Você está na página 1de 19

Michel Foucault

Seguranca, Território,
Populacáo
Curso dado no College de France (1977-1978)

Edif;ao estabelecida por Michel Senel1art


sob a dírecáo de
Francois Ewald e Alessandro Fontana

'Iraducáo
EDUAROO BRANDAo
Revísáo da traducáo
CLAUDIA BERUNER

Paul-Michel Foucault nasceu ero Poítiers, Franca. ero 15


de outubro de 1926. Em 1946 ingressa na École Normale Supé-
rieure, onde conhece e mantém contato com Pierre Bourdieu,
Jean-Paul Sartre, Paul Veyne, entre outros. Em 1949, conclui sua
licenciatura em psicologia e recebe seu Diploma em Estudos
Superiores de Filosofia, com urna tese sobre Hegel, sob a orien- Martins Fontes
ta~¡;:o de [ean Hyppolite. Morre em 25 de junho de 1984. sao Paulo 2008
Estaobrafoi publicada origina/mente erojrancis como título
SÉCURITÉ, TERRITOIRf, POPULATION
por Éditiotls du Seuil, París,
Ccrpyright © Seuil/Gal1imard, 2004. íNDICE
EdifOO esta/Jeledda por MichelSeneIlart sob a dirq:4o (Ú! Fratlfois E¡¡¡a/d
e Alessandro Pontana.
Copyright © 2008, Livraria Martins Fon/es Editora Ltda.,
SíW Paulo, paraa presente edifiJO.

1~ edio;io 2008

Traduo;io
EDUARDO BRANDAo

Revisio da traduo;io
Claudia Beniner
Acompanhamenlo editorial
MariaFernanda Alvares
Revis6es plicas
AndréaStahelM. da Silva
So/ange Martitls
Dinar/eZorzanelli da Silva
Produo;io gráfica
Geraldo Alves Nota XIII
Paginao;iolFotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial

Dados Intel'nadonais de Catalogao;lo na Publica'jio (al') AULAS, ANO 1977-1978


(Cimal'a Brasileka do Livro, sp,Brasil)

Poucault, Mícbel, 1926-1984. Aula de 11 de janeiro de 1978 . 3


Seguranca, territério, populacáo : curso dado no College
de France (1977-1978) / Michel Foucault; edicáo estabelecida Perspectiva geral do curso: o estudo do biopoder.
por Michel Senellart sob a direcác de Francois Ewald e AJes- - Cinco proposicóes sobre a análise dos meca-
sandro Fontana; traducáo Eduardo Brandao; revisác da tra-
ducac Claudia Berliner. - sao Paulc : Martíns Fontes, 2008.-
nismos de poder. - Sistema legal, mecanismos
(Colecáo tópicos) disciplinares e dispositivos de seguranca. Dois
Titulo original: Sécurité, territoire, population
exemplos: (a) a punicáo do roubo; (b)o tratamen-
Bibliografia. to da lepra, da peste e da varíola, - Característi-
ISBN978-85-336-2377-4 cas gerais dos dispositivos de seguranca (I): os
1. Ciencia política ~ Filosofia 2. O Estado 3. Poder (Cien- espa~os de seguran~a. - O exemplo da cidade. -
cias sociais) 4. Razáo de Estado 1.Senellart, Michel. Il. Ewald, Tres exemplos de organízacáo do espaco urbano
Francois. m. Fontana, Alessandro. IV. Titulo. V. Série.
nos séculos XVI e XVll: (a) La Métropolitée de
07-4435 COD-320.101
Alexandre Le Maitre (1682); (b) a cidade de Ri-
índices para catálogo sistemático:
1. O Estado: Filosofía: Ciencia política 320.101
chelieu; (c) Nantes.

Todos os direitos destaedifiiD reservados a Aula de 18 de janeiro de 1978 . 39


Lim'lIrill Marti7ls F01Ius Editorll Ltdll. Características gerais dos dispositivos de segu-
Rua Coneetneiro Ramalho, 330 01325-000 SaoPaulo SP Brasil
Tel. (11) 3241.3677 Fax (11) 3105.6993
ranca (lI): a relacáo com o acontecimento: a arte
e-maíl: inftj@martinsjonteseditora.com.br http://www.martinsjonteseditora.com.br

j
448 SEGURAN<;:A, TERRITÓRIO, POPULAc;:AO

bliques des grands chemins, & autres lieux publics: & de ce qui AULA DE 5 DE ABRIL DE 1978
regard~ les eaux & foréts, la chasse & la peche."
40. Ibid., 1697', t. N, pp. 224-5: "[...] foi para esse uso dessa
segundaespéciede coisas [ascoisasproduzidas pelo hornem, CO~O
alimentos, roupase habitacáo] que, por se~em todas ela,:; necess~­ A poíícia (continua{:Qo). - Deíamare. - A cidade. lugar de
rias na sociedadedos homens e poreles nao poderem te-las e po- eíaboradio da policía. Policía e regulameniacáo urbana. A ur-
las ero uso a nao ser por vias que requerem diferentes lígacóes e banízaiüo do territorio. Rela~o da poíícia com a problemática
comunicacóes entreelas, nao apenas de urolugarao outro, mas de mercantilista. - A emergencia da cidade-mercado. - Os méto-
uro país a outro, e entre as nacóes mais distantes, Deus pela ,o~­ dos da polída. Dijeren>", entre polída e justica. Um poder de
clero da natureza e os homens pela polícia proveram o necessano tipo eseencíalmente regulamentar. ReguIamenta~o e discipli-
para facilitar as comunicacóes". ,. ., . na. - VoIta ao problema dos cereais. - A critica do Estado de
41. Na série de folhetos manuscritos sobre a policia, Ja citada polícia a partirdoproblema da escassez alimentar. As teses dos
acima (p.442,nota 2), M. Foucat;ltcita Del~are a pr0p'?s~to de~­ economistas, relativas ao preso do cereal, apopuladio e ao pa·
sa idéia de que lié da 'sociedade que a polícia se ocupa: A polí- pel do Estado. - Nascimento de urna novagovernamentalida-
da encerra ero seu objeto todas as coisas que servem de funda- de. Governamentalidade dos políticos e governamentalidade
mento e de regra as sociedades que os homens estabeleceram en- dos economistas. - As transjormaoies da rasiia de Estado: (1)
tre si." E acrescenta: "Um conjunto de indivíduos com relacóes de a naturalidade da sociedade; (2) as novas rela98es entre o pow
coexistencia que os fazem viver e morar juntos. Em suma, uma po- dere o saber; (3) a responsabilidade com a poputacdo (higiene
pulacáo." , . pública, demografía. etc); (4) as novas formas de interoetuiio
42. L. Turquet de Mayeme, La Monarchie aristo~emocratique, estatal; (5) o estatuto daliberdade. - Os elementos da novaarte
livro I, p. 4: "[...] sem essa comurucacáo rujo enca.rnit;h.am~nto e de governar: prática económica. gestlío da populaiiio. díreiío e
manutencáo é o que chamamos propria.mente de Polí?a, e certo respeito as liberdades, policía com fun9ao repressiva. - As di-
que estaríamos privados ainda mais ?e ~um~dade e ~Iedade, pe- ferentes formas decontraconduta relativas a essa gcrvernamen-
receríamos miseravelmente por careneras e nao havena no mun- talidade. - Condueño gera/.
do nem amor nern caridade alguma".
43. N. Delarnare, Traité de la police, op. cit., t. 1, ed. de 1705,
prefácio nao paginado [p. 2]. . Born, vamos terminar hoje este curso urn pouco prolon-
44. a. supra, p. 422 (cítacáo completa, em latím, na nota 6). gado. Primeiro duas palavras sobre o que era concretamen-
45. P. C. W. van HohenthaI, Liber de poíuia, p. 10. te a polícia - quer dizer; como se apresentava efetivamente
46. ef. supra, nota 6. . .. . nos textos a prática da policia. Creio ter !hes explicado da
47.A. de Montchrétien, Traiié de t'oeconomie poliíioue, op. cit.,
p. 39. [Em francés, convém lembrar, há um só verbo para."~er" e
última vez a idéia geral, mas, concretamente, urn livro con-
"estar": étre. A frase de Montchrétien joga com essa duplicídade: sagrado ii policia fala de que? Creio que devemos nos refe-
"Au fond, la nature ne peut nous donner que l'étre, mais le bien- rir de qualquer modo ao que foi durante todo o século xvm
étre nous le tenons de la disciplineet des arts." (N. do T.)] a compilacáo fundamental, o texto básico da prática da po-
48. !bid., p. 40. licia, tanto na Alemanha corno na Franca, a1iás, apesar da
compílacáo ser em francés, mas é sempre a ela que os livros
alemáes se referiam quando se tratava de saber de que se fa-
lava quando se falava da policía. Essa cornpilacáo é a de De-
lamare, é urna grossa compílacáo da legislacáo de policía
450 SEGURANc;:A. TERRITORIO, POPUIAy\O AUIA DE 5 DE ABRILDE 1978 451

em tres volumes, publicada, nao me lembro mais, em 1711, Ora, quando observamos, de fato, quais sao esses dife-
1708 ...r enfim, que foi republicada várias vezes no século rentes objetos def!nidos po~anto como do domínio da prá-
XVIII'. Essa compila<;ao de Delamare. como as que a segur- tíca, da intervencáo e tambem da reflexáo da polícia e sobre
ram', precisa em geral que há treze domínios de que ~ po- a policia,. vemo~ parece-me, primeira coisaa observar, que
lícia deve se ocupar. Sao a religiáo, os costumes. a saude e esses obJe~os sao afinal de contas essencialmente objetos
os meios de subsistencia, a tranqüilidade pública, o cuida- que podenamos chamar de urbanos. Urbanos no sentido
do com os edificios, as pracas e os caminhos. as ciencias e de que uns, alguns desses objetos, só existem na cidade e
as artes liberais, o comércio, as manufaturas e as artes me- porque existe urna cídade. Sao as ruas, as pracas, os edífi-
cánicas, os empregados domésticos e os operáríos, o teatro CIOS, o mercado, o comércio, as manufaturas, as artes mecá-

