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A situação anterior

Husserl: a questão de Deus é deixada de lado na fenomenologia, pois Deus está por
definição para além da fenomenalidade.

Heidegger: contra a noção tradicional de Deus no ocidente, pois Ele nem pode ser um
ente (erro ontoteológico), sob a pena de não ser uma explicação última, nem o ser, o
horizonte no qual aparecem os entes, já que seria então semelhante ao nada. No entanto,
apropriação da teologia, em especial de Agostinho, em sua filosofia.

Discípulos de Husserl que trataram de questões religiosas e espirituais: Edith Stein (Ser
finito e ser eterno), Max Scheler (O eterno no homem), Dietrich von Hildebrand.

Também autores posteriores: o existencialismo cristão de Gabriel Marcel, a antropologia


personalista de Karol Wojtyla.

Contudo, a descendência mais notória da fenomenologia, o existencialismo francês, é


ateu: Sartre, Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir.

A partir dos anos 60, com a decadência da filosofia católica após o Concílio, uma filosofia
predominantemente atéia na França, contra a metafísica, a tradição e o poder: Foucault,
Deleuze, Derrida, etc.

Segundo Emmanuel Falque, torna-se algo de bom tom evitar a teologia, em nome da
laicité.

Precursores
A teologia nunca saiu completamente de cena, em suas relações com a filosofia, na
França.

Em Emmanuel Levinas (1906-1995), um judeu, influência talmúdica. O infinito e a


transcendência voltam à fenomenologia na análise da experiência do outro, na qual está
em jogo muito mais do que o que nos aparece.

Deus não pode ser pensado, nem a reflexão sobre ele pode se fazer a partir das categorias
do ser, mas podemos refletir filosoficamente sobre ele a partir da ética, que torna-se assim
a filosofia primeira.

Paul Ricoeur (1913-2005), um protestante, e seus estudos de hermenêutica bíblica,


determinantes para a virada hermenêutica da teologia a partir dos anos 70, após anos de
predominância da crítica bíblica.

A fé como experiência de absoluta dependência e confiança incondicional, que não se


deixa reduzir a nenhuma palavra. No entanto, articulada em uma linguagem e, assim,
mediada pelas Escrituras. A Bíblia como um espelho para o eu que, respondendo à sua
solicitação, é refigurado por ela.

Apropriação da teologia
Segundo Emmanuel Falque, parecia não ser de bom tom, durante algum tempo, falar de
teologia nos ambientes seculares da universidade, em nome da laicité. No entanto, o é
interdito é também um convite à sua transgressão. Assim, temas religiosos passaram a
servir de inspiração para filósofos não religiosos.
No âmbito da desconstrução:

- Derrida (1930-2005) e a teologia negativa.


- Jean-Luc Nancy, 1940, e sua desconstrução do cristianismo, no qual por meio dela ele
encontra seu núcleo fundamental, a experiência da alteridade.

No âmbito marxista, reflexão sobre S. Paulo em Alain Badiou (1937), Agamben (1942)
e Zizek (1949).

A virada teológica
A partir dos anos 80, por influência de Levinas e Ricoeur, o ressurgimento da filosofia
católica francesa como uma fenomenologia.

Michel Henry, 1922-2002, e sua filosofia da carne, a partir da qual pode refletir sobre a
encarnação de Cristo.

Jean-Luc Marion, 1946, que foi aluno de Derrida e Deleuze na École Normale Superieure,
mas que também sofreu influência da nouvelle theologie e de Urs von Balthazar. Sua
noção de fenômeno saturado permite que se pense fenomenologicamente a revelação.

Jean-Louis Chrétien, 1952, que estuda fenomenologicamente práticas religiosas.

Jean-Yves Lacoste, 1953, e sua fenomenologia da liturgia.

Filósofo da geração imediatamente posterior, Emmanuel Falque, 1963, busca radicalizar


a virada teológica. Ele exorta os filósofos a cruzarem o Rubicão e se engajarem
diretamente com a teologia: quanto mais teologia, melhor a filosofia.

Quando em diálogo, a filosofia e a teologia podem se desenvolver, questionando suas


pressuposições, aprendendo coisas que não se saberiam sem esse encontro e reorientando
os seus caminhos, sem que uma se reduza a outra (mesmo os filósofos incrédulos, que,
expostos à teologia, podem transformar seu entendimento do humano). A lógica do
encontro, não da conversão (ONISHI, p. 106). Da mesma forma, Falque não está
preocupado com a legitimidade fenomenológica da Revelação, como Marion, mas em, a
partir da filosofia, aproximar-se com novos olhos do fenômeno teológico.

