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TESTE GLOBAL DE 11º ANO

A
Lê, atentamente, o poema que se segue.

Cristalizações

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,


Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,


E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de ar, como em chão vidrento,
Refletem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,


Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!


Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,


Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços1,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!


Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas2, os coletes;
E eles descalçam-se com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente flores,


Fundeiam, como a esquadra3 em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias4, vergas5! Valadores6
Atiram terra com largas pás.

1
Maço - Instrumento semelhante a um martelo
2 Japona – jaquetão; casaco
3 Esquadra – conjunto de navios de guerra
4 Enxárcia – conjunto dos cabos fixos que prendem os mastros e os mastaréus da gávea às mesas de guarnição situadas nas

amuradas dos navios.


5 Verga – pau preso ao mastro do navio, onde se amarra a vela.
6 Valador – aquele que abre valas.
Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente! -
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;


Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,


Eu tudo encontro alegremente exato.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!
(...)
Cesário Verde

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

1. Indica a altura do ano em que se situa o cenário descrito pelo sujeito poético e transcreve
passagens que justifiquem a tua resposta.

2. Com a sua “visão de artista”, o sujeito poético transfigura a realidade.


2.1. Justifica esta afirmação, apoiando a tua resposta em expressões textuais.

3. O efeito impressionista da poesia de Cesário é conseguido através do recurso a processos


estilísticos variados.
3.1. Prova que a descrição da cidade que o poeta faz, no seu deambular, apela a
diferentes impressões dos sentidos, realçando a função das sinestesias presentes.

B
Lê o texto.

Razões objetivas para se ter cinco mil amigos dos quais não se conhecem mais de três
Onde o nosso Comendador, apesar da provecta idade, discorre sobre as redes sociais,
nomeadamente o Facebook (ou livro de caras), do qual é membro ativo há já seis dias.
Foi quando me perguntaram o que pensava das redes sociais que descobri que não
pensava nada. A resposta que dei, envolvendo a ADSE, a Santa Casa da Misericórdia e o
Albergue da Mitra, foi claríssima, já que provou que eu nem fazia ideia do que é o que hoje
chamam uma rede social.
Pedi ajuda aos meus netos (ou talvez sejam bisnetos). Explicaram-me tudo muito bem,
disseram que tinham 60 ou 70 amigos cada no Facebook.
- Livro de caras - corrigi eu, que nunca gostei de expressões anglófilas à mesa.
- Não, vô, Facebook mesmo, é assim que se chama.
Decidi aderir ao dito Facebook e, logo que soube que o máximo de amigos é cinco mil,
apostei com todos os netos que tinha à mão, e ainda com um filho ou dois, que em menos de
um mês chegaria a ter os ditos cinco mil.
No primeiro dia, inscrevi-me e coloquei lá todos os meus dados, exceto os das séries de
televisão preferidas, porque, desde que acabaram os Concertos para a Juventude de Leonard
Bernstein - e o próprio Leonard Bernstein -, nunca mais vi nada de jeito na TV. Passados dois
minutos a olhar para aquela barra azul, na ânsia de encontrar um amigo qualquer (da
faculdade e do colégio já não havia nenhum), apareceu uma senhora com uma foto jeitosa a
pedir para ser minha amiga. Claro que aceitei! Poucos segundos depois ela mandou-me uma
mensagem onde insinuava que era minha admiradora e que eu lhe devia comprar e divulgar
um livro de autoajuda intitulado "Como Fazer Amigos no Facebook". Comprei o livro,
divulguei-o na minha página e penso que era, exatamente, a autoajuda de que precisava
naquele momento, pois imensa gente, a partir daí, quis ser minha amiga.
Após dois escassos dias de adesão à rede, eu era já amigo de vinte e sete restaurantes,
de quarenta e seis regiões, cidades e aldeias, de um talho, de duas charcutarias, de seis
promotores imobiliários, de quatro livrarias e de quinze festas populares, arraiais e concertos
diversos. Com dois velhotes (um deles ateu militante), que me concederam igualmente a
alegria de serem meus amigos, perfaziam mais de cem. Como balanço de dois dias não era
mau, mas ainda era pouco.
Aderi, então, a todos os grupos e causas que pude, desde a que pugna pelo não fecho da
Biblioteca Nacional até à que luta pelas obras imediatas para salvar a Biblioteca Nacional.
Tornando-me amigo das diversas distritais do PSD, do PS, do Bloco e de células avulsas do PCP
e núcleos do CDS, e ainda de Manuel Alegre, de Fernando Nobre, de Cavaco Silva e da Causa
Monárquica, evitando habilidosamente uma disputa entre o Núcleo Tauromáquico de
Santarém e o Grupo de Forcados Amadores do Montijo, ao fim do quarto dia tinha mais dois
mil amigos. Salvo erro, destes conheço dois, mas estabeleci uma relação de certa intimidade
com a aldeia de Cebolais, cujo presidente da Junta quer fazer de mim aldeão honorário.
Agora, que em seis dias fiz quase três mil amigos, acredito que ganhei a aposta. É certo
que comecei a aceitar amigos russos, indianos, americanos e, até, da Finlândia. Já dizia o meu
avô que amigos até no Inferno - e, se aparecer algum, é certo que os adiciono. Por falar nisso,
tenho cá o Sócrates e o Passos, para não falar do John McCain, da Sarah Palin, do Zapatero e
do Chávez.
O que é preciso, como diz o outro, é confiança. E estou cheio dela. Quando descobrir
para que quero tanto amigo, não deixarei de dizer.
Comendador Marques de Correia
Texto publicado na edição da Única de 24 de julho de 2010

