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O Pecado Venial

Suas malícias, seus efeitos e seus castigos

Considerações e Exemplos

seus efeitos e seus castigos Considerações e Exemplos Servo de Deus, Padre André Beltrami SDB “Non

Servo de Deus, Padre André Beltrami SDB

“Non leve est Deum in exiguo contemnere”

(S. Hier)

CAPÍTULO I

Preconceitos grosseiros Brado sublime dos Santos As heroicas Catarinas de Gênova e de Sena Morrer, mas não mentir A luz do tempo e a luz da eternidade

Grosseiros preconceitos nós nutrimos acerca dos pecados veniais, que muito prejudicam nosso progresso espiritual. Persuadidos de que seja um nadas, o cometemos todo o dia, a toda a hora, e, direi, a quase todo os momentos sem pensar na malícia que encerra, nas tristes consequências que acarreta e nos castigos que merece da Eterna Justiça. “É uma culpa venial” – dizemos se não com palavras, ao menos com ações – “é uma imperfeição que se lava com um pouco de água benta, com um Sinal da Cruz ou com uma jaculatória; não há necessidade de atender a coisas tão mínimas e

fazermo-nos escrupulosos. Se nem temos sequer a obrigação de confessá-lo, e não nos priva da graça de Deus! Pobre de mim! Se tivesse que guardar-me das mentirinhas, dos gracejos com

os outros, das pequenas gulodices

ficaria tempo nenhum para outra coisa. Teria que estar continuamente a refrear-me, passaria dias tristes e correria o risco de cair em escrúpulos e perder a cabeça.

não me

Porém, não é assim que raciocinam os santos. Considerando tudo à luz divina, eles nutriram um horror extremos pelo pecado venial, fizeram-lhe gurra de morte, prontos a sofrer qualquer suplício a cometê-lo. Ouve o concerto harmonioso que se levanta de suas vidas e que oferece esplêndida homenagem à justiça e à bondade divina,m ao passo que contrasta estranhamente com a nossa vergonhosa conduta.

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Prefiro exclama Santo Edmundo lançar-me numa fogueira ardente a cometer advertidamente algum pecado contra o meu Deus”. Este outro brado nos chega das amenas terras da ligúria.

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É Santa Catarina de Gênova, que lança um olhar sobre a imensidade azul do oceano e pensa no mar de fogo que submerge os condenados do Inferno como os peixes na água; aí está como fazem os corações amantes, que veem em toda a parte os vestígios do ente amado, elevam o seu pensamento a Deus, oceano de bondade, meditam sobre os benefícios feitos aos homens e sobre a malícia do pecado, e então como que despedaçados pela dor exclamam: “Ó Deus, para fugir do pecado, ainda mais leve, eu me lançaria num abismo de chamas e aí ficaria por toda a eternidade antes que cometê-lo para pode daí sair”.

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A Seráfica Virgem de Sena, Santa Catarina, saída de um ditoso êxtase, no qual havia contemplado a beleza de uma alma na graça de Deus e a miséria daquela que está manchada de pecado, escrevia: “Se a alma, imortal por sua natureza, pudesse morrer, para matá-la, bastaria o aspecto de um só pecado venial que lhe desbotasse a beleza”.

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Todos sabem o que acontece àquele santo que, condenado à morte e procurado por ordem do Imperador, acolheu os soldados que o buscavam e lhes ofereceu comida e abrigo durante a noite. De manhã, antes de partirem, lhe perguntaram se por acaso tinha notícia de um cristão que não vivia conforme às leis do Império e que por isso, havia sido condenado à morte. O interrogado confessa ingenuamente

ser ele mesmo o procurado e se declara pronto

a acompanhá-los à corte. Os soldados porém,

possuídos de gratidão pelos benefícios recebidos, aconselharam-lhe a fuga, assegurando que diriam no tribunal não tê-lo encontrado. O santo então, recusou prontamente para não dar aos soldados a ocasião de mentirem, e corajoso se entregou ao martírio.

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O glorioso Santo Inácio de Loiola assim instruía

seus discípulos: “Quem é zeloso da pureza de sua consciência, deve confundir-se na presença de Deus pelos pecados mais leves, considerando que Aquele contra qual são cometidos, é infinito nas suas perfeições: o que os agrava de uma malícia infinita”.

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Educado nestes santos princípios, Santo Afonso

Rodrigues fez ressoar as paredes do convento em que era porteiro com esta admirável e heroica prece, que acha ainda eco fiel em todos corações verdadeiramente abrasados de zelo pela glória de Deus: “Antes sofrer, ó Senhor, todas as penas do Inferno que cometer um só pecado venial”.

Na história da Igreja se encontram frequentemente almas generosas que preferem sacrificar a própria vida, a resgatá-la a custo de uma mentira ou de um pecado venial.

Assim pensavam e obravam os santos. Quem tem razão, o mundo ou estes heróis, observadores das máximas do Evangelho? Nós que avaliamos as coisas à luz do tempo ou eles que as consideram à luz inefável da eternidade? Nós, que, com o curto olhar só vemos a terra com seus bens mesquinhos ou eles que com a pupila da águia contemplavam os futuros gozos imortais do Céu?

Iremos vê-los nos capítulos seguintes.

CAPÍTULO II

O suicídio espiritual A lepra da alma Celebre resposta de um santo monarca Coragem, a tua doença é menos do que uma culpa venial A morte, mas não o pecado

chagas, cobre-a de úlceras. Da mesma forma, se a enfermidade não é curada, pode levar-nos à sepultura, assim é a culpa venial, que pode dispor e conduzir a alma à sua morte, isto é, ao pecado mortal. Ah! Se nós experimentássemos os males espirituais como experimentamos os temporais, se em relação à eternidade fossemos mais sensíveis do que para com o tempo, mudaríamos de opinião sobre a ofensa de Deus.

O que é o pecado mortal? É a morte e a sepultura da alma. Quem comete uma culpa grave priva-se da graça santificante, mata o espírito, cobre-o do véu mortuário, fecha-o num sepulcro, e se não o ressuscita com a Confissão, a eternidade dos tormentos cercará

Quanta solicitude pela saúde do corpo! Quanto descuido pela saúde da alma! Logo que temos um ligeiro resfriado, uma pequena febre, procuramos imediatamente o médico e pedimos-lhe receitas e remédios; fazemo-nos

a

alma nas chamas devoradoras. Numa palavra:

dispensar a abstinência e o jejum,

o

pecado mortal é o suicídio espiritual.

abandonamos todo e qualquer trabalho e

Que é o pecado venial? É a doença da lama, é a lepra do nosso espírito, que o torna asqueroso. O pecado venial não dá a morte à alma, não a priva da graça de Deus, mas a fere, abre-lhe

abalamos meio mundo. O contrário acontece se caímos em pecado: encolhemos os ombros, descansamos em uma deplorável indiferença, deixando que a nossa pobre alma desfaleça, sem nos importar com os remédios tão fáceis e

abundantes que o Bom Deus nos concedeu a custa do seu preciosíssimo Sangue, sobre o cume doloroso do Calvário.

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Um dia, o glorioso rei da França, São Luiz, discorria com um cortesão sobre a enormidade do pecado. Em certo ponto, o rei perguntou- lhe se preferiria contrair a lepra ou ofender a Deus. O cavalheiro, mais entendido em coisas de guerra e de armas que nas da Religião, saiu com este despropósito: “Preferiria cometer trinta pecados a apanhar semelhante moléstia”. “E eu replicou o santo monarca escolheria cem lepras antes que uma só ofensa a Deus.Esta resposta parecerá sublime, extraordinária, heroica e digna do fervor magnânimo dos santos. Porém, nós nos enganamos. É um sentimento que qualquer cristão, qualquer religioso deveria possuir; é um verdadeiro sentimento que deveria ser ordinário, natural, comum a todos aqueles que creem no Deus

descido do Céu e morto sobre o duro madeiro entre dois ladrões para expiar o pecado.

Nos tempos da Idade Média era muito comum nos países da Europa a lepra trazida do Oriente pelos cruzados, e em muito lugares edificavam- se lazaretos ou leprosarias para recolher esses infelizes. Depois houve quem impetrasse de Deus a terrível doença para expiar seus pecados e fazer penitência nesta vida. Oh! Estes tinham por certo a justa ideia da ofensa a Deus, e pesavam os males temporais e eternos na justa balança do Evangelho.

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Conheço um sacerdote religioso a quem Deus visitou com uma longa enfermidade que o leva continuamente à beira do sepulcro. Muitos são os seus sofrimentos psíquicos e morais. Estava na flor da idade, concebia as mais vivas esperanças de trabalhar na santa vinha de Deus; sonhava com infinitas conversões de

almas, quando inesperadamente uma doença lenta o abate, cortando-lhe todas as aspirações.

Nas horas de desconforto, nos momentos em que sente todo o peso de seus males, a natureza chora tantas e tão belas esperanças desvanecidas. Ele pondera assim: “Que é pois esta minha doença? Suponhamos ainda que, começada há seis anos, continue ainda por um século. O que é finalmente? É uma desgraça inferior a um pecado venial. Eu deveria chorar muito mais amargamente o menor pecado cometido que a mais perfeita saúde perdida. Coragem, portanto, minha alma, pois não és infeliz: mais infeliz é quem ofende a Deus”. Este pensamento o sustenta, conforta-o e torna-lhe suave o sofrer.

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Aquele querido menino, São Domingos Sávio, que, semelhante a um ramalhete de rosas nos dias da primavera, perfumou com suas virtudes

o Oratório de São Francisco de Sales em Turim, escolheu por lema estas generosas palavras: “A morte, porém nunca o pecado”. E com a graça de Deus conservou-se fiel.

Quem o conheceu assegura que nenhuma sombra de pecado mortal manchou a cândida estola de sua inocência, e me é grato acreditar que, especialmente no últimos anos de sua vida, não tenha cometido com advertência nem sequer um pecado venial.

CAPÍTULO III

O pecado venial diante da fé A bofetada dada em Jesus no sinédrio Os reis da terra e o rei do céu A balança não pende

Consideremos o pecado venial nas balanças da eternidade. O que é, em suma? É uma desordem que se comete com o pensamento, com a palavra, com a ação e com a omissão contra a lei de Deus, mas que não é tão grave que nos faça incorrer na sua desgraça. Nos limites, pois, desta culpa, já se compreende tudo o que constitui um verdadeiro pecado, isto é, a existência de um preceito de Deus e, da parte do homem, a recusa de obedecer. Portanto, mais ou menos, isto é, com maior ou menos conhecimento, com um consenso mais ou menos completo, com matéria mais ou menos considerável, não há diferença alguma

entre o pecado mortal e o venial. É sempre uma indigna preferência concedida à vontade do homem sobre a vontade de Deus, e por isto é uma verdadeira ofensa que se faz a Deus. Se o compararmos com o pecado mortal, o pecado venial é por certo coisa leve; mas, se o considerarmos em si mesmo, é uma afronta que encerra infinita gravidade, porque ofende a Majestade Divina.

