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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

LRIAB
Nº 70073074288 (Nº CNJ: 0071543-63.2017.8.21.7000)
2017/CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PRIVADO NÃO


ESPECIFICADO. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE
CONTAS. PRIMEIRA FASE.
Possui a autora interesse na apresentação de
contas, na forma adequada, das sócias que
administram sozinhas os interesses da
sociedade. Reconhecido o dever de o sócio que
exerce exclusivamente a administração da
empresa prestar contas ao outro sócio.
Ação procedente.
APELAÇÃO PROVIDA.

APELAÇÃO CÍVEL DÉCIMA PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL

Nº 70073074288 (Nº CNJ: 0071543- COMARCA DE PORTO ALEGRE


63.2017.8.21.7000)

BIBIANA NEVES ARRIAGA APELANTE

ROSAURA BARROS RODRIGUES APELADO

SIMONE DAROS RIBEIRO APELADO

SOCIEDADE EDUCACIONAL SIMOES APELADO


LOPES NETO - SOCIEDADE SIMPLES
LTDA

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Décima


Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade,
em dar provimento à apelação.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário, os


eminentes Senhores DES. ANTÔNIO MARIA RODRIGUES DE FREITAS

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Nº 70073074288 (Nº CNJ: 0071543-63.2017.8.21.7000)
2017/CÍVEL

ISERHARD (PRESIDENTE) E DES.ª KATIA ELENISE OLIVEIRA DA


SILVA.

Porto Alegre, 27 de setembro de 2017.

DES. LUIZ ROBERTO IMPERATORE DE ASSIS BRASIL,


Relator.

R E L AT Ó R I O

DES. LUIZ ROBERTO IMPERATORE DE ASSIS BRASIL (RELATOR)

Trata-se de apelação interposta pela autora, BIBIANA


NEVES ARRIAGA, inconformada com a sentença prolatada nos autos da
AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS proposta contra SOCIEDADE
EDUCACIONAL SIMÕES LOPES NETO - SOCIEDADE SIMPLES LTDA. e
outras.

Segundo a inicial, a autora é titular de quotas de capital


representativas de 11,11% do capital social da Sociedade demandada.
Esta é administrada única e exclusivamente pelas sócias Rosaura Barros
Rodrigues e Simone Daros Ribeiro (corrés), que há muitos anos não
prestam contas das operações e resultados da Sociedade. A autora relata
que as sócias corrés foram notificadas para prestar contas da sociedade e
se mantiveram silentes. A presente demanda visa a compelir as corrés
Rosaura e Simone a prestar contas da sua administração à frente da
sociedade desde o ingresso da Autora na condição de sócia.

As rés contestaram (fls. 49/53v.), afirmando que em


assembléias de sócios, em que a mãe da autora a representava, houve
deliberação e apreciação acerca das contas e negócios da empresa.

Réplica às fls. 105/108.

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A Magistrada, na sentença, julgou improcedente a ação, com


a seguinte fundamentação (fls. 109v./110):

“No caso dos autos, não há dever de prestar


contas à autora, pois as mesmas foram
adequadamente prestadas pelas requeridas.
Analisando o documento juntado à fl. 28 dos
autos, verifico que a demandante não aprovou
o balanço patrimonial apresentado e nem a
demonstração de resultados levantada, sendo
pressuposto básico à não aprovação de tais
documentos contábeis que os mesmos foram
previamente apresentados.
Além do mais, a autora outorgou procuração à
sua mãe para representá-la perante a
sociedade ré (fl. 103), tendo sido a mesma
sempre informada acerca do andamento da
empresa, conforme se infere da documentação
juntada à contestação. Note-se que diversas
atas de assembleias foram firmadas pela mãe
da requerente na condição de sua procuradora,
inclusive com aprovação das contas
apresentadas pelas gestoras da sociedade.
Ora, não pode a autora, agora, pretender exigir
contas de exercícios passados se já as aprovou,
deixando a demandante, inclusive, de elencar,
de forma pormenorizada, contas de quais
exercícios sociais pretendia ver prestadas.”

A autora/apelante afirma que os únicos documentos que lhe


foram alcançados foram balanços, os quais não substituem a devida
prestação de contas. Defende não ter havido a prestação de contas, ou,
se houve, foi deficiente. Aduz que, das reuniões em que aprovadas as
contas, não houve convocação prévia, nem fornecimento de documentos
com trinta dias de antecedência, na forma da lei. Com esses argumentos,
pede a reforma da sentença.

Efetuado o preparo (fls. 101/102), sem apresentação de


contrarrazões (fl. 127), o recurso foi redistribuído e os autos vieram
conclusos para julgamento.