e os jogos, enfim o cuidado e a disciplina dos pobres, como nicas, etc. Os outros sao objetos que sao problema e que
"parte considerável do bem público'". Delamare agrupa es- sao do dominio da policía, na medida em que é principal-
ses treze itens' nurn certo número de títulos mais gerais, ou mente na cidade que eles adquirem o essencial da sua im-
antes, de funcóes mais geraís. porque, se a polícia se ocupa portancia. A saúde, por exernplo, a subsistencia, todos os
da religiáo e dos costumes, é que se trata, para ela, de garan- meios para impedir que haja escassez alimentar, [a] presen-
tir o que ele chama de "bondade da vída'", Se ela se ocupa ca dos m:nci.!gos, [a] circulacáo dos vagabundos - os vaga-
da saúde e da subsistencia, é porque tem por funcáo "a con- bundos so vao ser problema no campo bem no fim do sé-
servacáo da vída'". Bondade, conservacáo da vida. A tran- culo xvm. Digamos que tudo isso sao problemas da cida-
qüilidade, o cuidado com os edificios, as ciencias: as artes de. Em termos mais gerais, sao os problemas da coexisten-
liberais o comércio, as manufaturas e as artes mecarucas, os cia e da coexistencia densa.
a
domésticos e os operarios, tuda isso se refere "comodida- Em segundo lugar, deve-se notar que os problemas de
que a polícia se ocupa também sao, bem próximos desses
de da vida'": o teatro e os jogos, os 11aprazimentos da vída'".
a
Quanto disciplina e ao cuidado dos pobres, é "urna parte problemas da cidade, os problemas, digamos, do mercado,
considerável do bem públíco'", é essa elírninacáo ou, ero da compra e venda, da troca. É a regulamentacáo da manei-
todo caso, esse controle dos pobres, a exclusáo dos que nao a
ra como se pode e se deve por as coisas venda, a que pre-
podem trabalhar e a obrigacáo, para os que efeti::-amente po- <;0, corno, em que momento. É também a regularnentacáo
dem, de trabalhar. Tudo isso constitui a condicáo geral para dos produtos fabricados, é a regulamentacáo das artes me-
que a vida, na sociedade. seja efetivamente conservada de cani~as e, de urn modo geral, dos artesanatos. Nurna pala-
acordo com a sua bondade, a sua comodídade, os seus apra- vra,_e todo esse problema da troca, da círculacáo, da fabri-
zimentos. Como voces estáo vendo, ternos aí, a rneu ver, a cacao e do por ern circulacáo as mercadorias. Coexistencia
conñrrnacáo do que eu !hes dizia na última vez, a saber, que dos homens, círculacáo das mercadorias: seria necessário
aquilo de que a policía, no sentido ge;al do termo, no sen- completar dizendo também circulacáo dos homens e das
tido que era o do século XVII,e do seculo XVIII, aquilo de mercadorias uns em relacáo aos outros. É todo o problema
que a polícia deve ser ocupar e o viver e o m~ que :"ver; ~ justamente, desses vagabundos, das pessoas que se deslo-
viver e o melhor vivero Como dizia Montchrétien. nao so e cam. Digamos, em suma, que a polícia é essencialmente ur-
preciso ser, mas também é preciso "bern ser':10. Bo~d~de, bana e mercantil, ou ainda, para dizer as coisas mais brutal-
conservacáo. comodidade, aprazimentos da vida - e disso mente, que é urna instituícáo de mercado, no sentido bem
mesmo que se trata. amplo.
SEGURANc;:A, TERRITÓRIO, POPUlAy40 AUlA DE S DE ABRILDE 1978 453
452

Lago, nao há que se surpreender,com urn cert~ núrn~­ co*: que! importantíssimo para todos esses problemas da
ro de fatos. Primeiramente, em sua prática, em suas instítuí- articulacáo entr; ,o poder ?e polícia e a soberania jurídica,
~6es reais, essas legislacóes que ~s grandes comlCila~6e.s do Domat diz que e pela polícia que foram feitas as cidades e
século XVIII reúnem, de ande vem? Em geral sao anngas, os lugares em que os homens se reúnem e se comunicam
remontam aos séculas XVI, xv, XIV as vezes, e sao essencial- pelo us?das mas, das pra~as públicas e [...] das estradas'?',
mente legislacóes urbanas. Ou seja, a policía, em suas prá- No espínto de Domat, o vínculo entre polícia e cidade é tao
ticas e em suas institui<;5es, muitas vezes nao fez mais que forte que ele diz que é só por ter havido urna policía, isto é,
retomar essa preliminar que era a regulamenta~a,o ~bana, P?rque se regulamentou a maneira como os homens po-
tal como tinha se desenvolvido desde a Idade Media e que diam e devíam, pnmeiro, se reunir e, segundo, se cornuni-
a a
dizia respeito coabitacáo dos homens, fabricacáo ;las ~ar, no se~so lato do termo "comunicar", isto é, coabitar e
mercadorias, a venda dos géneros. É portanto urna especie Intercambiar, coexistir e circular, coabitar e falar, coabitar
de extensáo dessa regulamentacáo urbana que a polícia do e vender e comprar, foi por ter havido urna polícia regula-
século XVII e do século XVIII vai visar. mentando essa coabitacño, essa circulacáo e esse intercám-
A outra ínstituicáo que serve, de certo modo, de preli- bIO que ~s cidades puderam existir. A polícia como condicáo
minar a polícia nao é a regulamenta~ao urbana, é a m~ré­ de exístencía da urbamdade. No fim do século XVIII 150
chaussée, isto é, a forca armada que o poder real havia Sido anos, ou quase, depois de Domar, Fréminville, num dicioná-
abrigado a por em servíco no século )0f para evit,ar todas as no,geral de policía", dará esta cxplicacáo, totalmente mítica
conseqüéncias e as desordens que se seguiam as guerras, alia~, do nascimento da polícia na Franca, dizendo que Fa-
essencialmente a dissolucáo dos exércitos no fim das guer- ns tinha se tornado a primeira cidade do mundo no século
ras. Soldados dispensados, soldados que muitas vezes nao ~ e que assi~ se tornara pela perfeicáo exata da sua po-
haviam recebido o soldo, soldados debandados, tuda o que lícía. A ex,ata policía que neJa tinha sido praticada havia fei-
constituía urna massa flutuante de individuos que, eviden- to ;le París um ;nodelo t~~ perfeito e tao maravilhoso que
temente, se entregava a toda sorte de ilegalidades: violen- Luís XIV; diz Frerrunville, qms que todos os juízes de todas
cia, delínqüéncia. críme, roubo, assassinato - todas as pes-'
as Cldad,;,~ do ;,eu remo fizessem a polícia conformando-se a
soas errantes, e eram essas pessoas errantes que a mare- de París_ . Ha cidades porque há policía, e é porque há ci-
chaussée era encarregada de controlar e reprimir. dades tao perf~ltamente policiadas que se teve a idéia de
a
Sao, todas estas, ínstítuicóes anteriores polícia. A ci- transferir a policía para a escala geral do reino. "Políciar"
dade e a estrada, o mercado e a rede viária que alimenta o "urb..ru: ar", evoco simplesmente essas duas palavras par~
mercado. Daí o fato de que a polícia nos séculas XVII e que voces tenham todas as conotacóes, todos os fenómenos
XVIII foí, a meu ver, essencialmente pensada em termos do de eco que pode haver nessas duas palavras e com todos os
que poderíamos chamar de urbanizacáo do território; Trata- deslocamentos e ate,nua~óes de sentido que pode ter havi-
va-se no fundo de fazer do reino, de fazer do terntono m- do no decorrer do seculo XVIII, mas, no sentido estrito dos
teiro urna espécie de grande cidade, de fazer que o territó- termos, policiar e urbanizar é a mesma coisa.
rio fosse organizado como urna cídade, com base no mode-
lo de urna cidade e tao perfeitamente quanto urna cídade,
Nao se deve esquecer que, em seu Tratado de direito públi- ... M. Foucaultacrescenta: do século XVII
454 SEGURANc;:A, TERRITORIO, POPULAc;:AO AULA DE 5 DE ABRIL DE 1978
455
Voces também estao vendo - é a outra observacáo que ao mesmo tempo, como instrumento desse crescimento o
quero fazer a propósito d:ssa re!a,ao entre a polícía e, ,diga- ". A

