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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

Disciplina: ARTE PARA CIDADE | AUH – 5832


Docente: Maria Cecília França Lourenço
Colaboração: Amanda Saba Ruggiero
Aluno: Ana Isabel Oliveira Ferreira

CIDADE [RE]PRODUZIDA: A NARRATIVA ARTÍSTICA DOS ESPAÇOS PÚBLICOS


DO SETOR SUL EM GOIÂNIA

Considerada um “conjunto de cenários” (JACQUES; JEUDY, 2006, p.7) impregnados de

memória e significados, resultado de passado e presente, bem como de percepções individuais e

coletivas, a cidade é resultado das constantes relações entre os habitantes e elementos tidos como

marcos no espaço e no tempo, imbuídos de memórias. É constituída tanto pela materialidade de

seu conjunto arquitetônico, vias, praças e parques, dentre outros, quanto pelas situações urbanas

que, enquanto campos de significação “são qualificadas por um conjunto de relações históricas,

políticas, econômicas, culturais, sociais e estéticas, cujos sentidos perpassam sua materialidade e

os processos nos quais se constituem, concomitantemente” (PALLAMIN, 2000, p.15). Na

contemporaneidade, a arte pública configura-se enquanto importante instrumento de

transformação desses cenários, uma vez que permite a renúncia por parte do espaço urbano à

categoria de simples componente ou palco dessas relações.

Segundo Freire (1997), o espaço das cidades caracteriza-se como campo privilegiado para

as experiências artísticas, visto que possibilita a reinvenção dos limites do espaço de exposição e

democratiza o acesso a arte ao invalidar a definição de um público próprio. Por conseguinte, cada

gesto, manifestação social, monumento, ou elemento da cidade encontra-se em permanente

exposição. Enquanto prática social, a arte se apropria de diferentes formas do espaço urbano, na
tentativa de compreender, a partir de um processo bilateral de representação e experimentação,

como a cidade tem sido socialmente produzida (PALLAMIN, 2013).

Na perspectiva brasileira, consonante à realidade de outros países, percebe-se

especialmente a partir da década de 1960, um distanciamento entre a participação social e os

espaços públicos, e a consequente alteração do “conceito de cidade e formas de viver o urbano”

(FREIRE, 1997, p.57). Essas mudanças nas relações dos habitantes com a cidade são pautadas em

transformações tanto das práticas culturais quanto políticas e econômicas. Nesse contexto, a

globalização e os avanços nas tecnologias da informação não só tornaram os fluxos financeiros

interligados globalmente como fizeram com que os fatos culturais fossem “instantânea e

simultaneamente percebidos em todo o globo, com a mesma intensidade e nas mesmas

proporções” (CASTELLO, 2007, p. 4). A relação que era “local-local, agora é local-global”

(SANTOS, 2012, p. 313).

Essa perda dos limites espaciais resultou na multiplicação dos não-lugares: “espaços não

identitários, não-históricos, espaços lisos, da desterritorialização, voltados as urgências do

presente” (PALLAMIN, 2000, p.67). Desse modo, a proliferação de lugares de passagem tornou

os lugares de permanência e encontro cada vez mais ignorados e cada vez menos assimilados,

resultando em uma cultura pública fragmentada, efêmera e contraída. No entanto, a partir da

década de 1990 percebe-se uma redefinição da noção de experiência, fruto da releitura da cidade,

seu espaço e seus processos, enquanto objeto cultural (FERNANDES, 2006). O espaço público,

como meio gerador de atividades, convidativo à participação e percepção contributiva dos

habitantes, realiza uma espécie de colagem das experiências em meio a essa cultura do uso e da

atividade, permitindo assim novas narrativas na cidade.

No contexto goiano, essa vivência urbana em prol de uma valorização do coletivo e da

ressignificação dos lugares da urbe é identificada nos espaços públicos do bairro Setor Sul.

Referência cultural da cidade de Goiânia em razão dos inúmeros estúdios de música, galerias de

arte e coletivos culturais, o bairro se destaca pela forte expressão cultural presente na quantidade
significativa de arte ao ar livre nas áreas verdes do interior das quadras. Esse considerável

conjunto de arte pública urbana apresenta-se em múltiplos suportes, como nos cegos muros e

paredes das casas, e no mobiliário urbano distribuído ao longo de treze das vinte e oito áreas

públicas do bairro. Como forma de fortalecer a “esfera coletiva de reprodução e de criação, e

experiências de produção e de gestão do espaço” (FERNANDES, 2006, p.61), essas ações

territoriais artísticas associadas a grupos culturais são responsáveis pela recente onda de interesse

pelo Setor Sul.