4. Explique o equívoco do Comendador Marques de Correia em torno da expressão “rede


social”, interpretando a sua intenção de traduzir a palavra “Facebook”.
5. Comente o valor expressivo da ironia presente na frase “após dois escassos dias […]
concertos diversos” (ver as linhas sublinhadas no texto).

GRUPO II
Lê, atentamente, o seguinte texto.

Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui
publicando […]. A estranheza do título justifica uma explicação, para que ele não passe como
um mero exercício de estilo. Quando era pequeno – muito pequeno, talvez oito ou nove anos
– lembro-me de estar deitado na banheira, em casa dos meus pais, a ler um livro de
5 quadradinhos. Era uma aventura do David Crockett, o desbravador do Kentucky e do Tenessee,
que haveria de morrer na mítica batalha do Forte Álamo. Nessa história, o David Crockett era
emboscado por um grupo de índios, levava com um machado na cabeça, ficava inconsciente e
era levado prisioneiro para o acampamento índio. Aí, dentro de uma tenda, havia uma índia
muito bonita – uma «squaw», na literatura do Far-West – que cuidava dele, dia e noite,
10 molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma. E, a certa
altura, ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro: «não te deixarei morrer,
David Crockett!» Não sei porquê, esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre, quase
obsessivamente. Durante muito tempo, preservei-as à luz do seu significado mais óbvio: eu era
o David Crockett, que queria correr mundo e riscos, viver aventuras e desvendar Tenessees.
15 Iria, fatalmente, sofrer, levar pancada e ficar, por vezes, inconsciente. Mas ao meu lado
haveria sempre uma índia, que vigiaria o meu sono e cuidaria das minhas feridas, que me
passaria a mão pela testa quando eu estivesse adormecido e me diria: «não te deixarei morrer,
David Crockett!» E, só por isso, eu sobreviveria a todos os combates. Banal, elementar. Porém,
mais tarde, comecei a compreender mais coisas sobre as emboscadas, os combates e o

20 comportamento das índias perante os guerreiros inconscientes. Foi aí que percebi que toda a
minha interpretação daquela cena estava errada: o David Crockett representava sim a minha
infância, a minha crença de criança numa vida de aventuras, de descobertas, de riscos e de
encontros. Mas mais, muito mais do que isso: uma espécie de pureza inicial, um excesso de
sentimentos e de sensibilidade, a ingenuidade e a fé, a hipótese fantástica da felicidade para
25 sempre. [...]
Miguel Sousa Tavares, Não Te Deixarei Morrer, David Crockett, «Nota Prévia», 26.ª ed., Lisboa, Oficina do
Livro, 2007
Para responder aos itens de 1 a 6, escreva, na folha de respostas, o número do item
seguido da letra identificativa da alternativa correta.

1. Com a afirmação «esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre» (linha 12), o
autor quer dizer que
A. se sentia marcado para toda a vida por aquela frase e por aquela cena.
B. transportava consigo, sempre que viajava, um livro sobre David Crockett.
C. se lembrava daquela frase e daquela cena sempre que viajava.
D. tinha aquela frase gravada na pasta que usava em viagem.