O nosso planeta comparado com o sol, é um grão de areia perdido nos espaços, mas, considerando em si mesmo, não é certamente pequeno; as cinco partes do mundo com suas altas montanhas, e os cinco oceanos com sua exorbitante quantidade de água, oferecem por certo uma extensão interminável.

Dever-se-ia mudar-lhe o nome de venial. Ao nosso ouvido, acostumado com as máximas do mundo, o pecado venial soa como pecado nulo ou quase nulo: pecado que não é pecado; no entanto, é uma injúria que nós, vis vermes da

terra, destinados à corrupção do sepulcro, amassados de todas as misérias, fazemos àquele Deus que com uma palavra estendeu a abobada dos céus, que com uma palavra nos tirou do nada e que pode com uma palavra, quando nós O ofendemos, reduzir-nos ao nada.

Ponhamos de um lado o homem com suas misérias, do outro, Deus com suas infinitas perfeições, veremos então se o pecado venial é coisa de pouca monta. Os santos costumam comparar a culpa venial com uma pancada que dá-se em Deus, com um encolher de ombros em sinal de menosprezo, ao passo que do pecado mortal dizem ser ele um punhal cravado no Coração de Deus; pois, quanto cabe em seu pode, ele nega, destrói e mata o Criador. Parece-vos pouca coisa dar uma pancada em Jesus Cristo que vos remiu? Não temos chorado o suficiente, lendo no Santo Evangelho a cruel impiedade daquele homem que deu uma bofetada no Divino Redentor no sinédrio perante Caifás? Ah! Devíamos antes

chorar as nossas culpas veniais que insultam ainda mais amargamente o nosso doce Senhor, digo mais amargamente, porque aquele homem não conheciam em Jesus o Filho de Deus, ao passo que nós o reconhecemos e assim mesmo o ofendemos.

Um cortesão guarda-se bem de encolher os ombros quando o rei lhe dá uma ordem, e por que os encolhemos nós a Deus com tanta facilidade? Ah! Porque Deus é bom, nós abusamos da sua bondade. Ele não faz como o rei Assuero, que depôs a rainha Vasti, porque não quis assistir ao seu banquete e a substituiu por Ester: Ele nos perdoa e nós continuamos a ofendê-lO.

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Maomé II mandou abrir o corpo de quinze pagens para saber quem havia comido um fruto do jardim imperial. Dois filhos seus tinham entrado no parque que este soberano

reservara para suas caçadas, e só por isto ele os condenou inexoravelmente à morte. Mas, querendo então conservar um sucessor, mandou deitar a sorte para ver qual deveria morrer e qual deveria reinar.

Nos países ainda não iluminados pela suave luz do Evangelho, estes fatos se dão frequentemente e por isso ninguém se atreve cometer um só desvio em presença do monarca, e tremem todos atentos a seus mandados. Este cuidado nós deveríamos tê-lo para com o nosso bom Deus, não tanto pelo temor dos castigos, mas por esse amor filial que foge de desagradar a um pai afetuoso que nos ama como a pupila de seus olhos. A alma na graça de Deus, saída do lavabo salutar do Batismo ou da mística piscina da Confissão é bela como a luz da aurora, cândida como o lírio, clara como um espelho, mas o pecado venial lhe empana esta beleza divina assim como as nuvens que encobrem os esplendores do sol e tornam languido e pálido o grande

astro do dia, assemelhando-o a um enfermo estendido em leito de dores. A alma na graça de Deus é a princesa nas vestes nupciais, ataviada de pérolas e diamantes, resplandecente de seda e de colares preciosos que vai desposar Jesus Cristo. Pois bem, o pecado venial mancha este magnífico hábito nupcial, mancha-lhe o rosto como se o marcasse a varíola, e a torna menos bela e menos aceita ao amante divino.

Tomemos ainda a balança do Evangelho. Ponhamos de um lado todas as lágrimas da pobre humanidade, desde o dia da criação até ao dia do juízo; todos os tormentos atrozes dos mártires; as austeridades esmagadoras dos monges; as vexações; os sofrimentos; a caridade de todos os santos; todas as boas obras feitas e as que se farão; as preces dos anjos e, se porventura os astros forem habitados, as satisfações e os merecimentos de todas as criaturas que os povoam. Se do outro lado pusermos o mínimo pecado venial, a

balança pende para esse lado, e assim ficará até que às satisfações das criaturas juntemos uma satisfação, um suspiro, uma prece ou uma gota de sangue do Homem Deus.

O pecado venial é uma ofensa de majestade infinita, e, para repará-lo, é preciso uma satisfação de valor infinito. Só Jesus Cristo pode reparar condignamente a ofensa feita a Deus pelo pecado, que nós desprezamos como coisa de nada . Nem Maria Santíssima, nem os nove coros dos Anjos e dos santos poderiam fazê-lo. Que motivo de vergonha para a dureza do nosso coração, pronto sempre a desprezar a Deus por qualquer bagatela, as vezes até por uma teima, por uma curiosidade para satisfazer o nosso amor próprio ou para livrarmo-nos de uma repreensão.

Para fazer-nos compreender a sua malícia, os teólogos recorrem a suposições, embora impossíveis, mas que demonstram a grande verdade que estamos meditando. Se com um

pecado venial se pudesse apagar as chamas eternas do Inferno e levar ao paraíso todos os condenados; se pudesse com ele fechar o purgatório e livrar todas as almas aí detidas; se pudesse converter o mundo inteiro, ainda assim não seria permitido cometê-lo, e nós deveríamos renunciar à felicidade de tantas criaturas para não desgostarmos a Infinita Majestade Divina. A ofensa e o dano, embora também eterno, não tem comparação alguma com a ofensa feita a Deus, bondade Infinita.

Meu Senhor e meu Deus! Quando acabaremos de nos convencer de que pecando, mesmo venialmente, contra Ti, cometemos um grande mal? Quando amaremos tanto a tua glória que a tenhamos como superior à vida e à morte, aos bens e às riquezas e a todas as coisas miseráveis do tempo?

Oh! Com a tua santa graça ilumina-nos!

CAPÍTULO IV

Os micróbios do corpo e os da alma Astúcia fina A rainha Semíramis e Dido Celebres palavras de dois grandes gênios

Um navio carregado de mercadorias preciosas saía do Porto de Gênova com direção aos célebres mercados do oriente. Era solidadíssimo, guarnecido de sólidos flancos, parecendo desafiar os ventos e as tempestades. Mas, na sentina formou-se um pequeno orifício não maior do que o de uma agulha e a água principiou a entrar. Ninguém reparou nisto, o orifício foi-se alargando cada vez mais até que uma noite o navio naufragou. Eis a história das tristes consequências do pecado venial. “Qui spernit modica, paulatim decidet”: “quem despreza as coisas pequenas, quem não faz conta das venialidades, pouco a pouco arruinar-

se-á”, cairá em peado mortal. Sim, continuando

a cometer faltas de olhos abertos, continuando

a dizer mentiras, Deus nos tirará as suas graças,

a alma ficará enfraquecida e em breve teremos de chorar alguma queda fatal. A ciência moderna, indagando ousadamente as causas das doenças contagiosas, tem descoberto que

se originam dos micróbios, isto é, de seres

pequeníssimos e “invisíveis” que entram no corpo humano e se multiplicam extraordinariamente, atacando e destruindo o nosso interior. Imaginemos a tuberculose: o que é, pois, esta enfermidade que consome e devora tantos jovens na flor dos anos? É um micróbio que invade os pulmões e pouco a pouco os paralisa.

O infeliz jovem começa a tossir, descora,

emagrece, e em pouco tempo, quando as árvores perdem a folhagem, ele desce à tumba. A medicina empregada a tempo ainda pode isolar e destruir o inseto mortífero, mas, se tive

apenas esperado e estendido o prazo para

tomar precauções, os remédios servirão somente para atormentar mais o pobre enfermo sem que lhe afastem da cabeceira o transe da morte.

O pecado venial é o micróbio da alma: se não for curado, leva-la-á ao pecado mortal. Se os anjos pudessem chorar, verteriam lágrimas amargas ao ver o homem ofender com tanta facilidade ao seu Criador, ao seu Pai celestial, ao seu Redentor, que por amor dele tomou no ombros a Cruz e caminhou pelas sangrentas veredas do Gólgota para ser crucificado. O demônio com aquela mesma astúcia e malícia com que seduziu Eva, não nos atenta logo ao pecado mortal, porque nós o repeliríamos com horror, mas procura primeiro fazer-nos cair em culpas veniais, cada uma delas mais consciente do que a anterior e assim enfraquecendo-nos e abatendo-nos invencivelmente. Quando vê que estamos privados dos auxílios superabundantes do Senhor, enfastiados das práticas religiosas, enfermiços, então investe arrojadamente sobre

nós, para nos precipitar logo na culpa mortal; da mesma, um capitão experiente: para assaltar uma cidade, começa por abater as fortificações avançadas e as trincheiras, e, passo a passo vai penetrando até debaixo dos muros para descarregar o golpe definitivo e fatal.

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Um prisioneiro trancado numa altíssima torre, para fugir, inventou este estratagema: prendeu um por um os cabelos de sua cabeça e, dependurando-os pela janela com um leve peso na ponta, puxou para si um fio de seda que um amigo lhe tinha dado. Com o fio de seda, puxou um cordãozinho mais forte, depois outro e mais outro, tendo puxado afinal uma grossa corda pela qual escorregou e pôs-se em liberdade. O espírito das trevas, a princípio, nos pede um nada, depois alguma coisa de pequeno valor, e em seguida outra mais considerável ainda, e assim vai adiante até nos arrastar a uma grave

transgressão da lei de Deus. É por isso que o Espírito Santo nos adverte pela boca do grande Apóstolo São Paulo, que não devemos dar lugar ao demônio: “Nolite locum dare diabolo”.

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Conta-se que Semíramis, rainha da Assíria, com seu ardis, obteve de Nino o governo do império por um só dia, mas, tendo apenas conseguido isto, mandou lançar na prisão e degolar o desgraçado marido, reinando sozinha em Nínive e no vastíssimo império.

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Conta-se também que a rainha Dido, aportando às praias africanas, pediu ao rei Jarbas tanto terreno quanto se pudesse medir com um couro de boi. Consentiu o monarca sorrindo, mas a astuta mulher tomou o maior couro que pôde achar, mandou fiar o pelo, cortou o couro em finíssimas tiras e estendeu-

as de modo a abranger uma extensão vastíssima onde edificou a poderosa cidade de Cartago, que subjugou depois a África inteira. O desgraçado Jarbas percebeu tarde demais o engano e maldisse àquela cega concessão.