comercio, voces percebem como e por que a polícia nao


,

mos, a urbanidade -, voces estao vendo que essa polícra! a


pode se; dissociada de uma política que é uma política de
instauracáo dessa policía, nao pode absolutamente ser dis- concorrencra comercIal no interior da Europa.
sociada de uma teoria e de uma prática govername~tal, ge-
Polícia e comércio, polícia e desenvolvimento urbano
ralmente postas no item mercantilismo. Omercantilismo-
polícia e desenvolvimento de todas as atividades de merca-
isto é, uma técnica e um cálculo do fortalecrment~ do poder
do no sentido amplo, tudo isso vai constituir uma unidade
dos Estados na competicáo européia pelo.comercio, pelo
a meu Ver, essencial no século XVII e até o inicio do século
desenvolvimento do comércio e pelo novo VIgordado as re-
lacóes comerciáis. O mercantilismo se insere inteiral!'ente XVIII. Parece que o desenvolvimento da economía de mer-
cado, a multiplica,ao e a intensifica<;ao dos intercambios a
nesse contexto do equilíbrio europeu e da competícao m-
tra -européia de que lhes falei faz algumas semanas", e pro- partir ~o século xvr~ parece que a ativa¡;ao da círculacáo
monetaria, que tudo lSS0 fez a existencia humana entrar no
porciona como instrument~~ como arma fund~enta1 nes-
sa competícáo intra-européia que deve ser feita na forma mundo abstrato e puramente representativo da mercadoria
do equilfbrío, proporcIona co~o mstrumento es~encral o e do valor de:troca", Pode ser, e pode ser que se deva deplo-
comércio. Ou seja, ele exige, pnmeiro, qU,e cada patS procu- rar lSS0, entao deploremos. Mas creio que, muito mais que
re ter a populacáo mais numerosa possível: segundo, que essa entrada da existencia humana no mundo abstrato da
essa populacáo seja inteiramente posta pa~a trabalhar; ter- mercadoria, o que se manifesta no século XVII é algo bem
ceíro, que os salários pagos a essa populacáo sejam os mais diferente. É um felXe de rela<;6es inteligíveis, analisáveis
baixos possíveís, de modo que - quarto - ?S I?fe<;OS de custo que possibilitam,ligar, como as faces de um mesmo polie~
das mercadorias sejam os mais baixos ~osslvels, que por con- dro, um certo numero de elementos fundamentais: a for-
seguinte se possa vender o mais possível ao exterior; v;nda ~a<;ao de ur:>a arte de governar, que seria ajustada ao prin-
essa que assegurará a ímportacáo do ouro, a transferencr,a cipro da raza? de Estado; uma política de competi<;ao na
do ouro para o tesouro real ou, em todo caso, para o patS forma do equílíbrio europeu; a busca de urna tecnología de
que tríunfar comercialmente desse ~odo. Ora, o que POSSl- crescrmentodas forcas esMais~ por meio de uma polída que
bílitará, prirneiramente, assegurar~ e claro, o recrutamento t:na essencíalmenr- por finalidade a organiza<;ao das rela-
de soldados e a forca militar indispensável vara o cresci- coes entre uma popula<;ao e uma produ<;ao de mercadorias;
mento do Estado e para o seu jogo no equiho,:o europeu, e e, por fím, a emergenda da cidade-mercado, com todos os
que possibilitará também incentivar a produ~ao, donde ,:m problemas de coabita<;ao,de circula<;ao, como problemas do
novo progresso comercial? É t?da essa estrat,egra do co~er­ iimbito da vigilancia de um bom governo de acordo com os
do como técnica de ímportacáo da moeda, e lSS0 ':lue e um principios da razáo de Estado. Nao estou dizendo que é nes-
dos traeos característicos do mercantilismo. E voces perce- se momento que nasce a cidade-mercado, mas creio que o
bem por que, no momento em que a razáo de Estado se dá fato de a cidade-mercado ter se tornado o modelo da inter-
como objetivo o equílíbrio europeu, tendo com,o mstru- vencáo estatal na vida dos homens é o fato fundamental do
mento uma armadura diplomático-mi~tar,e na epoca em século XVII, em todo caso o fato fundamental a caracterizar
que essa mesma razáo de Estado se d,: como outro obJeti:
vo o cresdmento singular de cada potencra estatal e se da ..Manuscrito: "intra-estatais".
456 SEGURAN<;:A, TERRITORIo. POPULAc;:AO AULA DE 5 DE ABRILDE 1978
457

o nascimento da polícia no século XVII, Há urn ciclo, por sendo a justica". Claro, ela deriva do poder régio, assim
assim dizer, razáo de Estado e privilégio urbano, urn vincu- corno,a Jus~~a; mas permanece bem separada dessa justica.
lo fundamental entre a polícia e o primado da mercadería, A polícía nao e; nesse momento, de forma alguma pensada
e é na medida em que houve essa relacáo entre razáo de Es- cO,mo urna espe';1e de mstrumento nas máos do poder judi-
tado e privilégio urbano, entre polícia e primado da merca- etano, urna especie de maneira de aplicar efetivamente a
doria, que o viver e o melhor que viver, que o ser e o bem- Justi~,a regulamentada, Nao,é um prolongamento da justi-
estar dos individuos tomaram-se efetivarnente pertinentes ca, nao e o reí agmdo atraves do seu aparelho de justica, é
- e pela primeira vez, creio eu, na história das sociedades o rei agmdo diretamente sobre seus súditos, mas de forma
ocidentais - para a íntervencáo do govemo. Se a govema- na~ judiciária. Um teórico corno Bacquet diz: "O direito de
mentalidade do Estado se interessa, e pela primeira vez, p~líCla e o direito de justica nao térn nada em comurn. [...]
pela materialidade fina da existencia e da coexistenci~ hu- Nao se pode dizer que o direito de polícia pertenca a qual-
mana, pela materialidade fina da troca e da circulacáo, se quer outro que nao o rei.?" É portanto o exercícío soberano
esse ser e esse melhor-estar é levado em conta pela pnmel- do poder real sobre os individuos que sao seus súditos é
ra vez pela govemamentalidade do Estado, e is,so através da russo que consiste a polícia. Em outras palavras, a polícia é
cidade e através dos problemas corno os ~a saúde, das ru~s, a ~ovemamentalidade direta do soberano corno soberano.
dos mercados, dos cereais, das estradas, e porque o comer- Digamos ainda que a polícia é o golpe de Estado perma-
cio é pensado nesse momento corno o instrumento princi- nente'. É o golpe de Estado permanente que vaí se exercer,
pal da forca desse Estado e, portante, corno o objeto privi- que va¡ agir em nome e em funcáo dos principios da sua ra-
legiado de urna polícia que tem por objetivo o crescirnento cionalidade própría, sem ter de se moldar ou se modelar
das forcas do Estado. Eis a primeíra corsa que eu quena lhes pel~s regras de justica que foram dadas por outro lado. Es-
dizer a propósito desses objetos da polícía, do seu modelo p~Clfica, portante, ~m seu funcionarnento e em seu princi-
urbano e da sua organízacáo em tomo do problema do mer- pIO pnmeiro, a policía tambem deve se-lo nas modalidades
cado e do comércio. da s,;a intervencáo. E também, no fím, na segunda metade
Segunda observacáo, ainda ,a propósito ~essa polícia do seculo xvm, nas Instructions [Instru~6es l de Catarína II
de que lhes falava na última vez, e que essa polícia manífes- -,ela pretendia constituir urn código de polícia -, nas instru-
ta a intervencáo de urna razáo e de um poder de Estado em coes que ela dá e que sao inspiradas pelos filósofos france-
dorrúnios que sao, parece-me, nOVOSo Ero compensacáo, os ses, ela diz: "Os regulamentos da polícia sao de urna espé-
métodos empregados por essa polícia me parecem relativa- cíe totalmente diferente da das outras leis civis. As coisas da
mente e até mesmo, inteiramente tradicionais. Claro, a idéia p,?lícia sao cois~de cada instante, enquanto as coisas da lei
de urn poder de polícia vai ser, desde o início d? século XVII, sao cOlsas,definitivas e permanentes. A polícia se ocupa das
perfeitamente distinta de outro tipo de eXerC!Cl? do po~er coisas miúdas, enquanto as leis se ocupam das coisas im-
régio, que é o poder de justica, o poder judiciario. Polícía portantes. A polícia se ocupa perpetuamente dos detalhes"
nao é justica, e nisso todos os t;xtos concordam, seJam os e enfirn ela só ape pronta e imediatamente'". Ternos aí, por-
textos dos que efetivarnente apoiam e justífícam a necessi- tanto, em relacáo ao funcionamento geral da justíca, urna
dade de urna polícia, sejam os textos dos juristas ou dos P"="- certa especificidade da polícia.
lamentares que manifestam certa desconfianca em relacáo Mas, quando se examina corno efetivamente essa es-
a essa polícia. De todo modo, a polícia é percebida corno nao pecificidade tomou corpo, percebe-se que na verdade a po-
458 SEGURANc;:A, TERRITORIO, POPULAr;,40 AULA DE5 DEABRIL DE 1978
459

