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Dez Motivos pelos quais Pastores

Conservadores Costumam ter


Igrejas Minúsculas - O Tempora, O
Mores

: http://tempora-mores.blogspot.pt/2007/08/dez-motivos-pelos-quais-pastores.html
Sei que há exceções, mas elas não são muitas. A regra é que, aqui no Brasil, pastores e pregadores
mais conservadores e reformados pastoreiam igrejas pequenas, entre 80 a 150 membros. Esse fato é
notório e não poucas vezes tem sido usado como crítica contra a doutrina reformada. Se ela é
bíblica, boa e correta, porque os seus defensores não conseguem convencer as pessoas disso? Por
que suas igrejas são pouco freqüentadas, não têm envolvimento missionário, não evangelizam, não
crescem e têm poucos jovens?
Como eu disse, há exceções. Conheço igrejas reformadas que são dinâmicas, crescentes, grandes,
evangelizadoras e missionárias. Conheço também outras menores, que crescem não pelo aumento
do número de membros na sede, mas pela plantação de outras igrejas. Quando eu digo "igrejas
minúsculas" refiro-me não somente ao tamanho, mas à visão, ao envolvimento na evangelização e
missões e à diferença que fazem. Tenho em mente as igrejas que se arrastam na rotina de seus
trabalhos, ensaios e cultos há dezenas de anos, sempre do mesmo tamanho diminuto, sem que gente
nova chegue para fazer a diferença.
Consciente de que há igrejas reformadas grandes e crescentes, mas também consciente das muitas
pequenas que não crescem faz muito tempo, em nenhum sentido, eu faria os seguintes comentários
nesse post, que bem poderia ser intitulado de "Navalha na Carne":
Infelizmente, ao rejeitar a idéia de que em termos de crescimento de igrejas os números não dizem
tudo, muitos de nós, reformados, nos esquecemos de que eles, todavia, dizem alguma coisa.
Podemos aceitar que está tudo bem e tudo certo com uma igreja local que cresceu apenas 1% nos
últimos anos, crescimento em muito inferior ao crescimento da população brasileira e do
crescimento de outras igrejas evangélicas? Especialmente em se tratando de uma igreja em um país
onde os evangélicos não são perseguidos pelo Estado e as oportunidades estão escancaradas diante
de nós?
Igualmente infeliz é a postura de justificar o tamanho minúsculo com o argumento da soberania de
Deus. É evidente que, como reformado, creio que é Deus quem dá o crescimento. Creio, também,
que antes de colocar a culpa em Deus, nós, pastores reformados, deveríamos fazer algumas
perguntas básicas: nossa igreja está bem localizada? O culto é acolhedor e convidativo? A igreja tem
desenvolvido esforços consistentes e freqüentes para ganhar novos membros? A pregação tem como
objetivo direto converter pecadores? A pregação é inteligível para algum descrente que por acaso
esteja ali? Os membros da igreja estão possuídos de espírito evangelístico? Existe oração na igreja
em favor da conversão de pecadores e crescimento do número de membros? Creio que muitos
pastores reformados colocam cedo demais a responsabilidade do tamanho de suas igrejas em Deus,
antes de fazer o dever de casa.
É triste perceber que, em muitos casos, a soberania de Deus é usada como desculpa para não se
fazer absolutamente nada em termos de esforço consciente para ganhar pessoas para Cristo. Que
motivos Deus teria para querer que as igrejas reformadas fossem pequenas e que os anos se passem
sem que novos membros sejam adicionados pelo batismo? Que motivos secretos levariam o Deus
que nos mandou pregar o Evangelho a todo o mundo impedir que as igrejas locais reformadas
cresçam em um país livre, onde a pregação é feita em todo lugar e onde outras igrejas evangélicas
estão crescendo vertiginosamente? Penso que o problema da naniquice não está em Deus, mas em
nós. Ai de nós, porque além de não crescermos, ainda culpamos a Deus por isso!
É verdade que muitas igrejas evangélicas crescem usando estratégias e metodologias questionáveis.
Especialmente aquelas da teologia da prosperidade, que atraem as pessoas com promessas de
bênçãos materiais e curas que não podem cumprir. Todavia, criticar o tamanho dessas igrejas e
apontar seus erros teológicos e metodológicos não nos justifica por termos igrejas minúsculas. O
que nos impede de termos igrejas grandes usando os métodos certos?
O problema com muitos de nós, pastores conservadores e reformados, é que não estamos abertos
para mudanças e adaptações, nos cultos, nas atitudes e posturas, por menores que sejam, que
poderiam dar uma cara mais simpática à igreja. Ser simpático, acolhedor, convidativo, atraente,
interessante não é pecado e nem vai contra as confissões reformadas e a tradição puritana. Igrejas
sisudas com cultos enfadonhos nunca foram o ideal reformado de igreja. Pastores reformados
deveriam estar pensando em como fazer sua igreja crescer, em vez de se resignarem e