O pérfido tentador usa os mesmos artifícios:

pede pouco para obter muito. Pede-nos o pecado venial e passa depois ao mortal. Ai de nós se lhe dermos entrada! Não se chega a ser perfeito num dia só: nemo repente fit optimus; nem também se fica ruim de repente: nemo repente fit pessimus. É por isso que o glorioso doutor São Gregório Magno diz que sob certo aspecto, há mais perigo nas culpas leves que nas graves; porque as graves, quanto mais se conhecem, tanto mais pelo conhecimento maior do mal, quando alguém as tenha cometido, movem-nos a evitá-las e a emendarmo-nos; mas as culpas levez, quanto menos se conhecem, tanto menos se evitam, e, não fazendo contas delas, as repetimos e continuamos a cometê-las, estando o homem

descansado nelas sem jamais resolver-se virilmente a expulsá-las e livrar-se delas, de sorte que, logo, de leves tornam-se graves.

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O príncipe da eloquência cristã, São João

Crisóstomo, diz ainda que as vezes devemos considerar mais as culpas pequenas que as graves, porque as graves trazem consigo

mesmo um certo horror que nos induz a odiá-

las e a fugir delas, mas as outras, pela razão

mesma de serem pequenas, têm-se descuidados e negligências, e, como as avaliamos em pouco, não acabamos nunca de sacudi-las de nós, e assim nos vêm a ser gravemente danosas. Quem tem deveras cuidado da própria saúde, acode a tempo contra os primeiros sintomas das doenças,

curam logo as leves indisposições e até mesmo

os pequenos resfriados, por temor de mais

graves males.

Principiis obsta, sero medicina paratur cum mala per longas convaluere moras. Acode aos primeiro sintomas porque o remédio é inútil, quando o mal por longo descuido já se tornou crônico.

CAPÍTULO V

Guerra de extermínio Beleza divina da alma em graça A esposa do Sagrado Coração A seráfica do Carmelo e a santa virgem holandesa

Quem deseja chegar à perfeição deve absolutamente fazer guerra de extermínio aos defeitos e às culpas, mesmo que sejam leves. A santidade é incompatível com os pecados veniais cometidos de olhos abertos, com pleno conhecimento do mal que se faz. É preciso sermos generosos para com o Senhor e não desgostá-lo continuamente, se desejamos que ele também seja conosco pródigo de suas graças.

A alma que prende-se às criaturas com pequenas afeições, não pode voar livremente ao bem aventurado amplexo de Deus. Que

importa ao passarinho ser amarrado com um fio subtil ou com uma grossa corda se de qualquer forma não poderá desprender o voo a seu gosto nas regiões aéreas? Bela é a rosa fragrante e nos atrai com sua coloração realçada à luz do Sol, mas, se uma sequer de suas pétalas murchar, logo perderão em muito o seu valor. Um fruto maduro e bonito, se tem um ponto negro, por menor que este seja, não é mais digno de ser trazido para a mesa real. Um magnífico vestido de seda, reluzente de ouro e de pedras preciosas, bordado por uma mão amestrada, se apanhar uma pequena mancha, mesmo de longe, a rainha não o vestirá:

sofreria o seu conceito, o vestido deveria ser limpíssimo, totalmente imaculado, sem a mínima nódoa. Em um palácio entra somente coisas convenientes à majestade real. Deus é a mesma santidade, descobre imperfeições até mesmo nos Anjos (Et in Angelis reperit pravitatem, Jó, 4-18). Os Serafins tremem na sua presença, velando-se a face

com as asas, e quer que as almas consagradas, de modo especial ao seu amor, procurem adquirir a pureza de consciência. Quem, portanto, faz as pazes com seus defeitos, quem se acomoda relaxadamente com as suas imperfeições, quem renova sempre as mesmas culpas, comprazendo-se nelas e não cuidando na emenda, não espere chegar à perfeição ou ser admitido na intimidade do Amor Divino e inebriado de celestes consolações.

Para que Deus se comunique inteiramente à alma, é preciso que esta esteja despida de todo

o amor terreno e livre de todo o apego às

criaturas. Se o nosso coração está sujo de lodo,

se ama as coisas caducas da terra, não pode ser

iluminado pelos raios divinos e confortado pelo

suave influxo da sua graça. –––––

Santa Margarida Maria Alacoque, a ditosa discípula do Coração Divino, recolhida já ao mosteiro e dando-se à mais sublime perfeição, conservava ainda apego sensível a uma

companheira. Jesus apareceu-lhe e fez-lhe compreender que aquele doce apego contristava o Seu Amor zeloso de reinar no coração dela, e que devia absolutamente cortá- lo. A santa virgem, sensível a qualquer mínima prova de afeição, lutou por vários meses contra aquele apego, sobre os quais triunfou, então o Esposo Divino inundou-a de consolações e enriqueceu-a de favores singulares que lhes até então não lhe concedera porque não estava ainda livre de si mesma.

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A seráfica do Carmelo, Santa Teresa de Ávila teve uma terrível visão na qual foi-lhe mostrado o Inferno e o lugar preparado para ela se não se corrigisse de alguns defeitos que pouco a pouco iriam arrastá-la para a perdição eterna.

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Uma alma vista pela Venerável Irmã Ana da Encarnação, morta em conceito de santidade, foi verdadeiramente condenada por defeitos leves que a levaram a uma culpa mortal. –––––

Santa Clara de Montefalco vangloriou-se um dia por uma obra sua e, apesar de fazer por esta falta uma dura penitência e pedir perdão com lágrimas abundantes, o Senhor suspendeu-lhe imediatamente suas luzes e celestiais consolações. Jesus Cristo é um esposo zeloso que nas almas a Ele consagradas não pode sofrer com a infidelidade ao seu Amor. Ele amou-as demasiadamente a ponto de descer do Céu, vestir-se de carne humana, sofrer a dolorosíssima paixão e finalmente expirar na Cruz, e tem o direito que elas Lhe entreguem por inteiro o coração sem dividi-lo com as criaturas. É tão pequeno este coração que não admite dois amores: é conveniente que todo palpitar de coração seja dado Àquele que o criou, remiu e deseja santificá-lo.

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A santa virgem holandesa Ludivina que por

trinta e oito anos permaneceu em uma cama e vexada por todas as doenças, na morte de seu pai, afligiu-se mais do que convinha a um cristão, o qual sabe que a tumba não é senão o berço da imortalidade. Deus, por castigo daquele afeto excessivo, privou-a das doces consolações que lhe comunicava e afligiu-a ainda mais, enviando-lhe muitas penas internas. Um religioso solitário foi avisado sobre o que se passava naquela alma e lhe mandou dizer que se corrigisse daquela imperfeição e se resignasse inteiramente à adorável Vontade Divina, se queria readquirir

os primeiros favores.

Apelemos agora para a nossa experiência. Não é porventura verdade que, quando caímos em faltas voluntárias, quando negamos a Deus o sacrifício dos nossos pequenos desejos e

consentimos nos desejos desordenados e do coração, sentimos logo diminuir a graça de Deus, a suavidade na prática da virtude e o ardor no caminho da perfeição? Então nossa alma dorme no serviço divino: “Dormitavit anima mea prae tedio; e não é mais capaz de propósitos generosos e de magnânimas resoluções. Está adoentada, ferida, como o desgraçado no caminho de Jericó, e, se não nos apressarmos a curá-la, em breve morrerá e será coberta com o lençol funerário.

Se queres pois, tornar-te santo, combate sem descanso contra os pecados veniais advertidos. Não sejas avarento e escasso para com Deus, nem meças até onde chega o lícito e o ilícito, o mortal ou o venial, a obrigação grave ou leve. Isto é difícil e perigoso, porque os limites nem sempre são claros. Procura, pelo contrário, evitar qualquer ofensa a Deus e praticar os conselhos evangélicos, obedecendo sempre às suaves inspirações da graça. Querer é poder: e quem quer, com força de vontade, consegue se

tornar santo, pois os auxílios divinos nunca faltam a quem os acolhe com prontidão e os aproveita com zelo.

CAPÍTULO VI

Terríveis castigos A mulher de Ló Moisés e Aarão Davi e Osa O profeta Semeia Os meninos e Eliseu Sê fiel no pouco

Venial significa remissível. O nome de venial dado ao pecado de que tratamos, é um nome impróprio, nome que não designa bem a natureza dele, o que não pode atribui-se igualmente ao mortal, que também é remissível, capaz de vênia ou e perdão, pois se o homem se arrepende, pede a Deus o perdão confessando-se ao sacerdote. Outrossim, a culpa venial não obtêm de Deus remissão se não por meio da penitência ou de algum ato satisfatório. Se tu pecas, embora levemente e não te arrependes, Deus castigar-te-á nesta vida u na outra e pagarás severamente a culpa cometida.

Ainda há mais! As vezes a justiça divina tem castigado neste mundo certas culpas veniais com uma severidade que nos enche de espanto e nos demonstra quando Ele odeia o pecado, mesmo que leve. Das Sagradas Escrituras podemos extrair um catálogo fúnebre extensíssimo.

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A desgraçada mulher de Ló, por uma simples curiosidade foi surpreendida pela morte instantânea e mudada em uma estátua de sal. Ouvia o crepitar das chamas, os gritos lastimosos dos cidadãos e voltou-se para observar aquele terrível espetáculo.

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Moisés e Aarão foram excluídos da Terra Prometida por uma falta de confiança, quando repetidamente percutiram o rochedo para

obter um pouco de água no meio das ardentes areias do deserto. Quão imperscrutáveis são os juízos divinos! Deus perdoou ao chefe dos sacerdotes levíticos pelo grande pecado de ter secundado a Israel na fabricação do bezerro de ouro, mas não lhe perdoou essa leve desconfiança! E note-se a gravidade do castigo.

Os dois irmãos haviam livrado aquele querido povo da escravidão dos faraós, conduzindo-os pelo deserto, através de mil dificuldades e defendendo-o dos inimigos. Haviam consumido a vida inteira a beneficiá-lo, enobrecê-lo depois da longa escravidão e elevá-lo à verdadeira nação. Nada mais faltava que introduzi-lo na Terra Prometida que manava leite e mel, o lugar suspirado há tanto tempo, justo e feliz descanso aos longos trabalhos. Quão contentes baixariam então ao sepulcro, abençoados por todas as tribos! Mas, cometeram um pecado venial, e por causa deste pecado, não chegaram ao termo, àquele termo suspirado por tantos anos! De longe

verão aquele solo afortunado, de longe contemplarão os férteis vales do Jordão, as colinas povoadas de vinhedos, as planícies de messes maduras lourejantes; mas lá não pousarão o pé. Outros recolherão os frutos de seus trabalhos, outros terão a consolação de pôr termo à longa peregrinação de Israel e entoar o cântico de agradecimento ao Eterno que nutriu seu povo com o Maná do Deserto e que o salvou de mil perigos. Moisés e Aarão, em castigo pela desconfiança praticada, morreram sem completar sua missão.

