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Bruno ajuizou ação revisional em face do Banco ZB S/A, asseverando que o

contrato de financiamento com garantia em alienação fiduciária celebrado está


eivado de cláusulas abusivas, sendo necessária sua revisão. O banco não
apresentou contestação. Em sentença, os pedidos formulados por Bruno foram
julgados totalmente procedentes. Em sede de recurso de apelação, o banco
compareceu em juízo, alegando nulidade processual por ausência de citação
válida, vez que não foram observadas as prescrições legais. Considerando o
caso apresentado e as regras previstas no Código de Processo Civil sobre teoria
das nulidades, responda aos itens a seguir.
A) A alegação do Banco ZB S/A, de ausência de citação válida, constitui
hipótese de nulidade processual relativa ou absoluta? Fundamente.
B) A nulidade da citação está sujeita aos efeitos da preclusão? Fundamente.

A) Na teoria das nulidades, a inexistência de citação válida gera nulidade


absoluta e não relativa. Como sabido, a citação é o ato de comunicação
responsável pela transformação da estrutura do processo, até então linear
- integrado por apenas dois sujeitos, autor e Juiz -, em triangular,
constituindo pressuposto de eficácia de formação do processo em relação
ao réu, bem como requisito de validade dos atos processuais que lhe
seguirem, nos termos do Art. 214 e do Art. 263, ambos do CPC. Assim,
ausência de citação ou a citação inválida configuram nulidade absoluta
insanável por ausência de pressuposto de existência da relação
processual, inteligência do Art. 247 do CPC.

B) A nulidade da citação não está sujeita à preclusão, podendo ser


reconhecida a qualquer tempo e grau de jurisdição, ultrapassando,
inclusive, a barreira da coisa julgada, visto que, sem citação regular e/ou
comparecimento espontâneo da parte não se pode sequer cogitar em
processo, conforme prescrevem o Art. 267, § 3º e o Art. 245, parágrafo
único, do CPC

Jair é representante comercial nascido em Recife. Em virtude da natureza de


sua profissão, por vezes passa meses na estrada efetuando entregas em todo o
Brasil. Seus pais moram em Manaus, sua esposa e seu filho moram em
Salvador. Com dificuldades financeiras, Jair, na condição de mutuário, realizou
contrato de empréstimo com Juca, na condição de mutuante, no valor de R$
10.000,00. No entanto, na data avençada no contrato para a restituição do valor
acordado, Jair não cumpre sua obrigação. Precisando urgentemente da
importância emprestada, Juca, domiciliado em Macapá, obtém um inventário dos
clientes de Jair e, de posse de tal lista, localiza-o em Belém. Considerados os
fatos narrados, pergunta-se:
A) Qual é o domicílio de Jair para todos os fins legais?
B) Caso Juca decida ajuizar uma ação em face de Jair enquanto este se
encontrar em Belém/PA, onde aquela poderá ser proposta?

A) Em virtude da natureza de sua profissão pressupor contínuas viagens,


considerar-se-á para todos os fins legais como domicilio de Jair, o local
onde for encontrado, nos termos do Art. 73 do CC.
B) A ação poderá ser proposta em Macapá OU em Belém, nos termos do
Art. 46, § 2º, do CPC

Ana, menor impúbere, é filha de José e Maria, ambos com apenas 18 (dezoito)
anos de idade, desempregados e recém-aprovados para ingresso na Faculdade
de Direito Alfa. As respectivas famílias do casal possuem considerável poder
aquisitivo, porém se recusam a ajudá-los no sustento da pequena Ana, em razão
de desentendimentos recíprocos. Destaca-se, por fim, que todos os avós são
vivos e exercem profissões de destaque. Com esteio na hipótese proposta,
responda aos itens a seguir.
A) Os avós são obrigados a prestar alimentos em favor de sua neta? Em hipótese
positiva, cuida-se de obrigação solidária?
B) A ação de alimentos pode ser proposta por Ana, representada por seus pais,
sem incluir necessariamente todos os avós no polo passivo da demanda?

