Você está na página 1de 3

Vida

Nascido em Kings Langley, na Inglaterra, em 1952, John Milbank estudou em Oxford,


fez sua pos-graduação em Teologia em Cambridge sob a orientação de Rowan Williams
e doutorado em Filosofia em Birmingham, sobre Vico, sob a orientação de Leon Pompa.

Casou-se com Alison Milbank, com quem tem 2 filhos. Foi professor em Cambridge até
1999 e na Universidade da Virginia. Atualmente, está na Universidade de Nottingham.

Estudava para se tornar ministro anglicano quando Williams o convenceu que seu
chamado era o ministério acadêmico. Williams também o apresentou a Urs von Balthasar,
cuja crítica da modernidade Milbank achou similar à dos filósofos posmodernos, ainda
que mais radical.

Ganhou notoriedade após a publicação de Teologia e Teoria Social em 1990. Durante os


anos 90, quando conheceu Graham Ward e foi orientador de Catherine Pickstock, formou-
se ao seu redor o movimento Ortodoxia Radical, que se consagrou com o livro Radical
Orthodoxy, a new theology, de 1998.

A construção do secular
Em diálogo com a filosofia pós-moderna, Milbank faz uma crítica à modernidade e a
razão secular de modo a propor a restauração da teologia como disciplina central. Para
isso, ele propõe uma genealogia da modernidade em livros como Teologia e Teoria Social
e Beyond the Secular Order.

Sua tese central: o secular não é neutro, nem natural. Não é uma mera subtração do
religioso, mas teve que ser imaginado. É fruto de certas opções teológicas no fim da
Idade Média. De certa forma, uma heresia cristã.

Sua origem está em Duns Scotus, que propõe uma noção unívoca do ser de modo a
fundamentar uma metafísica enquanto ciência do ser.

Com isso:

- A rejeição da metafísica analógica tomista.


- A queda no erro ontoteológico, no qual Deus não é a fonte transcendente de tudo o que
existe.
- O esquecimento da doutrina da participação.

A metafísica separa-se da teologia. Abre-se espaço para uma noção de natureza separada
do divino. Com ela, a busca por se estabeleer limites para o que é conhecido. Uma posição
imanente que prepara a virada subjetiva da filosofia moderna em Descartes.

O segundo momento está no nominalismo de Ockham e nas discussões da época a


respeito da onipotência divina.

Existe um golfo entre a vontade declarada de Deus e seu poder absoluto. A onipotência
divina é incompreensível para a inteligência humana. Só podemos saber de Deus o que
conhecemos pela revelação. Com isso, a separação entre fé e razão, filosofia e teologia.

Além disso, o fim da visão sacramental de mundo que atinge seu ápice em S. Tomás:
Deus não pode ser entendido mais a partir da natureza e, por isso mesmo, a natureza pode
ser entendida separada de Deus.
A visão de mundo desencantada leva ao nascimento do ritual e da ação simbólica como
algo separado das demais atividades. Por consequência, a noção moderna de religião, que
não mais significa de um certo modo toda a cultura, capaz de definir a virtude pública,
mas se torna uma experiência privada e limitada a certos contextos.

Então, com Hobbes, Spinoza e Hugo Grotius, a política como campo autônomo do poder.

Modernidade, posmodernidade e cristianismo


A genealogia de Milbank manifesta que a modernidade é também construída a partir de
um mythos, de narrativas básicas, tais como as que se evidenciam nas noções de estado
de natureza e contrato social em Hobbes e Rosseau.

Assim, a modernidade secular não é mais racionalmente justificada que o cristianismo.


Ambos se baseiam em narrativas que não podem ser provadas ou refutadas, mas ouvidas,
discutidas, aceitas ou rejeitadas. Não existe uma prova definitiva, mas fatos, razões,
probabilidades e persuasão.

Para Milbank, no entanto, a narrativa cristã é mais persuasiva que a secular, pois, sem
Deus, o fundamento ontológico para a esperança em um futuro transformado é removido.
Falta profundidade e sentido na vida humana e, no fim, o que nos espera é o nihilismo.

O posmodernismo deixa claro isso: contra uma razão iluminista universal, existem apenas
verdades incomensuráveis que não podem ter pretensão universal. Sem um fundamento
para elas, são, em última análise, arbitrárias, e se assentam na vontade de poder.

Milbank se apoia no pensamento posmoderno para desconstruir as pretensões da


modernidade secular. No entanto, para ele, esse pensamento é uma continuação em
negativo da própria modernidade, em última análise insatisfatório. Se os valores são em
última análise arbitrários e expressões da vontade de poder, não há solução para as
discussões a respeito deles e, assim, o debate acaba se tornando conflito e violência.

A visão posmoderna da diferença infinita é inerentemente conflitual. Fundamenta-se em


uma ontologia da violência, que assume a prioridade da diferença e da força. O Estado
torna-se então necessário para que haja paz.

Contra essa ontologia da violência, Milbank apresenta uma ontologia da paz, baseada em
S. Agostinho. Na Cidade de Deus, ele contrasta a cidade de Deus, com seu modo de vida
pacífico, em contraste com a cidade dos homens, com seu amor próprio, orgulho,
arbitrariedade e poder baseado na violência.

Com a analogia e a participação, as diferenças são preservadas enquanto diferenças. No


Sofista de Platão, tudo participa do ser enquanto tem existência. Mas também participa
do outro, por causa da diferença.

No entanto, a possibilidade de uma existência harmoniosa. Seu fundamento é a própria


Trindade. Em Deus, diferença e identidade de uma só vez, a partir do dom pleno.

A ontologia da paz que o cristianismo apresenta é ancorada em um mito. Não a razão


universal abstrata, mas uma razão cristã, que leva as marcas da Encarnação e do
Pentecostes. No entanto, mais persuasiva e desejável que a proposta nihilista.
Com a escolha da racionalidade cristã, a restauração da teologia como disciplina central.

Política
Contra o liberalismo, baseado em uma ontologia da violência, para a qual todos buscam
o próprio interesse. A democracia liberal é indiferente à verdade e, por isso, de fácil
manipulação. Não é capaz de defender a liberdade que busca, nem a dignidade humana,
pois não possui uma visão substantiva do bem para fundamentá-la.

Contra ele, um socialismo cristão:

A importância das instituições intermediárias como a família, igreja, negócios locais,


corporações, guildas, clubes, etc., que limitam a ambição do indivíduo e do mercado, bem
como o poder do Estado. Subsidiariedade. Uma economia local e de corporações. Não o
espaço simples secular, mas um espaço complexo, no qual todo ato de associação e
transação econômica leva em conta um juízo a respeito do bem, do belo e do verdadeiro.

Um governo com elementos democráticos, aristocráticos e monárquicos. A democracia


como regra dos muitos só funciona sem ser manipulada se balanceada com o elemento
aristocrático da busca da virtude e da verdade, bem como o elemento monárquico, do Um
transcendente, que garante a justiça e o que é não negociável. Ou seja, um governo misto
baseado na lei eterna.

Contra a separação entre sagrado e secular, o divino mediado pela participação, tal como
em Atenas e Israel, nos quais a transcendência não estava limitada a uma esfera
específica, mas encontrava-se mediado por toda a sociedade.

Você também pode gostar