Você está na página 1de 5

Ensaio teórico de direito natural apoiado nos fatos

Não nasceu o homem para ser ocioso, e mero espectador das grandes e
magníficas cenas do teatro da natureza. Seu corpo, de uma parte, experimenta
necessariamente as constantes vicissitudes do universo, enquanto sua inteligência o
impulsiona a tomar uma parte ativa e espontânea no movimento do mundo, e o que é
mais, a determinar por si mesmo sua participação neste movimento. A menor
impressão que recebe em seus sentidos como que o impulsiona a obrar, e parece que se
lhe abrem um sem conto de caminhos, em tanta maneira diversos, à sua livre atividade.
Mas a pergunta que surge é se está essa livre atividade unicamente regida por um
principio interior, ou, ao revés, há fora um objeto ou fim que domine e reja as suas
determinações.

De feito, de notar é um fato constante e mil vezes observado por homens que
soem entrar silentes em si mesmos e observar os fenômenos de sua consciência, que é a
tendência irresistível à felicidade, que leva nós todos a buscar fora de nós um objeto,
cuja tranquila posse possa serenar o ardor querençoso, e que à inquietude suceda o
repouso. Assim que todos queimamos de sede, de fome, de frio, ou de qualquer outra
sensação, que acende em nós o desejo de buscar o objeto em que lhe possa ter mão. Da
sede sucede o beber, da fome o comer, e do frio o agasalhar-se. Assim alguma coisa que
se presenta agradável inclina a vontade a querer tal bem. A imaginação encontra seu
bem nas imagens que deleitam, a inteligência nas verdades que ilustram; pelo que se
pode dizer que a atividade humana tem sempre fora um fim, um bem que lhe atrai e
excita, e cuja posse é o objeto de todos os seus esforços.

Eis o fato primeiro que se encontra em toda ação humana. Pelo que se depreende
que a faculdade tende ao bem, a que aspira. É, portanto, de se questionar, diante da
faculdade e do bem, qual é para ser estudado primeiro. De mister é verificar qual desses
objetos é o primeiro na ordem do nosso conhecimento. Noutros termos, qual se conhece
primeiro, a existência do objeto ou a faculdade que temos para alcançá-lo? Clara é a
resposta ao se considerar o artífice em seu ofício ao criar uma ferramenta. Ora, não cria
ele primeiro a ferramenta para depois lhe achar a destinação adequada, antes, pelo
contrário, conhece da necessidade que lhe move a confeccionar uma ferramenta que lhe
supra a tal necessidade. A invenção, portanto, não precede o objeto, pelo que fica o fim
precedendo ao meio. De excelente aviso é então seguir a própria ordem da natureza, e
estudar antes o bem que devemos alcançar, e depois as faculdades que a ele nos levam.
Se a principio o demorar-se em coisas que tais possam parecer escusadas, é pensar na
atividade moral do homem, e para logo se verá que se afigurará instransponível
dificuldade não conhecer dos meios e dos fins de que usam os homens, v.g, ao se
considerar num caso particular se tem ou não um homem direito. Será crível não saber
que há em todo homem, com diz Aristóteles, um disposição para justiça? Ainda, será
aceitável não saber que seja a justiça, e por que meio se pode alcançá-la? Portanto, o
fundamento de toda ação humana, e em consequência do Direito, está nesta relação de
bens e faculdades, meios e fins, desejos e gozos.

Que é, pois, o bem? Dá-se o nome de bem a tudo que pode satisfazer uma
faculdade, uma tendência qualquer; donde se segue que quanto mais forem as
faculdades, tanto mais serão os bens de que se pode gozar. Aqui fácil fica de
compreender as expressões comuns de “falsos bens”, e “verdadeiros bens”. Sucede
muita vez que as diversas inclinações de um ser se encontram, e o impulsionam a
objetos diferentes, e por vezes contrários. Neste caso, evidente será que um dos bens é o
verdadeiro, e o outro, que lhe é oposto, o falso; de feito, o falso é contrário ao
verdadeiro.