A) A questão envolve os denominados “alimentos suplementares”, tal


como regulados pelo Art. 1.698 do CC. Nesse cenário, diante da
insuficiência econômica dos pais, os avós são obrigados a prestar
alimentos em favor de sua neta. No entanto, não se trata de obrigação
solidária, tal como regulada pelo Art. 264 do CC, mas de obrigação
subsidiária, devendo ser diluída entre avós paternos e maternos na medida
de seus recursos, diante de sua divisibilidade e possibilidade de
fracionamento.
B) É possível o exercício da pretensão alimentar contra um ou mais avós.
Com efeito, a obrigação alimentar por parte dos avós guarda caracteres de
divisibilidade e não há solidariedade, afastando o litisconsórcio necessário
(Art. 114 do CPC/15). A exegese do Art. 1.698 do CC explicita tratar-se de
litisconsórcio facultativo (Art. 113 do CPC/15), bastando que haja a opção
por um dos avós, que suporte o encargo nos limites de suas
possibilidades.

Ana Flávia dirigia seu carro em direção à sua casa de praia quando, no caminho,
envolveu-se em um acidente grave diante da imprudência de outro veículo,
dirigido por Sávio, que realizou ultrapassagem proibida. Como consequência do
acidente, ela permaneceu no hospital por três dias, ausentando-se de seu
consultório médico, além de ter ficado com uma cicatriz no rosto. Como apenas
o hospital particular da cidade oferecia o tratamento adequado e ela não possuía
plano de saúde, arcou com as despesas hospitalares. Ciente de que o automóvel
de Sávio está segurado junto à seguradora Fique Seguro Ltda., com cobertura
de danos materiais, Ana Flávia ajuizou ação em face de ambos. Sávio e a
seguradora apresentaram contestação, esta alegando a culpa exclusiva de Ana
Flávia e a impossibilidade de figurar no polo passivo. Em seguida, o juízo
determinou a exclusão da seguradora do polo passivo e o prosseguimento da
demanda exclusivamente em face de Sávio. Tendo em vista o caso exposto,
responda aos itens a seguir.
A) Qual o recurso cabível contra a decisão? Qual o seu fundamento?
B) Além do prejuízo material, quais outros danos Ana Flávia poderia ter pedido
para garantir a maior extensão da reparação?

A) O recurso cabível em face da decisão que determinou a exclusão de


litisconsorte é o agravo de instrumento (Art. 1.015, inciso VII, do CPC/15).
Conforme entendimento consolidado do STJ, é possível o ajuizamento
direto em face do causador do dano e da seguradora. Não é necessário
aguardar que o causador do dano denuncie a lide em face da seguradora.
O que não se admite é o ajuizamento exclusivamente em face da
seguradora, uma vez que não possui legitimidade para figurar no polo
passivo isoladamente (Súmula 529 do STJ, REsp 943.440/SP e julgado sob
o regime de repetitivo: REsp 962.230/RS).
B) Ana Flávia poderia ter deduzido pedido de indenização por danos morais
(Art. 186 do Código Civil ou Art. 5º, inciso V ou inciso X, da CRFB/88) e dano
estético (Súmula 387 do STJ), sendo este em razão da cicatriz.

Maria Clara e Jorge tiveram uma filha, Catarina, a qual foi registrada sob filiação
de ambos. Apesar de nunca terem se casado, Maria Clara e Jorge contribuíam
paritariamente com o sustento da criança, que vivia com Maria Clara. Quando
Catarina fez dois anos de idade, Jorge ficou desempregado, situação que
perdura até hoje. Em razão disso, não possui qualquer condição de prover a
subsistência de Catarina, que não consegue contar apenas com a renda de sua
mãe, Maria Clara, filha única de seus genitores, já falecidos. Jorge reside com
sua mãe, Olívia, que trabalha e possui excelente condição financeira. Além
disso, Catarina possui um irmão mais velho, Marcos, capaz e com 26 anos, fruto
do primeiro casamento de Jorge, que também tem sólida situação financeira.
Com base em tais fatos, responda aos itens a seguir, justificando e
fundamentando a resposta.
A) Olivia e Marcos podem ser chamados a contribuir com a subsistência de
Catarina? A obrigação deve recair em Olivia e Marcos de forma paritária?
B) Quais as medidas judiciais cabíveis para resguardar o direito de subsistência
de Catarina, considerando a necessidade de obter com urgência provimento que
garanta esse direito?