2. Na frase iniciada por «Foi aí que» (linha 20), o autor assinala o momento em que
A. leu a história aventurosa e acidentada do desbravador David Crockett.
B. tomou consciência de que David Crockett era o símbolo da sua infância.
C. sentiu a necessidade de preservar na memória o herói David Crockett.
D. julgou que era David Crockett, o mítico combatente de Forte Álamo.

3. A perífrase verbal em «e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linhas 1 e 2)


traduz uma ação
A. momentânea, no passado.
B. repetida, do passado ao presente.
C. apenas começada, no passado.
D. posta em prática, no momento.

4. A locução «para que» (linha 2) permite estabelecer na frase uma relação de


A. causalidade.
B. completamento.
C. finalidade.
D. retoma.

5. O uso de travessão duplo (linha 3 e 4) justifica-se pela necessidade de


A. destacar uma explicitação.
B. registar falas em discurso direto.
C. marcar alteração de interlocutor.
D. sinalizar uma conclusão.
6. O uso repetido do nome «David Crockett» (linhas 5, 6, 12, 14, 18, 21)
A. constitui um mecanismo de coesão lexical.
B. assegura a progressão temática.
C. constitui um processo retórico.
D. assegura a coesão interfrásica do texto.

7. No segmento textual “Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao
longo dos anos fui publicando” (linhas 1 e 2) constitui um ato ilocutório
A. diretivo.
B. assertivo.
C. compromissivo.
D. declarativo.

8. Indica a função sintática desempenhada por “inconsciente” (linha 7).


9. Identifica o antecedente do pronome relativo “que” (linha 9).
10. Classifica a oração subordinada “que vigiara o meu sono” (linha 16).

GRUPO III
“A mim o que me rodeia é o que me preocupa”.

Num texto bem estruturado, com um mínimo de 180 e um máximo de 300 palavras,
apresenta uma reflexão sobre a afirmação acima transcrita, atribuída a Cesário Verde, onde
esclareças essa atenção particular que o poeta dispensa à realidade circundante.
Para fundamentar o teu ponto de vista, recorre, no mínimo, a dois argumentos,
ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
CORREÇÃO
A
1. O cenário descrito pelo sujeito poético enquadra-se no inverno “A lã dos seus barretes! /
Que espessos forros!” e “As árvores despidas”, num momento solarengo “vibra uma imensa
claridade crua”, após uns dias de chuva.

2.1. Ao longo do poema, o sujeito poético transfigura a realidade. “Transforma” as árvores


despidas em elementos náuticos “mastros, enxárcias, vergas!” e os charcos são
“transformados” em lagoas de brilhantes. Desta forma, o poeta recria o concreto criando uma
nova realidade através da sua imaginação.

3.1. A descrição da cidade é realizada através de expressões da perceção sensorial, com


predomínio das sensações visuais “uma imensa claridade crua”, mas também auditivas “gritam
as peixeiras” e táteis “A sua barba agreste”. Esta descrição sinestésica “Vibra uma imensa
claridade crua” (e versos 13 e 20) atribui uma maior valorização da sensação em detrimento
do objeto real.

B
4. O equívoco do autor do texto foi ter associado a expressão (“rede social”) a instituições de
apoio social, como por exemplo, a Santa Casa da Misericórdia. Não sabendo o que é o
Facebook, o autor manifesta uma atitude de defesa da língua portuguesa, isto é, resiste ao
“estrangeirismo” dizendo que se deve traduzir a palavra. O autor não percebeu que esta
palavra designa uma rede social e que já é usada por toda a gente.

5. Essa frase é irónica, porque o autor brinca com o conceito de “amizade”: em vez de pessoas,
surgem como amigos: restaurantes, regiões, lojas, etc., com os quais ele não partilha nada em
comum. Portanto, ele não está a utilizar adequadamente o Facebook: dificilmente conseguirá
compartilhar conhecimentos e interesses com tantas e tão diversificadas entidades.

GRUPO II
1. A
2. B
3. B
4. C
5. A
6. A
7. B

8. Predicativo do sujeito
9. “uma índia muito bonita”
10. Oração subordinada adjetiva relativa explicativa