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Contrapontos da história da hanseníase no

Brasil: cenários de estigma e confinamento*

Luiz Antonio de Castro Santos**


Lina Faria***
Ricardo Fernandes de Menezes****

Ao discutir a luta contra a hanseníase no Brasil, em especial em São Paulo


e no Maranhão, o trabalho focaliza as múltiplas formas da história institucional
e da “cultura de reclusão” dos hansenianos. Critica-se a visão corrente de um
cenário único de disciplina e vigilância para, ao contrário, sugerir a existência
de cenários cambiantes, marcados por conflitos, negociações e distintas
propostas de prevenção ou de combate à doença. O texto aborda as diferentes
concepções médicas e “profanas” da lepra, bem como as propostas e práticas
de intervenção social no Brasil e, em particular, nos estados de São Paulo e do
Maranhão, desde os primeiros tempos da República até as primeiras décadas da
Era Vargas. O combate à doença sempre desafiou conceitos e convicções sobre
tratamento, propagação, confinamento e regeneração, sob múltiplos significados
epidemiológicos, médicos, culturais e sociais, referidos ao estigma da doença,
do pecado e da impureza. O texto procura estabelecer alguns cenários brasileiros
nos quais se revelam as identidades coletivas deterioradas, a exclusão social e
as políticas de confinamento institucional e de regeneração dos doentes.

Palavras-chave: Hanseníase. São Paulo. Maranhão. Brasil. Primeira República.


Estado Novo. Identidades deterioradas. Políticas de confinamento.

Vi alguns pacientes que estavam doentes há dez e doze anos, já medonhamente desfigurados, mas
suportavam [a moléstia] alegremente. Parece que, de fato, um espírito cheio de esperança, e uma
vida livre e generosa, foram os meios de retardar os efeitos da moléstia; mas não sei de ninguém
que se tivesse curado.
(Henry Walter Bates, The naturalist on the River Amazon, 1863)

Conhecida há séculos como uma mo- passou a fazer parte da dramaturgia do so-
léstia que caminha lentamente, com alte- frimento humano desde a Antigüidade, mas
rações morfológicas e fisiológicas, até hoje a sua identidade etiológica remonta apenas
hanseníase desafia conceitos e convicções ao final do século XIX, quando o médico
sobre tratamento e propagação. A doença norueguês Gerhard Henrik Armauer Hansen,

* Os autores agradecem a Juliane Serres e Patrícia Portela Nunes, pela documentação preciosa sobre o Maranhão, a
Sylvia Ripper, pelas informações sobre o Regulamento do DNSP, de 1923, bem como à bolsista de Iniciação Científica,
Jamile Rodrigues, pela pesquisa de fontes para o projeto Caminhos da Saúde Pública no Brasil, no Instituto de Medicina
Social da UERJ.
** Sociólogo, PhD em Sociologia pela Universidade de Harvard. Professor adjunto do Instituto de Medicina Social da
UERJ.
*** Historiadora, Doutora em Saúde Coletiva (IMS/UERJ), com Pós-Doutorado em Política Científica e Tecnológica (DPCT/
Unicamp). Pesquisadora do Instituto de Medicina Social da UERJ.
**** Médico sanitarista da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e da Secretaria Municipal de Saúde de São
Paulo. Especialista em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, onde cursa atualmente a pós-graduação
(mestrado) em sua especialidade.

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ao analisar material de lesões cutâneas, dores de outras enfermidades, os quais,


descobriu a Mycobacterium leprae, bacilo ao cabo e ao fim, adquiriam a hanseníase
causador da doença e que pertence ao e vice-versa.
mesmo gênero do bacilo que ocasiona A favor da hipótese da dificuldade de
a tuberculose. A falta de conhecimentos diagnóstico clínico apontam os termos
clínico-imunológicos ensejou, antes da utilizados ao se introduzir a lepra como
descoberta, hipóteses que apontavam o doença de notificação compulsória (“lepra
caráter hereditário da hanseníase. Em ulcerada”), que constam das Instruções
inícios do século XX, começou a ser vista para o Serviço de Higiene de Defesa da
como uma “enfermidade” merecedora de Capital da República, de 18/09/1902, e que
atenção médico-social, de acumulação de regulamentavam o Decreto n°. 4.464, de
conhecimentos científicos e de medidas de 12/07/1902, na gestão do médico Nuno de
contenção. Mas os aspectos cognitivos, Andrade. O instrumento normativo acres-
preventivos e terapêuticos representaram, centava, então, a enfermidade “ulcerada”
como poucas enfermidades daquela época, à notificação obrigatória da varíola, difteria,
um terreno movediço e sujeito a profundas tifo, febre tifóide, tuberculose “aberta” e
controvérsias. das chamadas enfermidades “pestilenciais”
Hoje, o estudioso não deverá sur- (febre amarela, peste e cólera, como regra)
preender-se ao constatar que, a despeito de (BRASIL, 1902). Mais tarde, sob a inspiração
a descoberta de Hansen remontar a 1873, de Oswaldo Cruz, que assumira a Diretoria
a lepra não constou, por muito tempo, das Geral de Saúde Pública, em 23 de março de
relações de doenças de notificação compul- 1903, o Código Sanitário dava “novo Regu-
sória no Brasil. lamento aos Serviços Sanitários a cargo
O presente trabalho focaliza, inicial- da União”, por meio do Decreto n°. 5.156,
mente, o surgimento da hanseníase no de 8 de março de 1904 (BRASIL, 1904). As
cenário do Brasil republicano. Este é nosso disposições mantinham a lepra no elenco
primeiro marco temporal. Na jovem Repú- de doenças de notificação compulsória,
blica, as disposições normativas revelavam mas acrescentavam algumas outras, entre
a hanseníase como um “problema de saúde elas o impaludismo e infecções de caráter
pública”, mas havia certa ambigüidade nosocomial, como a infecção puerperal nas
nas classificações e prescrições legais. A maternidades. Note-se que não se tratava,
enfermidade não constou como doença apenas, da “defesa sanitária” da capital da
de notificação compulsória desde cedo, República; agora eram incluídos os serviços
em vista das dificuldades do diagnóstico sanitários a cargo da União, que abrangiam
clínico precoce, isto é, da verificação da a defesa de todos os portos nacionais – por
doença em sua fase inicial. Como se sabe, certo, normas com pouca eficácia fora do
a enfermidade apresenta características Rio de Janeiro e das principais capitais do
fisiopatológicas cujas expressões clíni- país.
cas enredavam os médicos daquele tempo, A criação do Departamento Nacional de
a saber: a) uma parte dos indivíduos tem Saúde Pública (DNSP), em janeiro de 1920,
resistência imunológica ao agente etiológico tendo à frente Carlos Chagas, reforçava os
e outros não, daí derivando modalidades rumos de crescente ação pública na área
de apresentação clínica e repercussões de saúde, com a adoção dos programas
médico-sanitárias distintas; b) por essas de profilaxia rural em vários estados de
razões, durante séculos “leproso” era não só responsabilidade federal, a disseminação
o indivíduo hoje considerado “hanseniano”, de postos e centros de saúde urbanos e
mas todos os casos clínicos em que se re- a superação de uma visão emergencial ou
velassem manifestações cutâneas ao longo localizada. A presença crescente do Estado
da evolução de uma enfermidade. Nacional nas políticas de saúde culminou,
A segregação de todos tinha impli- nos anos 40, já em pleno Estado Novo, na
cações perversas: enfermos com hanseníase criação ou reorganização de vários serviços
passavam a conviver com indivíduos porta- nacionais, entre os quais, a programação

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de um Serviço Nacional da Lepra. Este escola, asilo, casa de saúde ou hospital,


período, ao demarcar o início de um efetivo creche, maternidade, dispensário, policlínica
processo de ordenamento burocrático do ou estabelecimentos congêneres onde
estiver o doente ou suspeito. Nos casos
setor de combate à hanseníase, representa de lepra a notificação incumbe também ao
o segundo marco temporal, que encerra o próprio doente.
presente estudo.
Os artigos 447 e 448 previam punições
severas para médicos que não cumprissem
Tempos de institucionalização
as disposições contidas no artigo pre-
Os tempos do cientista e sanitarista cedente. De acordo com o artigo 447, o
Carlos Chagas marcaram a suplantação das médico que infringisse as disposições se-
doutrinas e práticas de “polícia” sanitária. ria declarado suspeito pelo Departamento
Todavia, era inevitável que espaços de ação Nacional de Saúde Pública, sendo todos
médico-policial se mantivessem em relação os doentes por ele visitados sujeitos à veri-
a moléstias para as quais o próprio conheci- ficação por parte da autoridade sanitária. O
mento sobre a disseminação era escasso artigo 448 previa multa de 100$ a 500$,
e controvertido. Era este, seguramente, o dobrada nas reincidências, aos que deixas-
caso da lepra, objeto de atenção das autori- sem de fazer as notificações exigidas pelo
dades sanitárias – ou talvez mesmo de alerta regulamento (BRASIL, 1923).
máximo –, diante da pandemia que grassava Era freqüente, até as primeiras décadas
em vários estados. O sistema adotado do Brasil republicano, o cenário de famílias
baseava-se em três elementos: notificação inteiras de leprosos, como ciganos errantes
obrigatória; exame periódico dos comuni- por estradas e cidades, sobrevivendo ao
cantes; e isolamento em colônias agrícolas, descaso das autoridades sanitárias diante
asilos, hospitais ou no próprio domicílio da exclusão e do estigma. As questões
do doente. O isolamento no domicílio era da nacionalidade, às quais se associavam
aceito pela autoridade sanitária, desde que o “problema da raça” e o “melhoramento
não oferecesse grandes riscos de contá- eugênico”, passaram a demandar a elimi-
gio. O doente e seus familiares eram, no nação da mancha da hanseníase no Brasil
entanto, mantidos sob rigorosa vigilância e republicano. Após o descaso sobreveio a
submetiam-se a exames periódicos. punição institucional: além do estigma, os
A notificação compulsória da hanseníase doentes ressurgiram então como corpos
foi reafirmada, em 1923, pelo Decreto n. policiados, vítimas de políticas de institu-
16.300, de 31 de dezembro, artigo 445, cionalização quase sempre cruéis. “Asilar”
inciso X, do Regulamento do Departamento era, no entanto, um verbo que abrigava
Nacional de Saúde Pública. Essa legislação certa polissemia. A crueldade não era uma
tornava obrigatória a notificação de outras constante. As colônias agrícolas, em alguns
doenças, além do mal de Hansen, tais como estados, revelavam uma concepção de or-
febre amarela, peste, cólera, tifo, varíola, ganização social de “vida em comunidade”
alastrim, tuberculose, tracoma, leishmaniose que, para muitos internos, seria impossível
e impaludismo. O artigo 446 do Regula- no mundo que a própria medicina ajudara
mento especificava: a transfigurar, reforçando as concepções do
normal e do patológico. No Brasil, alguns
Incumbe fazer a notificação: a) ao médico estados destacavam-se nas estatísticas de
assistente ou conferente, e, em sua falta, ao
chefe da família ou parente mais próximo casos mórbidos (São Paulo e Minas Gerais,
que residir com o doente ou suspeito, ao no Sudeste, e os estados da Amazônia);
enfermeiro ou pessoa que o acompanhe; b) um deles – o Maranhão – cedo ocupou a
nas casas de habitação coletiva, aos que as atenção de sanitaristas, pesquisadores e
dirigirem ou por elas responderem, ainda autoridades da saúde.
que a notificação já tenha sido feita pelo
médico, ou outra pessoa; c) ao que tiver Em meados da década de 20, havia
a seu cargo a direção de estabelecimento uma pandemia de hanseníase não só no Ma-
comercial, industrial ou agrícola, colégio, ranhão, mas em vários estados brasileiros.

