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Apontamentos de DUE

CAPÍTULO 1 – DA CRIAÇÃO DAS COMUNIDADES EUROPEIAS ATÉ AO ACTO ÚNICO

 Século XIV – emergência de uma ideia de Europa que se


identifica com a liberdade, a cristandade e a civilização.
 Século XVI e XVII – contributos significativos para a evolução
da ideia de Europa (reacção contra a proliferação e difusão de
poderes provenientes da Idade Média, a centralização politica
impõe-se com o surgimento do Estado moderno – passa a ter
um poder exclusivo e independente em diversos domínios).
 Século XVIII – a Europa afirma-se um lugar onde coexistem
múltiplas comunidades politicas que partilham um
determinado modo de vida e que se fundamenta no progresso,
na civilização, na aprendizagem e na cultura.
 Século XX – completa afirmação da Europa e da identidade
europeia.
Semelhança entre a Europa e os EUA: economia de mercado e
democracia constitucional;
Diferença entre a Europa e os EUA: matéria de Estado social e
proibição da pena de morte.

A identidade europeia (art. 1º e 2º TUE) define-se a partir da existência de


determinadas semelhanças que aproximam mais os Estados e os povos da Europa uns dos
outros do que de terceiros – laços de solidariedade entre ambos. A identidade europeia
pressupõe a identificação dos cidadãos como um determinado modelo económico, social e
politico protagonizado pela União. A identidade da UE leva ainda a que os terceiros a
reconheçam como um todo.
Cidadania da UE (art. 20º e seguintes TFUE) implica a atribuição de determinados
direitos aos nacionais dos Estados Membros (EM), também contribui para a criação de uma
coexistência europeia que se afirma pela pertença a algo que os outros estão excluídos – a UE.
A existência de uma moeda única é outro factor importante da identidade europeia.

 Antes da II Guerra (século XVII ao século XIX):


Existiram 3 projectos que visavam tanto a construção de uma
federação europeia como a concertação dos príncipes e soberanos que
travavam lutas. Por esta última situação nenhum dos projectos
vigorou.
Um novo projecto (SAINT SIMON) visava substituir o sistema de
organização política do Estado Nação por um sistema central
soberano. Os Estados europeus seriam governados pelos parlamentos
nacionais, devendo ser criado um parlamento europeu para decidir
sobre as questões de interesse comum. Esta proposta rompia a
tradição do Estado Nação que imperava naquela altura, por isso não
vigorou.

 Depois da II Guerra:
A reconciliação entre a Alemanha e a França tornava-se crucial.
No final de 1947 cria-se um Comité Internacional de Coordenação, o
qual se convoca em Haia em 1948 para discutir a questão da unidade
da Europa, no qual se defrontam duas teses:
- A tese federalista, que pretendia uma instituição imediata de uma
federação política;
- A tese unionista, que defendia os contractos intergovernamentais.
A tese aceite no final foi a tese unionista.

 Plano de recuperação económica da Europa (Plano Marshall):

Aprovado em 1948, dirigiu todos os Estados da Europa. A Rússia e os


seus aliados recusaram as negociações.
O plano impunha a criação de uma organização, destinada a geri-lo, o
que implicava o entendimento dos países da Europa para o utilizar da
forma mais eficaz, o que acabou por unir os países da Europa. A OECE
poderia ter sido o ponto de partida de uma integração económica e
política europeia, no entanto a Inglaterra opôs-se a qualquer perda de
soberania, o que inviabilizou o papel político da organização.

A OECE tinha como objectivo o relançamento económico, a eliminação


das restrições ao comércio inter-europeu e a instituição de uma União
Europeia de Pagamentos que facilitasse o desenvolvimento das trocas
comerciais entre os países membros. Os seus objectivos foram
rapidamente cumpridos, extinguindo-se a organização, e nascendo a
OCDE, a qual detém fins mais amplos e é alargada aos EUA e ao
Canadá.

 Em maio de 1949 alguns países da europa assinaram o Estatuto do


Conselho da Europa. O seu principal objectivo é a protecção dos
direitos humanos.

 ANOS 50 – a criação das comunidades Europeias

 CECA (comunidade europeia do carvão e do aço):


Assinado em 1951 e em vigor em 1952, destinava-se a vigorar por 50
anos, a sua validade expirou em 2002, a partir daí o carvão e o aço
passam a estar sujeitos ao regime actual, neste caso o TFUE.
O tratado da CECA representou uma limitação da soberania dos
Estados e uma inovação qualitativa das relações internacionais. Este
tratado tinha dois tipos de objectivos, políticos e económico-sociais.
O tratado criou órgãos como a Alta Autoridade, a Assembleia, o
Conselho e o Tribunal.

 CEE (Comunidade económica europeia) e Euratom:


Estabelecia objectivos que afectavam o núcleo de soberania dos
Estados-membros. Os seus objectivos incluíam a paz e a união dos
povos europeus, o estabelecimento de bases comuns ao
desenvolvimento económico, o progresso económico e social e a
melhoria constante das condições de vida e de emprego dos povos da
Europa.
Órgãos: Conselho, Comissão, Assembleia Parlamentar, Tribunal de
Justiça.
As relações entre a Comunidade e os seus EM baseavam-se na
comunhão de interesses de um vínculo de solidariedade.
O Tratado da CEE tinha uma vigência ilimitada, o que não impediu a
sua modificação aquando a revisão dos tratados em Maastricht –
passou a designar-se Comunidade Europeia (CE).

 ANOS 60 – um período de estagnação?

 O Reino Unido que tinha ficado de fora da CE decidiu criar com alguns
Estados europeus, a EFTA, que tinha objectivos essencialmente
económicos, situando no plano intergovernamental.

 A crise da cadeia vazia e os acordos de Luxemburgo:


A França adoptou uma política de cadeira vazia, ou seja recusou-se a
participar nas reuniões do Conselho. A crise só foi ultrapassada em
1966, pelos acordos de Luxemburgo.
Estes acordos instituíram o direito de veto dos Estados do Conselho,
sempre que estes entendessem que estavam em causa os seus
interesses vitais. Antes de ser levada a votação a conselho, o EM
poderia invocar os seus interesses vitais para impedir a votação, o que
dava a qualquer Estado um direito de veto em relação a qualquer
assunto.
O afastamento da regra da maioria qualificada viria a afectar as regras
de decisão previstas no Tratado, bem como a forma de relacionamento
dos órgãos no processo de decisão.
O Reino Unido em 1967 renovou o pedido de adesão à CE e a França
voltou a vetar a sua entrada.

 ANOS 70 – Cimeira de Haia

 Na cimeira de Haia foram tomadas varias decisões no sentido da


concretização do qua aí tinha sido acordado. A primeira delas
prendeu-se com a abertura de negociações com os Estados candidatos
à adesão, em 1970.
A crise monetária internacional, a crise militar do Médio Oriente e a
crise energética tornaram impossível aos Estados chegarem a posições
comuns.
Na cimeira de Haia em 1971 foi aprovada uma resolução do Conselho
tendente à instauração de uma união económica e monetária, por
etapas. O plano não vingou. Apesar disso, em 1971 decidiu-se criar
uma união económica e monetária em 3 etapas, no entanto a crise
mundial não era propícia a esta união.
Na cimeira de Paris de 1974 decidiu-se a criação do Conselho Europeu,
e na sequência aprovou-se a eleição do Parlamento Europeu por
sufrágio directo e universal.

 ANOS 80 – o impulso do Acto Único Europeu


 Em 1981 deu-se o segundo alargamento da CE. O tratado de adesão de
Portugal e Espanha entrou em vigor em 1986.
As comunidades passado algum tempo confrontam-se com varos
problemas.
Em primeiro lugar, devido ao compromisso do Luxemburgo, as
Comunidades viviam uma certa paralisia institucional que era
necessário ultrapassar.
Em segundo lugar, o Parlamento Europeu reclamava uma maior
participação no procedimento legislativo, desde que se previa a sua
eleição por sufrágio universal e directo, alegando que as Comunidades
sofriam de défice democrático.
Em terceiro lugar, era necessário reformular a política agrícola comum,
a qual absorvia percentagens muito elevadas do orçamento
comunitário que eram canalizadas para os agricultores franceses e
alemães, enquanto o maior contribuinte era o Reino Unido era o maior
contribuinte líquido.
Em quarto lugar, por força dos sucessivos alargamentos, as
Comunidades apresentavam uma maior heterogeneidade, dado que os
Estados que a compunham detinham níveis de desenvolvimento muito
diferentes, ao contrário do que acontecia com os 6 membros
fundadores.

 Principais modificações introduzidas pelo AUE:


- Respeito pela democracia, pelo Estado de direito e pelos direitos
fundamentais;
- O sistema institucional;
- O mercado interno;
- A introdução de novas políticas comuns e da coesão económica e
social;
- O alargamento das atribuições externas da Comunidade;
- A cooperação política europeia.

O AUE reconheceu a competência de execução da Comissão, dado que


o Conselho nos actos que adoptava deveria atribuir à Comissão
competência de execução das normas que estabelecia.
A alteração mais relevante foi a da reposição da regra de votação, por
maioria, no seio do Conselho, a qual constava da versão originária dos
Tratados, mas tinha sido afastada pelos acordos de Luxemburgo.
O AUE introduziu a base jurídica necessária para a criação do Tribunal
de Primeira Instância.
No domínio da politica externa, o AUE consagrou as práticas já
existentes em matéria de cooperação politica europeia, devendo
igualmente considerar-se que lançou as bases para a criação de uma
política externa e de segurança comum que viria a constituir o
segundo pilar governamental do TUE.

 A Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda, a França e a Alemanha, assinaram


em 1985 os acordos Schengen, no qual se indicavam quais os sectores
em que era necessário harmonizar as respectivas políticas e encetar
formas de cooperação entre os respectivos responsáveis.
 A Carta Comunitária dos Direitos Sociais Fundamentais dos
Trabalhadores foi aprovada no Conselho Europeu em 1989. Apesar de
não ter efeitos jurídicos vinculativos, a Carta Comunitária vai
desempenhar um papel importante no futuro, desde logo, devido à
influência que vai exercer na CDFUE em matéria de direitos sociais.

CAPÍTULO 2 – DA CRIAÇÃO DA UNIÃO EUROPEIA AO TRATADO DE NICE

 O Tratado da UE assinado em Maastricht

 O AUE gerou uma dinâmica de desenvolvimento na integração


europeia, que acabou por se revelar impulsionadora do avanço para
etapas de integração económica mais evoluídas, como é o caso da
união económica e monetária.
As conferências intergovernamentais que abriram formalmente em
1990, em Roma, acordaram concentrar-se nos seguintes aspectos:
- A legitimidade democrática;
- A PESC – definição dos interesses comuns dos Estados na matéria e
na criação de um quadro institucional específico;
- A cidadania;
- O alargamento das atribuições comunitárias em matéria social, de
coesão económica e social, de meio ambiente, de saúde, de
investigação, de energia, de infra-estruturas e de património cultural e
educacional e dos assuntos internos e de justiça;
- A eficácia.
Entretanto tinha ocorrido o Conselho Europeu de Roma, em 1990. Os
trabalhos das conferências intergovernamentais decorreram durante
cerca de um ano. O texto da alteração dos tratados foi aprovado em
1991, tendo sido assinado em 92.

O tratado da união europeia tal como resultou de Maastricht já não se


encontra em vigor, a maior parte das soluções já foram objecto de
modificações.

 Coube ao tratado de Maastricht proceder à criação da UE, a qual


apresentava uma estrutura tripartida, das três comunidades, e
assentava em 2 pilares:
A PESC: conjunto das questões relativas à segurança da UE, incluindo a
definição do termo de uma política de defesa;
A CJAI: construção de um mercado sem fronteiras internas, no qual as
mercadorias, as pessoas, os serviços e os capitais circulavam
livremente, tornou clara a necessidade de regras comuns em matéria
de asilo, de imigração, de controlo das fronteiras externas, de luta
contra a criminalidade internacional, de cooperação judicial em
matéria penal e civil e de polícia.

A UE era assistida por um quadro institucional único, ou seja, por


órgãos com competência para a prossecução dos objectivos: o
Conselho Europeu, o Parlamento Europeu, o Conselho, a Comissão e o
Tribunal de Justiça.

Um aspecto que mereceu atenção da conferência intergovernamental


foi a protecção dos direitos fundamentais. Porque à medida que os
objectivos da Comunidade iam estendendo, tornava-se cada vez mais
nítido o carácter incompleto das soluções encontradas neste domínio.
Tendo em consideração os objectivos políticos da UE, o TUE não podia
deixar de consagrar a protecção dos direitos fundamentais no
articulado. A protecção dos direitos fundamentais dirigia-se tanto aos
nacionais dos EM como aos nacionais de Estados terceiros, o que
conduziu a uma concepção mais abrangente do que a preconizada aé
ao TUE.

O TUE procedeu a uma reformulação da repartição de atribuições


entre as Comunidades Europeias e os seus EM, tendo consagrado
novas atribuições à CE, que deixou de se denominar CEE. De entre
estas novas atribuições é de salientar a matéria da união económica e
monetária.
Para compensar a perda de soberania dos Estados, o TUE impôs o
respeito das identidades nacionais e da cultura dos Estados e
introduziu o princípio da subsidiariedade. Deste modo procurou-se um
equilíbrio entre o poder político individual de cada Estado e o poder
político comum da UE.

Princípio da subsidiariedade: estava consagrado no TUE, ou seja, nos


domínios que não sejam das suas atribuições exclusivas, a
Comunidade intervém apenas, de acordo com este princípio, se e na
medida em que os objectivos da acção encarada não possam ser
suficientemente realizados pelos EM, e possam, devido à dimensão ou
aos efeitos da acção prevista, ser melhor alcançados ao nível
comunitário.
O princípio aplicava-se às matérias de atribuições concorrentes entre
os EM e as Comunidades, estando excluída a sua aplicação às
atribuições exclusivas da Comunidade, bem como às atribuições
reservadas aos EM.

