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Turma e Ano: 2016 (Master B)

Matéria / Aula: Direito Civil Objetivo 01


Professor: Rafael da Mota
Monitor: Paula Ferreira

Aula 01

Parte Geral

A parte geral do Código Civil é dividida em três partes: (i) pessoas; (ii) bens; (iii) fatos
jurídicos. Estudar a parte geral, portanto, é estudar uma relação jurídica (sujeito, objeto e
vinculação).

O livro I (Direito das Pessoas) é dividido em três títulos: (i) pessoa natural; (ii) pessoa
jurídica; (iii) Domicílio. Por sua vez, o título I de “Pessoa natural” é subdividido em quatro
capítulos: personalidade, capacidade, direitos pessoais e ausência.

I - Pessoas

1. Pessoa Natural

1.1. Personalidade

1.1.1. Conceito

A personalidade pode ser conceituada em duas acepções:

- 1ª Acepção (Clássica): A personalidade é a aptidão genérica para aquisição de direitos


e deveres na ordem civil. Quem tem essa aptidão é chamado sujeito de direito, que pode ser
pessoa natural ou pessoa jurídica. Esta acepção tem um viés estritamente patrimonial (pré-
constituição de 1988). É a chamada personalidade subjetiva ou material. Tem previsão no art.
1º do CC/02 (“Art. 1º. Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”).

- 2ª Acepção (Contemporânea): A personalidade é o conjunto de atributos do ser


humano, os chamados direitos da personalidade. A preocupação aqui é tutelar as situações

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jurídicas existenciais e a perspectiva é extrapatrimonial (pós-constituição de 1988). Esta é
chamada de personalidade objetiva ou formal.

A transição da acepção clássica para a contemporânea é a despatrimonialização do


direito civil. É a preocupação com a tutela das situações jurídicas existenciais (atributos do
ser humano) e não comente com as situações patrimoniais.

• A pessoa jurídica pode titularizar direitos da personalidade?

Para responder esta pergunta, é necessário analisar o enunciado 286 CJF, o artigo 52
do CC e súmula 227do STJ, vejamos:

Enunciado 286 CJF – Art. 52. Os direitos da personalidade são direitos


inerentes e essenciais à pessoa humana, decorrentes de sua dignidade, não
sendo as pessoas jurídicas titulares de tais direitos.

Segundo o enunciado 286 do CJF, pessoa jurídica não pode titularizar direitos da
personalidade, pois tais direitos têm um viés extrapatrimonial (decorrem da dignidade
humana), enquanto que tudo relacionado à pessoa jurídica possui um viés patrimonial.

Art. 52, CC. Aplica-se às pessoas jurídicas, no que couber, a proteção dos
direitos da personalidade.

A interpretação do art. 52 do CC é no sentido de que a proteção aos direitos da


personalidade poderá ser aplicada a pessoas jurídicas quando puder ser dado um tom
patrimonial a esses direitos. Ex.: pessoa jurídica não tem direito a intimidade/privacidade
(trata-se de atributo do ser humano), mas pode se dar um tom patrimonial à intimidade (sigilo).

Súmula 227 do STJ: A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.

O dano moral é um dano que decorre da violação a um direito da personalidade. A


pessoa jurídica sofre um dano moral quando sofre uma lesão em sua honra objetiva; tudo está
sempre relacionado a questões patrimoniais, econômicas (ex. perda do número de vendas no
mercado).

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Trata-se, na verdade, da aplicação do art. 52 do CC. A doutrina critica muito esta
súmula. Tepedino, por exemplo, propõe que seja modificado para “dano institucional” e não
“dano moral”.

Em suma: Pessoa jurídica não titulariza direitos da personalidade, pois tais direitos
decorrem da dignidade humana (Enunciado 286, CJF). No entanto, o artigo 52, CC permite
aplicarmos, no que couber, às pessoas jurídicas, a proteção dos direitos da personalidade. É o
que ocorre, por exemplo, na súmula 227, STJ.

Atenção! Em provas de múltipla-escolha, os Tribunais não aplicam o Enunciado 286 do


CJF. O que se afirma é que pessoas jurídicas titularizam direitos da personalidade (isto é
considerado correto nestas provas).

1.1.2. Início da personalidade da pessoa natural

➢ Teoria Natalista (art. 2º do Código Civil)

Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a


lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.

