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Literatura e crítica literária

Silvana Oliveira
O objetivo desta aula é estabecer relações entre a produção literária e
a crítica que se encarrega de sua interpretação. A literatura ganha sentido
no momento em que determinado público especializado dela se ocupa e
propõe interpretações e leituras que devem se sustentar nos elementos
de composição das obras. Assim, a crítica literária se propõe como uma
instituição que valida e, ao mesmo, justifica a existência disto a que cha-
mamos literatura. Estudaremos, portanto, as relações existentes entre a
produção literária e a produção do discurso crítico sobre a literatura.

O que é literatura: os muitos conceitos


As discussões deste tópico concentram-se no tema teoria literária ou
teoria da literatura. São reflexões que têm preocupado o ser humano desde
que houve consciência do processo criativo denominado literatura.

O que é literatura?
A pergunta que abre esta aula (O que é literatura?) vem sendo feita
há mais de 2 500 anos. Isso mesmo! Não com estas palavras, é claro. Os
gregos antigos, por exemplo, já se dedicavam a pensar sobre aquelas ma-
nifestações do espírito que não tinham uma função muito clara, como as
narrativas contadas de uns para os outros, ou as declamações com temas
alegres ou tristes que emocionavam os ouvintes ou ainda as encenações
teatrais que tanto interessavam ao público da época.

Platão e Aristóteles foram os pioneiros na tentativa de organizar toda


essa produção humana a que hoje damos o nome de literatura. É preciso
lembrar que no momento em que os gregos viviam e pensavam a litera-
tura as coisas não eram como nós as conhecemos hoje. Obviamente não
existia o livro impresso e as manifestações literárias se davam oralmen-
te: as narrativas e os poemas eram declamados por homens conhecidos
Teoria da Literatura III

como aedos ou rapsodos, cuja função era a de fazer circular oralmente – por meio
de declamações públicas – essas composições entre o maior número possível de
pessoas. O registro que temos dos textos daquela época é bastante posterior ao
momento em que eles foram compostos.

As noções sobre o que é literatura variam bastante de acordo com a época,


mas não podemos negar que boa parte das ideias de Platão e Aristóteles ainda
vale e nos fornece as bases para responder a essa pergunta. Afinal, não podemos
esquecer que nossa cultura é herança que recebemos dos gregos antigos.

Como já deve ter ficado claro para todos, estabelecer o conceito de literatura
não é nada simples: dependemos de contextos históricos, referências culturais
e esforço teórico.

Além disso, fica claro de início que a noção de literatura está diretamente re-
lacionada à arte. Pois a literatura é compreendida, de modo geral, como o exer-
cício artístico da linguagem.

Muito mais coerente é falar em conceitos de literatura, no plural, porque assim


podemos pensar em toda a diversidade da produção artística que se utiliza da
linguagem verbal, sem deixar nada de fora.

Sendo assim, vamos a eles, aos conceitos de literatura.

Os muitos conceitos de literatura


Segundo importantes e tradicionais estudiosos como Soares Amora e Hênio
Tavares, podemos pensar os conceitos de literatura em dois grandes blocos his-
tóricos, ou seja, em duas Eras – a Clássica e a Moderna.

A Era Clássica vai desde a época de Platão e Aristóteles, os primeiros teóricos


da literatura, até o século XVIII; a Era Moderna vai desde o Romantismo até os
nossos dias. Algumas pessoas já falam em Era Pós-Moderna, mas essa é uma
outra conversa.

Na Era Clássica, primeiramente há uma preocupação em estabelecer um con-


ceito relacionado à forma com que a linguagem é utilizada para se dizer que
determinada composição é arte literária ou não. Em segundo lugar, os antigos
falam no conteúdo quando se estabelece que a arte literária é a arte que cria,
pela palavra, uma imitação da realidade.

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Disso podemos concluir que, para os clássicos, ou seja, para os gregos an-
tigos, a literatura é um uso especial da linguagem com o objetivo de criar uma
imitação da realidade.

Aqui temos três aspectos que merecem destaque.

 Observe que se trata de um uso da linguagem, ou seja, é preciso que uma


determinada língua seja o suporte para a composição da obra que será
considerada literatura.

 Esse uso especial da linguagem é direcionado para a criação, ou seja, a li-


teratura não é como a história, que tem a pretensão de registrar a verdade
dos fatos: a literatura cria ficção, pois não está interessada no registro da
verdade imediata.