As alterações institucionais tiveram como principal objectivo a


aproximação da UE aos seus cidadãos, tendo tentado aumentar a sua
participação na vida política comunitária. Os resultados alcançados
não foram satisfatórios. Muitas das normas introduzidas em
Maastricht não tiveram consequências positivas que eram de esperar.
As regra relativas ao procedimento legislativo, embora possam ter
contribuído para o tornar mais democrático, não contribuíram para o
tornar mais eficaz. As regras de nomeação da Comissão bem como as
relativas ao seu controlo político também não conseguiram atingir os
objectivos inicialmente traçados.
Do ponto de vista institucional, o tratado de Maastricht introduziu
alterações no domínio da competência do TJ, as quais forçaram o
papel do Peno contencioso comunitário, mas também o papel dos
cidadãos, uma vez que o PE é por eles eleito directa e universalmente.

Flexibilidade: o tratado de Maastricht introduziu a possibilidade de não


participação de alguns Estados em áreas de vital importância para as
Comunidades, a união económica e monetária, a política social e os
pilares intergovernamentais.
O tratado de Maastricht marcou o fim da tentativa de obter consenso
de todos os EM para os avanços mais significativos e de assegurar a
participação de todos.
No domínio da política social, o tratado de Maastricht continha um
protocolo que integrava um acordo em matéria social entre apenas 11
Estados, tendo o Reino Unido ficado de fora. A flexibilidade assentava
num acordo internacional, mas utilizavam-se as instituições, os
procedimentos e os mecanismos do Tratado CE. A cessação desta
forma de diferenciação não se encontrava prevista no protocolo nem
no acordo, mas com a mudança de Governo no Reino Unido, esse veio
a pôr fim ao acordo e passou a incorporar a política social após o
Tratado de Amesterdão.
Em sede de pilares intergovernamentais (PESC e CJAI) previa-se a
possibilidade de alguns Estados avançarem para formas de cooperação
mais estreitas.

 Tratado de Amesterdão

 O tratado de Amesterdão entrou em vigor em 1999. Foram


estabelecidos dois objectivos da revisão do Tratado de Amesterdão, a
consolidação e a melhoria da UE enquanto entidade central e a coesão
de uma posição privilegiada ao cidadão enquanto principal
destinatário na revisão.

 Tratado de Nice

 O tratado de Nice introduziu alterações significativas:


- À reforma institucional;
- Às cooperações reforçadas;
- À suspensão dos direitos de um EM;
- A algumas políticas;
- À PESC;
- Ao terceiro pilar.

 Os objectivos da CDFUE

 A carta não visava criar direitos novos, mas sim tornar visíveis os
direitos já existentes que constituíssem património comum dos
europeus, aumentando a segurança jurídica e a consequente
protecção dos cidadãos.
Um dos principais objectivos da convenção que elaborou a Carta terá
sido conferir-lhe carácter vinculativo, através da sua inserção no TUE.
Porém, cedo se verificou a ausência de consenso quanto a este
aspecto, pelo que a CDFUE acabou por ser solenemente proclamada
pela Comissão, pelo PE e pelo Conselho e politicamente aprovada
pelos EM, no Conselho Europeu de Nice em 2000.

CAPÍTULO 3 – A REFUNDAÇÃO DA UE – DO TECE AO TRATADO DE LISBOA

 Antecedentes do TECE

 O Conselho Europeu de Laeken de 2001, decidiu convocar uma


convenção para assegurar uma preparação tão ampla e transparente
quanto possível da futura conferência intergovernamental.
A convenção sobre o futuro da Europa foi encarregue de formular
propostas sobre 3 matérias:
- Aproximação dos cidadãos do projecto europeu e das instituições
europeias;
- A estruturação da vida política e do espaço político europeu numa UE
alargada;
- A consagração da UE num factor de estabilização e uma referência na
nova ordem mundial.
A convenção tinha por missão examinar as questões essenciais que se
colocavam ao futuro desenvolvimento da UE e procurar as diferentes
respostas possíveis, par o que estabeleceria um documento final que
poderia compreender tanto diferentes opções, precisando o apoio que
cada uma delas tinha recolhido, como recomendações em caso de
consenso.
A convenção sobre o futuro da Europa iniciou os seus trabalhos em
Fevereiro de 2002 e funcionou em 3 fases distintas de acordo com a
agenda que ela própria estabeleceu:
- A fase das audições: decorreu em 2002 e desenvolveu os seus
trabalhos no plenário;
- A fase do exame: iniciou-se em 2002 e caracterizou-se pelo trabalho
em grupo e em círculos de discussão.
- A fase das propostas: a fase das propostas decorreu durante toda a
primeira metade de 2003, tendo-se então discutido os projectos
concretos e revisão dos tratados.

O projecto de tratado que estabelece uma Constituição para a Europa


acabou por ser adoptado por consenso, ou seja, não foi votada na
convenção. Após a sua aprovação, foi entregue ao presidente do
Conselho Europeu em 2003.
O projecto apresentava uma estrutura quadripartida.

O projecto aprovado pela Convenção constitui a base de trabalho da


CIG 2003. Ficou decidido que a CIG reuniria somente ao nível dos PM e
dos PR, sendo as reuniões preparadas pelos Ministros dos Negócios
Estrangeiros.
Após uma primeira tentativa de aprovação de um exto, a CIG chegou a
um consenso aprovando o texto do TECE.
Texto em questão respeitava as opções fundamentais bem como o
equilíbrio global do projecto aprovado pela Convenção. Também
foram introduzidas alterações em relação aos aspectos que não
tinham sido consensuais na Convenção, como foi o caso das questões
institucionais. A composição da Composição, a ponderação de votos
no seio do Conselho, a definição da maioria qualificada, as formações
do Conselho, as regras relativas à designação do Presidente do
Conselho Europeu foram alguns dos temas que ocuparam a CIG.
O TECE não chegou a entrar em vigor.

Ao longo de 2005 foram efectuados referendos ao TECE em 4 EM, dois


dos quais foram no sentido da ratificação e outros foram negativos.
Na sequência dos resultados dos referendos negativos suspenderam
os seus processos de ratificação.
Os resultados dos referendos negativos mergulharam a Europa numa
profunda crise político-institucional, tendo o Conselho Europeu de
2005 adoptado uma declaração que iniciava um período de reflexão
sobre o que fazer no futuro e prometia retomar a questão na primeira
metade de 2006. Em 2006, o Conselho Europeu reavaliou o problema,
tendo decidido prolongar o período de reflexão e instado a Presidência
a apresentar um relatório, no qual se avaliasse o estado da discussão
em relação ao TECE e se explorassem as possibilidades de
desenvolvimentos futuros.

 Tratado de Lisboa

 O tratado de Lisboa foi assinado em 2007. A ratificação do tratado teve


obstáculos como a realização de um referendo pela Irlanda, sujo
resultado foi negativo.
Em 2009 o segundo referendo da Irlanda foi positivo.
O último obstáculo à ratificação do tratado de Lisboa veio da República
Checa, cujo processo parlamenta tinha sido suspenso devido à
fiscalização da constitucionalidade requerida pelo Senado sobre a
compatibilidade constitucional da CDF e de algumas disposições do
tratado com a constituição checa. O Tribunal decidiu no sentido da não
inconstitucionalidade.
Ultrapassado este último obstáculo o Presidente checo ratificou o
Tratado de Lisboa, o qual entrou em vigor em 2009.

 O Mecanismo Europeu de Estabilidade assumirá as atribuições que


actualmente são cometidas ao Fundo Europeu de Estabilidade
Financeira e ao Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira para a
prestação de assistência financeira aos EM da área do euro.

CAPÍTULO 4 – A UE COMO UNIÃO DE ESTADOS E DE CIDADÃOS

 A personalidade jurídica da UE

 Personalidade jurídica interna: susceptibilidade de alguém ser titular


de direitos e de obrigações provenientes do Direito Interno.
 Personalidade jurídica internacional: susceptibilidade de alguém ser
titular de direitos e de obrigações provenientes do Direito
Internacional.
 Primeiramente o TJ decidiu que a Comunidade Europeia dispunha
apenas de capacidade jurídica internacional, no entanto esta questão
não resolvia a questão de a UE ter ou não personalidade jurídica.
 Posteriormente foi defendido que a ausência de uma precisão
expressa nos tratados a atribuir essa personalidade à UE não implicaria
por si só a sua inexistência.
O Tratado de Maastricht não se pronunciou de modo expresso sobre a
personalidade jurídica internacional da UE, mas permitiu colocar a
questão da sua consagração implícita.
A existência ou não de personalidade jurídica internacional da UE
dependia da resposta que se desse à questão se saber se a UE exercia,
nalgum caso autonomamente os direitos e prerrogativas inerentes à
subjectividade internacional.
O Tratado de Amesterdão introduziu um preceito (art. 24º TUE) que
permitia ao Conselho celebrar acordos internacionais no domínio dos
pilares intergovernamentais, o que levou alguma doutrina a
interrogar-se se era uma consagração da personalidade jurídica
internacional da UE.
A resposta positiva a esta pergunta dependia de averiguar se o
Conselho quando agia o fazia em nome da UE ou em nome dos EM.
Estes acordos não implicavam qualquer transferência de competência
para a UE, o que parecia apontar no sentido de que continuavam a ser
os Estados a deter da competência externa nas matérias dos pilares
intergovernamentais, e não a UE.
 A dualidade da capacidade internacional da UE e das Comunidades
Europeias prejudicava a segurança e a certeza jurídica nas negociações
com terceiros. Era necessário resolver a questão, assim, a Convenção
sobre o Futuro da Europa declarou que no futuro a UE deveria dispor
de personalidade jurídica e que essa personalidade deveria ser única e
substituir as personalidades das Comunidades até aí existentes.
 O TECE acabou por acolher a solução relativa à personalidade,
consagrando a personalidade jurídica internacional da UE no seu
art.6º. No entanto este tratado nunca veio a entrar em vigor, pelo que
no tratado de lisboa ainda nada estava consagrado.
 O Tratado de Lisboa resolve a questão, consagrando a personalidade
jurídica internacional da UE no art. 47º TUE.
 Assim, a UE é responsável por violações do Direito Internacional que
lhe sejam imputáveis e até pelas que são imputáveis aos seus EM.

 Valores da UE:

 Dignidade Humana (art. 2º TUE): é a porta de entrada para os direitos


à vida, à integridade do ser humano, para a proibição da tortura ou
dos tractos ou penas desumanos ou degradantes, da escravatura e do
trabalho forçado. A violação destes direitos implica dos mais graves
atentados à dignidade humana. Esta é a base dos direitos
fundamentais. Os art 18º e seguintes do TFUE devem ser interpretados
e aplicados com base no valor da dignidade humana.
 Liberdade: implica o respeito pela liberdade física do individuo, que
inclui a livre circulação dentro de um determinado espaço territorial, a
liberdade de expressão, de informação, de consciência, de religião e de
culto, de associação e de criação cultural. Politicamente este valor
aparece ligado à ideia de democracia e impõe uma relação
democrática entre governantes e governados, o que implica o direito
de votar e ser eleito para cargos públicos.
 Democracia: implica que o poder provém do povo, é exercido pelo
povo e para o povo. Os cidadãos devem eleger os órgãos de decisão
política, devem poder participar na adopção das decisões políticas e
devem dispor do poder de controlar os governantes. A democracia não
se esgota numa única concretização, sendo compatível com um leque
mais abrangente. A democracia pressupõe uma sociedade aberta e
activa. O objectivo da criação de uma UE mais democrática, mais
transparente e mais eficaz tenha vindo a ser afirmado nas sucessivas
revisões dos Tratados.
 Igualdade: a proibição da discriminação em função da nacionalidade e
a igualdade de remuneração entre homens e mulheres
desempenharam um papel fundamental o Direito Comunitário.
 Estado de direito: está directamente relacionado com o valor da
democracia, segundo o qual o exercício dos poderes públicos implica a
sujeição dos titulares dos órgãos a regras jurídicas previamente
estabelecidas. Visa conciliar a necessidade de realização das tarefas
públicas por parte dos órgãos do Estado com o respeito dos direitos
dos indivíduos.
- Dimensão formal: é um Estado onde a separação de poderes, a
independência dos tribunais, a legalidade da administração, a
protecção jurídica contra actos do poder público bem como a
indemnização pelos danos causados pela administração aos
particulares é assegurada.
- Dimensão material: é um Estado onde é assegurada a execução
destes princípios, designadamente através da vinculação
constitucional do legislador e do respeito dos direitos fundamentais.
A UE na medida em que exerce poderes que antes pertenciam aos EM
tem de observar os mesmos princípios que os EM observariam se
fossem eles a actuar.
O valor do Estado de direito impõe a existência de tribunais
independentes e imparciais capazes de assegurar o respeito da Ordem
Jurídica em causa.
 O respeito pelos direitos fundamentais: a transferência de poderes dos
EM para a UE não deve converter-se numa diminuição da protecção
das pessoas.
 A suspensão dos direitos de um EM por desrespeito dos valores da UE
(art. 7º TUE).

Falta o capítulo da Cidadania e o resto deste.

CAPÍTULO 6 – AS ATRIBUIÇÕES DA UE

 Princípios que regem as atribuições da UE

 Princípio da cooperação leal (princípio da solidariedade ou da


lealdade) (art.4º/3 TUE): existe uma comunhão de interesses que
fundamenta vínculos de solidariedade entre a UE e os seus EM e vice-
versa, assim como entre os EM entre si. Este princípio é a
manifestação de um princípio mais vasto, o da boa-fé.
A UE só conseguirá exercer plenamente as suas tarefas se existir uma
total colaboração, cooperação e fidelidade do seus EM, pois a UE
serve-se das administrações nacionais para executar o seu direito e do
aparelho judiciário dos EM para o aplicar.