licia só conhece e só conheceu nos séculas XVIIe XVIIIurna cie de q~ase conve~to e do reino urna espécie de quase ci-
forma, urn modo de acáo e de íntervencáo. Claro, isso nao dade - e essa a ,espeCIe ~e grande,sonho disciplinar que se
passa pelo aparelho judiciário, vem diretamente do poder enc.0ntra ¡>ortras da ])oliCla. Comercio, cidade, regulamen-
régío, é urn golpe de Estado permanente, mas um golpe de tacáo, disciplina - creio serem esses os elementos maís ca-
Estado permanente que se dá corno instrumento o que? racteris~cos da prática de policía, tal corno era entendida
Pois bem, o regulamento, o decreto, a proibicáo, a instrucáo. nesse seculo XVII e [na] prirneira metade do século XVIII.
É com base no modo regulamentar que a polícia intervém. Eis o que eu queria dizer a última vez, se tivesse tido tem-
É também nas Instructions de Catarina II que podernos ler: po para caracterizar esse grande projeto da policia.
"A polícía necessita mais de regulamentos do que de leis.'?" Bem, agora gostaria de voltar ao ponto de que parti-
Estamos nurn mundo do regulamento indefinido, do regu- rnos lago no comeco.Voces se lembram, aqueles textos que
lamento permanente, do regulamento perpetuamente re- procure! analisar para voces, pois bern, se voces quiserern,
novado, do regulamento cada vez mais detalhado, mas es- vamos pegar os mais precisos dentre eles, os que diziam
tamos sempre no regulamento, estamos sempre nessa es- respeíto Justamente ao que era chamada de policia dos ce-
pécie de forma, apesar dos pesares, jurídica, se nao judiciária, reais e de problema da escassez alimentar". Isso nos situa
que é a da lei ou, pelo menos, da lei em seu funcionamen- no meado, em todo caso [no] fim do prirneiro terco do sé-
to móvel, permanente e detalhado, que é o regulamento".
Mas, digamos assim, morfologicamente a polícia, mesmo
culoxv.m: e acredito - porque no fundo nao fiz outra coi-
sa nos ultimas meses senáo procurar comentar com voces
totalmente diferente da ínstituicáo judiciária, nao intervém esses textos sobre os cereais e a escassez alimentar, era sem-
com instrumentos e modos de acáo radicalmente diferentes pre deles que se tratava através de certo número de des-
dos da justíca. Que a policia é urn mundo essencialmente ,:os-, creio que podernos compreender melhor a impor-
regulamentar é tao verdadeiro que um dos teóricos da po- tancia do problema posta a propósito da polícia dos cereais
licia do meado do século XVIII, Guillauté, escrevia que a e da eS,cassez alimentar, podernos compreender melhor a
policia devia ser essencialmente regulamentar, mas, diz ele, importancia do problema, o ardor das discuss6es, pode-
também há que evitar, afinal, que o reino se tome um con- rnos c~mpreender melhor também o avance teórico e a
vento". Estamos no mundo do regulamento, estarnos no mutacáo que estava e';l gestacáo em tuda isso a partir des-
mundo da disciplina. * Ou seja, é necessário ver que essa se I?roblema, dessas tecrucas e desses objetos específicos a
grande prolíferacáo das disciplinas locais e regionais a que polícía. Par~ce-m: que através do problema dos cereais, da
pudemos assistir desde o fim do século XVI até o século sua comercJaliza~a?e da sua circulacáo, através do proble-
XVIll nas fábricas, nas escalas, no exército", essa prolifera- ma da escassez alimentar também, ve-se a partir de que
~ao se destaca sobre o fundo de urna tentativa de discipli- problema c0n.creto, por um lado, e em que direcáo, por ou-
narizacáo geral, de regulamentacáo geral dos individuos e tro, se fez a cntíca do que poderíamos chamar de Estado de
do território do reino, na forma de urna policia que teria um polícia. A críti~a do Estado de polícia, o desmantelamento,
modelo essencialmente urbano. Fazer da cidade urna espé- a desarticulacáo desse Estado de polícia em que se tinha
pensado tanto e com tanta esperanca no início do século
XVII, asslste-;;e a essa desartículacáo, creio eu, na prirneira
,. M. Foucault acrescente, no manuscrito: "E, de fato, os grandes metade do seculo XVIII, através de certo número de pro-
tratados práticos de policía foram compilacóes de regulamentos." blemas, essencialmente daqueles de que lhes faleí, os proble-
460 SEGURAN<;:A, TERRITORIO, POPULA~O AULA DE 5 DEABRIL DE 1978
461
mas económicos e os problemas da círculacáo de cereais 0_bem-estar, do camponés, o mais que viver dessa popula-
em particular, cao constituida pelo campesinato. Em outras palavras o es-
Perrnitam-me retornar urn pouco alguns ternas e teses quema 'lue era inteiramente ordenado em tomo do privilé-
que eram evocados naquele momento a propósito da poli- glO da adade sofn; com isso forte abalo. Os limites implicitos
cia dos cereais. Prirneira tese, voces se lembram - refiro-me do Sistema,da polícia, limites que haviam sido estabelecidos
a literatura, em linhas gerais, físiocrática, mas nao exclusi- pelo pnvileglo urbano, esses limites estouram e desembo-
vamente físiocrática, pois o problema nao é tanto o do con- cam no problema do campo, da agricultura, Problemática
teúdo positivo de cada tese quanto o que está em jogo em dos econorrustas que reintroduz a agricultura corno ele-
cada urna delas, aquilo de que se fala e em tomo do que se mento fundamental nurna govemamentalidade racional. A
organiza o problema - primeira tese dessa literatura fisio- terra aparece agora, ao lado da cidade, pelo menos tanto
crática ou, de modo mais geral, dessa literatura dos econo- quanto a adade, mais que a cidade, corno objeto privilegia-
mistas: se se quiser evitar a escassez alimentar, isto é , se se do da interven<;aogovemamental, Urna govemamentalida-
quiser que os cereais sejam abundantes, é preciso antes de de que leva em conta a terra. Nao só ela leva em conta a ter-
mais nada que eles sejam bem pagos". Essa tese se opóe, ra, mas essa govemamentalidade nao deve mais centrar-se
no nível mesmo do que afirma, ao principio que era aplica- no m:rcado, na compra e venda dos produtos, em sua cir-
do em toda a politica mercantilista anterior, em que se dizia culacáo, mas sim, em todo caso antes de tudo, na producáo,
prirneiramente: é preciso haver bastante cereal, é preciso Enfim, terceíro, essa govemamentalidade já nao se interes-
que esse cereal tenha urn preco baixo, por ter preco baixo é sa tanto pelo problema de corno vender mais barato aos
que val ser possível pagar os salários mais baixos possíveís, outros o que se produziu a um preco mais baixo, mas cen-
que o preco de custo das mercadorias a comercializar será tra-se no problema do retomo, isto é, de corno o valor do
baíxo, e quando esse pre<;o for baixo será possível vende-las produto pode ser reembolsado áquele que foí seu produtor
ao estrangeíro, e vendendo-as ao estrangeiro é que se po- ¡;nrnerro, a saber, o cam]J~ne: o~ o agricultor, Logo já nao
derá importar o máximo possível de ouro. Logo, era urna e a 9da~e, : s~ aterra, Ja nao e a arcula<;ao, e sim a pro-
politica de baixo preco dos cereais para o baixo salário dos ducáo, Ja nao e a venda ou o ganho com a venda, e sim o
operáríos, Ora, com a tese dos fisiocratas de que !hes falava problema do retomo - tudo isso é que aparece agora corno
há pouco, ao insistirem, corno sendo um momento absolu- obJ:to essenclal, da govemamentalidade. Urna desurbani-
tamente fundamental, sobre o vínculo que haveria entre a zacao em beneñcío de urn agrocentrismo, substituícáo ou
abundancia dos cereais e seu bom preco, isto é, seu pre<;o em todo caso, emergencia do problema da producáo relati-
relativamente alto, voces véem que os fisiocratas - de um vamente ao problema da comercíalízacgo, é, creio eu, o pri-
modo geral, o pensamento dos economistas do século XVIII metro grande abalo no Sistema, da polícía, no sentido em
- nao somente opóem a um certo número de teses outras que se entendia esse termo no seculo XVII e no inicio do sé-
teses, mas principalmente [reintroduzem]* na análise e nos culo XVIII.
objetivos de urna íntervencáo politica a própría agricultura, Segunda tese. A segunda tese, voces se lernbram, era a
o lucro agrícola, as possibilidades do investimento agrícola, segurnte: se o cereal for bem pago, isto é, se Se deixar o pre-
<;0 do cereal subir, de certo modo, tanto quanto ele quiser,
tanto qu~to po~sível em fun<;ao da oferta e da demanda,
... M.F.: ela reintroduz em funcáo da randade e do desejo dos consumídorss, se se
462 SEGURANc;4 ITRRlT6RIo, POPULAy40
AULA DE S DEABRILDE 1978 463
deixar o cereal subir, o que vai acontecer? Pois bem, o cereal
con,tinuará a subir i;>definidamente, seu preco se estabele- as pessoas nao váo querer vender seu cereal, quanto mais
cera, se estabelecera nern alto nem baixo demaís, simples- se tentar baixar os preces, mais a escassez se agravará, mais os
mente se estabelecerá num valor que é o valor justo. É a tese preces tenderáo a subir. Por conseguínte, nao apenas as coi-
~o preco justo". E o preco do cereal se fixará nesse valor que sas nao sao flexíveis, como sao de certo modo recalcitrantes,
e Justo por que razáo? Pois bem, prirneiro porque, se o ce- elas se voltam contra os que desejam modificar seu curso.
real :stiver num preco alto demaís, os agricultores nao he- Obtém-se exatamente o resultado inverso ao que se queria.
sitarao em ~emear tanto quanto puderem, poís, justamente, Recalcítráncia das coisas, por conseguinte. Nao só essa re-
o preco esta bom e eles esperam bons ganhos. Se semea- gulamentacáo nao val no sentido desejado, mas ela é sim-
rem muíto, as colheitas seráo melhores. Quanto melhores plesmente inútil. E a regularnentacáo de polícia é inútil, pois
forem as colheitas, menor, é claro, será a tentacáo de acu- justamente, como mostra a análise de que eu lhes falava há
mular o cereal aguardando o momento de escassez. Logo, pouco, há uma regulacáo espontánea do curso das coisas. A
todo o cereal será comercializado. E, se o preco for bom, os regulamentacáo nao só é nociva, como, pior ainda, é inútil.
e~trangerros evidentemente váo tentar enviar o máximo pos- Assim, é preciso substituir a regulamentacáo mediante a au-
sível de tngo para aproveitar o máximo possível esse bom toridade de polícia por uma regulacáo que se faz a partir e
preco, ~e sorte que, quanto mais alto for o preco, mais ele em funcáo do curso das próprias coísas. Segundo grande
tend~ra a se fixar e a se estabilizar. Pois bem, esse segundo abalo que sofre o sistema da Polizei, da polícia.
pnnclplO. que os economistas defendem, voces véem que Terceira tese que encontramos nos economistas é a de
ele questíona --: o que? Na~ mais o objeto urbano, que era o q';1e a populacáo nao constituí, ern si, um bem. Aqui tam-
objeto privilegiado da polícia. EJe questiona outra coísa a bérn, ruptura essencial. No sistema da polícía, o que eu evo-
instrumentacáo princip~ do sistema de policía, a saber, j~S­ cava na última vez, a única maneira em que a populacáo era
tamente a regulamentacáo, essa regulamentacáo de que eu levada em consíderacáo era ver riela, prímeíro, o fator quan-
lhes dizia há pouco que era, [no modo] de uma disciplina tidade: há populacáo bastante? E a resposta sempre era:
generalizada, a forma essencial na qual havia sido pensada nunca há populacáo bastante. Nunca há populacáo bastan-
a possibilidade e a necessidade da íntervencáo da polícia. O te por que? Porque se necessita de mais bracos para traba-
postulado dessa regulamentacáo policial era, é claro, que as lhar muito e fabricar muitos objetos. Necessita-se de mui-
corsas eram indefinidamente flexíveis e que a vontade do tos bracos para evitar que os salários subam demais e para
soberano, ou entáo, essa racionalidade imanente ratioa a garantir, por conseguinte, um preco de custo mínimo para as
~azao de Estado, podia,obter as coisas que ela queria. ~, coisas que se tem de fabricar e comercializar. Sao necessá-
e exatamente 1550 que e questionado na análise dos econo- ríos muitos bracos, contante, é claro, que esses bracos este-
mistas. ~ coisas nao s~o flexí~'eis, e nao sao flexíveis por jam todos trabalhando. Sao necessários, por ñm, muitos
du,as razoes.!, pnmerra e que nao apenas há certo curso das bracos e bracos trabalhando, contanto que sejam dóceis e
corsas que nao se pode modificar e que, precisamente, ten- apliquem efetivamente os regulamentos que lhes sao im-
tando modífícá-lo, só se faz agravá-lo. Assím, explicam os postos. Numerosos, trabalhadores, dóceis, ou melhor, mui-
economistas, quando o cereal rareia, é caro. Se se quiserim- tos trabalhadores dóceis - tudo isso val assegurar a quanti-
pedir que o cereal raro nao seja caro valendo-se de regula- dade, de certo modo, eficaz de que se necessita para uma
mentos que fixem seu preco, o que val acontecer? Pois bem, boa polícia. O único dado natural que se introduz na má-
quina é a quantidade. Fazer de modo que as pessoas se re-
464 SEGURAN<;:A, TERRITORIO, POPULAr;:AO AULA DE 5 DE ABRILDE 1978 465