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Infeliz Davi! No auge de seu poder esqueceu- se por um instante de que Deus o tinha erguido da solidão de um campo aos degraus de um trono, e que em cetro lhe trocara o bastão de pastor. Fez arrolar o seu povo e agradou-se vaidosamente daquele número ilimitado de súditos, atribuindo a si a glória de Deus, mas logo a ira divina se desencadeou

sobre ele, pedindo uma severa expiação, propondo-lhe três horríveis flagelos: a peste, a fome e a guerra. “Venha a peste- exclamou o humilde monarca arrependido e assim eu também correrei o risco comum de ser infectado e punido pessoalmente por minha culpa”, e o contágio invadiu o povo e os mortos chegaram até o número de setenta mil.

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Processionalmente, com grande e extraordinária pompa, era levada a arca santa de Abinadab para Jerusalém. Davi, trajando as insígnias reais e sendo seguido por trinta mil guerreiras, a flor do exército de Israel, cingidos por suas brilhantes armaduras, faziam-lhe cortejo ao som das cítaras no meio das nuvens de odorífico incenso e do alegre canto dos Salmos. De improviso, os bois ao recuarem, fazem pender a Arca e Osa estende a mão para segurá-la. Que nunca o tivesse feito! No mesmo instante foi fulminado por um raio,

caindo no chão o cadáver. Ele era um simples levita e não podia tocar a Arca. Aquela morte repentina causou terror em todos, e Davi concebeu uma ideia tão alta da grandeza divina, que não ousou mais receber a Arca em seu palácio e mandou levá-la para a casa de Obededom.

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Disse um dia o Senhor a Semeia: “Vai, destrói o altar profano que Jeroboão levantou aos ídolos e anuncia-lhe terríveis castigos. Mas não comas nem bebas coisa alguma desse lugar maldito, e não voltes pelo mesmo caminho por onde fores”. Solícito, o servo de Deus corre a Jeroboão, fala com voz firme ao ímpio monarca e com um movimento derruba o altar. “Amarrai o temerário” exclamou enfurecido Jeroboão, e estendeu o braço para intimar a ordem aos soldados, mas aquele braço logo ficou paralisado, então o soberbo monarca teve que humilhar-se e implorar do profeta a sua cura.

O homem de Deus orou e lha obteve. Acabada sua missão, Semeia, recusando os presentes do rei, voltava por um caminho diferente daquele por onde tinha vindo, quando encontra um outro profeta, o qual, para experimentar-lhe a obediência, o convida com vivas instâncias a descansar. Resiste Semeia ao princípio, mas afinal deixa-se vencer. Poucos instantes depois jazia apenas o cadáver horrivelmente mutilado por um leão, instrumento da Divina Cólera somente por aquela transgressão às ordens recebidas.

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Subia Eliseu, já velho, à velha colina de Betel, povoada de verdes florestas, e uma turba de meninos começou a provocá-lo dizendo: “Sobe velho, sobe calvo!”. O servo de Deus ficou aflito por aquela falta de respeito para consigo e, em nome de Deus amaldiçoou os insolentes.

No mesmo instante saíram do bosque dois

ursos ferozes que se lançaram sobre aqueles míseros, dilacerando a quarenta e dois deles.

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Mais terrível ainda foi a punição dos Betsamitas. Milhares e milhares deles foram fulminados por terem olhado com curiosidade e irreverência a Arca da Aliança.

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Maria irmã de Moisés, por uma murmuração contra o irmão, foi punida com a lepra.

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Ananias e Safira disseram a São Pedro uma mentira e foram punidos com a morte instantânea. Diante destas punições terríveis, vêm espontaneamente as palavras da Sagrada Escritura: “Quis non timebit te, o rex gentium?

Quis novit potestatem irae tuae et prae timore tuo iram tuam dinumerare?

Notemos que, em todos estes fatos das Escrituras, os santos padres nada mais veem do que uma culpa venial, ou por defeito de matéria, ou por defeito de conhecimento, ou por defeito de vontade e outras circunstâncias atenuantes. Acrescentemos agora, para nosso conforto, que segundo os mesmos padres, Deus puniu com rigorosa pena temporal tais faltas para depois usar de misericórdia na vida futura.

Ora, se Deus castiga com a morte, que é a máxima pena temporal, não devemos concluir que o pecado venial é coisa de nada, como nós julgamos, mas que é um mal gravíssimo a evitar-se a todo o custo, ainda que com o sacrifício de todas as nossas riquezas ou até mesmo com a própria vida.

Enquanto, porém, Deus costuma punir com

tanto rigor o pecado venial, as vezes Ele presenteia também com preciosos favores às pequenas correspondências à graça para convidar-nos a sermos fieis no pouco.

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Foi revelado a São Gregório Magno que o Senhor lhe conferiu a suma tiara pontifícia por uma esmola feita a um desconhecido. Euge, serve bone et fidelis: quia super pauca fuisti fidelis, super multa te constituam.

“Muito bem, servo bom e fiel, porque tens sido fiel no pouco, irei fazer-vos dono do muito.”

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Um moço jesuíta, no tempo das férias, estava para sair a passeio quando um padre o deteve e convidou-o para ir ajudar-lhe a Santa Missa. Ele aceitou de boa vontade renunciando assim ao passeio. Depois de alguns anos partia este

para as missões entre os infiéis, recolhendo então a palma do martírio.

Foi revelado a um confrade seu que o afortunado moço tinha sido por Deus favorecido da graça insigne de derramar seu sangue pela fé por causa do pequeno sacrifício feito naquele dia, quando o sacerdote o convidara à Santa Missa. Oh altitudo divitiarum, sapientiae et scientiae Dei: quam incomprehensibilia sunt indicia eius et investigabiles viae eius.

Oh profundeza dos tesouros da sabedoria e ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos e imperscrutáveis as tuas sendas!

CAPÍTULO VII

Penas atrozes do Purgatório Terríveis aparições Marca da mão de fogo Uma gota de suor Por quão pouco, lá se desça Também os santos canonizados!

Deixemos agora a terra e lancemos um olhar além da tumba, contemplemos os castigos terríveis com que Deus pune o pecado venial. Há um cárcere designado para isso pela justiça divina, cárcere cheio de fogo e de todos os tormentos: o Purgatório. Mas o que é o Purgatório? É um Inferno temporário; as mesmas chamas que atormentam o condenado ao Inferno, são as que purificam o escolhido. Eodem igne diz Santo Tomás de Aquino torquetur damnatus et purgatur electus. Entre o Inferno e o Purgatório não há outra diferença além da duração das penas. No Inferno nunca

se acabam, enquanto no Purgatório tem o seu tempo, que varia segundo a gravidade e o número das culpas. A menor pena do Purgatório é infinitamente superior à maior deste mundo. O nosso fogo é frio, diz um santo, em comparação ao fogo que aflige aquelas pobres almas. Entre o fogo do Purgatório e o nosso há a diferença que existe entre o fogo real e o fogo pintado.

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Santa Catarina de Gênova escreve: “As almas do Purgatório sofrem tal pena, que a língua humana não a pode referir, nem inteligência alguma poderá fazer dela alguma noção, salvo se Deus conceder alguma graça especial para tal”. Há no Purgatório, assim como no Inferno, uma dupla pena: a que consiste na privação de Deus e a privação dos sentidos. A pena do dano é sem comparação maior, pois é mais intensa quanto aquelas almas, que vivendo na amizade de Deus, experimentam mais forte a

necessidade de unirem-se a Ele, assim como o ponteiro de um bússola há de sempre voltar-se para o polo, a flecha há de correr para o alvo e a chama de se elevar.

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Um religioso de São Francisco de Assis, morto em conceito de santidade, apareceu depois de muito tempo a um amigo seu, queixando-se altamente de ter sido abandonado por ele. E foi verdade, porque o confrade, julgando que o defunto já tivesse alcançado a glória eterna, não rezava mais por ele, e nesta suposição baseava as suas desculpas. A alma abandonada deu então um lamentável grito e por três vezes repetiu: “Nemo credit, nemo credit, nemo credit quam districte judicet Deus et quam severe puniat”. Ninguém pode crer, ninguém pode crer, ninguém pode crer quanto lá se apura tudo!

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O próprio Divino Redentor nos advertiu que de lá não sairemos sem havermos pago antes todas as nossas dívidas, até o último centavo:

Donec reddas novissimum quadrantem”.

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Pela metade do século passado, o Senhor, na Sua Bondade, permitiu uma aparição do além- túmulo para confirmar-nos na crença do Purgatório de demonstrar-nos a intensidade das penas que lá se sofrem. No mosteiro dos franciscanos em Foligno, uma irmã, falecida havia pouco tempo e em conceito de santidade, apareceu àquela que a tinha substituído no ofício, a impetrar dela sufrágios: “Ai! Quanto sofro!” disse ela, e, para dar uma prova, tocou com a palma da mão a porta, deixando nela sua mão impressa em traços carbonizados, enchendo o quarto de fumaça densa e um forte cheiro de madeira queimada. Este sinal terrível ainda subsiste

cuidadosamente conservado no referido mosteiro como um vivo testemunho do fato.

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Em Zamora, cidade do reino de Leão, na Espanha, vivia num convento de dominicanos um bom religioso, ligado em santa amizade com um franciscanos, assim como ele, homem de grande virtude e santidade. Um dia enquanto se entretinham sobre coisas espirituais, prometeram reciprocamente, que o primeiro a morrer, se Deus o permitisse, apareceria ao outro para informá-lo da sorte alcançada no outro mundo.

Morreu o franciscano, e sendo fiel à sua promessa, apareceu ao religioso dominicano quando este aprontava a sua mesa. Depois de tê-lo cumprimentado com extraordinária benevolência, lhe disse que estava salvo, mas tinha ainda muito o que sofrer por algumas pequenas faltas em vida pelas quais não tinha

se arrependido bastante. Em seguida ainda disse: “Nada existe sobre a terra que possa dar uma ideia das minhas penas”, e para que o dominicano tivesse disto uma prova, estendeu

a mão sobre a mesa do refeitório. No mesmo

instante viu-se fumaça e chamas, deixando na madeira a queimadura como se a mão fosse um ferro em brasa recentemente tirado da forja. Imaginemos a comoção do dominicano diante deste espetáculo. Foi imediatamente chamar os confrades, mostrou-lhes o funéreo sinal e todos reuniram-se logo na igreja para rezar pelo infeliz defunto. Esta revelação é narrada na vida de São Domingos, escrita por Fernando de Castela.

A mesa guardou-se religiosamente em Zamora

até o fim do século XVIII, no qual as revoluções

políticas a fizeram desaparecer como outra muitas relíquias piedosas de que era rica a Europa.