 Princípio do acervo da UE (art.1º 3ª parte TUE): impõe aos Estados que


aderiram à UE um dever de respeitar na íntegra todo o seu direito, no
estádio de desenvolvimento em que se encontre, bem como todas as
decisões políticas tomadas até ao momento da sua adesão.
Do ponto de vista jurídico, os ovos Estados devem respeitar as
disposições dos tratados originários e dos actos adoptados pelo órgão
da União.
Do ponto de vista político, os novos Estados ficam vinculados pelas
decisões e acordos adoptados pelos representantes dos Governos
reunidos no seio do Conselho e por todas as declarações, resoluções
ou outros actos adoptados pelos EM, de comum acordo, em relação às
Comunidades.
Alguma doutrina retirava deste princípio a irreversibilidade do
processo de integração europeia aos Estados aderentes no respeito de
todas as obrigações provenientes do DUE, isso significava que não
podia haver retrocesso o processo de integração.
Após o Tratado de Lisboa esta posição deixou de ser aceite pois tanto
o TUE como o TFUE admitem o retrocesso do processo de integração
europeia em vários artigos (48º/2 e 49º TUE, 2º/2 TFUE).

 Princípio do respeito pelas identidades nacionais (art.3º/3 4ª parte


TUE): o Tratado impõe o respeito da identidade cultural dos EM como
também o respeito da sua identidade jurídica.
 Princípio da atribuição: implica a determinação precisa dos fins
justificativos do reconhecimento da personalidade jurídica e um
ajustamento funcional do exercício da capacidade aos fins a atingir. A
UE apenas dispõe de capacidade para praticar os actos necessários à
prossecução dos seus fins. Este princípio aplica-se tanto em matéria
interna como externa.
A UE não dispõe de competências próprias, logo, as atribuições de que
dispõe são-lhe conferidas pelos Estados (art. 4º/1 TUE).

 Princípio da subsidiariedade (art.5º/3 TUE): incide sobre o exercício


das atribuições devendo estar previamente definida a atribuição
respectiva. O princípio acaba por constituir um filtro entre a atribuição
da UE e a possibilidade de exercer a competência, na medida em que a
UE só pode exercer uma determinada competência depois de passar o
crivo daquele princípio.
O princípio da subsidiariedade deve ser enquadrado no movimento de
constitucionalização da UE, através do qual se dá uma maior
participação aos cidadãos no processo de integração europeia e um
reforço do princípio democrático. Este princípio visa aproximar a
decisão o mais possível dos cidadãos.

 Princípio da proporcionalidade: ao nível d controlo das medidas


estaduais, o princípio serviu para o TJ aferir se as medidas que
impediam a realização de certos objectivos da Comunidade (livre
circulação e livre concorrência) podiam considerar-se justificadas pela
prossecução de outro objectivos comunitários igualmente relevantes.
O princípio visou regular os conflitos proveniente dos exercício de
poderes por parte dos EM entre a prossecução de um determinado
objectivo e o prejuízo que a medida poderia implicar para outros
objectivos cuja legitimidade também era reconhecida pelo Direito
Comunitário.

 Princípio da flexibilidade: permite a um ou mais EM não participarem


em determinadas realizações da UE quer por não o quererem quer por
não preencherem os requisitos dessa participação.
A flexibilidade se não obedece a regras bem definidas poderá pôr em
causa o bom funcionamento das instituições da UE bem como o seu
sistema legislativo, pois é susceptível de conduzir a uma excessiva
fragmentação assim como a alguma incoerência da actuação da UE.
A flexibilidade assume duas formas distintas:
- A expressa consagração nos tratados de cláusulas de opt-out para
alguns EM em relação a certas matérias;
- As cláusulas de cooperação reforçada (art. 20º TUE).
CAPÍTULO 7 – A ESTRUTURA INSTITUCIONAL E ORGÂNICA DA UE

 Princípio da competência de atribuição (art. 13º/ 1 e 2 TUE):

Este princípio aplica-se quer ao nível das pessoas colectivas de Direito Privado quer das
pessoas colectivas de Direito Público.
Os órgãos de uma pessoa colectiva qualquer que ela seja só podem exercer a
competência que lhes foi atribuída pelo acto constitutivo dessa pessoa colectiva. Assim, as
atribuições da pessoa colectiva estão distribuídas pelos seus vários órgãos, de modo que cada
órgão deve exercer a sua competência na medida do que lhe foi conferido pelo acto
constitutivo. Este princípio fundamenta-se no facto de a personalidade colectiva só fazer
sentido para a prossecução de determinados fins, pretendendo-se evitar que os órgãos de
determinada pessoa colectiva extravasem das suas competências, em violação do objectivo
para que foram criados.
Pode existir confusão entre o princípio da atribuição (ou da especialidade) e o princípio
da competência por atribuição, no entanto o princípio da atribuição refere-se à atribuição de
poderes à própria UE por parte dos EM (art. 4º/1 e 5º/1 TUE), enquanto o princípio da
competência por atribuição se foca a competência das instituições, dos órgãos e dos
organismos.

 Princípio do equilíbrio institucional:

A competência das instituições, dos órgãos e dos organismo da UE está distribuída, de


modo a que nenhum deles possa afastar os outros da tomada de decisão e dominar
totalmente o sistema jurídico da UE.
A função legislativa e a orçamental estão atribuídas ao Parlamento e ao Conselho (art.
14º/1 e 16º/1 TUE), a função de controlo político pertence ao PE (art. 14º/1 TUE), o qual
dispõe também de funções consultivas em conformidade com as condições estabelecidas nos
tratados.
O TUE dispõe que o Conselho Europeu não exerce funções legislativas (art. 15º/1 TUE).
O Conselho exerce também funções na definição das políticas e de coordenação em
conformidade com as condições estabelecidas nos tratados (16º/1 TUE). O direito de iniciativa
compete geralmente à Comissão.
A Comissão representa o interesse geral da UE (art. 17º/1 TUE), participa no poder
legislativo ao nível do direito de iniciativa.
Em regra, a execução dos actos da UE compete às Administrações Nacionais (art.291º
TFUE).
O poder judicial compete ao TJUE e aos tribunais nacionais, pois por força dos
princípios da aplicabilidade directa e do efeito directo, os cidadãos podem invocar as normas
da UE ao nível jurisdicional nacional.
Embora não se possa afirmar que existe um princípio de separação de poderes
clássico, a distribuição dos poderes entre as instituições e os órgãos da UE nelas previstos,
procuram atingir um determinado equilíbrio que não deve ser posto em causa e que visa a
limitação do poder político da UE.
 Princípio da coerência institucional (art. 13º/1 TUE):

O facto de as competências das instituições e dos órgãos serem distintas, levou à


necessidade de consagração do princípio da coerência, de modo a que o exercício de certa
competência não prejudique nem anule as outras.

 Princípio democrático (art. 9º, 10º/1,2,3 e 4, 11º/ 1, 2 e 4, e 12º do TUE).

 Instituições:

 Parlamento Europeu: a partir de1979 o PE passou a ser eleito por


sufrágio universal e directo (art. 223º/1 1ª parte TFUE e art.14º TUE). A
competência para definir as disposições necessárias para este efeito é
do Conselho que deve deliberar por unanimidade, de acordo comum
processo legislativo especial e após aprovação do PE, que se deve
pronunciar por maioria dos membros que o compõem.
O estatuto dos deputados tem vindo a variar ao longo dos anos (art.
223º/2 TFUE), o PE, por meio de regulamentos adoptados por
iniciativa própria, de acordo com um procedimento legislativo
especial, estabelecerá o estatuto e as condições gerais de exercício das
funções dos seus membros, após parecer da Comissão e aprovação do
Conselho.
A organização e funcionamento do PE estão presentes no TFUE art.
223º a 234º.
Competências do PE:
- Art. 14º/1 TUE – o PE exerce juntamente com o Conselho a função
legislativa e a função orçamental;
- Art. 289º/1 TFUE – procedimento legislativo ordinário;
- Art. 218º/6 alínea a) TFUE – participação na conclusão de acordos
internacionais;
- Art. 234º TFUE – competência para aprovar uma moção de censura;
- Art. 226º TFUE – competência de controlo político;
- Art. 88º/2 e 85º/1 TFUE – controlo da Europol e Eurojust.

 Conselho Europeu: o conselho europeu teve a sua origem num acto


informal dos EM, num comunicado na Cimeira de Paris. Segundo o
comunicado, o Conselho Europeu devia desempenhar uma dupla
função. Por um lado, deveria ocupar-se dos assuntos comunitários e,
por outro, deveria configurar-se como órgão da cooperação política
europeia.
O Conselho europeu está presente no TUE no art. 15º e no TFUE nos
artigos 235º e 236º.
 Conselho: o Conselho está presente no TUE art. 16º e no TFUE ar. 237º
a 243º.
As regras de votação no seio do Conselho suscitam muitas
dificuldades, pois delas depende o exercício do poder de decisão na UE
bem como a sua plena eficácia.
A aprovação das decisões no seio do Conselho e do Conselho Europeu,
por maioria qualificada, depende de uma tripla maioria, o que em
nada contribui para a simplificação nem para a maior eficiência do
processo.
A ponderação de votos no seio do Conselho confere aos Grandes um
aumento de poder. Este poder é ainda reforçado pela relevância que
poder ser dada à população para o apuramento da maioria qualificada,
o que aumenta a possibilidade de os Estados mais populosos
bloquearem as decisões do Conselho, com o apoio de poucos.
Esta regra de ponderação de votos no Conselho baseia-se no receio de
certos Estados de diluição do seu peso no seio da UE e da sua
consequente perda de poder com os dois alargamentos a leste. Ou
seja, a questão que está em causa é a de saber quem na prática
domina a UE. São os interesses egoístas dos Estados e o correlativo
medo da perda de soberania que estão na base destas regras e não
quaisquer ideias democráticas.
Competências do Conselho:
- Art. 16º/1 TUE – aprovar actos legislativos e para aprovar o
orçamento;
- Art. 352º TFUE – competência no domínio do alargamento das
competências das instituições da UE;
- Art. 311º 3ª parte TFUE – competência para aprovar decisões de
natureza constitucional;
- Art. 223º TFUE – eleição dos deputados;
- Art. 291º/2 TFUE – competência de execução de actos juridicamente
vinculativos.

 Comissão: sempre se tratou de um órgão independente dos EM. A


Comissão está presente no TUE no art. 17º e no TFUE no art. 244º a
250º.

 Alto Representante da UE: presente no art. 18º TUE.

 Tribunal de Justiça da UE: inicialmente era composto por 7 juízes e 2


advogados-gerais. Com as primeiras adesões o número de juízes
aumentou para 15 e o de advogados para 8.
O Tratado de Nice adoptou que cada Estado deveria ter um juiz. O
Tratado de Lisboa retomou a regra do Tratado de Nice.
O TJUE está presente no art. 19º TUE e nos artigos 251º a 281º TFUE.
A reunião do TJUE tem 3 níveis:
- Secções: compostas por 3 e 5 juízes, os quais elegem os seus
presidentes. No caso das secções de cinco juízes, estes soa eleitos por
3 anos e podem ser reeleitos uma única vez;
- Grande Secção: é composta por 13 juízes e pelos presidentes das
secções de 5 juízes, assim pelos juízes designados nas condições
estabelecidas. A Grande Secção é presidida pelo Presidente do
Tribunal. O quórum de deliberação é de 9 juízes. O tribunal reúne
assim sempre que um EM ou um órgão da UE que seja parte na
instância o solicitem;
- Pleno: é composto por todos os juízes do TJUE, presidido pelo
Presidente do TJUE. O quórum de deliberação é de 15 juízes, ou seja,
metade mais um do número de juízes. O TJUE reúne em pleno nos
casos previstos no art. 16º parte 4 do Estatuto. Além disso, se o
Tribunal considerar que a causa e de excepcional importância pode
remetê-la para o Pleno, depois de ouvido o advogado-geral.
Do exposto resulta que a regra é a da apreciação do processo pelas
Secções, sendo a formação em Grande Secção ou em Pleno a
excepção, ao contrário do que sucedia até Nice.
Dentro do TJUE existe:

 Tribunal Geral: o TFUE estabelece a competência do TG no art.


256º.
O TG está previsto no TUE no art. 19º, e no TFUE nos artigos
251º a 281º.
A organização e funcionamento do TG estão previstos no art.
50º do Estatuto.

 Tribunal da Função Pública (TFP): este tribunal teve por


objectivo melhorar o funcionamento do sistema judicial da UE
através do descongestionamento do TG e permitir a adaptação
às particularidades do contencioso em causa.
A sua base jurídica está presente no art. 257º TFUE. O TFP tem
competência para conhecer dos litígios entre a UE e os seus
agentes – art. 270º TFUE.
A sua composição está presente no anexo 1 ao Estatuto.

 Banco Central Europeu (BCE): está previsto nos artigos 282º a 284º do
TFUE.

 Tribunal de Contas: está previsto nos artigos 285º a 287º do TFUE.

 Órgãos consultivos da UE:


- Comité Económico e Social – art. 13º/4 TUE e 300º/1 TFUE.
- Comité das Regiões – art. 300º/ 3, 305º a 307º TFUE;
- Provedor de Justiça – 228º TFUE.

CAPÍTULO 8 – OS PROCEDIMENTOS DE DECISÃO DA UE

A UE por intermédio do seu pilar comunitário, tinha o poder de estatuir normas


jurídicas de carácter geral, abstracto e inovador, pelo que não havia dúvida de que se exercia a
função legislativa. Também existia um certo consenso no sentido de que quando o Tribunal de
Justiça decidia as questões que lhe eram submetidas a UE estava a exercer a função
jurisdicional.
Os principais problemas colocavam-se quanto à função administrativa ou de execução
e quanto à sua distinção em relação à função legislativa, pois tano a Comissão como o
Conselho desempenhavam tarefas que se podiam considerar com fazendo parte destas
funções.
O ordenamento jurídico da UE não conhecia a distinção entre a função legislativa e a
função de execução, confundindo ambas a nível orgânico, competencial e formal. No entanto
esta distinção é fundamental para a eficiência do sistema jurídico da UE.
O Tratado também apenas reconhecia um poder de decisão que atribuía
expressamente ao Conselho e à Comissão e também ao PE juntamente com o Conselho. Deste
poder resultavam 3 tipos de actos: regulamentos, directivas e decisões.
Antes do Tratado de Lisboa existia um conjunto de Comités no sistema institucional
comunitário, os quais actuavam em matéria legislativa e administrativa. A função dos grupos
de apoio aos comités era de assessoria em matérias específicas.

