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FTBB

Cânon Bíblico

Prof. Enoque Alvares

Resenha do Livro
“Introdução Bíblica”
Como a Bíblia chegou até nós
Norman Geisler e William Nix

Eduardo A Brandão Pena


Junho/2005
A fé cristã,
fé em contradição a religião de imanência,
deve ser fiel à afirmação:
“Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada, Deus tornou-se homem”.
O reconhecimento da Palavra viva de Deus
constitui a fé cristã.

Emil Brunneri
Cânon Bíblico

Resenha do Livro
“Introdução Bíblica”
Como a Bíblia chegou até nós
Norman Geisler e William Nix

O livro “Introdução Bíblica” – Como a Bíblia chegou até nós de Norman Geisler e William
Nix, publicado pela Editora Vida, propõe no decorrer das suas 253 páginas, demonstrar
como a Bíblia chegou até nós mediante um conteúdo que passa basicamente pelos seguintes
assuntos: Caráter da Bíblia; a natureza e as evidências da inspiração do Velho e Novo
Testamento; o desenvolvimento e extensão do cânon dos dois testamentos; línguas e
materiais da Bíblia e seus principais manuscritos; as traduções da Bíblia nas diversas
línguas até a chegada da Bíblia em português.

O livro se mostra relevante para quem busca conhecimento destas questões relacionadas ao
estudo da Bíblia, mesmo possuindo uma linha altamente apologética da fé cristã, dentro do
estilo bem característico das penas de Geisler, pois o livro aborda os variados pontos
referentes a história da formação e definição do Cânon Bíblico, sem omitir os pontos
conflitantes.

O capítulo 01 trata do caráter da Bíblia apresentando três elementos essenciais para o


entendimento teológico de inspiração: (1) Causalidade divina – Deus é fonte
primordial/principal da inspiração da Bíblia e a causa primeira da sua verdade; (2)
Mediação profética – os profetas que escreveram as Escrituras não eram autômatos e sua
personalidades não foram violentadas, sendo suas produções Palavra de Deus mas também
palavra do homem; (3) Autoridade escrita – são os escritos proféticos e não os escritores
desses textos sagrados que possuem e retêm a resultante autoridade divina.

A natureza da inspiração é foco do capítulo02 e apresenta as várias teorias a respeito: (1) A


visão Ortodoxa – A Bíblia é a Palavra de deus; (2) Modernismo – A Bíblia contem a
Palavra de Deus; e (3) Visão Neo-ortodoxa – A Bíblia torna-se a Palavra de Deus.

Neste ponto, Geisler e Nix concluem o assunto apresentando o que a própria Bíblia ensina a
respeito de sua inspiração, utilizando textos clássicos como II Timóteo 3:16; Romanos 15:4
e João 10:35 como conclusão de que a inspiração é verbal, plena, autorizativa, de igual teor
no VT e NT e que pressupõe inerrância.

“Nada do que a Bíblia ensina contem erro, visto que a inerrância é conseqüência lógica da
inspiração divina. Deus não pode mentir (Hb 6:18); sua Palavra é a verdade (Jo 17:17).
Por isso, seja qual for o assunto sobre o qual a Bíblia diga alguma coisa, ela só dirá a
verdade. Não existem erros históricos nem científicos nos ensinos das Escrituras. Tudo
quanto a Bíblia ensina vem de Deus e, por isso, não tem a mácula do erro.” (pag. 24).

Os capítulos 03 e 04 tratam, respectivamente, da inspiração do Antigo Testamento e do


Novo Testamento mostrando a reivindicação interna e externa da sua inspiração, sendo que
o capítulo 05 trabalha a questão como um todo na Bíblia buscando destacar a evidência da
sua unidade, que mesmo sendo formada de 66 livros escritos ao longo de 1.500 anos, por
cerca de 40 autores, em diversas línguas, com centenas de tópicos, apresenta espantosa
unidade temática – Jesus Cristo.

Que livros fazem parte da Bíblia? Que diremos a respeito dos chamados livros ausentes?
Estas questões abrem o capítulo 06 que transcorre acerca das características da
canonicidade – esse assunto vai permear em seus diversos focos, os capítulos 07, 08, 09 e
10.