 Essa criação se dá na medida em que imita a realidade – aqui temos a ideia


de imitação (ou mimese, estudada por Aristóteles), estabelecendo que a
literatura tenha como referência a imitação da realidade, e isso quer dizer
que, mesmo sendo criação, a literatura precisa se referenciar na realidade,
imitando-a.

Na Era Moderna, ou seja, a partir dos românticos do século XVIII, a literatura


passa a ser compreendida, de maneira mais ampla, como o conjunto da produ-
ção escrita. Isso se deve, principalmente, ao advento da imprensa.1

Funções da literatura
Além do aspecto relacionado ao texto impresso, a partir da Era Moderna a
literatura passou a ter uma relação mais direta com a ideia de ficção, de criação,
afastando-se um pouco da noção clássica de imitação da realidade.

A figura do artista criador tornou-se muito importante neste período: é da


sua mente e da sua intuição que nasce a criação de uma realidade que não pre-
cisa estar tão presa à realidade empírica, isto é, a realidade que o senso comum
admite como sendo a única.

Podemos dizer que, a partir dessa época, acredita-se que ao artista cabe a
visão das coisas como ainda não foram vistas e como são verdadeiramente.

1
Em 1442, Johann Gensfleish Gutenberg (1397-1468) desenvolveu técnicas de impressão em papel.

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O aspecto mais importante dessa noção de literatura é o fato de que a realida-


de passa a ser considerada de múltiplas formas, não é mais possível falar em uma
única realidade. Cada artista concebe o mundo a partir da sua subjetividade, da
sua intuição e sua obra é um retrato livre dessa interioridade.

No seu livro O Demônio da Teoria, Antoine Compagnon, um dos teóricos mais


respeitados hoje em dia, afirma que, “no sentido mais amplo, literatura é tudo
o que é impresso (ou mesmo manuscrito), são todos os livros que a biblioteca
contém” (COMPAGNON, 2003, p. 31).

O mesmo autor diz ainda que “o sentido moderno de literatura (romance,


teatro e poesia) é inseparável do Romantismo, isto é, da afirmação da relativi-
dade histórica e geográfica do bom gosto, em oposição à doutrina clássica da
eternidade e da universalidade do cânone estético” (COMPAGNON, 2003, p. 32).

Trocando em miúdos, podemos dizer que atualmente a noção de literatura


está diretamente ligada à época em que essa mesma literatura foi produzida. O
que não foi considerado literatura há 200 anos, hoje pode muito bem ser con-
siderado como obra literária: não há mais a crença, como havia na concepção
clássica, de que a literatura abrange obras eternas e de valor universal.

Podemos então dizer que a literatura existe em relação à época em que foi
produzida e também em relação ao país em que apareceu.

Antoine Compagnon nos lembra que


as definições de literatura, segundo sua função, parecem relativamente estáveis, quer essa
função seja compreendida como individual ou social, privada ou pública. Aristóteles falava de
katharsis (catarse), ou de purgação, ou de purificação de emoções como o temor e a piedade.
É uma noção difícil de determinar, mas ela diz respeito a uma experiência especial das paixões
ligada à arte poética. Aristóteles, além disso, colocava o prazer de aprender na origem da
arte poética: instruir ou agradar, ou ainda instruir agradando, serão as duas finalidades, ou
a dupla finalidade, que também Horácio reconhecerá na poesia, qualificada de dulce et utile.
(COMPAGNON, 2003, p. 35)

Devemos concordar que, quanto à função, as definições de literatura são


mesmo bastante estáveis. Quando pensamos em para que serve a literatura,
ainda recuperamos as ideias de Aristóteles e elas nos servem bastante bem para
compreender o fenômeno da arte da palavra.

Entretanto, quanto à sua diversidade, nos nossos dias o conceito de literatura


tornou-se bastante problemático, já que temos uma variedade tão grande de
produção escrita que qualquer um de nós fica confuso diante do último roman-
ce de Paulo Coelho, da sequência de aventuras de Harry Potter ou da biografia
de Elvis Presley. Isso tudo é literatura?

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Seria mais fácil se só os livros consagrados, os ditos clássicos fossem conside-


rados como literatura, mas não podemos ignorar toda a variedade de produção
escrita que circula em ambiente literário. A questão da qualidade dessas obras
torna-se, então, urgente. Como saberemos quais são as obras que atendem ao
bom uso da linguagem, como rezaram os gregos? Como saberemos quais obras
têm valor estético, ou seja, têm beleza artística?