racionalizarem em suas mentes que ter uma igreja pequena é OK.
Os crentes fiéis que estão nas igrejas já por muitos e muitos anos também precisam de alimento e
pastoreio. Que Deus me livre de desprezá-los. Sei que Deus pode chamar alguém para o ministério
de consolar e confortar crentes antigos durante anos a fio, igreja pequena após igreja pequena. Mas
vejo essa vocação como apenas uma pequena parte do ministério pastoral, quase uma exceção. O
que me assusta é ver que essa exceção tem se tornado praticamente a regra no arraial conservador e
reformado. Será que Deus predestinou as igrejas conservadoras e reformadas para serem
doutrinariamente corretas mas minúsculas, e as outras para crescerem apesar da teologia e
metodologia erradas? Será que ele não tem vocacionado os conservadores para serem ganhadores
de almas, evangelistas, plantadores de igrejas e expansores do Reino? Será que a vocação padrão do
pastor conservador é de ministrar a igrejas minúsculas ano após ano, sem nunca conhecer períodos
de refrigério e grande crescimento no número de membros? Será que quando um pastor, que era um
evangelista ardente, se torna reformado, sempre vai virar teólogo e professor?
O que mais me assusta é que tem pastores reformados que se orgulham de ter igrejas nanicas!
"Muitos são chamados e poucos escolhidos", recitam com satisfação. Orgulham-se de serem do
movimento do "esvaziamento bíblico", em vez do "avivamento bíblico"! Dizem: "os verdadeiros
crentes são poucos. Prefiro uma igreja pequena de qualidade do que uma enorme cheia de gente
interesseira e superficial". Bom, se eu tivesse que escolher entre as duas coisas talvez preferisse a
pequena mesmo. Mas, por que tem que ser uma escolha? Não podemos ter igrejas reformadas
cheias de gente que está ali pelos motivos certos? Eu sei que a qualidade sempre diminui a
quantidade, mas será que tanto assim?
Nós, pastores reformados em geral, temos a tendência de considerar a sã doutrina o foco mais
importante da vida da Igreja. Portanto, muitos de nós passam seu ministério inteiro doutrinando e
redoutrinando seu povo nos pontos fundamentais da doutrina cristã reformada. Pouca atenção dão
para outros pontos igualmente importantes: espiritualidade bíblica, vida de oração, evangelismo
consciente e determinado e planejado. Acho que uma coisa não exclui a outra. Aliás, creio que a
doutrinação bíblica sempre será evangelística, e que o evangelismo bíblico é sempre doutrinário.
"Pregação", disse Spurgeon, "é teologia saindo de lábios quentes".
Alguns pastores reformados ficam tão presos pela doutrina da depravação total que não sabem mais
como convidar pecadores a crerem em Jesus Cristo. Temos medo de parecer arminianos se ao final
da mensagem convidarmos os pecadores a receberem a Cristo pela fé, ou mesmo se, durante a
pregação, pressionarmos as pessoas a tomarem uma decisão. O fantasma de Finney, o presbiteriano
criador do sistema de apelos, assombra e atormenta os pregadores reformados, que chegam ao final
da mensagem e não sabem como aplicá-la aos pecadores presentes sem parecer que estão fazendo
apelação. Ficam com receio de parecerem pentecostais se durante a pregação falarem de forma mais
coloquial, falar de forma direta às pessoas, se emocionarem ou ficarem fervorosos, ou mesmo se
gesticularem demais e andarem no púlpito. Acho que se os pregadores reformados parecessem mais
humanos e naturais, mais à vontade nos púlpitos, despertariam maior interesse das pessoas.
Creio, por fim, que ao reagirem contra os excessos do pentecostalismo quanto ao Espírito Santo,
muitos reformados ficaram com receio de orar demais, se emocionar demais, jejuar, fazer noites de
vigília, pregar nas praças e ruas e de pedirem a Deus que conceda um grande avivamento espiritual
em suas igrejas. Só tem uma coisa da qual os reformados têm mais medo do que parecer
arminianos, que é parecer pentecostais. Aí, jogamos fora não somente a água suja da banheira, mas
menino e tudo! Acho que se houvesse mais oração e clamor a Deus por um legítimo despertamento
espiritual, veríamos a diferença.
Pedi a alguns amigos meus, reformados, que criticassem esse post, antes de publicá-lo. Um deles
me escreveu:
"Gostei mesmo. Me irrita o espírito de 'seita sitiada' tão comum em nosso meio [reformado]; a idéia
de que a vocação da igreja é defender uma fortaleza. Somos rápidos para criticar, mas tão tardos em
propor alternativas".
Acho que ele resumiu muito bem o ponto.
Não tenho respostas prontas nem soluções elaboradas para o nanismo eclesiástico. Todavia, creio
que passa por um genuíno quebrantamento espiritual entre os pastores, que nos humilhe diante de
Deus, nos leve a sondar nossa vida e ministério, a renovar nossos compromissos pastorais, a buscar
a plenitude do Espírito Santo e a buscar a Sua glória acima de tudo.