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As estatísticas da época, por certo estimati- bioquímico Alberto Granado. Uma cena im-
vas grosseiras e subestimadas, apontavam portante de Diários de motocicleta se passa
aproximadamente 15 mil hansenianos em num leprosário, em San Pablo, na Amazônia
todo o país, sendo 90% pobres ou mise- peruana, em junho de 1952. Após quase
ráveis. São Paulo, possivelmente com duas semanas na colônia, Che descreve os
menor proporção de casos não-notificados, momentos da despedida:
apresentava 4.500 leprosos, Minas Gerais Um grupo de pacientes da colônia veio até a
cerca de 500; no Norte, o Pará listava 2.500 sede, para uma festa de despedida para nós
notificações, Amazonas registrava 800 e dois. [...] Diversos deles nos deram adeus
o Maranhão, cerca de 600 (MAGALHÃES; com lágrimas nos olhos. Seu apreço veio
ROJAS, 2005). Como se verá adiante, do fato de que nós não usamos sobretudos
ou luvas, de que apertamos suas mãos [...],
medidas sanitárias foram adotadas, pelos sentamos ao seu lado, conversamos sobre
governos federal e estaduais, tais como: assuntos variados e jogamos futebol com
criação de preventórios para as crianças que eles. [...] O benefício psicológico de essas
hoje se chamariam “de risco”; isolamento pobres pessoas [...] serem vistas como seres
compulsório dos doentes em leprosários humanos normais é incalculável, e o risco
de ser contaminado, incrivelmente remoto
(classificados em colônia agrícola, hospital, (GUEVARA, 2001, p.160 e 166).
asilo e sanatório) ou no próprio domicilio;
notificação obrigatória, já referida; e exa- A colônia rural, habitada pelas vítimas
me periódico dos comunicantes (SILVA da hanseníase, pode ser vista como símbolo
ARAÚJO, 1927, p. 195-253). da segregação na América Latina. Obregón
A hanseníase gerou uma preocupação mostra que, na Colômbia, até início dos anos
pela saúde pública e se tornou uma área im- 50, nenhuma doença foi tão estigmatizada.
portante da atuação do Estado. Em virtude A imagem da hanseníase estava profun-
do forte impacto público da doença, ou, damente arraigada à cultura colombiana.
por outra, por sua dramaticidade e pelo in- Mas não era o único problema de saúde
desejado “conteúdo simbólico”, academias que as autoridades sanitárias teriam que
de medicina e centros de pesquisa engaja- enfrentar no país. Como no Brasil, a ancilos-
ram-se no debate sobre as medidas neces- tomíase, a sífilis, a tuberculose e a malária
sárias de prevenção e controle. A hanseníase, também acometiam com grande violência
assim, somava-se à ancilostomíase, à fe- as populações pobres. Segundo a autora,
bre amarela, à tuberculose e à malária, as autoridades colombianas traçaram uma
como uma ameaça a mais à civilização, à estratégia geral de saúde pública, de tal
raça e à nação (CASTRO SANTOS, 1985, modo que o combate à hanseníase passou
p. 193-209; LIMA; HOCHMAN, 1996, a fazer parte de um plano mais amplo de
p. 23-40; HOCHMAN, 1998). saneamento. Essas doenças eram consi-
Todavia, não constituía uma ameaça, deradas um retrato de um país enfermo e um
digamos, “brasileira”, pois incomodava entrave ao processo de modernização do
as elites e as autoridades sanitárias em país. Também como tantas outras doenças
toda a América Latina. Trinta anos depois infecciosas, acreditava-se que a hanseníase
das “pandemias” brasileiras, a tomada de havia penetrado no país com a imigração
consciência sanitária em relação à lepra se européia e com os negros africanos. As
disseminou por todo o continente. Diários de autoridades médicas procuravam seguir
motocicleta, filme dirigido por Walter Salles, um plano geral de controle e preconizavam
inspirado nos diários do jovem Ernesto a destinação de recursos não somente
Guevara, durante sua primeira viagem pela para campanhas de combate à lepra, mas
América Latina, mostra como a lepra era também à ancilostomíase, à malária e à
estigmatizada em toda parte e como era tuberculose (OBREGÓN, 1996 e 2003).
forte a defesa do isolamento compulsório O isolamento compulsório dividia a
pelo saber médico da época. Prestes a opinião médica. Para muitos, era ineficaz
se formar em Medicina, Guevara decide como método de prevenção e tratamento.
cruzar a América Latina, ao lado do amigo No Brasil, desde os tempos da monarquia,

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eram abundantes os relatórios e documen- zava como “enfermidades sociais” a sífilis,


tos que ilustravam a situação deplorável a a loucura, a tuberculose, cujas conseqüên-
qual estavam submetidos os doentes nos cias mais evidentes eram e degeneração
hospitais, leprosários e dispensários, em física e moral do indivíduo. Neste sentido,
vários estados brasileiros. Como no Hospital médicos e higienistas passaram a utilizar
de Lázaros, em São Cristóvão, na capital argumentos científicos da época – dosados
federal, médicos descreviam as péssimas por fortes conotações raciais –, diante dos
instalações, o sofrimento dos pacientes, comportamentos e hábitos da população
os tratamentos ineficazes (SANTOS, 2003, pobre latino-americana. Essas enfermidades
p. 419). Desde 1828, neste hospital, denun- sociais, de certo modo mais ainda do que as
ciavam-se os maus tratos aos pacientes populações pobres, representavam grandes
(SANTOS, 2003, p. 416). Em São Paulo, entraves à modernização.
as péssimas condições do Hospital dos No período estudado, o empenho de
Lázaros levavam o presidente da provín- médicos, sanitaristas e higienistas no com-
cia, já no Segundo Reinado, a conclamar: bate às enfermidades sociais, entre as quais
“fechai aquele sepulcro ou abri as portas se destacava a lepra, mostra a construção
de um hospital regular, indo em auxílio da de uma concepção de atenção à saúde,
caridosa irmandade [...] que o tem a seu que ficou conhecida como “higienista”. Esta
cargo” (EGAS, 1926, p. 302). Na Santa Casa proposta tornou-se importante nos países da
de Misericórdia de São João Del Rei, entre América Latina, apontando para iniciativas
1879 e 1880, as instalações destinadas aos públicas na área social. Mais do que isto, o
lázaros “se localizavam no fundo do quintal debate em torno de questões como raça,
da instituição” (SANTOS, 2003, p. 416). No miscigenação e cultura gerou um ambiente
decorrer do período republicano, ao mesmo propício a alguns movimentos reformistas. A
tempo em que se firmavam as propostas da saúde passou a ser vista como uma questão
corrente segregacionista, as instâncias de nacional, com desafios que os movimentos
práticas institucionais disciplinares e inu- de mudança procuraram enfrentar (FARIA;
manas se multiplicavam em vários estados, PAIVA, 2007, p. 203-218).
como se verá na discussão do “modelo”
paulista, mais à frente. Como a doença se manifesta?
Mas havia os que defendiam o apri-
moramento e humanização desse tipo Retomemos alguns aspectos subli-
de prática, em instituições isoladas do nhados na introdução. Doença infecto-
mundo urbano; havia os que postulavam contagiosa de notificação compulsória, a
a construção de modernos hospitais para hanseníase também é conhecida como
leprosos em áreas urbanas e escolas para morféia, tem caráter crônico e afeta a hu-
crianças portadoras. Pesquisas epidemio- manidade desde eras remotas. O contágio
lógicas e bacteriológicas enfatizavam a é relativamente difícil, pelo contato íntimo e
importância dos vários tratamentos para prolongado com pessoas infectadas – pelas
diversos tipos da doença. Mesmo quando se vias aéreas ou pelo contato direto com feri-
propunha o controle da hanseníase através mentos. O maior número de casos encontra-
da segregação, defendia-se a necessidade se nos países tropicais e subtropicais – Índia
de novas terapias. (75% dos casos mundiais), Nepal, Brasil,
De todo modo, não foram tranqüilos Sudão, Moçambique, Madagascar e Angola.
os caminhos percorridos em busca de al- Segundo Magalhães e Rojas, na atualidade
ternativas de tratamento para uma doença não resta dúvida de que a distribuição da
caracterizada por forte estigma e precon- lepra está mais concentrada nesses países
ceitos (OBREGÓN, 1996, p.159-178). De e associa-se fortemente a condições sociais
maneira geral, a medicina latino-americana e higiênico-sanitárias desfavoráveis. Nas pa-
debatia a enfermidade em seus aspectos lavras das autoras, “a relação entre pobreza
sociais (ainda que não focalizasse seus e lepra ratifica o papel da deterioração social
determinantes); da mesma forma, caracteri- em sua produção, não obstante em alguns

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países considerados hiperendêmicos, es- muito importante para o diagnóstico a