O livro alerta para alguns conceitos deficientes sobre o que determina a canonicidade, tais
como: (1) concepção de que a idade determina a canonicidade; (2) concepção de que a
língua hebraica determina a canonicidade; (3) concepção de que a concordância do texto
com a Torá determina a sua canonicidade; (4) concepção de que o valor religioso determina
a canonicidade.

“Nem todos os escritos religiosos dos judeus eram considerados canônicos pela
comunidade dos crentes. É óbvio que havia certa importância religiosa em alguns livros
primitivos como o livro dos justos (Js 10:13), o livro das guerras do Senhor (Nm 21:14) e
outros (v. Irs 11:41)...A diferença essencial entre escritos canônicos e não-canônicos é que
aqueles são normativos (têm autoridade), ao passo que estes não são autorizados. Os
livros inspirados exercem autoridade sobre os crentes; os não-inspirados poderão Ter
algum valor devocional ou para a edificação espiritual, mas jamais devem ser usados para
definir ou delimitar doutrinas.” (pág. 75).

Dentre este entendimento de canonicidade, Geisler considera que a compilação dos livros
do Antigo Testamento se deu progressivamente sendo classificado, basicamente, em duas
partes: “Moisés e os Profetas”. Tal classificação não inclui a denominação “escritos”
usualmente utilizada para identificar as partes do AT.A explicação para o tratamento em
apenas duas grandes partes se baseia na referências mais antigas e mais repetidas do cânon
se empregar apenas as duas partes.

“Em nenhuma parte das Escrituras, quer na literatura extrabíblica, quer no período inicial
da era cristã, existe alguma prova do chamado terceiro estágio canônico, constituído de
escritos que teriam sido compostos e coligidos após a época da lei e dos profetas...A
referência mais antiga segundo a qual a classificação dos livros possui uma terceira
divisão recua até Josefo, que apresenta quatro seções.” (pág. 76).

Um outro argumento citado refere-se a citação de Jesus: “A Lei e os Profetas duraram até
João” (Lucas 16:16,29,31) que estaria referindo-se a todos os escritos inspirados anteriores
ao Novo Testamento.
Em relação a extensão do cânon do AT, os autores defendem a copilação dos 39 livros,
diferenciando os termos utilizados para classificar os livros que entraram no cânon e
daqueles que ficaram de fora.

Homologoumena – seriam os livros aceitos por todos. Dos 39 livros do AT, apenas 05 não
teriam esta classificação – Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios.

Pseudepígrafos – seriam os livros rejeitados por todos. O número seria 17 livros.

“Alguns desses livros são inofensivos teologiacamente (Sl 151), mas outros contém erros
históricos e claras heresias...Refletem o estilo literário vigente num período muito
posterior ao encerramento dos escritos proféticos, de modo que muitos desses livros
imitam o estilo apocalíptico de Ezequiel, de Daniel e de Zacarias.” (pág. 87).

Antilegomena – seriam os livros questionados por alguns. A canonicidade de 05 livros do


AT foi questionada numa ou noutra época: Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester,
Ezequiel e Provérbios.

Apócrifos – seriam os livros aceitos por alguns. Basicamente esse livros são aceitos por
católicos romanos e rejeitados por protestantes e judeus. Há 15 livros classificados como
apócrifos (14 se a epístola de Jeremias se unir a Baruque conforme algumas versões
católicas).

Acerca dos livros apócrifos são apresentados os argumentos a favor e contra a aceitação dos
mesmos como canônicos.

Os argumentos em prol da aceitação dos apócrifos seriam basicamente: (1) Alusões no NT;
(2) Emprego que o NT faz da versão dos Septuaginta; (3) Os primeiros pais da igreja –
alguns dos mais antigos pais da igreja aceitaram e usaram os livros apócrifos; (4) o
Concílio de Trento – 1546 proclamando-os como canônicos; (5) A comunidade do Mar
Morto – foram encontrados entre os rolos.