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Na história do Padre Estanislau Chosca, um dominicano polaco, lê-se que um dia, quando estava rezando pelos finados, viu uma alma toda devorada pelas chamas como um carvão no meio de uma fornalha ardente. O pio religioso a interrogou se aquele fogo era mais penetrante do que o nosso. “Ai de mim! respondeu a alma todo o fogo da terra comparado com o do Purgatório é como um sopro de ar fresquíssimo”. “Mas como é possível? Perguntou Estanislau eu desejaria experimentar com a condição de que isto aproveite para me fazer descontar aqui uma parte das penas que terei de sofrer um dia no purgatório”. “Nenhum mortal replicou aquela alma poderia suportar a mínima pena sem morrer no mesmo instante se Deus não o sustentasse. Se queres convencer-te, estende a tua mão”. Estanislau em vez de intimidar-se ofereceu a mão, o defunto deixou cair sobre ela uma gota de suor. Estanislau caiu no mesmo instante

soltando gritos agudos: aquela gota lhe tinha transpassado a carne e os ossos, saindo pelo outro lado, formando uma profunda chaga. Acudiram-lhe logo os confrades assustados, e socorrendo-o prontamente fizeram-lhe recobrar os sentidos. Estanislau então, cheio de espanto, contou o que lhe tinha acontecido e acabou dizendo: “Ah meus irmãos! Se cada um de nós conhecesse os rigores dos divinos castigos, jamais pecaríamos! Façamos penitência nesta vida para depois não termos de fazê-la na outra, porque terríveis são aquelas penas! Combatamos os nossos defeitos e especialmente as culpas veniais advertidas, a Majestade Divina é tão santa que não pode sofrer a mais pequena mancha dos seus eleitos!”. Depois disto foi para o leito e aí ficou por um ano, sempre atormentado por terríveis dores causadas pela chaga da mão.

No fim do ano, depois de ter ainda exortado os seus irmão a temerem os rigores da Justiça Divina e a fugirem de qualquer pecado, ainda

que leve, expirou suavemente no ósculo de Deus. O historiador acrescenta que este lúgubre exemplo reanimou o fervor em todos os mosteiros e que os religiosos animavam-se mutuamente no serviço de Deus, afim de se livrarem de tão atrozes suplícios.

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O venerável Bernadino de Busto, não menos douto do que santo religioso, narra que um irmão seu, chamado Bartolomeu, morto ainda na pura e inocente idade de oito anos, foi condenado ao purgatório porque alguma vez tinha rezado distraído as orações da manhã e da noite. E mais de uma vez ele foi ouvido a rezar com profunda devoção o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo, naquele mesmo quarto onde tinha dormido e que cometera tais venialidades.

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Na história da Ordem Cisterciense, lê-se que uma irmã de muita virtude foi para o Purgatório porque disse sem necessidade, algumas palavrinhas com voz submissa enquanto rezava o ofício divino; e o mesmo aconteceu com a outra religiosa, que por não ter feito a inclinação no Glória ao Pai como mandava a regra da Ordem. Ambas apareceram envoltas em chamas a implorar o auxílio e prevenir o convento dos rigores da justiça divina.

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Na vida de São Martinho, é visto que morreu uma virgem chamada Vitalina. Estava esta com tal conceito de santidade que não somente a cidade, mas toda a diocese tomou parte nas exéquias, mas não para sufragar-lhe a alma, porém, para obter de Deus, com a sua intercessão, graças especiais, persuadidos todos de que estava no céu. O mesmo São Martinho não rezou o réquiem

ou do de profundis; somente congratulava-se com ela por sua ditosa sorte e agradecia a Deus pelos favores a ela concedidos. Então, a defunta deixou-se-lhe ver em hábito escuro, com olhar triste e esquálido aspecto, com uma voz lamentável disse-lhe: “Não me é ainda permitido ver a face do meu Senhor”. Perguntou então São Martinho: “Oh, Deus! Mas por que?”, respondeu então a pobre alma: “Porque num dia de sexta-feira violei a regra, que manda não compor os cabelos em sinal de luto pela morte do Divino Redentor”.

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Um dominicano de grande piedade foi punido atrozmente no Purgatório só por excessivo afeto aos seus escritos.

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Um capuchinho de santa vida apareceu vestido de fogo só porque, sendo cozinheiro do

convento, consumira um pouco de lenha a mais do que o necessário, violando assim o voto de pobreza.

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Até mesmo os santos, canonizados depois pela Santa Igreja, nem sempre foram isentos destas terríveis chamas expiadoras. Lê-se nas obras de São Pedro Damião, que São Severino, Arcebispo de Colônia, embora durante a sua vida se houvesse distinguido pelo zelo apostólico e extraordinárias virtudes, teve de ficar por algum tempo nesse lugar de expiação, por haver, sem necessidade, antecipado as horas canônicas.

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São Gregório Magno refere em seus diálogos (Livro IV, cap. 40) que o santo diácono Pascácio foi condenado a uma longa expiação, como o próprio defunto revelou a São Germano de

Cápua. E, no entanto, a sua dalmática estendida sobre o féretro, obrava grandiosos milagres.

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São Peregrino e São Valério, Bispos de Augusta, passaram também por aquele fogo. Este último, estando muito velho, procurou deixar o arcebispado para um sobrinho seu, aliás, merecedor pela ciência e pela virtude que o adornava, mas, como além do seu mérito, considerou também a pessoa de seu parente, e por este afeto carnal sofreu dois terríveis castigos: Deus privou-o logo do sobrinho com uma morte prematura, e condenou-o a um severo purgatório, onde foi ouvido a implorar piedade e misericórdia enquanto o povo o invocava como santo.

Lendo estes exemplos, lembramos das palavras que saíram dos lábios dos profetas: Confige timore tuo carnes meas, a judiciis enim tuis timui: Subjuga com o teu temor as minhas

carnes, pois temo os teus juízos.

CAPÍTULO VIII

Duração subjetiva e objetiva do Purgatório Pai desnaturado Uma hora me pareceu um ano Outras revelações Uma digressão que não é digressão

É tão grande a nossa cegueira, que muitas

vezes dizemos até: “O que importa que sejam atrozes aquelas penas? Alguma vez acabarão”.

A objeção foi feita por Santo Agostinho: Sed

dicet aliquis: non pertinet ad me, quamdiu moras habeam, si tmen ad vitam aeternam pervenero. E responde: “Pelo amor de Deus! Não digais isto- Nemo hoc dicat, fratres carissimi, nemo hoc dicat. Pois aquelas penas tão atrozes têm duas durações tão dolorosas que nos contrista apenas o pensar nelas.

A primeira é segundo a estimação que fazem

delas as almas; e nós conhecemos, pelas revelações, que uma só hora de Purgatório para aquelas almas infelizes, parecem muito mais longas que um século, tanta é a

impaciência extrema que experimentam de ver

a Deus, e excessivo o rigor de seu suplício.

Também na terra, uma noite de insônia, especialmente se estamos enfermos, parece- nos uma eternidade.

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No início dos Capuchinhos, leio uma história muito curiosa (Tom. III, ano 1618).

O Padre Hipólito de Scalvo, eleito guardião e

mestre dos noviços num convento de Flandres, esforçava-se por infundir em seus filhos espirituais as virtudes próprias do seu sublime estado. Ora, aconteceu que um dos noviços, que fizera grandes progressos no caminho da perfeição, expirou docemente nos braços de Deus, estando ausente o guardião. Avisado da perda, voltou na mesma tarde, e depois das

Matinas ficou no coro, buscando conforto na oração. Subitamente, vê-lhe aparecer a alma do pobre defunto cercada de chamas, e depois o ouviu falar: “Meu querido e bom Padre! Dai-me por favor a vossa bênção. Por uma pequena falta que cometi contra a regra, acho-me agora no purgatório para satisfazer à Divina Justiça. O bom Jesus concedeu que eu viesse aqui para me impordes a punição que julgardes conveniente, depois da qual, eu voarei ao amplexo de Deus”.

Assustado por aquela vista e por tais palavras, o piedoso guardião logo deu-lhe a sua bênção com toda a efusão da alma e, por penitência, lhe disse que ficaria no Purgatório até a hora da Prima, isto é, até as oito horas da manhã. Ao ouvir isto, o noviço começou a correr como um desesperado pela igreja toda gritando: “Padre desnaturado! Coração duríssimo e sem piedade! Como quereis vós punir tão severamente uma falta que na vida terias julgado digna apenas de leve disciplina? Vós então ignorais a atrocidade dos meus tormentos? Oh! Penitência imposta

sem caridade alguma!”. Dizendo isto, desapareceu. O pobre guardião que julgava ter sido muito indulgente impondo aquela penitência, sentiu arrepiar-se os cabelos de espanto e de pesar: quis então reparar tão grande erro à custa da própria vida. Porém, não podendo, tocou o sino do dormitório para reunir todos os frades no coro; contou-lhes com lágrimas o que tinha passado e ordenou que logo se começasse a reza da Prima. Isto contribuiu talvez para abreviar as penas do defunto, mas o pobre guardião guardou por toda a vida, impressa no coração, aquela cena horrível e confessava muitas vezes que até então havia tido ideia muito imperfeita das penas do Purgatório.

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Rossignoli em seu livro: “Maravilhas do Purgatório”, que escreveu por exortação do Beato Sebastião Valfré, conta que um santo religioso teve uma revelação de seu Anjo da Guarda que em breve morreria e haveria de

ficar no Purgatório até que fosse rezada uma

Missa em seu sufrágio. Alegrou-se ele a esta notícia e tratou logo de obter de um confrade

a formal promessa de lhe aplicar, logo que ele morresse, o Santo Sacrifício. Pouco tempo depois ele morreu, e, sendo manhã, o

sacerdote foi vestir logo os sacros paramentos

e celebrou com grande fervor e comoção de espírito aquela Missa.

Quando acabou, estando ainda na sacristia a despir-se das vestes sacras, apareceu-lhe o companheiro resplandecente de glória e queixou-se ao amigo de ter esquecido da promessa, pois tinha-o deixado mais de um ano no Purgatório. “Enganas-te respondeu o outro admirado que logo que expiraste fui para a igreja celebrar e acabei neste exato instante. Teu cadáver está ainda quente no leito de morte”. Então o defunto, como despertando de um sono profundo exclamou: “Ai, como são terríveis as penas do purgatório! Uma hora só dessas penas pareceu-me um ano! Bendito seja

Deus que tanto abreviou minha prova, e mil graças a ti, meu querido irmão, pelo interesse e caridade que me dispensaste. Eu subo agora para o Céu e rezarei a Deus para que lá nos una, como estivemos unidos na terra”.

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No atos de Santa Perpétua, escritos em sua maior parte pela própria santa quanto estava no cárcere e que é um esplêndido testemunho contra os protestantes em relação à crença no Purgatório do 3º século da Igreja. Lê-se que ela mesma viu ser atormentado no Purgatório o seu irmãozinho Dinócrates, morto na idade de sete anos por uma úlcera terrível que se estendeu por todo o corpo, e que ele aí ficou por muito tempo porque Perpétua tinha se esquecido de rezar por ele.