 Os procedimentos após o Tratado de Lisboa

Um dos objectivos do Tratado de Lisboa foi conjugar a reforma dos procedimentos de


decisão da UE com os seus instrumentos jurídicos, tendo em vista a simplificação, o reforço da
legitimidade democrática e o aumento da eficiência, por duas vias:
- Por um lado, a eliminação da estrutura tripartida da UE levou à unificação dos seus
instrumentos jurídicos com a consequente eliminação dos instrumentos jurídicos dos antigos
segundo e terceiro pilar. Assim, a partir do Tratado de Lisboa, os regulamentos, as directivas e
as decisões passaram a constituir direito derivado de toda a UE.
- Por outro lado, o Tratado de Lisboa introduziu uma distinção entre actos legislativos e actos
não legislativos, com o intuito de clarificar o sistema, (art. 289º TFUE).

 Procedimentos de adopção de acto legislativos

Tal como sucedia antes do Tratado de Lisboa, o poder legislativo da UE está distribuído
por várias instituições da UE, sendo que nenhuma delas se pode considerar legislador da UE.

Em relação à iniciativa:
Esta consta do art. 17º/2 do TUE, com excepção no ar. 76º do TFUE que permite que a
iniciativa provenha de ¼ dos EM.
O PE e o Conselho não detêm o direito de iniciativa legislativa, mas ambos podem
solicitar à Comissão que lhes submeta as propostas adequadas sobre as questões que
considerem requerer a elaboração dos actos da UE para efeitos de aplicação dos tratados (art.
225º e 241º TFUE).
Com o art. 11º/4 o TUE introduziu uma inovação no domínio da iniciativa legislativa. O
PE e o Conselho já adoptaram o regulamento previsto no art. 24º TFUE que estabelece os
procedimentos e as condições da iniciativa de cidadania.

O processo legislativo ordinário (art. 294º TFUE).

Os processos legislativos especiais:


Podem ser definidos como aqueles que permitem a adopção de um acto legislativo
segundo modalidades diferentes do processo legislativo ordinário (289º/2).
A determinação do processo legislativo especial em cada caso concreto depende pois
das várias disposições dos tratados, devendo sublinhar-se que são muitos os processos do
TFUE que mencionam o recurso a este processo, cujos intervenientes e as fases diferem de uns
casos para os outros.
O actual processo legislativo especial alberga os anteriores processos de consulta e de
parecer favorável ou aprovação do PE.
O Conselho decide em regra por unanimidade podendo em casos limitados decidir por
maioria qualificada. O Conselho não tem obrigação nenhuma de seguir o parecer do PE, que
não é vinculativo, embora seja em muitos casos obrigatório. A sua falta implica a violação de
formalidades essenciais e consequente susceptibilidade de interposição de um recurso de
anulação por parte das entidades com legitimidade para tal (263º TFUE). O PE deve ser
consultado de novo quando a proposta se afasta sensivelmente da versão inicial.
Um outro processo legislativo especial é o processo de aprovação pelo PE. O Conselho
decide com base numa proposta da Comissão, após aprovação do PE. O Tratado de Lisboa
reduz os casos de aplicação deste processo, sendo necessária a aprovação do PE nos casos
previstos nos artigos 19º/1, 86º/1, 311º 4ª parte, 312º/2 e 352º/1 TFUE.

 Processo de adopção de actos não legislativos:

3 Tipos de actos não legislativos:


- Os actos que resultam directamente de uma disposição específica dos tratados;
- Os actos delegados através dos quais um acto legislativo autoriza a Comissão a completar ou
alterar certos elementos não essenciais de um acto legislativo;
- Os actos de implementação da Comissão ou do Conselho quando sejam necessárias
condições uniformes de aplicação dos actos juridicamente vinculativos da UE.

Os actos legislativos que resultam directamente dos tratados são adoptados por
diversas instituições que deliberam de acordo coma regra de votação presente nos tratados.
Nem sempre a proposta da Comissão é obrigatória e a influência do PE também não é
uniforme, mas fica seguramente muito aquém do processo legislativo ordinário.
Os actos delegados (290º TFUE): constituem uma tentativa de ultrapassar as
dificuldades anteriormente enunciadas relativamente à função executiva da UE, submetendo-a
a um certo controlo legislativo.

Os actos de execução (291º TFUE).

CAPÍTULO 9 – AS FONTES DE DIREITO DA UE

 Direito Originário:

É constituído pelos tratados institutivos da Comunidades


Europeias e, actualmente, da UE bem como por todos aqueles
que os modificaram, completaram ou adaptaram.
Actualmente a mais importante fonte de Direito Originário
que se encontra fora dos tratados institutivos é a CDFUE. O
seu art. 6º/1 reconhece-lhe o mesmo valor jurídico que os
tratados.
Os 3 tratados originais são o da CECA, o TCEE e o CEEA.
O TUE e o TFUE têm o mesmo valor jurídico (art. 1º parte 3
TUE), o que significa que não se verifica qualquer relação de
subordinação entre ele. Pode-se dizer que a Ordem Jurídica da
UE se funda nestes 2 tratados e nenhum deles é auto-
suficiente.

O âmbito de aplicação temporal dos tratados está previsto no


art. 53º TUE e no 356º TFUE, os quais estabelecem que os
tratados têm vigência ilimitada.
Os tratados não se aplicam de modo igual a todos os EM, o
que significa que nem todas as normas dos tratados se
aplicam no território enunciado.

A revisão dos tratados (art. 48º TUE).

 Direito Derivado (288º TFUE):

A natureza de um acto não depende da sua qualificação, mas


sim do seu conteúdo. O próprio TUE admite que uma decisão
pode ter a forma de um regulamento (263º 4ª parte),
podendo ser impugnada pelos particulares. Além disso, o TJ já
admitiu recurso contra recomendações e pareceres, que se
destinem a produzir efeitos jurídicos próprios e obrigatórios,
ou seja, quando sob a capa de um acto facultativo se mascara
um acto obrigatório.
Existem também um princípio da presunção da legalidade a
favor das normas e dos actos da UE. Contudo, os actos
afectados por vínculos particularmente graves e evidentes
podem ser considerados pelo TJ como inexistentes. Tratando-
se de uma situação que põe em causa o princípio da segurança
jurídica, o TJ só a título excepcional tem recorrido a este
expediente.
Segundo o art. 296º TFUE, verifica-se um dever de
fundamentação em relação a todos os actos jurídicos da UE. A
fundamentação deve incluir a menção expressa da base
jurídica do acto bem como as propostas, iniciativas,
recomendações, pedidos ou pareceres obrigatoriamente
obtidos por força do tratado. A fundamentação também deve
fazer referência às razões que levaram à aprovação do acto
dentro de uma certa margem de discricionariedade.
Segundo o art. 297º TFUE, os actos legislativos são publicados
no Jornal Oficial da UE.
A entrada em vigor do Direito Derivado depende igualmente
do tipo de acto que está em causa (art. 297º/2 TFUE).

 O regulamento (288º TFUE) é o instrumento


normativo da UE que mais se assemelha À lei a nível
interno, por força da generalidade, da abstracção e da
eficácia erga omnes.
Não tem destinatários designados ou identificáveis,
tem categorias abstractamente consideradas e no seu
conjunto.
A obrigatoriedade do regulamento diferencia-o dos
actos vinculativos e dos actos obrigatórios. Os Estados
não podem aplicar o regulamento selectivamente ou
de forma incompleta, não podem invocar disposições
do seu Direito interno para não o aplicarem e não
podem impedir a execução do regulamento com base
no facto de terem expresso serias reservas aquando a
sua aprovação.
O regulamento é directamente aplicável na UE e está
apto a conferir direitos e impor obrigações aos EM,
aos seus órgãos e aos particulares, à semelhança da lei
nacional.
Após o Tratado de Lisboa ficou claro que os
regulamentos adoptados segundo o processo
legislativo ordinário ou especial constituem actos
legislativos. Mas existem outros que a doutrina
considera quase legislativos – actos delegados, e os
actos de execução.

 A directiva (288º 3ª parte TFUE): a directiva tanto


pode ser um acto legislativo como não legislativo. Esta
distingue-se do regulamento na medida em que
vincula apenas quanto ao resultado a alcançar,
deixando aos EM a competência quanto à forma e aos
meios.
Os Estados têm o dever de proceder à transposição
das directivas para o Direito interno, pois a directiva
para se aplicar aos particulares necessita de ser
transposta para o Direito interno, pelo que a norma
será interna e não da UE.
Se os Estados não transpusessem a directiva nos
prazos nela previstos os indivíduos ficariam
desprotegidos e em desigualdade de circunstâncias
com os nacionais de outros EM, para impedir que isto
acontecesse, o TJ considerou que se verificados certos
requisitos, as normas das directivas podem produzir
efeitos em relação a indivíduos mesmo antes da sua
transposição. O efeito directo resulta da necessidade
de proteger os cidadãos contra a inércia do Estado.

 A decisão (288º 4ª parte): a decisão é obrigatória em


todos os seus elementos. Pode ou não ter efeito
directo, em função dos seus destinatários e do seu
conteúdo. A decisão que se dirige aos particulares ou
às empresas pode ser invocada em tribunal
directamente, pelo que não é necessário recorrer ao
efeito directo.
A solução muda quando a decisão se dirige aos EM,
pois neste caso poder-se-ia defender que só as
medidas nacionais de aplicação seriam susceptíveis de
modificar a situação jurídica dos particulares. No
entanto o TJ reconheceu globalmente o efeito directo
da decisão. (ACÓRDÃO FRANTZ GRAD)

 As recomendações e os pareceres (288º TFUE): não


são vinculativos. A recomendação sugere um certo
comportamento do destinatário e adopta-se por
iniciativa do seu autor, enquanto o parecer expressa
uma opinião de um órgão com respeito a uma
situação e emite-se por iniciativa de outro órgão ou
sujeito de direito da UE muitas vezes no âmbito de um
processo de formação de um acto vinculativo ou como
pressuposto processual.
Os destinatários dos pareceres e das recomendações
podem ser os EM e os particulares determinados ou
indeterminados.
Se a emissão do parecer ou recomendação for
obrigatória a sua ausência acarreta um vício – violação
de formalidades essenciais (263º TFUE).

 Os actos não previstos no 288º TFUE:


- Resoluções;
- Conclusões;
- Programas de acção;
- Comunicações;
- Códigos de conduta.

 O Direito Internacional: tipos de acordos


internacionais que podem ter relevância nas fontes:

- Os acordos da UE, na meteria em que esta tem


competência exclusiva, pode celebrar acordos com
Estados terceiros ou Organizações internacionais pelos
quais fica vinculada tal como os seus EM (216º/2
TFUE);

- Acordos mistos, os acordos têm de ser concluídos


entre a UE e os seus EM e os terceiros e outros
sujeitos de DI;

- Acordos pré UE, acordos celebrados pelos EM com


terceiros antes da criação da UE ou da adesão. Assim,
segundo o art. 351º TFUE estes acordos mantêm-se
em vigor, em obediência à regra pacta sunt servanda e
ao princípio da relatividade dos tratados.
Na medida em que tais convenções não sejam
compatíveis com os tratados, o Estado ou os EM em
causa farão todos os possíveis para eliminar as
incompatibilidades existentes.

 A Jurisprudência do TJUE: podem distinguir-se 4


métodos de interpretação:

1º. Interpretação em função da intenção dos autores


das normas. Trata-se do método subjectivista, o qual
deixa pouca margem para a criação jurisprudencial.
2º. Método textual, em que o juiz parte do texto para
resolver as dificuldades de interpretação, o juiz
recorre ao contexto, à interpretação gramatical, ao
efeito útil e à confrontação entre várias versões
linguísticas.

3º. Método teleológico ou funcional, o juiz baseia-se


nos objectivos dos textos que pode interpretar
livremente, de acordo com a evolução politica, social e
económica. É o método mais apropriado para
completar as disposições de alcance genérico e as
disposições incompletas e integrar as respectivas
lacunas.

4º. Método sistemático, o TJUE apela ao contexto em


que as disposições se inserem, chegando a abranger o
próprio sistema geral dos tratados.

Em suma, o TJUE privilegia o método objectivista da


interpretação e a interpretação extensiva, embora
aceite que as excepções e derrogações às normas da
UE devem ser interpretadas restritivamente.

 Costume: não é considerado fonte do direito a maior


parte das vezes, no entanto a doutrina por vezes
fundamenta no costume certas práticas dos órgãos
não previstas nos tratados para lhes poder conferir
vínculo jurídico.

 Doutrina: prima pela abundância, ou até pelo excesso,


o que nem sempre tem correspondência na sua
qualidade.

 A hierarquia das fontes:

1º. TUE, TFUE e CDFUE;


2º. Direito Originário prevalece sobre o restante DUE;
3º. Direito Derivado;
4º. Jurisprudência;
5º. Costume;
6º. Doutrina.

CAPÍTULO 10 – AS RELAÇÕES ENTRE O DUE E OS DIREITO INTERNOS DOS EM


 Primado

 A existência no mesmo espaço jurídico de dois ordenamentos distintos


potencialmente aplicáveis aos mesmos casos propicia o aparecimento de
conflitos entre as normas provenientes de cada um deles, pelo que se afigura
necessário definir regras de hierarquia normativa.
Verificam-se frequentemente conflitos entre as regras do Direito Internacional
e regras dos Direitos internos, bem como normas proveniente do DUE e
normas inseridas nos direitos dos EM.
No DI, o princípio do primado da norma internacional sobre a norma nacional,
que lhe é contrária dispõe que uma parte num tratado não pode invocar as
disposições do seu Direito interno para justificar a não execução de um
tratado, pois:
i. Só faz sentido falar de primado se houver um conflito entre duas
normas provenientes de ordenamentos jurídicos distintos
potencialmente aplicáveis no mesmo espaço jurídico a um caso
concreto, se se conseguir eliminar o conflito através da interpretação
da norma, não se justifica o recurso ao primado;
ii. Este só se coloca quando a norma de DUE for directamente aplicável
na Ordem Jurídica nacional;
iii. Se houver conflito, a solução que dos dois ordenamentos jurídicos em
causa preconizam para este pode não ser coincidente. O DUE afirma o
primado com carácter absoluto e incondicional afirma que toda a
norma da UE prevalece sobre toda a norma de Direito Nacional. O
direito dos EM aceita o primado mas apenas com carácter relativo, ou
seja, certas normas nacionais estão fora do alcance do primado.
iv. Também se verifica algum desacordo relativamente à questão de
saber quem é o último árbitro deste conflito, se para o DUE só pode
ser o TJ, já para os Direitos Nacionais não é necessariamente assim.

