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Editora Brasil Seikyo Brasil Seikyo - Edição 1646 - 06/04/2002 - Pág.

C8 - Caderno Soka

Brasil Seikyo - Caderno Soka

Venâncio, violeiro e repentista

A vida aqui só é ruim


Quando não chove no chão
Mas se chover dá de tudo
Fartura tem de montão

Tomara qu echova logo


Tomara meu Deus, tomara
Só deixo o meu Cariri
No último pau-de-arara

Enquanto a minha vaquinha


Tiver a pele e o osso
E puder com o chocalho
Pendurado no pescoço

Eu vou ficando por aqui


Que Deus do céu me ajude
Quem sai da terra natal
Em outros cantos não pára

Só deixo o meu Cariri


No último pau-de-arara...

“Último Pau-de-Arara”,
Venâncio, Corumba e J. Guimarães

Quem nunca ouviu essa canção, cantada entre outros por Fagner e Luiz Gonzaga? O brasileiro de
destaque nesta edição é um dos autores dessa e de muitas outras canções: Venâncio.
Venâncio foi o pseudônimo de Marcos Cavalcante de Albuquerque, nascido em 7 de outubro de 1909,
no Recife, Pernambuco. Perdeu o pai aos 7 e a mãe aos 11 anos de idade. Foi criado pela tia até os 15
anos, quando resolveu assumir a responsabilidade pela sua vida.
Percebendo seu talento artístico, entrou para a escola de arte dramática, a qual fazia em paralelo a
outras atividades para se manter. Fazia também apresentações em circo, teatro etc. A partir de 1930,
fez dupla com Corumba, criando a dupla “Venâncio e Corumba”, a qual alcançou um forte carisma e
uma ampla audiência na rádio Clube de Recife.
Em 1940, saíram de Recife percorrendo o País cantando e fazendo apresentações até chegarem em
1950 ao Rio de Janeiro, repetindo o sucesso nas rádios cariocas Tupi e Tamoio.
Em 1956, firmaram residência em São Paulo, passando a apresentar um concorrido programa de

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auditório nas rádios Nacional Paulista e Rádio Mulher.


Venâncio foi repentista, folclorista, escritor, e tornou-se um conhecido compositor, com músicas
gravadas por Luiz Gonzaga, Alcione, Fagner, Gilberto Gil, Clara Nunes, entre outros. Sua composição
relatando a vida sofrida do nordestino “O Último Pau-de-Arara” faz parte da memória do brasileiro.
Porém, quem conhece a gigantesca luta liderada por esse nordestino, defensor acirrado da cultura
brasileira, em favor dos cantores nordestinos?
Os cantadores de viola vindos do Nordeste para os grandes centros urbanos desde 1940 tinham como
meio de sobrevivência fazer seus repentes em plena rua ou nos bares.
Na época da ditadura militar, em que várias formas de manifestação artística eram tolhidas, os
cantadores que ousavam cantar na rua eram presos, perseguidos e considerados como vagabundos
pela polícia.
Venâncio, usando seu prestígio alcançado como artista, conhecido e respeitado em todas as camadas
sociais, travou uma verdadeira batalha, chegando a pagar, por várias vezes, a fiança dos cantadores
para libertá-los. Em algumas oportunidades, mostrava aos delegados e autoridades toda a injustiça
cometida, exibindo todo o esplendor da arte do repente, fazendo os cantadores cantarem de improviso,
levando as autoridades a se comoverem.
Buscando o fim da discriminação com os repentistas, Venâncio promoveu vários encontros com
deputados, advogados e pessoas influentes da sociedade. Seu ideal era criar uma associação que
representasse os repentistas. Após muita luta, enfrentando os que se opunham à valorização do
nordestino como verdadeiros artistas, conseguiu concretizar em 1973 a Associação dos Repentistas,
Poetas e Folcloristas do Brasil (Arpofob), entidade sem fins lucrativos sediada no edifício Martinelli,
centro de São Paulo, onde Venâncio possuía um escritório. Essa associação sobreviveu até 1977,
quando Venâncio adoeceu.
No mesmo ano, outra vitória de Venâncio: o reconhecimento dos cantadores repentistas como
divulgadores da arte pela Ordem dos Músicos do Brasil, a qual, a partir daquela data, liberava carteiras
oficiais, dando direitos aos cantadores de trabalharem dignamente como cidadãos em casas noturnas,
teatros ou quaisquer meios de comunicação.
Pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e juntamente com seu filho, Clóvis Albuquerque,
realizou um importante trabalho junto aos detentos do Carandiru e da Febem, a qual denominava “Fé,
Bem”. Realizou nesses locais festivais musicais com os internos, peças de teatro com cenários
construídos pelos próprios detentos e assistidos pelas autoridades, atividades essas que lhe conferiram
homenagens da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e da Fundação Nacional do Preso,
Funap, pelos grandiosos resultados junto aos detentos.
Em seus últimos anos de vida, realizava palestras em faculdades sobre folclore e literatura de cordel.
Venâncio faleceu em 9 de setembro de 1981, mas sua música, retratando um povo trabalhador e
sofrido, jamais foi tão atual.

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