tudos detalhados em áreas muito pobres nevrite cubital, que acomete pessoas com
terem encontrado prevalências muito baixas, alta resistência ao bacilo; as lesões são
o que sugere a existência de condições que poucas, com ausência de sensibilidade.
não propiciaram a entrada ou sobrevivên- Na história da hanseníase era comum
cia do agente patogênico” (MAGALHÃES; entre os portadores acreditarem que haviam
ROJAS, 2005, p. 2-3). Tudo indica que a contraído a doença apenas quando esta
existência de fatores de ordem biológica ou se manifestava na sua forma cutânea,
de fatores não diretamente “sociais” deve mais adiantada, “que transforma, que
ser considerada e estudada. transfigura, que aniquila a fisionomia indi-
A doença atinge a pele e o sistema vidual. Freqüentemente, diz um estudioso,
nervoso periférico, apresentando duas a população nega e descrê da moléstia
formas principais: a hanseníase cutânea e quando se manifesta sob a forma nervosa”
a hanseníase nervosa. A primeira é menos (MENDONÇA, 1923, p. 19).
grave, com manchas na pele e progres-
siva perda de sensibilidade cutânea. Na A atuação do Departamento Nacional
outra forma, conhecida como lepromatosa, de Saúde Pública e a criação de uma
aparecem nódulos, os nervos se transfor- legislação sanitária
mam em cordões nodosos e sobrevêm
fortes dores, insensibilidade e deformidade. Desde 1920, o Departamento Nacional
Finalmente, o bacilo ataca os tecidos, de Saúde Pública, no âmbito do Ministério
consumindo as mãos, os pés, o nariz, os da Justiça e Negócios Interiores, abrigava
olhos. O período de incubação é, em geral, uma Inspetoria de Profilaxia da Lepra, das
prolongado – de dois a cinco anos entre o Doenças Venéreas e do Câncer, primeiro
contágio e o aparecimento dos primeiros órgão federal destinado à campanha contra
sintomas. Manchas cutâneas de diferentes a hanseníase no país. Era uma peça-chave
tipos e em pontos diversos do organismo, da reforma institucional empreendida por
insensíveis ao calor, constituem um sinal da Chagas. A Inspetoria nos estados atuava
infecção (CRM-SP, 2006). por meio da antiga Diretoria de Saneamento
Eidt (2004, p. 77) sustenta uma posição Rural, em cooperação com os governos
polêmica: “se o Mycobacterium leprae estaduais. As atribuições do novo Depar-
acometesse somente a pele, a hanseníase tamento permitiram que várias regiões
não teria a importância que tem em saúde mais pobres pudessem contar com apoio
pública”. Do ponto de vista antropológico, a federal para evitar a expansão da doença.
existência de preconceitos de “marca”, em Ainda que marcado por limitações institu-
sociedades latino-americanas, dificilmente cionais e financeiras, o DNSP sinalizava
corroboraria tal afirmação, tomada de modo uma “inflexão” nas ações da esfera pública,
absoluto. No entanto, é inegável que a cons- pois, até então, nenhuma ação de governo
tituição da enfermidade como problema de fora tomada para combater a difusão da
saúde pública deveu-se também ao acome- hanseníase no território nacional. Existiam,
timento do sistema nervoso periférico, de na capital e em alguns estados, hospitais
modo a se traduzir em incapacidades físicas para leprosos, mantidos por associações
permanentes (EIDT, 2004, p. 76-88). privadas ou pelos governos estaduais, mas
Na forma cutânea, o bacilo se multi- não havia uma legislação sanitária visando
plica de maneira rápida. A mão em forma a profilaxia da doença. No Distrito Federal,
de garra é assinalada nas descrições da os serviços eram diretamente executados
patologia, assim como as lesões ósseas e pela Inspetoria. Nos estados, dada a or-
articulares, as mutilações pela destruição e a ganização política do país, a execução era
perda de parte ou totalidade dos dedos. São feita mediante acordo com os respectivos
freqüentes, ainda, a úlcera da sola do pé e a governos, que, segundo Oscar da Silva
atrofia dos músculos da face. Na hanseníase Araújo (inspetor de Profilaxia da Lepra e
nervosa, os nervos são atacados, sendo das Doenças Venéreas), “deveriam respeitar

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e fazer cumprir, dentro de seu território, a a) notificação obrigatória; b) levantamento do


legislação sanitária federal” (SILVA ARAÚJO, censo de leprosos; c) isolamento obrigatório
em domicílio, colônias agrícolas, sanatórios,
1927, p. 196).
hospitais ou asilos; d) vigilância sanitária dos
Em função do alto custo para detecção doentes isolados em domicílio; e) vigilância
e tratamento dos doentes, a hanseníase as- sanitária dos suspeitos; f) vigilância sanitária
sumiu uma feição de política “federal”, uma preventiva dos comunicantes; g) assistência
questão de saúde pública diante da qual o pecuniária aos leprosos isolados ou às
suas famílias; h) proibição do exercício,
poder central deveria organizar uma estru-
por leprosos, de ofícios ou profissões [...]
tura de prevenção e tratamento. A Reforma perigosos à coletividade; i) proibição da
Carlos Chagas incluía entre suas propostas: entrada no território nacional de estrangeiros
estabelecimento de estatísticas mais preci- leprosos; j) proibição da amamentação
sas sobre os óbitos de lepra; providências natural pelas mulheres leprosas; [...]; m)
segregação imediata dos filhos nascidos de
sanitárias nos domicílios onde houvesse
pais leprosos; [...]; q) educação higiênica
óbito por lepra; criação de leprosários e popular no sentido de tornar conhecidas as
dispensários; e organização de campanhas condições de contágio da doença (SILVA
de educação sanitária (BRASIL, 1923). ARAÚJO, 1927, p. 198-199).

Primeiras ações institucionais


O Regulamento Sanitário – Legislação
Sanitária As primeiras colônias agrícolas foram
instaladas nas áreas dos grandes focos ao
O Regulamento Sanitário teve origem
norte e ao sul do país. No Estado do Pará,
na Legislação Federal que criou o De-
em 1923, segundo o sifilógrafo Oscar da
partamento Nacional de Saúde Pública,
Silva Araújo – ou em junho de 1924, segundo
em setembro de 1920. Foi o sifilógrafo
estudo recente –, foi inaugurada a primeira
Eduardo Rabelo, nomeado diretor geral
colônia agrícola para leprosos no Brasil,
da nova Inspetoria de Profilaxia da Lepra
chamada Lazarópolis do Prata, a 150 km da
e das Doenças Venéreas, quem elaborou
capital (SILVA ARAÚJO, 1927, p. 206; SAN-
a primeira legislação brasileira que tratava
TOS, 2003, p. 425). Nesta mesma época,
especificamente dessas enfermidades foi iniciada a construção de um hospital
(CARRARA, 1996). No exame da evolução de isolamento no Maranhão, com verbas
histórica da legislação, feito anteriormente, previstas pelo governo federal. Mas, durante
já nos referimos às disposições normativas anos, a obra ficou paralisada em virtude da
sobre aquelas doenças. falta dos recursos federais (SILVA ARAÚJO,
Um estudo pioneiro, no Brasil, indicava 1927, p. 195-253).
o mérito da reforma Carlos Chagas, por A capital federal não foi a primeira a
abranger parcelas cada vez maiores da po- acolher os doentes em “leprosarias” porque
pulação, mas, ao mesmo tempo, sustentava as autoridades temiam, segundo Oscar da
que se tratava de uma política autoritária. Silva Araújo (1927, p. 207), que houvesse
Esse autoritarismo, na verdade, dizia respeito uma demanda incontida por parte dos
às disposições sobre o controle da lepra estados vizinhos, com hospitalização inade-
contidas no Regulamento elaborado por quada. Não obstante, afirmava o estudioso,
Eduardo Rabelo, que facultava a requisição “ainda hoje [em 1927] se verifica que 50%
de força policial para obrigar os suspeitos ao dos doentes existentes no Distrito Federal,
exame e ao isolamento compulsório (SINGER; [no Hospital dos Lázaros e no Hospital São
CAMPOS; OLIVEIRA, 1978). No entanto, a Sebastião], não são aqui domiciliados”
análise histórica, a nosso ver, não deveria (SILVA ARAÚJO, 1927, p. 207). Não haveria
negligenciar o estágio rudimentar do conhe- como retardar a iniciativa por muito tempo:
cimento científico sobre a moléstia naquele em 1928 foi inaugurado o Hospital Colônia
momento. Não era outra a política nem eram de Curupaiti, no bairro de Jacarepaguá
outras as limitações, fora do Brasil. (SANTOS, 2003, p. 423). O DNSP planejou a
O Regulamento prescrevia, em resumo, construção de uma grande colônia agrícola
as seguintes medidas relativas à moléstia: no Pará e duas outras em Minas Gerais. Em

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São Paulo, o próprio governo estadual já da doença. Em 1923, a Inspetoria criou o


vinha providenciando a construção de uma Serviço de Visitadoras. Um curso intensivo
colônia em Santo Ângelo. de seis meses sobre doenças venéreas
No início de suas atividades, o DNSP e lepra foi organizado para formação e
firmou acordo com 18 estados, com ex- orientação de um grupo de senhoras, que
ceção de São Paulo, para trabalhos de posteriormente foram substituídas por
saneamento rural e de combate à lepra e enfermeiras regularmente diplomadas. As
doenças venéreas. Ocupava a Presidência visitadoras ficaram encarregadas de levar
da República Artur Bernardes. As diretrizes à população carente noções e conceitos
de seu governo, no tocante à organização de higiene (SILVA ARAÚJO, 1927, p.211;
da saúde pública, se explicitaram em men- BARROS BARRETO, 1942, p.169-215).
sagem apresentada ao Congresso Nacional, A propagação da moléstia levou o Depar-
em 03 de maio de 1923. tamento Nacional de Saúde Pública a realizar,
Os serviços sanitários, entre nós, foram
na capital do país, a Primeira Conferência
organizados sob o critério fundamental de Americana da Lepra, em 1922, de cuja organi-
centralização, a fim de atender a condições zação ficou encarregada a Inspetoria. Partici-
especiais do País, concernentes à difusão param delegados de quase todos os países
e intensidade das endemias rurais e à americanos e de alguns países europeus.
deficiente capacidade técnica ou financeira
de algumas unidades da federação, sem
Essa Conferência significava uma nova área
meios para assumirem a responsabilidade de atuação e, sobretudo, de estímulo ao
integral do saneamento de seus territórios intercâmbio e ao associativismo profissional
(BERNARDES, 1923). na América Latina e em outros continentes.
À União cabia administrar, organizar e A Conferência reuniu médicos, sanitaristas,
financiar metade das despesas dos serviços intelectuais e autoridades sanitárias, para
de profilaxia rural e de programas de edu- debaterem as estatísticas e os modos de
cação nos estados brasileiros. Além da pro- diagnóstico e prognóstico da doença.
filaxia das doenças rurais, cabia à União a O debate sobre a qualidade das estatís-
responsabilidade pela assistência hospitalar ticas, como já referido, era um elemento
às pessoas infectadas pelas endemias. crucial para as políticas sanitárias, dada a
As primeiras medidas sanitárias in- inexistência de dados seguros sobre a tra-
cluíram: realização de censos em todos os jetória da hanseníase em inúmeros estados
estados; registro dos doentes; estabeleci- brasileiros. Os arquivos de higiene traziam
mento de um regime de vigilância sanitária ligeiras referências sobre a penetração da
para os leprosos que permanecessem em enfermidade, sua expansão e o número de
domicílio; aplicação do óleo de chalmugra pessoas afetadas (MENDONÇA, 1923).
(na época a planta era conhecida como Como já salientado, não raro se associa
chaulmoogra); e construção de colônias a figura de Carlos Chagas à preferência por
agrícolas (SILVA ARAÚJO, 1927). Naquele medidas impositivas, voltadas à exclusão
momento, o tratamento era o recurso mais e reclusão dos hansenianos. A nosso ver,
empregado na campanha anti-hanseniana. este é um julgamento cediço. Na reforma de
Para o DNSP, o tratamento se combinava à Chagas, a preocupação com a prevenção e
profilaxia preventiva, pois esta visava evitar a educação foi um aspecto fundamental. O
a reclusão ou o isolamento obrigatório. O Regulamento do DNSP, de 31 de dezembro
tratamento precoce evitaria tanto a pro- de 1923, enfatizava a importância de uma
gressão da doença quanto o contágio. campanha de propaganda e educação
Além do desempenho de funções higiênica e o tratamento profilático dos
previstas no Regulamento da Legislação doentes em dispensários ou hospitais.
Sanitária, a Inspetoria de Profilaxia da Lepra Nos artigos 108 e 109 do Regulamento
e das Doenças Venéreas já constituía um especificavam-se as normas de divulgação
importante centro de estudos e pesquisas, da propaganda sanitária. Ao Serviço de
em cujos laboratórios buscavam-se criar Propaganda e Educação Sanitária competia
medicamentos destinados ao tratamento promover ampla divulgação das noções de

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higiene pessoal e pública. O Serviço ficaria Brasil no mesmo tempo de sua expansão
encarregado da organização de folhetos e por alguns países do continente europeu.
cartazes e da publicação de um pequeno Na França, desde 1917, os pesquisadores
jornal ilustrado, destinado à educação e sanitaristas da Fundação Rockefeller
popular. Caberia ainda a publicação pe- estabeleceram parcerias para a operação
riódica de um ou mais boletins destinados do Comité National de Défense contre la
a divulgar, entre os médicos e profissionais Tuberculose (MURARD; ZYLBERMAN, 1987,
de saúde publica, os recentes progressos da p. 257-281). Sob este ângulo, a atuação
cultura sanitária especializada. O artigo 173 da Fundação Rockefeller no Brasil foi em-
do Regulamento indicava a extensão das blemática. Ainda que não tivesse atuado no
atribuições que cabiam à Inspetoria: campo da hanseníase, ao aqui chegar, em
a Inspetoria de Profilaxia da Lepra promoverá 1916, a Fundação Rockefeller reforçou, no
larga propaganda de educação higiênica país, uma concepção de saúde pública ba-
popular no sentido de tornar conhecidas as seada na profilaxia de doenças infecciosas
condições de contágio da doença, o perigo e estimulou novos padrões de educação
do charlatanismo médico e farmacêutico sanitária e de formação de profissionais de
a ela referentes e os meios de prevenção
aconselhados (BRASIL, 1923). saúde pública (FARIA, 2007).