E aí é que entra a teoria, novamente. A reflexão teórica sobre a realização


da obra literária poderá nos apontar um Norte no sentido de estabelecer valo-
res: valores estéticos, morais, valores de permanência, de ruptura, valores que
possam nos autorizar a reconhecer tais obras como manifestações artísticas do
humano na palavra.

Funções da teoria literária


Para falar de teoria literária, temos antes que compreender o que é teoria. Po-
demos concordar também que, para grande parte dos problemas do dia-a-dia,
existe uma série de soluções já testadas e aprovadas por uma maioria de pessoas.
Claro que temos de levar em conta que a “maioria” que decide qual a melhor forma
de resolver um problema é sempre a maioria que “pode mais”, não é? Há sempre
aqueles que não são consultados para dar sua opinião, pois não “podem nada” na
ordem do dia. Entre os que podem mais e acabam determinando qual a melhor
forma de resolver a maioria dos problemas do cotidiano estão aqueles que têm
dinheiro, que têm poder, que sabem falar, escrever e outras coisas mais.

Então, o conjunto de soluções testadas e aprovadas para os problemas vivi-


dos em uma sociedade é o que podemos chamar de senso comum, que é uma
espécie de acordo que fazemos para viver em sociedade.

Uma pessoa pode passar a vida inteira resolvendo todos os problemas que se
apresentam para ela usando aquilo que o senso comum determina. Mas, um belo
dia, essa pessoa pode querer pensar um pouquinho mais sobre diferentes formas
de resolver problemas na sua vida e aí ela estará se transformando em um teórico!

A partir desse momento, essa pessoa pode não aceitar mais tão facilmente as
soluções ditadas pelo senso comum. Ela estará muito interessada em pensar por si
mesma e, quem sabe, inventar modos muito originais de enfrentar a realidade.

Vejam que com um exercício livre do pensamento podemos nos transformar


em teóricos e pensar sobre a realidade criando teorias sobre ela. Uma teoria,

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como resultado do exercício de pensar sobre a realidade, contestando as ideias


já prontas e as soluções já dadas para os problemas que enfrentamos nas várias
esferas da vida, precisa ser verificada na realidade.

Quando nos interessamos por pensar e criar teorias, estamos, de várias


formas, combatendo preconceitos, pois passaremos a criar conceitos novos,
sobre os quais teremos pensado bastante.

Para o teórico Compagnon (2003, p.19), algumas distinções são necessárias.


Primeiramente, quem diz teoria pressupõe uma prática, diante da qual uma teoria
se coloca, ou diante da qual se elabora uma teoria. Conforme o autor, nas ruas de
Gênova, algumas casas trazem este letreiro: “Sala de teoria”. Não se faz aí teoria da
literatura, mas ensina-se o código de trânsito – a teoria é, pois, o código da direção.

Diante disso, podemos perguntar: que prática a teoria da literatura codifica,


isto é, organiza mais do que regulamente?

Não é, parece, a própria literatura ou a criação literária: a teoria da literatura não


ensina a escrever romances ou poemas. Na verdade, a teoria literária estabelece os
modos pelos quais os estudos literários podem se organizar. Pode-se dizer, enfim,
que a teoria literária instrui os estudos literários ou os estudos da literatura.

A teoria literária é um discurso, ou melhor, uma construção discursiva da qual par-


ticipam muitos agentes, dentre os quais se destacam os autores e os leitores. Ela se
configura como uma proposta de interpretação do fenômeno literário. Assim, temos
diversos movimentos teóricos importantes que buscam dar conta da produção li-
terária. É comum dizer que a teoria literária “corre atrás” da produção literária para
compreender seus mecanismos de realização do modo mais eficiente possível.

Funções da crítica literária


A crítica literária utiliza-se da teoria literária, e isso significa dizer que a crítica lite-
rária precisa da teoria. Vimos que a teoria se configura como uma proposta de inter-
pretação da obra literária. A crítica, por sua vez, dirá se essa interpretação é válida, ou
seja, se o que a obra diz e o modo como diz são válidos como expressão artística.

Todos nós já nos perguntamos um dia por que Machado de Assis é um autor
tão importante na história da literatura. Quem disse que ele é importante? De
certa forma, foi a crítica literária que disse isso. É claro que não disse sozinha:

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outras instituições importantes participaram desse julgamento – a escola de


Ensino Fundamental e Médio e a universidade.

A crítica literária divide, com a escola e com a universidade, a função de julgar


a produção literária de seu tempo e, ao realizar esse julgamento, ela estabele-
ce, simultaneamente, o que cada época julga importante em termos artísticos
e culturais.