 Até ao Tratado de Lisboa, não existia qualquer referencia expressa à


supremacia do DUE sobre os Direitos nacionais, o TJ desenvolveu a sua
jurisprudência no sentido da afirmação do princípio do primado do DUE sobre
os Direitos nacionais.

 Acórdão Costa ENEL: o direito nascido do tratado não poderia ver-se


judiciariamente opor um texto interno qualquer que ele seja, sem
perder o seu carácter comunitário e sem que seja posta em causa a
base jurídica da própria Comunidade;
 Acórdão Internationale Handelsgesellschaft: o TJ acrescenta que a
possível violação dos direitos fundamentais, tal como estão vinculados
na constituição de um EM, bem como a violação dos princípios de uma
estrutura constitucional nacional não afectarão a validade de um acto
da Comunidade ou do seu efeito sobre o território desse Estado.
 Acórdão Simmenthal: todo o juiz nacional tem a obrigação de aplicar
integralmente o direito comunitário e de proteger os direitos que este
confere aos particulares, deixando inaplicável toda a disposição
eventualmente contrária da lei nacional, seja ela anterior ou posterior
à regra comunitária.

 Alguma Doutrina reclamou a aplicação a teoria da inexistência à norma


jurídica interna contrária ao Direito Comunitário. O TJ reafirmou e
desenvolveu a jurisprudência Simmenthal: não pode deduzir-se que a
incompatibilidade com o direito comunitário de uma norma de direito
nacional posterior tenha como efeito determinar a inexistência desta.
O TJ interpretou a jurisprudência Simmenthal no sentido da inaplicabilidade da
norma nacional contrária à norma comunitária.
O TJ reafirmou que por força do primado do Direito Comunitário, um conflito
entre uma norma nacional e uma disposição directamente aplicável no
Tratado deve ser resolvido pelo Tribunal nacional no sentido da aplicação do
Direito Comunitário. Os poderes das autoridades administrativas e tribunais
nestes domínios devem ser determinados por cada EM.
É aos tribunais nacionais que compete assegurar a prevalência da norma
comunitária sobre a norma especial.
Enquanto os tribunais internacionais afirmaram o primado da norma
internacional no seio da Ordem Jurídica internacional, nunca se tendo
pronunciado sobre a forma como os Estados o deveriam assegurar ao nível
interno, o TJ foi mais além e afirmou o dever dos Estados de assegurar o
primado ao nível interno.
Do ponto de vista do TJ, a relação que se estabelece entre o DUE e os direitos
dos EM revela-se diferente da relação entre o Direito internacional e os
direitos dos Estados.
De acordo com o TJ, a Ordem Jurídica da UE e as Ordens Jurídicas nacionais
deveriam articular-se entre si, de modo a permitir a plena aplicação de ambas.
O TJ concebeu um sistema específico de colaboração entre as duas Ordens
Jurídicas que não foi decalcado do Direito Internacional nem nos Direito
federais.

 O TJ retirou o primado do princípio da cooperação leal, do princípio da não


discriminação em razão da nacionalidade e do carácter obrigatório e
directamente aplicável dos regulamentos.
 As normas da UE prevalecem sobre todas as normas de Direito Interno
incluindo o próprio direito Constitucional dos EM.

 O TJ impôs às autoridades dos EM um conjunto de deveres, dos quais se


destacam:
- A não aplicação do Direito Nacional incompatível;
- A interpretação conforme do Direito nacional como o Direito Comunitário
(DUE);
- A supressão ou a reparação das consequências de um acto nacional contrário
ao da UE;
- O controlo jurisdicional efectivo da aplicação do DUE;
- Os EM devem fazer respeitar as regras da UE pelos seus nacionais.

Cabe tanto aos tribunais nacionais como às autoridades administrativas


assegurar a aplicação integral do primado e conferir protecção aos direitos
que o DUE atribui aos particulares, não aplicando toda a norma nacional
contrária. Esta regra aplica-se também às sanções penais.
O TJ admitiu, no caso Factortame, que o juiz nacional nas providências
cautelares pode decretar a suspensão da aplicação da disposição nacional até
ao momento em que a compatibilidade ou a incompatibilidade seja
estabelecida.
Toda a autoridade deve, em caso de dúvida sobre o sentido de uma disposição
nacional, interpretá-la à luz do DUE. O TJ retirou do primado um princípio de
interpretação do Direito nacional conforme o DUE.
A regra da supressão ou a reparação das consequências de um acto nacional
contrário ao DUE, de acordo com esta regra as autoridades nacionais devem
apagar as consequências financeiras eventuais de todo o acto nacional
declarado contrário ao DUE, ou seja, devem proceder à repetição do indevido.
As autoridades nacionais têm a obrigação de reembolsar todas as somas que
foram percebidas em aplicação de um texto reconhecido como não conforme
ao DUE.
 Após o Tratado de Lisboa: se compararmos a solução do Tratado de Lisboa
com a do TECE, poderia parecer que o princípio do primado saiu enfraquecido,
mas tal não corresponde à realidade na medida em que com ou sem cláusula e
mesmo com ou sem declaração, o princípio do primado deve continuar a
aplicar-se plenamente.

 Na óptica dos EM: segundo o TJ, os EM nem sequer podem alegar dificuldades
internas para não cumprir o Direito Comunitário. Esta perspectiva do primado
numa foi muito bem aceite do lado dos EM. Na óptica dos Direitos nacionais, o
fundamento do princípio do primado depende do Estado para Estado, ou seja,
não é uniforme.

 A jurisprudência dos tribunais nacionais apresenta alguns pontos em comum:


- Aceitação do primado;
- Em alguns casos sobre o Direito Constitucional;
- Fundamentado principalmente nas constituições dos próprios Estados;
- Aceitação de limites decorrentes da protecção constitucional dos direitos
fundamentais e das competências atribuídas à UE;
- Os árbitros finais do conflito entre o DUE e o Direito dos EM são os Tribunais
nacionais, com especial destaque para os Tribunais Constitucionais.
 No caso de Portugal: no art. 112º/9, determinava que a transposição de
directivas comunitárias para a Ordem Jurídica interna deveria assumir a forma
de lei ou de decreto-lei, retirando o poder de transposição às regiões
autónomas, através de decreto legislativo regional, o que foi objecto de muita
controvérsia.
O art. 227º alínea x) CRP, prevê a participação das regiões autónomas no
processo de construção europeia.
O art. 161º n) consagra o poder da AR para se pronunciar, nos termos da lei,
sobre as matérias pendentes de decisão em órgãos no âmbito da UE que
incidam na esfera da sua competência reservada.
O Direito Originário e o Direito Derivado da UE prevalecem sobre todas as
normas internas, incluindo as constitucionais, as quais não serão aplicáveis.
Esta prevalência não conduz à invalidade da norma interna, mas somente à
sua não aplicação no caso concreto, tal como resulta da jurisprudência do TJ.
O preceito não esclarece quem tem competência para aferir se a UE respeitou
as suas competências e se os princípios do Estado de Direito Democrático
foram desrespeitados.
Por um lado, o Tribunal Constitucional português é o último guardião dos
princípios fundamentais do Estado de Direito Democrático, assim como é a ele
que lhe compete aferir se os poderes que o Estado português transferiu para a
UE foram ultrapassados. Por outro lado, na óptica do DUE, o TJ é (art. 19º TUE)
o último guardião do DUE, pelo que udo indica que se considerará competente
para aferir se a UE violou os princípios do Estado de Direito Democrático, uma
vez que ela também se fundamenta neles. Além disso, o TJUE está
particularmente vocacionado para apreciar se as instituições da UE exerceram
ou não os seus poderes adequadamente.
O facto de, as relações entre o TJ e os tribunais nacionais se fundamentarem
num princípio de cooperação e não num princípio hierárquico, levará em
Portugal ao diálogo com o TJ, através da suscitação de questões prejudiciais
com base no art 267º TFUE.
Até ao momento o Tribunal Constitucional Português ainda não foi
verdadeiramente confrontado com a questão do primado do DUE sobre o
Direito Português.
A ideia de um princípio de amizade das Constituições nacionais ao Direito da
UE não é destituída de sentido, sendo que a questão do primado do DUE sobre
o Direito Constitucional dos EM só se colocará em situações-limite e como tal
relativamente raras.
Nesses casos deve promover-se um diálogo permanente entre os tribunais
nacionais e o TJ através do processo das questões prejudiciais com o objectivo
de se alcançar uma interpretação comum.
O Estado deve adequar a sua Constituição aos compromissos que assumiu
tanto interna como externamente. Nos domínios que foram atribuídos à UE, o
Estado não deve poder invocar as suas normas constitucionais para se furtar
ao cumprimento das normas da UE.
 Aplicabilidade descentralizada do DUE:

Uma das principais características do DUE é a sua aplicação descentralizada, ou


seja são as administrações e os tribunais nacionais que aplicam o DUE, mas isso só se
verifica porque a UE tem a capacidade de produzir normas que, por força da
aplicabilidade directa e do efeito directo, são susceptíveis de ser invocadas nos
tribunais nacionais, podendo inclusivamente afastar as normas nacionais contrárias.

 Efeito directo e Aplicabilidade directa

 Aplicabilidade directa (288º TFUE): é a sustentabilidade de aplicação


de um acto ou norma da UE, sem necessidade de transposição por
parte dos Estados. A aplicabilidade directa opera a nível da norma e é
automática em relação às normas que a possuem, uma vez que se
encontra prevista no TFUE para certas fontes, como os regulamentos.
Os regulamentos gozam de aplicabilidade directa, já as decisões,
apesar de não se verificar a menção da aplicabilidade directa no
288º/3 TFUE, não se vislumbram razões para excluir.

 Efeito directo: é a susceptibilidade de invocação de uma norma da UE,


por parte daquele a quem essa norma confere direitos ou obrigações,
num tribunal nacional ou perante qualquer autoridade pública, quer
essa norma tenha sido implementada, quer não, por parte do EM em
causa. O efeito directo resulta da interpretação da norma, opera ao
nível da sua invocabilidade, não é automático pois depende da
verificação de determinadas condições.
O efeito directo apareceu ligado à ideia da ausência da necessidade de
medidas nacionais ou comunitárias.

 No TJ: o TJ não reconhece a versão mais ampla do efeito


directo, isto é, o efeito directo horizontal, em relação a todas
as normas de DUE. Por vezes limitou-se a reconhecer o efeito
directo vertical.
- Efeito directo vertical: verifica-se quando o particular invoca
a norma da UE nas relações que estabelece com o Estado ou
com qualquer entidade pública, isto é nas relações jurídico-
publicas.
- Efeito directo horizontal: opera quando a norma da UE é
invocada nas relações jurídico-privadas, ou seja, entre
particulares, por qualquer um deles.

 No Direito Originário: as disposições dos tratados que contêm


proibições ou impõem abstenções aos EM podem ser
invocadas nos litígios entre particulares e os EM, ou seja,
possuem efeito directo vertical. É o caso dos actuais artigos
30º, 37º e 110º TFUE e de alguns preceitos que, entretanto, já
foram revogados. As disposições que impõem obrigações de
resultados precisos, nas quais se incluem as normas cuja
execução possa ser concretizada num certo prazo, quer
através de actos das instituições da UE, quer através de
medida a tomar pelos EM e as disposições que impõem
obrigações insusceptíveis de apreciação são igualmente
susceptíveis de ser invocadas pelos particulares contra os EM,
ou seja, possuem efeito directo vertical. Já as disposições em
matéria de concorrência dirigem-se directamente aos
particulares, pelo que podem ser invocadas nos litígios entre
eles, isto é, são susceptíveis de possuir efeito direito horizontal
(art. 101º e 102º TFUE). Os artigos 45º e 157º do TFUE
também pode ser invocados contra qualquer empregador seja
ele público ou privado.

 No Direito Derivado: o princípio do efeito directo estendeu-se


ao Direito Derivado, o que em muito contribuiu para o
aprofundamento da implicação dos cidadãos no processo de
integração europeia. O regulamento é invocável de pleno
direito pelos particulares perante os tribunais nacionais, pois é
para eles uma fonte de direitos e obrigações.
Mas apesar de o regulamento impor obrigações aos Estados e
aos particulares, nem todas e as suas disposições podem ser
invocadas nos tribunais nacionais. Tudo depende da questão
de saber se o regulamento necessita de medidas de execução
por parte dos EM. Nesses casos pode fazer sentido a invocação
dos direitos consagrados no regulamento por parte dos
particulares se as medidas de execução não forem adoptadas.
O efeito directo depende da interpretação das disposições do
regulamento. Se elas satisfizerem os critérios então as normas
dos regulamentos dispõem de efeito directo vertical em
relação às autoridades nacionais e de um efeito directo
horizontal em relação aos particulares.
O tribunal reconheceu também o efeito directo das normas
das directivas. As directivas são por natureza incompletas, só
se tornando efectivas após a sua transposição, pelo que se
considerou, numa fase inicial que estas só produziam efeitos
entre os EM e as instituições comunitárias.
O reconhecimento do efeito directo das normas das directivas
está associado ao facto de o Conselho ter adoptado directivas
cada vez mais pormenorizadas, que acabavam por impor
obrigações incondicionais que se assemelham às impostas
pelos regulamentos.
A invocação do efeito directo da directiva depende de um
exame casuístico da natureza, da economia e dos termos da
disposição em causa e limita-se às relações entre o Estado e os
particulares.
Deve ainda sublinhar-se que o efeito directo opera num
sentido único (ascendente) do particular para o Estado e não o
contrário. Ou seja, não é possível ao Estado invocar a directiva
contra o particular, o que se compreende se tivermos em
conta que o cumprimento da directiva por natureza, compete
aos Estado e não aos particulares e que a invocação da norma
da directiva ocorre quando o Estado não efectuou a
transposição atempada da directiva ou a efectuou de modo
incorrecto, pelo que o Estado não deve poder beneficiar de
uma actuação contrária ao Direito. Não existe o efeito directo
vertical invertido.