Consideremos o caso: é um menino de sete anos apenas, educado santamente, que já em vida fizera longa penitência com a úlcera que o

tornava objeto de horror aos que se aproximavam dele, contudo, é condenado a longo purgatório, até que a irmã reze por ele. Sofria atrozmente, pois apareceu em um lugar tenebrosos, abrasado de sede e com o rosto carcomido pela úlcera com que morrera. Perto dele estava uma fonte de água fresquíssima, porém com a bora mais alta do que a sua pessoa. O infeliz procurava chegar até lá com a sua boca para poder saciar a sua sede ardente que tanto lhe atormentava, mas inutilmente, pois a pequenez de sua estatura sempre o impedia.

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Santo Agostinho, vinte anos depois da morte de sua santa mãe, Mônica, escrevendo as Confissões, suplica aos leitores que rezem por ela, e ele mesmo dirige ao Céu uma prece bastante comovente, que arranca lágrimas. Depois de quatro lustros, o grande doutor ainda temia que sua santa mãe estivesse no Purgatório. Que lição para nós, que

esquecemos tão cedo os pobres finados e tão pouco receamos os rigores da Justiça divina!

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A pia condessa Matilde estava tão compenetrada de tais sentimentos, que, na morte de seu esposo, além das suas orações, mortificações e das abundantes esmolas aos pobres e aos mosteiros, mandou rezar por ele, um número extraordinário de Missas. –––––

Na vida do Beato Hugo, lê-se que um monge foi condenado ao Purgatório por cinquenta anos, e que, depois de quarenta, Deus permitiu-lhe aparecer para pedir sufrágios.

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No Maggiolo (Par. 1º. Dierum canicularum, coloq. 2º) lê-se que certa alma passeava e fazia grande estrépito em um castelo, gritando

dolorosamente porque lhe haviam tocado mil anos de terrível Purgatório.

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No início da Companhia de Jesus, no ano de 1597, é dito que um jovem, modelo de virtude, chamado Celso Finetti, a quem no transe da morte lhe aparecera a Santíssima Virgem lhe predizendo a hora de sua morte e de um irmão seu, que, todavia, seria condenado a quatro anos de Purgatório, e outro, de Santa Vida, a catorze. E, no entanto, na Companhia de Jesus, como em todas as ordens religiosas, costuma- se fazer inúmeros sufrágios, Missas, Comunhões, Terços, Ofícios e penitências.

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O Padre Rossignoli ainda nas “Maravilhas do Purgatório”, narra que um pintor, no tempo de sua mocidade, se deixou vencer pelo mau exemplo e, apertado vivamente por um ricaço,

pintou um quadro no qual havia alguma nudez. Mais tarde, arrependeu-se daquela obra que pode servir de escândalo às almas e começou a reparar o mal, executando unicamente imagens sacras, próprias para excitar a devoção. Sua última obra foi um grande quadro que ofereceu à igreja dos carmelitas para que os frades celebrassem Missas em sufrágio de sua alma quando Deus finalmente o chamasse ao eterno descanso. Pouco depois adormeceu placidamente osculando o crucifixo, com toda a confiança naquela misericórdia que benignamente perdoa, e foi sepultado na igreja dos mesmos Carmelitas. Todos tinham a grata certeza de que logo tivesse ido gozar a Eterna Glória, pois a sua vida nos últimos anos havia sido verdadeiramente edificante. Mas, outros são os juízos de Deus!

Alguns dias depois de ter fechado o sepulcro, tal pintor revestido de chamas, apareceu a um religioso que depois das Matinas continuava no coro. Assustado, o carmelita perguntou-lhe se

ele era o bom pintor morto a pouco tempo e como se achava naquelas chamas. O Infeliz, dando altos gemidos, disse que no tribunal de Deus, muitas almas escandalizadas por aquele quadro pintado na sua mocidade, tinham deposto contra ele e que Deus o tinha condenado a vários tormentos incomparáveis até que aquela pintura fosse destruída. Suplicava-lhe portanto, que fosse falar com o dono e o persuadisse a queimar logo o quadro, anunciando-lhe ao mesmo tempo que, em

dos artistas dos nossos dias que representam nudezas não somente nos quadros profanos, mas até nas igrejas? Dá-se por pretexto a arte. Mas a arte é feita para aperfeiçoar e enobrecer o homem, não para corrompê-lo e levá-lo para o mal com a excitação das paixões. Diz-se: Arte pela arte”. É uma expressão sem nenhum sentido. É como dizer: “Guerra pela guerra”, “Comer para comer”.

castigo de tê-lo constrangido a pintar aquela

A

arte é virtude e meio para nobilitar o homem

figura, Deus lhe arrancaria com prematura

e

não fim de si próprio, assim como se faz a

morte os seus dois filhos.

guerra para obter a paz e come-se para viver. A arte, portanto, deve respeitar o pudor e jamais

Deu-se pressa o religioso em obedecer. O rico com medo, queimou logo a tela, contudo, no breve espaço de um mês, um após o outro, seus queridos filhos morreram.

avilta-se a retratar nudez alguma. Certas pinturas e certas esculturas seriam permitidas somente no caso de estar ainda o homem no estado de inocência, sem a tentação da

Seja-me lícito agora fazer uma breve digressão. Se o pintor e o dono que ordenou a obra, foram tão severamente punidos, que há de ser

concupiscência; mas depois da queda, depois que Deus com Suas Mãos revestiu os nossos progenitores, não são mais toleráveis. Volte a arte, oh, sim! Volta à casta simplicidade dos

primeiros séculos, pelo rasto luminoso de Giotto, do Beato Angélico e de outros célebres pintores que souberam deleitar e ao mesmo tempo educar o coração sem oferecer-lhe a mínima ocasião de escândalo. Empenhemo-nos com todas as forças em banir da arte, qualquer que seja o seu gênero, o naturalismo e o paganismo.

A arte deve conduzir à virtude, estudando o verdadeiro e revestida dos esplendores do belo. Antes da renascença ela atingira realmente, com poucas exceções, o seu nobre escopo. A chamada Renascença não foi mais do que a introdução do paganismo nas letras e nas artes, chegando a ser a verdadeira decadência, degradação e embrutecimento da arte.

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Sabem todos a vida ímpia e escandalosa que levava Aretino, todavia, num movimento de bom censo escrevia a Michelangelo uma carta

bastante severa, a lhe exprobrar as nudezas da Capela Sistina.

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Salvator Rosa, que não tinha nenhum dedo de santo, vibrou sátiras mordazes contra os pintores que ousam desenhar anhos e santos meio nus nas igrejas.

Possa a minha voz encontrar um eco em todos os corações! Possa a minha pena tornar-se um estilete que fira em cheio a pornografia, causa de tanto escândalos e pecados! Amo a arte e desejo seus progressos, mas lanço anátemas sobre tudo aquilo que a corrompe. Amo as letras, a pintura, a escultura, a música, mas detesto o abuso de qualquer delas. Amo como Dante Alighieri a arte que se mostra descendente de Deus, a Dio quasi nepote, mas aborreço-a quando é transformada em familiar ou até mesmo filha de Satanás e instrumento de perversão.

CAPÍTULO IX

Purgatório severo dos religiosos Uma palavra mordaz O Sinal da Cruz mal feito Pequenas murmurações Pobre abade! - Expiação no coro Horrível leito de fogo Os fios de lã e as migalhas de pão

Todos os cristãos fieis têm de vigiar atentamente para evitar os pecados veniais, quer porque ofendem ao nosso Bom Deus, quer porque serão punidos severamente na outra vida. Mas esta vigilância há de ser muito maior nas pessoas consagradas a Deus na religião por meio dos votos. Elas fazem especial profissão de tender à santidade e recebem graças em maior número; mais severa será, portanto, as contas que deverão pagar.

As culpas veniais desagradam a Deus mais em

um religioso do que em um leigo que vive no meio dos escândalos e enganos do mundo. As infrações às regras, as pequenas murmurações contra os irmãos e os superiores, as violações mesmo que sejam de leve gravidade dos votos, especialmente a pobreza e as faltas de caridade, são punidas no Purgatório com um maior rigor.

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Dizia uma alma do Purgatório a uma pia religiosa da Bélgica: “Minha filha, vive como uma santa, porque o Purgatório reservado às religiosas é terrível!”.

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Santa Margarida Maria de Alacoque, estando a rezar por três pessoas mortes que haviam morrido recentemente, das quais duas eram religiosas e a terceira secular, apareceu-lhe Nosso Senhor e perguntou-lhe familiarmente:

Qual das três queres tu que eu liberte?- Senhor respondeu a santa dignai-Vos fazer Vós mesmo esta escolha, como for para a Vossa maior glória.” Então Nosso Senhor livrou o defunto secular, dizendo-lhe que lhe inspiravam menor compaixão os religiosos aos quais ele proporciona muitos meios para merecer o Paraíso e expiar seus pecados nesta vida com a perfeita observância de suas regras.

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À mesma Virgem (Santa Margarida Maria de Alacoque) apareceu uma religiosa da Visitação a pedir-lhe sufrágios, e deplorando a demasiada facilidade com que se tinha feito dispensar de certas regras e exercícios comuns.

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Certa vez, São Luís Bertrando, que tinha ficado no coro rezando após as matinas, apareceu-lhe

um religioso todo envolto em chamas, o qual, ajoelhado diante dele, suplicava-o que o perdoasse de uma palavra picante que dissera em vida contra ele há muitos anos. Por apenas aquela palavra ele tinha sido condenado ao Purgatório; implorava-lhe então, por caridade, uma Santa Missa, a qual havia de abrir-lhe as portas do Céu. O santo cuidou logo em satisfazer o desejo daquela alma, e na noite seguinte viu-o resplandecente e glorioso subir ao Céu.

Este fato nos recorda as palavras do Santo Evangelho: “Quem chamar de estúpido o seu irmão, será condenado ao fogo: reus erit gehenna ignis”.

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O Padre Nieremberg da Companhia de Jesus, era bastante devoto das Almas do Purgatório. Uma noite, no coro do colégio de Madri

enquanto rezava em sufrágio delas, viu aparecer-lhe um irmão que havia morrido recentemente e que tinha ensinado Teologia naquela escola. Ele tinha sido condenado ao Purgatório e era atormentando por penas atrozes porque alguma vez tinha falado do próximo sem a devida caridade. A sua língua era continuamente queimada por um ferro em

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Um religioso de nome Germano, abade de um mosteiro de São Bento, tivera no curso de sua vida, um único defeito: ser pouco amável para com o próximo. O seu zelo austero exigia de que cada um de seus religiosos se tornassem santos, e então acontecia que a sua severidade excessiva, antes de aproximá-las, afastava-as da perfeição as pobres almas.

brasas por tê-la usado mal. A devoção a Maria Santíssima tinha-lhe merecido a graça de aparecer ao Padre Nieremberg para que pudesse lhe impetrar sufrágios.