Segundo Sérgio Carrara (1996, p. O “exemplo paulista” e uma política


218-220), a base da profilaxia proposta maranhense de profilaxia
pelo Regulamento Sanitário assentava-se
sobre dois pilares: uma ampla campanha As discussões em torno de uma política
de propaganda e educação higiênica (indi- profilática centrada na exclusão compulsória
vidual e coletiva) e o tratamento profilático dos portadores da hanseníase eram anti-
dos doentes (o mais generalizado possível) gas. A Primeira Conferência Internacional
em dispensários e hospitais especializados. da Lepra, ocorrida em Berlim, em 1897,
Ou seja, visava, de um lado, impedir o contá- foi palco dessas lutas, no que diz respeito
gio através do diagnóstico precoce e trata- tanto à produção de conhecimentos sobre
mento do doente e, de outro, proteger os a doença quanto ao direcionamento das
indivíduos sadios, esclarecendo-os quanto políticas de saúde que possibilitaram a im-
aos modos de transmissão conhecidos na plantação, em alguns países, de uma política
época e alertando-os para os primeiros baseada na segregação. Numa época em
sintomas ou sinais. Daí a ênfase na junção que não havia medicamentos realmente
da propaganda à educação higiênica. O eficazes e não se conheciam com segurança
controle dos graves problemas sanitários os modos de transmissão da doença,
exigia a ação educativa e a adoção, pela Hansen propôs o isolamento como medida
população, de medidas preventivas de cui- necessária. Para os partidários desse es-
dado com o corpo e com o meio ambiente quema segregacionista, o combate à lepra
(FARIA, 2007). só seria possível através do isolamento dos
Na área da profilaxia, a educação sani- leprosos em suas colônias (PANDYA, 2003,
tária e a propaganda higiênica, conduzidas p. 161-177; MACIEL, 2004, p. 110).
nos dispensários, leprosários, asilos e No Brasil, dadas as discordâncias
hospitais por meio de cartazes, folhetos quanto aos melhores meios de ação, não
e artigos nos jornais e exposições, foram é de se estranhar que até a década de 20,
instrumentos poderosos. O combate não quando foi criado o DNSP, as iniciativas
apenas à hanseníase, mas também às relativas ao combate à hanseníase e às
doenças venéreas, ao câncer e à sífilis in- doenças venéreas tenham sido incipientes
cluía aspectos de educação sanitária. e raras. São Paulo representava uma refe-
A proposta de prevenção pela edu- rência neste aspecto. Para Monteiro (1987,
cação popular sofreu forte influência dos p.1-7; 2003, p.95-121), as políticas de saúde
padrões e métodos de trabalho dos higienis- implantadas no Brasil, no início do século
tas norte-americanos, que se difundiram no XX, no tocante à doença de Hansen, foram

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fortemente influenciadas pelo “modelo” las; falava-se em cotidiano saudável, em


adotado em São Paulo, que previa, entre ambiente campestre, em certa comunhão
outros pontos, o isolamento compulsório solidária entre os internados. Do sul ao
de todos os portadores de hanseníase em norte, prevalecia uma proposta de pequena
colônias agrícolas. Mesmo aqueles que não comunidade urbano-rural, para os hospitais-
possuíam a forma contagiosa da doença colônias de confinamento. A exemplo do
eram obrigados ao internamento. Segundo Hospital Colônia de Itapuã, em Viamão,
a autora, “o que nós chamamos de ‘modelo fundado em 1940, no Rio Grande do Sul,
paulista’ serviu como fonte de inspiração e, os internos, envolvidos na estrutura admi-
em maior ou menor extensão, determinou nistrativa das colônias, assumiam funções
uma política de profilaxia para a doença que dificilmente eles poderiam ocupar
em vários estados brasileiros” (MONTEIRO, entre os “normais” (MUSEU DE HISTÓRIA
2003, p.97). Enquanto o isolamento era uma DA MEDICINA DO RIO GRANDE DO SUL,
prática alternativa em alguns estados bra- 2007). A visão do médico maranhense Sálvio
sileiros – alternativa essa defendida por uma de Mendonça, que será apresentada mais
parte dos médicos presentes nos congres- adiante, ilustra bem essa postura até certo
sos nacionais e internacionais sobre lepra –, ponto idílica, sobre a organização social das
em São Paulo era uma medida compulsória colônias e a vida autônoma dos internos.
para todos os indivíduos diagnosticados Em São Paulo, a defesa do isolamento
com a doença. gerou conflitos e discussões científicas,
É importante frisar que na Primeira Con- institucionais e profissionais. Segundo seu
ferência Americana da Lepra, reunida em contemporâneo Vital Brazil, Emílio Ribas,
outubro de 1922, no Rio de Janeiro, foram à frente do Serviço Sanitário paulista, con-
firmadas algumas medidas de defesa ou de seguiu “impulsionar o movimento social em
proteção aos leprosos que não visavam o iso- favor dos leprosos” (VITAL BRAZIL, 1933, p.
lamento compulsório em colônias. Segundo 5). Ribas defendia o isolamento dos lepro-
Maciel (2004, p. 116), “São Paulo e Minas sos, mas era exigente quanto à boa organi-
Gerais eram dos poucos estados que apli- zação e administração dos leprosários e dis-
cavam a política de isolamento compulsório pensários. Em um de seus trabalhos, assim
com rigor, inclusive com casos de denúncia, escrevia: “acho indispensável o isolamento;
como forma de controlar a doença”. sou de parecer que essa medida só deve
Do ponto de vista das redes de relações ser executada, depois de feitas instalações
sociais, as autoridades pareciam não temer realmente capazes de oferecer conforto,
dissolvê-las ou fragilizá-las, quando exigiam higiene e cuidados médicos”. (RIBAS apud
o internamento de um doente. Não se MOURA, 1993, p. 1).
dava importância, segundo a autora, à ma- Quando Geraldo Horácio de Paula Souza
nutenção dos laços familiares. O impacto, – sanitarista e diretor do antigo Instituto de
ao longo de toda uma vida, sobre a auto- Higiene de São Paulo – assumiu a direção
estima dos internados e a criação de uma do Serviço Sanitário, em 1922, propôs uma
ou mais gerações de estigmatizados não reformulação dos serviços de saúde. Entre
se colocavam como desafios importantes outras providências, criou, no estado, a Ins-
de saúde pública. A história dramática de petoria de Profilaxia da Lepra. Seu primeiro
um hanseniano, nascido em Minas Gerais diretor, José Maria Gomes, avesso, como
e internado aos 16 anos, em 1934, é re- Paula Souza, ao isolamento hospitalar, traçou
produzida, de modo exemplar, a partir de um programa de tratamento ambulatorial
depoimento colhido em 2002 (MACIEL, da doença. Na época, foi criticado por suas
2004). O objetivo da internação e do isola- idéias. Paula Souza bateu-se pela revogação
mento compulsórios era evitar a propagação do art. 654 do Código Sanitário paulista, que
da doença a qualquer custo. tornava compulsório o isolamento do doente
Por outro lado, não há como negar o re- de lepra quer em domicílio, quer em hospital
curso a procedimentos menos desumanos, (MASCARENHAS, 1973, p. 446; CAMPOS,
por muitos defensores de colônias agríco- 2002, p. 105-106; FARIA, 2007, p. 60,86).

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Havia dissensões, como se disse. Em de Cururupu, dr. Attico Seabra; do dr. Hei-
1931, Francisco de Salles Gomes Jr. – médico tor Pinto, chefe do Posto de Profilaxia de
e especialista em hanseníase, do grupo opo- Caxias; do dr. Hamleto Godóis, chefe do
sitor a Paula Souza – assumiu a direção do Posto da capital, defendiam, de modo geral,
Serviço Sanitário. Do ponto de vista opera- a construção urgente de leprosários para
cional, aponta Yara Nogueira Monteiro (1987, confinamento dos doentes, o que evitaria,
p. 1-7), São Paulo concentrou nas mãos do segundo pensavam, a difusão da doença
diretor do Serviço Sanitário e do Serviço de pelo estado.
Profilaxia da Lepra amplos poderes de de- Mas mesmo a política de institucio-
cisão e definição de políticas e programas. nalização não atendia aos apelos do corpo
Ao ocupar o cargo, Salles Gomes procurou médico. Diferentemente de São Paulo, o
imprimir outros rumos à organização dos Maranhão não possuía serviços sanitários
serviços de combate à lepra. O formato ou assistência médica e hospitalar sistemáti-
institucional preponderante buscava verti- cos e eficazes. No tocante ao atendimento
calizar as ações sanitárias, separadamente aos leprosos, o Hospital dos Lázaros de
por doença. Gavião, na capital, a cargo da Santa Casa,
Assim, os serviços específicos seriam funcionava apenas como um lugar de re-
“o modelo” ou padrão típico de organização colhimento. Não havia tratamento ou medi-
sanitária, que acompanhariam, no plano camentos necessários. Em 1923 sobre esse
estadual, os rumos da atenção federal aos local escrevia o médico Sálvio Mendonça
serviços da lepra, tuberculose e malária (1923, p. 248; 253):
(FARIA, 2007). Salles Gomes era um fervo- As medidas de profilaxia ainda não podem
roso defensor do isolamento compulsório. ser rigorosas sobre esses doentes, pela razão
Houve medidas de segregação não apenas de não haver leprosário para recolhimento
para a lepra, mas também para tuberculose dos doentes ambulantes. O leproso mendigo
e doenças venéreas, durante toda a década e esfarrapado não se recolhe ao Hospital
dos Lázaros, verdadeiro cemitério de vidas,
de 30 (MONTEIRO, 1987, p.1-7; 2003). porque esse hospital não lhes oferece
As décadas de 40 e 50 trariam novos conforto, nem mesmo lhes facilita a entrada,
rumos: com o avanço dos medicamentos pois não existe lotação para isso, e esse
quimio-terápicos, as sulfonas, o controle da mesmo doente não pode ser obrigado ao
doença deixou de ser realizado, em grande isolamento domiciliário, porque nem casa
tem para o fazer. [...] Os leprosos do estado
medida, pelo isolamento e segregação dos fogem desse hospital, aterrados pelas suas
doentes (AVELLEIRA; NERY, 1998, p. 2-3; tradições e mesmo pelo seu estado atual.
EIDT, 2004, p.76-88; MACIEL, 2004). Ressur-
giam, então, as propostas de tratamento nos Já em São Paulo, durante toda a década
ambulatórios, como pregavam Paula Souza de 30, foram construídas várias colônias
e José Maria Gomes. para leprosos, com apoio também de par-
É possível dizer, com base em relatórios ticulares (MONTEIRO, 2003, p.95-121). É
e trabalhos científicos publicados no importante chamar a atenção para o fato
Maranhão no início do século XX, que as de que, em São Paulo, o número de casos
autoridades sanitárias daquele estado ten- registrados, em parte devido à melhor
taram seguir o caminho adotado por São qualidade da produção de estatísticas, era
Paulo, mas com menos rigor em relação aos considerado alarmante no início dos anos 20
doentes que supostamente apresentassem e continuou a crescer durante a década de
a forma contagiosa da doença. A questão 30. Essas condições por certo suscitavam o
do isolamento compulsório era discutida autoritarismo do governo paulista.
entre médicos e autoridades maranhenses.
Os relatórios do diretor do Serviço de Sa- A hanseníase no Maranhão: o drama na
neamento e Profilaxia Rural no Maranhão, periferia da nação
dr. Cássio Miranda; do chefe do Serviço de
Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, Historicamente, quanto mais nos afas-
dr. Sálvio Mendonça; do chefe do Posto tamos dos tempos atuais, menos confiáveis