Problema diverso é o de saber se a directiva pode gozar de


efeito directo horizontal, ou seja, se existe a possibilidade de
invocação das normas das directivas e dos direitos que elas
conferem nas relações entre os particulares.
Vários argumentos contra a sua admissibilidade:
1º As directivas inicialmente não eram obrigatoriamente
publicadas, pelo que os particulares não podiam saber da sua
existência;
2º A aceitação do efeito directo horizontal das directivas
levaria à equiparação das directivas aos regulamentos;
3º O efeito directo horizontal das directivas poria em causa o
princípio da segurança jurídica.
 Nenhum destes argumentos é válido.

A verdade é que as razões que levaram o TJ a adoptar uma


jurisprudência bastante restritiva quanto a esta questão foram
políticas e prenderam-se essencialmente com as dificuldades
que isso geraria nos tribunais de alguns EM. Para evitar
conflitos com os tribunais nacionais, o TJ negou o efeito
directo horizontal das normas das directivas. Porém nalguns
casos a insustentabilidade desta posição era tão evidente que
o TJ se viu obrigado a criar outras vias de afirmação dos
direitos os particulares, as quais têm sido bastante criticadas
pela doutrina.
No acórdão Marshall, o TJ recusou o efeito directo horizontal
das normas da directiva, com fundamento no facto de (art.
288º) as directivas só serem obrigatórias para os EM
destinatários. Se a directiva não pode criar obrigações para os
particulares também não pode ser invocada contra
particulares.
O TJ alargou o conceito de Estado relevante para efeitos de
efeito directo nele incluindo autoridades regionais e locais,
autoridades constitucionalmente independentes responsáveis
pela manutenção da ordem e da segurança, quaisquer
entidades públicas, mesmo que não estejam a agir no uso de
jus imperii. No fundo, o TJ permite a invocação da directiva
contra entidades que muito duvidosamente se podem incluir
no conceito de EM.
A ausência de efeito directo horizontal das normas da directiva
foi igualmente compensada pela obrigação imposta ao juiz
nacional de interpretar as disposições do Direito nacional,
anteriores e posteriores à directiva, conforme o texto e à
finalidade da mesma. Ou seja, mesmo nas relações entre
particulares, a directiva condiciona e influencia a interpretação
do Direito nacional. A directiva tem um efeito indirecto. O TJ
admitiu mesmo que a directiva pode ter um impacto no Direito
nacional ainda antes de decorrido o prazo de implementação.
No período que medeia entre a aprovação e o decurso do
prazo de transposição da directiva, os EM devem evita adoptar
medidas que ponham seriamente em causa o resultado
previsto pela directiva. Esta obrigação impõe-se
inclusivamente aos tribunais nacionais que se devem abster de
interpretações do Direito nacional contrárias à directiva. A
obrigação de interpretação conforme cessa, contudo, se
resultar na imposição ou agravamento da responsabilidade
penal do individuo.
Para o TJ um particular não pode ficar impedido de invocar
contra um Estado um direito constante de uma directiva pelo
facto de essa invocação poder vir a causar efeitos adversos
contra um terceiro. Ou seja, nas relações triangulares, o TJ
admite implicitamente o efeito directo horizontal incidental da
directiva, ainda que continue a afirmar que apenas reconhece
o efeito directo vertical.
Além dos regulamentos e das directivas, o TJ reconheceu
igualmente o efeito directo à decisão. Se o seu destinatário é
um ou mais EM, o efeito directo da decisão opera nos mesmos
termos que o da directiva, tendo o TJ alguma relutância em lhe
reconhecer o efeito directo horizontal. Se a decisão se dirige
aos particulares e às empresas, então o efeito directo é
decalcado das normas dos Tratados ou dos regulamentos,
admitindo o TJ o efeito directo horizontal neste caso.
A invocação das normas da decisão depende do
preenchimento de condições, a clareza, a precisão e a
incondicionalidade.

 O TJ reconhece o efeito directo das disposições das


convenções internacionais.

 O princípio da tutela efectiva:

 A jurisprudência do TJ construiu a obrigação de os tribunais


nacionais, quando tal lhes for requerido, decretarem
providências cautelares para protegerem situações jurídicas ou
direitos subjectivos reconhecidos pelo DUE e que sejam
invocados perante tribunais nacionais. Essa obrigação funda-se
no princípio da efectividade do DUE, que tem como um dos
seus corolários o princípio da garantia judicial plena e eficaz da
Ordem Jurídica da UE. Este princípio impõe que os tribunais
nacionais concedam protecção cautelar a direitos
reconhecidos anteriormente pelo DUE nas mesmas
circunstâncias em que o devem fazer os Tribunais da UE à luz
do art. 279º do TFUE. Os tribunais nacionais devem conceder
todo o ipo de providências cautelares adequadas a cada caso
concreto, inclusive providências antecipatórias.
 O princípio da tutela judicial efectiva pode exigir a aplicação de
providências cautelares que no direito nacional não estão
previstas ou até são proibidas.

 A jurisprudência relativa à responsabilidade dos Estados por


violação de actos da UE surge igualmente para assegurar a
tutela judicial efectiva, devendo também ser encarada como
uma forma de compensar a recusa do efeito directo horizontal
das directas.
Na década de 90, o TJ reconheceu aos particulares o direito de
obter da parte de um EM a reparação dos prejuízos que
sofreram na sequência da ausência de transposição de uma
directiva da UE na Ordem Jurídica interna.
O TJ, aceitando este ponto de partida, deixou expresso que o
Direito Comunitário impõe o princípio segundo o qual os EM
são obrigados a reparar os prejuízos causados aos particulares
pelas violações do Direito Comunitário que lhe sejam
imputáveis, e que esse princípio é inerente ao sistema do
tratado. Por isso, preenchidas as condições da
responsabilidade do Estado (atribuição de direitos aos
particulares pela norma ou pelo acto de Direito Comunitário, a
possibilidade de identificação concreta desses direitos e uma
relação de causalidade entre a violação da obrigação que
incumbe ao Estado e o prejuízo sofrido pelos lesados), nasce a
favor dos particulares lesados um direito a obter reparação,
que se funda directamente no Direito Comunitário.
No DUE (art. 4º/3 TFUE) e não no direito nacional que reside o
fundamento do dever do Estado de indemnizar os prejuízos
por ele causados pelas suas infracções ao DUE, e é nesta que
define as condições da responsabilidade e o tribunal
competente.
O fundamento da responsabilidade do legislador por violação
do DUE é o princípio da tutela jurídica efectiva, ou seja, a plena
eficácia das normas da UE e a protecção dos direitos que elas
reconhecem.
Esta jurisprudência confere uma protecção complementar aos
indivíduos.
Mais recentemente o TJ parece aceitar a responsabilidade do
juiz nacional enquanto o juiz comum do DUE. O TJ estendeu ao
Poder Judicial os princípios da responsabilidade do Estado por
violação do Direito Comunitário, embora reconhecendo as
particularidades da função judicial neste domínio bem como as
dificuldades de aplicação deste regime ao incumprimento da
obrigação de suscitar a questão prejudicial.

CAPÍTULO 11 – A COOPERAÇÃO ENTRE OS JUÍZES NACIONAIS E O TJUE

Todos os destinatários da UE (Estados e particulares) devem respeitar as suas normas.


Esta garantia foi deixada a cargo dos tribunais nacionais em geral e do TJUE.
Mas para que o princípio da aplicação descentralizada do DUE não interferisse com a
efectividade nem com a unanimidade do DUE, o TJ desenvolveu uma jurisprudência no que
respeita à responsabilidade extracontratual dos EM por incumprimento do DUE e à
competência dos tribunais nacionais para decretarem providências cautelares, fundadas no
DUE, com o objectivo de proteger os direitos subjectivos conferidos ao individuo pela Ordem
Jurídica da UE, mesmo em contradição com disposições internas, o que tem contribuído para
alargar o âmbito da jurisdição dos tribunais estaduais comuns do contencioso da UE.

 Princípio da cooperação entre o TJ e os tribunais estaduais:

 Estrutura das relações que se estabelecem entre o TJ e os tribunais nacionais


foi inicialmente pensada com base num princípio de cooperação ou
colaboração horizontal. Ao contrário das relações que ligam entre si os
tribunais que compõem o sistema judiciário de um Estado federal, que se
baseiam num princípio de hierarquia vertical, o TJ não foi projectado como um
tribunal federal, pois não tem competência para anular ou declarar a nulidade
ou a inexistência de uma norma estadual que contrarie uma norma da UE e
também não foi equacionado como um tribunal hierarquicamente superior
aos tribunais estaduais pois não é um tribunal de revista de sentenças de
tribunais dos EM.

 O processo das questões prejudiciais:

 (Art. 267º TFUE) O juiz nacional ao resolver um caso concreto pode ver-se
confrontado com a necessidade de aplicar uma norma da UE, pois, o DUE goza
de aplicabilidade directa ou de efeito directo, pelo que pode ser invocado
pelas partes nos órgãos jurisdicionais nacionais. Compete ao juiz nacional
assegurar o primado, ou seja, dar prevalência ao DUE sobre o direito nacional.
O juiz nacional pode ter dúvidas sobre a interpretação ou a validação
da concreta norma de DUE. Se lhe fosse permitido resolvê-las sozinho e
livremente isso implicaria um fraccionamento do DUE, quebrando-se a
uniformidade que se pretende atingir na Ordem Jurídica da UE. Foi assim
necessário criar um mecanismo que evitasse divergências de jurisprudência
nos vários EM.
O art. 267º TUE prevê esse mecanismo: todo e qualquer tribunal
nacional pode submeter ao TJ questões de interpretação ou de validade do
DUE que sejam relevantes para a boa decisão da causa.
Há casos em que o tribunal nacional está obrigado a submeter a
questão ao TJ, quando julga em última instância. Se este mecanismo funcionar
correctamente toda a parte num litígio que suscite uma questão de
interpretação ou aplicação do DUE tem a garantia de poder vir a obter uma
decisão do TJ sobre a interpretação ou sobre a validade da disposição em
causa.
O TJ afirmou que o art. 267º TFUE é essencial à preservação do
carácter comunitário do Direito instituído pelo tratado e tem por efeito
assegurar que em todas as circunstâncias este Direito se aplica da mesma
forma em todos os EM. Foi o objectivo de assegurar a interpretação e a
aplicação uniformes do DUE que fundamentou a exclusão deste processo da
competência do TG, pois considerava-se que a uniformidade só se conseguiria
atingir se apenas um tribunal tivesse competência para fixar a interpretação
do DUE. Apesar de actualmente ser possível o Estatuto do TJ conferir
competência ao TG neste domínio, a verdade é que ele não a concede e
continuar a ser o TJ o único tribunal da UE a resolver as questões prejudiciais
suscitadas pelos tribunais nacionais.
O art. 267º TFUE visa assegurar a aplicação correta do DUE, colocando
ao dispor do juiz nacional um meio de eliminar as dificuldades que poderiam
advir da necessidade de dar ao DUE o seu pleno efeito nos vários sistemas
jurisdicionais dos EM. Se assim não fosse, toda e qualquer lacuna no sistema
poria em causa a eficácia das disposições dos Tratados e do Direito Derivado.
O art. 267º TFUE constitui uma das manifestações mais claras da
especialidade da Ordem Jurídica da UE.

As razões de existência do art. 267º:

 Aplicação descentralizada do DUE como premissa do processo – o juiz


nacional é o juiz comum do DUE;
 Assegurar a uniformidade de interpretação e aplicação do DUE – o
objectivo fundamental do processo é assegurar a uniformidade na
interpretação e na aplicação do DUE pelos tribunais nacionais;
 Assegurar a estabilidade do Direito Derivado – a apreciação de
validade constitui uma garantia e também deve impedir a
desnaturação do DUE por parte dos tribunais nacionais;
 Favorecer o desenvolvimento do DUE – art. 267º TFUE desempenhou
um papel fundamental no desenvolvimento do DUE;
 Protecção jurídica dos particulares – o processo do art. 267º é a última
esperança de aplicação correcta do DUE para os particulares;
 Compensação das restrições impostas aos particulares em sede de
recurso de anulação (263º TFUE) – o processo das questões
prejudiciais, na modalidade de invalidade, pode ser visto como uma
forma de compensar os particulares pelas condições muito restritivas
que o Tratado lhes impõe para a impugnação de actos normativos.

 As questões prejudiciais de interpretação:

Estas decidem sobre:

- Tratados;

- Actos adoptados pelas instituições, órgãos ou organismos da UE – o TJ


entende que a sua competência de interpretação se estende a todos os actos
de Direito Derivado, sem excepções. O TJ aceia questões prejudiciais de
interpretação de actos atípicos (resoluções do Conselho). O tribunal nacional
pode ainda obter esclarecimentos sobre o alcance de um acórdão anterior, o
que em última análise implica que é possível suscitar questões prejudiciais de
interpretação sobre um acto jurisdicional.
Assim, o acto pode ser normativo ou individual; típico ou atípico; directa ou
indirectamente aplicável; com ou sem efeito directo; obrigatório ou não.
O tribunal nacional pode até suscitar questões prejudiciais sobre o Direito não
escrito.

- Acordos internacionais em que a UE é parte – a competência da


interpretação de acordos internacionais estende-se ainda aos acordos
concluídos pelos EM, em que a UE lhes sucedeu. O TJ admite também a sua
competência para interpretar um acordo internacional concluído pelos EM,
agindo por conta do interesse da UE.