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É o relatório.

VOTOS

DES. LUIZ ROBERTO IMPERATORE DE ASSIS BRASIL (RELATOR)

Cuida-se de apreciar recurso de apelação interposto pela


autora contra a sentença que julgou improcedente a ação.

A autora ajuizou a presente ação sustentando, em síntese,


que é sócia da Sociedade Educacional Simões Lopes Neto Sociedade
Simples Ltda., administrada única e exclusivamente pelas sócias
requeridas, Rosaura Barros Rodrigues e Simone Daros Ribeiro, as quais
não prestam contas de sua gestão à frente da empresa.

A ação, portanto, está em sua primeira fase, nos termos do


artigo 915 do CPC/1973 (vigente ao tempo em que proposta a ação), na
qual se discute tão somente o dever das requeridas de apresentar as
contas.

Nesse passo, sendo a autora sócia da empresa, nos termos


do contrato social (fls. 14/27v.), possui interesse na apresentação de
contas, na forma mercantil, daqueles que administram sozinhos os
interesses da empresa que possuem conjuntamente.

No rumo:

SOCIEDADE LIMITADA. ADMINISTRAÇÃO.


PRESTAÇÃO DE CONTAS. PRIMEIRA FASE. Dever
legal do administrador de prestar contas ao
sócio cotista, na forma mercantil. Arts. 1.053 e
1.020 do CCB/2002 e 914 e ss do CPC. Negaram
provimento. (Apelação Cível Nº 70022049894,
Décima Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça
do RS, Relator: Carlos Rafael dos Santos Júnior,
Julgado em 13/05/2008).

DISSOLUÇÃO E LIQUIDAÇÃO DE SOCIEDADE.


AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. SOCIEDADE
POR QUOTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA.
Todo sócio investido do poder de administrar,
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representar e gerenciar a sociedade da qual faz


parte, tem a obrigação legal de prestar as
contas solicitadas pelos demais componentes
da sociedade, nos termos do art. 914 e
seguintes do CPC. Sentença de procedência
mantida. CARÊNCIA DE AÇÃO. Têm interesse e
legitimidade os autores para exigir a prestação
de contas. Preliminar rejeitada. Rejeitada a
preliminar, negaram provimento ao apelo.
(Apelação Cível Nº 70008575342, Quinta
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Umberto Guaspari Sudbrack, Julgado em
07/10/2004).

APELAÇÃO CIVIL. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE


CONTAS. SOCIEDADE COMERCIAL. O sócio que
exerceu atos de gestão da sociedade está
obrigado a prestar contas aos demais sócios,
referente ao período em que desempenhou a
função. A decisão da primeira fase da ação de
prestação de contas não prescinde da produção
de provas outras do que o exame do dever, ou
não, de as prestar. Eventual perícia que, como
no caso concreto já foi realizada, poderá ser
aproveitada e complementada, se for o caso, na
segunda fase do procedimento. PRELIMINARES
REJEITADAS. APELO IMPROVIDO. (Apelação Cível
Nº 70004953931, Quinta Câmara Cível, Tribunal
de Justiça do RS, Relator: Ana Maria Nedel
Scalzilli, Julgado em 06/11/2003).

A propósito lecionam Luiz Guilherme Marinoni e Daniel


Mitidiero (Código de Processo Civil comentado artigo por artigo. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008. p. 830):

“1. Ação de Prestação de Contas. A ação de


prestação de contas serve para declarar a
existência ou inexistência do dever de prestar
contas e, em sendo o caso, para a obtenção
efetiva das contas devidas e formação de título
executivo a respeito do saldo apurado a favor
de uma das partes. A ação de prestação de
contas compete a quem tem direito e exigi-las
(ação de tomar contas) e a quem tem a
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obrigação de prestá-las (ação de dar contas). A


ação de prestação de contas supõe, de um
modo geral, a existência de administração de
bens, negócios ou interesses de outrem (STJ, 4º
Turmoa. REsp 9.013/SP, rel. Min. Athos Gusmão
Carneiro, j. em 28.05.1991, DJ 09.09.1991, p.
12.209). O dado fundamental é a existência de
administração de coisa alheia.”

Assim, não há qualquer óbice para que a demandante


promova ação de prestação de contas a fim obter contas justificadas da
administração pelas sócias gestoras desde o ingresso na autora na
condição de sócia da sociedade (fl. 10, item c), em 11/1/2007 (fl. 16).