Assim, uma hermenêutica católica, indo além da hermenêutica judaica de Levinas e da


protestante de Ricoeur, ligando corpo e voz, tal como na missa a liturgia da palavra está
ligada à liturgia da eucaristia. Uma reflexão sobre a finitude como constituinte do
humano. Uma filosofia eucarística a partir da fenomenologia da animalidade.

Outros autores:

- Na França: Jean-François Courtine, Claude Romano, Jean Greisch, Phillipe Capelle, etc.

Língua inglesa
Com o Erring de Mark Taylor, 1984, uma virada na interpretação de Derrida: não um
filósofo anti-religioso, mas um pensador cuja reflexão sobre a linguagem tem algo a
contribuir com a filosofia da religião. A tendência se solidifica com Trespass of the Sign,
1989, de Kevin Hart e Radical Hermeneutics, 1987, de John Caputo.
Na sequência, a criação da filosofia continental da religião, na qual Derrida é visto quase
como um pensador teológico. Então, a influência dos fenomenólogos franceses da virada
teológica. Segundo Christina Gschwandtner, a área está a criar uma nova forma de
apologética, equivalente a uma forma posmoderna de teologia natural.

Em 1995, a tradução para o inglês de Dieu sans l’être. Em 1997, o debate de Marion com
Derrida na Villanova University, publicado em God, the Gift and Postmodernism. Desde
então, Marion se consagrou como pensador no mundo anglófono.

Com John Caputo, Bruce Ellis Benson, Christina Gschwandtner, Richard Kearney, etc.,
não devemos falar mais apenas de uma virada teológica na fenomenologia francesa, mas
de uma virada teológica da fenomenologia (ONISHI, p. 98).

A discussão
A expressão tournant theologique vem de um livro de Dominique Janicaud, de 1991, no
qual ele critica o retorno a conceitos e questões teológicas na obra de Levinas, Henry e
Marion em nome de uma fenomenologia entendida, tal como em Husserl, como uma
ciência estrita dos fenômenos.

Para ele, contaminação teológica em noções como dom, arquirrevelação, o Outro,


abertura ao invisível. Ele critica Levinas, por exemplo, por substituir a redução
fenomenológica pela revelação do Outro, formulando uma filosofia que seria uma
construção metafísico-teológica, no qual os dados estão contaminados e as escolhas
feitas, estando o leitor na posição de um catecúmeno (apud Mora, p. 266). Deve-se voltar,
portanto, à neutralidade metodológica, sem as respostas já dadas da teologia.

A crítica de Janicaud se expandiu em seu outro livro, La phenomenologie eclatée, 1998,


no qual extende sua crítica para Derrida, Ricoeur, Chrétien, Courinte, etc.

A crítica de Janicaud não ganhou muita projeção no início, mas seu livro Le Tournant
Théologique se tornou conhecido com o tempo, em especial após a publicação da versão
em inglês, em 2000, que contava com ensaios, publicados na compilação
Phénoménologie et theologie de Jean-François Courtine, de Marion, Henry, Chrétien,
Ricoeur e do próprio Courtine.

Contra a crítica de Courtine, Carlos Restrepo faz três objeções:

- As fronteiras entre a filosofia e a teologia não são tão claras assim.


- O uso polêmico do termo tournant, como uma moda passageira entre outras.
- O clichê de uma filosofia nacional em um cenário cosmopolita.

De qualquer modo, se a crítica de Janicaud foi intensamente discutida, sua exortação a


uma fenomenologia pura não foi seguida. A virada teológica se aprofundou: se em Marion
a Revelação é discutida filosoficamente apenas como uma possibilidade, de modo que a
fronteira seja ainda preservada, Falque exorta que se cruze o Rubicão, afirmando que,
quanto mais teologia, melhor a filosofia.

BIBLIOGRAFIA
MORA, C. El giro teologico: nuevos caminos de la filosofia. Escritos, vol. 20, n. 45,
2012, p. 257-273.
RESTREPO, C. El giro teológico de la fenomenologia: introducción al debate.
Pensamiento y cultura, vol. 13, n. 2, 2010, p. 115-126.
ONISHI, B. Philosophy and Theology: Emmanuel Falque and the new theological turn.
In: BENSON, B.& PUTT, K. Evil, Fallenness and Finitude. Sam: Palgrave MacMillan,
2017.

Palestras
Drew Dalton. The French Theological Turn. Saint Anselm College, Manchester,
2008. https://www.youtube.com/watch?v=deE2qoyVf-0
Emmanuel Falque. Body, Eros and the Eucharist. Lumen Christi,
2017. https://www.youtube.com/watch?v=ua-iOeWkjwc
Emmanuel Falque. Must we cross the Rubicon? Philosophy and Theology: new
boundaries. Centre of Philosophy, Theology and Media Theory,
2017. https://www.youtube.com/watch?v=YZCaOFXpAPw