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Por dentro da estatística

O uso de métodos estatísticos vem crescendo vigorosamente em pesquisas da área médica. Com frequência, médicos e
profissionais da Saúde são expostos a informações provenientes de análises de dados, nem sempre claras e de fácil
interpretação. Esta seção visa familiarizar pesquisadores com conceitos e termos estatísticos comumente presentes em artigos
científicos. Com ênfase na discussão conceitual em detrimento a fórmulas matemáticas, o objetivo é esclarecer algumas dúvidas
frequentes e contribuir com o desenvolvimento do senso crítico na hora de analisar, descrever e interpretar dados.
Ângela Tavares Paes
Editora da seção

Probabilidade, risco ou chance? Probabilidade, risco relativo, chance e razão


de chances
Luciana Neves Nunes1, Suzi Alves Camey2
A partir do entendimento de alguns conceitos e defini-
1
Estatística, Doutora em Epidemiologia, Departamento de Estatística da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre (RS), Brasil. ções matemáticas, torna-se mais fácil interpretar cor-
2
Estatística, Doutora em Estatística, Departamento de Estatística da Universidade Federal do Rio retamente cada uma das possíveis medidas de efeito.
Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre (RS), Brasil.
Probabilidade (ou risco) é a proporção de vezes que um
desfecho deve ocorrer se um experimento ou observa-
Facilmente encontramos na literatura médica resul-
ção for repetido um número grande de vezes. Risco re-
tados de pesquisas expressos por meio de medidas de
lativo (RR) é a razão de duas probabilidades (ou razão
efeito, tais como risco relativo (relative risk) ou razão de
de riscos). A chance (tradução de odds, que ainda gera
chances (Odds Ratio). O uso dessas medidas ajudam a
controvérsias) é a probabilidade de um evento ocor-
identificar fatores associados a doenças, condições ou
rer, dividida pela probabilidade do evento não ocorrer.
comportamentos em saúde e, dessa maneira, a colabo-
Uma razão de chances é a razão entre duas chances.
rar para o estudo da etiologia desses eventos. O apa-
Para ilustrar, veja a tabela 2 a seguir, que mostra a dis-
recimento e/ou desenvolvimento de uma determinada
tribuição de um grupo observado de acordo com desfe-
doença pode ocorrer com maior frequência na presença
cho e um fator exposição(1-2).
de alguns fatores, os quais são usualmente chamados de
fatores de risco. Entretanto, ainda existe certa confusão
quanto à decisão de qual medida de efeito deve ser usa- Tabela 2. Distribuição de acordo com desfecho e fator de exposição
da e como se faz a interpretação de tal medida. A razão Desfecho
de chances, por exemplo, é comumente utilizada, mas Fator de exposição Total Risco Chance
Presente Ausente
mesmo quando usada adequadamente, envolve dificul-
Exposto a b a+b a/(a+b) a/b
dade na sua interpretação(1).
Não exposto c d c+d c/c+d c/d
A medida de efeito que se deve calcular depende
da escolha do delineamento do estudo. Na tabela 1 são Total a+c b+d a+b+c+d
mostradas as medidas de efeito de acordo com cada
um dos delineamentos observacionais epidemiológicos
clássicos. A partir da tabela 2, podemos ver que a probabili-
dade (ou risco) dos indivíduos expostos terem o desfe-
Tabela 1. Medidas de efeito de acordo com o delineamento do estudo cho pode ser estimada por:
Tipo de estudo Medida de efeito a
Transversal Razão de prevalências (RP) Probexpostos= , enquanto a probabilidade dos
Caso-controle Razão de chances (RC) ( a+b )
Coorte Razão de incidências (RI) não-expostos terem o desfecho é estimada por:

einstein: Educ Contin Saúde. 2009;7(4 Pt 2): 175-6


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c apenas a RI como RR, a RP também é um RR por se


Probnão-expostos= . tratar de uma razão de probabilidades.
( c+d ) Como exemplo, considere a tabela 3 que apresenta
os resultados de um estudo para avaliar associação en-
Baseado nessas probabilidades, o risco relativo
tre baixo peso ao nascer (BPN) e morte perinatal (da-
(RR) poderia ser calculado da seguinte maneira:
dos fictícios). A exposição é o BPN e o desfecho é a
a
morte perinatal.
(a+b) Com os dados da tabela 3, podemos calcular o RR,
RR = Prob expostos = , que é a divisão das onde
c
Prob não-expostos
(c+d) § 150 ·
¨© 720 ¹̧
duas estimativas das probabilidades. RR   17,7 , e dizer que o risco de morte
Ainda com base na tabela 2, a chance de doença § 65 ·
no grupo exposto pode ser calculada por: ¨© 5.515 ¹̧
ª a º
« (a+b) » perinatal de um recém-nascido de baixo peso é 17,7
Chanceexpostos  ¬ ¼  a , ou seja, a chance dos vezes o risco de morte perinatal de um recém-nascido
ª b º b com peso ≥2.500 g.
« (a+b) » Quando calculada a razão de chances, temos
¬ ¼ 150 u 5.450
a RC   22,1, portanto calcula-se que a
expostos é simplesmente . 570 u 65
b chance de morte perinatal de um recém-nascido de bai-
A razão de chances pode ser calculada pela di- xo peso é 22,1 vezes a chance de um recém-nascido com
visão da chance dos expostos terem o desfecho pela peso ≥2.500 g. É importante que o pesquisador tenha
chance dos expostos não terem o desfecho. Portanto, claro qual foi o delineamento utilizado, pois as medidas
§ a· de efeito têm interpretações diferentes.
¨© b ¹̧ ad Ainda em relação à interpretação do RR (ou RC),
RC= = ,que também é conhecida como a razão ressaltamos que, por se tratar da razão entre duas
§ c · bc quantidades, sabemos que essa razão será igual a 1
¨© d ¹̧ quando o risco (ou chance) for igual entre expostos
e não-expostos. Por outro lado, quando uma razão
dos produtos cruzados. for maior que 1, temos um indicativo que o fator de
Vale a pena observar que a tabela 2 é construída in- exposição é um fator de risco; caso contrário, quando
dependente do tipo de delineamento do estudo. Por- uma razão for menor do que 1, temos um fator de
tanto, podemos concluir que apesar da literatura tratar proteção.
Tabela 3. Distribuição da amostra de acordo com desfecho e fator de exposição
Morte perinatal REFERÊNCIAS
BPN Total
Sim Não
1. Katz KA. The (relative) risks of using odds ratios. Arch  Dermatol.
Sim (<2.500 g) 150 570 720
2006:142(6):761-4.
Não (≥2.500 g) 65 5.450 5.515
2. Jekel JF, Katz D L, Elmore JG. Epidemiologia, bioestatística e medicina
Total 215 6.020 6.235 preventiva. Porto Alegre: Artmed; 2005.

einstein: Educ Contin Saúde. 2009;7(4 Pt 2): 175-6