Morreu ainda jovem e foi condenado a um longo e triste Purgatório por causa de seu duro zelo. Feliz dele, por ainda ter Santa Lutgarda, sua penitente, que se deu a rezar, a disciplinar- se e a fazer infinitas mortificações para libertá- lo. Por muito tempo não foi possível fazê-lo sair

A

irmã

Francisca

de

Pamplona

viu

no

daquelas chamas, até que a heroica Santa,

Purgatório

um

pobre

padre

com úlceras

oferecendo-se a si mesma como vítima de

repugnantes em seus dedos porque tinha feito

expiação, o Divino Redentor comoveu-se e

o

Sinal

da

Cruz

com

distração

e

sem a

quebrou as cadeias do infeliz abade. Então

necessária gravidade.

 

apareceu-lhe radiante de luz à Santa Lutgarda e

 

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agradeceu a ela dizendo que sem as suas orações, ainda teria de sofrer no Purgatório por meses e anos.

Lendo este fato, lembremos das palavras daquele santo: “Antes das conta de indulgência excessiva que da excessiva severidade para com o próximo”. E na verdade, quem lê as vidas dos santos, verá como foram sempre severíssimos para consigo mesmos e cheios de misericórdia e bondade para com os outros.

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O Beato Estêvão, religioso franciscano, tendo o costume de passar todas as noites algumas horas diante do Santíssimo Sacramento, uma vez viu em uma cadeira do coro, um religioso com o rosto escondido pelo capuz. Surpreendido, aproximou-se dele e perguntou- lhe o que fazia ali àquela hora enquanto os outros frades estavam descansando. Então o encapuzado com uma voz lúgubre respondeu:

Eu sou um religioso morte neste mosteiro e condenado pela divina justiça a fazer aqui o meu purgatório, pelas imperfeições cometidas

na reza de meu ofício”. Então o beato rezou em sufrágio dele várias orações, pelas quais pareceu que aquela alma recebesse grande alívio.

Por muitas outras noites continuou a aparecer, até que uma vez, depois que o Beato Estêvão tinha rezado o De-profundis, deixou o seu assento com um grande suspiro de satisfação, significando que a sua prova já tinha sido terminada (Cron. Dos Frad. Min. Livro IV, cap.

30).

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Santa Margarida Maria de Alacoque narra a seguinte incrível aparição: “Uma vez, vi em sonho uma religiosa que já era morta há muito tempo, a qual me disse sofrer muito no Purgatório, mas que pouco tempo antes, Deus lhe havia dado uma pena incomparável: a vista de uma das suas parentas precipitada no Inferno. Depois destas palavras eu acordei, mas

tão aflita com tais dores, que me parecia ter-me aquela alma comunicado as suas, e sentia o corpo tão exausto de forças que mal podia mover-me. Porém, como não deve-se crer nos sonhos, não dava a isto uma grande importância, até que esta alma forçou-me a pensar no caso, apertando comigo tão fortemente que nem me deixava tomar descanso, dizendo-me continuamente: rogai por mim ao Senhor, oferecei-lhe os vossos sofrimentos juntamente com os de Jesus Cristo para aliviar os meus. Concedei-me os merecimentos de tudo o que fizerdes até a primeira sexta-feira de Maio, em que comungareis por mim”, e continua a santa então eu fiz isso com a licença de minha superiora. Mas o meu vexame foi crescendo sempre de tal forma que me oprimia continuamente, sem poder eu nunca ter lenitivo.

A superiora por isso mandou-me descansar por

alguma tempo em meu leito. Mas, logo que fui,

vi a infeliz perto de mim, que me disse: Eis aí

vós, confortável em seu leito, olha para mim, deita em um leito de fogo, onde sofro tormentos insuportáveis”. E me fazia ver esse leito horrível, que ainda me faz tremer toda vez que penso nele. A parte superior era formada de agudos espinhos, todos em brasa, que lhe penetravam as carnes, enquanto me dizia que isto era por causa da sua preguiça e negligência na observância das regras e pelas suas infidelidades para com Deus. Rasgam-me o meu coração com espetos de ferro ardente, esta é a minha dor mais atroz, em castigo dos pensamentos de murmuração e de dissipação que tive contra os meus superiores. Minha língua é roída por vermes em punição das minhas palavras contra a caridade e pelas faltas na observância do silêncio: eia, vê, minha boca toda coberta de úlceras. Ah! Quisera, sim, que todas as almas consagradas a Deus me vissem nestes horríveis tormentos! Se pudesse lhes fazer experimentar a intensidade de minha penas e as que estão preparadas para os que vivem negligentemente na própria vocação, sem dúvida eles andariam

de outro modo: na exata observância de suas regras e cuidariam bem em não cair nos defeitos que me fazem sofrer tanto”.

Diz Santa Margarida Maria Alacoque: “Tudo isto me excitava aos prantos, e as irmãs julgando- me doente, queriam dar-me remédios, mas aquela alma disse-me: Pensam bem em aliviar os teus males, mas ninguém pensa em aliviar os meus. Ai! E no entanto, só um dia de silêncio perfeito de toda a comunidade curaria minha boca ulcerada. Outro dia passado nas práticas de caridade e sem nenhuma falta, curaria minha língua atormentada. Um terceiro dia passado sem a mínima murmuração curaria meu coração torturado”.

Depois de ter recebido a Sagrada Comunhão que ela me tinha pedido, me disse que seus incomparáveis tormentos diminuíram muito, porque tinha-lhe sido aplicada também uma Missa em honra da Paixão, mas que devia ainda ficar por muito tempo no Purgatório para sofrer

as penas devidas às almas negligentes no serviço de Deus.

Esta narração nos faz tremer. Que horríveis tormentos não sofreu aquela alma por defeitos veniais! As orações, as mortificações, as Comunhões seráficas de uma santa inocente e tão querida por Deus, não valeram plenamente para livrar aquela alma, e ainda ficou presa por muito tempo no Purgatório! Que será de nós, que somos tão imperfeitos, tão indiferentes e tão apegados à terra?

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Padre espiritual da mesma Santa, o Padre De

Colombiere, foi detido no purgatório até o

enterro de seu corpo, só por algumas negligências no exercício do amor divino.

O

la

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Todos sabem quão grande foi o fervor das

primeiras companheiras de Santa Teresa de Ávila, daquelas almas eleitas que ela associara a si na reforma do Carmelo. Contudo, além da sua santidade, além de suas heroicas penitências, quase todas tiveram de experimentar as penas do Purgatório.

Ainda mais, nas numerosas visões que teve a Santa de Ávila sobre a sorte futura das almas, viu apenas três delas voarem logo ao Paraíso. Observarei simplesmente diz a santa que de tantas almas eleitas, por mim conhecidas em vida, vi somente três voarem diretamente ao Céu sem passarem pelo Purgatório: a do religioso a quem falei no decurso deste livro, a do Padre Pedro de Alcântara (São Pedro de Alcântara) e a do Padre Dominicano que era o seu confessor, o Padre Pedro Ibanez”.

Note-se que no tempo de Santa Teresa de

excelente que dela fez o Padre Camilo Mella da Companhia de Jesus.

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As faltas cometidas contra o voto de pobreza serão gravemente punidas no Purgatório. Já citamos o exemplo do frade capuchinho que passou pelo Purgatório apenas por ter utilizado um pouco de lenha a mais em seu ofício de cozinheiro.

Santa Gertrudes viu o Demônio apanhar com suma presteza e alegria os fios de lã que, no ato de fiar, ela deixava cair, e compreendeu que aqueles flocos teria sido apresentados no Tribunal de Deus como faltas contra a santa pobreza que deveriam ser expiadas no Purgatório.

Ávila,

muitas

pessoas

viviam

de

forma

tão

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ilustre

que

eram

tidas

como

santas,

como

pode-se

ver

na

sua

vida

e

no

comentário

Refere

Santo

Afonso

de

Ligório,

que

um

religioso tinha o costume de atirar no chão as migalhas de pão que ficavam sobre a mesa. Prestes a morrer, viu em feia catadura o espírito maligno que reunira todas aquelas migalhas em um saco e lhes mostrava com ironia como se lhe dissesse: “Em breve iremos nos ver no Tribunal de Deus; estas migalhas converter-se- ão em outros tantos tições para te queimarem no Purgatório”. Este fato suscitou no convento uma santa vontade de observar o voto de pobreza. Os monges revistaram bem cada canto da cela a fim de examinar se tinham alguma coisa supérflua para que fosse entregue ao superior.

Não nos admira o rigor que Deus usa com os religiosos. São-lhes concedidas graças muito mais abundantes do que aos seculares, e eles têm o direito de pedirem mais! Cumpre recordar a parábola dos talentos, nos quais são figurados os dons e os auxílios que Deus concede a cada alma para que possam trabalhar em sua eterna salvação.

As almas mesmas, embora julgadas com severidade, repetem continuamente em meio àquelas chamas: “Justus es, domine, et rectum iudicium tuum; Justo és, ó Senhor, e retos são teus juízos”.

Os seculares que lerem estas páginas, não concebam a mínima desconfiança na Bondade

e Misericórdia Divina. Pensem por um lado, o

pecado, embora venial, é sempre ofensa a uma Majestade Infinita, e pelo outro, aqueles castigos, mesmo que rigorosos, são temporários e não eternos, e que a glória do Paraíso é um bem tão grande que nunca se faz

o bastante para alcançá-lo.

Deus é sempre aquele Pai que recebe o filho pródigo, que aceita o arrependimento da Maria Madanela e do Bom Ladrão e lhes concede tal abundância de graças que os eleva às mais sublimes alturas da santidade.

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Li no Santo Sacramento do Faber, em uma nota, que São João Crisóstomo julga que Caim tenha feito penitência e tenha se salvado. Tal opinião rende homenagem à misericórdia de Deus, dando-me muito prazer, porque é um novo estímulo para os pecadores, ainda que os mais obstinados, a voltarem para o reto caminho.

Os santos Agostinho, Maria Egipcíaca, Taís, Pelágia, Margarida de Cortona e outros, estavam entregues a todo o vício, e assim mesmo receberam do bom Deus o perdão e os auxílios extraordinários para se tornarem grandes santos. Jesus Cristo é sempre aquele Bom Pastor que vai em procura nos montes, vales e barrancos pelas ovelhas perdidas para poder reconduzi-las ao rebanho. Maria Santíssima é sempre a Mãe piedosa dos pecadores, a Saúde dos Enfermos da alma e do corpo, o refúgio dos aflitos e dos que são tentados.

Deixem portanto de lado a desconfiança, concebam pelo contrário horror ao pecado e estejam certos de que o Senhor os tratará com imensa bondade, compadecendo-se da fraqueza e fragilidade da natureza. Quando uma alma se decide verdadeiramente a amá-lo e evitar as ofensas contra Ele, ganha-Lhe o Coração e Dele consegue todos os favores que desejar.