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 167-190, jan./jun. 2008 177
Castro Santos, L.A. de, Faria, L. e Menezes, R.F. Contrapontos da história da hanseníase no Brasil

são as estatísticas epidemiológicas. São, detectados, áreas “de grande freqüência e


portanto, sempre sujeitos à revisão os dados grande propagação” (MENDONÇA, 1923,
disponíveis para a pesquisa historiográfica. p.251-252): São Luiz, com 189 leprosos
Magalhães e Rojas (2005) indicam que, no recenseados (em uma população total de
final do século XIX, teriam sido registrados 60 mil); Anajatuba, com 87 doentes em uma
1.640 casos de lepra no país. Se considerar- população de 10 mil habitantes, “sendo o
mos esses dados, os estados do Maranhão, mais intenso foco”; Viana, com 94 doentes e
Pará e Amazonas concentravam 14% dos 23.000 habitantes; Macapá, com 41 leprosos
casos totais, com uma população, na época, e 7.000 habitantes, “o maior centro de lepra
de 6% em relação aos outros estados bra- na zona do Recôncavo”; e Caxias com 48
sileiros. Chamam a atenção, segundo as doentes, com uma população aproximada
autoras, os dados estatísticos de 1926, que de 50.000 habitantes (AZEVEDO, 1951, p.
apontam para um quadro agravante para 27). Para o total de municípios recenseados,
aquela região. Neste ano, aqueles estados havia 501 leprosos, sendo 329 homens e
concentravam 13% dos casos totais de le- 172 mulheres. Deste total, 58% dos casos
pra, mas representavam agora apenas 1% eram da forma nervosa, 16% da forma
da população brasileira. cutânea e 25% da forma mista (MENDONÇA,
Até a criação do DNSP, não havia, a 1923, p. 4-5).
rigor, uma política federal para os estados, No início do século XX, as baixadas
com exceção dos serviços de profilaxia rural. dos Rios Mearim e Pindaré e o recôncavo
Nos primeiros anos da década de 20, seriam de uma pequena parte da costa e do vale
cerca de mil os hansenianos no Maranhão. A do Rio Itapecuru eram considerados verda-
maioria dos municípios não tinha condições deiros focos de contágio. “Porque aí foram
de cuidar efetivamente dos problemas os primeiros pontos da imigração (sic)
da saúde pública; basicamente, só havia negra”, afirmava um estudioso em 1923, “o
serviços sistemáticos e regulares na capital fato é que a lepra acompanha a trilha dos
do estado e em alguns municípios atendidos rios e das costas” (MENDONÇA, 1925, p.
pelos postos do Serviço de Saneamento e 251). Essas regiões, maiores centros de
Profilaxia Rural. O perigo de alastramento agricultura e lavoura do Maranhão, com
da doença de Lázaro mobilizou as autori- pequenos núcleos de habitações rurais,
dades sanitárias e políticos na busca de praticamente não possuíam serviços de
soluções. O estudo da história pregressa e higiene ou assistência médica e hospitalar.
da distribuição geográfica da hanseníase no Na região do Rio Mearim tomou a moléstia
Maranhão, nas primeiras décadas do século grandes proporções, em localidades como
XX, era falho. Segundo Sálvio de Mendonça Viana, Matinha, Penalva, Monção e São
(1923, p. 8), delegado maranhense na Luiz Gonzaga. Nessa região, em que viviam
Conferência Americana da Lepra, “não nos quase 20 mil pessoas, foram recenseados
coube saber de quando apareceu a molés- cerca de 150 hansenianos.
tia no Maranhão, de quando começa ali a Um dos focos mais ativos da moléstia,
sua invasão [...] degradante, no espetáculo que se disseminava por todo o Maranhão,
funambulesco de suas mutilações”. era representado pela terra natal de Nina Ro-
Apesar da carência de informações drigues – Anajatuba. “É um lugarejo sórdido
precisas sobre o número de doentes e a ex- pela sua localização, por suas condições
tensão da propagação da doença, o médico telúricas, por seus meios de comunicação,
Sálvio de Mendonça fornece alguns dados por suas condições de vida e de trabalho”
referentes a municípios maranhenses. (MENDONÇA, 1923, p.12). A migração
Segundo ele, em 1923, o contingente de interna, de maranhenses e nordestinos,
leprosos no estado, em torno de mil pes- contribuía para o alastramento da doença,
soas, era registrado em função da procura com maior ou menor intensidade. Caxias e
aos dispensários. Naquela época, apenas São Luiz eram importantes centros regio-
onze municípios haviam sido recenseados, nais afetados pela enfermidade. Em 1922, o
mas cinco focos principais podiam ser discurso de Sálvio de Mendonça, na Confe-

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rência Americana da Lepra, assim como de firmados entre a Rockefeller e os governos


outros delegados, alertava as autoridades dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo
sanitárias para a necessidade de uma pro- e Minas Gerais, além do Distrito Federal. O
filaxia sistematizada de controle da doença. Maranhão foi o único estado nordestino a
Um dos estudiosos da história da medicina receber auxílio da Fundação, antes de 1920,
no Maranhão sentenciava: o péssimo estado que orçou em pouco mais de 16 mil dólares,
de salubridade do Maranhão dava, mesmo em valores correntes da época. No entanto,
à sua capital, uma má fama, de cidade suja como já salientado anteriormente, as con-
e insalubre (MEIRELES, 1993). dições complexas de controle da lepra,
As estatísticas e relatórios sobre a enfermidade endêmica cuja sintomatologia,
região, na época, apontavam uma situa- profilaxia e tratamento não eram conhecidos
ção lastimável, sendo a precariedade das com segurança, desestimulavam os inves-
condições de saúde um dos traços mais timentos federais ou a cooperação interna-
adversos. Os delegados da Conferência cional. A verba destinada pela Rockefeller
Americana da Lepra já conheciam os resulta- ao Maranhão foi direcionada, basicamente,
dos de um levantamento realizado em 1919 para estudos e campanhas de prevenção da
e 1920 pela Junta Sanitária Internacional da malária, que incluíam o levantamento sani-
Fundação Rockefeller, com a colaboração tário realizado em todo o estado, entre 1919
de médicos e autoridades brasileiros. Foi e 1920, coordenado pelo dr. Ático Seabra,
justamente um especialista maranhense e especialista em lepra (CASTRO SANTOS;
delegado na citada conferência, o dr. Ático FARIA, 2003).
Seabra, o coordenador do health survey Desde os primeiros tempos republica-
promovido pela Rockefeller e que detectou, nos, existia naquele estado um débil movi-
além do “problema alarmante” da lepra em mento favorável à criação e organização
muitas regiões do estado, as taxas mais altas de serviços de saúde. Um Serviço Sanitário
de prevalência da ancilostomíase de todo o estadual reuniu as antigas “repartições” de
país. O levantamento denunciava, ainda, a higiene, pela Lei nº. 301, de 19/04/1901.
difusão da malária, em sua forma mais per- Ainda no governo de Colares Moreira (1902-
niciosa, por todo o interior. A peste bubônica 1906), vice-governador empossado após
tomara de assalto a capital ainda no início renúncia do governador eleito, uma primeira
da centúria, mas havia sido debelada; no medida legislativa foi a aprovação da Lei nº.
entanto, por ocasião do levantamento sani- 322, de 26 de março de 1903, que previa a
tário, havia um surto de febre amarela e a construção de um hospital para leprosos.
varíola se tornara endêmica (FUNDAÇÃO A história maranhense reserva sucessivos
ROCKEFELLER, 1919-1920; MEIRELES, episódios de adiamento de medidas con-
1993, p. 55). cretas, quando outras enfermidades se an-
tepunham à lepra, tornando-se prioridades
As primeiras medidas profiláticas. para a política administrativa.
A terapêutica Desde outubro de 1903, multiplicaram-
se as notificações dos casos de peste
A impossibilidade de a maioria dos bubônica em São Luís. A epidemia provocou
estados enfrentar os problemas de saúde, a interferência da Diretoria Geral de Saúde
sem o apoio material e financeiro do governo Pública, que enviou do Rio de Janeiro
federal, contribuiu para que este interferisse primeiramente um bacteriologista de Man-
de forma direta apenas nos momentos de guinhos, Henrique Marques Lisboa, e mais
surgimento ou recrudescimento de crises tarde dois outros higienistas, auxiliados
epidêmicas, abrindo caminho, por outro por médicos vindos de São Paulo e, nas
lado, para o estabelecimento de parcerias – palavras de um estudioso, por “um grupo
tanto estaduais como federal – com a agên- de apoio da terra” (MEIRELES, 1993, p.
cia filantrópica de atuação mais expressiva 67). Os trabalhos de controle da epidemia,
na época, no setor da saúde pública, que finalmente debelada em maio de 1904, abri-
era a Fundação Rockefeller. Acordos foram ram caminho para a primeira reorganização

