doença com prognóstico nem sempre favorável, responsável por um
número significativo de óbitos e cujo tratamento pode exigir níveis de tolerância bastante
elevados. Portanto, é natural as pessoas se sentirem deprimidas quando recebem um
diagnóstico da doença. Além disso, a doença remete a sensações desagradáveis, como por
exemplo, medo da morte, do tratamento, medo de ser abandonado pelos médicos e pela
própria família, medo de perder o controle e outras sensações, como perda da identidade
e perda de pessoas queridas. Em relação ao câncer de mama deve-se considerar também a
perda, através da mutilação cirúrgica, de um órgão que revela a estética e a sexualidade
feminina, como um fator agravante para o estresse ocasionado pelo diagnóstico
(CARPENTER; BROCKOPP, 1994).

Em relação ao tratamento da doença, os efeitos psicológicos são frequentemente


resultantes: da cirurgia que pode ter um significado de mutilação (por exemplo, a retirada
das mamas) gerando ansiedade e dificuldades para reintegração profissional e social; da
quimioterapia, por seus efeitos colaterais como náuseas, vômitos, constipação intestinal,
diarréias, alterações sobre a pele, unhas, queda de cabelo (trazem a desfiguração física, a

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mudança da auto-imagem corporal e preocupações com preconceitos sociais e interrupção


das atividades profissionais); e da radioterapia, por preconceitos em relação à radiação,
por falta de conhecimento do tratamento, medo em relação a queimaduras e ansiedade
pelas marcas na pele, desconforto durante a aplicação.

É neste contexto, juntamente com os progressos da medicina que se percebeu o


quanto o diagnóstico e a submissão aos tratamentos do câncer são acompanhados de
sofrimentos para o paciente e para a família. Além disso, o número cada vez maior de
sobreviventes à doença faz repensar a função do médico como único responsável pela
saúde e cuidado ao paciente, uma vez que apesar de ter encerrado o tratamento, as
seqüelas físicas e psicológicas continuam (CARVALHO, 2002).

Portanto, foi diante deste quadro que, na segunda metade da década de 80,
surgiu a Psiconcologia como uma área do conhecimento. É também neste momento que a
qualidade de vida do paciente oncológico ganha importância considerando a necessidade
de garantir ao doente seu bem-estar físico, psicológico e social.

Desse modo, a Psiconcologia é uma área entre a Psicologia e a Oncologia que


segue princípios da Medicina Psicossomática, da Medicina Comportamental e da
Psicologia da Saúde para prover assistência ao paciente oncológico, familiares e
profissionais de saúde envolvidos nas diferentes etapas do tratamento da doença e em sua
reabilitação. Além disso, a Psiconcologia tem estimulado a pesquisa e o estudo de
variáveis psicológicas e sociais importantes para a compreensão da incidência,
recuperação e tempo de sobrevida após o diagnóstico de câncer e também tem
incentivado a organização de serviços oncológicos que ofereçam suporte físico e
psicológico integral ao paciente (CARVALHO, 2002).

Pode-se dizer, portanto, que a Psiconcologia está se constituindo, nos últimos dez
anos, em ferramenta indispensável para promover as condições de qualidade de vida do
paciente com câncer, facilitando o processo de enfrentamento de eventos estressantes e
aversivos, relacionados ao processo de tratamento da doença, entre os quais estão os
períodos prolongados de tratamento, terapêutica farmacológica agressiva e seus efeitos
colaterais, a submissão a procedimento médico invasivo e potencialmente doloroso, as
alterações de comportamento do paciente (incluindo desmotivação e depressão) e os
riscos de recidiva.

Para isso, os psicólogos que atuam na área necessitam compreender a doença


como uma situação estressora e identificar quais as estratégias de enfrentamento teriam
mais eficiência para garantir o bem estar de seu paciente. Frente esta análise o psicólogo

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deve auxiliar o paciente e a família no desenvolvimento de repertório para analisar e


utilizar de maneira adequada as estratégicas de enfrentamento frente ao problema.

Muitos pesquisadoress da área da Psiconcologia, como, por exemplo, o Rowland


(1990), investigaram os comportamentos de enfrentamento em pacientes com câncer de
mama com objetivo de: categorizar estes comportamentos de enfrentamento; identificar
variáveis preditivas dos mesmos; qualificar o enfrentamento como efetivo ou não efetivo
para adaptação psicossocial dos indivíduos; e avaliar a variabilidade e estabilidade do
enfrentamento de acordo com a passagem do tempo e a situação.

Os estudos de Pearlin e Schooler (1978), por exemplo, buscaram identificar quais


os comportamentos de enfrentamento eram mais adaptativos em mulheres
mastectomizadas. Os resultados apontaram os comportamentos de “combate” e
“racionalização” como aqueles relacionados à melhor adaptação das mulheres. Já os
comportamentos relacionados a uma adaptação negativa foram os de “evitação” e os de
“capitulação” (aceitação passiva da doença). Nas pesquisas de Pearlin e Schooler (1978) os
comportamentos de enfrentamento foram avaliados como um estilo, isto é, o autor
qualificou os comportamentos e as mulheres envolvidas no estudo através de orientações
pré-estabelecidas de comportamentos que poderiam ser efetivos ou ineficientes para lidar
com o câncer e com a mastectomia. Porém, os achados destes pesquisadores pouco
esclarece sobre os fatores pessoais e situacionais que controlam a emissão dos
comportamentos destas mulheres. Além disso, o autor não faz uma relação funcional
entre o contexto, as respostas de enfrentamento e suas conseqüências possíveis de serem
modificadas de acordo com o tempo e a situação, princípios básicos para o entendimento
dos comportamentos de enfrentamento como processo.

Por outro lado, os estudos de Gimenes (2000) buscaram identificar possíveis


variáveis relacionadas com a qualidade da adaptação psicossocial de mulheres com câncer
de mama e mastectomizadas. Os dados foram coletados através de escalas e foram
estabelecidos quatro conjuntos de variáveis preditivas (dados demográficos, quadro
clínico, recursos ambientais e respostas de enfrentamento) e duas variáveis de parâmetro
para avaliação de adaptação psicossocial: bem-estar psicológico e competência social.
Resumidamente, os resultados obtidos mostraram que a variável “enfrentamento” foi a
que mais influenciou na qualidade da adaptação. Tal estudo traduz a importância da
investigação do enfrentamento e da sua função e flexibilidade em diferentes momentos do
tratamento para uma melhor qualidade de adaptação dos pacientes.

Dessa forma, é possível concluir que uma análise de todas as variáveis


envolvidas no contexto da doença, desde o diagnóstico até o momento final do

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tratamento, buscando entender quem enfrenta, como enfrenta, ou seja, quais as estratégias
de enfrentamento disponíveis durante o processo considerando sempre os aspectos
pessoais e situacionais que estariam influenciando a emissão de comportamentos de
enfrentamento em pacientes com câncer, torna-se imprescindível para que se possa
planejar e realizar intervenções psicológicas.

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Carolina de Mello Nascimento Seiffert Nunes


Pós-graduação em Psicologia Clínica
Comportamental e graduação em Psicologia pela
Universidade Federal de São Carlos (2005). Atua
como Psicóloga clínica desde 2006 em consultório
particular e Coordenadora Curso de Psicologia, da
Faculdade Anhanguera Campinas - unidade 3,
desde 2008. Também atua em escola particular
(Colégio Objetivo) com crianças da Educação
Infantil e Fundamental II.

Encontro: Revista de Psicologia • Vol. 13, Nº. 19, Ano 2010 • p. 91-102