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As novas tecnologias e o desenvolvimento infantil

Raphael Augusto Morais de Oliveira


Graduando em Psicologia
Introdução

O presente artigo pretende discutir sobre a influência das novas tecnologias no


desenvolvimento infantil, visto que há uma modificação do comportamento mediante as muitas
opções de entretenimento, criação e compartilhamento de conteúdo proporcionado pelas mídias
digitais, mas não só dos aspectos psicológicos, mas também dos aspectos sociais e culturais que a
contemporaneidade traz.

Segundo Paiva e Costa (2015, s.p.?) “as crianças do século XXI nasceram num período no qual
a tecnologia é o alicerce da manutenção das relações sociais, por conseguinte, torna-se uma tarefa
quase impossível viver sem ela.” Assim pode-se entender que a tecnologia é um meio facilitador para
as relações se estabelecerem, e que o convívio sem ela nos dias atuais se faz quase impossível,
portanto, mediar as relações entre crianças e tecnologias é uma tarefa que se faz necessária, pois na
relação tecnologia/humano há efeitos benéficos e outros nem tanto.

Os Jogos tradicionais que são caracterizados pela criatividade, contato físico direto e estímulo
motor estão sendo substituídos por tablets e smartphones, segundo Paiva e Costa (2015) dessa
maneira o convívio no laço social fica restrito a telas de dispositivos. Fantin (2016, s.p.) fala que “as
culturas das crianças são também um processo de livre interpretação e reprodução da realidade social“
e, como novos intérpretes que são as crianças, aos adultos cabe entender, mediar esse novo brincar e
buscar facilitar o convívio para que não se fique restrito apenas ao digital, mas também a inserção no
laço social.

Para se pensar na influência das mídias sociais na infância, é necessário um olhar mais amplo
no qual envolve não só as características psicológicas e de desenvolvimento infantil, mas “relação entre
infância, mídia e economia, a participação das crianças ocorre tanto pela produção quanto pelo
consumo infantil” (FANTIN 2016, p.?)

Sabe-se que a meta do capitalismo é o consumo e com isso a infância se torna um alvo,
Segundo Dexheimer e Bacha (2011, p. ?), “ninguém nasce consumista. O consumismo é uma ciência de
formação de ideias, um hábito mental manipulado que se tornou umas das características culturais
mais marcantes da sociedade atual.” Sendo assim Fantin (2016, s.p.) refere que “embora saibamos
que as crianças têm direito ao consumo, é importante discutir o tipo de consumo digital ao qual as
crianças estão submetidas e as formas de mediação na perspectiva da mídia-educação, entendida
como educação para cidadania. ”

Desenvolvimento

Já nas primeiras duas décadas do século XXI podemos perceber que os mais diversos setores
da sociedade estão em constantes modificações, especialmente no que diz respeito a tecnologia.
Assim, pensar a infância neste século perpassa pelo que Dunker (2017, s.p.) diz “[...] temos uma
primeira geração nascida e criada com acesso farto e irrestrito à vida digital”, e que “como qualquer
tecnologia ela apenas favorece ou intensifica disposições já existentes. Contudo, há implicações
importantes para esses avanços tecnológicos, por isso é importante pensar o que esses avanços
tecnológicos trazem de positivo e negativo, aqui reservando-se apenas ao que concerne o
desenvolvimento infantil.
Segundo Paiva e Costa (2015, s.p.), “muitos estudiosos questionam sobre a influência da
tecnologia no desenvolvimento da criança, isto é, se apresentam efeitos negativos ou positivos os quais
podem impedir ou favorecer o crescimento mental e social dos jovens”,
Diante dessa nova realidade, pode-se frisar que o contexto sociocultural em que a criança está
inserida é importante, e que o determinismo tecnológico não pode ser isolado e colocado como via de
regra (FANTIN. 2016). Contudo é uma realidade que cada vez um maior número de pessoas tem acesso
as novas tecnologias, de modo especial as crianças, visto que “preferem se divertir aderindo ao mundo
virtual em detrimento de jogar bola, correr, ou seja brincadeiras tradicionais nas quais envolvem
exercícios físicos e a interação social com outras crianças” (PAIVA E COSTA, 2015, s.p.). Com essa nova
realidade pode-se pensar um melhor aproveitamento para o uso das tecnologias visando uma
contribuição.
Há um risco iminente no uso indiscriminado da tecnologia, já que este desconstrói vínculos
afetivos entre os membros da família e uma ausência de referência de natureza emocional que dificulta
as crianças no desenvolvimento de sua cognição no ambiente escolar, porque a falta de equilíbrio
entre os aspectos cognitivos e afetivos compromete o desempenho escolar dos alunos (PAIVA e
COSTA. 2015). Chagas (2014, s.p.) aponta que:

“O uso desses recursos tecnológicos, como a internet, pode prejudicar a criança


tanto na sua formação intelectual quanto no fato de que hábito de pesquisa se
prende apenas nas redes sociais e deixa-se de lado as bibliotecas, livros, revistas e
jornais. Prejudica-se também a formação social da criança, já que a priva do convívio
com as demais pessoas para ficar em casa na frente do computador, jogando ou
brincando sozinhos. ”
Segundo Sá (2012), “a psiquiatria entende, hoje, que a Internet promove dependência sim e
busca soluções para catalogar e acordar protocolos de atendimento. Cruza os sintomas de
dependência, impulsividade e compulsão com outros transtornos mentais”. O uso indiscriminado da
tecnologia, potencializa o isolamento social através do sedentarismo e esse fenômeno pode causar
embotamento afetivo, despersonalização, ansiedade e depressão o que compromete o
desenvolvimento físico, afetivo e cognitivo das crianças. (PAIVA e COSTA. 2015)
A indústria, diante desta realidade, tem investido cada vez mais na comercialização de
produtos eletrônicos voltados para a infância. Pesquisas e avanços tecnológicos têm o claro objetivo
de desenvolver cada vez mais mídias interessantes, envolventes e viciantes (SOUZA et al., 2016)
Chaves (2014, s.p.) Relata que “a televisão passou a ter maior influência no mundo infantil, não
apenas como forma de entretenimento, mas como principal meio publicitário de veiculação desses
lançamentos, sendo eles dos mais variados produtos destinados ao mundo infantil”. A participação das
crianças, no entanto, não se dá apenas de um ponto de vista passivo, da simples relação de compra e
venda, mas também pela produção de conteúdo. Como diz Fantin (2016):

“Na relação entre infância, mídia e economia, a participação das crianças ocorre
tanto pela produção quanto pelo consumo infantil. Os produtos culturais para a
infância (livros, cinema/filmes, televisão, jogos) e outros produtos de consumo para
crianças (moda, guloseimas, material escolar, serviços recreativos) fazem parte de
um dos segmentos de mercado de difusão mundial. ”
(FANTIN, 2016, s.p.)

Diante de tal demanda, e, considerando que, dentre tantos malefícios, a evolução tecnológica
também traz coisas boas, faz-se importante pensar e mediar o uso da tecnologia por crianças, a fim de
garantir que seja benéfico, prazeroso e não prejudicial. Desta forma:

“Vemos com isso a importância de limitar o tempo em que as crianças passam na


frente da televisão e que seja de preferência com programas de qualidade, e o
tempo também com os jogos eletrônicos, já que conteúdo, muitas vezes, envolve
agressão e violência. ” (CHAGAS, 2014s.p)

Chaves (2014 s.p) ainda ressalta que, “frente a isso, precisamos (re) colocar a importância de
que a criança seja garantida vivências que lhe permitam desenvolver-se, experimentar, conhecer a si e
aos outros, para além do universo midiático”. Assim, buscando através de brincadeiras ou jogos
tradicionais as vivências da ludicidade, contatos interpessoais, visto os benefícios que esses tipos de
jogos trazem. Desta forma, Chaves (2014, s.p.) diz que “a brincadeira é um meio pelo qual a criança
toma consciência do mundo que a circunda, constituindo-se, assim, em uma atividade promotora do
seu desenvolvimento. ”
Porém, em contrapartida podemos articular que a tecnologia tem contribuição significativa
para a nova dinâmica social e de aprendizado. Mercado (1998 s.p.) diz que:

“Quando estudantes podem trocar experiências e conhecimentos com colegas do


mundo inteiro, assim como bibliotecas, centros de pesquisas, universidades, museus,
todo um universo de percepção se abre para eles, a própria perspectiva de mundo e de
realidade se modifica, dando lugar à formação de um conhecimento mais global,
menos limitado às fronteiras nacionais e imediatas. Eles podem construir pontes de
conhecimento e entender outras culturas, outros modos de compreender o significado
das coisas, da realidade. ”

Sobre esta dúbia realidade seriada por prós e contras, não se pode colocar o uso da tecnologia
como um vilão eminente da vida em sociedade no século XXI, mas sim aproveitar do seu uso, buscando
cada vez mais torna-lo mais sadio, buscando distinguir os benefícios e malefícios próprios de todas as
novidades.

Conclusão

Por fim pode-se dizer através destes estudos que é preciso se fazer um uso responsável das
novas tecnologias, diante de tantas demandas levantadas que podem contribuir negativamente para
o desenvolvimento infantil. São evidentes os benefícios dos avanços tecnológicos, porém diante de
tantos riscos o adulto responsável deve controlar o uso.
O resgate e o incentivo aos jogos tradicionais também são uma via para que haja uma maior
integração das crianças no laço social, ainda que menos atraentes em um primeiro momento para as
crianças, buscar meios para interação social fora do ambiente virtual.
Referências:

CHAVES, I. C. G. Tecnologia e infância: um olhar sobre as brincadeiras das crianças. Trabalho de


conclusão de curso. Pedagogia. Universidade Estadual de Maringá. 2014. Disponível em:
http://www.dfe.uem.br/TCC-2014/IsabelleC.G.Chaves.pdf Acesso: em: 22 mai 2017.

DEXHEIMER, C.; BACHA, M. L. O consumismo infantil: a influência das crianças na decisão de


compra dos pais. VII jornada de iniciação científica, p. 1-13, 2011. Disponível em:
<http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/pesquisa/pibic/publicacoes/2011/pdf/jor/carolini_dexhei
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DUNKER, C. I. L. Intoxicação digital infantil. Brasileiros, fevereiro. 2017. Disponível em:


<http://brasileiros.com.br/2017/02/intoxicacao-digital-infantil/>. Acesso em: 16 mai. 2017.

FANTIN, M. Múltiplas faces da infância na contemporaneidade: consumos, práticas e pertencimentos


na cultura digital. Revista da educação pública. v. 25, n. 59/2. Cuiabá. (2016) disponível
em:http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/educacaopublica/article/view/3836 acesso em
09/05/2017
MERCADO, L. P. L.. Formação docente e novas tecnologias. IV Congresso RIBIE, Brasília 1998.

PAIVA De, N. M. B.; COSTA, J. S. A influência da tecnologia na infância: desenvolvimento ou


ameaça. Psicologia. pt, Teresina, p. 1-13, fev. 2015. Disponível em:
<http://www.psicologia.pt/artigos/textos/a0839.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2017.

Sá, G. M. À frente do computador: a Internet enquanto produtora de dependência e isolamento


Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Vol. XXIV, 2012, pág. 133-147
Disponível em : http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10761.pdf. Acesso em: 22/05/2016

SOUZA, B. D. de et al. Vício em jogos eletrônicos (play addiction) em adolescentes. Revista iniciação
científica, Criciúma, v. 14, n. 1, jan. 2012. Disponível em:
<http://periodicos.unesc.net/iniciacaocientifica/article/viewfile/2673/2481>. Acesso em: 09 mai.
2017.