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do Serviço Sanitário (Lei nº. 358, de 9 de pelo estabelecimento, em São Luís, ainda
junho de 1904), cuja direção coube a um em 1919, de uma filial de Manguinhos,
dos integrantes da equipe médica paulista, sob a direção do médico bacteriologista
Augusto Militão Pacheco (MEIRELES, 1993, Cássio Miranda; e pela inauguração de um
p. 68). Nos governos seguintes, apesar Dispensário da Lepra e Moléstias Venéreas.
de a demanda de óleos vegetais, a partir O Serviço de Profilaxia não conseguiu,
da Primeira Guerra Mundial, ter ativado a entretanto, levar adiante o projeto de cons-
economia do babaçu no estado, sem contar trução de um leprosário, “na margem
certo dinamismo da produção de algodão esquerda da foz do Ibacanga” (MEIRELES,
e das fábricas de tecidos (AZEVEDO, 1951, 1993, p.72). As frentes de trabalho contra
p. 26), a saúde pública não chegou a re- a lepra não atraíam, na década de 20, a
presentar uma prioridade para as sucessivas atenção que outras moléstias recebiam, por
administrações. parte do governo federal.
A frágil máquina administrativa do Note-se que as comissões de Profilaxia
estado só se movia diante da emergência Rural, em vários estados, são anteriores
de um surto epidêmico. Na ausência de à própria criação, no Distrito Federal, do
epidemias, pouco se fazia. No governo de Departamento Nacional de Saúde Pública:
Luís Domingues (1910-1914), a literatura desde abril de 1919, operava a Comissão de
indica, como feitos relevantes, a criação de Profilaxia Rural no Maranhão, sob a direção
um Instituto de Assistência à Infância, de um do sanitarista Raul de Almeida Magalhães
hospital anexo (chamado Moncorvo Filho) – um dos fundadores da Sociedade Bra-
e de um curso de Enfermagem, realizado sileira de Higiene –, designado pelo governo
no Instituto de Assistência e dirigido por federal para assumir em São Luís tanto a
duas enfermeiras inglesas, especializa- coordenação daquela Comissão, como a
das em obstetrícia – Margareth Laurie e Comissão de Febre Amarela. Mais ainda,
Gertrudes Colet (MEIRELES, 1993, p. 65-74). num procedimento típico da atuação federal
Anos depois, foram a ameaça da chegada nos rumos da saúde dos estados, Maga-
ao Maranhão da “gripe espanhola” e a lhães acumulou também (de julho de 1919
ocorrência de um surto de febre amarela a fevereiro de 1920) a chefia do Serviço de
e de novos focos de peste bubônica que Higiene do Estado do Maranhão (MIRANDA,
atraíram alguma atenção governamental à 1925, p.122).
saúde pública. A Comissão de Profilaxia da Febre
O governador Urbano Santos, figura de Amarela foi extinta ainda em 1920, mas o
expressão no jogo político nacional, ministro governo organizou nova Comissão, para
da Justiça do presidente Delfim Moreira a peste bubônica, em 1921. Em outubro
(1918-1919), eleito governador para o perío- de 1922 registrava-se o último caso, na
do 1918-1922, não dispunha, no entanto, capital do estado (MIRANDA, 1925, p.122-
de um esquema de forças políticas coesas, 124). Houve alguns anos depois um surto
no Maranhão, que sustentassem um plano epidêmico de varíola em várias regiões do
de modernização. Se a ação do Estado, no interior e na capital, durante o governo de
plano sanitário, teve alguma expressão em Godofredo Mendes Viana (1922-1926). A
seu governo, isto deveu-se à presença cres- epidemia foi debelada após uma campanha
cente dos aparelhos do governo central em de vacinação, conduzida pela filial do Insti-
todo o Norte, inclusive no Maranhão. tuto Oswaldo Cruz, em São Luís (MEIRE-
Desde 1918, mas particularmente após LES, 1993, p. 65-74). Em 1923, reativou-se
a criação do Departamento Nacional de a campanha antiamarílica nos estados do
Saúde Pública, em 1920, o governo ma- Norte e Nordeste por uma Comissão de
ranhense foi estimulado a adotar algumas Febre Amarela, organizada pela Fundação
medidas no campo sanitário, pautadas nas Rockefeller; chegava ao Maranhão, em
disposições do novo órgão federal. Esse dezembro daquele ano, para chefiar os
cenário foi decisivo para criação de um serviços de combate à doença, o dr. José
Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural; Figuerôa, encarregado pela Fundação

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Castro Santos, L.A. de, Faria, L. e Menezes, R.F. Contrapontos da história da hanseníase no Brasil

(MIRANDA,1925, p.83). Em alguns dispen- Durante a administração do governa-


sários da capital, que tratavam da lepra e dor Godofredo Mendes Viana, o Serviço
doenças venéreas, cadastraram-se as mere- de Saneamento e Profilaxia Rural esteve
trizes para o tratamento antivenéreo, por sob a chefia do médico Cássio Miranda.
meio do trabalho de enfermeiras visitadoras No decorrer de 1923, segundo Miranda, foi
(MIRANDA, 1925, p.247). Havia, igualmente, restabelecida a “normalidade” dos serviços
dispensários no interior do Estado. de saneamento e profilaxia rural, que haviam
Não há menção ao local de formação sido afetados pelos trabalhos de combate
das enfermeiras visitadoras; talvez tivessem à peste bubônica (MIRANDA, 1925, p.241).
sido treinadas nos cursos intensivos man- Deve-se notar, também, que o serviço da
tidos pelas inspetorias estaduais, voltadas febre amarela, a cargo da Rockefeller, per-
para a profilaxia da lepra e das doenças mitia uma troca de experiências entre profis-
venéreas, em conformidade com as dis- sionais que destoavam do meio cultural e
posições do DNSP; deve-se descartar a científico “atrasado” da capital, lembrando a
possibilidade de terem se originado dos referência às futilidades de um meio atrasa-
primeiros núcleos de ensino da Enfermagem do, feita por Filogônio Lisboa (1923, p.141).
no Maranhão, junto ao Instituto de Assistên- Nesses termos, a referência à “normalidade”
cia à Infância, em São Luís. Uma vez forma- dos serviços, festejada por Miranda, não era
das, essas enfermeiras eram empregadas de fato uma frase auspiciosa.
no atendimento hospitalar, particularmente Sálvio de Mendonça chefiava o Serviço
na área maternal e infantil, como auxiliares de Profilaxia da Lepra e das Doenças
de clínicos (LISBOA,1923, p. 142-143). No Venéreas do Maranhão, subordinado ao
entanto, não se pode descartar ter havido Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural.
o aproveitamento de algumas profissionais Seu relatório dá conta de várias medidas,
formadas pela nova Escola de Enfermeiras algumas novas, outras rotineiras. Foram apli-
e Parteiras do Maranhão, criada no início cadas 2.263 injeções do óleo de chalmugra,
de 1922 por um grupo de médicos e tendo distribuiu-se sistematicamente o preparado
entre seus dirigentes e professores nomes em gotas, foram melhoradas as condições
que atuavam no campo da lepra, como higiênicas do Hospital dos Lázaros, aumen-
o médico Filogônio Lisboa. Nessa nova tada a vigilância sanitária em estabelecimen-
escola, não se privilegiava apenas o en- tos comerciais, domicílios e colônias. Foram
sino de noções de cirurgia e obstetrícia. O tomadas, ainda, providências para impedir
projeto era formar enfermeiras hospitalares com “medidas moderadas” as profissões de
(LISBOA, 1923, p.143), mas houve diploma- alguns doentes que pudessem pôr em risco
das que prestaram serviços ao dispensário a saúde da população.
de lepra e doenças venéreas, anexo ao Hos- Havia um projeto de construção, pelo
pital da Profilaxia, bem como a um Hospital governo do estado, de uma leprosaria
de Doenças Rurais, aberto em 1921, nas em São Luís. Aquiles Lisboa – higienista,
antigas instalações do Hospital Militar em botânico, leprólogo e eugenista, figura de
São Luís (MIRANDA, 1925, p.222). destaque nos meios científicos nacionais,
Um elemento importante dos traba- membro da Comissão Central Brasileira de
lhos de saúde pública, as atividades da Eugenia e mais tarde governador do Estado
enfermagem nos dispensários de lepra e – chamava a atenção para a ausência, em
moléstias venéreas não se resumiam em São Luiz, de um abrigo de isolamento: “em-
aplicar injeções e curativos, estendendo-se bora incompleto, primitivo mesmo, sempre
ao que então se denominava o campo da pode abrigar melhor tais infelizes. A Santa
Higiene. Data dessa época a organização Casa de Misericórdia tem [...], segundo
de uma Associação das Enfermeiras do somos informados, as suas enfermarias
Maranhão, pelas enfermeiras diplomadas repletas” (LISBOA, 1928, p.37).
nos dois cursos ligados ao Instituto de À frente dos serviços da lepra, Sálvio
Assistência à Infância e à Profilaxia Rural de Mendonça tinha uma postura de espe-
(LISBOA, 1923). cialista, não a de um intelectual, ao modo

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de Aquiles: se este pontificava sobre a doentes maranhenses: “nos lazaretos da


lepra “como o mais perigoso dos inimigos ilhas Filipinas e de Havaí, [...] domina a preo-
da pátria” (PORTELA NUNES, 2000, p. cupação do alimento sadio, dos exercícios
293), Sálvio tinha propostas concretas: físicos, do asseio corporal, do cuidado para
seus escritos e palestras não se limitavam que não ocorram infecções secundárias
a criticar um projeto de construção de um nas lesões” (PINTO, 1925, p.272). Como
asilo-leprosário, um prédio com pavilhão chefe do posto rural em Caxias, a postura
que, a seu ver, só faria sentido se abrigasse de Heitor Pinto em relação às verminoses
um pequeno número de doentes. Em função e, em especial, a ancilostomíase destoa
de seu alto número, o Maranhão necessitava da visão até certo ponto otimista sobre o
de uma instituição “em tipo colônia, para mil serviço da lepra.
e muitos leprosos, do conforto dos campos, São quase insuperáveis as dificuldades que
em vivendas familiares, no exercício de suas se encontram para a consecução [...] das
próprias atividades. A colônia agrícola dá providências profiláticas [...] de proteção
independência coletiva” (MENDONÇA, do homem contra a infestação [...] e de
1925, p.254). Sobre o local ideal para o proteção do solo contra a contaminação.
[...] Essa infestação entre gente que nunca
empreendimento: faz uso do calçado é contínua, é diária, é
O sítio Sá Viana, já destinado para essa habitual; enquanto que a medicação é rara
leprosaria [...], presta-se magnificamente e espaçada. Nesse círculo vicioso, vence a
a uma colônia agrícola. Completamente endemia (PINTO, 1925, p.198).
isolado de São Luiz pelo rio Bacanga, for-
mando quase que uma pequena ilha por um Em contraposição, a atitude é de alento
afluente desse rio e a Baía de São Marcos diante do “movimento altruístico e dignifi-
(MENDONÇA, 1923, p.19). cante” da população de Caxias, para dotar
a cidade de um abrigo para assistência
As atividades do Serviço de Profilaxia
aos leprosos e para o trabalho de profilaxia
da Lepra, de comunicação com o público,
(PINTO, 1925, p. 273).
contribuíram para aumentar a freqüência
de doentes nos seis dispensários do es-
O Maranhão no início do período
tado, sobretudo no Dispensário Central,
getulista
dirigido pelo médico Filogônio Lisboa, e no
dispensário da Santa Casa de Misericórdia, Os primeiros anos da Revolução de 30
chefiado pelo médico Antonio Vieira de foram marcados, no Maranhão, pela insta-
Azevedo. Note-se que esses estabelecimen- bilidade política e paralisia administrativa,
tos eram, também, dedicados à chamada por força da indicação federal de governos
profilaxia “antivenérea”, não se limitando provisórios, chefiados por interventores
aos portadores do “mal-de-lázaro”. Nos sem respaldo na política regional. A lite-
dispensários de Caxias e Viana funcionava ratura destaca a eleição, pela Assembléia
um serviço de assistência aos leprosos, sob Constituinte de 1935, do “sábio” Aquiles
a orientação do chefe do posto de profilaxia Lisboa (MEIRELES, 1993, p. 77; COSTA
rural, com um enfermeiro e uma enfermeira FILHO, 1964 p.13-18), que por ser ”isento
para atendimento aos doentes (MIRANDA, de paixões políticas” teria obtido o apoio
1925, p.79-84). consensual. Na verdade, justamente a falta
Os médicos Heitor Pinto e Ângelo Leite de laços políticos fortes, fosse com a União
eram, respectivamente, os inspetores-chefes Republicana Maranhense, fosse com o
dos postos rurais, agregando as funções de Partido Republicano, tornou-o incapaz de
chefia dos dispensários e dos postos. No proceder à indicação de cargos e prebendas
relatório de Heitor Pinto, evidencia-se a pre- sem enfrentar oposições, que acabaram
cisão das informações de caráter histórico por lhe mover um impeachment em junho
e censitário (realizou-se um recenseamento de 1936 (MEIRELES, 1993, p. 77; PORTELA
dos leprosos na região), bem como a aten- NUNES, 2000, p. 240). Aquiles Lisboa foi su-
ção à literatura sanitária estrangeira. Dela se cedido por Paulo Martins de Souza Ramos,
extraem ensinamentos para a profilaxia dos com bom trânsito entre as facções estaduais