produzam, e se reproduzam o máximo possíveJ. E fora des- lacáo nurn ponto dado - pois bem, se voces examinarem as
sa variável quantidade, os indivíduos que constituem a po- COISas nurna certa escala de tempo, esse número vai ser
pulacáo nao sao nada além de súditos, súditos de direlto ou ajustado em funcáo da situacáo e sem que se tenha de in-
súditos de policía, se voces quiserem, em todo caso súditos tervír, em absoluto, ~om urna regulacáo. A populacáo nao é
que tém de aplicar regulamentos. portanto urn dado mdefinidamente modificáveJ. É essa a
Com os economistas, vamos ter urna maneira totalmen- terceira tese.
te diferente de conceber a populacáo. A populacáo como A quarta tese que encontramos nos economistas é a
objeto de govemo nao vai ser urna certa quantidade ou o seguinte: deixa; agn- a liberdade de comércio entre os paí-
maior número de indivíduos trabalhando e aplicando regu- ses. Aquí tm:'bem diferenca fundamental em relacáo ao sis-
lamentos. A populacáo vai ser sempre outra coisa. Por que? tema da policía. No sistema da polícia, tratava-se, voces se
Prirneiro porque, para os economistas, o número mesmo nao lembr~, de faz~r de tal m~do que se mandasse para os ou-
é, em si, um valor. Claro, é preciso bastante populacáo para tros paISe~ o m~o possível de mercadorias, para extrair
produzir rriuito, e principalmente bastante populacáo agrí- desses paises o maxirno possível de ouro e assegurar o re-
cola. Mas nao é preciso demais, e nao deve ser demaís, jus- tomo desse ouro ou a vmda desse ouro para o país, e era
tamente para que os salários nao sejam baixos demais, isto esse urn dos elementos fundamentais desse crescimento
é, para que as pessoas tenham interesse em trabalhar e d~s forcas, que era o objetivo da polícia. va¡ se tratar agora,
também para que possam, pelo consumo de que sao capa- nao de vender, de certo I?odo, a toda forca para repatriar ou
zes, sustentar os pre<;os.Logo, náo há valor absoluto da po- unportar o ~axuno possível de ouro, vai se tratar agora, nes-
pulacáo, mas simplesmente um valor relativo. Há um nú- sas novas tecrucas de govemamentalidade que os econo-
mero ólimo desejável de gente nurn território dado, e esse mistas evocam, de integrar os países estrangeiros a meca-
número desejável varia em funcáo tanto dos recursos como rusmos de regulacáo que váo atuar no interior de cada país.
do trabalho possível e do consumo necessário e suficiente Aproveltar os altos preces pratícados n?s países estrangei-
para sustentar os pre<;os e, de modo geral, a economia. Se- ros para enviar para eles o maximo possível de cereais e dei-
gundo, esse número que nao é em si urn valor absoluto, xar os preces praticados em casa subirem para que o trigo
esse número nao deve ser estabelecido autoritariamente. estrangeíro.os cereais estrangerros possam vir.Vai-se deixar
Nao é para fazer como aqueles utopistas do século XVI,que portan,t~ a¡pr a concorréncía, mas c~ncorrencia el:'tre o que
dizlam: vejam qual é, grosso modo, o número de pessoas su- e o que. Nao, Justamente, a concorrencía-competícáo entre
ficiente e necessário para constituir as cidades fellzes. Na os Estados, de que eu !hes fala",,; na última vez e que era o
verdade, o número de pessoas vai se ajustar por si próprio. sistema ao mesmo tempo da policía e do equilíbrio das for-
Ele vai se ajustar em funcáo precisamente dos recursos que <;as no espaco europeu. Vai-se deixar agir urna concorréncía
a
seráo postos sua disposícáo. Deslocamento da populacáo, entre os particulares, e é precisamente esse jogo do interes-
eventualmente regulacáo dos nascimentos (deixo esse pro- se dos particulares fazendo concorréncía uns aos outros e
blema de lado, azar), em todo caso há urna regulacáo es- procurando cada urn por si o lucro máximo, é isso que vai
pontánea da populacao que faz [que]- e isso todos os eco- perrrutír que o Estado, ou a coletívídade, ou ainda toda a po-
nomistas dízem, Quesnay em particular insiste nesse ponto" pulacáo embolsem, d: certo modo, o ganho dessa conduta
- sempre se terá o número de pessoas que é naturalmente dos partículares, IStO e, ter cereais ao preco justo e ter urna
determinado pela situacáo, aquí, num ponto dado. A popu- sítuacao econorruca que seja a mais favoráve! possíveJ. A fe-
466 SEGURAN<;:A, TERRITÓRIO, POPUlAc;:AO AUlA DE 5 DE ABRIL DE 1978 467

licidade do conjunto, a felicidade de todos e de tudo, vai de- gerais, é no ámbito do problema do que se chama ou do
pender de qué? Nao mais, justamente, da íntervencáo au- que se chamará de economia que tudo isso acontece. Em
toritária do Estado que vai regulamentar, sob a forma da todo caso, é bom ficar claro que os primeiros a fazer, no sé-
policía, o espaco, o território e a populacáo. O bem de to- culo XVIII,a crítica do Estado de polícía, nao foram os juris-
dos vai ser assegurado pelo comportamento de cada um, tas. Houve por certo muito ranger de dentes entre os juristas
contanto que o Estado, contanto que o govemo saiba dei- no século XVII, menos, por sinal, do que no século XVIII,
xar agir os mecanismos do interesse particular, que estaráo quando, postos em presen<;a do Estado de polícia e do que
assim, por fenómenos de acumulacáo e de regulacáo, ser- isso implicava quanto as modalidades diretas de acáo do
vindo a todos. O Estado nao é portanto o princípio do bem poder régio e da sua admínistracáo, eles foram até certo
de cada um. Nao se trata, como era o caso da polícia -lem- ponto reticentes, as vezes críticos em relacáo ao nascimen-
brem-se do que eu lhes dizia da última vez -, de fazer de tal to desse Estado de polícia. Mas isso sempre em referencia a
modo que o melhor viver de cada um seja utilizado pelo Es- certa concepcáo tradicional do direito e dos privilégios que
tado e retransmitido em seguida como felicidade da totali- eram reconhecidos por esse direito aos individuos. Niio se
dade ou bem-estar da totalidade. Trata-se agora de fazer de tratava, para eles, de nada mais que limitar um poder régio
tal modo que o Estado nao intervenha senáo para regular, que se tomava, aos olhos deles, cada vez mais exorbitante.
ou antes, para deixar o melhor-estar de cada um, o mteres- Nunca houve entre os juristas, mesmo entre os que critica-
se de cada um se regular de maneira que possa de fato se!- ram o Estado de polícia, tentativa ou esforco para definir
vir a todos. O Estado como regulador dos ínteresses, e nao uma nova arte de govemar. Em cornpensacáo, os que fize-
mais como princípio ao mesmo tempo transcendente e sin- ram a crítica do Estado de polícia em funcáo da eventuali-
tético da felicidade de cada um, a ser transformada em feli- dade, da possibílidade, em funcáo do nascimento de uma
cidade de todos. É essa, a meu ver, uma mudanca capital nova arte de governar, pois bem, foram os economistas.
que nos póe em presenca dessa coisa que vai ser, para a his- Creio, aliás, que se deve pór de certo modo em paralelo es-
tória dos séculos XVIII,XIX e também XX,um elemento es- sas duas grandes familias que se fazem eco a um século de
sencial, a saber: qual deve ser o jogo do Estado, qual deve intervalo e que eram, na realidade, profundamente opostas.
ser o papel do Estado, qual deve ser a funcáo do Estado ern Como vocés se lembram, no início do século XVII tivemos'
relacáo a um jogo que, em si, é um jogo fundamental e na- o que foi percebido na época como uma verdadeira seita,
tural, que é o jogo dos interesses particulares? como uma espécie de heresia, que eram os políticos". Os
Voces estáo vendo como, através dessa discussáo sobre políticos eram os que definiam uma nova arte de govemar
os cereais, sobre a polícia dos cereais, sobre os meios de evi- em termos que nao eram mais os da grande, como dizer? oo.,
tar a escassez alimentar, o que se vé esbocar-se é toda uma conformidade a ordem do mundo, a sabedoria do mundo,
forma nova de govemamentalídade, oposta quase termo a a essa espécie de grande cosmoteologia que servia de mar-
termo a govemamentalidade que se havia esbocado na idéia co para as artes de govemar da Idade Média e ainda do sé-
de um Estado de polícia. Claro, encontrariamos certamente culo XVI. Os políticos eram os que disseram: vamos deixar
no século XVllI, na mesma época, muitos outros sinais des- de lado esse problema do mundo e da natureza, procure-
sa transformacáo da razáo govemamental, desse nascimen-
to de uma nova razáo govemamental. Creio ainda assim
que o importante, o importante é salientar que, em linhas '" M. Foucaultacrescenta: o que fui apresentado
468 SEGURANc;:A, TERRITORIO, POPULAc;:,40 AULA DE 5 DE ABRIL DE 1978 469