O papel do crítico literário


Segundo Machado de Assis (1999, p. 40), no seu famoso ensaio “O ideal do
crítico”, a ciência e a consciência são as duas condições principais para se exercer
a crítica. Ainda mais:
a crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um
interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir
unicamente os juízos da sua consciência. Não lhe é dado defender nem os seus interesses
pessoais, nem os alheios, mas somente a sua convicção, e a sua convicção deve formar-se tão
pura e tão alta que não sofra a ação das circunstâncias externas. [...] Com tais princípios, eu
compreendo que é difícil viver; mas a crítica não é uma profissão de rosas, e se o é, é-o somente
no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade. (MACHADO DE ASSIS, p. 40-41)

Na perspectiva de Machado de Assis, o crítico literário é uma espécie de mis-


sionário que dirá a verdade, nada mais do que a verdade, sobre determinada
obra literária. O papel do crítico é portar-se como um juiz, ou seja, ele deve julgar
o valor da obra literária.

Para Antonio Candido, outro crítico literário importante, o papel do crítico


pode ser compreendido da seguinte forma:
toda crítica viva – isto é, que empenha a personalidade do crítico e intervém na sensibilidade
do leitor – parte de uma impressão para chegar a um juízo. [...] Entre impressão e juízo,
o trabalho paciente da elaboração, como uma espécie de moinho, tritura a impressão,
subdividindo, filiando, analisando, comparando, a fim de que o arbítrio se reduza em benefício
da objetividade, e o juízo resulte aceitável pelos leitores. (CANDIDO, 2000, p. 31)

Além disso, Candido também considera que o crítico deve ser um “árbitro ob-
jetivo” capaz de julgar o valor da obra artística por meio de dois mecanismos bá-
sicos – a impressão e o juízo. Enquanto Machado de Assis fala em ciência, Antonio
Candido fala em impressão, mas precisamos entender que a impressão adequada
sobre determinada obra necessita do conhecimento – ou seja, da ciência.

Temos então que o papel do crítico literário é julgar – por meio dos conheci-
mentos que a teoria literária estabelece – o valor da obra de literatura.

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Teoria da Literatura III

Texto complementar
No artigo que você vai ler agora, Machado de Assis apresenta, de forma lúcida
e clara, as características da crítica literária brasileira, bem como discute as fun-
ções do crítico literário e sua importância para que haja uma produção literária
consistente e amadurecida. Leia com atenção, pois o texto vai ajudar na compre-
ensão de muitos conceitos discutidos nesta aula.

Ideal do crítico
(MACHADO DE ASSIS, 1999)

Exercer a crítica afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros
parece igualmente fácil a tarefa do legislador; mas, para a representação literária,
como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais que um sim-
ples desejo de falar à multidão. Infelizmente é a opinião contrária que domina, e
a crítica, desamparada pelos esclarecidos, é exercida pelos incompetentes.

São óbvias as consequências de uma tal situação. As musas, privadas de


um farol seguro, correm o risco de naufragar nos mares sempre desconheci-
dos da publicidade. O erro produzirá o erro; amortecidos os nobres estímulos,
abatidas as legítimas ambições, só um tribunal será acatado, e esse, se é o mais
numeroso, é também o menos decisivo. O poeta oscilará entre as sentenças
mal concebidas do crítico e os arestos caprichados da opinião; nenhuma luz,
nenhum conselho, nada lhe mostrará o caminho que deve seguir – e a morte
próxima será o prêmio definitivo das sua fadigas e das suas lutas.

Chegamos já a estas tristes consequências? Não quero proferir um juízo,


que seria temerário, mas qualquer [um] pode notar com que largos interva-
los aparecem as boas obras, e como são raras as publicações seladas por um
talento verdadeiro. Quereis mudar esta situação aflitiva? Estabelecei a crítica,
mas a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata, que não
reflete nem discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabe-
lecei a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada – será esse o meio de
reerguer os ânimos, promover os estímulos, guiar os estreantes, corrigir os
talentos feios; condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença – essas três
chagas da crítica de hoje –, ponde em lugar deles a sinceridade, a solicitude
e justiça – é só assim que teremos uma grande literatura.

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É claro que essa crítica, destinada a produzir tamanha reforma, deve-se


exigir as condições e as virtudes que faltam à crítica dominante – e para
melhor definir o meu pensamento, eis o que eu exigiria no crítico do futuro.