Goiânia demonstra certa familiaridade com a arte pública, apesar das barreiras existentes a

linguagens não tão acadêmicas (PEREIRA, 2008), como o graffiti presente nos tantos murais do

Setor Sul que, na forma de uma arte voluntária hora patrocinada por alguns moradores do bairro,

reflete “a intenção de um grupo de artistas em expressar, no espaço público, sua arte”

(WILHELM, 2012, p.693). Tal expressão estética com conotações sociais e artísticas, surgiu no

bairro entre os anos de 2009 e 2010, como forma de ressignificação do lugar a partir de uma

tentativa em se reverter o quadro de degradação dos espaços públicos e “desvitalização dos

espaços de convívio social em prol do interior das casas” 1 (FREIRE, 1997, p.170).

O Setor Sul foi projetado com seus lotes organizados em torno de vielas ou cul-de-sac, e

dois acessos em todas as casas, sendo o principal voltado para as áreas verdes no interior das

quadras e o secundário de serviço e veículos para as vias. No entanto, apesar das características

marcantes que o diferem de outros tradicionais bairros das cidades brasileiras, a ocupação não

orientada dos lotes e a consequente implantação, diferente do que havia sido planejado, resultou

em espaços públicos não urbanizados, residuais, em um cenário de degradação e esquecimento

com áreas marcadas pelo distanciamento e não reconhecimento por parte de moradores e outros

habitantes da cidade.

1
O “MUdA Ocupa Bacião”, uma ação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, aconteceu em outubro de 2014
e através de um trabalho colaborativo realizado nas praças do bairro, buscou por meio da arte transformar a
relação entre as pessoas e os ambientes urbanos. Em agosto de 2016, o projeto-ação “Casa fora de Casa”,
recorreu a diversas linguagens artísticas como forma de discutir e apropriar as áreas verdes do bairro.
Como “um bairro singular, para uma capital planejada” (GONÇALVES, 2002, p.57), o

Setor Sul foi idealizado no Plano de Urbanização de Goiânia, que, elaborado na década de 1930,

foi proposto por Attílio Corrêa Lima e reformulado pela equipe técnica da companhia Coimbra

Bueno & Cia., sob a orientação de Armando Augusto de Godoy. O plano para a nova capital do

estado, concebido durante o governo de Getúlio Vargas2, atendia a anseios mudancistas e

representava “a busca de novos modelos de organização do espaço urbano, ao rejeitar as formas e

configurações da cidade tradicional” (MANSO, 2001, p.247).

A estrutura urbana proposta por Attílio em muito se assemelhava ao modelo de cidade-

jardim do socialista inglês Ebenezer Howard, ao incorporar os princípios de unidade de

vizinhança e da paisagem natural integrada à paisagem urbana. Como principal núcleo da cidade,

o Setor Central concentrava as atividades comerciais, distribuídas em uma malha ortogonal; e as

atividades administrativas na Praça Cívica, para onde, em caráter monumental, convergiam as

principais vias. O Setor Sul, que se destinava a localização da zona residencial, foi proposto no

perímetro do centro comercial, em uma malha também ortogonal e caracterizada pelo baixo

adensamento.

Com o afastamento de Attílio em 1935, Godoy reformulou parte do plano urbanístico da

cidade e no que diz respeito ao Setor Sul, a adoção de um traçado orgânico opôs-se ao “rígido

plano remanescente de Attílio” (MELLO, 2006, p.45). Planejado como bairro-jardim3, os lotes

organizados em torno de cul-de-sac buscavam resgatar o convívio social ao voltar as casas para

jardins internos comuns aos moradores. A separação dos tráfegos de veículos e pedestres era uma

forma de resguardar as ruas de residência do barulho e trânsito intenso. Pelo Decreto-Lei 2.104 de

27 de julho de 1937 que regulamentou a venda de terrenos em Goiânia, a ocupação do Setor Sul

seria iniciada apenas quando a população dos setores Central e Norte atingissem 12 mil

2
“Tais sentidos de modernização e interiorização foram reforçados com a Marcha para o Oeste, que, nos anos
30, constituía um aspecto central da ideologia defendida pelo governo de Getúlio Vargas.” (MANSO, 2001,
p.247).
3
O traçado no Setor Sul foi inspirado no modelo americano da cidade de Radburn, concebida por Clarence Stein
e Henri Wright, que em sua área habitacional caracterizava-se pela separação entre as circulações de veículos e
pedestres, e pelas residências distribuídas em cul-de-sac e circundadas por áreas verdes.
habitantes, não podendo esse prazo ser inferior a seis anos. No entanto, a crise financeira

enfrentada durante a execução das obras da nova capital associada à pressão da população e a

especulação imobiliária, resultaram na ocupação antecipada do bairro, antes mesmo da

urbanização das áreas verdes e da implantação de infraestrutura. Como consequência, a falta de

esclarecimento dos moradores quanto aos princípios do projeto original acarretou uma

apropriação diferente do proposto.