Diante do que vai encimado, para aqui é necessário estudar qual é o princípio da
distinção entre verdadeiro e falso bem. Se se imaginar um ser de natureza perfeitamente
simples, dotado, por conseguinte, de uma só tendência, é evidente que será por isso
mesmo impelido com toda sua força a alcançar o único bem que lhe apresenta sua
mesma natureza, e, portanto, tenderá sempre ao verdadeiro. Isto, contudo, não sucede
nas criaturas em que se deparam uma multidão de tendências, em tanta maneira
diferentes. Assim, poder-se-ia chamar a que tendências boas, e qual delas se poderia
dizer que se dirigem ao verdadeiro bem?

Melhormente se poderia aclarar a questão, ao colocá-la desta forma: Qual é, na


essência de cada ser, o primeiro princípio de atividade, ao qual devem estar
subordinados todos os mais? É este principio evidente, pois que é a mesma natureza do
ser, isto é, aquela primordial tendência, que é a fonte e razão de todos os impulsos,
tendências, ou faculdades particulares do ser. Aqui se faz preciso usar de algumas
noções de Metafísica. Todo ser é necessariamente uno. Todos os seres foram
necessariamente criados por uma inteligência infinita1, segundo a traça da eterna
sabedoria, e conforme a este plano deve cada ser cumprir no mundo um ofício
determinado, e por esta razão recebera do Criador um impulso que o dirige ao fim que
lhe foi sinalado. Não é, contudo, este impulso extrínseco ao ser, senão uma mesma coisa
com ele, e é aquele principio interne de atividade ao qual se deu o nome de natureza do
ser.

A natureza de um ser não é, pois, outra coisa que o princípio interior que lhe
impulsiona ao fim ao qual fora pelo Criador destinado2; e assim como todos os mais fins
devem subordinar-se a este fim último, da mesma maneira todas as tendências de um ser
devem estar também subordinadas àquela primeira tendência e radical, que constitui sua
natureza mesma. Dessas considerações se deduz que o verdadeiro bem de um ser não
pode consistir em um objeto parcial próprio de uma faculdade insulada, senão no objeto
adequado de sua natureza completa, isto é, àquele fim último a que sua natureza
impulsiona e a mão de Deus dirige.

Contudo, este impulso com que o Criador dotara todos os seres, é de caráter
vário, segundo a diversidade de substâncias. EM uns sua ação está determinada pelo ser
mesmo; assim, todo corpo, por razão de ser corpo, está determinado a tender para o seu
centro de atração.

Em outras substancias a determinação não é individual senão específica, como


vemos, por exemplo, em uma planta, que por sua espécie está determinada a crescer e
frutificar; porém, o número e perfeição de seus frutos, bem como o lugar que estes
ocupam não são determinados por seu ser de planta; este ser, é certo, comunica aquela
atividade interna, com que se alimenta da terra e da atmosfera; mas a intensidade e os
efeitos de sua atividade intrínseca dependem do exercício acidental que faz a planta

1
Importante é trazer para aqui aquele axioma de que o menos não pode o mais, mas o mais pode o
menos. Donde a necessária existência de um ser primeiro e superior. Não há aqui o fumo do acaso, a
exceção da eventualidade, o imprevisto, o eventual ou acidente. Daqui, contudo, não se há de supor a
irracionalidade do “desenho” inteligente. Algo de indigesto, em que o princípio é uma confusão de
terminologias.
2
Pela linha que se vai tecendo, claro está que “destino” aqui não significa predestinação. Já acima
alguma coisa ficou dito acerca da livre atividade, e ao depois mais se falará.
desta mesma atividade. A planta, portanto, obra em virtude de um princípio interno de
desenvolvimento, mas sua ação está determina pelos objetos exteriores. Outras
naturezas há que têm em si mesmas não só o princípio determinado, senão que
determinante de suas operações, como são os animais cuja tendência natural recebe sua
determinação do conhecimento que adquirem por meio dos sentidos, apropriando-se de
certa maneira dos objetos sensíveis a que tendem, e movendo-se até eles em virtude
desta apreensão3. É dizer que quando a apreensão interna apresenta o objeto próprio de
alguma de suas faculdades, esta faculdade determina a operação do bruto sem que este
lhe possa resistir. O homem, pelo contrário, dotado de um princípio espiritual, pode
refletir acerca de suas próprias tendências, conhecer o fim parcial e o término universal
e último delas, e determinar por si mesmo sua própria ação, além de, estando diante si o
objeto que atrai alguma de suas faculdades, pode permanecer indeterminado e suspenso.

