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Resenha Frederico Morais: Reescrevendo a História da Arte Latino-

Americana
A vocação construtiva da arte latino-americana

A Arte Latino-Americana é marginalizada e descontextualizada desde os


primórdios, sendo de uma certa forma “excluída” e considerada uma cultura
sem originalidade, que nada cria e que meramente repete estéticas e
movimentos.

Com séculos de imposições e um isolamento sociocultural e artístico, tão


grande que nos causa afastamento de nosso próprio contexto histórico, com
padrões e valores nos sendo impostos. Temos artistas, que desde muito tempo
integraram o ecúmeno da arte universal, como temos arte, isto é, teorias
estéticas. Sendo um cotidiano fortemente ligado à política, problemas sociais e
econômicos.
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Participante de uma cultura a ser descoberta, conquistada e antes dessa tal


conquista, a arte deu-se à conquista. O Barroco serviu à dominação política da
América Latina. Decorrendo sobre nós a arrogância das culturas dominantes
sobre o privilégio da novidade, definindo as regras da temporalidade. Em
função disso condenam as culturas periféricas a serem meros receptores de
mensagens alheias. Elevando-se cada vez mais as noções de poder
econômico e capital, além de atuar de forma que vanglorie interesses
econômicos e certos clubes seletos de artistas e curadores.

A arte latino-americana tem uma vocação para a arte construtiva. Um


construtivismo impuro, que não exclui a figura e o símbolo, a mancha e as
imprecisões da linha. E é fato que tanto nós quanto os estrangeiros
desconhecem seu território e raízes a qual pertencem, tanto por questões de
diversidade geográfica quanto pela sempre praticante “Ação Civilizadora”
desde o deslocamento para o novo mundo.

Havendo a persistência de vários estereótipos interpretativos da arte latino-


americana, sendo deixadas de lado quaisquer raízes e tradições
locais/regionais. Os países latino-americanos também sempre serviram de
refúgio por conta das guerras.

Cada país tendo sua particularidade cultural, fazendo com que determinados
artistas se deslocassem para esses territórios. Por exemplo vinculados ao
Surrealismo, Wofgang Paalen e Leonora Carrington (realizado em 1940 uma
exposição internacional do Surrealismo, ou a movimentação do meio cultural
mexicano com conferências e artigos para a imprensa por Arhaud e Breton).
Muitos atuando de forma independente ou como arte educadores, como o caso
de Vieira da Silva, portuguesa naturalizada francesa, vivendo uma
contemplação de modestas exposições e obras de como foi sua visão de
Brasil. E a dispersão do grupo surrealista na Europa por decorrência da
segunda guerra.
Importante ressaltar que, o que antes era uma mera “cultura do exílio”, hoje
sendo uma expansão da arte latino-americana, que vem conseguido cada vez
mais espaço e participação nos circuitos de arte internacional. O que antes era
tratado com aversão, aos poucos foi se integrando, ganhando olhares, críticas
e colaborações, com uma expansão por todo o mundo e criando meios de
influência consideráveis para a arte mundial.

Mesmo nas revisões da história da arte a partir dos anos 60 (Com Nova York
sendo o principal centro consumidor e emissor de arte, e a Europa seguindo a
mesma vereda), não foi considerada de forma plena e suficiente a influência
que a arte latino-americana exerceu e ainda exerce em ambos continentes e as
pinceladas iniciais de interesse por temas de interesses específicos.

Há o distanciamento e aproximação de movimentos e artistas pelo mundo,


performances e ensinamentos, tudo gerando uma grande movimentação e
renovação cultural, por mínima que seja. Como exemplo a Arte Povera, o
Grupo Zero (ramificado na Alemanha e participação de Almir Mavignier).

Na América Latina os artistas como os revolucionários se reúnem para dar


respostas imediatas a situações contingenciais. Reúnem-se para opinar,
protestar, interferir nos processos sociais e políticos. Construir uma história da
arte latino-americana significa desconstruir a história da arte metropolitana.
Significa incluir na história da arte universal a diferença.

O artista do centro parece desconhecer sua identidade, pois supõe que possui
de origem, porém exige do artista latino-americano que prove todo tempo sua
identidade. E sobretudo, a história da arte valorizando mais particularmente
vanguardas com momentos de rupturas, e se esquecendo dos
desdobramentos e importância dessa revitalização em outros países.

“Um espaço instável, que se caracteriza pelo trânsito permanente entre


extremos, uma arte que desliza, armando pontos entre tendências opostas.
Construtivismo híbrido”. O cinetismo latino-americano que teve intrínseca no
Barroco (e agora barroco mestiço), perspectivas neoconcretos, o potlach e a
arte numa fronteira entre psicologia e terapia, estruturas da cor de Oiticica.
Diversos espacialismos, do moderno ao contemporâneo.