mos saber qual a razáo intrínseca da arte de governar, defi- lidade de Estado, razáo de Estado que continua de fato a do-
namos um horizonte que possibilite estabelecer exatamen- minar o pensamento dos economistas vai se modificar, e
te quais devem ser os principios racionais e as formas de sao algumas dessas modificacóes essenciais que eu gostaria
cálculo especificas de urna arte de governar. E, recortan~o de identificar.
assim o domfnio do Estado no grande mundo cosmoteolo- Primeiro, voces estáo vendo que urna análise como a
gico do pensamento medieval e do pensamento da Renas- que eu evocava há pouco, muito esquematicamente, a pro-
cenca, eles definiram uma nova racíonalidade. Heresla,fun- pósito da polícia dos cereais e da nova economía, em que
damental, heresia dos políticos. Pois bem, quase ~m seculo esse problema era pensado, voces estáo vendo que essa
depois apareceu uma nova seita, percebida por sinal igual- análise se refere a todo um dominio de processos que po-
mente como seita" a dos economistas. Economistas que dem, até certo ponto, ser ditos naturais. Voltemos um ins-
eram heréticos em 'rela<;ao a qué? Nao mais em relacáo a tante ao que eu lhes dizia algumas semanas atrás", Na tra-
esse grande pensamento cosmoteológico da soberanía, mas dicáo que, grosso modo, era a tradicáo medieval e também a
heréticos em relacáo a um pensamento ordenado em to,:,o da Renascenca, um bom governo, um reino bem ordenado,
da razáo de Estado, heréticos em relacáo ao Estado, heréti- como eu lhes disse. era o que fazia parte de toda urna or-
cos em relacáo ao Estado de polícia, e foram eles que mven- dem do mundo e que era querido por Deus. Inscricáo, por
taram uma nova arte de govemar, sempre em termos de ra- conseguinte, do bom governo nesse grande marco cosmo-
záo, claro, mas de urna razáo que nao era mais a razáo de teológico. Em relacáo a essa ordem natural, a razáo de Es-
Estado, ou que nao era mais apenas a razáo de Es!ado, que tado havia portanto introduzido um recorte, ou mesmo um
era, para dizer as coisas mais precisamente, a razao de ,Es- corte radical: era o Estado, o Estado que surgía e que fazia
tado modificada por essa corsa nova, esse novo d,?muuo aparecer uma nova realidade com sua racionalidade própría.
que estava aparecendo e que era a ,:conorrua. A razao eco- Ruptura portanto com essa ve!ha naturalidade que demar-
nómica está, náo substituindo a razao de Estado, mas dan- cava o pensamento político da Idade Média. Náo-naturali-
do um novo conteúdo a razáo de Estado e dando, por con- dade, artificialidade absoluta, por assim dízer, em todo caso
seguinte, novas formas aracionalidade de Estado. N ova go- ruptura com essa ve!ha cosmoteologia - o que, aliás, havia
vernamentalidade que nasce com os econorrustas mais de acarretado as críticas de ateismo de que !hes falei", Artificia-
um século depois da outra governamentalidade [ter] apare- lismo dessa governamentalidade de polícia, artificialismo
cido no século XVII. Governamentalidade dos políticos que dessa razáo de Estado.
vai nos dar a polícia, governamentalidade dos economistas Mas eis que agora, com o pensamento dos economis-
que val, a meu ver, nos introduzir em algumas das linhas tas, vai reaparecer a naturalidade, ou antes, urna outra na-
fundamentais da governamentalidade moderna e contem- turalidade. É a naturalidade desses mecanismos que fazem
poránea. . que, quando os preces sobern, se se deixar que subam, eles
Claro, é preciso ter presente que se continua na ordem váo se deter sozinhos. É essa naturalidade que faz que a po-
da razáo de Estado. Ou seja, continua se tratando, nessa pulacáo seja atraída pelos altos saláríos, até um certo mo-
nova governamentalidade esbocada pelos economistas, de mento em que os salários se estabilizam e, com isso, a popu-
ter por objetivo o aumento das forcas do Estado dentro de lacáo nao aumenta mais. É portanto uma naturalidade que,
uro certo equilibrio. equilíbrio externo no espa<;o europeu. como voces estáo vendo, nao é mais de maneira nenhuma
equilíbrio interno sob a forma da ordem. Mas essa raciona- do mesmo tipo da naturalidade do cosmo, que demarcava e
470 SEGURAN<;:A, TERR1T6RlO, POPUIA<;:40
AUIA DE 5 DE ABRIL DE 1978 471

sustentava a razáo govemamental da Idade Média ou do tado, a urna racionalidade de polícia c¡ue continuava a lidar
século XVI. É urna naturalidade que vai ser oposta justa- apenas com urna colecáo de súditos. É o prirneiro ponto que
mente a artíficíalidade da política, da razáo de Estado, da eu quena salientar,
polícia. Váo opó-la a ela, mas segundo modos totalmente O segundo ponto é que, nessa nova govemamentali-
específicos e particulares. Nao sao processos da própria na- dade e correlativamente a esse novo horizonte de natura-
tureza, entendida corno natureza do mundo, é urna natura- lidade social, voces véem aparecer o terna de urn conheci-
lidade específica as relacóes dos homens entre si, ao que rr;ento, e de urn conhecimento que é - eu ia dizendo espe-
acontece espontaneamente quando eles coabitam, quan- cífico ao govemo, mas nao seria de todo exato. De fato, o
do estáo juntos, quando íntercambiam, quando trabalham, que ternos com esses fenómenos naturais de que os econo-
rrustas falavam? Ternos processos que podem ser conhecí-
quando produzem [...]. Ou seja, é urna naturalidade de algo
que, no fundo, ainda nao havia tido existencia até entáo dos "or procedirnentos de conhecirnento que sao do mes-
mo tipo que qualquer conhecimento científico. A reivindi-
e que, se nao é designado, pelo menos comeca a ser pensa-
do e analisado corno tal: a naturalidade da sociedade. cacáo de racionalidade científica, que nao era em absoluto
A sociedade corno urna naturalidade específica a exis- colocada pelos mercantilistas, é colocada em compensacáo
tencia em comum dos homens, é isso que os economistas, pelos econ~rnistas do século XVIll, que váo dizer que a re-
no fundo, estáo fazendo emergir corno domínio, corno cam- gra da evidéncia deve ser a que se aplica a esses dominios".
po de objetos, corno domínio possível de análise, corno do- Por conseguinte, nao é mais essa espécie de cálculos de for-
mínio de saber e de intervencáo, A sociedade corno campo cas, cálculos diplomáticos, que a razáo de Estado faz inter-
específico de naturalidade própria do homem: é isso que vai vir no século XVII. É um conhecimento que, em seus pró-
fazer surgir corno tns-a-tns do Estado o que se chamará de pnos procedimentos, deve ser urn conhecimento científico.'
sociedade civil". O que é a socíedade civil, senáo precisa- Em segundo lugar, esse conhecimento científico é absolu-
mente esse algo que nao se pode pensar corno sendo sirn- tameI~te indispensável para um bom govemo. Um govemo
plesmente o produto e o resultado do Estado? Mas tam- que nao levasse em conta esse genero de análíse, o conhe-
pouco é algo que é corno que a existencia natural do ho- cimento desses processos, que nao respeitasse o resultado
mem. A sociedade civil é o que o pensamento govemamen- desse genero de conhecimento, esse govemo estaría fada-
tal, as novas formas de govemamentalidade nascidas no do ao fracasso. Ve-se isso bem quando, contra todas as re-
século XVIll fazem surgir corno correlativo necessário do gras da eviden~ia e da racíonalidade, ele regulamenta por
Estado. De que o Estado deve se ocupar? O que ele deve to- exerr;plo o comercio dos cereais, estabelece pre~os máximos:
rnar a seu encargo? O que ele deve conhecer? O que ele age as cegas, contra os seus interesses, literalmente se en-
deve, se nao regulamentar, pelo menos regular, ou de que gana, e se engana em termos científicos. Logo, ternos aí um
ele deve respeitar as regulacóes naturais? Nao de urna na-
tureza de certo modo primitiva, nem tampouco de urna sé- >1- O manuscrito precisa (folha 21 de urna aula nao paginada): "Es-

rie de súditos indefinidamente submetidos a urna vontade se conhecimento a economia política, nao corno simples conhecimen-
é

soberana e sujeitável as suas exigencias. O Estado tem a seu to de procedimentos paraenriquecer o Estado, mas como conhecimento
encargo urna sociedade, urna sociedade civil, e é a gestáo dos P~essosA qu~ ligam as varíacóes de riquezas e as varíacóes de po-
dessa sociedade civil que o Estado deve assegurar. Muta- pulacáo em tres elXOS: producáo, drculacéo, consumo. Nascimento, pois,
cáo fundamental, está claro, em relacáo a urna razáo de Es- da economia política."
472 SEGlIRAN<;:A, TERRITORIO, POPULAQiO AULA DE S DE ABRILDE 1978
473