Nesse sentido já se manifestou o Superior Tribunal de Justiça:

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE


INSTRUMENTO. PRESTAÇÃO DE CONTAS. BENS
COMUNS. ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESA COM
EXCLUSIVIDADE. DEVER DE PRESTAR CONTAS.
REEXAME DE PROVA. SÚMULA 7 DO SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA. PRECEDENTES.
1. A revisão do entendimento do Tribunal a quo,
acerca do dever de prestar contas pelo
recorrente, esbarra na censura da súmula 07 do
Superior Tribunal de Justiça, porquanto
demanda o revolvimento do conjunto fático-
probatório, soberanamente delineado nas
instâncias ordinárias.
2. Além do que, o acórdão recorrido encontra-se
em consonância com o entendimento desta
Corte no sentido de que o sócio que exerce com
exclusividade a administração da sociedade
possui a obrigação de prestar contas aos
demais.
3. Agravo regimental desprovido.
(AgRg nos EDcl no Ag 1022657/RS, Rel. Ministro
FERNANDO GONÇALVES, QUARTA TURMA,
julgado em 15/12/2009, DJe 22/02/2010)

PRESTAÇÃO DE CONTAS. SÓCIO GERENTE.


EXERCÍCIO EXCLUSIVO DA ADMINISTRAÇÃO DE

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SOCIEDADE A PARTIR DE CERTO MOMENTO.


OBRIGAÇÃO DE PRESTAR CONTAS.
– Afirmação pelo Tribunal de origem, no
julgamento de ação entre as mesmas partes,
que durante os anos de 1996-1999 um dos
sócios – o réu – passou a dirigir com
exclusividade a empresa cindida.
Preliminares de falta de interesse e de
ilegitimidade de parte passiva ad causam
afastadas.
– O sócio gerente tem o dever legal de dar
contas justificadas de sua administração aos
demais sócios.
Recurso especial parcialmente conhecido, e,
nessa parte, provido.
(REsp 474.596/SP, Rel. Ministro BARROS
MONTEIRO, QUARTA TURMA, julgado em
28/09/2004, DJ 13/12/2004 p. 365)

Comercial e processual civil. Recurso especial.


Ação de prestação de contas. Sócio gerente.
Legitimidade.
O sócio gerente possui o dever legal de dar
contas justificadas da sua administração aos
demais sócios. É, portanto, parte legítima para
figurar no pólo ativo ou passivo de ação de
prestação de contas proposta com tal
finalidade.
(REsp 332.754/PR, Rel. Ministra NANCY
ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em
13/11/2001, DJ 18/02/2002 p. 422)

O fato de serem apresentados balanços periodicamente (fl.


28) não retira do administrado o direito de exigir a apresentação de
contas.

Assim já decidiu a Câmara:

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PRIVADO NÃO


ESPECIFICADO. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE
CONTAS. PRIMEIRA FASE. A demandada efetuou
o preparo do seu recurso, o que denota que
possui condições de arcar com as custas do

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processo. Outrossim, não há qualquer elemento


nos autos que justifique a concessão do
benefício da gratuidade da justiça pretendido.
Possui o autor interesse na apresentação de
contas, na forma mercantil, daquela que
administra sozinha os interesses da empresa
que possuem em sociedade. Reconhecido o
dever de o sócio que exerce exclusivamente a
administração da empresa prestar contas ao
outro sócio. Litigância de má-fé não
configurada. APELAÇÃO IMPROVIDA. (Apelação
Cível Nº 70036042489, Décima Primeira
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Luiz Roberto Imperatore de Assis Brasil, Julgado
em 19/05/2010)

Também não substitui a prestação de contas o fato de a mãe


da autora ter participado como sua representante nas reuniões realizadas
pelos sócios, que trataram das mais diversas pautas, como se pode
observar nas atas juntadas pelas demandadas (fls. 57 e ss.).

Diante disso, a ação de prestação de contas deve ser julgada


procedente na primeira fase, a fim de que as rés sejam condenadas à
prestação de contas.

Sucumbência invertida.

Posto isso, o voto é pelo provimento da apelação.

DES.ª KATIA ELENISE OLIVEIRA DA SILVA - De acordo com o(a)


Relator(a).

DES. ANTÔNIO MARIA RODRIGUES DE FREITAS ISERHARD


(PRESIDENTE) - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. ANTÔNIO MARIA RODRIGUES DE FREITAS ISERHARD -


Presidente - Apelação Cível nº 70073074288, Comarca de Porto Alegre: "À
UNANIMIDADE, DERAM PROVIMENTO À APELAÇÃO."
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Julgador(a) de 1º Grau: GIOVANA FARENZENA

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