Baste abrir qualquer manual de Direito moderno e antolhar-se-nos-á, já nas


primeiras páginas, uma crítica a um paradigma antigo de Direito, que é erigido como
espantalho, para ir nele bater a mediocridade. Há nestas críticas de fancaria, ainda
quando se pegue dos livros de matiz mais liberal, o Direito como filosofia clássica da
burguesia, e assim é visto, tanto por um lado, como por outro. Para uns, é decorrência
da propriedade; para outros, justificativa da ordem econômica, e daí ser agora
manietado por escolas econômicas. Os liberais, na sua soberba e torto racionalismo,
acabaram por aceitar uma visão jurídica materialista, ao supor que o direito é uma
categoria histórica, qualquer coisa de derivado: donde derivado? Das condições
materiais da vida. A pragmatização do Direito, portanto, não é uma conquista tão
somente do marxismo, senão que do liberalismo, que foi procurar em a natureza, a razão
de um regímen econômico, que contaminou, inclusive, a concepção do direito romano.

Ora, aí está suficienteme provado a razão por que se há de voltar para aquilo que
está naturaliter in corde conscripta. Esta mesma recta ratio que visa á conservação, à
propagação, e à elevação do homem.

3
(a) Le monde forme pour le mouvement de la matie're privee d' inteligencie a... des lois invariables.
Esprit des lois c. 1. Les bétes ne suivent
pas invariablement leurs lois naturelles: les plantes en qui nous ne remarqvons ni coni2aiss'a9zee ni
sentiment les suivent mieuai
Pedaço de uma carta que escrevi quando principiava nos clássicos. E lá já vão os
tempos. Era um tempo em que fazia minha cabeça o classicismo.

Irmão:

Veio a luz do teu engenho fazer clara minha noite escura. Surdo estava eu sem
ouvir o cantar das Musas, inda que lesse pelo lume de Toscana, ou compulsasse mil
vezes o pio Troiano e o forte Grego. Enquanto assoprava a vela do meu pensamento o
cabedal do Maro, me sentia com forças de outro Arpino; mas era descansar da leitura e
pegar da pena, para ver que o fogo que em mim ardia não fazia mais que fumo, e para
logo desaparecia. De maneira que já se vai vendo que não posso dizer com o Ferreira,
que o som leve o juízo engana. E se me faltam os dotes canoros de Hipocrene, nem
posso alegar em meu favor a rudeza sincera do Santo Dinis. Mas não quero escrever
lamúrias sem conta, antes quero dizer que agudeza tal, qual encerra tua carta, é um Nilo,
que veio em mim fazer terreno fértil. E se alguma coisa nesta sair limada, é porque o
mote é de alguém mais alumiado; porém, se me descobrir nisto alguma falta, poderei
dizer com Camões, que meu fora o deslate.

Agora queria eu fazer prosa em verso, e verso em prosa: já vês, irmão, em que
pé vai o disparate. A força é tanta, e ruge como leão na campanha a vontade, que estou
naquilo de ser mais dado a bons feitos, que a bons ditos. Febo em mim não tem morada,
atiça a vontade, mas não ajuda o engenho que me falta e pesa. De modo que o prazer
único que tenho, é sentar-me à mesa defronte da carta que me escreveste, e pegar do fio
em que toda ela vai tecida, que é isto com que me agrado – enganar com letras alheias
meu juízo parco.