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dos “peerristas” e “unionistas”. Governou mantinha nada menos que nove órgãos – um
até o início do Estado Novo; escolhido por centro de saúde, um pronto-socorro, um
hospital geral, um hospital infantil, três outros
Vargas, permaneceu como interventor fe- hospitais especializados, uma maternidade
deral durante oito anos (1937-1945). e um isolamento, enquanto pelo interior se
O novo governo consolidou as ações de espalhavam postos de saúde nas principais
saúde no espírito das propostas de João de cidades (MEIRELES, 1993, p.78-79).
Barros Barreto, no Distrito Federal. Foi aber- No entanto, as iniciativas, por certo
to um Centro de Saúde na capital e novos tardias, não impediram o aumento de casos
postos de saúde espalharam-se pelo interior, de lepra no Maranhão. No final dos anos 30
que se somavam aos que existiam desde a e início da década seguinte, eram cerca de
Primeira República. No Centro de Saúde, 1.800 doentes de Hansen, uma freqüência de
em São Luís, passou a funcionar a Diretoria um por mil habitantes. Praticamente dobrou
Geral de Saúde Pública estadual. O Hospital o número de portadores no estado (RAMOS,
de Doenças Rurais foi denominado de Hos- 1940). Em parte, deve-se assinalar que o
pital Geral do Estado. Foram abertos hos- melhor preparo na ”melindrosa tarefa” de
pitais para alguns dos chamados “flagelos recensear os doentes, tarefa assumida em
sociais” da época, como a tuberculose, as Caxias, em censo cuidadoso, pelos próprios
doenças mentais e, com atenção especial, médicos do Posto Rural (PINTO, 1925, p.197;
a lepra (MEIRELES, 1993, p. 78; PORTELA 367), provavelmente resultou nas estatísticas
NUNES, 2000, p. 240). Em outubro de 1937 mais elevadas não só naquele município,
fundou-se a colônia-hospital do Leprosário mas em todo o estado, pondo a nu uma
do Bonfim, localizada em “local paradisíaco” realidade que jazia parcialmente encoberta.
da Praia da Guia, na ponta do Bonfim, total- Nas palavras do médico Heitor Pinto (1925,
mente isolada da cidade. A Colônia do Bon- p. 367): pondo os recenseadores “na pista de
fim chamou-se, mais tarde, Aquiles Lisboa, vários outros casos até então ignorados”.
médico considerado por muitos o pioneiro
do tratamento da hanseníase no Maranhão Os anos 40 e o Serviço Nacional da
(PINHO, 2007, p.4).
Lepra
Na verdade, os progressos conquista-
dos no governo Paulo Ramos, que permiti- Nos anos 40, os processos de centrali-
ram à Santa Casa de Misericórdia reduzir zação política e administrativa se aceleraram
ou compartir suas responsabilidades no to- sob o comando-maior de Vargas, no interior
cante ao isolamento e cuidado dos leprosos, do Ministério Capanema, entre 1934 e 1945
doentes mentais e tuberculosos, deviam-se (PAIVA, 2004). Nessa medida, os contornos
em larga medida ao amadurecimento do das políticas de saúde nos estados do Norte
debate sanitário no próprio estado, isto é, se conformavam, progressivamente, à legis-
a certa massa crítica constituída desde os lação e à política sanitária geradas na Capital
anos 20 não somente no estado, mas em da República. A legislação federal sobre lepra
todo o Norte e Nordeste do país. A Conferên- era, então, a que constava no Regulamento
cia Americana da Lepra e os Congressos do antigo Departamento Nacional de Saúde
Brasileiros de Higiene, já mencionados, Pública, aprovado pelo Decreto n. 16.300 de
foram um exemplo dessa efervescência do 1923, conhecido como reforma Carlos Cha-
debate, em especial sobre a hanseníase. gas. Posteriormente, fizeram-se modificações
Nessa medida, parece-nos discutível que a importantes na organização da saúde pública
literatura destaque o “pioneirismo” de Aqui- federal, não havendo, entretanto, na parte
les Lisboa; mais pertinente seria a referência referente à regula-mentação da lepra, atuali-
a um grupo pioneiro, no qual militavam zação legislativa substancial. Mas em alguns
também Sálvio de Mendonça, Heitor Pinto, estados foram decretados novos regulamen-
Filogônio Lisboa e Ático Seabra, entre out- tos sobre a lepra, sendo uns incluídos nas
ros. Meireles faz um balanço do período: reformas dos departamentos estaduais de
na administração de Paulo Martins de saúde e outros elaborados especificamente
Souza Ramos [...] só em São Luiz o Estado para o mal de Hansen.

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Com a reorganização do Departamento Não obstante, houve uma atenção


Nacional de Saúde, em 1941, foi criado genuína à formação de recursos humanos
o Serviço Nacional da Lepra. Neste ano, para a prevenção e controle, além da
Gustavo Capanema, ministro da Saúde do ênfase na educação sanitária. O Serviço
Governo Vargas, propôs alterações na es- Nacional da Lepra tornou-se responsável
trutura do Ministério, procurando, segundo pela formação de técnicos especializados. A
Hochman e Fonseca (2000, p. 180), “tornar prevenção por meio da educação higiênica
mais centralizada a atuação dos órgãos representou a pedra de toque das políticas
federais de saúde nos estados e criando públicas. Nesse particular, aqui como em
para tanto os serviços nacionais de saúde”. outros países, a importância da educação
Vários serviços foram organizados para sanitária era enfatizada pelas missões inter-
combate não apenas à lepra, mas também nacionais da Fundação Rockefeller. Wilson
à tuberculose, à febre amarela, à malária, George Smillie, membro do International
ao câncer e à peste. Nessa década, quando Health Board da Fundação Rockefeller e
a leprologia cada vez mais se instituciona- parceiro do jovem parasitologista Samuel
lizava como especialidade, iniciou-se uma Pessoa, na Faculdade de Medicina de São
política nacional de controle da doença Paulo, desde a década de 20 já afirmava
no país. A criação dos Serviços Nacionais que “um programa de educação sanitária
ampliou substancialmente a esfera de ação requer a cooperação da população e só
e autoridade do governo federal, dando obterá sucesso se tiver a aprovação total da
maiores poderes para intervir nos estados. comunidade” (FUNDAÇÃO ROCKEFELLER,
A partir desse momento, todos os serviços 1919). O objetivo era incentivar também, por
de higiene, de saneamento e de profilaxia meio da propaganda, a prática de exames
rural dos estados estavam sob o controle periódicos, de caráter preventivo.
efetivo do governo federal. Apesar da criação dos serviços de
Ao Serviço Nacional da Lepra caberia saúde e da maior participação federal nos
coordenar o plano de combate em todo o trabalhos de profilaxia rural, ainda eram
país, constituindo-se, portanto, em centro falhos os dados sobre a distribuição geo-
orientador, coordenador e fiscalizador das gráfica da hanseníase no país. O próprio
atividades dos serviços públicos e privados Serviço Nacional da Lepra, em relatório so-
de prevenção, diagnóstico precoce e as- bre a situação da doença no Brasil, dizia ser
sistência médica; a ele cabia também realizar difícil “apresentar dados numéricos reais”,
estudos e inquéritos sobre a doença; selecio- em virtude de não haverem sido recensea-
nar os casos para isolamento institucional ou dos todos os municípios brasileiros. Desde
domiciliar; fiscalizar o tratamento no dispen- 1940, o Serviço Nacional da Lepra vinha
sário dos doentes não contagiantes; exercer organizando um censo, com as fichas de
a vigilância sanitária assídua dos doentes leprosos e comunicantes. Tal tarefa contava
isolados em domicílio e das crianças interna- com o apoio dos Serviços Estaduais de Pro-
das em preventórios; e, finalmente, recambiar filaxia da Lepra (AGRÍCOLA, 1943).
os doentes procedentes de outros distritos O censo, prática já adotada nos serviços
sanitários que viessem a residir na área de de profilaxia antes de 1930, foi uma das
ação dos centros de saúde, sem a permissão primeiras medidas do Serviço Nacional da
das autoridades sanitárias (BRASIL, 1944, Lepra. Conhecidos os doentes, localizados
p. 83-85). Neste ponto devemos remeter os e classificados, do ponto de vista clínico e
leitores às considerações realizadas anterior- profilático, dar-se-ia início às medidas para
mente, sobre o autoritarismo das disposições solução dos casos, por meio do isolamento
legais, desde a reforma Carlos Chagas. dos casos contagiantes, além de indigentes
Não resta dúvida de que os rudimentos de e mutilados, “não só por constituírem
conhecimento científico sobre a hanseníase, espetáculo repulsivo e antiestético, como
naqueles tempos, abriam pouco espaço à também, um dever sob o ponto de vista da
superação das práticas de confinamento assistência social” (AGRÍCOLA, 1944, p.7).
adotadas em todo o mundo. Como se vê, ainda que a visão oficial ado-