A) O direito à prestação de alimentos se estende aos ascendentes, nos


termos do Art. 1.696 do CC. Embora os parentes em linha colateral possam
ser chamados a responder pelos alimentos, essa responsabilidade apenas
incide na falta dos ascedentes (Art. 1.697 do CC), sendo subsidiária, e
devida na proporção dos seus recursos. Como Olívia possui condições
financeiras, será a responsável pelos alimentos que seriam devidos por
Jorge. Assim, havendo possibilidade de alimentos avoengos, não subsiste
responsabilidade de Marcos, colateral.
B) Catarina, representada por sua mãe, pode propor ação de alimentos em
face de Olívia, postulando a concessão de alimentos provisórios, com base
nos artigos 1º a 3º da Lei nº 5.478/68 e no Art. 693, parágrafo único, do
CPC/15. Catarina também pode propor tutela provisória de urgência em
caráter antecedente, visando à obtenção dos alimentos, com base no Art.
303 do CPC/15.

Marcos estacionou seu automóvel diante de um prédio de apartamentos. Pouco


depois, um vaso de plantas caiu da janela de uma das unidades e atingiu o
veículo, danificando o para-brisa e parte da lataria. Não foi possível identificar de
qual das unidades caiu o objeto. O automóvel era importado, de modo que seu
reparo foi custoso e demorou cerca de dez meses. Dois anos e meio depois da
saída do automóvel da oficina, Marcos ajuíza ação indenizatória em face do
condomínio do edifício.
Após a contestação, ao perceber que a pretensão de Marcos está prescrita, pode
o juiz conhecer de ofício dessa prescrição se nenhuma das partes tiver se
manifestado a respeito?

A pretensão encontra-se prescrita, aplicando-se à hipótese o prazo trienal


previsto pelo Art. 206, § 3º, inciso V, do Código Civil, contado da data do
evento danoso. Trata-se de matéria que pode ser conhecida de ofício pelo
julgador (Art. 487, inciso II, do CPC/15). No entanto, após a contestação da
lide pelo réu, não se autoriza ao juiz conhecer da prescrição sem antes
oportunizar a manifestação das partes, em homenagem ao princípio da não
surpresa (Art. 10 ou Art.487, parágrafo único, ambos do CPC/15).

Pedro, maior com 30 (trinta) anos de idade, é filho biológico de Paulo, que nunca
reconheceu a filiação no registro de Pedro. Em 2016, Paulo morreu sem deixar
testamento, solteiro, sem ascendentes e descendentes, e com dois irmãos
sobreviventes, que estão na posse dos bens da herança. Diante da situação
apresentada, responda aos itens a seguir. É possível cumular os pedidos de
reconhecimento da paternidade e do direito hereditário no mesmo processo?
Cabe a cumulação de pedidos no mesmo processo, uma vez que a
investigação de paternidade, bem como a petição de herança observam os
requisitos de admissibilidade previstos no Art. 327, § 1º, do CPC, na medida
em que os pedidos são compatíveis entre si, a competência é do mesmo
juízo e o mesmo procedimento é adequado a ambas.