Segundo a teoria natalista, o início da personalidade da pessoa natural se dá com o


nascimento com vida (primeira respiração). Para essa corrente, a pessoa, ao nascer, já adquire
as duas personalidades (a patrimonial e a extrapatrimonial).

O problema desta teoria está na segunda parte do art. 2º do CC (“mas a lei põe a salvo,
desde a concepção, os direitos do nascituro”). Aqueles que criticam a teoria natalista afirmam
que os direitos do nascituro colocados a salvo desde a concepção indicam que ele possui
personalidade civil.

Os adeptos desta corrente rebatem tais críticas alegando que o nascituro não têm
direitos protegidos, mas apenas expectativa de direitos. Eventual doação feita ao nascituro
seria negócio jurídico condicional, que depende de um acontecimento futuro e incerto
(nascimento com vida) – assim, este negócio jurídico existe e é valido, porém, apenas produzirá
efeitos com o nascimento com vida.

➢ Teoria Concepcionista

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Segundo a teoria concepcionista, a personalidade tem início desde o momento da
concepção. Esta personalidade é a extrapatrimonial, objetiva ou formal. O nascituro já titulariza
direitos da personalidade.

Entretanto, a personalidade patrimonial continua dependendo do nascimento com vida.


Assim como na teoria acima, a doação feita a nascituro continua sendo negócio jurídico
condicional.

A teoria concepcionista é majoritária na doutrina e também adotada no STJ e no STF.


Tanto que o SJT afirma que o nascituro pode sofrer dano moral.

O art. 5º da Lei 11.105/2005 permite a pesquisa de células tronco de embriões humanos


formados in vitro artificialmente, tendo sido sua constitucionalidade questionada na ADI
3510/DF.

No caso, o STF teve que decidir se o embrião humano fora do útero materno seria ou
não nascituro. Caso positivo, seria titular de direitos da personalidade (de acordo com a teoria
concepcionista), e consequentemente as pesquisas estariam proibidas. O STF entendeu, ao
final, que não é nascituro. Para a Suprema Corte, o nascituro é o embrião humano no útero
materno em processo de formação de vida (Informativo n. 5081).

➢ Teoria da Personalidade Condicionada

Segundo esta teoria, o nascituro pode ser considerado pessoa à luz do código civil. Ele
titulariza direitos da personalidade, mas desde que venha a nascer com vida, ou seja, no que diz
respeito à tutela dos direitos da personalidade, o nascimento com vida produz efeitos ex tunc
(retroativos) à data da concepção.

A diferença entre a segunda e a terceira correntes é que na segunda o nascituro


titulariza direitos da personalidade durante a gestação, e na terceira ele ainda não tem direito a
personalidade, mas apenas se vier a nascer com vida (retroagindo-se à data da concepção). Esta
teoria é bem minoritária na doutrina.

1.1.3. Formas de Extinção da Personalidade

1 Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo508.htm

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A extinção da personalidade ocorre com a morte, que pode ser natural, acidental ou
presumida (o foco de estudos é a morte presumida). Esta última pode ser sem declaração de
ausência ou com declaração de ausência.

➢ Morte presumida sem declaração de ausência

A morte presumida sem declaração de ausência está presente no artigo 7º do Código


Civil, no qual apresenta hipóteses em que a morte é muito provável, não sendo necessário
passar pelo instituto de ausência antes. Entretanto, é necessária uma sentença declarando esta
morte, por meio de procedimento de jurisdição voluntária.

Art. 7º Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência:


I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida; II
- se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for
encontrado até dois anos após o término da guerra.

Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos, somente


poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a
sentença fixar a data provável do falecimento.

Assim, a morte presumida depende de sentença, a qual deve ser registrada no Registro
Civil de Pessoas Naturais (art. 9º, IV, do CC).

Art. 9º Serão registrados em registro público:

IV - a sentença declaratória de ausência e de morte presumida.

➢ Morte presumida com declaração de ausência

A ausência ocorre quando uma pessoa desaparece do local em que tem domicílio sem
deixar informações acerca do seu paradeiro.

O processo de ausência é dividido em três fases: (a) Curadoria dos bens do ausente;
(b) Sucessão provisória; (c) Sucessão definitiva.