Os argumentos por que se rejeita a canonicidade dos apócrifos seriam: (1) Autoridade do
NT – jamais cita um livro apócrifo indicando-o como inspirado ou autoridade; (2) a
tradução da Septuaginta – Alexandria era o lugar da tradução, não da canonização; (3) os
primeiros pais da igreja – nenhuma autoridade de envergadura anterior a Agostinho aceitou
todos os apócrifos; (4) o Concilio de Trento – não refletiu uma anuência universal sendo
uma reação a Lutero; (5) os rolos do Mar Morto – era uma biblioteca que continha
numerosos livros não tidos como inspirados.

Em relação ao cânon do Novo Testamento, que é tratado a partir do capítulo 09, a história
difere bastante do At em vários aspectos: (1) O cristianismo foi desde o começo uma
religião internacional, não existindo uma comunidade profética fechada, não existindo
indícios da existência oficial de uma entidade que controlasse os escritos inspirados. Por
essa razão o processo de reconhecimento universal dos escritos apostólicos levou muitos
séculos; (2) uma vez reconhecidos os 27 livros do NT não houve mais movimentos dentro
do cristianismo no sentido de acrescentar ou eliminar livros; (3) o processo progressivo da
canonização iniciou-se imediatamente na igreja do Sec. I com a prática da leitura pública
oficial dos livros apostólicos (I Tss 5:27; I Tm 4:13).

“Dentro de duzentos anos depois do século I, quase todos os versículos do Novo


Testamento haviam sido citados em um ou mais das mais de 36 mil citações dos pais da
igreja...Nem todos os livros do Novo Testamento são citados por todos os primeiros pais da
igreja, mas todos os livros são citados como canônicos por pelo menos um desses pais”.
(pág. 106).

Seguindo o mesmo método, o capítulo 10 trata da extensão do cânon do Novo Testamento


sendo aplicado os termos utilizados para classificar/diferenciar os livros que entraram no
cânon e daqueles que ficaram de fora.

Homologoumena – seriam os livros aceitos por todos. Em geral, 20 dos 27 livros do NT são
homoloumena, ficando fora: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.

Pseudepígrafos – seriam os livros rejeitados por todos. Durante os séc. II e III numerosos
livros espúrios e heréticos surgiram , sendo o número exato de difícil apuração – cerca de
280. Os mais importantes:
- O Evangelho de Tomé (séc. I) – relata supostos milagres da infância de Jesus;
- O Evangelho de Pedro (séc II);
- O Proto-Evangelho de Tiago (séc. II);
- O Evangelho da Natividade de Maria (séc. VI);
- Os Atos de Pedro (séc. II);
- Os Atos de João (séc. II);
- Apocalipse de Pedro;
- Apocalipse de Paulo;
- Apocalipse de Tomé;
- Livro Secreto de João.

Antilegomena – seriam os livros questionados por alguns: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3


João, Judas e Apocalipse.

“O fato de esses livros não terem obtido reconhecimento universal até o início do século IV
não significa que não havia tido aceitação inicial por parte das comunidades apostólicas...
Alguns pais da igreja haviam-se posicionado contra os antilegomena. Isso ocorrera por
causa da falta de comunicação, ou por causa de más interpretações que se fizeram desse
livros. A partir do momento em que a verdade passou a ser do conhecimento de todos, tais
livros foram aceitos plena e definitivamente, passando para o cânon sagrado, da forma
exata como haviam sido reconhecidos pelos cristãos primitivos desde o início.” (pág. 118).

Apócrifos – seriam os livros aceitos por alguns. A distinção que se faz entre os apócrifos do
NT e os livros pseudepígrafos não é autorizada. Tiveram aceitação por um número limitado
de cristão e por um tempo curto. Enumerar os livros apócrifos do NT é tarefa difícil pois
depende da distinção que se faz entre apócrifos e pseudepígrafos. Seriam os principais:
- Epístola do pseudo-Barnabé (ano 70-79);
- Epístola aos Corintios (ano 96) – advoga ser a carta perdida de Paulo;
- Didaquê, ou Ensino dos Doze Apóstolos (ano 100-120).