CAPÍTULO X

Pecados veniais mais frequentes A mentira A murmuração A apostólica firmeza de Santo Agostinho A tuberculose da alma

Um dos pecados veniais em que se cai de ordinário muitas vezes, é a mentira. Para evitarmos uma repreensão; para sermos julgados inocentes; para salvarmos nossa honra; para satisfazermos o nosso amor próprio, negamos a verdade ou a diminuímos. No entanto, não é lícito mentir por nenhuma coisa do mundo, embora se trate até de salvar a própria vida ou fazer o bem ao próximo ou livrá-lo de uma desgraça. A palavra nos foi dada para exprimir o pensamento e o sentimento da alma, não para negá-lo. Santo Agostinho escreveu um tratado que era expressamente voltado a afastar os cristãos da

mentira. Deus, que é a própria Verdade, odeia este defeito e pune-o severamente. Os bilingue detestor (Prov. VIII, 13), e nos aconselha: “Ante omnia opera verbum verum precedat te: antes de cada coisa te proceda a palavra de verdade (Ecl. XXXVII, 20).

Entre as sete coisas que Deus abomina, está a linguam mendacem, a língua mentirosa. Jesus Cristo nos deu a regra de como falar: “sit autem sermo vester: est, est; non, non (Mt. V, 37) . “ O vosso falar seja: sim, sim, não, não”, isto é, que seja sincero, simples, sem simulação, ficção ou ampliações.

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Santo André Avelino exercia no mundo a profissão de advogado, e, uma vez, defendendo uma causa, saiu-lhe da boca uma mentira. Entrando em si, concebeu por ela tanta dor, que abandonou o foro, consagrou-se

a Deus e tornou-se um grande santo,

favorecido por muitos dons sobrenaturais. A mesma dor deveríamos conceber a nós mesmos e detestar este defeito que

cometemos com tanta facilidade. Façamos do nosso, o santo proposito de Jó: “Donec superest

nec língua mea meditabitur

halitus in me

mendacium (Jó, XXVII, 3, 4): Enquanto me restar um alento, minha língua não inventará mentiras”.

Falando às almas devotas que aborrecem as mentiras patentes, quisera lhes fazer notar um modo de pecar contra a verdade: o de contar as coisas exagerando-as, para desafiar a admiração. A verdade é uma e indivisível, não

admite aumento nem diminuição; e, assim, tudo o que a ela ajuntarmos é falsidade e erro.

No Purgatório as mentiras serão punidas muito

severamente. Quantas almas têm aparecido com a língua cruelmente atormentada por terem mentido! Quando eu era menino, ouvi muitas vezes me dizerem: “Não digas mentiras,

porque cada uma te custará sete anos de Purgatório”. Ninguém pode saber o castigo que Deus nos inflige, porque é variável segundo a gravidade da culpa e a maldade de quem a comete, porém, podemos afirmar que a Eterna Verdade a odeia e fará pagar aqueles que a comete. Por isso, muito santos preferiram a morte a uma mentira, ainda que pequena.

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Também nesta vida Deus puniu muitas vezes severamente a mentira. O criado de Eliseu, Jesi, foi castigado com a lepra quando negou ter recebido dons de Naaman Sírio.

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Ananias e Safira caíram mortos no mesmo instante por uma mentira dita ao Príncipe dos Apóstolos.

Outro defeito no qual também se cai bastante,

é a murmuração contra os superiores. Não falo da murmuração grave, a que detrai a fama alheia e destrói a honra, que é mais preciosa que as riquezas; mas dessas pequenas desaprovações, destas palavras de censura que não honram os ausentes. Quem quer avançar no caminho da perfeição deve guardar-se absolutamente de qualquer palavra que ofenda, ainda que levemente, a caridade para com os nossos irmãos. Nem digamos que as coisas contadas são verídicas, porque a murmuração consiste propriamente no manifestar coisas verídicas, algo que realmente aconteceu; se as coisas fossem falsas não seriam mais murmuração, mas calúnia. Do próximo, ou falar bem ou calar-se. “Não julgueis diz Nosso Senhor Jesus Cristo no Santo Evangelho e não sereis julgados”. Só a Deus compete pronunciar juízo, a Deus que penetra o coração e lhe descobre as secretas intenções, e não ao homem que não vê senão a ação externa. Os santos costumam evitar a todo o custo, qualquer ofensa à fama alheia e, ouvindo

injúrias, saíam resolutos a defender o próximo.

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Santo Agostinho fizera escrever em sua sala de jantar os seguintes versos: “Quisquis amat dictis absentibus rodere vitam, Hanc mensam indignan noverit esse sibiQuem gosta de falar mal dos ausentes, saiba que não pode sentar-se a esta mesa”. E quando certa vez, um convidado se pôs a murmurar, o santo bispo lhe apontou o escrito e este logo tapou a boca.

O Purgatório dos murmuradores é longo e terrível, segundo o que consta as aparições. Seis são as coisas diz o sábio que o Senhor tem ódio, e a sétima é, para a alma dele, uma execração. E qual é esta sétima que Ele odeia mais que todas? Quem entre os irmãos semeia discórdias (Prov. VI, 16, 19)”.

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Por isso os pune severamente nesta vida como puniu Maria, irmã de Moisés, que se tornou leprosa por uma murmuração contra o irmão, e aos Israelitas no deserto, quando murmuraram contra o seu condutor, ou então os espera no Purgatório ou no Inferno, segundo a gravidade.

As almas religiosas portanto, deverão ser escrupulosas na caridade para com o próximo, assim como na castidade e guardar-se bem de ofendê-la nem de leve, porque é um espelho que se empana ao menor sopro; é uma água límpida que em um momento se turva.

Há também um estado habitual de pecado venial, um estado em que as culpas veniais sucedem-se continuadamente; é o estado da tibieza. Uma alma tíbia no serviço divino, comete talvez mais pecados do que os instantes de sua vida. Distrações voluntárias na oração, tédio nos exercícios de piedade, queixas contra os Superiores, murmurações

contra o próximo, frouxidão no cumprimento de seus deveres, gulodices e impaciências são culpas de toda a hora. É assim um alma vitimada pela tuberculose que a consome, e cedo leva-la-á à tumba do pecado mortal. Tal conduta causa náuseas e Deus diz a esta alma desgraçada: “Scio opera tua; quia neque frigidus es neque calidus. Utinam frigidus esses aut calidus. Sed quia tepidus es et nec frigidus nec calidus, incipiam te evomere ex ore meo (Ap. III, 16)”. “Conheço as tuas obras e que não és frio nem és quente: mas porque és tibio, e nem frio e nem quente, eu começarei a te vomitar da minha boca”.

Daqui os santos padres deduzem o perigo de se condenar eternamente uma alma tíbia, e procuram por todos os meios agitá-la e fazê-la sair do leito das suas culpas habituais, no qual descansa tranquilamente. Se nos encontrarmos neste estado miserável, procuremos sair dele o mais breve possível se nos é cara a salvação de nossa alma, antes que Deus nos puna.

CAPÍTULO XI

Pecados veniais deliberados Imperfeições da natureza humana Palavras memoráveis de Santa Teresa e do Santo Cura D'Ars Duas nobres aspirações

Temos agora que responder a uma pergunta:

Pode o homem evitar todas as culpas veniais?

Distinguamos duas espécies de culpas: os pecados veniais deliberados, cometidos de olhos abertos, com vontade e conhecimento da malícia e as imperfeições ou fragilidades inerentes à natureza humana. Os primeiros podem-se evitar com a graça de Deus. Muitas também fazem votos de acordo com o seu diretor espiritual de não cometer pecado venial nenhum plenamente voluntário, ou então de não cometer pecado venial

deliberado de um gênero particular, para o qual sejam inclinados, como por exemplo, contra a caridade ou contra a temperança, etc.

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Santa Teresa de Ávila fez o voto de obrar sempre o melhor, o mais perfeito, e neste voto está evidentemente incluída a fuga das culpas veniais.

Observemos, porém, que antes de emitir tais promessas deve-se consultar sempre o confessor que nos conhece bem a fundo, porque é muito fácil deixar-nos levar por um fervor momentâneo e assim errar.

As fragilidades próprias da fraqueza humana são inevitáveis sem uma graça especialíssima de Deus, a qual foi concedida à incomparável Rainha dos Anjos Maria Santíssima: “Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te”:

Toda bela és tu, minha dileta, e mancha

alguma na há em ti(Cant. IV, 7).

Até os santos mais insignes da Igreja não foram isentos delas. Nessa qualidade de culpas, diz São Bernardo, tanto é culpável o descuido, como é repreensível o temor excessivo: “In hujus modi, quasi inevitabilibus (culpis), et negligentia culpabilis est et timor immoderatus”. Portanto, devemos detestar semelhantes defeitos, porém, não perder a coragem, pois Deus facilmente os perdoa quando a alma os abomina: “Septies cadet justus et resurget (Prov. XXIV, 16). Sete vezes cairá e o justo se levantará.

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São Francisco de Sales diz que os defeitos cotidianos, assim como irrefletidamente, assim também irrefletidamente se apagam com o Sinal da Cruz, com os exercícios de piedade, com os atos de amor a Deus e com os usos dos Sacramentos da Igreja.

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São célebres algumas palavras de Santa Teresa de Ávila: “Prouvera a Deus que tivéssemos medo, não do demônio, mas de todo o pecado venial, que pode prejudicar-nos mais do que todos os demônios do Inferno”. E repetia continuamente às suas queridas filhas espirituais: “De pecado advertido, por pequeno que seja, Deus nos livre”.

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O Santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, entrando às escuras em seu quarto para acender um candeeiro, queimou por engano uma cédula de grande valor que um cavalheiro lhe tinha oferecido para os pobres. Tendo conta isto a um sacerdote que era seu coadjutor nos trabalhos do sagrado ministério, este, aflito exclamou: “Que desgraça!” e então o santo respondeu tranquilamente: “Oh! É desgraça

inferior a um pecado venial”.

O mesmo deveríamos dizer quando nos acontece alguma desgraça temporal. Sofremos uma humilhação ou um revez de fortuna? É um mal menor que um pecado venial. Somos visitados por alguma doença ou feridos pela perda de algum parente ou amigo? É uma desgraça inferior a um pecado venial. Se tivessem pecado venialmente, deveriam chorar muito mais, porque teria ofendido à Eterna Majestade de Deus.

Devemos acostumar-nos desta forma a confrontar os males psíquicos e as desgraças temporais com o mal moral, isto é, com o pecado, e chegaremos a conceber um justo horror por este último, que é o verdadeiro, único e sumo mal que existe no mundo.

Pelo contrário, a graça de Deus é o maior bem que o homem pode possuir; um bem superior à fama, às riquezas e à própria vida. Por isso, as

duas mais nobres aspirações do homem hão de ser: Fugir do pecado e crescer cada dia mais na graça de Deus, à semelhança do sol, que em sua carreira se apressa para o meridiano.

Justorum semita, quasi lux splendens, crescit et procedit usque ad perfectum diem