 As questões prejudiciais de apreciação da validade

O TJ detém competência para apreciar a validade dos actos adoptados


pelas instituições, órgãos ou organismos da UE. A validade dos
tratados não pode ser posta em causa, o que se compreende se
pensarmos que o TJ é um órgão jurisdicional por eles criado.
A noção de validade abrange tanto a legalidade interna como a
externa. O TJ sustentou que o art. 267º tem por efeito compensar a
limitação da protecção jurisdicional conferida pelo art. 263º TFUE,
pelo que que se deve adoptar uma noção ampla de validade.
O TJ admite questões prejudiciais sobre a validade dos actos não
obrigatórios e de actos individuais, mesmo quando se trata de
decisões dirigidas aos EM, pois o facto de as partes no litigio principal
não terem legitimidade para impugnar directamente o acto em causa
não impede o TJ de apreciar a validade do mesmo num processo
prejudicial.
O TJ não parece admitir questões prejudiciais de apreciação de
validade dos seus próprios acórdãos.

 As fontes de DUE excluídas da interpretação e da apreciação da


validade

- A apreciação da conformidade do direito nacional com DUE – o TJ


não pode apreciar o direito nacional, mas pode fornecer ao juiz
nacional todos os elementos que lhe permitam ele próprio fazer essa
apreciação;

- As situações puramente internas – as situações sem elementos de


conexão com o DUE estão excluídas do âmbito de interpretação do TJ,
de acordo com o art. 267º.

 As questões prejudiciais facultativas e obrigatórias

Do art. 267º, decorre que os órgãos jurisdicionais e os que são


estranhos à UE não podem colocar questões prejudiciais ao TJ.
No entanto, o TJ já admitiu questões prejudiciais suscitadas por
tribunais que não fazem parte do sistema judicial de qualquer EM e
até por tribunais internacionais.

Os principais aspectos a ter em conta na qualificação de um órgão


jurisdicional são a sua origem legal, a sua permanência, a sua
jurisdição obrigatória, o processo contraditório, a aplicação de regras
de Direito, bem como a sua independência.
O tribunal nacional, para poder suscitar questões prejudiciais, tem de
estar a julgar com vista a obter uma decisão jurisdicional.
Se a questão for suscitada por um tribunal nacional, após a extinção da
instância no processo principal, o TJ também rejeita liminarmente a
questão. A noção de órgão jurisdicional releva do DUE, pelo que o TJ
pode admitir questões que lhe sejam suscitadas por órgão que não
tenham carácter jurisdicional, de acordo com regras internas, assim
como pode negar a qualidade de órgão jurisdicional a órgãos a que o
direito interno reconhece essa qualidade.
A legislação nacional não deve impedir os juízes de suscitarem
questões prejudiciais, pois isso é considerado contrário ao art. 267º e
como tal viola o Primado do DUE sobre os direitos nacionais.

Questões prejudiciais facultativas:

O TJ reconhece aos tribunais nacionais a mais ampla faculdade


de suscitar as questões prejudiciais facultativas. Essa
faculdade não pode ser restringida, dado que a repartição de
competências entre o juiz nacional e o juiz comunitário, é
imperativa. Admitir o contrário levaria à violação do princípio
do primado do DUE sobre o direito nacional.
O TJ admitiu mesmo que um tribunal inferior pode suscitar
uma questão prejudicial ainda que já exista uma decisão
negativa de um tribunal superior.
A questão prejudicial é suscitada pelo juiz nacional. Todavia,
ela tanto pode ter sido levantada pelas partes no processo
principal como pelo próprio juiz.
O juiz nacional pode suscitar a questão, qualquer que seja a
fase em que se encontra o processo principal.
Contudo o TJ sempre estabeleceu como limite à faculdade de
um juiz nacional suscitar as questões prejudiciais a existência
de um processo pendente da sua necessidade para a boa
decisão da causa, competindo ao juiz nacional decidir se a
questão era ou não necessária ao julgamento da causa.

Questões prejudiciais obrigatórias:

O art. 267º 3ª parte prevê questões prejudiciais obrigatórias.


Um tribunal nacional cujas decisões não sejam susceptíveis de
recurso judicial, é obrigado a suscitar a questão prejudicial, se
tiver dúvidas sobre a interpretação ou sobre a validade de
uma norma da UE.
Problemas de interpretação:
1º. Delimitação do âmbito da obrigação de suscitar a questão
da apreciação de validade. O carácter facultativo ou
obrigatório da questão não difere consoante se trate de
questões de interpretação ou de validade. No entende em
certos casos o TJ estende a obrigatoriedade de suscitar a
questão prejudicial a todos os tribunais nacionais, no que diz
respeito à validade dos actos da UE. Assim, mesmo os
tribunais que não julgam em última instância, se tiverem
dúvidas quanto à validade dos actos da UE, devem suscitar a
questão prejudicial ao TJ. Todavia, são competentes para
considerarem o acto como válido e rejeitarem as causas de
invalidade invocadas.
A posição do TJ nesta matéria contribui para uma maior
segurança jurídica, para o reforço do princípio da legalidade e
para uma mais sólida garantida dos direitos dos particulares.

2º. É o de saber quais os tribunais que estão obrigados a


suscitar a questão prejudicial. A doutrina tem vindo a
defender duas posições:

Teoria orgânica: só os tribunais colocados no topo da


hierarquia judiciária (supremos) estão obrigados a suscitar a
questões prejudiciais, esta teoria visa impedir a sobrecarga do
TJ com processos de menos importância e impedir a formação
da Jurisprudência divergente ao nível dos supremos tribunais,
assegurando a uniformidade do DUE, pois são os supremos
que fixam a jurisprudência.

Teoria do litígio: o tribunal cuja decisão não é susceptível de


recurso judicial ordinário está obrigado a suscitar a questão
prejudicial, ou seja, não o supremo tribunal mas o tribunal
supremo naquele litígio concreto.

O TJ tem vindo a adoptar esta última teoria, porque só ela


assegura plenamente a uniformidade de aplicação do DUE.

3º. Tem a ver com a noção de recurso judicial de direito


interno, na medida em que o preceito prevê que um tribunal
cuja decisão não é susceptível de recurso judicial de direito
interno deve suscitar a questão prejudicial. Trata-se de uma
noção comunitária, que deve ser entendida como todo o
recurso ordinário, ou seja, aberto a cada uma das partes no
litígio, e só a elas, nem necessidade de justificação particular e
em que é permitido o reexame da aplicação do direito.
Assim, se cada uma das partes no litígio tiver o direito de
obter um reexame que incida sobre o fundo da causa por um
tribunal diferente, de acordo com o art. 267º, existe um
recurso judicial, independentemente da qualificação que o
direito interno dá a esse processo.
Estão excluídos os recursos extraordinários.
A obrigação de suscitar a questão prejudicial por parte do juiz
nacional não é absoluta.
Importa averiguar se existe alguma sanção para o desrespeito
da obrigação de suscitar a questão prejudicial. Em teoria são
descortináveis dois tipos de sanção, as que a Ordem Jurídica
da UE prevê e as que estão previstas no direito interno dos
vários EM.
O meio contencioso adequado para reagir contra a violação de
uma obrigação imposta pelo DUE por parte de um órgão de
um EM é o processo por incumprimento (art. 258º a 260º). De
acordo com este processo, a Comissão ou qualquer EM
poderiam accionar o mecanismo previsto naqueles preceitos
contra o Estado ao qual pertence o tribunal em causa. Apesar
de se terem verificado violações sistemáticas desta obrigação,
a Comissão nunca desencadeou um processo por
incumprimento.
O tribunal consagra um princípio de conformação de acto
administrativo decidido com o DUE posterior.
Esta solução só foi possível, por força das circunstâncias do
caso concreto.
O órgão administrativo em causa estava obrigado, por
aplicação do princípio da cooperação leal, a reexaminar o acto
administrativo para ter em conta a interpretação da
disposição pertinente do DUE entretanto feita pelo TJ. A
revogação do acto não deve, contudo, lesar os interesses de
terceiros.
Atendendo às circunstâncias do caso concreto, o TJ entendeu
que a sentença não tinha de ser reapreciada porque isso é
impedido pelo Direito nacional em causa.
Prevalece o princípio da segurança jurídica.
A nível do direito interno de cada EM poderão existir vias
jurisdicionais aptas a sancionar a violação do dever de suscitar
a questão prejudicial por parte do tribunal nacional. Parece
certo que apenas a Alemanha, a Áustria e a Espanha dispõe
destas vias.
No direito português não existe qualquer sanção para a
violação do dever de suscitar a questão prejudicial.

 Os poderes do juiz nacional no processo das questões prejudiciais


Não existe nenhum formalismo para o pedido da decisão prejudicial. O juiz
suscita a questão prejudicial através de um despacho em que formula a questão e
expõe os seus fundamentos.
A decisão de suscitar a questão prejudicial é da competência exclusiva do juiz
nacional. As partes não podem dirigir directamente ao TJ para lhe colocar uma questão
prejudicial, nem podem completar uma questão suscitada por um tribunal nacional.
Daqui decorre que é o juiz nacional que tem o monopólio da iniciativa do
processo prejudicial.

As partes não podem impedir o juiz de suscitar uma questão prejudicial, a


apreciação da pertinência da questão é da exclusiva competência do juiz nacional, uma
vez que é ele que tem um conhecimento direito dos factos assim como os argumentos
utilizados pelas partes e será ele que vai assumir a responsabilidade da sentença ou
acórdão no caso concreto. Este poder do juiz nacional não pode ser restringido por
convenção das partes. A convenção entre as partes que obriga o juiz nacional a
suscitar uma determinada questão prejudicial não restringe o poder de apreciação do
tribunal nacional.

É também ao juiz nacional que cabe determinar o momento em que suscita a


questão prejudicial,

O conteúdo material da questão é também da competência do juiz nacional,


mas a questão deve ser formulada de tal maneira que permita ao TJ dar uma resposta
útil. Por isso, o juiz nacional deve, quando formula as questões, explicar as razões
pelas quais tem necessidade de uma resposta, transmitindo dessa forma todas as
informações suficientes.

 Os poderes do TJ ao abrigo do art. 267º TFUE

O processo das questões prejudiciais baseia-se numa repartição de poderes


entre o TJ e os tribunais nacionais. O TJ começou por afirmar a separação entre o
direito nacional e o DUE, e a separação entre a aplicação do DUE, reservada ao
tribunal nacional, e a interpretação do DUE da competência do TJ. Este não deve
conhecer dos factos nem censurar os motivos e os objectivos da questão prejudicial.

(ACORDÃO COSTA ENEL)

Posteriormente, o TJ veio defender a cooperação entre os tribunais nacionais e


ele próprio, na solução de problemas que são de interesse comum. Por essa razão vai
abolir todo o rigor formalista, passando a entender que o tribunal nacional e o TJ são
chamados a contribuir directa e reciprocamente para a elaboração de um sentença ou
de um acórdão, com vista à interpretação e aplicação uniformes do DUE no conjunto
dos EM.
Esta cooperação e confianças recíprocas implicam que o juiz da UE e o juiz
nacional respeitem mutuamente os limites das suas funções.
O TJ recusa questões que não considera pertinentes e não responde a casos
em que lhe pareça desnecessário suscitar questões prejudiciais.
O TJ rejeita um pedido se for manifesto que a interpretação solicitada não tem
qualquer relação com a realidade ou com o objecto do litígio no processo principal.
O TJ não tem competência para averiguar se o órgão jurisdicional que suscitou
a questão prejudicial é competente para conhecer do litígio.

O TJ reserva-se o direito de reformular as questões no quadro das


coordenadas conceptuais do DUE, reduzir as questões múltiplas, modificar a ordem
das questões, completá-las, responder globalmente, subdividir a questão, delimitar a
questão, determinar o seu verdadeiro objecto e não responder a certas questões, que
se tornam irrelevantes pela resposta dada a outras.
Recusando-se a responder a questões muito imprecisas, por considerar que
não são úteis para a solução do litígio principal.
O TJ recusa-se também a responder a questões puramente hipotéticas.
O TJ pode transformar uma questão de interpretação numa questão de
apreciação de validade.
Apesar de competir ao tribunal nacional indicar quais os vícios do acto, o TJ
pode também conhecê-los ex offcio. O TJ recusa-se a fazê-lo quando o vício é
suscitado pelas partes e não o foi por iniciativa do próprio juiz nacional. Neste último
caso, atém-se ao vício invocado pelo tribunal nacional, ainda que ele tenha sido
invocado pelas partes.
O TJ reformula a questão quando o juiz nacional lhe solicita a interpretação de
disposições de direito nacional ou a aplicação do DUE ao caso concreto.

Quem decide se a questão se refere ou não a disposições de DUE é o TJ e a


competência exclusiva do juiz nacional para suscitar a questão está sujeita à condição
da aplicação do DUE para resolver um litígio.
Assim o juiz nacional não deve suscitar a questão se não houver litígio, ou se
manifestamente o DUE não se aplicar.
O tribunal nacional só pode suscitar questões prejudiciais no âmbito de um
litígio real.
A jurisprudência do TJ, neste domínio está longe de ser constante, pois parece
vacilar perante o interesse da matéria que lhe foi perguntada.
O juiz nacional deve igualmente abster-se de colocar questões prejudiciais, no
caso de o DUE não se aplicar manifestamente ao caso concreto, se a situação não tiver
qualquer conexão com o DUE.
Recentemente o TJ parece ter-se afastado desta jurisprudência mais restritiva.

 Os efeitos do acórdão proferido no âmbito do processo das questões prejudiciais

Efeitos materiais do acórdão:


É basicamente saber se este acórdão produz efeitos
obrigatórios ou se, pelo contrário, tem apenas uma autoridade
moral. Se se optar pelos efeitos obrigatórios, há ainda que
averiguar em relação a quem tais efeitos se produzem.
Outra questão é saber se quem fica obrigado pelo acórdão
pode posteriormente suscitar a interpretação ou a apreciação
de validade de uma norma que já foi interpretada ou
declarada inválida pelo TJ.
Os efeitos materiais do acórdão proferido pelo TJ podem ser
diferentes consoante se trate de um acórdão interpretativo ou
de declaração de invalidade ou de validade.