A partir do capítulo 11 o assunto abordado passa ser referente a línguas e materiais


utilizados para registros da Bíblia. Sobre tais questões vale transcrever o que diz os autores:

“Os manuscritos do Antigo Testamento geralmente vêm de dois amplos períodos de


produção. O período talmúdico (300 a.C. – 500 d.C) produziu manuscritos usados nas
sinagogas e outros em estudos particulares. Em comparação com o período massorético
posterior (500-1000 d.C), aquelas cópias de manuscritos primitivos são em número menor;
todavia, são cópias consideradas “oficiais”, cuidadosamente transmitidas. Durante o
período massorético, o processo de copiar o Antigo Testamento sofreu completa revisão
em suas regras; o resultado foi uma renovação sistemática das técnicas de transmissão.

Os manuscritos do Novo Testamento podem ser classificados em quatro períodos genéricos


de transmissão:

1 – Durante os três primeiros séculos a integridade do Novo Testamento resulta do


testemunho combinado de fontes, por causa do caráter de ilegalidade do cristianismo. Não
se encontram muitos manuscritos completos desse período, mas os existentes são
significativos.
2 – A partir dos séculos IV e V, após a legalização do cristianismo, houve a multiplicação
de manuscritos do Novo Testamento. Eram produzidas em velino e em pergaminho, em vez
de papiro.
3 – A partir do século VI, os manuscritos passaram a ser copiados por monges que os
coligiam e deles cuidavam em mosteiros. Foi um período de reprodução não respaldada
pela crítica, de aumento de produção, mas de decréscimo da qualidade do texto.
4 – Após a introdução dos manuscritos chamados “minúsculos” no século X, as cópias dos
manuscritos multiplicaram-se rapidamente, e prosseguiu o declínio de qualidade na
transmissão textual” (pág. 134).

Diferentemente do Novo Testamento, que se baseia sua fidelidade textual na multiplicidade


de cópias de manuscritos, o texto do Antigo Testamento deve sua exatidão à habilidade e à
confiabilidade dos escribas que o transmitiram.

A parte final do livro, do capitulo 14 em diante, o assunto recorrente tratado é o texto da


Bíblia em si, passando pelas questões da crítica textual, suas particularidades e distinção da
baixa crítica, finalizando com as diversas traduções da Bíblia, desde as versões aramaicas,
siríacas, gregas, latinas até as modernas, incluindo a tradução em português.

Os autores relatam os aspectos históricos da transcrição bíblica para defender a tese de que
o texto que chegou até nós é fiel aos originais, tanto do Velho Testamento quanto ao Novo
Testamento. Assim, deixo por fim uma declaração livro acerca do assunto:, entendo que o
livro enriquece o debate acerca das circunstâncias relacionadas ao texto bíblico,e por
conseqüência, a fé cristã.
“O Antigo Testamento sobreviveu e chegou até nós em alguns manuscritos completos, a
maioria dos quais data do século IX d.C ou é de data posterior. Há, entretanto, abundantes
razões para que acreditemos que essas cópias são boas. Várias evidências apoiam essa
afirmação: 1) as poucas variantes existentes nos manuscritos massoréticos; 2) a harmonia
quase literal existente entre a maior parte da LXX e o Texto massorético hebraico; 3) as
regras escrupulosas dos escribas que copiavam os manuscritos; 4) a similaridade de
passagens paralelas do Antigo Testamento; 5) a confirmação arqueológica de minúsculas
históricas do texto; 6) a concordância em grande parte com o Pentateuco samaritano; 7)
os milhares de manuscritos Cairo Geneza e 8) a confirmação fenomenal do texto hebraico
advinda das descobertas dos rolos do mar Morto...Deveria ficar claro que a crítica textual
é uma ciência e também uma arte. Não basta afirmar que a Bíblia é o livro mais bem
preservado, que sobreviveu desde os tempos antigos, mas lembremo-nos também de que as
variantes de certa importância representam menos de metade de 1% de corrupção textual,
e que nenhuma dessas variantes influi em alguma doutrina básica do cristianismo”. (Pág.
170, 180)

i
Teologia da Crise, Editora Novo Século – página50.