Marcos, por negligência, colidiu seu carro com o automóvel de Paulo, que é
taxista e estava trabalhando no momento. Em razão do acidente, Paulo teve que
passar por uma cirurgia para a reconstrução de parte de seu braço, arcando com
os custos correlatos. A cirurgia foi bem-sucedida, embora Paulo tenha ficado
com algumas cicatrizes. Após ficar de repouso em casa por quatro meses, por
recomendação médica, no período pós-operatório, Paulo resolveu ajuizar ação
contra Marcos, com o objetivo de obter indenização por perdas e danos sofridos
em razão do acidente. No curso da ação, Marcos, que tinha contratado seguro
contra terceiros para seu veículo, requereu a denunciação da lide da Seguradora
X, tendo o juiz, no entanto, indeferido o pedido.
Qual a medida processual cabível para Marcos impugnar a decisão que indeferiu
o pedido de denunciação da lide? Esclareça se Marcos poderá exercer
futuramente o direito de regresso contra a Seguradora X, caso seja mantida a
decisão que indeferiu o pedido de denunciação da lide.

Marcos poderá impugnar a decisão que indeferiu o pedido de denunciação


da lide através de recurso de agravo de instrumento. Com efeito, o Art.
1.015, inciso IX, do CPC estabelece que o agravo de instrumento é cabível
contra decisões interlocutórias que versem sobre a admissão ou
inadmissão de intervenções de terceiros. Por outro lado, mesmo que seja
mantido o indeferimento da denunciação da lide, Marcos poderá exercer
futuramente o direito de regresso em face da Seguradora X. Isso porque o
Art. 125, § 1º, do CPC permite que o direito regressivo seja exercido por
ação autônoma quando a denunciação da lide for indeferida. Assim, caso
Marcos venha a ser condenado na ação movida por Paulo, poderá ajuizar
demanda autônoma contra a Seguradora X para obter o ressarcimento do
que pagou.
Martha foi convidada para participar, como palestrante, de um Congresso que
ocorreria no Uruguai. Após confirmar a sua participação no evento, Martha
decide comprar suas passagens pela Internet no site de uma famosa companhia
aérea. Como não possuía voo direto que a levasse de Goiás para o Uruguai,
Martha adquire um voo com escala em São Paulo. No dia da viagem, ao chegar
a São Paulo, lugar onde teria que fazer a troca de aeronave, a passageira é
informada a respeito do cancelamento de seu voo para o Uruguai. Preocupada,
Martha indaga se seria possível realocá-la em outra aeronave, mas recebe a
notícia de que somente decolariam novos voos para o Uruguai no dia seguinte,
ou seja, após o evento do qual participaria. Inconformada com a perda do
Congresso, Martha propõe uma ação no juizado especial cível de seu domicílio,
postulando a reparação por danos morais e materiais em face da sociedade
empresária. Em sede de contestação, a referida sociedade empresária alega
não possuir culpa, não havendo, portanto, responsabilidade. Com base no
exposto, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir.
A) O argumento utilizado pela sociedade empresária em sede de contestação
está correto?
B) Suponha que Martha, ciente da data da audiência de instrução e julgamento,
não compareça e não comprove que a sua ausência decorreu por motivo de
força maior. Nesse caso, qual atitude deve ser tomada pelo juiz?

A) O argumento utilizado pela empresa não está correto. Preliminarmente,


o candidato deve identificar que, no caso em tela, a responsabilidade é
objetiva. Para fundamentar tal afirmação deverá informar que a questão
versa sobre hipótese a ser guiada pelo Código de Defesa do Consumidor.
O referido diploma, em seu Art. 14, estabelece que o fornecedor de serviços
responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos
danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos
serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre
sua fruição e riscos. O dever de informação consta também do Inciso III do
Art. 6º, do CDC. Alternativamente, poderá indicar como fundamento o
tratamento que o Código Civil confere ao contrato de transporte (Art. 734 e
seguintes).
B) Deverá haver extinção do processo sem resolução do mérito, consoante
estabelece o Art. 51, inciso I da Lei n. 9.099/95. Ademais, considerando que
a ausência da autora não foi justificada, deverá haver pagamento de custas
por parte desta, consoante § 2º do Art. 51 do mesmo diploma legal.