O crítico atualmente aceito não prima pela ciência literária; creio até que uma
das condições para desempenhar tão curioso papel é despreocupar-se de todas
as questões que entendem com o domínio da imaginação. Outra, entretanto,
deve ser a marcha do crítico; longe de resumir em duas linhas – cujas frases
já o tipógrafo as tem feitas – o julgamento de uma obra, cumpre-lhe meditar
profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido íntimo, aplicar-lhe as leis
poéticas, ver enfim até que ponto a imaginação e a verdade conferenciaram
para aquela produção. Deste modo, as conclusões do crítico servem tanto à
obra concluída como à obra em embrião. Crítica é análise – a crítica que não
analisa é a mais cômoda, mas não pode pretender a ser fecunda.

Para realizar tão multiplicadas obrigações, compreendo eu que não basta


uma leitura superficial dos autores, nem a simples reprodução das impres-
sões de um momento, pode-se, é verdade, fascinar o público, mediante uma
fraseologia que se emprega sempre para louvar ou deprimir; mas no ânimo
daqueles para quem uma frase nada vale, desde que não traz uma ideia, esse
meio é impotente, e essa crítica negativa.

Não compreendo o crítico sem consciência. A ciência e a consciência, eis


as duas condições principais para exercer a crítica. A crítica útil e verdadeira
será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer
seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure repro-
duzir unicamente os juízos da sua consciência. Ela deve ser sincera, sob pena
de ser nula. Não lhe é dado defender nem os seus interesses pessoais, nem
os alheios, mas somente a sua convicção, e a sua convicção deve formar-se
tão pura e tão alta que não sofra a ação das circunstâncias externas. Pouco
lhe deve importar as simpatias ou antipatias dos outros; um sorriso compla-
cente, se pode ser recebido e retribuído com outro, não deve determinar,
como a espada de Breno, o peso da balança; acima de tudo, dos sorrisos e
das desatenções, está o dever de dizer a verdade, e em caso de dúvida, antes
calá-la, que negá-la.

Com tais princípios, eu compreendo que é difícil viver; mas a crítica não
é uma profissão de rosas, e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação
íntima de dizer a verdade.

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Teoria da Literatura III

Das duas condições indicadas acima decorrem naturalmente outras, tão


necessárias como elas, ao exercício da crítica. A coerência é uma dessas con-
dições, e só pode praticá-la o crítico verdadeiramente consciencioso. Com
efeito, se o crítico, na manifestação de seus juízos, deixa-se impressionar por
circunstâncias estranhas às questões literárias, há que cair frequentemente
na contradição, e os seus juízos de hoje serão a condenação das suas aprecia-
ções de ontem. Sem uma coerência perfeita, as suas sentenças perdem todo
o vislumbre de autoridade, e abatendo-se à condição de ventoinha, movida
ao sopro de todos os interesses e de todos os caprichos, o crítico fica sendo
unicamente o oráculo dos seus inconscientes aduladores.

O crítico deve ser independente – independente em tudo e de tudo –, in-


dependente da vaidade dos autores e da vaidade própria. Não deve curar de
inviolabilidades literárias, nem de cegas adorações; mas também deve ser inde-
pendente das sugestões do orgulho, e das imposições do amor-próprio. A pro-
fissão do crítico deve ser uma luta constante contra todas essas dependências
pessoais, que desautoram os seus juízos, sem deixar de perverter a opinião. Para
que a crítica seja mestra, é preciso que seja imparcial – armada contra a insu-
ficiência dos seus amigos, solícita pelo mérito dos seus adversários –, e neste
ponto a melhor lição que eu poderia apresentar aos olhos do crítico seria aquela
expressão de Cícero, quando César mandava levantar as estátuas de Pompeu:

– É levantando as estátuas do teu inimigo que tu consolidas as tuas pró-


prias estátuas.

A tolerância é ainda uma virtude do crítico. A intolerância é cega, e a ce-


gueira é um elemento do erro; o conselho e a moderação podem corrigir e
encaminhar as inteligências; mas a intolerância nada produz que tenha as
condições de fecundo e duradouro.

É preciso que o crítico seja tolerante, mesmo no terreno das diferenças de


escola: se as preferências do crítico são pela escola romântica, cumpre não
condenar, só por isso, as obras-primas que a tradição clássica nos legou, nem
as obras meditadas que a musa moderna inspira; do mesmo modo devem os
clássicos fazer justiça às boas obras daqueles. Pode haver um homem de bem
no corpo de um maometano, pode haver uma verdade na obra de um realista.
A minha admiração pelo Cid não me fez obscurecer as belezas de Ruy Blas. A
crítica que, para não ter o trabalho de meditar e aprofundar, se limitasse a uma
proscrição em massa, seria a crítica da destruição e do aniquilamento.