conhecimento científico indispensável ao governo. mas o ca, a riqueza se transforma, a riqueza aumenta ou dímínui,
que é muito importante é que nao é um conhecimento de Pois bem, por processos que nao sao os mesmos mas que sao
certo modo do próprio governo, interno ao govemo. Ou do mesmo tipo ou, em todo caso, que sao igualmente natu-
seja, já nao é, em absoluto, um conhecimento interno a~e rais, a populacáo vai se transformar, vaí crescer, decrescer,
de govemar, já nao é simplesmente um cálculo que devena. se ~eslocar. Existe pois urna naturalidade intrínseca a popu-
nascer no interior da prática dos que govemam. Ternos al lacáo. Eé p~r outro lado, outra característica específica da
urnaciencia que está de certo modo num cara a cara corn a populacáo e que se produz entre cada um dos individuos e
arte de govemar, ciencia que é exteriore que, mesmo quern todos os outros toda urna série de interacóes, de efeitos cir-
nao é govemante, mesmo quem nao participa dessa arte de culares, de efeitos de difusáo que fazem que haja, entre um
govemar, pode perfeitamente fundar, estabelecer, desen- indivíduo e todos os outros, um vínculo que nao é o vincu-
volver, provar de fio a pavio. Mas, das conseqüéncias dessa lo constituido e desejado pelo Estado, mas que é espontá-
ciencia, dos resultados dessa ciencia, o govemo nao pode neo. É essa lei da mecánica dos interesses que vai caracte-
prescindir. Logo, como voces estáo vendo, aparecime~to de rizar a populacáo. Naturalidade da populacáo, lei de com-
urna relacáo entre o poder e o saber, o govemo e a ciencia, posicáo dos interesses no interior da populacáo, eis que a
que é de um tipo bem particular. Essa espéci,; de unidade populacáo,como voces estáo vendo, aparece como urna rea-
que ainda continuava a funcionar, essa especie de mag- lidade muito mais densa, espessa, natural, do que aquela
ma, se voces quiserem,mais Gil menos confuso de urna.~e série de súdítos submetidos ao soberano e a intervencáo da
de govemar, que seria ao mesmo tempo saber e poder, cien- polícia, mesmo ern se tratando da polícia no sentido lato e
cia e decisáo, comeca a se decantare a se separar, e em todo pleno do termo, tal como era empregado no século XVII. E,
caso dois pólos aparecem: urna cientificidade que vai cada com isso, se a populacáo é efetivamente dotada dessa natu-
vez rnais reivindicar sua pureza teórica,que vai ser a econo- ralidade, dessa espessura e desses mecanismos intemos de
mía: e depois que vai reivindicar ao mesmo tempo o direi- regulacáo, voces véem que vai ser preciso que o Estado as-
to cÍe ~er levada em consideracáo por um govemo que terá suma, nao mais propriamente os indívíduos a serem sub-
de modelar por ela suas decis6es. Era o segundo ponto im- metidos, e a serem submetidos a uma regulamenta<;ao, mas
portante, a meu ver. essa nova realidade. Assuncáo da populacáo em sua natu-
Terceiro ponto importante nessa nova govemamenta- ralidade - vai ser o desenvolvimento de certo número, se
lidade é, evidentemente, o surgimento sob novas formas do nao de ciencias, pelo menos de práticas, de tipos de ínter-
problema da populacáo. Até entáo, no fundo, nao se trata- vencáo, que váo se desenvolver na segunda metade do sé-
va tanto da populacáo quanto do povoamento ou, também, culo XVIII. Vai ser, por exemplo, a medicina social, enfim o
do contrário da depopulacáo. Quantídade, trabalho, docili- que era chamado nessa época de higiene pública, váo ser os
dade, de tudo isso já falamos. Agora, a populacáo vaí apa- problemas da demografia, enfim tudo o que vai fazer surgir
recer como urna realidade ao mesmo tempo específica e re- urna nova funcáo do Estado, de assuncáo da populacáo em
lativa: relativa aos salários, relativa as possibilidades de tra- sua própria naturalidade. A populacáo como colecáo de sú-
balho, relativa aos preces, mas também específica, em dois ditos é substituida pela populacáo como conjunto de fenó-
sentidos. Prímeiro, a populacáo tem suas próprias leis de menos naturais.
transformacáo, de deslocamento, e é submetida a processos A quarta grande modifica<;aoda govemamentalidade é
naturais tanto quanto a própria riqueza. A riqueza se deslo- a seguinte: é que, se efetivamente os fatos de populacáo, os
474 SEGURAN<;:A, TERRITORIO, POPULA<;:AO AULA DE 5 DEABRILDE 1978 475

processos económicos obedecem a processos naturais, o que usurpacóes, aos abusos do soberano ou do govemo, mas [da]
isso quer dizer? Quer dizer, claro, que nao apenas nao ha- liberdade que se tornou um elemento indispensável a pró-
verá nenhuma justifícacáo, mas nao haverá nem mesmo in- pria govemamentalidade. Agora só se pode govemar bem se,
teresse algum em tentar !hes impor sistemas regulamenta- efetivamente, a liberdade ou certo número de formas de li-
res de ínjuncóes, de imperativos, de proíbícóes. O papel do berdade forem respeitados. Nao respeitar a liberdade é nao
Estado e, por conseguinte, a forma de govemamentalidade apenas exercer abusos de direito em relacáo a leí, mas é
que doravante vai!he ser prescrita, essa forma de govema- principalmente nao saber govemar corno se deve. A inte-
mentalidade vai ter corno principio fundamental respeitar gracáo das liberdades e dos limites próprios a essa liberda-
esses processos naturais OUt erotodo caso, levá-loserocon- de no interior do campo da prática govemamental tomou-
ta, fazé-los agir ou agir com eles. Ou seja, de urn lado, a in- se agora urn imperativo.
tervencáo da govemamentalidade estatal deverá ser limita- Voces estáo vendo corno se desarticula essa grande po-
da, mas esse limite posto a govemamentalidade nao será licia super-regulamentar, digamos assim, de que eu lhes ha-
simplesmente urna espécie de marco negativo. No interior via falado. Essa regularnentacáo do território e dos súditos
do campo assim delimitado, vai aparecer todo um domínio que ainda caracterizava a policia do século XVIT, tudo isso
de intervencóes, de intervencóes possíveis, de íntervencóes deve ser evidentemente questíonado, e vamos ter agora um
necessárias, mas que nao teráo necessariamente, que nao sistema de certo modo duplo. De urn lado, vamos ter toda
teráo de urn modo geral e que muitas vezes nao teráo em urna série de mecanismos que sao do dominio da econo-
absoluto a forma da intervencáo regulamentar. Vai ser pre- mía, que sao do dominio da gestáo da populacáo e que te-
ciso manipular, vai ser preciso suscitar, vai ser preciso faci- ráo justamente por funcáo fazer crescer as forcas do Estado
litar, vai ser preciso deixar fazer, vai ser preciso, ero outras e, de outro lado, certo apare!ho ou certo número de instru-
palavras, gerir e nao mais regulamentar. Essa gestáo terá es- mentos que váo garantir que a desordem, as irregularidades,
sencialmente por objetivo, nao tanto impedir as coisas, mas os ilegalísmos, as delinqüéncías sejam impedidas ou reprimi-
fazer de modo que as regulacóes necessárias e naturais das. Ou seja, o que era o objeto da policía, no sentido clás-
atuem, ou também fazer regulacóes que possibilitem as re- sico do termo, no sentido dos séculos XVII-XVIII - fazer a
gulacóes naturais. Vai ser preciso portanto enquadrar os fe- forca do Estado crescer respeitando a ordem geral -, esse
nómenos naturais de tal modo que eles nao se desviem ou projeto unitário vai se desarticular, ou antes, vai tomar COf-
que urna íntervencáo desastrada, arbitraría, cega, nao os faca po agora em instituicóes ou em mecanismos diferentes. De
desviar. Ou seja, vai ser preciso instituir mecanismos de se- um lado, teremos os grandes mecanismos de incentivo-re-
guranca, Tendo os mecanismos de seguran~a ou a interven- gulacáo dos fenómenos: vai ser a economía, vai ser a gestáo
cáo, digamos, do Estado essencialmente corno funcáo ga- da populacáo, etc. De outro, teremos, com funcóes simples-
rantir a seguranca desses fenómenos naturais que sao os mente negativas, a instituicáo da policia no sentido moder-
processos económicos ou os processos intrínsecos a popu- no do termo, que será simplesmente o instrumento pelo
Iacáo, é isso que vai ser o objetivo fundamental da govema- qual se impedirá que certo número de desordens se produ-
mentalidade. za. Crescimento dentro da ordem, e todas as funcóes posi-
Daí, enfím, a inscricáo da liberdade nao apenas corno tivas váo ser asseguradas por toda urna série de instituicóes,
direito dos individuos legítimamente opostos ao poder, as de aparelhos, de mecanismos, etc., e a elíminacáo da desor-
476 SEGURANc;:A. TERRITORIO, POPUlAc;:AO AUlA DE5 DEABRILDE 1978
477

dem - será essa a funcáo da polícia. Com isso, a nocáo de po- bram, como a pastoral e o governo dos homens tinham se
lícia se altera inteiramente, se marginaliza e adquire o sen- e~tabeleCldo [e] se dese:,volvido, com a intensidade que vo-
tido puramente negativo que conhecemos, ces sabem, na Idade Media, tínham suscitado, como proje-
Nurna palavra, pode-se clizer que a nova governamen- to de conduzir os homens, certo número de contracondu-
talidade que, no século XVII,tinha acreditado poder aplicar- tas, ou antes, como correlativamente tinham se desenvolvi-
se inteira nurn projeto exaustivo e unitário de policía, ve-se do a arte, o projeto e as institui~6es destinadas a conduzir
agora numa sítuacáo tal que, de urn lado, terá de se referir os homens e as contracondutas que se opuseram a isso: to-
a um domínio de naturalidade que é a economía. Terá de d.?s aqueles movimenjos de resistencia ou de transforma-
administrar populacóes. Terá também de organizar um sis- cao da conduta pastoral que enumerei. Pais bern, creio que
tema jurídico de respeito as liberdades. Terá enfim de se do- se podena clizer pratícamente a mesma coisa, em todo caso
tar de um instrumento de íntervencáo direto, mas negativo, fazer a mesma análise quanto a governamentalidade em
que vai ser a polícia. Prática económica, gestáo da popula- suaforma moderna. E, no fundo, eu me pergunto se nao po-
~ao, um direito público articulado no respeito a liberdade e denamos estabelecer urn certo número, nao digo exata-
as liberdades, urna polícia com funcáo repressíva. Como vo- mente d~ analogías, mas de certo modo de corresponden-
ces estáo vendo, o antigo projeto de polícia, tal como havia oas, Eu tinha procurado Ihes mostrar como, entre a arte pas-
aparecido em correlacáo com a razáo de Estado, se desarti- toral de conduzir os homens e as contracondutas que Ihe
cula, ou antes, se decomp6e entre quatro elementos - prá- e:am absolut",;,ente contemporárieas, voces tém toda urna
tica económica, gestáo da populacáo, direito e respeito as li- sene de intercámbíos, de apoios recíprocos, e era mais ou
berdades, polícia -, quatro elementos que vém se sornar ao menos das m:smas c".isas que se tratava. Pois bern, eu me
grande dispositivo diplomático-militar que, por sua vez, nao pergunto se nao podenamos fazer a análise do que poderla-
foi modificado no século XVIII. mos chamar de contracondutas no sistema moderno de go-
Ternos portanto a economía, a gestáo da populacáo, o vernamentalidade do seguinte modo: clizendo que, no fun-
direito, com o apareIho judicíárío, [o] respeito as liberdades, dO/~as contracondutas que vemos se desenvolver ero corre-
urn aparelho policial, urn apareIho diplomático, urn apareIho lacáo com a governamentalidade moderna tém como obje-
militar. Voces estáo vendo que é perfeitamente possível fazer to os mesmos elementos dessa governamentalidade, e que
a genealogía do Estado moderno e dos seus aparelhos, nao vimos se desenvolver; a partir de meados do século XVIII
precisamente a partir de urna, como eles dizem, ontologia toda urna série de contracondutas que térn essenciaiments
circular" do Estado que se afirma e cresce como urn grande por ?bJetívo, precrsamente, recusar a razáo de Estado e as
monstro ou urna máquina automática. Podemos fazer a ge- exigenoas fundamentais dessa razáo de Estado e que váo
nealogia do Estado moderno e dos seus diferentes apareIhos se apoiar naquil,? mesmo que essa razáo de Estado, através
a partir de urna história da razáo governamental. Sociedade, das transforma~oes que eu lhes havia indicado, havia termi-
economía, populacáo, seguranca, liberdade: sao os elemen- nado por fazer surgir, ou seja, justamente nestes elementos
tos da nova governamentalidade, cujas formas, parece-me, que sao a s.?credade oposta ao Estado, a verdade econ6mi-
ainda conhecemos em suas modifícacóes contemporárieas. ca ero relacáo ao erro, a.i~compreensao, acegueira, o inte-
Se voces me derem mais dois ou tres minutos, gostaria resse de todos em oposicao ao interesse particular, o valor
de acrescentar o seguinte. Tentei Ihes mostrar, voces se lem- absoluto da popula~ao como realidade natural e viva, a se-
478 SEGURAN<;:A, TERRIT6RIo, POPll!A(:40 AULA DE 5 DE ABRIL DE 1978 479