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tasse o ponto de vista da assistência social, buco, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande
nos moldes franceses e anglo-saxônicos, do Sul, um leprosário. No Leprosário de
o estigma ou a repulsa, lá como cá, cami- Bonfim, no Maranhão, havia 193 internados,
nhavam juntos. em 1942. A atuação do Serviço Nacional da
O Maranhão constituía uma das poucas Lepra nos estados era um fator determinante
exceções, com boa qualidade das estatísti- para prevenir situações de abandono ou
cas. Também era o caso do Distrito Federal negligência, como ocorria no Amazonas.
e dos estados do Rio Grande do Norte, Um relatório do médico João Batista Risi,
Alagoas, Espírito Santo, Rio de Janeiro e enviado pelo serviço federal a Manaus, em
São Paulo, que tiveram seus municípios agosto de 1942, para inspeção das colônias
totalmente recenseados; mas os estados do Aleixo e Paricatuba, encontrou os enfer-
restantes careciam de dados completos. mos “em situação de verdadeiro degredo”,
No estado do Amazonas – uma das áreas com precário atendimento médico e total
mais afetadas pela lepra – somente seis, dos isolamento de Manaus (AGRÍCOLA, 1943,
28 municípios, haviam sido recenseados, p.65). Outra era a situação, por exemplo, em
em 1942. O Ceará, outro exemplo de altos São Luís do Maranhão, onde o Serviço de
índices da doença, possuía 52 municípios Profilaxia estadual contava com dois médi-
sem censo, num total de 79. As diferenças cos para a Colônia e Dispensário, ambos
nos dados coletados eram bastante signifi- com curso de lepra, ou na Colônia gaúcha
cativas entre os estados de maior índice de de Itapuã, com um médico-chefe residente
contaminação: São Paulo, 21.270; Minas (AGRÍCOLA, 1943, p.78).
Gerais, 10.227; Pará, 4.931; Amazonas, O número de preventórios também
2.127; Paraná, 1.747; Ceará, 1.403; Mara- variava de um estado para o outro: Minas
nhão, 1.267; Goiás, 1.154. Dentro de cada Gerais possuía três unidades; São Paulo
região, não se encontrava, tampouco, um e Espírito Santos tinham dois cada um
padrão uniforme. Se, nas regiões hoje e os outros estados contavam com um
conhecidas como Norte e Meio Norte, o preventório para assistência às crianças,
número de doentes fichados até 1942 era filhos dos hansenianos. No Maranhão, o
elevado, havia uma exceção, que era o Piauí. Educandário Santo Antonio, mantido pela
No Nordeste, ante a situação aparentemente Sociedade de Assistência aos Lázaros e
favorável de estados como a Bahia e o Rio Defesa Contra a Lepra, abrigava 13 crian-
Grande do Norte, eram elevadas as estatís- ças. Os preventórios eram vistos, a partir
ticas para Ceará e Pernambuco. No Centro- do (des)conhecimento científico da época,
Oeste, Goiás tinha o triplo de doentes do como uma parte importante do programa de
Mato Grosso. No Sul, o Paraná apresentava profilaxia. Para o Serviço Nacional da Lepra,
um número mais elevado de doentes do que o afastamento das crianças do convívio
o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nesta com os pais, ou dos parentes portadores
ordem. Se havia alguma uniformidade, esta da doença, seria uma forma de assegurar
era a de um padrão alto de ocorrências no o controle da doença em médio prazo. O
Sudeste, não fosse o caso excepcional – nome geralmente dado a essas institui-
elevadíssimo – de São Paulo (AGRÍCOLA, ções, de “educandário”, tornava manifesto
1943, p. 78). o intuito dos poderes públicos de assistir
O número de leprosários e o de doentes ou educar aquelas crianças; em um dos
internados também variavam de estado casos, em Minas Gerais, o preventório bus-
para estado. Em 1942, São Paulo possuía cava explicitamente o “aprendizado técnico-
o maior número de unidades: Pirapitinguí, profissional” para os internos (AGRÍCOLA,
com 2.371 internos; Padre Bento, com 891, 1943, p. 62).
Aimorés, com 1.272 internos, Santo Ângelo, Em 1943, havia em todo o país 36
com 1.779 e Cocais, com 1.854 internações. leprosários, compreendendo colônias
Minas Gerais, Pará e Goiás tinham três le- agrícolas ou hospitais-colônias, hospitais
prosários cada um, Amazonas e Ceará pos- e asilos, além de 50 dispensários distribuí-
suíam dois leprosários e Maranhão, Pernam- dos por alguns estados. Em 1943, Minas

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Gerais ultrapassou São Paulo em número unidades ocorreu sem auxílio federal. A
de leprosários. Além das colônias de Santa experiência paulista, tanto na questão da
Izabel e Santa Fé e do Hospital de Sabará, lepra como na luta contra outras enfermi-
foram construídos a Colônia São Fran- dades ou flagelos, tinha uma face dupla, de
cisco de Assis, a Colônia Padre Damião e o independência em relação à política fede-
Sanatório Roça Grande. Vários estados, no ral, mas também de influência sobre essa
entanto, não tinham meios, ou lhes faltava própria política. A política de isolamento, a
o arcabouço político necessário, que os implantação de vários serviços específicos
colocassem em sintonia com a política na- e a construção de colônias agrícolas foi
cional; continuavam carentes de hospitais, o caminho encontrado pelas autoridades
sanatórios, asilos, colônias, dispensários e sanitárias estaduais para conter a doença e
preventórios. Para os médicos e sanitaristas tentar eliminá-la (MONTEIRO, 2003, p.100-
do Serviço Nacional da Lepra, era flagrante 102). Não era diferente o cenário em outros
o contraste entre os estados, no tocante centros regionais do país.
àquelas instituições.
Leprosários, dispensários e preventóri- Errantes e reclusos: faces da
os. Esse foi o tripé sobre o qual se susten- segregação
tou a atuação do Serviço Nacional da Lepra
na profilaxia do mal de Hansen em todo No Brasil, o flagelo da hanseníase
o país. Para Ernani Agrícola (1944, p. 6), data dos tempos coloniais. No início do
inspetor dos Centros de Saúde do Estado Brasil Império efetuaram-se os primeiros
de Minas Gerais e mais tarde diretor do recenseamentos precários, que indicavam
Serviço Nacional da Lepra, “estas peças, serem “numerosos” os portadores do mal,
perfeitamente organizadas, com funciona- das Minas Gerais ao Mato Grosso, de São
mento adequado e em número suficiente, Paulo ao Espírito Santo, de Pernambuco
garantem um melhor e mais proveitoso ao Maranhão e ao Pará, perambulantes ou
trabalho para dominar a expansão da lepra, confinados nos poucos lazaretos existentes
sua redução e posterior desaparecimento (SANTOS FILHO, 1991, p.229).
como problema sanitário”. Considerando Se a doença havia penetrado no país,
deficiente o número de leprosários, dispen- como se pensava, pela vinda dos escravos
sários e preventórios, o Serviço Nacional para as fazendas, o estigma era inevitável,
da Lepra incluiu em seu programa de ação pois às deformações “medonhas” acrescia a
para os anos subseqüentes um plano de marca infamante da origem escrava. Há uma
instalações dessas unidades, principal- ironia fortuita no fato de que, para superação
mente nas zonas onde a incidência da da condição de errantes, segregados da
doença era alta. Os dispensários eram res- sociedade, as instituições do lazareto e da
ponsáveis pelo controle de cerca de 60% colônia agrícola, da Primeira República à
do total de doentes fichados e, além da as- era getulista, impuseram-lhes outra forma
sistência clínica e terapêutica aos doentes de segregação, ainda que em busca de
não isolados em leprosários, realizavam a tratamento e cura e com o fito de prevenir a
vigilância sanitária, a descoberta de novos propagação da moléstia.
casos e a educação sanitária nos focos Desde meados da década de 20, as
(BRASIL, 1946). inspetorias e serviços de profilaxia da lepra
Em 1946 o Serviço Nacional da Lepra enfrentavam a doença como um problema
construiu, concluiu ou ampliou estabeleci- sanitário complexo, cuja solução exigia um
mentos naqueles estados em que mais conjunto de medidas e órgãos especializa-
intensa se apresentava a endemia. Todas dos em níveis distintos de intervenção: o
as unidades da Federação passaram a leprosário ou colônia; o dispensário; o
contar com um ou mais leprosários, funcio- preventório. A história dessa moléstia, da
nando regularmente e destinados a isolar os intervenção médica e de seus atores estig-
doentes contagiantes. É importante ressaltar matizados envolveu um trabalho intenso
que, em São Paulo, a construção destas de educação sanitária e da tentativa, quase

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sempre inócua, mas generosamente bus- toda a primeira metade do século XX, o es-
cada pelas autoridades sanitárias desde o tado venceu desafios e superou dilemas no
primeiro período republicano, de redução do campo da saúde, por força da atuação deci-
estigma e de controle da doença. siva de seus sanitaristas e agentes de saúde.
Como o presente texto procurou indicar, Por outro lado, não foram poucos, no Mara-
os estados de São Paulo e do Maranhão nhão como em todo o Brasil, os insucessos e
representaram experiências tipicamente bra- limitações dos programas governamentais no
sileiras. São Paulo desfrutava da presença tocante à efetiva assistência e solidariedade
privilegiada de recursos humanos, institucio- aos estigmatizados e doentes da lepra. Do
nais e financeiros. No caso maranhense, em norte ao sul do país, essa história ficaria, para
que pesem os revezes mais fortes que sofreu sempre, marcada pelo sofrimento social e
e as deficiências de seus recursos durante individual de milhares de hansenianos.

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Resumen

Contrapuntos de la historia de la enfermedad de Hansen en Brasil: Escenarios de estigma y


confinamiento

Al discutir la lucha contra la enfermedad de Hansen en Brasil, en especial en San Pablo y en


Maranhão, el trabajo enfocará las múltiples formas de la historia institucional y de la “cultura de
reclusión” de los hansenianos (leprosos). Se critica la visión corriente de un escenario único
de disciplina y vigilancia para, al contrario, sugerirse la existencia de escenarios cambiantes,
marcados por conflictos, negociaciones y distintas propuestas de prevención o de combate
a la enfermedad. El texto abordará las diferentes concepciones médicas y ‘profanas’ de la
lepra, así como las propuestas y prácticas de intervención social en Brasil y, en particular,
en los estados de San Pablo y de Maranhão, desde los primeros tiempos de la República
hasta las primeras décadas de la Era Vargas. El combate a la enfermedad siempre desafió
conceptos y convicciones sobre tratamiento, propagación, confinamiento y regeneración, bajo
múltiples significados epidemiológicos, médicos, culturales y sociales, referidos al estigma de
la enfermedad, del pecado y de la impureza. El texto procurará establecer algunos escenarios
brasileños en los cuales se revelan las identidades colectivas deterioradas; la exclusión social;
las políticas de confinamiento institucional y de regeneración de los enfermos.
Palabras-clave: Enfermedad de Hansen: San Pablo, Maranhão. Brasil: Primera República (1889-
1930). Estado Nuevo (1930-1945). Identidades deterioradas. Políticas de confinamiento.

Abstract

Counterpoints in the history of Hansen’s disease in Brazil: situations of stigma and seclusion

As the fight against leprosy in Brazil, particularly in the state of Maranhão, is singled out for
analysis, this paper discusses the different medical and ‘profane’ conceptions of the disease, in
addition to the proposals of public health intervention, always challenged by rival doctrines or
convictions about contagion, diffusion, and treatment. The changing epidemiological, medical
(i.e., the practices of isolation), social, and cultural views (particularly the stigma associated
with the notions of sin, purity and danger) will help the search for singularities in Maranhão,
the state’s main ‘sanitarians’, political actors, and institutions, as well as for common historical
elements, among Brazilian and other populations experiencing the disease.
Keywords: Leprosy. Brazilian states of São Paulo and Maranhão. Brazil: First Republican period
(1889-1930). Brazil: Vargas Dictatorship (1930-1945). Stigma. Institutionalization.

Recebido para publicação em 06/03/2008.


Aceito para publicação em 20/05/2008.

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