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Literatura e crítica literária

Será necessário dizer que uma das condições da crítica deve ser a urbanidade?
Uma crítica que, para a expressão das suas ideias, só encontra fórmulas ásperas
pode perder as esperanças de influir e dirigir. Para muita gente será esse o meio
de provar independência; mas os olhos experimentados farão muito pouco caso
de uma independência que precisa sair da sala para mostrar que existe.

Moderação e urbanidade na expressão, eis o melhor meio de convencer;


não há outro que seja tão eficaz. Se a delicadeza das maneiras é um dever de
todo homem que vive entre homens, com mais razão é um dever do crítico,
e o crítico deve ser delicado por excelência. Como a sua obrigação é dizer a
verdade, e dizê-la ao que há de mais suscetível neste mundo, que é a vaida-
de dos poetas, cumpre-lhe, a ele sobretudo, não esquecer nunca esse dever.
De outro modo, o crítico passará o limite da discussão literária, para cair no
terreno das questões pessoais; mudará o campo das ideias, em campo de pa-
lavras, de doestos, de recriminações – se acaso uma boa dose de sangue frio,
da parte do adversário, não tornar impossível esse espetáculo indecente.

Tais são as condições, as virtudes e os deveres dos que se destinam à aná-


lise literária; se a tudo isto juntarmos uma última virtude, a virtude da perse-
verança, teremos completado o ideal do crítico.

Saber a matéria em que fala, procurar o espírito de um livro, descarná-


lo, aprofundá-lo, até encontrar-lhe a alma, indagar contentemente as leis do
belo, tudo isso com a mão na consciência e a convicção nos lábios, adotar
uma regra definida, a fim de não cair na contradição, ser franco sem aspere-
za, independente sem injustiça, tarefa nobre é essa que mais de um talento
podia desempenhar, se se quisesse aplicar exclusivamente a ela. No meu en-
tender é mesmo uma obrigação de todo aquele que se sentir com força de
tentar a grande obra da análise conscienciosa, solícita e verdadeira.

Os resultados seriam imediatos e fecundos. As obras que passassem do


cérebro do poeta para a consciência do crítico, em vez de serem tratadas
conforme o seu bom ou mau humor, seriam sujeitas a uma análise severa,
mas útil; o conselho substituiria a intolerância, a fórmula urbana entraria no
lugar da expressão rústica – a imparcialidade daria leis, no lugar do capricho,
da indiferença e da superficialidade.

Isto pelo que respeita aos poetas. Quanto à crítica dominante, como não
se poderia sustentar por si, ou procuraria entrar na estrada dos deveres di-

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Teoria da Literatura III

fíceis, mas nobres, ou ficaria reduzida a conquistar de si própria os aplausos


que lhe negassem as inteligências esclarecidas.

Se esta reforma, que eu sonho, sem esperanças de uma realização próxi-


ma, viesse mudar a situação atual das coisas, que talentos novos! Que novos
escritos! Que estímulos! Que ambições! A arte tomaria novos aspectos aos
olhos dos estreantes; as leis poéticas – tão confundidas hoje, e tão capricho-
sas – seriam as únicas pelas quais se aferisse o merecimento de produções
– e a literatura, alimentada ainda hoje por algum talento corajoso e bem en-
caminhado, veria nascer para ela um dia de florescimento e prosperidade.
Tudo isso depende da crítica. Que ela apareça, convencida e resoluta – e a
sua obra será a melhor obra dos nossos dias.

Estudos literários
1. Considere a noção de mimese como os clássicos a concebiam e assinale a
alternativa correta.

a) Mimese significa o ato da criação literária.

b) A realidade era concebida pelos clássicos como mimese.

c) Mimese e arte literária são sinônimos.

d) A mimese não é um requisito para a criação literária.

e) A imitação da realidade consiste na mimese.

2. Assinale a alternativa que corresponde à função da teoria literária.

a) Orientar a produção literária.

b) Regrar o modo como os escritores devem produzir.

c) Interpretar a produção literária de cada época.

d) Propor julgamento para a produção literária.

e) Estabelecer os limites da produção literária.

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Literatura e crítica literária

3. Quais as instituições que promovem o julgamento da obra literária?

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