As residências deram as costas aos jardins internos, os ignorando e em alguns casos os

negando por completo. Nos anos seguintes, o que se viu foi um processo de territorialização do

espaço público, marcado pela apropriação indevida das áreas verdes enquanto extensão das

residências do bairro. Em uma demonstração clara dos limites entre o que é público e privado,

alguns moradores ocuparam as áreas verdes com estacionamentos próprios, pátios e jardins de

suas casas, além da abertura de vias de acesso as garagens sem o consentimento ou aprovação do

poder público.

Até o início da década de 1960, a situação de descaso com os espaços públicos do bairro

não tinha se modificado. A infraestrutura urbana e a urbanização das áreas verdes foram

executadas apenas em 1973 com o Projeto CURA (Comunidade Urbana de Recuperação

Acelerada), um programa subordinado ao Programa de Complementação Urbana promovido pelo

Banco Nacional de Habitação (BNH). Dentre as 28 áreas verdes, 24 foram suscetíveis a

urbanização, recebendo equipamentos esportivos, pavimentação, iluminação, instalação hidráulica

e tratamento paisagístico. Cerca de dois meses após a implantação do projeto as áreas já se

encontravam com pouca ou nenhuma vida pública. Boa parte do mobiliário urbano foi roubada e a

ausência do sentimento de pertencimento e conexão com o lugar afastaram os moradores do

convívio social inicialmente proposto.


Figura 1: Mapeamento dos pontos de manifestação da arte no bairro Setor Sul.

Fonte: Elaborado por Ana Isabel Oliveira, 2018.

A manifestação da arte pública nesses espaços representa uma tentativa em se redescobrir

de forma coletiva, lugares da cidade até então ignorados. A dotação de sentido ao território, seja

através das linguagens artísticas ou formas de apropriação e personalização das áreas verdes do

bairro, conferem-lhe identidade e constituem territorialidades. Enquanto resposta ao isolamento

proposto por uma arquitetura de muros, grades e vigilância (CANTON, 2011), a arte urbana

presente em treze (13) áreas internas das quadras do bairro (figura 1) é um importante instrumento

de reurbanização voluntária coletiva, capaz de resgatar a participação dos moradores na vida

pública do Setor Sul. Esses painéis de arte ao ar livre são resultado do desejo de artistas em se

dialogar com os espaços públicos da cidade e expandir suas relações, associado ao anseio de

alguns moradores por resgatar áreas desprezadas pelo poder público e por outros habitantes. A

ressignificação dos muros e paredes através das ações artísticas abre “uma brecha simbólica nos

silêncios cúmplices do esquecimento” (JEUDY, 2006, p.17), oferecendo àqueles que frequentam,
moram, ou apenas estão de passagem, sinais de vitalidade no espaço público através das cores,

dizeres e imagens capazes de conectar pessoas e lugares.

Figura 2: Praça Maria Angélica da C. Brandão, conhecida como Bacião das Artes, Setor Sul. Foto: Ana Isabel
Oliveira.

Fonte: Acervo pessoal. Abril, 2018.

Ao ocupar áreas públicas do Setor Sul, os artistas e moradores as qualificam, conferindo-

lhe significado através de uma apropriação cotidiana capaz de construir relações de pertencimento

ao local. Como expressão de arte urbana, o graffiti é responsável pelo sentimento de “algo a ser

visto” no bairro, atraindo uma quantidade significativa de pessoas que buscam apreciar as tantas

galerias a céu aberto. Associada a essas ações artísticas, outras formas de apropriação dos espaços

públicos reforçam o anseio por sociabilidade e preservação das áreas verdes do Setor Sul, como os

canteiros demarcados por telhas cerâmicas e tijolos de barro, protegendo flores e plantas cuidadas

pelos próprios moradores, mobiliário urbano improvisado com pneus de borracha, além das tantas

placas sinalizando a proteção ao espaço. O registro do Bacião das Artes (figura 2), uma das

principais praças do setor, ilustra algumas dessas formas de apropriação – como a arte nos muros

e paredes, e algumas estruturas protegendo árvores recém-plantadas por moradores – e evidencia a

pouca infraestrutura e a heterogeneidade diante dos bairros vizinhos, marcados pela

verticalização.

As práticas de ocupação, vivência e apropriação, conferem identidade e territorializam o

lugar. Nessa construção coletiva, o território enquanto produto das variadas relações sociais se

desterritorializa e reterritorializa, refletindo a sociedade que o produziu. Trata-se de um espaço


vivido, socialmente construído, que por estar intimamente ligado à forma como as pessoas o

organizam e lhe conferem significado, apresenta uma multiplicidade de representações,

compreendidas enquanto territorialidades. Essa pluralidade identificada nos espaços públicos do

bairro Setor Sul em Goiânia é resultado da articulação não só física, mas também simbólica dos

espaços, que não são necessariamente usufruídos por todos os moradores. Ou seja, nem todos

usufruem dessa multiplicidade, se fechando para lugares de maior familiaridade e não assimilando

esses espaços da cidade enquanto lugares dotados de significado capazes de despertar o

sentimento de pertencimento ao local.

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