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AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE CARVALHOS

Escola Solid ária

A felicidade
ENRIQUE ROJAS – professor catedrático de Psiquiatria e Psicologia Médica, humanista e um dos
psiquiatras mais conceituados de Espanha.

“Acredito muito na cultura do esforço que coloca a vontade em primeiro lugar. Desta
maneira, é mais fácil, para qualquer um, tornar os seus sonhos realidade.
A felicidade é um resultado. É a soma e o compêndio de uma vida autêntica, em que alguém
soube perdoar as suas próprias falhas e debilidades. Vou dar-lhe uma cascata de definições da
felicidade. Dependendo da ótica de quem a contempla, existem momentos felizes: sonhos
felizes, natais felizes, fins de semana felizes. Também podemos falar de um ponto de vista
temporal: a felicidade como um sofrimento superado ou como um saber parar o relógio para
saborear o presente. Vou dizê-lo de forma categórica: felicidade é fazer algo com a própria vida
que valha a pena. Torná-la uma pequena obra de arte, cada qual dentro das suas possibilidades.
É sonhar. Porque se ressente então a dada altura das nossas vidas, quase como se fosse uma
inevitabilidade?
Os seres humanos têm um diálogo interno consigo mesmos, é natural. Mas se o diálogo for
negativo e resultar numa paralisação da nossa atividade, estamos condenados a sofrer de baixa
autoestima, o que terá como consequência um resíduo de insegurança e de dúvidas face a
qualquer desafio que nos surja pela frente. Um dos erros mais frequentes que cometemos é
compararmo-nos com os demais, porque aí contrapomos superfícies, não profundidades. E
desse caminho resulta a inveja, que não é mais do que tristeza com a satisfação alheia. Repito:
a felicidade é estarmos contentes connosco, cientes de que fizemos o maior bem possível e o
menor mal consciente. E como conseguimos conciliá-la com um mundo em que trabalhar
demasiado nunca é suficiente? Sobretudo se no final não sobra tempo para desfrutá-la...
Nunca se pode dar mais importância à vida profissional do que à vida familiar, social ou
sentimental. Quando alguém trabalha mais do que as horas que lhe são atribuídas, quando leva
o stress para casa, acabará por pagar com deterioração da vida pessoal e da própria saúde
mental e física. O primeiro passo para mudar algo que não está bem é pegar em papel e lápis,
apontar dois ou três objetivos que possamos medir e depois fazer por alcançá-los. Acredito
muito na cultura do esforço que coloca a vontade em primeiro lugar. Desta maneira, é mais fácil,
para qualquer um, tornar os seus sonhos realidade. O que devem os pais fazer para ensinarem
os filhos a viver bem as suas vidas?
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE CARVALHOS

Escola Solid ária

Dado que a infância é a etapa da vida em que se semeia o potencial do ser humano, a futura
autoestima das crianças depende da forma como os pais as encaminham nesta fase formativa.
Sugiro que comecem eles mesmos por dar o exemplo e lhes incutam o conceito de se trabalhar
para conseguir algo – o êxito fácil não existe. Meçam bem todas as palavras – uma crítica infeliz
pode diminuir a confiança – e mostrem abertamente que as amam com beijos e carinhos.
Estabeleçam ainda pequenos objetivos, passo a passo, e não as comparem com outras crianças,
um mau hábito que está por trás de muitos complexos, invejas e frustrações. A terceira idade
também ganhou uma cronologia complexa desde que a esperança média de vida cresceu no
Ocidente. Quando é que uma pessoa é, de facto, velha?
A velhice não depende da idade, mas das ilusões por cumprir – pode dizer-se que existe
uma velhice biológica e uma psicológica. Uma pessoa é velha quando começa a olhar mais para
trás do que para a frente, quando se concentra mais nos factos passados do que nos projetos
futuros. Isso é velhice: uma pessoa já ter dificuldade em ver para a frente. Daí ser fundamental
que o final da vida nos apanhe com projetos e ilusões, apesar de o corpo responder cada vez
menos. Fazer planos quando chegam as férias. Praticar exercício, conviver, aproveitar bem a
vida. E sermos capazes de perdoar, a nós mesmos e aos outros, os erros que possamos ter
cometido no caminho. Hoje em dia existem avós muito jovens. Como se enfrenta a expetativa
da morte sem perder o otimismo?
A espiritualidade é um alimento essencial para momentos de confusão, doença ou perda.
Ninguém sabe o que vai encontrar no fim, de modo que as pessoas que cultivam a fé estarão
mais preparadas para essa etapa da vida, com o seu fundo dramático. O budismo, por exemplo,
fala da morte como repouso. Enquanto estivermos cá, digo aos meus pacientes: «Aproveita o
dia, dedica o teu tempo aos netos. Desfruta.» Ser feliz é possuir aquilo que desejamos, sem
desejar demasiado nem confundir as expetativas.”