a
guran~a em relacáo ínseguranca e ao perigo, a liberdade dal da vassalagem, mas na forma de urna obediencia total e
a
em relacáo regulamentacáo. exaustiva, em sua conduta, a tudo o que pode ser urn impe-
De modo mais esquemático e para resumir tudo o que rativo do Estado. Agora vamos ver se desenvolverem con-
eu gostaria de ter dito a voces sob:e esse ponto, poderíam?s tracondutas, reivindica~6esna forma da contraconduta, que
dizer o seguinte. No fundo, a razao de Estado, como voces teráo como sentido o seguinte: deve haver um momento
se lembrarn, havia posto como primeira lei, lei de bronze.da em que a populacáo, rompendo com todos os vinculos de
governamentalidade moderna e, ao mes~o tempo, da cien- obediencia, terá efetivamente o direíto, nao em termos jurí-
cia histórica, que agora o homem deve vrver em um tempo dicos, mas em termos de direitos essenciais e fundamentaís,
indefinido. Governos sempre haverá, o Estado sempre esta- de romper todos os vinculos de obediencia que ela pode ter
rá aí e nao esperem por urna parada. A nova historicidade com o Estado e, erguendo-se contra ele, dizer doravante: é
da razáo de Estado excluía o Império dos últimos tempos, minha leí, é a lei das minhas exigencias, é a lei da minha
excluía o reino da escatologia. Contra esse tema que foi for- própria natureza depopulacáo, é a lei das minhas necessi-
mulado no fim do século XVI e que ainda permanece hoje dades fundamentais que deve substituir essas regras da obe-
em dia vamos ver se desenvolverem contracondutas que diencia. Escatologia, por conseguinte, que vai tomar a forma
teráo p~ecisamente por principio afirmar 9ue virá o ter;'po a a a
do direito absoluto revolta, sedícáo, ruptura de todos
em que o tempo terminará, que tem [terao] por pnncipio os vínculos de obediencia - o direito a própria revolucáo,
colocar a possibilidade de urna escatología, de urn tempo Segunda grande forma de contraconduta.
último, de urna suspensáo ou de urn acabamento do tem- E, enfím, a propósito da razáo de Estado, tentei !hes
po histórico e do tempo político, o momento, por assnn di: mostrar como ela implicava que o Estado OU os que o repre-
zer, em que a governamentalidade indefinida do Es~do sera sentam é que sao os detentores de urna certa verdade sobre
detida e parada por o que? Pois bem, pela emergencia de os homens, sobre a populacáo, sobre o que acontece dentro
algo que será a própria sociedade. No dia em que a SOCle- do território e na massa geral constituída pelos individuos.
dade civil puder se emancipar das injuncóes e das tutelas do O Estado como detentor da verdade - a esse tema, as con-
tracondutas váo opor este: a própria nacáo, em sua totali-
Estado, quando o poder de Estado puder enfim ser absorvi-
dade, deve ser capaz, nurn momento dado, de deter exata-
do por essa sociedade civil- essa soci;dade civil que eu pro- mente, em cada um dos seus pontos bem como em sua
curei !hes mostrar como nascia na propna forma, na propna
massa, a verdade sobre o que ela é, o que ela quer e o que
análise da razáo governamental-, com isso, o tempo, se nao
ela deve fazer. A idéia de urna nacáo titular do seu próprio
da historia, pelo menos da política, o tempo do Estado ter-
saber, ou ainda a idéia de urna sociedade que seria transpa-
minará. Escatologia revolucionária que nao parou de ator- rente a si mesma e que deteria a sua própria verdade, mes-
mentar os séculos XIX e XX. Primeira forma de contracon- mo que, aliás, seja um elemento dessa populacáo ou tam-
duta: a afirmacáo de urna escatologia em que a sociedade bém urna organizacáo, um partido, mas representativo de
civil prevalecerá sobre o Estado. toda a populacáo, a formular essa verdade - de todo modo,
Em segundo lugar, procur;i!hes mostrar como a ra:ao a verdade da sociedade, a verdade do Estado, a razáo de Es-
de Estado colocou como pnncipro fundamental a obedien- tado, nao cabe mais ao próprio Estado deté-las, é a nacáo
cia dos individuos e o fato de que, doravante, os vinculos de inteira que cabe ser titular delas. Aqui também, terceira gran-
sujeicáo dos individuos já nao deviam se fazer na forma feu- de forma, -a meu ver, de contraconduta, que,comovoces es-
480 SEGURAN<;A, TERRITÓRIO, POPULAc;AO
AULA DE5 DEABRIL DE1978
481
tao vendo, se opóe termo a termo ao que caracteriza a ra-
záo de Estado tal como ela surgiu no século XVI, mas que se •
apóia nessas diferentes nocóes, nesses diferentes elemen-
tos que apareceram na própria transformacáo da razáo de Era o que eu queria lhes dizer. Tuda o que eu ueria fa-
Estado. ~r este ano era urna pequena ,;xperiencia de mé~do para
Quer se oponha a sociedade civil ao Estado, quer se es mostrar que, a parnr da análise relativamente local re-
oponha a populacáo ao Estado, quer se oponha a nacáo ao la~varnerte microscópica dessas formas de poder caracteri-
Estado, como quer que seja, esses elementos é que foram za as pe o pastorado, a partir daí, era perfeitamente ossí-
postos em jogo no interior dessa géncse do Estado e do Es- ve\relO que sem par~doxo nem contradícáo, chegfr aos
tado moderno. Sao portanto esses elementos que váo en- pro ema.:' gerais que sao os do Estado, contento, iustamen-
trar em jogo, que váo servir de objetivo ao Estado e ao que te, que [nao en¡am?s] o Estado [como] urna reali¿ade trans-
se opóe a ele. E, nessa medida, a história da razáo de Esta- cende~te cuja hístóría poderia ser feita a partir dela mesma
do, a história da ratio governamental, a história da razáo A ~Istona do Estado deve poder ser feita a partir da ' ..
governamental e a história das contracondutas que se opu- pratica dos homens, a partir do que eles fazem e da manei-
seram a ela nao podem ser dissociadas urna da outra." ~a como pensam. O Estado como maneira de fazer; o Esta-
o como manerra de pensar. Creio que essa - ' [
mente], a única possibilidade de análise que t:~:'q~:~~
,.M. Foucault deixa de lado as duas últimas páginas do manuscri-
to, nas quais, definindo os movimentos revolucionários como "contra-
q~eremos fazer a história do Estado, mas é urna das ossi-
condutas, ou antes, tipos de contracondutas que eorrespondem a essas
bilidades, a meu ver, suficientemente fecunda, fecun&dade
formas de sociedade ero que o 'govemo dos homens' tomou-se um dos ~s,sa ligada, n? meu entender, ao fato de que se ve que nao
atributos da socied.ade, quandonao sua funcáo essencial", examinabre- a, entre o ruvel do micropoder e o nível do macro oder
vemente a q~estao da sua "heranca religiosa": al~o como urn corte, ao fato de que, quando se falaPnum'
[nao] se excluí falar no outro. Na verdade um áli '
Invoca-se coro freqüéncía a heranca religiosa dos movimen- term d . , aan seem
tos revolucionários da Europa moderna. Ela nao é direta. Ou, ero difi ~~ de mlcropod~res compatibiliza-se sem nenhurna
todo caso, nao é urna filiacáo ideología religiosa - ideologia revo- no ~oa e cdom a análise de problemas como os do gover-
lucionária. O vínculo é mais complexo e nao póe ero relacáo ideo-
Est a o.
logias. Ao pastorado estatal se opuseram contracondutas que to-
maram emprestados ou modularam alguns dos seus temas com
base nas contracondutas religiosas. t antes, do lado das táticas
antipastorais, das fraturas cismáticas ou heréticas, do lado das lu-
tas em tomo do poder da 19reja, que se deve procurar a razáo de
certa colorecáo dos movimentos revolucionáríos. Em todo caso,
há fenómenos de ñlíacáo real: o socialismo utópico tem [certa-
mente?] raízes bem reais, nao em textos, livros ou idéias, mas em
práticas identificáveis: comunidades, colónias, organízecóes reli- veu?] o processo revolucionário? A nao ser que num fs d
giosas, como os quakers nos Estados Unidos, na Europa Central, trutur tataI fr ' pars e es-
. a ~s aca, de desenvolvimento económico forte e de or
[...] e fenómenos de parentesco [ou] alternativa: o metodismo e a g~~ao pastoral múltipla, as revoltas de conduta possam te d-
Revolucáo Francesa. Questao de ideologia religiosa que [absor- quirido muito mais [paradoxahnente?] a forma "arcai "d r a -
nova pastoral. ca e urna