Qualquer interessado na sucessão pode requerer judicialmente a abertura do processo


de ausência. O juiz não é obrigado a aceitar este requerimento (ele deve analisar as

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circunstancias concretas do caso), não existindo prazo mínimo para requerê-lo (isto é, não é
necessário que a pessoa esteja ausente por um tempo mínimo para poder requerer a ausência,
trata-se de análise casuística). Se o juiz aceita este requerimento, ele inicia o procedimento,
com a curadoria de bens do ausente.

a) Curadoria de bens

Nesta fase, o juiz declara a ausência e nomeia um curador para administrar os bens do
ausente (melhor seria chamá-lo de administrador e não de curador, pois o ausente não é um
incapaz). A ausência é um instituto patrimonial. Assim, o juiz nomeia o curador, especificando os
seus poderes.

Podem ser curadores dos bens do ausente as pessoas elencadas no art. 25 do CC, sendo
que preferencialmente é o cônjuge.

Art. 25. O cônjuge do ausente, sempre que não esteja separado judicialmente,
ou de fato por mais de dois anos antes da declaração da ausência, será o seu
legítimo curador.

§ 1º Em falta do cônjuge, a curadoria dos bens do ausente incumbe aos pais ou


aos descendentes, nesta ordem, não havendo impedimento que os iniba de
exercer o cargo.

§ 2º Entre os descendentes, os mais próximos precedem os mais remotos.

§ 3º Na falta das pessoas mencionadas, compete ao juiz a escolha do curador.

Prazo mínimo de duração desta fase é de 1 ano, conforme art. 26 do CC:

Art. 26. Decorrido um ano da arrecadação dos bens do ausente, ou, se ele
deixou representante ou procurador, em se passando três anos, poderão os
interessados requerer que se declare a ausência e se abra provisoriamente a
sucessão.

Se o ausente deixar um procurador, após três anos de seu desaparecimento, os


interessados poderão requerer a abertura da sucessão provisória. Nesse caso, não se passa
pela curadoria de bens, e a própria declaração de ausência se dá quando da abertura da

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sucessão provisória. Assim, só se passa pela fase de curadoria dos bens se o ausente não
deixar procurador.

Obs.: Se o procurador renunciar aos poderes outorgados ou tiver poderes insuficientes


para administrar os bens, será necessário passar pela fase da curadoria de bens (art. 23 do CC).

Art. 23. Também se declarará a ausência, e se nomeará curador, quando o


ausente deixar mandatário que não queira ou não possa exercer ou continuar
o mandato, ou se os seus poderes forem insuficientes.

b) Sucessão provisória

Podem requerer a abertura da sucessão provisória apenas as pessoas indicadas no art.


27 do CC.

Art. 27. Para o efeito previsto no artigo anterior, somente se consideram


interessados:
I - o cônjuge não separado judicialmente;
II - os herdeiros presumidos, legítimos ou testamentários;
III - os que tiverem sobre os bens do ausente direito dependente de sua
morte;
IV - os credores de obrigações vencidas e não pagas.

Nesta fase ocorre a partilha provisória dos bens do ausente. Os herdeiros podem ser
imitidos na posse dos bens desde que ofereçam garantia suficiente, pois, se o ausente voltar
nesta fase, terá direito a reaver seus bens no estado em que deixou. Os herdeiros necessários
constituem exceção, pois podem ser imitidos na posse independentemente de garantia.

Art. 30. Os herdeiros, para se imitirem na posse dos bens do ausente, darão
garantias da restituição deles, mediante penhores ou hipotecas equivalentes
aos quinhões respectivos.

§ 1º Aquele que tiver direito à posse provisória, mas não puder prestar a
garantia exigida neste artigo, será excluído, mantendo-se os bens que lhe

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deviam caber sob a administração do curador, ou de outro herdeiro designado
pelo juiz, e que preste essa garantia.

§ 2º Os ascendentes, os descendentes e o cônjuge, uma vez provada a sua


qualidade de herdeiros, poderão, independentemente de garantia, entrar na
posse dos bens do ausente.

Conforme art. 33, caput, do CC, os herdeiros necessário terão direito a 100% dos frutos
e rendimentos, enquanto os outros sucessores só terão direitos a 50%, eis que o restante
deverá ser capitalizado.

Art. 33. O descendente, ascendente ou cônjuge que for sucessor provisório do


ausente, fará seus todos os frutos e rendimentos dos bens que a este
couberem; os outros sucessores, porém, deverão capitalizar metade desses
frutos e rendimentos, segundo o disposto no art. 29, de acordo com o
representante do Ministério Público, e prestar anualmente contas ao juiz
competente.

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