 Acórdão interpretativo: obriga o juiz nacional que suscitou a questão, pelo que
este não se pode basear numa interpretação diferente da que foi dada pelo TJ.
Esta obrigação de respeitar a interpretação dada pelo TJ incide não só sobre a
decisão propriamente dita, mas também sobre a sua fundamentação.
Este acórdão obriga todos os juízes nacionais e tem um alcance geral. A
interpretação incorpora-se na norma interpretada, pelo que os juízes nacionais
se a quiserem aplicar têm de o fazer com o sentido e o alcance que lhe foi
dado pelo acórdão.
Daqui resulta que esta interpretação só pode ser posta em causa se
posteriormente houver uma modificação da norma ou das normas que com
ela se relacionam e que só o próprio TJ pode alterar a sua interpretação
anterior.
O TJ admite que um tribunal nacional lhe pode suscitar questões prejudiciais
mesmo que o TJ já tenha respondido a questões idênticas, por considerar que
não está ainda suficientemente esclarecido.
A posição que o TJ tem defendido assemelha-se à tese do precedente anglo-
saxónico, embora não se confunda com ela. Aquela tese fundamenta-se na
hierarquia dos tribunais. O precedente forma-se das decisões dos tribunais
superiores em relação aos inferiores e das decisões de cada tribunal em
relação a si próprio, com excepção da House of Lords, que colocada no topo da
hierarquia não está vinculada às decisões por ela própria preferidas, embora
as suas decisões vinculem todos os outros tribunais.
O fundamento do precedente parece-nos que são os próprios
princípios consagrados na Ordem Jurídica da UE que impõem que assim seja.
Em primeiro lugar, é o próprio carácter evolutivo da integração europeia e a
sua Ordem Jurídica que exige que o TJ possa adaptar o seu juízo prejudicial às
novas condições da integração. Isso ficaria prejudicado se o acórdão
prejudicial do TJ fosse por ele definitivamente imodificável. Além disso, não faz
sentido que o TJ, ao interpretar o DUE, que, de acordo com o princípio do
primado deste sobre o direito nacional, prevalece sobre os direitos nacionais,
pudesse ver as suas decisões postas em causa pelos tribunais dos EM.
 Declarações de validade: estas não acrescentam nada ao acto, o qual goza da
presunção de legalidade até prova em contrário. O TJ limita-se a declarar que
o exame das questões que lhe são suscitadas não revela nenhum elemento de
natureza a afectar a validade do acto. Posteriormente, o mesmo ou outros
tribunais podem invocar novos fundamentos de invalidade.
A declaração de validade produz efeitos obrigatórios e não apenas morais. O
tribunal nacional que suscitou a questão prejudicial não pode recusar a
aplicação do acto ao caso concreto com fundamento em invalidade.

 Declaração de invalidade: esta obriga o juiz que suscitou a questão prejudicial,


este não pode aplicar um acto que a UE declarou inválido pelo TJ, salvo se o
acórdão dispuser em sentido contrário.
Um acórdão que declara a invalidade de um acto constitui razão suficiente
para qualquer outro juiz considerar como não válido, quando pretender
aplicar a qualquer processo pendente. Assim, a declaração de invalidade
obriga todo e qualquer tribunal nacional, pois um acto inválido não pode ser
aplicado.
Os tribunais nacionais não podem ficar privados do direito de suscitar
novamente questões prejudiciais sobre o acto declarado inválido. Tal pode
justificar-se se subsistirem dúvidas relacionadas com fundamentos, à extensão
ou às consequências da invalidade precedentemente declarada.
A declaração de invalidade de um acto da UE pode ter também implicações
para as instituições e os órgãos legislativos da UE e para os órgãos nacionais.
(art.266).
Se o acto foi declarado inválido, a ilegalidade pode ser invocada pelo particular
na excepção de ilegalidade e na acção de responsabilidade (art. 268º e 340º),
sem ter de ser reapreciada.

Efeitos temporais do acórdão prejudicial:

Esta problemática visa esclarecer se o acórdão prejudicial se


aplica aos factos ou situações que ocorreram antes da data em
que este foi proferido ou se pelo contrário se aplica apenas
aos factos ou situações que ocorreram após essa data, ou seja,
trata-se de saber se o acórdão produz ou não efeitos
retroactivos.
Caso se chegue à conclusão de que o acórdão produz efeitos
retroactivos, há que averiguar a partir de que momento se dá
essa retroacção.
O acórdão interpretativo tem efeitos retroactivos, ou seja, a
interpretação dada pelo TJ aplica-se ab initio. A regra, com a
interpretação que lhe foi dada pelo TJ, pode e deve ser
aplicada pelo juiz às relações jurídicas nascidas e constituídas
antes do acórdão interpretativo, se estiverem reunidas as
condições que permitem submeter-se aos órgãos jurisdicionais
competentes um litígio relativo à aplicação da mesma regra.
Os principais fundamentos da retroactividade são:
 A natureza declarativa do acórdão;
 A finalidade e a natureza do processo do art. 267º;
 O princípio da legalidade.

De acordo com a jurisprudência do TJ, a limitação no tempo


dos efeitos do acórdão é da sua competência exclusiva. Trata-
se e uma derrogação à regra de repartição de competências
para aplicar a norma ao caso concreto e, como tal, é a ele que
compete definir os efeitos do acórdão. Esta derrogação
baseia-se no objectivo da interpretação e aplicação uniformes
do DUE, pois se cada tribunal nacional pudesse fixar os efeitos
no tempo dos acórdãos interpretativos, isso significaria que a
norma poderia ser aplicada pelos tribunais de modo
divergente, o que exactamente o processo das questões
prejudiciais pretende evitar.
A declaração de invalidade de um acto da UE produz também
efeitos retroactivos.
O TJ admitiu em vários acórdãos, a limitação no tempo dos
efeitos da declaração de invalidade, com base na aplicação
analógica do art. 264º 2ª parte. O recurso da anulação e a
apreciação da validade fazem parte de meios de fiscalização
de legalidade, havendo até quem defenda que o art. 267º é a
última via aberta para que, expirado o prazo de interposição
do recurso de anulação, a legalidade possa ser reposta, se não
levarmos em conta, obviamente a excepção da ilegalidade.
Daqui decorre que faz todo o sentido a aplicação do art. 264º
2ª parte ao processo das questões prejudiciais.
A faculdade de limitar no tempo os efeitos do acórdão
fundamenta-se em razões de segurança jurídica e é da
competência exclusiva do TJ.

O TJ não pode reformular, revogar ou anula a sentença do tribunal nacional, só


é competente para a questão prejudicial e na justa medida em que o tribunal nacional
lhe suscita essa questão.
A relação que se estabelece entre o TJ e os tribunais nacionais é muito mais
complexa e profunda do que inicialmente se poderia prever.

CAPÍTULO 12 – LIBERDADE DE CIRCULAÇÃO

 Livre circulação de mercadorias


Foi o TJ que afirmou diversos princípios estruturantes para a realização desta
liberdade:
- Princípio da ilicitude de toda a regulamentação comercial dos EM que actualmente
constitua um entrave à circulação das mercadorias;
- Princípio do esgotamento dos direitos de propriedade;
- Princípio do reconhecimento mútuo das legislações mesmo enquanto reconheça a
manutenção de uma competência estadual, expressa na legitimidade de adopção estadual de
regulamentações técnicas e comerciais.

Mercadoria: (art. 28º/1 TFUE) quaisquer produtos apreciáveis em dinheiro e


susceptíveis de ser objecto de transacções comerciais. Beneficiam da livre circulação as
mercadorias originárias e as mercadorias de livre prática. Mas também gozam de direito de
livre circulação produtos não originários, quando se encontram em livre pártica (art. 28º/2
TFUE). O conceito de mercadoria em livre prática é definido no próprio tratado.

Obstáculos à livre circulação de mercadorias: o tratado prevê duas grandes categorias:

 Direitos aduaneiros e Encargos de efeito equivalente

Os direitos aduaneiros constituem obstáculos clássicos ao comércio


internacional. Trata-se de imposições financeiras constantes da Pauta
Aduaneira de um Estado, exigíveis aquando a realização de operações de
importação ou exportação de mercadorias. Através deles, os Estados realizam
dois objectivos principais, a protecção dos mercados nacionais de produção ou
comercialização e a percepção de receitas.
Os direitos são imposições pecuniárias que incidem sobre os produtos
importados no momento da declaração apresentada pelo importador com a
intenção de colocar os produtos em livre prática ou da sua comercialização
noutro EM. Tradicionalmente, podem ser direitos fixados baseados no valor
aduaneiro das mercadorias, ou específicos baseados nas características do
produto.

A noção de encargos de efeito equivalente a um direito aduaneiro é uma


noção basicamente jurisprudencial. O TJ definiu-o como sendo o encargo
pecuniário unilateralmente imposto, quaisquer que sejam a sua designação ou
técnica, incidindo sobre mercadorias nacionais ou estrangeiras, comunitárias
ou não, em razão do simples facto de transporem uma fronteira, qualquer que
seja o momento da cobrança.

O art. 30º TFUE estabelece uma proibição estrita tratando-se de uma norma
de realidade do mercado interno, qualquer excepção à sua aplicação, mesmo
quando legítima, dever ser objecto de interpretação estrita ou mesmo
restritiva. As situações em que tal pode acontecer são fundamentalmente
quatro:
1º A excepção expressa no art 36º TFUE;
2º Pode ser exigível um encargo quando corresponde à contraprestação de um
serviço efectivamente prestado, num montante concretamente proporcional,
nomeadamente referido aos controlos efectuados para cumprir obrigações
impostas pelo próprio DUE;
3º São igualmente legítimos encargos impostos por outros instrumentos de
direito internacional;
4º Podem ser impostos encargos que façam parte do sistema geral de
imposições internas previstas no art. 110º TFUE, desde que abranjam de forma
sistemática e segundo os mesmos critérios, os produtos nacionais e os
produtos importados ou exportados.

O art. 110º TFUE levanta algumas dificuldades de compreensão, o seu


objectivo é o de limitar as implicações das politicas fiscais nacionais na
realização do mercado comum.

 Restrições quantitativas e medidas de efeito equivalente

Restrições quantitativas: obstáculos que resultem da contingentação das


mercadorias admitidas a entrar ou sair de um EM, quer sejam produzidas num
EM, quer se encontrem em livre prática. Todas as mercadorias que são
susceptíveis de transacções comerciais lícitas beneficiam destes princípios,
mesmo que estejam excluídas do âmbito de aplicação do tratado (art. 346º
TFUE), sejam objecto de políticas específicas (produtos agrícolas) ou ainda
quando sejam mercadorias em livre prática. Constituem restrições
quantitativas aquelas medidas estaduais que proíbem a importação,
exportação ou o trânsito de quaisquer mercadorias e se concretize
especificamente na fixação de um contingente.
Quando as medidas restritivas estiverem relacionadas cm elementos
estranhos às próprias mercadorias, estaremos perante medidas de efeito
equivalente.

 Livre circulação de pessoas, serviços e capitais

Livre circulação de pessoas (art. 3º/2, 9º e 10º TUE, art. 20º a 25º TFUE e art. 39º a 46º
CDFUE):

 Direito de circular e permanecer (art. 20º/2 a) TUE, 21º TFUE e 45º CDFUE):
 Direitos de participação política eleitoral no EM de residência (art.
20º/2 b) e 22º TFUE, 39º e 40º CDFUE)
Eleições municipais;
Eleições do PE.

 Protecção diplomática e consultar: Os tratados reconhecem aos cidadãos da


UE o direito à protecção diplomática e consultar no território de países
terceiros em que o seu Estado de nacionalidade não disponha de
representação (art. 20º/2 c) e 23º TFUE). Trata-se de uma protecção
diplomática que opera de forma subsidiária, só podendo funcionar quando o
próprio Estado de nacionalidade não tiver em condições de lhe garantir a
necessária protecção mas que, a funcionar, deve assegurar um tratamento
não discriminatório desses cidadãos (art. 46º CDFUE).

 A natureza dinâmica da cidadania: os direitos conferidos pelo estatuto de


cidadania serão objecto de avaliação periódica podendo ser aprofundados
pelo Conselho, decidindo por unanimidade no quadro de um processo
legislativo especial que pode envolver a aprovação (art. 25º TFUE) ou apenas a
consulta do PE (art. 77º/3 TFUE) e distinto, quer dos processos de revisão
previsto no art. 48º, quer do procedimento previsto no art. 353º TFUE.

 Livre circulação de trabalhadores (art. 45º TFUE)

 Trabalhadores e outros beneficiários: apenas beneficiam da liberdade de


circulação de trabalhadores os trabalhadores dos EM.

 Conteúdo do direito de livre circulação (art. 45º a 48º TFUE): por via da
cidadania todos os nacionais dos EM gozam do direito de circular e
permanecer livremente no território de todos os EM, salvo limitações e
excepções abertas pelo próprio DUE (art 21º TFUE). O princípio da não
discriminação em razão da nacionalidade, neste domínio, traduz-se na ideia do
tratamento nacional. Por isso, o próprio tratado consagra a igualdade no que
toca ao emprego, à remuneração e às demais condições de trabalho. Os
familiares dos trabalhadores de EM beneficiam do mesmo princípio de
equiparação, de resto sucessivamente afirmado e mesmo ampliado na mais
recente jurisprudência comunitária, em termos que colocam mesmo em causa
a subsistência de áreas de soberania estadual neste domínio.

 Restrições e excepções à livre circulação (art. 45º TFUE).

 Livre circulação de serviços (art. 26º/2, 49º a 55º e 56º a 62º TFUE)

 Direito de estabelecimento (art. 49º TFUE): permite o exercício de actividades


não assalariadas que apresentem características de estabilidade e
permanência.

 Restrições e domínios de excepção (art. 51º e 52º TFUE)

 Livre prestação de serviços (art. 26º/2 e 56º a 62º TFUE):

 Restrições e excepções (art. 51º, 52º e 53º TFUE).